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Título: Para Nunca mais Chorar.

Autor: Janet Dailey.


Título original: "GIANT OF MESABI".
Dados da Edição: Abril S.A, São Paulo, 1980.
Género: romance.
Digitalização: Dores Cunha.
Correcção: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numeração de página: rodapé.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente à
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Copyright: JANET DAILEY


Título original: "GIANT OF MESABI"
Publicado originalmente em 1978 pela Mills & Boon Ltd., Londres,
Inglaterra
Tradução: DULCE DE ANDRADE
Copyright para a língua portuguesa: 1980 ABRIL S.A. CULTURAL E
INDUSTRIAL - SÃO PAULO
Composto e impresso nas oficinas da
ABRIL S.A. CULTURAL E INDUSTRIAL
Caixa Postal 2372 - São Paulo
Foto da capa: KEYSTONE

CAPÍTULO I

A sombra do avião deslizou sobre o topo das árvores. No meio da floresta


de pinheiros, o azul de um lago de Minnesota brilhou por um rápido
momento. Lá em frente,
a faixa de concreto atraía a sombra do avião.
Dentro dele, Alanna Powell olhou ansiosamente pela janela e seu coração
disparou quando viu o edifício do aeroporto aparecer. Cabelos castanho-
claros emolduravam
a beleza limpa de seu rosto. O queixo pontiagudo tinKã um quê
voluntarioso e a luz brilhante de seus olhos cor de violeta, o que ela
tinha de mais extraordinário,
revelava um espírito vivo. No entanto, seus lábios bem-feitos mostravam
um traço de vulnerabilidade.
O avião chacoalhou levemente quando suas rodas tocaram a pista e rolaram
por ela. Alanna contraiu os lábios, examinando distraída seu batom.
Procurou em vão avistar
Kurt no aeroporto, sabendo que seria o cúmulo da sorte vê-lo àquela
distância.
Sua garganta se apertou. E se Kurt não estivesse lá para encontrá-la?
com um movimento quase imperceptível da cabeça, Alanna afastou esse
pensamento. Quando telefonara
para ele na noite anterior, para dizer que chegaria no voo de
Minneapolis, Kurt tinha concordado em ir esperá-la, sem hesitação. Nem
mesmo havia esperado ela explicar
que queria fazer uma surpresa para os pais.
Era loucura estar tão preocupada, disse para si mesma. Mas, pensou, com
a curva da boca expressando desânimo, era isso que o
amor fazia com uma pessoa. Não via Kurt desde as férias da Páscoa, dois
meses atrás. Ele deixara claro, na época, que se sentia atraído por ela,
mas muita coisa
podia ter acontecido nesse meio tempo.
O avião parou no fim da pista do aeroporto de Chisholm-Hibbing. Soltando
o cinto de segurança, Alanna levantou-se, para se juntar à fila de
passageiros que desembarcavam.
Passou a mão, alvoroçada, pela saia cor de trigo. Inconscientemente,
seus dedos verificaram se os botões que fechavam a saia na frente
estavam abotoados, a não sor
pelos dois últimos, logo acima do joelho, que mostravam um pouco de suas
pernas bem-feitas e davam uma ideia da maciez de
suas coxas.
Não havia sinal de Kurt entre as pessoas reunidas para receber os
passageiros que chegavam. Deu uma olhada no relógio de pulso e verificou
que o avião estava no
horário. Talvez ele tivesse se atrasado. Seus passos tornaram-se mais
vagarosos, enquanto examinava o local.
Uma figura masculina familiar estava inclinada sobre um bebedouro de
água e o coração de Alanna deu um pulo de alegria e alívio. Todos os
seus receios desapareceram,
no instante em que o reconheceu.
- Kurt!:- disse o nome dele,rindo, e correu para ele, mal tocando o
chão. - Pensei que tivesse me esquecido. - Quando o homem endireitou o
corpo e se voltou, ela
começou a se jogar nos braços dele, feliz e desinibida. Só quando estava
a meio passo do peito largo, percebeu seu erro. - Você! - Raiva e
espanto misturavam-se
na palavra acusadora.
Seu recuo foi impedido pelo círculo de ferro formado pelos braços dele,
em torno de sua cintura.
- Não pare agora - disse, e a linha vagamente cruel de sua boca torceu-
se num sorriso cínico. - Se vou substituir meu irmão, posso muito bem
receber o beijo também.
- Não! - A negativa estrangulada foi pura perda de tempo.
A mão enorme dele deslizou pela sua espinha e os dedos se enlaçaram em
seus cabelos castanhos, puxando as raízes sensíveis, para forçar sua
cabeça para trás. As
mãos dela empurraram em vão o peito musculoso que se inclinava, enquanto
a metade inferior de seu corpo era esmagada contra a dureza pétrea do
dele.
Alanna não conseguiu escapar da boca que descia sobre a dela, nem do
abraço forte como aço. Nem mesmo teve tempo de enrijecer o corpo para
resistir ao ataque dele,
que a beijou com um prazer lento e implacável.
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Logo em seguida ele a soltou. Um par de olhos azuis, da cor escura do
índigo, brilhava, examinando o vivo rubor do rosto dela. Uma onda de
raiva queimava-a por dentro
e a excitação da luta fazia seus nervos latejarem.
-. Como se atreve! - falou baixo e com dificuldade.
Os olhos semicerrados, velados por uma cortina de cílios escuros,
espessos e másculos, examinaram seu rosto indignado. Um sorriso sem
alegria curvou os lábios que,
há alguns segundos apenas, tinham possuído os dela brutalmente.
- Me dê seus comprovantes de bagagem que vou retirá-la. Sugiro que
espere até estarmos no carro, para descarregar seu mau humor
e amor-próprio ferido em cima de mim. - O olhar dele passeou em volta,
chamando a atenção para o fato de estarem em um lugar público.
Ela já havia perdido um pouco de sua segurança, e o traço de zombaria na
voz dele não ajudou em nada. Na verdade, chamar a atenção dela para o
grupo de pessoas vagamente
interessadas neles só fez piorar as coisas. Moendo-se de raiva por
dentro, Alanna remexeu em sua bolsa, procurando a passagem e os
comprovantes de bagagem presos
a ela. Controlando-se, colocou com violência os papéis na mão que ele
tinha estendido.
Como pôde ser tão cega, a ponto de não ver que não era Kurt, mas o irmão
aqele, Rolt Matthews?! Alanna se reprovava silenciosamente. Havia uma
semelhança superficial
entre os dois: ambos eram altos e morenos, com físico magro e musculoso.
Mas só uma tola teria confundido Rolt e Kurt.
Seu olhar, com um brilho violento, prendeu-se na postura arrogante dos
ombros de Rolt, que se afastava dela. Era cinco ou seis centímetros mais
alto que Kurt e seu
andar tinha um toque de felino. Seu cabelo castanho era do tom do café,
com reflexos aloirados pelo sol, não tão escuro quanto o de Kurt. Era
abundante e caía até
o colarinho, descuidadamente escovado para trás, descobrindo seu rosto.
As feições de ambos também eram diferentes. Os traços do rosto bronzeado
de Rolt mostravam uma certa dureza. As linhas profundas em torno da boca
eram marcadas pelo
cinismo. Coroando tudo, ele tinha um ar dissoluto de virilidade,
espalhafatoso e poderoso, uma força dominante que exigia ser
reconhecida.
Rolt Matthews pertencia ao mundo noturno e Kurt era do dia. Simpático e
charmoso, era a antítese do irmão mais velho. Alanna se sentira atraída
por ele desde o primeiro
encontro, quase cinco
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anos atrás, quando tinha dezesseis. Mas só na última Páscoa é que Kurt
tinha tomado conhecimento dela e a atração que sempre sentira por ele
desabrochou.
Seus lábios tremeram, mais sefisíveis devido ao domínio implacável do
beijo de Rolt. Ela nunca teve tempo para Rolt Matthews. Tão certo quanto
se sentia atraída
por Kurt, sentia repulsa por Rolt. Ficava pouco à vontade sempre que o
olhar dele pousava nela, com aquele tom surpreendente de azul e um
brilho tão enigmático.
Seus olhares velados, com um traço de zombaria, desconcertavam Alanna
mais do que ela queria admitir. Ele parecia perceber e se divertia com o
nervosismo dela.
Por isso é que a tinha beijado, ela pensou. Seus dedos fecharam-se com
força sobre o fecho da bolsa, feito de um metal tão duro quanto o peito
dele sob as mãos dela.
Sua carne queimava onde ele havia encostado.
Durante a Páscoa, não tinha feito segredo de sua atração por Kurt. Nem
houve necessidade, uma vez que, ele correspondia. Sempre que estava por
perto, o que felizmente
não era muito frequente, Rolt os observava com um interesse distante,
dando à Alanna a impressão de que achava seu relacionamento divertido e
um pouco infantil.
Infantil. Alanna inspirou profundamente. Céus! Kurt tinha vinte e nove
anos, e ela vinte e um. Eram adultos, não um par de adolescentes
apaixonados, como Rolt parecia
considerá-los. Sem dúvida, o fato de ser cinco anos mais velho que o
irmão fazia com que se achasse mais amadurecido. Se os boatos fossem
verdadeiros, as ligações
bem mais amplas e íntimas de Rolt com as mulheres eram provavelmente o
que o faziam olhar seu romance com tanto cinismo.
Os passos firmes e decididos que se aproximavam despertaram Alanna de
suas considerações. Mas desviou o olhar da figura masculina que
carregava sua pesada bagagem
sem esforço. Rolt parou por um momento ao seu lado, o olhar atento
percorrendo o perfil voltado para ele.
- Meu carro está estacionado lá fora - informou-a. - Podemos ir?
- Quanto mais cedo melhor - Alanna concordou, com vivacidade.
com um aceno zombeteiro de cabeça, ele indicou que ela devia ir na
frente. O brilho em seus olhos cor de índigo dizia-lhe que ele
sabia o quanto ela não gostava dele e que achava isso divertido.
Erguendo a cabeça com altivez, Alanna saiu do edifício, mas teve que
esperar por Rolt, para que
indicasse o carro. Estava doida de vontade de dizer que iria sozinha
para a casa dos pais. Mas seria covardia e poderia indicar que estava
ligeiramente intimidada
pela presença dele.
Rolt colocou a bagagem dela sobre o capo, destravou a porta oposta à do
motorista e o porta-malas, antes de dar um passo para o lado. Não havia
meios de Alanna evitar
os dedos fortes que seguraram seu braço e a ajudaram a entrar no carro.
No momento em que a porta se fechou, ela esfregou as marcas dos dedos
dele até desaparecerem.
Depois de acomodar a bagagem no porta-malas, Rolt deslizou para trás da
direção.
Por mais que detestasse quebrar o silêncio, Alanna sabia que não
conseguiria ficar sentada calmamente, se não soubesse por que Kurt não
tinha ido encontrá-la. Algo
lhe dizia que Rolt não daria a informação voluntariamente.
Olhando com o canto dos olhos seu perfil indiferente, sentiu uma onda de
violenta emoção crescer dentro dela. Ele era tão seguro, e mostrava uma
indiferença tão
gritante por tudo que não fossem seus próprios desejos!
- Por que Kurt não pôde ir me encontrar? - perguntou finalmente.
O olhar dele percorreu-a rapidamente, completamente velado. Deu a
partida no motor e manobrou o carro para fora do estacionamento.
- Quebrou um equipamento na fábrica e ele não pôde sair. Uma emergência.
A resposta saiu como uma provocação. Alanna sabia que era o que ele
queria, mas não pôde evitar.
- É claro que não era uma emergência tão grande assim, uma vez que você
não precisou ficar lá.
Um ligeiro movimento com a boca, parecido com um sorriso, foi o único
sinal que Rolt deu de ter escutado seu comentário. Sua atenção continuou
presa na estrada e
ele entrou no tráfego.
- Não creio que tenha passado pela sua cabeça cuidar dessa emergência no
lugar de Kurt, para que ele pudesse ir me encontrar.
- Apertou os lábios com força, já sabendo qual seria a resposta dele.
- Passou, sim. - Seus olhos se fixaram nela por alguns segundos,
demorando sugestivamente nos lábios brilhantes, antes de voltarem
para a estrada. De novo sua boca se curvou sem alegria, em um sorriso de
certo modo frio e constrangedor. - Mas, então, estaria me privando de
encontrá-la.
- Por quê? - Seu mau humor surgiu de novo, quando ela lembrou,
desnecessariamente, do beijo. - Não foi um encontro agradável.
- Pode ser que não. - Os ombros fortes se levantaram num gesto de
indiferença. - Mas não será facilmente esquecido.
- Nem perdoado - Alanna acrescentou sombriamente.
- Espera que eu peça desculpas? - Era óbvio, pelo seu tom de voz, que
ele achava divertido.
Seus dedos agarraram o braço de couro do banco, que era marrom claro,
para combinar com o estofamento. Gostaria que suas unhas estivessem se
enterrando na carne
rija dele, em vez de no couro macio.
- Não você - declarou com desprezo. - Não creio que tenha qualquer
código de ética.
- Ética? - Ele levantou uma sobrancelha escura. - O que a ética tem a
ver com um beijo?
Por alguns segundos, Alanna não conseguiu falar, zangadíssima por ele,
aparentemente, não ligar para o fato dela estar comprometida com seu
irmão.
- Eu tenho saído com seu irmão - comentou, cheia de tensão.
- E não acho que sair por aí beijando a garota dele seja uma conduta
aceita pela sociedade.
- Você é a garota dele? - Seu olhar atento prendeu-a. Sabendo que ela
não podia responder, ele sorriu friamente. - Não que isso tenha alguma
importância. Sempre
ensinei meu irmão a dividir o que tinha.
- Mas eu também tenho algo a dizer - Alanna retrucou. - E pode ter
certeza, não tenho nenhum interesse em que. . .
- ... eu faça amor com você - Rolt terminou por ela, seu ar felino se
acentuando.
- Eu ia dizer "preste atenção em mim" - falou abruptamente, corando com
a grosseria dele. - Mas, se quer ser tão explícito, é isso mesmo.
com o canto dos olhos, olhou para ele cheia de reprovação, mas não
encontrou seu olhar. De repente, Alanna se viu observando as mãos fortes
de Rolt, que seguravam
a direção do potente carro. Ele o controlava com tanta facilidade,
fazendo curvas e ultrapassagens
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com maestria! Ela sabia que aquelas mesmas mãos seriam capazes de guiar,
com igual perícia, uma mulher nos segredos do amor. Seu toque devia ser
firme e autoritário,
mas ao mesmo tempo terno e. excitante ao acariciar. . .
com uma súbita sensação de culpa, olhou firme para a frente. Seu rosto
queimava de vergonha, pelos pensamentos que tivera. Ela desprezava
aquele homem! Como podia
pensar naquelas coisas? Será que tinha perdido, de repente, todo senso
de decência e auto-respeito?
Mas por que está tão preocupada com um beijo? - Seu olhar
percorreu o rosto corado de Alanna.
Pouco à vontade, ela colocou uma mecha grossa de cabelos castanhos para
trás, alisando-os para disfarçar seu embaraço e parecer indiferente.
- Ou você apenas antipatiza comigo? - Sya voz baixa e arrastada parecia
atingi-la fisicamente. - Fica aborrecida com o fato de eu achá-la. . .
- Divertida? - Alanna sugeriu o adjetivo, para não lhe dar a
oportunidade de caçoar mais dela.
- É isso que pensa? - Rolt retrucou com suavidade.
- E não é? - respondeu, levantando o queixo um pouco.
- É isso que pensa de mim: uma pessoa divertida, que você pode provocar
com seu humor cínico. Entenda uma coisa, Rolt: não vou deixar você se
divertir às minhas
custas. Pode procurar outra pessoa.
- Talvez eu não queira procurar outra pessoa. O que faço então? -
provocou.
Alanna olhou pela janela do carro para evitar seu rosto zombeteiro,
deixando os olhos passearem pelo bairro comercial de Hibbing. - Não
brinque comigo, Rolt
- disse, cheia de tensão. - Não estou interessada.
- Mas pode ser que eu esteja interessado em você. - Disse isso de um
modo tão calmo e sério, que a curiosidade forçou Alanna a olhar para
ele. A máscara cor de bronze
de suas feições não demonstrava nada, mas o brilho preguiçoso em seus
olhos parecia fazer pouco caso de tudo. - É tão difícil assim acreditar
que eu possa achá-la
atraente?
Seu olhar percorreu o corpo dela com uma atenção perturbadora,
demorando-se um pouco em suas pernas, o que fez Alanna cobri-las. O
gesto provocou um movimento dos
lábios de Rolt. Ele tinha feito aquilo deliberadamente, sabendo que a
deixaria nervosa, e ela não o
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desapontara. Alanna mordeu o lábio inferior, para não gritar de raiva e
frustração.
- É impossível - insistiu, por mais que pensasse que havia uma chance de
ser verdade. Mas duvidava de sua própria habilidade de se defender de um
mestre do jogo.
- Diga-me, Alanna - ele parou o carro num cruzamento e. enquanto
esperavam o sinal abrir, dedicou toda sua atenção a ela -. você ainda é
virgem?
- Isso não é da sua conta! - Inspirou com força.
- Mas você tem saído com meu irmão - Rolt comentou. Alanna ficou ainda
mais agitada quando percebeu que ele estava observando o movimento de
seus seios, subindo
e descendo. - Só estava curioso.
- Pois pode continuar curioso - falou com rapidez.
A luz mudou para verde e ele movimentou o carro, soltando um riso suave
e gutural.
- Não é preciso. Você já respondeu a minha pergunta. - Olhou para ela
com aqueles olhos azuis, brilhantes e zombeteiros. - Está se guardando
para Kurt?
- Bem, não é para você - falou por entre os dentes. - Para você, nunca!
- O calor que invadira sua pele era insuportável.
- Cuidado - ele avisou, numa voz cheia de riso. - Nunca é tempo demais.
Alanna estava quase retrucando que não era nem um pouco demais, no que
dizia respeito a Rolt, quando percebeu que em vez de entrar na estrada
que levava à casa de
seus pais ele ainda estava na auto-estrada.
- Você errou o caminho - avisou.
- Não, não errei.
Ele parecia tão seguro, que Alanna olhou para trás, quase convencida de
que havia se enganado.
- Meus pais moram no fim daquela estrada.
- Não estou levando você para casa.
Ele não podia estar falando sério! Mas foi só olhar para o rosto dele
para ver que estava. Abriu a boca, mas por um momento não conseguiu
dizer nada.
- Onde.. .
- Kurt está na mina. Queria vê-lo, não é?
- É para lá que estamos indo? - Alanna perguntou com firmeza, cansada de
seus joguinhos.
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Claro - ele tirou o pé do acelerador -, a menos que queira
ir diretamente para casa.
Gostaria de ver Kurt - ela admitiu, com raiva dele por ter
evitado falar naquilo antes deliberadamente. Cheia de ironia, continuou:
- Nunca pensei que me levaria até lá. Afinal. Kurt tem uma emergência
nas mãos.
Sua ironia foi pura perda de tempo.
- Acho que ele pode dispor de cinco minutos para ver você. Posso tomar o
lugar dele.
- Como poderia ter feito, para deixá-lo ir ao aeroporto me encontrar. -
Alanna esfregou a têmpora, que doía terrivelmente, com a ponta dos
dedos. - Do mesmo modo
que tomou o lugar de meu pai - murmurou, com amargura. - Como lamento o
dia em que ele lhe vendeu a companhia.
- O veio de ferro tinha acabado. Seu pai não tinha dinheiro nem
conhecimentos para começar a explorar e processar taconite. Se não
tivesse vendido para nós, naquela
época, teria falido dentro de um ano. Queira ou não, esta é a verdade -
Rolt afirmou, num tom de voz trio e sem emoção. - E se não fosse isso,
você não teria conhecido
Kurt... ou eu.
Alanna não fez comentário algum sobre o que ele tinha dito. Os edifícios
da cidade haviam ficado para trás. A paisagem agora era principalmente
rural, verdejante
e cheia de pinheiros. Estavam na Estrada de Taconite, no meio da Região
de Ferro Mesabi. Nesta área, ao nordeste de Minnesota, tinham sido
exploradas as maiores
minas de ouro da nação. Os veios de Vermilion, Mesabi e
outros locais tinham sido tão grandes, que se pensou, a princípio, que
fossem durar para sempre. Mas o progresso e a guerra mostraram que não.
Agora, a taconite
abundante na região estava sendo processada em ferro, e fábricas enormes
erguiam-se acima das árvores.
Por trás daquela fachada verdejante, quem fosse bastante observador
podia "ler" a história das enormes minas de ferro, que haviam se
acabado. Os buracos de entrada
das minas estavam sendo reclamados pela natureza, e as árvores e
arbustos invadiam os locais que tinham sido desmaiados. Trepadeiras de
flores amarelas cobriam os
muros que ainda estavam de pé.
Alanna tinha passado toda sua infância lá. Os barrancos e canyons
serpenteantes tinham sido feitos pelas máquinas enormes, que procuravam
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os veios de ferro. Quando eles se acabaram, o mato invadiu terra
desabitada de novo.
Mesabi era uma palavra índia, que significava Terra do Gigante
Adormecido. Este nome tinha sido dado àquela cadeia de montanhas por
causa de sua semelhança com a
figura
adormecida de um homem. Outrora, seus flancos eram cobertos por
florestas virgens, que foram pisoteadas por caçadores de peles,
derrubadas por machados de
lenhadores e arrancadas, com raízes e tudo, pelas escavadeiras que pro
curavam ferro. Os pinheiros enormes, que os índios
conheceram, com mais de três metros de diâmetro,
tinham desaparecido, e arvorezinhas novas cresciam em seu lugar.
Enquanto o gigante adormecido descansava, outros gigantes cami nhavam
pela terra. O olhar de Alanna, da cor da ametista e
brilhando de ressentimento, pousou no homem
impassível atrás da direção. Seu pai descrevera Rolt Matthews uma vez,
como um gigante,
referindo-e ele como homem, não ao seu tamanho físico. Ele era alto e
musculoso, com uma figura constrangedora, mas não era isso que
o tornava diferente dos outros. Pelo menos, era o que seu pai tinha
dito.
Dorian Powell, o pai de Alanna, era um homem sensível e erudito Nunca
tinha sido um bem-sucedido homem de negócios, apesar diseus enormes
esforços. A mina de ferro,
a riqueza da família, tinha sido herdada de seu pai e de seu avô. Quando
o veio acabou, o dinheiro da família também acabou.
No fundo de seu coração, Alanna sabia que a afirmação de Roli de que seu
pai abriria falência, se ele não tivesse comprado a companhia, era
verdadeira. Mas ela também
sabia que seu pai vendera, não só pelo lucro, mas principalmente porque
se preocupava com a economia da área e com as pessoas que trabalhavam
para ele. Depois da
venda, ele tinha se afastado da companhia, continuando apenas como
acionista.
Quando ela protestou e insistiu que ele devia ter uma participação mais
ativa na fábrica, Dorian tinha sorrido e negado com a cabeça.
- É trabalho para um homem só. Precisa ser alguém que exija tanto de si
mesmo quanto dos outros, sem pensar em sentimentos pessoais. Quando se
tem um negócio em
que outras pessoas trabalham para você, existe a tendência de se fazer
de todo-poderoso. Não se pode fazer isso e ter sucesso. Houve uma época
em que eu ficava mais
preocupado com uma doença na família de um empregado do que com a
produção do dia. Você não pode deixar que coisas como essa
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interfiram. Tem que ficar distante dos operários, imune a problemas como
esse. Não pode deixar que sentimentos pessoais, seus ou de qualquer
outra pessoa, interfiram
nos negócios. O fato de um homem oostar de você, ou amaldiçoá-lo pelas
costas, não pode ter importância. O chefe tem que estar acima disso
tudo: tem que ser um gigante.
Não pode deixar que nada atrapalhe sua marcha, se quer ter sucesso. Rolt
Matthews é um homem dessa espécie.
- Você quer dizer, frio e sem piedade - Alanna tinha retrucado.
- Acho que ele pode ser descrito assim - Dorian Powell concordara - mas
fará da companhia um sucesso e, é claro, também será um homem bem-
sucedido. Todos os outros
vão se beneficiar disso, inclusive nós.
Frio e sem piedade. Estes adjetivos o descreviam bem. Rolt se conservava
à parte e acima dos outros. Pelo que Alanna sabia, desde que tinha
assumido o controle da
companhia, ele nunca havia se relacionado fora da fábrica com qualquer
um que trabalhasse lá. Kurt era a única exceção. Mesmo assim, só
raramente estavam juntos.
Seu olhar fixou-se, por um segundo, nas mãos fortes e bronzeadas na
direção. Pensou, brevemente, nas mulheres que ele tinha conhecido.
Alanna não tinha dúvidas de
que o toque de suas mãos podia provocar dor ou prazer, mas duvidava que
Rolt tivesse, alguma vez, sentido alguma coisa.
Ele diminuiu a velocidade do carro e saiu da auto-estrada, e Alanna
levantou a cabeça para ver o portão de entrada da fábrica. O guarda de
segurança, que ficava
ao lado do portão fechado, inclinou-se ligeiramente para ver os
ocupantes do carro. com um aceno respeitoso de cabeça, para Rolt, abriu
o portão e deixou-os entrar.
Ao passarem, Alanna teve a impressão de reconhecer o guarda: seu cabelo
embranquecera e os ombros estavam caídos devido à idade avançada, mas
ainda assim parecia
familiar.
- Aquele não é Bob Schmidt? - Ela só havia estado na fábrica uma vez,
nos últimos cinco anos; assim mesmo, só para pegar o pai.
- Eu e Justine, a filha dele, fomos juntas à escola.
- Pode ser. Não sei o nome dele.
A falta de interesse de Rolt na identidade do homem estava patente na
sua resposta indiferente. Seu pai saberia. Ele se orgulhava de saber o
nome de cada homem que
trabalhava na companhia. Mas Alanna não comentou nada, pois as
qualidades que seu pai tinha enumerado, para um homem ter sucesso, ainda
estavam frescas em sua cabeça.
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Não era importante Rolt saber o nome do guarda. Desde que o contador e o
computador soubessem, estava tudo como ele queria. Essa atitude gelava
Alanna, apesar de
saber que era boa para os negócios. Ela admirava mais seu pai, que era
um falido com sensibilidade, do que o sucesso de Rolt, que era um
gigante sem sentimentoS
ou emoções, mas com todas as suas necessidades físicas. Graças a Deus,
Kurt não havia puxado ao irmão de coração de pedra.
Lá dentro, a fábrica zunia de atividade. Fumaça saía das chaminés,
munidas com aparelhos que controlavam a poluição. Enormes caminhões
entravam e saíam das minas,
levantando nuvens de poeira que embaçavam o ar e deixavam tudo em torno
preto. O barulho era constante, mas dentro do carro
de luxo só se ouvia um suave ronronar.
Nada estava como Alanna se lembrava. Não houve um aceno animado dos
operários, como sempre acontecia quando seu pai aparecia no pátio.
Ninguém mostrava vontade de
conversar, nem mesmo entre si. A eficiência e o trabalho imperavam. Não
havia tempo para mais nada.
- Você não esteve mais aqui, depois que seu pai vendeu a fábrica, não? -
Rolt perguntou, enquanto estacionava o carro esporte preto numa vaga
reservada.
- Só uma vez, rapidamente. - Alanna admitiu friamente. Ele desligou o
carro, mas não fez nenhum gesto para saltar.
- Muita coisa mudou, desde a época de seu pai. - Ele a observava, com
uma expressão especulativa nos olhos. - Acho que não gostou das
mudanças, não é?
Seus olhos cor de violeta examinaram a cena de novo. Sabendo que, de
algum modo, ele já tinha adivinhado seus pensamentos ou que ela se
traíra por alguma expressão,
Alanna negou brevemente com a cabeça.
- Estamos tendo lucro, o que é mais do que seu pai jamais conseguiu
fazer. - Rolt declarou.
- Não gosto quando o valor de um homem é medido pela capacidade que tem
de ganhar dinheiro - retrucou.
O brilho dos olhos dele, parcialmente velados pelas pálpebras
semifechadas, revelava que ele já havia antecipado sua resposta. Teve a
impressão de que ele havia
forçado a resposta para caçoar dela.
- É o desafio. Fazer alguma coisa do nada, ou pegar algo que está
morrendo e fazê-lo reviver, é que dá satisfação - disse calmamente.
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- É o lutar e vencer. O dinheiro não é a meta, mas aponta Os vencedores.
Um homem trabalha para alcançar seu objetivo, haja ou não dinheiro no
final. Tudo
se resume no desafio.
- Você fala como uma autoridade no assunto - Alanna disse, de uma
maneira gelada.
. Vamos dizer que sempre consigo o que quero.
Havia alguma coisa vagamente parecida com um presságio naquela
declaração, que fez Alanna se colocar em guarda. De repente, a elegância
discreta do carro pareceu
se fechar sobre ela. Havia gente por toda parte, em torno deles, mas não
se sentia a salvo com Rolt no carro. Seu pulso se acelerou, num alarme
silencioso.
- Esta discussão é muito esclarecedora, mas vim aqui para ver Kurt. - Um
nervosismo súbito foi a causa da vivacidade de sua resposta.
Seus dedos se fecharam sobre a maçaneta. Não ia esperar Rolt dar a volta
para abrir a porta. Mas, antes que pudesse destravá-la, a mão dele tinha
segurado seu pulso
para mantê-la no banco.
- Espere - ele disse.
Alanna voltou-se, tentando esconder a preocupação que tornava seus olhos
enormes.
- Por quê? - perguntou muito baixo, cautelosamente.
Os olhos dele brilharam, divertidos, por um momento. Ela quase se
encolheu quando ele estendeu a outra mão, mas seu objetivo era ajeitar o
quebra-sol dianteiro,
acima de sua cabeça. Rolt virou-o para baixo, e um espelho iluminado
apareceu.
Deve querer se arrumar um pouco, antes de ver Kurt. - As
rugas em torno de sua boca se aprofundaram, caçoístas. - A menos que
ache que ele não vai perceber que seu batom está borrado.
O rosto de Alanna avermelhou-se quando viu o batom completamente
borrado. Rolt tinha esperado, deliberadamente, até o último minuto pára
lhe mostrar aquilo, forçando-a
a lembrar do beijo, antes de encontrar Kurt.
Rapidamente, limpou a boca com um lenço de papel que tirou da bolsa. Os
olhos cor de índigo a observavam preguiçosamente. Essa observação
silenciosa era enervante
e suas mãos começaram a tremer, enquanto passava batom de novo.
- Gostaria que eu o borrasse de novo? - Rolt perguntou, zombando.
- Não, muito obrigada. - com movimentos apressados, ela apertou
17
o lado limpo do lenço, contra a boca. - Pronto - disse, indicando que já
havia terminado, pronta para sair do carro.
- Mais uma coisinha antes - ele insistiu.
Quando Rolt se inclinou para ela, Alanna tentou ficar fora de seu
alcance, pressionando os ombros contra a porta. Mas as mãos
dele não tocaram seus braços, e sim
o botão de sua blusa.
- O que está fazendo? - perguntou com aspereza, agarrando os punhos dele
e tentando afastar suas mãos da blusa. Estava tão zangada com aquele
desaforo, que toda
sua cautela acabou.
Ignorando as tentativas para afastá-lo de seu objetivo, Rolt calmamente
desabotoou o primeiro botão e passou para o segundo. Ela se enrijeceu e
o empurrou, mas a
força dele era muito superior.
- Pare com isso - falou zangada, quando o segundo botão foi desabotoado.
Rolt apenas sorriu, se é que aquele movimento sem alegria podia ser
chamado de sorriso. O terceiro botão foi desabotoado. com o dedão e o
indicador de cada mão,
ele abriu a frente da, blusa em um V, alisando o tecido até em cima e
depois até em baixo. Aí ele parou, com os nós dos dedos pousados
deliberadamente no início
de seus seios.
- Quero que esteja atraente para meu irmão. - Examinou seu trabalho com
satisfação.
O corpo de Alanna queimava quando o olhar dele fixou o vale escondido
entre seus seios. Ela tremia de raiva, impotente e embaraçada, com os
dedos agarrados aos pulsos
dele, sem fazer mais nenhuma tentativa vã de afastar suas mãos. A
atenção dele estava preguiçosamente fixa no rosto dela.
- Um decote um pouco mais profundo sempre desperta o interesse de um
homem - Rolt acrescentou.
Os dedos dele pareciam queimar através da blusa, deixando marcas na pele
macia.
- Tire suas mãos de mim - Alanna exigiu, com voz áspera. com uma
inclinação condescendente de cabeça, ele soltou o tecido,
deslizando de propósito as pontas dos dedos pelos seios dela, antes de
se endireitar.
O brilho malandro dos olhos dele fez Alanna desejar ter uma faca. Ela a
enfiaria com alegria em seu coração naquele momento, pouco se importando
com as consequências.
Rolt abriu a porta do carro e saiu, deixando que o barulho e uma nuvem
de poeira entrassem.
18

CAPITULO II

Os olhos de Alanna estavam tempestuosos e seu rosto corado. O cabelo


castanho-claro caía em ondas suaves até o pescoço, sedoso e brilhante.
com ar de proprietário,
Rolt colocou a mão em sua cintura guiando-a através da fábrica até seu
escritório.
Alanna estava ciente dos olhares curiosos e especulativos que recebiam
dos empregados, tanto dos homens quanto das mulheres. Alguns rostos lhe
eram familiares, mas
ela duvidava que a reconhecessem. O que mais os interessava era o fato
de seu chefe estar acompanhando uma moça até seu escritório.
Rolt, obviamente, não tinha o costume de receber mulheres na fábrica, e
ela imaginava o que pensariam quando a vissem com Kurt. Provavelmente
chegariam à conclusão
de que estava jogando um irmão contra o outro. Se soubessem como achava
desagradável a rrtão possessiva de Rolt em suas costas, admirariam o
controle que exercia
sobre si mesma, para não empurrá-lo.
Quando estavam para entrar no escritório, uma mulher levantou os olhos
da máquina de escrever. Era atraente de um modo simples e devia ter
trinta e poucos anos.
Inconscientemente, Alanna procurou com o olhar a aliança de casamento na
mão esquerda da mulher, antes de encontrar seus olhos curiosos.
Rolt passou a segurar seu cotovelo, mantendo-a a seu lado, quando parou
em frente à escrivaninha da moça.
- Tem algum recado, sra. Blake?
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- Estão em sua escrivaninha. Só um era urgente e está logo em cima - ela
respondeu, em tom seco e profissional.
Ele se voltou, arrastando Alanna na direção de uma segunda porta que,
obviamente, levava ao seu santuário. Por cima do ombro
lançou uma ordem para sua secretária:
- Ache Kurt e mande-o imediatamente ao meu escritório.
A sra. Blake não teve tempo de dizer nada, pois ele fez com que Alanna
entrasse e fechou a porta atrás deles. Sua mão relaxou
um pouco e ela imediatamente se livrou do contato odioso.
- Sinta-se em casa. - Sua boca estremeceu de leve, quando se dirigiu
para o fundo da sala. - Dentro de poucos minutos,
Kurt estará aqui.
Rolt se afastou dela. Alanna respirou mais à vontade e deu uma olhada em
torno. Não era um escritório típico. A escrivaninha, a que i sua
secretária tinha se referido,
mais parecia uma mesa com uma gaveta no centro. Atrás dela havia uma
cadeira de costas retas, não uma poltrona de couro estofada.
Definitivamente, uma pessoa
não podia sentar relaxada ali e contemplar seus sucessos. Havia mais
duas ou três cadeiras semelhantes, perto da mesa. Uma estante
de carvalho, escura, cobria
uma parede e parte da outra. Havia livros e papéis por toda parte, mas
ela não viu nenhum armário.
O resto da sala era preenchido por um enorme sofá curvo de tres peças e
por uma mesa baixa que acompanhava sua curva. O sofá
era recoberto por um tecido listrado em vários tons de azul.
As cortinas, que cobriam uma parede inteira, eram do mesmo tecido do
sofá. O carpete sob seus pés era azul pálido, macio,
felpudo e grosso. Desenhos em crayon
branco e preto enfeitavam as paredes restantes.
A decoração era decididamente masculina e completamente informal. Fazia
um contraste tão grande com os outros lugares
por onde passaram, que Alanna estava boquiaberta.
Era completamente diferente do que ela esperava e seu rosto expressava
isso.
- Aconteceu alguma coisa? - Rolt perguntou, com voz divertida. Ele
estava em pé ao lado da escrivaninha, ou mesa, que parecia
ser o nome mais apropriado. Os papéis com os recados telefónicos estavam
em sua mão. Seu olhar preguiçoso e velado era
inescrutável.
- Você tem que admitir que esse não é um escritório comum.
- Alanna se defendeu. Quem já ouviu falar de um executivo sem uma
escrivaninha maciça de nogueira? - Não pôde impedir que
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um pouco de sarcasmo aparecesse em seu tom de voz, como um efeito
retardado do seu modo de tratá-la.
Ele riu suavemente mais, Alanna pensou, do seu tom ligeiramente irónico
do que de sua resposta. Descuidadamente, Rolt jogou os recados
telefónicos em cima da mesa.
- Não preciso de gavetas e compartimentos, não gosto realmente de um
enorme espaço vazio para trabalhar. Quanto ao resto. . .
- Rolt examinou a enorme sala de um modo impassível, fixando a atenção
brevemente no sofá tamanho gigante, que tornaria qualquer cómodo pequeno
-, tem um fim prático,
também. Posso fazer as reuniões de departamento aqui mesmo, e os vários
papéis e relatórios podem ser espalhados pela mesa.
- Você nunca faz.nada sem uma razão, não é? - ela perguntou, e na mesma
hora tentou imaginar qual seria sua razão para ir encontrá-la no
aeroporto.
- Eu não diria "nunca" - Rolt caçoou, lembrando sutilmente da última vez
que tinha usado essa palavra. - Mas é bom, no entanto, quando algo
confortável tem também
uma finalidade prática.
- Eu nunca seria capaz de supor que você também tem necessidades humanas
- Alanna replicou secamente.
O olhar de Rolt percorreu-a com atenção, vagarosamente, da cabeça aos
pés.
- Duvida disso? - perguntou em voz baixa, de um modo lento e sugestivo.
Estavam quase três metros longe um do outro, mas a carícia de seus
enigmáticos olhos azuis quase parecia um toque físico. Era como se ele,
pessoalmente, explorasse
cada detalhe íntimo de, seu corpo. A tensão tomou conta deles, rígida e
vibrante, fazendo os nervos de Alanna tinirem.
Vagarosamente o rubor tingiu seu pescoço, ela deu as costas a Rolt,
antes que tingisse seu rosto, e o olhar perspicaz dele notasse. Alanna
se recusou a fazer qualquer comentário sobre sua sugestiva pergunta.
Como se tivessem vontade própria, suas pernas a carregaram para
frente, colocando maior distância entre ela e Rolt. As cortinas fechadas
eram boa desculpa e ela dirigiu-se para lá, mas, antes que pudesse
empurrá-las com a
mão, elas se abriram.
Assustada, olhou em volta procurando a razão daquilo e deu com Rolt ao
seu lado, em frente da janela. O tapete grosso abafara seus
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passos. Rapidamente, com o coração acelerado pelo susto, Alanna olhou de
novo para a janela.
- Daqui pode-se ter uma boa visão dos campos ao redor. A voz dele soou
logo acima de seu ombro direito. Alanna se enrijeceu, tentando descobrir
a que distância
ele estava, sem olhar para trás. Muito perto, seu radar lhe disse. - É
uma pena que, geralmente,
o pó forme uma camada de mais ou menos três centímetros no vidro.
Por isso é que deixo as cortinas quase sempre fechadas, a menos que
tenha chovido. É uma perda de tempo lavar as janelas.
O vidro sujo obscurecia a paisagem, transformando-a em formas e
silhuetas indefinidas, mas o olhar de Alanna continuou fixo nele. O
aroma almiscarado da loção pós-barba
de Rolt enchia o ar, tão atordoante que quase a sufocava. Estava doida
de vontade de se afastar, mas para qualquer lado que se virasse teria
que encarar Rolt.
Alanna sentia-se desconfortavelmente vulnerável. Era como se ele
soubesse a confusão que estava provocando em suas emoções e estivesse se
divertindo em acabar com
sua pose. Saber disso só fazia com que gostasse menos ainda dele.
- Kurt ainda vai demorar muito? - perguntou, tensa. - Isso tem
importância?
Ele tocou com a mão o braço dela. Sua intenção, obviamente, era fazê-la
voltar-se, provavelmente para abraçá-la. Mas Alanna não queria saber
disso e, afastando-se,
empurrou com violência a mão estendida dele, com os olhos flamejantes de
fúria.
- Tem, sim - falou por entre os dentes. - Se for demorar muito, prefiro
esperar por ele lá fora.
Rolt a dominava com sua estatura, olhando-a com olhos semi cerrados,
estranhamente distante. Alanna, que, no íntimo estava intimidada pela
aparência de represália
que ele assumiu, não abaixou a cabeça perante seu olhar penetrante. A
sombra de um
sorriso apareceu nos cantos da boca de Rolt.
- Não será necessário - ele replicou com suavidade. - Kur; já deve ter
esperado bastante no escritório externo.
- Ele está aqui? - falou baixo, franzindo a testa sem acreditar.
- A sra. Blake me comunicou a chegada dele há alguns minutos
- Seus olhos tinham um brilho complacente.
Mas não era possível! Ela estivera com ele o tempo todo.
- Como?
Inclinando a cabeça de um modo breve, Rolt indicou a mesa atrás
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dele O movimento fez com que o tom dourado de seu cabelo cor de café
ficasse mais evidente.
A luzinha acesa no telefone - explicou. - Eu não gosto de zumbidos.
Ela enterrou as unhas nas palmas das mãos.
Quer dizer que Kurt está aí fora este tempo todo que fiquei
esperando por ele?
- Não todo o tempo - Rolt disse e caminhou em direção ao telefone.
Levantou o fone, apertou um botão e falou: - Pode mandar Kurt entrar,
sra. Blake.
A audácia desse homem enfureceu Alanna além dos limites. Incapaz de
expressar sua fúria, só podia olhar para ele. Não houve tempo para uma
antecipação alegre da
chegada de Kurt. A porta de conexão abriu e ele entrou.
- Queria falar comigo? - Naturalmente, a atenção de Kurt ao entrar
estava fixa em
Rolt. Já estava bem dentro da sala quando notou Alanna em frente à
janela. Seu
rosto másculo e simpático abriu-se imediatamente em um sorriso
fascinante. - Alanna!
Ela não havia imaginado o encontro deles dessa forma; trémula de raiva
por causa do irmão dele e sem poder reagir, não foi capaz de responder
com a mesma alegria
que havia na voz de Kurt.
- Alo, Kurt. - O sorriso com que cumprimentou era rígido e pouco
sincero.
Ele caminhou na direção dela, alto, simpático e moreno, com um brilho
caloroso de admiração nos olhos. Uma parte dela queria se jogar em seus
braços, sabendo que
seria bem recebida. Mas estava muito cônscia da presença de Rolt, que os
observava silencioso e zombeteiro, e não se moveu, esperando sem graça
que Kurt chegasse
até ela.
- Desculpe se não pude ir encontrá-la no aeroporto. - Ele examinou o
olhar tempestuoso que ainda aparecia nos olhos sombrios dela.
- Não tem importância. - Alanna balançou a cabeça, tentando se acalmar.
- . . . seu irmão explicou o problema.
Sem querer seu olhar desviou-se para Rolt. Em algum momento, enquanto
conversava com Kurt, ele havia acendido um cigarro, que segurava entre
os dedos. A fumaça acinzentada
escondia a expressão de seu olhar. A mão no bolso mantinha a jaqueta
bem-feita aberta, e havia algo de indolente em sua atitude.
23
- Acho que a senhorita está esperando para ser beijada, Kun
- Sua voz grave atravessou a sala, irritando Alanna.
- Não preciso ser empurrado. - Kurt riu baixinho, aparente mente sem
achar nada de ofensivo no comentário do irmão, uma vez que não sabia de
nada do que acontecera
no aeroporto.
O alegre olhar azul de Kurt não tinha se desviado do rosto dela.
Sorrindo, colocou as mãos em seus ombros e puxou-a para si. Ele nunca
entenderia seu desejo de evitar
o beijo e ela detestaria ter que explicar. Nessas circunstâncias, a
única coisa que podia fazer era levantar a cabeça para receber seu
beijo.
Normalmente, teria correspondido e gostado da pressão terna da boca de
Kurt sobre a sua; mas com Rolt observando, completamente indiferente ao
fato de ser um intruso,
foi impossível para Alanna corresponder de um modo realmente animado.
Kurt examinou seu rosto com um olhar perplexo, ao levantar a cabeça.
Sabendo que ele não poderia ter deixado de notar sua falta de
correspondência ao beijo, Alanna
tentou atrair sua atenção para outra coisa. com a ponta de um dedo,
tocou de leve o canto da boca de Kurt.
- Você ficou todo manchado de batom - declarou em um tom arrependido.
- Não me importo. - Ele sorriu.
- Tome. - A voz de Rolt se intrometeu em sua conversa particular. Ele se
aproximou até ficar a poucos passos deles, oferecendo seu lenço de linho
para Kurt. - Use
o meu. Já está sujo,
Alanna e Kurt olharam para o lenço ao mesmo tempo. O tom bege rosado de
seu batom manchava o tecido, contrastando violentamente com o branco
imaculado. Provavelmente,
a boca de Rolt também tinha ficado suja do seu batom quando a beijara à
força, mas Alanna estava muito zangada naquele momento para notar isso.
Ele a deixara logo
em seguida para pegar sua bagagem, e devia ter usado o lenço quando
estava longe dela.
Rolt deu o mesmo lenço para Kurt. Alanna percebeu, de repente, que ele
tinha feito aquilo de propósito. Astucioso como era, havia planejado o
incidente, primeiro
fazendo Alanna retocar a maquiagem, depois encorajando Kurt a beijá-la.
Finalmente, tinha oferecido o lenço para mostrar ao irmão mais moço que
beijara a garota
dele.
Enquanto Kurt, estarrecido, pegava o lenço, os olhos presos às manchas
de batom, Alanna enviou a Rolt um olhar mortífero. Mas ele
24
tinha um coração de ferro e seu olhar velado mostrava um brilho
divertido.
Kurt esfregou o tecido na boca, comparando rapidamente o tom das
manchas, que eram iguais. O orgulho fez com que Alanna levantasse o
queixo, quando ele ergueu a
cabeça. Num desafio silencioso, seu olhar pousou no irmão. Rolt pegou o
lenço das mãos dele.
- Roubei um beijo de boas-vindas no aeroporto - declarou calmamente.
Pelo menos ele não insinuou que eu o beijei espontaneamente, Alanna
pensou, desanimada. O rosto de Kurt tinha uma expressão pensativa, como
se ainda estivesse considerando
a informação. Fosse qual fosse a conclusão a que tinha chegado, seus
claros olhos azuis não demonstraram nada, quando olhou para ela. Mas
Alanna pensou ter visto
uma ligeira rigidez na linha de seu queixo.
- Aqui estão as chaves do meu carro. A bagagem de Alanna já está no
porta-malas, por isso é melhor usá-lo. - Rolt jogou as chaves para Kurt
e só seus reflexos rápidos
permitiram que as pegasse. De certo quer levá-la para casa agora.
- Quero, sim. - Os dedos de Kurt fecharam-se sobre as chaves,
escondendo-as em sua mão fechada, e passou o braço pelos ombros dela.
Quando eles se viraram para sair,
Rolt caminhou para sua mesa.
- Antes que se vá, Kurt, quero lhe dar um aviso. - Levantou o telefone e
apertou vários números, sem nem ao menos se preocupar em olhar para o
irmão ou para Alanna,
enquanto falava. - Você já teve caminho livre com Alanna por tempo
suficiente. De agora em diante, também estou na competição.
Ofegante, ela não podia acreditar no que estava ouvindo. A audácia dele
era incrível! Estava falando dela como se ela não estivesse ali,
referindo-se a ela como
se fosse um prémio a ser ganho, e não um ser humano capaz de decidir por
si mesma que homem preferia.
Ela já tinha deixado bem claro que não gostava dele nem um pouco. A
audácia dele, dizendo ao próprio irmão que ia tentar tomar sua garota!
Alanna não sabia se devia
reagir com violência ou rir do convencimento sem limites de Rolt.
Kurt, que se enrijecera ao ouvir Rolt, evidentemente também estava tendo
reações conflitantes. Ele olhou fixo, em silêncio, para o perfil austero
que o irmão lhe
apresentava.
A oportunidade de revidar acabou; Rolt havia acabado de fazer contato
com a pessoa para quem tinha discado:
25
- Alo, Sam. Recebi o recado de que me chamou. . . A mão de Kurt apertou
o ombro dela.
- Venha, vamos embora - disse, de mau humor.
A pressão firme da mão dele em suas costas guiou-a para fora do
escritório. Alanna estava tão ansiosa quanto ele para sair dali. Kurt
enfiou a chave na ignição e
recostou-se no banco, sem dar a partida.
- Sobre o que aconteceu agora. . . - Kurt suspirou com tristeza.
- Sei que Rolt é seu irmão - Alanna interrompeu, ainda influenciada pela
zanga -, mas ele é o homem mais arrogante e mandão que já conheci. Você
percebeu que ele
manobrou nós dois?
- Estou começando a ter uma boa ideia - concordou com a cabeça,
levantando uma sobrancelha morena enquanto se lembrava. Suas mãos
agarraram com força a direção,
fazendo os nós dos dedos ficarem brancos. Deu-lhe um olhar de esguelha,
observando-a, alerta. Ele estava falando sério, Alanna. Eu o conheço
muito bem, para duvidar
disso.
- Você quer dizer. . . sobre me querer? - Quando Kurt concordou com a
cabeça, ela emitiu um som de desprezo. - Não posso impedi-lo, mas ele
não vai conseguir nada.
- Rolt atrai mulheres do mesmo modo que o mel atrai moscas.
- Pois esta é uma mulher que está completamente imune ao seu charme
primitivo - Alanna declarou, com ênfase.
- De um modo ou de outro, todo mundo tem sentimentos violentos por ele -
Kurt insistiu. - Às vezes, ele é amado
e odiado ao mesmo tempo; eu mesmo já senti isso.
Não creio que qualquer um possa permanecer imune.
Alanna sabia em que categoria ela estava; que sentimento violento ela
alimentava contra Rolt. Ele tinha feito de sua volta para casa um
fiasco. Nada saíra como ela
tinha planejado. Rolt dominara quase todos os segundos, e agora, que
estava sentada sozinha com Kurt no carro, de quem eles estavam falando?
De Rolt.
Olhando para Kurt, tão simpático e moreno, Alanna percebeu que ele era
tudo que ela sempre tinha sonhado. Rolt nunca poderia mudar isso. Nunca
seria capaz de interferir
entre os dois, não importa o quanto tentasse. Era tolice dela ficar
assirri desgostosa, alimentando sua zanga por ele.
- Senti saudade de você - murmurou. O olhar brilhante de frustração
transformou-se em um de intensa adoração, quando se fixou em Kurt. Um
sorriso malicioso abriu
vagarosamente sua boca.
26
. Sentiu mesmo? - A preocupação custou um pouco a deixar os
olhos que examinavam seu rosto. Então ele estendeu a mão para segurar as
dela. - Gostaria de ter ido encontrá-la no aeroporto - declarou, com voz
rouca. - Se aquele
maldito equipamento não tivesse quebrado, eu teria ido.
. Não podemos mudar o que já aconteceu. - Alanna deu a entender que
aquilo não tinha mais importância. - Podemos esquecer e começar tudo de
novo.
- É, podemos começar agora - Kurt concordou.
Ele colocou a outra mão em sua nuca e puxou-a com delicadeza para ele. O
beijo foi longo e gostoso, e desta vez, sem a presença desconcertante do
irmão -dele, ela
correspondeu. Quando acabou, ele continuou abraçado a ela, esfregando de
leve os lábios em seu rosto, mordiscando os cantos de sua boca.
- Eu poderia continuar assim por muito tempo - ele murmurou com
suavidade, sua respiração morna acariciando a pele dela. - Mas bancos de
carro não foram desenhados
para fazer amor com qualquer conforto. - Despreocupadamente, beijou os
lábios dela de novo e se afastou. Havia um trejeito estranho em sua boca
quando ele deu a
partida no motor. - Naturalmente, duvido que Rolt faça amor dentro de um
carro há muito tempo.
Esqueça, disse para si mesma. O nome de Rolt já se insinuara de novo em
sua conversa. Suspirou de leve ao se encostar no banco. Algo lhe dizia
que Rolt não seria
um homem fácil de esquecer ou ignorar.
irritada, ela afastou uma mecha sedosa de cabelo do rosto. Quando
abaixou a mão, tocou no decote de sua blusa e o enorme V lembrou-a
imediatamente de sua briga,
neste mesmo carro, com Rolt. Sua pele queimava, onde ele a tinha tocado
com tanta insolência. Um ressentimento cheio de zanga tomou conta dela.
- Vamos celebrar a sua chegada esta noite - Kurt declarou, ao saírem da
fábrica. - Passo para pegá-la às seis, para começarmos
algo. Que tal?
Alanna deu uma olhada para o relógio de pulso, mudando a direÇão de
seus pensamentos.
Esta é minha primeira noite em casa. Mamãe e papai vão querer que eu
passe algum tempo com eles.
Às sete, então - ele concedeu, dando-lhe um olhar alegre.
27
Você estará em casa o verão inteiro. Eles podem vê-la todos os dias e eu
a verei todas as noites.
- Todas as noites? - provocou.
- Bem, não posso deixar nenhum tempo livre para Rolt se insim
- ele declarou. - Ele vai estar por perto.
- Vai ter uma surpresa muito desagradável, então. - Ela levantou o
queixo num desafio. - Porque vou lhe mostrar a porta da
rua tão depressa, que ele não vai ter tempo de saber o que aconteceu.
- Gostaria de ver. - Kurt riu. - Seria a primeira vez que iso
aconteceria com ele.
Alanna riu junto, relaxada de repente, não mais zangada pela afirmação
de Rolt de que a teria. Sentiu o prazer da vingança ao antecipar o
momento em que diria
a ele para sumir. Ela adoraria ferir desse modo seu ego masculino. Rolt
estava precisando muito disso.
Seu riso acabou com a tensão e depois foi fácil para eles conversarem
sobre coisas menos perturbadoras. Alanna falou feliz sobre a
universidade, seus exames e
planos para as férias de verão, sem mencionar o papel que ela esperava
que Kurt desempenhasse mais
tarde.
Sua alegria por estar voltando para casa era enorme, quando o carro
parou em frente da garagem de seus pais. com uma mala na mão e Kurt
atrás com todo o resto, Alanna
caminhou ansiosa para a porta da frente, que se abriu antes que ela
tivesse tempo de segurar na maçaneta. Uma mulher alta e magra estava em
frente a ela, o rosto
anguloso iluminado por um sorriso surpreso e deliciado.
- Nós só a esperávamos amanhã! - exclamou.
- Oi, Ruth, terminei meus exames mais cedo e peguei o primeiro avião em
Minneapolis - Alanna explicou.
- Devia ter nos avisado - a mulher ralhou, abraçando-a rapidamente antes
de fazê-la entrar, segurando a porta aberta para
Kurt carregado de malas.
- Queria fazer uma surpresa para papai e mamãe. - Olhou em torno, para a
sala vazia. - Onde eles estão?
- Seu pai está jogando golfe e Elinore está lá em cima, descançando um
pouco antes do jantar. - A governanta pediu a Kurt
que deixasse as malas ao lado da porta.
- Como vai ela? - O rosto de Alanna ficou um pouco tenso. quando olhou
ansiosa para Ruth Ewell.
Dizer que Ruth era uma governanta, era só um modo de falar. NO
28
começo, ela vinha ajudar todos os dias, quando Elinore estava grávida de
Alanna. O médico tinha dado ordens para que ela trabalhasse o mínimo
possível, para evitar
que abortasse, como das três últimas vezes.
Na expectativa do nascimento de Alanna, Ruth e Elinore tornaram-se
amigas. Ruth havia continuado trabalhando por dia para eles, até a morte
de seu marido, quatro
anos atrás. Nessa época Elinore insistiu para Ruth ir morar com eles e
ela aceitara.
por causa da amizade quase fraternal entre elas, Alanna nunca a tinha
encarado como uma empregada. Ruth era mais uma tia adotiva que uma
governanta paga, e desde
o ataque cardíaco de Elinore, dois anos atrás, era a rocha que mantinha
todos unidos.
- Seu braço esquerdo está um pouco adormecido, mas o médico disse que
ela está reagindo bem. É claro que Elly continua insistindo que está
ótima. - Ruth. confidenciou
num tom de voz cético, usando o apelido que tinha dado para a mãe de
Alanna. - Mas percebi que ela sempre descansa umas duas horas todas as
tardes. Logo, não está
tão forte assim. - Acenou com a mão na direção da sala, os dedos
ligeiramente deformados pela artrite. - Vocês dois fiquem à vontade que
vou buscar um cafezinhp
na cozinha.
- Muito obrigado - Kurt acenou com a cabeça recusando -, mas vou ter que
recusar. É melhor eu voltar para o trabalho.
- Não tem um tempinho para uma xícara? - tentou convencê-lo.
- Não, eu. . .
- Ruth? - A voz interrogativa de Elinore Powell soou no segundo andar. -
Quem está aí?
- Alanna e o namorado dela. - Ela gritou a resposta, sorrindo
abertamente para o casal. - Ela chegou um dia mais cedo.
Alanna deu uma olhadela furtiva para Kurt, imaginando se ele se
importava de ser chamado de seu namorado. Ele surpreendeu o olhar e
sorriu para ela gentilmente,
passando o braço em torno de sua cintura, para reforçar a ideia de que
pertenciam um ao outro. Um sentimento gostoso de ser querida tomou conta
dela. Sua expressão
estava cheia de alegria quando se voltou para cumprimentar a mulher que
descia graciosamente.
Elinore Powell sempre tinha sido frágil e agora parecia ainda mais
delicada. Desde a-infância ela sofria do coração. No entanto, havia uma
aura de força em torno
dela, que fazia as pessoas acreditarem que seria capaz de superar
qualquer coisa, até mesmo a má saúde.
29
Sua cor era translúcida e seus olhos brilhantes. O brilho prateado de
seus cabelos, que um dia tinham sido loiros, só aumentava seu
encanto etéreo.
- É tão bom ter você em casa. - A voz de sua mãe tremia de emoção quando
se abraçaram e seus olhos brilhavam com lágrimas
de felicidade. com uma graça inata, Elinore
Powell voltou-se para Kur
- Você é o cúmplice de Alanna nessa conspiração para nos surpreer der? -
disse, sorrindo.
- Sou - ele concordou. - Ela me telefonou.
- Assim pôde ir encontrá-la no aeroporto - Elinore conclui astutamente.
- Eu sei que provavelmente não é necessário, mas qut. ro lhe agradecer
por ter ido encontrá-la
no aeroporto e tê-la trazido sã e salva para casa. - Sentindo o olhar de
Kurt sobre ela, Alanna hesitou por um momento, mas acabou por não
corrigir a impressão errada
de sua mãe, de que ele tinha ido esperá-la no aeroporto, como haviam
planejado. - Ouvi Ruth mencionar café - sua mãe continuou. - Vai ficar
um pouco, não, Kurt?
- Preciso realmente voltar para á fábrica - ele recusou pela segunda
vez. - Tivemos alguns problemas de equipamentos esta tarde. Foi bom vê-
la de novo, sra. Powell,
e à senhora também, senhora Ewell. Até logo, Alanna. - Ele inclinou a
cabeça e, desembaraçadamente, beijou-a de leve nos lábios. - Às sete?
- Estarei pronta - ela prometeu.
com um cumprimento polido de cabeça para as duas mulheres mais velhas,
Kurt saiu. Alanna não tentou esconder o brilho de orgulho que havia em
seus olhos cor de violeta.
Kurt Matthews era um homem simpático e inteligente. Nenhuma garota em
que ele estivesse interessado podia deixar de se sentir orgulhosa. As
duas mulheres notaram
seu olhar e se olharam de um modo conspirador.
- Por que não traz o café para a sala, Ruth? - Elinore Powell sugeriu. -
Tenho certeza de que Alanna gostaria de uma xícara. Há bastante tempo
para desarrumar as
malas depois.
Alanna não tinha nada contra. Na verdade, sentiu de repente que
precisava de uma xícara de café. Tanta coisa tinha acontecido desde que
o avião aterrissará, que
isso lhe parecia muito convidativo.
- Venha. - Elinore Powell passou o braço no de sua filha e levou-a na
direção da sala. - Ainda não me contou como deu
um jeito de chegar um dia antes.
Instalada no sofá de estilo tradicional, estampado de verde e amarelo,
30
Alama explicou a reorganização de última hora de seus exames finais,
contou como achava que tinha se saído nas várias matérias e riu, com a
mãe e Ruth, das
peculiaridades de seus professores. Depois, crivou as duas de perguntas
sobre o que tinha acontecido em casa e com algumas de suas antigas
colegas de escola, especialmente
Jessie, a filha de Ruth. Ela e Jessie tinham sido amigas muito chegadas,
mas Jessie tinha se casado logo depois de terminarem o colegial e
mudara-se para outro Estado.
Elas ainda mantinham contato por cartas e por intermédio de Ruth. Jessie
mandara recentemente algumas fotos dela e da família e Ruth mostrou-as
para Alanna, com
bastante orgulho.
- Aqui está Jessie com a pequena Amy. Aí ela estava com três meses. Não
parece uma boneca, com esse nariz de botão e o cabelo escuro? - Alanna
concordou e outra
foto foi-lhe passada. - Este é Mickey. Ele está crescendo tão depressa!
Jessie disse em sua carta que ele é um típico menino terrível de dois
anos.
Olhando as fotografias, Alanna não pôde deixar de pensar como Jessie
parecia feliz. Havia um ar satisfeito em seu rosto, especialmente na
foto em que estava olhando
para seu marido John e segurando o bebé. Alanna não conhecia John muito
bem, mas ele era um homem simpático, do tipo encorpado. O namoro deles
tinha sido ultra-rápido,
e, depois de três anos de casamento, a única palavra para descrever
Jessie era
"radiante".
Ela esperava que o mesmo lhe acontecesse também. Tentou imaginar uma
cena de vida em comum com Kurt, mas, antes que a imagem se formasse,
Ruth estava falando de
novo:
- Agora que eles têm um menino e uma menina sadios, Jessie acha que não
vão mais ter aumentos na família. Sam e Andrew têm quatro cada um, mas
ela não tem intenção
de alcançar os irmãos Ruth declarou, referindo-se aos seus outros
filhos. O relógio da sala de jantar bateu as horas. - Céus! - Ruth
exclamou. - Se vamos jantar
em uma hora decente, é melhor eu começar logo.
- vou ajudá-la - a sra. Powell se ofereceu e começou a se levantar do
sofá, quando Ruth se endireitou.
- Você vai ficar aqui e conversar com Alanna - Ruth a advertiu com
firmeza. - Você não a vê desde a Páscoa.
- Se precisar de mim, é só chamar. - Sua mãe não insistiu no
oferecimento e Alanna lembrou-se de seu estado de saúde delicado.
Quando Ruth saiu da sala, Alanna voltou a atenção para as fotos
31
de novo, mas seus pensamentos estavam em sua mãe. Era difícil aceitar,
depois de todo esse tempo, que suas atividades estavam limitadas. Ela
ainda exalava uma vitalidade
que desmentia sua fraqueza. Elinore suspirouencantadoramente triste,
atraindo o olhar de Alanna.
- Algo errado, mamãe?
- Na verdade, não. - Ela sorriu. - Estava só imaginando quanto tempo
ainda vai se passar antes que eu possa exibir os retratos de meus netos.
Ou mesmo se eu ainda
estarei por aqui quando eles nascerem.
- Oh, mamãe, não fale assim - Alanna murmurou, com um nó na garganta.
- Não estava me referindo a uma morte precoce. - Elinore riu, um som
claro e melodioso. - Minha querida, desde que você
fez dezesseis anos que tem havido uma fila
de admiradores à nossa porta e você nunca levou nenhum deles a sério.
Será que vai ser uma dessas mulheres modernas, que fazem carreira? Não
que eu ache que uma
mulher não deva ter uma carreira, mas espero, egoisticamente, que não se
esqueça de incluir um marido e filhos em sua vida também.
- Estou com vinte e um anos. Isso praticamente me faz uma solteirona,
não? - Alanna arreliou, cheia de alívio por ver que sua mãe ainda
encarava o futuro com otimismo.
- Falando sério, Alanna - sua mãe sorriu -, o que me diz de Kurt
Matthews? É ele o eleito? Está apaixonada por ele?
Alanna foi tomada por uma tranquilidade momentânea. Olhou para os
retratos que tinha na mão.
- Acho que sim - disse, acenando afirmativamente com a cabeça.
- Acha? - A voz de Elinore estava cheia de desapontamento e simpatia. -
Minha querida, duvido que esteja apaixonada, se só acha isso. Quando
estamos apaixonadas
por um homem, ou ele nos faz tão zangadas que não conseguimos pensar
direito, ou nos transporta para um paraíso terrestre.
- Verdade? - Seus olhos tinham um brilho travesso quando olhou para sua
mãe. -- É assim que papai faz você se sentir?
- Depois de trinta anos, ele ainda consegue me exasperar além do limite
da tolerância - Elinore Powell admitiu, rindo. - Mas
o paraíso terrestre tornou-se muito mais sólido e duradouro. Acho que
é algo que só existe durante o tempo da conquista. O que é muito bom,
pois não seria prático andar com a cabeça nas nuvens o tempo todo.
32
Alanna sorriu e concordou. No fundo, achava que a ideia que sua mãe
fazia do amor era um pouco fora de moda e sentimental. O amor de hoje em
dia não era assim,
e provavelmente nunca tinha sido, exceto em sonhos românticos. O amor
não era algo que acontecia,
mas uma coisa que nascia de afeto genuíno e admiração, e evoluía
para alguma coisa mais sólida. Mas ela não emitiu sua opinião em voz
alta. Não havia motivo para discutir esse ponto.
33

CAPITULO III

Durante o jantar daquela noite, Alanna teve a impressão de que seu pai
estava um pouco preocupado. Seus olhos sempre se desviavam para sua
esposa, quando percebia
que ela estava olhando para ele; havia um brilho levemente preocupado em
seu olhar, e uma certa tensão em torno de sua boca bem-feita. Isso
parecia acentuar as rugas
em seu rosto simpático e cheio de sensibilidade. Seus cabelos, apesar de
grisalhos e com entradas um pouco grandes, ainda davam a impressão de
serem bem fortes.
Eles faziam um par perfeito, Alanna pensou, não pela primeira vez. Eram
tão devotados um ao outro, tão preocupados com as necessidades e desejos
um do outro, mais
do que com os seus próprios. Talvez por isso seu pai estivesse
aborrecido. Ela sabia que a saúde da
mãe era fraca, e podia ser que ele tivesse notado algo, naquela
noite, que lhe desse motivo para se preocupar. Ele estava mais apto a
perceber do que ela, uma vez que Alanna tinha estado fora e não seria
capaz de notar uma alteração
pequena. Estudou a mãe com atenção, tentan do vê-la através dos olhos de
seu pai, mas não detectou nada.
- Oh, Dorian - Ruth levantou os olhos do prato -, eu chame o encanador.
Ele virá amanhã de manhã, para ver o que há de errado com o encanamento
na lavanderia. Ia
lhe dizer isso mais cedo, mas me esqueci.
Seu pai suspirou abertamente.
- Estou começando a achar que deveríamos trocar todo o encanamento.
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Primeiro foi o banheiro lá em cima, depois a cozinha, agora a a
lavanderia. - Ele balançou a cabeça. - Só sobrou o banheiro aqui
debaixo.
- A casa está velha - sua mãe comentou. - Não se pode esperar que dure
para sempre.
- Estou começando a pensar que ela se transformou num elefante branco. -
Cortou com cuidado mais uma fatia de rosbife e colocou
em seu prato. - Eu estava jogando
golfe com Bob Jackson hoje. . . Ele tem uma firma que vai muito bem -
acrescentou, explicando. Estava me contando que há uma grande procura de
casas atualmente,
principalmente nesta região em que moramos. Ele acha que conseguiríamos
um bom preço pela casa, se a puséssemos à venda.
- Você não está pensando nisso, não é, Dorian? - Elinorc colocou o
talher de prata sobre a mesa e olhou-o sem acreditar.
- Nós estamos envelhecendo, Elinore - ele disse, sem olhá-la nos olhos.
- com Alanna na universidade a maior parte do ano. esta casa fica um
pouco grande para nós.
As despesas com a casa e as de conservação estão ficando demais. . . O
encanamento agora, e vamos precisar de um novo telhado antes do inverno.
Poderíamos vendê-la
e comprar um condomínio, e ainda sobraria dinheiro para colocar no
banco. Não teríamos mais que nos
preocupar em aquecer
quartos vazios ou retirar neve, recolher folhas ou aparar a grama. V
Vamos ser honestos: esta casa está começando a ser um peso. - Dorian
Maxwell Powell, não
quero ouvir nem mais uma palavra - ela exclamou.
- Você a venderia? - Alanna perguntou baixinho, e a ideia de estranhos
vivendo lá fez com que sentisse um nó na garganta. - Ele não vai vendê-
la - Elinore declarou
enfaticamente.
- Não disse que ia - ele as apaziguou. - Só estava comentando que seria
prático.
- Não me importo se é prático ou não - a mãe retrucou, pegando o garfo e
a faca de novo. - Não sei como pôde sugerir uma coisa Cessas. Você
nasceu nesta casa. Foi
construída de acordo com as especificações de seu pai, até o último
detalhe. Seria como vender a Sua herança. Como pôde pensar nisso?
- Vamos, Elinore, não fique tão aborrecida - ele acalmou-a com um
sorriso que pedia desculpas. - Só pensei que esta casa
enorme e velha estivesse começando a ficar
muito trabalhosa para você e uth tomarem conta, e não queria que. . .
Bem - ele se interrompeu,
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escolhendo as palavras com cuidado -, se você quisesse uma casa menor,
não teria dito nada, pelas mesmas razões.
- Oh, querido. - Elinore mordeu o lábio, emocionada pelo seu gesto. -
Esta é a nossa casa. Sempre foi e sempre será, se eu fot ouvida.
- É claro que será. - Ele sorriu. - Foi bobagem minha falar nisso.
- Foi mesmo - Elinore resmungou.
Alanna sorriu, mais uma vez maravilhada com a consideração que seus pais
mostravam um pelo outro. Deu uma olhada no relógio e viu que eram mais
de seis horas. Não
tinha muito tempo para se arrumar,
- Não posso esperar a sobremesa, se quiser estar pronta quando Kurt
chegar - declarou.
- Mas eu fiz sua sobremesa favorita - Ruth protestou. - Morangos com
biscoitos e creme bem grosso, da fazenda de Johanson, Alanna.
Alanna fez uma careta desconsolada.
- Guarde um pouco para mim. vou comer no café da manhã, amanhã.
- Você não devia comer doce no café da manhã - Ruth disse num tom cheio
de reprovação.
- Por que não? Não há a mínima diferença de comer frutas frescas e
torradas.
Tendo acabado, ela pediu licença e foi depressa para seu quarto Quando
acabou de tomar banho, fazer a maquilagem e se vestir, Kun já estava lá.
Ouviu-o conversando
na sala com sua mãe quando dêscéu as escadas. Seu pai ia saindo da
biblioteca e parou ao vê-la, sua expressão séria se suavizando.
- Está um encanto, Alanna. - Dorian Powell caminhou até as escadas, para
encontrá-la. Seu olhar percorreu-a, admirando o
brilho de ametista de seus olhos, que o
vestido cor de alfazema realçava. Mesmo que eu seja um pouco parcial,
ainda estou dizendo apenas
a verdade.
- Obrigada, papai; - Beijou-o de leve no rosto e deu uma olha da na
direção da sala. - Faz tempo que Kurt está esperando?
- Não mais do que cinco minutos, mas, quando ele a vir, não vai se
importar - ele respondeu, sorrindo. - Diga-me, o que
existi entre você e o jovem Matthews é sério?
Será que eu devia estar in terrogando-o como futuro sogro?
36
Duas vezes no mesmo dia; primeiro sua mãe e agora seu pai! Alanna não
podia acreditar. Ela riu com um certo espanto.
Você é tão ruim quanto mamãe - declarou. - Vocês dois
parecem dispostos a me empurrar para o altar. Ainda tenho um ano para
cursar na universidade.
Por um instante os olhos do pai encheram-se de dor.
- Claro que tem - ele repetiu, com um sorriso aflito. - Naturalmente,
sua mãe e eu estamos ansiosos para ver seu futuro assegurado, com alguém
que a ame e tome conta
de você de modo como fazemos.
- Sou capaz de tomar conta de mim mesma - Alanna lembroulhe, com
gentileza.
- Sei disso, meu bem - o pai concordou. - Mas acho que os pais sempre
esperam que suas filhas se casem com algum bom rapaz, que poderá lhe dar
uma boa vida. Para
mim, o irmão de Kurt seria um ótimo candidato. Ele é agradável e
inteligente, e sei que Rolt sempre tomaria conta de seus interesses.
E como, Alanna pensou. Estava doida de vontade de dizer a seu pai o tipo
de irmão que Kurt tinha. Tomar conta dos interesses de Kurt, pois sim!
Será que seu pai
ainda admiraria Rolt, se soubesse que ele, estava planejando roubá-la do
irmão?
Mas engoliu as palavras; seu pai só ficaria aborrecido, por ver
estremecida sua confiança em Rolt. Começaria a se preocupar com a
fábrica, os operários e as famílias
que dependiam deles.
- Acho que Kurt é capaz de tomar conta de si mesmo, sem precisar do
irmão - disse.
- Provavelmente pode - o pai admitiu, mas num tom duvidoso, que irritou
Alanna. - O jovem Matthews poderia se fazer por si mesmo, mas não tem a
força de vontade
de Rolt. Afinal, Rolt é. . .
- . . .um gigante. Eu sei, papai. - Ela suspirou. - E logo em seguida
você vai estar defendendo a ideia de que devo me casar com Rolt.
- Bem. . . - Um sorriso malandro dançou em seus olhos. Mas Alanna não
conseguiu achar graça naquilo e o sorriso desapareceu de seu olhar. -
Quando você se casar,
só desejo que seja com o homem que queira - ele acrescentou.
- Eu sei. - Um sorriso triste curvou a linha vulnerável de sua boca. Não
importava o que ele dissesse, ela sabia que ele só queria
que fosse feliz. Os pais tinham ideias estranhas, às vezes, sobre o que
37
faria seus filhos felizes. - É melhor eu não deixar Kurt esperando mais
- disse e deu um abraço rápido no pai, porque o amava. - Não me espere
acordado.
Ele sorriu, enquanto ela se encaminhava para a sala. Alanna achou que
seu sorriso parecia triste e preocupado, por trás de toda aquela
animação. Por um instante
se perguntou por que, mas Kurt se levantou para recebê-la e não teve
tempo para pensar mais.
Várias vezes, durante o resto da semana, teve a mesma impressão. Não era
alguma coisa que pudesse definir, mas a sensação de que havia algo
errado não a abandonava.
Era como uma nuvem escura perto do sol, fazendo sombra sem diminuir a
luz.
Uma vez, quando sua mãe estava tirando uma soneca, ela falou com o pai a
esse respeito. Estavam sentados na sala, e ele olhava para o nada, de um
modo preocupado.
- O que está errado, papai? - ela perguntou.
- Hum? O quê? - Olhou para ela sem ver, sem saber o que tinha
perguntado.
- Tem alguma coisa errada? Parece que você tem um problema enorme lhe
pesando nas costas - Alanna brincou, tentando tornar mais leve aquela
pergunta tão séria.
- É a idade. - Ele suspirou, torcendo a boca.
- Você não é velho - ela protestou, mas, por meio de um rápido cálculo
mental, lembrou-se que ele estava com quase sessenta anos.
- Algumas vezes eu me sinto muito velho e cansado.
Mas ele ainda não havia respondido à sua pergunta e Alanna insistiu:
- É por causa da mamãe? Está preocupado com ela?
As sobrancelhas claras se juntaram, numa expressão de mágoa
- Não posso deixar de me preocupar com ela, Alanna. - Est deu a mão e
segurou a dela. - Eu a amo.
- Eu sei, papai. - Esfregou a mão dele com afeto. - Eu também.
- É difícil aceitar que a vida nem sempre é do jeito que queremos ou
planejamos. - Ele olhou de novo para o nada. - Sua mãe e eu fizemos
tantos planos para quando
nos aposentássemos! Havia tanta coisa que queria fazer e mostrar para
ela!
Ele se calou, mas Alanna deduziu o resto de seu pensamento. O coração
fraco de sua mãe acabara com esses planos e agora o desapontamento e a
mágoa perseguiam seu
pai.
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. Mas ela tem você, papai - Alanna comentou. - E isso é o
que ela mais quer.
É - Dorian concordou de modo distraído, mas seu olhar dizia
que gostaria de lhe dar muito mais.
O fato da saúde dela não permitir que viajassem e fizessem tudo que
tinham planejado o preocupava. E Alanna adivinhava que seu pai lamentava
não ter feito tudo isso
mais cedo, quando sua mãe poderia ter participado.
- Não tem sentido deixar que isso o aborreça tanto, papai murmurou.
Ele não replicou e Alanna deixou o assunto morrer. Mas estava mais
tranquila.
Não podia deixar de sorrir, observando-os depois: seu pai em torno de
sua mãe, tomando conta dela, e ela protestando contra o excesso de
cuidados.
- Acho que devia usar um chapéu - ele estava dizendo. - O sol deve estar
bastante quente.
- Não sou feita de sorvete. Não derreto no sol - Elinore Powell
insistia, exasperada. - Se ficar muito quente, eu me sento numa sombra.
- Só por precaução, vou pôr um chapéu no carro - Dorian decidiu.
Elinore olhou para Alanna e sorriu, sacudindo a cabeça ao ver que era
inútil discutir com ele.
- Tem certeza de que não quer ir conosco ao jantar de domingo? Ruth
preparou um lanche delicioso.
- Dois é bom e três é demais - Alanna citou. - Além disso, Kurt vai
estar aqui lá pelas quatro. Vocês teriam que voltar mais cedo para me
trazer e não há necessidade
disso.
- Não me parece certo deixá-la sozinha no primeiro domingo que passa em
casa. - Sua mãe suspirou.
- Não se preocupe com isso - insistiu. - vou passar uma tarde calma e
repousante. Tenho um bom livro para ler e vou fazer isso deitada ao sol.
- Bem, se é isso mesmo que quer. . . - Elinore concordou, de má vontade.
Mamãe, se não tomar cuidado, vai virar uma mãe superr-protetora, como
papai. - Alanna riu.
Deus me livre! - A resposta de sua mãe juntou-se ao seu riso.
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Logo depois seus pais se foram. com um livro debaixo de um braço e um
rádio transistor na outra mão, Alanna dirigiu-se para o pátio que havia
atrás da casa. A área
de concreto era praticamente o único lugar, ali, que recebia o sol da
tarde. O restante era sombreado por enormes pinheiros e uma seringueira.
Móveis de jardim estavam espalhados numa ordem casual pelo pátio.
Colocando o rádio sobre uma mesa circular, Alanna tirou sua jaqueta de
algodão e jogou-a sobre
uma cadeira ali perto. Seu biquini combinava com a jaqueta, estampado de
vermelho e amarelo. Sintonizou o rádio em uma estação que tocava uma
mistura de músicas
modernas e ritmos antigos, instalou-se em uma espreguiçadeira.
Alanna desamarrou as alças do biquini, que se prendiam ao pescoço, e
deixou-as caídas ao lado do corpo, para não ficar com marcas brancas
quando o resto de sua
pele se bronzeasse. As casas ficavam a uma boa distância, separadas por
vastos gramados, e não tinha que se preocupar com vizinhos indiscretos.
Protegendo os olhos
com óculos escuros, abriu o livro e começou a ler, ficando logo
entretida com a saga histórica.
- Linda! - O cumprimento foi murmurado por uma voz masculina.
Alanna olhou para cima, assustada. Absorta na leitura e com o rádio
ligado, não tinha ouvido o barulho de alguém se aproximando. Agora, a
poucos passos de sua espreguiçadeira,
Rolt Matthews a dominava com sua estatura. Desde o dia de sua chegada a
Hibbing, nunca mais ouviu falar dele ou o viu. Por isso, começou a achar
que ele não tinha
falado a sério quando disse que ela seria o objeto de suas atenções,
quisesse ou não. E esse erro de julgamento tinha acabado por lhe dar um
falso senso de segurança.
Pasma, olhou para ele, completamente incapaz de falar. Rolt estava
vestido de um modo simples, à vontade, o tecido colante de sua camisa
combinando com suas calças
azuis claras. A largura do peito masculinp era delineada pela camisa,
que acentuava a cintura fina. Metade dos botões estava fora das casas,
deixando à mostra os
pêlos castanhos, crespos, que faziam contraste com o bronzeado de sua
pele. Uma brisa leve despenteava seu espesso cabelo castanho, dourado
pelo sol. Sua boca tinha
uma expressão sensual. Ele deu um passo para a frente e o movimento fez
com que Alanna recuperasse a voz.
- Como entrou aqui? - perguntou, zangada.
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.- Ninguém atendeu a porta. Ouvi o rádio tocando e vim investigar.
A direção de seu olhar velado tornou Alanná subitamente cônscia de seu
biquini desamarrado, e do quanto a parte de cima, solta, deixava ver de
seus seios. Largou
o livro e rapidamente amarrou o biquini em torno do pescoço.
Colocando os pés no concreto aquecido pelo sol, levantou-se. O biquini
mínimo a fazia sentir-se nua demais, mas sua jaqueta estava sobre a
cadeira ao lado de Rolt.
- Quer fazer o favor de ir embora? Não tenho nenhuma vontade de vê-lo -
disse, sentindo muita dificuldade em se mostrar controlada e calma.
Rolt ignorou o pedido pouco cortês.
- Notei que o carro de seus pais não está. A sua governanta também está
fora, não? - Ele se debruçou e pegou a jaqueta, segurando-a na mão. Seu
olhar percorreu as
curvas suaves dela.
A pele de Alanná estava em fogo. O rubor começava lentamente a tomar
conta de seu pescoço. Ela queria a jaqueta desesperadamente, para
esconder seu corpo dos insolentes
olhos azuis, mas por nada no mundo a pediria a ele.
- Vá embora, Rolt. - Jogou a cabeça para trás, num desafio cheio de
orgulho.
- E deixar você aqui sozinha, sem ter quem a distraia? Eu não seria
capaz de fazer isso - caçoou.
- Se não for embora, vou chamar a polícia. - Alanná ameaçou.
- Vai mesmo? - Rolt respondeu com suavidade e ela percebeu que para
chegar até a casa e o telefone, teria que passar por ele. Não era
preciso muita percepção para
saber que ele não a deixaria cumprir sua ameaça.
- Se não sair daqui - falou, zangada -, vou gritar.
- Vá em frente. - O olhar dele prendeu-se em seus lábios úmidos. - vou
gostar muito de fazé-la se calar.
Alanná inspirou profundamente e deu meia-volta, trémula de raiva. Como
gostaria de desafiá-lo e gritar até ficar surda, mas a ideia de seus
lábios duros sufocando
os dela a detinha.
- Por que continua aqui, quando sabe o quanto o desprezo? perguntou, com
uma voz estrangulada.
- Eu acho você atraente e desejável - declarou.
- Mesmo que eu esteja saindo com seu irmão? Não se sente culPado, não?
41
- Decidi que não a quero como futura cunhada. Quero-a para mim.
- Mas eu não o quero! - Alanna gritou, irritada. De repente uma ideia
lhe ocorreu, deixando-a muito quieta. Inclinou a cabeça para um lado e
olhou-o com atenção.
- Ou é por isso? Sabe que não gosto de você e acha que sou um desafio,
não é?
Os olhos da cor do índigo tornaram-se mais profundos, escondendo os
pensamentos dele como se fossem dois poços escuros e
indecifráveis.
- Talvez. - Seu tom de voz distante tornava a resposta neutra.
- É isso, não? - Estava certa de ter razão. - Sou um desafi para seu ego
supervaidoso. Só porque prefiro seu irmão a um
peixe morto como você.
- Morto? - Rolt ergueu uma sobrancelha bem-feita, numa zon baria
arrogante.
- É, morto - Alanna repetiu, com ênfase. - Você é frio e insei sível.
Não tem sentimentos, nem compaixão por ninguém além
de você mesmo. Nem mesmo pelo seu irmão.
Ele apertou a boca.
- Então como explica o que sinto por você?
- Você é a raposa e eu sou as uvas fora de seu alcance. Sentimentos não
entram nisso, senão não estaria aqui, sabendo
quanto o detesto.
- Talvez eu queira fazê-la mudar de opinião.
- Nunca vai conseguir isso - Alanna falou, zangada.
- Você não foi feita para meu irmão. Você é minha. - Seus olhos tinham
um brilho tremendamente possessivo. - Ele nunca
a faria feliz.
- E você faria, eu suponho - ironizou.
- Eu a faria muito feliz - declarou, com plena certeza. Alanna voltou a
cabeça, furiosa com o convencimento inacreditável
dele. Pela sua mente passaram mil palavras, frases cheias de desprezo
que lhe mostrassem o quanto era indigna sua arrogância. Elas que mavam
em sua boca, e Alanna
estava doida para lançá-las no rosto dele. Mas as palavras não o
atingiriam como desejava, reduzindoa zero. Havia outro modo, no entanto,
de conseguir isso. Olhou-o
por cima do ombro, com um ar cansado e cético.
- Desculpe se acho difícil de acreditar. Mas como pode estar tão certo
disso, se mal me conhece?
42
O olhar dele se estreitou, especulativo.
Acho que a conheço mais do que você mesma.
- Realmente? - Alanna provocou, cheia de ironia. Deliberadamente
aproximou-se mais, até ficar em frente a ele, inclinando a cabeça para
trás para olhá-lo bem
dentro dos olhos. Seu coração bateu mais forte; seu plano era ousado e
perigoso. Então por que não gosto de você?
- Porque está com medo - Rolt respondeu prontamente. com medo de mim e
de você mesma.
Por um momento, a resposta dele a desconcertou. Seus olhos cor de
violeta expressaram confusão, que ela escondeu rapidamente, mas não
antes que Rolt notasse.
- Eu não tenho medo de você - negou - e nem de mim, com toda certeza.
- Não tem? - Os lábios dele curvaram-se num sorriso divertido,
ligeiramente superior e caçoísta.
- Não.
O brilho que surgiu em seus olhos ria da resposta de Alanna. Ela
respirou fundo, controlando a zanga. Então mordeu o lábio inferior
pensativamente, examinando Rolt
por entre os cílios. Reunindo coragem, estendeu a mão, tocando com os
dedos o tórax dele, onde a camisa se
abria. Sentiu-o enrijecer e uma sensação de vitória iminente
percorreu-a.
- Não estou com medo de você - repetiu, deixando os dedos deslizarem
lentamente por sua camisa, até o colarinho.
Ficando na ponta dos pés, levantou a cabeça na direção da linha severa
da boca de Rolt. Ele esperou, sem se mover, mesmo quando
os lábios dela tocaram os seus de
leve. Alanna chegou mais perto, colocando as mãos em torno de seu
pescoço forte. Ele colocou as mãos em sua cintura, de leve, sem segurá-
la na realidade.
À medida que o beijo se prolongava, Alanna sentiu a boca de Rolt mover-
se em resposta, tomada pelo desejo. Fingindo relutância, Aprendeu de
repente seus lábios trémulos
dos dele, mas não fez nenhuma tentativa para se afastar, deixando as
mãos dele continuarem
em sua cintura, enquanto descansava a cabeça naquele peito rijo como
granito.
Os olhos dele brilhavam de um modo sombrio, sensuais e sedutores,
parcialmente velados por seus cílios espessos.
A cabeça de Rolt inclinou-se ligeiramente para ela. Alanna deteve
o movimento pressionando os dedos contra sua boca e fazendo um
43
pequeno gesto negativo com a cabeça. Rolt não discutiu nem tentou se
impor, esperando, sem que a expressão perturbadora deixas seu olhar.
- Vê, não estou com medo de você - murmurou. Só sua força de vontade a
conservava imune à virilidade dele. Durante mais
alguns segundos, os olhos de Alanna continuaram
sem expressão. - Sabe por que eu o beijei? - Seus dedos voltaram para o
peito dele.
- Por quê? - A voz de Rolt soou baixa, levemente divertida sem revelar
nada da paixão que brilhava tão viva, por entre
o V de seus longos cílios. Seu controle era
soberbo.
- Porque. . . - seu olhar desviou-se do dele e ela respirou fundo,
tentando controlar um tremor de raiva - eu queria que soubeque o que
sinto por seu irmão não vou
sentir nunca por você.Não são seus beijos que quero, mas os dele. Não
quero que me
abrace ou que me toque. Nunca vou ser sua, porque o acho repulsivo.
No final, sua voz vibrava de ódio. Tentou se afastar dele,mas suas
palavras de desprezo não o tinham deixado sem reação,
como esperava.
Rolt soltou sua cintura, mas suas mãos agarraram a carne macia de seus
braços, puxando-a brutalmente para junto de si.
Abracando imediatamente, esmagou-a num círculo
de ferro, prendendo os braços dela entre os dois corpos. Alanna debateu-
se desesperadamente,
tntando escapar.
Ele riu, de um modo áspero e grave, zombando de seus esforços inúteis.
Alanna parou de lutar, sabendo que se continuasse se
em vão, e jogou a cabeça para trás, olhando-o
friamente.
Os olhos de Rolt estavam duros e a linha de sua boca estava mais cruel
do que nunca. O que ela tinha feito não o reduzira a
zero, só tinha despertado sua fúria. Uma fúria
silenciosa, que fez com Alanna prendesse a respiração, zangada por
deixar que ele a
intimidasse.
- Nunca? - Rolt provocou-a, com escárnio.
Antes que pudesse fugir dele, sua boca prendia a dela com força
destruidora, impedindo-a de respirar, consumindo e
destruindo sua ilusão de que um beijo era um
ato de amor e afeto. Sua posse era cheia de uma selvageria controlada,
dominando-a até que
sentiu o gosto ácido da derrota em seus lábios úmidos. Ela se debateu
lutando
contra os braços que a esmagavam, mas ele não a soltou.
O tecido das calças dele deixava marcas vermelhas em suas pernas.
44
As coxas musculosas, como colunas sólidas de pedra, comprimiam-se contra
sua carne. Os braços que a seguravam forçaram sua
espinha para trás, moldando-a
ao corpo dele; o sangue latejava em seus ouvidos e o cheiro almiscarado
e atordoantc de Rolt a deixava tonta.
Sua boca cruel libertou os lábios inchados dela, que agora tremiam de
incredulidade. Alanna respirava aos borbotões, reconhecendo com a cabeça
abaixada, a força
superior que a tinha derrotado, e sua incapacidade de se defender. A
ignomínia de sua derrota deixava
suas faces coradas.
Rolt afastou um dos braços e com a mão livre agarrou seu rosto,
forçando-o a se voltar para cima, de um modo punitivo. Os olhos de
Alanna flamejaram de ressentimento,
ao ver que ele queria verificar a extensão de sua vitória. A máscara
bronzeada, formada por suas
feições ásperas e másculas, não parecia ter relação com o castigo
primitivo que ele lhe infligira,. Mas seus olhos azuis ainda flamejavam
com uma luz sombria e amedrontadora.
- Eu odeio você! - As palavras saíram estranguladas, pois os dedos dele
apertavam sua garganta e um soluço amargo saiu de seus lábios.
- Pode me odiar o quanto quiser. - As rugas em torno de sua boca
aprofundavam-se, cheias de ironia. Alanna percebeu que seus sentimentos
e emoções não interessavam
a ele. - Mas você vai ser minha.
- Não! - Ela quase tinha dito "nunca", mas duvidava que pudesse fazer
frente a ele uma segunda vez. Sua resistência ainda estava ,em pé e não
queria vê-la por terra.
- Sim. minha Alanna. - O tom possessivo e cheio de certeza da voz dele
deixou-a gelada. Rolt riu suavemente, de um modo zombeteiro, ao ver o
tremor incontrolável
que sacudiu seus ombros. -Lembre-se disso, quando Kurt a beijar. Porque
logo você só vai
receber os meus beijos e os dele vão desaparecer de sua memória. A
aliança
que vai usar será a minha. Quando se deitar na cama ao lado de seu
marido, nua, este homem serei eu. Ninguém mais.
O coração de Alanna pulou de medo. A voz lenta e hipnotizadora pintava
um quadro que ela podia enxergar claramente. Era como se estivesse
olhando para o futuro e
vendo seu destino escrito no brilho de índigo dos olhos dele.
45
Alanna moveu a cabeça num gesto mínimo de protesto. Os dedos de Rolt, em
seu rosto, se relaxaram, como se ele soubesse que ela não seria capaz de
desviar o olhar.
Sua mão deslizou pela curva suave do pescoço dela, até cobrir seu seio,
sentindo o coração qUe batia loucamente.
- Quem vai acariciá-la sou eu, Alanna - Rolt continuou roucamente -, e
eu vou conhecer seus segredos íntimos. O nome que você vai sussurrar na
noite será o meu.
- Um som inarticulado saiu da garganta de Alanna, quase que como uma
rendição, e a máscara impassível do rosto dele brilhou de satisfação. -
Seus olhos me dizem
que acha que isso pode ser verdade. Vai ser verdade. com o tempo, vai
descobrir isso.
Ele soltou-a então, completamente. Alanna oscilou, desequilibrada.
Sentia-se quente e fria ao mesmo tempo, atordoada com o choque, mas cada
partícula de seu corpo
estava viva. A ambivalência de sua reação era assustadora. Olhou, sem
ver, para o chão do pátio, tentando entender como podia sentir tantas
coisas ao mesmo tempo.
Sentiu algo sobre os ombros e olhou para cima, atordoada. A jaqueta
cobria seu biquini, dando-lhe proteção tarde demais. Rolt estava em pé
ao seu lado, observando-a.
Seu olhar vazio encontrou os olhos enigmáticos dele.
- Quero que jante comigo amanhã à noite - Rolt declarou. Por um momento
só conseguiu olhar fixamente para ele, perdida
em seu mundo despedaçado. Mas, como uma fénix renascendo das cinzas, sua
determinação retornou.
- Não - recusou decididamente.
Rolt encolheu os ombros, como a dizer que era só uma questãu de tempo, e
aceitou a decisão dela. Quando falou, sua voz era suave, muito clara,
calma e implacável:
- Não se esqueça do que eu lhe disse. Alanna cobriu as orelhas com as
mãos.
- Vá embora daqui - gritou asperamente.
Fechou os olhos, tentando esquecer o quadro que ele pintara tão bem.
Rolt saiu do pátio tão silenciosamente quanto tinha
entrado. Alanna não se moveu, até que o som
de um motor sendo ligado alcançou seus ouvidos tapados. com um soluço
deixou-se cair na espreguiçadeira, mas não chorou. Estava muito zangada,
frustrada e confusa
para isso.
46
Nada do que ele tinha dito era possível, dizia para si mesma, golt não
podia obrigá-la a se casar com ele contra sua vontade. Por
um momento ele exercera seu
fascínio sobre ela, e tinha feito com que acreditasse nele. Nada daquilo
podia se tornar verdade sem seu consentimento. E ela nunca o daria.
Nunca!
E ela nunca o daria. Nunca!
47
A lâmpada iluminava fracamente a porta da frente. O ar noturno estava
perfumado pelo cheiro penetrante e sempre presente dos
pinheiros. Grilos e cigarras cantavam
sem parar. Àquela hora, não havia trâfego nenhum na rua.
Na sombra lançada pela lâmpada, o beijo de Kurt aprofundou-se com ardor
persuasivo, mas Alanna não o sentia. Sem que quisesse ou pudesse
impedir, era o beijo de
Rolt que abalava seus sentidos. A lembrança chegou tão de repente, tão
inesperadamente, que se livrou violentamente do abraço de Kurt. Quando
viu o olhar espantado
de seus olhos azuis, em vez do brilho cor de índigo dos olhos de Rolt,
percebeu o que tinha feito.
- O que aconteceu? Que foi que eu fiz? - Sua voz se entremeou ao riso
espantado.
Alanna voltou-lhe as costas, incapaz de encontrar seu olhar observador.
- Não. . . não é nada. - Sua negativa hesitante foi acompanhada por uma
certa irritação pelo seu próprio comportamento.
- Alguma coisa está errada - ele insistiu, segurando-a pelos ombros
tensos e fazendo-a voltar-se para encará-lo. - Diga o que aconteceu -
tentou convencê-la com
delicadeza.
Ela olhou para suas feições bem-feitas e sentiu uma sensação de
impotência invadi-la. Não havia como contar a Kurt a visita de Rott
aquela tarde ou explicar como
isso a afetara. Inclinou a cabeça para trás, balançando-a numa negativa
cansada.
48
- Eu... eu estou com uma ligeira dor de cabeça.
Esta podia ser a desculpa mais antiga do mundo, mas Kurt não tinha por
que não acreditar nela. Aceitou sua desculpa e sorriu com tristeza.
- Devia ter dito mais cedo - ele disse.
- Não queria estragar nossa noite - Alanna respondeu.
- Você provavelmente tomou sol demais esta tarde. - Kurt sugeriu.
Foi Rolt demais, pensou, com amargura.
- Talvez - concordou com um leve aceno de cabeça.
- Não queria que entrasse agora, mas acho que é melhor. Eu lhe telefono
amanhã, certo? - Inclinou a cabeça morena para um lado.
- Certo - Alanna concordou e levantou a boca para um beijo de boa-noite.
Ele roçou seus lábios de leve, mas eles continuaram frios e sem
corresponder à gentileza dele. A lembrança de Rolt ofuscava a realidade
do momento, estragando qualquer
prazer que ela pudesse ter com a carícia de Kurt.
Uma vez dentro de casa, apoiou-se na porta, fechando os olhos por um
instante. Não se esqueça, Rolt tinha lhe dito. Ele não precisava ter se
preocupado, pensou,
com amargura. Esta noite ele conseguira se colocar, com sucesso, entre
ela e Kurt, e Alanna tinha a impressão desagradável que esta não seria a
última vez que isso
ia acontecer.
Por volta das dez horas, na manhã seguinte, o telefone tocou. Alanna,
que estava mais perto, atendeu.
- Casa dos Powell - disse automaticamente. - É Alanna quem está falando.
- Como vai sua dor de cabeça?
A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi que Kurt estava lhe
telefonando, .como tinha prometido.
- Já acabou - respondeu, com uma despreocupação forçada. A- risada baixa
e zombeteira que ouviu, então, fez com que comPreendesse seu erro. Era
Rolt. - Como sabia
disso? - perguntou, zangada.
- Quando vi Kurt esta manhã, não pude deixar de comentar como ele
parecia descansado. Ele explicou que tinha ido dormir cedo, porque
49
você estava com dor de cabeça. - Sua voz provocadora caçoava
da desculpa dela.
- Por que telefonou, Rolt?
- Tenho que ter uma razão?
- Não, mas estou certa que tem. - E, provavelmente, era para se
vangloriar.
- Talvez eu quisesse ouvir a sua voz.
- Bem, espero que tenha se divertido, ouvindo-a. - Alanna bateu-lhe o
fone no gancho com toda força, desejando que tivesse
arrebentado os tímpanos dele, mas duvidando que tivesse tanta sorte.
Por mais uns momentos olhou zangada para o telefone, depois virou as
costas e se foi.
Sua mãe a observava, com um brilho divertido nos olhos.
- Foi Rolt Matthews quem telefonou? - perguntou.
- Foi. - A resposta de Alanna foi brusca, uma consequência para de sua
zanga.
- Estava imaginando quando ele telefonaria - Elinore Powel gentilmente
comentou, inclinando a cabeça com ar de quem sabia de algo.
- O que fez você pensar que Rolt telefonaria? - Ela estava cançada e com
os nervos à flor da pele.
- Lembra-se de quando ele e Kurt estiveram aqui durante a Páscoa? Bem,
pelo modo como ele a olhava, posso dizer que ficou
muito interessado em você. Provavelmente
você estava muito envolvida com Kurt para notar, mas eu percebi - sua
mãe declarou.
- Bem, eu não o suporto - Alanna falou bruscamente.
- Ele a deixa zangada; não é?
- Sim. Ele é. . . - Interrompeu-se bruscamente, reconhecendo de repente
o brilho nos olhos de sua mãe, e adivinhando a causa.
- Não me olhe assim, mamãe -
falou, com impaciência. - Não é nada do que está pensando. Ele pode me
irritar, mas nunca me levará até
o paraíso terrestre.
Alanna voltou-se e correu cegamente para fora da sala.
sua mãe estava se transferindo para o campo inimigo!
Ficou revoltada com a injustiça daquilo. Rolt lançava uma longa
sombra, a sombra de um gigante, que parecia cada vez mais alcançar sua
vida.
Durante o resto da semana, Rolt não tentou mais entrar em contato direto
com Alanna. Não precisava, desde que tinha dado
50
um jeito de interferir, com bastante sucesso, de um modo ou de outro.
Por duas vezes, quando estava com Kurt, ela o vira rapidamente,
e seus pais o convidaram para jantar uma noite. Por sorte, Alanna já
tinha planejado sair com Kurt.
A maior parte das vezes, era só a lembrança dele que a perturbava. Cada
vez que estava com Kurt, Alanna se lembrava daquela
tarde e das coisas que Rolt tinha feito
e dito. Não conseguia esquecê-las e nem relaxar. Quando Kurt a tocava ou
segurava, ficava
vigiando suas próprias reações, não querendo repetir o que tinha
acontecido
na outra noite, na porta de sua casa. com isso, estava sempre tensa e
pouco à vontade. Para encobrir isso, Alanna se tornou super
amigável e afetuosa, tentando provar
a si mesma e a Kurt o quanto gostava dele.
com os dedos entrelaçados aos dele, levou-o da pista de dança para a
mesinha no bar superlotado, rindo por cima do ombro, olhando para seu
rosto simpático. Era sábado
à noite. O bar estava cheio de gente, e suas vozes e risos tornavam
difícil ouvir o conjunto local. Não que isso realmente importasse. Todos
estavam lá para se divertir,
a música só fazia fundo.
A calça e o casaquinho brancos que usava não eram a roupa ideal para um
local lotado como aquele, mas Alanna sabia que realçavam sua figura
esbelta e o bronzeado
dourado que tinha adquirido. E os tons cinza e alfazema da blusa que
usava por baixo tornavam mais claro o tom violeta, tão pouco comum, de
seus olhos. Naquela atmosfera
descontraída, ela se sentia bem encantadora.
O brilho ardente dos olhos de Kurt pareciam confirmar que ele estava,
definitivamente, preso aos encantos dela. Não soltou sua mão, enquanto
reclamavam as cadeiras
que tinham deixado vagas para irem dançar. Quando as desocuparam,
colocou-as tão perto uma da outra que seus ombros se tocavam.
Kurt inclinou-se e esfregou o rosto contra as mechas castanhas de
cabelo, perto do lóbulo da orelha de Alanna.
- Eu a amo, Alanna - murmurou roucamente. Afastou-se alguns centímetros,
com um olhar maravilhado, como se estivesse surpreso Pelo que tinha
acabado de dizer. -
Eu a amo, Alanna - repetiu com convicção.
Desde a Páscoa que ela esperava por aquelas palavras. Agora, mais
que nunca, elas a deixavam segura. As ameaças de Rolt perderam o
significado e Alanna sentiu-se animada de novo.
51
- Eu o amo, também, Kurt - disse, com um calor genuíno.
- Este é um lugar completamente louco, para lhe dizer isso. O olhar dele
percorreu o lugar barulhento rapidamente, antes de fixar de novo no
rosto dela.
- É um lugar maravilhoso - protestou suavemente.
- Há quanto tempo nos conhecemos? Um mês?
- Mais ou menos.
- É claro que tem gente que se apaixonou em menos tempo que isso, não é?
- Kurt raciocinou.
- Muita gente - Alanna concordou.
- Nós deveríamos era estar em um restaurante de luxo, bebendo champagne.
- Ele sacudiu a cabeça morena.
- Em Minnesota?
- Sim, em Minnesota. - Kurt, sorriu. - Deveria tê-la levado para lá esta
noite, em vez de trazê-la para cá. Ou deveria ter
esperado para lhe dizer quando estivéssemos
sozinhos.
- Isso tem importância? - Ela inclinou a cabeça para um beijo abrindo os
lábios num convite. - Acha que o lugar tem mesmo
importância?
- Não, se você disser que me ama, de novo.
- Eu o amo.
- Alanna. . . - Ele pronunciou seu nome como uma carícia enquanto
aproximava sua boca daqueles lábios convidativos.
- Kurt! Alanna! Mas que surpresa encontrar vocês dois aqui. A voz seca e
caçoísta de Rolt separou os dois
instantaneamente. Pensei que levaria Alanna para um lugar
menos público.
Alanna levantou a cabeça, pressentindo o perigo. O sentimento de
segurança desapareceu. Não tinha mais certeza de que o amor A Kurt seria
capaz de protegê-la. Não
contra Rolt.
- Na hora, parecia um bom lugar. Só agora estou começando a ver as
desvantagens - Kurt disse. Alanna sentiu que ele sorria e rapidamente
sorriu-lhe de volta, seu sorriso
uma imitação tensa do dele.
- O que está fazendo aqui, Rolt? - Seus olhos o acusavam estar
espionando.
- Parei para tomar um aperitivo; tinha me esquecido de que era sábado -
ele respondeu sem expressão. - Já ia saindo
quando vi vocês dois.
- Não se detenha por nossa causa - Alanna disse, com sarcasmo.
52
golt riu e puxou uma cadeira vazia para se sentar à mesa deles, sem ser
convidado.
As vezes acho que você não gosta de mim, Alanna.
Só às vezes? - A provocação foi dita entre os dentes cerrados.
É, só às vezes - ele concordou preguiçosamente. Seu olhar
desviou-se sugestivamente para a boca de Alanna, quase que a tocando
fisicamente, para lhe lembrar os beijos que tinha roubado.
Alanna ficou vermelha como um pimentão. Ele fazia com que a resistência
dela parecesse algo fingido. Além disso, aumentava sua sensação de culpa
por não ter contado
a Kurt sobre aquela tarde em que Rolt a visitara. Kurt rodeou seus
ombros com um braço e, por um instante, Alanna se enrijeceu, lembrando-
se de outro braço forte
que a tinha mantido prisioneira. Teve que se forçar a relaxar de
encontro ao ombro protetor de Kurt.
- Do modo como tenho monopolizado o tempo de Alanna ultimamente - Kurt
falou -, não tenho lhe dado muita chance de
competir por ela, Rolt. Detesto lhe dizer
isso, irmão, mas já é tarde. Ele apertou o braço contra os ombros dela,
trazendo-a mais para
perto. Então beijou-a na testa. - Em um futuro não muito distante,
Alanna
será, legalmente, um membro da família.
Sua declaração lhe deu uma sensação breve de confiança. Ela abaixou as
pálpebras, escondendo o brilho de triunfo que havia em seus olhos,
olhando rapidamente para
Rolt, para ver sua reação ao que Kurt tinha dito. O olhar longo que ele
lhe deu era velado e indecifrável. Não parecia nem surpreso nem
aborrecido com a notícia.
Sua ligeira inclinação de cabeça parecia indicar resignação.
- Preciso brindar a isso. - Rolt sorriu de um modo falso. Voltou-se e
chamou a garota que passava pela mesa deles, com uma bandeja de bebidas.
- Garçonete! Um uísque
com água para mim, por favor. Mais dois iguais para eles.
- Meu irmão mais velho tem uma coisa - Kurt disse para Alanna. - Uma vez
que se considere vencido, ele admite isso. É claro que Rolt perde tão
pouco, que pode- proceder
com classe quando é derrotado.
Mas Alanna não confiava em Rolt. Esperava que o que Kurt tinha dito
fosse verdade, mas não podia esquecer o modo positivo com que Declarara
que ela lhe pertencia.
Quando as bebidas chegaram, segurou seu copo gelado e olhou para Rolt
cautelosamente.
Ele levantou seu copo e encostou-o primeiro no de Kurt, depois
53
segurou-o contra o de Alanna. Seu olhar enigmático prendia o sem
permitir que o desviasse.
- Ao dia... - sua voz era forte e firme - em que Alanna tornar-se-á sra.
Matthews.
Foi como se uma faca penetrasse em seu coração. Naquele momento
horrível, ela soube que ele queria dizer sra. Rolt
Mattheus. Não tinha admitido a derrota. E, mais
ainda, ele sabia que ela tinha percebido, mesmo que o irmão não tivesse.
O brilho zombeteiro de seus olhos lhe dizia isso.
- Beba, Alanna - Kurt animou-a. A mão dele cobriu seus dedos
paralisados, sustentando o copo e levando-o a seus lábios. Antes
que pudesse detê-lo, a bebida já estava
em sua boca.
- Agora que já brindei à futura noiva, faz alguma objeção a que eu dance
com ela? - Rolt perguntou.
- Nenhuma. - Kurt retirou os braços dos ombros de Alanna colocando-a
generosamente sob a custódia do irmão.
"Não vê o que ele está fazendo?", Alanna gritou por dentro, mas Kurt não
percebeu. Sorriu para seu rosto pálido e empurrou-a na direção do irmão,
que agora estava
em pé ao lado da cadeira dela, esperando. Sentindo-se abandonada, ela se
levantou, aceitando com frieza que ele colocasse a mão em suas costas
para guiá-la.
A pequena pista de dança estava lotada, bem como o bar. Mas Alanna deu
um jeito de se manter afastada de Rolt, quando ele se voltou para toma-
la nos braços e começou
a dançar ao ritmo lento da música. Seus dedos estavam rígidos na mão
dele e apoiou a outra mão no menor espaço possível de seu ombro
musculoso. Olhava para os outros
em vez de olhar para seu par.
- Suas manobras não vão dar resultado, você sabe - murmurou baixinho. -
Eu amo realmente Kurt e vou me casar com ele.
- Vai, é? - ele replicou suavemente.
Alanna lançou-lhe um olhar raivoso e apertou os lábios com força. Era
perda de tempo tentar convencê-lo; ele era por demais arrogantí e
convencido para ouvir. Assumiu
um silêncio gelado.
- Como vão seus pais? - Rolt perguntou.
- Bem - respondeu friamente.
- É mesmo? - murmurou, parecendo saber algo que ela não sabia, pois sua
voz era cheia de dúvida.
Alanna errou um passo e imediatamente ele a apertou mais, segurando-a
54
pela cintura. Ele não havia perguntado por seus pais só para uxar
conversa. Tinha tanta certeza disso quanto sabia seu
nome.
Por que perguntou isso? - quis saber, cautelosamente.
- Achei que seu pai parecia aborrecido com alguma coisa, quando estive
lá para jantar, outro dia. - Rolt sacudiu os ombros, parecendo
indiferente. - Será que ele
não aprova Kurt? Como ela odiava aquele brilho complacente nos olhos
azuis escuros!
- Eles pensam muito bem dele. - Principalmente porque é seu irmão, teve
vontade de dizer. Mas não admitiria isso para Rolt nem sob tortura.
- Sabe o que o está aborrecendo?
- Está preocupado com mamãe - declarou com vivacidade, não querendo
discutir isso com ele.
- Ele lhe disse isso?
- Disse, sim.
Na pista de dança superlotada, sempre havia cotovelos e ombros
empurrando-a, diminuindo os preciosos centímetros que a separavam de
Rolt. com a perda de cada centímetro,
o braço dele a apertava mais, impedindo que se afastasse de novo. Agora,
suas coxas musculosas encostavam nas dela, mas Alanna estava muito
ocupada com o porquê
daquelas perguntas para se preocupar com isso.
- Por que está me fazendo perguntas sobre meus pais?
- Queria saber por que seu pai estava aborrecido. Ele me disse mesmo que
estava preocupado com sua mãe, por isso tenho certeza de que deve ser
esta a razão. - A
resposta dele era calma demais.
A respiração de Alanna tornou-se superficial e ela sentiu um nó na
garganta.
- O que você sabe que eu não sei? - perguntou. Rolt inclinou a cabeça
para um lado.
- O que a faz pensar que sei de algo?
- Você sabe alguma coisa - declarou, zangada, mas com certeza. .- O que
é? Tenho o direito de saber.
- Estou certo que tem - concordou.
- Então diga.
- Este não é um lugar próprio para uma conversa particular. Seu olhar
percorreu a sala em volta.
- Eu quero saber - Alanna repetiu.
Rolt parou e ela percebeu que a música havia terminado.
- Está bem - concordou. - vou lhe contar. - Ele parou e
55
seu olhar examinou o rosto de Alanna, que olhava para o seu. sUa
expressão era velada e indecifrável. - Venha ao meu escritório
terça-feira, às seis da tarde. vou
dizer ao guarda do portão para esperá-la
- Terça-feira? - protestou, franzindo a testa.
- vou viajar amanhã cedo. Até lá, vou estar fora da cidade. Alanna
apertou as mãos, frustrada.
- Isto é uma armadilha, não é? - acusou. - Está fazendo isso tudo só
para eu me encontrar com você.
- O único modo de você ter certeza é me encontrando na terçafeira. - Sua
boca curvou-se em um sorriso sem alegria. - Vamos voltar para a mesa
antes que Kurt fique
impaciente?
Alanna voltou-se com vivacidade. Ele estava sendo deliberadamente
misterioso. Ela sabia que podia implorar que Rolt não
ia lhe contar nada naquela hora. Se é que havia
algo para ser dito. Ainda não estava convencida, mas também não tinha
certeza do contrário.
Embora Rolt tivesse ido embora logo depois de voltarem para mesa, o fato
dele ter aparecido, mesmo por pouco tempo,
arruinou o resto da noite de Alanna. Ela não
conseguiu recapturar a atmosfera de alegria e contentamento que havia
acompanhado a
declaração de amor de Kurt. Tentou corresponder com o mesmo grau de
sinceridade,
mas sabia que estava fingindo, embora achasse que Kurt não estivesse
percebendo. Sua cabeça estava ocupada por duas coisa: preocupação com o
bem-estar de seus pais
e a certeza de que Rolt ainda pretendia fazê-la dele.
A espera aumentou sua aflição. Alanna não sabia se Rolt tinh mesmo
conhecimento de algo a respeito de seus pais, ou se
estava fingindo, só para que ela concordasse
em se encontrar com ele. Mas se fosse isso, que diferença faria? Só por
se encontrar com ele,
não ?queria dizer que ia mudar de ideia. Assim, chegou à conclusão de
que havia uma boa possibilidade de Rolt realmente saber de algo.
Por duas vezes, nos dias que se seguiram, Alanna encontrou seu pai e fez
uma série de perguntas a ele, tentando conseguir uma
informação que lhe desse uma pista.
As respostas dele não ajudaram en nada. Insistia que o problema era
cansaço, que estava com um
ombro dolorido de jogar golfe e preocupado com a esposa. Só isso. Tudu
parecia estar em ordem, mas Rolt fez com que ela ficasse desconfiada
.Alanna franziu a testa e arrancou impaciente a erva daninha
qe crescia no canteiro de flores.
Não queria encontrar Rolt naquela noite mas parecia o único jeito de pôr
um fim a todas as suas
duvidas
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e perguntas. O sol de junho estava quente. O suor escorria por suas
espáduas e era absorvido pelo tecido do bustiê.
Um automóvel parou na entrada de carros. Alanna olhou por cima do ombro,
esfregando as costas da mão enluvada na testa. Um suspiro aiu de seus
lábios, inesperadamente,
ao ver Kurt descer do carro. Não era a reação que deveria ter, ao ver
chegar de surpresa seu futuro
marido. Imediatamente ela se endireitou e seus lábios se abriram
num sorriso caloroso de boas-vindas.
- Kurt, mas que surpresa! - exclamou.
- Falando de surpresas... - Ele riu, percorrendo-a com um olhar cheio de
admiração. - Não sei por que, sempre que imaginava
a pequena srta. Mary trabalhando no
jardim, ela vestia aventais e babados, nunca short sexy e bustiê. Devia
visitar o jardim dela com mais frequência. - As mãos dele pousaram em
sua cintura e ele beijou-a
profundamente.
- Hum - ela suspirou, quando ele finalmente a deixou respirar de novo. -
Agora entendo por que ela era tão obstinada. Estava sempre sendo
abordada por homens simpáticos.
- As mãos dele continuavam entrelaçadas nas costas dela, segurando-a bem
perto. Alanna inclinou a cabeça para trás, para olhá-lo no rosto. -
Falando sério, Kurt,
como conseguiu sair da fábrica no meio do dia?
- Tinha algo a fazer, assim peguei uma hora a mais para almoçar
- ele explicou.
- E por acaso estava na redondeza e resolveu parar aqui, não é?
- perguntou, sorrindo.
O riso provocante abandonou seus olhos quando ele desenlaçou as mãos.
- Vim para completar algo - Kurt disse. - Parei num joalheiro e peguei
isso. - Ele pegou uma caixa do bolso e abriu.
- É lindo - Alanna murmurou, olhando para o anel: um enorme Brilhante,
cercado por outros menores, no formato de pétalas.
- Para tornar tudo oficial, Alanna, quer se casar comigo? - Kurt
Perguntou suavemente.
- Quero. - Sua resposta foi quase inaudível. De certo modo, o anel fazia
tudo parecer tão mais real e imutável.
- Me dê sua mão - ele disse, retirando o anel do estojo de veludo.
Alanna levantou a mão direita, retirando rapidamente a luva, e estendeu-
a para ele. Reverentemente, Kurt colocou o anel em seu dedo.
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- Acho que está muito largo - ele comentou, com uma careta.
- Não tem importância - protestou, não querendo perder seu talismã. Ela
sentia que ele a protegeria, mas não queria pensar do
que.
- Tem sim. Quero que fique perfeito; tão perfeito quanto você Alanna -
declarou roucamente.
- Não sou perfeita - negou.
- Para mim, é. - Ele retirou o anel de seu dedo, colocandona caixa. - O
joalheiro disse que o tamanho pode ser facilment reajustado. vou levá-lo
agora à tarde para
ele e pegar esta noite, depois do trabalho. Quando eu o puser de novo em
seu dedo,
não vai sair mais.
- Não. - Alanna balançou a cabeça, olhando desconsolada para; a
caixinha, até que ela desapareceu, mais uma vez, no bolso dele. Kurt
colocou um dedo sob seu queixo
e levantou-o.
- Esta noite, vamos fazer tudo certinho. Champanhe, luz de velas tudo -
prometeu. - Uma verdadeira celebração.
Ela enterrou os dentes brancos no lábio inferior.
- Esta noite não dá, Kurt - murmurou.
- Por que não? - Ele inclinou a cabeça para um lado, tentando ler em
seus olhos a expressão que os cílios escondiam.
Alanna não encontrava palavras para lhe dizer que ia ver Rol; ou para
dar a explicação que uma declaração dessas exigia.
- É um problema de família. - Ela se prendeu a uma meia verdade, desde
que sua única razão para ir ao encontro de Rolt
ra a insinuação dele de que sabia algo sobre
seus pais. - Se eu pudesse, cancelaria isso, mas. . .
- Tudo bem - Kurt interrompeu. - Nós celebraremos amanhã à noite.
- Está bem - concordou, aliviada por ele não forçá-la a dar uma
explicação melhor.
- Acho melhor eu voltar ao trabalho, antes que meu irmão Rolt mande uma
equipe de busca atrás de mim - Kurt disse, relutante
- Ele voltou, então - Alanna comentou.
- Chegou um pouco antes do meio-dia, o que em parte é a razão da minha
hora de almoço tardia. - Ele inclinou a cabeça e
beijou-a.
- Até amanhã à noite.
Alanna abanou a mão para ele, enquanto Kurt virava o carro para ir
embora. Seu interesse pelo jardim tinha desaparecido e estava
ridiculamente deprimida quando se
voltou na direção da casa.-Culpou
58
olt Por isso - a menÇão de seu nome bastava para estragar seu
prazer.
Sua mãe acabava de descer as escadas quando Alanna entrou em casa. Ela
parou.
Foi Kurt que eu vi chegando?
Foi, sim. - Alanna passou a mão, nervosa, pelos cabelos castanhos
aloirados.
Ele não está trabalhando hoje? - Elinore Powell perguntou
curiosamente.
É a hora do almoço dele.
- Era algo importante? Quero dizer, geralmente ele não vem durante o dia
- sua mãe disse, explicando sua curiosidade.
Alanna andou em direção ao hall.
- Ele tinha algo para fazer e parou para dizer alo.
- Sei. Acho que vou descansar um pouco agora, querida.
- Está certo, mamãe.
Quando sua mãe saiu, Alanna sentiu-se enjoada de repente. Por que não
lhe contara sobre o anel de noivado? Mais ainda, por que não havia
mencionado o noivado antes?
Não tinha medo de que seus pais desaprovassem sua escolha. Eles gostavam
de Kurt. Desde sábado, sabia que ele queria se casar com ela. Por que
não lhes contara,
ou pelo menos insinuara isso? Neste momento, ela deveria estar
delirantemente feliz, em vez de estar lutando contra ondas de náuseas.
Por que não estava?
Tudo daria certo, pensou, tentando se acalmar. Depois do temido encontro
com Rolt, esta noite, todas as coisas voltariam a ser como deviam.
Estava se prepcupando
sem necessidade.
59

CAPITULO V

Diminuindo a velocidade do carro, Alanna chegou à entrada da fábrica,


que era fechada por portões de aço. O guarda de segurança caminhou para
ela, quando parou.
Suas mãos tremiam de nervosismo e ela agarrou a direção com força, para
disfarçar.
O guarda se inclinou para olhar pela janela do carro.
- Posso ajudá-la em algo, senhorita?
- Sim, sou a srta. Powell. O sr. Matthews está me esperando - respondeu,
com um sorriso forçado.
O homem examinou sua lista e confirmou:
- O sr. Rolt Matthews está esperando a senhorita.
- Depois de esclarecer, para sua própria satisfação, qual Matthews ela
ia ver, ele chamou um segundo guarda para abrir o portão e permitiu que
Alanna entrasse.
Seu rosto estava corado quando ela entrou. Sabia que muitos operários,
ocupando posições altas e baixas, tinham conhecimento de que namorava
firme com Kurt. Seu encontro com o irmão dele era algo que não passaria
despercebido. Gostaria de já ter falado com Kurt. Prometeu a si mesma
que faria isso no dia seguinte à noite antes que as fofocas chegassem
até ele e fizessem seu encontro com Rolt parecer algo pecaminoso. Alanna
estacionou o carro no espaço vazio ao lado do dele, um Mustang preto,
pegou a bolsa e saiu.
Do lado de fora do carro, hesitou, olhando para a porta do edifício. Seu
medo de que tudo não passasse de uma armadilha voltou.
60
Sentiu o impulso de sair sem ver Rolt, mas, se fizesse isso, nunca
saberia ao certo se ele tinha conhecimento de algo ou não.
Sentiu as pernas fracas ao caminhar pelo corredor. Lamentou não ter
jantado com seus pais antes de vir, mas então chegaria atrasada.
Considerando seu estado de nervos,
a comida provavelmente formaria un bolo desconfortável em seu estômago,
em vez de lhe dar a força que sentia falta naquele momento.
No interior do edifício, seus passos ecoavam no hall vazio que levava ao
escritório de Rolt. Viu-se refletida em uma porta de vidro: a saia de um
tom rosa antigo,
ligeiramente rodada, terminava nos joelhos, mostrando a curva bem-feita
das pernas. A blusa de seda estampada, que completava o conjunto,
colava-se ao seu corpo,
desde os seios até a cintura fina.- No pescoço ela usava uma echarpe do
mesmo tom de rosa da saia.
Estava atraente e o rosa realçava o tom dourado de seu cabelo. Alanna
gostaria de não ter caprichado tanto. Não queria que Rolt a achasse
atraente; preferia parecer completamente insossa. Mas era tarde para
pensar nisso, agora. Caminhou pelo escritório da secretária e, até a
porta de comunicação.
Fechou a mão com força, nervosamente, depois bateu.
- Entre - foi a resposta abafada.
Seu estômago dava voltas quando ela abriu a porta. Rolt estava sentado
na escrivaninha, com a cabeça inclinada numa atitude de concentração
sobre os papéis espalhados
à sua frente. Alanna fechou a porta e esperou, ali mesmo, que ele
mostrasse que a tinha visto. Ao ouvir o barulho da porta, ele olhou para
cima distraidamente. Então, quase que de imediato, seus olhos erraram,
examinando-a com atenção. O coração de Alanna se acelerou sob o olhar
penetrante. Em seguida o olhar dele desviou-se para
o relógio de ouro que tinha no
braço, como que para confirmar a hora.
- Sente-se. - Já estava inclinado de novo sobre os papéis, quando falou.
- vou acabar com isso aqui em alguns minutos.
Alanna hesitou. Sentiu uma vontade louca de se levantar, andar até a
mesa dele e jogar seus preciosos papéis no chão, exigindo que dissesse o
que sabia. Tinha
esperado três dias por aquele momento. com certeza era mais do que
suficiente!
Não, o bom senso lhe disse. Perder a cabeça só daria a Rolt mais uma
vantagem. Este encontro devia ser estritamente formal e polido.
61
Eles discutiriam a questão e não deixariam os assuntos pessoais dele ou
dela, interferirem. Esfriando sua zanga, caminhou na
direção do sofá semicircular.
- Há um bar naquela parede. O gelo está no refrigerador en baixo. Sirva-
se - Rolt lhe disse.
Alanna olhou rapidamente para o bar e sentou-se.
- Não, obrigada. - A última coisa que ela queria era ter se raciocínio
embotado pelo álcool.
Em vez disso, procurou dentro de sua bolsa um cigarro, um hábito
ocasional que tinha adquirido na universidade e que estava
tentando abandonar. Mas, no momento, estava
mais interessada no efeito cal mante da nicotina sobre seus nervos
tensos, uma vez que sua
espera interminável estava sendo prolongada ainda mais.
Recostando-se no sofá, ela exalou a fumaça. O silêncio na sala era
enervante, quebrado apenas pelo roçar de papéis
e ocasionalmente pelo raspar de uma caneta no papel.
Rolt continuou a trabalhar, ignorando completamente sua presença; coisa
que Alanna não pod fazer, uma vez que o observava abertamente.
A expressão dele era fechada, sem nada revelar. Estava concentrado no
que fazia e não deixava que nada interferisse. As cortinas azuis
da janela não estavam completamente
fechadas. Um raio de sol batia na escrivaninha, dando um tom dourado ao
seu terno cor de
canela e brilhando na gravata de seda marrom. A luz realçava o tom
aloirado
de seu cabelo cor de café.
A luz do sol diminuiu quando uma nuvem fina se colocou na sua frente.
Isso intensificou o tom de sua pele, que ficou parecendo
bronze, fazendo um contraste marcante
com o branco da camisa. A luz incerta, que variava entre o claro e o
escuro, fazia com que os
planos e ângulos severos de suas feições másculas se sobressaíssem. A
impressão que Alanna tinha era de algo selvagem e nobre, inerent mente
másculo e orgulhoso. A nuvem se afastou e o sol brilhou
de novo. As feições dele voltaram
a ser veladas, sem nada expressar.
Ela tinha se esquecido do cigarro, durante seu estudo não observado
dele, e a cinza estava prestes a cair, quando se inclinou
rapidamente em direção ao cinzeiro,
que estava sobre a enorme mesa de café, e frente ao sofá. Quando se
endireitou, Rolt a observava, com
um olhar alerta. A linha de sua boca expressava tristeza. com
um gesto decidido, ele se levantou de sua cadeira de encosto duro,
colocara a caneta sobre a mesa.
62
- Desculpe ter feito você esperar. - Mas suas palavras não eram
sinceras; eram só uma frase polida, sem significado verdadeiro.
- Não foi nada - Alanna respondeu friamente.
Os dedos fortes de Rolt fecharam-se em torno do nó da gravata,
desatando-o e começando a tirá-la.
- Você se importa? - Ele fez uma pausa.
Alanna duvidava que ele se importasse com sua permissão, mas deu-a assim
mesmo.
- Nem um pouco.
Rolt tirou a gravata e enfiou-a no bolso da jaqueta cor de canela,
tirando-a em seguida e jogando-a de modo negligente sobre a cadeira que
tinha acabado de desocupar.
A sensação de que estava vendo Rolt se livrar de todos os seus vestígios
de civilização tomou conta de Alanna. Ele se tornou mais primitivamente
másculo e, de certo
modo, mais perigoso.
Depois de desabotoar os três primeiros botões da camisa branca, ele
parou e Alanna ficou levemente surpresa. Tinha quase certeza de que ele
ia tirar a camisa também.
Suas emoções tinham se manifestado de um modo alarmante, naqueles
segundos eletrizantes, e ela desviou o olhar, tentando se controlar.
Em vez de ir até o sofá, Rolt caminhou para a janela, parando em frente
à nesga de sol. Olhou para fora, através dos vidros empoeirados, com os
pés ligeiramente
separados, numa atitude que sugeria arrogância e poder. Um gigante
olhando seus domínios, Alanna pensou. Sua impaciência cresceu, quando
ele permaneceu em silêncio.
- O que é que você sabe sobre meus pais? - perguntou finalmente, de modo
provocante.
Rolt lançou-lhe, por cima do ombro, um olhar longo e especulativo;
depois voltou-se.
- vou tomar um aperitivo. Tem certeza de que não quer um? perguntou,
ignorando calmamente sua pergunta.
- Tenho, sim. - Era difícil não deixar a irritação transparecer em sua
voz.
Alanna inclinou-se para a frente, para apagar o cigarro no cinzeiro. O
bar ficava atrás dela e ouviu a geladeira se abrindo, o barulho do gelo
caindo no copo e a
porta se fechando. Então fez-se silêncio. Ela juntou as mãos com força
no colo, recusando-se a olhar na direção dele.
- Meus pais - lembrou, com frieza.
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O líquido espalhou-se sobre o gelo.
- Que têm seus pais?
- É o que eu quero saber. - Alanna virou-se no sofá, olhando zangada
para Rolt. - É uma armadilha, não é? Você usou meu pais como desculpa
para me trazer até aqui
- ela acusou.
Ele enfrentou o olhar dela com suave indiferença.
- É.
- Eu devia saber - ela murmurou. com movimentos trémulos e zangados,
agarrou a bolsa e levantou-se do sofá. - Não sabe absolutamente nada a
respeito dos meus pais.
Deu um passo em direção à porta, mas a voz calma dele a deteve
- Eu não disse isso.
Alanna virou-se e olhou-o cautelosamente.
- Só admiti que os usei como desculpa para trazê-la até aqui. O que não
é o mesmo que admitir que não sei nada.
- E então? Você sabe? - desafiou-o, cansada do jogo de gato e rato.
- Sente-se, Alanna. - Ele se afastou do bar, com o copo na mão.
- Não - recusou categoricamente. - Quero que me diga o que sabe sobre
meus pais e quero que me diga agora. - Na sua voz havia uma ameaça
inconfundível.
A boca de Rolt tremeu, como se ele achasse a zanga contida de Alanna
divertida. Mas foi um movimento rápido. Logo se afastou do sofá,
encostando-se na escrivaninha.
- Você falou que seu pai lhe disse que estava preocupado com sua mãe.
Ela sofre do coração, se não me engano. - Andou até a mesa de café e
parou em frente a ela,
olhando para Alanna.
- Falei. - Ela não lhe forneceu mais nenhuma informação.
- Indiretamente, esta é a razão pela qual ele está preocupado. Alanna
inclinou a cabeça para um lado, definitivamente descrente
que ele soubesse de alguma coisa.
- E qual é a causa direta? - perguntou.
- O que você sabe da situação financeira de seu pai? - RoK retrucou.
- Que eles estão bem de vida - respondeu, com uma-frieza altiva. - com o
dinheiro da venda da mina para sua companhia e o que ele economizou, o
futuro deles está
garantido.
- Isso foi quando ele vendeu a mina.
64
Esta declaração custou um pouco a atingir Alanna com todo seu impacto.
Toda sua altivez desapareceu, enquanto ela examinava a
máscara de bronze que era o rosto
dele. O significado do que Rolt linha dito fez com que tremores de
apreensão percorressem sua espinha. Vagarosamente, encaminhou-se para
ele.
- Que está dizendo? - Sua voz saiu baixa, sem força.
- Seu pai nunca foi um bom gerente ou homem de negócios. Uma parte do
dinheiro que ganhou com a venda da mina foi investida em ações sólidas;
com a outra parte,
ele fez especulações. Infelizmente escolheu mal e perdeu tudo. Tentou
recuperar o que tinha perdido, arriscando mais dinheiro, que perdeu
também. Para resumir a
história, Alanna, o dinheiro da venda da mina não existe mais. - Rolt
fez uma pausa, para causar mais efeito.
- Oh, não! Coitado do papai! - murmurou para si mesma. Levantando os-
olhos, disse: - Mas ele ainda tem o dinheiro que investiu em ações da
fábrica de taconite.
- Tem, mas isso não é o bastante para manter seu padrão de vida. Se sua
mãe tiver outro ataque cardíaco, é quase certo que ele vai ficar
completamente sem dinheiro.
A casa já está hipotecada e a semana passada seu pai foi ao banco pedir
um empréstimo, dando como garantia as ações da fábrica de taconite.
A cor sumiu do rosto de Alanna. Todo aquele quadro assustador e suas
terríveis consequências começaram a se delinear em sua mente. Se seu pai
conseguisse o empréstimo
e não pudesse pagar as prestações, teria que entregar as ações, sua
única fonte de renda.
- Ele queria vender a casa - Alanna disse, com voz desanimada. - Por
isso é que estava dizendo todas aquelas coisas para mamãe. E ela não
quis nem pensar nisso.
- Neste ponto, vender a casa só ia adiar um pouco o fim de tudo. Ele
devia ter feito isso há um ano - Rolt declarou
com
indiferença -, antes que tivesse que hipotecá-la.
- Não entendo. - Alanna, confusa, passou a mão pela testa e pelos olhos.
- Como isso pôde acontecer? Sem qualquer aviso. . .
- Seu pai teve muitos avisos - ele comentou, com secura,
- Mas deve haver alguma coisa a ser feita - ela disse com desespero,
depois começou a citar as soluções em voz alta: - Naturalmente, podemos
vender a casa. Mamãe
não vai ser contra, quando ficar sabendo da situação. Podemos mudar para
uma casa menor, mais barata. Eu posso arrumar um emprego. E falando
nisso, papai
65
também pode arrumar um, provavelmente. Ele é inteligente e ainda tem
saúde.
- Ele já tentou arranjar um emprego, mas não há muitas vaga para um
homem da idade dele. Enfrente isso, Alanna. Dorian
só teve um cargo alto graças ao pai dele.
Esquecendo o fator idade, ele simplesmente não tem experiência.
- Papai não tem culpa de ter herdado a companhia - Alanna protestou.
- E quanto a você trabalhar - Rolt continuou -, está querendo dizer que
vai sustentá-los pelo resto da vida?
Ela não hesitou.
- Não vejo por que não. Eles me sustentaram.
- E quanto ao casamento? Está se esquecendo disso? Seu marido pode não
ser tão compreensivo a ponto de aceitar que você
assume a responsabilidade pelas dívidas
de seu pai e pelo bem-estar deles. Dorian deve uma soma considerável.
- Ele vai entender. - Estava pensando em Kurt, tão forte e maravilhoso.
- Você acha? - ele zombou. - Acho.
- Seus planos são quixotescamente lindos, mas não vão funcionar. Você
quer que seu pai venda a casa. Para fazer o dinheiro dar
para as despesas comuns, ele teria
que desistir de seus títulos de sócio em vários clubes. Por outro lado,
as chances dele achar uma boa colo cação seriam praticamente nulas.
Portanto, seu pai teria
que ficar em casa, sem nada para fazer, a não ser esperar que você lhe
desse a mão. Isso acabaria com ele e, no fim, arrasaria sua mãe
também.
Os olhos cor de ametista de Alanna estavam cheios de lágrimas. Mordeu o
lábio, sabendo que Rolt dizia a verdade, e odiando ter que admitir isso.
O orgulhoso e sensível
Dorian Powell, criado para ser um cavalheiro e suporte de sua família.
Viver de caridade dela
o mataria.
Alanna voltou-se para o outro lado, para esconder o queixo que tremia.
- Qual é a sua brilhante alternativa? - Sua voz trémula estava cheia de
sarcasmo.
- Eu poderia ajudar.
- Ele não aceitaria caridade de você - disse com voz tensa, rapidamente.
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- Há um modo de fazer isso, sem que ele perceba que se trata de
caridade. - Rolt declarou, com calma.
- Como? - Ela prendeu a respiração, sentindo a esperança renascer.
- Eu poderia dar um jeito da renda dele, que vem da fábrica, aumentar.
Se necessário, podia dar a ele o emprego de relações-públicas, um
trabalho de meio período,
que aumentaria a renda de seu pai.
- Poderia mesmo? - Alanna voltou-se, animada.
O olhar apático dele não se desviou, mas continuou velado e escuro como
índigo.
- Poderia. Eu o ajudarei. . . se você se casar comigo. Alanna enrijeceu.
- O quê?
- Case-se comigo - Rolt repetiu.
- É impossível - declarou com um aceno violento de cabeça. Já estou
comprometida com seu irmão. Ele até comprou um anel para mim, hoje.
Rolt levantou o copo e engoliu o resto da bebida.
- Outros compromissos já foram rompidos antes. Isso não é um obstáculo.
- Acontece que amo Kurt. Isso não é um obstáculo?
- Só na sua cabeça. - Ele afastou seu argumento com pouco caso. - Não
seria, com certeza, o primeiro casamento sem amor a se realizar.
- Acha mesmo que eu vou concordar com essa. . . essa chantagem?
- Alanna perguntou, incrédula.
- Você não tem escolha, se é que se importa tanto com seus pais quanto
diz. - Rolt encolheu os ombros.
- Isso é um absurdo! - Ela se afastou dele, agitada e incerta.
- Kurt vai me ajudar. Vamos descobrir um modo de ajudar papai, sem que
ele adivinhe de onde vem o dinheiro.
- Kurt não tem o dinheiro necessário à disposição. Ele trabalha por um
salário e seria difícil esticá-lo para sustentar duas casas. Na nossa
família, ou a gente
vence por esforço próprio, ou nada feito. Não recebemos as coisas numa
bandeja de prata, ao nascer. - Rolt colocou o copo sobre a mesa e o gelo
bateu contra o vidro.
- Não, Alanna, Kurt não pode ajudá-la. Eu posso, mas ele não.
- Nunca vou me casar com você - juro! - Só pensar nisso fico doente.
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- Eu lhe ofereci a única saída que existe - ele comentou.
- Não posso aceitar isso.
- O que vai fazer, então? Nada? - A voz dele soou mais perto. mostrando
que se aproximava.
- Não sei. - Um suspiro frustrado saiu de seus lábios. Virou-se para
encará-lo, com expressão zangada e ressentida. - Você poderia ir em
frente e ajudá-lo, sem nenhuma
das suas condições absurdas.
- Só pelo meu coração bondoso? - Rolt murmurou de modo esquisito. - Eu
quero você, Alanna, por bem ou por mal.
Ela sabia que o que ia dizer era perda de tempo, antes mesmo de falar.
- Nunca lhe ocorreu que, se ajudasse meu pai sem nenhuma condição, eu
poderia me sentir tão grata a ponto de mudar minha opinião a seu
respeito?
- Ocorreu, sim. Mas mudar sua opinião não significa torná-la minha
esposa. E é isso o que eu quero. Prefiro saber o quanto você vai ser
grata, antes de ajudar seu
pai.
Alanna achou que tinha uma saída. Desviou o olhar, para que ele não
descobrisse o que estava pensando.
- Se eu concordar em. casar com você, vai ajudar meu pai?
- Quando você se casar comigo, vou ajudar seu pai. - Rolt acabou com
suas esperanças, com uma ênfase caçoísta.
- Se meu pai se arruinar, Rolt Matthews, a culpa será sua. Ela não
tentou esconder a raiva.
- Não - ele negou calmamente. - A culpa será sua, porque eu ofereci
ajuda e você recusou. Não sou culpado pelo que acontecer, mas você é. Eu
mal conheço seu pai.
Que diferença faz, para mim. se eventualmente ele achar difícil manter a
cabeça erguida entre os antigos amigos? Se ele fosse meu sogro, eu
ficaria preocupado. Mas,
como mero conhecido, é difícil.
A arrogância dele aumentou sua raiva. A palma aberta de sua mão
descreveu um arco no ar, querendo atingir aquelas feições complacentes.
Mal o tinha tocado quando
sua mão foi agarrada por dedos de ferro. A linha da mandíbula dele era
rígida e ameaçadora.
- Você vai se casar comigo, Alanna. Não tem escolha - disse, com uma
calma mortal.
- Me solte! - Ela puxou a mão com força, tentando se libertar. A pressão
de Rolt foi aumentando aos poucos, até que Alanna se
aproximou dele, para escapar à dor cada vez maior. Sua força era
68
tanta que ela percebeu que ele poderia facilmente quebrar os ossos finos
de seu punho. Resolveu ser cautelosa, pois o traço de crueldade nele era
tão forte, que
poderia
fazer aquilo.
Parou de lutar, com a respiração profunda e agitada pela raiva e
frustração. com um movimento da cabeça cheio de desafio, olhou-o com
amargo desgosto!
As feições rudemente talhadas de Rolt estavam bem próximas, enquanto seu
olhar brilhante e enigmático estudava a expressão dela. Segurando os
pulsos de Alanna, inclinou-a
para trás, pressionando os quadris dela contra suas coxas rijas. A linha
dura de sua boca partiu-se num sorriso cruel.
- Não vou soltá-la. com o tempo, acho que vai querer que não a solte
mais. - De novo, sua voz grave e arrogante parecia fazer uma profecia.
- Não - Alanna falou, ofegante.
A boca de Rolt aproximou-se e ela virou a cabeça, empurrando o peito
dele com a mão livre. Mas a dor no pulso que ele segurava não deixou que
se afastasse muito.
A respiração quente e úmida dele atingiu suas faces. Virando e mexendo a
cabeça freneticamente, conseguiu evitar o beijo, até que dedos de ferro
agarraram seu queixo.
Os lábios de Alanna foram esmagados contra seus dentes, num ato de posse
selvagem. Ela resistiu, lutando contra aquele ataque com todas suas
forças. Uma dor maior
percorreu seu braço, quando ele o torceu atrás de suas costas,
arqueando-a contra o corpo dele, em toda sua extensão. O sangue latejava
em seus ouvidos.
Aos poucos suas forças foram se esgotando, e o fato de não poder escapar
do abraço tornou sua resistência menos violenta. Tentou apenas suportar
o ataque da boca
de Rolt, e sua submissão involuntária ao beijo dele despertou uma
ternura letal, que destruiu suas defesas.
Rolt tirou vantagem daquela rendição temporária, entreabrindo seus
lábios de modo experiente e saboreando toda a doçura de sua boca. Seus
músculos foram tomados
por uma fraqueza e algo primitivo nela respondeu ao domínio sedutor
dele. Os dedos de Rolt não machucavam mais seu queixo; sua mão deslizara
para baixo e acariciava
o ombro de Alanna.
Ele a beijou longa e intensamente, e uma moleza enorme tomou tonta dela.
Rolt explorou com a boca suas pálpebras, a curva
forçada pelos cílios no canto dos olhos,
queimando seu rosto como
69
togo ao deslizar até o lóbulo de sua orelha, e depois até a curva suave
do pescoço. Um tremor incontrolável a percorreu; era
de desejo, ela descobriu, e não de repulsa, e essa descoberta soou com,
um alarme.
com um movimento rápido conseguiu livrar-se da carícia enfra quecedora
de seus lábios. Em pé na frente dele, empurrou com
as mãos seu peito, mantendo-se à distância
de um braço. Ele a segurou sem tentar eliminar a distância entre eles,
mas sem permitir que
ela se separasse completamente dele. Alanna olhou dentro do azul ar
dente
de seus olhos, confusa pela resposta que um homem, do qua não gostava,
tinha despertado nela, e zangada por aquilo ter acon tecido.
- Confusa? - Rolt perguntou, levemente divertido. - Não acha vá que isso
pudesse acontecer? Não percebe que o fogo do ódio pod se transformar
rapidamente no fogo
da paixão?
- Não - protestou.
Rolt riu de um modo gutural e baixo. Antes que ela pudesse pensa em
negar de novo aquela verdade, ele eliminou a distância que o separava.
E, sem esforço, levantou-a
nos braços.
- Me ponha no chão. - Alanna estava ofegante e indignada.
Ele riu de um modo indolente.
- Você ainda não está completamente convencida. Ignorando seus esforços
para se libertar, carregou-a para o sofá
sentando-se com ela no colo. O ardor ofensivo de seu beijo marcoí os
lábios dela, mais uma vez, como possessão dele. Alanna empurrou seu
peito inutilmente com as
mãos e, acidentalmente, uma delas escorregou para dentro da camisa dele,
encontrando sua pele quente O fogo percorreu suas veias, ao sentir o
contato perturbador.
E sua resistência, já bem abalada, acabou por desaparecer. Sua força de
vontade parecia não ter mais controle sobre as respostas sensuais de
sua carne.
Os dedos de Rolt fecharam-se em torno do nó de sua echarpe, dês fazendo-
o e afastando-a, expondo assim toda a extensão de seu
pescoço esbelto à exploração dele.
Seu peso a empurrava para trás, en quanto ele acariciava seu ombro e sua
garganta.
A tempestade de emoções que tomava conta do corpo e da mente de Alanna
parecia não ter fim e uma parte traidora dela não
queria que acabasse. Ele deslizou a mão pela
cintura e pelo quadril dela
70
numa carícia estimulante. Desabotoando sua blusa, introduziu a mão no
tecido sedoso.
No meio da névoa de sensações eróticas que a envolvia, surgiu a
recordação de Kurt, o homem que amava e com quem ia se casar. Que tipo
desprezível de mulher era,
para deixar que o irmão dele fizesse amor com ela daquele jeito? Não
estava traindo só seu autorespeito e orgulho, mas também Kurt.
Quando a boca morna de Rolt tocou seu seio arredondado, Alanna quase
perleu seu senso de decência e moralidade, recém-adquiridos, no fogo
esmagador daquele abraço.
com um último e decidido esforço, livrou-se de seus braços e ficou em pé
ao lado do sofá. Suas pernas trémulas não poderiam levá-la mais longe.
Rolt enfrentou seu olhar com uma calma hipnótica. Continuou sentado, com
as pernas estendidas sobre as almofadas e as costas apoiadas contra o
braço do sofá. Alanna
estava acima dele, no entanto ele a dominava. Rolt estendeu a mão com
indolência, pousando-a na parte de trás do joelho dela, acariciando a
pele sensível distraidamente.
Um tremor convulsivo a percorreu.
- Por favor, não faça isso, Rolt - Alanna sussurrou, totalmente enervada
pela tremenda atração física que sentia por ele.
Colocando os pés no chão com um movimento ágil, Rolt se endireitou,
deslizando a mão um pouco para cima, fazendo com que a barra de sua saia
subisse, revelando a
curva inicial de sua coxa, antes que o tecido voltasse à posição
original. Quando ele ficou em pé, dominando-a com sua altura, colocou a
mão na cintura dela. Sua
proximidade fez com que os nervos de Alanna latejassem e ela se virou
com vivacidade, sabendo que precisava sair dali.
Mas as mãos dele agarraram sua cintura, trazendo suas costas de encontro
ao próprio peito. Ele enterrou o rosto nos macios cabelos castanhos de
sua nuca e Alanna
fechou os olhos contra o desejo que a atordoava. As mãos dele deslizaram
sobre seu estômago, moldando-a contra a rigidez de seu corpo. Os dedos
dela empurraram fracamente
suas mãos.
- Não - protestou, com voz rouca. - Isso é loucura. É algo físico
apenas. . . uma atração animal.
- Mas não é bom saber, Alanna - ele murmurou, contra o ponto sensível de
seu pescoço -, que quando nos casarmos o meu toque não lhe causará
revolta?
- Não é suficiente -- murmurou, sentindo-se levada de novo pela
71
tempestade de emoções, e sabendo que um casamento não podia ser baseado
apenas no desejo.
- Para começar, é. - Rolt mordiscou sua orelha, quando ela afastou o
pescoço da exploração perturbadora de sua boca. - Teremos filhos e
gradualmente um afeto genuíno
crescerá entre nós.
- Não sei - Alanna suspirou, confusa. Não conseguia pensar direito, não
com ele segurando e acariciando seu corpo daquele modo.
- Acredite em mim - Rolt retrucou.
Exercendo uma pressão mínima, fez com que ela ficasse de frente para
ele. Como uma folha perdida na tempestade, Alanna não era capaz de
reagir. Deixou-se levar por
seu beijo intenso, agarrando-se aos ombros rijos dele, para manter um
pouco de equilíbrio.
Quando Rolt finalmente levantou a cabeça, pôde ver a luz da vitória
brilhando em seus olhos. Não por palavras, mas por atos, tinha lhe dado
a resposta que ele queria
e não a que pretendia dar. Ela não queria se casar com ele. Rolt a tinha
forçado a escolher entre seu pai e Kurt. Gostaria de poder tomar de
volta sua resposta aos
beijos dele. Não queria escolher; queria os dois. Não era tarde demais e
podia mudar de ideia. Era uma prerrogativa da mulher.
Desviando o olhar do de Rolt, libertou-se de seu abraço e deu um passo
para trás. Endireitou os ombros, preparando mentalmente as palavras que
diria, para se negar
a casar com ele.
Mas quando levantou a cabeça, olhou diretamente no rosto de Kurt, frio e
cheio de desprezo. Paralisada pela surpresa de vê-lo em pé ao lado da
porta aberta, mal
percebeu que Rolt tinha vindo para seu lado e colocado um braço protetor
em torno de sua cintura.
O olhar de Kurt a percorreu da cabeça aos pés, demorando-se na frente
aberta de sua blusa. Instintivamente levou a mão para fechála, com o
rosto queimando de vergonha.
Mas esta não era a única parte desarrumada de sua aparência, que
mostrava sinais das carícias de Rolt. Alanna gostaria que o chão se
abrisse e ela desaparecesse.
- Sinto muito que você tenha descoberto a verdade desse modo, Kurt -
Rolt disse, com calma. - Acho que Alanna não sabia como lhe contar.
O olhar cheio de condenação de Kurt não se desviou do rosto dela.
- Um assunto de família, você disse. - Ele relembrou, com amargura, a
razão que ela tinha dado para não vê-lo naquela noite
- Eu nunca seria capaz de adivinhar que você queria dizer "minha"
família.
72
- Kurt, por favor. - Alanna reprimiu um soluço. - Eu. . . Ele a
interrompeu, não permitindo que continuasse.
- Eu entenderia se me dissesse que estava se encontrando com £olt.
Ficaria enciumado como o diabo, mas teria entendido.
- Eu queria lhe dizer - ela protestou.
- Mas antes queria ter certeza de que Rolt estava bem preso, não? - ele
ironizou. - Por que ficar com o pobre irmão mais novo, quando podia ter
o rico irmão mais
velho? Será que concordou em se casar comigo para forçar Rolt a lhe
fazer uma proposta igual, se
que ele a queria tanto quanto dizia? Ou ele só queria ter um caso
com você, no início?
- Pare com isso - Alanna gritou. Suas frases maldosas podiam ao
expressar a verdade, mas nem por isso eram menos venenosas.
Um som enregelante de desprezo saiu da garganta de Kurt.
- Diga-me, meu velho.. . - o olhar de Kurt voltou-se para Rolt
- devo lhe dar os parabéns, ou melhor dizendo, os pêsames?
- Pedi a Alanna para se casar comigo - Rolt admitiu. Alanna inspirou com
força.
- Não vê que ele está nos manobrando de novo, Kurt?
- Você não estava exatamente se opondo a ele, Alanna, pelo menos quando
eu abri a porta. Duvido que tenha se oposto alguma vez - acusou-a. - E
pensar que acreditei
em você, quando disse que mostraria a Rolt a porta. Mostrou mesmo: a
porta do seu quarto.
- Não é verdade! - Faltava convicção em sua voz, pois ela percebeu que
Kurt devia ter presenciado pelo menos parte do último beijo, se não
mais.
- Se ainda não teve oportunidade de comprar um anel para a senhorita -
sua voz estava cheia de sarcasmo -, tenho um para vender. É barato. Já
foi experimentado uma
vez e posso garantir que serve. Não tem sentido nós dois desperdiçarmos
nosso dinheiro com a mesma vagabunda!
O desprezo amargo que havia em sua voz fez com que Alanna se encolhesse
visivelmente. Lágrimas ácidas queimavam seus olhos, mas ela não tinha o
direito de chorar.
Sabia que merecia, em parte, o desprezo óbvio de Kurt.
- Não fale assim, Kurt, por favor - murmurou, com voz trêiula.
- vou embora. - Sua boca se contorceu sardonicamente e, de epente, suas
feições simpáticas, ficaram muito parecidas com as linhas
73
rudemente talhadas de Rolt. - Posso adivinhar como está ansioSa para
voltar aos braços de seu amante.
Seu olhar deslizou acusadoramente para a mão masculina que descansava
possessivamente na cintura dela. Até aquele momento, Alan, na não tinha
percebido a proteção
silenciosa. Quando ela se moveu para se livrar da mão de Rolt, Kurt
voltou-se para sair.
- Não, Kurt, espere! - disse, correndo atrás dele. - Deixe-me explicar,
por favor.
Ele parou, virando-se ligeiramente. O desdém gelado em seus olhos azuis
deteve a mão que ela tinha estendido para tocá-lo, paralisando-a no meio
do gesto.
- Explicar o quê? - perguntou friamente. - Que você é mentirosa e
ordinária? Eu já sei. Só espero que meu irmão saiba como você é falsa!
Alanna recuou como se ele a tivesse esbofeteado. As palavras morreram em
sua garganta e ela olhou para o chão, ouvindo os passos de Kurt indo
embora. Quando nem
mesmo o eco deles podia ser ouvido, ela se voltou. Sentia-se como que
paralisada e sabia que o choque é que a tinha deixado atordoada daquele
jeito.
Rolt ainda estava em pé, ao lado do sofá, observando-a com seu olhar
alerta, mas sem demonstrar nada de seus pensamentos. Alanna levantou um
pouco o queixo, encontrando
os olhos dele com os seus, grandes e cheios de dor.
- Você planejou tudo para que Kurt nos encontrasse aqui esta noite, não
é? - acusou-o, com uma voz sem emoção.
- Planejei.
- Por quê? - Sua voz estava ligeiramente mais fraca.
- Achei que este seria o melhor modo dele descobrir que você vai se
casar comigo. Ê um modo duro. Mas, no final, é o melhor Rolt disse, com
uma indiferença impressionante.
- vou me casar com você - disse. - Você conseguiu o que queria. -
Caminhou até ele, ficando imóvel enquanto Rolt a observava.
- Manterei minha palavra. vou ajudar seu pai.
- É melhor aproveitar, Rolt - Alanna avisou-o friamente. - Conseguiu o
que queria, mas não pense que isso vai continuar.
Rolt levantou rapidamente as sobrancelhas.
- O que quer dizer que.. . - perguntou secamente.
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- Que pretendo tornar sua vida tão miserável quanto você tornou a minha
- ela declarou. - vou me casar com você, Rolt, mas vou fazê-lo pagar
pelo resto da vida
o que fez aqui esta noite. Vai se arrepender de me fazer sua esposa.
Rolt olhou-a por um longo momento, depois virou-lhe as costas. Não
parecia nem um pouco preocupado com a predição dela.
- Pegue a sua bolsa. Já está na hora de darmos a seus pais as boas
novas.
75

CAPITULO VI

O Mustang preto seguiu o carro de Alanna como uma sombra escura e


agourenta. Alanna não queria pensar no que tinha feito. Mais tarde
haveria bastante tempo para
auto-recriminações e lamentos. com a mente completamente vazia, entrou
na garagem, guiando por meio de reflexos mecânicos. Rolt estava apenas
alguns segundos atrás
dela.
Alanna parou ao lado do carro, esperando que ele se juntasse a ela,
antes de entrar em casa. Rolt se encaminhou para ela com passadas longas
e fáceis, e a luz do
sol que se punha realçava agudamente suas feições fortes e másculas.
De repente, ela sentiu de novo seu corpo longo e rijo colado ao dela e a
resposta traiçoeira de suas emoções. com uma sacudidela de cabeça,
afastou a enervante sensação.
Esta atração física era a única coisa contra a qual tinha que se guardar
a todo custo.
- Vamos entrar? - Antecipando uma resposta afirmativa a sua pergunta
seca, ela se virou na direção da casa.
- Daqui a pouco. - Segurou seu braço para detê-la, mas ela libertou-o
imediatamente, com um puxão. - Isso é algo que
não pode fazer, quando estivermos lá dentro,
Alanna - Rolt advertiu-a zombeteiro. - Devemos dar a impressão de
estarmos loucamente apaixonados. Não é isso que quer que seus pais
pensem?
- Ainda não estamos lá dentro - replicou friamente e caminhou de novo
para a casa.
Desta vez ele não a deteve, seguindo-a um passo atrás. Quando ele
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estendeu o braço em torno dela, para a maçaneta da porta, Alanna parou,
esperando que a abrisse. Em vez disso, viu-se de repente presa
entre Rolt e a porta. com
um movimento brusco, jogou a cabeça para tras. Para lembrar a ele, com
desprezo, que ainda não estavam dentro
da casa. Mas as palavras nunca tiveram uma chance de
deixar seus lábios.
com o movimento gracioso e fatal de uma águia, sua boca fechou-
se sobre a dela. Por um momento, Alanna ficou paralisada pela enorme
surpresa. Quando ia fugir de seu beijo cruel, Rolt já a tinha soltado.
Ela estava tão zangada
consigo mesma por ter sido pega desprevenida e com ele, por tirar
vantagem disso -, que nem podia falar.
Rolt abriu a porta.
- Podemos entrar agora. - Ele sorriu arrogantemente para ela
acrescentou: - Agora seus olhos estão brilhando e suas faces estão
coradas, o que lhe vai muito bem.
Não podíamos encontrar seus pais como se você tivesse concordado em se
casar com um carrasco.
- É muito pior. vou me casar com você.
O riso levemente zombeteiro de Rolt aumentou ainda mais o seu rubor,
enquanto o seguia para dentro de casa. Saber que ele -estava certo não
diminuía sua raiva. Precisava
representar na frente dos pais, pois não queria que suspeitassem que
tinha outro motivo, que não o amor, para se casar com Rolt.
Quando entraram na sala de visitas, seu pai dobrou o jornal e levantou-
se para recebê-los, colocando os óculos no bolso da camisa.
- Alo, Rolt. Elinore disse que achava que era o seu carro que tinha
chegado com o de Alanna - Dorian disse, com um sorriso de boas-vindas. -
O que o traz aqui esta noite? Negócios ou prazer?
Quando ele espalmou a mão em suas costas, Alanna não pôde evitar um
sobressalto. Seu olhar, brilhante de ressentimento, voou para o rosto
dele, dizendo-lhe que suportaria
seu toque, embora não gostasse daquilo. A inacreditável ternura que
brilhava nos olhos que a observavam com tanta suavidade fez com que seu
coração desse um pulo.
Ela simplesmente não podia desviar o olhar.
Cuidado, uma voz avisou: não se deixe levar pelo encanto dele. Lembre-se
de por que concordou em se casar com ele. Quando acabar com Rolt, tenha
certeza de que
não vai acabar com você também.
com esforço afastou o olhar de Rolt. Seus olhos cor de violeta tinham um
brilho acanhado quando encontraram os de seu pai, que
apressavam curiosidade e surpresa.
Rapidamente olhou para a mãe,
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que estava sentada no sofá. Elinore Powell os observava como que à
espera de algo.
- Esta noite sua filha consentiu em ser minha esposa - Rolt anunciou
calmamente. Depois, desviou o olhar do rosto de
Alanna, para o de Dorian. - com a sua permissão,
naturalmente.
A última frase era só um gesto educado. Alanna sabia que Rolt não se
importava com o fato de seus pais consentirem ou não com o casamento
deles. E sabia também que
se casaria com ele, com ou sem a permissão dos pais.
A notícia deixou Dorian Powell atónito por um momento. Mas não Elinore,
que se levantou do sofá sorrindo abertamente e correu para abraçar
Alanna.
- Estou tão feliz por você, querida - exclamou, com a voz trémula de
emoção. Lágrimas de felicidade brilhavam em seus olhos.
- Não me enganou nem por um minuto. Eu sempre soube de tudo.
- Sim, mamãe - Alanna concordou, seus olhos dirigindo-se
involuntariamente para os de Rolt, semicerrados e interrogativos.
- Sempre soube de tudo, sra. Powell? - Ele sorriu, inclinando a cabeça
para um lado, curiosamente, mas Alanna percebeu que seus olhos estavam
agudamente atentos.
- Sempre. - Elinore deu um passo para trás, segurando as mãos de Alanna
e sorrindo feliz, olhando de um para o outro. - Chame isso de instinto
materno ou intuição
feminina, mas eu sabia, o tempo todo, que Alanna estava apaixonada por
você.
- Devia ter me dito. - Dorian Powell riu, um pouco confuso ainda, com a
inesperada reviravolta nos acontecimentos. - Afinal, sou o pai dela.
- Você me acusaria de ser tola e sentimental, se eu tivesse lhe contado
- Elinore declarou. - É que Alanna me faz lembrar tanto de mim mesma!
Lembra como fiquei
furiosa, quando começou a me cortejar? O que, no entanto, não durou
muito.
A luz que dançava nos olhos de Rolt deixou Alanna furiosa. Tinha que
ficar em silêncio por causa dos pais, mas seu olhar lhe disse que o
desprezava de todo coração
e para sempre.
- Lembro, sim. - Seu pai riu. - Para uma coisinha tão pequena, você
tinha um mau génio tamanho gigante, e senti a força dele
muitas vezes. Alanna é como a mãe, em muitas coisas.
Rolt deslizou a mão até a cintura dela e puxou-a contra o lado
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do seu corpo. Os dedos dela curvaram-se sobre os dele, tentando
disfarçadamente deslocá-los.
- Papai, desse modo vai fazer com que Rolt pense que vai se casar com
uma rabugenta!
- E não vou? - Rolt riu perto de sua orelha.
Alanna adoraria arrancar os olhos dele naquele momento. Ele estava se
divertindo tremendamente com a situação e às custas dela.
- É claro que não - o pai disse, sorrindo amorosamente para ela. - Na
verdade, Rolt, pensei que se fosse dar Alanna em casamento para alguém,
num futuro próximo,
seria para Kurt. Isso me deixou completamente surpreso. Mas, acredite,
eu não poderia ficar mais feliz com a escolha dela.
- Obrigado, Dorian. Eu também não poderia ficar mais feliz.
- Rolt brindou-a de novo com um daqueles olhares cheios de adoração, que
escondiam sua zombaria.
- E Kurt? - Elinore murmurou de repente, cheia de remorso.
- Pobre Kurt! Ele gostava tanto de você, Alanna!
- É, mamãe, eu sei. - A dor em sua voz era genuína.
- Espero que não esteja muito amargurado. Ele sabe, não é?
- Elinore franziu a testa.
Alanna não pôde responder a pergunta. Falar em Kurt a deixava muito
zangada. Fechou a boca com força, para impedir que as palavras
vingativas, que estava prestes
a dizer, saíssem. Rolt tinha destruído a felicidade de Kurt e a dela,
para conseguir o que queria.
- Estivemos com ele esta noite - Rolt respondeu, sem explicar as
circunstâncias. - Foi difícil para todos nós, mas sei que no fim tudo
vai dar certo.
- É sim - Elinore concordou. - Seria simplesmente terrível se Alanna
tivesse se casado com Kurt, e depois descobrisse que realmente amava
você. Kurt pode estar magoado
agora, mas vai superar tudo.
- É - o pai concordou. - Um pouco de mágoa, agora, é melhor que muita
mágoa depois. - Sensível como sempre, ele percebeu que aquele assunto
deixava Alanna pouco
à vontade, sem saber a verdadeira razão. - Mas não há necessidade de
discutir isso. Por que não nos sentamos? Elinore, talvez você pudesse
dar uma olhada para ver
se ainda tem café e um pouco daquele bolo delicioso que Ruth fez. E dê
as boas novas a Ruth, também.
- Claro que sim - Elinore Powell concordou com entusiasmo.
- Até que enfim Alanna nos dará nossos futuros netos.
79
- Na hora certa, minha querida. - Dorian Powell riu. - Na hora certa.
Filhos. O rosto de Alanna ficou muito corado ao pensar na enorme
intimidade que isso exigia. Seus sentidos responderam rapidamente ao
toque da mão firme e máscula
em sua cintura, e ela afastou-se depressa, na direção do sofá. Precisava
dar um fim àqueles desejos sensuais. Era imperativo que nunca se
abandonasse a eles com
Rolt,
Mal tinha acabado de se sentar no sofá, quando Rolt sentou-se ao seu
lado. Ele não estava muito perto, mas colocou o braço no encosto,
deixando a mão descansar de
leve no ombro dela. Uma liberdade pequena, mas ela lhe lançou um olhar
cheio de ressentimento, mesmo assim.
Dorian yoltou-se para eles quando sua mãe deixou a sala.
- Elinore tem uma vontade enorme de ter netos - disse afetuosamente,
como que pedindo desculpas. - Ela sempre quis uma casa cheia de
crianças, mas infelizmente não
pôde tê-las. Achamos que ter você era uma bênção, Alanna. Portanto, não
se preocupe em desapontar sua mãe, se você e Rolt decidirem esperar um
pouco antes de começar
uma família.
- Na verdade, papai, Rolt e eu ainda não conversamos a esse respeito -
disse nervosamente. - Não sei se ele gosta de crianças.
- Gosto, sim - ele respondeu, sorrindo indolentemente. Especialmente
garotinhas de cabelos cor de âmbar e lindos olhos azuis-violeta.
Alanna desejava desesperadamente que a conversa mudasse de asunto. E que
ele tirasse a mão de seu ombro. A carícia distraída de seus dedos fazia
com que se sentisse
fraca e vulnerável, principalmente junto com aquele tipo de conversa, e
ela se forçou à ignorá-la. Sua repulsa por ele era enorme! Odiava-o!
A governanta alta e magra entrou na sala, o rosto anguloso iluminado
pela alegria. Alanna quase chorou de alegria. No meio dos abraços,
parabéns e explicações, o
assunto sobre filhos se perdeu.
- É como casar um dos meus próprios filhos - Ruth declarou.
- Conheço Alanna desde que ela era um bebé. - Elinore entrou na sala com
uma bandeja de café e bolinhos e Ruth correu para tirá-ia dela. - Eu lhe
disse para não
fazer isso, Elly. É muito pesada para você.
- Bobagem - a mãe negou. - De qualquer modo, já estou aqui mesmo. Volte
para lá e sente-se.
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Ruth voltou, mas insistindo que ia servir. Elinore já ia encher a
primeira xícara, quando ela pegou o bule.
- Pense um pouco, Elly, em tudo que há para ser feito. - Ela eu uma
olhada para Alanna. - Quando vai ser o casamento? Já pensaram em uma
data?
Alanna estava a ponto de dizer que não tinham tido tempo, mas Rolt não
lhe deu a chance de falar. Logo - respondeu. - Alanna quer ser uma noiva
de junho. Ela não
queria
nada daquilo! Ela se voltou para olhar para ele, zangada, e negar sua
declaração. Mas os dedos dele se enterraram em seu ombro, num aviso.
- Junho! - Elinore Powell exclamou. - Mas faltam menos de dez dias para
acabar este mês! Temos que comprar seu vestido e os das damas de honra.
E os convites têm
que ser impressos! E ainda temos que arrumar a igreja e as flores. Ruth
pode fazer o bolo, mas. . .
- Nós preferimos um casamento simples, sra. Powell - Rolt disse
delicadamente.
Alanna concordava plenamente. Um casamento grandioso, com muitos
convidados e uma recepção longa, parecia uma coisa hipócrita. Os votos
de casamento já seriam farsa
suficiente.
- Desculpe, mamãe. - Ela sabia quanto sua mãe gostaria de fazer um
casamento na igreja, grandioso e bonito, para sua filha única.
- Nós realmente preferimos uma cerimónia simples, só com a família
presente.
Se Alanna tivesse duvidado de Rolt, quando ele lhe falou das finanças
abaladas de seu pai, as dúvidas teriam acabado ali. O alívio em seu
rosto, quando ela acabou
de falar, era visível. Ele nunca seria capaz de arcar com as despesas de
um casamento como sua mãe queria.
- Se é isso que querem... - a mãe suspirou, concordando com relutância.
- Nos dias de hoje, você deveria estar contente por eles estarem se
casando, e não ficar se preocupando com o tipo de casamento.
- Ruth fungou.
- E a lua-de-mel? - Elinore ignorou o comentário da amiga.
- Um longo fim de semana é tudo que posso arrumar - Rolt declarou. -
Vamos ter que adiar até o inverno.
Não tinha importância, Alanna pensou. A lua-de-mel estaria acabada
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antes mesmo de começar. Era um alívio saber que não seria obrigada a
passar um longo tempo exclusivamente na companhia dele.
O assunto casamento dominou a conversa na próxima hora. A participação
de Alanna foi pequena; deixou que sua mãe e Ruth
fizessem os planos.
- Flores! Temos que decidir sobre as flores também! Que tipo de flores
gostaria de ter no seu buque de noiva, Alanna? - Rutj, perguntou,
pegando o bule para tornar
a encher as xícaras, mas ele estava vazio. - Acabou o café. vou fazer
mais um pouco.
- Por favor, não por mim - Rolt falou, retirando o braço do encosto do
sofá. - Já está na hora de eu ir embora.
- Mas ainda é cedo - Elinore protestou.
- Preciso ir - ele insistiu, ficando em pé.
Rolt disse até logo a cada um separadamente e saiu da sala. Alanna
continuou sentada, até que sentiu os olhares de seus pais e percebeu que
eles achavam que devia
acompanhá-lo até a porta, para que pudessem se despedir a sós. com os
dentes cerrados, levantou-se rapidamente.
- vou com você até a porta, Rolt - chamou-o.
Ele parou na porta que dava para o hall e esperou que ela se juntasse a
ele.
- Não é preciso - disse-lhe, colocando a mão no lado de seu rosto. -
Considerando tudo, esta foi uma noite agitada. Vá deitar, eu a vejo
amanhã.
Ela agarrou o punho dele com a mão. Sabia que ele pretendia beijá-la e
não havia nada que pudesse fazer para detê-lo, com seus pais e Ruth
olhando. Era isso mesmo
que Rolt tinha planejado; o brilho nos olhos dele lhe dizia isso.
Sua boca fechou-se amorosamente sobre a dela, que manteve os lábios
frios, sem corresponder. Mostraria a ele que não era por ter sido uma
massa mole em suas mãos
uma vez que seria sempre assim. Na verdade, estava decidida a não deixar
isso acontecer nunca mais.
Quando Rolt levantou a cabeça, os olhos dela brilharam triunfantes. Que
tal beijar um cubo de gelo?, seu olhar provocava. A boca máscula torceu-
se, divertida.
- Você é capaz de fazer melhor do que isso - murmurou de modo que só ela
ouvisse. - Mas vou esperar por outra ocasião para lhe provar isso.
82
- Vai esperar muito tempo - sussurrou, sorrindo por causa dos pais.
Rolt acariciou sua boca com o polegar, por um segundo. Depois a soltou.
- Boa noite, querida. Durma bem.
As palavras carinhosas continham uma provocação deliberada. Ela
nunca seria sua querida e sabia que não conseguiria dormir.
- Boa noite, Rolt.
Esta foi a primeira de uma série de noites que Alanna teve que suportar.
Seus pais esperavam que ela ficasse com ele, e ela não tinha outro
recurso, a não ser
vê-lo. Embora tivesse que se prevenir constantemente contra seu toque,
ou contra um braço sobre seus ombros, ou mesmo um beijo ocasional, Rolt
não fez nenhuma tentativa
de fazer amor com ela.
De certo modo, Alanna achou isso estranho. Mas raciocinou que ele devia
estar tentando conquistá-la aos poucos, levando-a a confiar nele, para
depois tirar vantagens
disso. Mas quanto ao que lhe dizia respeito, Rolt havia provado que não
era digno de confiança.
Geralmente, Alanna não tinha muito tempo para pensar no que estava
fazendo. Tinha que comprar um pequeno enxoval e um vestido de casamento
simples. Insistiu num
enxoval pequeno, porque sabia que seu pai não podia pagar nada mais
caro, e também porque não se importava.
O dia de seu casamento amanheceu chovendo: camadas e camadas
de água escorriam pela vidraça de seu quarto. Era apropriado, pensou,
enquanto sua mãe a ajudava a colocar o vestido. De acordo com a
superstição, um casamento seria infeliz, se chovesse nesse dia. Alanna
considerou isso um sinal verde para prosseguir com seus planos.
Quando se dirigia de carro, com seus pais, para a igreja, um raio
de sol surgiu entre as nuvens escuras. Ela mordeu os lábios com
força, contendo-se para não gritar que ele fosse embora. Nunca seria
feliz casada com Rolt, o sol brilhasse ou não no dia de seu casamento.
Quando saiu da igreja de braços dados com seu marido, o céu
estava clareando. Tudo parecia recém-lavado e brilhante como cristal,
com o ar refrescante e limpo. Alanna não notou o verde vivo das
plantas, a caminho da casa de seus pais para a pequena recepção.
Suportou estoicamente as congratulações sem fim. Não podia aceitar
83
nenhuma delas honestamente, por isso só sorria e acenava com a cabeça.
Se algum dos convidados notou como estava quieta, atribuiu seu silêncio
ao nervosismo de noiva.
Ela continuou sorrindo até que estava virtualmente rangendo os dentes,
para manter a pose
alegre. Finalmente, Rolt sugeriu que fossem embora. Alanna concordou com
um movimento rápido de cabeça, seus músculos rígidos relaxando por um
breve momento no braço que em quase nenhum momento tinha deixado sua
cintura. Ao abraçar os
pais, teve um pressentimento ruim sobre o que estava fazendo, e por que,
mas afastou o pensamento.
No meio de uma chuva de arroz, deixou a casa com Rolt. Seu carro estava
parado na entrada de carros, só que não era mais todo preto. Havia
espirais e listas, além
de frases como "Recém-Casados" e "Dele e Dela" pintadas em branco nas
laterais do carro, formando uma decoração bem-humorada. Mas Alanna não
achou graça. Aquilo
só servia para realçar ainda mais que tinha se casado com Rolt por
vingança e não por amor.
- Pode relaxar agora, Alanna. Acabou - Rolt disse secamente, depois de
dar marcha-à-ré e colocar o carro na estrada.
- É. - Pelo menos, a necessidade de continuar fingindo tinha acabado.
com um suspiro, se recostou no banco. - Quanto tempo vamos levar para
chegar à sua casa?
- São mais ou menos vinte minutos, daqui até "nossa" casa ele respondeu,
com ênfase calma.
O silêncio durante o caminho foi da vontade de ambos. Nunca tinha havido
nenhuma sugestão de que passariam a noite de núpcias em qualquer outro
lugar, que não a
casa de Rolt. Se ele tivesse sugerido passarem o fim de semana em um
hotel, Alanna teria recusado. Um quarto de hotel era dominado pela cama;
em uma casa, havia
outros cómodos.
Ela nunca tinha ido à casa dele, nem mesmo a vira. Seu pai havia levado
a maior parte de suas coisas, aquelas que não podiam ser colocadas nas
malas que estavam
agora no porta-malas do carro, para a casa de Rolt, no dia anterior.
Alanna só sabia para que lado ela ficava e que era no campo, perto de um
lago.
Pinheiros enormes sombreavam o caminho que levava à casa. Cresciam tão
perto da estrada, que era quase como andar em um túnel. A casa ficava em
uma clareira logo
abaixo do topo de uma colina.
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Tinha sido construída com cedro tosco, rústico e desigual, e confundia-
se naturalmente com a floresta em torno.
Atraente, Alanna admitiu, apesar de pertencer a Rolt. O carro parou e
ele deu a volta para abrir a porta dela.
- Minhas malas - lembrou a ele, quando Rolt se encaminhou para os
degraus de madeira que levavam à porta da frente.
- Eu as trarei para dentro mais tarde. - Destrancou a porta e esperou
que ela se juntasse a ele, no pórtico largo e rústico. Alanna teria
passado reto, mas Rolt
a segurou. - Há um velho costume, a respeito de carregar uma noiva para
passar por uma porta.
Seu primeiro impulso foi dizer não, mas engoliu-o e deixou que os braços
fortes dele a aninhassem em seu peito. O contato com o corpo musculoso
fez com que seu pulso
se acelerasse por um momento, mas ela conseguiu manter sua pose gelada.
Rolt abriu a porta com o pé
e carregou-a para dentro de casa.
- O costume já foi respeitado. Pode me colocar no chão agora
- Alanna disse, com uma calma enregelante.
O rosto de Rolt estava muito perto do dela e seu olhar era firme e
indecifrável. Ela podia examinar cada detalhe das ruguinhas causadas
pelo sol, no canto de seus
olhos, e das rugas mais profundas, que havia em torno de sua boca. Por
vários e longos segundos, ele a segurou. Uma tensão estranha vibrou ao
longo dos nervos alterados
de Alanna.
Lentamente, ele relaxou o braço sob os joelhos dela, deixando suas
pernas deslizarem para o chão. Mas apertou o outro braço, achatando seus
seios contra a parede
de granito do peito dele. Ela continuou rígida, sem lutar nem se
submeter. Rolt levantou seu queixo.
- Bem-vinda ao lar, sra. Matthews.
Sua boca desceu sobre a dela com uma insistência paciente. Sua posse era
cheia de paixão controlada. Alanna afastou da mente a força dos braços
dele e concentrou
seus pensamentos em Kurt, o homem com quem deveria ter se casado, o
homem com quem queria ter se casado. Isso ajudou-a a ignorar a pressão
persuasiva do beijo.
A linha de sua mandíbula estava rígida quando ele levantou a cabeça.
- Você não vai tornar as coisas fáceis, vai? - Apesar da frieza em sua
voz, seus olhos pareciam pedaços de safira, de um azul intenso.
- Nunca foi minha intenção tornar nada fácil para você replicou.
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Ele a puniu apertando o braço em torno dela, por um segundo soltando-a
depois. Alanna se afastou dele cautelosamente, cônscia que seus joelhos
estavam ligeiramente
trémulos; mas ela tinha conseguido repelir o beijo dele. Estava decidida
a fazer com que essa fosse a primeira de muitas vezes.
Ignorando Rolt, olhou para a sala. As paredes eram recobertas por cedro
tosco, interrompidas por enormes janelas e por uma lareira de pedra cor
de areia. O carpete
bege era luxuosamente grosso e espesso, num estilo rústico, que
combinava com o resto da casa. Em frente da lareira havia um sofá
comprido, de veludo marrom, ladeado
por banquetas forradas de xadrez creme e marrom. A iluminação indireta
ficava escondida nas vigas de madeira do teto.
Um corredor bem largo, que saía do hall, permitiu que enxergasse a sala
de jantar, com janelas em toda a extensão de uma parede. Pelos vidros
podia-se ver as tábuas
do pátio de madeira. Rolt, que estava em pé atrás dela, um pouco
distante, fez um movimento e Alanna voltou-se, como se tivesse se
esquecido de sua presença, o que
era impossível. O olhar dele a convidava a fazer algum comentário a
respeito da casa.
- É muito bonita - disse, de maneira indiferente.
- vou lhe mostrar tudo.
Sem esperar para ver se ela queria, Rolt passou por Alanna e entrou no
enorme hall. Encolhendo os ombros com uma falta de interesse que não era
verdadeira, Alanna
o seguiu. com um gesto ele indicou uma porta que saía do hall e que ela
não havia notado.
- O escritório, onde às vezes eu trabalho à noite - disse e entrou na
sala de jantar.
Alanna olhou-o rapidamente, e teve a sensação de que estava em uma
caverna quente e escura, cheia de livros e mobiliada com móveis de couro
escuro, sobre o carpete
bege.
- A sala de jantar e, ali fora, o pátio para se tomar sol. - Na
decoração do pátio ensolarado, tinham sido usados com liberdade os tons
de ocre e dourado, e de lá
tinha-se uma visão do lago de tirar a respiração. - A cozinha é por ali.
- Indicou com a mão uma porta em forma de arco, por onde se viam
armários de madeira. Alanna
olhou pela porta, para a cozinha aparelhada com o que havia de mais
moderno, embora com um toque decididamente rústico. Quando Rolt voltou
para o hall, e subiu a
escada em caracol que levava ao andar de cima, ela o seguiu.
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Lá em cima, outro hall imenso circundava a escada protegida por uma
grade de madeira polida, que combinava com a que cobria as paredes. Três
portas saíam do hall,
duas dando para a frente da casa e a outra para o lago.
- Os quartos - Rolt declarou.
- É óbvio - disse, encolhendo os ombros com secura.
- Os dois daquele lado são os de hóspedes, e este é o quarto principal.
- Ele abriu a porta deste último, como ela esperava que fizesse.
Uma cama tamanho gigante dominava o quarto espaçoso, coberta por uma
colcha de brilhante veludo marrom. Havia janelas de vidro dos dois lados
da cama, que iam do
chão ao teto. Dali podia-se ter de novo uma visão panorâmica do lago,
rodeado por árvores, que brilhava como um espelho polido, a distância.
- Muito bonito - Alanna comentou, com marcada indiferença.
- Há um closet atrás daquela porta. - Rolt fez um gesto para o lado
esquerdo. - O banheiro fica do lado direito. Pode dar uma olhada,
enquanto trago suas malas para
cima.
Alanna olhou para as portas que ele tinha indicado, mas não foi até lá.
Nem fez qualquer comentário sobre as malas, não se movendo, enquanto
Rolt não chegou ao pé
da escada. Então foi para o hall e, dando a volta nas escadas, dirigiu-
se aos outros quartos. Ambos eram pequenos, pelo menos quando comparados
com o quarto principal,
e muito bem mobiliados. Quando ouviu Rolt chegando, voltou rapidamente
para o quarto principal. Ele colocou as duas malas dela ao pé da cama e
endireitou-se, lançando-lhe
um olhar longo e sem expressão, como que sondando com que tipo de humor
ela estava.
De um modo distante, ela se voltou, ficando de frente para a janela, não
querendo lhe dar a chance de adivinhar seus pensamentos.
- Se me desculpar. . . - havia zombaria e cinismo misturados na voz dele
- vou trocar de roupa.
- Por algo mais confortável? - ela perguntou acidamente.
- Exatamente. Geralmente, não fico em casa de terno e gravata. Alanna
não se moveu da frente da janela quando ele entrou no
closet. Minutos mais tarde, saiu e o coração dela se acelerou de medo.
- Não se preocupe - sua voz estava cheia de riso silencioso, por causa
da paralisia que tomara conta dela -, pode se virar sem medo.
Fazendo um gesto desafiador com a cabeça, Alanna olhou por cima
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do ombro, preparando-se para o pior. Mas não havia necessidadeRolt
estava usando jeans já bem velhos, e uma camisa xadrez de azul e marrom.
Seus olhos brilharam
divertidos quando notou o alívio que tomou conta do rosto dela.
- Enquanto você desfaz suas malas, vou lavar o carro e tirar aquelas
bobagens escritas nele. - O riso fazia os cantos de sua boca se curvarem
para cima.
com um aceno zombeteiro de cabeça, saiu de novo. Pela segunda vez,
Alanna esperou que ele chegasse lá embaixo. Pegou então suas malas e
atravessou o hall com elas,
indo para um dos quartos de hóspedes. Abriu as malas e começou a colocar
as roupas no armário. Uma delas já estava vazia e a outra tinha só
algumas peças dentro,
quando ouviu a porta da frente abrir e fechar. Ficou imóvel por alguns
segundos, tentando ouvir o som dos passos de Rolt no carpete grosso.
Escutou-o nas escadas
e enrijeceu-se por um instante, mordiscando apreensivamente o lábio
inferior quando ele chegou ao topo.
A porta do quarto em que Alanna estava tinha ficado completamente aberta
e ela sabia que, quando não a encontrasse no quarto principal, ele
notaria isso. Um segundo
mais tarde, Rolt estava no hall e Alanna rapidamente começou a abotoar
uma blusa no cabide. Embora estivesse de costas para a porta, e o
carpete abafasse o som dos
passos dele, soube, no instante que ele entrou, que estava ali e sentiu
os cabelos da nuca se arrepiarem.
- O que está fazendo aqui?
Como se ele não soubesse!, ela pensou.
- Desfazendo as malas. - Alanna demorou-se verificando se a blusa estava
bem esticada, se o colarinho estava certo.
- Nosso quarto é do outro lado do hall - Rolt disse calmamente, dando a
impressão de que achava que ela ainda não sabia daquilo.
- Prefiro este aqui - respondeu despreocupadamente. E caminhou até o
armário para pendurar a blusa, ao lado das outras roupas que já tinha
posto lá.
- Acha isso certo? - ele perguntou, com uma voz seca e baixa. Voltando
para a mala, Alanna foi forçada a deixar que seu olhar
encontrasse o dele, pelo menos por um breve momento. As feições dele
estavam tensas e severas, tão rígidas que ela chegou a se perguntar se
ele chegaria a arrancar
suas roupas do armário e levá-las para o outro quarto. Mas não podia
voltar atrás e não voltaria.
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- Tem alguma objeção? - continuou, com o mesmo tom de voz despreocupado,
e pegou outra blusa da mala e começou a pendurá-la em um cabide. A
tensão no ar estava
carregada de eletricidade, agora.
- Muitas - respondeu. Então seu tom relaxou visivelmente.
- Mas vamos discutir isso mais tarde, com detalhes.
Virando-se, ele saiu do quarto, deixando uma ameaça silenciosa que a
amedrontava quase tanto quanto sua presença física. Fraca, seniou-se na
cama, com a blusa amarfanhada
no colo. Não tinha sido outra batalha, exatamente, apenas outra
escaramuçazinha. Até agora, tinha escapado sem um arranhão e só podia
cruzar os dedos e esperar que
sua sorte continuasse.
Meia hora mais tarde, já tinha arrumado todas as suas roupas e trocado o
simples vestido branco, com o qual se casara, por um conjunto vermelho
de calça e túnica.
As pernas largas esvoaçavam em torno de seus tornozelos, como se fossem
uma saia longa, e o decote ligeiramente drapeado da túnica realçava sua
garganta esbelta.
De pé, em frente do espelho, ela escovava preguiçosamente as pontas do
cabelo. Não podia passar o resto do dia no quarto e não havia mais razão
para ficar ali. com
um suspiro, colocou a escova na penteadeira e saiu para o hall. Lá de
baixo não vinha um som e ela não tinha ideia de onde Rolt poderia estar.
Acabando de descer a escada, viu-o no pátio, com um pé apoiado na grade
que o contornava e um cotovelo sobre o joelho, olhando para baixo, para
o lago. Alanna ficou
em dúvida, se devia juntar-se a ele ou esperar na sala que ele a
procurasse.
Estava quase se decidindo pela sala, pois sentia que não seria esperta
se levasse a batalha ao campo inimigo. Ainda tinha que reforçar suas
defesas. Nesse momento,
Rolt endireitou-se e se voltou, olhando diretamente para ela,
evidentemente tão capaz de enxergar através do vidro quanto Alanna.
- A vista do lago é uma beleza, daqui - ele disse. Espantada com a
clareza de sua voz, quando ele estava do lado
de fora e ela dentro, Alanna levou um certo tempo para perceber que a
porta que dava para o pátio estava aberta.
Hesitou um pouco, antes de caminhar para lá.
Rolt encostou o lado do corpo no gradil e esperou; seu olhar era tão
intenso e perturbador que quase fez com que ela se virasse e entrasse de
novo na casa. Não estava
com medo, tentou se convencer,
89
e continuou com firmeza até o gradil, parando uns dois passos à esquerda
dele.
Ele a tinha convidado para ver o lago; portanto, ela olhou para o lago.
O pátio ficava bem acima do sopé da colina, e uma derrubada cuidadosa de
árvores havia sido
feita, para não obstruir a visão e, ainda assim, deixar bastante verde.
- Tudo arrumado? - Sua voz era baixa e divertida.
- Tudo, sim. - Acenou com a cabeça, concordando e depois disse: - Que
vista linda!
- Eu gosto - Rolt respondeu com simplicidade.
- Não é inconveniente morar no campo, principalmente no inverno, quando
as estradas ficam ruins e bloqueadas pela neve? - Alanna sentia
necessidade de continuar
a conversar. Não sabia por que, mas não podia tolerar o silêncio, com
aquele panorama tão cheio de serenidade na frente deles. Por isso, tinha
falado a primeira
coisa que lhe veio à cabeça.
- Às vezes - Rolt reconheceu. - Mas depois do barulho e da agitação da
fábrica, gosto da paz e do silêncio daqui. Não há vizinhos para amolar;
pelo menos, vizinhos
humanos. Só os coiotes, os esquilos e as aves.
Não tinham vizinhos, Alanna pensou; ninguém a quem pudesse recorrer,
qualquer que fosse o motivo. O pensamento gelou-a. Estava sozinha ali
com Rolt. Não pôde deixar
de imaginar por quanto tempo o gigante de Mesabi continuaria adormecido.
- Alanna...
Ela se assustou com a menção de seu nome. Tentou esconder, voltando-se
para olhá-lo. Mas, pelo movimento de suas sobrancelhas, percebeu que ele
tinha visto.
- Gostaria de lhe perguntar uma coisa - Rolt disse.
- O que é? - Ela afastou uma mecha de cabelo do rosto, procurando na
memória por alguma coisa que ele poderia perguntar e não achando nada.
- Você vai fazer o jantar desta noite ou eu faço?
Sentiu o impulso de dizer que não estava com muita fome, mas a verdade é
que teve uma enorme sensação de estômago vazio quando ele falou em
comida.
- Eu vou fazer - respondeu, contente por ter que fazer algo que a
afastasse de Rolt.
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CAPITULO VII

O sol, com uma teimosia irritante, custou a se pôr por trás do


horizonte, dando término ao longo dia de verão. Por um breve momento, o
lusco-fusco desafiou a escuridão,
depois fugiu atrás do sol.
Seu desaparecimento foi o sinal para Alanna se retirar. Fingindo
despreocupação, fechou a revista pouco interessante e jogou-a com
negligência no sofá, ao lado dela.
Sua ação atraiu o olhar azul de Rolt. Eles mal tinham trocado uma
palavra, durante toda a noite.
A discussão que ele havia adiado, sobre suas objeções aos arranjos de
Alanna, não tinham acontecido. Ela percebeu que Rolt não queria discutir
aquilo na sala de
visitas. Tinha certeza de que ele estava pensando em outro cómodo.
Levantando-se do sofá, lançou-lhe um olhar deliberadamente frio.
- Boa noite, Rolt - disse de modo casual e dirigiu-se para a escada.
- Retirando-se tão cedo? - Sua voz estava repleta de zombaria. Alanna
parou no primeiro degrau, com a mão no corrimão.
- Foi um dia muito longo - respondeu, com desconfiança. Rolt não
manifestou nenhum desejo de que ela tivese uma boa
noite. Tomou nota da omissão, enquanto subia a escada. Isso serviu para
fortalecer sua decisão e, chegando no quarto, trancou a porta. Mas,
duvidando da segurança
da fechadura, correu até a penteadeira e começou a empurrá-la para a
frente da porta, grata por ela ter rodinhas nos pés.
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Sentindo-se um pouco mais segura, correu o olhar pelo quarto, parando na
porta do banheiro. Os dois quartos de hóspedes dividiam o mesmo
banheiro! Apressou-se em
trancar a porta e arrastar uma cadeira para a frente dela. Pronto,
pensou com satisfação, as entradas estão bloqueadas. Rolt pode tentar
fazer suas objeções agora.
Despindo-se, vestiu uma camisola e o penhoar, feitos com um tecido
sedoso e colante, cor de marfim, e com o corpete cheio de rendas. Fazia
parte do enxoval que sua
mãe tinha insistido para ela comprar. Teria preferido sua camisola de
algodão, mas não estava com vontade de procurar por ela agora.
Não tinha intenção nenhuma de dormir, nem mesmo de chegar perto da cama.
Era bastante inteligente para saber que suas defesas não eram
inexpugnáveis e, se Rolt as
derrubasse, não queria estar deitada na cama quando ele entrasse no
quarto.
Andando impaciente de um lado para outro, ela esperou. Sua cabeça
funcionava a todo vapor, ensaiando todas as coisas que diria a ele:
nojento, odioso, desprezível,
bárbaro e cruel. Ah, e lembraria também, em termos vingativos, a
chantagem que ele tinha feito com ela. Se ele se atrevesse a chegar
perto, ia mordê-lo e arranhá-lo,
como um gato do mato.
A exaltação queimava suas veias; estava pronta para a batalha. Todas as
suas armas estavam à mão, prontas para serem usadas. E esperou pela
oportunidade com os olhos
brilhantes e um ar de desafio.
Esperou, esperou e esperou. Dez e meia, onze horas, onze e meia, e
ninguém à sua porta. Da janela, podia ver o quadrado de luz que saía da
sala embaixo. O cansaço
começou a invadir seus músculos e a cama parecia cada vez mais
convidativa. Mas, decididamente, continuou em pé. A tensão crescente
irritava seus nervos, que já
estavam à flor da pele.
Caminhando até a janela, pelo que lhe pareceu a centésima vez, escostou-
se no peitoril. Que será que ele está fazendo lá embaixo? Será que
estava esperando que ela
se cansasse e diminuísse a resistência?
De repente, tudo estava escuro. E, piscando sem acreditar, verificou que
a luz da sala tinha sido apagada. Rolt devia estar subindo. Virando-se,
abruptamente, olhou
para a porta.
Seus dedos agarraram o penhoar, fechando-o no pescoço. De repente,
começou a ter visões de Rolt irrompendo pelo quarto adentro,
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rindo dos xingamentos que lhe lançava, arrancando sua camisola e
jogando-a sobre a cama. Quase pôde sentir o calor excitante da boca de
Rolt sobre seus lábios.
Afastou a imagem com energia. Isso nunca ia acontecer. Rolt não a
dominaria sem antes sentir a força de sua raiva. Rapidamente apalpou a
luz, jogando o quarto
na escuridão. Ele que pensasse que ela estava na cama, dormindo.
Prendendo a respiração, ficou à escuta. Rolt estava no alto da escada e
caminhava pelo hall.
Uma porta se abriu e depois fechou; devia ser a do quarto principal.
Ouviu deipois aquela série de sons indefiníveis, que são feitos por uma
pessoa que se prepara
para dormir. Escutou a água correr por um breve momento, e, depois,
silêncio.
Os minutos passavam lentamente e Alanna observava a porta. Não
havia absolutamente mais nenhum movimento no quarto principal.
Aos poucos, foi forçada a reconhecer que Rolt tinha ido para a cama.
- Para a cama! Um grito silencioso de frustração explodiu dentro dela.
Como ele se atrevia? Esta era a noite de núpcias deles! Ele devia
estar ali na porta! Como podia ir dormir? Alanna jogou-se na cama,
batendo no travesseiro com raiva impotente.
Quase uma hora mais tarde, se convenceu de que Rolt tinha mesmo ido para
a cama e entrou debaixo das cobertas. Dormiu de modo inquieto, acordando
ao menor ruído.
Até que, finalmente, perto do amanhecer, a exaustão levou-a ao sono
pesado.
Acordou quando o sol já ia alto, momentaneamente confusa pelo quarto
pouco familiar. Lembrou-se de onde estava e ficou tensa, escutando. Tudo
estava em silêncio.
Onde estaria Rolt? Do lado de fora de sua janela veio um ruído. Saindo
debaixo das cobertas, foi investigar.
Viu Rolt lá embaixo, caminhando na direção de um canto da casa. Ele
estava carregando vara, linha de pescar e uma caixa de
iscas. Alanna o viu desaparecer
na direção do lago. Não ficou duvidando de sua boa sorte em ser deixada
sozinha, mas tratou de aproveitá-la. Removeu a cadeira da porta do
banheiro. A banheira
de louça parecia acenar para ela, quando entrou. Um longo banho de
imersão ia melhorar o cansaço dolorido de seus músculos e ajudaria a
eliminar a sensação
de estar dopada. Abriu as torneiras e adicionou à água Ruma grande
quantidade de espuma para banho, que encontrou na prateleira.
Enquanto a banheira enchia, escovou os dentes para acabar
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com o gosto ruim da boca e arrumou as roupas que ia vestir sobre a cama.
Mais tarde, com água até o pescoço, Alanna se sentiu deliciosamente
mimada. As bolhas espumantes amontoavam-se em torno dela e a água quente
era reconfortante. Inclinou
a cabeça para trás e encostou-a na beirada da banheira; fechou os olhos
e aproveitou a sensação.
A porta do segundo quarto se abriu. Tolamente, tinha se esquecido de
trancá-la. Assustada, sentou-se. Mas logo em seguida afundou nas bolhas
tentando se esconder.
Rolt estava encostado no batente da porta, olhando-a fixamente.
- Saia daqui! - gritou, indignada.
- Por quê? - O brilho perturbado de seus olhos traía a expressão suave
de seu rosto.
- Porque estou tomando banho - Alanna retrucou.
- Eu percebi. - As rugas em torno de sua boca aprofundaram-se
ligeiramente.
- Gostaria de ter alguma privacidade. - Apertou os lábios com força; Não
seria bom perder a cabeça, quando estava numa posição tão vulnerável.
- Importa-se que eu a observe?
- Você sabe que sim - falou, tensa.
- Isso é péssimo. - Rolt encolheu os ombros e cruzou os braços. Havia um
ar inconfundível de insolência na sua postura, que a desafiava a tentar
tirá-lo dali. -
Vai ficar aí muito tempo? Estou com fome, louco por um café da manhã.
- Pois vá preparar - Alanna disse com raiva, odiando-o por colocá-la
naquela desagradável situação.
- Eu nunca a privaria deste privilégio - caçoou. Foi o suficiente.
- Privilégio! - ela explodiu. - Você fez o homem que eu amo pensar que
sou uma ordinária, cavadora de dinheiro! Depois me chantageou, usando
meus pais, para que
eu me casasse com você. E ainda tem a coragem de me dizer que preparar
uma refeição para você é um privilégio? Você é o ser mais baixo e
desprezível que há na terra!
Na verdade não é nem mesmo um ser: é uma coisa.
Os olhos de Rolt tornaram-se frios e duros.
- Você vem ensaiando esse discursozinho há bastante tempo,
94
não é? - Ele a provocou duramente. - Tem mais alguma coisa guardada? -
Milhões!
- Pois não pare agora. - Seus lábios curvaram-se, zombeteiros. - Vamos
ouvir tudo. Tenho muito tempo.
Alanna não podia dizer se a água do banho tinha esfriado de repente, ou
se a sua temperatura tinha subido até o
ponto de ebulição, mas sua pele ficou subitamente fria. Gostaria de
estar fora da banheira, com algo mais
substancial cobrindo-a do que as bolhas que iam lentamente
desaparecendo.
- Vai sair daqui? - Sua zanga a sufocava.
- Vamos, minha lavadeirazinha - provocou-a de novo. - Você ainda não
usou nojento e odioso. Que tal repulsivo? Você me acha repulsivo, não é
mesmo? - O brilho duro
e inteligente em seus olhos fazia com que se lembrasse da época em que
tinha respondido às carícias dele, sem reservas.
A esponja de lavar encostou-se em sua mão e seus dedos fecharamse sobre
ela. Cega de raiva, jogou-a na cabeça dele, borrifando água por todo o
chão de lajotas, mas
causando pouco dano a suas feições bronzeadas.
- Saia daqui! - Sua voz tremia roucamente.
- Deixando de lado o fato de sua mira ser péssima, devia ter jogado algo
mais mortífero que uma esponja. - Rolt se desencostou do batente da
porta e veio caminhando
para ela com maus propósitos.
Desesperada, Alanna agarrou as rosetas de sabonete que estavam numa
saboneteira ao lado da banheira. Conseguiu jogar duas delas nele, mas
não teve chance de jogar
a terceira, pois os dedos dele agarraram seu pulso com violência.
- Solte isso - ele ordenou e torceu a mão dela para trás, até a roseta
escorregar de seus dedos doloridos.
Alanna cravou as unhas na mão que segurava seu pulso, mas sua outra mão
também foi agarrada violentamente e Rolt arrastou-a para fora da
banheira. Tentou resistir
e água e espuma se espalharam por todo lado, quando ele a puxou
bruscamente contra o peito. O chão escorregadio não deixava que ela se
firmasse, dificultando seus
esforços para chutá-lo.
Rolt torceu os braços dela atrás das costas, esmagando-a contra seu
corpo de granito, e apertou ainda mais seu abraço brutal. Alanna teve
que parar de lutar, para
não tornar a dor em seus braços
95
maior. Jogou a cabeça para trás, com os olhos cor de violeta faiscando
de raiva. Uma chama semelhante brilhava nos olhos
dele.
- Me solta! - pronunciou com dificuldade, respirando pesadamente.
- com prazer - Rolt falou de modo ríspido e soltou-a abruptamente, sem
nada que a ajudasse a se equilibrar no chão molhado. Ele arrancou uma
toalha tamanho gigante
do suporte. - Tome. Enrolou-a nela, sem se importar com o modo rude com
que a estava tratando, suas mãos quase ferindo a carne macia de Alanna,
quando amarrou as
pontas da toalha sobre seus seios. A toalha, muito larga, fazia cócegas
nas pernas, na parte de trás. - Sua virtude e modéstia ainda estão
inteiras, sem um arranhão.
Placas ridículas de espuma ficaram grudadas na camisa dele. Suas roupas
estavam úmidas, onde o corpo gotejante de Alanna tinha encostado. Gotas
de água brilhavam
em seus braços musculosos, presas aos cabelos escuros. com um último
olhar, insolente e atrevido, girou nos calcanhares para sair.
Alanna, embaraçada, humilhada e enraivecida pelo que ele havia feito,
não podia deixá-lo ficar com a última palavra. O fato dele estar saindo
não era suficiente.
Queria ter a última palavra, também.
- E nunca mais chegue perto de mim! - Ela bateu com o pé no chão
molhado, numa demonstração infantil de mau humor.
Rolt parou na porta e ficou imóvel por um instante. Então, como uma
represa há muito contida e que se rompe, voltou-se, parecendo mais do
que nunca um gigante, ao
se inclinar sobre ela. Alanna recuou na direção da porta de seu quarto.
O banheiro ficou muito pequeno, de repente, mas Rolt a seguiu.
- Se eu chegar ou não perto de você, vai ser por decisão minha.
- Sua mandíbula estava apertada, exprimindo toda raiva que vibrava em
sua voz. - Não por obediência a qualquer ordem sua.
- Não fique muito certo disso - Alanna disse num desafio, continuando a
recuar, uma vez que ele continuava a avançar.
- É mesmo? - ele caçoou, com desprezo. - Você se sentiu protegida ontem
à noite, por trás de sua barricada?
Olhou com pouco caso a penteadeira em frente à porta que dava para o
hall. Alanna estivera tão atenta em não tirar os olhos dele que não
tinha notado que sua retirada
a levara para o chão acarpetado do quarto. Será que ele sabia que a
penteadeira estava lá, ontem à noite? Ou tinha visto pela primeira vez,
naquele instante?
96
Sem dúvida isso deve ter se manifestado em seus olhos.
- A sala é exatamente embaixo - Rolt lembrou-lhe com sarcasmo. - Ouvi
você empurrando os móveis ontem à noite e tive dúvidas de que estivesse
simplesmente mudando-os
de lugar, àquela hora.
- Então você sabia! - disse baixinho.
- Claro que sim - respondeu, com rispidez. - Mas você não acha,
honestamente, que isso iria me deter, se eu quisesse entrar neste
quarto, não?
- Eu teria arrancado os seus olhos, se tivesse conseguido.
- Duvido! - Ele riu asperamente, na garganta.
Muito zangada para saber o que estava fazendo, Alanna fez um movimento
cheio de desafio com a cabeça.
- Pois tente fazer isso algum dia.
- Este é um convite que eu aceito.
A rapidez com que tudo aconteceu pegou Alanna fora de guarda. Rolt
estava à sua frente e ela o atacou. Ele se desviou do tapa, deixando que
o atingisse, sem nenhum
dano, no ombro.
Suas mãos agarraram a parte superior dos braços dela, machucando sua
carne macia. Ela lutou, chutando-o, ferindo os dedos dos pés contra a
rigidez de seus tornozelos.
Batendo e empurrando o peito dele, tentou impedi-lo de encostar seu
corpo no dela.
Não teve sucesso, mas conseguiu passar um braço por cima do dele,
desfazendo seu abraço, forçando-o a passar de novo os braços em torno
dela para segurá-la. Isso
deixou-a livre para bater nele, enquanto se debatia naquele braço de
ferro.
Os tapas que despejou nos braços e ombros dele não o perturbaram, por
isso deu um murro em sua boca, tentando atingir aqueles lábios
zombeteiros. Sentiu que o havia
machucado, e o sangue, de um vermelho vivo, contrastou de um modo
chocante com o branco de seus dentes. Teve o bom senso de se assustar
com o que tinha feito.
Seus olhos se arregalaram quando ele a levantou completamente do chão,
jogando-a para trás. A cama interrompeu sua queda e uma exclamação de
surpresa saiu de sua
boca. Olhou para o rosto furioso de Rolt, incapaz de se mover, quando
ele dominou a cama com sua altura.
Recobrando-se, começou a rolar para o lado oposto, afastando-se dele.
Mas Rolt era muito rápido e agarrou seu braço, virando-a bruscamente de
costas, prendendo-a
ao colchão com o peso de seu corpo.
97
Ela empurrou seu peito com as mãos e tentou afastá-lo. Mas Rolt pegou
suas duas mãos e estendeu-as acima da cabeça. Alanna olhou para ele,
sabendo que não tinha
escapatória. Seus olhos cor de violeta estavam cheios de desespero
quando se encontraram com o brilho duro dos dele. Rolt abaixou sua boca
ensanguentada e cobriu
a dela, num beijo longo e violento, entreabrindo seus lábios, até que
sentiu o gosto de sangue em sua língua.
Alanna moveu a cabeça numa fraca negativa, tentando lutar, apesar de
sentir sua resistência enfraquecer. O calor da pele dele aquecia seu
corpo. As roupas úmidas
aumentavam seu cheiro másculo e atordoante. O toque firme de sua mão no
ombro nu dela fazia com que as defesas de Alanna caíssem um pouco mais.
A dor física que
a vontade de satisfazer o desejo despertava nela era real e inegável, e
somava-se à sua vulnerabilidade cada vez maior.
Sem saber como, Alanna conseguiu manter a reserva que precisava para não
corresponder a ele com fervor. Não podia se entregar a Rolt. Não depois
do que havia feito
com ela e Kurt, e do modo como tinha usado seu pai para forçá-la a um
casamento que desprezava. Quando sentiu a última gota de sua resistência
desaparecer, frente
à violenta paixão dele, teve certeza de que estava perdida. Mas, no
momento em que sua resistência acabou, Rolt levantou a cabeça.
com uma expressão de raiva e desgosto, afastou-se dela, ficando em pé ao
lado da cama. A mão trémula de Alanna agarrou as pontas soltas da
toalha, e ela ficou em
dúvida se sua liberdade era permanente .ou temporária.
- Então, é assim que vai ser, não? - ele disse, com amargura.
- Uma batalha de vontades. Pois vamos ver quem desiste primeiro.
Voltahdo-se bruscamente, afastou-se da cama, encaminhando-se para a
barricada em frente à porta que dava para o hall, Alanna o observava,
com uma súbita e enorme
necessidade de sentir os braços dele e o calor de seu corpo próximo ao
dela.
- Rolt - chamou fracamente. Ele parou, voltando-se um pouco.
- Que é, Alanna? - Sua voz era seca e implacável.
A amargura cresceu dentro dela. Pela segunda vez, quase tinha deixado a
atração física sobrepujar seu auto-respeito e seu orgulho. Odiava Rolt!
- Vá para o inferno! - falou baixinho, soluçando de raiva. A boca de
Rolt curvou-se num sorriso frio.
98
- Só com você, minha esposa. - com facilidade, empurrou a penteadeira
para o lugar; depois destrancou e abriu a porta. Parou, então, lançando
outro olhar na direção
dela. - Não vai ser preciso armar a sua barricadazinha todas as noites.
Não gostaria que sua figura atraente ficasse musculosa.
Quando a porta se fechou atrás dele, Alanna apertou os nós dos dedos
contra a boca e virou-se de lado. As roupas de cama estavam úmidas, onde
eles tinham se deitado.
Saber a verdade sobre quem tinha a vontade mais forte a enchia de
humilhação. Naquele momento, ela já teria se entregado a ele, se Rolt
tivesse persistido por mais
alguns segundos. Não podia permitir a si mesma apaixonar-se, pensou,
cheia de desespero.
Apaixonar-se por ele! A frase foi como um relâmpago, que fez com que
ficasse em pé de um salto. Isso era ridículo! Como podia pensar em tal
possibilidade? Só porque
coisas estranhas aconteciam dentro dela, toda vez que Rolt chegava perto
ou a tocava, não significava que estivesse se apaixonando por ele! Mas
suas dúvidas aumentaram.
Rapidamente, Alanna relembrou os métodos inescrupulosos que Rolt
empregara para forçá-la a se casar com ele. Não podia amar um homem que
conseguia ignorar os sentimentos
do irmão com tanta frieza. Não podia mesmo, pensou, angustiada.
O aroma de bacon frito recebeu-a, quando finalmente foi para baixo.
Tinha empurrado o tormento de dúvidas e medos para o fundo da cabeça.
Mesmo assim, quando entrou
na cozinha, olhou Rolt cautelosamente, com um pouco de medo que pudesse
adivinhar a louca ambivalência de seus sentimentos por ele, e tirasse
vantagem disso.
Rolt estava de pé em frente ao fogão, de costas para ela, alto e de
ombros largos, com quadris estreitos e musculoso. Alanna sentiu a pele
se arrepiando quando relembrou
a sensação de ser esmagada contra seu corpo rijo. Trémula, desejou não
estar tão cônscia dele. Queria fugir dali, e teria feito isso se Rolt
não tivesse escolhido
aquele momento para olhar por cima do ombro.
- Como gosta de seus ovos? - Seu rosto não expressava absolutamente
nada.
- Bem moles. - Alanna tentou ser tão controlada quanto ele.
Rolt quebrou dois ovos e deixou-os cair sobre a manteiga fervente da
frigideira, jogando fora as cascas.
99
- O café da manhã está quase pronto. Há suco de laranja na geladeira. Os
copos já estão na mesa.
Alanna pegou a jarra de suco e colocou-a sobre a mesinha da cozinha, que
já estava posta para duas pessoas. Ela tinha esperado uma guerra fria
entre ambos ou que,
pelo menos, Rolt a brindasse com olhares irritantes e frases caçoístas.
Mas não isso.
Ele estava quase amigável; distante, sim, mas amigável.
O fim de semana da lua-de-mel se passou naquela mesma atmosfera
vagamente amigável. Eles nadaram, andaram de barco, ficaram
preguiçosamente ao sol e caminharam pelos
bosques. Os convites de Rolt eram sempre acompanhados por um irónico
"Pode vir comigo ou ficar aqui, de acordo com sua vontade". Eles não
riam ou falavam muito.
Eram dois estranhos fazendo coisas juntos, simplesmente porque não
tinham outra companhia.
No entanto, Alanna pegou-se identificando os dias pelas vezes em que
Rolt a tocara. Quando foram andar de barco, ele a tinha erguido do cais
para o barco, e na volta
havia feito o mesmo, ao contrário. Ajudou-a a subir a escada, quando
foram nadar. Caminhando pelos bosques, ele havia segurado sua mão
ocasionalmente, para que se
firmasse ao andar por terreno acidentado. As vezes em que ele tinha
passado loção de bronzear em seus ombros e costas eram as mais difíceis
de esquecer. Esse contato
nunca foi muito longo, mas Alanna estava sempre perturbadoramente
cônscia do toque dele.
Ela sabia que, em qualquer uma dessas vezes, se desse a mais leve
indicação, aquele contato impessoal teria se transformado numa carícia.
Essa certeza estava sempre
presente, cada vez que estavam juntos.
Na segunda-feira de manhã, foi acordada por uma batida na porta.
Piscando, cheia de sono, ela se sentou, agarrada às cobertas.
- Que é? - perguntou com voz cheia de sono.
A porta se abriu e Alanna viu Rolt parado do lado de fora. Estava
impecavelmente vestido, com um terno bege, e o pensamento de como ele
ficava bem com o símbolo
da civilização passou pela cabeça dela. Os olhos cor de índigo
examinaram os cabelos despenteados pelo sono e a vulnerabilidade de sua
expressão.
- Estou de saída para o escritório. - Rolt lhe disse, completamente
impassível. - Estarei em casa lá pelas onze e meia, para
100
o almoço. Todos esperam que, nas primeiras semanas, eu venha alçar com
você sempre que possível. - Claro - concordou com a cabeça.
- Vejo-a depois, então - disse rapidamente e saiu. Logo depois, ela
ouviu o barulho do carro indo embora.
Ele veio almoçar em casa três vezes, naquela semana. Alanna foi à cidade
duas vezes visitar os pais, mencionando o nome de Rolt com tanta
frequência quanto achava
que uma recém-casada faria. O segundo fim de semana foi quase que uma
repetição do primeiro, com a exceção de que, sábado, à noite, foram
convidados para jantar
com um companheiro de negócios e amigo de Rolt. Não foi difícil fingir
ser uma esposa apaixonada, especialmente quando Rolt fazia tão bem o
papel complementar.
Alanna estava passando bronzeador nas pernas e pensando, e chegou à
conclusão de que admitir que poderia se apaixonar por Rolt tinha tornado
isso mais provável.
Ela lutava contra essa possibilidade, lembrando-se constantemente de
como o caráter dele era desprezível.
Mas era difícil continuar a alimentar os velhos ódios
quando ele não fornecia lenha para a fogueira. Se Rolt a tivesse forçado
a suportar suas atenções, se a tivesse possuído à força, teria novos
motivos para odiá-lo.
Mas, do jeito que as coisas estavam. . . Ela suspirou e colocou mais
bronzeador na palma da mão. De qualquer modo, estava ficando impossível
viver sob o mesmo teto
com um homem tão viril quanto Rolt e continuar imune. Não era natural
que um homem e uma mulher vivessem juntos, mas separados. Esta relação
falsamente platónica
não podia durar. Alanna tinha visto a expressão dos olhos dele algumas
vezes, quando a observava: ele ainda a desejava. Isto não havia mudado.
No começo, sua meta tinha sido tornar a vida de Rolt miserável. Agora,
estava concentrando todas suas forças para o feitiço não virar contra o
feiticeiro. E, cada
dia que passava, ela se sentia mais frustrada e desamparada.
Contemplando a verde paisagem de Minnesota, tentou fazer seus
pensamentos se perderem na bela vista que se tinha do pátio. Passou o
bronzeador nos ombros e fez força
para alcançar as costas, esticando o braço.
- Eu faço isso.
Alanna deu um pulo ao ouvir a voz de Rolt. com olhos arregalados,
101
viu-o parado ao lado da porta de correr que levava à sala de jantar.
Tinha tirado o paletó e o segurava no ombro, pendurado em um dedo.
Ela olhou rapidamente para o relógio de pulso que estava na mesa ao lado
de sua espreguiçadeira.
- Só o esperava para daqui a uma hora - murmurou, pouco à vontade. -
Você disse uma hora, não foi?
Ele abriu a porta e passou para o pátio.
- Acabei mais cedo do que esperava - disse, encolhendo os ombros, e
jogou o paletó sobre as costas de uma cadeira, continuando seu caminho
em direção a ela.
Alanna colocou o frasco de bronzeador no chão, desconcertada pela
chegada precoce dele.
- Ainda não comecei a fazer o almoço. Eu... - Começou a se levantar, mas
a mão dele em seu ombro empurrou-a de novo para baixo.
- Não tem importância. Não estou com tanta vontade assim. . . de
almoçar. - Ele fez uma pausa infinitesimal antes da última palavra, e o
coração de Alanna falhou
umas batidas.
Ela abaixou as pálpebras, numa aceitação silenciosa da fome de seus
sentidos pelo toque dele. A espreguiçadeira gemeu em protesto uma vez,
quando o peso dele se
acomodou na almofada atrás dela. Ela sentiu o bronzeador gelado em sua
pele ser espalhado por suas costas, depois.
Rolt não ignorou nem mesmo um centímetro das costas dela. Suas mãos
seguiram a curva da espinha de Alanna até quase o final, esfregando a
pele sensível, com resultados
perturbadores. Seus dedos se moveram sobre a cintura e o tórax, chegando
atormentadoramente perto do início de seus seios, continuando depois até
sua nuca.
Dentro dela, um fogo se acendeu e começou a crescer. Ela sabia que ele
explodiria em chamas a qualquer momento e moveu os ombros em um sinal de
protesto, instintivo
e involuntário.
- Assim está ótimo - disse, com a voz levemente alterada. Rolt não
parou.
- O bronzeador faz mais efeito quando é bem espalhado. - O tom rouco de
sua voz era quase tão sedutor quanto suas mãos.
- Não! - Alanna tentou esconder sua respiração alterada e escorregou
para a frente, na almofada, para escapar das mãos dele.
Conseguiu se livrar de uma, mas a outra curvou-se em torno de
102
ombro, virando-a para encará-lo. Achou difícil encontrar o olhar dele,
por isso olhou fixamente para a frente aberta da camisa de Rolt, uma
visão igualmente evocativa.
A mão dele deslizou para a parte lateral de seu pescoço, levantando seu
queixo com o polegar.
Seus olhos ardiam com a mesma chama que queimava dentro dela.
Ainda é não, não é? - Rolt perguntou, com seriedade. -É - Alanna
sussurrou.
Ela sabia que a veia de seu pescoço martelava contra os dedos dele, mas
não podia fazer seu coração bater mais devagar. Seus lábios
entreabriram-se um pouco, inconscientemente
convidativos. O olhar de Rolt desviou-se para eles. Por um segundo cheio
de tensão
desejou que ele ignorasse sua resposta. Mas Rolt a soltou e ficou em pé,
com a
máscara de bronze do controle cobrindo suas feições. - Acho que é melhor
você preparar o almoço, para que eu possa
voltar para o escritório - disse, com suavidade.
103

CAPITULO VIII

- Acho que o platinado não está bom - o mecânico disse.


Alanna olhou para ele sem compreender. Não entendia absolutamente nada
das partes internas de um carro. Só lembrava que elas existiam quando o
carro se recusava
a andar, como naquela hora.
- Pode dar um jeito nele para mim? - perguntou ansiosamente.
- Posso sim - o homem concordou -, mas não esta tarde. Não tenho outro
platinado que sirva para a sua marca de carro, no momento. E não vou ter
tempo de ir buscar
outro, antes das lojas fecharem. Mas posso arrumá-lo para você amanhã
bem cedinho.
Alanna suspirou e entregou as chaves do carro para o mecânico.
- Está combinado, então. Volto amanhã cedo, para pegá-lo.
- Venha entre nove e meia e dez horas, que já vai estar pronto
- ele concordou e se afastou.
- Papai... - Ela se voltou para o pai, que estava em pé ao lado dela, na
calçada. - Posso levar seu carro emprestado? Eu o trarei de volta amanhã
de manhã, quando
vier pegar o meu.
Dorian Powell negou com a cabeça, pesaroso.
- Sinto muito, benzinho, mas tenho um compromisso esta noite: senão,
teria prazer em lhe emprestar. Mas posso levá-la até em casa.
- Ah, não, papai. Não posso permitir que vá daqui até lá. Alanna se
sentia odiosa,
dizendo isso para ele, mas sabia o que aconteceria se aceitasse a
oferta. Seu
pai iria sugerir que sua mãe os acompanhasse para um passeio e, quando
chegassem, seria obrigada
convidá-los para ver a casa do marido. Eles estavam sugerindo há mais de
uma semana, disfarçadamente, um convite desses. Mas simplesmente não
havia um modo de
Alanna explicar os quartos separados sem destruir a imagem do casal
feliz. - Mas você poderia me levar até a fábrica e, de lá, eu iria com
Rolt para casa. Já está
quase na hora dele ir. O desapontamento de seu pai era óbvio, mas ele
não podia discutir
na solução tão prática.
- vou avisar sua mãe que vou sair e já volto.
- Diga-lhe até logo de novo por mim - Alanna disse. Uma vez em sua
primeira tentativa de sair da casa dos pais tinha sido adiada
porque o carro não queria andar.
Mais tarde, durante o trajeto até a fábrica de taconite, seu pai
comentou:
- Rolt está realmente fazendo dessa fábrica um sucesso. Você pode ficar
orgulhosa dele, Alanna.
- Eu estou - disse, sorrindo por um instante.
- Antes do seu casamento, ele disse que podia ser que houvesse um
aumento na renda de minhas ações. E houve mesmo! Um bem
grande - informou-a. - Rolt é um homem
de negócios e tanto!
- É, ele é muito inteligente. - Alanna ficou sabendo, então, que ele
havia mantido sua palavra e ajudado seus pais.
Notou também que as linhas de tensão e preocupação tinham desaparecido
de volta dos olhos e da boca de seu pai. O peso sobre os ombros dele
devia ter sido muito
grande, para ter feito tanta diferença a sua retirada.
Quando pararam no portão de entrada da fábrica, o guarda de segurança
sorriu abertamente, reconhecendo-os.
- Boa tarde, sra. Matthews, sr. Powell. - E acenou para que entrassem.
Seu pai deixou-a na porta, perto do Mustang preto estacionado,
reafirmando que não podia entrar com ela se quisesse jantar com sossego
antes de sair, e foi embora.
Do pessoal do escritório, muitos reconheceram Alanna quando ela entrou
no edifício. Não tinha mais voltado lá depois da noite em que Rolt a
tinha coagido a se
casar com ele. Os olhares curiosos e os sorrisos ocasionais de
cumprimento, do pessoal, fizeram com que tivesÉse vontade de saber se
eles se lembravam das inúmeras
vezes que
i 105
tinha saído com Kurt, antes de se casar com Rolt subitamente. Ela se
sentia desagradavelmente na defensiva, desde que tinha
chegado. Rolr estava no escritório externo,
falando com um homem de terno escuro, quando ela entrou. A ternura
perturbadora do olhar dele dêsfez a apreensão que a tinha acompanhado
até ali. Caminhou ansiosamente
na direção dele, ignorando sua secretária.
- Você não vai acreditar no que aconteceu. - Alanna sorriu. Ela teria
ficado parada na frente dele, mas Rolt passou um braço
em torno de sua cintura e puxou-a de encontro a seu corpo, para lhe dar
um beijo. Os lábios dela responderam automaticamente, fazendo com que
seus olhos brilhassem
de tal modo, que ela achou difícil sustentar seu olhar quando ele
levantou a cabeça.
Voltando-se para o homem que observava divertido seu cumprimento, Rolt
disse:
- Minha mulher, Alanna. tom Brooks, que trabalha para a companhia de
navegação de Duluth.
Alanna sentiu o sangue colorir seu rosto, mais por causa da sua resposta
desinibida a Rolt do que pelo fato de terem sido observados. O homem
sorriu para Rolt.
- Fiquei sabendo, mesmo, que havia deixado a vida de solteiro. E já
esperava que estivesse beijando sua esposa. - Ele se voltou para Alanna.
- É um prazer conhecê-la,
sra. Matthews.
- Obrigada. - Ela apertou a mão dele e o braço de Rolt em torno de sua
cintura diminuiu um pouquinho a pressão que fazia.
- Mas o que trouxe você até aqui? - Rolt perguntou em seguida.
- Você disse que alguma coisa tinha acontecido. - Por um instante, o
olhar de Alanna encontrou o dele. - Esqueceu? - arreliou-a.
- Não - respondeu, com uma risada trémula. - Meu carro quebrou; alguma
coisa com um tal de platinado. Não pode ser arrumado até amanhã de
manhã, por isso estou aqui
para pegar uma carona com você até em casa.
- Acho que posso dar um jeito. - Então ele franziu a testa. Como chegou
até aqui?
- Papai me trouxe. Passei por lá hoje, para vê-los. Na hora de ir para
casa, o carro não quis pegar - explicou.
- Tenho que ver algumas coisas com tom antes de ir. - Ele olhou para sua
secretária, por cima da cabeça de Alanna. - Não tenho mais nada depois
disso, tenho, sra.
Blake?
106
- Não, senhor.
- Assim que tom e eu terminarmos, podemos ir - Rolt disse. - Prometo não
segurá-lo por muito tempo, sra. Matthews. - O Roniem sorriu.
Alanna deu uma olhada ao redor e aquela vaga sensação de desconforto
voltou, ao pensar em esperar no escritório até Rolt sair. Não
queria mais ser alvo de olhares
especulativos por parte do pessoal. Ficar sentada ali, seria o mesmo que
estar em exposição. - vou esperar no carro, se não houver inconveniente
- disse
para Rolt.
- Está certo. - Ele tirou o braço da cintura dela e enfiou a Rão no
bolso. - Está trancado. Vai precisar das chaves. Alanna pegou as cHaves
e sorriu educadamente
para o outro homem. - Foi um prazer encontrá-lo, sr. Brooks. - com um
sorriso
rápido e ligeiramente inseguro para Rolt, saiu da sala. Enquanto
caminhava pelo
corredor, uma figura familiar se aproximou pelo lado oposto. Era Kurt.
Mas seu sorriso fácil estava faltando
e seu charme calmo não brilhava em seus olhos. Ele estava
tão diferente do homem que tinha amado, que parecia um estranho. Os
passos de Alanna se interromperam quando percebeu que tinha
se referido a ele no passado.
Não via Kurt desde a noite em que ele encontrou com Rolt. De repente,
ele pareceu ser a resposta para
seu problema. Se pudesse falar-lhe e explicar o que havia acontecido,
talvez pudesse reforçar seus sentimentos por ele e conseguir, para si
mesma, imunidade às emoções que Rolt despertava nela. - Oi, Kurt -
cumprimentou-o com calma,
quando ele estava nuase junto a ela.
Kurt a cumprimentou rapidamente com a cabeça, sem falar, com os ombros
rígidos e o rosto como uma máscara. Ele teria passado mor ela, se Alanna
não tivesse bloqueado
parcialmente seu caminho. - Por favor, espere um pouco - pediu.
Kurt parou, mostrando com seus modos abruptos que estava ansioso jpara
ir embora e não tinha gostado da interrupção. - Não consigo pensar em
nada que possamos
dizer um para o outro - Kurt respondeu friamente.
- Há muita coisa para ser dita, se você quiser ouvir. - Alanna ?retrucou
suplicante, mantendo a voz baixa. - Você nunca me deu luma chance de
explicar o que tinha
acontecido.
107
- Não vejo nada para ser explicado. É tudo muito óbvio. - Seu olhar era
tão gélido quanto um céu de inverno.
- As coisas não são como parecem ser.
- Não? - ele zombou. - Mas você se casou com meu irmão.
- Você sabe por quê? - Alanna olhava-o fixamente, pedindo-lhe em
silêncio que lhe desse o benefício da dúvida. - A verdadeira razão?
- Alanna - ele suspirou irritado -, qual o objetivo disso? O que isso
vai mudar?
- Espero que mude a ideia que faz de mim - respondeu honestamente. - Não
quero que você pense em mim como uma ordinária. Me magoa muito.
Kurt virou a cabeça, olhando para a parede do corredor.
- Está certo. Se quer mesmo, pode explicar. Vá em frente, estou ouvindo.
- Aqui não. - Alanna olhou ao redor, cônscia do pessoal nos escritórios
ao longo do corredor. - É muito público. Além disso, Rolt vai sair logo.
- Quer me encontrar em algum outro lugar, é isso? - ele perguntou, com
um sorriso levemente caçoísta.
- É! Para conversar - Alanna frisou. - Quero me encontrar com você
amanhã, às doze e trinta, para almoçar.
Alanna não desejava ser vista com Kurt em um restaurante público. Isso
correria a cidade e logo Rolt ficaria sabendo.
- Podemos nos encontrar no Centro Interpretativo? - ela perguntou.
- Não quer que Rolt descubra, não é?
- É isso mesmo - admitiu.
Kurt fez um movimento com a cabeça, como se estivesse refletindo se era
sensato concordar.
- Eu vou me encontrar com você amanhã. - Sem nem mais uma palavra, ele
se afastou.
O céu estava fechado, triste e acinzentado, com nuvens mais escuras e
ameaçadoras no horizonte. O vento, assobiando, anunciava a tempestade
que se aproximava, fazendo
cair a temperatura.
Alanna enterrou ainda mais as mãos nos bolsos da jaqueta de náilon
amarela e observou o carro de Kurt entrar no estacionamento do Centro
Interpretativo do Ciclo
do Ferro. Atrás dela estava o fantástico edifício de concreto e vidro,
sede do centro.
108
O local, que ficava no alto da velha Mina de Ferro Glenn, tinha
uma extraordinária vista da mina inativa, com suas gargantas naturais e
as feitas pelo homem. Em torno da base do edifício moderno Acorriam
várias trilhas feitas
pela natureza.
Quando Kurt saiu do carro e encaminhou-se para ela, Alanna volftou-se
para observar a impressionante estrutura do prédio.
O fato de seu casamento com Rolt não ter sido por amor não parecia ter
importância. O sentimento de culpa estava lá, para tornar seu encontro
com Kurt desagradável.
Alanna se repreendeu por ser tão rigidamente moralista. Mas estava
nervosa quando Kurt parou ao seu lado.
- É lindo, não é? - Seu ângulo de visão abrangia a ponte que passava
sobre a mina. - Já esteve lá dentro? - Não.
- Eutambém não, pelo menos recentemente. Ainda não estava completamente
pronto para visitas quando estive lá. Mas ouvi dizer í que está
completo, agora. O
que cheguei a ver era fascinante. - Lembrando-se da exposição de
bandeiras em uma sala espelhada, Alanna pensou nas pessoas que haviam
emigrado de todas as partes
do mundo para Minnesota. - Não é apenas sobre a descoberta do ferro, sua
mineração e desenvolvimento. É também a respeito da vida das pessoas que
trabalhavam nas
minas, no verão, e na derrubada de árvores, no inverno. - Ela falava
rapidamente, evitando o assunto quedos trouxera ali. - Eram
principalmente emigrantes da Roménia,
Jugoslávia, Noruega, Suécia, Inglaterra, Irlanda e muitos outros países.
Era um caldeirão de cultura, religiões e linguagens. Existe um filme que
fala das razões
que os trouxeram para a América e suas primeiras impressões. A maioria
não podia falar inglês e não estava acostumada com os extremos do clima
de Minnesota.
A saudade da terra natal. . .
- Alanna - Kurt interrompeu, com impaciência -, sei que é tudo muito
interessante, mas não foi por isso que vim aqui.
- Eu sei. - Ela suspirou relutante, voltando o rosto para ele, abaixando
depois os olhos para o chão. - Eu não sei por onde começar.
- Que tal pelo começo? - sugeriu secamente. - Por que se casou com Rolt,
se não foi por amor ou por dinheiro?
- Por que eu o odiava. - O uso do passado, de novo, causou lhe um mal-
estar momentâneo. Antes que Kurt pudesse fazer algum
109
comentário, ela continuou: - Sei que Rolt lhe deu a impressão de que eu
estava me encontrando com vocês dois ao mesmo tempo, mas não é verdade.
Ele foi até a minha
casa, um domingo à tarde, e essa foi a única vez que o vi, a não ser
quando estava com você. -
Os olhos dele estavam cheios de descrença e isso tornou Alanna
impaciente.
- Eu estava com você praticamente todas as noites. Não tinha tempo para
me encontrar com Rolt. A menos que ache que eu escapulia para me
encontrar com ele, depois
que me levava para casa.
- Está certo. - Kurt admitiu a possibilidade de que ela estivesse
dizendo a verdade. - Se não estava se encontrando com ele, por que foi
ao escritório dele aquela
noite?
- Porque ele disse que sabia algo sobre meus pais.
- Seus pais? - A resposta dela o surpreendeu. Alanna inspirou
profundamente e começou a explicar os problemas
financeiros de seu pai, concluindo:
- Rolt dise que ajudaria papai, sem que ele soubesse, se eu me casasse
com ele.
De repente começou a chover e Kurt segurou-a pelo braço.
- Vamos nos molhar, se ficarmos aqui fora. Venha para o meu carro.
Inclinada, tentando fugir dos enormes pingos de água, Alanna correu para
o carro de Kurt. Nenhum deles falou, enquanto Kurt abria a porta do
carro para ela e dava
a volta para entrar pelo lado do motorista. Por vários segundos, o único
som que se ouviu no interior do carro foi o barulho da chuva batendo no
teto.
- E como você explica aquela cena de amor que surpreendi? Kurt perguntou
finalmente, lançando-lhe um olhar de desafio. - Você não estava, de modo
algum, resistindo
a ele.
- Não, não estava. - Alanna olhou para as mãos que torcia no colo. - Não
tenho nenhuma desculpa para isso, exceto que seu irmão é muito
experiente, quando se trata
de excitar uma mulher fisicamente. Ele estava tentando me provar que eu
não acharia desagradável fazer amor com ele.
- E é óbvio que você não está achando - Kurt murmurou com aspereza,
olhando para a frente.
- Eu... eu não sei. - Ela balançou a cabeça, sentindo seu olhar
penetrante voltar-se rapidamente para ela.
110
- Ora, vamos, Alnnma - ele murmurou, surpreso. - É claro que
já teve tempo suficiente para formar uma opinião.
Ela hesitou, apertando os lábios.
- Houve uma cerimónia de casamento, Kurt, mas não há um casamento de
verdade.
- O que está tentando me dizer? - Olhou para ela, de um modo
cético.
- Nós temos quartos separados - Alanna murmurou, corando,
e levantou o queixo num gesto de desafio.
- Rolt? Meu irmão? Ele concordou com isso? - Kurt franziu
a testa, incrédulo.
- Ele está esperando que eu vá até ele. - Alanna passou uma
mecha de cabelo por trás da orelha.
- E até agora você não foi - ele disse, mas sua voz ainda era
interrogativa.
- Como eu poderia. . . - Não conseguiu dizer o resto da frase, que seria
"se eu o amo". Mas as palavras não saíram de sua boca.
Seu olhar procurou com desespero o rosto de Kurt, tentando recapturar a
atração que sentira uma vez. Mas, agora, era sua ligeira semelhança com
Rolt que mexia com
suas emoções. Desviou o olhar rapidamente, piscando por causa das
lágrimas que queimavam em seus olhos.
A mão de Kurt tocou seu ombro, segurando-o com delicadeza e virando-a
para ele. Inclinando-se, sua boca desceu sobre a dela. Seu beijo ardente
não provocou mais
do que uma pequena chama de emoção, e não a poderosa paixão que os
beijos de Rolt despertavam. Ela continuou com os cílios abaixados quando
Kurt se afastou, tentando
esconder seu desapontamento e desejando não ter vindo se encontrar com
ele. Não era
correto magoá-lo ainda mais.
- Não está mais aí, não? - ele disse calmamente. - O que sentíamos antes
- acrescentou.
Alanna concordou com a cabeça, mantendo os olhos baixos, enquanto
reconhecia que ele estava certo. Percebeu a tristeza em sua voz e sentiu
o mesmo.
- Para ser honesto. Alanna - Kurt continuou calmamente -, naquela última
semana eu notei que algo estava faltando. Achei que você se distanciava
de mim, cada vez
que eu a tomava nos braços. Por isso é que acreditei com tanta
facilidade que estava vendo Rolt às escondidas. Era mais fácil pensar em
perdê-la para ele, do que
111
perdê-la porque você não me amava. Eu sei que não faz sentido, mas era
assim.
- Sinto muito, Kurt - murmurou. - Eu queria amar você. E pensei mesmo
que o amasse.
Teria sido tão mais fácil para ela! Mas, ver Kurt tinha aberto seus
olhos para a verdade: ela já estava apaixonada por Rolt.
- Acho que-nós dois esclarecemos algumas coisas hoje. Entendemos nós
mesmos, e um ao outro, melhor. - Ele suspirou, como se não tivesse muita
certeza de que isso
fosse uma boa coisa.
- Sem ressentimentos, Kurt? - Ela inclinou a cabeça para um lado, com o
olhar triste e melancólico.
- Sem ressentimentos. - Ele sorriu sem alegria. - Ainda sinto ter
perdido você, mas não sinto mais amargura. Eventualmente, a mágoa vai
desaparecer também.
Não havia muito mais para dizer e ambos sabiam disso. Alanna estendeu a
mão para a porta e abriu-a. Sorriu fracamente para Kurt.
- Cuide-se - disse.
- Você também. - Mas havia uma tensão em seu rosto que lhe dizia que ele
ainda a amava, apesar dos sentimentos de Alanna terem mudado.
Quando Alanna chegou à casa na beira do lago. a chuva intermitente havia
parado, mas o céu continuava ameaçador. O encontro com Kurt a deixara
desanimada e confusa,
com um problema que não sabia resolver. Amar Rolt deveria ter tornado as
coisas mais simples; no entanto, elas pareciam ter se complicado.
Ela andou a esmo pela casa, ouvindo os trovões cada vez mais perto. Os
relâmpagos brilhavam, descrevendo arcos incríveis. O jantar já estava no
forno quando começou
a ventar, de tal modo que os pinheiros se inclinavam quase até o chão. A
chuva veio num repente, martelando as janelas e impedindo a visão. A
fúria da tempestade
aumentava cada vez mais.
A mesa estava posta e o jantar pronto no forno, mas Rolt não chegava. A
princípio. Alanna não deixou que a preocupação tomasse conta dela.
Provavelmente a tempestade
o tinha detido; as estradas deviam estar escorregadias e com pouca
visibilidade.
Mas as horas continuaram a passar e o pânico a envolveu. Discou o número
direto dele, no escritório, mas ninguém atendeu. Ligou para o portão de
entrada, e o guarda
de plantão disse que Rolt havia saído da fábrica há quase duas horas
atrás. Começou a imaginar problemas
112
simples como um pneu furado, mas logo passou para acidentes em que o via
ferido, caído em alguma valeta ao longo da estrada, Quando levantou o
telefone pela terceira
vez para chamar a polícia. ele estava mudo. Desligado pela tempestade.
Passando os dedos pelos cabelos castanhos claros, Alanna deu uma olhada
para as janelas embaçadas
pela chuva. Um relâmpago explodiu em algum lugar perto e o trovão
sacudiu as vidraças.
A porta da frente se abriu com violência, e Alanna voltou-se com
rapidez. A primeira coisa que lhe passou pela cabeça foi que o vento
tinha aberto a porta. Uma rajada
de ar úmido e turbulento envolveu a sala, gelando seu rosto. A luz
prateada de um relâmpago iluminou a noite, por alguns segundos.
Delineada na porta, estava a silhueta escura de um homem. Seu cabelo
escuro estava despenteado pelo vento e sua postura, com os pés
ligeiramente separados, era
assustadora. A chuva brilhava nas pranchas de madeira do lado de fora da
casa. Naquele exato instante, iluminado pelo relâmpago, o homem não
parecia real, mas um
ser mítico, um gigante.
Ele se moveu e Alanna soltou o ar retido nos pulmões num suspiro cheio
de alegria. Correu para a porta enquanto Rolt entrava, pingando água,
seu terno caro colado
à sua figura musculosa. Suas feições bronzeadas estavam úmidas e
brilhantes, com gotinhas de água nos cílios escuros.
- Rolt! Por onde andou? - Ela correu para os braços dele.
Seu alívio em vê-lo salvo e aparentemente sem ferimentos era muito
grande para ser contido. Enterrou a cabeça na lapela molhada do casaco
dele, enquanto ele empurrava
a porta para fechá-la, impedindo a chuva e o vento de entrarem. Ela
podia ouvir o bater firme do coração dele.
- Por que demorou tanto? - Falou baixinho.
- Caiu uma árvore no meio da estrada e eu tive que caminhar
- Rolt respondeu, com a respiração morna de encontro ao cabelo dela,
embora sua voz estivesse estranhamente distante.
Alanna percebeu, então, o modo como estava se agarrando a ele. A umidade
das roupas dele estava começando a ser absorvida pelas dela. Suas mãos
deslizaram dos ombros
para o peito rijo de Rolt. Os trovões continuaram a ecoar
ameaçadoramente e Alanna estremeceu ao pensar que ele havia andado sob
aquela tempestade tão violenta.
113
- Tem medo de tempestades? - Os olhos cor de índigo a observavam.
- Geralmente não. - Ela riu nervosamente. - Mas estava preocupada com
você. Telefonei para a fábrica e o guarda disse que já tinha saído há
duas horas.
- É. Sinto muito se a deixei preocupada.
- Bem, você não podia evitar. - Ele continuava com as mãos pousadas
sobre a cintura dela, de leve. Alanna afastou-se alguns centímetros
dele, com os nervos à flor
da pele. - Acho que o jantar deve estar horrível, mas não faz mal.
Molhado como está, o melhor mesmo é tomar uma sopa quente. E trocar as
roupas por outras secas.
Ia se afastar de Rolt, quando as mãos dele se apertaram em sua cintura.
- Estava mesmo preocupada, Alanna? - Seus olhos brilhantes e duros
examinavam o rosto dela.
- Claro que estava. - De repente uma tensão sutil tomou conta dela, que
se colocou na defensiva. - Não sou um monstro sem sentimentos, Rolt.
- Mas acha que eu sou - disse, acusando-a calmamente. Alanna desviou o
olhar.
- Não acho. - Sob seu olhar perturbador, o pulso dela começou a se
acelerar. - Pelo menos, nem sempre; só às vezes. - Ela estava
gaguejando, sem conseguir se explicar
direito. - Existem horas em que você é cruel; tem que admitir isso.
- Parece ser o único jeito que dá resultado. - Seu rosto parecia de novo
uma máscara de bronze.
- Mas esta não é uma boa hora para discutir isso. - Alanna empurrou o
peito dele com mais firmeza. - Se me soltar, vou preparar sua sopa. -
Tentou parecer firme,
como se o toque dele não a afetasse. - E, enquanto isso, vá para cima e
tire essas roupas molhadas, antes que pegue uma pneumonia. Um banho
quente só pode lhe fazer
bem. Eu levo sua sopa lá para cima, para que possa toma-la na cama -
disse, tentando tratá-lo como uma criança que precisasse da atenção
materna.
- Não. - A negativa foi curta e decidida, e os dedos dele se enterraram
na carne dela. Em sua mandíbula, um músculo saltava.
- Não vou para a cama sozinho, Alanna. Nunca mais.
Mal havia soltado uma exclamação de surpresa, quando ele a levantou do
chão, aninhando-a nos braços, abafando sua voz.
114
Continuou a segurá-la assim, olhando fixa e enigmaticamente para seu
rosto assustado. Suas roupas ensopadas a congelavam, mas Alanna não
percebia. O fogo que queimava
dentro dela afastava todos os outros pensamentos.
Vagarosamente, ele caminhou para a escada, carregando-a nos braços, sem
esforço. Lá em cima, Rolt se encaminhou para o quarto principal. O
coração de Alanna parecia
um tambor, soando mais alto que os trovões e parecendo ter origens mais
primitivas.
O telefone tocou. Alanna abriu os olhos vagarosamente, não muito
certa do que ouvia, com seu corpo drogado pelo sono voltando lentamente
à realidade. O sol
invadia o quarto, cegando-a. Estava deitada
de lado e um lençol frio cobria sua pele. Mas suas costas pareciam
estar em contato com uma fornalha, que se estendia pela sua cintura
e estômago. Alanna estendeu a mão para baixo, para investigar a causa
daquele calor, e tocou os cabelos crespos de um braço.
Por um instante, enrijeceu. Mas depois relaxou languidamente sob o peso
dele. A respiração morna de Rolt acariciava seu ombro de um modo
regular, penetrando pela
massa de cabelos em sua nuca. Alanna se aconchegou mais a ele, sentindo
um contentamento atordoante.
Uma excitação deliciosa percorreu suas veias ao lembrar da facilidade
com que ele havia dominado suas emoções. Ela não sabia que a dor podia
se misturar tão facilmente
com o êxtase, nem que podia haver tanta alegria numa união física.
Uma onda de rubor coloriu suas faces quando lembrou de como seu desejo
insaciável tinha feito com que procurassem um ao outro pela segunda vez,
durante a noite.
Saboreou a lembrança, com um sorriso nos lábios. Finalmente, podia
entender o que sua mãe queria dizer com "paraíso terrestre". Tivera uma
visão dele na última noite,
nos braços de Rolt.
O som pouco harmonioso do telefone interrompeu seus sonhos asperamente.
Assustada, percebeu que aquilo é que a tinha acordado. Felizmente,
estava deitada no lado
da enorme cama mais próximo do telefone, que ficava sobre uma mesinha de
cabeceira.
Quando começou a se mover para atendê-lo, o braço em torno de sua
cintura se apertou, instintivamente. Alanna deu uma olhada rápida para
Rolt, por cima do ombro.
Ele ainda estava dormindo e os ângulos e planos de seu rosto eram
gentilmente fortes, em repouso.
Não querendo perturbá-lo, estendeu um braço para o telefone.
115
com as pontas dos dedos, agarrou o fone e levantou-o do gancho, antes
que pudesse tocar de novo. Distraidamente, percebeu que a linha,
derrubada pela tempestade,
tinha sido reparada.
- Residência dos Matthews. - Sua voz soou suave, embora ainda um pouco
grave de sono.
- Alanna, é Kurt. Eu acordei você?
- Não exatamente. - De repente, ficou embaraçosamente cônscia da
presença de Rolt ao seu lado. Sentiu o rosto ficar corado.
- Estou tentando falar com vocês há mais de uma hora, mas a tempestade
deixou seu telefone mudo, ontem à noite.
- É, eu sei - murmurou.
- Chamei para saber se você sabe a que horas Rolt saiu para a fábrica,
esta manhã. Ele devia se encontrar comigo às nove, mas ainda não chegou
- Kurt disse.
O olhar dela desviou-se para a mesinha-de-cabeceira. Eram dez e quinze.
Engoliu em seco, incapaz de dizer a Kurt que Rolt ainda estava dormindo.
com ela.
- Não, eu não sei. Ele deve ter dormido demais. - Alanna permitiu que
uma parte da verdade transparecesse.
- A tempestade derrubou várias árvores. Ele pode estar esperando que
alguma estrada por aí seja desimpedida. - Kurt sugeriu.
- Pode ser. Se souber dele antes que você, Kurt, farei com que lhe
telefone - prometeu baixinho.
- Obrigado, eu...
Alanna não chegou a ouvir o resto da frase de Kurt. Sentiu uma onda de
frio atingir seu estômago e cintura quando Rolt retirou o braço. com
dedos firmes, ele pegou
o fone de sua mão e, inspirando profundamente, Alanna se voltou um
pouco, encontrando o brilho atrevido que dançava nos olhos de um azul
escuro. Ele mudou a posição
do corpo, de modo que seu peso pressionava os ombros dela de encontro ao
colchão.
- Kurt, aqui é Rolt. - Mesmo enquanto falava ao telefone, sua boca
explorava os cantos dos olhos, a curva da face e do queixo de Alanna,
mortificando-a tremendamente.
Kurt devia estar tão atónito quanto ela estava. - Ainda está na linha,
Kurt? - Rolt perguntou levemente zombeteiro, sua boca curvando-se contra
a pele dela.
Para provocá-la, ele traçou o contorno de seus lábios, que se
entreabriram, tremulamente, sob a atormentante carícia. Alanna moveu-se
fracamente em protesto, embaraçada
por Rolt estar acariciando-a
116
enquanto falava com Kurt, e por ela estar deixando. O peso de Rolt não a
libertava. Alanna enterrou o rosto no travesseiro e ele transferiu sua
atenção para a curva
vulnerável de seu pescoço.
Alanna ouviu, ao longe, o som da voz de Kurt através dos fios
telefônicos, mas estava muito envolvida pelas sensações atordoantes que
experimentava para distinguir
as palavras dele, acima do som da sua respiração acelerada. Arrepios
percorreram deliciosamente sua pele, quando Rolt descobriu uma parte
particularmente sensível
de seu pescoço.
- Desculpe não ter ido ao encontro. Já era um pouco tarde quando fui
dormir ontem à noite, e Alanna estava sendo uma esposa camarada,
deixando que eu dormisse um
pouco mais esta manhã. Não é mesmo, querida? - Rolt riu suavemente
contra seu pescoço, fazendo com que mais arrepios, de um prazer
completamente irracional, percorressem
sua espinha.
- Rolt, não - ela sussurrou, com dificuldade.
- Vamos mudá-lo para a uma e meia. Está bom para você? Sua boca ardente
continuou a exploração, investigando o vão entre os seios dela,
escolhendo a curva arredondada
de um deles para um exame mais cuidadoso. Um tremor incontrolável de
desejo percorreu-a e os dedos dela se agarraram à musculatura bronzeada
de seus ombros nus.
- E é melhor você dizer à sra. Blake que não poderei, de jeito algum,
estar aí antes do meio-dia.
Rolt levantou a cabeça e inclinou-se sobre Alanna para colocar o fone no
gancho. Depois, colocou um braço de cada lado da cabeça de Alanna,
sustentando-se acima
dela. De um modo indolente, estudou as faces coradas e os olhos cor de
violeta febris.
- Onde é que estávamos mesmo? - murmurou.
Muito mais tarde, Alanna estava deitada sobre a curva do braço dele, com
a cabeça apoiada contra seu peito sólido, que agora subia e descia numa
respiração tranquila.
A sensação de irrealidade que o desejo satisfeito deixa fazia sua boca
curvar-se num sorriso. E se ela não se mexesse, por um milhão de anos,
ainda seria pouco.
Mas seu estômago vazio fez com que se lembrasse de que não comia desde o
meio-dia do dia anterior, e duvidava que com Rolt fosse diferente.
Relutante, afastou-se
do corpo quente dele, deslisando para fora da cama. Consciente do sol
brilhando sobre suas curvas nuas e dos olhos de Rolt, que a observavam,
caminhou timidamente
117
até o roupão masculino pendurado nas costas de uma cadeira vestiu-o e
amarrou o cinto com um nó.
- Onde você vai? - Rolt perguntou, com uma voz lenta e acariciante.
- Preparar o café da manhã. - Alanna voltou-se, afastando o cabelo de um
lado do rosto, com mão nervosa.
Rolt estava de lado, semi-erguido, apoiado sobre um cotovelo, com as
roupas de cama em torno de sua cintura. Seus ombros e peito nus
brilhavam como bronze, à luz
do sol, fazendo contraste com os lençóis brancos. A luz escura que havia
em seu olhar perturbador fez o sangue dela correr mais rápido.
- Venha cá.
Alanna caminhou até ficar a uns poucos centímetros da cama e parou. A
mão de Rolt agarrou as pontas do cinto e puxou-a para a frente, até seu
joelho se apoiar sobre
o colchão. Suas emoções ameaçavam deixá-la à mercê dele, de novo.
- Você não jantou ontem à noite. Deve estar com fome - ela murmurou,
meio protestando.
- Meu apetite não parece ser por comida. - Ele soltou uma das pontas do
cinto e puxou a outra, fazendo o nó se soltar e observando a frente do
roupão se abrir. -
Acho que vou queimar todas as suas roupas e fazer você usar só isso -
Rolt disse, indolente; depois olhou para seu rosto vermelho -, mas
então, eu provavelmente
nunca mais sairia de casa.
Seu olhar prendeu o dela por alguns segundos, cheio de emoção, mas o
roncar do estômago de Alanna rompeu a linha invisível que os unia. Rolt
sorriu de repente.
- É melhor você ir preparar o café da manhã. Não quero que desmaie em
cima de mim.
Alanna já havia descido a escada e suas pernas ainda não tinham parado
de tremer. Quando Rolt desceu, de banho tomado e barbeado, vestia um
terno. O sorriso que
ele deu, quando ela colocou os pratos sobre a mesa, contraiu o coração
de Alanna. A diferença era enorme, quando ele sorria sem aquele ar de
zombaria! O silêncio
durante a refeição foi maravilhoso.
Rolt acabou sua terceira xícara de café e olhou para ela.
- Está na hora de ir.
Alanna concordou com a cabeça, levantando-se da cadeira.
- vou levá-lo de carro até onde deixou o seu.
118
Encaminharam-se para a porta da frente e, lá, Rolt parou e virou-se para
ela. Alanna parou também, olhando incerta para ele, enfrentando
seu olhar penetrante.
- Você vai mudar suas coisas para o meu quarto? - Sua mão deslizou para
dentro do roupão, envolvendo um de seus seios. - Ou devo mudar as minhas
para o seu? -
ele perguntou baixinho.
- Eu mudo as minhas - Alanna prometeu, ligeiramente sem fôlego.
Rolt deslizou a mão para a parte de trás de suas costas, trazendo-a para
junto dele, para receber seu beijo ardente. Seu cheiro de limpeza era
atordoante; sua boca
tinha gosto de café. Esse gosto ficou nos lábios de Alanna. Rolt
levantou a cabeça.
- É melhor eu ir agora, senão não irei mais - ele declarou,
com voz rouca.
Rolt abriu a porta e Alanna passou por ela, escondendo um sorriso de
prazer. Era maravilhoso descobrir que podia tirá-lo do sério, que seu
controle não era tão grande
quanto tinha acreditado. Ele era tão vulnerável ao ardor do beijo dela
quanto ela ao dele. O mundo lá fora, recém-lavado pela chuva, parecia
lindo e brilhante. Seu
coração cantava, cheio de alegria.
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CAPÍTULO IX

A prataria brilhava contra a toalha de mesa de linho branco, as taças de


cristal faiscavam e os pratos de porcelana muito polida eram ricos e
belos. Alanna mudou
o arranjo de flores um centímetro, imaginando se Rolt notaria que eram
da mesma qualidade das de seu buque de noiva. Deu um passo para trás e
examinou a mesa. As
velas, nos candelabros de prata, eram altas e retas; em um balde de
gelo, uma champanhe gelava.
Na cozinha, a sopa esquentava em um réchaud; a salada e a sobremesa
esperavam na geladeira. As bistecas estavam temperadas, podendo ser
terminadas em poucos segundos.
Tudo estava pronto para a chegada de Rolt,
Incluindo ela mesma. Alanna tinha flutuado numa nuvem cor-derosa o dia
inteiro. Nesta noite, estava usando um vestido cor de alfazema, de
chiffon transparente, com
um decote bastante profundo. Ele a fazia sentir-se etérea e feminina,
além de excitante e atraente. Cheia de felicidade, dirigiu-se para a
porta de vidro, de correr,
que dava para o pátio, e franziu a testa impaciente para o sol que se
punha.
- Por favor, desapareça logo esta noite - Alanna pediu, com ansiedade. -
Não podemos ter um jantar romântico, à luz de velas, se você continuar a
brilhar.
Um carro parou em frente da casa e ela virou-se com vivacidade para o
enorme hall que ligava a sala de jantar com a de visitas, esperando com
a respiração suspensa.
A porta da frente se abriu.
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- Alanna? - A voz de Rolt exigia uma resposta. - Eu. . . eu estou aqui.
- A onda de felicidade que a invadiu quase a deixou sem voz. Não correu
para encontrá-lo.
Queria que ele Entrasse na sala de jantar e visse os preparativos que
tinha feito, para a noite deles.
Os passos longos de Rolt o trouxeram até ela, e seu sorriso de boas-
vindas congelou-se em seus lábios, ao ver a frieza da expressão dele. O
olhar do marido percorreu
a mesa, detendo-se friamente nela.
- O que é isso? Uma celebração de vitória? - ele acusou. Alanna moveu a
cabeça, sem acreditar. Este não era o mesmo homem que tinha saído de
casa pela manhã, ou
melhor, ao meio-dia.
- Não sei por que está falando isso - respondeu, insegura.
- Não sabe? - Rolt disse, com ironia. Alanna estremeceu, pois havia
pensando que nunca mais veria sua áspera zombaria. - Kurt faltou ao
nosso encontro desta tarde.
Ela olhou para ele sem compreender.
- Não estou entendendo.
- É mesmo? - Rolt replicou, com total desprezo pela expressão confusa
dela. - Ele deixou um recado com a minha secretária, dizendo que não
poderia, de jeito algum,
ir para lá. Esta foi, exatamente, a frase que ele empregou: não poderia,
de jeito algum, estar lá. - A repetição da frase fez com que Alanna se
lembrasse de que
Rolt havia usado a mesma expressão, naquela manhã. A implicação daquilo
assustou-a. - Foi uma vingança perfeita do meu irmão, não foi?
- Que está dizendo? - Alanna perguntou baixinho, sem acreditar no que
ouvia.
- O que é que há? - Os lábios dele curvaram-se com ironia.
- Não sabia que meu irmãozinho já havia me revelado o segredo de vocês?
Estava esperando para me contar esta noite?
- Você não sabe o que está falando!
- Não? - Rolt virou-se de lado, como se não pudesse suportar olhá-la. Do
mesmo modo abrupto, encarou-a, zangado. - Você me enganou completamente.
Nunca pensei, por
um só instante, que seria capaz de me deixar esta manhã e ir ao encontro
de Kurt à tarde. E você sabia disso, também.
- Eu não fui me encontrar com Kurt. - Alanna protestou.
Ele arqueou arrogantemente uma sobrancelha escura, por sobre seu olhar
cor de índigo, cheio de desprezo.
121
- Onde você foi esta tarde, Alanna? Liguei para cá e ninguém atendeu.
Você também não estava na casa de seus pais.
- Fui até a cidade... - fez um gesto desesperado na direção da garrafa
de champanhe - para comprar champanhe para o nosso jantar desta noite.
- E, por pura coincidência, você estava fora no mesmo horário em que
Kurt não podia, de modo algum, estar lá. Certo? - Um músculo saltava
violentamente em sua mandíbula.
- Acontece que esta é a verdade. Eu fui até a cidade, comprei a
champanhe e voltei direto para casa, sem encontrar ninguém. Lágrimas
amargas queimavam seus olhos.
- Espera que eu acredite nisso?
Alanna enterrou os dentes no lábio inferior, por um doloroso segundo.
- Não espero nada!
Sua voz saiu sufocada. Ela sabia que não poderia suportar aquela ironia
mordaz, sem se desmanchar em lágrimas. Começou a correr para fora da
sala, mas Rolt interrompeu
sua fuga, agarrando-a pelo braço e fazendo com que se voltasse para ele
com violência.
- É capaz de negar que esta não foi a primeira vez que se encontrou com
Kurt, depois que nos casamos? - ele rugiu.
Alanna empalideceu, arregalando os olhos, assustada. Vendo sua reação,
Rolt assumiu uma expressão ainda mais séria.
- Pensou que eu não soubesse do seu encontro de ontem com Kurt, não é? -
Ele puxou-a de encontro ao peito, olhando friamente para seu rosto
pasmo.
Ontem. Parecia fazer muito tempo que tinha se encontrado com Kurt, no
estacionamento do Centro Interpretativo do Ciclo do Ferro. Se Rolt sabia
disso, então não era
de se admirar que pensasse que ela tinha estado com Kurt naquela tarde.
Mas como podia pensar isso, depois de ontem à noite e daquela manhã?
- Como. . . como você descobriu? - gaguejou.
- Fofoca de escritório. Isso se espalha rápido, principalmente se pode
provocar escândalo. Alguém ouviu você marcando encontro com Kurt, quando
falou com ele no
hall - ele explicou, com um desprezo mordaz.
- Nós nos encontramos, sim, mas não foi uma coisa sórdida, como está
tentando fazer parecer.
122
- Quer dizer que ele não abraçou ou beijou você? - Rolt zombou. - Nem
mesmo em nome dos velhos tempos?
Não tinha importância o que ela dissesse, pois Rolt só ia acreditar no
pior. Alanna apertou os dentes, lutando contra a dor que partia seu
coração.
- Não vou discutir isso com você - declarou, cheia de tensão.
- Qual a vantagem de me defender, quando você já me julgou e condenou?
- Os fatos falam por si - ele retrucou.
- Fatos! O que você sabe sobre fatos? - A emoção estrangulava sua voz
acusadora. - Você não seria capaz de reconhecer um fato, mesmo que o
visse cara a cara!
- Eu sei de um fato. - Rolt soltou o braço dela e deu um passo para
trás, a linha da mandíbula esbranquiçada pela violenta fúria de sua
raiva. Alanna teve a impressão
de que ele a tinha soltado e se distanciado dela para não estrangulá-la.
- Você não vai mais ver Kurt.
Se ele tivesse dito aquilo de um modo menos autoritário, Alanna teria
admitido que não estava interessada em Kurt. Mas a ordem a deixou fora
de si.
- E você acha que vai me impedir? Como? Me trancando aqui dentro?
Colocando guardas na porta, como em uma prisão? Eu daria um jeito de
escapar, nem que fosse só
para espicaçá-lo. Ninguém me diz o que fazer! Não aceito ordens de
ninguém! - Alanna jogou-lhe no rosto, num acesso de zanga. - Verei
"quem" eu quiser, "onde'" e
"quando" eu quiser. . . e você não vai me impedir.
- Você jurou uma vez que ia tornar minha vida miserável. Na época achei
divertido, mas acho que a subestimei. - A calma na voz dele era mais
ameaçadora do que se
tivesse gritado. - Você é mais astuta e falsa do que eu pensei. Mas é
minha esposa,
Alanna. Se tentar ver Kurt de novo, e eu descobrir, vai ter que arcar
com as
consequências.
- E que consequências poderiam ser piores do que as que já estou tendo
que suportar? - Lágrimas de dor e ódio brilhavam nos olhos dela. - Não
tenho o monopólio de
fazer vidas miseráveis. Você se tornou dono desse privilégio quando
destruiu meu relacionamento com Kurt, fazendo chantagem comigo para que
eu me casasse com você!
Quanto a ser sua esposa, isso é algo que pode ser
mudado. E eu vou mudar isso, Rolt. Nada pode me fazer continuar casada
com você.
- Nada? - ele respondeu, com suavidade. - Esqueceu-se de seu pai e de
sua mãe? O dia que você pedir o divórcio, deixo de sustentá-los.
- Meu pai vai ter que pagar pelos seus próprios erros, como eu estou
pagando pelos meus. - Alanna respondeu sem hesitar. E casar com você foi
o maior erro de minha
vida.
- Eu vou lutar contra você, Alanna. Você não vai se divorciar de mim
para casar com meu irmão - Rolt avisou.
- Não vou me casar com Kurt. - Ela fez um movimento curto com a cabeça,
negando. - Não quero ter mais nada a ver com homens. Ninguém do seu sexo
vale a dor que causa.
Existe algo muito irónico nesta situação. - Ela sorriu com amargura. -
Quando Kurt me acusou falsamente de estar tendo um caso com você, eu o
acusei de estar manipulando
as coisas para conseguir o que queria. Agora você está me acusando de
ver Kurt, uma acusação tão falsa quanto a dele era. Desta vez, só posso
culpar a mim mesma,
pois não sabia nada sobre os homens. Mas você me ensinou, Rolt. E muito
bem!
Começou a andar, louca de vontade de sair dali, mas ele bloqueou seu
caminho. Alanna levantou o olhar brilhante e frio para Rolt, e ficou
surpresa com a expressão
de animal ferido, sofrendo dor intensa, que viu nos olhos azuis escuros
dele.
Imediatamente o olhar de Rolt endureceu, ficando da cor do aço.
- Onde pensa que vai? - desafiou-a.
Por um instante, Alanna pensou ter visto nos olhos magoados a mesma dor
que estava sentindo. Mas viu logo que era amor-próprio ferido, aquele
odioso orgulho masculino,
frágil demais para suportar uma rejeição.
- Já lhe disse. Estou indo embora - declarou, com ênfase. Estou deixando
esta casa. Deixando este casamento. Deixando você.
- Oque mais quer que eu faça? - O queixo dele tremia convulsivamente. -
Quer que eu me ajoelhe e implore para você ficar? Rasteje na sua frente?
É isso que está
querendo? Quer me ver rastejando aos seus pés, para que seu triunfo
possa ser completo?
- Seria algo digno de se ver: o gigante de Mesabi aos meus pés!
- Alanna riu entre lágrimas, cheia de amargura.
- Saber que pode fazer com que eu me ajoelhe aos seus pés lhe dá alguma
satisfação? - Rolt perguntou asperamente.
124
- Absolutamente nenhuma. - Não quando era o orgulho que o estava levando
a fazer aquilo.
- Nada do que eu diga ou faça vai tornar as coisas diferentes, não é?
- Existe algo que eu gostaria de saber. - O queixo de Alanna tremia, mas
o orgulho a fez manter um olhar de indiferença. -
Você sabia, antes daquela cena de sedução ontem à noite, que eu tinha me
encontrado com Kurt à tarde?
- Sabia.
Alanna tinha se preparado para a resposta afirmativa, mas não pôde
evitar de se encolher, como se a voz dele, dura e implacável, a tivesse
atingido fisicamente.
Uma lágrima ardente deslizou pelo seu rosto.
- Mas que tola eu fui! - falou baixinho, cheia de dor. - Você fez amor
comigo porque estava com medo de que Kurt tirasse minha virgindade antes
de você. Nunca pensei
que o amor pudesse ser uma emoção tão humilhante.
- Amor! - Rolt agarrou seus ombros e sacudiu-a com violência.
- Você não sabe nada sobre o amor! - Ele puxou-a até que ficasse a
apenas alguns centímetros de seu rosto, na ponta dos pés.
- Você sabe o que foi ficar sentado nesta casa, todas aquelas semanas,
sabendo que você estava fora com Kurt, imaginando-a nos braços dele,
beijando-o? Tem alguma
ideia do que eu sentia, vendo o desgosto em seus olhos todas as vezes
que olhava para mim? Amor. . .
- Rolt pronunciou a palavra de um modo rouco, com os olhos escuros de
mágoa examinando o rosto dela.
Alanna estava atónita, certa de que seus ouvidos a estavam enganando.
- A primeira vez que eu vi a filha adolescente de Dorian Powell, fiquei
fascinado por ela. Quando você se transformou numa mulher, não pude
evitar de amá-la. Ainda
não posso. Eu forcei você a se casar comigo: trapaceei, chantageei e
manipulei. Acho que teria feito qualquer coisa para ter você como minha
esposa. Está certo,
eu não fui justo. Mas quem disse que a vida é justa? Pensei que, com o
tempo, poderia fazer com que me amasse. Ontem à noite... - Ele balançou
a cabeça e soltou-a,
sem terminar a frase. - E hoje você foi se encontrar com Kurt.
Sem saber como, Alanna conseguiu achar sua voz.
- Mas eu não me encontrei com Kurt.
- Alanna, não minta para mim - disse, respirando pesadamente.
- Eu não estou mentindo. Você está? - ela sussurrou. Rolt franziu a
testa, confuso.
- Mentindo sobre o quê?
- Você... me ama? - Ela teve que parar para engolir a saliva que o
nervosismo tinha acumulado em sua garganta.
- Mas não é isso que estive dizendo o tempo todo? - Sua expressão era
carregada de dor. - Eu amo você, Alanna.
A declaração não foi acompanhada por discursos empolados. No entanto,
sua extrema simplicidade era mais emocionante que qualquer outra coisa.
- E eu amo você também, Rolt. - Vendo seu olhar descrente e cheio de
dor, Alanna apressou-se em explicar melhor. - Desde a noite de nosso
casamento que venho lutando
para não me apaixonar por você, tentando me convencer de que era só
atração física. Mas não tive sucesso. A única razão que me levou a
encontrar Kurt, ontem, foi
que eu queria ter certeza de que amava você. Não tenho mais certeza de
ter amado Kurt algum dia. Só sei que não o amo. Ele é agradável e eu
gosto dele, mas é você
que eu amo.
Ele semicerrou os olhos, pensativo e cauteloso.
- Hoje...
- Hoje eu fui até a cidade, comprei champanhe e voltei direto para casa.
- Alanna repetiu a explicação que dera antes. - Não vi Kurt. Estava
muito ansiosa para voltar
e preparar nosso jantar desta noite. Este devia ser o primeiro jantar
que teríamos como marido e mulher, uma segunda noite de núpcias, com luz
de velas, champanhe
e flores. Porque eu o amo.
Ele a tomou nos braços, esmagando-a de encontro a ele, enterrando o
rosto nos cabelos cor de âmbar escuro. As mãos dela o rodearam
instintivamente, e Alanna sentiu-o
estremecer.
- Já é bastante você pensar que me ama - ele murmurou, com voz rouca. -
Me dê uma chance de compensar você por tudo que fiz. Mas não me deixe,
Alanna, não me deixe.
- Não o deixarei nunca - murmurou, numa promessa.
Rolt envolveu seu rosto com as mãos, e seu olhar penetrante prendeu os
olhos brilhantes dela.
- Nunca é um tempo muito longo - ele disse, com um pouco de crueldade,
lembrando a antiga frase.
126
Nunca - Alanna repetiu a promessa.
O grito abafado de um pássaro ecoou sobre as águas paradas do lago. O
sol piscou e sorriu para a mesa vazia da sala de jantar. Ele sabia que
não precisava ter pressa
para se esconder atrás do horizonte. Muito tempo se passaria antes que
alguém pensasse em acender as velas.

127

Fim