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Verão Ardente Janet Dailey

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Verão Ardente
(Tidewater Lover)
Janet Dailey

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Projeto Romances 1
Verão Ardente Janet Dailey

CAPITULO I

A campainha do telefone soou, fazendo com que Lacey Andrews


parasse a meio caminho da porta de seu escritório. A luzinha brilhando
indicava que alguém a chamava pelo telefone interno. Passando a pilha de
papéis para o braço esquerdo, voltou para a escrivaninha e levantou o fone.
— Lacey falando — identificou-se automaticamente.
— Há um chamado de Margo Richards para você na linha três — foi a
resposta.
Um levantar de sobrancelhas denotou sua surpresa ao ouvir o nome da
prima. — Obrigada, Jane — pressionou o botão de plástico da linha três,
imaginando, com um certo cinismo, o que faria sua prima lhe telefonar. —
Alô, Margo.
— Desculpe lhe telefonar durante o expediente, Lacey — a voz
melodiosa era rápida e sincera. — Não quero causar encrencas com seu
chefe, mas simplesmente não podia esperar até a noite para lhe falar.
— Não está me causando nenhum problema. Não há restrições quanto
a chamadas pessoais — explicou Lacey com paciência. — Mas o que há de tão
urgente?
— Queria que você soubesse que Bob e eu partimos amanhã de avião
para a Flórida para visitar seus pais. De lá, faremos um cruzeiro de duas
semanas pelas Caraíbas.
— Isso é maravilhoso! — Por nada deste mundo Lacey permitiria que o
mais leve sinal de inveja transparecesse em sua voz.
— Não é mesmo? — continuou Margo. — E tudo aconteceu tão
depressa! De passagem, mencionei a Bob quão romântico seria um cruzeiro
desses. . . e você sabe como Bob é. Se eu quisesse a lua, ele tentaria
comprá-la para mim.
Pobre rapaz, pensou Lacey. Esperava que ele aprendesse a dizer não a
Margo antes de ficar sem um vintém! Tinha certeza de que Margo amava
verdadeiramente Bob, mas também sabia ser ela imatura, pois todos os seus
caprichos e fantasias eram satisfeitos como se fosse apenas uma criança.
— Estive trabalhando como louca desde que ele me disse que
viajaríamos — continuou Margo. — Metade do meu guarda-roupa de verão
estava tão fora de moda que me sentiria envergonhada de usá-lo. Oh, Lacey,
queria que você visse o deslumbrante vestido de noite que comprei! é tão
ousado que duvido que Bob me deixe usá-lo! Comprei também.,.
— Margo, eu adoraria ficar ouvindo sobre suas novas compras —

Projeto Romances 2
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interrompeu Lacey, sabendo que, se não conseguisse fazê-la parar naquele


momento, nunca mais faria com que sua prima se calasse —, mas estou
terrivelmente ocupada no momento. Talvez você possa me contar tudo hoje
à noite.
— Mas não será possível! Bob e eu fomos convidados para uma festa
logo mais à noite e é por isso que estou lhe telefonando agora! — Havia uma
nota de incredulidade em sua voz, como se não lhe fosse possível entender
por que Lacey não se interessava pelo assunto.
Lacey fez uma careta, sorrindo rigidamente para o fone que tinha nas
mãos. — Está bem, gostei realmente de saber que vocês dois estão de
partida. — O que mais ela poderia dizer?
— Oh, mas não foi por isso que telefonei! Pensei que já lhe tivesse
dito! — Lacey podia facilmente imaginar o olhar de inocente surpresa da
prima.
— Não, Margo, você não me disse — replicou ela, contendo um suspiro
de impaciência. — Por que foi exatamente que você me telefonou?
— Encontrei com Sally Drummond ontem. Foi por acaso — assegurou-
lhe Margo ao identificar uma grande amiga de Lacey. — Eu ta indo para o
meu carro, carregada de pacotes, quando ela saiu de um restaurante.
Lacey sentou-se na beirada da escrivaninha. Não tinha a menor idéia do
que poderia ter Sally com o telefonema e resignou-se a esperar para saber.
Simplesmente não havia maneira de apressar Margo em suas explicações.
Isso era um fato irritante, mas imutável.
— Eu parei para lhe dizer alô — prosseguiu Margo. — Então
tagarelamos um pouco.. . você sabe como é. Bem, pulamos de um assunto para
outro, até que nos encontramos falando de você.
— É mesmo? — perguntou Lacey friamente.
— Nada de mau, naturalmente — disse Margo rindo. — Mas Sally me
contou que na próxima semana você vai sair de férias por quinze dias, mas
não sabia se você já havia feito algum plano. Isso é certo?
— é — admitiu Lacey relutante. Sua pequena excursão nada era em
comparação com o cruzeiro de Margo pelos países tropicais.
— Não pretende ir a parte alguma?
— Pretendo passar uns dois dias com meus pais, mas, fora isso, só
penso em relaxar e não fazer nada.
— Mas isso é ótimo! — declarou Margo entusiasmada.
Lacey não entendeu o comentário, mas a idéia de umas férias era
atraente depois do trabalho do escritório e desconfiava que Margo tinha
alguma intenção ao dizer aquilo.
A verdade era que Lacey não podia ir a lugar algum nas férias. Um sem-
número de despesas inesperadas, incluindo a reforma do carro, que fora a

Projeto Romances 3
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maior delas, havia consumido todas as suas economias. Mas era orgulhosa
demais para confessar isso à prima.
— Por que pergunta? — tentava mais uma vez apressar Margo.
— Estive preocupada com nossa casa e as coisas lindas que estão lá.
Situada onde está, na praia, isolada e sem vizinhos, nunca se sabe o que
poderá acontecer, Especialmente quando a praia fica repleta de turistas no
verão. Alguém poderia entrar na casa e roubar tudo que temos no momento
em que percebesse que ela está sem ninguém. Estive pensando no que
poderia fazer a respeito. Você sabe muito bem que temos muitas coisas
valiosas, Lacey.
— Sei — concordou ela. Há um mês, Margo a levara lá para exibir sua
casa.
— Eu estava hoje de manhã pensando no que poderia acontecer
enquanto Bob e eu estivéssemos fora, quando me lembrei que Sally dissera
que você não tinha planos definidos para as férias. Encontrei então a
solução! Você poderia tomar conta da casa enquanto estivessemos fora.
Lacey hesitou — Ê. . . talvez eu possa.
Rapidamente imaginou que seria um plano perfeito para suas férias.
Passá-las numa luxuosa mansão à beira-mar. Era algo que não sonharia
mesmo que ganhasse o dobro do seu salário.
— Sabia que poderia contar com você! — exclamou Margo.
— Terei muito prazer — respondeu Lacey sinceramente, já imaginando
longos dias preguiçosos ao sol. Talvez até se desse ao luxo de comprar um
maio novo!
— Mas há uma coisa — disse Margo depois de uma pausa. — Como eu
disse, partimos amanhã. Bem, detesto a idéia de deixar a casa sozinha por
um dia que seja. Você poderia chegar aqui amanhã à noite?
Respirando profundamente. Lacey imaginou se a prima percebia bem o
que estava pedindo. Fazer o trajeto da praia até Newport News significava,
com o trânsito intenso, ter que se levantar muito cedo. Mas amanhã já era
quinta-feira. Se conseguisse ter livre a manhã de sábado, teria que fazer o
sacrifício apenas uma vez.
— Está bem — concordou Lacey finalmente. — Arrumarei minhas
coisas e estarei aí depois do trabalho amanhã.
— E eu ficarei eternamente grata por isso — disse Margo efusiva. —
Não se preocupe, pois a despensa está cheia de comida. Vou deixar a chave
da porta da frente no vaso de plantas do terraço.
— Está bem.
— Esteja à vontade, a casa é sua, Lacey. Oh, agora preciso correr, pois
ainda tenho mil coisas por fazer! A gente se vê quando eu voltar das
Caraíbas. Até a volta!

Projeto Romances 4
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— Até a volta e boa viagem! — Mas as últimas palavras de Lacey não


foram ouvidas, pois o zumbido do fone indicava que Margo já desligara.
Sorrindo, repôs o fone no lugar. Era típico de Margo: uma vez atingido
seu objetivo, perdia o interesse. Mas Lacey não estava sentida. Graças a ela,
suas duas semanas de férias ganhavam uma nova perspectiva.
Naturalmente ainda era preciso conversar com seu chefe, Mike
Bowman, sobre sábado de manhã. Levantando-se da escrivaninha, dirigiu-se
para o arquivo de metal com as pastas na mão para guardá-las. Ao abrir a
primeira gaveta, a porta da sala se abriu e Mike Bowman entrou
ruidosamente, assustando-a. Ele era um dos engenheiros chefes da
companhia.
— Alô, Lacey — disse distraído, aproximando-se da escrivaninha e
avaliando a pilha de papéis que esperavam por ele.
Afastando da testa uma mecha de cabelos, Lacey estudou-o por uns
instantes. Devia ter uns trinta e tantos anos e alguns fios de cabelos
grisalhos nas têmporas confirmavam isso. Afirmava que seria sempre um
solteirão inveterado.
Apesar de sua limitada experiência, Lacey sabia que, por mais que
procurasse, jamais poderia encontrar uma pessoa tão agradável e fácil de
trabalhar como ele. Durante os últimos meses tinham saído juntos
ocasionalmente, sem ligarem para os comentários do pessoal do escritório.
Mike era bem-apessoado e atraente, um tipo de homem que não passava
despercebido.
— A julgar pela sua expressão, não vou nem perguntar como foi a
reunião — disse Lacey rindo e olhando-o com simpatia.
— Por favor, não pergunte. — Os cantos de sua boca se curvavam
ligeiramente para baixo, demonstrando desgosto. — Esforcei-me ao máximo
tentando explicar ao chefão as circunstâncias pelas quais o projeto
Whitfield é impraticável. Às vezes acho que ele deveria deixar sua
escrivaninha e sair um pouco para poder constatar por que sou tão contra.
— Talvez devesse sugerir que ele fizesse isso — comentou Lacey.
— Não, não é serviço deles — Mike suspirou resignado. — Não querem
ouvir desculpas, querem soluções. E estão certos. Preciso encontrá-las antes
de lhes apresentar os problemas, senão, só os acumulo para mim e para eles.
— Falando de problemas, não sei se está lembrado que minhas férias
começam na próxima semana.
— Não quero me lembrar disso antes de segunda-feira pela manhã.
— Desculpe, mas esperava que me dispensasse no sábado. — Os dentes
brancos de Lacey apareciam num franco sorriso.
— Mas por quê? Pensei tê-la ouvido dizer que não iria a parte alguma
nas férias. — Sua lesta estava franzida e seu olhar confuso ao encontrar o

Projeto Romances 5
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dela.
— Meus planos mudaram de repente — esclareceu ela. — Minha prima
me pediu que ficasse em sua casa na praia da Virgínia enquanto ela e o
marido viajam de férias. Eles partem amanhã, o que quer dizer que deverei
estar lá à noite. Claro que virei na sexta-feira... e no sábado, a menos que
me dê a dispensa do ponto. Assim poderei viajar sossegada.
— Por que não?
— Obrigada! Trabalharei até mais tarde na sexta para deixar tudo em
ordem — prometeu Lacey.
— Será melhor que deixe esta casa de loucos às cinco horas na sexta,
senão posso me arrepender e adiar suas férias — ameaçou-a brincando. —
Então sua prima terá que encontrar outra pessoa para tomar conta da casa!
Por falar nisso, quem vai substituí-la aqui?
— Donna.
Um brilho cético iluminou os olhos dele ao ouvir o nome mencionado. —
É melhor deixar seu endereço e o número de telefone da casa de sua prima
com Jane. Só para o caso de Donna se sentir desorientada e perdida ao
descobrir que não pode encontrar algum coisa. . . Onde mesmo você disse
que era? Na praia de Virgínia?
— Sim. A casa dá para a praia, com o mar bem na frente! E juro, Mike,
que se você me chamar para trabalhar durante minhas férias, eu... — Lacey
não teve chance de terminar sua ameaça.
— De frente para a praia, você disse? Diabos! Eu bem que poderia
tirar minhas férias e lhe fazer companhia. Seria um paraíso! Sabe o que
dizem os prospectos de propaganda? Que a praia de Virgínia foi feita para o
amor! Talvez pudéssemos nas duas próximas semanas provar que eles têm
razão. Eu aguentaria perfeitamente ficar longe do escritório durante esse
tempo! E muito principalmente tendo você ao meu lado.
— Se você não tem nada para fazer no domingo, por que não vai até lá?
— sugeriu ela, sabendo que era exatamente isso o que ele estava querendo.
— Está combinado! — replicou sem hesitação, trocando rapidamente a
idéia de duas semanas por um dia. — Levarei carne e faremos um churrasco
na, areia.
— Magnífica idéia — concordou ela.
O telefone interno tocou e Lacey se encaminhou para atendê-lo. Jane,
a recepcionista, perguntou imediatamente: — O sr. Bowman está aí, Lacey?
— Está.
— Ótimo! O sr. Whitfield está na unha um. Já chamou diversas vezes!
— Não se deu ao trabalho de acrescentai que o sr. Whitfield era um homem
impaciente. O tom de sua voz já dizia tudo.
— Obrigada, Jane. — Lacey repôs o fone no aparelho e olhou hesitante

Projeto Romances 6
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para Mike. — Whitfield na linha um — informou-o.


— Acabei de dar uma série de explicações- Veja se consegue despistá-
lo com sua linda voz por algum tempo.
Sentando-se em sua cadeira, Lacey aceitou o desafio. Afinal de contas,
fazia parte de seu trabalho atender a chamadas indesejáveis. Mike, ao lado
de sua mesa, observava-a curioso, vendo-a tirar o fone do gancho e apertar
o botão um.
— Escritório do sr. Bowman. Em que posso servi-lo? — perguntou de
maneira delicada.
Uma voz brusca respondeu: — Quero falar com o sr. Bowman — era
uma ordem e não um pedido.
Lacey notou isso, mesmo assim persistiu: — Sinto muito, mas o sr.
Bowman está em outra linha, no momento. Quer deixar algum recado?
— Está em outra linha, é? — Não era possível ignorar o sarcasmo
daquelas palavras.
— Está. Posso pedir que lhe telefone quando terminar? — ofereceu
Lacey.
— Não, não pode! — gritou a voz, fazendo com que ela segurasse o
fone longe do ouvido. — Sem dúvida, ele está aí a seu lado, observando como
conseguirá se descartar de mim! Mas lhe asseguro que não conseguirá,
senhorita!
Sem saber ao certo se era a veracidade da acusação ou o tom de sua
voz que a irritava, Lacey abandonou sua tentativa de ser delicada e adotou o
mesmo sarcasmo da voz dele. — Eu lhe asseguro que o sr. Bowman está na
outra linha. Contudo, como seu chamado deve ser muito urgente, a ponto de
fazê-lo esquecer as boas maneiras e ser rude, verei se posso interrompe-lo.
Por favor, espere na linha. — Sem lhe dar a oportunidade de uma resposta,
apertou o botão de espera, fazendo-o calar-se.
— Sinto muito, Lacey — disse Mike imediatamente. — Vou atender de
minha sala.
— Gostaria que você o mandasse mergulhar de cabeça numa piscina
seca! — desabafou ela.
— Acredite-me, é uma tentação — suspirou desanimado —, mas é o
tempo e dinheiro dele que estou gastando nesse projeto e ele tem o direito
de saber o que está acontecendo.
— Mas não tem o direito de ser tão... tão...
— Cuidado! — caçoou Mike. — Senhoritas não devem usar a palavra que
está procurando!
— Não me sinto muito uma senhora neste momento! — Lacey fez um
muxoxo, indicando que a luzinha mostrava que o impertinente sujeito ainda
estava esperando.

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— Pense somente nas duas semanas que você vai passar longe de tudo
isso — sugeriu Mike tentando acalmá-la, enquanto se dirigia para sua sala.
Tão rápida quanto havia surgido, sua raiva desapareceu. — De vez em
quando, vou sentir pena de você neste inferno, enquanto eu estiver estirada
na areia apanhando sol... — riu Lacey.
Na quinta-feira, ao entardecer, com seu pequeno bagageiro repleto de
malas e outros pertences, Lacey se viu na estrada, a caminho da casa de
Margo Richards. Lá chegando, olhou com prazer a elegante casa de praia,
pintada de branco e creme e ouviu o marulhar das ondas se quebrando nas
dunas.
Só um tolo poderia lastimar ter que tomar conta de uma casa como
aquela e tê-la duas semanas só para si e Lacey não era boba. Um suave
sorriso entreabriu seus lábios.
Pegando sua frasqueira de cosméticos e uma pequena mala, Lacey
encaminhou-se distraída para a porta da frente, pretendendo encontrar o
vaso onde Margo dissera que deixaria a chave. Não prestou atenção no que
estava diante de seus pés e deu uma topada no capacho. Isso fez com que
levasse um tombo, derrubando sua frasqueira que se abriu com a queda,
espalhando seus cosméticos pelo chão. Felizmente não se machucou.
Levantou-se e começou a catar suas coisas.
— Por que não presta atenção por onde anda, Lacey? — recriminou-se.
O brilho de um metal fez com que ela levantasse um pouco o capacho,
encontrando ali uma chave. Estudou-a por um segundo e resolveu
experimentá-la na fechadura. A porta se abriu na primeira tentativa.
— Bem típico de Margo — murmurou alto, deixando a porta aberta
enquanto catava o resto das coisas e repunha na frasqueira. — Esqueceu
onde disse que poria a chave e a colocou no primeiro lugar que lhe veio à
cabeça.
Depois de entrar na casa, Lacey parou. Lembrava-se que da primeira e
única vez que estivera ali, Margo lhe mostrara que ao rés do chão ficavam
um estúdio, um quarto de depósito e a garagem.
A parte social da casa era no andar de cima e a escada ficava à
esquerda. O vão da escada era aproveitado por um armário que ia até o chão
do andar superior. Pintado de branco e azul, mostrava, pelos vidros de suas
portas, coleções de livros, de enfeites e de estatuetas decorativas.
Com a frasqueira e a mala nas mãos, Lacey subiu as escadas. Tudo era
silêncio. O ruído de seus passos pareceu-lhe alto demais e ela resistiu ao
desejo de andar nas pontas dos pés.
Entrou na sala de estar, também toda decorada em azul e branco. Um
enorme tapete azul era parcialmente coberto por sofás brancos e uma
lareira de tijolos pintados de branco completava o ambiente. Almofadas

Projeto Romances 8
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azuis espalhadas com gosto, mais estátuas e figurinhas e muitas plantas


davam uma idéia de irrealidade ao ambiente.
Deixando suas coisas no chão, Lacey dirigiu-se para a janela larga e
ampla que dava para o mar. A vista era linda, mas decidiu deixar para depois
o prazer de desfrutá-la. Havia muito tempo para explorar os arredores e
descobrir novas belezas.
Uma investigação na cozinha revelou que havia um farto suprimento de
comida e bebida. No refrigerador, comida pronta para três ou quatro dias.
Poderia pensar no que comer mais tarde. Primeiro pretendia desfazer as
malas e se instalar.
Os quartos saíam de um corredor à esquerda da sala de estar. Lacey
deu somente uma ligeira olhada no quarto do casal. Os dois quartos de
hóspedes eram menores, mas muito acolhedores. Escolheu um que dava para
o mar. Entre os dois quartos havia um banheiro. Decorados em amarelo e
azul, lembravam o sol e o mar. Lacey admirou tud< antes de se ver refletide
num espelho.
— Eu poderia facilmente me habituar a esse estilo de vida! — disse
para a moça do espelha, de lindos olhos escuros e cabelos castanho! que lhe
sorria de um modo muito feminino.
Uma hora depois, já tinha tirado toda sua bagagem e guardado carro na
garagem. Umas roupas de inverno de Margo estavam no guarda-roupa, mas
havia lugar de sobra para o que era seu.
Arranjou para si um prato com queijo, carne fria e algumas fruta e foi
comer na sala de jantar, olhando o oceano.
A casa era tão perfeita que exigia capricho. Lacey lavou a louça que
sujara e guardou tudo, fazendo desaparecer qualquer vestígio de sua
presença. Então se permitiu um passeio pela areia da praia.
O pôr-do-sol tornava a areia dourada e ela se sentia cansada ma
estranhamente refeita pelo ar marinho, quando voltou para casa.
Depois de um rápido chuveiro, acertou o despertador e mergulho na
cama, adormecendo quase tão depressa quanto sua cabeça tocava
travesseiro. Acordou uma vez durante a noite, custando um pouco
identificar onde estava, mas logo adormeceu novamente. A estridente
campainha do relógio advertiu-a de que já era dia e ela pôde ver sol
nascendo por trás do horizonte, dourando tudo. Rapidamente calou o
despertador e um calmo silêncio voltou a reinar.
A lembrança do longo trajeto pela estrada fê-la pensar. Que bom que
só terei que fazer isso uma vez!
Pulando da cama foi até a cozinha, ainda em seu pijama de seda. Uma
jarra de suco de laranja estava no refrigerador. Serviu-se de um copo,
enquanto punha água para ferver para fazer um café.

Projeto Romances 9
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Gastou alguns minutos no banheiro fazendo sua toalete e se maquilando


como de costume. Vestiu rapidamente uma saia cinza e um blusinha verde.
Ao voltar à cozinha, a água começava a ferver. Fez o café instantâneo,
serviu-se de uma xícara e vagarosamente dirigiu-se para o terraço. Olhando
o mar que quebrava na praia, sorvendo café em pequenos goles, sentiu a
suave brisa envolvendo-a. Era só o que precisava para espantar o resto do
sono.
Encostada na grade, apreciava o vai e vem do mar, com suas brancas
das ondas se espalhando na areia. Por alguns minutos, perdeu a noção do
tempo.
O ruído de um carro trouxe-a de volta à realidade. A brisa marinha
dificultava distinguir, de onde vinha o carro, mas estava perto. Prova-
velmente um pescador que madrugava, pensou ela e entrou em casa.
Na cozinha foi até a pia para lavar sua xícara e surpreendeu-se ao ver
que o copo onde tomara o suco ainda estava lá.
— Você está perdendo seu controle, Lacey — caçoou ela em voz alta.
— Estas horas matutinas estão afetando sua memória! Podia jurar que já
tinha lavado isso.
Um olhar para o relógio revelou que já estava atrasada. Apanhou a
bolsa e desceu correndo as escadas para a garagem.
O tráfego estava intenso e ela gastou mais tempo do que previra. Um
congestionamento no túnel da estrada de Hampton fê-la perder ainda mais
tempo.
Nervosa, chegou ao escritório e parou junto ã recepcionista. A um
simples olhar viu que algo não estava bem.
— Aquele sr. Whitfield chamou novamente, Lacey, e está muito
zangado. Pedi-lhe que telefonasse mais tarde, pois pensei que até lá o sr.
Bowman já estaria aqui, mas ele ligou agora dizendo que está preso num
negócio do outro lado da cidade. O sr. Whitfield vai ficar furioso quando
souber que ele ainda não chegou.
O primeiro impulso de Lacey foi dizer: pois que se dane! Mas conteve-
se e sorrindo pediu a Jane que quando ele chamasse, transferisse a ligação,
que ela tentaria explicar.
Mal se sentara em sua mesa quando a chamada veio. Jane dizia que ele
estava na linha dois. Agradecendo, Lacey atendeu. — Não perca a calma —
disse para si mesma —, seja amável e ouça o que ele tem a dizer. Não torne
as coisas piores para Mike.
A intenção era das melhores, mas, mesmo antes de pegar o fone,
mostrou a língua para o aparelho. Isso refletia bem seu estado de espírito
no momento. Uma revolta por estar ali, quando as férias de duas semanas a
esperavam, longe de pessoas como esse odioso sr. Whitfield.

Projeto Romances 10
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— Escritório do sr. Bowman — quando falou, sua voz era suave e


melodiosa.
— Coloque o sr. Bowman na linha! — A impaciência transparecia naquela
voz autoritária.
— Sinto muito, mas o sr. Bowman não está no momento. Só deverá
chegar à tarde. Posso lhe ser útil em alguma coisa? — Lacey escolhia as
palavras cuidadosamente.
— Mas me disseram. .. — começou ele furioso.
— Sim, eu sei o que lhe disseram, sr. Whitfield — interrompeu-o
delicadamente. — Ele era esperado agora, mas telefonou avisando que só
poderá chegar à tarde. Ficou detido num trabalho, do outro lado da cidade.
— Então está procurando me convencer de que ele não está aí?
— Não estou procurando convencê-lo, estou lhe afirmando que ele não
se encontra aqui! — Era uma delícia sentir a segurança da própria voz.
— Não sei qual o negócio que o deteve, senhorita.
— Andrews.
— Srta. Andrews, mas tenho certeza de que não é o meu! Ontem,
Bowman me prometeu uma porção de dados que eu preciso! É um negócio
importante, srta. Andrews! — Sua bonita voz era grave e gelada pela raiva.
— Diga ao sr. Bowman quando chegar que quero que me chame
imediatamente!
Como afirmara Jane, devia estar havendo problemas em alguma
construção e Mike não estaria com vontade de enfrentar um contato com o
sr. Whitfield quando voltasse. Respirando fundo, Lacey decidiu intervir. Era
pelo menos alguma coisa que poderia fazer em agradecimento por Mike lhe
ter dado a manhã de sábado livre.
— Estou familiarizada com seu projeto, sr. Whitfield, e com as
circunstâncias que interferiram no seu andamento. Talvez eu lhe possa dar
alguma explicação.
— Você? — O tom não era tanto de incredulidade quanto de caçoada.
Lacey irritou-se, mas continuou em tom sereno: — Sim, sr. Whitfield,
eu. Estou a par de muitos projetos, inclusive o seu.
— O que não significa nada!
— Não creio.
— Pois bem. — Ele aceitava sua gentileza. — Então me diga por que os
pintores não estão na obra?
— Os pintores não estão lá porque na maioria dos banheiros os
ladrilhos ainda não estão assentados e eles não podem fazer o serviço. Os
ladrilhos não estão assentados porque os encanadores não puderam
terminar. Como vê, sr. Whitfield, é um círculo vicioso.
— Por que os encanadores não terminam de uma vez? A história que

Projeto Romances 11
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me contou, srta. Andrews, não é novidade para mim. Já a ouvi de Bowman, só


que com a promessa de que os encanadores estariam lá hoje sem falta.
— No momento em que ele lhe prometeu isso, acreditava firmemente
que seria possível. O problema é que os aparelhos sanitários não chegaram.
Ontem foi prometida a entrega e hoje o sr. Bowman descobriu que não havia
sido feita. Conheço os transtornos da demora tanto quanto o senhor —
concluiu Lacey polidamente.
Mas Whitfield ignorou sua explicação. — Quem é o fornecedor de
peças sanitárias? E onde estão essas peças?
— Não sei, senhor. Sei que já saíram da fábrica, mas que ainda não
chegaram.
— Em outras palavras, estão perdidas por aí! E você só sabe dizer: que
pena!
— Claro que não — protestou ela.
— Então me diga, por qual companhia foram despachadas?
— Eu.... não sei.
— Qual o registro da carga? Sabe isso, srta. Andrews? — continuava
suas perguntas contundentes.
— Não, não sei. — Começava a se sentir frustrada, com um incomodo
calor lhe subindo ao rosto.
— Sabe se colocaram alguém no rastro da encomenda desaparecida?
— Não, não sei se isso foi feito — admitiu timidamente.
— Bowman providenciou outros aparelhos sanitários ou pretende
esperar que esses apareçam?
— Tenho certeza que ele...
— Garanto que não!
— Realmente, sr. Whitfield. . . — seus lábios se comprimiam formando
uma linha dura — eu...
— Realmente, srta. Andrews — disse ele imitando o tom de voz dela. —
Eu acredito que a persistência do ser humano é capaz de colocar um homem
na lua, portanto é bem mais fácil descobrir que fim levaram uns aparelhos
sanitários, não acha?
— Sim, claro...
— Então, permita-me sugerir-lhe, já que é uma secretária, que use seu
tempo vendo o que poderá fazer para descobrir a encomenda desaparecida!
— e desligou o telefone.
Lacey ficou uns instantes parada, segurando o fone mudo. A irritante
lógica dele fazia com que se sentisse um tanto idiota.
Alguém deveria investigar que fim levou a encomenda que havia; sido
despachada dias antes, mas isso só foi lembrado pelo próprio sr. Whitfield.
Tomando novamente o telefone, Lacey deu o primeiro passo para corrigir o

Projeto Romances 12
Verão Ardente Janet Dailey

erro.

CAPITULO II

Lacey achava uma coisa quase impossível estar ali, preguiçosa como um
gato. A noite não estava muito fria e ela mantinha as janelas abertas e o
fogo na lareira. Uma brisa soprava do mar, trazendo o cheiro de maresia, e
o barulho das ondas se misturava com a música suave do estéreo. Às chamas
do fogo pareciam dançar na lareira.
Depois do estafante dia no escritório, do irritante telefonema de
Whitfield e do longo e difícil caminho de volta para a casa de Margo, Lacey
praticamente desmaiou na cama, naquela noite, dormindo quase até o meio-
dia. À tarde, um banho de mar foi o único exercício que se permitiu, e
depois um jantar italiano, com massas e muitas calorias.
Agora, com o luar prateando o oceano e a luz das chamas dourando a
sala, tudo o que desejava era ficar enrodilhada no sofá, lendo.
O pijama de fazenda fina mal lhe escondia as formas, mas ela não se
preocupou com isso. Não havia vizinhos por perto e, mesmo que houvesse
precisariam ser gigantes para enxergar pela janela do segundo andar. Além
disso, ali no litoral da Virgínia não havia montanhas.
O abajur azul ao lado do sofá derramava um foco de luz nas páginas do
livro que ela lia. Reclinada nas macias almofadas,
ajeitou-se confortavelmente e começou a leitura. Mas logo começou a
cabecear e o livro lhe caiu das mãos, quando adormeceu.
Uma hora mais tarde alguma coisa a acordou. Preguiçosamente, olhou
ao redor, achando que tinha sido uma acha da lareira. Fechando o livro,
colocou-o na mesinha lateral e apagou a luz.
Sonolenta como estava, sabia que deveria ir se deitar, mas ali estava
tão confortável que não resistiu à tentação de ficar mais um pouco.
Escorregou, afundando-se mais nas almofadas, e ficou olhando as chamas
amarelas lambendo as toras na lareira.
Ouviu um ruído na porta da frente e imediatamente todo o sono se foi
e seus nervos ficaram alerta. Alguém estava entrando na casa e ela estava
ali sozinha, sem vizinhos por perto que pudessem ouvir seus gritos!
Seus pés descalços não fizeram nenhum ruído no tapete floreado,
quando ela se aproximou do telefone. Mas este estava mudo, quando ela
tirou o fone do gancho. Um terrível pânico tomou conta dela. Era muito
tarde para correr e tentar fugir. A porta da frente fora aberta e agora
ouvia passos subindo as escadas. O instinto fez com que ela se aproximasse
da lareira e pegasse um atiçador.

Projeto Romances 13
Verão Ardente Janet Dailey

Os passos pararam por instantes e ela, apavorada, deu um ou dois


passos junto da lareira. Suas duas mãos trêmulas seguravam o atiçador com
toda a força possível, como se ele fosse um bastão de beisebol.
Os passos reiniciaram a subida. Somente a luz mortiça das chamas da
lareira permitia ver alguma coisa na casa escura, e a escada estava
inteiramente nas sombras. Entretanto, dessas sombras emergiu uma figura
igualmente escura, que parou no fim dos degraus. Estava difícil e quase
doloroso, para Lacey, respirar. Engoliu em seco, tentando movimentar os
músculos paralisados da garganta.
A figura se moveu mais para perto, mais próxima à luz do fogo. Calças
escuras e um suéter colorido. O homem devia ser forte, adivinhou Lacey, a
julgar pelos ombros largos. No rosto anguloso, a luz das chamas fazia
ressaltar sombras e o contorno. No entanto, ela tinha á impressão de que
em sua face se estampava um ar de curiosidade, diversão e alguma surpresa.
Ele deu novamente um passo em sua direção e aí então o coração de
Lacey parecia querer saltar pela boca, paralisando quaisquer palavras que
porventura quisesse dizer. As sombras se dissiparam e ao menos pôde ver
um par de olhos muito azuis que a fitavam, examinando-a atentamente.
Começaram lentamente pelo rosto, descendo pela garganta, a suave
curva de seu busto, sua cintura, a nudez de suas pernas e seus pés
descalços, para depois voltarem lentamente ao ponto de partida.
Lacey não reparara que o fogo atrás dela fazia com que seu pijama
ficasse quase inteiramente transparente. Sua única sensação sra de medo
da forma como ele a olhava, e sentia o perigo.
Quando os olhos azuis finalmente reencontraram os seus, Lacey,
tremendo, agarrou com mais força o atiçador.
— Bob me disse que eu encontraria aqui o que precisasse, mas não
pensei que fosse tão ao pé da letra! — disse o intruso, com a voz carregada
de segundas intenções.
Lacey ergueu o atiçador ameaçadoramente. — Saia já daqui! — Sua voz,
que pretendia ser forte, era quase um sussurro.
Ouviu a risada bem-humorada dele e queria fugir, mas suas pernas
pesavam como chumbo, recusando-se a obedecer-lhe. Nunca se sentira tão
aterrorizada na vida conto naquele momento. Muitas coisas poderiam lhe
acontecer, e ela tentava desesperadamente visualizar uma delas.
— É melhor que se vá embora — disse ela, dessa vez com uma voz mais
forte —,ou então... eu chamo a polícia.
Deu uma olhada para o telefone, dando uns passos para junto dele.
Sabia que não estava funcionando mas tentava intimidá-lo.
— É pena — afirmou ele rindo —, mas o telefone foi temporariamente
desligado.

Projeto Romances 14
Verão Ardente Janet Dailey

Enquanto respirava rapidamente, com o coração disparado, sentia cada


vez mais medo. Viu os lábios do homem se abrirem num sorriso que
estranhamente era gentil e indulgentemente caçoísta.
— Por que não me diz quem é e o que está fazendo aqui? — sugeriu ele.
A pergunta lhe soou absurda. Tão absurda quanto a situação. Era óbvio
que sua presença ali não iria intimidá-lo a faze-lo sair. Precisava pensar em
alguma coisa!
— Não estou sozinha aqui, sabe? — mentiu Lacey. — Meu marido está
aqui perto e deve voltar logo, a qualquer momento. É melhor que se vá antes
que ele chegue.
— Verdade? — O intruso apenas sorriu. — Isso é ótimo! Talvez,
quando ele chegar, você possa largar esse ferro e comece a explicar
algumas coisinhas.
Deu mais um passo na direção de Lacey, que levantou o atiçador, pronta
para atacar. Seu coração doía, de tanto bater, e seu estômago se contraía
de pavor.
— Não ouse chegar mais perto — ameaçou, tremendo mais do que
nunca —, ou eu lhe arrebento a cabeça!
Ele parou, sem deixar de sorrir. Seu jeito era despreocupado, mas
Lacey não se deixava convencer. Nada demonstrava que pretendia atacá-la,
mas podia ser que ele de repente avançasse para ela como um animal
predador.
— Acredito que tentaria — disse ele, mas sabendo ambos que cia não
seria páreo para uma luta, mesmo armada com o ferro.
Atrás de Lacey, uma acha desmoronou. Por um segundo, antes que
pudesse identificar o ruído, pensou que estava sendo atacada petas costas.
Antes que pudesse saber o que estava acontecendo, sentiu uma garra
de aço lhe segurando o pulso direito, enquanto o atiçador passava para mãos
mais responsáveis.
Um estrangulado "não" saiu de sua garganta. Adrenalina em quantidade
entrou em circulação, enquanto a arma lhe era tirada das mãos. Mas, ao
mesmo tempo, seus membros, antes fracos e sem ação pelo medo, se
tornaram fortes, e ela lutou contra o atacante com determinação e
violência, esperneando e batendo nele.
A princípio ele ficara satisfeito em lhe tirar o ameaçador ferro das
mãos, mas agora agarrava seus braços, e repentinamente mudou de tática.
Lacey sentiu-se levantada no ar e atirada no sofá. O primitivo alarme voltou
a sua mente quando se viu presa pela força dele de encontro às almofadas.
Em vão tentava se levantar, presa por seu atlético opositor. Lutava
selvagemente, mas sentia as mãos de ferro segurando-a firmemente.
Fez um esforço sobre-humano para se libertar, quando sentiu a fina

Projeto Romances 15
Verão Ardente Janet Dailey

fazenda de seu pijama se rasgando sob a pressão das mãos dele. Fora um
acidente, mas o contato daqueles dedos em sua pele nua fez com que o
sangue lhe gelasse nas veias.
Seu corpo quente a impressionava. Ouviu-o praguejar baixinho, quando
ela abafou um soluço de medo, mordendo o lábio inferior.
Sentiu um cheiro de álcool, uísque talvez, no hálito dele, junto a seu
rosto. .
— Quer parar de lutar? — propôs rudemente. — Não quero
machucá-la!
Essa observação fez com que ela se lembrasse de ter lido ou ouvido
alguém dizer que uma mulher nunca deve incitar um homem a luta, pois
facilmente ele se toma violento.
Foi cedendo gradualmente, embora seus músculos e nervos
permanecessem tensos, sempre esperando uma oportunidade de escapar.
Sua respiração era pesada.
— Assim é melhor — disse ele, sem contudo se descuidar, pois sabia
que ela aproveitaria a primeira oportunidade para fugir.
— Solte-me! — Lacey sabia que ele não faria isso, mas precisava, de
alguma forma, demonstrar que não estava submissa.
— Ainda não!
Sob a tênue luz, ela viu uns dentes brancos e soube que ele estava
rindo. . . rindo dela! Achou que se divertia com a sua impotência diante da
força dele.
Ao vê-lo se inclinar para ela, afundou-se ainda mais nas almofadas. Mas
seu braço simplesmente passou por sobre sua cabeça para alcançar e
acender a lâmpada do abajur ao lado do sofá.
Lacey piscou, sob a súbita luminosidade, intimidada com a inspecção
daqueles olhos azuis. Não pôde suportar por muito tempo o olhar dele. Era
estranhamente perturbador, fazendo-a sentir-se culpada.
— Agora, vamos a algumas explicações — começou ele, sem deixar de
examiná-la atentamente. — O que você está fazendo nesta casa?
— Eu. .. eu estou morando aqui — respondeu Lacey, confusa. A dúvida
estampou-se no rosto dele. — Esta casa é sua?
— Bem, não exatamente. — Imaginava por que aquelas perguntas a
faziam sentir-se embaraçada. Tinha o direito de estar ali.
Sua mão esquerda estava livre e ela a levantou para tirar uma mecha
de cabelo que teimava em incomodar-lhe os olhos. Percebendo seu
movimento e imaginando que ela iria atacá-lo novamente, ele lhe agarrou a
mão.
— Não exatamente. — Ele repetiu suas palavras. — E quanto a seu
marido? Você disse que ele estaria aqui num minuto. No entanto, seu dedo

Projeto Romances 16
Verão Ardente Janet Dailey

anular não mostra sinal de ter jamais usado uma aliança.


— Lacey linha sido apanhada numa mentira e se sentia culpada como se
fosse uma criança. — Isso torna óbvio que não espera marido nenhum,
apesar de seu jeito provocante.
Seu olhar passeou pelo leve pijama amarelo e meio rasgado que mal lhe
cobria o corpo. Lacey teve então consciência da roupa sumária que usava.
— Não creio que esteja esperando alguém — continuou.
— Não pode ter tanta certeza — retorquiu ela.
— Não? — Ironicamente, continuava a examiná-la. — Invariavelmente,
as mulheres se enfeitam, se maquilam e põem perfume em lugares
estratégicos quando esperam seus amantes. Seu rosto está lavado —
levando a mão de Lacey ao nariz, aspirou o aroma de sabonete em vez de um
perfume caro —, Você não está usando exatamente Chanel n.° 5.. .
Num repelão, Lacey retirou sua mão. — Nada disso lhe diz respeito e
não tenho que lhe dar explicações! Foi você quem invadiu esta casa,
forçando a entrada, e agora está me interpelando. Você. . .
— Interrompeu-se, achando que não devia lembrá-lo dos motivos que
o tinham levado a ir ali, nem que poderia facilmente identificá-lo na polícia.
Um brilho metálico no olhar dele convenceu-a de que estava certa no
seu raciocínio.
— Eu invadi a casa — disse ele, num tom de voz gelado que soou
estranhamente familiar para ela, mas estava muito preocupada com a
situação para se deter em procurar se lembrar de alguma coisa. — Você tem
uma facilidade incrível para inventar histórias.
— Inventar histórias! — exclamou, indignada.
— Sim. histórias. — Sua mão moveu-se e logo depois ele segurava uma
chave diante de seus olhos. — Eu usei isto para entrar aqui. Foi você quem
invadiu a casa.
Lacey olhava atônita. — Isso é impossível! — conseguiu dizer
finalmente. — Só porque afirma que essa chave é da porta não quer dizer
que seja verdade!
— Pode acreditar que é. — Sorrindo, guardou a chave no bolso.
— Portanto, é mais do que tempo de terminar com esta farsa. —-
Farsa?
Ele ignorou seu ar de ultraje: — Você tem duas opções: ou se veste e
vai embora. . presumo que tenha roupas mais decentes para vestir... ou, se
está desesperadamente necessitada de um lugar para dormir esta noite,
posso dividir minha cama com você. — Passou-lhe então a mão pelo pescoço,
fazendo-a sentir um arrepio. — Nas últimas duas noites, achei minha cama
confortável, embora um tanto vazia. . .
— Nas duas últimas noites!

Projeto Romances 17
Verão Ardente Janet Dailey

— Parece que esta casa tem eco! — caçoou ele.


— Você me acusa de inventar histórias! Você deve estar louco! Ou
então é um refinado mentiroso! Tentando me convencer de que tem o direito
de estar nesta casa e agora querendo me fazer crer que dormiu aqui nestas
duas últimas noites! Mas foi apanhado em suas próprias palavras. Tenho a
lhe comunicar que eu dormi aqui nestas duas últimas noites e que não o vi em
parte alguma!
— Você não desiste! — exclamou exasperado, e levantou-se.
— Não, não desisto! — replicou Lacey, com os olhos brilhando de raiva.
— E já que você, magnanimamente, me deu o direito de escolher entre ficar
ou ir embora, vou embora!
— Ótimo! E não se esqueça de dizer a seus amigos que, embora pensem
que esta casa está vaga durante as férias, ela não está!
Lacey estava a meio caminho de seu quarto quando ele terminou o
comentário. Parou, olhando-o por cima do ombro.
— Vou tomar minhas providências — prometeu ela. — Assim que me
vestir, pegarei meu carro e irei diretamente à polícia! — Continuando em
seu caminho, falou alto: — Margo tinha razão em não querer deixar a casa
vazia enquanto estava fora!
A passos largos ele a alcançou e a delicada pele de seu braço sentiu
uma mão firme que a fez virar-se. Arrumando o pijama rasgado, sentiu-se
intimidada pela altura dele, mas encarou-o corajosamente.
— O que foi que disse agora? — perguntou ele.
— Eu disse que iria diretamente à polícia! — repetiu Lacey
friamente.
— Não é isso — disse impaciente, sem lhe largar o braço. — Repita as
últimas palavras que disse.
— Sobre Margo? — perguntou surpresa.
— Quem é ela?
— A dona desta casa, naturalmente! Não sabia? — perguntou irônica.
— Sabia — afirmou ele —, mas estou querendo saber como é que você
descobriu. Deve ter andado a perguntar pelas redondezas.
Lacey contou até dez rapidamente antes de responder: — Acontece
que Margo Richards é minha prima.
— Realmente? — perguntou ele com irritante cinismo.
— Sim, realmente! — Forçou um sorriso.
— Então onde está sua prima agora?
— Ela e o marido foram à Flórida visitar os pais, antes de seguir num
cruzeiro pelas Caraíbas. Por isso estou aqui. Para que a casa não fique vazia
enquanto estão fora. Você é o invasor, não eu!
— E Margo lhe pediu que ficasse aqui? — perguntou, afastando-se um

Projeto Romances 18
Verão Ardente Janet Dailey

pouco para estudar se não lhe deixara marcas no braço, que acabara de
soltar.
— Pediu.
— E Bob me pediu a mesma coisa — disse ele.
— O quê? — Por um segundo, seus pensamentos se confundiram, mas
logo se refez. — Não espera que eu acredite nisso, não?
— Acreditando ou não, essa é a verdade. — Procurando nos bolsos,
achou um maço de cigarros, tirou um e o acendeu com toda calma, enquanto
Lacey ainda o fitava desconfiada. —- Não conheço sua prima Margo muito
bem — soprou uma baforada de fumaça —, mas a família de Bob e a minha
são amigas há muitos anos.
— Pode provar isso? — desafiou-o ela. — Bob está com seus pais
agora. Por que não lhe telefona?
— Já lhe expliquei que o telefone está desligado temporariamente,
durante as férias. Essa foi uma das razões pelas quais aceitei ficar aqui:
para descansar de telefonemas.
— Mas então não pode provar que conhece Bob! — concluiu Lacey.
Ele estudou longamente a brasa de seu cigarro. — Sabe onde eles
passaram a lua-de-me!?
— Sei — disse Lacey, alerta para não se deixar apanhar. — E você
sabe?
— No Havaí. No primeiro dia, Bob ficou tempo demais no sol e teve que
passar dois dias no hospital se refazendo de insolação.
— Então ele lhe pediu que ficasse na casa!
— É isso o que estou tentando lhe dizer.
— E quer me convencer de que passou aqui as duas últimas noites? —-
Não quero convencê-la. Passei mesmo aqui, no quarto de hóspedes!
— Mas eu também! — Passou a mão pelos cabelos em desalinho. Agora
as peças do quebra-cabeça começavam a se encaixar! Rapidamente os dois
começavam a se entender. — Oh, meu Deus! — murmurou ela, fitando-o —,
Bob lhe deu a chave pessoalmente?
— Não, deixou-a escondida aqui.
— Onde? Onde exatamente ele disse que estaria?
— Debaixo do capacho, mas. . .
— Você a encontrou no vaso de plantas, certo? — terminou ela.
— Sim. Mas como sabe?
— Porque foi exatamente onde Margo disse que deixaria a chave. Mas
eu tropecei no capacho e vi sua chave, e por isso não me preocupei em
procurar no vaso — explicou, lembrando-se de outra coisa. — Eu o ouvi um
carro sair na manhã de sexta-feira. . .
— Saí mais ou menos às seis e quarenta — admitiu ele.

Projeto Romances 19
Verão Ardente Janet Dailey

— E encontrei também seu copo de suco de laranja e o lavei.. .


— Eu estava atrasado. — Ela podia ver que ele se lembrava dos
acontecimentos da manhãs de sexta-feira. — Tomei meu suco e nem me
preocupei com o café. Deixei para tomá-lo quando chegasse ao escritório.
Mas não a vi por aqui.
— Eu estava no terraço tomando meu café. Mas é tudo tão
inacreditável! — exclamou Lacey, voltando a se sentar no sofá. —- Em ambas
as noites fui cedo para cama e dormi como uma pedra.
— Era quase meia-noite quando eu cheguei, na quinta e na sexta-feira.
— E quando você chegou, esta noite, pensei que se tratasse de um
assaltante — completou ela, rindo.
— E eu pensei que você fosse uma dessas colegiais que dormem na
primeira casa vazia que encontram.
— Que confusão! — Lacey sacudiu a cabeça. — Só queria saber se eles
se deram conta de que cada um pediu a uma pessoa que ficasse na casa.
— Eu duvido! — Foi até a lareira, atirando dentro dela o toco de
cigarro.
— Mas agora isso não importa — afirmou ela, rindo de toda a situação
agora esclarecida. — Eles estão na Flórida e nada podem fazer de lá. Cabe-
nos resolver o problema.
— É muito tarde para resolver qualquer coisa agora — disse ele,
apanhando do chão o atiçador e recolocando-o no lugar. — Amanhã haverá
muito tempo para que arrume suas coisas.
— Eu? — perguntou Lacey, admirada.

CAPITULO III

— Naturalmente, você! — Olhou-a por cima do ombro, francamente


admirado que ela não concordasse com a idéia.
— Por que naturalmente eu? — perguntou.
— Se eu fosse um assaltante, exatamente o que teria podido fazer
hoje? — ponderou ele. — Não há vizinhos por perto que pudessem ouvir seus
gritos.
— Não me importo — declarou Lacey com firmeza. — Estou de férias,
este é um lugar maravilhoso e não pretendo deixá-lo tão cedo.
— Se são umas férias na praia o que quer, procure um hotel, — Com
expressão severa a encarava, procurando claramente controlar sua fúria.
— Presumindo, naturalmente, que eu conseguisse acomodações nessa
época do ano, não teria condições de pagar duas semanas de férias —
esclareceu ela. — Portanto, eu devo ficar aqui e você sai.
— Não saio! — declarou decisivo. — Graças à irresponsabilidade... —

Projeto Romances 20
Verão Ardente Janet Dailey

interrompeu a frase iniciando outra. — O acúmulo de problemas nos


negócios não me permite o luxo de duas semanas de férias. O máximo que
posso desfrutar são algumas horas longe de tudo, principalmente do
telefone. Este lugar é ideal... — Os cantos de sua boca se ergueram num
sorriso. — Nem ao menos sei o seu nome.
— Andrews. Lacey Andrews.
Um lampejo divertido passou por seu olhar. — Você é a terrível srta.
Andrews?
— O que disse? - Olhava-o totalmente confusa. O que o teria feito
dizer aquilo?
— Onde mora? — perguntou inesperadamente.
— Tenho um pequeno apartamento em Newport News. Por quê? —
Excetuando o brilho divertido que dançava naqueles olhos azuis, o resto do
rosto era enigmático.
— Onde trabalha?
O que teria isso a ver com o que estava acontecendo? Lacey tentava
descobrir, mas respondeu na esperança de que sua curiosidade ficasse por
fim satisfeita.
— Sou secretária de um engenheiro numa firma de construções em
Newport News.
O ar de riso de seu olhar tornou-se mais pronunciado: — Não estou
querendo convencê-lo de que o sr. Bowman não está...estou afirmando. .. —
imitou-a.
— Você. . . você é o sr. Whitfield? — perguntou incrédula.
— Cole Whitfield — identificou-se, fazendo uma reverência. —
Finalmente nos encontramos face a face e não pelo telefone.
Espantada, Lacey olhava para ele, ali parado. Alto, ombros largos e
másculo, era a própria encarnação do homem autoritário e acostumado a ser
obedecido por todos. Lacey reconhecia isso.
Cabelos castanhos, mais escuros que os dela, quase pretos. No entanto,
aquela virilidade e aura de masculinidade Lacey nunca teria associado ao sr.
Whitfield.
Pelo telefone ele tinha sido tão desagradável quanto um vento gelado
numa manhã fria de inverno. A imagem que fizera dele era bem diferente da
que tinha a sua frente. Lacey ainda estava perdida nesta troca de
informações, quando ele interrompeu seus pensamentos.
— Não sou o que você esperava? — caçoou.
Dificilmente encontrou voz para dizer: — Não..
— Como pensava que eu fosse? Um monstro de três cabeças? —
perguntou Cole, visivelmente divertido. — Deixei as outras duas
cabeças no escritório.

Projeto Romances 21
Verão Ardente Janet Dailey

— Você é o homem mais rude e impertinente que... — começou Lacey


tentando descrever o homem que conhecera como o sr. Whitfield.
— Se você tivesse muito dinheiro, tanto seu quanto de outras pessoas,
investido numa construção de um edifício e sofresse os atrasos que estou
sofrendo, também se irritaria com todo mundo — afirmou ele, sem um traço
sequer de pedido de desculpas por seu procedimento.
— E isso é desculpa para sua atitude? — perguntou indignada.
— Não, não é, Lacey — usava seu primeiro nome como sentisse que
tinha o direito —, mas explica a tremenda necessidade que tenho de alguma
paz e tranqüilidade. Por falar nisso — seus profundos olhos azuis estavam
rindo novamente —, encontrou finalmente aqueles aparelhos?
— Sei exatamente os lugares onde não se encontram; mas segunda-
feira à tarde saberemos com certeza onde estão. Há alguém procurando. —
Sentia vontade de rir, mas se continha. Ainda não o desculpara
completamente por sua agressividade ao telefone.
— Mas está de férias e não estará lá. Atirou outro cigarro na lareira,
desviando momentaneamente seu olhar perturbador de cima de Lacey. —
Isso nos trás de volta ao impasse atual.
— Quem fica e quem vai. — Levantara o queixo desafiadoramente.
Cole Whitfield percebeu o desafio e indolentemente encostou na
lareira, indicando assim sua auto-confiança,
— Já que ambos somos teimosos, acho que a solução será ficarmos os
dois. — Lacey ergueu as sobrancelhas, mais surpresa do que disposta a
recusar a proposta. — Afinal de contas, já passamos duas noites sob o
mesmo teto — lembrou ele.
Havia um ponto importante que ela queria esclarecer antes de con-
siderar seriamente a idéia. — Está reformulando seu convite para repartir
sua cama vazia? — perguntou francamente esperando uma resposta
negativa.
— Está se referindo a meu comentário de há pouco? — sorriu. —
Naquele momento eu a tomava por uma colegial sem juízo e fazer-lhe uma
proposta me pareceu o meio mais rápido de fazê-la ir embora voando. —
Sacudiu a cabeça negativamente. — Não estou interessado em sexo. Estou à
procura de paz e tranqüilidade. Entretanto — seu olhar passeava pela
esplêndida figura dela —, se você continuar usando essas roupas sumárias,
sou capaz de usar de uma prerrogativa tipicamente feminina e mudar de
idéia! — concluiu numa inflexão irônica.
A simples alusão dele a sexo fê-la estremecer. Procurou recompor o
decote rasgado do pijama segurando-o com uma mão, mas nada podia fazer
com suas lindas pernas nuas. O pijama era barato e ordinário.
— Parte disso é culpa sua! — disse ela, referindo-se ao rasgado.

Projeto Romances 22
Verão Ardente Janet Dailey

— Inteiramente por acidente — assegurou-lhe. — Bem, o que resolve?


— Você disse que quer paz e tranqüilidade. Por que deseja que eu
fique? — quis saber ela.
— Meu encontro com você foi breve, mas me deixou uma forte
impressão. Se eu insistisse para que você fosse embora, sei que lutaria até
o último fôlego e já lutei o suficiente até este momento. Além disso, estou
cansado — admitiu ele e Lacey reparou em suas profundas olheiras. —
Prefiro chegar a um acordo que satisfaça a ambos. Somos adultos e
civilizados. Você é adulta, não?
— Tenho vinte e quatro anos — declarou.
— Parece mais velha.
— Muito obrigada! — Sua voz soava algo ofendida e espantada. Estava
acostumada a ouvir que não aparentava a idade que tinha e não que fosse
mais velha.
— Talvez seja um desejo inconsciente de minha parte... — deu um
suspiro de fadiga e concluiu: — Ê que você está infernalmente sedutora
sentada aí assim.
Um calor desagradável subiu-lhe pelo rosto. — Vou vestir um roupão —
disse ela fazendo menção de se levantar do sofá, segurando ainda o pijama
junto ao decote.
Cole Whitfield impediu-a. — Não se incomode. — Seus lábios se
comprimiram em sinal de impaciência. — O que quero dizer é que — levantou
as mãos como se fosse segurá-la pelos ombros, mas deixou os braços caírem
ao longo do corpo —, se você concordar com a solução, não há motivo pelo
qual não possamos ir dormir. Em quartos separados, naturalmente —
concluiu jocosamente.
— Eu... — Lacey hesitava.
Era indiscutível que ele era atraente e que a impressionara. Ss, como
ele mesmo afirmara, ela também o impressionara, não seria temerário supor
que esse platônico acordo fosse cumprido?
— Sei o que está pensando — disse ele calmamente e por mais
estranho que pudesse parecer ela tinha certeza que sim. — As coisas só
acontecem se deixarmos que aconteçam. Posso ser impulsivo às vezes, mas
ainda sei controlar meus instintos. Tenho certeza de que você também.
Cote estava certo. Sorriu, achando graça em suas tolas apreensões.
Ambos eram adultos. Manteriam o acordo se assim o quisessem.
— Esse sorriso quer dizer sim? Aceita o trato? — Embora seu olhar
fosse brando, seu rosto permanecia um tanto severo.
— Sim — concordou ela.
— Ótimo! Então, que acha de encerrarmos o assunto e irmos dormir?
— sugeriu preguiçosamente.

Projeto Romances 23
Verão Ardente Janet Dailey

— Acho muito bom. Boa noite — disse Lacey sorrindo e passando por
ele em direção a seu quarto.
Três quartos de hora depois, deitada em sua cama, cansadíssima, não
conseguia dormir. Tentava em vão permanecer quieta e não se remexer
tanto na cama.
Nas duas noites anteriores,. quando não sabia que ele estava no quarto
pegado, dormira perfeitamente bem. Mas agora, sabendo-o ali peno, não
estava tão segura de si como supunha. Meu Deus! Podia até ouvir o barulho
da cama dele quando se movia!
Você está sendo imatura, Lacey, pensou, e fechou os olhos com força,
determinada a mantê-los assim.
Passou-se um bom tempo, até que ela conseguisse ignorar a presença
dele na casa e adormecesse. Já passava das dez horas quando abriu os
olhos, vagamente irritada por não ter acordado mais cedo. Pegou o roupão
dos pés da cama, vestiu-o e rapidamente se encaminhou para o banheiro. No
corredor encontrou um Cole sonolento e descabelado que também se dirigia
para o banheiro. Ele examinou-a de alto a baixo e ela se sentiu aliviada por
ter trocado seu leve pijama da véspera por um outro mais quente. Pelo
menos não poderia dizer que estava mal vestida e acusá-la de provocante.
O mesmo não podia dizer dele, pensou ela quando viu que ele usava
somente um calção e seu peito moreno e queimado de sol aparecia em toda
sua masculinidade. Estava acostumada a ver seus dois irmãos mais velhos
vestidos assim, mas não era a mesma coisa que ver Cole Whitfield.
Com uma irônica risada e um gesto em direção ao banheiro, disse
simplesmente: — As senhoras primeiro. — E voltou para seu quarto.
Lacey entrou no banheiro com o rosto em fogo como uma colegial
apanhada em falta. A água fria foi mais eficaz do que as palavras de
recriminação que ele dirigiu. Com o rosto lavado, dentes escovados e uma
leve maquilagem aplicada, saiu do banheiro.
Deu uma rápida olhadela para o quarto dele e viu-o sentado na beirada
da cama desfeita, com a cabeça apoiada nas mãos.
— Pronto — disse-lhe, agora muito mais equilibrada do que antes —, é
todo seu. Vou pôr água para fazer um café.
— Isso é bom — observou, tirando as mãos do rosto antes de se
levantar.
Na cozinha, pôs água para ferver e o café no coador. Ouviu a água do
chuveiro correndo. Teria bastante tempo para se vestir até que Cole ficasse
pronto, então encheu seu copo de suco de laranja e sentou-se num dos
bancos para bebê-lo.
Assim que terminou, ouviu que o correr da água do chuveiro parara.
Rapidamente desceu do banco e se dirigiu para seu quarto. Atravessava a

Projeto Romances 24
Verão Ardente Janet Dailey

sala, quando a campainha da porta da frente soou. Mudando de direção para


atender, imaginava quem seria. Naturalmente alguém procurando por Bob ou
Margo.
Desceu os degraus e, chegando junto à porta, olhou pelo olho mágico.
Um homem e uma mulher estavam parados ali e, embora Lacey não pudesse
vê-los por inteiro, sabia que lhe eram totalmente desconhecidos. Abriu a
porta.
— Sim? — sorriu polidamente para os dois. Realmente não os conhecia.
A moça, com uma cabeleira loura e bem-cuidada e com uma maquilagem
perfeitamente aplicada em seu rosto bonito, revelava espanto nos olhos
verdes por ver Lacey parada na porta.
Suas roupas eram simples, mas de boa qualidade. Calças brancas e uma
blusa vernelho-vivo, que fazia sobressair o louro de seus cabelos. Era uma
moça elegante... elegante foi o único adjetivo que Lacey encontrou para
defini-la.
O homem era mais alto que ela. Seu cabelo era castanho-claro.
Primeiramente pareceu surpreso ao ver Lacey ali e depois divertido. Era
também atraente e ela suspeitou que ele fosse meio convencido por isso.
Lacey abriu a boca para dizer que Bob e Margo estavam de férias, mas
a moça foi mais rápida e não lhe deu tempo para isso.
— Devemos ter nos enganado de endereço, Vic — disse em tom gelido
e teria ido embora se o rapaz não a tivesse segurado pelo braço, fazendo-a
voltar para junto da porta.
Sem olhar para a loura, dirigiu-se para Lacey: — Estamos procurando
por Cole Whitfield. Ele está?
Lacey de repente se deu conta do quanto seria embaraçoso explicar
sua presença ali naquela casa, sozinha com Cole durante a noite. Mas o que
importava? Nada havia feito que a fizesse se envergonhar.
— Sim, está. — Abriu mais a porta para deixar que o casal entrasse. —
Sigam-me, por favor.
Começou a subir as escadas com o silencioso par atrás dela. Durante
um minuto somente Lacey desejou ter se vestido em vez de tomar seu suco,
mas agora era tarde demais.
Enquanto subiam, a loura perguntou com ar de superioridade. —Você é
a caseira?
A qualquer outra pergunta Lacey teria provavelmente respondido
polidamente e explicado as circunstâncias pelas quais estava na casa. Mas
essa era demais! Parou, virou-se um pouco na escada e com a mão na cintura
dirigiu à loura um olhar deliberadamente frio e caçoísta.
- Eu pareço ser uma caseira?
Sem esperar uma resposta, recomeçou a subida. Podia sentir a raiva da

Projeto Romances 25
Verão Ardente Janet Dailey

moça pronta para explodir. Era como se de repente soprasse um vento frio.
Atrás dela o rapaz murmurou calma, mas cinicamente:
— Você estava procurando problemas com essa pergunta. Mônica. -—
Cale a boca! — foi a pronta resposta.
Na sala, Lacey parou junto do sofá. Estava a ponto de sugerir ao par
que se sentasse enquanto ela ia chamar Cole e dizer que estavam ali.
Naquele instante ouviu a porta do banheiro se abrir.
— Lacey! — Era um tanto rude a maneira como ele a chamava. Virou a
cabeça na direção da voz e ouviu passos que se encaminhavam para a sala. —
Você esteve usando minha lâmina de barbear?— perguntou zangado e parou
repentinamente ao perceber as três pessoas que olhavam para ele, com uma
toalha amarrada na cintura e outra menor pendurada no pescoço, cabelo
molhado do banho e sabão de barba no rosto, menos num lugarzinho onde ele
tentara barbear-se e se via uma manchinha de sangue que indicava que ele
se cortara com a lâmina.
Além de sua súbita parada ao entrar na sala, nenhum outro sinal
demonstrava que as inesperadas visitas o tinham aborrecido. Seus olhos
azuis estreitaram-se um pouco enquanto iam da moça para o rapaz e para
Lacey.
Segurando uma ponta da toalha que lhe pendia do pescoço, comprimiu o
corte do queixo. Sua atitude era de quem esperava uma resposta à pergunta
que fizera a Lacey.
— Se você usou o aparelho que estava na prateleira junto da pia, é o
meu. O seu está no armário.
Essa observação dele teve o dom de acabar com a paciência da moça e
fazê-la perder o controle. — Cole, quero saber quem é essa moça e o que
está fazendo aqui! — explodiu ela.
— Ê um bom-dia para você também, Mônica. Sim, o dia está lindo! —
Cole divertia-se sorrindo sarcasticamente. Tirou a toalha do pescoço e
começou a limpar o rosto.
— Creio que é melhor me darem licença — disse Lacey, uma vez que
satisfizera sua curiosidade, pois só pretendia ver a primeira reação da
explosiva loura.
— O café está feito? — perguntou Cole. — Bem que eu tomaria uma
xícara!
— Eu também — admitiu Lacey.
Pensou que pedir-lhe o café era um pretexto para afastá-la da sala
para poder explicar particularmente o que acontecera, mas se enganou.
— Alô, Vic. Como tem passado? — Cole se dirigia calmamente ao
homem enquanto Lacey deixava a sala, ignorando por completo a loura.
— Não tão bem quanto você, Cole, não tão bem. ..

Projeto Romances 26
Verão Ardente Janet Dailey

Lacey podia perceber que ele estava se contendo para não rir. Não
tinha a menor idéia do parentesco dele com a loura, mas sabia que ele estava
achando tudo muito engraçado e ironizando a posição dela.
Enquanto se preparava para encher a xícara de café, um estranho
pensamento lhe ocorreu. Fosse quem fosse, aquela moça se achava no direito
de pedir uma explicação a Cole. Lacey nem ao menos sabia se ele era casado
ou não!
Meu Deus! E se aquela mulher fosse esposa dele? Quase derrubou a
cafeteira, sentindo as cores lhe fugirem do rosto.
— Você ainda não respondeu a minha pergunta! — A loura, a quem Cole
chamara de Mônica, falava em tom ácido e irritado de quem está furiosa.
— Não creio que você realmente espere que eu responda — replicou
em voz baixa. — Pensei que já tivesse desistido sozinha.
A xícara tremia, fazendo um barulhinho no pires, quando Lacey se
dirigia para a sala, levando o café para Cole. Sua face estava pálida, ainda
não refeita do choque que a idéia de ele ser casado lhe causara.
Os três estavam ainda de pé, Cole e Mônica se olhando com visível
hostilidade. Lacey aproximou-se de Cole, oferecendo-lhe a xícara de café,
que parou de trepidar assim que a tomou de suas mãos para pô-la em cima da
mesa.
— Não vai nos apresentar, Cole? — perguntou o rapaz, olhando
intencionalmente para Lacey.
Um braço musculoso rodeou a cintura dela, delicada, mas posses-
sivamente. Lacey retesou o corpo, oferecendo alguma resistência ao contato
de Cole e, olhando-o, encontrou seu olhar sorridente.
Ele ouviu a respiração profunda da moça, que mais parecia o rosnar de
uma gata feroz, com o ódio estampado nos lindos olhos verdes. Cole estava
deliberadamente espicaçando a moça com essa atitude, em vez de procurar
acalmá-la.
— Ainda não foram formalmente apresentados a minha companheira
de quarto? — Seus olhos azuis iam alternadamente da moça para o rapaz,
enquanto apertava com mais firmeza a cintura de Lacey, que procurava se
esquivar daquela situação extremamente desagradável.
Referira-se a ela como companheira de quarto na noite anterior, mas
em tom de brincadeira; fazê-lo agora era pura provocação. Sempre com mão
firme, obrigou-a a dar uns passos na direção deles.
— Lacey, gostaria que conhecesse Mônica Hamilton e seu irmão, Vic
Hamilton — identificava a ambos somente pelo nome, sem explicar seu
relacionamento com nenhum deles. — Esta é Lacey Andrews.
Mônica lançou-lhe apenas um olhar carregado de ódio, mas seu irmão
veio lhe apertar a mão.

Projeto Romances 27
Verão Ardente Janet Dailey

— É realmente um prazer conhecê-la, Lacey — murmurou. Releve sua


mão entre as dele mais tempo do que o necessário. A maneira como a olhou
fê-la sentir como se estivesse usando um sensual penhoar preto em vez de
seu simples pijama azul turquesa.
— Chega, Vic — ordenou Cole calmamente.
Vic largou a mão dela e rindo virou-se para Cole: — Compreendo.
Propriedade particular, não é?
— Isso mesmo — concordou Cole.
— Você não acha — Lacey sugeriu empertigando-se com altivez — que
deveria explicar a seus amigos as circunstâncias que me trouxeram aqui,
Cole? —- Por ela, aquela farsa já tinha ido longe demais.
Ele percebeu com certo descaso sua crescente raiva e indignação.
— Não creio que Mônica esteja interessada em saber as
circunstâncias que a trouxeram aqui, Lacey — replicou rindo —, nem numa
descrição detalhada do que aconteceu entre nós na noite passada. Ela viu as
evidências com seus próprios olhos e completou os detalhes com sua sórdida
imaginação.
— Conte-lhes — insistiu Lacey.
Com um gesto de resignada aquiescência, dirigiu-se para Mônica.
— -Contrariando tudo o que possa parecer, é tudo muito inocente
— disse, olhando para Mônica. — Na realidade, Lacey e eu dormimos em
camas separadas.
— Antes ou depois? — Sua pergunta mais parecia uma chicotada. Cole
deu um olhar significativo para Lacey. Ela sabia que Cole
não daria maiores explicações dessa vez e o culpava por isso. Havia um
ar de desafio quando ele se dirigiu novamente a Mônica:
— Ainda não me disse por que estão aqui.
—. Viemos convidá-lo para jantar e organizar uma festa de improviso
na praia hoje à tarde — replicou causticamente. — Natural-! mente estava
errada ao pensar que você estava aqui sozinho e semi nada para fazer.
— Obviamente estava errada — observou Cole, sorrindo complacente.
Inesperadamente seu braço circundou a cintura de Lacey, puxando-a
para perto de si, antes que ela pudesse fazer um movimento para impedi-lo,
— Não! — protestou Lacey.
Mas era muito tarde para qualquer reação da parte dele. Mônica, já
girava nos calcanhares e se afastava, com seus longos cabelos balançando
nas costas.
— Vamos, Vic! — ordenou.
— Eu o vejo mais tarde. Cole — disse Vic, mas era para Lacey que
olhava antes de seguir sua irmã.
— Mônica, lembra-se do que eu lhe disse outro dia? — A voz de Cole

Projeto Romances 28
Verão Ardente Janet Dailey

fez com que ela parasse e se virasse para encará-lo. — Creio que agora
compreende exatamente o que eu quis dizer. Não me telefone. Eu ligo
qualquer dia.
Os lindos olhos verdes lançaram um olhar de ressentimento para Lacey.
Logo depois, Mônica descia as escadas, com um Vic sorridente andando
rapidamente para alcançá-la.
Nem Lacey, nem Cole se moveram ou disseram alguma coisa antes de
ouvir a porta da frente bater.
— Você deveria. , . — começou Lacey reprovativamente.
Mas o som de uma profunda e gostosa gargalhada fê-la calar-se, A
mão, que repousava delicadamente em sua cintura, repentinamente exerceu
uma pressão, fazendo-a ficar em frente dele.
— Você é uma dádiva de Deus! — exclamou rindo.
No segundo seguinte, baixou a cabeça e seus lábios procuraram os dela
num beijo firme e possessivo que lhe tirou o fôlego. Quando se afastou para
estudá-la, pôde ver que sua reação era de espanto.
A pressão firme de seus lábios em sua boca e um ligeiro gosto de sabão
de barba a incomodavam. Seu coração batia descompassado, incapaz de
reencontrar seu ritmo normal. Além disso, a rápida mudança da atitude, fria
para com Mônica e alegre e divertida para com ela, a confundia.
Ele cruzou as mãos atrás das costas dela. Os dedos de Lacey, apoiados
em mudo protesto no peito dele, sentiam o contato daquela pele quente. Por
um longo momento, ambos se olharam profundamente, olhos nos olhos, cada
qual procurando descobrir o que passava pela cabeça do outro.
— Estive tentando tirar aquele corvo de minha costas durante meses a
fio — explicou ele. — Espero que agora, ao vê-la, tenha desistido para
sempre. Por ter feito isso, você merece minha eterna gratidão.
— Quem é ela?
— Há alguns anos, eu inadvertidamente fiquei noivo dela. Mas logo
verifiquei meu erro e Mônica não é do tipo que desiste facilmente. Na
verdade, tem tentado me persuadir a voltar atrás e mudar de idéia desde
que rompemos o noivado.
O rosto dele estava tão perto do dela, que Lacey podia reparar no
másculo contorno de suas feições, acentuado pela sombra da barba.
— Então foi por isso que deliberadamente a fez acreditar que
tínhamos passado a noite juntos... intimamente ligados — disse Lacey meio
acusando, meio concluindo.
— Exatamente. Ela não teria acreditado se eu tivesse querido
convencê-la de outro modo — afirmou Cole calmamente. — Sabendo o modo
como sua mente funciona, se houvesse uma câmara escondida na casa para
filmar o que aconteceu... ou quase aconteceu na noite passada, ainda assim

Projeto Romances 29
Verão Ardente Janet Dailey

ela pensaria que eu falsifiquei o filme, forjando aquela situação.


Lacey esquivou-se daquela proximidade enervante, pois era
perturbadora, especialmente por ele estar meio vestido, ou melhor, só com a
toalha lhe envolvendo a cintura. Deu alguns passos pela sala, sentindo que o
olhar dele a seguia insistentemente.
— Desculpe — disse ele. — Não era realmente minha intenção envolver
você nisso não, sabendo você inocente. — Um largo sorriso iluminou-lhe o
rosto. — Espero que não se importe de ter sido injustamente classificada
como uma moça leviana.
— Passar uma noite com um homem nos dias de hoje não significa mais
ser uma moça leviana — afirmou adultamente Lacey. — Para ser honesta, por
um momento pensei que ela fosse sua esposa e estava mais preocupada em
ser envolvida como causadora de um processo de divórcio.
Cole fez um gesto de desespero. — Por favor, não me lembre mais o
quão perto estive do perigo de tê-la como esposa! Um homem não gosta de
saber que foi tão idiota!
— Ela é muito bonita. — Lacey relembrou sua linda figura, de olhos
verdes e longos cabelos louros.
— O ditado "Quem vê cara não vê coração" se aplica direitinho a
Mônica. — Cole parou e perguntou inesperadamente: — Você sabe
cozinhar?
Demorou um pouco até que Lacey seguisse a rápida mudança de
assunto. — Mais ou menos.. . definitivamente não sou de forno e fogão.,. Por
quê?
— Porque estou com fome e espero poder convencê-la a fazer qualquer
coisa.
— Mas primeiro vou me vestir — replicou ela.
— E eu ainda tenho que acabar a barba. Você disse que minha lamina
está no armário?
— Eu a vi lá esta manhã.
Ela estava apenas a um passo atrás dele no corredor. Quando Cole
parou para entrar no banheiro, ela quis cruzar sua frente, mas uma mão
segurou-lhe o braço, obrigando-a a parar.
— Quero que saiba que não pretendia que isso acontecesse esta manhã
— disse seriamente. — Quando sugeri que ambos poderíamos ficar aqui, não
tinha plano algum de usá-la contra Mônica.
— Acredito — assegurou-lhe. — Isso nunca me passou pela cabeça.
— Assim espero. Se tivesse suspeitado que ela viria, teria insistido
para que fosse para um hotel, para não ser alvo de suas suspeitas.
— Isso não tem importância. — Lacey não ligava em absoluto para o
que Mônica pudesse pensar dela. — Você quer ovos fritos? — perguntou,

Projeto Romances 30
Verão Ardente Janet Dailey

mudando de assunto.
— Bacon. .. frito — sorriu, sabendo perfeitamente que ela tentava
mudar de assunto —, três ovos quentes e uma torrada.
— Perguntei o que preferia e não lhe ofereci um cardápio — disse ela
divertida.
Rindo, Cole entrou no banheiro, fechando a porta. Lacey foi para seu
quarto.
Cole Whitfield.. , era um homem muito diferente do que imaginara ao
ouvir aquela voz áspera e mal-educada no telefone. Desse Cole Whitfield ela
gostava.

CAPITULO IV

Lacey chegou até o terraço e, apoiando um lado dos quadris na grade,


enxugava preguiçosamente os cabelos com uma toalha. Depois de alguns
.minutos, pendurou ajeitadamente a toalha na grade, decidindo que o sol
poderia perfeitamente secá-los sem o menor estorço.
Lá longe, na praia, podia ver Cole pescando. Já estava ali quando ela foi
nadar e agora, depois de ter tomado uma ducha para tirar o sal e se vestido,
poderia jurar que ele estava no mesmo lugar.
Ele não encorajara nenhum reinicio de conversa quando ela chegou à
praia. Fora um comentário de que ainda não tivera sorte, parecia ignorar sua
presença.
Não que Lacey esperasse que ele se tornasse de repente um excelente
companheiro, só porque estavam dividindo a mesma casa. Claro, não esperava
isso. Mas era justo, pensou, sentar-se e conversar amigavelmente com ele.
Mas também se lembrava de que Cole dissera que queria um pouco de
paz e tranqüilidade e por isso não tentou impor sua presença. Era
perfeitamente justificável que respeitasse esse seu desejo.
Viu-o recolher a vara de pesca, juntar suas coisas na caixa de pescaria
e iniciar o trajeto de volta para casa. Imediatamente foi até; o banheiro,
onde rapidamente se penteou e passou um leve batom nos lábios.
De repente riu de si mesma, pelo que tinha feito quase

Projeto Romances 31
Verão Ardente Janet Dailey

inconscientemente. Pentear-se e passar batom, só podia ser para


impressionar Cole. Estava justamente voltando ao terraço quando a
campainha da porta da frente soou.
Seu primeiro pensamento foi de que Mônica tivesse voltado por alguma
razão e. olhando para a praia, viu Cole ainda muito distante. Então,
suspirando resignadamente ante a idéia de ter que enfrentar de novo
aqueles olhos de gata furiosa, dirigiu-se para a escada e desceu
vagarosamente para atender à porta.
Mas era Mike Bowman quem estava parado ali e seus olhos se abriram
desmesuradamente ao vê-lo. Mike sorria-lhe.
Você demorou tanto para abrir a porta que já estava pensando que
tinha me enganado de casa ou que você saíra para ir a algum lugar.
— Alo, Mike — disse ela ainda não de todo refeita do susto. Ele
esperou pacientemente que ela o convidasse a entrar, mas como
permanecesse simplesmente parada e olhando-o, isso começou a
intrigá-lo.
— Você me convidou a vir aqui naquela tarde. Ou já se esqueceu? —
perguntou gentilmente.
Um embaraçoso rubor subiu-lhe às faces.
— Não, não me esqueci — mentiu, sabendo que nem lhe passara pela
cabeça o convite feito no escritório. — Simplesmente não o esperava tão
cedo. — Baixando os olhos para o short bege que usava com uma camiseta
laranja e passando a mão pelos cabelos, pretendeu dar a impressão de que
era a forma como estava vestida que a embaraçava. — Ainda nem me vesti
direito e meu cabelo ainda não secou.
— Para mim você está ótima! — afirmou Mike. — Vai me convidar para
entrar ou prefere que eu espere no carro até que esteja pronta? — caçoou
ele, enquanto ela continuava a bloquear a porta.
— Viu que atrapalhação me causou? — perguntou ela forçando uma
risada- Abriu a porta e começou a subir as escadas na frente dele.
Agora sabia exatamente por que se sentira embaraçada. Dentro de um
minuto teria que explicar a Mike os motivos pelos quais ela e Cole Whitfield
dividiam aquela,casa. Ele poderia não entender aquela situação.
A situação era estranha até para ela. Não tinha certeza de como

Mike reagiria exatamente ou como poderia lhe explicar tudo, levando


em consideração os desentendimentos havidos entre os dois no
escritório.
Quando alcançou o último degrau, ainda não sabia se devia se decidir
por uma conversa tranca ou fazer de tudo uma piada. Uma coisa era certa:
tinha que se decidir rapidamente ou então Cole apareceria e tudo ficaria

Projeto Romances 32
Verão Ardente Janet Dailey

ainda mais confuso se Mike não estivesse preparado para entender o que
acontecera. A situação piorava a cada segundo.
— É um lugar e tanto! — exclamou Mike quando chegou na sala.
— Sim, é lindo — concordou distraidamente e continuou. — Mike, eu...
Avaliava a sala, examinando a construção.
— Foi mandada construir, não?
— Creio que sim. Eu...
— Mas é claro que foi construída sob encomenda! Não vejo nada que
não seja cuidadosamente planejado. Esta lareira é uma obra de arte! —
Sorriu para ela. — Não me admiro agora que você aceitasse tão depressa o
convite de sua prima para passar as férias aqui. Oh! — Subitamente
lembrou-se de qualquer coisa. — Aqui estão os bifes que lhe prometi. Fiz
com que o açougueiro os cortasse especialmente para nos. Ele garantiu que
são tão macios que poderão ser cortados com garfo. Também trouxe uma
garrafa de vinho — estendeu um saco com as coisas para Lacey. —
Provavelmente saberá o que fazer com isso.
— Sim, claro. — Dirigiu-se para a cozinha certa de que ele a seguia. —
Mike, há uma coisa que quero lhe dizer.
Pôs o saco em cima da mesa esperando que ele lhe perguntasse o quê.
Mas ao olhar para trás, não o viu em parte alguma.
— Mike? — Tirou a garrafa de vinho do saco e a abriu. Olhando
novamente, viu que a porta do terraço estava aberta e correu para lá.!
— Que vista maravilhosa! — comentou ele, virando-se à sua
aproximação.
— é espetacular — Lacey continuou a falar depressa antes que ele a
interrompesse novamente. — Há uma coisa que tenho que lhe explicar.
— Olhe! — apontava para o oceano. — Vê aquele navio lá longe?
Lacey olhou rapidamente o navio ao longe no horizonte. Depois
relanceou a vista pela praia e pelo caminho que Cole devia percorrer. Não o
viu em parte alguma. Sentia-se como se estivesse sentada em cima de uma
bomba-relógio, pronta para explodir a qualquer segundo.
— E impressionante — disse Mike olhando a paisagem. — é como se
você tivesse tudo isto só para si.
— Não exatamente — afirmou Lacey. — Eu...
— É muito isolada — continuou ele. — Isso não a preocupa? Quero
dizer, ficar sozinha aqui?
Essa era a sua oportunidade. — Nem um pouco, porque eu não estou.. .
— Lacey! — A voz de Cole interrompeu-a. Gelou ao ver que Mike
olhava curioso para o interior da casa. — Remexendo no depósito,
encontrei a churrasqueira de Bob. — Ele se aproximava cada vez mais de
onde estavam. — Daí decidi que já que você fez o café da manhã, é mais que

Projeto Romances 33
Verão Ardente Janet Dailey

justo que eu faça o jantar.


A bomba-relógio explodira. Lacey pôde observar as sucessivas mu-
danças de expressão do rosto de Mike quando Cole surgiu na porta do
terraço, carregando a churrasqueira. Cole parou repentinamente ao ver
Mike.
—- Bowman — identificou-o antes que seus olhos passassem para
Lacey.
— Eu o havia convidado para jantar — disse ela, omitindo o fato de que
se esquecera por completo. Isso estava subentendido em seu olhar para ele.
Cole pôs a churrasqueira no chão. — Sei que isso pode lhe parecer
estranho. Bowman, mas acredite, não há nada de mal. Na verdade é tudo
muito inocente.
— Está hospedado aqui, Whitfield? — Havia em sua voz uma nota de
descrença.
— Era isso o que queria lhe contar — disse Lacey, esforçando-se para
não parecer culpada.
— Compreendo — disse cético.
— Não acredito que compreenda — afirmou Cole. — Sabe, foi tudo
uma terrível confusão. A prima de Lacey lhe pediu que ficasse aqui e o
marido dela pediu-me a mesma coisa. Quando descobrimos o que houvera —
felizmente ele não explicou as circunstâncias dessa descoberta -— não
chegávamos a um acordo sobre quem deveria ficar e quem deveria partir.
Finalmente chegamos à conclusão de que ambos poderíamos ficar.
— Quer dizer — perguntou Mike com a testa franzida, num visível
esforço para entender a situação — que vocês estão morando juntos nessa
casa?
— Era isso que eu estava tentando lhe dizer — repetiu Lacey, sentindo
a crescente indignação dele. — Queria lhe explicar tudo, antes que você
pensasse outra coisa.
— Estamos dividindo a casa e não as camas — disse Cole emburrado.
Mike afastou-se passando a mão pela nuca. — Não posso acreditar
nisso... — Virando-se para Lacey. perguntou aturdido: — Você está
atualmente morando com um camarada que ainda na semana passada
desejava que se atirasse de cabeça numa piscina vazia?
Lacey olhou rapidamente para Cole e surpreendeu-o com um sorriso
disfarçado e um brilho divertido nos olhos. Mesmo não tendo feito segredo
de sua opinião anterior sobre ele, preferia que Mike não tivesse repetido
suas palavras.
— Creio que será melhor vocês dois conversarem sem minha presença,
por isso me retiro — disse Cole olhando para Lacey, com um sorriso de
desculpas brincando nos lábios.

Projeto Romances 34
Verão Ardente Janet Dailey

Lacey assentiu agradecendo a sugestão, mas nada disse em despedida.


Poderia dizer qualquer coisa como "eu o vejo depois", mas isso agravaria a
situação.
Depois que ele se foi, ficou entre ela e Mike um silêncio pesado e
desagradável. Ouviram a porta da garagem abrir-se e logo depois o carro de
Cole saindo e se dirigindo para a estrada.
Lacey observava o perfil de Mike, determinada a não se desculpar,'.
pois não era culpada de coisa alguma.
— Não posso acreditar que você tenha concordado com isso! declarou
Mike, batendo as mãos na grade do terraço, num misto de! zanga e
desilusão.
— Honestamente, Mike — disse Lacey —, você fala como sei eu
tivesse passado para o campo inimigo. Não é isso, em absoluto!
— Eu sei — admitiu —, mas foi grande meu choque ao ver você com
Whitfield e descobrir que estão morando juntos, na mesma casa!
Lacey irritou-se pelo fato de ele usar sempre a expressão "morando
juntos". — Você não diria isso se estivéssemos morando no mesmo prédio de
apartamentos ou no mesmo hotel. E não é nada diferente!
— Não importa como você explique, Lacey — retorquiu Mike —, mas
dividir uma casa não é a mesma coisa que morar no mesmo edifício.
— Para mim é.
— Você é uma tola — murmurou entre dentes.
— Escute aqui, nós não vamos discutir isso durante a noite toda,
vamos? Portanto é bom que saiba que não conseguirá mudar minha opinião! —
declarou ela, levantando obstinadamente a cabeça.
Mike abandonou a grade para encará-la. — O que quer que eu faça,
Lacey? Quer que eu vá embora? Percebi que você se esqueceu
completamente que havia me convidado para vir aqui hoje. Se se esqueceu
também do jantar, eu me retiro.
— Não me esqueci, nem quero desistir do jantar — disse ela. Não
queria dar a impressão de que preferia a companhia de Cole durante a noite,
conclusão a que ele chegaria, não importando quanto negasse. — Quero que
fique para o jantar. . . desde que prometa não falar mais no assunto. Afinal,
você não tem direito algum de criticar meu comportamento.
Respirando fundo Mike contemplou-a por alguns segundos. — Pois bem
— concordou finalmente —, não falemos mais sobre isso.
Fingir que uma coisa não existe não a faz desaparecer. É como varrer a
sujeira para baixo do tapete. Não pode ser vista, mas está ali.
Consequentemente foi a noite mais terrível que Lacey passou. A atmosfera
permaneceu pesada com a desaprovação de Mike, fazendo com que ela
ficasse tensa.

Projeto Romances 35
Verão Ardente Janet Dailey

Distraidamente ouviu o som de um carro entrando na garagem, mas foi


o ruído dos passos de Cole subindo as escadas que fez com que ela voltasse
à realidade, abandonando a janela de onde olhava o mar.
Lembrou-se tarde demais de que pretendia estar na cama quando Cole
chegasse. Olhou o relógio de pulso e viu que eram quase onze horas. Virou-se
e viu Cole parado junto da escada, olhando ao redor.
— Bowman já se foi? — perguntou, esperando confirmação.
— Há mais ou menos três horas — disse Lacey, sem perceber a leve
nota de desgosto que transparecia em sua voz.
Os inquiridores olhos azuis a fixavam tão intensamente que ela teve
que se virar. Sentiu um estranho aperto na boca do estômago. Devia ser uma
reação nervosa pelas longas horas de tensão que passara, pensou.
— As coisas não correram muito bem com Bowman, não foi? —
observou Cole atravessando o salão em sua direção.
Ela olhou-o admirada, mas logo desviou a cabeça para não lhe dar
chance de descobrir mais alguma coisa. Era muito observador e astuto.
Quando parou a seu lado, queimado de sol e cheio de vida, teve que admitir
que ele era um homem extremamente atraente.
— Não, não correram — confessou francamente.
— Ele não acreditou em você?
— Mike acreditou que nosso acordo era perfeitamente inocente. —
Deu uma risada forçada. — Ele só não o aprova.
— Discutiram e por isso ele se foi tão cedo?
— Não discutimos.
Seria até melhor, talvez, se tivessem discutido, mas isso teria aberto
um abismo intransponível entre eles. Depois daquele dia, adivinhava que suas
relações com Mike seriam apenas as que existem normalmente entre patrão
e empregada, nada mais. Nunca mais seria a mesma coisa que antes. Algo se
partira para sempre.
— Eu sabia que trabalhava com Bowman, mas nunca me ocorreu que
gostasse dele.
Ao ouvir essa observação, ela reparou em sua expressão pensativa, mas
logo depois o sorriso irônico dele fez com que sentisse uma vontade
irresistível de arrancá-lo de seus lábios com as unhas. Lembrava-lhe muito o
prepotente sr. Whitfield que tantas vezes a irritara ao telefone.
— Não há nada de sério entre Mike e eu — afirmou, corrigindo a
errônea impressão dele. — Saímos algumas vezes juntos, mas foi só isso.
Nada de mais profundo se desenvolveu em nenhum de nós dois.
— Por causa dessa noite? — Novamente aqueles olhos de um azul
profundo estavam estudando seu rosto, atentos a qualquer mudança de
expressão.

Projeto Romances 36
Verão Ardente Janet Dailey

— Não, claro que não. — Era verdade. — Mike sempre foge de qualquer
relacionamento que comece a se tornar mais sério. Creio que é mesmo um
solteirão inveterado — terminou ela rindo.
— E isso não a incomoda? — perguntou curioso.
— Não. Gosto de trabalhar com Mike e fora do escritório ele é uma
boa companhia. Nada mais que isso.
Uma brisa fresca levantava a fina cortina e fazia o cabelo dela se
despentear.
Com o rabo dos olhos, Lacey percebeu que Cole disfarçava um bocejo
com as costas da mão. Sentiu uma pontada de remorso. Estivera fora o
tempo todo para dar a ela e Mike a oportunidade de ficarem sozinhos,
quando provavelmente desejaria estar descansando tranquilamente em casa.
— É melhor que você vá dormir — sugeriu ela. — Amanhã terá que se
levantar cedo para ir trabalhar.
— Está dando a noite por terminada? — perguntou, esfregando a nuca
com a mão, num gesto de cansaço.
— Eu não — respondeu sorrindo, pois não estava com sono. — Não
estou nem um pouquinho cansada e, como estou de férias, poderei dormir
até mais tarde amanhã. Acho que ainda ficarei um pouco no terraço
aproveitando o frescor da noite.
Cole não se moveu quando ela se dirigiu para o terraço. Lá, apoiando as
mãos no gradil, deixou que seu olhar passasse pelas ondas prateadas do mar
e pela lua cheia que a tudo dava um toque de magia.
Era uma noite quente e sentia-se no ar o cheiro de maresia. Ouviu
passos e, olhando por cima do ombro, surpreendeu-se ao ver Cole junto dela.
Pensava que já se retirara para seu quarto.
— O que está acontecendo, Lacey? — perguntou calmamente.
— O que está acontecendo? — repetiu sem entender e deu uma risada.
— Nada de errado.
— Não mesmo? — insistiu Cole.
Os olhos dele estavam brilhantes e misteriosos como as estrelas.
Pareciam penetrantes e era desconcertante para Lacey ver que sondavam
seu rosto.
— Não sei o que está querendo dizer — desviou seu olhar do dele.
— Não sabe? — Seus olhos pegaram seu queixo, obrigando-a a encará-
lo. — Quando cheguei essa noite, sabia que alguma coisa a estava
aborrecendo. A princípio pensei que você e Bowman tivessem discutido, mas
você disse que não. Então deve ser alguma outra coisa que a está
preocupando e gostaria de saber o que é.
— Não é nada que se relacione com você. — Lacey tentou esquivar o
rosto, mas Cole segurou firme, impedindo-a.

Projeto Romances 37
Verão Ardente Janet Dailey

— Creio que tem alguma coisa a ver comigo — afirmou calma-v mente.
— Indiretamente, talvez, mas posso jurar que tem algo a ver com nosso
acordo. Acertei?
Lacey suspirou desistindo. Podia jurar que ele era capaz de ler seus
pensamentos e não estava certa se gostava disso ou não.
— É uma bobagem — protestou.
— Por que não me diz do que se trata? — Cole largou seu queixo para
pousar a mão negligentemente em seu ombro.
— É que estou começando a perceber que não sou tão liberal e livre-
pensadora quanto supunha — disse Lacey. — Nunca achei que a opinião de
outras pessoas pudesse me afetar, uma vez que estava certa de estar
agindo corretamente. Estou descobrindo que sou mais tradicional e
antiquada do que supunha.
— Por causa da reação de Mônica e Vic ao saberem que estamos
dividindo a casa e da desaprovação de Bowman também — concluiu Cole.
— Mais ou menos — assentiu ela, e seus cabelos captavam e refletiam
o brilho do luar. — Sei perfeitamente que não há nada de mal em ficarmos
aqui juntos.
— Mas agora está vendo a situação com outros olhos — terminou Cole
por ela.
— Não, não estou! — disse Lacey rindo meio hesitante. — Garanto que
era isso que você esperava que eu dissesse, para então ter essa lua enorme
só para você! — Mostrou a lua brilhando sobre o oceano.
— Pode parecer estranho — uma profunda ruga formou-se entre suas
sobrancelhas —, mas eu acharia a casa muito vazia sem você por aqui.
As palavras dele ainda pairavam no ar, imobilizando-a. Sua respiração
se tornou difícil e a contração na boca do estômago aumentou.
A mão em seu ombro começou a exercer uma pressão quase
imperceptível, aproximando-se de seus olhos e lábios. Apanhada de
surpresa, não lhe ocorreu resistir e nem Cole lhe deu oportunidade .A
audaciosa boca de Cole desceu lentamente à procura da sua.
Com uma firmeza delicada, ele explorou cada canto de seus lábios
macios. Sua mão, no pescoço de Lacey, podia sentir o correr apressado do
sangue em suas veias.
Ele levantou a cabeça e a essência de tabaco de seu hálito quente lhe
acariciava a pele.
— Cereja, não é? — murmurou.
— O quê? — Lacey abriu lentamente os olhos.
— Seu batom, é de cereja, não? — repetiu Cole suavemente, enquanto
saboreava o que permanecera em seus próprios lábios.
— Sim — murmurou ela, inconscientemente apoiada nele.

Projeto Romances 38
Verão Ardente Janet Dailey

— Sempre tive um fraco por cereja — comentou distraidamente e


Lacey duvidava que ele soubesse que tinha feito o comentário em voz alta.
Novamente seus lábios procuraram os dela, desta vez com fúria
possessiva, a mão apoiando sua nuca, num beijo ardente e violento. Com um
braço envolvendo sua cintura, puxava-a de encontro a seu corpo forte e
musculoso.
Com consumada habilidade de homem experiente, Cole queria
retribuição e ela correspondeu naturalmente, fazendo seus dedos subirem
de suas costas para o pescoço, perdendo-se finalmente em seu cabelo
escuro. Sentia a sensualidade percorrer todo seu corpo como uma dor
esquisita.
A suave brisa do mar refrescava sua pele, mas não apagava o fogo que
lhe corria nas veias. A experiência dele, muito superior à dela, fazia-a
exultar naquele abraço apaixonado.
O que começara lentamente terminou de repente, com Cole
empurrando-a para longe dele. Atônita com a súbita rejeição, Lacey o fitava
com olhos convidativos e luminosos. Ouvia a rápida respiração dele e
estremecia com isso.
Sorrindo meio sem jeito, Cole foi o primeiro a falar. — Deve me
desculpar por ter feito isso, Lacey. — Sua voz era baixa e controlada.
— Sim. — Era mais uma pergunta do que uma aceitação.
— Você é mais vulnerável do que pensei — afirmou, dando um profundo
suspiro.
— Você também — admitiu ela tremendo e ainda confusa. — Mas não
vejo motivo de se desculpar por ter me beijado. Eu disse que era meio
antiquada, mas não sou puritana.
— Preferia que fosse! — Cole sorriu estranhamente.
— Isso é uma coisa estranha de se dizer. — Ela não estava entendendo
direito a atitude dele.
— É mesmo? — Largou os braços dela, que teve que se apóia para não
cair. Suas pernas estavam fracas, os joelhos tremiam precisou de toda sua
força para se controlar.
— Eu acho que é insistiu ela.
— Nosso acordo ainda não tem vinte e quatro horas e eu fui primeiro a
quebrar as regras — disse ele rindo. Lembra-se? Nada sexo.
Lacey tornou-se subitamente pálida ao reconhecer a veracidade
observação dele. Ela perdera o domínio de si mesma por uns instante Não
seria capaz de dizer até onde deixaria Cole ir, antes de recuperar o
controle. Essa era uma descoberta assustadora.
Ele ficou observando-a durante algum tempo, vendo sua mudança de
cores, e depois sorriu gentilmente.

Projeto Romances 39
Verão Ardente Janet Dailey

— Boa noite, Lacey. — Girando nos calcanhares, entrou em casa e


dirigiu-se a seu quarto.
— Boa noite — desejou-lhe ela em voz tão fraca que duvidam que ele
tivesse ouvido.
Voltou a olhar o mar, sentindo um tremor de frio nos braços. Sei
sentimentos tumultuados lentamente voltaram ao normal.
Lembrava-se de que Cole dissera que a situação entre eles ser
exatamente o que ambos quisessem e que só seria ultrapassada os dois
permitissem. Tinham estado perigosamente perto do limite fora Cole quem
primeiro percebera isso. Mas só agora é que Lacey se dava conta.

CAPITULO V

A campainha de alarme do despertador feriu seus ouvidos e, com um


resmungo, Lacey virou-se para o outro lado na cama. Por força de hábito,
devia ter posto o relógio para despertar na noite anterior.
Sua mão desajeitada saiu de baixo das cobertas e, tateando, descobriu
que o despertador estava travado, mas a campainha continuava a soar.
Franzindo a testa abriu os olhos e demorou ainda alguns segundos para
perceber que o som vinha do despertador do quarto de Cole. Agarrando o
travesseiro, colocou-o em cima da cabeça, na vã tentativa de abafar o ruído
que, apesar disso, continuava insistente.
— Oh, por que não acorda de uma vez e desliga essa coisa horrível? —
murmurou embaixo do travesseiro, continuando a ouvir a irritante
campainha. — Não vou conseguir dormir mais!
Aborrecida, atirou longe o travesseiro e pulou da cama. Foi até à
parede para, batendo nela, acordá-lo, mas lembrou-se que o banheiro ficava
entre os quartos. Agarrou seu penhoar, vestiu-o e, francamente zangada,
dirigiu-se pelo corredor até a porta do quarto dele.
Bateu com o punho cerrado e com força.
— Desligue o despertador! — Mas a campainha continuava. — Cole!!!
Como resposta, ouviu um rangido da cama, seguido de um bocejo e
depois silêncio total. Dando um suspiro, Lacey voltou depressa para seu
quarto, enfiando-se debaixo das cobertas de penhoar e tudo. Assim que
fechou os olhos, ouviu a porta do quarto dele se abrir e som de seus passos
firmes pelo corredor.
A porta do banheiro se abriu e fechou. Alguns segundos depois o

Projeto Romances 40
Verão Ardente Janet Dailey

barulho da água do chuveiro, caindo com toda a força, irritou tanto quanto o
alarme do despertador.
— Quero dormir! — queixou-se ela em voz alta, sentindo pena de si
mesma. No entanto, alguns minutos depois, outro som veio juntar-se ao do
som da água do chuveiro. — Oh, não! — murmurou ela — ele não pode... —
Escutou com atenção. — Mas está! Está cantando no banho! É impossível!
As cobertas da cama foram jogadas longe novamente. Sem dúvida ela
não conseguiria dormir novamente! De mau humor, foi até as cozinha. Abriu
a porta da geladeira, pegou a jarra de suco de laranja e bateu a porta com
força.
Enquanto se servia, viu a máquina elétrica de fazer café. Encheu-a de
água fria, esperando que, ao abrir bastante tempo a torneira, Cole se
queimasse com a água quente do chuveiro. Depois de ligar a máquina, sentou-
se num dos bancos altos da cozinha.
Um quarto de hora depois, a cafeteira emitia um leve assobio, quando
Cole entrou, vindo da sala. Um cigarro preso nos lábios, enquanto com as
mãos livres dava o nó da gravata. Viu Lacey sentada no banquinho e franziu a
testa.
— Pensei que fosse dormir até mais tarde hoje, como prometeu —
disse ele. — O que está fazendo de pé?
— É preciso coragem para me fazer essa pergunta! — exclamou Lacey
com um olhar exasperado.
Cole fez uma careta divertida. — Meu despertador a acordou, foi?
— Seu despertador, o barulho do chuveiro e sua linda canção — disse
ela causticamente, enumerando as causas de seu mau humor. Cole parou
junto à mesa para pôr o cigarro no cinzeiro. Um brilho divertido brincava em
seus olhos.
— A cereja está verde e ácida esta manhã, não?
— Você também estaria irritado se estivesse em meu lugar —
respondeu ela, menos agressiva.
— Ainda temos suco?
— Na geladeira. E também já fiz café. Cole viu o copo dela vazio e
perguntou:
— Quer que lhe sirva uma xícara de café?
— Quero, por favor. — Afinal de contas, já estava acordada mesmo e
o café estava com um aroma delicioso.
Primeiro, Cole serviu-se de um pequeno copo de suco e depois de pôr a
jarra na geladeira pegou as xícaras do armário. Encheu-as e as colocou lado
a lado na mesa, dando depois a volta para se sentar ao lado dela.
Tateando o nó da gravata perguntou: — Não está certo, está?
— Não — admitiu Lacey. Quando ele recomeçou a fazê-lo, disse:

Projeto Romances 41
Verão Ardente Janet Dailey

— Espere, deixe-me ajudá-lo.


Cole não se opôs. Quando ela terminou, ele inspecionou com a mão e
exclamou surpreso:
— Mas está ótimo! Como aprendeu a dar nó em gravata?
— Tenho um pai e dois irmãos — esclareceu Lacey — e os três são
perfeitamente ineptos em matéria de nós em gravata.
— Não tem irmãs? — Cole tomou um gole do café, assoprando-o por
estar muito quente.
— Nenhuma. Seu cigarro está no cinzeiro — lembrou-lhe ela, pois a
fumaça atingia seus olhos.
Deu mais uma tragada e depois o apagou.
— Tenho duas irmãs, casadas e com filhos. — Sorveu mais um gole de
café.
— Nenhum de meus irmãos se casou ainda. — Lacey experimentou seu
café e decidiu esperar que esfriasse mais um pouco.
— Seus pais devem estar ansiosos por netos.
— Não sei — disse ela sorrindo —, minha mãe afirma que é muito moça
para ser avó. Realmente é muito conservada.
Cole olhou o relógio no pulso e tomou depressa o resto do café.
— Estou atrasado — declarou. Hesitando um pouco, parado ao lado da
cadeira, pôs a mão sob seu queixo. — Sinto muito tê-la acordado esta
manhã.
O sorriso franco e simpático desarmou-a totalmente. Não podia de
forma alguma continuar zangada por ter lhe feito perder algumas horas de
sono. Mas não lhe confessaria isso.
— Acho que perdi o hábito de dormir até mais tarde e de qualquer
maneira não conseguiria ficar na cama por mais tempo.
Antes que pudesse adivinhar sua intenção, Cole abaixou-se e beijou-a
com firmeza.
— Sabe que isso poderá se tornar um hábito? — Um sorriso brejeiro
pairava em seus lábios.
Lacey desejava que seu coração parasse de bater tanto.
— Você está esquecendo as regras — afirmou sorrindo também.
— Oh, é mesmo! — Bateu com a mão espalmada na testa, come se
tivesse esquecido, mas o brilho de seus olhos desmentia.
A casa ficou imensa e vazia quando ele se foi.
Às oito e meia o carro dele entrou na garagem. Lacey sabia exatamente
as horas, pois estivera olhando o relógio a cada cinco minutos, depois das
sete horas. Fingiu estar calma e despreocupada quando ele entrou na sala.
Cole parecia extremamente cansado e trazia uma pasta.
— Teve um dia muito duro? — perguntou Lacey, fingindo uma preguiça

Projeto Romances 42
Verão Ardente Janet Dailey

que não sentia e folheando uma revista como se estivesse interessada nela.
— Mais ou menos — respondeu, atirando-se no sofá à sua frente,
— Já jantou?
— O quê? — Cole parecia absorto, mas depois se deu conta do que ela
lhe perguntara. Oh. sim. Parei no caminho e comi qualquer coisa.
Lacey pensou no jantar que guardara quentinho para ele no fomo mas
nada disse. Cole abriu a pasta e tirou uma porção de papéis e documentos.
Lacey teve vontade de sugerir que relaxasse e descansasse um pouco
em vez de trabalhar mais, porém se conteve. Ficou calada, reconhecendo
que não era de sua conta se ele trabalhasse até morrer.
Cole não lhe deu atenção pelo resto da noite. Ela e uma almofada
atirada no sofá eram exatamente a mesma coisa para ele. Tentou se
convencer de que não se importava, mas era mentira. Importava- se e muito.
Finalmente, às dez e meia atirou a revista em cima da mesa e levantou-
se. Cole olhou-a com uma expressão interrogativa no rosto.
— Já é tarde. Acho que vou dormir — ela disse rapidamente. — Boa
noite.
— Boa noite — respondeu e voltou sua atenção aos papéis.
Comprimindo os lábios com força, sentia as lágrimas umedecendo-lhe os
olhos em um gosto amargo na boca, mas em passos rápidos pretendeu deixar
a sala.
— Oh, quase me esqueci de lhe dizer, .. — e ela parou para olhá-lo. —
Os aparelhos sanitários foram encontrados hoje.
— Foram?
— Parece que estavam na cidade há duas semanas, num depósito
errado — explicou, demonstrando impaciência. — Foi uma pena que ninguém
se lembrasse de procurá-los ali antes — concluiu com raiva.
Lacey notou que ele estava prestes a continuar a descarregar a raiva e
culpar a incompetência do escritório, mas, para sua surpresa, ele
simplesmente baixou a cabeça, concentrando-se novamente nos papéis. Teve
vontade de responder à altura, imaginando se de se esquecera que ela
trabalhava para Mike Bowman, mas, em vez disso, levantou altivamente a
cabeça e, pisando duro, saiu da saia e foi para seu quarto.
Os dois dias que se seguiram foram uma repetição da segunda-feira,
com Lacey acordando com o alarme do despertador e Cole voltando tarde da
noite para trabalhar ainda mais em seus papéis. Lacey perambulava sozinha
pela casa, quando não estava na praia.
Na quinta-feira foi para a cama como de costume, pouco depois das
dez, deixando Cole mergulhado em seu trabalho na sala. Adormeceu em
seguida, mas foi um sono agitado e sem descanso. Terminou por acordar no
meio da noite. Sua boca estava amarga e seca. Saiu da cama e andou

Projeto Romances 43
Verão Ardente Janet Dailey

sonolenta para a porta. Ao abri-la, a luz acesa ofuscou seus olhos


momentaneamente.
Protegendo os olhos com a mão, dirigiu-se para o fim do corredor, a
fim de apagar a luz que certamente Cole esquecera acesa, mas o ruído de
papéis sendo manuseados fez com que parasse.
Encaminhou-se para a sala e seus pés descalços não faziam ruído. A luz
ainda incomodava seus olhos. Viu Cole sentado no sofá, como o deixara
algumas horas antes, tomando notas.
— Ainda não foi se deitar? — perguntou com voz de sono. — Já passa
da meia-noite.
Cole olhou-a rapidamente, aborrecido por ser interrompido em sua
concentração. Franziu a testa quando viu as horas no relógio de pulso.
Comprimiu os lábios ligeiramente, antes de se voltar novamente para os
papéis.
— Estou quase no fim — disse e depois perguntou distraído: — O que
está fazendo de pé?
— Estava com sede — respondeu e dirigiu-se para a cozinha, duvidando
que tivesse ouvido sua resposta.
Ao passar pelo sofá, viu Cole passar a mão atrás da nuca e estirar as
costas como se estivesse doendo. — Meu Deus, como estou cansado! —
murmurou.
— Você deveria ir para a cama. — Na pia, abriu a torneira de água fria.
— Preciso terminar isso. Abrindo o armário, pegou um copo.
— Amanhã é um novo dia!
— Preciso disso pronto amanhã de manhã — foi a curta resposta dele.
— E acha que o mundo vai acabar se não tiver terminado seu trabalho?
— brincou Lacey.
Depois de encher o copo de água, ia bebê-lo, quando percebeu que Cole
a seguira até a cozinha. Suas feições cansadas se aliviaram um pouco com o
sorriso que ele deu como resposta a sua brincadeira, mas nada disse.
— Ainda temos café? — perguntou.
— Se tiver, está frio.
— Será que temos café instantâneo? — Cole abriu o armário perto
dele e começou a procurar.
— Está ali — apontou ela para uma prateleira logo acima de sua
cabeça, sem se oferecer para pegá-lo.
Lacey afastara-se para que a porta do armário não atingisse sua
cabeça ao ser aberta. Sorvendo pequenos goles de água, observou-o pegar
um copo e colocar dentro uma colher do café.
Começou a observar fascinada as mãos dele, fortes e morenas, e os
pêlos escuros quê apareciam no braço exposto pelas mangas enroladas. Seu

Projeto Romances 44
Verão Ardente Janet Dailey

pulso começou a bater mais apressado, francamente perturbada.


Rapidamente bebeu um gole de água, esforçando-se para não se perturbar
por sua proximidade.
— Não vai aquecer um pouco de água? — ponderou ela, certa de que
pelo cansaço ele esquecera.
— Levaria muito tempo. — Abriu a torneira de água quente da pia. —
Esta temperatura deverá bastar.

Deixou que a água corresse até que o vapor subisse da pia e então
encheu o copo com ela. Apoiou-se no balcão onde estava Lacey, como se
estivesse muito cansado para suportar d peso do próprio corpo. Esfregou o
rosto e o queixo com uma mão, enquanto com outra pegava uma colher para
mexer o café, mas escapando de seus dedos ela caiu no chão, fazendo ruído
no silêncio da casa.
Lacey abaixou-se para apanhá-la e os seus dedos pegaram a colher ao
mesmo tempo que ele. Levantaram-se juntos, cada qual pegando um lado da
colher, e a tensão de Lacey aumentou. À noite, os olhos dele pareciam de
veludo, o que fez acelerar ainda mais seu coração.
— Foi tolice minha deixar cair essa colher — disse ele — e só então
ela se deu conta de que continuava segurando com força a outra ponta.
— Você está muito cansado. — Esforçava-se para dar à sua voz um tom
despreocupado. — Deveria ir para a cama.
— Isso é um convite? — Apesar dele estar rindo e haver um tom
brincalhão em sua voz, Lacey percebeu algo de sério em suas palavras e seu
coração deu um salto.
— Você sabe perfeitamente o que quero dizer. — Tomou o copo, Levou
aos lábios e solveu um grande gole.
— Hummm. . .
Lacey não sabia se aquele resmungo queria dizer sim ou não e encarou-
o para ver se descobria. Mas ele continuava a fitá-la enervantemente, sem
dizer uma palavra. Seus olhos contemplavam seu rosto, indo de seu cabelo
para as sobrancelhas, para as linhas finas do queixo e as curvas suaves dos
lábios.
Seu olhar sonhador não parou aí, mas desceu pelo pescoço delgado para
contornar a curva suave dos seios, que apareciam intumescidos, sob a seda
do pijama que usava, sentindo a carícia quase física daquele olhar.
A sensação que crescia dentro dela era provocante. Sentia-se possuída
pela necessidade urgente de se lançar em seus braços e comprimir seu
esplêndido corpo contra o dele cm toda sua extensão. Dentro de seu
cérebro, ouviu campainhas de alarme quando o olhar dele desceu para seu
estômago, fazendo-a sentir o delicioso apelo do sexo.

Projeto Romances 45
Verão Ardente Janet Dailey

— Cole, pare! — protestou ela sacudindo a cabeça. Ele não saiu da


frente dela e seus braços a aprisionaram numa armadilha. Uma fraqueza
traidora começou a lhe bambear os joelhos. Atordoada, sentiu que seu corpo
era puxado de encontro ao dele.
Baixando a cabeça, Cole escondeu o rosto na curva de seu pescoço,
tocando de leve com os lábios sua gele sensível. O carinho era carregado de
ternura e prometia muito mais. Lacey tremia de expectativa. Ele
permaneceu algum tempo assim, a respiração de encontro à pele.
— Eu a desejo, Lacey — murmurou suavemente.
Quando traduziu em palavras o que até estão tinha sido nebuloso na
mente de Lacey, ela percebeu o perigo do momento. Não importa quão
atraente ele fosse, nem quanto também o desejasse, não estava disposta a
servir de entretenimento.. . para ser usada e descartada logo depois, quando
tudo estivesse terminado. E Cole seria bem capaz disso. Não a tinha
virtualmente ignorado nos últimos quatro dias?
Se naquele instante estava completamente dominada pelo seu contato,
no momento seguinte afastou-se dele num movimento brusco. Cole virou-se
vagarosamente, apanhado de surpresa, sem entender como ela resistia, se
sabia que também o desejava.
— Você está novamente esquecendo as regras. Cole — lembrou-lhe ela
quase sem fôlego. — Além disso, precisa terminar seu serviço. — Cole não se
moveu do lugar para alcançá-la quando ela andou depressa em direção ao
quarto, dizendo por cima do ombro: — Boa noite.
Junto à porta ouviu a voz calma e suave de Cole:
— Você também está esquecendo as regras, Lacey. . . Não havia
resposta possível para essa verdade.
Raios de sol atravessavam a cortina. Lacey abriu os olhos, distraída
com as partículas de pó que dançavam iluminadas. Levantando a cabeça do
travesseiro, olhou o relógio e resmungou. Eram apenas seis horas da manhã.
Acordara antes do relógio de Cole despertar. Cobriu a cabeça com o
travesseiro, esperando o costumeiro alarme.
Dez minutos depois, ainda não tinha soado. Procurou se convencer de
que não tinha nada a ver com isso, mas não conseguia dormir, mesmo
sabendo que possivelmente Cole decidira acordar mais tarde, já que fora
dormir de madrugada.
Saiu da cama e, vestindo seu penhoar, começou a andar pelo corredor.
A porta do quarto de Cole estava aberta e automaticamente ela entrou na
ponta dos pés. A cama dele estava feita.
— E essa agora! — murmurou. Geralmente era ela quem arrumava a
cama, depois que ele saía.
Ou Cole saíra muito cedo naquela manhã, ou nem fora se deitar. Estaria

Projeto Romances 46
Verão Ardente Janet Dailey

ainda na sala trabalhando ou, tendo terminado, fora direta-mente para o


escritório. Ou ainda. ..
Lacey dirigiu-se na ponta dos pés para a sala. Ali estava ele, meio
sentado, meio deitado no sofá, com os papéis espalhados a seu redor nas
almofadas e inteiramente vestido. Parecia tão cansado que Lacey teve pena
de acordá-lo. Mas estava numa posição muito incômoda!
Esforçando-se para não fazer barulho, juntou todos os papéis
espalhados e arrumou-os numa pilha ao lado da pasta. Conseguiu colocar um
travesseiro debaixo da cabeça e estava em dúvida se poderia pôr almofadas
sob as pernas sem acordá-lo.
Ele se espreguiçou. Sonolentamente os olhos azuis se abriram, fitando-
a. Cole bocejou, estirando os músculos.
— Que horas são? — perguntou.
— Quase seis e quinze.
Esfregando o rosto, resmungou: — Não pode ser. Eu pretendia somente
descansar meus olhos um pouco.. .
— Pela sua aparência, deveria descansá-los mais um pouco — sugeriu.
— Não posso -— afirmou, sentando-se, esticando as costas e
observando-a. — Tenho um encontro importante esta manhã e preciso
passar primeiro no escritório.
Não adiantava discutir; não a ouviria de maneira alguma.
— Vou fazer café — disse, indo em direção à cozinha.
Foi o que fez, enquanto Cole tomava uma ducha e se vestia. Um copo de
suco esperava por ele na mesa, quando entrou na cozinha. Ela procurara se
convencer de que fizera isso só por estar com pena dele.
— Isso ajuda — afirmou, tomando o suco.
Lacey esperava que sim, pois embora ele tivesse tomado banho e se
barbeado, sua aparência ainda não escondia seu cansaço.
— Realmente, Cole, você deveria descansar mais — disse ela
impulsivamente —, dormir mais, em vez de ficar trabalhando até tão tarde
da noite.
— O trabalho tem que ser feito — declarou, indo até a pia deixar o
copo e se servir de café.
— Deveria fazê-lo no escritório e não trazê-lo para casa — retorquiu
Lacey.
— Aqui trabalho dez vezes mais depressa do que no escritório. Não há
distrações ou interrupções — parou, olhando para ela —, ou melhor, não
havia distrações...
Lacey fingiu não entender o comentário. — Não é de minha conta se
você se mata de tanto trabalhar — disse ela descendo do banquinho.
— Onde vai? — perguntou curioso.

Projeto Romances 47
Verão Ardente Janet Dailey

— Tomar um banho e me vestir — e se dirigiu para o corredor.


— Lacey! — ela parou e olhou para ele. — Obrigada por ter me
acordado — disse sorrindo.
Retribuindo o sorriso, Lacey rapidamente saiu da cozinha. Quando
terminou o banho, Cole já tinha saído.
Os dias anteriores tinham passado rapidamente, mas agora as horas se
arrastavam numa lentidão enervante. Ainda estava no meio da tarde e ela se
sentia perdida e solitária. Permanecera no sol enquanto aguentara. Sentada
numa confortável cadeira do terraço, pegara um livro para ler, mas não tinha
interesse na leitura.
Suspirando, marcou a folha do livro onde estava e fechou-o,
abandonando-o. Levantou-se e, apoiada na grade, desfrutava da suave brisa
no rosto, vinda do mar e trazendo um ligeiro gosto de sal.
Ainda estava usando seu maio azul-brilhante. Pensou em trocar de
roupa e ir à cidade, onde poderia jantar.
A campainha da porta da frente soou estranhamente pela casa. Quem
poderia ser nessa tarde de sexta-feira? Todos os seus amigos mais
chegados estavam trabalhando. Naturalmente, havia a possibilidade de ser
um vendedor.
Qualquer distração seria bem aceita, pensou ela correndo para atender
à porta. Olhando pelo olho mágico, franziu as sobrancelhas. Parecia ser Mike
quem estava parado ali. Abrindo a porta, confirmou sua suspeita.
— Eu pedi a Deus que você estivesse aqui — saudou-a,
— Você deveria estar trabalhando! — Era quase uma acusação.
— Sim, deveria — concordou Mike, entretanto, ao ver que Lacey se
afastava para lhe dar passagem. — Mas foi uma longa e dura semana e eu
disse aos chefes que sairia mais cedo hoje. Se não gostarem, podem me
despedir!
— Foi tão má assim? — perguntou Lacey, sabendo que Mike nunca
falava muito a sério.
— Muito pior do que poderá imaginar! — exclamou com exagerada
ênfase.
— Uma cerveja gelada poderá melhorar as coisas? — brincou ela.
— Parece melhor que um cheque ao portador! — Mike riu. — Vamos a
ela!
— Siga-me! — disse Lacey, subindo as escadas. — Sei que na geladeira
deve ter algumas.
Minutos depois, sentado numa confortável cadeira do terraço e com
uma cerveja gelada nas mãos, Mike suspirou, dizendo: — Isto é que é vida!
Muita paz e nada que possa impedir a vista do mar. Pensei nesta vista a
semana inteira.

Projeto Romances 48
Verão Ardente Janet Dailey

— E eu pensando que você viajara tantos quilômetros só para me ver —


brincou Lacey, suspirando jocosamente.
— Oh, mas foi isso que me trouxe aqui — disse, afundando-se mais na
cadeira. — Nunca percebi o amor de secretária que você é, enquanto não
saiu de férias!
— Como está se saindo Donna?
— Está me fazendo subir pelas paredes! — afirmou Mike.
— Mas ela é uma secretária muito competente. — Lacey defendia sua
companheira de trabalho, embora sorrisse compreensivamente.
— Sim, é — concordou ele —, mas fala o tempo todo como uma matraca
e só diz tolices. Não cheguei a uma conclusão se ela é assim mesmo ou se
representa o tempo todo.
— Creio que ela é assim mesmo.
— Graças a Deus só falta uma semana para você voltar. — Mike tomou
mais um gole de cerveja. — Mais do que isso, creio que pediria minha
demissão.
— Realmente? — Um brilho maquiavélico lhe passou pelo olhar. — Eu
estava pensando em lhe dar duas semanas de aviso prévio e recomendar
Donna para ocupar meu lugar permanentemente.
Ouviu a gargalhada de Mike, enquanto de um salto ele estava ao lado de
sua cadeira e, agarrando-a, carregou-a, colocando-a sentada na grade do
terraço.
— Me solte, Mike! Me ponha no chão! — gritava ela rindo e se
agarrando nos braços dele, embora não estivesse com medo.
— Pois então retire imediatamente o que disse! Se não, juro que sou
capaz de atirá-la daqui para baixo! — ameaçou, mas seu olhar divertido
desmentia que tivesse qualquer intenção de cumprir sua ameaça.

CAPITULO VI

— Eu retiro o que disse! Eu retiro! — Lacey prometia entre gritos


abafados e risadas.
Mike desceu da grade e finalmente seus pés tocaram o chão,
— Nunca mais brinque com uma coisa tão séria! — avisou-a novamente,
com o dedo indicador em riste, frente a seu nariz.
— Nunca mais! Prometo! — declarou ela, apoiando um ombro no peito
dele, enquanto descansava e tomava fôlego.
— Assim é melhor.. .
— É assim que ocupa seu tempo, Bowraan, quando diz no seu escritório
que está fora, a serviço? — A pergunta fria de Cole fez com que sumissem

Projeto Romances 49
Verão Ardente Janet Dailey

as risadas.
Lacey virou-se de repente e viu-o parado no vão da porta, com o nó da
gravata desfeito e o botão do colarinho desabotoado. Parecia tão cansado e
muito irritado quanto sua voz demonstrara.
— O escritório foi avisado de que eu saíra quando o deixei há uma hora
— explicou Mike calmamente.
— Não foi o que sua secretária disse — replicou Cole, seus olhos
mostrando um brilho metálico semelhante ao aço.
— Donna novamente! — disse Mike suspirando desalentado. Lacey
imaginou que sua substituta achara de melhor política dizer a um cliente
que Mike estava trabalhando fora do que confessar que saíra mais cedo.
— Foi uma decisão inteligente da secretária de Mike lhe dizer isso em
vez da verdade — disse Lacey em defesa da moça pela sua iniciativa.
— E você — disse Cole se dirigindo a Lacey — como uma secretária
eficiente, não perde tempo em defender seu patrão.
Lacey levantou a cabeça desafiante. — Estou simplesmente querendo
que você encare os fatos!
— É mesmo? — riu cinicamente.
— E por falar em trabalho, o que está fazendo aqui, Cole? Não devia
estar em seu escritório neste momento? — acusou Lacey.
— Caso tenha esquecido, passei praticamente a noite toda
trabalhando!
— Então decidiu sair um pouco mais cedo — concluiu ela, erguendo a
cabeça e encarando-o nada amistosamente. — Pode ter a certeza de que foi
exatamente isso que sua secretária disse às pessoas que tenham lhe
telefonado? Ou terá ela dado, como a secretária de Mike, uma desculpa
mais gentil para explicar sua ausência?
— Isso me parece plausível. — Cole respondeu com certa ironia.
— A verdade sempre é!
Com um olhar gelado, Cole olhou-a ostensivamente da cabeça aos pés,
no seu maio azul-brilhante, que mostrava perfeitamente as atraentes curvas
de seu corpo.
— Mas não posso me impedir de ficar imaginando quantas vezes,
durante esta semana, Mike Bowman esteve aqui, quando dizia que estava
trabalhando fora. — Dizendo isso, Cole girou rapidamente nos calcanhares,
voltando para a sala.
A arrogante visão de seus ombros largos agiu em Lacey como se fosse
a capa vermelha de um toureiro na frente de um touro e ela dispôs-se a ir
atrás dele. Mike segurou-a pelo braço.
— Deixe, Lacey — sugeriu, reconhecendo os alarmantes sinais de
perigo, pois conhecia seu temperamento.

Projeto Romances 50
Verão Ardente Janet Dailey

Num gesto brusco, livrou seu braço das mãos dele e seguiu Cole,
alcançando-o ainda na sala. No ato de tirar a gravata foi surpreendido por
ela e olhou-a friamente.
Lacey desabafou sua fúria com palavras ácidas; — Não é absolu-
tamente de sua conta quantas vezes Mike esteve aqui esta semana, se é que
esteve, e. - . além disso é meu convidado e. . .
— Talvez — interrompeu-a Cole bruscamente — se tiver a delicadeza
de me dizer onde vão se divertir esta noite, poderei fazer planos para não
perturbá-los e ir a outro lugar qualquer, deixando-os sozinhos.
— Agora me acusa de não ser delicada? — Com as mãos na cintura, sua
voz tremia de raiva e ela o olhava desafiadoramente. — E o que me diz de
você? De sua absoluta falta de cortesia?
— Minha? Só porque tratei Mike rudemente? — perguntou com um
sorriso irritante.
— Além de outras coisas — afirmou Lacey,
Cole atirou a cabeça para trás, estudando-a acintosamente. — Que
outras coisas? — perguntou.
— Todo santo dia desta semana, seu despertador me acordou,
enquanto você dormia calmamente — Lacey respondeu com certa raiva.
— Já lhe pedi desculpas por isso — lembrou-lhe Cole visivelmente
irritado.
— Isso não me faz recuperar as horas de sono perdidas — replicou
sarcástica.
— Se não está gostando de nosso acordo, por que não vai embora?
— Eu não! Vá você! — contestou feroz.
— Para quê? Para que Bowman possa se instalar aqui? Isso seria bem
mais cômodo, não?
Lacey por instantes se sentiu impotente para responder, mas logo
declarou: — A companhia dele seria muito mais agradável do que a sua!
— Aposto que sim! Sem acordos ou tratados- Sem quartos separados.
Sem camas separadas. — Cole proferia as palavras rapidamente como
chicotadas.
— Sua mente é tão suja quanto suas palavras! Devia se casar com
Mônica. São iguaizinhos!
— Eu vou embora — disse Mike da porta do terraço. — Não vim aqui
para dar início a uma luta-livre.
Lacey virou-se admirada. Esquecera por alguns segundos que Mike
estava ali.
— Não se vá, Mike. Cole já vai embora — insistiu ela.
— Vou coisíssima nenhuma! Vocês dois podem se divertir à vontade
comigo na casa ou então ir a algum outro lugar. Mas não sairei daqui!

Projeto Romances 51
Verão Ardente Janet Dailey

— Otimo! — disse Lacey c olhou para Mike. — Dê-me apenas uns


minutos para que eu me vista. Eu vou com você se não se importar.
Mike fez um gesto de assentimento e Lacey saiu da sala pisando duro.
No quarto, tirou rapidamente o maio e vestiu um vestido leve, floreado. Um
profundo silêncio vinha da sala, opressivo e desagradável, atingindo todos os
cômodos da casa,
Mike a estava esperando junto da escada quando ela reapareceu.
Ignorando Cole, foi juntar-se a Mike. Parando, lançou um olhar furioso a
Cole, que aprumou o corpo, disfarçando seu embaraço.
— A casa é toda sua esta tarde — disse-lhe sorrindo friamente. —
Poderá ter toda a paz e tranqüilidade que tanto deseja. — Sua doçura se
converteu em veneno ao afirmar. — Espero que tanta paz e tranquilidade o
sufoquem!
Atirando a cabeça para trás, passou por Mike, que a seguiu descendo
as escadas e abrindo a porta da frente. Fora de casa, o barulho do salto de
suas sandálias no chão demonstrava que sua fúria estava longe de amainar.
Mike apressou o passo para caminhar a seu lado, já que ela andava depressa
como se fugisse de alguma coisa.
— Considerando as presentes circunstâncias, Lacey — começou
hesitantemente —, não acha melhor passar em seu apartamento o resto das
férias?
— E deixá-lo vencer a batalha? Nunca, jamais! Não lhe darei essa
satisfação! Posso fazer da vida dele um inferno, como ele fez da minha!
Parada ao lado do carro, esperava que Mike abrisse a porta para ela.
Como ele não o fizesse imediatamente, olhou-o surpresa e viu pela
expressão de seu rosto que algo o deixava preocupado.
— O que há de errado, Mike? — perguntou e em sua voz ainda havia
vestígios de zanga.
— Não sei como lhe dizer isso — ele murmurou embaraçado.
— Dizer o quê? — Sua paciência estava chegando ao fim.
Seu olhar evitou o dela. — Tenho um compromisso inadiável para esta
noite — anunciou completamente sem jeito.
— Você tem o quê? Para cúmulo do azar, isso tinha que acontecer logo
agora! — Lacey irrompeu numa gargalhada amarga.
— Sinto muito, Lacey — desculpou-se ele. — Pensei ficar aqui apenas
algumas horas relaxando e conversando e ir embora antes que Cole
chegasse.
E ela que pensara que ele viera para passar a noite. Definitivamente
essa idéia demonstrava que era muito convencida, embora não se desse
conta disso. Deu uma rápida olhada para a casa. Não podia simplesmente
voltar para dentro como se nada tivesse acontecido. Só poderia voltar tarde

Projeto Romances 52
Verão Ardente Janet Dailey

da noite. Cole não acreditaria se lhe contasse a verdade.


— Está bem, Mike — disse finalmente —, é justamente o que mereço.
— O que vai fazer?
— Não vou voltar e continuar a ouvir o falatório de Cole, isto é certo
— declarou enfaticamente. — Irei a algum lugar. Você se importa de
esperar um pouco até que eu tire meu carro da garagem?
— Claro que espero — prometeu Mike sorrindo, pois isso era tudo o
que podia fazer por ela, depois de tê-la deixado sem perspectiva de saída.
Lacey esperava que Cole interpretasse que eles tinham resolvido ir a
algum lugar em carros separados. Ao tirai o carro da garagem, olhou para
cima e viu Cole espiando pela janela.
Sentiu novamente a raiva crescendo dentro dela e, numa manobra
rápida, entrou na estrada sem olhar para o tráfego. Acelerou fundo,
deixando Mike para trás.
Foi a noite mais miserável que Lacey já passara em toda sua vida.
Deixara seu relógio no quarto e o do carro não estava funcionando. Não
tinha a menor idéia da hora, quando guardou o carro. Só sabia que devia ser
muito tarde, porque já escurecera há muitas horas.
Tremendo um pouco de frio, pois a noite refrescara, alcançou depressa
a porta de entrada. Como de costume iniciou a tediosa subida dos degraus.
A três degraus do fim da escada, levantou a cabeça e viu Cole, parado,
esperando por ela.
Sua camisa branca estava completamente desabotoada e por fora da
calça. Suas feições parecendo talhadas em bronze e o olhar duro e
reprovador.
— Onde você esteve até agora?
— Não é de sua conta! — Lacey tentou passar por ele rapidamente,
mas, como uma algema de aço, seus dedos se fecharam em seu pulso,
fazendo-a parar.
— Por acaso tem idéia de que horas são?
— Não. Não tenho e não vejo o que isso possa importar.
— Acontece que são quase quatro horas da madrugada — informou ele
— e quero saber onde esteve!
Lacey procurou livrar-se daquelas garras de aço que seguravam seu
pulso, mas sem sucesso. — Não tenho que lhe dar a menor satisfação de
meus passos. Por favor, solte-me! —- ordenou. — Estou muito cansada.
— Eu a solto — prometeu Cole — assim que me disser onde esteve.
— Já lhe disse que não é de sua conta onde estive — repetiu ela.
Estava realmente cansada e não queria iniciar uma nova discussão com Cole
Whitfieid.
— Sei que não esteve com Bowman!

Projeto Romances 53
Verão Ardente Janet Dailey

Lacey empalideceu visivelmente, mas não perdeu a pose. — Não estava?


— Não, não estava! — Não havia o menor traço de dúvida em sua
irônica observação. — Estive na casa dele a sua procura. Bowman me disse
que você lhe afirmara não estar com vontade de desfrutar da companhia de
ninguém e que partira.
Silenciosamente, Lacey agradecia a resposta de Mike, que lhe
arranjara uma explicação e não confessara que tinha um encontro com outra
garota naquela noite, mas isso ainda não a tirava daquela situação.
— E ainda não estou com disposição para desfrutar da companhia de
ninguém, muito menos a sua! Agora, deixe-me ir! — procurava se livrar
daquela prisão.
Mas Cole aproveitou seu movimento para dobrar-lhe o braço para trás
de suas costas e prendê-la contra seu peito.
— Não me interessa se você está com disposição ou não. Vai responder
a minhas perguntas! — ordenou zangado.
— Não vou! — protestou ela veementemente.
Sua outra mão agarrou os cabelos dela, forçando sua cabeça para trás,
para poder ver seu rosto.
— Esteve bebendo, não foi?
— Estive na casa de uma amiga e tomei um copo de vinho — respondeu
francamente. — Isso é crime?
— Considerando a maneira como saiu guiando seu carro daqui, diria que
era uma tentativa de suicídio. Telefonei para a polícia uma dúzia de vezes,
certo de que tinha tido um acidente, principalmente depois que descobri que
não estava com Bowman.
— Pois não tive acidente algum e cheguei sã e salva. — Lágrimas he
subiam aos olhos. — Parece que corro mais perigo em me ferir aqui com você
do que em meu carro. — Dava um duplo sentido a suas palavras — Agora
solte meu braço. Vai quebrá-lo se continuar a torcê-lo assim!
-- Espero que esteja doendo. — Forçou-a ainda mais de encontro a ele.
— Depois de me ter feito passar o que passei esta noite, merece um castigo!
— Depois de lhe ter feito passar o que passou? — Deu uma gargalhada.
— Como você é arrogante, convencido e. ..
Cole não lhe deu tempo de terminar o insulto, impondo-lhe silêncio com
um beijo e apertando-a num abraço. Embora fosse um beijo rude e cruel,
que pretendia puni-la, um atordoamento tomou conta de Lacey. Pretendia
resistir e lutar contra aquele abraço, mas suas mãos estavam deslizando
pelas costas dele, sentindo através da camisa o calor de sua pele. Sua
cabeça rodava, quase dolorosamente, confusa com sua reação.
Quando Cole levantou a cabeça, não pôde abrir os olhos, com medo de
que ele pudesse ler a reação que seu beijo provocara. Sentia os lábios dele

Projeto Romances 54
Verão Ardente Janet Dailey

roçando seus cabelos junto de sua testa.


— Pelo amor de Deus, Lacey, onde esteve durante todo esse
tempo? — Havia realmente uma grave preocupação em sua voz, enquanto
continuava a acariciar seus cabelos com os lábios- — Fiquei quase louco,
pensando que alguma coisa pudesse ter he acontecido.
— Realmente? — perguntou, temendo acreditar nele.
— Sim, realmente. — Sorria, com o rosto encostado no dela e ela
sentia as batidas do coração dele de encontro ao seu. — Essa amiga, na casa
de quem esteve, é uma amiga mesmo ou um amigo?
— É Mariana, minha melhor amiga — admitiu Lacey, inclinando sua
cabeça para o lado, quando ele começou a lhe beijar a orelha.
— E ficaram tagarelando a noite toda, enquanto eu andava como doido
de um lado para outro!
— Não a noite toda. — As mãos dele passeavam por seus ombros nus e
ela reconhecia meio encabulada o prazer que isso lhe dava. — Saí de lá pouco
depois das onze.
Levantando rapidamente a cabeça, olhou-a interrogativamente.
— E onde esteve desde então?
— Fui.. . dar um passeio pela praia.
— Sozinha? — perguntou indignado.
— Sim, sozinha — afirmou ela, reconhecendo a tolice que fizera.
— Você merecia apanhar de verdade — disse zangado. — Esteve
passeando na praia por tanto tempo? — Repetia as palavras dela, como se
não lhe fosse possível acreditar em tal tolice.
— Acho que sim. Só que não sabia que era tão tarde. — Por mais que
tentasse não conseguia se preocupar com o risco que correra pelo adiantado
da hora.
— Oh, Lacey — disse exasperado e apertando-a mais em seus braços.
— Eu sabia que não deveria tê-la deixado sair por aquela porta com Bowman.
— Você não poderia me impedir — afirmou rindo. — Estava tão furiosa
que nem uma muralha de pedra poderia me deter. E tudo por culpa sua. -
— Culpa minha? — Cole, colocando os dedos sob seu queixo, obrigou-a
a olhá-lo.
— Foi você quem começou tudo — lembrou-lhe ela. — Se não tivesse
sido tão rude com Mike, nunca teria perdido o controle.
— Mas o que poderia eu pensar? — ergueu as sobrancelhas
arrogantemente, ante as palavras dela — Telefonei para o escritório dele e
sua secretária me disse que ele estava fora a serviço. Quando chego aqui,
encontro-o com você nos braços.
— Poderia ter lhe concedido o benefício de uma dúvida — ponderou
ela, sentindo o estranho ressentimento nascer novamente — era vez de

Projeto Romances 55
Verão Ardente Janet Dailey

tirar imediatamente conclusões erradas e injustas.


— Como pode ter certeza de que minhas conclusões eram totalmente
erradas? — perguntou complacentemente.
— Porque Mike não é assim — retesando os braços de encontro a seu
peito, Lacey afastou-se um pouco dele. — Ele é honesto, inteligente e
trabalha tão duramente quanto você. O seu não é o único projeto que ele
tem para desenvolver e o atraso em sua construção foi causado pelos
entregadores, coisa que foge a seu controle.
Os lábios de Cole comprimiram-se contrafeitos.
— Lá vem você novamente em sua defesa!
— Bem, o que queria que eu fizesse, já que ele não está aqui para se
defender? — Desprendeu-se completamente de seus braços.
Quando pretendia afastar-se dele, num movimento rápido ele segurou
seu pulso com firmeza. — Lacey, não quero discutir com você. — Sua voz
estava rouca e baixa.
— Não? — Fitando aqueles incríveis olhos azuis, Lacey sabia
exatamente o que ele queria. — Não... o que você quer é fazer amor comigo,
não é?
Seu olhar se fixava em seu rosto cheio de intenções. — E você não
quer? — Aquelas palavras eram mais um pedido que uma pergunta.
O pulso de Lacey denunciou uma imediata reação, enquanto sua cabeça
era um turbilhão de sensações estranhas. Sentia claramente o apelo do
sexo, mas se recusava a quebrar as regras do acordo somente por atração
física.
— Não — respondeu fracamente, mas depois repetiu: — Não, não
quero.
— Mentirosa — disse ele sorrindo de modo esquisito.
O charme de Cole era poderoso e Lacey teve que respirar fundo para
não prestar atenção a ele. Foi preciso toda sua força de vontade para
resistir a seu encanto e permanecer impassível.
— Você me acusou de querer quebrar as regras mais de uma vez, Cole
— afirmou tensa — e estava tão enganado das outras vezes quanto agora.
Bruscamente soltou-se da mão que lhe segurava o pulso e virou-se
afastando-se dele. Podia sentir seu olhar em suas costas. Fez um esforço
para andar devagar e parecer despreocupada e não correr para o refúgio
seguro de seu quarto.
Assim que fechou a porta atrás de si, a reação se desencadeou tão
violenta que a fazia tremer toda. Reconhecia que se sentia perigosamente
atraída por ele. Reconhecia os sintomas. Sabia que ambos se descontrolavam
quando estavam próximos um do outro.
Cole também sabia disso. Provavelmente também se sentia atraído por

Projeto Romances 56
Verão Ardente Janet Dailey

ela como mulher. Essa atração mútua era parte do perigo de se dividir uma
casa. Lacey sabia que nunca poderia aceitá-lo como um amante temporário.
Uma lágrima rolou-lhe pelas faces, surpreendendo-a quando atingiu o
queixo. Limpou-a com a mão e começou a se despir para ir para a cama, com
movimentos rápidos e nervosos.
Outra lágrima se seguiu, depois outra e mais outra. Quando já tinha
vestido seu pijama, seu rosto estava molhado e uma profunda tristeza fazia
seu coração doer.
Estava prestes a apagar sua luz de cabeceira, quando a porta se abriu
de repente. Paralisada, seus dedos permaneceram no botão da luz, incapazes
de se mover. Cole estava parado no vão da porta, sua figura máscula
obstruindo a passagem. A brutalidade estampada em seu rosto em
implacáveis linhas podia ser percebida pela suave luz do abajur dela. O
volume rico de seu cabelo parecia quase negro. Seus olhos estavam de um
azul ainda mais profundo, inflamado por um ardente desejo. Uma onda de
prazer percorreu Lacey que se apressou em reagir.
— Cole, estou indo para a cama — declarou sacudindo negativamente a
cabeça.
— Eu sei — afirmou, entrando no quarto e com largas passadas se
aproximando dela. — Mas para a minha cama. .. onde deveria estar!
Quando o viu se aproximando, pensou em protestar, mas sabia que
palavras não o fariam mudar de idéia. Agarrou um dos travesseiros da cama
e o atirou nele, esperando escapar de suas mãos. Mas num gesto rápido do
braço, ele pegou o travesseiro e agarrou-a pela cintura, antes que ela
pudesse pular para o outro lado da cama.
Sem esforço algum, colocou-a no ombro, como fazem os bombeiros ao
salvar alguém de um incêndio. Seus pés descalços se sacudiam inutilmente no
ar. Entretanto, com os punhos cerrados, socava-lhe os ombros e as costas,
gritando em protesto pela sua tática de homem das cavernas.
— Grite um pouco mais alto — berrou. — Ninguém poderá ouvi-la e
ainda não conseguiu me deixar surdo.
— Ponha-me no chão!
A porta do quarto dele estava entreaberta e com o pé acabou de
escancará-la, atravessando o quarto com facilidade e jogando-a sem
cerimônia sobre a cama.
Seu grito foi abafado por um travesseiro que sentiu no rosto. atônita,
levou alguns segundos para reagir.
Virando-se de lado, viu Cole tirar a camisa. Fazendo isso, parecia não
saber mais a tênue diferença entre o homem civilizado e a besta humana.
Seu estômago se contraiu ante a visão daquele peito nu, forte e musculoso.
Quando começou a desafivelar o cinto, ela se recobrou da momentânea

Projeto Romances 57
Verão Ardente Janet Dailey

chama de desejo e recomeçou a querer fugir da cama. Uma mão poderosa e


forte alcançou seu ombro e obrigou-a a voltar à posição inicial.
Não podia lutar contra a força dele. Seus esforços para se levantar
eram inúteis quando ele apertava seus ombros contra a cama. Meio deitado
sobre ela, com o peso de seu tronco se apoiando em seu busto, podia sentir
o calor de seu corpo, queimando-lhe a pele, através da fazenda fina de seu
pijama.
Suas mãos tentavam inutilmente afastá-lo. Virando a cabeça de lado,
procurava se esquivar de seus beijos, mas não impedia que explorasse com
os lábios seu pescoço e face. A despeito de seus esforços para se libertar,
suas carícias conseguiam despertar nela uma deliciosa sensação que lhe
percorria o corpo todo como uma corrente elétrica.
— Cole, e as regras de nosso acordo? — perguntou alarmada, com o
coração batendo descompassado.
— Para o inferno com as regras — foi a rápida resposta.
O calor de sua respiração junto a sua pele começava a incendiá-la e ela
não tinha a menor idéia de como evitar isso.
— Você está cansado, Cole. Não sabe o que está fazendo — disse ela
num fraco protesto, sem saber se ela também percebia o que estava
acontecendo.
— Talvez — concordou num murmúrio, acariciando sua espinha
delicadamente. — Mas seja lá o que for estou gostando.
Seus dedos tiraram uma mecha de cabelos de seu rosto, enrolando-a
atrás da orelha. Depois, virando seu rosto para ele, conseguiu finalmente
encontrar a maciez de seus lábios e explorou-os suavemente até que ela
correspondesse.
Quando suas mãos se apoiaram nos ombros dele, não mais oferecendo
resistência, viu que Cole sorria triunfante, enquanto continuava a beijar
suavemente o lóbulo de sua orelha.
— E você também está gostando, minha cerejinha! Não procure negar.
— Deu um beliscãozinho em sua face e a pequena dor se transformou em
prazer.
Sua rendição ainda não era completa e ela começou um protesto:
— Cole...
— Minha cerejinha... — repetiu, novamente explorando as curvas de
seus lábios com os dele e o protesto morreu-lhe na garganta. — Verde e
ácida pela manhã e agora cheia de doçura e mel.
Seus lábios estavam novamente perto dos dela e seu beijo ardente
despertava nela toda a intensidade de seu desejo. Lacey sentiu-se envolta
num redemoinho de sentimentos que giravam, giravam sem parar, sem saber
quem ta ganhar ou quem ia perder, como se estivesse sendo lançada num

Projeto Romances 58
Verão Ardente Janet Dailey

grande carrossel.
As mãos dele sabiam exatamente onde tocar e despertar nela
deliciosas sensações. Seu corpo feminino e cheio de curvas sensuais
amoldava-se perfeitamente às mãos de Cole que deslizavam por ele numa
suave pressão.
No instante em que percebeu que ia perder por completo o controle,
deu-se conta de que jamais ousaria ir até o fim.
— Cole, não faça isso, por favor — murmurou num ardente protesto,
esquivando-se de mais um beijo que ela sabia ser um entorpecente para ela.
— Lacey, pelo amor de Deus — murmurou procurando seus lábios —,
você me deseja tanto quanto eu a desejo... e vou fazer com que admita isso...
Sim, ela queria desesperadamente que ele a amasse, mas não somente
pelo físico. O espanto dele confirmava suas suspeitas. Ela continuou a
resistir.
— Você sempre possui suas mulheres à força? — Sua pergunta era
como uma acusação.
Cole respirou profundamente, deixando-a em paz, apoiando-se num
cotovelo, com um brilho profundo em seu olhar.
— Você é uma peste, Lacey! — exclamou finalmente, deitando-se de
costas ao lado dela e puxando-a para junto de si.
Pressionava sua cabeça de encontro ao seu peito nu, que arfava com
sua respiração ofegante. Lacey ouvia o bater apressado do coração dele,
sentindo que o seu batia no mesmo ritmo.
Fechou os olhos suavemente, permitindo que o círculo de seus braços
continuasse envolvendo-a, e apoiou-se confortavelmente em seu peito.
Ele simplesmente a segurava, sem fazer mais nenhuma tentativa para
acariciá-la e levar avante sua ameaça de fazê-la desejá-lo tanto quanto ele a
desejava. E Lacey estranhamente não temia mais a proximidade que aquele
abraço trazia. A magia da sedução desaparecera subitamente.
Mas foi somente muito tempo depois que seu pulso retomou o ritmo
normal e ambos se sentiram relaxados e calmos. A felicidade de ficar ali em
seus braços era quase tão boa quanto a satisfação de não ter permitido que
se consumasse o ato de amor.
Aquele calorzinho gostoso e o adiantado da hora combinaram para
fazer com que seus olhos quisessem se fechar sonolentos. Mesmo sem
querer isso, ela percebia que precisava abandonar o conforto de seus
braços, mas assim que começou a querer se desprender deles, Cole a
apertou, impedindo-a de sair.
— Fique aqui, cerejinha. — Sua voz era rouca e sonolenta, mas tão
suave que ela não se sentiu com coragem de discutir.
Cole adormeceria em poucos minutos, pensou ela, com o firme propósito

Projeto Romances 59
Verão Ardente Janet Dailey

de que, quando ele dormisse, sairia devagar, sem acordá-lo e voltaria para
seu quarto.
Como não protestasse, Cole suspirou e encostando sua cabeça na dela,
ficou respirando calmamente.
Não era fácil se manter acordada. A única coisa que ajudava era que a
janela do quarto ficara aberta e por ela entrava uma brisa fresca que
soprava em sua pele, fazendo-a ficar pensando e relembrando o que
acontecera.
A um sopro mais forte dela, Lacey estremeceu. Imediatamente Cole,
afastando-se dela, puxou as cobertas sobre ambos, antes de aninhá-la
novamente em seus braços. Tudo se tornou quentinho e ela se sentiu
relaxada e segura.
— Durma, cerejinha — murmurou, beijando de leve seus cabelos. Havia
naquela caricia casual de boa noite algo de íntimo e familiar.
— Sim — concordou Lacey.
Mas, naturalmente, ela não ia dormir. Somente fingia concordar.
Quando Cole dormisse, sairia devagarinho, pensou ela. Suas pálpebras
cansadas se fecharam e ela resolveu descansar os olhos por uns minutos. O
braço dele pesava em sua cintura, possessivo e gentil.

CAPITULO VII

O alarme do despertador soou alto, quase dentro dos ouvidos de Lacey,


que custou a abrir os olhos, não entendendo por que tocava tão alto.
Sentia um peso em sua cintura, comprimindo-a contra o colchão.
Começou a querer tirá-lo de cima de si, irritada pela campainha do alarme e
desejando que pelo menos uma vez Cole o desligasse logo.
Quando seus dedos tocaram o que pesava, sentiu a aspereza de uns
pêlos e descobriu que o peso que sentia era exatamente o braço de Cole.
Acordou instantaneamente, lembrando os acontecimentos da noite
anterior, ou melhor, daquela madrugada. Viu também o longo corpo estirado
na cama a seu lado.
Cuidadosamente, para não incomodá-lo, esticou o braço e desligou o
despertador. Pela primeira vez, dava graças a Deus por Cole não acordar
com o alarme. Isso lhe daria a oportunidade de se esgueirar da cama, antes
que ele despertasse. Mas ao procurar se afastar, sentiu que uma mão a
segurava.
— Não se mova, cerejinha — disse com voz sonolenta.
Lacey sabia que ele acordara, mas não muito e que voltaria a dormir em
seguida.

Projeto Romances 60
Verão Ardente Janet Dailey

— Seu braço está me incomodando — mentiu, à guisa de explicação por


estar se afastando dele.
Cole murmurou alguma coisa incompreensível e virou-se para o outro
lado. Lacey permaneceu alguns minutos absolutamente imóvel, até que pela
respiração dele se certificou que estava novamente adormecido. Então,
cuidadosa e silenciosamente, saiu da cama e dirigiu-se para seu quarto.
Vestida e tendo feito o café, com um copo de suco na mão, voltou ao
quarto de Cole. Parou no vão da porta, contemplando a esplêndida figura do
homem adormecido. Suspirando, lembrou-se de como já era tarde na noite
anterior, quando finalmente Cole dormira e de como na véspera, vencido pelo
cansaço, adormecera no sofá. Simplesmente se sentiu incapaz de acordá-lo,
sabendo que ele necessitava daquele sono reparador.
Silenciosamente, voltou para a cozinha e guardou o copo de suco na
geladeira. O sol da manhã dourava o oceano, refletido sua luz por toda a
sala.
Com uma xícara de café na mão, foi até o terraço. Hesitou por uns
instantes, mas depois cedeu ao convite da beleza da paisagem e desceu
depressa os degraus, atravessando o curto espaço até a praia vazia. O
silêncio da manhã era somente quebrado pelo barulho das ondas e às vezes
pelo grasnar de uma gaivota voando.
Só que a praia não estava completamente vazia, certificou-se ao andar
pela areia. Uma velha mulher, usando um grande chapéu de sol e vestindo
umas calças compridas enroladas até os joelhos, andava pela beira da água,
catando tesouros ali deixados pelas ondas.
Sentou-se na areia e ficou a observar a mulher por algum tempo, mas
depois sua atenção foi atraída pelas gaivotas que faziam evoluções no céu
muito azul. O mar estava sereno e sua superfície calma.
A paz que a cercava refletia-se em seu interior. Lacey deixou-se ficar
imóvel na areia, sem pensar em coisa alguma, simplesmente desfrutando
daquela tranqüilidade.
O tempo passava rápido, quinze minutos parecendo segundos, tão
depressa que voavam. A única mudança era o sol que, cada vez mais
brilhante, aumentava o calor de seus raios. O mar e o céu permaneciam os
mesmos e a mulher continuava a procurar conchinhas e caramujos.
— Lacey — Cole impaciente chamava por ela, quebrando o silêncio como
o grasnar de uma gaivota,
Virando-se na areia para vê-lo pôde mesmo daquela distância observar
que estava de peito nu, despenteado e que suas calças estavam
terrivelmente amassadas por ter dormido com elas. Encostado na grade do
terraço, passava impacientemente os dedos pelos cabelos, como se quisesse
penteá-los com a mão.

Projeto Romances 61
Verão Ardente Janet Dailey

Andou até ele, com o coração em sobressalto, reparando em sua


incrível virilidade naquela manhã. Era impossível não se sentir atraída pela
masculinidade e força que dele emanavam-
— Por que não me acordou? — perguntou irritado. — Eu deveria estar
no escritório há uma hora!
— Achei que precisava dormir — defendeu-se ela.
— Da próxima vez, não pense! Me acorde! — gritou em resposta.
Quando se virou para entrar em casa, ela mostrou-lhe a língua, mais
divertida do que zangada pelo seu estranho comportamento.
Caminhou até a beira do mar. A mulher, remexendo a areia à procura
de conchas, levantou a cabeça e sorriu-lhe, o rosto iluminado pelo sol,
apesar do chapéu que usava.
— Está uma manhã linda, não? — comentou ela.
— Está mesmo — concordou Lacey parando junto dela. — Encontrou
muita coisa hoje?
— Nada de espetacular — afirmou a mulher, levantando-se e apoiando
a mão nas costas na altura dos rins.
— A senhora coleciona conchas? — Lacey olhava curiosa para a
pequena cesta que pendia do braço da mulher.
— Bem, sim — admitiu ela depois de alguns segundos de hesitação. —
Mas minha distração é fazer coisas com as conchas e outros objetos que
encontro na praia.
— Como bijuterias? — perguntou Lacey reparando no colar de
pequenas conchas que ela usava.
A mulher tocou o colar com os dedos.
— Sim, bijuterias... na maioria brincos e colares. No momento estou
fazendo um quadro de conchas. Por isso é que estou catando estas
pequeninas de madrepérolas — explicou, mostrando uma mão cheia delas. —
Há um sem-número de coisas que se pode fazer com conchas... mobiles,
bijuterias, enfeites, muitas coisas...
— Parece interessante — murmurou Lacey com um leve tom de inveja
na voz. Seu talento criativo não ia além de fazer de tempos em tempos um
arranjo de flores.
— É muito divertido — recomeçou a mulher — e, o que é mais
importante, me mantém ocupada.
— Lacey! — Novamente Cole a chamava e ela virou-se para casa a fim
de responder. Ele estava outra vez no terraço, mas agora vestindo um terno
impecável. — Já vou indo agora. Vejo-a logo mais à noite!
Lacey concordou. Depois de uma breve saudação, Cole sumiu d sua
vista. Lacey sorriu intimamente ao constatar a diferença que um xícara de
café e um chuveiro faziam em sua disposição matinal.

Projeto Romances 62
Verão Ardente Janet Dailey

— Muito delicado seu marido — comentou a mulher. — Me John


também sempre me diz onde vai.
— Cole não é meu marido — corrigiu Lacey automaticamente sem
pensar.
— Não? — A mulher parecia surpresa com a descoberta. — Oh!— A
exclamação era carregada de compreensão e ela se mostrava visivelmente
chocada pela conclusão.
Lacey ficou vermelha, ao perceber que revelara que ela e Cole moravam
na mesma casa sem serem casados. Corrigir a errônea impressão da mulher
implicaria em longa e difícil explicação das circunstâncias que a tinham
levado a dividir a casa com ele. Então Lacey não se preocupou em justificar
o acordo de ambos. Não acreditava que a mulher pudesse lhe dar o menor
crédito.
— Tenho algumas coisas a fazer lá em casa. Um bom dia para senhora
— desejou Lacey e começou a andar em direção da casa.
Enquanto se afastava, ainda pôde ouvir a mulher falando para mesma:
— Esses jovens de hoje em dia... parecem ter perdido completamente os
valores morais...
Lacey comprimiu os lábios e continuou andando como se nada tivesse
ouvido.
Na realidade, tinha muito pouco o que fazer em casa, mas enche o
tempo molhando as plantas e lavando alguma roupa até meio-dia Comeu no
terraço um sanduíche e algumas frutas e depois se sento comodamente
numa espreguiçadeira, com um livro, mas olhando frequentemente o mar.
O sol estava quente e relaxante. Seu efeito somado às duas noite que
não dormira direito logo a fizeram sonolenta e então abandono o livro para
tirar uma soneca.
Quando abriu os olhos, viu uma pasta familiar de couro marrom.
Imediatamente procurou seu dono e viu Cole sentado noutra cadeira do
terraço, com as longas pernas estiradas e com uma cerveja nas mãos. Estava
observando-a calmamente.
Sorriu ao dizer: — Finalmente acordou minha Bela Adormecida!
Cheguei a pensar que não acordaria mais!
Escondendo um bocejo com as costas da mão, Lacey sentou-se direito,
ignorando seu comentário e perguntando:
— Que horas são?
— Quatro e meia, mais ou menos — respondeu, sem consultar seu
relógio de pulso, desinteressado em responder com exatidão.
— Não pensei que estivesse tão cansada. — Abriu desmesuradamente
os olhos, novamente disfarçando um bocejo com a mão. — Há quanto tempo
está aqui?

Projeto Romances 63
Verão Ardente Janet Dailey

— Cheguei logo depois das duas.


Isso significava que de chegara logo depois de ela ter adormecido.
— E ficou todo esse tempo sentado aí?. — perguntou duvidosa.
— Observando você dormir.
A preguiça a abandonava depressa e a cada minuto se sentia mais
acordada. Então reparou que ele ainda usava terno.
— Por que não vestiu algo mais leve em vez de ficar me olhando?
— É, devia ter pensado nisso — concordou — mas queria estar peno
quando você acordasse.
Aquele era um motivo curioso. — Por quê?
— Porque queria lhe pedir desculpas por ontem à noite.
— Oh! — A declaração dele subitamente a fez sentir-se embaraçada,
ainda mais se sabendo alvo daqueles olhos azuis que a fitavam
insistentemente.
Andou até a grade do terraço, preferindo que Cole fingisse que nada
de mais tinha acontecido, em vez de se referir a isso na primeira vez que se
defrontavam naquele dia. No mesmo instante se deu conta de que fugira de
manha para a praia, antes que ele acordasse, para não ter que enfrentar
comentários referentes aos acontecimentos da noite.
Passos indicavam que ele se aproximava dela, que, tensa, sentia seu
coração bater tão depressa quanto as asas de um colibri. Cole parou tão
perto que podia sentir seu olhar fixo nela.
— Não vai aceitar minhas desculpas? — perguntou.
— Pelo quê? — murmurou nervosa. — Nada aconteceu.
— Não por falta de intenção! — caçoou gentilmente.
Lacey corou intensamente. Toda sua pose se desfez e sentiu-se
apanhada em falta, como se fosse uma colegial tola. Onde estavam sua
maturidade e sua auto-confiança, capazes de contornar qualquer situação?
Que poder era esse que Cole possuía, que a reduzia a um simples amontoado
de nervos trêmulos?
As mãos dele pousaram gentilmente em seus ombros, obrigando-a a se
voltar para ele. Lacey fixou os olhos em seu colarinho desabotoado, que
deixava à mostra parte do peito moreno. Era uma forma de fugir àquele
olhar magnético.
Cole, pondo um dedo sob seu queixo, levantou-lhe a cabeça. — Sabia
que você seria uma tentação para mim, desde a noite em que fizemos o
acordo, mas pensei que resistisse. — Franziu a testa reparando na agitação
dos olhos dela. — Eu estava cansado e irritado ontem. E havíamos discutido
sobre Bowman. . .
— Cole, por favor — interrompeu Lacey delicadamente —, não quero
dissecar todos os acontecimentos e emoções da noite passada. Expô-los

Projeto Romances 64
Verão Ardente Janet Dailey

assim à luz do dia não muda nada. Não me faça isso.


— Não lhe fazer isso?, — riu sem achar graça. — E não se fala do que
você me faz?
Aparentemente distraído, suas mãos começaram a lhe acariciar os
ombros, subindo e descendo pelos braços, inconsciente do que estava
fazendo. Isso provocava uma sensação deliciosa, mas Lacey sabia o quão
perigosa era. Mas não ousava interrompê-lo.
— Por acaso você sabe como fiquei quando a vi sair feito louca
dirigindo seu carro ontem? — Sua voz era baixa e sussurrante. — Ou como
me senti quando descobri que não estava com Bowman? Sabe como me senti
esperando pela sua volta a noite toda? — Seus dedos apertaram levemente o
braço de Lacey. — Sabe o que é ir para a cama todas as noites e imaginá-la
no quarto pegado, usando seu pijama de seda?
Lacey sabia, isso sim, que,estava a um passo de se render a seus apelos.
— Então mude-se daqui. Vá embora — sugeriu ela, sabendo que esta seria a
única maneira de não sucumbir à tentação.
— E ficar preocupado com você, sabendo-a aqui sozinha, à mercê de
assaltantes e ladrões? — argumentou Cole. — Isso seria horrível! E
arranjaria rapidamente uma úlcera.
— Suponho que queira que eu me mude, que volte para meu apar-
tamento? — perguntou rapidamente.
— Isso resolveria o problema.
— Resolveria? — perguntou sentindo uma esquisita dor no peito.
— Não sei. — Cole respirou profundamente, largando-a e se afastando.
Passando os dedos pelo cabelo, começou a esfregar a nuca para aliviar os
músculos tensos.
— Bom, quero, que saiba que não pretendo ir embora! — ela declarou
enfaticamente, embora soubesse que isso seria a coisa mais acertada a
fazer. — Agora, me dê licença — disse passando por ele e entrando na casa.
— Vou ver o que há para o jantar.
— Não! — O tom brusco de sua voz fez com que ela parasse. — Vamos
jantar fora hoje.
Ela hesitou alguns segundos. — Você pode ir jantar fora se quiser, mas
eu vou arranjar alguma coisa para mim aqui.
Recusara o convite por achar que a perspectiva de sair era mais
comprometedora do que passar uma noite sozinha com ele numa casa.
— Você é teimosa, Lacey! — disse impaciente. — Pensei ter deixado
bem claro que não pretendo deixá-la sozinha à noite nesta casa! Já é
bastante difícil deixá-la durante o dia inteiro!
— não poderá me obrigar! — declarou, pronta para brigar.
— Tem razão, não posso. Mas não vou deixá-la — repetiu frisando cada

Projeto Romances 65
Verão Ardente Janet Dailey

palavra. — Você pode argumentar quanto quiser, mas ou vamos os dois, ou


ficamos os dois! E assim será! Se tiver juízo, aceitará meu convite para
jantar fora e assim nos veremos entre outras pessoas. — Seus olhos se
encontraram durante alguns segundos medindo forças. Finalmente ele
perguntou: — O que resolveu? Não havia realmente muita opção.
— Dê-me então alguns minutos para trocar de roupa — disse, indo para
seu quarto.
— Ótimo! — Ainda se percebia um resto de dureza em sua voz. —
Vamos a algum lugar para um coquetel antes do jantar — disse ele.
Foi somente depois de terem tomado o coquetel que a tensão entre
ambos começou a diminuir. O garçom lhes indicara uma mesa com vista para
o mar e fora da iluminação direta.
— O que vai querer? — perguntou Cole, estendendo-lhe o cardápio.
— Estou resolvendo se escolho camarão ensopado ou caranguejos—
respondeu pensativa.
— Peça ambos — sugeriu ele.
— Está brincando? Comeria tanto que não seria capaz de me mover.
Você teria que me carregar — brincou ela dispensando a sugestão.
— Não seria a primeira vez que eu a carregaria para algum lugar—
lembrou-lhe ele intencionalmente.
A maneira como a olhava a fez corar. Imediatamente olhou o cardápio,
sabendo que ele estava rindo. Fechou o cardápio, pondo-o sobre a mesa.
— Vou preferir caranguejos — decidiu rapidamente, num esforço para
mudar de assunto.
O garçom apareceu à esquerda de Cole.
— Caranguejos para dois — pediu —, e a lista de vinhos, por favor.
Quando o garçom se foi, novamente o silêncio se fez pesado. Lacey
nervosamente brincava com seu garfo, incapaz de pensar em algo para dizer.
Cole estendeu a mão, segurando a dela.
— Eu estava só brincando com você — disse ele se desculpando —
quando me referi à noite passada.
— Eu sei, mas não tem graça nenhuma!
Encontrou o olhar dele e foi incapaz de desviar os olhos. Seu coração
começou a bater mais forte, em nada ajudando-a a se controlar pelo simples
toque da mão quente de Cole.
— Bem, bem, bem — disse uma voz atrás de Lacey. — Finalmente vocês
dois resolveram deixar o ninho de amor!
Quando Lacey tentou retirar rapidamente sua mão da de Cole, este a
segurou com força, não permitindo. O olhar dele se dirigiu para a pessoa.
— Alô, Vic! — Uma máscara inexpressiva cobria seu rosto, alguns
segundos atrás tão gentil e amável.

Projeto Romances 66
Verão Ardente Janet Dailey

Neste momento, Lacey pôde ver o atraente homem louro parado a seu
lado. Cole, tendo-o chamado pelo nome, fez com que ela lembrasse tratar-se
do irmão de Mônica.
— Alô, Cole! — Saudou-o em primeiro lugar e depois virou-se sorrindo
cinicamente para Lacey: — Novamente nos encontramos, srta. Lacey.
— Como vai, sr. Hamilton? — Devolveu-lhe o cumprimento com
estudada formalidade, não gostando de sua atitude arrogante de agora
como não gostara quando de seu primeiro encontro com ele.
— Vic — corrigiu sempre sorrindo, o que não o tornava mais simpático.
— Minha irmã ficou rangendo os dentes por sua causa a semana inteira.
Realmente, Cole — afirmou ele desviando sua atenção para Cole —, acho que
você poderia ter lhe dado o fora mais gentilmente.
— Estive lhe dando o fora gentilmente nos últimos dois anos —
replicou Cole secamente. — Já era mais do que tempo de ela se dar conta
disso!
— Creio que ela se convenceu de que ainda se casará com você —
comentou distraidamente. — Mônica sempre foi muito liberal, desculpando-o
pelas suas eventuais distraçõezinhas... ou amigas no turistas... — Olhou para
Lacey, que estava vermelha, não sabendo se de raiva ou de embaraço.
A expressão de Cole fechou-se. — Foi Mônica quem disse isso?
— Foi e sugeriu que eu lhe dissesse, se por acaso o encontrasse —
admitiu Vic.
— Pois considere a mensagem recebida — disse Cole com aparente
indiferença.
— Agora, presumo que desejem que eu me vá, para que ambos fiquem
sozinhos, não? Pois bem, aproveitem bem a noite!
Quando Vic estava longe bastante para não poder ouvir, Lacey
perguntou indignada: — Por que não o corrigiu? Ele não é Mônica.
Erguendo as sobrancelhas, Cole caçoou: — Negar que você é minha
amiga noturna? Queria que eu negasse que dormimos juntos?
— Você sabe que foi tudo muito inocente! — retorquiu. Largando sua
mão, Cole se recostou na cadeira, estudando sua expressão um tanto
pensativa. — Você parece muito ansiosa para negar qualquer relacionamento
entre nós, quando Vic está por perto. Está interessada nele?
— Claro que não! — Lacey negou a insinuação veementemente. - Os
Hamilton são muito ricos e, segundo algumas pessoas, Vic pode ser
considerado um rapaz atraente, é um bom partido.
— Tenho certeza de que a mesma coisa pode ser dita de Mônica! Não é
verdade?
— É verdade. -concordou —, mas não estamos falando de Mônica
— E eu não estou interessada em Vic. Mas talvez seja bom você

Projeto Romances 67
Verão Ardente Janet Dailey

considerar o recado dela. Poderiam voltar a se entender muito bem!


Os lábios dele se contraíram, demonstrando irritação. — Você gosta de
começar uma discussão, não, Lacey?
— Eu não comecei. Foi você.
— Vamos terminar com isso mudando de assunto — sugeriu
bruscamente.
— Com muito prazer — concordou Lacey.
O garçom chegou com o jantar, desobrigando-os de romper o
desagradável silêncio que se seguiu. Com a boa comida e um copo ou dois de
vinho, a tensão se desfez e se estabeleceu novamente um relacionamento
descontraído entre eles.
— Como vai indo sua construção? — perguntou Lacey, usando a faca
para tirar a carapaça de um dos caranguejos.
— Muito bem. Mike não lhe contou que estão fazendo horas-extras
para recuperar o tempo perdido?
— Não. — Lacey descarnava o caranguejo todo para comê-lo depois. —
Não me contou nada a respeito.
— Pela maneira como ele disse que recuperaria o tempo perdido,
pensei que estivesse se vangloriando. — Não havia nada de pejorativo em
seu comentário.
— Mike não se vangloria de seu trabalho. Considera um dever fazer
tudo o melhor que possa. Nunca deixa que um problema se torne uma
desculpa. Procura resolvê-lo. Por aí pode ver quanto foi injusto com ele
quando se zangou pelo atraso em seu projeto.
Cole ignorou a última observação. — Fiowman me disse que vocês dois
estiveram discutindo negócios e por isso pensei que lhe tivesse contado dos
progressos da construção. Sobre o que estavam conversando naquela tarde?
Ou estou entrando em terreno proibido com essa pergunta? — Seus olhos
brilhavam divertidos.
Lacey hesitou, mas não parecia aborrecida de ter que responder à
pergunta.
— Estávamos falando da moça que me substitui enquanto estou de
férias — explicou. — Donna é uma excelente secretária, mas, com sua
personalidade, às vezes pode se tornar extremamente irritante.

— Falei com ela algumas vezes — disse Cole, sem contudo emitir uma
opinião.
— Então pode imaginar o que Mike tem passado durante esta semana?
— perguntou sorrindo.
— Mas isso não explica por que estava tirando você da grade do
terraço.

Projeto Romances 68
Verão Ardente Janet Dailey

— Ah, isso! — Lacey não se preocupou em esconder sua risada. — Eu o


estava espicaçando. Disse-lhe que estava pensando em lhe dar um aviso
prévio, sugerindo que Donna me substituísse para sempre. E ele tentava
cometer um assassinato.
— Está pensando em parar de trabalhar?
— Não. Gosto do meu trabalho.
— E quando se casar? Pretende continuar trabalhando? — Cole não
olhou para ela ao formular a pergunta, ocupado com seu caranguejo.
Era difícil dar uma resposta que parecesse despreocupada. Se qualquer
outra pessoa lhe tivesse feito a pergunta, simplesmente riria. Mas, estando
meio apaixonada por Cole, o assunto casamento fazia correr pela sua espinha
um friozinho desagradável.
— Mais do que nunca continuaria trabalhando, pois o trabalho me
realiza — respondeu ela sem olhar para ele.
— Você não pararia nunca?
— Não é isso. Como já disse, gosto do que faço. Tenho a impressão de
que não conseguiria ficar sem fazer nada. Gosto de estar produzindo alguma
coisa — respondeu sem hesitação, pois era a verdade.
— E se seu marido se opusesse? Se quisesse que ficasse em casa?
— Cole levantou seu copo de vinho, olhando-a através do cristal.
— Provavelmente teríamos uma discussão. Você é desses homens
antiquados que não aprovam as mulheres trabalhando fora de casa?—
perguntou ela curiosa.
— Não me importo se as esposas de outros homens trabalham fora de
casa, mas não estou certo quanto a minha reação quando se tratar da minha.
— Cole sorriu daquele jeito bem seu, que fazia Lacey sentir-se mais atraída
por ele. — Quando tivéssemos filhos, acho que insistiria para que ela ficasse
em casa, pelo menos enquanto fossem pequenos.
— Enquanto as crianças forem pequenas, eu vou querer ficar em casa
com elas — concordou Lacey prontamente.
— Quer dizer que finalmente encontramos alguma coisa com a qual
concordamos, além de dividir uma casa? — perguntou Cole exagerando seu
espanto e abrindo desmesuradamente os olhos muito azuis. — Incrível! —
exclamou ele e Lacey riu.
O recente desentendimento que tinham tido sobre Mônica e Vic estava
totalmente esquecido. Parecia que finalmente haviam encontrado uma forma
de conversarem sobre algo, sem discussão.
Também parecia que o tempo passara rápido demais, quando Cole
entrou com o carro na garagem. Na realidade haviam prolongado o jantar
com sobremesa e café até quase dez horas.
Reconhecendo que sentia pena da noite estar quase no fim, Lacey

Projeto Romances 69
Verão Ardente Janet Dailey

desceu do carro e instintivamente procurou sua chave na bolsa. Ambos se


dirigiram para a porta procurando abri-la ao mesmo tempo.
— Permita-me — disse Cole fazendo uma reverência.
— Pois não! — respondeu no mesmo tom e guardando a chave
novamente na bolsa.
Depois de entrar, pa/ou, vendo Cole trancar a porta. Vagarosamente
começou a subir os degraus. Relutava em admitir que a noite terminara.
— Eu poderia... começou ela.
— Lacey, façamos um trato — interrompeu ele, um passo atrás dela na
escada. — Você não se oferece para fazer café, nem para preparar uma
última bebida e eu prometo não lhe sugerir nada.
— Está bem — concordou ela sem entusiasmo.
Sabia exatamente por que ele' dizia aquilo. Estavam de volta à casa e
aquela privacidade e isolamento convidavam a uma intimidade que ambos
queriam evitar.
A mão dele segurou delicadamente seu cotovelo e, de uma forma
impessoal, guiou-a pela sala até seu quarto. Quando pararam junto à porta
do quarto dela, Lacey quis protestar que não estava com sono. mas achou
mais prudente ficar calada.
A porta do quarto estava fechada e ela virou-se hesitantemente para
ele. Era impossível disfarçar a tensão existente entre ambos.

— É a primeira vez que acompanho uma moça até seu quarto de dormir
para dizer boa noite, sabe disso? — perguntou rindo.
— Para mim, também é a primeira vez que um homem me acompanha
até a porta de meu quarto — replicou se esforçando para dar a mesma
entonação de voz da dele, mas sem muito sucesso.
Sua larga mão acariciou-lhe um lado do rosto, de uma maneira gentil e
quase paternal.
— É melhor você ir diretamente para a cama — disse ele. — Depois
destas duas noites maldormidas, precisa de uma boa noite de sono.
Alguma coisa na maneira como ele disse isso fez Lacey perguntar
rapidamente: — E você? Não vai já para a cama?
— Não — afirmou sacudindo negativamente a cabeça. — Acho que vou
dar um longo passeio pela praia antes de dormir.
— Mas eu... — Lacey estava a ponto de sugerir que poderia ir também,
mas ele lhe impôs silêncio, comprimindo-lhe os lábios com um dedo.
— Não — retrucou bruscamente, fitando os lábios dela. — Eu sei o que

Projeto Romances 70
Verão Ardente Janet Dailey

estou fazendo, Lacey.


Ela o olhava com olhos escuros e luminosos. Assentiu rapidamente ao
ver a expressão dele.
— Não seja teimosa, Lacey. Não lhe fica bem...
— Eu... — Queria justificar seu procedimento.
— Quietinha! — ordenou e, sem que ela esperasse, seus lábios
tomaram o lugar do dedo que a impedia de falar.
O beijo ardente tomou conta de seus sentidos, enquanto os braços de
Cole a enlaçavam de encontro a ele. Sentia o calor do corpo dele e o desejo
nascendo dentro de si. A força e masculinidade daquele homem eram
irresistíveis para sua fraqueza feminina.
Seus lábios entreabertos sentiam a prepotência e a necessidade dos
dele e ela fazia tudo para manter o controle. Há muito tempo sabia que a
proximidade do corpo de Cole era perigosa.
Abruptamente ele interrompeu o beijo e levantou a cabeça. Um
músculo pulsava convulsivamente em seu queixo, enquanto olhava muito sério
para o rosto admirado de Lacey. Respirou profundamente e girou nos
calcanhares dizendo; — Boa noite, Lacey.
Por um momento ela foi incapaz de falar. — Boa noite — respondeu
finalmente, mas Cole já estava na sala e não se virou ao ouvir o cumprimento
Somente quando escutou a porta da frente se abrir e fechar, entrou
em seu quarto. Estava emocionalmente perturbada pelas emoção que ele lhe
despertara. Sabia que não poderia dormir e foi até a janela vendo a lua
espalhar sua luz prateada pela areia da praia.
Segundos depois, viu Cole andando em direção do mar. Com mãos nos
bolsos, olhava atentamente para o chão. Lacey ficou vendo-o, cada vez se
afastando mais e finalmente se perdendo na escuridão da noite.
Pôs o pijama e se deitou. Não fechou os olhos, ouvindo o tiqui-taque do
relógio, os segundos se escoando. Era quase meia-no quando finalmente ouviu
Cole entrando em casa.
Seus passos soavam pesadamente pelo chão. Ouviu quando par junto da
porta de seu quarto. Quando viu que a maçaneta girar fechou os olhos
fingindo dormir.
Abrindo a porta, Cote não entrou no quarto. Ficou simplesmente
olhando para ela, em silêncio e depois fechou a porta devagar.
Ouviu-o se dirigir para seu próprio quarto.
As batidas de seu coração eram quase dolorosas, quando se vir na cama
para tentar dormir.

Projeto Romances 71
Verão Ardente Janet Dailey

CAPÍTULO VIII

Na manhã seguinte, Lacey acordou cedo como de costume. Ficou ainda


na cama por um bom tempo, ouvindo os barulhos que Cole fazia andando pela
casa.
Finalmente levantou-se, sabendo que não conseguiria voltar a dormir e
que mais cedo ou mais tarde teria que começar seu dia. Vestindo o penhoar,
saiu para o corredor em largas passadas.
Nesse momento, Cole estava parado na porta do quarto dele,
assobiando uma suave melodia. Usava um maio marrom e amarelo e sorriu
quando a viu.
— Bom dia! — cumprimentou-a bem-humorado.
— Você deve ter acordado há muito tempo — observou ela com voz
ainda de sono.
— Ê verdade. Como sabe? Eu a acordei? — perguntou, esperando que
ela se aproximasse dele.
— Não. Adivinhei porque você não acorda bem-humorado como está
agora — explicou ela.
Passando a mão pelos cabelos dela e acabando de despenteá-los,
comentou: — Você também quando acorda não é nenhuma candidata a
concurso de beleza — caçoou rindo.
— Não faça isso! — protestou se esquivando e passando os dedos pelos
cabelos.
— Entende o que quero dizer? — continuou rindo.
— Nunca pretendi ser candidata a concurso de beleza — disse ela, —
Por acaso você já fez café?
— Não ainda. Estava agora mesmo pretendendo dar um mergulho antes
do café e desejava que você acordasse e resolvesse ir comigo — respondeu
honestamente, mas ainda com um ar de caçoada brincando-lhe nos olhos.
— Você bem que poderia ter feito e deixado pronto para quando eu
acordasse! — replicou ela, visivelmente pouco disposta a brincadeiras àquela
hora.
— É podia — concordou Cole. — Não gostaria de vir nadar um pouco
comigo? Eu espero.
— Não, obrigada — recusou Lacey, evitando olhar para aquele físico
bem-feito, que era também perturbadoramente viril para sua mente ainda
não de todo desperta.
— Está bem — respondeu ele saindo —, eu a vejo mais tarde. Parte da

Projeto Romances 72
Verão Ardente Janet Dailey

luz do sol se foi com ele. A manhã não parecia mais tão brilhante nem tão
clara. Lacey foi para a cozinha e pós a água para ferver, servindo-se, em
seguida, de um copo de suco de laranja. Dirigiu-se depois para o terraço.
Procurou Cole nas ondas e finalmente o encontrou. Era um bom nadador,
como desconfiava que fosse. Ficou observando-o por um bom tempo, mas
depois lembrou-se de que precisava se vestir.
Tomou uma boa ducha e vestiu um short de fazenda xadrez e uma
blusa branca decotada. O café estava pronto quando ela voltou à cozinha.
Serviu-se de uma xícara e voltou ao terraço, automaticamente procurando
Cole na praia.
Duas figuras atraíram sua atenção. Uma era Cole, que, saindo da água,
estendia a mão cumprimentando uma segunda pessoa. Essa segunda pessoa
era simplesmente a velha senhora que catava conchas na praia quando Lacey
a encontrou.
Lacey empalideceu ligeiramente ao ver Cole conversando com ela. Seu
corpo moreno brilhava como Se fosse uma figura "de bronze, molhado pela
água e batido de sol.
Lacey não fazia a menor idéia do que estariam falando, mas Cole a ouvia
com atenção. Uma vez olhou rapidamente para a casa, vendo Lacey no
terraço. Sentiu um arrepio de apreensão percorrer-lhe a pele. A mulher
certamente não mencionaria o fato de achar que ela e Cole estavam
morando juntos. Não seria tão audaciosa.
Logo depois, Cole se despedia dela e em largas passadas cruzou o que
restava da praia e começou a subir as escadas. Lacey se sentiu tentada a
abandonar o terraço e entrar em casa, mas reagiu e ficou calmamente
esperando por ele.
— O mergulho estava bom?
— Maravilhoso! — Seu cabelo molhado parecia negro e sem esforço
subiu os degraus dois a dois, chegando até ela. — Ah, o café está pronto! —
disse ele aspirando o aroma e vendo a xícara na mão de Lacey.
— Vou lhe buscar uma xícara — ofereceu-se rapidamente, ansiosa por
sair de sua presença.
— Posso esperar — respondeu, apoiando as mãos na grade do terraço e
olhando indefinidamente para o mar.
Então subitamente se virou para ela com uma expressão meio irônica no
olhar. Ali estava, forte e másculo, como se a estátua de bronze que vira na
praia de repente tivesse tornado à vida. Seu coração começou a bater mais
apressado.
— Acabei de ter uma conversa multo esquisita com aquela senhora na
praia — disse ele. — E a sra. Carlyle e mora a algumas casas daqui. Você a
conhece?

Projeto Romances 73
Verão Ardente Janet Dailey

Alguma coisa em seu tom de voz lhe disse que ele já sabia a resposta,
possivelmente reconhecera a mulher com quem conversara na véspera.
— Falei com ela alguns minutos ontem — admitiu Lacey —, mas nem
sabia seu nome. — Sentia-se um tanto embaraçada e sabia que um ligeiro
rubor lhe tingia as faces. Rapidamente tomou um gole de seu café morno,
fingindo que estava muito quente. — Ela procura conchas na praia com as
quais faz artesanato; colares, brincos e coisas assim.
— Ela me contou. . . entre outras coisas. — Deu uma risada sem
contudo desviar o olhar caçoísta dela. — Estou curioso para saber o que foi
que você lhe disse.
— Eu não falei nada de especial! — Lacey engoliu em seco, nervosa.
— Você deu a sra. Carlyle a impressão de que estamos morando juntos
de um jeito imoral?
— Receio que ela tenha interpretado desta maneira — admitiu Lacey
depois de alguma hesitação.
— O que foi que lhe disse? — perguntou sorrindo.
— Ela pensou que éramos casados e eu automaticamente lhe disse que
você não era meu marido. Ela deve ter tirado as conclusões daí— explicou.
— E você não tentou corrigir essa conclusão? — Ele voltou a indagar.
— Seria uma história muito longa e ela era apenas uma estranha —
respondeu ela apertando as mãos em torno de sua xícara. — O que foi que
ela lhe disse?
— Fui obrigado a ouvir um prolongado sermão. — Seu sorriso se
converteu em franca risada ao ver o total embaraço de Lacey.
— Oh! — Foi o único comentário que encontrou para fazer, enquanto
fitava sua xícara meio vazia.
Cole tirou-lhe a xícara das mãos e colocou-a sobre a mesinha ao lado.
Antes que ela pudesse prever sua intenção, Cole passava os braços ao redor
dela, atraindo-a para si. Suas mãos se viram de encontro aos pêlos molhados
de seu peito.
— Ela estava tentando me convencer de que, se eu sentisse algum
respeito por você, deveria fazer de você uma mulher honesta! — Sorria para
ela, suas pernas encostadas nas dela e provocando uma deliciosa sensação. —
E eu ainda não descobri quão desonesta você pode chegar a ser. . .
— Oh, Cole, por favor! — As palavras lhe saíam com dificuldade pela
garganta apertada.
Abaixou a cabeça tocando de leve a suave curva de seu queixo com os
lábios. O cheiro de mar que saia de sua pele chegava a suas narinas,
despertando seus sentidos e atordoando-a. Sentia o calor da pele de Cole na
sua e a respiração quente no pescoço.
— Será que vou fazer de você uma mulher honesta, Lacey? —

Projeto Romances 74
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perguntou levianamente, sem seriedade na voz.


Rapidamente se esquivou daquele contato perturbador. — Não seja
ridículo, Cole! — Não conseguia brincar com um assunto tão sério como o
casamento.
Cole não se esforçou para retomá-la nos braços, simplesmente cobriu a
distância que os separava, e por trás daquela expressão caçoísta havia uma
expectativa curiosa.
— Talvez eu devesse fazer primeiro de você uma mulher desonesta —
disse rindo, com a clara intenção de espicaçá-la.
Lacey baixou a cabeça, achando que já era tempo de terminar com
aquela brincadeira que estava indo longe demais.
— Talvez você devesse tomar seu café para voltar a si. Talvez também
tenha tomado sol demais na cabeça.
— Eu não quero café agora. — O tom de sua voz insinuava que queria
outra coisa.
Lacey empalideceu, não muito certa de por quanto tempo ainda
suportaria aquela pressão. Quase morreu de susto quando Cole se moveu
rapidamente.
Mas, simplesmente, passou por ela dizendo: — Vou tomar um banho e
me vestir primeiro e depois tomarei meu café.
— Vou fazer seu desjejum — ofereceu-se ela, sentindo necessidade de
dizer alguma coisa. Tremia incontrolavelmente depois daqueles choques, mas
felizmente Cole não estava mais ali para ver sua reação. O bacon chiava na
frigideira quando ele entrou na cozinha, usando calças caqui e uma camiseta
de mangas curtas. A justeza da malha moldava seus ombros e o torso
musculoso. A suave fragrância do sabonete se misturava com a da loção
após-barba que usava.
Lacey não podia se impedir de prestar atenção a esses detalhes,
enquanto servia o café. Cole enchia o ambiente com sua presença vigorosa e
dominadora. Ela começou a virar as fatias de bacon para que não se
queimassem, ciente de seu olhar persistente sobre ela.
— Você precisa ficar sempre me olhando assim? — perguntou
impaciente, sem tirar os olhos da frigideira. — Faz com que eu me sinta mal.
— Desculpe. — Meio sem jeito, Cole começou a sorver lentamente seu
café. — Você tem algum plano para hoje?
— Plano? — perguntou sem entender.
— Sim. — Um ar irônico bailava em seus olhos. — Está esperando
Bowman ou qualquer outra pessoa?
— Não, ele nada me disse se viria até aqui — afirmou, colocando um
pedaço de manteiga na frigideira para fritar os ovos.
A manteiga espirrou atingindo sua mão e ela deu um pulo para trás com

Projeto Romances 75
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uma exclamação de dor. Imediatamente Cole pegou seu braço, a arrastando


para a pia. Abrindo a torneira colocou a mão dela sob a água.
— Fique aí — ordenou.
— O bacon vai queimar — protestou Lacey.
— Pode deixar que eu olho. Deixe a água correr na queimadura —
ordenou, voltando para o fogão. Lacey obedeceu e sentiu que a dor diminuía
gradualmente.
— Como está agora? — perguntou quando ela fechou a torneira e
começou a enxugar a mão.
— Melhor. — Havia somente uma marca vermelha no lugar, mas não
estava mais doendo.
— Não vai perguntar por que eu queria saber se tinha outros planos
para hoje? — Quebrou um ovo na manteiga derretida.
Depois de certa hesitação, Lacey perguntou: — Por quê?
— Pensei que se não tivesse, poderíamos passar o dia na praia das
Ostras. — Quebrou outro ovo na manteiga, — Como gosta de seus ovos?
— Mal passados.
— E sobre passar o dia na praia?
— Acho uma ótima idéia — concordou ela.
— Bem — disse ele—, já pôs o pão para torrar?
— Não — respondeu e apressou-se em faze-lo.
Uma hora depois, com o café tomado e a louça lavada, estavam a
caminho da praia das Ostras. Atravessando a ponte que cruzava a baía de
Chesapeake, Lacey observava um navio a certa distância, a sua direita, que
se encaminhava vagarosamente para o canal que dava na baía de Chesapeake,
a sua esquerda.
Mas Lacey não olhava para a esquerda, onde se podia ver mais
facilmente os navios de guerra e mercantes ancorados na baía. Se o fizesse,
veria entre eles a figura de Cole, e procurava se distrair, ignorando-sua
presença, como se isso fosse possível. .
Mesmo sem olhá-lo, tinha consciência de toda sua figura, desde o
cabelo crespo junto do colarinho, até suas mãos vigorosas segurando o
volante. Um sistema invisível de radar denunciava sua perturbadora
presença.
— Há algum lugar especial que queira visitar? — perguntou, olhando-
a por um breve instante.
— Não — respondeu Lacey, incapaz de pensar num lugar que desejasse
ver com ele.
— Então vamos até Chincoteague — sugeriu.
Estavam se aproximando da ilha de concreto na baía, onde terminava a
ponte e começava o túnel que passava por baixo do canal dos navios.

Projeto Romances 76
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— Mas não fica a uns cento e cinqüenta quilômetros daqui? —


perguntou preocupada e encarando finalmente seu perfil.
— Mais ou menos isso — concordou brandamente. A boca do túnel os
engoliu. Era profundamente iluminada.
Lacey olhou o relógio.
— Já se deu conta que será muito tarde quando voltarmos? Você
amanhã terá que trabalhar. Deveria ir dormir cedo.
Sorrindo com certa ironia, mas não desviando os olhos do túnel,
observou secamente: — Vamos deixar de lado o assunto cama e sono, está
bem, Lacey? Vamos aproveitar o dia.
Virando rapidamente a cabeça para a frente, viu que estavam chegando
ao fim do túnel e que a luz do sol brilhava lá fora. Sentiu uma súbita raiva
pelo comentário dele, absolutamente desnecessário. A mão dele se apoiou
em seu pescoço e, sentindo os músculos tensos, começou a massageá-los
suavemente.
— Relaxe, Lacey. E pare de se apoiar com tanta força na porta do
carro! Não vou mordê-la!
— Não mesmo? — retorquiu ela. Naquele momento tinha certeza de
que estava realmente apaixonada.
— Eu prometo! — afirmou rindo. — Nada de mordidas.. . nem mesmo
uma eventual mordidinha. . .
Seu olhar era como uma carícia, percorrendo seu rosto e a linha
delicada de seu pescoço. Imediatamente retirou a mão e voltou a segurar o
volante.
— Nesta tarde seremos somente uma casal que se diverte passeando
de carro num domingo de sol.
Lacey sentiu uma pontinha de pena por ter que ser assim. Ele era
realmente muito charmoso e ela se sentia atraída. Sorriu simplesmente,
concordando com sua sugestão.
No horizonte já se podia ver o Cabo Charles delineado. Logo mais a
ponte fez uma curva que terminava mima ponta de terra que era a praia das
Conchas.
Uma moderna estrada subia o morro mais alto da península. Lacey viu
toda a vastidão da costa do Atlântico e suas ilhas espalhadas com suas
praias brancas.
Era impossível ficar indiferente ao encanto da paisagem com suas
escarpas, ilhas e mar, tudo contribuindo para que os minutos voassem tão
rapidamente quanto os quilômetros percorridos.
Quando se aproximaram da fronteira de Maryland, Cole abandonou a
estrada principal e cruzou a ponte para Chincoteague. Passaram por uma
pequena cidade do mesmo nome e por uma segunda ponte que os levou à ilha

Projeto Romances 77
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de Assateague.
Declarada reserva nacional, a ilha era o refúgio de pôneis selvagens que
se acreditava terem vindo num galeão da Espanha centenas de anos atrás e
que descendiam dos cavalos árabes. Pela ilha corriam livres, tal como faziam
seus ancestrais, bebendo da água fresca das fontes e comendo a tenra erva
dos gramados. Através dos anos os pôneis conservaram as linhas perfeitas
dos cavalos dos quais descendiam.
Para suprir a alimentação que a pequena ilha produzia, havia anualmente
uma coleta entre os moradores e vizinhos, para que nunca diminuísse o
número de cabeças de pôneis. As doenças e possíveis ferimentos deles eram
tratados por uma equipe assalariada de homens.
Embora houvesse uma ponte ligando as ilhas de Assateague e
Chincoteague, mandava a tradição que os pôneis atravessassem a nado a
curta distancia entre elas. Isso acontecia em julho e atraía milhares de
curiosos.
Não havia ninguém por perto quando Cole e Lacey pararam para vê-los
melhor. O pônei malhado conservava um olho muito vivo neles, que tomaram
todo o cuidado para não assustá-lo. Tolerava a presença deles à distância,
permitindo que vissem um par de potrinhos brincando mais adiante.
Se dessem mais um passo, não toleraria a invasão de seus domínios.
Com a cabeça abaixada para o chão, relinchava suavemente, fazendo com
que os dois bebês obedecessem a seu comando.
— São lindos! — disse Lacey quando, trotando, os três desapareceram.
— Está feliz por ter vindo?
— Claro! — respondeu sem perceber quanto seus olhos brilhavam.
— Eu também — concordou ele e olhou o relógio. — Hoje não dá mais
tempo de ver nada. Não sei quanto a seu estômago, mas o meu me diz que já
se passou muito tempo desde o desjejum. Vamos voltar para Chincoteague e
achar um lugar onde possamos comer antes de voltarmos para essa.
O sol já se punha quando reiniciaram o caminho de volta. Seu brilho
dourado emprestava um Era sereno a uma tarde relaxante e amena. Em
algum lugar da longa estrada, Lacey fechou os olhos e esqueceu de abri-los.
A próxima coisa que percebeu foi uma mão gentil, procurando acordá-la.
— Estamos em casa. — A voz de Cole chegava até ela como numa
névoa.
Abrindo os olhos, viu que ele se inclinava em sua direção, pela porta
aberta do carro. Sorriu para ele, sem saber que seu rosto tinha uma
expressão sonhadora.
— Já? — murmurou.
— Já sim! — caçoou e com uma mão ajudou-a a sair do carro. Ainda não
de todo acordada, aproveitou-se do auxilio que lhe oferecia, apoiando-se

Projeto Romances 78
Verão Ardente Janet Dailey

pesadamente nele, enquanto andavam da garagem até a porta de entrada.


Seu braço permanecia segurando-a pela cintura até que chegaram ao fim da
escada.
— E melhor eu fazer um pouco de café — disse Lacey piscando para
aliviar a sensação de areia nos olhos.
— Por mim, não se preocupe — disse Cole, sentando-se no sofá e
abaixando-se para pegar sua pasta de papéis.
Lacey viu-o abrir a pasta no colo.
— O que está fazendo?
— Tenho algum trabalho para fazer — respondeu sem olhá-la.
— Depois deste longo passeio? — Não podia acreditar que falasse a
sério.
— Tem que ser feito — replicou, tirando da pasta um bloco de notas.
Durante os segundos que se seguiram, Lacey foi totalmente ignorada.
Ficou parada no meio da sala, sem saber o que fazer, mas depois se decidiu
e foi até o terraço. Apoiando-se na grade, experimentou uma sensação de
completo abandono. Num céu muito azul, as estrelas brilhavam tão solitárias
quanto ela.
Após algum tempo, entrou em casa.
— Está ficando frio lá fora — comentou, embora dentro de casa
parecesse ainda mais frio com a indiferença dele. — Você tem mesmo que
trabalhar? — perguntou irritada.
O olhar que lhe lançou era tanto de espanto quanto de reprovação.
— Não estou de férias, Lacey!
— E eu gostaria de não estar — declarou subitamente desgostosa por
tê-lo conhecido.
— Eu também preferia que não estivesse aqui — disse ele voltando a
seus papéis. — Você deveria estar em seu apartamento!
— É isso que deseja, não é? Que eu vá embora? — Sentia uma dor
esquisita no peito, como se uma mão de ferro o apertasse.
Novamente seu olhar frio encontrou o dela.
— Pensei ter deixado bem claro que eu queria sossego, paz e
tranqüilidade.
Lacey empalideceu ligeiramente.
— Tive a impressão de que tinha mudado de idéia. Um inamistoso
brilho caçoísta pairava em seus olhos.
— Por que quis fazer amor? — perguntou. — Por Deus, Lacey! Você é
uma mulher atraente, inteligente e uma agradável companhia. Qualquer
homem em meu lugar teria vontade de fazer amor com você se aparecesse a
oportunidade.
— Compreendo — murmurou Lacey.

Projeto Romances 79
Verão Ardente Janet Dailey

Se ela lhe tivesse perguntado diretamente quais os sentimentos dele


para com ela, não teria tido uma resposta mais clara. Os passos que dera
para se aproximar dela eram somente isso. . . passos.
Ela era atraente e tinha sido avaliada. Devia se sentir grata por Cole
não ser um tipo inescrupuloso, que poderia se aproveitar de sua fraqueza.
Mas a dor interior que sentia era grande demais para dar lugar a pequenas
gratidões.
— Agora, se me desculpar, vou voltar ao trabalho. — Cole remexeu os
papéis, baixando a cabeça. Ela estava dispensada.
— Pois não! Vá em frente! — disse Lacey sarcasticamente. — Não
permita que eu o perturbe, seja o que for que estiver fazendo! —
acrescentou.
— Você me perturba só por estar aqui! — murmurou entre dentes, sem
levantar os olhos dos papéis.
Lacey teve a impressão de que ele não pretendia que ela ouvisse a
observação, mas isso não servia de consolo. Ela queria, sim, perturbá-lo, mas
emocionalmente e não fisicamente.
Virando-se, saiu da sala, indo diretamente para seu quarto e fechando
a porta. Seus olhos estavam cheios de lágrimas, mas não chorou. Em vez
disso, começou a se despir para pôr seu pijama.
Deitada na cama, olhava fixamente o teto. Sua porta estava fechada,
mas pela fresta aparecia a luz do corredor e por ela ouvia o barulho dos
papéis que Cole manuseava.

CAPÍTULO IX

Como de costume, o ritmo de vida deles não mudou, durante os três


dias que se seguiram. Mas alguma coisa iria mudá-lo em breve. A campainha
do despertador de Cole continuava a acordar Lacey e ele continuava a
dormir enquanto ela tocava.
Tomavam o suco de laranja e o café juntos, falavam de coisas banais,
mas era evidente que nenhum dos dois estava à vontade e que a atmosfera
descontraída da primeira semana não voltaria a reinar.
Cole, como antes, voltava tarde da noite, após jantar em algum lugar, e

Projeto Romances 80
Verão Ardente Janet Dailey

gastava o resto da noite remexendo papéis. Não houve mais contatos físicos
nem encontros, pois ambos cuidavam para que isso não acontecesse.
Para Lacey se iniciara uma contagem regressiva. Cinco noites para ir
embora, antes que sua prima Margo voltasse, depois quatro, depois três.
Agora era quinta-feira e faltavam apenas dois dias.
A agonia de estar junto dele já quase passara, mas ela temia o que
ainda estava por vir. Achava impossível acreditar que no curto período de
pouco mais de uma semana, um homem pudesse ter perturbado tanto sua
mente e sua vida como Cole o fizera.
Sua pequena estúpida e idiota!, disse para si mesma. Ele nunca pediu
que se apaixonasse por ele; portanto, é tudo culpa sua! Continuou
resmungando, mesmo depois de ter descido de seu carro.
— Você está falando sozinha, Lacey. Isso é um mau sinal! — brincou
Mike, caminhando a seu lado. — Contra o que ou contra quem estava
resmungando?
Recompondo-se da surpresa inicial, Lacey balançou a cabeça. — Contra
nada em especial. Contra o mundo!
— Deixei passar alguns dias sem perceber, ou hoje é segunda-feira e
você está voltando ao trabalho? — perguntou ele, olhando o enorme edifício
à frente deles, onde ambos trabalhavam.
— Você não deixou passar dia algum — tranquilizou-o Lacey, sorrindo.
— Então não conseguiu ficar muito tempo longe daqui, não foi? — Deu
uma risada.
— Mais ou menos isso — concordou ela.
— Deixando as brincadeiras de lado, o que está fazendo aqui? Deveria
estar tomando banho de sol enquanto ainda tem chance. — Seus olhos
inquiridores começavam a examiná-la de perto, notando que ela evitava
encará-lo e que tinha uma expressão tensa e preocupada.
— Fui até meu apartamento para ver se tudo estava em ordem e pegar
a correspondência — explicou Lacey, temendo que ele descobrisse que era
ficar sozinha o que queria evitar. — Como está quase na hora do almoço,
pensei em convidar Maryann para comer comigo.
— Receio que esteja sem sorte. — Sorria de modo estranho. —
Maryann saiu mais cedo para ir ao dentista. Eu a convidaria para almoçar, se
não estivesse voltando dele. — Olhou o relógio e continuou: — Tenho um
encontro com uns arquitetos daqui a vinte minutos. ..
— Não tem importância, Mike — disse Lacey, voltando para seu carro.
— Eu mereço almoçar sozinha. Deveria ter telefonado para Maryann de meu
apartamento, em vez de vir até aqui. — Não desejava prolongar sua conversa
com Mike. — Eu o vejo na segunda-feira, não antes disso!
— Não se atrase! — avisou Mike, acenando-lhe um adeus. Sem pressa

Projeto Romances 81
Verão Ardente Janet Dailey

para voltar à casa da praia, Lacey dirigia devagar. Ao passar por um dos
muitos hotéis de veraneio, olhou-o distraída. Cedendo a um impulso e
reagindo à maneira como se sentia, resolveu dar a volta e tomar o caminho
do hotel.

— Vá em frente, garota! Você merece mais destas férias do que um


coração partido e algumas lembranças!
Parando o carro no estacionamento, entrou no saguão do hotel, sem se
dar tempo de considerar se era justo ou não gastar tanto dinheiro numa
simples refeição. Eram suas férias e ela não teria outras senão dentro de
um ano.
Parou, hesitante, pensando se valeria a pena tomar ou não um coquetel
antes da refeição. Depois achou que ficar ali, sentada e sozinha, bebendo
alguma coisa, era muito deprimente. Assim, se dirigiu direto para o
restaurante.
—Lacey! — Uma voz de homem chamou-a. — Lacey! Meus olhos não me
enganam.. . é você mesma!
Parando, Lacey virou-se, para se defrontar com um homem louro e bem
vestido que a alcançara na porta do restaurante. Sua surpresa se converteu
em desgosto, quando reconheceu o irmão de Mônica: Vic Hamilton.
— Alô, sr. Hamilton — cumprimentou friamente, esperando que ele
compreendesse e também fosse breve.
Sacudindo a cabeça reprovativamente, ele corrigiu:
— Vic. — Continuou segurando a mão dela entre as suas. — Você está
tão bonita, nesse vestido turquesa, quanto estava quando usava aquele
pijama quase da mesma cor.
Não havia necessidade de ele lhe lembrar as circunstâncias do primeiro
encontro deles. Lacey se lembrava muito bem. Tentou livrar sua mão, mas
ele segurou ambas.
— Obrigada. — Sorriu forçadamente.
— O que está fazendo aqui? — Inclinou a cabeça para o lado de modo
antipático e convencido. — Não me diga que está esperando Cole?
— Não, não estou. — Lacey pensava depressa para poder fugir à
pergunta. — Simplesmente passei por aqui para almoçar.
— Sozinha? — Vic levantava uma sobrancelha numa expressão de
curiosidade.
— Sim, sozinha — respondeu decidida.
— Não posso permitir isso. — Seu sorriso demonstrava que a resposta
dela lhe tinha agradado. — Não há nada pior do que comer sozinho. Venha,
vamos tomar um coquetel primeiro.
— Não, muito obrigada — recusou ela, ainda lutando para libertar sua

Projeto Romances 82
Verão Ardente Janet Dailey

mão.
— Se está preocupada por Cole poder se zangar, vendo-a comigo, tire
isso da cabeça. — Havia alguma coisa de divertido em seu olhar, como se
soubesse de algo secreto. — Além disso, por que duas pessoas precisam
ocupar duas mesas em vez de uma? Se preferir, cada um paga sua refeição.
O que poderia fazer para se ver livre daquele homem que não lhe era
nem um pouco simpático nem lhe interessava? Lacey pensava,
impacientemente, que talvez ele nunca tivesse ouvido um não a suas
vontades.
— Eu... — começou ela, quando o som da risada de Cole, vinda de algum
lugar, interrompeu-a.
Aquela risada rica e gostosa era facilmente reconhecível. Olhando na
direção dele, viu sua figura inconfundível, usando um terno de verão cinza.
Como de costume, ela experimentou uma ligeira falta de ar, ao vê-lo. Tão
queimado do sol, tão vigorosamente masculino, Cole parecia encher de vida o
ambiente e tomar conta dos sentimentos de Lacey.
Alguém recebia aquele sorriso luminoso e cheio de charme. Fazendo um
esforço, Lacey desviou os olhos dele para ver quem o acompanhava.
Seus olhos se arregalaram, ao ver uma loura de olhos verdes, apóiada
em seu braço. Era Mônica Hamilton, que ria para ele. Tudo o que a moça
dizia parecia ser realmente divertido, pois Cole ria sem fingimento.
— Você não sabia que Cole estaria aqui, não? — murmurou Vic. Lacey
começou a tremer violentamente. Não se dava conta de que usava as mãos
de Vic como apoio, apertando-as, quando, segundos atrás, queria se ver livre
delas.
— Não — respondeu com voz estrangulada —, eu não sabia.
— Nem que estaria acompanhado de minha irmã Mônica? — continuou
Vic.
Vendo que Vic sorria satisfeito, Lacey só tinha realmente consciência
de uma forte pressão no peito que parecia querer sufocá-la. A dor era tão
intensa, que ela pensou que ia morrer. A qualquer momento, esperava que
suas costelas se partissem, ante a insuportável pressão.
— Não. — Novamente sua resposta soava como um grito estrangulado.
Suas mãos continuavam a apertar as de Vic, como um único apoio sólido
por perto. Livrando uma das suas, Vic passou-lhe o braço por cima dos
ombros e virou-se de costas para a cena. Lacey leve a impressão de ver dois
olhos azuis que a fitavam atônitos, antes de ser forçada a se virar noutra
direção.
Completamente atordoada e incapaz de raciocinar, Lacey não se
lembrava de ter subido os degraus que os levaram a um canto escuro do bar.
Vic gentilmente ajudou-a a se sentar a uma mesa.

Projeto Romances 83
Verão Ardente Janet Dailey

Estalou os dedos, chamando o garçom, a quem deu uma ordem que


Lacey não ouviu. Depois se sentou ao lado dela, que continuava tremendo. Vic
cobriu com as suas as mãos dela, sobre a mesa. Logo depois, estava
pressionando o cristal de um copo contra seus lábios.
— Beba isto — ordenou-lhe.
Automaticamente, Lacey fez o que ele dizia, tossindo quando a bebida
passou por sua garganta. Mais uma vez sentiu uma certa gratidão por isso,
mas não estava muito certa. Ter surpreendido Cole assim, parecendo tão
feliz ao lado de Mônica, fazia-a sentir-se traída e usada.
— Cole não lhe contou que ele tem visto Mônica? — perguntou Vic, sem
cessar seu sorriso de satisfação.
A dor que sentia piorou com essa revelação. Ela lhe lançou um rápido
olhar e depois baixou a cabeça, sacudindo-a negativamente.
— Não, não contou.
— E você não imaginou onde ele jantava, quando chegava tarde em
casa?
— Não, eu. .. —. Lacey levou uma mão trêmula aos olhos. Nunca lhe
ocorrera encarar o fato de que ela e Cole estavam morando na mesma casa,
sem que nenhum compromisso os ligasse. — Eu pensava que parasse num
restaurante qualquer para comer.
— Ele passou as três últimas noites em nossa casa, jantando com
Mônica.
— Compreendo.
Compreendia agora que tinha sido uma tola em alimentar qualquer
esperança com respeito a Cole. A mão que protegia a sua fez uma pressão
maior, como querendo alertá-la, quando, um instante depois, uma figura
bloqueou a luz. Lacey adivinhou que se tratava de Cole antes mesmo que ele
falasse.
— O que está fazendo aqui, Lacey? — Sua voz era baixa e controlada.
Tirando a mão do rosto, levantou seus olhos magoados para ele. Seu
rosto anguloso e suas feições marcadas estavam inexpressivos, mas ela
podia sentir uma raiva crescente dentro dele.
Sem saber como, de alguma forma encontrou forças para desafiá-lo.
Ele não tinha direito a explicação alguma por sua presença naquele hotel.
— O que a maioria das pessoas faz num lugar como este? — perguntou,
em tom cortante. — Estou tomando um aperitivo antes do almoço.
— Sim, Lacey ficou com pena de me encontrar sozinho e resolveu me
fazer companhia — disse Vic, e ela não o desmentiu.
Cole cerrou os dentes com força e os músculos de seu queixo se
contraíram, enquanto olhava Lacey de modo acusador. Mônica apareceu e
pegou o braço dele, olhando Lacey por um breve momento, antes de sorrir

Projeto Romances 84
Verão Ardente Janet Dailey

possessivamente para Cole.


— Querido, nossa mesa já está pronta — lembrou-lhe suavemente.
distraidamente, Cole olhou para ela. Hesitou por uma fração de segundo e
então seu olhar se voltou novamente para Lacey, frio e metálico.
— Não querem se juntar a nós? — perguntou delicadamente.
— Não — recusou ela, desviando seu olhar dolorido para o copo na
mesa.
A seu lado, Vic reafirmou:
— A moça disse não, Cole, e, claro, não tenho motivo algum para tentar
faze-la mudar de idéia.
— Nossa mesa — repetiu Mônica.
Lacey pôde perceber, embora sem olhar diretamente, que Cole se virou
bruscamente e se afastou deles. Sua raiva era perceptível pela maneira
como ele andava, levando Mônica pelo braço. Lacey sentiu uma mistura de,
alívio e mágoa.
— Você está apaixonada por ele, não está? — A pergunta de Vic
traduzia mais caçoada do que pena.
Pálida e trêmula, Lacey sabia que não poderia fugir da verdade e
assentiu silenciosamente. A situação era tão irreal como se nada estivesse
na verdade acontecendo.
— Pobre mocinha! — O tom de voz de Vic continuava sendo de
zombaria. — Você não tem chance alguma de lutar contra Mônica. Se tivesse
me perguntado, eu lhe teria dito que era fatal que Cole terminasse com
Mônica.
— Realmente? — Lágrimas inundavam seus olhos. Limpou-as com a mão,
recusando-se a dar parte de fraca, mas novas lágrimas apareceram.
Respirou profundamente, fungando um pouco, mas conseguiu se controlar.
— Monica tem muitas coisas a seu favor — continuou Vic. — Além
disso, Cole é exatamente o tipo de homem que lhe convém. Ela poderia ter
ficado com ele para sempre há dois anos, mas, por tolices, quis impor sua
vontade e ele se rebelou. Desde então eles têm tido períodos de paz e
guerra. Você encontrou Cole num desses períodos negativos.
— Sim, provavelmente — concordou Lacey, sem contudo desculpar o
encontro deles agora.
— Para ser muito franco, eu sou plenamente favorável ao casamento
deles. Tendo Cole por cunhado, sei que meu pai vai largar de meu pé. Não
tenho tino comercial nenhum e não quero nada com os negócios da família. —
Novamente passou seu braço pelos ombros dela. A princípio ela aceitou seu
consolo. — Não sou definitivamente um homem de negócios e Cole o é.
Interesso-me muito mais em consolar uma mulher bonita como você, Lacey.
Ao ouvir essas palavras, sentiu-se tensa.

Projeto Romances 85
Verão Ardente Janet Dailey

— Se você é o prêmio de consolação por eu ter perdido Cole, não estou


interessada — declarou ela, e tirou o braço dele de cima de seus ombros. —
Quer, por favor, me deixar sair daqui? — pediu delicadamente.
— Mas aonde vai? — Parecia não acreditar que ela o estivesse
rejeitando.
— Estou indo embora e não é de sua conta — retorquiu.
— Você não pode estar falando a verdade — ele insistiu.
— Estou sim. Portanto, se não quiser que eu faça uma cena, por favor,
deixe-me passar.
A expressão dele era feroz.
— Algum dia vai se arrepender amargamente disso. Uma vez que
se respondeu não para mim, nunca mais peço nada.
— Pois é não, sr. Hamilton. Não! O senhor não me interessa — repetiu
Lacey, destacando cada palavra.
Branco de raiva, ele se levantou do banco, dando-lhe passagem.
— Você não passa de uma secretariazinha estúpida! Nem sei por que
me preocupei com você!
As rudes palavras dele passaram por ela sem se fixarem em sua mente.
Com passos apressados, saiu do recinto. Quando chegou lá fora, o sol
brilhava nas lágrimas que lhe corriam livremente pelo rosto.
Uma vez em seu carro, mais por instinto, conseguiu tomar a direção da
casa da praia. Percorreu os dois últimos quilômetros chorando tanto que mal
podia ver a estrada. Chegando em casa, subiu os degraus e se atirou na
primeira cadeira que encontrou, entregando-se por completo a sucessivas
ondas de desespero e pena de si mesma.
Lá fora, o ruído de um carro, fazendo a curva em alta velocidade e
depois freando bruscamente em frente à garagem, chegou até ela. O
barulho da porta do carro batida com força ecoou pela casa toda.
Seu sexto sentido lhe disse que era Cole. Rapidamente limpou as
lágrimas e estava assoando o nariz quando ele, batendo as outras portas que
tinha pela frente, subiu as escadas de dois em dois degraus.
A fúria dele era visível e não diminuíra nem um pouco. Mas Lacey não se
deixava intimidar por ela. Ele a tinha magoado profundo demais para que ela
se importasse com isso. Encarou aqueles olhos azuis, que a olhavam
rancorosos, sem piscar.
— É um pouco cedo para que você esteja aqui, não? — sugeriu
suavemente.
— Sua pestinha! Sabe perfeitamente por que estou aqui! — Sua voz
era tensa e ele se aproximou dela. Seus punhos fechados ao lado do corpo e
os músculos rígidos de seu rosto demonstravam que a custo se controlava. —
Quero saber exatamente o que estava fazendo naquele hotel com Hamilton.

Projeto Romances 86
Verão Ardente Janet Dailey

Lacey levantou a cabeça desafiadoramente, embora sentisse a


garganta apertada.
— Não é de sua conta o que eu estava fazendo ou com quem estava
naquele hotel!
Se tivesse ainda alguma dúvida quanto ao que significava para ele,
essas teriam sido completamente dissipadas, ao vê-lo em companhia de
Mônica. Virou-se rapidamente para se afastar dele, mas, com a mão de
ferro, Cole agarrou seu braço, fazendo-a parar.
— Quando eu faço uma pergunta, quero uma resposta! — afirmou,
ríspido. — O que estava você fazendo naquele hotel?
— Você está machucando meu braço — queixou-se ela. A força com que
a segurava estava fazendo parar a circulação, tornando sua mão roxa.
— Vou machucá-la ainda mais se não me der uma resposta direta! —
avisou ele, sem relaxar a pressão.
— Claro que eu não fui lá esperando encontrá-lo — respondeu Lacey,
lutando contra as lágrimas, que novamente teimavam em surgir em seus
olhos.
— Mas deu um jeitinho de encontrar Vic Hamilton lá, não foi?
— Sim , eu o encontrei lá! Não era isso o que queria ouvir? Ele a largou
de repente, como se estivesse contaminada. Com o olhar cheio de ódio,
desviou os olhos dela, mas tornou a encará-la como se tivesse vontade de
faze-la em pedacinhos.
— Eu sabia que era somente uma questão de tempo para você e Vic se
entenderem. Mas pensei que você fosse um pouco mais esperta e visse logo
que ele é um conquistador sem escrúpulos. Mas a atração do dinheiro foi
demais para você, não? — Continuou sem esperar resposta: — Quantas
vezes antes de hoje já se encontraram?
Lacey massageava lentamente o braço que ele agarrara com tanta
violência. Certamente no dia seguinte ali estaria uma mancha roxa como
lembrança de sua agressividade.
— Isso não lhe interessa! Não lhe perguntei quantas vezes você
encontrou Mônica.
— Mônica não tem nada a ver com isso! Não falemos dela!
— Com prazer!
Lacey saiu da sala indo para o terraço. Seus dedos seguraram a grade
com força. Ondas de dor e mágoa percorriam seu corpo, deixando-a tensa e
trêmula.
Sentia raiva de si mesma por permitir que Cole perturbasse mais seus
sentimentos do que já havia feito. Usou essa raiva como um escudo protetor
quando ele a seguiu até o terraço.
— Lacey, eu quero que se afaste de Vic Hamilton — ordenou ele. Seu

Projeto Romances 87
Verão Ardente Janet Dailey

controle estava no limite e ela reconheceu os sinais. Sabia que seria capaz
de lhe bater à menor provocação.
— Agirei como achar melhor no que diz respeito a Vic Hamilton ou a
qualquer outra pessoa — afirmou Lacey em voz baixa, embora trêmula, para
melhor definir sua independência.
Foi então que ele se descontrolou. Pegando-a pelos ombros, sacudiu-a
como se ela fosse uma boneca de pano.
— Será que preciso sacudi-la para que entre algum juízo nessa
cabeça? — perguntou furioso.
— Você já sacudiu — disse rindo amargamente e sentindo seus nervos
em frangalhos.
— Então, ouça o que eu digo e se afaste dele! — disse determinado.
Com um supremo esforço, Lacey empurrou-o, desvencilhando-se dele.
— Não sou obrigada a ouvi-lo! — gritou zangada, com o coração
batendo forte e seus nervos prontos a explodir. — Você não tem direito
algum de me dizer o que devo ou não fazer! Eu não lhe digo quem pode ou
não ter por amigos e não admito que se meta com os meus!
Seu olhar sombrio afastou-se dela por instantes.
— Você não precisa gritar, Lacey — reprovou-a em tom baixo.
Automaticamente ela olhou por cima do ombro, numa reação
inconsciente e viu o que lhe distraíra a atenção. Uma mulher, usando um
enorme chapéu de sol, estava na praia junto da linha do mar. Lacey
reconheceu-a imediatamente. Era a sra. Carlyle, que regularmente procurava
conchinhas pela praia e que olhava admirada para a casa deles, certamente
por ouvir suas vozes alteradas.
— Eu grito quanto quiser — mas baixara o tom de voz — e, se não
gostar, vá embora!
— Já passamos por isto antes, Lacey.
— Sim, já passamos. — Levantou a cabeça desafiadoramente. — Creio
que gostará de saber que finalmente ganhou a batalha: eu vou embora.
Cole franziu a testa visivelmente surprendido por suas palavras. Lacey
não esperou para ouvir mais nada e, andando rapidamente, atravessou a
casa, indo diretamente para seu quarto. A decisão fora tomada num impulso,
mas ela sabia que era o único recurso que lhe restava.
Abafando os soluços, pegou suas malas e as abriu em cima da cama.
Começou a tirar as roupas do armário e a atirá-las sem se preocupar com
ordem. Hesitou por uns instantes, quando viu Cole aparecer não vão da
porta, antes de continuar sua tarefa.
Um nervo pulsava convulsivamente em seu queixo. Os lábios eram uma
linha fina, mas em seus olhos pairava um ar de arrependimento.
— Lacey, eu.. — começou inseguro.

Projeto Romances 88
Verão Ardente Janet Dailey

— Nada mais temos a nos dizer — interrompeu ela, não sem reparar aa
sua esplêndida figura parada ali na porta. — Ainda tenho tres dias inteiros
de férias, e não vou permitir que ninguém os estrague.
Impacientemente, ele replicou: — Por Deus, Lacey, eu não estou
querendo estragar nada para você. Eu.. ,
— Você fez um servicinho muito bem-feito para quem não deseja isso!
— exclamou, com as mãos cheias de roupas que atirou na mala, controlando a
voz para que ele não percebesse sua emoção.
— Você não compreende — murmurou Cole.
— Já não é tempo de você voltar a seu escritório? — perguntou Lacey,
pegando os vidros de cosméticos e atirando-os na frasqueira.
— Sim, é, mas primeiro...
Ela lhe deu as costas, tentando desesperadameute esconder a per-
turbação que a presença dele lhe causava.
— Já estou indo embora! A casa é toda sua! Não era isso o que mais
queria?
Sua expressão endureceu e os lábios se comprimiram até quase
desaparecerem.
— Sim, é! — disse depois de um segundo de hesitação. — é exatamente
isso o que mais desejo!
No instante seguinte, ele a deixou. Pesados passos se ouviram quando
atravessou a sala. Lacey voltou sua atenção para o trabalho de arrumar suas
coisas. Ouviu, então, a porta bater com estrondo, indicando que ele se fora.
Uma hora e meia depois ela estava carregando suas últimas coisas para
dentro do apartamento. Pousando a mala no chão, deixou-se cair numa
poltrona, cobrindo o rosto com as mãos.
Não chorou. Parecia não haver mais lágrimas dentro dela. Sentia-se
completamente vazia por dentro, como se partes vitais lhe tivessem
arrancadas e sabia que nunca mais seria a mesma, dali por diante.
O telefone tocou. Passou-se uma eternidade até que ela ouvisse! o som
de sua campainha. Ficou olhando-o sem ver, até que se levantou
automaticamente e atendeu.
— Alô — disse numa voz cansada e inexpressiva. .
— Lacey?
Era Cole. A voz dele teve o efeito de uma lâmina afiada
transpassando-lhe o peito. Lacey desligou o telefone para não sofrer mais.
Dali a poucos minutos o telefone tocava novamente. Estava se decidindo se
atenderia ou não, quando sua mão involuntariamente pegou o fone e o
colocou no ouvido.
— Não desligue, Lacey. — O restante de sua zanga ainda era
perceptível, pelo tom irritado de sua voz. — Estou em meu escritório,

Projeto Romances 89
Verão Ardente Janet Dailey

portanto não tenho tempo para discussões. Vamos nos encontrar hoje à
noite para conversarmos sobre tudo o que aconteceu. Estarei livre lá pelas
oito e meia...
Depois de jantar com Mônica, pensou Lacey. — Deixe-me em paz! —
interrompeu-o irritada. — Saia de minha vida e fique fora dela! Não quero
mais vê-lo ou ouvir falar de você... nunca mais!
Desligou rapidamente, cortando a ligação, mas sabia que Cole era tão
teimoso quanto ela. Tremendo, pegou novamente o fone, hesitou e depois
discou um número.
Quando atenderam, perguntou: — Jane? Aqui é Lacey. Posso falar com
Maryann?
— Claro — respondeu a moça. — Como vai de férias?
— Muito bem — mentiu Lacey e a ligação foi completada — Maryann?
— Alô, Lacey! — foi a resposta carinhosa. — Mike me disse que você
passou por aqui para almoçarmos juntas. Só lastimei não ter sabido antes
que você vinha... teria uma boa desculpa para faltar ao dentista!
— Eu deveria ter-lhe telefonado de manhã, mas, para ser franca, nem
pensei nisso.
— Está aproveitando bastante o sol?
— É por isso que estou lhe telefonando — começou meio hesitante. —
Não estou mais na casa da praia. Vim embora.
— Meu Deus, o que houve? — perguntou Maryann imediatamente
curiosa.
— É uma longa história. — Sua amiga já sabia parte dela, pois Lacey
havia lhe contado quando estivera em sua casa na sexta-feira à noite. —
Estava imaginando se poderia dormir em seu apartamento por algumas
noites.
— Claro que pode! — foi a resposta rápida, embora admirada. — Mas
pensei que você passaria uns dias com seus pais em Richmond.
— Eu ia, mas mudei de idéia.
Ter que explicar tudo o que acontecera a seus pais lhe parecia muito
doloroso e sabia que não conseguiria esconder-lhes a verdade. Eles a
conheciam bem demais para que conseguisse. Também não podia ficar em
seu apartamento. Cole continuaria telefonando e poderia até aparecer por
lá.
— O que aconteceu, Lacey? Será que.. .
— Eu lhe conto tudo logo mais à noite — prometeu ela. — A que horas
você sai daí?
— Não teria problema algum eu sair às cinco horas, mas tenho que
passar no banco e no supermercado. — Maryann fez uma pausa. — Por que
não passa por aqui e eu lhe dou a chave de meu apartamento? Assim, você

Projeto Romances 90
Verão Ardente Janet Dailey

poderia esperar por mim lá.


— Obrigada. — Lacey soluçou, sentindo sua garganta subitamente
apertada.
— Oh, eu tenho um motivo para isso — disse sua amiga rindo. — Não
aguento esperar até ã noite para saber o que aconteceu, então você, ao
passar por aqui, poderá me dar uma idéia, pelo menos. . .

CAPÍTULO X

— Você parece estar precisando de um café. Quer que lhe sirva um? —
ofereceu Mike, parando ao lado de sua escrivaninha e se dirigindo para a
garrafa térmica.
— Quero, por favor — respondeu Lacey, procurando a borracha para
apagar um erro de datilografia que fizera.
Mike encheu dois copos plásticos e estendeu-lhe um, sentandos na
beira da mesa.
— São apenas dez horas da manhã e você já parece exausta! Crek que
isso é um sintoma sério de uma doença chamada primeiro dia de trabalho
depois das férias. — brincou, olhando para ela afetuosamente.
— Provavelmente — concordou, e tirando da máquina a carta corrigida,
juntou-a a outras e estendeu-as a ele. — Aqui estão as cartas que me pediu
para hoje de manhã.
— Ótimo — disse Mike entre dois goles de café. Apanhando a pilha de
papéis, dirigiu-se para sua sala particular, mas parou no vão da porta e
virou-se para ela. — Lacey, é muito bom tê-la de volta.
— Obrigada — disse com um sorriso triste.
Assim que ele fechou a porta, ela apoiou os cotovelos na mesa. Seus
ombros se encurvaram, como se o esforço para manter as aparências fosse
demais quando não havia ninguém por perto.
Com a ponta dos dedos, esfregou um ponto da testa entre as
sobrancelhas. Piscou com força para tirar as lágrimas que inesperadamente
lhe vieram aos olhos.
A porta principal do escritório se abriu e ela imediatamente se
recompôs, numa postura ereta. O sorriso forçado de boas-vindas morreu-
lhe nos lábios ao ver Cole à sua frente.
Parecia abatido e desfigurado, mas havia uma determinada obstinação
em seu rosto. Seus olhos pareciam ainda mais azuis. Refeita do choque
inicial, Lacey pegou o telefone interno e discou o número de Mike.
— Cole Whitfield está aqui para vê-lo — disse ela assim que ele
atendeu.

Projeto Romances 91
Verão Ardente Janet Dailey

— O quê? — Peta sua reação ela viu que Cole não era esperado.
Lacey começou a sentir seu coração bater mais apressado em sinal de
alerta.
— Eu vou. . .
Inclinando-se sobre a escrivaninha, ele apertou o botão que
interrompia a ligação.
— Não estou aqui para ver Bowman — disse. — É com você que eu
quero falar, Lacey.
Bruscamente ela repôs o fone no aparelho e apanhou alguns papéis da
cesta, pondo-os em ordem com mãos nervosas. Levantou-se rapidamente,
pretendendo arquivar alguma coisa e para se distanciar o mais possível de
Cole.
— Margo e Bob chegaram bem? — perguntou, tentando dar a sua voz
um tom de naturalidade e abrindo uma das gavetas do arquivo.
Cole estava bem atrás dela e com um empurrão fechou a gaveta. O
coração dela batia descompassadamente e seus nervos à flor da pele
clamavam por alívio, A situação era insustentável.
— Para dizer a verdade, chegaram — disse distraidamente —, mas não
é por isso que estou aqui e você sabe.
A porta de comunicação com a sala de Mike se abriu e ele apareceu,
olhando atônito para Cole.
— Desculpe a confusão, Cole, mas a substituta de Lacey deve ter
esquecido de marcar sua visita esta manhã. Sobre o que desejava me falar?
Cole lançou um olhar impaciente para Mike, aborrecido pela
interrupção.
— Não vim falar com você. Quero trocar algumas palavras com Lacey,
se é que não se importa.
A última frase era somente um gesto de polidez. Lacey tinha impressão
de que ele ficaria se Mike permitisse ou não.
— Nada temos a nos falar — disse ela suavemente e passou por ele
para retornar à escrivaninha.
— É aí que você se engana — replicou Cole. — Temos um porção de
coisas a discutir.
— Isso me parece particular — murmurou Mike voltando para sua sala
e fechando a porta.
Lacey virou-se para chamá-lo de volta, mas deu de cara com Cole.
Todos os seus sentidos estavam alerta pela proximidade de sua presença
perturbadora.
— Por que não vai embora e me deixa em paz de uma vez? Não percebe
que estou trabalhando?
— Você escolheu a hora e lugar. Não fui eu — replicou calmamente. —

Projeto Romances 92
Verão Ardente Janet Dailey

Sabia que eu queria falar com você. O fim de semana todo estive tentando
localizá-la, mas você se escondeu não sei onde!
— Eu não estava me escondendo — mentiu, repondo os papéis na cesta.
— Não? — Ergueu as sobrancelhas num ar de incredulidade. — E como
você chama isso?
— Eu estava aproveitando o que me restava de férias — afirmou
Lacey, novamente se afastando dele.
Sua mão segurou-lhe o braço numa suave, mas segura pressão.
— Quer fazer o favor de ficar quieta um pouco? — disse meio
exasperado.
O toque de sua mão queimou-a como ferro em brasa e Lacey tentou se
libertar, mas ele simplesmente aumentou a pressão.
— Solte-me! — pediu ela, sabendo-se pateticamente vulnerável a seu
contato.
Desesperada, procurou em cima de sua mesa alguma coisa que pudesse
usar como arma de defesa. Pegou o grampeador. Levantou-o para atirar nele,
mas Cole agarrou seu pulso, antes que ela pudesse esboçar o movimento.
— Foi assim que nos conhecemos — observou ironicamente —, so que,
da outra vez, você pretendia atingir minha cabeça com um atiçador de
lareira!
— Eu o odeio, Cole! — Sua voz era trêmula. — Você é o mais arrogante,
o mais rude...
— Também já disse algo parecido antes. — Tirou o grampeador de
suas mãos e recolocou-o na mesa. — Agora, acha que poderemos conversar
como dois seres civilizados?
Afastando sua cabeça da perigosa proximidade daquela boca bem
desenhada, concordou relutante: — Sim.
— Sente-se. — Cole a fez sentar e puxou outra cadeira, acomodando-
se em frente dela.
— Ainda não vejo nada sobre o que temos a conversar — insistiu ela,
porém mais calma.
— Para começar — os olhos azuis dele a estudavam curiosamente —,
por que não me disse que não tinha ido ao hotel para se encontrar com Vic?
— Porque você não estava em condições de me escutar e também
porque não via motivos para lhe explicar. — Depois dessa resposta
defensiva, hesitou e perguntou: — Como descobriu?
— Vic me afirmou logo depois — respondeu Cole rindo. — Sorte dele
estar preocupado em manter seu encantador rosto em ordem. Aproveitei-
me disso e ameacei-o. Zangado como estava, teria lhe amassado a cara para
conseguir a verdade!
— Mas não era absolutamente de sua conta — disse Lacey, desviando

Projeto Romances 93
Verão Ardente Janet Dailey

os olhos. Recusava-se a admitir que ele tivesse algum envolvimento pessoal


na coisa.
— Não era? — perguntou calmamente, sua voz chegando até ela como
uma carícia.
O telefone interno chamou e Lacey pegou o fone, feliz pela
interrupção. Mas Cole tomou o fone da mão dela.
— Suspenda todas as chamadas! Não complete mais nenhuma ligação!
— ordenou ele desligando.
— Você não pode fazer ,isso! — protestou Lacey admirada.
— É engraçado.. . pensei que pudesse — replicou rindo.
— Você sabe o que quero dizer — retrucou impaciente.
— Mas será que você sabe o que eu quero dizer? — Sua voz era apenas
um sussurro, suave e enigmático.
As batidas de seu coração eram mais fones do que ela podia suportar.
Agitada, levantou-se, os punhos cerrados ao lado do corpo.
— A nada chegaremos com esta conversa — insistiu ela. Movendo-se
mansamente, Cole estava atrás dela, as mãos apoiando-se suavemente nos
ombros dela e virando-a para encará-lo. Lac não encontrou forças para
resistir.
— O que quero lhe dizer é que senti falta de você — afirmou de mente.
Contemplava sua face e ela sentiu a respiração difícil. Simplesmente me
senti miserável desde que você partiu. Você não estava mais lá de manhã
cedo para me acordar quando eu não ouço o despertador. Não tinha café
feito, nem suco de laranja. Nunca me importei em voltar para uma casa
vazia, mas agora é insuportável se você não estiver lá me esperando. E à
noite não consigo trabalhar se você não estiver calmamente sentada numa
cadeira perto de mim.
— Você fala como se eu me tivesse tornado um hábito em sua vida. —
Havia um tom dolorido em sua voz.
— Um hábito muito agradável e do qual não quero abrir mão por nada
deste mundo — disse Cole, passando a mão pelo seu queixo depois pelo seu
cabelo.
— O que está sugerindo, Cole? — Lágrimas umedeciam-lhe olhos
quando encontrou o olhar dele, duvidando de suas palavras. Quer que
continuemos nosso acordo, morando juntos e respeitando as regras?
— De certo modo, sim. — Seu sorriso era desconcertante. — Quer me
casar com você, Lacey. Quero que seja minha esposa.
— Oh! — A pequena palavra escapou-lhe num suspiro de admiração e
felicidade, enquanto ela se apoiava de encontro a ele. Está falando sério? E
Mônica?
— Mônica? — Uma ruga de curiosidade surgiu em sua testa.

Projeto Romances 94
Verão Ardente Janet Dailey

O que a faz pensar que eu tenha alguma coisa a ver com ela?
— Não sei. — Sentia-se confusa e incerta sobre as conclusões que
tirara sobre o relacionamento deles. — Você jantou com ela a semana
passada inteira, não foi?
— Com os pais dela, e ela estava à mesa. Mas era com o pai dela meu
encontro e não com ela — explicou divertido. — Quem lhe contou isso? Vic,
suponho.
— Sim — concordou Lacey, suspirando quando os braços dele rodearam
sua cintura.
— Eu devia ter imaginado isso — concluiu, baixando-se para encostar
os lábios na pele macia do rosto de Lacey, e depois encontrar sua boca
delicada. — Eu tenho negócios a tratar com Carter Hamilton, o pai dela. Era
esse o único motivo de estar lá.
As mãos dela pousavam junto ao colarinho de sua camisa.
— Eu não sabia. Pensei... no hotel você parecia tão feliz ao lado dela. . .
não como da outra vez, quando você foi tão, ..
— Rude, é a palavra que está procurando, não? — Cole deu uma risada.
— No domingo, na casa da praia, Mônica apareceu sem ser convidada. Não vi
razão alguma para ser delicado com uma pessoa que não era bem-vinda
minha casa. E se você teve a impressão de que eu estava feliz em companhia
dela no hotel, então sou melhor ator do que pensava. Não importando como
eu parecesse, estava simplesmente sendo gentil com a filha de um homem
com quem tenho interesses comuns. Ela é apenas uma gralha velha!
— Mas ela é linda! — protestou Lacey.
— Isso somente aos olhos de um observador que não a conheça bem —
disse ele, afastando-se um pouco para vê-la melhor. — Quando é que vai
parar de falar para que eu possa beijá-la de verdade?
— Agora.
Suas mãos rodearam o pescoço dele, enquanto se punha nas pontas dos
pés, para ir ao encontro de seus lábios ardentes. Alegria e felicidade a
envolveram, tomando luminoso cada cantinho escuro de seu mundo...
O sabor daqueles lábios possessivos cobrindo os seus era como o de um
doce vinho subindo-lhe à cabeça e Lacey se sentiu inebriada peta volta do
amor perdido. Quando o beijo terminou, meio relutante, ela descansou sua
cabeça no ombro dele, permanecendo quieta e feliz.
— Você ainda não respondeu se quer se casar comigo ou não —
observou ele.
— Não respondi? — perguntou levemente surpresa. Jogando a cabeça
para trás, sorrindo, respondeu: — Quero!
— Alguma objecão de que seja breve?
— Nenhuma — sacudiu a cabeça negativamente. Com a ponta dos

Projeto Romances 95
Verão Ardente Janet Dailey

dedos, tocava de leve o contorno másculo de seu rosto. — Por que me deixou
ir embora na terça-feira? Parecia contente por me ver ir.
— E estava! — Pegando sua mão, beijava um por um de seus dedos. —
Não aguentava mais a tortura de ficar em minha cama a noite, sabendo-a no
quarto pegado. Se você tivesse ficado mais uma noite que fosse, sei que
teria perdido o controle e atirado aquelas regras estúpidas pela janela.
Quando se decidiu ir embora, nunca pensei que fosse desaparecer. Piorou
muito as coisas não saber onde você estava ou com quem.
— Fiquei em casa de uma amiga — respondeu Lacey a sua silenciosa
pergunta.
— Enquanto eu ficava quase louco — acrescentou Cole secamente.
— Sinto muito.
— Devia sentir mesmo!
A porta de comunicação se abriu e Mike entrou, parando de repente ao
ver os dois abraçados.
— Desculpem. Estava tudo tão quieto que pensei que já tivesse ido
embora, Whitfield — desculpou-se e fez menção de se retirar.
— Não precisa se retirar, Bowman — disse Cole. — Lacey e eu já
estamos de saída.
— O quê? — Mike franziu a testa e Lacey olhou-o completamente
aturdida.
— Em meia hora vou lhe enviar alguém para tomar o lugar dela —
continuou Cole. — Ela vai ter muito o que fazer nos próximos dias. E, depois
de casados, se ela quiser ser ainda secretária de alguém, prefiro que seja
minha.
— Mas... — Lacey não sabia o que objetar, pois concordava com os
planos dele.
— Por enquanto tenho — Cole interrompeu-se —, tenho uma coisa que
quero mostrar a Lacey.
— O quê? — perguntou com a curiosidade feminina aguçada.
— Pegue sua bolsa e vamos, que eu lhe mostro — disse ele sorrindo
misteriosamente.
— Felicidades! — gritou Mike aos dois que saíam correndo pelo
escritório.
Quando Cole a ajudou a entrar no carro, Lacey repetiu a pergunta.
— O que tinha para me mostrar?
— Você descobrirá — respondeu simplesmente.
— Mas pelo menos me-dê uma pista — insistiu ela.
Mas sua única resposta foi um sorriso, enquanto ligava o motor e,
tirando o carro do estacionamento, seguia pela rua.
Dentro de pouco tempo ela percebeu que estavam indo pela estrada da

Projeto Romances 96
Verão Ardente Janet Dailey

praia de Virgínia, cruzando a baía. Quando viu que ele abandonava a estrada
principal e tomava uma secundária, reconheceu que estavam indo para a casa
de Margo. Ficou realmente confusa.
— Por que estamos indo para a casa da praia? — perguntou
preocupada.
Cote pôs a mão sobre a dela e apertou-a carinhosamente. — Paciência!
Ao parar o carro em frente da casa, Cole se virou sorrindo para ela e
perguntou: — A futura sra. Whitfield gostaria de ver sua casa nova? Seu
futuro lar?
— O quê? — lançou-lhe um olhar incrédulo e ele riu francamente.
— Quando Bob e Margo chegaram do cruzeiro, disseram-me que
estavam resolvidos a se mudar para a Flórida e que o fariam assim que
vendessem a casa e arranjassem tudo por aqui. — Procurou no bolso e dele
tirou uma chave que estendeu a ela. — Comprei a casa para nós. Depois de
tantas noites de frustração que passei aqui, achei que merecia passar o
resto da vida com noites compensadoras a seu lado.
— Você comprou a casa? — Lacey olhava a chave na palma da mão dele,
sem querer acreditar no que ouvira.
— Você gosta da casa, não gosta? — perguntou um tanto preocupado,
estudando de perto sua expressão.
— Eu adoro a casa! — declarou enfaticamente. — Só que não consigo
acreditar que ela seja minha.. . quer dizer.. . nossa.
— Pode acreditar, meu amor.
Um som, misto de risada e grito, irrompeu de sua garganta, enquanto
ela, passando os braços pelo pescoço dele, sentia a felicidade jorrar como
uma fonte eterna. Cole dispensou-a das palavras. Atituldes eram muito mais
agradáveis.

Cole emergiu do mar, como um deus bronzeado que saísse do oceano, e


Lacey sentiu uma onda de amor por ele, vendo-o sorrir daquele jeito que
iluminava sua vida.
Chegando ao lado dela, ajoelhou-se na areia e estudou sua figura
deitada, usando um maio azul metálico.

Projeto Romances 97
Verão Ardente Janet Dailey

Instantaneamente cada fibra de seu ser estava alerta, sob o olhar


perturbador dele. Pegando sua mão, Cole a fez sentar-se e beijou-a
suavemente.
— Feliz? — perguntou, passando a mão por seus cabelos e segurando-
lhe a nuca.
— Paradisiacamente, se é que existe tal expressão — respondeu
Lacey, sentindo uma lassidão em seus membros.
— Mesmo quando o despertador a acorda todas as manhãs? — lembrou
Cole rindo.
— Não está gostando de sua nova secretária? — brincou.
— Não sei... — As rugas dos cantos de sua boca se aprofundaram
atraentemente. — Creio que estou gostando mais de minha esposa nesses
últimos dias.
— De verdade? — Entreabriu os lábios, convidando para um beijo.
Seu olhar muito azul incendiou-se num segundo. Levantou-se e a fez se
levantar, ficando de pé ao lado dele. O beijo que trocaram era uma
promessa de que muito mais poderia acontecer se estivessem num lugar
mais reservado que uma praia.
Quando ele se virou na direção da casa, um braço prendia Lacey pela
cintura, para mantê-la bem junto dele. Uma mulher caminhava pela praia,
atenta ao que encontrava na areia. Pelo antiquado chapéu de sol que usava
foi imediatamente identificada por ambos. Pararam ao lado dela.
— Boa tarde, sra. Carlyle — cumprimentou Cole. A mulher olhou-os,
momentaneamente surpresa.
— Boa tarde. — Reparou na atitude afetuosa dos dois. — Vejo que os
dois se entenderam depois da pequena briga que tiveram. — Apesar da
cordialidade da observação, havia um quê de reprovador em sua voz e no
sorriso que lhes deu.
— É verdade — disse Cole com um brilho esquisito no olhar. — Também
resolvi levar em conta seus conselhos. — Levantou a mão esquerda de Lacey,
mostrando a aliança em seu dedo. — Fiz dela uma mulher honesta.
Imediatamente um largo sorriso iluminou sua face enrugada.
— Estou felicíssima por vocês dois! Estou certa que apaixonados como
estão, não terão motivos para se arrepender.
— Não Tenho a mais absoluta certeza de que nunca nos arrepen-
deremos! — concordou Cole, olhando e sorrindo para Lacey.

FIM

Projeto Romances 98