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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter

Sabrina no. 66

Emma ficou profundamente abalada com o inesperado rompimento do seu noivado e


só conseguia ver uma saída para a situação: fugir de tudo e de todos. Assim, quando
lhe ofereceram um contrato para passar três meses fotografando animais selvagens
na África do Sul, não hesitou em aceitá-lo. Embora estivesse decidida a não se
envolver tão cedo com outro homem, não conseguia deixar de pensar em Stewart
Bristow, o homem que ela conheceu logo ao chegar à reserva florestal, Apaixonada,
deu-se conta que o amor lhe preparava uma nova armadilha, pois tudo levava a crer
que Stewart repartia seu coração com outra mulher. Mas Emma estava disposta a
tudo.

Selva Nua
“MAN OF THE WILD”
Rosemary Carter
Digitalização: Dores Cunha
Correção: Edith Suli

Capítulo I

- Oh, que beleza! - exclamou Emma Anderson. Parou o carro, abriu a


janela e olhou para a selva. Era uma cena idílica, uma cena de livro
de histórias.
Numa clareira gramada, cercada por velhas árvores frondosas, um

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bando de corças pastava - eram impalas, como logo aprenderia a


denominá-las. Agitando as orelhas, os animais abaixavam os
pescoços graciosos em direção à grama, completamente
despreocupados com a presença da garota.
Apenas um animal, maior do que os outros e com chifres - o pai dos
outros, supôs Emma -, ficou observando-a. Seu corpo forte estava
alerta, seus olhos, brilhantes e atentos, enquanto a observavam.
Então, como se percebesse que a garota não lhe faria nenhum mal,
voltou a pastar.
Não posso perder esta cena, pensou Emma, pegando a máquina
fotográfica que colocara no banco a seu lado. Que começo
maravilhoso para minha viagem! Enquanto se ocupava com o
fotômetro, forçava-se a ficar calma, embora cada músculo de seu
corpo procurasse apressá-la a tirar a fotografia antes que os
animais fugissem.
Afinal aprontou a máquina. Inclinou-se o mais que pôde para fora da
janela, focou a imagem e apertou o disparador - mas não ficou
satisfeita. Tudo parecia tão diferente, tão desapontador, através
dos limites das lentes. Via o corço maior em primeiro plano e mais
alguns que estavam a seu lado, mas os pequenos e as enormes
árvores ao fundo também precisavam aparecer na fotografia. Emma
percebeu o que estava errado - o ângulo. Se pudesse chegar mais
perto e um pouco para a direita. . . mas isto significava sair do
carro.
Por um momento lembrou-se do aviso que vira no portão. Oh, estava
sendo tola! com certeza, o aviso para não sair do carro não se
aplicava ali. Podia ver que não havia perigo e não iria afastar-se
muito do automóvel. Abriu a porta e, pegando a máquina
fotográfica, procurou o ângulo que precisava.
Estava tão absorvida no que estava fazendo que não ouviu um carro
aproximar-se e parar. Só percebeu a presença de um homem,
quando ele já estava a seu lado.
- Céus! - gritou. - Você assustou-me!

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- Que diabos você pensa que está fazendo? - perguntou ele,


num tom de voz mais alto, com as sobrancelhas cerradas, enrugadas
numa expressão de contrariedade.
- Estou apenas tirando uma fotografia. Os corços são tão bonitos!
- Não podia fazer isto de dentro do carro?
- Não como eu queria. Por causa do ângulo, sabe .
- Não, não sei. Diga-me, senhorita, já que estamos falando disso,
não viu placas de advertência para não descer do automóvel?
- Sim, é claro. Mas não há nada aqui, além dos corços. De qualquer
maneira - continuou ela, enrubescendo ante o olhar de desaprovação
-, você não tinha o direito de aparecer desta forma. Você assustou-
me.
- Será que você acha que um leão teria sido mais ponderado?
perguntou ele com sarcasmo.
- Um leão? - indagou a garota.
- Existem leões no Kruger National Park, senhorita.
- Eu sei, mas. . .
- Você acha que não há nenhum por esses lados.
- Bem, acho mesmo - retrucou ela de modo provocador. - Já rodei
muito desde que entrei no parque e esses são os primeiros animais
que vejo.
- Podia haver um leão atrás daquele arbusto - disse ele e, quando a
garota olhou, assustada, ele continuou: - Não há, mas poderia haver.
E você não ficaria sabendo até que ele lhe tivesse pulado em cima.
- Ora essa! - protestou Emma, procurando controlar-se. Aqui é tão
calmo!
- Não se iluda com toda esta tranquilidade. Estamos na África, não
num zoológico. Existem muitos animais selvagens que adorariam um
pedaço dessa - o homem deu um sorriso - carne doce e macia.
- Acho que você perdeu a cabeça - disse ela com frieza.
- Não, não petdi. Existe uma pesada multa para a infração que você
cometeu. Fique contente por livrar-se dela. Agora, entre no carro e
não saia outra vez até chegar ao campo.

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O homem, alto e bronzeado, entrou num jipe e afastou-se. Emma


esperou alguns minutos antes de ligar o carro. Relutava em
encontrar-se com ele outra vez.
Suas mãos tremiam quando colocou a máquina fotográfica na maleta.
Ficara mais abalada pelo encontro do que ousava admitir. O homem
fora indiscutivelmente rude, ou talvez arrogante fosse a palavra
mais adequada. Afinal de contas, que mal havia feito? Não se
afastara muito do automóvel. Se houvesse algum animal perigoso
por perto, poderia ter entrado no carro rapidamente. Além do mais,
os corços não estariam pastando com tanta, tranquilidade se
houvesse algum perigo. Não, concluiu a garota, o homem fora muito
mal-educado.
Começou a dirigir lentamente - a velocidade máxima do parque era
de quarenta quilómetros por hora e enquanto isso olhava para a
mata que a cercava. Já percorrera uma distância considerável e
agora via animais com mais frequência. De vez em quando parava,
sorrindo, para observar um javali muito desgracioso atravessar a
estrada, ou então para ver com mais atenção uma girafa, majestosa
e imponente, mordiscando folhas de uma árvore alta. "E com mais
frequência do que qualquer outra coisa, via impalas, saltando em
arcos graciosos sobre a estrada, pastando em clareiras banhadas
pelo sol, ou simplesmente parados, imóveis, com os corpos todos
virados na mesma direção, farejando o vento.
vou adorar isso aqui, pensou ela com o coração acelerado. Três
meses percorrendo esse belo lugar! Passarei horas em barzinhos,
com a máquina fotográfica do lado. Vai parecer mais um passeio do
que propriamente um trabalho.
O sol já estava alto e Emma começava a sentir fome quando fez uma
curva da estrada e viu diversos carros parados. Primeiro pensou que
acontecera algum acidente, mas logo percebeu que as pessoas
olhavam na mesma direção. Algumas usavam binóculos, outros
apontavam. Todos os carros estavam estacionados no mesmo lado da
estrada. Era claro que algo estava acontecendo.

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Intrigada, Emma estacionou ao lado de um carro azul e olhou para a


mata. Perto da estrada havia um rebanho de impalas pastando
calmamente, mas na direção em que as pessoas pareciam estar
olhando ela não viu nada.
- O que foi? - Inclinando-se para fora da janela, conseguiu atrair a
atenção da mulher que se encontrava no carro azul. - O que todos
estão olhando?
- Leões. - A mulher apontou para um grupo de árvores.
- Leões?
- Três. Eles estão atrás daquelas árvores.
- Mas não vejo nada - disse Emma.
- Eu sei. Eles estão deitados.
Emma pegou seu binóculo e examinou a mata. - Não consigo vê-los -
disse.
- Mas eles estão lá. Agora mesmo eu vi uma juba se mexendo.
- Você viu?
- Acho que sim. Não se pode ter muita certeza por causa dos
arbustos e das plantas rasteiras. Mesmo assim, quando voltar para
casa, posso contar aos amigos que vi um leão.
- Humm. - Um tanto incrédula, a garota examinou a mata novamente.
- Mas como você conseguiu localizá-los?
- Não fui eu. Foram as pessoas daquele carro vermelho. Foram elas
as felizardas. Os leões atravessaram a estrada na frente delas,
voltando do rio. - A mulher suspirou.
- Acho que eles ficarão deitados lá por muito tempo ainda.
- Bem, não pretendo esperar que eles se levantem. Quero chegar ao
campo. - Cuidadosamente Emma contornou os carros parados. Três
leões estavam deitados atrás de algumas árvores. Olhando-se para
a paisagem tranquila era difícil acreditar que houvesse algo mais
perigoso do que uma borboleta voando.
Sem ultrapassar o limite de velocidade, a garota continuou sem
parar, pois ficara ansiosa para chegar ao campo. Durante os
próximos três meses, teria muito tempo para procurar animais.

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Naquele exato momento o que Emma mais desejava era alojar-se,


desfazer as malas, tomar um banho e comer alguma coisa.
Afinal chegou a Skukuza. Logo depois do portão parou o carro,
incorporando-se às cores e ao alvoroço do lugar, que a animaram
ainda mais.
Quando estava prestes a continuar, uma massa cinzenta chamou sua
atenção. Não acreditando no que viam seus próprios olhos, Emma
desceu do carro e chegou mais perto. Javalis no campo! Impossível!
Mas era verdade! Eles estavam ali, rolando numa poça de lama
formada por uma torneira defeituosa. Não havia ninguém por perto.
Talvez não soubessem que aqueles animais estavam ali. Precisava
encontrar alguém e avisar, antes que alguma pessoa fosse ferida.
- Oh, aqueles javalis? - riu a mulher do escritório, alguns minutos
mais tarde. - Animaizinhos engraçados aqueles, não? Eles adoram
aquela poça perto da torneira.
- Então vocês sabem que eles estão aqui? - perguntou Emma,
sentindo-se um pouco tola.
- Sim. Aquela família os adotou. Estão acostumados com as pessoas
e não causam nenhum mal. - Remexeu numa pilha de papéis.
- Vamos ver. Ah, aqui está: "Srta. Emma Anderson". Você ficará
mesmo três meses?
- Sim.
- Ótimo. Você vai se integrar muito bem aqui. Os rapazes ficarão
felizes por terem uma nova garota por aqui.
- Os rapazes? - perguntou Emma curiosa.
- Os guardas florestais, funcionários do campo. Srta. Anderson, há
um belo chalé para você. Foi muita sorte que ele estivesse
disponível. Deixe-me encontrar alguém que a leve até lá. Oh, aqui
está Lance Mason - interrompeu-se, enquanto um rapaz se
aproximava.
- Lance, você está desocupado? Oh, muito bom. Esta é a srta. Emma
Anderson, a garota que pretende ficar conosco durante alguns
meses. Você poderia levá-la

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até o chalé?
Ficarei encantado. - O rapaz sorriu para Emma, mostrando
dentes muito brancos e perfeitos, emoldurados por uma face
bronzeada. - Onde você deixou o carro? No estacionamento? Então
vamos.
Meia hora depois Emma estava na enorme varanda do restaurante,
olhando para o rio. Lance Mason a levara até o chalé e lhe dissera
que voltaria um pouco mais tarde, para acompanhá-la no almoço.
Tinha acabado de desfazer as malas, quando ele voltou. Foram
juntos para o restaurante.
Agora, enquanto comia uma salada de frutas com creme, sentia-se
feliz e à vontade. A atmosfera de férias do campo era divertida. A
enorme varanda estava repleta de pessoas que tomavam bebidas
geladas e conversavam sobre o que haviam visto naquela manhã.
Havia no ar o cheiro de fogo feito de carvão e, perto da cerca de
frente para o rio, pessoas olhavam com binóculos para a mata que
parecia infinita.
- Nenhum animal à vista - disse Emma, examinando a paisagem.
- Você acha? - Lance riu. - Olhe para lá... não, lá, na direção do meu
dedo. Vê algo?
- Eu... não... onde?
- Um pouco para a direita. Sim, perto daquelas árvores. Está vendo
uma coisa marrom?
- Mas há marrom por toda parte - comentou Emma.
- Ah, mas existem marrons, diferentes de outros marrons. Estou
vendo uma girafa. Sim, agora você a vê. Está indo em direção ao rio.
- Ela vem para cá? - perguntou Emma excitada.
- É provável. Mas poderia levar muito tempo, ela não parece estar
com pressa. Mas se você esperasse bastante tempo, talvez a visse
de perto.
- Então. . . -virou-se para o rapaz. - Suponho que por aqui existam
muitos passatempos. . .
- Você tem apenas que ter sorte - explicou ele.

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- Espero que tenha. É por isso que estou aqui.


- Eu já ia perguntar-lhe sobre isso - disse Lance curioso. Estava
pensando o que uma garota inglesa, oh, sim, reconheci o sotaque e a
compleição física, viria fazer neste parque durante três meses.
Emma observou as pessoas a sua volta. - Um amigo está escrevendo
um livro - disse - e pediu-me que fizesse as fotografias.
- Então você sabe muito sobre animais?
- Muito pouco.
- Então por que. . . desculpe-me, não quis ser rude. . .
- Não sei nada sobre animais - disse Emma -, mas sei bastante
sobre fotografia. Deram-me essa oportunidade e achei que seria
bom aproveitá-la.
Emma ficou em silêncio, pensando em Jimmy, com quem agora
estaria casada se... se... Bem, já havia acontecido e não pretendia
falar a Lance sobre este assunto. Era suficiente que aquela
oportunidade de sair da Inglaterra durante algum tempo tivesse
aparecido.
- Você acha que conseguirei? - foi tudo o que Emma disse.
- Tenho certeza que sim. Eu a levarei a percorrer a mata sempre
que puder.
- É muita gentileza. Você é guarda-florestal?
- Não. Trabalho na loja e no escritório - ele riu. - Sou homem de
muitas facetas!
- Estou vendo. - Emma sorriu para ele. - Sr. Mason. . .
- Lance, por favor.
- E eu sou Emma. Lance, estava pensando nos javalis. Eu os vi logo
que cheguei. Pensei que os animais nunca entrassem nos campos.
- Pela regra não entram mesmo. Aquela pequena família é uma
exceção. Skukuza não seria a mesma sem os javalis. Mas, se você
pretende visitar alguns campos menores, é melhor não sair tarde da
noite, quando as luzes e as fogueiras já estiverem apagadas.
- Por quê?
- Algumas vezes as hienas pulam a cerca em busca de restos de

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comida. - Lance riu ao ver a preocupação na face da garota. Não


fique tão assustada. Nunca ninguém se machucou no parque.
- Se obedecem as regras.
Emma e Lance olharam para o homem que parara ao lado da mesa. -
Você! -- Emma corou ao olhar para a face bronzeada e inflexível do
homem com quem se encontrara há algumas horas.
- Stewart? Emma? - Lance parecia confuso enquanto olhava de um
para o outro. - Vocês se conhecem?
- Nós nos encontramos - os olhos cinzentos dele pareciam desafiá-
la -, embora não tenhamos sido apresentados formalmente.
Depois de Lance tê-los apresentado, disse: - Não entendo. Por que
falou em obedecer às regras?
- Estava passando por esta mesa e não pude deixar de ouvir a
conversa. - Stewart olhou para Emma. - O comentário pareceu-me
apropriado. Existem animais no parque, srta. Anderson. E esta
manhã os leões poderiam ter feito uma vítima não muito longe daqui.
- Você é mesmo impossível... - Emma começou a dizer, parando ao
perceber que conversava com alguém que já se retirara. -
Ele t sempre rude assim? - perguntou depois
de alguns momentos, observando o homem alto e de corpo atlético
afastar-se.
Não é um tipo muito diplomático, nosso Stewart Bristow -
comentou Lance, observando-a com curiosidade.
- Ele trabalha aqui?
- Ele é guarda-florestal.
- Oh! - Então iria encontrá-lo com frequência.
- Não sabia que vocês já se conheciam - disse Lance.
- Não foi um encontro social. Na verdade, foi ridículo. Veja. . .
- Emma contou-lhe o que acontecera. - Foi mesmo tão perigoso? Eu
apenas fiquei ao lado do carro.
- Digamos que não foi muito prudente, Emma. Acho que você teve
sorte em não sair ferida - sorriu tentando tranquilizá-la. Alegre-se.
Afinal, nada aconteceu e da próxima vez você terá mais cuidado.

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Tenho a tarde livre. Que acha de dar um passeio comigo?


Poderíamos ter sorte e achar algum alvo para a máquina
fotográfica.
Os olhos de Emma estavam brilhantes de excitação quando o carro
atravessou os portões do campo. Em frente a uma placa mostrando
os nomes dos campos e das estradas,
Lance virou à esquerda.
- Você já ouviu falar da estrada Lower Sabie? - perguntou ele.
- Oh, sim, já li sobre ela. Não é uma das maiores estradas de
parques de animais do mundo?
- Sim.
- E nós vamos percorrê-la?
- Já a estamos percorrendo, minha cara. - Lance tirou a mão do
volante e apertou a da garota rapidamente. - Espero vermos muitos
animais para que seu primeiro dia no parque seja inesquecível.
- É maravilhoso! - Emma percorreu os olhos pela paisagem.
- Ainda não acredito que estou mesmo aqui. Oh, Lance, é
emocionante!
- Não espere ver animais o tempo todo - disse ele de modo gentil. -
Isso não é um zoológico, você sabe, com os animais enfileirados ao
lado da estrada.
"Não é um zoológico." Era a segunda vez naquele dia que ouvia
aquelas palavras. A primeira vez fora naquela manhã, só que haviam
sido ditas com raiva. Olhos desdenhosos numa face bronzeada e
sombria. Emma sacudiu a cabeça com impaciência. Stewart Bristow
não iria estragar-lhe aquele e todos os outros dias que ainda a
esperavam. - Sei que não estamos num zoológico - disse com
delicadeza.
- Estamos bem devagar, não é, Lance? Sei que o limite de veloci-
dade é de quarenta quilómetros por hora, mas não estamos mais
devagar?
- Quarenta quilómetros por hora é uma velocidade muito alta
- disse Lance. - Você quer ver animais, e para isto precisa ir muito

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devagar. Senão, a menos que eles estejam tomando sol ao lado da


estrada, você nunca os verá.
- É claro. Oh, Lance, olhe! - Babuínos e macacos balançavamse em
galhos de árvores, corriam pela grama e sentavam-se na estrada em
frente ao carro.
- Feche a janela - ordenou Lance.
- Oh, mas. . . - Emma virou-se para ele.
- Feche! - repetiu ele. - Depressa!
Um pouco assustada, ela obedeceu, quando um animal, maior do que
os outros, saiu da mata.
- Um babuíno macho - disse-lhe Lance.
- E. . . a janela?
- Pode ser perigoso.
O animal caminhou em direção ao carro e pulou, ficando com as
pernas dianteiras na janela de Emma e com o rosto feio a
centímetros do da garota.
- Céus! - Emma recuou assustada.
- Animal prepotente, não é? Oh, não, Emma - Lance riu. - Não se
apavore. Ele não pode entrar, agora que a janela está fechada.
- Que aconteceria se estivesse aberta?
- É provável que ele arrancasse seu couro cabeludo - disse Lance
com seriedade. - Ele agarraria seus cabelos com aquelas patas
fortes, e você não poderia fazer quase
nada para que ele a largasse.
- Eu não havia percebido. - A garota tremia. - Não havia percebido
que eles eram tão perigosos assim.
- Não são - disse ele. - Quando as pessoas obedecem às regras, eles
não fazem nenhum mal. Stewart está certo quanto a isso. Os
animais não atacam as pessoas nos carros. Mas eles são selvagens.
- Sim. Sim, eu sei. . .
- Muitas pessoas parecem se esquecer desse fato. Você não imagina
quantas pessoas descem dos carros ou observam os animais com as
janelas abertas. Parecem pensar que os animais daqui são iguais

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àqueles que se apresentam em circo, domados e ensinados para se


apresentarem aos turistas. Ora, certa vez um homem queria que um
elefante se mexesse para que pudesse filmá-lo e mostrar depois
para seus amigos. Sabe o que ele fez? Arremessou laranjas contra
os elefantes.
- Deus do céu! E ele conseguiu filmar?
- Ele teve sorte em sair com vida. Não há nada mais tolo do que
tentar provocar um elefante. Mas é gozado ver como as pessoas
podem ser tolas.
Como eu - disse ela com tristeza.
- Você não foi tão tola assim - disse Lance com delicadeza e sorriu.
- Que isso sirva de experiência para você.
Se ao menos Stewart Bristow tivesse sido tão compreensível,
pensou Emma. Se ao menos. . . decidiu tirar aquele homem da
cabeça. Não iria pensar nele outra vez.
Dois outros carros estacionaram para observar os macacos e os
babuínos. Uma criança abriu uma janela levemente - não o suficiente
para que um macaco entrasse, notou Emma - e jogava torradas no
chão. O babuíno maior afastou-se com desdém e os menores
brigavam pela comida.
Um macaco pulou sobre a capota do carro. Havia um saco de
torradas vazio na abertura da janela e o animal agarrou-o e puxou-o
vigorosamente com a boca.
Emma não pôde deixar de rir. - Como farão para tirar o macaco de
lá? - perguntou.
- Ele sairá sem problemas - disse Lance. - Os macacos da estrada
Lower Sabie estão acostumados com carros e pessoas. Acho que
eles associam pessoas com comida. Gostam de pular sobre os carros
e, é lógico, as pessoas os adoram, principalmente as crianças.
- Vejo que também os adorarei. - Emma ainda estava sorrindo
quando Lance colocou o carro em movimento.
Continuaram em silêncio. Durante algum tempo não viram quase
nada, mas Emma sentia-se bem e desfrutava a paisagem.

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A estrada seguia o curso do rio. De um lado a vegetação era muito


parecida com a que ela vira durante a manhã - arbustos espinhosos
e enormes acácias. Do outro lado
da estrada, do lado do rio, havia altos bambuzais e as árvores eram
mais verdes, mais densas e brilhantes.
Às vezes, quando a estrada chegava mais perto do rio, era possível
notar a água verde e tranquila brilhando através das árvores.
Chegaram a um trecho onde Emma olhou em volta desanimada. Era
como se estivesse vendo alguma cena de devastação, um lugar onde
ocorrera um desastre. As árvores estavam morrendo, com os galhos
arrancados e brancos, a grama esmagada e morta. - O que
aconteceu? - virou-se para Lance. - Essas árvores encantadoras. . .
- Elefantes - disse ele,
- Mas... as árvores. . .
- Elefantes comem folhas. É estranho pensar que, com aquele
tamanho, eles não comem carne, mas é a pura verdade. Eles
arrancam os galhos das árvores com as trombas. Esta é a causa de
toda essa destruição. - Olhou para fora. - Não faz muito tempo que
estiveram por aqui.
- Como sabe? - perguntou ela curiosa.
- Vê aquilo? - apontou para enormes montes pretos no meio da
estrada. - São excrementos de elefantes. . . e ainda estão
evaporando.
- Nós os veremos? - perguntou ela.
- Se tivermos sorte. - Lance diminuiu ainda mais a velocidade e
movia os olhos constantemente da estrada para a mata.
Quando fizeram uma curva viram três carros estacionados na
estrada. A princípio parecia não haver nada à vista, mas conforme
se aproximaram, um homem inclinado para fora do carro- apontou
para a mata e gritou: - Três elefantes!
- Não acredito - disse Emma em dúvida.
- Está vendo aquela árvore? Aquela, atrás da acácia quebrada. Não
vê algo se movendo?

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- Sim.
- Há um elefante lá. Mais de um.
- Mas parece impossível! - exclamou Emma, tentando visualizar o
enorme animal,
- Você terá muitas surpresas. A mata sempre nos apresenta
novidades.
- Lance, vale mesmo a pena esperar? - Estava se lembrando dos
leões naquela manhã.
- Acho que sim. Logo eles se dirigirão ao rio.
Esperaram algum tempo e vários outros carros tinham estacionado
quando viram uma agitação atrás dos arbustos.
- Que será. . . Ora, é uma orelha! - exclamou Emma, quando viu algo
mole e cinzento agitando-se sobre a vegetação. - É... oh. Lance! É um
elefante, mesmo.
Os arbustos abríam-se conforme o elefante passava por eles.
- Ele é enorme! - disse Emma. - Olhe só o tamanho das orelhas e da
tromba! Oh. Lance - E então outro elefante atravessou os arbustos,
seguido de perto por mais um
e os três dirigiram-se para a estrada, parando de vez em quando
para enrolar a tromba ao redor de um galho de árvore.
- Olhe, Emma - disse Lance com calma.
- Mas estou sonhando! Não pode ser! - Outros elefantes começaram
a atravessar os arbustos. Para ela parecia uma infinidade de
elefantes.
A garota pegou a máquina fotográfica e quando eles começaram a
atravessar a estrada em frente ao carro, já estava pronta para
iniciar seu trabalho.
Devia haver quinze dos enormes animais - elefantes de todos os
tamanhos. Mães. país e filhotes, todos juntos num grupo ordenado,
enquanto atravessavam a estrada entre os carros estacionados. Era
uma das visões mais admiráveis que Emma já tivera.
Logo desapareceram. Minutos mais tarde ouviu os gritos dos animais
que se aproximavam do rio.

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Olhe, Emma, eles estão lá. - Lance apontou através das


árvores.
- Sei que estão todos lá, mas vejo apenas três. Oh, não, quatro.
Veja, aquele elefante encheu a tromba de água e agora a está
jogando sobre o próprio corpo.
- Esse é o jeito dos elefantes tomarem banho - disse Lance.
O barulho continuava, os gritos, os ruídos de água e de galhos de
árvores sendo quebrados.
Mais ou menos vinte minutos depois. Lance disse: - A máquina
fotográfica está pronta? Eles estão voltando.
Todo o grupo passou mais uma vez entre os carros estacionados e
entrou por entre os arbustos. Alguns minutos depois haviam
desaparecido completamente.
- O show terminou. - Lance ligou o motor do automóvel conforme os
outros carros começaram a mover-se. Estavam fazendo a manobra
quando um veículo vindo da direção oposta passou, sem parar, pelo
lugar onde minutos antes quinze elefantes haviam atravessado a
estrada.
- Não é inacreditável? - disse Emma. pensativa. -- Aquelas pessoas
nem sabem que há um grupo de elefantes aqui perto.
- Aqui no parque as coisas acontecem desta forma - comentou
Lance. - Dependem de sorte.
- Vai ser bom ter você conosco - disse ele quando voltavam para o
campo. - Sente-se muita solidão aqui.
- É mesmo? - Emma fitou-o, curiosa, pensando que Lance era tão
agradável e atencioso que devia fazer amigos com facilidade.
- O campo parece fervilhar de tanta gente!
- Quase todos são visitantes. Ficam por uma noite ou duas e vão
embora. Não há tempo suficiente para fazer amizade.
- Mas existem pessoas que moram no campo, não é?
- É claro. Especialmente em Skukuza, que é o campo maior. Sempre
há pessoas andando por ali, trabalhando no escritório, na biblioteca,
no restaurante. Mas é como uma cidade pequena. Todos se

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conhecem. Será ótimo ter uma pessoa nova, principalmente sendo


alguém tão agradável quanto você - fitou-a e sorriu.
- Obrigada - Emma sorriu para o rapaz. De repente arriscou:
- E há os guardas-florestais também, não é?
A face de Lance pareceu tornar-se sombria. - Está pensando em,
Stewart?
- Oh. . . oh, não. Foi só uma pergunta.
- Só uma pergunta. É lógico. Os guardas-florestais também moram
no campo. - Lance ficou em silêncio como se meditasse sobre se
devia continuar ou não. De repente disse: - Emma, quer um conselho
de amigo? Tome cuidado com Stewart.
- Deus do céu! Por que diabos está me dizendo isso?
- Você o achou atraente, não é?
- Mal conheço aquele homem - argumentou Emma. - Eu o vi apenas
duas vezes, poucos minutos de cada vez, e nos dois encontros ele
foi muito rude.
- Está bem, talvez eu não devesse ter tocado nesse assunto. Fitou-a
com ar sombrio. - Mas no caso de eu estar certo. . . não se apaixone
por ele, Emma. Você é uma boa garota. Não gostaria de vê-la
sofrendo por causa dele.
As sombras da tarde já se tornavam mais densas quando se
aproximaram de Skukuza. Pararam para ver uma família de
chimpanzés que saltava nos galhos de uma árvore.
Lance olhou para o relógio. - Precisamos ir. Não podemos chegar
muito tarde ao campo.
Estavam atravessando os enormes portões quando Lance virou-se e
disse: - Gostaria de comer um braai, ou um churrasco, comigo?
Carne assada em fogo de carvão é um prato típico do campo.
- Adoraria. - Emma estava feliz por ver que o rapaz estava outra
vez de bom humor.
- bom. - Abriu a porta do carro para Emma. - Vejo-a mais tarde.
Emma estava perto da cerca olhando para o rio. O sol estava se
pondo e a mata, naquela hora do dia, tinha um indefinível ar de

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mistério.
No campo inteiro ouviam-se os ruídos das pessoas aprontando-se
pata o jantar. De alguma forma, a atmosfera do campo parecia ter
mudado.
Um pouco antes ela estivera na loja passeando, sem propósito
definido, olhando para as prateleiras de comida, para as prateleiras
de curiosidades, macacos empalhados,
bolsas de pele de animais e jóias indígenas.
O que ela mais gostava era de observar as pessoas. O lugar estava
muito animado, devido aos turistas que o lotavam, comprando
comida para o jantar. Homens, mulheres
e crianças, tranquilos e felizes, caminhavam pela loja carregando
pacotes de carne congelada, costeletas de carneiro, bifes e
linguiças - que aprenderiam a chamar de boerewors -, indispensáveis
para os churrascos ou braai.
Os carrinhos estavam repletos de leite e frutas. As crianças
ficavam perto da prateleira de doces. Os pais falavam dos vários
leões que tinham visto naquele dia,
enquanto as mães calculavam quanta comida precisariam e
procuravam as crianças que pareciam desaparecer a cada minuto.
Como tudo aquilo era divertido! Emma sentia vontade de integrarse
naquela algazarra feliz, mas Lance a convidara para um churrasco e
iria buscá-la no chalé.
Deixara a loja depois de algum tempo e caminhara pelo campo. Do
lado de fora dos bangalôs as fogueiras estavam sendo acesas e o
cheiro de carvão e de carne assada já flutuava no ar.
Chegara na cerca ao lado do rio. Havia algo nas águas e no panorama
belíssimo da mata que a fascinava. Tentou imaginar as centenas de
animais que viviam entre aquela vegetação, em suas vidas livres, e
sentiu que nunca se cansaria daquela paisagem. Três meses ali
passariam depressa demais.
- Vê algo? - Emma não o ouvira aproximar-se.
- Não - levantou a cabeça, sorrindo instintivamente e descobriu que

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olhava para a face de Stewart, o guarda-florestal. O sorriso


congelou-se em seus lábios.
- Não vou mordê-la. - O homem sorria. - Agora você está
obedecendo às regras.
- Eu. . . - desistiu de continuar. Seria muito infantil começar outra
discussão.
- Gosta disso daqui? - Ele encostou-se na cerca, ao lado dela.
- Oh, sim. É... fascinante - disse ela, um pouco embaraçada.
- A mata ou os animais? - ele perguntou, sorrindo.
- Refiro-me à mata. Não vejo nenhum animal. Está muito escuro.
Mas não duvido que haja um leão atrás de cada árvore. - Ele riu e
subitamente a tensão entre eles se rompeu. - Não, é mesmo a mata
- continuou ela. - Existe algo nela que me deixa perplexa, sem saber
direito em que pensar. Ao vê-la, tenho uma sensação, talvez, de
eternidade, como se esta mata se estendesse por milhas e milhas
sem nunca terminar. . . alguma coisa assim, não sei se me explico
bem.
- Você deve estar querendo dizer que ao vê-la tem uma sensação de
infinidade, não é mesmo? - perguntou ele.
- Oh, sim, era isso mesmo o que queria dizer. Não conseguia
encontrar uma palavra para expressar o que sentia, mas é... bem,
nunca vi nada assim antes. Na Inglaterra. . .
- Imagino que vocês não tenham esse tipo de paisagem.
- A Inglaterra é bonita. Muito simpática. Mas isso aqui. . . - Parou
por um momento, procurando palavras para descrever a intensidade
de sentimentos que a mata
lhe despertara. - É selvagem e forte. Não há nada de domesticado
nessa paisagem, mas é bonita, muito bonita. É tão grande!
- Sim, é grande e selvagem - murmurou ele.
- Há esta sensação de espaços imensos. De horizontes que estão a
milhares de quilómetros de distância.
- E é interessante saber que, quando você os alcança, a paisagem
será a mesma outra vez.

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- Você sabe como eu me sinto, não? - perguntou ela curiosa.


- Sirh, Emma. - Ele usara seu nome pela primeira vez
inconscientemente. - Sei como você se sente, porque é assim que eu
me sinto. Essa é a razão de eu viver aqui.
Emma fitou-o com mais curiosidade. - Você nunca quis um tipo de
vida diferente?
- Esse tipo de vida aqui com os animais, é isso que eu adoro. Ficaram
em silêncio por alguns momentos, enquanto a noite caía. De repente
Stewart tocou o braço da garota e disse: - Uma proposta de paz.
Quer jantar comigo?
- Oh, Stewart, não posso. - Nesse momento Emma compreendeu que
daria qualquer coisa para jantar com ele, para não ter que voltar ao
chalé, onde Lance a estaria esperando.
- Já tem compromisso?
- Eu... prometi a Lance que jantaria com ele. Convidou-me para um
churrasco.
- Um braai. É melhor acostumar-se ao dialeto. Está bem, então
disse ele e Emma compreendeu que a atmosfera agradável que
existira até há pouco entre eles fora abalada. - Você tem que ir,
não é?
- Por que não se junta a nós? - perguntou ela rapidamente. Por que
nós três. . .
- Não jantamos juntos? Lance, você e eu? Não, Emma, isso não
agradaria Lance.
- Mas. . .
- Ora, vamos. - Ele não a deixou continuar o que ela estava prestes
a dizer. - Já é tarde. Você deve estar com fome.
- vou vê-lo novamente? - perguntou num impulso, sentindo-se tola
logo que acabou de fazê-lo.
- Ora, é claro - respondeu o homem e Emma achou que seu tom de
voz era zombeteiro. - Skukuza é igual a uma cidadezinha. como você
sabe. Você me verá por aí.
O bom humor que a envolvia desapareceu. Emma ficou ao lado da

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cerca por mais alguns momentos, a observar a figura magra


afastar-se e desaparecer na escuridão. Será que ele a considerava
uma namoradeira barata? Será que pensava que ela estava ansiosa
por agarrar um homem?
Emma meneou a cabeça com raiva. Não fora por isso que deixara a
Inglaterra? Complicações, homens, casamento. Por causa do namoro
com Jimmy que terminara tão desastrosamente
quando ele decidiu casar-se com a filha do patrão apenas quatro
semanas antes da data de seu próprio casamento. Perguntou-se
naquele momento se realmente amara Jimmy ou se amara a idéia de
casar-se com um homem bonito como ele. Fosse como fosse, a
tristeza, a humilhação e as recriminações haviam sido bastante
reais. Aquela oferta de ir para a África do Sul fora realmente uma
dádiva de Deus.
E agora, quando afinal seu bem-estar mental estava quase
completamente recuperaÔo, não iria deixá-lo destruir-se outra vez.
Os romances estavam absolutamente fora de sua agenda. Os
homens que encontrasse seriam conhecidos, até mesmo amigos, mas
nada mais do que isso. Desafiava Stewart, Lance ou qualquer outro
homem a destruir a paz de espírito que conquistara tão
dolorosamente.
- Afinal! - Lance estava ocupado em acender o fogo quando Emma
chegou ao chalé.
- Desculpe-me. - A garota estava embaraçada. - Não pensei que
você já estivesse aqui.
- Não tem problema. Mas me perguntava se você não me daria um
fora.
- Um fora? - A palavra saltou de seus lábios.
. - Sabe - fitou-a com um sorriso cínico -, por causa de Stewart. . .
- Pelo amor de Deus! - exclamou a garota furiosa. - Que diabos está
querendo dizer com isso?
- Calma, Emma. Foi só uma brincadeira.
- Oh!

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- Você demorou tanto que eu achei que talvez tivesse resolvido


jantar com Stewart ao invés de jantar comigo.
- Não, não resolvi jantar com Stewart - respondeu, acrescentando,
depois de alguns momentos. - Embora ele tenha me convidado.
- Ele a convidou?
- Sim, Lance. Mas deixemos uma coisa bem clara entre nós. Eu não
devo nada a homem nenhum e pretendo continuar assim. Serei amiga
de quem eu quiser, no momento em que desejar.
- Uau! - Lance assoviou enquanto recuava um passo atrás. - O que é
isto? Um discurso feminista para um pobre homem indefeso?
- Não. Apenas uma declaração de independência. - Emma riu,
bastante tensa e forçou-se a recuperar a calma. - Perdi a cabeça.
Não por sua causa, mas infelizmente foi você quem teve que
aguentar as consequências. Desculpe-me, Lance. Podemos. . . ainda
podemos ser amigos?
- É lógico que sim.
- Estou perdoada?
- Seria difícil, querida Emma, não perdoá-la.
- Oh, Lance, obrigada. - Lamentava realmente ter feito aquela cena.
- Mas reafirmo o que disse antes.
-: Está bem. Agora, aqui está a carne. Duas costeletas de carneiro
para cada um e boerewors.
- Humm, parecem deliciosos. Como faço para cozinhá-los?
- Você não faz nada. Eu os segurarei sobre o fogo - disse-lhe Lance.
- É um costume sul-africano. Num hraaivleis, os homens assam a
carne.
- E as mulheres?
- Sentam-se e esperam - ele riu. - O fogo está pronto. Você poderia
espetar a carne com um garfo? Isso! E agora espalhamos um pouco
de suco de limão. Ah, sim, uma pitada de sal e de pimenta. . .
- Minha boca está ficando cheia de água! - Emma sorriu.
- Era isto que eu queria. - Lance pegou uma grelha, arrumou as
carnes sobre ela e colocou-a sobre o carvão que agora queimava

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suavemente. Colocou ainda sobre a grelha quatro objetos que Emma


nunca vira antes.
- Que é isso? - perguntou ela.
- Espigas de milho. - Percebendo a expressão confusa da garota, ele
riu e explicou-lhe: - É milho comum, só que ainda na espiga.
- Lance, não conseguiremos comer tudo isso.
- Podemos tentar.
O aroma da carne assada espalhou-se pelo ar e de repente Emma
percebeu quanto estava faminta. Além da salada de frutas com
creme, na hora do almoço, não comera mais nada durante o dia todo.
- Humm, está absolutamente delicioso! - mordeu a carne que Lance
colocara em seu prato. - Oh, Lance, está ótima! Acho que nunca comi
uma carne tão gostosa! Por que as pessoas comem dentro de casa e
cozinham em fogões normais? Opa! - lambeu os dedos quando a
manteiga que havia nas espigas de milho começou a derreter. -
Estas espigas estão maravilhosas. Por favor, gostaria de mais uma.
Os braaivleis tinham um charme especial, descobriu Emma, criavam
uma atmosfera diferente: o cheiro do carvão, os estalidos do fogo,
as risadas que chegavam das fogueiras vizinhas e os ruídos noturnos
da mata.
Quando terminaram de jantar, foram passear pelo campo e Emma
encantava-se com tudo o que via. Passaram por bangalôs onde
crianças brincavam, já de pijamas, e os
pais lavavam a louça ou simplesmente conversavam em frente a
garrafas de cerveja.
Caminhavam pela parte do campo onde ficavam os alojamentos dos
funcionários quando Lance pegou a mão dela. Momentos depois,
antes que Emma tivesse tempo de reagir, uma figura alta surgiu em
seu caminho. Emma teve um impulso momentâneo de retirar a mão.
Depois, lembrando-se da decisão que tomara naquela tarde e
continuando de mão dada com Lance, encarou Stewart.
- Boa noite - foi tudo o que ele disse, com voz impessoal, enquanto
passava por eles, sem parar.

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Por que Lance escolhera justamente aquele momento para pegarlhe


a mão?, perguntou-se Emma, meneando a cabeça em seguida. Lance
proporcionara-lhe uma noite encantadora, não mostrando nem um
pouco da grosseria e do mau humor de que Stewart era capaz. Se,
sentindo-se calmo e satisfeito, Lance resolvera pegar sua mão
enquanto passeavam, isso não passava de um gesto de amizade.
Olhou disfarçadamente para o rapaz e ao perceber a expressão
calma, compreendeu que estava sendo severa demais. Não havia
razão alguma para que ele tivesse tentado provocá-la ou a Stewart.
- Ele. . . ele é tão auto-suficiente - comentou Emma alguns
momentos depois, certa de que Lance saberia a quem estava se
referindo.
- É mesmo - Lance riu. - Entende agora o que eu disse sobre a
besteira de apaixonar-se por ele? Vamos virar aqui e ir até o rio?
Em frente à cerca, pararam e ficaram olhando para a escuridão da
mata. Lance pegou o maço de cigarros, ofereceu-os e, quando ela
recusou, acendeu apenas um. Ficaram em silêncio e Emma procurava
respirar fundo o ar perfumado da noite, absorver a atmosfera do
lugar.
Ruídos agudos pareciam tomar conta da noite, como se um milhão de
grilos esfregassem as pernas numa música intempestiva.
- Os sons da África à noite - disse Lance.
De vez em quando, outros sons se faziam ouvir. A risada de uma
hiena, algo arrantando-se na grama logo do outro lado da cerca, o
ganido igual ao de um cachorro, que Lance disse-lhe ser um babuíno.
Um rugido ressoou na noite e Emma sobressaltou-se.
- Foi um leão - disse Lance. - É assustador quando não se está
acostumado, não é?
Quando começou a esfriar. Lance levou-a para o chalé. - Durma
bem. - O rapaz inclinou-se para a frente e, antes que Emma
percebesse o que ele pretendia fazer, depositou-lhe um beijo
rápido nos cabelos e foi embora.
O sono demorou a chegar naquela noite. Durante algum tempo,

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Emma ficou deitada, escutando os ruídos do lado de fora. Ouviu de


novo o rugido de um leão e perguntou-se se era o mesmo que ouvira
quando estava perto do rio. Um grito solitário de algum animal
chegou de um lugar distante e então tudo ficou em silêncio outra
vez.
Vou adorar isso aqui, pensou Emma. Há algo de primitivo e de
maravilhoso em tudo. A Inglaterra e Jimmy pareciam muito
distantes. Pela primeira vez percebeu que mal
pensara em Jimmy naquele dia e que, quando o fizera, fora sem
angústia alguma. A cura estava quase completa.
Vira tantas coisas naquele dia! Pensou rapidamente nos dois homens
que conhecera e, alguns momentos antes de dormir, surgiu-lhe uma
imagem perante os olhos. Não era o rosto de Jimmy, mas uma face
sardónica com olhos cinzentos zombeteiros e um sorriso cínico. E
então esta imagem também se dissipou assim que adormeceu.

CAPITULO II

Emma logo se adaptou à vida do campo. Cedo, antes do sol nascer,


ela abria a porta de seu chalé e admirava um pouco a escuridão da
madrugada, já prestes a sumir,
antes de se vestir. Como naquela hora do dia sempre fazia frio,
costumava usar uma jaqueta bem prática, para poder retirá-la
depois, quando o sol começasse a ficar mais forte. Descobrira que o
sol, naquela região, era muito quente.
Já vestida, ia até um dos enormes caldeirões que continham água
fervendo durante o dia todo, pegava uma xícara e um pouco de café
instantâneo e enchia-a de água quente.
Gostava daquela hora do dia. Fechava as mãos frias em volta da
xícara quente e bebia o café lentamente enquanto comia um
biscoito e observava a vila acordar para um novo dia.

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Por todos os lados, crianças saíam excitadas dos bangalôs. Mães


enchiam garrafas térmicas com água fervendo, e pais tiravam o
grosso orvalho dos pára-brisas dos carros.
No Parque Nacional Kruger os portões dos campos eram abertos ao
alvorecer e fechados quando o sol se punha. Não era permitido que
os carros trafegassem nas estradas à noite, pois, como Lance
lhe explicara, os riscos de atropelar animais nas estradas não
iluminadas eram enormes.
De manhã, muito antes da hora dos portões serem abertos, já havia
uma longa fila de carros à espera. Emma achava que muitas pessoas
faziam o sacrifício de se levantar cedo por acreditarem que naquela
hora do dia, quando os animais voltavam dos rios, teriam maiores
chances de vê-los.
Emma adorava o ar de excitação que invadia o campo ao nascer do
sol. Havia uma atmosfera contagiante e alegre. No fim da tarde as
pessoas estavam cansadas, depois de passar o dia todo na estrada,
mas de manhã cedo estavam ansiosas por sair, cheias de esperança
de verem leões naquele dia.
Mesmo estando há pouco tempo no parque, Emma já sentia obsessão
pelos grandes gatos. Era difícil dirigir durante horas sem ver
qualquer animal. Podia-se ter certeza
de ver impalas e macacos, até mesmo girafas e, se se tivesse sorte,
elefantes. Mas eram os grandes gatos, os leões e leopardos, os
preferidos. Havia uma aura indefinível sobre o rei dos animais que
talvez fosse mais excitante esticar o pescoço para ver a cauda de
um leão desaparecendo ria mata do que sentar-se confortavelmente
para assistir a uma família de macacos brincando,
- Veja, senhorita - disse-lhe um homem, um dos visitantes de
Skukuza, quando estavam na fila do caixa da lanchonete. - Quando
voltar para casa, posso contar aos amigos que vi um leão. Não
importa que tenha visto apenas a cabeça, porque o belo animal não
se levantou. O fato é que eu o vi. Vi com meus próprios olhos.
Emma juntava-se à fila, esperando os portões se abrirem, para que

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os carros, como uma longa caravana, começassem a se mover


lentamente pelas estradas.
De manhã cedo a mata estava coberta de orvalho e os animais
pastavam em grupos perto da estrada, ou voltavam do rio
preguiçosamente. Algumas vezes Emma tomava uma pequena
estrada que chegava mais perto do rio. Parava o carro e olhava para
a margem, através das árvores. Algumas vezes havia animais, mas
normalmente não. embora a areia sempre estivesse coberta com
milhares de pegadas de impalas, macacos, javalis e girafas.
Desejava poder reconhecer os animais pelas pegadas, saber que
criaturas haviam passado por ali. Stewart, pensou, sabia.
Quando o sol estava mais alto e ela começava a sentir calor e fome,
voltava para a vila e, depois de vestir uma camiseta e um short,
tomava o café da manhã.
A sensação de férias, a informalidade de sua nova vida, eram uma
constante alegria para Emma. Em frente à fogueira, ao lado de
outras mulheres, fritava ovos e um pouco de toicinho e,
normalmente depois de uma segunda xícara de café, ia até â loja ou
ao- escritório por alguns minutos. Era agradável conversar um pouco
com Lance. Depois voltava para o chalé e examinava o mapa,
planejando para onde iria naquele dia, e saía outra vez com a
máquina fotográfica, binóculos e algumas frutas.
À distância, algumas vezes, via uma figura alta, vestida em trajes
de safári, mas embora se cumprimentassem quando se encontravam,
era um cumprimento sem amizade,
e ela intimamente se sentia feliz por isso. Estava sendo mais fácil
do que esperava manter sua vida sem complicações.
Certa manhã Emma entrou na loja e parou pensativa em frente às
prateleiras de livros. - Está procurando alguma coisa em especial?
- perguntou uma das funcionárias com quem fizera amizade.
- Sim, pensei em adquirir algum livro que mostrasse os diferentes
tipos de animais. Parece ridículo - fez um gesto de desânimo com a
mão -, mas eu vejo tantos e

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não sei seus nomes. Existe um livro assim?


- Ora, é claro que sim - disse a garota, pegando alguns livros e
estendendo-os para
Emma. - Esse é muito bom. Este também. Por que não os examina e
vê qual lhe agrada?
Emma escolhera dois livros e estava tirando a carteira para pagálos,
quando ouviu uma voz: - Se você quiser posso ajudá-la.
Virou-se e viu um menino. Ele disse outra vez: - Se quiser posso
ajudá-la.
- Pode ajudar-me em quê? - perguntou ela com delicadeza.
- Ouvi o que você disse sobre os animais. Posso ir com você no carro
e contar-lhe os nomes deles conforme eles forem aparecendo.
- O garoto tinha mais ou menos doze anos, era loiro e sardento e
estava com os pés descalços e as mãos nos bolsos do
short, imitando um adulto. De repente ele perguntou
outra vez: - Você quer?
- Ora, você sabe tanto assim sobre os animais? - perguntou-lhe
Emma.
- Este é Johnny. - A funcionária aproximou-se, pois ouvira a
conversa, e sorriu para o garoto. - Johnny é filho de um dos
guardas-florestais. Ele lhe dirá tudo o que você quiser.
- Seria ótimo. vou sair daqui a dez minutos, Johnny. Se você quiser
mesmo ir comigo, acho que deveria avisar sua mãe primeiro.
Logo estavam transpondo os grandes portões e depois de alguns
momentos conversavam como -velhos amigos.
- Posso mostrar-lhe uma estrada incrível, srta. Anderson? - disse
Johnny.
-Gostaria que sim. Você não pretere me chamar de Emma?
Assim eu sentirei que realmente seremos amigos.
- Está bem, Emma. . . - Johnny repetiu lentamente, testando o
som de seu nome de forma tão pensativa e concentrada, que Emma
teve que reprimir uma risada.
Emma. Acho que nunca ouvi este nome antes, mas é bonito -

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disse afinal.
- Fico contente que você goste dele - disse ela, rindo. - Está bem,
Johnny, indique o caminho. - E, virando o carro na direção que o
garoto sugeriu, começou a percorrer uma estrada que ainda não
vira.
- Então você mora no parque? - perguntou ela.
- Sim. Meu pai é guarda-florestal.
- Você não vai à escola?
- Sin, vou à escola na cidade. Mas agora estou de férias. Fitou-a
pensativo. - E o que você faz?
- No momento estou aqui para tirar fotografias para um livro que
uma pessoa está escrevendo.
- Mas você não conhece muito sobre animais, não é?
- Espero aprender. - Emma riu outra vez, gostando da objetividade
do garoto. - Você gostaria de me ensinar?
- Lógico. Foi por isso que vim com você.
- Mentiroso!
- Verdade! - Fitou-a com seus olhos enormes.
- Quer dizer que você veio só porque queria ensinar-me sobre os
animais? - Piscou os olhos quando fitou o garoto. - É muito bom ter
você comigo, Johnny. Mas, de verdade, por que você quis vir?
- Está bem - disse com ar de resignação. - Foi porque você me
pareceu uma pessoa agradável e eu queria passear. Meu pai me leva
com ele sempre que pode, mas algumas vezes não dá, e na maior
parte do tempo eu estou na escola. Assim, num dia como hoje eu não
podia ficar só no campo, você não acha?
- Sem dúvida. O que você vai ser quando crescer, Johnny?
- Ah... - ele parecia um pouco incerto.
- Um guarda-florestal, como seu pai?
- Sim. . . Não. Quero dizer, atualmente... - ele parou por um
momento, fitando-a intensamente como se tentasse decidir algo.
Afinal disse: - Você não vai rir se eu lhe disser?
- Claro que não.

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- Bem... - Inclinou-se para frente, colocando o queixo entre as mãos.


- Gostaria de viver aqui, de ser um guarda-florestal como meu pai...
mas também queria fazer outra coisa.
- E o que é? - Emma começou a se interessar realmente pela
criança.
- Quero ser um artista.
- Um artista? - perguntou Emma perplexa. - Você gosta de pintar,
Johnny?
- Adoro, mais do que a qualquer outra coisa. E também adoro os
animais e a mata. Então, se eu morasse aqui e fosse um
guardaflorestal, poderia cuidar dos animais e pintá-los.
- A união do útil ao agradável. - Emma sorriu fitando a criança. Os
cabelos emaranhados, os pés nus, o short e a camiseta com um
marinheiro pintado. Quem imaginaria que a alma de um artista vivia
naquela criança?
- Qualquer dia desses você me mostra seus trabalhos? - perguntou
ela.
- Claro, se você quiser mesmo vê-los.
- Oh, quero sim.
- Bem, está certo, então. Você gostaria de mostrar-me as suas
fotografias?
- Claro que sim - disse ela com seriedade, um artista falando ao
outro. - Quando elas estiverem reveladas. Mas é lógico que o que
você faz é muito mais difícil. Eu apenas tenho que apertar a
máquina; você tem que pintar toda a cena.
- Certo. - Johnny pensou sobre o assunto. - Acho que sim. Mas
também existem algumas fotografias muito difíceis.
- Sim. Oh, veja! - exclamou de repente, quando um pequeno animal
correu da beira da estrada para a mata. - Aquilo é um impala? Eu já
o vi, mas não tinha certeza.
- É um antílope.
- Oh!
- Não existem muitos animais dessa espécie.

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- Sempre acho que todas as corças são impalas, mas não são, não é?
Johnny fitou-a tão pensativamente que Emma teve que forçar-se a
continuar séria, esperando que ele fizesse alguma réplica
zombeteira, mas ele apenas disse, muito sério: - Você realmente não
conhece muito sobre as corças, não é?
- Receio que não.
- Bem, ouça, eu não estou ocupado todos os dias. Nem sempre saio
com meu pai. Assim acho que poderia passar algum tempo com você,
para ensiná-la algo sobre os animais. Quero dizer, você terá que
saber mais para o livro.
- Gostaria muito que você fizesse isso - disse Emma agradecida.
- Você deve conhecer a maior parte dos guardas-florestais, não
é? perguntou ela algum tempo depois, enquanto dirigia lentamente,
com os olhos fixos na estrada. Quase todos.
- Você conhece um homem chamado Stewart? - disse casualmente.
- Claro. Stewart é ótimo. Ele é muito meu amigo. - A voz do garoto
estava cheia de admiração. - Você o conhece?
- Eu... conversei com ele algumas vezes.
- Sim, bem, é que Stewart é... - interrompeu-se neste momento. -
Olhe, Emma, lá está um antílope d água.
Emma parou o carro e olhou para a mata. - Onde? Não vejo nada. . .
Óh, Johnny, você está me enganando!
- Olhe - disse ele pacientemente, apontando. - Lá! Acho que ele está
vindo para cá.
- Oh, lá! Oh, Johnny, estou vendo. É mesmo um antílope d água?
- Sim.
- Como sabe? - perguntou ela.
- Está vendo aquele círculo branco nas costas do animal?
- Sim.
- Isto é o que meu professor de ciências chamaria de sinal.
- Você é mesmo muito inteligente - disse ela com admiração.
- Obrigado - respondeu Johnny com seriedade. - E eu acho você
muito agradável.

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O elogio fora tão sincero que Emma se virou e deu-lhe um breve


abraço.
- Ah! - disse ele sem graça. - Queria que ás mulheres não achassem
que sempre têm que abraçar e beijar. Mas ainda assim você
continua sendo simpática. Você já fez outros amigos, além de
Stewart e de mim?
- Stewart não é meu amigo, Johnny. Apenas conversei com ele
algumas vezes. Conheço Lance. Você o conhece?
- Sim.
- Ele também é um de seus amigos?
- Não.
- Oh!
- Ele e Stewart não gostam muito um do outro.
- Oh. . . Eles não são amigos?
- Não.
Emma queria perguntar mais, mas Johnny era apenas uma criança e
embora ela soubesse que poderia encontrar uma forma de fazer
suas perguntas parecerem inocentes, sentiu que estava tirando
vantagem da situação.
Continuaram percorrendo a estrada e quando Johnny não estava
lhe falando dos vários animais e pássaros que viam, dizia sempre
alguma coisa sobre as árvores, os arbustos e as flores agrestes que
cresciam perto do rio. Emma estava perplexa com os conhecimentos
do garoto, e ouvia com calma, apreciando a personalidade forte do
garotinho, que a todo momento revelava um grande amor pelo pai.
- Você se importa se eu lhe pagar um refresco? - perguntou ela,
quando chegaram a Skukuza.
- Bem. . . não sei... - começou o garoto.
- Está tão quente, Johnny. Se eu não beber algo gelado, acho que
vou derreter. Mas não estou com vontade de me sentar ali sozinha.
- Bem, não sei o que minha mãe dirá. . . - De volta ao campo, o garoto
estava consciente da condição de Emma como turista e sentia-se um
pouco envergonhado.

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- Pensei que fôssemos amigos - protestou a garota.


- E somos. Claro que somos.
- Bem, e então?
- É que... - ele hesitou.
- Que eu sou uma turista. Mas eu ficaria aqui bastante tempo. Será
que você não poderia pensar em mim apenas como meio-turista?
- Acho que sim. - Johnny encolheu os ombros.
- bom. vou até a lanchonete e enquanto eu peço, ah, o que você
quer?, podia me trazer algumas de suas pinturas. Gostaria muito de
vê-las.
Quinze minutos mais tarde, estavam sentados lado a lado, sorvendo
seus respectivos refrescos, enquanto Emma folheava uma série de
pinturas.
- Esta é linda, Johnny. - Havia parado numa pintura que
representava um kudu, um magnífico antílope africano que Johnny
mencionara antes ser um de seus temas preferidos.
- Está bom! - A face do garoto brilhou de prazer, embora ele
pretendesse fingir modéstia.
- Acho que está ótimo. Você conseguiu captar todo o caráter do
animal. - Ficou em silêncio enquanto observava com mais atenção a
pintura. - Lembra-se de quando vimos o kudu saindo daqueles
arbustos? Achei aquele animal com um porte muito nobre, como se
pertencesse a uma espécie de corça real ou coisa assim. Você
captou tudo isso.
- É mesmo? - O garoto contorceu-se de alegria.
- Estes belos chifres, a maneira graciosa como você retratou o
pescoço do animal, e mesmo. . .
- Vejo que você descobriu nosso artista. - Emma e Johnny
levantaram a cabeça. Ao lado do garoto, com a mão pousada
afeiçoadamente sobre os ombros da criança, estava Stewart. Ele
sorria, alto, bronzeado e muito tranquilo. Inexplicavelmente o
coração de Emma acelerou.
- Não quer juntar-se a nós? - perguntou.

Livros Florzinha - 32 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Obrigado. Embora o que vocês estejam tomando não faça muito


o meu género. - Virou-se para um dos garçons e pediu uma cerveja. -
- E agora - ele olhou para Emma -, o que me diz do nosso Johnny?
- Acho que ele é excelente, você também não pensa assim?
- Ele vai ser um dos melhores pintores de nossos tempos -
Stewart disse tranquilamente. Sorriu para o garoto e quando
Johnny respondeu ao sorriso, Emma percebeu toda a amizade que
unia aqueles dois seres. - Mais uns anos e sentiremos muito orgulho
de Johnny.
- Oh, Stewart! - O garoto não sabia onde colocar toda a alegria que
estava sentindo.
- Mas como vocês dois se conheceram?
Antes que Emma tivesse tempo de replicar, Johnny contou a
Stewart como haviam se encontrado na loja e sobre o passeio que
tinham dado juntos. - Sabe, ela não distingue um antílope d água de
um impala.
- Tenho certeza de que ela aprenderá com rapidez. - Stewart
sorriu.
- Oh, sim, nós vamos ser amigos agora. Eu vou ensiná-la. Havia uma
doçura encantadora na criança, mas Emma sabia que Johnny ficaria
embaraçado se soubesse disso.
- Bem, isso é muito bom - disse Stewart. - Fico contente.
- Papai não deixou que eu fosse com ele hoje - contou Johnny.
- Eu sei. Ele está procurando armadilhas.
- Os caçadores clandestinos estão por aqui outra vez?
- Parece que sim. - Stewart virou-se para Emma. - Uma de nossas
constantes dores-de-cabeça.
- Foi por isso que eu não pude ir com ele? - Formou-se uma ruga na
testa de Johnny.
- Você sabe como é lidar com caçadores clandestinos. Pode haver
problemas.
- Quando eu for maior, eu... - Johnny fez um gesto, passando a mão
rapidamente pelo pescoço. - E eles não voltarão mais.

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- bom. Espero que você consiga expulsá-los. - Stewart tomou o


último gole da cerveja e levantou-se para sair. - Bem, pessoal,
gostei dessa conversa. Agora tenho coisas para fazer. - Sorriu para
Emma.
- Se você tiver tempo e esse jovem deixá-la livre, gostaria de dar
um passeio comigo qualquer dia desses?
- Gostaria muito, obrigada. - Emma observou-o afastar-se,
esperando que a agitação que ela sentia não transparecesse em seus
olhos.

CAPÍTULO III

Alguns dias depois Emma estava em frente da cerca, perto do rio, à


procura de animais. Estava um dia maravilhoso. Chovera durante a
madrugada e, embora soubesse que muito em breve o dia se
tornaria quente, como costumava acontecer, apreciava com calma a
atmosfera luminosa e fresca do campo. Logo ela voltaria para seu
bangalô, pegaria sua câmara e iniciaria o dia. Mas naquele momento
apreciava, como sempre fazia, os sons da vida do vilarejo, as
abelhas nas árvores, a paisagem infinita que se estendia à sua
frente.
- Este lugar a atrai como um imã, não é? - A garota virou-se e
deparou com os olhos de Lance.
- É tudo tão lindo. - Ela sorria.
- Tem razão - concordou. - E não é mesmo uma sorte que eu tenha
descoberto seu esconderijo? Estava procurando por você.
- Oh, estava, Lance? - Desde o churrasco, Lance estivera
trabalhando muito e, a não ser algumas palavras trocadas quando
Emma ia até a loja, eles dois não se encontraram mais.
- Estou livre hoje - disse ele. - Bem, eu estive trabalhando muito
nesses últimos dias, mas parece que agora tudo voltou no normal. E,

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

além do mais, hoje é domingo. Gostaria de passar o dia comigo,


Emma?
- Você não vai estar ocupado, então?
- Convenci um de meus colegas a ficar em meu lugar.
- Muito bom esse seu colega - Emma riu.
- Você acha que eu conseguirei também convencê-la a vestir um
maio e vir passear comigo?
- Um maio? - perguntou, atónita.
- Pensei que talvez pudéssemos ir até Pretoriuskop. Lá tem uma
piscina. Você deve ter trazido um -maio, não é?
- Por sorte, sim.
- Você precisa conhecer Pretoriuskop. E hoje é um dia perfeito para
isso. Vai fazer muito calor e será ótimo darmos um mergulho.
- Você me convenceu - disse ela rindo.
- Ótimo. Quando estaremos prontos para irmos?
- Preciso ir até meu bangalô por alguns minutos. O que você acha de
nos encontrarmos daqui a uns quinze minutos em seu carro?
- Tanto tempo assim? - Por uma razão desconhecida, ele parecia
um pouco ansioso. - Você não poderia fazer o que tem para fazer um
pouco mais depressa?
- vou tentar - prometeu a garota, pensando, enquanto se dirigia
para o chalé, no quanto Lance estava apressado. Ainda era muito
cedo e teriam todo o dia pela frente. Mas assim que se aproximou
da porta do bangalô.. esses pensamentos escaparam de sua mente,
pois Stewart e Johnny a esperavam.
- Stewart! Johnny! - chamou alegre. - Que bom ver vocês!
- Pensamos em esperá-la aqui - disse Stewart sorrindo. - Foi idéia
de Johnny. Ele foi ver se seu carro ainda estava no estacionamento
e, como estava, concluiu que você não demoraria muito para
regressar.
- E aqui estou eu. - Emma sorria.
- E aqui está você. O que acha de passar o dia conosco?
- Hoje? - De repente todo o brilho da manhã pareceu diminuir.

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Hoje é domingo - disse Stewart. - Estou livre o dia todo, e Johnny


e eu pensamos em levar
vocé para um passeio. Iríamos até Lower Sabie almoçar e
voltaríamos à
tarde sem muita pressa.
- Não. . . não vou poder - gaguejou.
- Não? - Stewart olhou para a garota com curiosidade.
- Mas por que não? - quis saber Johnny.
- Poucos minutos atrás eu me encontrei com Lance e ele me
convidou para passarmos o dia juntos. Ele quer ir para Pretoriuskop.
. , Ele inclusive pediu para que eu pegasse meu maio e...
- Você não pode ir com Lance! - disse Johnny com voz chorosa.
- Sinto muito, mas eu prometi.
Johnny enrugou as sobrancelhas. - Stewart - disse ele - quando
estávamos conversando na loja agora pouco. . . quando você disse
que poderíamos convidar Emma para ir conosco. . . você viu Lance?
- Ele devia estar por perto - concordou Stewart.
- Ele estava lá, a nosso lado.
- Talvez sim, não me lembro,
:- Mas eu sim. Porque me lembro que ele estava tentando abrir uma
caixa de bebidas e não conseguia. Stewarl, ele estava tentando
ouvir o que dizíamos.
- Não dê asas a sua imaginação.
- Ele estava sim, Stewart. Sei que estava
- Talvez você esteja certo. - O rosto de Stewart estava impassível,
quando fitou Emma. - Mas isto não muda nada, não é?
- Eu prometi - disse ela com tristeza. - Além do mais, Johnny, você
está enganado! Tenho certeza que sim.
- Mas ele estava lá.
- Bem, é claro que ele estava lá. Lance trabalha na loja - argumentou
Emma.
- Ele estava ouvindo o que dizíamos.
- Cuidado, Johnny - aconselhou Stewart.

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Mas eu sei que ele estava! Agora me lembro. Ele ficou perto de
nós para ouvir o que dizíamos.
- Não posso acreditar nisso, Johnny - disse Emma. - Lance não é
assim. Você não gosta dele, mas ele é uma boa pessoa.
- Mas estou lhe dizendo. . . - O rosto dele estava furioso, e ele
parecia estar prestes a chorar.
- Seja qual for a verdade - disse Stewart com calma - não podemos
deixar que Emma se atrase. Ela vai passar o dia fora e há uma
pessoa esperando por ela.
Emma daria qualquer coisa naquele momento para dizer: desejo
muito passar o dia com vocês. vou dar uma desculpa para Lance. Mas
sabia que não podia fazê-lo. Seria como ferir um homem pelas
costas. E apesar de tudo o que Johnny dissera sobre Lance, o rapaz
lhe dera toda a amizade.
- Não posso fazer nada - começou ela.
- Lógico que não. - Stewart sorriu. - Você está apenas pagando a
multa por ser tão querida.
- Que situação mais desagradável!
- Nem tanto. Lance convidou-a primeiro, você aceitou e deve ir com
ele.
- Isto é o mais correto. - Fitou-o agradecida e então aventurouse: -
Podemos, quem sabe, marcar outro dia, não é, Stewart?
- Faremos isso - prometeu ele. - Vamos, Johnny, vamos ver o que
podemos fazer para passarmos o dia.
Emma estava pensativa quando pegou suas coisas e saiu para
encontrar Lance. É claro que era absurdo o que Johnny insinuara.
Lance não podia deixar de estar na loja. Afinal, era o lugar onde
trabalhava, onde precisava estar. Mas lembrou-se de que ele
dissera que convencera alguém a ficar em seu lugar. Seria possível
que ele a tivesse convidado só por causa do que ouvira?
A face do rapaz surgiu em sua mente, sorridente e bonita. Oh,
aquilo era um absurdo. Devido ao desapontamento, Johnny falara
qualquer coisa. Nem mesmo Stewart endossara o que a criança

Livros Florzinha - 37 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

dissera. Afinal de contas, Lance tinha-lhe contado que arrumara


alguém para ficar em seu lugar na loja. Não procurara mentir e sua
explicação tinha sido muito convincente.
Precisava lembrar-se da decisão que tomara. Todos os homens
seriam inteiramente iguais em sua afeição. Stewart e Lance tinham
seus próprios motivos para não gostar um do outro. Motivos que não
tinham nada a ver com ela. Resolveu que iria aproveitar aquele dia,
sem se preocupar com mais nada.
Lance a esperava e quando Emma se aproximava do carro, e o viu
bonito e sorridente, percebeu com uma súbita pontada no coração
que, apesar da decisão que tomara, todos os homens nunca seriam
inteiramente iguais perante sua afeição.
- Até que você foi rápida - disse ele. - Passaremos um dia ótimo,
Emma, tenho certeza disso.
- Também tenho - sorriu para ele, desculpando-se em silêncio por
duvidar dele. - Céus, teremos outro dia muito quente. Será ótimo
dar um mergulho.
Lance era ótima companhia. Stewart às vezes era sarcástico, mas
Lance parecia estar sempre calmo e sorridente, ansioso por agradá-
la e proporcionar-lhe bons momentos. Enquanto viajavam, ele
contavalhe anedotas sobre pessoas que moravam e trabalhavam no
campo. Algumas vezes as histórias eram um pouco maliciosas, mas
eram tão divertidas e contadas com tão boa intenção, que era difícil
não dar risadas.
Stewart foi a única pessoa que Lance não mencionou e Emma ficou
feliz por isso. Instintivamente a garota compreendeu que não
desejava ouvir anedotas sobre ele. Mesmo que não fossem histórias
ferinas, não queria ouvi-las.
, Quando chegaram a Pretoriuskop, Lance levou-a ao restaurante
para beber algo. Emma percebeu que aquele campo, o mais velho da
reserva florestal, era completamente diferente de Skukuza.
Perceberia, com o passar do tempo, que cada campo possuía uma
atmosfera e características particulares. Não havia rio em

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Pretoriuskop, mas quando se sentaram no restaurante, sob as


árvores, Emma olhou a sua volta e pensou no quanto aquele lugar era
bonito.
Depois foram até a piscina e Emma vestiu sua roupa de banho.
Quando se juntou a Lance, ele fitava-a com tanta admiração que ela
disfarçou seu embaraço dizendo: - Não tinha ainda percebido
quanto havia me queimado, nem como isso ocorreu de forma tão
desigual. Acho que é porque estou sempre dirigindo, por isso o
braço que fica do lado da janela ficou mais bronzeado do que o
outro.
- Você está ótima. Você deve ter tido muitos namorados, Emma. A
garota ficou em silêncio, lembrando-se de Jimmy, em quem
pensava cada vez menos. - Poucos - disse afinal.
- Você é muito bonita, Emma.
- Obrigada - disse ela, sentindo-se enrubescer.
- Stewart lhe disse que você é bonita?
- Oh, pelo amor de Deus!
- Disse-lhe, Emma? - insistiu Lance.
- Não - disse ela, calma. - Stewart não me disse que sou bonita. Não
há nenhuma razão para que ele tivesse dito. Vamos mudar de
assunto. Lance. O dia começou muito agradável e não quero estragá-
lo.
- Claro - disse ele. Levantando abruptamente, Lance foi até a beira
da piscina e, levantando-se nas pontas dos pés, mergulhou.
Emma ficou a observá-lo. Ele possuía um estilo agradável de se ver.
Lance cruzou quatro vezes a piscina, sem parar, e só depois é que
acenou para que a garota fosse juntar-se a ele. Colocando as mãos
em volta da boca, gritou: - Preguiçosa! Entre antes que eu vá aí
puxá-la!
Emma ficou tão feliz que ele recobrara o bom humor, que foi até a
beira da piscina, sentou-se e colocou um pé na água. - Não! gritou,
quando o rapaz se aproximou e jogou-lhe água. - Que falta de
respeito!

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Então entre. - Lance moveu as mãos convulsivamente na água,


numa ameaça de brincadeira, como se pretendesse molhá-la outra
vez, mas antes que ele o fizesse, Emma pulou na piscina.
- Oh, está gelada!
- Está ótima. Nade que você se esquenta.
Emma cruzou duas vezes a piscina, consciente dos olhos do rapaz
sobre ela. Sentiu-se feliz por ter, quando criança, aprendido a
nadar de forma correta. - Você está certo - disse ela, nadando para
perto do rapaz -, a água está ótima. Gostaria de passar o dia todo
aqui dentro.
Lance tinha seus olhos fixos na garota, enquanto ela chegava perto
dele. De repente, ele tomou nas mãos o rosto molhado de Emma, e
por um momento eles ficaram muito juntos, olhando-se diretamente
nos olhos. - Você realmente é muito bonita - disse ele, aproximando-
se ainda mais e beijando-a nos lábios levemente. Rapidamente a
soltou e nadou para longe.
Emma sentia frio agora e resolveu sair da piscina. Pegou uma toalha,
pousou-a nos ombros e, já no gramado, estendeu-a para tomar um
pouco de sol. Lance ficou ainda mais alguns minutos na água, depois
saiu, enxugou-se, deitou-se ao lado da garota e fechou os olhos. O
beijo não foi mencionado, nem discutido por eles.
Deixaram Pretoriuskop logo depois do almoço. Aquele lugar não era
muito distante de Skukuza, mas como era costume dirigir muito
vagarosamente, as distâncias no parque levavam muito tempo para
serem percorridas. Além disso, como Emma descobrira, caso se
dirigisse no limite máximo de velocidade, as oportunidades de
encontrar animais eram muito pequenas.
O sol estava se pondo, quando atravessaram os portões de Skukuza.
Foi um dia muito agradável - disse Emma. - Muito agradável.
pico contente que você tenha gostado. - A expressão de Lance
era tão enigmática, que a garota se perguntou em que ele estaria
pensando. - Precisamos sair outras vezes.
Emma percebeu então que ele olhava fixamente para o

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
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estacionamento e, seguindo a direção dos olhos do rapaz, viu que ele


fitava um pequeno carro vermelho. - Parece que a namorada de
Stewart veio visitá-lo - disse afinal.
- Namorada de Stewart? - repetiu ela.
- Algumas vezes ela o visita. Ela mora na cidade e de vez em quando
vem passar alguns dias aqui. Ela é louca por Stewart.
- Mas... - Emma sentia suas mãos tremendo e esperava que Lance
não percebesse. - Não compreendo. . . Stewart não devia saber que
ela chegaria hoje.
- Por que não?
- Porque. . . Porque me convidou para passar o dia com ele, depois
que você me convidou. E se ele soubesse que ela chegaria, não teria
me convidado.
.- Talvez pelo fato de saber que ela chegaria é que ele a convidou. -
Lance a observava intensamente.
- Ele não teria feito isso.
- Não? Bem - Lance riu -, Stewart é um homem estranho. Lembre-
se que eu lhe avisei para não se apaixonar por ele.
- Não pretendo apaixonar-me por ninguém, já lhe disse isso.
Simplesmente não consigo entender como Stewart me convidou para
sair com ele, quando sabia que sua. . . quando sabia que teria visitas.
- Talvez ele estivesse querendo causar ciúmes nela - a voz de Lance
tinha um tom estranhamente amargo. - Miranda é uma mulher muito
bonita. Uma mulher maravilhosa.
- Oh! - Emma sentiu-se mal e perguntou-se como terminaria aquela
conversa.
- Quer jantar comigo? - propôs Lance.
- Oh, não, Lance, obrigada. Estou um pouco cansada. Por causa do
sol, sabe... e da água. Acho que vou me deitar. - Forçou um sorriso. -
Obrigada outra vez por esse dia encantador.
Emma caminhava para o chalé quando os viu. Miranda era realmente
uma bela mulher. Era mais velha do que ela, pelo menos aparentava
uns trinta anos; estava portanto mais próxima da idade de Stewart

Livros Florzinha - 41 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

do que ela própria. Apesar da distância, a garota percebeu que a


mulher era charmosa e elegante.
Longos cabelos negros emolduravam uma face oval perfeita.
Miranda olhava para Stewart que se inclinou levemente para ouvir o
que ela dizia. Emma não viu sua expressão, mas percebeu o brilho do
sorriso de Miranda. Ela devia ter dito algo que divertiu Stewart,
pois o ouviu rir enquanto dava um rápido abraço na garota.
Emma não esperou mais. Sentia-se grata por eles não a terem visto.
Virou-se e caminhou rapidamente para o chalé.
Chegando lá, percebeu que não sentia fome e, depois de tomar uma
xícara de café, deitou-se.
Estava tão absorvida em seus pensamentos, que não percebeu
escurecer. Teriam aqueles dois homens suas próprias razões para
desejarem sua companhia naquele dia? Johnny sugerira que Lance
só a convidara para contrariar Stewart. Mas e se Lance estivesse
certo? Se Stewart sabia que sua namorada ia chegar, por que a
convidara para sair? Para deixar Miranda com ciúmes?
Embora não gostasse da idéia de que Lance a usara simplesmente
para contrariar Stewart, era a idéia de que Stewart também o
fizera que achava insuportável. Mas a razão desse sentimento, ela
ainda não estava preparada para admitir a si mesma.
Caminhava pelo campo na manhã seguinte, quando os viu novamente.
Miranda conversava animadamente e, quando sorriu para Stewart,
Emma viu outra vez aquele brilho em sua face. Desta vez, antes que
pudesse evitá-los, Stewart a viu.
- Emma! - gritou ele. - Olá. Quero que você conheça Miranda.
- Virou-se para a garota a seu lado. - Miranda, esta é Emma. Ficará
aqui durante algum tempo.
Emma percebeu que a garota a examinava intensamente.
- Você foi contratada para trabalhar aqui? - perguntou Miranda.
- Não. Estou aqui para tirar fotografias.
- Fotografias?
- Sim, para um livro - explicou Emma.

Livros Florzinha - 42 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Então você ficará bastante tempo?


- Mais ou menos três meses.
- Ah, que beleza!
- Lance tem mostrado os arredores para Emma - Stewart contou a
Miranda. - E eu também tenho feito o possível para complementar
as informações dele, avisando-a para
tomar certas precauções, e coisas assim - completou, sorrindo para
Emma.
- Você tem mesmo muita sorte de encontrar guias assim tão bons.
Miranda sorria novamente, mas Emma pôde notar um certo ar de
hostilidade na face da garota, como
se atrás daqueles olhos cheios de brilho existisse um aviso para que
Emma se mantivesse afastada de Stewart.
- Bem... - ela sorriu para ambos - lá vou eu guiar mais um pouco. Tive
muito prazer em conhecê-la, Miranda.
Então aquela era a namorada de Stewart, pensava a garota
enquanto guiava vagarosamente. De perto, ela era ainda mais bonita
do que de longe. Não sei por que isso me deixa deprimida, pensou.
Eu já havia decidido que não iria deixar mais que nenhum homem
fosse para mim alguma outra coisa do que simplesmente um amigo.
Então, qual é o problema se uma garota apareceu para visitar
Stewart? Ele deve ter centenas de garotas, estou certa, tão seguro
de si e arrogante que é. Isso tudo realmente não me interessa. Mas
bem no fundo de seu coração, sabia que todas aquelas coisas lhe
interessavam, e muito. Aquilo tudo estava começando a preocupá-la.
Tinha sido ingenuidade de sua parte não imaginar antes que um
homem como Stewart, sozinho e com pouco mais de trinta anos, não
tivesse nenhuma mulher em sua vida.
Mas apesar destes pensamentos que tentavam ser coerentes, de
repente percebeu-se desejando ser mais velha, morena, elegante e
sofisticada como. . . como Miranda.
- Hoje você não vai recusar. - Já haviam passado alguns dias, desde
aquele encontro.

Livros Florzinha - 43 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

Emma virou-se lentamente, esforçando-se para encarar Stewart.


Recusar-me a quê? - A garota voltou a olhar a paisagem.
- Estou indo para Lower Sabie hoje - disse ele - e gostaria que
fosse comigo.
- Oh!
- Sei que você gosta muito desse lugar e do panorama que você tem
daqui, Emma. É o único lugar onde sei que vou encontrá-la. Mas você
se importaria em virar-se um
pouco para me dar uma resposta?
Virou-se para ele curiosa, mas então parou ao vê-lo sorrir. Seu
coração começou a bater mais forte.
- Nós não vamos discutir, vamos? Estava só brincando.
- Eu sei.
- E como é? Vai sair comigo hoje?
Sim, sim, sim, ela queria gritar. Lógico que vou com você e não estou
nem um pouco preocupada com o que Miranda ou Lance, ou quem
quer que seja, possam pensar. Era
isso o que eu estava doida para fazer e vou fazer. - Sim - ela sorriu.
- Gostaria muito.
- Acho muito interessante como às vezes nossos planos mudam, mas
para algo que, ao invés de nos aborrecer, só nos ajuda - comentou. -
Quando eu a convidei para sair
comigo e com Johhny outro dia, não sabia que Miranda estava vindo
para cá.
- Não?
- Claro que não, sua bobinha - disse ele gentil. - Seria muito tolo de
minha parte se fizesse algo assim.
Conversar sobre Miranda não era exatamente o que ela queria,
mas sentiu-se aliviada por ele ter tocado no assunto. Aquilo
significava que não desejara colocá-la contra a outra, garota quando
a convidara para sair.
De repente, sentiu-se mais tranquila ao lado dele. Stewart a
convidara para sair no domingo porque era o que queria fazer e não

Livros Florzinha - 44 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

por qualquer outro mptivo. Miranda


existia. Era um fato real na vida dele, mas não tinha nada a ver com
ela, Emma. Se Stewart queria levá-la para um passeio, ficava
contente em acompanhá-lo, e isso, naquele momento, era tudo o que
importava.
A estrada Lower Sabie parecia ter um brilho especial naquele dia.
De vez em quando Stewart parava o carro para mostrar-lhe animais
e Emma percebeu quanto aquele homem entendia do assunto.
Muitas coisas possuíam relevância especial para Stewart: pegadas
na areia ao lado da estrada, algum movimento nos arbustos, uma
revoada de pássaros ou o menear de cabeça de um impala. Johnny a
impressionara com tudo o que conhecia e Lance parecia entender um
pouco de animais, mas quando Stewart falava era a confiança, a
sabedoria e a autoridade de um homem que convivia com as cria
turas da selva, que transpareciam em sua voz.
Num determinado ponto, ele tomou uma estrada secundária que se
estendia quase até a margem do rio. Parou o carro sob uma enorme
árvore florida. Emma abriu a janela e respirou fundo o ar
perfumado.
Tudo era calmo e muito bonito. O sol fazia a água brilhar, e nas
margens do rio via-se inúmeras pegadas de animais que haviam
estado ali para saciar a sede. Num dos galhos de árvore um pássaro
exótico cantou. Depois tudo ficou em silêncio.
- Você não sabe que nunca deve abrir a janela? - Stewart estava
sorrindo.
- Mas não há nada aqui. Oh, esqueci - Emma riu. - Há um leão atrás
daquele arbusto,
- Não, não há. Mas nunca se sabe quando pode haver.
- Mas como você é uma pessoa muito experiente nesses assuntos,
não deixaria que eu me ferisse, não é?
- Não, Emma, nunca deixaria que você se ferisse. - As palavras
foram ditas com calma, mas mesmo assim a garota percebeu que não
havia nenhum significado oculto no que ele dizia.

Livros Florzinha - 45 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Esse lugar é tão lindo - observou, querendo mudar de assunto.


- Sabe o que eu queria fazer ?
- Não, diga.
- Deitar numa daquelas pedras e tomar sol. - Quando ele gargalhou,
Emma fingiu estar amuada e disse: - Claro que eu não seria tão tola.
Mas você não vai me dizer que algum animal feroz conseguiria
chegar até lá. Ou conseguiria?
Não. - Ele ainda estava rindo. - Mas olhe bem. Está vendo algo?
Emma estreitou os olhos e examinou as árvores, o rio, as pedras, à
procura de algum animal. Afinal se virou para seu acompanhante.
Você está brincando comigo.
Você acha?
- Talvez tenha algum rato nos arbustos, mas isto eu poderia
encontrar até na Inglaterra.
- É mesmo? - Stewart fingiu-se perplexo.
- E o que é que tem? Não tenho medo de ratos - completou com
firmeza.
- Fico contente de ouvir isso. - Ele riu outra vez e aquele som era
música nos ouvidos de Emma. - Então, Emma, você ficaria mesmo
contente de ir tomar sol naquelas belas pedras?
Devia haver algo naquelas pedras! Stewart estava rriuito irónico.
Emma examinou cuidadosamente cada pedaço das pedras, mas não
viu nada. - Há alguma espécie de inseto venenoso escondido lá? -
sugeriu por fim.
Desta vez, Stewart deu uma sonora gargalhada. - Algo parecido.
- Virou-se, pegou os binóculos no banco traseiro e estendeu-os à
garota. - Olhe outra vez.
Emma fitou-o com desconfiança quando pegou os binóculos. Embora
apreciasse seu bom humor, não tinha certeza se podia confiar nele.
- Está bem - disse, levando os binóculos aos olhos e tentando focar
as rochas. - Vejamos que animal terrível é esse.
De início, Emma viu apenas musgos e pequenos galhos, mas de
repente avistou algo. Levou alguns momentos para acostumar-se à

Livros Florzinha - 46 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

visão e exclamou: - Stewart! Oh, Stewart!


- Isso significa que você localizou o inseto venenoso?
- Oh, Stewart! - disse pela terceira vez e, abaixando os binóculos,
fitou-o assustada. - Aquilo... é mesmo um crocodilo?
- É mesmo - disse com calma e sem rir mais.
Emma olhou as rochas outra vez sem os binóculos, antes de leválos
aos olhos. - É inacreditável!
- É mesmo.
- Tão grande. E eu pensei que fosse uma rocha. Daqui ele parece
exatamente igual às outras pedras. Nunca imaginei que um crocodilo
pudesse ser tão grande.
Levou os binóculos aos olhos mais uma vez, hipnotizada pelo enorme
animal de aparência pré-histórica. - Está tão calmo, não faz nenhum
movimento. Não está morto, está?
- Oh, não, está vivo.
- Está completamente imóvel.
- Pode ficar assim durante horas, Emma. Você poderia ficar
olhando-o durante horas, sem vê-lo mover-se.
- Ele está dormindo? - perguntou ela.
Stewart riu. - Não, está acordado, bem acordado. Se algum bocado
apetitoso aparecesse, você o veria agitar a cauda violentamente
e a pobre criatura que não tivesse visto o crocodilo deixaria de
existir.
- Isso acontece com frequência?
- Infelizmente. É fácil confundir um crocodilo com uma rocha.
- Mas parece mesmo uma rocha. com todas aquelas pedras ao lado.
Eu também achei que fosse uma.
- Correto! - concordou ele.
- É incrível - disse Emma - como um animal pode confundir-se
completamente com a paisagem.
- É camuflagem. Você já notou como várias espécies de animais se
confundem com os arbustos e com a areia? É a forma de proteção
natural deles.

Livros Florzinha - 47 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Existe tanta coisa que preciso saber, não é? - perguntou Emma.


- Se você estiver se referindo apenas à camuflagem, não é tão
difícil. Mas os animais como um todo, seus comportamentos e
formas de vida, aí sim, existe muita coisa.
- Você adora tudo isso, não? - perguntou a garota num impulso.
- É a minha vida - disse Stewart, olhando para o rio com
tranquilidade.
- Não há nada mais que você queira?
- Não diria isso. - Virou-se e fitou-a dentro dos olhos. - Existem
coisas que eu quero. Nenhum homem é inteiramente auto-suficiente,
não é? Mas minha vida está aqui, com os animais e eu gostaria que as
outras coisas que quero pudessem adaptar-se ao mesmo esquema de
vida.
Emma baixou as pálpebras. Não tinha certeza do que ele queria
dizer com aquele comentário.
- Por que você veio para cá? - perguntou Stewart.
- Para tirar fotografias. Você já sabe disso.
- Mas existe outra razão, não existe?
- É assim tão óbvio? - perguntou ela afinal.
- Você sabe tão pouco sobre animais e não parece saber muito mais
sobre fotografia. - A voz de Stewart era tão gentil que a garota
não se ofendeu com o que ele disse. - Algumas vezes é bom falar.
Pode-se ver as coisas em uma outra perspectiva. Não quer me
contar?
- O nome dele era Jimmy - disse afinal. Sua voz estava baixa
e um pouco trémula. - Namoramos durante algum tempo, íamos nos
casar. Eu estava muito feliz. - Calou-se por alguns momentos e
Stewart não a apressou para continuar. - Estava tudo arrumado. O
vestido estava sendo feito e as flores haviam sido encomendadas.
Estávamos procurando apartamento. Não estava sendo fácil
encontrarmos, pois não podíamos gastar muito. Jimmy. . . Jimmy era
inteligente, um engenheiro. Oh, ele ainda não ganhava muito, mas
tinha planos maravilhosos. . .

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Sabrina no. 66

- E então? - instigou-a com delicadeza.


- O homem para quem ele trabalhava tinha uma filha e ela gostava
de Jimmy. Ele era muito bonito, inteligente e espirituoso. Teria
conseguido subir na vida sozinho. Levaria algum tempo, mas ele
chegaria lá.
- Ele encontrou uma maneira mais fácil de fazer isso?
- Não acredito que fosse assim no começo. Ele costumava caçoar
disso. A maneira como ela o esperava quando ele saía do serviço e o
convidava para sair. . . Mas então. . . bem, depois de algum tempo ele
não caçoava mais e, se eu brincasse com ele, não achava nem um
pouco engraçado.
- Ele não poderia ter-se apaixonado por ela - disse Stewart.
- .Acho que Jimmy gostava dela. É muito fácil gostar de alguém que
gosta da gente. E então o pai dela. . . fez muitas promessas a
Jimmy. Ele era muito inteligente e o pai não queria perdê-lo.
Prometeu a Jimmy uma sociedade na companhia, uma bela casa, e...
outras coisas.
- Se Jimmy fosse tão inteligente, não teria subido na vida de outra
maneira?
- Teria, tenho certeza que sim. Mas esse caminho foi muito mais
rápido. Jimmy era um homem muito ambicioso. Começamos a
discutir. E no fim... no fim, achei que seria melhor, para nós dois,
terminarmos tudo.
- O rompimento de vocês foi a apenas um mês do casamento?
- Sim.
- Deve ter sido uma coisa triste para você - comentou Stewart.
- Chorei muito - confessou ela. - Nunca pensei que pudesse chorar
tanto. Chorei durante dois dias seguidos. Não comia e minha mãe
ficou muito preocupada pensando que eu fosse ficar doente.
- O que Jimmy fez quando soube de seu sofrimento?
- Ele nunca soube - disse Emmà com calma. - Não deixei ninguém
telefonar para ele. Naquela altura dos acontecimentos não teria
adiantado nada. Pelos menos isso eu havia compreendido.

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- Ele foi um grande tolo ao deixá-la. - Mais uma vez ele fitou-a
daquela maneira calma que fazia o coração de Emma quase parar.
- Então foi por isso que você veio para cá?
- Eu precisava fugir, sair da Inglaterra, fugir de tudo aquilo. O
navio partiu no dia que teríamos nos casado. Um amigo muito
chegado de meu pai, um entusiasta da vida selvagem, soube o que
acontecera. Ele esteve aqui e está escrevendo um livro sobre suas
experiências. Sugeriu que se eu quisesse vir para cá fotografar
animais - fotografia realmente é meu passatempo -, ficaria muito
feliz em usá-las.
- Entendo. . .
- A vida continua, não é verdade? - Voltou a fitá-lo, embora
soubesse que seus olhos estavam molhados. - Algumas vezes
pensamos que nunca conseguiremos nos recuperar. Mas a vida
continua.
- Sim. - Aproximou-se mais, passou-lhe o braço em volta dos ombros
e puxou-a para perto de si. - A vida continua. Tem que continuar. -
Depois de alguns momentos, acrescentou: - Eu também aprendi isso.
Emma fitou-o de modo inquisidor, sem dizer nada. Sentia uma
estranha sensação de conforto, por estar tão junto a ele. Aquele
fora apenas um gesto platónico, ela o sabia. Stewart pretendia
somente confortá-la e o conseguira.
- Já fui casado - disse com vagar. - Você sabia disso? Emma meneou
a cabeça, sem dizer palavra, sentindo um certo desapontamento e
angústia dilacerando-lhe o coração.
- O nome dela era Mary e morávamos em uma das reservas
florestais do norte. Não é essa espécie de coisa que temos aqui,
campos com chalés e facilidades para os visitantes. Tínhamos um
pequeno bangalô, sozinho no meio de uma grande extensão de terra.
- Devia ser muito solitário.
- Não achava - disse ele.
- Onde está Mary agora? - Emma forçou-se a perguntar.
- Foi morta.

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Oh, Stewart! Oh, não!


- Foi algo que nunca devia ter acontecido - disse ele com firmeza.
Ainda a envolvia nos braços, mas Emma sentiu que os pensamentos
de Stewart estavam muito longe, com Mary, naquela distante
reserva florestal. - Ela foi morta por um leão. Isso não deveria ter
acontecido, mas Mary desobedeceu uma regra, uma das principais
regras para qualquer pessoa que more na mata. Depois. . . ;- Emma
pensou ter notado uma mudança na voz de Stewart. - Depois,
quando tudo terminou, deixei nossa casa. Eu não poderia ficar lá
nem mais um minuto. Vim para cá.
- Oh, Stewart! Que coisa terrível! Não sei o que dizer.
Não existe nada que você possa dizer-me. Nunca a esquecerei,
é claro. Acho que nunca se esquece alguém que já amamos. Mas já
superei isso. Demorou muito tempo, mas já superei.
E eu que achava que o que aconteceu comigo foi uma coisa
muito ruim... - fitou-o e agora chorava mesmo. - Sinto-me tão
envergonhada.
Emma - inclinou-se e beijou-a com muita delicadeza -, tudo
é relativo. Sempre achamos que nossas experiências más são mais
difíceis de serem superadas do que a das outras pessoas, no
momento em que acontecem.
- E ainda. . .
- Você teve seus momentos difíceis. O que aconteceu com você é
uma situação difícil para qualquer garota, mas você conseguirá
superar. Você já deu o primeiro passo, não?
- Sim, já dei o primeiro passo - disse ela, sorrindo.
- Ótimo! - Retirou o braço dos ombros de Emma. - Vá em frente! E
para ajudá-la, eu a levarei até um local onde os animais bebem água
e onde você pode ficar com sua máquina fotográfica durante horas
seguidas. Se tiver sorte, conseguirá ótimas fotografias.
Era um local encantador para onde Stewart a levou. Uma pequena
clareira perto do rio, semelhante àquela em que haviam conversado,
mas com uma visão completa da margem do rio e dos pequenos

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atalhos que os animais faziam para irem beber água no rio. Era um
local que Emma nunca teria encontrado sozinha. Ali se chegava por
uma estrada secundária usada pelos guardas-florestais, que
Stewart lhe dera permissão para utilizar sempre que quisesse.
Ali, ela sabia, poderia ficar sentada por horas com sua máquina
fotográfica ao lado, absorvendo a paz e a beleza do lugar e, além da
paz de espírito e da tranquilidade,
poderia tirar algumas fotos quando aparecesse algo interessante.
. - Muito obrigada - disse ela, virando-se para ele. - Oh, muito
obrigada, Stewart!
- Por isso? - Ele olhava para Emma com uma expressão que ela não
soube definir muito bem.
- É maravilhoso! É como se um pedacinho do céu tivesse sido
colocado na terra.
- Fico feliz em ouvir isso. - Pôs o carro em movimento e tomou
novamente o rumo da estrada.
Ela ficou desapontada. - Já estamos indo embora?
- Você poderá voltar aqui a hora que quiser. Mas preciso ir para
Lower Sabie. Se não chegar lá rápido, o homem com quem preciso
falar pensará que eu esqueci o compromisso. Além disso, logo seu
estômago estará reclamando por comida!
Foram para Lower Sabie. Stewart parou o carro por uns poucos
minutos frente aos portões antes de entrarem.
Perto do campo havia um tanque de água e, sobre ele, nos
canos condutores, uma quantidade enorme de macacos cinza.
Brincando, pulando e empurrando uns aos outros paíeciam que a
qualquer momento iriam escorregar dos condutores
e cair na água.
- São esplêndidos - Emma ria. - Os leões até podem ser os reis por
aqui, mas são muito distantes. Agora, essas criaturinhas são um
encanto e me fazem rir muito.
- As crianças também gostam muito dos macacos- observou
Stewart. - Acho que os momentos mais felizes das crianças que vêm

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
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aqui são quando um macaco se agarra ao carro onde elas estão e


passeia durante dois ou três quilómetros.
Eles entraram no campo e, quando Stewart parou o carro, disse:
- Você acha que conseguirá se divertir um pouco sozinha? Estarei
ocupado por uma meia hora mais ou menos. Nós nos encontraremos
no restaurante, aquele lá, por volta de uma hora.
Seria muito fácil passar aquele tempo sozinha, Emma pensou.
Vagarosamente passeou pelo campo. Era muito diferente de
Skukuza. Menor, bem menor, com uma aparência mais descontraída
com os bangalôs dispostos em semi-círculo.
Foi até a cerca admirar a paisagem que se estendia além do rio. Era
o mesmo rio que banhava Skukuza e que acompanhava a estrada
para Lower Sabie. Mas ali a vista era diferente, pois o rio agora não
era tão vasto, tão impetuoso, e nem passava muito perto da cerca,
como no acampamento maior. Mas mesmo assim era muito bonito.
Estava na hora do almoço e as pessoas já voltavam de seus passeios
matinais. Muitas delas já estavam sentadas em frente de seus
bangalôs descansando e conversando, outras preparavam-se para a
refeição do meio-dia. Um pequeno grupo estava também ao lado da
cerca, um pouco longe da garota, observando a mata com binóculos.
Emma aproximou-se, mas, ao perceber que eles viam um elefante a
muitos metros de distância e quase que totalmente encoberto pela
vegetação, preferiu desviar novamente sua atenção para a
atmosfera simpática do campo.
O tempo passou rapidamente e, quando percebeu, já estava na hora,
de se encontrar com Stewart no restaurante.
- Olá. - Ele a viu dirigindo-se para o local e acenou-lhe. - Isso tudo
até que é interessante, não é?
- Oh, sim, gostei muito daqui. É muito diferente de Skukuza, você
náo acha?
- Sem dúvida. Cada campo tem sua atmosfera própria. Lower Sabie
é um de meus favoritos. É pequeno e bonito. Agora - disse-lhe,
passando o cardápio - o que vamos pedir?

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Era muito agradável almoçar sob as árvores, com pássaros azuis


voando em volta da mesa e prontos para, a qualquer momento,
pousarem perto do prato para ganharem um pouco de comida.
- Você precisava vê-los em Shingwidzi - Stewart riu quando Emma
comentou algo sobre os pássaros. - São umas pragas! Uma vez bati
um filme inteiro de quatro passarinhos desta espécie bicando
apressadamente uma frigideira que tinha restos de ovo frito. Eles
são um encanto! - disse Emma sorrindo. - E eu adoro observar as
pessoas.
- Elas também são um encanto?
- Você está caçoando de mim outra vez. Elas são tão interessantes!
Sabe, enquanto estava passeando, ouvi tantas línguas diferentes
sendo faladas. . .
- E viu muitas máquinas fotográficas e tripés!
- Sim - ela riu. - Parece que não sou a única fotógrafa por aqui. Mas
- acrescentou, sorrindo - aposto que sou a única que tem um lugar
tão bonito à espera de minhas fotografias. Stewart voltou a falar
sobre a primeira idéia -, passei por uma fogueira onde três homens
seguravam seus respectivos espetos de carne e tentavam contar um
ao outro o que tinham visto. Um era italiano, outro grego e o outro,
acho, devia ser escandinavo. De qualquer forma, eles estavam lá,
tentando ser entendidos, gaguejando um inglês péssimo, soltando
algumas palavras em suas próprias línguas e conversando sobre
leões.
- E todos compreendendo-se mutuamente e divertindo-se muito!
- Oh, sim, estavam adorando!
- Os turistas adoram vir para cá - disse Stewart. - Você sabe como
o Parque Nacional Kruger passou a existir?
- Não, acho que náo.
- O país inteiro era uma mata fervilhando de animais selvagens.
Todas as grandes cidades, Joanesburgo e a Cidade do Cabo, eram
mato. Se algum dia você for para Joanesburgo achará difícil de
acreditar que algum dia os leões caminharam pela Rua Eloff.

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
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- E o que aconteceu aos animais? - perguntou Emma.


- Conforme as grandes cidades foram sendo construídas, conforme
o país se tornou civilizado, os animais foram mortos ou afastados
para muito longe. Pouco tempo depois, havia pouca terra com
animais selvagens. - Ficou pensativo por alguns momentos. - Acho
que esta é a história da civilização em qualquer lugar. Quando o
homem chega, os animais precisam dar lugar a ele. Mas houve um
presidente, Paul Kruger, um dos primeiros presidentes do
Transvaal, que percebeu o que estava acontecendo. Sabia que, caso
não se fizesse algo bem depressa, não sobraria qualquer animal
nesse país. Assim, resolveu criar uma área onde os animais ficassem
livres sem terem que ser mortos por causa da construção de
cidades. Uma área onde não fosse permitida a entrada de
caçadores. Esse lugar recebeu o nome dele: Parque Nacional Kruger.
- Que maravilha! - exclamou Emma. - Deve haver tantas coisas
interessantes que ainda não sei.
- Há sim. Qualquer dia desses você precisa ler, mais sobre a
história do parque. Precisa ler sobre Stevenson Hamilton, um dos
guardas-florestais mais famosos, de quem Skukuza recebeu o nome.
- Nunca se percebe realmente quanto as pessoas se entregam.
Quero dizer, algumas pessoas devem ter lutado tanto para criar um
lugar como esse. . . - interrompeu-se, pensativa. - Mas tudo isto
valeu a pena, não é? Acho que consigo entender o que você sente em
relação a este parque, por que o ama tanto.
- É mesmo, Emma?
- Sim, estou começando a compreender porque essa é sua vida. É o
tipo de lugar que faz você se sentir assim. Estou certa?
- Está sim. Você também se sente assim em relação ao parque,
Emma?
- Eu? Não tenho certeza. Ainda não estou aqui o bastante para
dizer isto. Mas acho que sim. Essa vida, a idéia de dedicar-se à
preservação da vida selvagem, acho que tudo isso está tendo um
grande peso para mim. Sim. . . sim, acho que sinto tudo isso. -

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

Levantou a cabeça e encontrou os olhos de Stewart fixos em sua


face e outra vez havia aquela expressão que não conseguia
compreender, mas que achava vagamente perturbadora.
Já estava na hora de irem embora e fizeram uma viagem lenta a
caminho de Skukuza. Quando já estavam quase chegando ao campo e
Emma pensava que o dia não podia ter sido melhor, Stewart virouse
e perguntou: - Já mandou revelar algum filme?
- Não, não tive oportunidade.
- vou passar alguns dias em Pretória; tenho que tratar de alguns
negócios. Gostaria de ir comigo?
- Ir com você? - Emma fitou-o surpresa.
- Tudo acima de suspeitas, se é isso o que a está preocupando.
- Havia um sorriso gentil em seus lábios. - Pensei que talvez
gostasse da idéia de mudar um pouco de ares. Você poderia fazer
algumas compras e de noite poderíamos sair juntos.
- Oh, Stewart! - suspirou ela, perguntando-se se seus olhos não
demonstrariam a felicidade que sentia. - Gostaria muito de ir com
você.

CAPITULO IV

Mais de uma vez durante a viagem para Pretória, Emma


surpreendeu-se pensando em Miranda. O que ela significava para
Stewart? Que lugar ocupava em seu coração, aquela bela mulher?
Será que sabia daquela viagem? Sabia que Stewart a convidara para
acompanhá-lo?
Emma não devia nada à outra garota, mas não conseguia deixar de
imaginar o que ela pensaria se soubesse. Emma percebera o brilho
da face da garota quando conversava com Stewart, a expressão de
seus olhos quando sorria. Também vira a forma como Stewart
inclinara-se, sorrindo, para ouvir as palavras de Miranda.

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Foi essa última coisa que quase fez Emma mudar de idéia e não
acompanhá-lo. Mas agora percebera que precisava encarar a
realidade de frente. Estava apaixonada por Stewart, apaixonada
por aquele homem alto que às vezes era zombeteiro e rude e outras
tão terno e gentil. ,
Estava apaixonada por ele como nunca estivera por homem algum. E
era isso o que a fazia hesitar, o que a deixava cheia de reservas. Se
Miranda significava algo para Stewart, se ele a amava, seria mais
difícil para Emma aceitar este fato depois da viagem. Sozinha no
chalé, passara muitas horas pensando e decidira que procuraria
Stewart na manhã seguinte e lhe diria que não mais o acompanharia
na viagem.
Mas quando o vira, quando aquela face morena lhe sorrira, a decisão
caiu por terra. Não podia dizer-lhe que não o acompanharia, como
tambem não conseguira impedir-se
de se apaixonar por ele. - Só queria saber quando vamos partir -
dissera a Stewart.
Fitava-o agora, o perfil decidido e firme, as mãos de dedos longos
pousados com tranquilidade sobre o volante. Ele era tão diferente
de Jimmy, tão diferente do homem
que uma vez pensara amar. Jimmy, com seu riso fácil e com o
charme que fazia tantas mulheres apaixonarem-se por ele. . . Jimmy
era um pouco como. . . como Lance, pensou subitamente.
Franziu a testa com esse pensamento. Na verdade, Lance não era
como Jimmy, apesar de ter ficado bastante contrariado quando lhe
contara que iria viajar com Stewart. Parecia ter tomado isso como
uma afronta pessoal. Emma saíra da Inglaterra para evitar
complicações e se não tomasse cuidado se envolveria mais uma vez
em situações embaraçosas.
Emma suspirou.
- Que suspiro profundo! - Stewart fitou-a e sorriu. - Já está
arrependida de ter vindo comigo?
- Não. - Tinha certeza que o brilho de seus olhos era evidente

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demais. - Estou apenas cansada. Não estou acostumada a levantar


todos os dias tão cedo.
Como se Stewart adivinhasse os verdadeiros pensamentos da
garota, pegou na mão de Emma. Passaremos dias muito agradáveis.
Quero que você faça o que tiver vontade. Não precisa pensar em
mim. De qualquer forma, estarei ocupado durante a maior parte do
dia. E, de noite, acho que podemos sair juntos.
- Você não tem muitas oportunidades de sair do parque, não é?
- Raramente. Poder escolher diferentes locais de entretenimento
durante três noites será algo de especial para um interiorano como
eu.
- Estou ansiosa por isso - disse ela num impulso, decidindo afastar
Miranda de seus pensamentos completamente. Viveria aqueles dias
como eles se apresentassem. - Estou mesmo muito ansiosa por isso -
repetiu.
- Muito bom. - Stewart sorriu e pôs outra vez a mão no volante.
- Eu também.
Emma descobriu que embora eles fossem ficar no mesmo hotel,
seus respectivos quartos ficavam em lados opostos do corredor.
Satisfeita? - Stewart dirigiu-lhe um sorriso travesso. - Tudo acima
de suspeitas, como lhe prometi.
- Eu não estava preocupada, nem um pouco - Emma também sorriu.
Quando Stewart foi ao Parks Board naquela tarde, Emma foi para o
centro da cidade.Descobriu que era agradável caminhar pelas ruas
de Pretória, observando a pressa
das pessoas e as vitrines das lojas. Tudo era tão diferente da
Inglaterra, de Londres e da vila em que fora criada! No dia
seguinte, faria algumas compras, mas agora
só queria passear.
Passava por uma butique quando um vestido na vitrine lhe chamou a
atenção. Examinou-o por alguns momentos. Custava um pouco mais
do que gastaria normalmente, mas fora feito para ela e
compreendeu que, no estado de espírito em que se encontrava, não

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poderia resistir à vontade de comprá-lo.


Era cor-de-rosa bem claro, um tom que realçaria a cor suave de sua
pele. Um vestido macio e feminino, feito para ser usado em noites
de verão ao lado do homem amado.
Precisava ter aquele vestido e, afinal, resolvendo deixar algumas
coisas que planejara, entrou na loja, experimentou-o e comprou-o.
Podia parecer uma extravagância comprar um vestido como aquele,
quando passaria os próximos três meses na selva e a moda poderia
mudar depois disso, mas por alguma razão, tinha certeza de que
aquele vestido lhe traria algum tipo de compensação.
Stewart a esperava no vestíbulo do hotel quando Emma entrou e
percebeu, pela rigidez de seus músculos faciais, que estava
preocupado.
- Onde você esteve? - Sua voz era inflexível.
- Fazendo compras.
- Já é tarde.
- É mesmo? Perdi a noção do tempo. Desculpe-me se o deixei
preocupado.
- Eu não sabia onde você estava. Esta cidade lhe é estranha e você
poderia não saber o caminho de volta. Eu nem saberia por onde
começar a procurá-la.
- Desculpe-me - repetiu Emma, mas em parte ficou feliz, pois se
aquele homem, rígido e auto-suficiente, ficara tão abalado, podia
ser indício de que se importava com ela.
- Reservei uma mesa em um restaurante que me disseram ser muito
agradável. Parece que a comida é boa e há uma pista de danças.
Gostaria de ir comigo, Emma?
- Adoraria!
- Bem, então, vamos caminhar um pouco e depois, quando voltarmos,
podemos ir nos aprontar.
O passeio não foi muito longo, mas bastante agradável. Havia algo
de estranhamente excitante em estarem juntos numa cidade onde
ninguém os conhecia. Isto dava à garota uma sensação de

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isolamento, como duas pessoas sozinhas numa ilha. Era muito


diferente de Skukuza, onde todos se conheciam e a vida particular
era comentada como num vilarejo.
Quando Emma voltou ao quarto, preparou um banho morno com os
sais minerais que também comprara. Fora outra extravagância, mas
naquele dia queria sentir-se feminina e encantadora. Era um dia
especial.
Deitou-se na água morna, pensando na noite que tinha pela frente.
Jantaria com ele e dançaria. . . flutuaria pela pista de danças com
os braços de Stewart em volta de seu corpo. . .
Amava-o. Tentara tanto deixar seus sentimentos intatos, mas agora
compreendia que, quando se ama alguém verdadeiramente, isso não
é um tipo de sentimento que pode
ser afastado quando se bem entende. Por um momento, Miranda
introduziu-se em seus pensamentos. Talvez Stewart gostasse
realmente da outra garota, talvez aqueles dias juntos fosse apenas
um interlúdio, mas, fosse como fosse, Emma sabia que o amava, que
sempre o amaria, mesmo que algum dia ele resolvesse casar-se com
outra.
Saiu do banho, colocou o vestido cor-de-rosa e foi ao espelho fazer
uma maquilagem leve. Estava com o rosto corado pelo banho morno.
Algumas mechas úmidas de cabelo caíam-lhe sobre a testa e seus
olhos brilhavam de entusiasmo. Passou um batom suave, uma sombra
leve e escovou os cabelos até que ficassem brilhantes. Afastou-se
do espelho e examinou-se por alguns momentos.
Sabia que não poderia estar com melhor aparência. O vestido
caíalhe tão bem quanto havia esperado. Era simples e feminino, com
um cinto estreito que realçava sua cintura fina. Esperava que
Stewart também gostasse.
Ele a esperava no vestíbulo. A princípio não a viu. Estava sentado a
uma mesa, lendo jornal, e Emma ficou parada alguns momentos,
fitando-o. Stewart usava um terno cinza e a garota sentiu um
pequeno choque ao ver como ele estava distinto. Estava tão

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acostumada a vê-lo com roupas de safári que nunca o imaginara


usando um terno. com o corpo esbelto, a face bronzeada e os
cabelos muito bem penteados, ele era o homem mais elegante e
bonito da sala.
- Stewart - disse afinal. - Stewart. . .
Ele fitou-a e levantou-se num salto. - Emma! - Pegou-lhe a mão e
seus olhos brilharam ao examiná-la. - Emma, você. . . você está linda!
- Sua voz estava rouca. - Vamos?
Foi uma noite mágica. Uma noite de encantamento que nada poderia
abalar. "Nunca poderei esquecer-me desse momento", pensou ela,
enquanto se moviam pela pista de dança e Stewart a segurava com
firmeza, com o queixo tocando-lhe os cabelos. "Isso nunca mais se
repetirá. Nunca poderei esquecer-me desse momento."
Estava certa que ele também sentia aquela coisa especial que
estava acontecendo com eles. Desde o momento em que saíram do
vestíbulo do hotel, aquela atmosfera mágica os acompanhara, tão
real que podia quase ser tocada. Revelava-se na maneira como
Stewart a tratava, como se ela fosse muito frágil e necessitasse de
muito cuidado, bem como na maneira como se olhavam sobre as
bordas dos copos de vinho. Stewart inclinou-se, tocou com
delicadeza seu copo no dela, e disse: - A você, Emma. E à sua
felicidade. - Por um momento ela teve a sensação de que o que
Stewart queria dizer era:
E à nossa, mas, talvez, por alguma razão que ela não conhecia, ainda
não estava preparado para dizer tal coisa.
Aquela atmosfera estava presente ainda quando começaram a
comer. Haviam pedido um filé com cogumelos -e Emma achou que o
cozinheiro devia ter mãos de fada, pois a comida era deliciosa e o
vinho maravilhoso.
Conversaram bastante, rindo das mesmas coisas. Mas, ao dançarem,
ficaram em silêncio. Stewart, ao dançar, não procurou segurá-la de
maneira formal, cerimoniosa. Ao chegarem à pista, ele tomou-a nos
braços e puxou-a para bem perto de seu corpo. Abraçados daquela

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maneira, nem tentaram falar. O queixo de Stewart tocava os


cabelos da garota e, depois de alguns momentos, ela, quase sem
perceber, foi encostando seu rosto no peito dele. Emma sentiu que
gostaria de ficar dançando assim para sempre. Que bom se aquela
música não terminasse jamais!
Quando voltaram para a mesa, Stewart colocou sua cadeira bem
perto da dela e, quando sentaram, pousou seu braço sobre os
ombros da garota. Não falavam muito, mas o silêncio que reinava
entre eles não era do tipo desagradável, quando absolutamente não
existe nada para se dizer, mas daquele, e Emma teve até medo de
pensar nisso, que sempre acontece entre duas pessoas apaixonadas.
Já era tarde quando voltaram para o hotel. Ele levou-a até a porta
do quarto; e, ainda segurando suas mãos, sorriu para ela. - Durma
bem, Emma. Tenho um trabalho
para fazer amanhã bem cedo, mas você pode dormir até mais tarde.
Nós nos encontraremos à noitinha.
- Stewart - olhou para ele sentindo-se tremer -, foi maravilhoso.
Muito obrigada.
Novamente Emma percebeu aquela cor profunda nos olhos de
Stewart, quando ele a encarou, sem nada dizer. Segundos depois ele
tompu-a nos braços, beijou-a gentilmente e disse: - Obrigado a
você, Emma.
Quando ela se viu a sós no quarto correu ao espelho para ver o que
já sabia que iria encontrar - a expressão de uma mulher apaixonada.
Mesmo no auge de seu relacionamento com Jimmy ela nunca se vira
com aquela expressão; as maçãs de seu rosto mais salientes, seus
olhos mais brilhantes e refletindo uma infinidade de cores.
Na manhã seguinte não sabia dizer se dormira naquela noite ou não.
Se realmente tivesse dormido permanecera num estado de
semiconsciéncia onde girava, lenta e continuamente
numa pista de danças com uma figura de terno cinza, segurando-a
bem perto, sorrindo-lhe com aquela expressão que fazia seu
coração

Livros Florzinha - 62 -
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disparar.
Caminhou pelas ruas da cidade, como se estivesse num sonho. As
lojas pareciam um mundo encantado, cheias de coisas
maravilhosas, as pessoas estavam bonitas, as calçadas pareciam
flutuar debaixo de seus pés.
À noite encontrou Stewart esperando-a. - Passou bem o dia? Ele
sorriu e tomou sua mão. - O que faremos hoje à noite? - Emma não
tinha sugestões; e bastava saber que ficariam juntos. - Que acha de
jantarmos e depois irmos ao cinema? Está passando O Império dos
Sentidos. Ainda não assisti, você já?
Emma já assistira, mas não o confessou, pois estava certa de que
nada lhe importaria muito nessa noite. Era suficiente saber que
estaria sentada no cinema escuro, com o homem que amava ao seu
lado.
Emma gostou do filme mais do que da primeira vez. Stewart
segurava sua mão e ela entregou-se como se sonhasse.
Na terceira noite, a última que passariam em Pretória, voltaram a
jantar no restaurante dançante. Emma usou outra vez o vestido
corde-rosa e, pela segunda vez, notou a mesma expressão na face
de Stewart quando a viu. Foi uma noite maravilhosa, tirada de um
mundo de fantasia.
Quando voltaram ao hotel, Stewart levou-a até a porta do quarto e
fitou-a em silêncio por um longo momento. Era um instante precioso
demais para palavras. Afinal, tomou-a nos braços e disse: -
Obrigado, Emma. Obrigado por ter vindo comigo. Foi maravilhoso.
Emma fitou-o trémula, não se atrevendo a falar, esperando que ele
lhe dissesse o que desejava ouvir e que sentia que ele queria dizer.
Mas Stewart apenas a beijou
e virou-se rapidamente em direção ao seu quarto.
Na manhã seguinte saíram cedo para voltar ao parque. Emma sentia-
se um pouco triste. Logo estariam em Skukuza e, embora soubesse
que ainda o veria, sabia também que aquele casulo de encantamento
que os envolvera durante aqueles poucos dias desapareceria.

Livros Florzinha - 63 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

Em Skukuza, Stewart teria que voltar à rotina normal. As coisas não


seriam mais como haviam sido em Pretória. ,Se ao menos... se ao
menos ele dissesse que a amava. Ele queria dizer isso, Emma estava
certa.
O que o impedira? Miranda? A face da outra garota dançou perante
seus olhos, apesar da decisão de não pensar nela. Será que Stewart
devia a Miranda alguma fidelidade especial? Ou haveria alguma
outra razão?
- Que pensamentos profundos! - Stewart sorria.
- Ora! - Emma também sorriu.
- Está ansiosa por chegar ao campo?
Acho que sim - disse ela, um pouco saudosa. - Mas foi maravilhoso,
não foi?
Foi. - A voz de Stewart estava rouca quando pegou sua mão
e segurou-a por alguns momentos. - Foi maravilhoso.
Johnny esperava Emma na manhã seguinte. - Papai me disse que
podia ir com ele hoje, mas achei que preferia ir com você. - Olhou
para a garota, apreensivo. - Se você
me quiser, é claro.
Ela riu. Aquele último comentário não era típico do garoto impulsivo
e compreendeu que ele devia estar lembrando-se das
recomendações que seus pais lhe haviam feito.
- Claro que quero que você vá comigo. Ficarei encantada se você for.
- Posso levar isto? - Mostrou um bloco de papel e um lápis.
- Claro que sim. Eu levarei minha máquina fotográfica e você os
papéis. Teremos uma verdadeira manhã artística.
- Você nunca me mostrou suas fotografias - disse ele quando saíam
de Skukuza. - Você disse que me mostraria.
- Eu ainda não tinha nenhuma para lhe mostrar. Mas quando
estivemos na cidade mandei revelar alguns filmes.
- Você devia tê-los trazido.
- Eu os trouxe. Quando encontrarmos algum lugar agradável,
paramos e eu lhe mostro.

Livros Florzinha - 64 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Ótimo! - ele sorriu.


- Onde vamos hoje, Johnny?
- Bem. . . - O garoto hesitou.
- Tem em mente algum lugar especial? - Emma percebeu que sim.
- Há um laguinho dos hipopótamos. Ê muito bonito e acho que
gostaria de pintá-lo algum dia. Só que. . .
- Continue! - Fitou-o curiosa.
- Bem, parece que não há muitos animais naquela estrada. Não sei se
encontraremos muita coisa para que você fotografe.
- Não me importo - disse ela tranquila. - Afinal de contas, ainda
ficarei bastante tempo aqui e terei outras oportunidades de
fotografar. Para dizer a verdade - virou-se para o garoto -,
Stewart mostrou-me um lugar muito bonito onde posso ficar
durante horas apenas esperando os animais descerem para beber
água. Acho que é uma estrada usada pelos guardas-florestais.
- Stewart mostrou-lhe aquela estrada?
- Sim.
- Ele deve gostar de você - comentou Johnny.
- Por que você diz isso, Johnny?
- Porque se ele não gostasse de você não a teria levado até lá.
Aquele é um lugar especial. - Acho que sei onde é. Ele não levaria
qualquer pessoa até lá.
- Oh. . . - Emma esperava que o garoto não percebesse o bem que
aquelas palavras lhe fizeram.
- É lógico - continuou Johnny, pensativo - que eu sempre soube que
ele gostava de você.
- É mesmo, Johnny?
- Sim. Naquele dia que você não saiu conosco ele ficou muito
desapontado. Naquele dia que você saiu com Lance.
- Mas - interrompeu-se, e não resistiu à tentação de continuar
- afinal foi bom que não tivéssemos saído, pois ele recebeu uma
visita, não foi?
- Sim. A bela Miranda - disse Johnny com tristeza. - Oh. diabos!

Livros Florzinha - 65 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Qual é o problema?
- Acho que ela quer casar-se com Stewart.
- Oh! - Emma gostaria de fazer mais perguntas, mas sabia que não
era
correto tirar vantagem da inocência de uma criança.
- Ela sempre o procura. Faz geléias e malhas de tricô para ele, você
sabia?
- Ela faz isso? - Emma deixou que o carro desse um solavanco, pelo
choque de saber que as coisas entre Miranda e Stewart estavam
num ponto tão sério.
- Sim. São coisas tão tolas. Aquela mulher é louca por Stewart, E
Stewart?, Emma quis perguntar, quis gritar. E quanto a Stewart?
- Emma! - De repente Johnny teve uma idéia e virou-se para ela,
ansioso. - Por que você não se casa com ele?
- Oh, Johnny, eu não posso. . .
- Não, mas você gosta de Stewart, não gosta?
- Sim, gosto de Stewart. - Emma aquiesceu.
- E ele gosta de você. - Como Emma não respondesse, Johnny
continuou, ansioso: - Vamos, Emma, case com ele.
- Não é simples assim, Johnny - protestou ela.
- Por que não?
- Ele não me pediu em casamento.
- Oh! - O garoto ficou desconcertado. - Só isso?
- Só isso não, é uma coisa muito séria. - Apertou o volante com
firmeza e resolveu mudar de assunto. - Bem, vejo uma encruzilhada.
Que estrada vamos seguir?
- A da esquerda. Olhe, Emma, ainda não vejo por que você não
pode. ..
Veja um pássaro naquela árvore lá. - Diminuiu a velocidade
do carro para distrai-lo. - Está vendo?
- Onde? Oh, sim.
É muito bonito. Acho que é o primeiro que vejo dessa espécie.
Que pássaro é, Johnny?

Livros Florzinha - 66 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

O interesse do garoto dê doze anos logo foi transformado. - É um


búcero - disse-lhe. - Você sabia que. . .
Quando Johnny terminou de lhe falar sobre os hábitos do búcero,
já esquecera do assunto anterior e começou a conversar
alegremente sobre o trabalho de seu pai, sobre a escola, sobre a
arte de pintar, enfim, sobre qualquer coisa que lhe vinha à mente.
Afinal chegaram ao pequeno lago dos hipopótamos.
- Aqui podemos descer do carro - disse-lhe Johnny. É seguro.
- Tem certeza? - perguntou Emma.
- Claro. Aqui ninguém corre o risco de sair ferido. Há uma placa que
diz que se pode descer do carro. Olhe, lá.
- Bem, nesse caso... - Emma olhou a sua volta, nervosa, enquanto
desciam o atalho para o rio, esperando a cada momento que um leão
pulasse de trás de algum arbusto. Mas esqueceu seus temores
quando chegaram ao afloramento rochoso perto da beira d água. -
Oh, que beleza! Deus, é muito bonito mesmo!
- Gostou? - A face do garoto brilhava de orgulho, como se ele fosse
o dono do lugar. Era realmente muito bonito, com enormes árvores
emoldurando as águas azuis que
faziam uma curva e afastavam-se de onde estavam. Na distância,
Emma viu os hipopótamos, quase completamente submersos na água.
Perguntou-se se os veria na superfície
e admitiu que mesmo que não os visse não teria importância. Era
maravilhoso ficar sentada ao sol, sobre as pedras, apreciando a
paisagem e os sons do rio.
- Você disse que ia me mostrar suas fotos - Johnny relembrou-a.
- Sim. - Emma abriu a bolsa e pegou alguns envelopes.
- Humm. - Johnny examinou-as, crítico, segurando-as com cuidado
para não marcá-las. - Não são ruins. Esta do elefante está boa e
gostei daquela da família de macacos.
Mas esta aqui, a exposição não está correta. E esta outra, do kudum
devia ser mais nítida. Não é possível se fazer uma reprodução dessa
foto em desenho.

Livros Florzinha - 67 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Você entende muito de fotografia, não é? - Fitou-o, curiosa. - -


Nem tanto. Mas quero ser artista e acho que tenho que entender
um pouco sobre todas as espécies de arte.
Emma sorriu. Afeiçoara-se muito ao garoto, tão ingénuo e inocente,
embora algumas vezes demonstrasse amadurecimento.
- Eu gostaria de entender mais - disse Emma com tristeza.
- Tenho certeza que você aprenderá - Johnny tranquilizou-a.
- Oh, Johnny - Emma inclinó-se e abraçou-o. - Você é tão bom para
mim. Também acho que aprenderei. Desejo muito. E quanto a você?
Não disse que ia fazer alguns
desenhos?
O garoto pegou o bloco de papel e o lápis e logo ficou absorto no
que fazia. Emma ficou a observar o lápis movendo-se sobre o papel,
a princípio bem devagar, enquanto ele se familiarizava com o
assunto, e depois, conforme Johnny se absorvia mais no que estava
fazendo, o lápis começou a mover-se mais depressa em movimentos
curtos.
Era um lugar particularmente bonito e Johnny desenhava a
paisagem. - Farei os animais depois - disse ele. - Agora só estou
preparando o pano de fundo. - Remexeu nos bolsos e tirou um
chiclete. - Quer um pedaço?
Emma aceitou, não porque quisesse, mas para não quebrar aquele
espírito de camaradagem que existia entre eles. Ficou a observá-lo
por mais alguns momentos e depois deu vazão a seus próprios
pensamentos.
O que Johnny lhe contara sobre Miranda a aborrecera mais do que
queria admitir. Era muito fácil convencer-se, como já tentara, que
Miranda e Stewart eram apenas amigos, que o brilho que vira nos
olhos de Miranda era fruto de sua imaginação. Mas geléias e malhas
de tricô não podiam ser frutos de imaginação. Eram objetos
palpáveis que podiam ser comidos e usados e Emma sabia que uma
mulher não se submete a tricotar um pulôver para um homem a não
ser que ele signifique algo em sua vida.

Livros Florzinha - 68 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

Lembrou-se da insinuação de Lance sobre Stewart querer colocá-la


contra Miranda para que a outra garota ficasse com ciúme. Uma
parte de seu ser, a parte insegura, perguntava-se se isso não seria
verdade. Se não fora por esta razão que ele a levara para Pretória.
Mas no fundo do coração sabia que não era por isso. Não podia ter
imaginado a expressão dos olhos de Stewart quando a vira usando o
vestido cor-de-rosa, nem a maneira como ele a segurava para
dançar. Sabia disto instintivamente, como uma mulher sabe quando
um homem se sente atraído por ela.
Mas. . . tivera tanta certeza que ele ia dizer-lhe que a amava.
Naquela época, tinha-se perguntado por que ele se controlara. Teria
algo a ver com Miranda? Existiria algum sentimento especial por
Miranda? Stewart a amava, Emma tinha certeza, mas seria possível
que ele estava apenas lhe pregando uma peça?
- Está na hora de irmos embora - disse Emma afinal.
- Ora, bobagem! - Johnny estava desapontado. - Ainda não terminei.
Eu sei, querido, mas está na hora do almoço. Voltaremos aqui outra
vez?
- Lógico que sim.
Minhas aulas logo começarão - suspirou ele.
Oh, Johnny - Emma riu. - Ninguém poderá dizer que você
não é persistente. Nós viremos, prometo.
Voltaram ao campo e quando Emma perguntou se Johnny gostaria de
voltar ao laguinho dos hipopótamos naquela tarde, o garoto
respondeu que não poderia. Depois de almoçar e descansar um
pouco, Emma resolveu ir ao lugar que Stewart lhe mostrara.
O lugar era tão bonito quanto se lembrava. Instalou-se perto do rio,
escondida da margem onde os animais iam beber água, mas com uma
visão e um ângulo para a máquina fotográfica perfeitos.
A tarde estava maravilhosa e poderia tirar mais fotografias do que
já tivera oportunidade.
Surpreendeu duas girafas vindo para o rio com seu andar digno.
Emma adorava vê-las beber água. As duas pernas traseiras retas e

Livros Florzinha - 69 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

as da frente abertas uma para cada lado, enquanto o pescoço


gracioso se curvava para a frente e para baixo. Que animal belo e
majestoso era a girafa! Emma achou que nunca se cansaria de
observá-las.
Um bando de impalas foi para a água e embora Emma já os tivesse
visto diversas vezes, cada vez que os via novamente pensava como
eles eram graciosos, quase como se tivessem acabado de sair de um
salão de beleza. Quando os impalas desapareceram atrás dos
arbustos, apareceu um grupo de zebras, tímidas, fortes e muito
bonitas, junto com seus amigos os gnus, que sempre pareciam ter
levantado da cama de manhã sem pentear os cabelos.
O fim da tarde já estava chegando, quando viu o leopardo. Não o
vira aproximar-se, mas de repente o percebera numa árvore.
Tremendo de excitação, deixou a máquina fotográfica pronta,
esperando um momento em que o leopardo descesse da árvore. Era
um animal mais raro do que um leão, descobrira, um animal pouco
visto, pois se escondia sempre nas árvores e caçava à noite.
Naquele lugar maravilhoso a fotografia de um leopardo seria um
trofeu especial. Emma perdeu toda a noção de tempo enquanto
esperava. Finalmente, quando começava a pensar que ele nunca se
moveria, o animal saltou e, com uma graça felina, caminhou em
direção à água. Click! Tirou a fotografia, feliz por ter arrumado a
câmara na beira da janela para que não houvesse o perigo de a
fotografia sair fora de foco. Quem poderia dizer quando teria
outra oportunidade como aquela?
Feliz, guardou a máquina fotográfica, ligou o carro e seguiu a
estrada dos guardas-florestais em direção à estrada principal que
levava para Skukuza.
Emma ficou surpresa quando, ao sair do lugar onde estava, viu o
pôr-do-sol. Devia ser mais tarde do que imaginava. Quando olhou
para o relógio, percebeu que perdera
a noção do tempo enquanto esperava que o leopardo se movesse. O
sol emitia seus últimos raios e ela sabia que quando ele sumisse no

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

horizonte escureceria rapidamente. Ainda estava longe do campo e


precisava apressar-se.
Alguns quilómetros antes de chegar a Skukuza, uma massa cinza
saiu da mata e caminhou para a estrada, na frente do automóvel.
Um elefante. Chocada, Emma percebeu que não o tinha visto logo.
Como já estava escurecendo, não fora possível distingui-lo da
paisagem. Brecou o carro e pegou a máquina fotográfica. Daria uma
bela fotografia! Um elefante a tão pouca distância - excelente para
o livro de Sam. Ficou desapontada quando observou o fotômetro e
percebeu que já estava muito escuro. Mas resolveu aproveitar a
oportunidade e bateu a fotografia.
Guardou a câmara e esperou que o elefante saísse. Mas o enorme
animal não mostrava sinais de que iria se mover. Estava com a
tromba enrolada no galho de uma árvore que se inclinava para a
estrada e Emma podia ouvir os ramos e as folhas estalando
conforme a tromba apertava mais o galho.
Impaciente, chegou mais perto, achando que poderia ultrapassar o
elefante, por um lado da estrada. Vendo o que Emma estava prestes
a fazer, o elefante desenrolou a tromba, levantou-a e, movendo as
orelhas rapidamente, deu um barrito. Completamente apavorada,
Emma fez marcha à ré por alguns metros, deixando o motor do
carro ligado, no caso de ter que fugir do elefante enraivecido.
O animal olhou-a por um momento e voltou a enrolar a tromba no
galho. Já estava quase completamente escuro e embora ela
soubesse que não teria dificuldades em encontrar o caminho de
volta, estava começando a sentir-se apreensiva. Fazia já algum
tempo que não passava nenhum carro. E se o elefante decidisse
ficar ali a noite inteira?
Finalmente, levantando a tromba, o enorme animal saiu da estrada.
com um suspiro de alívio, Emma retomou o caminho para Skukuza.
Já era noite e, como as estradas não eram iluminadas, a paisagem
era bastante sinistra. De vez em quando alguma forma se destacava
e Emma diminuía a velocidade, perguntando-se se era um animal, até

Livros Florzinha - 71 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

perceber que se tratava apenas de um arbusto. Temia bater em


algum elefante, mas como seus olhos se acostumaram à escuridão,
esperava ser capaz de ver um animal numa distância razoável.
Afinal as luzes de Skukuza apareceram no horizonte e ela percebeu
que podia ficar mais tranquila. A viagem de volta tivera seus
momentos assustadores, mas nada de
anormal acontecera. Queria apenas entrar no campo, tomar um
banho, comer algo e ficar perto da cerca ao lado do rio sentindo o
frescor da noite.
Chegando em Skukuza, descobriu que os portões estavam fechados.
Dentro do campo estava um vigia e a sua volta um grupo excitado de
crianças, ansiosas para ver o que iria acontecer.
- Poderia abrir o portão para mim, por favor? - pediu.
Nenhuma resposta.
- Quero entrar. O senhor poderia abrir o portão? - Passaram-se
alguns momentos antes que ela percebesse que o portão não seria
aberto até que se tivesse realizado
algumas formalidades.
- Tive um problema - tentou explicar. - Havia um elefante na
estrada. . .
Também não obteve resposta dessa vez. Tinha que ter chegado ao
campo na hora regulamentar. Estava trinta e cinco minutos
atrasada, portanto teria que ser multada.
O vigia começara a discutir com ela, quando Emma viu Stewart vindo
em direção ao portão. - Stewart! - gritou ela aliviada. -- Você pode
me ajudar?
- Ajudar em quê? - perguntou ele com uma severidade na face que
não lhe era habitual.
- Esta senhora está atrasada - disse o vigia. - Esta trinta e cinco
minutos atrasada. Precisa ser multada antes de entrar no campo.
- Foi o elefante. Sabem... - Emma olhou para os dois homens. Teria
cometido um crime tão terrível assim? - O elefante ficou na
estrada, pelo menos quinze minutos e eu não pude passar. Ele

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
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poderia ter se enfurecido e...


- Mas você não está só quinze minutos atrasada - comentou Stewart
e sua voz estava completamente impessoal; era a voz de um
estranho. - O que aconteceu com o resto do tempo?
- Perdi a noção do tempo. - Percebeu que o desespero tomara conta
de sua voz. - Fui até aquele lugar que você me mostrou, vi um
leopardo e quis fotografá-lo.
- Você desobedeceu as regras do campo por causa de uma
fotografia? - Virou-se para o vigia. - Faça a multa.
- Bem, ela está trinta e cinco minutos atrasada. . .
- Quarenta pelo meu relógio - disse Stewart,
- Vamos deixar pelos trinta e cinco? - perguntou o vigia.
- Quarenta. - Stewart virou-se e afastou-se sem olhar para ela. A
garota sentia-se mal quando o portão foi aberto para que
entrasse.
Havia acontecido muitas coisas - o modo de dirigir no escuro, o
choque de encontrar o portão fechado, a multidão que se
aglomerara, tão interessada no que estava
acontecendo. Mas o pior de tudo era o choque pela omissão de
Stewart.
Não conseguia pensar na atitude de Stewart de outra forma.
Quando o vira caminhando em direção
ao portão, pensou que ele a ajudaria. Mas ele apenas piorara as
coisas,
dissera que ela estava quarenta minutos atrasada quando o vigia
disse que eram apenas trinta e cinco.
Não era a multa que a deixava aborrecida. Tinha chegado atrasada
e as regras precisavam ser obedecidas. Era a humilhação e, mais
ainda, o comportamento frio e distante de Stewart que a aborrecia.
Não conseguia compreendê-lo. Havia muita coisa naquele homem
alto e forte que não conseguia entender. Algumas vezes era tão
terno, seu rosto e seus olhos pareciam falar as palavras que seus
lábios não pronunciavam. Outras era tão autocrítico que não era

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

possível argumentar com ele.


Lembrou-se da primeira vez que o encontrara, quando descera do
carro para fotografar os impalas. Naquela vez, agora reconhecia,
Stewart tivera razão em ficar furioso. Mas hoje, embora ela
soubesse que tinha desobedecido as regras do campo, não conseguia
deixar de se perguntar se um homem que sentisse algo mais do que
amizade por uma mulher não teria se dobrado um pouco.
Fechou os olhos e tentou lembrar-se da noite em que haviam
dançado em Pretória. Aquele era o primeiro dia que passava em
Skukuza de volta da viagem e a noite anterior e aquelas outras
maravilhosas que desejava que nunca tivessem terminado, pareciam
ter acontecido há milhões de anos.
Talvez devesse abandonar o parque e voltar para a Inglaterra. Mas
logo deixou este pensamento de lado, pois a Inglaterra significava
infelicidade e Jimmy. Então lhe ocorreu outro pensamento. Skukuza
não significaria infelicidade e Stewart?
Junto a esses pensamentos, ocorreu-lhe que tinha uma obrigação
para com Sam, o amigo de seu pai. Sam a encarregara de tirar as
fotografias para o livro. Era verdade que ele lhe pedira tal coisa
porque sabia de sua necessidade de sair da Inglaterra, mas, de
qualquer forma, tinha obrigação de tirar as fotografias. Sam achava
que ela as estava tirando, esperava por elas e não podia decepcioná-
lo agora.
Estava perto da cerca ao lado do rio, pensando em tudo isso, quando
Lance se aproximou.
- Você não me parece muito feliz, pequena - comentou ele. Emma
fitou-o. Seria possível que a história se espalhara tão
depressa?
- Sinto muito que isso tenha acontecido - disse ele, adivinhando
a pergunta nos olhos da garota. - Mas eu a avisei quanto a Stewart,
não foi?
- O que eu fiz foi tão terrível? - perguntou. - Foi?
Bem, é uma regra do campo - disse ele em dúvida -, mas

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onde se tem amigos. . . Sei o que eu teria feito no lugar de Stewart.


paria com que a multa não fosse efetivada.
Tentei explicar. . . Havia um elefante na estrada. E antes disso,
vi um leopardo numa árvore e quis tirar uma fotografia. Foi assim
que tudo começou. Sabendo que os leopardos são tão raros, fiquei
pensando que fotografia maravilhosa poderia tirar e... você
compreende, Lance?
- Sim - disse ele com simpatia - compreendo. Sei como a gente se
sente quando deseja muito alguma coisa. Conheço muito bem essa
sensação, Emma.
Emma fitou-o por um momento, sem compreender. Havia tanto
significado naquelas palavras, que Emma percebeu que ele estava
tentando insinuar algo, mas já tinha muito em que pensar e não
poderia preocupar-se com outra coisa.
- E o tempo passou - continuou ela, como se não percebesse o que
Lance tentava dizer-lhe. - O vigia disse que eu estava trinta e cinco
minutos atrasada, mas Stewart disse que eu estava quarenta. Ele
queria que eu tivesse uma multa mais pesada.
- Humm - Lance meneou a cabeça com simpatia.
- Não é o fato de ter pago uma multa que me magoou. Desobedeci
uma regra e é assim mesmo. O que me magoa é ele ter se
comportado daquela forma. Não consigo entender, Lance. O que o
fez agir assim?
- Não sei. Emma, gostaria de jantar comigo? Não a tenho visto
muito ultimamente, pois meus horários estão um pouco
descontrolados e quando eu tive uma folga você tinha viajado com
Stewart. . .
Tudo o que Emma queria era deitar-se, mas disse, quase num
desafio, como se falasse com Stewart, e não com o homem que
estava a seu lado. - Sim, obrigada, Lance, gostaria muito.
Lance preparou um braai para eles e tentou fazê-la distrair-se.
Emma nem sentia o gosto da comida, embora percebesse o esforço
do rapaz em agradá-la e o apreciasse.

Livros Florzinha - 75 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

Depois foram caminhar pelo campo. Estava tudo muito parecido com
aquele primeiro passeio que fizeram juntos, com a única diferença
que naquela primeira noite tudo era novidade e encantamento e
agora se sentia chorando um milhão de lágrimas dentro de si, onde
ninguém poderia vê-las.
Emma sentiu que encontrariam Stewart e depois de algum tempo o
viu caminhar em sua direção. A garota sentiu-se congelar. Como
se percebesse a aflição de Emma, Lance tomou-lhe a mão e, sem
uma palavra, continuaram a caminhar. Stewart aproximou-se deles
propositadamente, sem sorrir, e, como num desafio, Emma não
iargou da mão de Lance. Como ela esperava, Stewart não teve
reação alguma. Como se ela não fosse mais do que uma conhecida
qualquer, cumprimentou-os e continuou.
Foi naquele momento que a idéia que estivera crescendo em sua
mente tornou-se clara. Disse para Lance, num tom de voz casual:
- Estava pensando. . . você acha que eu poderia passar alguns dias
em algum outro campo?
Lance largou sua mão e, quando falou, sua voz estava sardónica.
- Para fugir de Stewart?
- Deus do céu, não! - Emma fitou-o com uma perplexidade de
fingida. - Oh, é claro que eu fiquei aborrecida com o que aconteceu
essa noite, mas Stewart não significa
nada para mim. Não o deixaria afugentar-me de um lugar que
quisesse ficar.
- Tem certeza?
- Bem, claro que sim. - Ela riu e ouviu um som irritadiço. Somos
todos adultos. Stewart tem suas próprias maneiras de fazer as
coisas e eu não tenho nada com isso. Além do mais - deu um suspiro
-, existe Miranda, não é?
Lance ficou em silêncio por alguns momentos com uma estranha
expressão no rosto. - Sim, existe Miranda.
- Bem, voltando ao assunto de ir para outro campo. Quero conhecer
o parque um pouco mais. Ainda não estive no norte. O que você

Livros Florzinha - 76 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

sugere que eu faça? Para onde você acha que devo ir?
- Existem muitos campos para onde você poderia ir - disse ele
devagar. - Shingwidzi, Letaba, Punda Milia. A questão é se tem vaga.
- Oh.
- Os campos ficam muito cheios nessa época do ano. Olhe Lance
pegou-lhe o braço -, amanhã de manhã verei o que posso fazer por
você.
- Oh, Lance, obrigada! - sorriu agradecida, pensando no quanto ele
estava bonito ali sob o luar e no quanto era gentil. Não conseguia
imaginá-lo tendo um comportamento arrogante. Beijou-o na face,
levada por um impulso. - Obrigada, Lance.
- Obrigado a você, querida - disse ele com seriedade. - Gostaria de
poder pensar que seu beijo tivesse outro significado. Mas para mim
eles nunca terão, não é?
Emma fitou-o sem dizer nada, sentindo as lágrimas subindo-lhe aos
olhos.
- Ora, vamos - disse ele gentilmente sentindo toda a infelicidade
contida no íntimo da garota. - vou levá-la até o chalé e amanhã lhe
direi se consegui alguma coisa para você.
Uma hiena riu perto da cerca do campo naquela noite; um som agudo
e terrível que quase levou Emma à loucura. Era como se o animal
estivesse rindo dela. "Sua tola, sua tola!" O animal parecia gritar. A
garota afundou a cabeça nos travesseiros para não escutar mais.
De repente se sentiu tremendamente só e triste. Começou a chorar.
Chorou e chorou durante horas, pareceu-lhe, e, quando acordou na
manhã seguinte, viu que o travesseiro estava molhado.

CAPITULO V

- Você está com sorte. - Lance estava alegre naquela manhã, com
sua roupa em estilo safári e mechas de cabelos caindo-lhe na testa.

Livros Florzinha - 77 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

Emma notou a boa aparência do


rapaz.
- Oh, Lance, você achou alguma coisa?
- Shingwidzi. - Agrada-lhe?
- Oh sim, lógico - Emma sorriu.
- Apenas uma coisa - disse ele -, você terá que dividir o quarto com
alguém.
- Oh! - Emma sentiu-se um pouco desanimada, pensando na maneira
como dera vazão às lágrimas na noite anterior. Seria difícil ficar
sem sua privacidade. - Suponho
que não exista outra maneira. . .
- Receio que não. Todos os campos estão completamente lotados. Na
verdade, muitas pessoas não têm conseguido alojamento. Isso. . .
bem, isso é o que tem acontecido. Duas garotas dividiam um bangalô
em Shingwidzi. Trabalham no campo. Uma delas ficou doente, teve
que ir para o hospital e assim uma cama ficou vaga.
- Sim... - disse ela com vagar.
- Pense bem sobre isso, Emma. Você não precisa aceitar esta
proposta, se não quiser. Você pode ficar aqui, sabe disso.
- Não - disse, decidindo-se rapidamente. - Já é tempo de esticar um
pouco minhas asas. Aceito, Lance.
- Nesse caso, sugiro que você vá para lá o mais rápido possível.
Shingwidzi fica muito longe daqui. Você levará um dia de viagem e
precisa sair o mais depressa que puder.
- Está certo. Não quero chegar quando os portões estiverem
fechados. - Sorriu com tristeza.
- Quando voltará? Você voltará?
- Sim. Quero apenas me afastar um pouco daqui, ver outras pessoas,
outras paisagens. Você entende, não é? - disse ela, suplicante.
- Penso que sim. Adeus, Emma. - Lance inclinou-se e beijou-a
levemente. - Boa sorte.
A garota foi até a cerca ao lado do rio e permaneceu em silêncio
durante alguns momentos, observando a água e a mata. Iria deixar

Livros Florzinha - 78 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

aquela paisagem que aprendera a amar tanto. Longe, três girafas


caminhavam vagarosamente para o rio. Emma desejou permanecer
no mesmo lugar para observá-las um pouco, mas, lembrando-se dos
avisos de Lance, virou-se e caminhou para o chalé.
Não demoraria muito para arrumar suas coisas e felizmente ficara
combinado que ela poderia ter o chalé de volta quando quisesse, mas
mesmo assim se sentia desolada quando saiu carregando a mala.
Depois de deixar a bagagem no carro, saiu à procura de Johnny.
Não podia ir embora sem algumas palavras de despedida para o
garoto. A face de Johnny brilhou quando a viu e Emma disse: - Olá,
estava procurando por você.
- O que você acha de irmos à represa hoje? - perguntou ansioso.
- Não, Johnny. Vim aqui para dizer-lhe adeus.
- Adeus? - o garoto exclamou incrédulo. - Mas você vai ficar aqui
durante três meses!
- Não estou indo embora do parque - explicou ela. - Estou apenas
indo para Shingwidzi.
- Você não pode ir até lá para voltar no mesmo dia - advertiu-a.
- Pretendo ficar por lá.
- Oh! - A face do garoto mudou e embora parecesse desapontado
havia também um pouco de esperança em sua expressão. É. . . é por
causa do que aconteceu ontem à noite?
- Lógico que não - disse ela sorrindo, querendo descobrir como ele
soubera da história.
- Você... você tem certeza?
- Tenho, Johnny.
- Você voltará?
- Provavelmente - disse, cheia de cautela. - Quando?
- Não sei. Tudo depende... - interrompeu-se. - Depende de mim, de
Stewart, caso eu consiga encará-lo novamente. Depende se eu
conseguir ficar sem vê-lo.
- Você vai despedir-se de Stewart? - Johnny chutava a areia com
tristeza.

Livros Florzinha - 79 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Não, Johnny.
- Mas, Emma...
- Stewart teve suas próprias razões para fazer o que fez ontem
- disse ela - assim como eu tenho as minhas para ir para Shingwidzi.
Acredito que não seria uma boa idéia ir despedir-me dele.
Emma. . . - começou Johnny.
Preciso ir, Johnny - disse com delicadeza. - Não quero
chegar atrasada hoje à noite. Vejo você quando voltar. Aí
poderemos ir ao laguinho dos hipopótamos outra vez e você poderá
terminar seu desenho.
Emma afastou-se rapidamente, sem olhar para trás, tentando
esconder as lágrimas de seus olhos e esforçando-se para não pôr de
lado a decisão que tomara.
Poucos minutos depois, ultrapassava os grandes portões de
Skukuza, tomando a direção do norte. Satara, Letaba, Shingwidzi,
Punda Milia
os campos que estavam situados no centro e no norte do parque.
Os nomes desfilaram em sua mente e em outra ocasião, com outro
estado de espírito, teria ficado encantada com o simples som
daquelas palavras. Mas durante a primeira meia hora de viagem,
sentiu-se muito deprimida.
O sol já estava alto. Aquele era um bom dia para viagens, para ver
animais, pois em curto período de tempo já vira uma hiena saindo de
entre alguns arbustos, parara para ver um antílope e apreciar várias
famílias de macacos e babuínos brincando nas árvores.
Depois de algum tempo ficou impaciente consigo mesma. Estava
sendo ridícula. Viera para a África para fugir de um amor infeliz e
lá estava fugindo de outro. Tinha que ser severa para consigo
mesma. Apreciaria a viagem até Shingwidzi, assim como apreciaria
sua permanência lá. Talvez voltasse para Skukuza, mas no momento
viveria e desfrutaria as coisas que lhe aparecessem, tentando não
pensar num homem que não fora feito para ela.
Não podia dar-se ao luxo de perder muito tempo com a máquina

Livros Florzinha - 80 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

fotográfica naquele dia. Se visse algo muito especial, pararia por


alguns minutos, mas caso contrário precisava seguir viagem para
chegar a Shingwidzi antes do pôr-do-sol.
A aparência frágil de Emma ocultava uma rigidez de caráter que
poucas pessoas seriam capazes de suspeitar. Quando resolvia
alguma coisa, fazia o que estava ao seu alcance para levar isso
adiante. Agora, tendo decidido não pensar mais em Stewart e
concentrar-se na paisagem que tinha a sua volta, começava a sair do
estado de depressão em que se encontrava antes.
Ficou profundamente interessada pela mata, pelas acácias, pelos
arbustos de espinheiro e pela grama longa. A mata a conquistara em
tão pouco tempo que ela agora compreendia como uma pessoa, tendo
passado a vida naquelas paragens, podia amá-la tanto que nunca mais
se contentaria em viver nos limites estreitos de uma cidade.
A estrada fez uma curva para o norte e Emma percebeu que
começava a entrar numa nova parte do parque, mais tropical e mais
bonita. Começou a ver mais girafas e, como sempre, ficou
hipnotizada ao ver novamente a graça e a dignidade majestosa
daquele animal.
Parou uma vez, esquecendo-se da decisão de não tirar fotografias
naquele dia, e pegou a câmara. Numa clareira, não muito longe da
estrada, um enorme bando de zebras e gnus pastava. Emma já
descobrira a estranha afinidade que havia entre as duas espécies
de animais. Assim, com muita frequência, onde havia um grupo de
zebras pastando, um outro de gnus estaria por perto. Stewart
falara-lhe sobre a timidez das zebras e Emma parou o carro o mais
silenciosamente que pôde para olhá-las. Eram tão parecidas com
cavalos, com suas pernas fortes, corpos bonitos e as encantadoras
listras claras e escuras. Tirou algumas fotografias, sabendo que
talvez não tivesse outra oportunidade como aquela e depois colocou
o carro em movimento, seguindo viagem.
Parou em Satara. Ouvira falar tanto naquele pequeno campo que
desejava conhecê-lo. Não comera nada naquela manhã e, agora que

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

se sentia reanimada, a fome parecia ter chegado. Resolveu comer


algo em Satara antes de continuar a viagem.
Estacionou o carro à sombra de uma árvore e passeou um pouco pelo
campo, antes de ir até o restaurante. Encantava-se com tudo o que
via. com enormes árvores e gramados cheios de flores, o campo era
muito atraente. Para ela, Skukuza, com suas múltiplas facilidades,
era ideal, mas sentiu que Satara devia ser encantador para passar
alguns dias de descanso. Depois de ter passeado um pouco, foi para
o restaurante, sentou-se debaixo de uma árvore florida, pediu chá e
um sanduíche e depois, com tristeza, voltou ao carro e continuou a
viagem.
Passou por Letaba, um campo mais antigo, e embora tivesse vontade
de parar ali também, precisava continuar a viagem, pois ainda estava
longe de Shingwidzi.
A paisagem continuava tornando-se cada vez mais tropical, com
árvores enormes, palmeiras e pássaros exóticos cantando e os
galhos quebrados eram testemunha das grandes manadas de
elefantes que vagavam pela região.
Chegou a Shingwidzi. Foi até o escritório e apresentou-se.
- Srta. Anderson. . . - Estava sendo esperada e foi tratada com
muita cordialidade. - Lance, de Skukuza, nos avisou que você
chegaria. Não foi muita sorte termos uma vaga?
- Eu dividirei um chalé com alguém? - perguntou Emma.
- Sim. Uma de nossas garotas teve uma apendicite repentina e
que ser levada para o hospital na cidade mais próxima. Vamos, edírei
que alguém lhe mostre o quarto.
Um pouco apreensiva, Emma foi para o chalé. Ficara tão feliz ter
conseguido um lugar só para ela em Skukuza, que se perguntou
se a garota com quem ficaria não
se ressentiria, se não a consideraria uma intrusa.
Mas todos seus temores se dissiparam logo que viu Rose. A outra
garota estava ocupada em guardar roupas quando Emma entrou.
- Olá! - Um sorriso encantador brilhou na face bronzeada. -

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

Você deve ser Emma. Eu sou Rose. Trabalho no escritório. Céus,


esta mala parece pesada! Deixe-me colocá-la sobre a cama e depois
lhe mostrarei onde pode guardar suas coisas.
Emma estava aliviada. Gostou da outra garota de imediato. Havia um
brilho especial em seus olhos e uma curva bem-humorada nos lábios,
que a maior parte das pessoas devia achar irresistível.
- Acho que sua amiga está doente... - Emma começou a dizer.
- Oh, sim - curvou os lábios de modo caprichoso. Começou a sentir-
se mal a noite passada. Sandy disse que estava com dor-debarriga.
Bem, ela havia comido como um verdadeiro glutão. Tínhamos comido
braai com alguns amigos e eu disse que ela tinha ganho alguns quilos.
Então a dor começou a piorar e eu acordei e a vi chorando de dor.
Bem, isto não é comum em Sandy e assim percebi que ela estava
mesmo doente. Pobrezinha, teve uma apendicite aguda e só depois
de algum tempo é que poderá voltar para cá.
- Que pena! - comentou Emma, imaginando que viagem terrível a
garota devia ter feito para ser levada ao hospital. - Espero que
Sandy não se importe que eu fique em seu lugar enquanto não está
aqui.
- Céus, é claro que não! E eu estou encantada por você estar aqui.
Não suporto ficar sozinha. Sou uma tagarela, como dizem meus
amigos. Meus inimigos falam outras coisas, mas nem vou lhe contar
porque seremos amigas, não?
- Lógico que sim. - Emma começou a rir. Aquela garota lhe faria
muito bem. Seria muito difícil continuar deprimida perto de uma
pessoa tão esfuziante.
- Ótimo. Você é fotógrafa, não é?
- Como sabe?
- Lance contou quando telefonou de Skukuza. Disse que se tratava
de uma prioridade para uma excelente fotógrafa vinda da
Inglaterra.
- Lance exagerou - disse Emma rindo, feliz por Lance não ter
contado a verdadeira razão por querer afastar-se de Skukuza. - É

Livros Florzinha - 83 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

verdade que estou aqui para tirar fotografias, mas não sou nenhuma
excelente fotógrafa.
- Para que são as fotos? - perguntou Rose.
- Para um livro. Um amigo inglês está escrevendo um sobre suas
experiências que teve aqui no parque e eu farei as fotografias.
- Ah! Acho que então Lance não exagerou tanto. Terminou Emma?
Oh, aquele vestido, coloque-o no cabide junto com o
meu. Estou livre agora. Vamos, vou apresentá-la
aos outros.
A tarde já chegara ao fim depois de Emma ter guardado suas coisas
e ter tomado um banho e ter sido apresentada por Rose a
diversos jovens do campo. Agora estava escuro e,
sentada perto de uma mangueira, comendo um pedaço de
boerewors, Emma deixava que sensações do novo ambiente
tomassem conta de si.
Todos os temores de ficar sozinha e desolada haviam se dissipado,
primeiro quando conhecera Rose e agora, um pouco depois,
quando fora apresentada para um grupo de jovens que passaria
alguns dias no parque e que as convidara para comer um braai.
O jantar foi divertido. Os rapazes ficavam perto da fogueira,
segurando os longos espetos com carne e as anedotas e risadas
eram frequentes.
Quando terminaram a refeição, sentiam-se felizes e um deles pegou
um violão e começou a tocar. Os primeiros acordes foram suaves e
tristes e por alguma razão trouxeram
lágrimas aos olhos de Emma, que ficou contente por estar escuro e
os outros não perceberem.
Mas depois de alguns momentos, o estado de espírito do rapaz
começou a mudar. A música tornou-se mais rápida e alegre e os
outros começaram a acompanhá-la batendo
palmas ritmadas e, quando ele começou a tocar músicas conhecidas,
passaram a cantar. Enquanto Emma não conhecia as letras, ficou
quieta, prestando atenção nas canções

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

tradicionais, apreciando o ritmo e a afinação das vozes, mas depois,


quando ouviu músicas que já conhecia, também passou a cantar.
Depois de algum tempo, começou a esfriar. Os dias eram muito
quentes, com o sol brilhando vigorosamente, mas as noites eram
bastante frias. Ainda havia algumas brasas
brilhando na fogueira e Emma aproximou-se mais para esquentar-se.
Após alguns momentos, estas também se apagaram.
O campo estava em silêncio. As crianças já dormiam há bastante
tempo e os adultos já haviam terminado de conversar e de tomar
cervejas e começavam a se arrumar para
deitar. No parque as pessoas sempre dormiam cedo, pois
pretendiam levantar-se antes do nascer do sol.
Já estava na hora do pequeno grupo dispersar-se e cada um ir pára
seu chalé. Fora uma noite agradável e Emma estava surpresa por
perceber o quanto se divertira.
- Bem, pessoal, vejo-os amanhã. - O rapaz do violão levantou o
instrumento mais uma vez e todos cantaram uma música de boa-
noite. Emma e Rose foram para o bangalô.
Aquele fora um dia cansativo e emocionante. Enquanto estava
sentada perto da fogueira, não percebera seu cansaço, mas quando
se deitou e se cobriu a fadiga a dominou.
Estava tão exausta que não tinha sensação alguma e, embora a face
bronzeada de uma figura alta dançasse perante seus olhos, Emma
adormeceu depois de alguns minutos.
Quando acordou na manhã seguinte, Rose já havia saído. Emma
surpreendeu-se ao perceber que o sol já brilhava alto no céu e,
quando abriu as cortinas, viu que muitos
carros já haviam saído. Devia estar realmente muito cansada.
Entretanto, agora, depois de várias horas de um sono profundo,
sentia-se reanimada e ansiosa por sair. Vestiu-se e saiu do quarto
para preparar um desjejum. Queria ficar tranquila naquele dia, sem
preocupar-se em sair cedo para tirar fotografias.
A sensação de bem-estar com que acordara parecia ter-lhe afetado

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

o apetite e, apesar do braai delicioso que comera na noite anterior,


sentia muita fome. Preparou dois ovos com toicinho e uma xícara de
café. Depois de se alimentar, saiu a passeio pelo campo.
Chegara tão tarde no dia anterior e estava tão ansiosa por
instalarse que prestara pouca atenção ao campo e agora, encantava-
se com tudo o que via. Shingwidzi era completamente diferente dos
outros campos que vira, e, talvez mais do que os outros, possuía
características e um charme todo especial.
A atmosfera do campo era tropical. Belas árvores e palmeiras
cresciam e floresciam em todos os lugares. Os passarinhos que vira
em Lower Sabie existiam ali em profusão
e ficavam procurando farelos de pão ou algo que lhes agradasse
pelo chão. Era um campo maravilhoso e Emma percebeu que seria
muito fácií começar a amá-lo.
Quando afinal decidiu sair de carro e pegou a estrada em direção a
Punda Milia e Pafuri, que ficava no extremo norte do parque, Emma
viu o quanto a paisagem era diferente de tudo o que já vira.
Nos dois lados da estrada havia uma floresta, densa, verde e
impenetrável. Achou que era impossível se ver qualquer animal a não
ser que eles fossem para a estrada. Dirigia com muito cuidado, pois
a estrada era estreita e cheia de curvas. Temia não só ir de
encontro a carros que viessem em sentido contrário como também
chocar-se contra algum elefante no topo de alguma subida ou depois
de virar alguma curva.
Aquele era o país dos elefantes! Grandes manadas dos enormes
animais viviam naquela região do parque e os galhos quebrados das
árvores testemunhavam sua presença.
Emma estava fascinada pelas árvores belas e não muito comuns
que via a sua volta. Conseguia identificá-las a partir do livro que
comprara no dia em que conhecera Johnny.
Na estrada que seguia eni direção a Pafuri, viu a árvore mais
interessante de todas, enorme, com um tronco gigantesco e galhos
finos que se enrolavam por toda parte. Era uma árvore que parecia

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

ter nascido no começo do mundo. Emma até podia imaginar criaturas


préhistóricas construindo suas casas no tronco da árvore como se
fosse uma caverna.
Folheou as páginas do livro até encontrá-la. Era um baobá! Stewart
já lhe falara sobre aquela árvore, dissera que esperava levá-la para
a região norte algum dia a fim de vê-la. Naquele momento,
perguntara-se o que tornava aquela árvore tão especial. Agora
compreendia. Por um longo tempo, ficou parada a contemplá-la. Era
notável a circunferência do tronco, sua dignidade e sua aparência
pré-histórica. Mesmo que só tivesse visto aquela árvore, a viagem
pela estrada de Pafuri valeria a pena.
Emma logo acostumou-se à vida naquele belo campo do norte e
percebeu que se sentia feliz ali. Afeiçoara-se muito a Rose, sua
companheira de quarto, os dias eram
cheios e as noites, ao lado da fogueira ouvindo violão e cantando,
muito divertidas e alegres.
Só à noite, ao deitar-se, pensava em Stewart. Perguntava-se quanto
tempo levaria para esquecê-lo. Será que algum dia conseguiria
isso? Normalmente, contra a vontade,
lembrava-se das noites em que dançara com ele, da felicidade que a
envolvera em Pretória. Depois
voltava à realidade e perguntava-se por que Stewart a fizera ser
punida? Desobedecera uma regra do campo, isso ela sabia. Também
sabia
que era correto ter pago por isso. O que não conseguia
compreender en por que Stewart se comportara
daquela maneira, nem querendo ouvir as explicações de seu atraso.

CAPITULO VI

O tempo passou e uma manhã Emma ficou perplexa ao perceber que

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
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já estava em Shingwidzi há quase duas semanas.


Fazia muito calor. As nuvens estavam pesadas e o mormaço
opressivo a fez voltar ao campo mais cedo. Foi até o chalé, guardou
a máquina fotográfica e seguiu para o restaurante a fim de tomar
uma xícara de chá e comer alguma coisa.
Bebeu o chá lentamente e comeu o sanduíche, sem sentir-lhe o
gosto. Os pequenos pássaros azuis pulavam em volta, esperando que
alguém se distraísse. Emma perguntou-se se apenas o mormaço
contribuía para sua sensação de apatia.
pensou no que faria aquela tarde. Durante os últimos dias
percorrera as estradas que seguiam de Shingwidzi para Pafurí,
Punda Milia e Babalala ao norte, para Tsange Hill com sua paisagem
encantadora e a bela Shawo River ao sul. Mas, naquele dia, nenhum
destes passeios a atraía.
Estava com saudades de Skukuza e já sabia disso há alguns dias,
não só por causa de Stewart - sentia mais sua falta do que ousava
admitir - mas também porque aquele era um campo central, onde
havia mais atividades.
Logo que chegara a Skukuza, descobrira a livraria e, a partir do
crescente interesse pelo parque e pelos animais, começara a fazer
bom uso dos livros. Cada vez mais Emma ficava fascinada com a
mata. Longe de se acostumar à imensidão e ao mistério do parque,
achava-o cada vez mais fascinante. Estava aprendendo a amar os
animais, começando a conhecer seus hábitos e a maneira como
viviam e começava também a compreender por que Stewart
escolhera aquela vida.
Quando terminou de beber o chá, percebeu que ainda estava com
sede e serviu outra xícara.
- Sobrou um pouco de chá para mim? - Por um longo momento, Emma
não acreditou em seus ouvidos e não levantou a cabeça. A voz grave
com tom carinhoso era a que ouvia em seus sonhos todas as noites.
Seria possível que estivesse sonhando? com muito cuidado, colocou
o bule sobre a bandeja.

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Bem, e então? - disse a mesma voz. - Você acha que sobrou um


pouco de chá?
Lentamente, tentando não tremer, Emma levantou a cabeça.
Stewart?. .. - disse cheia de hesitação, temendo que sua voz não
saísse.
- Eu mesmo. Pensou que fosse um fantasma? - As palavras não
tiveram nenhuma entonação especial, mas os olhos tinham a mesma
expressão que na noite em que Stewart a segurara nos braços
sobre a pista de danças.
- Não. .. não compreendo.
- Você ainda não respondeu minha pergunta. - Ele sentou-se.
- Pergunta? - repetiu ela, confusa. - Oh, o chá... Oh, sim, Stewart,
claro que sobrou.
- Fico contente. Estava começando a ficar preocupado.
- Mas o que. . . não compreendo... o que você está fazendo aqui? -
gaguejou ela.
- Johnny e eu estivemos discutindo e resolvemos que já esta na
hora de você voltar.
- Oh, Stewart! - disse Emma e um nó na garganta a impediu de
continuar.
- Bem, Emma, você irá comigo? Ela fitou-o emudecida.
- Você irá, Emma? - repetiu ele.
- Sim! Sim, irei.
- Muito bom. - Stewart sorriu e. Emma notou que ele estava feliz.
- Quando iremos, Stewart? - perguntou.
- Daqui a um dia ou dois. Tenho que tratar de algumas coisinhas
aqui. Qualquer pessoa poderia ter vindo, mas eu resolvi vir.
- Fico contente. Eu não conseguiria ter ido embora.
- Então você realmente gostou de ficar aqui? - fitou-a, curioso.
- Sim. É um campo bonito, não?
- Muito.
- Dividi um quarto com Rose. Você a conhece? Ela foi muito boa
comigo. Deixou-me completamente à voatade, quando não precisava

Livros Florzinha - 89 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
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ter feito isto.


- Rose é uma ótima pessoa - concordou Stewart.
- E conheci outras pessoas. Comemos braais e à noite ficávamos
cantando perto da fogueira.
- Você tem certeza de que quer ir embora? - perguntou ele com
ironia.
- Claro que sim - disse ela, sabendo que tudo o que sentia estava
estampado em seus olhos.
Quando Rose soube que Emma ia embora não ficou surpresa. Então
era Stewart - disse pensativa.
- Por que haveria de existir alguém em minha vida? - indagou Emma.
- Claro que teria. Logo que você chegou aqui, havia uma expressão
em seu olhar. . . como se você tivesse sido magoada. Você parecia
confusa a infeliz e concluí que havia um homem por trás disso.
- Era tão evidente assim? - perguntou Emma com tristeza.
- Muito - disse Rose, delicada. - Stewart é um bom homem, Emma.
Às vezes é rude e grosseiro, mas é excelente pessoa. Espero que as
coisas dêem certo para você.
- Obrigada - disse Emma. - Obrigada por tudo.
A viagem de volta foi maravilhosa e Emma estava feliz por encon
trar-se ao lado de Stewart, vendo o perfil inflexível e as mãos
fortes sobre o volante.
Sabia que as coisas não eram tão simples como Rose parecera
pensar. Sabia que amava Stewart. Este fato, pelo menos, era
simples, claro e sem complicação alguma. Mas e quanto a Stewart?
O que ele sentia? Quando ele a fitava com aquela expressão
carinhosa, Emma achava que ele a amava. Mas se assim fosse, por
que ele fora tão rude? Por que provocara aquela cena no portão?
Quem era Miranda e o que significava para ele?
Não, as coisas não eram nada simples, mas naquele momento já era
suficiente estar ao lado de Stewart outra vez, poder fitá-lo e
saber que estava voltando para o lugar onde ele morava.
Você perdoou o que fiz aquela noite? - perguntou Stewart.

Livros Florzinha - 90 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
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- Se eu conseguisse entender por que você agiu daquela forma. . . -


disse Emma em dúvida.
Ele não respondeu, apenas a fitou com uma expressão
imperscrutável no olhar. Depois de alguns momentos, falou sobre
outra coisa e não mencionou mais o assunto. Emma
percebeu outra vez que as coisas não eram nada simples.
Passaram a noite em Satara onde Emma dividiu um quarto com mais
duas garotas. Sentiu que a noite lhe pertencia quando se sentou
com Stewart em frente a uma fogueira
para comer um braai. Quando terminaram de jantar, foram
caminhar um pouco pelo campo.
Emma tropeçou numa pedra e quase caiu, mas Stewart pegou em seu
braço e a segurou. Quando chegaram em um local escorregadio, ele
passou-lhe o braço pela cintura e segurou-lhe a mão.
As horas passaram muito depressa. Naquela noite Emma não
conseguiu dormir por um longo tempo e ficou ouvindo os ruídos da
mata e compreendeu que se sentia muito feliz.
Chegaram a Skukuza no dia seguinte.
- Vejo-a daqui a pouco - disse Stewart, ao deixá-la no chalé.
- Vá até o restaurante daqui a meia hora para tomarmos chá.
- Ótimo! - com o coração aos saltos, Emma abriu a porta do quarto e
parou, olhando para dentro. Sobre a mesinha ao lado da cama havia
um vaso com uma flor branca
exótica de perfume adorável e ao lado um desenho a aquarela, um
antílope de tons suaves.
- Johnny! - exclamou cheia de alegria. Os presentes eram simples,
mas sinceros e Emma sentiu o coração prestes
a estourar de felicidade. Então era verdade que tinham
sentido saudades dela e que estavam contentes em tê-la de volta.
Guardou suas coisas rapidamente, tomou um banho e saiu em
direção ao restaurante. Como ainda tinha alguns minutos livres
antes de se encontrar com Stewart, resolveu ir cumprimentar
Lance.

Livros Florzinha - 91 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
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- Então você voltou. - A voz de Lance estava tão sardónica que o


sorriso de Emma se congelou nos lábios.
- Não está contente em me ver? - Perguntou, surpresa.
- Muito.
- Então não compreendo, Lance.
- Eu só estava pensando em como acho estranho tudo isso. Stewart
faz uma carranca e você foge. Ele sorri e levanta um dedo e você
volta atrás.
- Não é bem assim - disse, chocada.
- Não? - ironizou Lance e por um momento Emma sentiu-se furiosa
com ele.
- Lógico que não. Minha viagem não teve nada a ver com Stewart.
- Desculpe-me, Emma, pensei que tivesse.
- Lance, você está sendo maldoso! Vim passar três meses aqui para
tirar fotografias, você sabe disso. Eu seria louca se passasse todo
este tempo em Skukuza. Pensei que tivesse lhe explicado.
- Explicou sim - disse ele com frieza.
- Então o que você está querendo insinuar? Por que está com tanta
raiva?
- Não estou com raiva, apenas curioso. Curioso para saber o que
você sente pelo nosso eficiente guarda-florestal.
- Ele é um amigo, Lance - respondeu desanimada - como você.
- E você teria voltado tão prontamente se fosse eu quem tivesse ido
buscá-la?
- Eu voltei - disse ela com tranquilidade - porque achei que estava
na hora de voltar. Não há nada de pessoal em minha atitude, Lance.
Por favor, não faça disso
um problema. Eu estava tão feliz por ter voltado. . .
- E agora eu a deixei furiosa. - Arrependeu-se de imediato. Sorriu,
mostrando os dentes brilhantes. - Desculpe, Emma. Acho que estou
com um pouco de ciúme de Stewart
e não consegui deixar de dizer aquelas coisas.
- Você está com ciúme de Stewart? - perguntou espantada.

Livros Florzinha - 92 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Você gosta muito dele, não?


- Gosto de vocês dois - disse Emma, num tom de voz que não admitia
réplicas.
Lance parecia estar prestes a dizer algo, mas pensou melhor.
- Bem, tudo certo então - disse afinal. - Mas eu gosto de você.
Gosto muito e espero que você se lembre disto.
Emma sentiu-se um pouco deprimida quando foi para o restaurante.
A sensação de bem-estar desaparecera e ela perguntava-se se teria
se metido em novas complicações.
Em Shingwidzi, pelo menos, ninguém cobrava seus sentimentos.
Esperava que não fosse começar tudo outra vez.
Emma parou por um momento na enorme varanda do restaurante,
procurando um rosto familiar entre as mesas. Viu Stewart, que
Levantara o braço musculoso e bronzeado para chamar sua atenção.
Caminhou em direção a Stewart e Johnny, duas pessoas que
aprendera
amar tanto, com o coração aos saltos.
- Johnny! - Abraçou-o e deu-lhe um beijo na face. - Oh, Johnny, que
felicidade vê-lo outra vez!
- E eu, não ganho um beijo? - Stewart sorriu.
Emma enrubesceu ao fitá-lo e sentou-se na cadeira que ele lhe
ofereceu. - Oh, Johnny, obrigada pelos presentes.
- Eu só lhe dei um presente - disse o garoto.
A aquarela. Foi você quem fez, eu sei. Mas o vaso, Johnny,
não foi presente seu?
- Não. - O garoto deu um sorriso travesso.
- Então... - Emma olhou as duas faces sorridentes que estavam a sua
frente. - Stewart, o vaso... foi presente seu?
- Sim.
- Oh, Stewart! - Emma emocionou-se e estava mais comovida do que
em qualquer outra ocasião em que já ganhara um presente, pois
aquilo significava que Stewart se importava com ela. - Oh, Stewart,
muito obrigada.

Livros Florzinha - 93 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Fico feliz que você tenha gostado - disse ele, um pouco


embaraçado. - Bem, não sei quanto a vocês, mas eu estou morrendo
de sede. Foi uma longa viagem. O que vamos pedir?
Todos pediram bebidas geladas e conversaram um pouco. Depois
foram até o rio e Emma encostou-se na cerca e ficou olhando a
mata. O rio estava verde e tranquilo, exatamente como ela se
lembrava. Emma procurou animais e, embora não visse nenhum, sabia
que eles estavam lá se alimentando, nascendo, caçando e sendo
caçados.
- É bom estar de volta - suspirou, cheia de alegria e virou-se para
os dois.
- É ótimo ter você conosco outra vez - disse Johnny, sorrindo e
Stewart, embora nada dissesse, também sorriu.
- Quer voltar a sair comigo, Johnny? - perguntou Emma.
- Oh, sim. Gostaria de continuar o desenho que comecei no Jaguinbo
dos hipopótamos.
- Claro... - começou Emma. ,
- Ora, Johnny! - Stewart estava rindo quando o interrompeu:
- Nem bem Emma chegou e você já vai preencher todo o tempo que
ela tem?
- Mas eu gostaria de ir até lá com Johnny. Suas aulas logo
recomeçarão, não é? - perguntou ao garoto.
- Sim. Vai haver uma competição na cidade, um concurso de arte.
Mamãe leu no jornal... e garotos de minha idade podem participar.
Eu adoraria inscrever o desenho do laguinho dos hipopótamos.
- E você o fará - prometeu Emma. - Ficarei muito orgulhosa se você
ganhar.
- Esta é uma de nossas piores dores de cabeça - disse Stewart
quando passava sobre uma ponte. Ele parou o jipe e apontou. Havia o
curso de um rio, mas estava seco,
areia marcada pelas pegadas de muitos animais. - Esta é uma de
nossas tragédias.
- O que acontece com a água? - Emma já atravessara muitos rios

Livros Florzinha - 94 -
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Sabrina no. 66

naquela situação, mas nunca pensara muito sobre o assunto.


- Seca. Quando vierem as chuvas de verão, haverá água aqui. Mas
nunca se sabe... - fez um gesto vago. - Estamos sendo víti mas de
secas frequentes agora. Em algumas partes do parque na. chove
durante meses e esse é o resultado. Sabe o que dizem sobr os rios
como esse?
Emma negou com a cabeça.
- Dizem que se um homem cai num rio como esse não se molha, fica
empoeirado.
Emma sorriu.
- Sim, é piada. Mas a realidade não é tão engraçada. Talvez você não
imagine a quantidade de animais que vêm até o rio,
morrendo de sede e encontram apenas a areia ressecada.
- Mas existem outros rios, não? - Emma perguntou, pensando no que
passava por Skukuza.
- Sim, existem. Mas o problema é conseguir que os animais se
desloquem para regiões onde há água.
- Eu pensei que eles fossem por si mesmos - Emma comentou.
- Não é tão simples assim. Os animais criam hábitos. Acostumam -se
a beber água no mesmo local todos os dias e, quando a seca, fazem
buracos na areia, tentando encontrar alguma umidade.
- E encontram?
- Algumas vezes. Normalmente existem reservatórios de água na
areia, mas o sol também os seca, e então a situação torna-se
desesperadora. E também - ficou pensativo
por um momento - depende da espécie de animal. Os corços
sobrevivem com pouca água. Os elefantes, como você deve imaginar,
precisam de litros, cada vez que bebem. Algumas gotas conseguidas
embaixo da areia não são suficientes para eles.
- Existe algo que se possa fazer? - Emma indagou.
- Fazemos escavações para procurar água e construímos
reservatórios de concreto, mas estes também secam. E precisamos
encontrar outras fontes de abastecimento.

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Sabrina no. 66

- Eu nunca tinha percebido isso - disse Emma, perplexa.


- O problema está em afastar os animais das áreas secas para as
que têm água. Esta é uma das tarefas mais importantes dos
guardasflorestais.
Emma ficou em silêncio. Havia tanta coisa que não sabia, que
precisava aprender. Precisava aprender? Queria aprender, corrigiu-
se espantada.
Quando chegara ao parque não sabia que existiam guardas-
florestais e, mesmo depois que conheceu Stewart, não sabia no que
consistia o trabalho deles. Estava aprendendo aos poucos. Stewart
saía com ela cada vez mais agora e seu interesse e fascínio pelos
animais, pela mata e pela vida das pessoas que trabalhavam ali,
tornavam-se cada vez maiores.
Olhou para o corpo musculoso a seu lado e sentiu-se orgulhosa.
Aquele era um homem de verdade, um homem que fazia um trabalho
importante e corajoso. E isso, compreendeu de repente, era muito
importante para ela.
Aprendia cada vez mais com a dedicação dos guardas-florestais aos
animais. Aquele parque imenso era um santuário para proteger a
vida selvagem das pessoas, da civilização que destruía a natureza,
dos caçadores que matavam por esporte. Mas a proteção não
terminava aí. Emma compreendeu que, algumas vezes, os animais
também precisavam ser protegidos de algumas forças da natureza
que agiam contra eles.
- Por que você não impede que os leões matem as corças? perguntou
Emma e então, ao perceber o quanto estava sendo tola, disse: - Que
pergunta estúpida...
- Nem tanto - disse Stewart. - Mas é lógico que não podemos fazer
isso. O parque não é um zoológico. Acho que já lhe disse isso uma
vez - sorriu para ela - logo que nos conhecemos. Os leões precisam
de carne. Não só os leões, mas os leopardos, chitas e hienas. E não
podemos jogar-lhes carne como se eles estivessem em jaulas.
- Não existe nenhuma forma? - Emma arriscou.

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Sabrina no. 66

- Não. É a lei da natureza, a lei da selva, é algo em que não se pode


interferir. Além do mais, esses animais não são demónios, você
sabe. Servem a um objetivo.
- É mesmo?
- Se as corças procriassem sem qualquer interferência, logo se
tornariam uma praga e teriam que ser sacrificadas. A
superpopulação tem seus problemas. Mas algumas vezes nós
interferimos. Se a mãe de algum animal é morta e o filhote fica
indefeso, nós o recolhemos. Um filhote de corça ou de zebra, na
verdade de qualquer espécie de animal, fica completamente
indefeso sem a mãe. Ainda não aprendeu as leis da selva e precisa
de proteção, caso contrário tem poucas chances de sobreviver.
A estrada fez uma curva em direção ao leito seco do rio e viram um
pequeno bando de impalas perto de uma moita ressecada pelo sol. -
Veja. - Stewart parou o carro.
Numa das margens secas do rio, dois animais faziam movimentos
frenéticos com as patas.
- O que estão fazendo? - Emma perguntou?
- Procurando água. Talvez achem um pouco, não sei. Esse rio está
seco há bastante tempo. Mas as coisas são piores quando se trata
de um açude ou poça seca, pois o lugar fica cheio de lama, viscosa e
terrivelmente traiçoeira. Os animais vão até estes lugares porque
já beberam água lá e ficam presos na lama. Quando isso acontece,
são presas fáceis para os leões, leopardos e hienas. Não precisam
ser caçados. Os animais carnívoros apenas esperam que eles fiquem
presos e os pegam.
- Que coisa horrível! - Emma exclamou.
- Sim - Stewart concordou -, é horrível. Estamos procurando novos
reservatórios de água e tentamos deslocar os animais para lá.
Então, quando eles estão enlouquecidos
pela sede e ficam presos na lama, completamente indefesos perante
os leões, também ajudamos.
- Eu não tinha percebido. .. nunca imaginei. ..

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- Emma - disse Stewart, pensativo -, você gostaria de ver um


exemplo disso que estou lhe contando?
- Sim.
- Não é um espetáculo bonito, minha querida. Você se sentirá mal.
Porém, precisa vê-lo se realmente quiser compreender mais sobre o
parque e os animais.
E sobre os guardas-florestais, pensou ela em silêncio. Teve uma
forte sensação de felicidade por aquele homem querer que ela visse
mais de perto a vida que ele levava. Sentiu que veria algo que poucos
turistas já tinham visto, mas o fato de que ele a levaria para ver a
parte triste do parque demonstrava que Stewart começava a ter
confiança nela, começava a levá-la a sério, enquanto pessoa. E Emma
sabia, no fundo do coração, o quanto aquilo significava para ela.
Stewart levou-a até um açude que já estivera cheio de água. Os
animais iam até ali beber, voltavam saciados e desapareciam entre
as árvores e arbustos. Devia ter sido um lugar muito bonito, mas
agora não era mais. Emma teve que reprimir uma sensação de
náusea que ameaçou dominá-la, quando olhou para a cena macabra. O
açude estava seco. Não chovera durante alguns anos e a água que
restara no açude fora esgotada pela grande quantidade de animais
e evaporara pela ação do sol africano.. Não havia mais água, e em
seujugar restara a lama, pegajosa e traiçoeira.
Havia animais em toda a volta do açude. Enlouquecidos pela sede,
caminhavam por ali, afundando na lama, mexendo-se apenas para se
afundarem ainda mais.
E havia animais carnívoros, silenciosos e observadores. Emma
contou sete leões e três leopardos. - Eles vão atacar? - perguntou
apavorada.
Se estiverem com fome. Mas é provável que já tenham comido
tanto que nem consigam se mover.
- Mas os animais... não os estão vendo?
.- Estão, mas não se importam. A única coisa que lhes importa é
encontrar água.

Livros Florzinha - 98 -
Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

Emma viu quando uma zebra, com os olhos entorpecidos e vidrados,


saiu do meio dos arbustos, passou pelo carro, desceu para o açude e
entrou na lama. Era doloroso imaginar o estado em que aquele animal
se encontrava. A zebra parou e, sacudindo as patas para tirar a
lama, tentou cavar o barro para encontrar água. Afinal, começou a
mover-se outra vez.
E então, quando já tinha quase saído do lamaçal, os leões a
atacaram. Não houve emoção na morte, nenhum triunfo dos
caçadores sobre a presa. Eles apenas saltaram sobre o animal
apático e, depois de alguns momentos, tudo estava acabado.
Parecia cena de um pesadelo - os animais morrendo, enlouquecidos e
doentes pela falta de água; os carnívoros, sedentos também,
saciados pelas conquistas fáceis, sentados na beira do açude,
observando. No céu, os abutres voavam em círculos, aquelas
horríveis aves de rapina, que sempre pareciam ter cheiro de morte
para Emma. Sempre que acontecia uma morte, os abutres
aproximavam-se, prontos a pegarem sua parte, quando os leões
estivessem completamente satisfeitos.
A única esperança daquela cena macabra eram os guardas-
florestais. Trabalhavam sem descanso, recolhendo animais fracos
ou filhotes que não conseguiam sair da lama.
Depois de perguntar se Emma ficaria bem sozinha, Stewart
juntouse a eles. Por um longo tempo a garota observou aquele grupo
de homens dedicados trabalhando para salvar os animais de um
destino terrível. O sol estava quente e o lodo grudava-lhes nos
calcanhares, mas mesmo assim continuavam a trabalhar, tirando
animais do lamaçal, alimentando filhotes com mamadeiras, puxando
os mais fracos ou mais velhos que não conseguiam sair sem ajuda.
Uma hora viu Stewart enxugar o suor do rosto, menear a cabeça
como se estivesse furioso ou desesperado com algo que outro
homem lhe dissera, e entrar na lama outra vez para continuar o
trabalho.
Emma viu-o pegar um pequenino impala. Segurava o animalzinho com

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tanta ternura que ela se sentiu emocionada.


Viu-o aproximar-se do jipe com o animalzinho ainda nos braços e,
quando ele abriu a porta, viu também que segurava uma mamadeira.
- Você poderia alimentar esse pequeno? - perguntou.
- Oh, sim, - disse Emma trémula, e então, impedindo-o de se
afastar, perguntou: - Stewart, vocês não estão correndo perigo?
Todos aqueles leões...
- Estamos bem. Estamos todos armados, mas não precisaremos usar
os revólveres. - Sorriu por um momento, com os olhos cheios de
fraqueza e desespero. - Esta será sua contribuição.
Stewart abaixou-se, deu-lhe um beijo leve e afastou-se. Emma
tentou ajeitar o animalzinho em seus braços. Era diferente de
qualquer coisa que já segurara, não era como um filhote de gato ou
de cachorro que se ajustava nos contornos dos braços sem
problemas.
Aquele animalzinho selvagem tinha pernas longas e por alguns
momentos debateu-se, assustado e ansioso, tentando fugir. Depois,
como se percebesse que se tratava de uma amiga, começou a
acalmar-se e aconchegar-se nos braços de Emma. Os enormes olhos
negros fitaram-na com confiança e quando a garota colocou a
mamadeira na boca, o animalzinho emitiu um som parecido com um
miado.
Emma sentiu uma imensa onda de ternura invadi-la enquanto
segurava a pequena criatura e a observava mamar. - Você é um
Bambi
- disse. - Um pequenino Bambi. Minha mãe costumava ler essas
histórias para num, quando eu era pequena.
Como sua mãe ficaria assustada se a visse agora, sozinha num jipe,
debaixo do abrasador sol africano, com leões, leopardos e todas as
espécies de animais selvagens a poucos metros de distância,
enquanto cuidava de uma pequena corça selvagem.
Quando seus pais consentiram em deixá-la ir para a África, não
tinham imaginado que ela poderia passar por aquela experiência. A

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cena que tinha perante os olhos fazia-lhe mal, mas Emma sabia
também que gostava de estar ali, amava a vida, a dedicação à
natureza e às criaturas selvagens, a magia e a beleza, a crueldade
que era a essência da vida e da morte.
Depois de algum tempo Stewart voltou, levou o pequeno impala e
trouxe outro, para quem a vida se tornara difícil. E depois de haver
alimentado aquele animalzinho, ele trouxe um filhote de kudu e
depois uma pequena zebra. Emma alimentou a todos, cuidou de
todos, sentindo-se maravilhada ao pensar que uma garota inglesa
estava
alimentando animais desesperados nas selvas da África.
E assim passou o dia. O sol começou a brilhar com menos
intensidade e cada vez mais surgiam animais em busca de água. No
céu, abutres voavam e esperavam enquanto os animais carnívoros,
instalados na beira do açude, dormiam, esperavam e observavam.
Stewart viera até o jipe e, depois de ter enxugado o rosto banhado
AC suor com um lenço, pegou uma garrafa térmica e alguns
sanduíues - Não é justo fazê-rla sofrer
conosco - disse ele, esperando que Emma ihe servisse café.
Não estou sofrendo - disse a garota.
Mas está fazendo tanto calor! E você não está tão acostumada
quanto nós.
- Nem percebi o calor - disse ela, surpresa ao perceber que aquilo
era verdade. - Eu só queria poder ajudar mais.
- Você está ajudando. - O sorriso de Stewart foi gentil. Ajudando a
alimentar estes animaizinhos, você está fazendo o trabalho de um
dos guardas, permitindo que ele também vá tirar os animais do
lamaçal.
- Oh! - Emma sentiu-se absurdamente feliz.
- Está arrependida de ter vindo?
- Não. Não, Stewart, nem um pouco. - Parou por um momento,
perguntando-se como explicaria seus sentimentos. - É claro que não
estou apreciando tudo isso; teria que ser louca para apreciar todo

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
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este sofrimento. Mas estou contente por estar aqui... Eu... isto me
dá a sensação de pertencer a algo, a algo que vale a pena,
A cor dos olhos de Stewart pareceu intensificar-se e, por um
momento, Emma perguntou-se o que ele iria dizer. Mas Stewart
apenas sorriu, inclinou-se para a frente e passou o lenço pela testa
úmida dela. - Fico contente que você se sinta assim, Emma. - Depois,
estendeu os braços e suspirou. - Bem, deixe-me voltar ao trabalho.
As horas passaram. Inúmeros animais tinham sido salvos. Já estava
na hora de irem embora. - Não é seguro dirigir depois que escurece
- disse-lhe Stewart, quando começaram a voltar para Skukuza.
- Você deve estar cansado - disse Emma com delicadeza.
- Estou sim - concordou.
- Nunca imaginei que você trabalhasse tanto assim - disse a garota,
sentindo-se envergonhada.
- Você imaginava que eu passava o tempo todo em Skukuza bebendo
cerveja gelada, não é? - sorriu. - Está desapontada, Emma? Esse
não é um emprego muito charmoso,
não? Depois do trabalho, eu não chego em cassa com o colarinho
branco imaculado e um jornal nas mãos. Deve padecer-lhe um balho
prosseiro,
pois não está acostumada a esse tipo de coisa.
- É um trabalho de homem - dise ela com simplicidade.
- É. - Fitou-a por um instante com aquela expressão imperscrutável
nos olhos. - É mesmo.
Stewart parecia tão cansado, tão fraco, que Emma o deixou em paz,
assim ele não precisava sentir-se na obrigação de conversar. O
silêncio entre eles era amigável, o silêncio de, duas pessoas que
haviam passado pela mesma experiência, que estavam pensando nas
mesmas coisas, que não precisavam de palavras para se comunicar.
Conforme seguiam a estrada para Skukuza, Emma admitiu que se
sentia feliz. Fora um dia cansativo, inesperado e cruel, que consumiu
toda sua energia, mas acontecera algo de básico em sua vida: a
sensação de ajudar os animais fora extremamente satisfatória.

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Aquele tinha sido um dia, Emma tinha certeza, de que nunca mais se
esqueceria.

CAPÍTULO VII

Depois do dia que passara com Stewart no açude, onde os


guardasflorestais trabalharam incansavelmente e ela mesma
prestara uma ajuda, os dias de Emma pareceram adquirir uma nova
dimensão. Stewart começou a levá-la a sair cada vez com mais
frequência. Mostrava-lhe lugares que poucos turistas tinham visto.
Falava-lhe de seu trabalho,
dos sonhos que tinha para o parque e para os animais e dos planos
que gostaria de ver realizados se não houvesse empecilhos
financeiros e práticos.
Cada vez mais, Stewart falava dele próprio, não da vida que levava
antes de vir para o parque, de sua vida com Mary, mas das ambições
e sonhos que diziam respeito ao seu trabalho.
Era como se, tendo aceito Emma enquanto pessoa, não como
somente uma turista que passaria alguns meses ali antes de voltar
para a civilização, ele tivesse passado a apreciar sua companhia.
Algumas vezes Emma achava que Stewart era uma pessoa muito
solitária, que todas aquelas coisas que dizia haviam ficado
guardadas só para ele por muito tempo. Era como se ele começasse
a vê-la quase como uma extensão de si mesmo.
Embora apreciasse muito o tempo que passavam juntos, Emma
desejava que Stewart lhe dissesse alguma coisa que pudesse
confirmarlhe a esperança de passarem o futuro juntos. O tempo
passava inexoravelmente e quando aqueles três meses tivessem
terminado, Emma teria que arrumar suas malas, pegar as máquinas
fotográficas, dar um último olhar para o chalé que temporariamente
fora sua casa e voltar para a Inglaterra.
Agora ela sabia que queria ficar na África para sempre, naquele
santuário de animais, na mata, junto ao homem que amava.

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
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Entretanto, Stewart nunca lhe dera a mínima indicação de seus


sentimentos, nunca dissera uma palavra insinuando que gostaria que
ela ficasse. A expressão que algumas vezes Emma percebia nos
olhos dele, os momentos de ternura e compreensão, não eram
suficientes. Se Stewart quisesse que ela ficasse ali, teria que
dizer, mas não havia nenhum sinal de que ele pretendesse fazê-lo.
Em momentos de depressão, Emma imaginava se o que ela tomasse
como sentimentos mais profundos da parte de Stewart não seria
nada mais do que uma simples satisfação de conversar com alguém
que sabia ouvir, de desfrutar de uma companhia agradável; se não
seria um simples prazer de estar com uma pessoa sem a
necessidade de um relacionamento mais íntimo.
Ou ele ainda seria fiel a Mary, ainda sentiria muito sua falta, apesar
de já ter dito uma vez que seria capaz de apaixonar-se por outra
mulher? Ou Miranda significava algo na vida de Stewart? Fosse qual
fosse a razão, estes pensamentos causavam uma infelicidade no
meio de todo o prazer que Emma sentia em passar tanto tempo ao
lado de Stewart.
Emma esperava ansiosa as horas em que passaria no jipe com
Stewart a seu lado e depois quando a observava trabalhar. Cada vez
aprendia mais sobre o trabalho dos
guardas-florestais e aprendia também a respeitar aqueles homens
que dedicavam a vida aos milhares de animais daquele vasto
santuário.
Também ficara sabendo sobre os caçadores clandestinos, o maior
aborrecimento dos guardas-florestais.
Stewart faíava sobre eles enquanto percorriam a estrada para
Malelane, ao sul, e Emma se virara para ouvi-lo melhor.
Eles são uma terrível ameaça - disse Stewart. - Se eu pudesse
fazer as coisas a meu modo, colocaria os pés de cada caçador numa
armadilha e ficaria observando seu desespero em tentar libertar-
se.
- Então existem muitos caçadores clandestinos? - perguntou.

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
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- Muitos. De vez em quando eles ficam amedrontados e as coisas se


acalmam por algum tempo, mas quando percebem que não há mais
riscos, começam tudo outra vez.
- Por que eles caçam? - Pensou nas armadilhas colocadas nos
bosques da Inglaterra, feitas para pegar coelhos ou outros animais,
que ficam deliciosos quando bem assados, mas ficava intrigada com
a idéia de caças ali no parque.
- Eles caçam corças, por exemplo. A corça dá uma excelente
carne seca e tem um alto custo no mercado. Os dentes dos
elefantes são de marfim e alguns animais têm a pele muito valiosa.
Oh, os caçadores têm mercado para suas
presas.
- Como eles fazem para caçar, Stewart? - perguntou ela. Não têm
medo? E os leões?
- Eu não devia lhe contar isso, pois se eu o fizer você vai enfiarse
na mata para tirar fotografias, toda vez que o ângulo de dentro do
carro não a satisfizer.
- Então você não vai me contar? - Fingiu-se amuada. Aqueles eram
os momentos que Emma mais apreciava, momentos em que se
sentiam completamente à vontade um com o outro.
- Você nunca me perdoaria se eu não o fizesse, não? - Stewart
estava rindo e ela teve que controlar-se para não se aproximar e
afagar seus cabelos.
- Não - disse ela, fingindo pensar seriamente no problema -, acho
que não. Já estou me sentindo desolada em imaginar quantas belas
fotografias deixei de tirar.
- Então, nesse caso, não vou me arriscar - e num tom de voz mais
sério: - É verdade que não se pode descer do carro e caminhar pela
mata. Mas as pessoas que vivem aqui fazem isso. Algumas vezes elas
podem cometer erros mas de qualquer forma cresceram aqui,
passaram toda a vida aqui no parque, conhecem os leões e
compreendem seu comportamento. Sabem quando os leões estão
com fome e quando matarão algum animal. E também sabem que um

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leão só ataca quando está com fome.


- Eu não sabia disso - disse Emma.
- Existem tantas coisas que você não sabe, menina.- Ele sorria outra
vez. - E esta é uma das coisas que eu não devia estar lhe contando.
Mas é verdade, os leões
atacam apenas quando estão famintos. É claro que existem animais
carnívoros que matam pelo simples prazer de matar, os tigres, por
exemplo. Mas não temos tigres na África.
- Então há ocasiões em que é seguro ficar na mata?
- Sim, embora talvez não seja prudente nunca. Emma, você já
percebeu que algumas vezes um bando de corças continua na
margem de um rio mesmo que um leão se aproxime?
- Sim, mas pensei que fosse apenas distração ou algo desse tipo.
- Não é não; é justamente o oposto. Os animais sabem quando o leão
já comeu. Sabem quando algum animal foi morto e sabem que não
haverá outra morte por vários dias. Sabem quando o leão pode ficar
deitado ao lado da ovelha. - Stewart sorria.
- Então é por isso que os caçadores sabem quando podem caminhar
pela mata.
Os caçadores? Sim. - O sorriso desapareceu e a expressão de
Stewart tornou-se amarga. - Eles têm agido muito ultimamente.
- Não compreendo uma coisa, Stewart. Como você sabe quando eles
pegam animais? Se levam as armadilhas com eles, não há pista
alguma, não é?
- Eles deixam as armadilhas preparadas, mas quando não precisam
mais de animais esquecem-nas na mata. Os animais são pegos,
ninguém vem apanhá-los e ficam lá até morrer.
- Que coisa horrível! - Emma estremeceu.
- É mesmo - ele concordou. - Tentamos acabar com isto. Existem
multas muito altas para quem caça, mas as recompensas são
grandes; assim, sempre existe gente procurando caçar.
- Que coisa estúpida, não? - Emma ficou em silêncio, pensando em
como as pessoas procedem de modos diferentes perante os animais.

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De um lado existem os guardas-florestais, Stewart e seus colegas,


que queriam apenas ajudar, proteger os animais, salvá-los da seca e
dos múltiplos perigos que poderão afetá-los. De outro lado, existem
os caçadores, para quem a morte dos animais significa lucros ou
diversão, que são totalmente insensíveis à agonia e ao sofrimento
que causam.
- É muita estupidez - concordou Stewart. - E estamos num dos
períodos de caça.
- Não sabia - disse ela, percebendo mais uma vez quanto os turistas
desconheciam a rotina do parque.
- Já havíamos suspeitado há algum tempo. Ouvimos rumores. E nas
últimas semanas temos recebido informações sobre animais
encontrados em mau estado, animais que estão morrendo de fome,
incapazes de ir procurar comida, porque estão muito feridos.
- O que vocês fazem quando encontram estes animais? - perguntou
ela.
- Tentamos ajudá-los - disse ele. - Saímos à sua procura, algumas
vezes levamos dias até encontrá-los, mas, quando isso acontece,
tentamos curá-los.
- Esta viagem de hoje - arriscou ela - tem algo a ver com os
caçadores?
- Tem, sim. - E Stewart calou-se. Quando continuou, sua voz estava
fria e contida, a voz que Emma aprendera a associar à raiva.
- Tivemos informações de elefantes que foram pegos em
armadilhas.
- Elefantes?
- Parece que eles conseguiram libertar-se das armadilhas continuou,
ignorando o espanto dela - mas não completamente. Estão feridos.
Um elefante foi visto com uma armadilha presa na tromba.
- Oh, não! - Emma estava terrifiçada, pensando na dor que o animal
devia estar sentindo.
- Sabe o que isso significa? - Stewart fitou-a.
- Ele deve estar com muita dor. . .

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
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- Deve, mas pior que isto. Está com fome, logo pode morrer.
- Por que, Stewart?
- Porque, não podendo usar a tromba, não pode conseguir alimento.
Pode respirar pela boca, mas precisa da tromba para conseguir
comida.
- Oh, Stewart, que coisa horrível!
- Normalmente, quando isto acontece, o elefante tenta arrancar a
armadilha da tromba, esfregando-a nas árvores, mas isto faz com
que fique mais ferido. - Ele ainda
falava com o mesmo tom de voz. Precisamos encontrar este
elefante.
- Como.. . ?
- Os guardas e os cães de caça vêm saindo há vários dias já. Você
deve ter notado que eu não estava no campo nos últimos dias.
- Emma notara sim e pensara muito na razão da ausência de
Stewart.
- Estávamos na mata, procurando o rastro do elefante.
- E encontraram?
- Não temos certeza. Existem tantos elefantes. Mas precisamos
continuar procurando, até encontrá-lo.
- Por que você me trouxe hoje? - perguntou ela.
- Porque hoje não vou para a mata. Vim pegar algumas informações
dos guardas daqui. Eu queria muito que pudéssemos encontrar o
animal. Não consigo mais continuar
nessa busca.
- O que acontecerá se não encontrarem?
- Nem quero pensar. Vamos continuar procurando até encontrá-lo.
- Ficou em silêncio e Emma sentiu-se comovida por sentir aquela
extrema dedicação. - Você sabia que os elefantes tiram os outros
da agonia?
- Não entendi.
- Normalmente quando algum deles está muito doente, os outros o
ajudam a encontrar alimento. E quando um elefante está ferido, tão

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ferido que eles sabem que vai


morrer, eles o matam para terminar com o sofrimento.
Emma fitou-o perplexa e Stewart continuou, com a voz mais calma e
mais emocionada: - É maravilhoso, não? Existem tantas coisas sobre
os animais que não sabemos.
Existe tanta coisa que eles sabem apenas pelo instinto. A maior
parte de suas atitudes tem lógica, talvez a lógica do instinto.
Quando um elefante é morto por uma
manada existe uma razão, não são como os homens, que matam por
diversão.
Em Malelane, Emma passeou um pouco enquanto Stewart foi tratar
de seus negócios. Depois de algum tempo viu que ele a procurava e
aproximou-se.
- Eu gostaria de convidá-la para almoçar - disse ele -, mas preciso
voltar logo. Você se importa se comermos algo rápido e leve e
voltarmos?
- Claro que não.
- Essa não é a maneira correta de tratar você. Está tão quente e
você não passou uma manhã muito agradável. . .
- Está tudo bem, Stewart, fique tranquilo - disse Emma, desejando
poder contar-lhe que tudo o que queria era ficar ao seu lado, que
era isto que importava.
- Obrigado, Emma. - Ele sorriu, passou a mão na testa e a garota
percebeu quanto ele estava cansado. - Você é muito compreensiva.
Talvez, quando tudo isso estiver
terminado, eu possa recompensá-la.
Estavam a caminho de Skukuza, quando Stewart disse: - Amanhã à
noite passará um filme.
- Oh! - Fitou-o esperançosa. Todas as semanas era exibido um filme
no campo, o que costumava ser um acontecimento muito esperado.
Normalmente eram filmes sobre a
vida selvagem e eram passados,ao ar livre.
- Quer ir comigo?

Livros Florzinha - 109 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
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- Adoraria - disse ela e Stewart afastou a mão do volante e deu-lhe


um tapinha amigável. Emma sentiu-se muito feliz.
Continuaram a viagem sem falar, num silêncio cheio de
companheirismo. Stewart dirigia muito bem e, embora nunca
passasse do limite de velocidade permitido, não ia
muito devagar, pois precisava chegar logo ao campo. Entretanto, às
vezes, ele diminuía a velocidade quando havia algo interessante para
verem.
Emma adorava esses passeios, onde a sensação de harmonia que
existia entre eles era quase palpável. Sabia agora que nunca poderia
afastar-se dessa vida, a que se apegara como nunca se apegara a
nada em sua vida. Mas sabia também que se Stewart não lhe pedisse
para ficar, teria que ir embora quando os três meses terminassem.
Não haveria desculpas para protelar e não poderia viver como
turista para sempre.
Faltavam apenas algumas semanas. Procurava pensar o menos
possível no que faria quando aquele idílio terminasse, e, quando a
idéia a surpreendia, procurava afastá-la, pois esse pensamento lhe
era insuportável.
Mesmo que Lance a pedisse em casamento, e uma ou duas vezes ele
insinuara que pretendia fazê-lo, não haveria desculpa para ficar.
Na verdade, se isso acontecesse, não poderia aceitar porque, além
do fato de não
amá-lo, não suportaria morar no parque como esposa de Lance,
vendo todos os dias
o homem que amava realmente. Isso seria pior do que ir embora
sabendo que nunca mais o veria.

CAPÍTULO VIII

Na manhã seguinte Emma passeou um pouco pelo campo, esperando

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Sabrina no. 66

encontrar Stewart para que ele a convidasse a acompanhá-lo outra


vez, mas não o viu em nenhum lugar.
Passou pelo alojamento dos funcionários, foi até o rio e resolveu ir
até a loja.
Estava passando pela loja quando viu Lance e gritou: - Olá. Como
vai?
- Melhor depois de vê-la, querida. Ainda não saiu para a estrada?
- Não. Pretendo sair agora, mas acho que hoje estou um pouco
preguiçosa.
- Se está procurando Stewart - Lance fitava-a com uma expressão
divertida -, ele não está aqui.
- Oh! - Emma ficou confusa com a objetividade do rapaz. Eu não o
estou
procurando.
- Desculpe-me, boneca, pensei que você passasse a maior parte do
tempo fazendo isso.
- Céus, Lance! - Estava aborrecida, perguntando-se se realmente
seus sentimentos eram tão transparentes. - Acho que quem tem que
decidir o que fazer de meus dias
sou eu mesma e ninguém mais.
- Está bem, amorzinho - zombava dela outra vez. - Não precisa
fazer um daqueles discursos feministas. É que eu ficaria muito
contente se você não se preocupasse tanto com Stewart.
- E não me preocupo - repetiu exasperada. - Escute, podemos mudar
de assunto?
- Claro. Se você vai sair para a estrada hoje, não se canse muito.
- Por que não?
- Hoje à noite vai passar um filme. ;
- Oh! - colocou-se na defensiva.
- Quer assisti-lo comigo, Emma?
- Não posso, Lance, sinto muito.
- Você já combinou com alguém? Emma assentiu.
- Stewart?

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
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- ... Sim.
- Entendo. - A expressão de Lance tornou-se fria e distante. Está
bem, Emma. Vejo-a por aí. - Virou-se e voltou a trabalhar e Emma,
aborrecida com a infantilidade do rapaz, afastou-se.
Voltou ao lugar perto do rio que passara a amar tanto. Apoiou os
cotovelos na cerca, colocou a mão sob o queixo e ficou olhando a
mata. Não procurava animais, mas pensava nas palavras de Lance. O
que sentia por Stewart estaria se tornando evidente para todos?
Será que o próprio Stewart sabia e dissimulava? Ou ela estaria
ficando obcecada pelo sentimento?
Estava tão distraída em seus pensamentos que não ouviu uma pessoa
aproximar-se até que disse: - Olá, Emma.
- Johnny! - virou-se e seus olhos iluminaram-se de prazer como
todas as vezes que via o garoto. - Não ouvi você se aproximar.
- Eu sei. Você estava no que minha mãe chama de mundo da lua.
- Bem, já voltei - disse rapidamente. - Quer dar um passeio comigo,
Johnny?
- Sim - respondeu o garoto, ansioso.
- Tudo bem para você se nos encontrarmos em meu carro daqui a
mais ou menos dez minutos?
Emma foi até o chalé e, enquanto pegava a máquina fotográfica,
olhou para a pintura pendurada acima da cabeceira da cama e para a
planta sobre a mesinha. Seria aquela
planta um presente oferecido sem pensar, oferecido num impulso
repentino? Estaria imaginando mais do que Stewart pretendera ao
oferecer-lhe o vaso?
Sacudiu os ombros com impaciência, como se tentasse dissipar a
sensação de insegurança que Lance, como fazia quase sempre,
conseguira lhe despertar. E depois perguntou a si mesma,
esforçando-se por ser objetiva, se aquilo seria culpa de Lance. Ele
tinha feito algo errado? Insinuara algo mais do que suas palavras
haviam expressado? Ou seriam seus próprios sentimentos que a
levavam a imaginar coisas?

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Pendurou a máquina fotográfica no ombro, colocou um pedaço de


carne seca na bolsa e saiu para encontrar Johnny.
Como sempre, era incapaz de resistir ao rostinho alegre do garoto
e, com um sorriso nos lábios, colocou o carro em movimento.
- Onde vamos hoje, Johnny?
- A qualquer lugar - disse, preguiçoso.
- Mentiroso! - virou-se para o garoto, rindo. - Estou vendo um lápis
saindo de seu bolso. E esta prancheta na sacola serve para quê?
- Nunca consigo enganar você - disse ele, rindo também.
- Então vamos ao laguiuho dos hipopótamos. - Quando estavam
na metade do caminho, o estado de espírito de Emma já melhorara
com a conversa animada e ingénua de Johnny.
- Como está indo a pintura que está fazendo? - perguntou.
- Bem. Já completei vários detalhes, mas ainda falta muita coisa.
- Bem, você sabe que eu gosto de ir ao laguinho dos hipopótamos. É
um de meus passeios preferidos. E tenho certeza de que seu pai
tem coisas mais importantes a fazer.
- Sim... principalmente agora. - Surgiu uma ruga na testa de Johnny.
- Eles estão atrás do elefante que foi preso na armadilha.
- Ouvi falar - disse Emma. - Já conseguiram encontrá-lo?
- Ainda não, porém acham que já encontraram a trilha. Saíram para
procurá-lo hoje.
- Quem foi, Johnny?
- Um grupo de guardas-florestais com cães de caça.
- E seu pai também foi?
- Sim. Papai foi e Stewart também.
- Oh! - Emma suspirou.
- Foi por isso que não saí com papai hoje - explicou Johnny.
- Eles saíram muito cedo. Terão que caminhar pela mata e papai
disse que sou muito pequeno para esse tipo de coisa. ,
Eu também sou muito inexperiente. E além do mais sou mulher.
Emma não disse essas palavras, mas estava contente por saber a
razão por que Stewart não a convidara para sair naquele dia,

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embora estivesse preocupada com a segurança dele. - Você acha que


conseguirão encontrar o elefante hoje? - perguntou.
- Céus, espero que sim. - Atrás da expressão ingénua dos olhos do
garoto de doze anos havia muito da experiência e dedicação de um
guarda-florestal. Ele podia querer ser artista, pensou Emma, mas,
sem dúvida alguma, herdara muita coisa do pai.
- E quando encontrarem o elefante, o que farão?
- Acho que depende de como o encontrarem - retrucou Johnny.
Passaram um dia agradável no laguinho dos hipopótamos. Enquanto
Johnny desenhava, Emma, sentada numa pedra, ouvia os
comentários do garoto.
Embora tivesse vindo até ali para agradar Johnny, o laguinho dos
hipopótamos tornara-se realmente um de seus passeios preferidos.
Lembrou-se da primeira vez que Johnny a trouxera ali e do quanto
ficara nervosa ao descer do carro, esperando a cada momento que
um leão pulasse de algum arbusto. Mas Johnny tinha lhe mostrado a
placa dizendo que era permitido descer do automóvel e mais tarde
Stewart confirmara o que o garoto dissera, que os animais
carnívoros não iam até lá. Como e por que eles tinham certeza disso,
Emma não sabia, mas lhe explicaram que centenas de turistas
desciam de seus carros ali todos os anos e que nunca ocorrera
nenhum incidente.
Já estava anoitecendo quando chegaram ao campo. Emma queria
saber se os guardas-florestais já tinham voltado, mas Johnny saiu à
procura de seu pai e voltou com a notícia de que os homens ainda
estavam na mata. Os portões logo seriam fechados e era possível
que eles passassem a noite em algum outro campo.
Emma ficou bastante desapontada. Esperara ansiosa aquela noite
que assistiria ao filme com Stewart e também se perguntava se ele
estaria a salvo. - Quer comer um braai comigo, Johnny?
- Oh, Emma, gostaria muito, mas mamãe está me esperando.
Emma não se sentia com disposição de cozinhar e preparou uma
refeição rápida. Pôde ver as pequenas fogueiras começarem a

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brilhar, sentiu o delicioso cheiro da carne espalhando-se no ar e


pôde ouvir a conversa excitada das crianças. Sentia-se sozinha e de
alguma forma excluída. Os campos do parque pareciam ter sido
feitos para grupos
- jovens viajando juntos, excursões, famílias. Uma garota sozinha
não tinha muitas alternativas.
Agora que sabia que Stewart não voltaria aquela noite, Emma não
sentia vontade de assistir ao filme. Lance a convidara, mas se o
procurasse agora podia parecer que
só o fazia porque Stewart não estava lá. Decidiu que ficaria no
chalé e dormiria cedo.
Quando terminou de jantar lavou a louça e foi dar uma volta pelo
campo. Havia um clima de animação por toda parte. As pessoas
terminavam de jantar mais depressa que
o normal por causa do filme. A garota via com carinho quase todas
as crianças dirigirem-se com seus pais para a grande clareira onde a
tela já havia sido colocada, carregando, animadas, almofadas e
tapetes.
Enquanto observava a agitação a sua volta, Emma começou a
perceber o quanto estava sendo tola. O filme seria exibido numa
atmosfera de extrema informalidade, com todos muito à vontade,
espalhados pelo gramado ou sentados sobre tapetes. Aquela não era
uma sessão de cinema normal onde se tinha que comprar ingresso,
procurar um lugar determinado para sentar. Ali na clareira não
precisaria sentir-se intimidada por estar só. Naquele lugar, ninguém
lhe prestaria atenção. Além disso, se as pessoas estavam realmente
começando a perceber seus sentimentos, como Lance insinuara, não
ficar para assistir ao filme só por não estar acompanhada tornaria
seus sentimentos ainda mais óbvios.
Lembrou-se da decisão que tomara no dia que chegara a Skukuza e
repreendeu-se por ter pensado em perder um acontecimento que
significava tanto na vida do campo, só porque o homem com quem
planejara assisti-lo não estava ali.

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Encontrando um lugar, sentou-se, olhando a sua volta, com


interesse.
De repente percebeu que havia alguém em pé a seu lado e levantou a
cabeça. Era Lance. - Está sozinha? - perguntou ele, curvando as
sobrancelhas.
- Sim.
- Seu amigo deu-lhe o fora?
- Oh, Lance, você é impossível! - Emma riu, decidida a não começar
outra discussão. - Stewart saiu à procura de um elefante ferido.
Acho que ele não sabia que ficaria
ocupado, quando falou ontem sobre o filme.
- Humm. -
- Lance fitou-a pensativo. - Bem, posso ter muitos defeitos, porém
um eu não tenho: não guardo rancor. Posso sentar-me a seu lado?
- Mas é claro! - Emma ficou contente quando ele se sentou. Apesar
de ter resolvido não deixar de assistir ao filme só porque estava
sozinha, sabia que era mais divertido ter uma companhia. E gostava
de Lance. Embora o rapaz muitas vezes tivesse atitudes infantis,
era uma pessoa agradável e simpática. - Estou feliz por você estar
aqui a meu lado.
Emma viu que ele carregava um tapete. - Levante-se um minuto
- disse ele e, quando Emma se levantou, estendeu o tapete. - Está
mais confortável?
- Muito mais! - Emma sorriu e de repente compreendeu que aquela
noite prometia ser muito agradável.
Finalmente as pessoas pararam de falar e o filme começou. Era um
documentário sobre uma colmeia e depois desse passaram mais dois.
A garota tivera um dia cansativo e, pouco depois do início da sessão,
percebeu que se sentia exausta. Embora estivesse gostando do
filme, seus olhos estavam pesados e, de tempos em tempos, sua
cabeça pendia. - Acho que vou me deitar, Lance - disse ela.
- E vai me deixar aqui sozinho?
- Oh, Lance, estou tão cansada!

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
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- Vamos, Emma, fique, por favor. Logo, logo esse sono passa. Fique
aqui comigo.
- Oh. . . Está bem, mas está tão frio. Acho que vou até o chalé pegar
um suéter. Voltarei num instante.
- Não há necessidade - disse Lance, impedindo-a de levantarse. -
Vamos fazer o que todos estão fazendo. Levante-se um pouco.
- Puxou um pouco o tapete, deixando um pedaço suficiente para que
ela se sentasse e, com a outra parte, cobriu-a. - Está mais quente
agora?
- Está!
- Que bom. Se você ficar cansada, pode deitar a cabeça em meu
ombro e cochilar um pouco. Ninguém perceberá e meu ombro é
forte.
- Você é ótimo, Lance - disse ela agradecida, enquanto começava o
filme seguinte.
Emma aceitou o conselho e repousou a cabeça no ombro de Lance,
mantendo os olhos abertos, enquanto tentava concentrar-se no
filme. Era um documentário interessante e, embora sentisse que a
fadiga começava a dominá-la, estava decidida a não dormir. Apenas
inclinara-se contra o rapaz porque era uma posição mais
confortável. De vez em quando se surpreendia com seus olhos que
se fechavam, e forçava-os a ficarem abertos.
Não sabia dizer quando adormecera. Quando acordou o filme já
terminara, sua cabeça escorregara um pouco e agora se encontrava
sobre o peito de Lance. Ao lado deles havia um homem parado
Stewart!
- Oh! - exclamou ela, endireitando-se. E como ele nada dissesse, ela
continuou: - Stewart! Pensei que você não tivesse voltado.
- Estou vendo.
- Stewart... - Ela sabia o que os dois sentados ali, daquela maneira,
poderia significar para ele.
- Sim?
- Sei que eu disse que viria com você, mas você não apareceu.. .

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Estava sozinha e Lance veio sentar-se a meu lado... - Emma parou de


falar, percebendo que tornava
a situação mais complexa, mais difícil. Além disso um súbito
pensamento ocorreu-lhe: por que estava a se desculpar? Não fizera
nada de errado. Certa vez lhe disseram
que não era uma boa táticà pedir desculpas quando não se tinha
feito nada de errado. Era como admitir a culpa.
- Não sei por que estamos nos incomodando tanto - disse ela, um
pouco nervosa.
- Você é a única que está se incomodando - disse Stewart com
calma. - Acho que eu não disse nada, nem Lance.
- Foi a maneira como você me olhou, como se eu tivesse feito algo
de errado. Eu o procurei, mas pensei que não tivesse voltado.
- Chegamos muito tarde, depois que os portões já estavam
oficialmente fechados.
- Então como eu poderia saber que vocês haviam chegado? Eu... eu
não vi você.
- Tive uma reunião assim que cheguei.
- Oh... o elefante. - Emma lembrou-se do animal naquele momento. -
Vocês o encontraram?
- Sim.
- Foi tudo bem?
- Metade da tromba havia sido arrancada pela armadilha. O animal
estava em péssimo estado. - Stewart falou com calma e sem
emoção, da maneira que ela tanto odiava.
- O que vocês fizeram?
- Nós o matamos.
- Oh, que coisa horrível. . . que coisa horrível! - Emma colocou a mão
sobre a boca.
- Sim. - Stewart fitou-os por mais um momento, sem emoção, de
modo impessoal, como um estranho. Depois lhes deu boa-noite e
afastou-se.
- Bem - comentou Lance, quando Stewart já se fora -, ele é

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
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charmoso!
- O que está querendo dizer? - Emma fitou-o com os olhos tristes.
- Ele não é um bom perdedor, você não acha?
- Sim... Não... Eu tinha prometido assistir aos filmes com ele
- Emma explicou.
- Mas você não sabia que ele estava aqui. E não queria ficar sozinha.
- É mesmo.
- E aí você se voltou para raim. O reserva.
- Oh, Lance! - virou-se, chocada com a amargura na voz do rapaz. -
Não foi bem isso o que aconteceu.
- Um reserva. É tudo o que eu sempre vou ser, não é?
- Isso não é verdade, você sabe que não.
- Não é, Emma? Não é?
A garota fitou-o, compreendendo que o que ele dizia era
parcialmente verdadeiro. Gostava dele e de sua companhia, mas
seus sentimentos por Lance e por Stewart não podiam ser
comparados. Amava só a um homem. Todos os outros poderiam ser
seus amigos - bons amigos, mas apenas isso.
- A maneira como você diz isso me parece terrível - suspirou ela
afinal.
- Mas é verdade?
- Não, Lance, não da maneira como você fala. Nunca pensei em você
como reserva.
- Mas você não me ama. - Era uma afirmação, não uma pergunta. - É
uma pena, Emma. Porque você ama um homem que nunca a amará. Eu
a avisei no dia em que nos conhecemos, lembra-se?
Emma não respondeu. Levantou-se, passou a mão nas calças
compridas para tirar a grama, cruzou os braços e disse: - Acho que
está na hora de deitar, Lance. Você vai para o lado de meu chalé?
- Você sabe que sim. Trouxe chá e estou com duas canecas aqui.
Que tal irmos a um dos caldeirões e preparar uma caneca de chá
para cada um? É exatamente o que precisamos agora que está tão
frio.

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- Você está com duas canecas? - Emma Fitou-o. - Mas você não
sabia que eu iria ficar com você! Sabia, Lance?
Ele não respondeu imediatamente. - Esperava que sim - disse afinal.
- Lance, você sabia. .. você sabia que Stewart havia voltado?
- Como haveria de saber? Bem, Emma, o fato de eu trazer comigo
uma caneca a mais será suficiente para acusar-me?
- Lógico que não.
- Então vamos tomar chá?
- Obrigada, Lance, gostaria muito.
O chá estava quente e doce e a garota sentiu o liquido espalhar-se
pelo seu corpo como finas labaredas. - Estava uma delícia - disse
Emma, quando foram até a uma torneira lavar as canecas. - E agora
acho que está mesmo na hora de dizermos boa-noite.
Emma despiu-se rapidamente, pois estava bastante frio e, quando já
havia vestido o pijama, sentou-se na cama e ficou olhando para o
vaso que estava na mesinha. Afinal
se deitou, cobriu-se e apagou a luz.
Não conseguiu adormecer e ficou ouvindo os ruídos da noite.
Milhões de grilos cantando e de vez em quando um leão rugia ao
longe.
Pouco a pouco, o campo ia ficando em silêncio, as risadas, as
conversas e a algazarra sadia frente às fogueiras iam
desaparecendo. Logo tudo ficou calmo, apenas os grilos e os sons da
mata continuavam. Emma, porém, ainda continuava acordada.
O que Stewart havia pensado quando os vira naquela noite? Tudo
fora tão inocente. Ela estava sozinha, Lance também e por isso
tinham resolvido sentar juntos. Lance havia trazido um tapete,
como todas as outras pessoas haviam feito, porque aquela região
era muito fria depois que o sol se punha. Ela estava cansada e Lance
deixara
que ela repousasse em seu ombro, como uma criança repousa no
ombro do pai.Só que Lance não era seu pai, e ela, Emma, não era
exatamente uma criança. Ele era um

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homem bonito, agradável e divertido. E Emma era uma mulher. Além


do mais, Lance era ciumento; só agora ela sabia o quanto.
Portanto a analogia não estava correta. Emma repousara no ombro
dele, mas não era uma criança, e Lance não era seu pai. E Stewart
também era um homem.
Lembrou-se das duas canecas que Lance levara, as canecas que ele
tirara com tanta tranquilidade do bolso e suas suspeitas
reapareceram.
Será que Lance não sabia mesmo que Stewart já havia voltado? Não
sabia que Stewart estava ocupado em discutir o que acontecera
naquele dia, mas que mais tarde sairia a sua procura? É lógico que
isso era absurdo. Nem mesmo Johnny sabia que os homens haviam
voltado. Mas Emma sentia, e por alguma razão estava certa, que
Lance sabia. Seu último pensamento antes de adormecer assumiu a
forma de uma pergunta: se Lance sabia, por que não havia dito a
ela?

CAPITULO IX

Situações desagradáveis sempre puxam outras, descobriu Emma.


Três dias depois da sessão de cinema que terminara de forma
desastrosa, Linda Willis ofereceu uma festa. Linda era esposa de
um dos guardas-florestais e resolvera
celebrar seu aniversário. Convidara todos os funcionários do campo
e, como Emma já estava há muito no parque e já fizera amizade com
grande parte da população local, também fora convidada.
Emma não estava em seu melhor estado de espírito no dia da festa
de Linda. Perguntava-se incansavelmente se devia ir e sabia que isso
era uma tolice. Em alguns momentos,
resolvia recusar o convite. Poderia alegar uma terrível dor de
cabeça ou um caso de insolação. Mas depois, no momento seguinte,

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
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repreendia-se por ser tão tola,


lembrando-se da decisão de ser forte, de não demonstrar como
realmente se sentia. Vacilou e mudou de decisão durante o dia
inteiro e depois, no fim da tarde, sentada perto do rio, no lugar que
Stewart lhe tinha mostrado, percebeu o quanto estava sendo tola.
Não havia razão alguma para que não fosse à festa. Se Stewart
estava aborrecido porque ela assistira ao filme com Lance, ele é
quem estava sendo infantil e Emma não podia fazer nada. Afinal de
contas, não procurara a companhia de Lance deliberadamente. Se
Stewart tivesse aparecido, Emma o acompanharia como haviam
combinado.
E como poderia saber que ele voltara? Não havia forma de ter
descoberto - apesar de ainda ter suspeitas de que Lance sabia e
que a persuadira a recostar-se em seu ombro porque queria
provocar um incidente.
Homens! Eles diziam que as mulheres eram incompreensíveis, que
é impossível saber por que uma mulher age ou fala de uma certa
forma. Mas os homens é que são estranhos - criaturas impossíveis,
ciumentas, exigentes e ambíguas.
Era estranho como viera para a África com a firme resolução de não
envolver-se em nenhuma complicação sentimental e, contra sua
vontade, conseguira exatamente o oposto.
Emma pensou outra vez na festa. Compreendeu que estava
raciocinando de maneira correta. Stewart perceberia que a dor de
cabeça era apenas uma desculpa e Lance sentiria muito prazer em
deixar isso claro para todos.
Iria à festa. Iria e encontraria os dois. Talvez, pensou ela com um
sorriso travesso, encontrasse um terceiro homem para fazer-lhe
companhia na festa, deixando Stewart e Lance de lado.
Depois de ter decidido que iria, o problema transformou-se no que
iria vestir. Trouxera um vestido longo de algodão e um vestido
azulclaro que já usara em algumas festinhas na Inglaterra. Sabia
que podia ir com qualquer um deles.

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
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Ou também poderia usar o vestido cor-de-rosa. De vez em quando,


antes de deitar-se, Emma tirava o vestido do guarda-roupa e
colocava-o sobre a cama. Ao acariciar as dobras macias do tecido,
lembrava-se das noites encantadoras que passara com Stewart.
Naquela ocasião havia harmonia e algo mais entre eles.
Agora Stewart estava furioso com ela, inexplicavelmente furioso e
frio. Às vezes Emma desejava que ele a procurasse e desabafasse a
raiva que sentia. Mesmo que isso implicasse em uma cena, ela
poderia pelo menos explicar as coisas e deixar tudo certo. Mas
quando se encontravam, havia só frieza, uma cortesia escrupulosa.
Pareciam estranhos. . .
Afinal decidiu que iria à festa usando o vestido longo de algodão.
Faria um penteado diferente e sustentaria o sorriso de uma pessoa
que não se importa com nada nesse mundo.
Emma voltou ao campo um pouco mais cedo naquela tarde. Antes de
ir tomar banho, abriu o pequeno guarda-roupa, olhou para o vestido
cor-de-rosa e acariciou-o pensativa. Em seguida, pegou o vestido
longo de algodão e colocou-o sobre a cama.
Quando saiu do banho seus cabelos estavam úmidos e encaracolados
e sua pele avermelhada pelo sol e pela água morna. Escovou os
cabelos, passou um batom claro e vestiu-se. Quando estava pronta,
olhou-se no espelho e meneou a cabeça. Cheia de pressa, tirou o
vestido longo, pendurou-o no guarda-roupa, pegou o vestido cor-
derosa e colocou-o.
Olhou para o relógio. Já estava na hora de ir.
- Emma! - Lance foi a primeira pessoa a vê-la. - Você está muito
bonita! - O sorriso do rapaz não foi tão rápido e mecânico como era
sempre e parecia ter mais significado. - Está muito bonita mesmo.
- Obrigada. - Emma olhou para trás do rapaz e viu Stewart que
também a fitava, não com a expressão de um estranho, como nos
últimos três dias, nem com a expressão que Emma vira em Pretória,
mas com uma seriedade, uma atenção, que a garota não conseguiu
entender.

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Stewart... - O homem estendeu-lhe a mão e Emma estava prestes


a segui-lo quando apareceu uma mulher ao lado dele. Era Miranda.
- Vocês já se conhecem, não é? - Aquela expressão de Stewart
desapareceu e seus olhos estavam impessoais outra vez.
- Sim, é claro. Como está, Miranda? - Emma sorria, mas no fundo do
coração, onde ninguém podia ver, estava chorando. Miranda estava
bem ao lado de Stewart, que não fez nenhuma tentativa de afastar-
se quando a garota lhe pegou o braço.
- Claro que nos conhecemos - disse Miranda. - A fotógrafa. Não
sabia que você ainda estava aqui.
- Oh, sim, ainda estou.
- Vai ficar ainda por muito tempo? - O tom de voz foi casual, mas
para sua perplexidade Emma notou que a pergunta estava cheia de
significado. Seria possível que até Miranda não estava segura da
posição que ocupava na vida de Stewart? Que ela também se sentia
insegura?
Felizmente não tiveram muito tempo para continuar ali. Linda
organizara a festa muito bem e logo os convidados se espalharam
em volta das fogueiras, rindo e conversando.
Embora os braai fossem comuns na vida do campo, Linda conseguira
modificá-los, dando-lhe um ar festivo. A comida estava colocada
sobre uma longa mesa. Havia pratos com carne, costeletas e
boerewors. Linda também fizera kebabs, que Emma sabia serem
outra especialidade da África do Sul. Havia espigas de milho
levemente cozidas, apenas esperando irem ao fogo por minutos para
ficaram no ponto. Também havia batatas, tomates, pepinos e
aspargos. Eram pratos comuns no campo, mas preparados de modo
delicioso e caprichado.
Logo as fogueiras ficaram prontas para assar as carnes. Quando os
homens se aproximaram com os espetos, um aroma delicioso
começou a espalhar-se pelo ar.
Ouviam-se piadas e risadas em todas as fogueiras. A maior parte
das pessoas se conhecia, mas o ar informal e alegre da festa os

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
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aproximava ainda mais e tornava a conversa mais fácil.


Miranda ainda continuava ao lado de Stewart, segurando-lhe o
braço.
Emma ficou contente quando Lance se aproximou, carregando dois
gratos numa mão só e fazendo um esforço para não derrubar os
dois copos que segurava na outra.
preciso me divertir, pensou Emma. Foi para isso que vim jantar ,ob o
céu estrelado da África. Foi por isso que deixei a Inglaterra . para
me divertir e espairecer, para fugir da chuva e da neblina, das
complicações e recriminações, para fugir do amor.
Quando terminaram de comer, foram dançar. Em outras
circunstâncias, numa outra noite e com os braços de outro homem
em volta de sua cintura, Emma estaria sentindo-se no paraíso.
O perfume agradável dos arbustos exóticos misturava-se ao aroma
do churrasco. O céu completamente estrelado, o murmúrio das
pessoas e atrás, onde a cerca separava as luzes e as risadas da
escuridão da mata, chegavam os sons dos animais, às vezes agudos,
quase sempre harmoniosos. Era com isso que Emma sonhara quando
saíra da Inglaterra e, em outras circunstâncias, a atmosfera
daquela festa faria com que a garota se sentisse muito bem.
Entretanto se sentia muito desanimada. A ansiedade, a pequena
esperança, não admitida, de que Stewart a procurasse, a esperança
que a fizera usar o vestido cor-de-rosa, dissipara-se
completamente. O simples fato de ver os convidados se divertindo,
aumentava sua sensação de mal-estar.
- Relaxe, Emma - disse Lance. - Você está tão tensa quanto um gato
prestes a saltar.
- Desculpe-me - disse arrependida, deixando que o rapaz a puxasse
para mais perto de seu corpo. Querido Lance! Ele fora tão bom, tão
gentil, desde o primeiro dia
em que o conhecera. Sempre paciente e compreensivo, amigável e
sorridente. Algumas vezes ele demonstrava seu desapontamento,
quando percebia que Emma preferia a companhia de Stewart à dele,

Livros Florzinha - 125 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

mas este sentimento nunca durava muito tempo.


Ele sempre estava por perto, na retaguarda, sempre em segundo
plano, pronto a tomar o primeiro quando surgisse a oportunidade,
pensou Emma. Embora tentasse não pensar nesses termos, a garota
compreendeu que era a pura verdade. Lance estava em segundo
plano em sua vida e não importava o que fosse acontecer, não
importava se Stewart retribuía seu amor ou não, Lance sempre
estaria em segundo plano.
Soltou mais o corpo, ao perceber que era isso o que Lance queria,
como se assim redimisse a injustiça que lhe fazia em pensamentos.
Mas, ao mesmo tempo, ficou contente quando Lance a segurou com
mais força. Não muito longe deles, estava Stewart e Miranda.
Estavam dançando também e Emma viu quando Miranda jogou a
cabeça para trás, rindo para Stewart, divertida com algo que ele
devia ter dito. Depois, pousou a cabeça no ombro
de Stewart e levou a a mão que estava sobre o braço até sua nuca.
Emma chorava por dentro. Atrás da face que ria e brincava, in
mágoa profunda a torturava. A pressão dos braços de Lance em
sua cintura, o ombro do rapaz em seu queixo,
a sensação de que alguém se importava com ela, numa pequena
medida ajudava-a, não a dim nuir a mágoa, mas a torná-la
suportável.
Dançaram até que houve um intervalo. Quando a música recomeçou,
Lance virou-se casualmente e disse: - Você se importa se
deixá-la por alguns momentos, Emma?
- Claro que não.
- Quero dançar a próxima música com Miranda.
Por um momento Emma fitou-o perplexa, mas controlou-se
rapidamente e disse: - É lógico que não me importo. Você sabe
disso.
Emma viu Lance caminhar para onde estava Stewart e Miranda. O
casal parou de conversar quando ele se aproximou, Miranda olho
para Stewart e disse algumas palavras, antes de ser envolvida pelos

Livros Florzinha - 126 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

braços de Lance. Emma viu tudo aquilo, como se fosse a


sequência de um sonho. Stewart parou, olhando um instante para o
casal que se
afastava dançando, antes de caminhar em sua direção.
Neste momento, o sonho terminou e Emma sentiu os lábios secos,
quando se virou, tentando encontrar alguém com quem conversar,
uma maneira de fugir dali. Aquilo
não era o que queria - que Ste- i wart se sentisse na obrigação de
convidá-la a dançar porque ela estava sozinha. Uma obrigação. Um
dever.
- Não fuja de mim, Einma. - A voz grave estava logo atrás dela.
- Não estou fugindo... eu... - gaguejou, virando-se.
- Pareceu-me que sim. Vamos dançar, Emma?
- Sim. - Stewart envolveu-a nos braços e começaram a dançar. Por
um momento Emma sentiu-se como se estivesse em outra pista de
danças, como se nada tivesse mudado..
De repente, lembrou-se de Miranda e percebeu que realmente
Stewart a convidara para dançar porque Miranda estava com Lance.
A magia quebrou-se. Ao invés de dançar
em silêncio, desfrutando a música e a sensação dos braços de
Stewart em volta de seu corpo, Emma foi tomada por uma súbita
necessidade de falar. Mas as palavras não saíram com naturalidade,
como expressão espontânea do que queria realmente dizer. Eram
palavras de uma estranha, fúteis, sem graça e forçadas.
- Não acha que a festa está uma beleza? - Emma ouviu-se dizer.
- Você está gostando?
- Oh, está ótima. Linda é maravilhosa. A comida estava deliciosa
e. . ? e tudo o mais. E, é claro, Lance. Dancei com ele quase a noite
toda, sabe? É tão encantador! O tipo de pessoa com quem se
deve ficar numa festa como esta.
- Você fala como se já tivesse lido essa frase em algum lugar, Emma
- comentou Stewart, com frieza.
-Oh, mas ele é mesmo ótimo. Você não acha? Ele é... é uma pessoa

Livros Florzinha - 127 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

muito divertida. Não concorda comigo? - Stewart não respondeu e


Emma continuou numa conversa
vazia, exuberante e exagerada, totalmente sem significado. Mas
não podia parar de falar, precisava evitar os silêncios, antes que se
tornassem embaraçantes.
A música terminou. Stewart agradeceu e enquanto se afastava
Emma compreendeu que, junto com aquela dança, qualquer outra
coisa que existia entre eles também terminara.
A esperança de que ela e Stewart acertassem as coisas aquela noite
fora completamente fora de propósito. Se alguma coisa tinha
acontecido, era que agora estava mais distante dele do que jamais
estivera.
Dançou com Lance mais uma vez. Sentiu-se bem com o conforto
que os braços do rapaz lhe proporcionaram. Dançaram em silêncio.
A necessidade de falar, de preencher os silêncios, desaparecera. E
embora
Emma não prestasse muita atenção, Lance também estava
preferindo
o silêncio.
Mais tarde, quando o campo já estava em silêncio e os hóspedes
começaram a despedir-se, Lance levou Emma para dar uma volta
pelo campo.
Estavam perto do rio quando Emma os viu - uma figura alta e outra
menor, o homem com um braço na cintura da garota que o fitava.
Involuntariamente Emma parou e
Lance também. De repente, Stewart abaixou-se, passou o outro
braço em volta da cintura de Miranda e beijou-a. Foi tudo muito
rápido, mas Emma e Lance viraram-se
e tomaram outro caminho.
Emma olhou para Lance, esperando ver aquela expressão de
satisfação que vira em sua face na noite em que passara o filme,
quando Stewart a encontrara com a cabeça sobre seu peito. Mas
desta vez não viu aquela expressão. Por estranho que parecesse, em

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

seu lugar havia um ar que misturava amargura, resignação e


tristeza. Se
Emma não estivesse tão ocupada com seu próprio desespero teria
pensado naquela expressão.
Para completa surpresa de Emma, alguns dias depois da festa,
Stewart convidou-a para sair. Tinha de tratar de alguns negócios
em foutro campo, dissera, e achava que talvez ela quisesse
acompanhá-lo.
O dia começou agradável, sem nenhuma discussão ou conflito
declarado. Na verdade, de uma certa forma, Emma desejava que
acontecesse alguma discussão, pois assim poderia pôr fim à tensão
existente atrás da amizade superficial que agora havia entre eles.
Conversavam e riam, mas Emma continuava a sentir aquela tensão a
necessidade de evitar o silêncio, pois achava que naquele ponto Oj
silêncios seriam insuportáveis.
Enquanto conversavam, tomavam precaução em evitar qualquer
assunto que pudesse despertar alguma discussão. O nome de Lance
não foi mencionado, nem o de Miranda.
O filme e a festa pareciam nunca ter acontecido.
Emma não conseguia sentir-se relaxada, pois percebia aquela
sensação que os incomodava tão palpável como se fosse feita de
tijolos. Perguntava-se a cada momento se Stewart sentia a mesma
coisa.
No fim da tarde, Stewart levou-a até um local que Emma ainda não
conhecia. Ficava numa estrada usada pelos guardas-florestais, uma
estrada que os turistas nunca percorriam. Emma apreciou a beleza e
a calma da clareira banhada pelo sol.
Havia um bando de impalas na sombra de algumas árvores, tentando
ocultar-se do sol que, mesmo no final da tarde, ainda estava muito
quente. Embora tivesse aprendido muita coisa no parque e soubesse
que os impalas eram um dos animais mais abundantes, Emma ainda
se sentia encantada toda vez que-via a graça natural daquela
espécie de animais.

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Dizem que os seres humanos se parecem com alguns animais


- comentou Emma, enquanto observava os impalas.
- Em que espécie de animais eu me encaixo? - perguntou com voz
divertida.
- Presunçoso! - Emma riu, fugindo da questão. - Eu não estava
pensando em você. - Se tivesse que escolher um animal para
representar Stewart, qual escolheria? Que animal simbolizaria
melhor a arrogância que se transformava facilmente :em
delicadeza? E o espírito independente? - Eu estava pensando que
alguns animais lembram mesmo as pessoas - acrescentou.
- Pense o contrário - Stewart piscou -, ou prefere que eu lhe diga
que animal você me lembra?
- Você é mesmo impossível! - Emma fingiu ficar amuada, mas na
verdade gostava daquelas brincadeiras. Parecia uma volta ao
comportamento informal que já existira entre eles e, percebendo
que os dois estavam sentindo-se muito à vontade, concluiu que seria
ótimo manter aquele clima por mais algum tempo.
- Está bem, vamos deixar que eu fique fora da discussão Stewart
riu. - Mas você não quer me dizer em que pensava?
- Pensemos no gnu. Sempre que vejo um, tenho vontade de rir.
Uma vez tive um Patrão muito parecido com um gnu. Era um homem
Agente e sem humor, que parecia sempre ter-se levantado às presr
e esquecido de molhar e pentear os cabelos.
Maravilhoso! - Stewart jogou a cabeça para trás e riu. - Você
está certa. Nunca tinha pensado nesta comparação.
Sabe o que me lembram os abutres? Velhas fofoqueiras que
ficam sempre por perto de alguma tragédia ou escândalo, prontas a
estender as garras...
- E acabar com as vítimas de uma vez por todas. Acertou outra
vez.
E os impalas - continuou Emma, encorajada pela atenção que
Stewart estava lhe dedicando - sabe o que me lembram?
- Não.

Livros Florzinha - 130 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Um corpo de bale.
- Os impalas são muito bonitos, não?
- São perfeitos, perfeitos. Aquele ali - Emma apontou para um dos
animais que pastava um pouco afastado dos outros e que parecia ser
o mais bonito - é a primeira bailarina, a bailarina especial.
Ficaram alguns instantes em silêncio, apreciando a cena que tinham
à frente e embora a tensão ainda estivesse presente, não era mais
tão forte.
De repente, Stewart disse: - Olhe, Emma.
- O quê?
- Ali - ele apontou.
- Eu... - Emma passeou os olhos pela mata, mas não viu nada de
anormal.
- Não está vendo? - Ao perceber o espanto da garota, acrescentou:
- Os impalas também não viram. É um leão.
- Sim! - Emma suspirou, pois vira o leão naquele momento, movendo-
se lentamente para a frente. - Ele vai...
- Está se preparando para fazer uma vítima... E eu acho que vai ser
sua primeira bailarina.
- Oh, não! Stewart, não!
- Sim. Ela está tão afastada dos outros...
Stewart parou de falar. As coisas aconteceram muito depressa. Os
impalas percebendo o perigo, a velocidade do leão, a confusão do
impala indefeso.. .
- Faça alguma coisa! - Emma gritou um momento antes que tudo
acontecesse, quando ainda achava que havia tempo de salvar o
animalzinho. - Faça alguma coisa, Stewart!
Desesperada, compreendendo que Stewart não faria nada, Emma
tentou abrir a porta do carro. Neste mesmo momento, a mão de
Stewart fechou-se sobre a dela com tanta força que os olhos da
garota se encheram de lágrimas. Quando Emma se virou para a mata
omra vez, tudo terminara.
- Por que não tentou salvá-la? - Emma gritou, furiosa.

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Sua tola! - disse ele, com o rosto pálido e cheio dê raiva


- Que diabos você pensou que podia fazer? Onde estava com a
cabeça, tentando abrir a porta dessa maneira?
- Você não ia fazer nada! - disse ela com firmeza.
- Os leões têm que comer.
- Mas não comer aquele impala.
- Estamos na selva, Emma. - Os olhos de Stewart eram penetrantes
e sua voz inflexível. - Esta é a selva, com leis de selva. Quanto mais
cedo você entender isso melhor será!
Stewart puxou-a então de encontro a seu corpo e beijou-a
cruelmente, como se nunca mais fosse parar de beijá-la.
Emma não sabia dizer quanto tempo durou aquele beijo. Quando
Stewart retirou os lábios dos seus, ela afastou-se, sentindo-se
amortecida, chocada e incapaz de pensar.
- Desculpe-me - disse Stewart.
- Essa é outra lei da selva?
- Eu pedi desculpas.
- Leve-me para o campo - pediu desanimada.
Sem dizer uma palavra, Stewart colocou o carro em movimento e
começou a percorrer a estrada de volta para Skukuza.
Emma olhava para o lado de fora de sua janela. Aquele não era o
amor com que tanto sonhara, não era da forma como ela queria que
fosse. Tão brutal e rude! Queria muito que Stewart a beijasse,
esperava muito que isso acontecesse, mas queria que o beijo fosse
terno, carinhoso e apaixonado, e não como o beijo que acabara de
experimentar.
A tensão voltou ainda com mais força, cheia de hostilidade, de uma
sensação de que algo estava em suspenso.
Emma nunca sentira tanta felicidade em atravessar os portões de
Skukuza.
- Até qualquer hora - disse Stewart, com tom de voz impessoal,
quando desceram do carro.
- Sim... - disse ela, insegura. - Obrigada pelo almoço. Ele não

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

respondeu e afastou-se a passos largos.


Emma virou-se e caminhou para o rio. Conseguiria suportar
permanecer no mesmo campo que Stewart? Ou devia ir embora
naquele mesmo momento, embora ainda faltassem algumas semanas
para completar os três meses? Apesar de querer, com todas as
forças que ainda lhe restavam, ir embora, sabia que não podia fazer
isso.
Ainda havia animais que não conseguira fotografar e outros que
preecisava encontrar outra vez, pois não se sentia satisfeita com as
fotografias que tirara. Mas seu trabalho, embora fosse importante,
não era o único motivo.
Havia algo mais, uma obrigação pessoal que tinha para consigo
mesma. Uma obrigação de não pensar que fracassara mais uma vez.
pinha muito respeito para consigo
mesma para deixar que isso acontecesse. Sabia que, se fosse
embora do parque naquele momento, Carregaria para sempre a
sensação de fracasso e de que deixara outra
pessoa influenciar sua vida.
Restavam apenas algumas semanas. Ficaria até o fim e faria o
máximo para aproveitá-las da melhor forma possível. Apesar de
Stewart!

CAPITULO X

Depois de Emma ter tomado aquela decisão descobriu que, de fato,


estava aproveitando o pouco tempo que lhe restava ali no parque.
Não dirigia o tempo todo, agora, procurando por animais, preferia ir
a lugares que já conhecia, ao laguinho dos hipopótamos, aos açudes,
à beira do rio. Às vezes
ficava sentada nesses lugares durante horas, observando os animais
que vinham beber água e apreciando os pássaros exóticos que

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

cantavam nos galhos das árvores. Mais do que tudo apreciava a


sensação de paz e tranquilidade que a invadia naqueles lugares.
Agora sabia que sentiria muita falta daquela vida. Pensava muito na
Inglaterra e tentava imaginar como seria morar lá outra vez. Correr
apressada pelas ruas de Londres, lutar para conseguir entrar no
metro, apertar-se debaixo de uma sombrinha enquanto esperava
para atravessar uma avenida movimentada. Pensaria então no tipo
de vida que conhecera e aprendera a amar e se arrependeria de ter
deixado a simplicidade de tudo aquilo.
Stewart. Stewart era um caso passageiro, tentava convencer-se.
Tinha que esquecê-lo. Iria esquecê-lo. De qualquer forma, tentaria
esquecê-lo.
E havia Lance. Sabia, mesmo sentindo-se culpada, que logo se
esqueceria dele, assim que chegasse na Inglaterra. Passara mais
tempo com ele desde a projeção do filme e da festa em que viram
Stewart e Miranda se beijando perto do rio.
- Você pensará em mim quando voltar para a Inglaterra? Lance
perguntou-lhe certa vez.
- Claro! - Emma sorriu. - Sempre que eu pensar nas férias
maravilhosas que passei aqui.
- Emma - começou ele e, quando a garota percebeu a expressão que
havia em seus olhos, sentiu-se trémula e teve vontade de
impedi-lo de continuar. - Emma, você acha
que poderia vir a sentir alg mais por mim do que sente agora?
- Tenho muita afeição por você - disse depois de um momento.
- Afeição? - ele fitou-a perplexo.
- Gosto de você, e sabe disso.
- Sim, disso eu sei. Mas.. . Emma, nós dois sabemos a que estou me
referindo. Se eu a pedisse em casamento, você aceitaria?
Ficou em silêncio, não querendo magoá-lo. Se pelo menos as coisas
tivessem ocorrido de modo diferente, - se não tivesse sido Lance
fazer aquela pergunta.
- E então, Emma?

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Não, Lance - disse afinal, com o máximo de delicadeza de que foi


capaz. - Não. Gosto muito de você como amigo, mas
casamento...
- É por causa de Stewart, não é?
- Não vou me casar com Stewart - disse ela, fugindo da pergunta.
- Então...
- Acho que ainda não estou preparada para o casamento. Lance, por
favor, vamos aproveitar essas últimas semanas que tenho.
Estivemos tão bem até agora.
- Está bem, querida. - Lance fitou-a por um momento, depois sorriu.
- Tentaremos fazer dessas últimas semanas as mais felizes,
Querido Lance! Sempre tão bem-humorado e compreensivo. E havia
Johnny. Teria muita saudade do garoto, de seu rostinhc sardento,
de seu sorriso engraçado, de suas mãos hábeis.
- Queria que você não precisasse ir embora - disse Johnny na quele
momento, quando estavam sentados em frente ao laguinho
dos hipopótamos.
- Todas as férias terminam um dia. É um ditado banal, mas é a pura
verdade.
- O que é banal? - O garoto levantou a cabeça e examinou
criticamente o desenho que tinha à sua frente.
- Muito usado. Terminou o desenho, Johnny?
- Preciso vir só mais uma vez aqui. O resto posso fazer em casa.
- vou sentir muita falta de tudo isso - Emma suspirou. - É tudo tão
bonito, não acha?
- Você não precisa ir embora - insistiu.
- Johnny.,.
- Você pode casar-se com Stewart.
- Acho que já conversamos sobre isso antes. E a resposta continua
sendo "não". Não me casaria com ele só para ficar aqui.
- Mas e se você quisesse mesmo ficar?
- Você compreenderá quando for mais velho. - Era uma pena
que as coisas não fossem tão simples como eram na mente de um

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Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
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garoto de doze anos. - Além do mais, Stewart não iria querer casar-
se comigo.
- Tenho certeza que sim. Ele.. .
- Vamos mudar de assunto, querido. . . Onde os guardas-florestais
foram esta manhã? Vi seu pai saindo logo cedo.
- Sim. - Johnny franziu a testa. - Eles foram atrás de um búfalo
ferido.
- Oh!
- Espero que eles consigam pegá-lo. Os búfalos normalmente são
perigosos, e quando estão feridos.. .
- E... foram muitos guardas-florestais? - perguntou ela.
- Foram.
- Seu pai era um deles?
- Era.
- E... - Era difícil falar o nome que desejava num tom casual, nas
Johnny não parecia muito comunicativo naquele dia, e ela precisava
saber. - E Stewart?
- Também foi.
- Oh! - Será. que sempre teria aquela sensação de angústia, quando
ficasse sabendo que ele corria perigo? Mas não devia preocupar-se
com aquilo, pois dali a poucas semanas, mesmo que quisesse, não
mais ficaria sabendo se ele corria perigo ou não. Perguntou-se se
Stewart lhe escreveria, ou se teria coragem de escrever a ele
mesmo se não tivesse resposta.
- Oh! - repetiu. - Será que eles estão bem?
- Imagino que sim. - Johnny tranquilizou-a.
A manhã passou rapidamente. Estava um dia agradável, não tão
quente quanto o normal. Preferia um tempo mais ameno como
estavam tendo naquele dia do que aquele calor enervante que sugava
as forças dos que não estavam acostumados com ele. Emma olhou o
relógio e percebeu, com pesar, que já estava na hora do almoço.
- Seu estômago deve estar implorando comida, não é, Johnny?
brincou ela.

Livros Florzinha - 136 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Bem, estou com um pouco de fome - admitiu o garoto. - Já faz


horas que não como nada.
- Não come desde a manhã - concordou sorrindo. - Está bem,
Johnny, então vamos embora. É uma pena, seria ótimo se
pudéssemos passar o dia aqui.
- Acho que podíamos ficar - disse o garoto.
- Não, Johhny. Nós dois estamos com fome. Na próxima vez que
viermos tentarei me lembrar de trazer lanche.
- Quando é que a gente vai voltar aqui?
- No dia em que você não for à escola.
- Oh, que bom! Falta pouco tempo para o concurso de desenho
- Logo nós voltaremos - prometeu.
- Você não vai embora para a Inglaterra antes que eu tenha
terminado o desenho, não é?
- Oh, Johnny! - Já estavam percorrendo a estrada de volta para
Skukuza. - Você é pior do que uma velha, quando começa a
resmungar! Já lhe disse que nós voltaremos aqui logo.
Quando chegaram ao campo, separaram-se. Johnny foi embora e
Emma resolveu comer alguma coisa leve e repousar um pouco. De
tarde saiu outra vez, parou o carro perto do rio, à espera de
animais. Voltou ao campo um pouco antes dos portões se fecharem.
Aquela era uma das horas que ela mais gostava - quando os turistas
regressavam ao campo e se amontoavam na loja para fazer as
compras para o jantar ou se sentavam na varanda espaçosa do
restaurante, bebendo algo, conversando sobre o que haviam visto
naquele dia. Era uma das horas em que o campo ficava cheio de vida
e Emma adorava passear por ali e observar as pessoas.
Estava andando na loja quando viu Lance. O rapaz estava
conversando com outra pessoa e ela apenas acenou e sorriu para ele.
Lance levantou a cabeça e também sorriu,
mas foi um sorriso estranho, Emma pensou, mecânico e
desinteressado.
Alguns minutos depois, viu outros funcionários do campo

Livros Florzinha - 137 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

conversando. Estavam com as faces tensas e preocupadas. Quando


passou por eles ouviu as palavras "acidente" e "ferimentos".
- Aconteceu alguma coisa? - Emma parou de repente, com um mau
pressentimento. - Desculpem-me, mas não pude conseguir deixar de
ouvir a conversa.
- Aconteceu um acidente. - Um dos homens virou-se para ela com o
rosto preocupado.
- Acidente? - O coração de Emma acelerou-se como se esperasse o
pior.
- Um grupo de homens saiu atrás de um búfalo ferido esta manhã. ..
- Sim! Sim, eu sei disso.
- Um dos homens foi ferido.
- Muito? - perguntou.
- Bastante, pelo que ouvimos dizer. Mas não temos detalhes.
- Quem... - forçou-se a pronunciar as palavras. - Quem foi?
- Não sabemos.
- Não sabem? Mas se souberam que aconteceu o acidente. . .
- Recebemos uma mensagem - sabe como são essas coisas.
Ficaremos sabendo aos poucos.
Eles pareciam impacientes para continuar a conversa que ela
interrompeu, e Emma não tinha nada mais a fazer senão afastar-se.
Instintivamente, como um animal ferido procurando conforto, foi
até ao rio, ao lugar que se tornara seu refúgio e, apoiando os braços
na cerca, ficou olhando para a mata.
Um acidente. Um dos guardas-florestais ferido - muito ferido.
Fatalmente? E quem era? A questão queimava-lhe o cérebro. Seria
Stewart? Não tinha como saber, nem
como descobrir.
Não tinha nenhum direito sobre Stewart para que pudesse ir até
alguma pessoa e exigir notícias mais precisas. Nenhum direito!
Exceto um, um direito não formalizado
que ninguém podia tirar-lhe. O direito de amá-lo. Pelo fato de que
amava aquele homem acima de qualquer outra coisa, morreria de

Livros Florzinha - 138 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

desgosto se algo acontecesse a ele. Era o direito mais importante


de todos, mas nunca poderia ser conhecido, ser comentado, ser
afirmado.
Desconsolada, começou a caminhar. Na manhã seguinte talvez
houvesse novidades, fatos e detalhes mais concretos. A única coisa
que poderia fazer era esperar e rezar. Sabia também que só
obteria informações se as procurasse, indo até a loja, ao escritório
ou a qualquer lugar onde tivesse pessoas conversando, pois ninguém
iria procurá-la para contar-lhe as novidades, boas ou más.
Emma dormiu muito pouco aquela noite. A face de Stewart dançava
perante seus olhos - a face bronzeada, com aquele sorriso que fazia
seu coração acelerar, os olhos que às vezes eram tão arrogantes e
zombeteiros, e outras vezes tão ternos.
Conseguiria esquecê-lo, quando voltasse para a Inglaterra? Poderia
deixá-lo se estivesse muito ferido? Provavelmente Miranda ficaria
ao lado dele. Mas, apesar disto, conseguiria ficar na Inglaterra,
sabendo que ele esta a ferido?
Emma achou que a noite nunca terminaria, mas quando começou a
amanhecer, adormeceu. Quando acordou, o sol já estava alto no céu.
De seu quarto podia ouvir perfeitamente
o barulho feito pelos turistas que se preparavam para o café da
manhã, ansiosos para continuarem seus passeios, indiferentes ao
acidente ocorrido no dia anterior. Enquanto Emma preparava uma
refeição rápida, dois pássaros azuis pousaram a seu lado, esperando
que ela lhes desse algumas migalhas do que estava comendo.
Percebendo que não sentia fome alguma, deixou quase tudo para os
pássaros, e foi direto para o escritório da administração. -
- Cuidado! - Estava tão apressada que não prestou atenção por onde
ia e, ao ir de encontro a uma pessoa, assustou-se. -
Cuidado, Emma! - Duas mãos apressaram-se
para ampará-la, antes que caísse. Repentinamente percebeu que um
braço segurava sua cintura.
- Stewart! - Chocada, olhou para ele, não procurando esconder as

Livros Florzinha - 139 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

emoções que eram visíveis em seus olhos. - Stewart! Oh, Stewart!


- Sim, sou eu. - Ele sorria. - Você parece que viu um fantasma.
- Eu... você está bem, Stewart?
- Sim, muito bem. O que aconteceu, Emma?
- Pensei. . . imaginei... - Soube que tinha acontecido um aci dente -
disse vacilante.
- Mas houve um acidente. - Sua voz era cansada e severa. Um
acidente muito desagradável.
Emma fitou-o sem dizer nada, sentindo-se muito aliviada com sua
presença para perguntar qualquer outra coisa.
- Estou vendo que você ouviu falar sobre isso - disse ele.
- Sim, ontem à noite. E eu pensei. . .
- O que pensou? - Conforme ela fitou-o, trémula, a suavidade e a
ternura que ela vira poucas vezes apareceram nos olhos de Stewart.
- Você pensou.. . Emma, você achou que o acidente tivesse
acontecido comigo?
Emma não conseguiu responder. Ainda estava muito emocionada e
sabia que se tentasse falar não conseguiria conter o choro.
Stewart passou o braço em volta de seus ombros, e disse: - Não,
Emma, não foi comigo. - Ficou em silêncio durante alguns instantes
antes de acrescentar: - Foi com Mike.
- Mike? - Por um momento Emma fitou-o sem compreender e
conforme o nome ganhava significado em sua mente, exclamou: Oh,
não! Mike! O pai de Johnny!
- Sim. - Ele retirara o braço de seus ombros e acendia um cigarro.
Emma viu que a mão de Stewart tremia. - O búfalo estava ferido, e
quando chegamos perto se enfureceu. Mike tropeçou. Foi um
acidente. Ele tropeçou numa raiz. Foi. .. uma dessas coisas que às
vezes acontecem, sabe?
- Mike está... Ele...
- Está vivo. No hospital. Está mal mas esperamos que se recupere.
- Oh! - Emma suspirou.
- Será operado hoje - acrescentou Stewart.

Livros Florzinha - 140 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- A esposa já sabe? Jane já sabe? - Depois de Stewart concordar,


perguntou: - E Johnny?
- Já.
A maneira como ele respondeu fez com que Emma prendesse a
respiração por um instante. - Como reagiu?
110
.- Muito mal. Ele. .. está muito aflito.
- Ele adora o pai. - Ficou em silêncio, pensando em Mike, um homem
alegre, um pouco mais velho que Stewart, sempre com um sorriso
nos lábios e uma palavra amiga para a garota que fizer amizade com
seu filho.
- O que Johnny e sua mãe farão?
- Não estou bem certo - disse Stewart.
- Será que ficarão aqui?
- Acho que não. Ontem à noite Jane estava falando em ir para casa
de seus pais até que Mike se recupere. - Se Mike se recuperar.
Emma sabia que essas palavras estavam na mente dos dois.
- Preciso encontrar Johnny - virou-se para Stewart com os olhos
cheios de lágrimas. - Que coisa terrível! Espero... só espero que
Mike melhore.
- Todos nós esperamos isso. - Stewart olhou para o relógio.
- Preciso ir, Emma. Vim aqui por mais ou menos uma hora para
arranjar algumas coisas, mas agora preciso voltar.
- Mas. .. pensei que Mike estivesse no hospital. - E está. O búfalo
porém ainda está solto. Depois do acidente,
durante a confusão, o animal fugiu. Isto também
não devia ter acontecido, mas aconteceu.
- Você vai procurá-lo?
- Acho que já estamos perto de encontrá-lo novamente. Os cães de
caça descobriram onde
ele estava, mas lá é escuro e não podíamos nos arriscar. - Fitou-a
por um
longo momento, antes de dizer: - Até logo, Emma.

Livros Florzinha - 141 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

Ela ficou olhando para ele com o coração cheio de apreensão. Ele já
estava bem distante quando, num impulso, ela gritou: - Stewart!
- Sim? - O homem virou-se e fitou-a.
- Tome cuidado!
Ele continuou fitando-a por mais um instante e o sorriso que Emma
tanto amava apareceu em seus lábios. - Pode ficar sossegada.
Acenou-lhe e afastou-se.
Só quando Stewart sumiu de vista Emma prestou atenção no que a
cercava. Foi aí que viu Lance. O rapaz estava parado não muito
longe, com uma estranha expressão no rosto. Emma perguntou-se há
quanto tempo ele estava ali.
- Lance - disse com voz trémula.
- Olá, Emma. - Ele não fez nenhum movimento em sua direção.
- Você ouviu?
- Ouvi cada palavra. - Pela maneira como ele disse aquelas palavras,
era claro sobre o que ele se referia. - Muito comovente!
- Comovente?
- Você não acha?
- Acho que não entendo você - disse ela, perguntando-se, enquanto
olhava para a expresão dos olhos do rapaz, se algum dia já o
compreendera realmente. - Um homem foi muito ferido. Não vejo
nada de comovente nisso.
- Ah, mas esse homem não é Stewart. - Ainda estava com a mesma
expressão. - E isso é tudo o que interessa, não é?
- Não estou disposta a ter este tipo de conversa agora - afastou-
se. - Preciso encontrar Johnny.
- Jane! - Emma estendeu a mão para a outra mulher, quando entrou
no chalé. - Fiquei sabendo agora.
- Obrigada por ter vindo, Emma. Preciso conversar com alguém.
- O rosto de Jane, normalmente tão alegre, estava pálido e
perturbado, e seus olhos, avermelhados.
- Está fazendo as malas?
- Sim vamos embora logo que meus pais cheguem.

Livros Florzinha - 142 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Teve outras notícias?


- Nada. Esta espera... É difícil suportar esta terrível espera.
- Posso imaginar - disse Emma, com delicadeza.
- Tudo o que quero é ir para onde Mike está - afirmou Jane.
- Posso ajudar em alguma coisa, Jane?
- Não.. . sim.. . Sabe, Johnny. . .
- Onde ele está? - perguntou Emma.
- Não sei.
- Não sabe? - Emma fitou a outra mulher sem compreendê-la.
- Está querendo me dizer que não sabe onde Johnny está?
- Faz horas que não o vejo.
- Não entendo...
- Ele ficou muito chocado quando soube. Vieram avisar-me muito
tarde, ontem à noite. Johnny acordou e ouviu tudo...
- Sim... Imagino como ele ficou chocado.
- Johhny é tão apegado a Mike. Ele chorou, Emma. Tentou aguentar
firme. Acho que ele estava envergonhado, só Deus sabe por que, e
não queria que eu o visse chorando. Como se eu não achasse isso a
coisa mais normal num garotinho de sua idade.
- Mas onde ele está agora?
- Não sei.
- Mas ele está no campo?
- Acho que sim. - Jane fitou-a distraída. - Pensei que estivesse com
você.
- Não o vejo desde ontem à tarde, desde que voltamos do laguinho
dos hipopótamos.
- Deve estar escondido em algum lugar. É uma criança muito sensível
e adora Mike. Acho que ele deve ter tido vontade de ficar sozinho.
- Mas precisamos encontrá-lo. - Emma estava mais perturbada do
que gostaria de demonstrar para aquela mulher que já tinha muito
com que se preocupar.
- Ele voltará logo. Johnny é imprevisível. Nunca se sabe quando ele
vai chegar em casa.

Livros Florzinha - 143 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Claro - disse Emma, procurando tranquilizá-la, sentindo que Jane


precisava disso. - vou procurá-lo. Talvez ele esteja com fome. Se
estiver, farei com que coma alguma coisa.
- Obrigada. - Jane tentou sorrir. - Emma. . .
- Trago-o para cá assim que encontrá-lo - prometeu Emma.
- Obrigada.
- Mas e você? - perguntou. - Tenho certeza de que não comeu nada
durante a manhã toda.
- Não tenho fome.
- Mas você precisa comer alguma coisa - insistiu. - Precisa manter
suas forças. - Sem esperar resposta, Emma apanhou uma xícara,
encontrou a lata de café, foi até um dos caldeirões e pegou água
fervendo. Fez com que Jane tomasse o café e comesse um
sanduíche. - Agora vou procurar Johnny - disse.
- Obrigada. - Jane estava agradecida. - Johnny sempre fala tanto
em você, Emma.
- E eu gosto muito dele. - Tocou o braço de Jane num impulso.
- Tenho certeza de que ele está bem. Johnny é uma criança muito
inteligente,
- Sim. - Jane continuava com uma expresão muito preocupada nos
olhos.
- vou sair agora. Jane, sei que é um pouco inútil.. . mas tente não se
preocupar. com Mike, quero dizer.
- Não é fácil.
- Entendo. - Emma imaginou como estaria se sentindo se fosse
Stewart quem estivesse num hospital, muito ferido. - Tente
descansar
um pouco, Jane. Voltarei logo.
Foi naquele momento, quando deixou Jane, que Emma teve um
pressentimento de que não encontraria Johnny. Primeiro foi até o
prédio da administração, depois à loja, ao escritório, à livraria, ao
restaurante, em todo o lugar onde achava que ele pudesse estar.
Perguntou

Livros Florzinha - 144 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

aos homens e mulheres que trabalhavam no campo se tinham


visto o garoto. Todos o conheciam e notariam sua presença, mas
ninguém se lembrava de tê-lo visto.
Todos já sabiam sobre o acidente. Onde quer que fosse era o
assunto da conversa. Jobnuy era muito conhecido e as pessoas
lamentavam por ele. Se o tivessem encontrado com certeza lhe
informariam.
Emma a caminhou por todo o campo, passou pelos inúmeros bangalôs,
parando para perguntar aos turistas pelo garoto. Ali era mais
difícil, pois os visitantes não o conheciam, e Emma tinha que
descrevê-lo; Além do mais, havia muitos garotos de rosto sardento
e short de brim.
Foi até o rio e procurou pelos lados da cerca, sabendo que o garoto
não seria tão tolo de esconder-se ali. Mas já estava ficando um
pouco desesperada.
Conforme as horas se passavam e ninguém encontrava Johnny,
Emma ficava cada vez mais preocupada. Às vezes alguém falava de
promover um grupo de busca caso ele não fosse encontrado logo.
- Não consigo entender - Emma disse a Lance, quando o encontrou.
- É claro que ele está escondido em algum lugar - disse o rapaz.
- Mas onde? Estou ficando tão preocupada.
- Ele está querendo chamar a atenção, Emma. Johnny voltará
quando ficar com fome.
- Johnny não é assim - disse ela furiosa, pensando que nunca
percebera o quanto Lance podia ser insensível.
O sol já estava alto. Por todo o campo os turistas preparavam o
almoço e Johnny ainda não fora encontrado. Emma ficava cada vez
mais ansiosa. Jane estava a seu lado muito preocupada. Vários
funcionários do campo também ajudavam a procurar, mas ninguém
conseguia achá-lo.
De repente Emma teve uma idéia. Olhando para o relógio, viu que
ainda dava tempo de fazer o que pretendia. Sem parar para
almoçar, dirigiu-se para o carro, só parando na loja para avisar

Livros Florzinha - 145 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

Lance onde ia. - Ele pode estar no laguinho dos hipopótamos - disse.
- vou para lá agora.
- Mas como ele teria conseguido chegar até lá?
- Pode ter conseguido uma carona com alguém. - Quando Lance
fitou-a em dúvida, Emma continuou: - É uma possibilidade. Se ele
não estiver lá, eu volto.. . Lance, se alguém me procurar... se
Stewart voltar e perguntar por mim. . . por favor, você avisa que eu
fui até o laguinho dos hipopótamos e que voltarei no fim da tarde?
Será que seria inútil aquela ida até ao lago?, perguntou-se, enquanto
dirigia no máximo da velocidade permitida. Johnny dissera que
precisava ir só mais uma vez ao laguinho para terminar o desenho.
Ele estava muito animado para participar do concurso. Aquilo
parecia significar muito para ele. E agora que iam embora do campo,
johnny podia ter pensado que não teria outra oportunidade de ir até
lá.
Será que estaria sendo cruel com Johnny? Estaria errada em
imaginar que ele quisesse desenhar, mesmo com o pai no hospital
muito doente? Se outras pessoas achassem essa atitude do garoto
cruel, era porque não o conheciam como ela.
Johnny adorava o pai, disso ela tinha certeza. O acidente sem
dúvida fora um choque terrível para ele. E Johnny era muito
sensível. Podia ter precisado de algo que
o auxiliasse a superar a dor. E sua arte significava muito para ele.
Será que o garoto acreditava que, terminando seu desenho,
encontraria mais força para suportar os tempos difíceis que se
aproximavam?
Nesta linha de raciocínio, não era impossível que Johnny tivesse
procurado alguém que ia para aquele lado e pedido uma carona. Mas
por que não falara com ela para o levar?
De .repente pensou que sabia a resposta também desta pergunta,
pois talvez Johnny tivesse ficado envergonhado, achando que ela
pensaria que ele era muito insensível em querer desenhar numa hora
daquelas.

Livros Florzinha - 146 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

Emma chegou ao pequeno atalho que saía da estrada principal e


seguiu em direção ao rio. com uma pontada no coração viu que não
havia outros carros na pequena clareira. Entretanto, precisava
descer, estacionar o carro e ir às rochas, pois num momento de
insensatez
Johnny podia ter convencido alguém a deixá-lo ali, afirmando que
viriam buscá-lo mais tarde.
Um pouco nervosa, desceu do carro e foi até as rochas onde
cosftumava se sentar com o garoto. Normalmente havia um guarda
por perto, com um rifle pendurado num
ombro para o caso de acontecer algo imprevisto, mas naquele dia
não havia ninguém. Talvez porque já fosse um pouco tarde e ele
tivesse pensado que ninguém mais apareceria. . .
Foi com muita apreensão que Emma caminhou sobre as rochas,
chamando pelo nome da criança, assustando-se quando um esquilo
pulou a sua frente. Não muito longe dela, um hipopótamo levantou a
cabeça acima da água, respirou fundo e submergiu outra vez. Não
houve mais nenhum movimento.
Quando teve certeza de que Johnny não estava ali, voltou,
suspirando de alívio quando bateu a porta do carro. Por mais que
dissessem que
- aquele lugar era seguro, era preciso ter nervos de aço para
caminhar sem nenhuma proteção no meio de uma reserva de animais.
Emma deu marcha à ré no carro e começou a sair do
estacionamento, perguntando-se por que o automóvel parecia
diferente, indo aos solavancos, como se alguém estivesse
segurando-o. Talvez houvesse pedras no chão que não vira quando
estacionou.
Foi de marcha à ré até chegar à estrada principal e virou em
direção a Skukuza. O sol já estava se pondo. Olhou para o relógio
ansiosa e ficou aliviada ao perceber que teria tempo de chegar a
Skukuza antes que os portões fossem fechados.
Depois de alguns momentos, percebeu que não encontrava nenhum

Livros Florzinha - 147 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

carro. Estava claro que a maior parte das pessoas que percorria
aquela estrada já havia voltado ao campo, mas não estava
preocupada. Sabia quanto tempo precisava para completar a viagem
de volta e, embora precisasse dirigir no máximo da velocidade
permitida, tinha certeza de que conseguiria chegar a tempo.
A única coisa que a preocupava era o estado do carro. O que podia
ser? Precisava mandar examiná-lo quando chegasse ao campo.
De repente, com um estalido, o motor do automóvel deixou de
funcionar e parou. - Oh, não! - ela gemeu, pisando no acelerador o
máximo que pôde. - Isto não pode acontecer. Não pode!
Mas aconteceu. Olhou a sua volta, pensando em descer e examinar o
motor para ver o que sucedera, embora soubesse que não devia
fazê-lo, pois já estava distante do lago dos hipopótamos e podia
haver um leão pelos arredores. De qualquer modo, sabia tão pouco
da mecânica de um carro que, mesmo que olhasse o motor, não
poderia fazer quase nada.
Quase sem pensar, olhou para o painel do automóvel. Então
compreendeu. Estava sem gasolina! De todas as coisas idiotas que
podiam acontecer, aconteceu aquilo! Como pôde ter saído do campo
sem ter verificado o tanque de gasolina? - Bem, agora não havia
nada a fazer, a não ser continuar ali esperando que alguém viesse a
sua procura.
Embora estivesse aborrecida consigo mesma, não estava
preocupada. Já era tarde e sabia que não passaria mais nenhum
carro, mas dissera a Lance onde ia. Quando dessem
por sua falta, Lance mandaria alguém procurá-la.
Enquanto esperava pensava mais em Johnny do que.em sua própria
situação. Onde estaria o garoto? O que o choque do acidente de seu
pai o levara a fazer? Tivera tanta certeza de que o encontraria no
laguinho dos hipopótamos; ficara tão contente quando teve aquela
idéia, sentindo que aquela intuição estava certa. Mas ele não estava
lá. Não conseguia imaginar o que poderia ter acontecido.
Pensou em Stewart, perguntando-se se o grupo de guardas-

Livros Florzinha - 148 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

tlorestais tinha encontrado o búfalo. Se ao menos soubesse que


tudo estava bem, pensou, olhando mais uma vez para o relógio.
O maravilhoso sol africano se punha num espeíáculo de cores, mas,
depois que se escondeu atrás do horizonte, escureceu muito
depressa.
116
Emma estava tão distraída em seus pensamentos que não percebeu
o quanto estava escuro.
De repente percebeu a escuridão a sua volta, opressiva e
ameaçadora. Ainda restava uma luz ténue e dessa maneira podia ver
sombras por todos os lados. Nervosa, perguntou-se se o que vira
moverse vagarosamente seria um arbusto ou um leão. Minutos
depois, a claridade mínima que ainda persistia extinguiu-se, ficando
completamente escuro.
Será que alguém a encontraria se viessem procurá-la? Essa
possibilidade começava a ficar mais clara em sua mente, embora
tentasse não pensar nisso, pois logicamente alguém sairia a sua
procura logo que sentissem sua falta. Além disso Lance sabia onde
tinha ido.
Mas a situação continuava. O carro seria visto? Havia arbustos na
frente do automóvel e atrás uma curva. A estrada não era iluminada
e qualquer carro poderia passar sem localizar o seu.
Talvez devesse deixar os faróis acesos. Fez isso, mas momentos
depois apagou-os outra vez, pois não sabia como os animais
reagiriam. Qual seria a reação de um elefante que atravessasse a
estrada e visse os dois faróis brilhando na escuridão? Continuaria
seu caminho ou se enfureceria?
Emma não sabia - esse era o problema. Não sabia o que um efante
podia fazer. Havia tanta coisa sobre os animais que
desconhecia. Stewart saberia.
Por favor, Stewart, por favor, venha. Venha logo. Desejou que o
rapaz aparecesse para livrá-la daquela situação. Mas dali a poucas
semanas não interessaria mais se ela soubesse algo sobre animais ou

Livros Florzinha - 149 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

não. Em Londres, nas ruas superlotadas, não importaria se ela


tivesse úvidas em deixar ou não os faróis do carro acesos, pois não
existiria a possibilidade de um
elefante estar por perto.
- Por favor, Stewart. Por favor, venha. É claro que ele viria. Como
podia ter dúvidas? Ele voltaria da caça ao búfalo e iria procurar
Jane. Jane lhe falaria sobre
o desaparecimento de Johnny e contaria que Emma saíra para
procurá-lo. Depois ficaria preocupado, e quando
ela não fosse encontrada a notícia se espalharia pelo
campo. Lance ficaria sabendo e contaria a Stewart que ela fora até
o laguinho dos hipopótamos.
Aí eles sairiam para procurá-la. Emma quase conseguia ver toda a
cena. Podia ver Stewart correndo para o jipe e dirigindo-o até os
portões, já fechados e trancados. Podia vê-lo dizer ao vigia que se
tratava de uma emergência, que uma mulher se perdera e que
precisava sair para procurá-la. E os enormes portões se abririam
para que o jipe passasse.
Ele chegaria a qualquer momento. Tudo o que Emma tinha a fazer
era ser paciente e esperar.
Os dias na África eram muito quentes, mas quando anoitecia ficava
frio. Agora, sem nada que a aquecesse, Emma começou a sentir frio
e, como não comera nada desde
aquela manhã, estava com muita fome. Estreitando os olhos,
examinou a escuridão à procura de alguma luz. Abaixando a janela -
apenas um centímetro, pois nunca se sabia o que podia haver ali ao
lado - tentou ouvir. Mas se algum carro estivesse se aproximando
não conseguiria vê-lo nem ouvi-lo.
A mata estava povoada de inúmeros sons. O canto dos grilos,
contínuo e familiar, parecia mais alto e primitivo do que o normal.
Ouvi-los dentro do campo, com a segurança das cercas e das
fogueiras espalhadas era muito diferente, descobriu Emma, do que
ter que ouvi-los sozinha, sentindo-se indefesa na escuridão. Ouvia

Livros Florzinha - 150 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

ruídos e estalidos, latidos de babuínos e o riso de uma hiena. Um


leão rugiu e Emma sentiu-se estremecer. O leão podia estar bem
longe, pois o som do rugido podia ter atravessado a mata, mas
também podia estar bem perto.
De repente, percebeu que algo a observava. Virou a cabeça
rapidamente. Dois pontos de luz brilhavam na escuridão. Por um
instante ficou confusa. Então percebeu que os pontos de luz eram
os olhos de um animal. Mas que animal? Oh, Deus, que animal?
Stewart! Lance! Onde vocês estão? Venham! Por favor, venham!
Talvez eu esteja histérica, mas não sei por quanto tempo mais
poderei suportar isso!
Percebia claramente a presença do animal, enorme e ameaçador, na
escuridão, farejando o carro, cutucando o objeto que não lhe era
familiar, antes de ir embora. Emma pensou que a noite nunca
terminaria, que não teria fim aquele pesadelo de estar ali sozinha na
escuridão, com animais selvagens rondando o automóvel e sem
possibilidade de sair e procurar ajuda.
Não foi possível dormir. Mesmo se não estivesse tão amedrontada,
e aos poucos percebia que se acostumava aos ruídos a sua volta,
estava com muito frio e fome para se sentir cómoda. De vez em
quando seus olhos se fechavam e percebia que cochilara durante
alguns minutos. Não conseguiu porém dormir.
Algum tempo antes do sol nascer, a escuridão começou a dar lugar a
um tipo de transparência cinzenta, e assim Emma podia distinguir os
arbustos e árvores a sua volta. Não muito longe dali, um macaco
balançou-se sob uma árvore, olhou-a por um longo momento e fugiu.
Conforme foi clareando mais, Emma pôde ver inúmeras pegadas por
perto do automóvel e percebeu que os sons que ouvira durante a
noite não tinham sido frutos de sua imaginação.
De repente ela pensou ter visto movimentos atrás de algumas
árvores. Não havia luminosidade suficiente para ver com clareza,
mas logo os movimentos se tornaram mais distintos e mais
próximos. Emma viu primeiro as pernas altas, finas e fortes, e

Livros Florzinha - 151 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

depois, conforme os corpos foram saindo detrás das árvores, viu


três girafas mordiscando os topos das árvores. Os três animais
pararam ao avistar o carro, ficaram imóveis, apenas mexendo as
caudas. Depois, como se tivessem combinado, atravessaram a
estrada e desapareceram atrás dos arbustos do outro lado.
Cada vez mais os animais surgiam de trás das árvores, atravessavam
a estrada, indo na direção do rio. Agora que já não estava mais
escuro e que havia a possibilidade
de encontrar alguém - pois durante o dia os automóveis percorriam
aquela estrada -, Emma acalmou-se e começou a prestar atenção no
que acontecia.
Nunca saíra tão cedo, pois os portões só se abriam um pouco mais
tarde. Certa vez Stewart lhe dissera que os animais iam beber água
muito antes que o sol nascesse
e Emma concluiu que devia estar perto de alguma nascente, pois via
muitos animais passando por ali. Três kudus, com seu porte
majestoso, passaram na frente
do automóvel, e também uma bela e rara zibelina. Um bando de
zebras e gnus pastava não muito longe dali e, num determinado
momento, o farfalhar dos ramos denunciou
a aproximação de um javali. O animal fitou-a por um momento,
parecendo hesitante, e depois atravessou a estrada com seu jeito
esquisito e desapareceu.
Se pelo menos tivesse coragem de descer do carro e abrir o
portamalas para pegar a máquina fotográfica! Emma brincava com
esta idéia - afinal, não levaria mais de um minuto - quando viu os
abutres nas árvores. Estavam ali, ocultos e perigosos, esperando.
Emma estremeceu. Em algum lugar muito próximo dali haveria um
cadáver,
pois os abutres estavam à espera para atacar os restos da vítima.
Pela posição em que estavam nas árvores, tão perto do automóvel,
Emma percebeu que o cadáver não.
estava longe dali.

Livros Florzinha - 152 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

A fome que sentia já se transformara em dor de estômago. Olhou


para o relógio impacientemente, quando ouviu o barulho do motor de
um carro. Prendendo a respiração,
viu um jipe estacionar ao lado de seu automóvel.
- Emma! - com um movimento rápido o homem saltou do jipe e
entrou no carro da garota. Depois apertou-a nos braços. - Oh,
Emma, Emma!
- Stewart! - A garota percebeu que chorava de alívio e de espanto,
pois nunca imaginara que poderia vê-lo tão preocupado e
emocionado. - Oh, Stewart, você me encontrou!
Stewart afastou-a e fitou-a de modo penetrante por um longo
momento.
Emma segurou a respiração, pensando que ele iria beijá-la, mas
inexplicavelmente começou a sacudi-la e a dizer: - Oh, Emma, sua
idiota!
- Stewart? - fitou-o assustada, não conseguindo compreender a
súbita-mudança de humor.
- Você foi atrás de Johnny, não foi?
- Sim. Ele está bem? Jobnny está bem? - perguntou ansiosa.
- Sim, Johnny está muito bem.
- Onde vocês o encontraram?
- Johnny tinha ido ver o pai.
- Não! - Emma encarou-o, perguntando-se por que não pensara
naquela possibilidade. - Não entendo como. . .
- Ele conseguiu uma carona. Um homem estava prestes a ir embora
do campo e Johnny lhe disse que queria ver o pai, pedindo que fosse
com ele até Nelspruit.
- Mas por que não avisou Jane?
- Não havia tempo. O homem já estava quase saindo e Johnny
resolveu que telefonaria para a mãe já do hospital.
- Oh!
- Mas aconteceu um problema com as linhas dos telefones e Johnny
só pôde telefonar ontem à noite.

Livros Florzinha - 153 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Mas, Stewart. . . Eles iam para o lado de Mike de qualquer forma.


Jane estava arrumando as malas.. .
- Acho que Johnny sentiu que não poderia esperar. Não o julgue com
muita severidade, minha querida. Ele estava tão aborrecido que
acredito que nem estivesse conseguindo raciocinar direito.
- Claro - disse Emma. - Pobre Jane, ela deve ter ficado muito
aliviada quando ele telefonou.
- Acho que ela já estava prestes a ter um colapso - disse Stewart
com calma.
- Pobre Jane - repetiu, imaginando o que a outra mulher fizera para
conseguir suportar aquele dia cheio de acontecimentos
desagradáveis. - Stewart, como está Mike?
- Não posso dizer que está bem, porque não está. Mas ele vai viver -
agora já sabem que sim. Mike foi operado ontem e reagiu muito
bem.
- Oh, graças a Deus!
- Sim - disse Stewart. - Foi um milagre. O modo como o búfalo o
pegou... foi muito grave. Ficamos muito preocupados com Mike.
- Eles poderão voltar para cá? - perguntou ela.
- com o tempo, espero que sim. Mike é um guarda-florestal
maravilhoso. Mas levará muito tempo até que possam voltar.
- E Jane? Ainda pretende ir morar com os pais?
- Sim, enquanto Mike estiver no hospital. Assim, pode ficar mais
perto dele.
- E Johnny não poderá terminar o desenho que começou - disse
Emma com tristeza.
Stewart fitou-a de modo estranho, antes de responder. - Eles
ainda terão que voltar para cá por alguns dias. Jane precisa acertar
algumas coisas.
Então poderei trazer Johnny ao laguinho dos hipopótamos?
- Sim, se você quiser.
- Oh, é lógico que quero. Johnny precisa vir só mais uma vez.
Foi ele quem me disse isso.

Livros Florzinha - 154 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Foi por isso que você veio até aqui ontem? Você imaginava que ele
poderia estar aqui?
- Sim. Foi o que pensei. - Ficou em silêncio durante alguns instantes.
- Nem por um momento imaginei que ele tivesse ido visitar o pai.
Que estupidez a minha, não?
Stewart, que aconteceu ao búfalo?
- Finalmente conseguimos pegá-lo.
- Foi muito difícil? - pensou na imensidão da mata densa e tentou
imaginar como se abriria caminho à procura de um animal que podia
estar em qualquer lugar.
- Tivemos muita sorte e nossos cães são excelentes. Passei toda
minha vida na mata, mas eles descobrem pistas que para mim
pastariam despercebidas. Encontramos
o búfalo, Emma. É claro que sabíamos mais ou menos onde ele
estava. Nós fizemos o que foi necessário. - Parou de falar. Quando
continuou, sua voz estava cheia de raiva. - Que coisa terrível! Isso
me deixa louco! Foi outro caçador que esqueceu a armadilha
preparada! E veja os resultados. Um homem correu perigo de vida e
um belo animal teve que ser abatido.
Enquanto conversavam, o dia clareava mais. Agora Emma podia
imaginar o que Stewart tinha passado. Viu as linhas de cansaço e
tristeza debaixo de seus olhos e o ar sombrio em sua face. Olhou
para suas mãos e viu que estavam arranhadas e vermelhas, e um
corte fundo atravessava seu polegar direito.
- Você se machucou! - exclamou.
Stewart baixou a cabeça, como se tivesse acabado de perceber o
ferimento. - Não foi nada - disse calmo.
- Você passou por maus momentos.
- Sim, maus momentos. - Stewart fitou-a e a garota ficou perplexa
ao notar que a raiva lhe voltava à face. - Foi terrível, Emma. E
quando cheguei ao campo e descobri que você sumira e que ninguém
sabia para onde tinha ido, sabe o que eu senti?
Emma olhava-o sem compreender.

Livros Florzinha - 155 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Você às vezes é tão tola, Emma. Eu começava a dizer-lhe isso


quando a encontrei, mas começamos a falar de Johnny. - Estendeu
os braços e sacudiu-a. - Sua idiota! Você não pensa nas coisas?
- Não sei a que você está se referindo - retrucou com os lábios
trémulos.
- Nunca lhe passou pela cabeça que deve pensar no que os outros
podem sentir?
- Mas. . .
- O que você imagina que eu senti quando voltei ao campo e vi que
você havia desaparecido? Perguntei a todos e ninguém sabia onde
você estava. Ninguém tinha visto você. Os portões foram fechados,
seu chalé estava vazio e seu carro não estava onde você costuma
estacioná-lo. O que eu poderia pensar?
- Eu saí à procura de Johnny - Emma afirmou, ainda assustada pela
raiva de Stewart. - Eu pensei que ele pudesse ter ido ao laguinho
dos hipopótamos. O concurso. .. Ele estava tão animado para
terminar o desenho. E se ele fosse embora, não poderia terminá-
lo.. .
- a voz dela falhou. - Acho que fui tola, mas não conseguíamos
encontrá-lo em nenhum lugar. Então me lembrei disso, foi como uma
última cartada. Mas eu estava errada, Johnny não estava lá.
- Lembrei-me do laguinho dos hipopótamos no meio da noite,
- disse Stewart -, depois de ter ficado acordado durante horas,
tentando imaginar onde você poderia ter ido.
- Você estava tão preocupado assim comigo? - perguntou
maravilhada.
- Como se você não soubesse disso - retrucou abruptamente.
Durante a noite lembrei-me dos passeios que você fazia com Johnny
e pedi que o vigia abrisse os portões mais cedo, logo que começasse
a clarear.
- Oh, Stewart! - exclamou, soluçando. - Então você saiu mesmo à
minha procura?
- Claro que sim. Por que você acha que estou aqui? Mas, Emma, por

Livros Florzinha - 156 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

que saiu tão tarde? Você devia ter imaginado que não daria tempo
de voltar.
- Não foi isso - comentou. - Acabou a gasolina do carro. Stewart
fitou-a por alguns minutos. - Emma, minha pequena bobi-
nha - disse ele desesperado com uma ternura na voz que fez o
coração dela acelerar-se -, como deixou que isso acontecesse? Não
pensou que... - parou antes de terminar a frase. - Por que você não
avisou ninguém? Por que não pediu que alguém me dissesse onde
tinha ido?
- Mas eu avisei - disse pálida. - Avisei Lance.
- Lance?
- Sim. Se ao menos você tivesse perguntado a ele. . . Ficaram em
silêncio. Os abutres voaram e as três girafas que Emma
vira antes atravessaram a estrada outra vez, voltando do rio e
desaparecendo entre os arbustos.
- Eu perguntei a ele - disse Stewart.
- É mesmo? - Emma arregalou os olhos, completamente espantada.
- Sim.
- O que ele disse?
- Nada.
- Ele não lhe disse para onde eu tinha ido?
- Lance apenas me perguntou por que eu achava que ele poderia
saber de seu paradeiro.
- Mas isso é.. . é inacreditável! - Emma sentia-se entorpecida e
chocada. Não conseguia compreender por que Lance se comportara
daquela maneira. - Ele sabia que eu estava perdida?
- Claro. Eu disse a ele.
- Então.. . - A gravidade da traição de Lance começou a tomar
forma. - Ele deve ter percebido que algo tinha acontecido comigo.
Ele sabia. Lance sabia que eu estava
na mata. . . sozinha. Podia ter acontecido alguma coisa... qualquer
coisa. .. não podia? - Olhou para Stewart com tristeza.
- Lógico que sim.

Livros Florzinha - 157 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Lance não sabia que a gasolina do carro acabara. Eu podia ter


sofrido um acidente... um leão, ou um elefante podia ter me atacado.
. . ou podia ter acontecido alguma coisa com o carro.
Stewart deixou que ela falasse. Continuou sentado calmamente,
deixando que Emma desabafasse toda a tensão que passara durante
aquela noite.
- Eu não sabia.. . nunca imaginei que Lance fosse capaz de fazer uma
coisa dessas, Stewart. - Virou-se para ele. - Você sabia?
- Nunca tinha pensado nisso, mas agora que aconteceu, não estou
muito surpreso.
- Você nunca gostou de Lance, não é?
- Não.
- E ele também não gosta de você. Deu-me conselhos para que eu
não me aproximasse
de você.
- É mesmo?
- Sim, no dia em que o conheci. Por que você já não gostava de
Lance?
Stewart não respondeu imediatamente. - Havia alguma coisa que não
me deixava confiar nele, mas nunca pensei muito nisso. Você
era amiga de Lance e teria pensado que eu estava tentando fazê-la
ficar contra ele.
- Depois do que aconteceu, não. Stewart, ele também não gostava
de você. De vez
em quando chegava a pensar que ele o odiava.
- Acho que sim - concordou Stewart.
- Por quê?
- Ciúmes.
Levou alguns minutos para que Emma compreendesse o que ele
estava dizendo. - Ciúmes? De mim?
- Sim. Mas no começo não era de você.
- Havia outra pessoa?
- Miranda.

Livros Florzinha - 158 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Você está dizendo. ..? - Emma não conseguiu terminar a frase.


- Lance estava apaixonado por Miranda. Ela é muito bonita, você
sabe.
- Sim, é muito bonita.
- E Miranda. .. Miranda parecia não querer nada com ele.
- Ela estava apaixonada por você, não é? - Emma tentou falar com
tom de voz casual, mas as palavras soaram forçadas.
- Miranda pensava que estivesse. Nesta altura dos acontecimentos,
Lance já estava com raiva de mim. Nós já tínhamos tido algumas
discussões sobre alguns serviços que ele fizera errado e coisas que
ele estragou. Depois, quando Miranda pareceu rejeitá-lo, acredito
que tenha começado a me odiar.
- Oh!
- E nesse meio tempo, você chegou. Você era tão inocente, bonita
e. ..
- Lance resolveu usar-me para o que queria?
- Não foi bem assim. É claro que ele queria deixar Miranda
enciumada, mas ele começou a gostar de você. Gostou de você de
verdade. E então.. .
- Então? - Emma repetiu.
- Lance percebeu que eu gostava de você. Foi aí que fez um esforço
especial para conquistá-la.
Emma ficou em silêncio, lembrando-se da sensação estranha que às
vezes experimentava quando estava com Lance. As imagens
começaram a voltar-lhe à mente - o passeio até Pretoriuskop quando
Johnny e Stewart também a convidaram para sair; a noite do filme,
quando Stewart os encontrara envoltos no mesmo tapete; os
passeios perto do alojamento dos funcionários, quando Lance sabia
que veriam Stewart. .. As coisas começavam a tornar-se mais claras.
- Mas ainda não consigo compreender por que ele deixou que eu
passasse a noite inteira aqui, quando estava claro que algo devia ter
acontecido.
- Também não sei, Emma. Mas imagino que isso tenha funcionado

Livros Florzinha - 159 -


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Sabrina no. 66

como uma espécie de vingança. Parece que Lance sentiu que você
tem preferência por mim. Ele estava
certo, Emma? - pergunr tou, com muita delicadeza.
Emma virou o rosto,
sabendo que só poderia responder a verdade.
- Sim.
Stewart pegou sua mão e apertou-a.
- Quando voltarmos, quero acertar as contas com Lance - dise
Emma.
- Ele não estará no campo - disse Stewart. - Ia embora do parque
assim que o sol nascesse. - Ia embora? - Emma espantou-se.
- com Miranda.
- Não!
- Para você ver como são as coisas. . .
De repente Emma percebeu que precisava de uma pausa antes de
receber mais informações. Percebeu também o quanto estava com
fome. - Por acaso você trouxe algo que eu possa comer?
Bor um momento Stewart fitou-a sem compreender. - É claro. Tinha
me esquecido. Você não come desde ontem à noite. Deve estar
faminta.
- Desde ontem de manhã - corrigiu-o - e estou morrendo de fome,
- Minha pobre Emma! - Stewart sorriu antes de colocar a mão no
bolso e pegar uma barra de chocolate e uma maçã. - Ração de
emergência, outra regra que não se deve esquecer. - Continuou
sorrindo enquanto a observava morder a maçã vorazmente. - vou
levá-la para o campo, mas antes disso preciso dizer-lhe mais
algumas coisas. Você acha que aguenta ouvir?
- Depois de ter comido tudo isso, sim. - Emma já se sentia melhor e
estava muito ansiosa por ouvir o que Stewart tinha a dizer.
- Eu lhe disse que Miranda imaginava estar apaixonada por mim, mas
que na verdade não estava. Certa vez, há muito tempo atrás, fiz um
favor a ela e ao irmão. Miranda era muito agradecida a mim e
confundiu gratidão com amor.

Livros Florzinha - 160 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

Ficou em silêncio por alguns minutos e, quando continuou, olhava


para fora do automóvel. - No início deixei que Miranda me visitasse.
Talvez eu tenha agido de modo errado, mas sentia-me muito só.. . e
não via nenhum mal nisso. Tenho uma grande afeição por ela. Mas
depois as circunstâncias mudaram e comecei a achar a persistência
de Miranda bastante constrangedora. Tentei explicar por que
eu não queria. .. Bem, de qualquer forma, na noite em que Linda deu
a festa, coloquei um ponto final na situação toda.
- Mas Lance e eu vimos vocês se beijando. - Emma disse essas
palavras num impulso, sem pensar, e imediatamente teve vontade de
engoli-las.
- Então Lance também nos seguiu. - Stewart fitou-a de modo
inflexível e Emma lembrou-se da amargura que vira no rosto do
rapaz. Afinal compreendia o porquê daquela expressão. - Eu
expliquei tudo a Miranda. Aquele foi um beijo de despedida.
- E agora ela está com Lance?
- Lance será bom para Miranda. Ele é fraco, mas a ama de verdade
e talvez. .. talvez seja isso que ele precise para mudar. Acho que
Lance se dará muito bem com a nova vida.
- Você disse que as circunstâncias mudaram - Emma começou a
dizer hesitante. - O que quis dizer com isso?
- Você não sabe, Emma? - Stewart fitou-a no fundo dos olhos e a
expressão que ela viu fez com que respirasse mais depressa. Não
sabe?
- Eu.. . - Não conseguiu dizer nada.
- Preciso declarar-me abertamente, querida? - Stewart aproximou-
se e abraçou-a. - Eu amo você, Emma. Amo-a muito.
- Oh, Stewart! - Os olhos de Emma estavam cheios de lágrimas
quando Stewart a beijou apaixonado e cheio de uma ternura
infinita.
- Fui muito bruto e fiz com que você me odiasse? - perguntou.
- Diga que me ama, Emma. Diga, por favor.
- Eu o amo - disse com voz fraca. - Sempre o amei.

Livros Florzinha - 161 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- E eu também, desde o começo. Desde que a vi parada fora do


carro, tão inocente, tirando fotografias. Eu sempre a amei.
- Você nunca me disse.
- Eu sei. Por duas razões...
- Razões?
- Queria ter certeza de que você não estava procurando apenas um
apoio depois do que Jimmy lhe fez.
- Oh, não, Stewart!
- Você... você parecia tão feliz com Lance... embora durante a
viagem que fizemos eu tenha pensado... comecei a perguntar-me se
você não estava apenas sentindo solidão.
- Já superei o caso com Jímmy há algum tempo - disse com muita
calma e certeza.
- E Lance?
- Ele nunca passou de um simples amigo.
- Eu precisava ter certeza disso. - Abraçou-a com mais força.
- Emma, Emma, minha querida. Quero que você case comigo. Mas
existem algumas coisas que a esposa de um guarda-florestal precisa
saber. Princípios que devem ser seguidos, regras que precisam ser
obedecidas. ..
- Você disse que havia duas razões - relembrou-o.
- Esta é a razão. Eu fui rude para com você, minha querida, mas
precisava mostrar-lhe como você teria que agir.
- Aquela vez nó portão.. .
- Sim. E todas as outras vezes. Você pensou que eu estava sendo
cruel e eu me sentia muito mal. Mas as regras existem. Mary. . .
Mary morreu porque fez uma tolice. Não suportaria caso isso
acontecesse outra vez. - Segurou-a por um momento, sem dizer
nada.
- Existe muita coisa que você precisa aprender. Nem sempre vai ser
fácil. Emma, estou sendo cruel? Será que eu devia deixar que você
voltasse para a Inglaterra, onde nasceu e foi criada?
- Não. - Emma abraçou-o. - Eu não suportaria isto.

Livros Florzinha - 162 -


Selva Nua (Man of the child) Rosemary Carter
Sabrina no. 66

- Meu amor. Meu amorzinho, bonito, faminto e encantador. Eu nem


mesmo a pedi em casamento direito. Já fui tomando as coisas como
certas. Quer casar-se comigo, Emma?
Afastaram-se e olharam-se um nos olhos do outro por um longo
momento. Emma viu a força de caráter e a firmeza, a ternura e a
paixão nos olhos do homem que tanto amava.
- Sim, meu amor, mil vezes sim.
Depois disso, Stewart começou a beijá-la, apaixonada e
carinhosamente, como
se nunca mais fosse parar. Neste momento, Emma compreendeu que
não importava o futuro
que tinha à frente, não importava se a vida deles seria fácil ou
difícil, pois estaria junto com Stewart, com o homem que amava
acima de todas as outras coisas.

FIM

Livros Florzinha - 163 -

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