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Orlando Costas

<A doutrina da Trindade


As estruturas eclesiais e da sociedade na América Latina>
Artigos

Orlando Costas e a Igreja Brasileira

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Autor: Pr. Josivaldo de França Pereira
Introdução:

Orlando E. Costas (1942-1987) nasceu em Porto Rico e faleceu nos Estados Unidos,
vitimado por um câncer, aos 45 anos de idade. Era pastor e teólogo batista. Graduou-se
doutor em teologia e missiologia nos Estados Unidos. Foi reitor e professor do
Seminário Bíblico Latino-Americano de Costa Rica; fundou o Centro Evangélico
Latino-Americano de Estudos Pastorais (CELEP), em 1973, em San José, Costa Rica.
Atuou como administrador da faculdade do EasternBaptistTheologicalSeminary, na
Filadélfia, onde também foi professor de missiologia e diretor de estudos hispânicos.

Além disso, ocupou o cargo de segundo vice-presidente do Conselho Latino-Americano


de Igrejas (CLAI) e, na ocasião de seu falecimento, atuava como professor no Andover
Newton TheologicalSchool, em Massachussetts, e como vice-presidente da Fraternidade
Teológica Latino-Americana. Orlando Costas esteve no Brasil em junho de 1984,
participando da V Semana de Atualização Teológica. Admirou a liderança jovem da
igreja brasileira e criticou seu fraco desempenho teológico. O renomado teólogo
considerava-se um “teólogo na encruzilhada”. Entendendo que a fé não é “uma herança
familiar”, sentiu-se atraído pela evangelização do povo latino-americano.

Costas rompeu com a cultura anglo-saxônica e a mentalidade colonialista que subjuga


os povos latino-americanos. Questionou a hegemonia política na América Latina,
rejeitando o que chamou de “império norte-americano”. Assim, enveredou-se pela
“libertação social e cultural”, entendendo que a missão da igreja não é simples
comunicação da fé, mas o mundo em sua complexidade, o que requer a mobilização da
igreja em busca de uma prática libertadora integral. Entre seus escritos são dignos de
destaque o artigo Dimensões do Crescimento Integral da Igreja e o livro Compromiso y
Misión. (1).

Esta pesquisa é uma simples tentativa de se aplicar os conceitos de crescimento da


igreja de Orlando Costas a nossa realidade brasileira. Não é um trabalho original no que
se refere ao estudo dos tipos de crescimento propriamente dito. René Padilla, por
exemplo, faz um comentário interessante sobre as dimensões do crescimento integral de
Orlando Costas em seu artigo Avaliação Teológica do Ministério Integral em Servindo
com os pobres na América Latina: Modelos de Ministério Integral. Contudo, Padilla é
amplo demais. Seu enfoque é a América Latina como um todo. Nosso trabalho visa a
igreja brasileira em solo brasileiro.
1. O CRESCIMENTO NUMÉRICO DA IGREJA BRASILEIRA

O crescimento numérico da igreja evangélica brasileira deve fazer parte do desejo de


todo cristão sincero, porque uma igreja que não cresce está fora dos propósitos de Deus.
Entretanto, tal crescimento não deve ser almejado e nem considerado sadio quando a
ética cristã está em jogo. Crescimento de igreja sem saúde é mera inchação; saúde sem
crescimento é contradição de termos, pois o crescimento deve ser o resultado natural de
uma igreja saudável.

Orlando Costas, por exemplo, era cuidadoso em sua análise de crescimento numérico de
uma igreja. Embora reconhecesse o valor, a importância e a necessidade de uma igreja
crescer, não se deixava impressionar simplesmente com números. Haja vista o clássico
episódio em que Orlando Costas visitou uma igreja pentecostal no Chile. Chegando lá,
constatou que uma igreja como aquela não podia crescer saudavelmente estando, ao
mesmo tempo, atrelada à ditadura militar do general Augusto Pinochet.

Além disso, o rol de membros de uma igreja, segundo Costas, também não pode servir
como critério de avaliação de crescimento. Ele entendia que antes de tudo algumas
questões importantes deveriam ser levadas em consideração, como por exemplo: O
crescimento é motivado pelo Espírito Santo? O crescimento está relacionado com os
frutos do Espírito? A fé do crente é vibrante, calorosa e esperançosa? Ele é amoroso?
Sua fé é vista através da ação? A fidelidade, espiritualidade e encarnação (2) estão
presentes na vida da igreja?

Estas questões são fundamentais para se avaliar o crescimento da igreja brasileira hoje.
É preciso discernimento e critério de avaliação. Todo crescimento de igreja, ou mesmo
a falta dele, deve ser criteriosamente analisado. Na questão de crescimento da igreja não
podemos ser totalmente crédulos de um lado e nem céticos do outro. Os extremos são
sempre perigosos. As indagações levantadas por Costas precisam ser ponderadas por
todos nós, e por uma razão óbvia: no Brasil existe uma forte tendência em se achar que
todo e qualquer crescimento de igreja é obra do Espírito Santo.

É importante deixarmos claro que Orlando Costas não era (e jamais foi) contra o
crescimento da igreja. Pelo contrário. O que Costas questionava, e com razão, eram os
meios muitas vezes utilizados para se chegar em tal crescimento.

Orlando Costas dizia que o crescimento numérico da igreja, propriamente dito, “é parte
fundamental do ser da igreja” (3), pois nenhuma igreja foi formada para ficar estagnada
e parada no tempo. Embora nem todas as igrejas tenham vocação para ser mega-igreja,
todas devem crescer. Isto é um princípio bíblico que Costas fazia questão em destacar.

Temos no Brasil igrejas abençoadas: algumas grandes, outras nem tanto, mas que estão
crescendo saudavelmente. Contudo, esta não é a realidade geral em nosso país.
Independente de ser pentecostal ou histórica, sabemos de tantas igrejas que estão
marcando passo, engessadas em suas tradições ou em seus usos e costumes, com pouca
ou nenhuma perspectiva de sua missão e de seu crescimento. Por outro lado, existem
aquelas que experimentam um crescimento fenomenal e intrigante até. As igrejas
pentecostais do Brasil sempre serão um desafio saudável às igrejas históricas. Contudo,
fica a pergunta: aquelas estão crescendo realmente com saúde, do mesmo modo como
estas deveriam crescer?

2. O CRESCIMENTO ORGÂNICO DA IGREJA BRASILEIRA

Vimos no tópico anterior que o crescimento numérico não tem sido tão favorável para a
igreja evangélica brasileira de modo geral. O que não significa dizer que não haja
igrejas crescendo com autenticidade, de acordo com os preceitos bíblicos. Porém, esta
não é a regra geral. E por que não? Porque nem sempre a ética cristã de uma vida
santificada tem andado de mãos dadas com o crescimento de nossas igrejas. O que, por
si só, segundo Orlando Costas, não pode ser aceito como crescimento verdadeiro.

E o que dizer do crescimento orgânico da igreja? Primeiramente é preciso saber o que é


crescimento orgânico na concepção de Costas. De acordo com ele, esta dimensão inclui
aspectos da vida interna da igreja como “sua forma de governo, sua estrutura financeira,
seus líderes, o tipo de atividade na qual investe seu tempo e recursos e sua celebração
cultural” (4). Costas entendia que estas devem ser preocupações salutares e necessárias.
Entretanto, o crescimento orgânico da igreja não deve ser introspectivo, voltado para
dentro de si mesmo. Costas fazia questão de deixar isso bem claro (5) e René Padilla
interpretou muito bem o pensamento do missiólogo quando disse: “Ele (o crescimento
orgânico) abrange, entre outras coisas, o desafio da contextualização da igreja em uma
situação histórica definida, na intenção de constituir-se em uma verdadeira comunidade
com raízes autóctones” (6).

O crescimento orgânico é um dos tipos mais naturais de crescimento experimentado


pela igreja brasileira, pena que às avessas. Segundo pesquisas, cerca de 80% a 90% dos
recursos financeiros, formação de líderes, uso do tempo e do templo estão voltados para
o deleite de nossas próprias igrejas. A igreja evangélica brasileira de modo geral ainda
não se conscientizou de sua missão fora dos portões como sal da terra e luz do mundo
(cf. Mt 5.13,14). Um bom (ou seria mau?) exemplo disso é o que a igreja geralmente faz
com seus novos membros ou recém-convertidos. Bruce Shelley expressou a mesma
preocupação de Costas quando advertiu:

“Infelizmente, as igrejas tendem a ‘eclesiastizar’ seus membros. Sua obediência a Cristo


se faz apenas mediante canais institucionais ou pietistas: reuniões e programas, ou
reuniões de oração e grupos de discipulado.

A nossa evangelização, no geral, tira o convertido do mundo e jamais o envia de volta a


ele. Nosso alvo deve ser a missão da mesma pessoa no mundo, todavia uma nova pessoa
com novas convicções e padrões. Se o primeiro mandamento de Jesus foi ‘Vinde’ o
segundo foi ‘Ide’. Devemos reentrar no mundo de que saímos, só que agora como
embaixadores de Cristo” (7).

As palavras de Shelley deve nos levar a uma reflexão séria, até porque o maior potencial
de uma igreja é o crente novo. A igreja não pode servir de tropeço para ela mesma. Há
alguns anos escrevi uma lição para a escola dominical na qual dizia: “Reconhecemos
que há muita coisa boa que uma igreja local pode fazer além de missões, mas, por outro
lado, se a ‘muita coisa boa’ estiver desassociada de missões, então não é tão boa quanto
se pensa’.

À luz do que vimos até aqui, a conclusão que chegamos é que a igreja brasileira não é,
essencialmente, uma igreja missionária. Boa parte de nossas igrejas que pensam serem
missionárias na verdade apenas fazem missões, quando fazem! Um exemplo a ser
considerado é a Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), denominação da qual sou pastor.
Infelizmente a IPB é hoje o que jamais deveria ser. A igreja que se orgulha de sua
teologia calvinista esquece que Calvino possuía uma consciência missionária profunda
(8) sendo, inclusive, o responsável pelo envio dos primeiros missionários ao Brasil em
1555 (9).

Fruto direto da obra missionária de Ashbel Green Simonton em 1859, a IPB deveria ser,
atualmente, uma das denominações mais missionárias do país. É verdade que sua visão
e missão, de uns tempos para cá, vem progredindo , porém, ainda tem muita estrada
para se rodar, pois é preciso resgatar por completo a boa herança reformada, não apenas
em seu aspecto teológico, mas sobretudo na totalidade daquela missão integral que ficou
perdida em algum lugar do passado.

Saindo do particular para o geral, além de uma conscientização missionária,


propriamente dita, a igreja brasileira precisa passar por uma revitalização de suas
estruturas, tornando-as mais funcionais e principalmente por uma estruturação
doutrinária que se expresse na vida prática. Infelizmente falta sã doutrina e santidade de
vida no povo de Deus, o que vem comprometendo seriamente o evangelho e a aceitação
do mesmo por parte da sociedade.

3. O CRESCIMENTO CONCEITUAL DA IGREJA BRASILEIRA

A igreja brasileira não é um caso perdido. Pelo contrário, é uma igreja que está
caminhando, embora a passos não tão largos como gostaríamos, mas caminha na
esperança de um futuro promissor. Com a graça de Deus chegaremos lá! Aos poucos o
velho conceito de fazer missões vai dando lugar ao ser missões. Isto está acontecendo
porque a igreja, consciente ou inconscientemente, começa a crescer conceitualmente
também; o que significa, segundo Costas,

“expansão na inteligência da fé: o grau de consciência que a comunidade eclesial tem a


respeito da sua existência e razão de ser, sua compreensão da fé cristã, seu
conhecimento da fonte dessa fé (as Escrituras), sua interação com a história dessa fé e
sua compreensão do mundo que rodeia. Esta dimensão dá à igreja firmeza intelectual
para enfrentar a todo tipo de doutrina e capacidade crítica para evitar a fossilização e
garantir a criatividade evangelizadora, orgânica e ética” (10).

Talvez um dos teólogos que mais chamou a atenção da igreja para sua dimensão
conceitual (embora não com esta terminologia, mas com a mesma ênfase), tenha sido o
Dr. Martin Lloyd-Jones, um pastor britânico já falecido. Li vários livros do Dr. Jones e
notei que muito da preocupação conceitual de Orlando Costas era a daquele também. O
doutor costumava dizer, por exemplo, que “se você estiver errado em sua doutrina,
estará errado em todos os aspectos da sua vida” (11).
O crescimento conceitual da igreja é o que poderíamos chamar de “dimensão central da
igreja”. A qualidade da qual se derivam todas as outras dimensões.

É importante lembrar que Orlando Costas entendia corretamente as dimensões do


crescimento integral da igreja como um sistema interligado. A ausência de qualquer
uma daquelas dimensões (numérica, orgânica, conceitual ou diaconal) acarretaria numa
deficiência danosa. Na verdade, cada dimensão da igreja só tem razão de ser se for
vivenciada nas outras. Citemos um pequeno exemplo: Crescimento numérico sem
qualidade pode ser comparado ao câncer que cresce mas não é bom. Qualidade sem
crescimento é inconcebível. A igreja evangélica brasileira ainda não entendeu como
deveria essas dimensões e suas implicações. E de quem é a culpa? Certamente são
daquelas lideranças que muitas vezes refletem em suas igrejas uma mentalidade tacanha
e retrógrada. São aquelas pessoas que confundem a boa tradição bíblica e evangélica
pelo tradicionalismo mórbido; inovação saudável e revitalizadora pelo inovacionismo e
oba-oba.

À luz do que vimos até aqui fica difícil dizer: “A igreja brasileira tem esta cara”. De
certo modo, ainda somos uma grande colcha de retalhos; porém, esta dimensão que nos
faz olhar para dentro de nós mesmos, sem deixar de olhar para fora, precisa ser
devidamente analisada e exercitada pela igreja brasileira como um todo. Estamos
adentrando em um novo milênio e a igreja continua sonolenta em muitos dos aspectos
de sua missão integral.

4. O CRESCIMENTO DIACONAL DA IGREJA BRASILEIRA

Esta é a dimensão encarnacional da igreja. Orlando Costas entendia que sem este
crescimento a igreja perderia sua autenticidade e credibilidade no mundo, já que
“somente na medida em que conseguir dar visibilidade e concreticidade à sua vocação
de amor e serviço ela pode esperar ser ouvida e respeitada” (12). Para Costas, os
cristãos foram colocados no mundo “para ser a consciência da sociedade” (13). Uma
consciência que estende a mão em ajuda aos fracos e oprimidos. Felizmente, a
consciência social da igreja brasileira hoje parece ser maior do que algumas décadas
atrás. Contudo, se por um lado a igreja vem melhorando em sua visão social, por outro,
ainda não amadureceu tanto em sua concepção de missão integral, justamente porque ao
se discutir prioridades (como por exemplo as que envolvem evangelização e ação
social) a igreja deixa de fazer bem uma e outra coisa. Evangelização e responsabilidade
social são partes integrantes da missio Dei, portanto, inseparáveis e indispensáveis na
missão integral da igreja de Jesus Cristo no mundo e para o mundo.

O crescimento diaconal da igreja brasileira, assim como as demais dimensões do


crescimento integral, caminha lentamente pelo que a gente tem visto. Mas ele não está
estagnado. De uns tempos para cá a igreja melhorou consideravelmente. Vale lembrar, e
não faz muito tempo, a igreja que assumia sua responsabilidade social no mundo era
taxada de comunista, liberalista, etc. Hoje, graças ao bom Deus, boa parte das igrejas
brasileiras está envolvida em trabalhos sociais, e sem qualquer preocupação de ser
rotulada e perseguida por isso, como ocorria em tempos atrás.
É pena que a igreja foi, e muitas vezes tem sido ainda hoje, influenciada pelos sistemas
políticos e deixado de ser a voz profética de Deus na sociedade. A igreja brasileira não
pode se calar diante dos males sociais.

A igreja brasileira não está parada, mas poderia andar um pouco mais depressa, porque,
quanto à participação nos problemas da sociedade, ainda temos um longo caminho pela
frente. Que Deus nos ajude!

Conclusão:

Vivemos na esperança de dias melhores para a igreja brasileira. De uma igreja que se
consolide pela visão integral de sua missão no mundo.

Comparando os quatro conceitos de crescimento de Orlando Costas à igreja brasileira,


podemos notar um avanço em todos eles.

Nossa igreja brasileira ainda não é a igreja dos sonhos, a igreja que gostaríamos de ser,
mas com certeza esse dia vai chegar.

Deus visitará seu povo e o avivará para honra e glória do Seu nome!
Teologia publica
adequada para a comunicação de conteúdos, tomada de posição e opiniões, tendo como
componente imprescindível o agir comunicativo.7 Como texto introdutório – ou seja: a
tarefa é abordar perspectivas da Teologia Pública e sua capacidade, ou não, de discurso
e prática –, num primeiro momento iremos identificar a diversidade de linguagem e
abordagens onde ela se dá como reflexão teológica. Num segundo momento, apontar o
que poderia agregar para a possibilidade da Teologia Pública em território latino-
americano, especificamente no Brasil, mas apenas prospectivas.
A Teologia Pública como discurso e práxis: seus possíveis fundamentos A Teologia
Pública tem expoentes em diferentes lugares, como nos EUA (onde há um
aprofundamento do tema, principalmente por teólogos católicos), na Europa e, com
grande vulto, na África do Sul. Em cada momento/continente ela se serve de certos
mecanismos para construir a sua linguagem e afirmar-se epistemologicamente num
universo marcado pelo secularismo e pela busca de novas interpretações da história. A
fim de fazer um apanhado geral, pois esse é o objetivo, faço uso das contribuições de
Nico Koopman, teólogo sul-africano, no seu texto Apontamentos sobre a teologia
pública hoje,8 em que o autor, num texto adaptado por conta de sua participação no I
Simpósio Internacional sobre Teologia Pública na América Latina, realizado no Rio
Grande do Sul em 2008, faz uma análise panorâmica da Teologia Pública a partir da
diversidade de autores/teólogos em busca de pontos que possam servir de mediações
para a construção de um discurso e a possibilidade de uma práxis. A Teologia Pública
ganha uma dimensão particular a partir da década de 1970. Num primeiro momento, a
ideia é articular teologia com questões que afetam as pessoas como um todo, sendo
acessível para todos numa esfera pública. Para tanto, o diálogo deve ser feito com outros
segmentos do conhecimento a fim de buscar pontos convergentes de diálogo e
aproximação com a sociedade. Nesse entendimento, essa relação justifica-se
7 Cf. ZABATIERO, Para uma teologia pública, p.
8.
8 Cf. KOOPMAN, Apontamentos sobre a teologia pública hoje.
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porque, se a teologia quer contribuir, ela precisa ir além da confissão e engajar-se numa
discussão que tenha como pauta a ética social, a justiça social, os direitos humanos, a
democracia, a política e a economia. Esse é o prospecto para uma Teologia Pública.
Uma maneira de falar de Deus e sua vontade (Reino de Deus) que seja condizente e
intelectualmente possível no emaranhado de ideias, conceitos e comportamentos da
atual conjuntura global. O desafio é esse. As palavras que envolvem essa busca são
convergir, dialogar, adequar. A maior dificuldade de formular uma teologia que seja
pública é a característica principal da teologia, a sua dependência de confissões de fé e a
sua abordagem estritamente eclesial, no sentido de produzir teologia para dentro da
comunidade de fé e nunca, com raras exceções, para fora. Pensar teologia fora dos
muros institucionais é um caminho difícil, pois compreende-se que teologia é para os
cristãos e não para a sociedade, o que é um equívoco. Essa barreira vem antes de
qualquer coisa ou tentativa, porque o processo de maturação de uma Teologia Pública,
pelo menos no Brasil, passa pela comunidade de fé9 que carrega em seu imaginário
religioso uma concepção de gueto.10 A Teologia Pública tem uma agenda abrangente e
desafiadora, daí a concepção de que ela não pode articular um discurso para fora, sendo
que sua maior dificuldade talvez seja a sua capacidade de ser absorvida pela linguagem
teológica vigente e pela comunidade que sofre, ainda, com uma visão míope e
reducionista da realidade. A Teologia Pública procura o seu lugar. Diferentemente da
Teologia da Libertação, que já conheceu o seu auge e está experimentando novas
formulações,11 enquanto uma
9 É claro que o ambiente em que se discute Teologia Pública é a academia. Como tudo
o que é novidade, as comunidades são as últimas a tomar conhecimento/refletir sobre
novas propostas teológicas.
10 Essa é a reflexão de Ronaldo Cavalcante em A cidade e o gueto; introdução a uma
Teologia Pública Protestante e o desafio do neofundamentalismo evangélico no Brasil
(São Paulo: Fonte Editorial, 2010).
11 É uma discussão levantada hoje sobre as novas, ou não, possibilidades da Teologia
da Libertação. Nessa discussão acredito que a Teologia Pública seria mais uma
ferramenta mediadora para a Teologia da Libertação, mas tal diálogo poderia ser feito
em outro momento. Cf. RIBEIRO, Cláudio de Oliveira. A Teologia da Libertação
morreu? Reino de Deus e espiritualidade hoje. São Paulo/Aparecida: Fonte
Editorial/Santuário, 2010.
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(Teologia da Libertação) promove um processo de questionamento, a outra (Teologia
Pública) busca o cooperativismo, o diálogo não frontal, mas sim a parceria na
construção da sociedade. É claro que aqui se corre o risco de vê-la taxada de conivente
com os desmandos sociais e, na ânsia por contribuir, esquece-se de vê-la voz
denunciante e profética, atitude característica da Teologia da Libertação.
O espaço público de uma Teologia Pública A construção da linguagem da Teologia
Pública é tomada a partir de algumas noções do que seja o espaço público para ser
interlocutora. Nesse sentido, tomo aqui a definição do que seja esfera pública trabalhada
por Jürgen Habermas, conhecido no ambiente acadêmico brasileiro, quando define o
que seja o público em pelo menos quatro setores: 1) O governo, o serviço civil, o
judiciário, o parlamento/congresso, os partidos políticos, as eleições; 2) Associações de
negócios, sindicatos, organizações privadas; 3) Associação voluntária, Igrejas,
movimentos sociais de interesse público; 4) A opinião pública, que forma e discute
ideias com o uso da mídia, interpretando e identificando situações e problemas sociais
de interesse público. Esses setores são os grandes macroeixos da sociedade civil e sua
esfera pública. Para ser o que se propõe, a Teologia Pública necessita construir um
discurso que seja: 1) Inclusivo, ou seja, abarcar em seu modo de pensar diferentes
confissões de fé e crença a fim de tratar de um bem comum, daí a imprescindível
dimensão ecumênica; 2) Participação com diversos setores sociais que interagem direta
ou indiretamente com a sociedade, quer no âmbito partidário político, quer em
agremiações de movimentos sociais; 3) Construtividade, a partir das diferentes
perspectivas sociais; 4) Linguagem acessível, sem cair no modo codificado de ler e
entender a teologia; 5) Competência hermenêutica, sendo possível uma articulação com
outras ideias e conceitos e, ao mesmo tempo, marcar posição. Nesse sentido, a Teologia
Pública tende a ser abrangente quanto ao discurso e à interação. Por essa razão, pode
não dar conta do que se propõe. Mas suas articulações seriam nos âmbitos da política –
envolvida no processo de formação, avaliação de leis, além de fiscalizar o poder público
quanto aos seus gastos, contribuindo para a formação crítica dos cidadãos em parceria
com outros saberes, como sociologia e filosofia; da economia –, a partir da promoção da
justiça social, do combate à pobreza, da avaliação das estruturas econômicas
responsáveis pelos desníveis sociais e econômicos do país; da
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sociedade civil, com sua manifestação comunitária, como escolas, instituições, Igrejas,
mídia. Ainda sobre o seu campo de atuação, David Tracy,12 por exemplo, pontua que a
Teologia Pública dirige-se para três públicos: a sociedade, a academia e a Igreja.13
Encarando a pluralidade de manifestações culturais, o teólogo precisa abrir um diálogo
com esses três públicos a fim de ser relevante no atual contexto. A Teologia Pública
dar-se-ia a partir disso, um olhar atento para outras realidades, desvencilhando um
pouco da teologia apenas para a Igreja. Na sociedade, onde se concentram diferentes
vozes que contribuem para o ethos de sociedade, sendo esse ethos hoje dominado pela
globalização e a tecnologia, esta última tendo a proeminência, a Teologia Pública seria
mais uma voz, principalmente no âmbito político. Quanto à academia, a Teologia
Pública teria o seu espaço, a exemplo de países europeus onde a teologia tem a sua
especificidade no processo de maturação do ser humano, ela deixaria de ser estritamente
confessional e faria um processo de inserção na sociedade secularizada. A proposta é
fazer com que a universidade seja influenciada por uma leitura teológica da realidade. A
tentativa é dotar a teologia do mesmo status sociopolítico de outras disciplinas. Na
Igreja como um segmento social, um grupo de pessoas que tem na fé a sua razão de ser,
a Teologia Pública teria a função de fornecer meios para que a comunidade tivesse uma
maior participação na sociedade, renovando, instruindo e ampliando horizontes para
além da confessionalidade e dos problemas corriqueiros de uma comunidade religiosa.
Algumas experiências de Teologia Pública Como forma de exemplificar o que está
sendo colocado, passo agora para algumas experiências que foram mediadas pela
Teologia Pública em diferentes lugares, começando pela África do Sul. Por lá, conforme
os apontamentos de Nico Koopman, o apartheid foi uma força devastadora. Homens
como Nelson Mandela e Desmond Tutu foram verdadeiros
12 Doutor em Teologia pela Universidade
Gregoriana de Roma e professor de Teologia Contemporânea e Filosofia da Religião na
Universityof Chicago DivinitySchool.
13 Cf. TRACY, David. A imaginação analógica; a teologia cristã e a cultura do
pluralismo. Trad. Nélio Schneider. São Leopoldo: Unisinos, 2004. p. 19-72 (Coleção
Theologia Publica, n. 7).
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promotores de uma Teologia Pública quando coadunaram diversos problemas da
sociedade sul-africana com a linguagem teológica em busca de um bem comum. A
relação com a Teologia Pública foi no sentido de convergência com o Estado na luta por
melhorias para o país. Com a realidade do apartheid, as Igrejas sul-africanas tiveram um
comprometimento maior com a sociedade e decidiram fazer política com teologia.
Depois da queda do regime segregacionista, a Teologia Pública buscou interagir com o
Estado para a formação de uma sociedade livre, democrática e economicamente
inclusiva. É por esse fato que o Dr. Nico Koopman dirige um departamento de Teologia
Pública na Universidade de Stellenbosch. Nos EUA, a Teologia Pública ganha status
devido ao ambiente religioso propício naquele país. A liberdade religiosa, por conta da
secularização política, tornou o país conhecido como “uma nação com alma de Igreja”
(G. K. Chesterton).14 Com a compreensão de “religião civil”, os EUA entrelaçam
muito bem política e religião. Na academia, as universidades mais conhecidas mantêm
cursos de Teologia, como Harvard, Columbia, Yale e Chicago. Por conta dessa
pluralidade religiosa, os currículos são ecumênicos e as discussões são travadas com a
sociedade, por isso a crescente popularização de associações religiosas de cunho
acadêmico, jornais de religião de ampla circulação, congressos e simpósios. Na Europa,
a Teologia Pública dá-se numa estreita relação com a Teologia Política,15 patrocinada
por autores como Johann Baptist Metz e Jürgen Moltmann. Este último, por exemplo,
tem múltiplos olhares, tendo no seu esboço teológico temas como universidade,
ecologia e sociedade.16 No continente europeu há uma busca pela relevância da
teologia na sociedade. Por lá a Teologia Pública pretende definir a atuação da Igreja na
sociedade civil 14 Aqui, cf. RIBEIRO JR., Jorge
Cláudio. Deus na terra do dólar: os estudos teológicos nos EUA. In: SOARES, Afonso
Maria Ligorio; PASSOS, João Décio (orgs.). Teologia pública; reflexões sobre uma
área de conhecimento e sua cidadania acadêmica. São Paulo: Paulinas, 2011. p. 172-
192.
15 Para uma análise quanto à questão Teologia Pública ou/e Teologia Política, veja:
GONÇALVES, Alonso. Por uma eclesiologia pública: da privatização da fé aos
desafios pastorais da Igreja. Ciberteologia – Revista de Teologia & Cultura. São Paulo:
Paulinas, ano VII, n. 34. Disponível em:
<http://ciberteologia.paulinas.org.br/ciberteologia/wpcontent/uploads/downloads/2011/0
4/03Eclesiologia.pdf>.
16 Cf. MOLTMANN, Jürgen. Dio nelprogettodel mondo moderno; contributi per una
rilevanzapubblicadella teologia. Trad. Dino Pezzetta. Brescia: Queriniana, 1999.
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procurando ampliar sua ação em realidades públicas, uma vez que o seu currículo já se
encontra nas principais universidades. A dimensão pública da fé cristã é uma
necessidade, no entender de Jürgen Moltmann, porque, para ele, “não existe identidade
cristã que não tenha relevância pública”.
Teologia Pública no Brasil Como o objetivo do texto é apenas panorâmico, não cabendo
aqui nenhuma análise mais crítica, mas apenas apontando caminhos, resta pensar na
Teologia Pública na América Latina, e, mais especificamente, no Brasil. O tema ainda
está em ebulição por aqui, mas há reflexões perspicazes sobre o assunto, contando ainda
com o Instituto HumanitasUnisinos, no Rio Grande do Sul, que publica periódicos que
levam o nome de Teologia Pública, além de traduzir livros sobre o tema. A Teologia
Pública ainda está restrita à academia, por enquanto não há uma discussão levada ao
grande público, mas há publicações e debates sendo produzidos a fim de tornar comum
o assunto. Quanto ao Brasil, a Teologia Pública caminha para uma reflexão em torno da
cidadania. O universo religioso brasileiro, e latino-americano em geral, é um amálgama,
onde há diversidade de confissões, liturgias, doutrinas e Igrejas. Nesse sentido, as
palavras de Luiz Carlos Susin17 são importantes quanto ao pano de fundo de onde a
Teologia Pública pode surgir:
Nesse estado de coisas, cresce e se fortalece, em diferentes lugares e com diferentes
acentos, uma “teologia pública”, não restrita ao âmbito da clareza das identidades e
pertenças religiosas, mas à sua responsabilidade em sociedades plurais. Portanto, uma
teologia que se abre para fora das paredes das Igrejas e das confissões, para se encontrar
em praça pública com outras teologias e outros saberes, em vista de uma sociedade
pluralista. A “teologia pública”, no entanto, não é um voo por cima das pertenças e das
confissões, pois deixaria de ser teologia.Nem é uma perda de identidade confessional –
só se pode elaborar teologia da própria confissão, não de confissão alheia, o que explica
os diferentes níveis de 17 SUSIN, Luiz Carlos. O
estatuto epistemológico da teologia como ciência da fé e a sua responsabilidade pública
no âmbito das ciências e da sociedade pluralista. Disponível em:
<http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/teo/article/view/1748/1281>. Acesso
em: 27 jun. 2011.
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pluralismo teológico – mas é abertura responsável e dialogal exatamente num mundo
globalizado e não homogêneo.
Os desafios para uma Teologia Pública no contexto religioso brasileiro No caso
brasileiro, em que teologia é algo tão fragmentado, onde é facilmente confundida com
doutrinas/dogmas, há desafios peculiares quando se trata da inserção da Teologia
Pública. A princípio, o problema ocorre porque por aqui teologia é algo restrito às
confissões, sejam elas católicas, sejam protestantes. Sendo assim, a tarefa teológica é
reduzida aos seminários e faculdades que formam seus clérigos. Teologia é um discurso
para a Igreja e não, propriamente, para a sociedade. É tão real isso que nos currículos de
faculdades e seminários confessionais não há disciplinas sobre a cultura brasileira, a
formação do povo brasileiro, apenas questões concernentes à tarefa teológica-pastoral.
No caso protestante, essa questão é ainda mais agravante, porque se opera um
distanciamento com a cultura devido à ênfase demasiada na “regeneração” e na
“santificação” do indivíduo, tornando o comportamento a chave hermenêutica para
dizer se tem ou não tem fé em Cristo. Consequência disso é a completa omissão para
com a cultura popular, para com a política nos seus diversos setores da sociedade. E
quando se pensa para fora dos muros, há outro problema. A ação missionária é vista
como um avanço de território numa linguagem militar mesmo, onde sinônimo de Reino
de Deus é templo sendo aberto. Nesse caso, Teologia Pública teria um penoso caminho
de reconhecimento aliado ao processo de maturação dentro das confissões, uma vez que,
conforme Luiz Carlos Susin, não é possível fazer Teologia Pública sem
confessionalidade. Ocorre que a confessionalidade protestante necessita sofrer o
processo de descolonização teológica pelo fato de haver um consumo excessivo de
literatura teológica estrangeira, principalmente estadunidense.
Teologia Pública na universidade
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Teologia Pública surge em ambiente acadêmico e é de lá que vêm os debates. Roque
Junges18 sintetiza muito bem qual é o seu campo de atuação em relação à universidade:
Teologia Pública seria a presença da fé cristã, dentro da universidade, em dois sentidos.
Por um lado, uma teologia que se deixe questionar pelos desafios da ciência, pois a
universidade é o lugar por excelência para deixar-se questionar por esses desafios,
como, por exemplo, os lançados pela biologia, pela genética etc. Para discutir essas
questões, ela necessita de liberdade acadêmica. Não pode simplesmente repetir o que
sempre foi dito, mas tentar novas compreensões e interpretações. É claro que ela precisa
seguir o estatuto epistemológico próprio da teologia, tendo como ponto de partida a
revelação e a tradição, mas com uma abertura para repensar esses dados na resposta aos
desafios atuais. Um segundo sentido dessa presença da Teologia Pública é que ela seja
uma presença crítica. Uma visão humanista que enfrente criticamente os pressupostos
do paradigma da Modernidade presente na ciência e na sociedade. Portanto, a Teologia
Pública, por um lado, deixa-se desafiar pelas ciências atuais e, por outro, também
desafia criticamente as ciências em seus pressupostos. A teologia, nesse sentido, é
pública por querer marcar presença no espaço público; em outro sentido, ela é
eclesiástica por ser realizada no espaço da Igreja.
Prospectivas quanto à Teologia Pública: entre o caminho do possível e a realidade A
discussão quanto à inserção da Teologia Pública no debate social está caminhando para
uma Teologia da Cidadania, uma vez que o tema da cidadania está sendo proeminente
nos meios de comunicação e no debate social. Quem se dedica a essa tarefa – Teologia
Pública/Teologia da Cidadania – no Brasil é o teólogo luterano Rudolf von Sinner,19
quando analisa a Teologia da Libertação e suas possíveis mudanças em questões
metodológicas e leituras das novas conjunturas sociais e
18 Cadernos Instituto HumanitasUnisinos em
formação – Teologia Pública. São Leopoldo: Universidade do Vale do Rio dos Sinos,
ano 2, n. 8, 2006. Disponível em:
<http://www.ihu.unisinos.br/uploads/publicacoes/edicoes/1158327607.61pdf.pdf>.
Acesso em: 27 jun. 2011.
19 Cf. SINNER, Rudolf von. Da Teologia da Libertação para uma teologia da cidadania
como teologia pública. Disponível em: <www.wftl.org/pdf/018.pdf>. Acesso em: 22
nov. 2010.
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globais. Sinner aponta para o surgimento de uma Teologia da Cidadania a partir da
contribuição para a construção de uma cidadania pelos meios democráticos, políticos e
de direito em parceria com o Estado e suas políticas públicas. Como a Teologia da
Libertação é uma matriz teológica no nosso continente, a ideia é apropriar-se de
metodologias e linguagem a fim de construir um segmento teológico coeso e de
credibilidade. Apenas para fim de comparação, exemplifico assim:20
Teologia da Libertação Teologia Pública Gênero Crítica e práxis Diálogo e
convergência Problemática Fé libertadora Estruturas da sociedade Destinatários
Marginalizados Universidade, sociedade e Igreja Mediações Ciências Sociais Outros
saberes
Para que a Teologia Pública ganhe espaço a partir da concepção de cidadania, Sinner
alerta para que deve haver uma profunda reflexão sobre o papel das diferentes
manifestações religiosas no país, pois no seu entender há diferentes concepções entre
Igreja e sociedade.
Igrejas que olham quase que exclusivamente para o além e esquecem o aqui e o agora,
outras que se exercitam em introspecção, e outras que querem usurpar o espaço público,
num claro projeto de hegemonia. No caso das primeiras, é preciso encorajá-las para
darem sua contribuição com firmeza e convicção, sem vergonha, mas também de forma
qualificada. No caso das últimas, é preciso instigar restrição e autocrítica, pois, ainda
que a motivação da atuação das Igrejas no espaço público seja religiosa, seu objetivo
não pode ser corporativista, no interesse apenas da própria instituição, mas é preciso
buscar o bem comum.
Sinner observa algumas prospectivas quanto à atuação da Teologia Pública com
perspectiva cidadã. Começando por abordar questões da sociedade contemporânea, seus
20 Quanto à Teologia da Libertação, cf.: BOFF,
Clodovis. Teoria do método teológico; versão didática. Petrópolis: Vozes, 2004. p. 138-
139.
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dilemas e temas relevantes, participar da discussão efetivamente. Nesse sentido, há um
teólogo que corresponde a esse anseio, Leonardo Boff, quando participa de eventos com
a sociedade civil organizada e é identificado como teólogo. Outra tarefa é autoafirmar-
se como disciplina na universidade, tornar o discurso teológico palpável e atraente,
sendo possível sua discussão em alto nível. Outra maneira de tornar a Teologia Pública
parte da sociedade é a capacidade de comunicação em ambientes como a política e os
setores econômico, cientifico e religioso, com sua diversidade. É claro que esse espaço
será paulatinamente adquirido, mas, como o próprio Sinner observa, o maior desafio
está na comunicação dos diferentes modos de ser cristão no Brasil entre as Igrejas
Católica, Protestante, Pentecostal e Neopentecostal. Na América Latina
(especificamente no Brasil), o conteúdo da Teologia Pública será, de fato, a Teologia da
Cidadania. Para esse discurso ser uma realidade, o desafio da confessionalidade é a
principal barreira, uma vez que “a presença da teologia na esfera pública persiste como
relevante e necessária, mas não pode produzir em tudo seus papéis e atribuições
exercidas no interno de suas confessionalidades”.21 Superando esse processo, é
possível que a Teologia Pública desenvolva uma Teologia da Cidadania na esfera
pública, contribuindo para o desenvolvimento da cidadania e da democracia.22
Considerações finais Apontar caminhos para a Teologia Pública não é uma tarefa fácil,
uma vez que ela pretende ser abrangente e ao mesmo tempo carrega limitações quanto à
formulação de seu discurso. É possível sintetizar alguns pontos que podem servir de
meios para futuros aprofundamentos:
1. A Teologia Pública pode ser inserida na universidade pública como mais uma forma
de discutir os assuntos contemporâneos. 21
ANJOS, Márcio Fabri dos. Teologia como profissão: da confessionalidade à esfera
pública. In: SOARES, Afonso Maria Ligorio; PASSOS, João Décio (orgs.). Teologia
pública; reflexões sobre uma área de conhecimento e sua cidadania acadêmica. São
Paulo: Paulinas, 2011. p. 131.
22 Cf. ZABATIERO, Para uma teologia pública, p. 55.
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2. Superar a confessionalidade, principalmente na sua forma mais inadequada, o
fundamentalismo. Preservar as matrizes teológicas mediante uma linguagem
contextualizada. 3. Desenvolver uma Teologia da Cidadania, onde a desprivatização da
fé23 possa ocorrer, deixando de ser uma instância individual apenas e integrando-se às
discussões que realmente contam para a vida citadina, como saúde, política,
felicidade.24 4. Coadunar com a Teologia da Libertação e suas conquistas
metodológicas, teológicas e práxis, a fim de ter um mecanismo coerente de adesão e, ao
mesmo tempo, resistência crítica para com as estruturas sociais.
Bibliografia utilizada ANJOS, Márcio Fabri dos. Teologia como profissão: da
confessionalidade à esfera pública. In: SOARES, Afonso Maria Ligorio; PASSOS, João
Décio (orgs.). Teologia pública; reflexões sobre uma área de conhecimento e sua
cidadania acadêmica. São Paulo: Paulinas, 2011. CADERNOS Instituto
HumanitasUnisinos em formação – Teologia Pública. São Leopoldo: Universidade do
Vale do Rio dos Sinos, ano 2, n. 8, 2006. Disponível em:
<http://www.ihu.unisinos.br/uploads/publicacoes/edicoes/1158327607.61pdf.pdf>.
KOOPMAN, Nico. Apontamentos sobre a Teologia Pública hoje. Protestantismo em
Revista, São Leopoldo, v. 22, p. 38-49, maio/ago. 2010. Disponível em:
<www.est.edu.br/periodicos/index.php/nepp/article/download/29/67>. RIBEIRO JR.,
Jorge Cláudio. Deus na terra do dólar: os estudos teológicos nos EUA. In: SOARES,
Afonso Maria Ligorio; PASSOS, João Décio (orgs.). Teologia pública; reflexões sobre
uma área de conhecimento e sua cidadania acadêmica. São Paulo: Paulinas, 2011.
ROSA, Ronaldo Sathler. A nova cidadania – da tutela à imersão: uma hermenêutica
antropológicopastoral. Estudos de Religião, São Bernardo do Campo: Umesp, ano XXI,
n. 32, p. 77-95, jan./jun. 2007. SINNER, Rudolf von. Da Teologia da Libertação para
uma teologia da cidadania como teologia pública. Disponível em:
<www.wftl.org/pdf/018.pdf>. SOARES, Afonso Maria Ligorio; PASSOS, João Décio
(orgs.). Teologia pública; reflexões sobre uma área de conhecimento e sua cidadania
acadêmica. São Paulo: Paulinas, 2011. 23 Cf.
CASTRO, Clovis Pinto de. Por uma fé cidadã – A dimensão pública da Igreja;
fundamentos para uma pastoral da cidadania. São Bernardo do Campo/São Paulo:
Umesp/Loyola, 2000.
24 Cf. ROSA, Ronaldo Sathler. A nova cidadania – da tutela à imersão: uma
hermenêutica antropológico-pastoral. Estudos de Religião, São Bernardo do Campo:
Umesp, ano XXI, n. 32, p. 88, jan./jun. 2007.
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TRACY, David. A imaginação analógica; a teologia cristã e a cultura do pluralismo. Trad. Nélio Schneider. São Leopoldo: Unisinos, 2004 (Coleção
Theologia Publica, n. 7). ZABATIERO, Júlio. Para uma teologia pública. São Paulo: Fonte Editorial, 2011.

Jose miguezbonino

Resumo: Metodismo: Releitura


Latino-Americana de José Migues
Bonino
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Diante da realidade latino-americana e à luz do movimento metodista histórico, pode-se
questionar que contribuições trouxe o metodismo para os dias atuais.
O metodismo latino-americano originou-se não diretamente do inglês, mas sim do norte-
americano, por isso carrega influências de adaptações e tendências um pouco diferentes do
metodismo original inglês. O metodismo nasceu em meio a mudanças sócio-econômicas da
revolução industrial e chegou à América Latina durante um período de mudanças de uma
sociedade tradicional e colonial para moderna e independente. Agora é necessário uma
releitura da tradição metodista, tanto original quanto da circunstância latina atual,
proporcionando inspiração para continuar fazendo história.
Por onde João Wesley viajava encontrava problemas sociais que despertavam nele o interesse
em lutar por justiça social. Isso influenciou muito o metodismo e a fundição, sede do
movimento, passou a ser um centro social, alem de local de trabalho e culto. A luta contra o
desemprego, tido como causa da maioria dos problemas sociais, contra o contrabando de
escravos e a própria escravidão foram ênfases metodistas.
O maior sonho de Wesley era que todos pudessem ter tudo em comum, pois cria e pregava
que tudo pertence a Deus e os homens administram. Este não era um pensamento comunista,
a regra era “ganhar tudo o que puder, economizar tudo o que puder e doar tudo o que puder”.
Esse interesse social do metodismo contribuiu para impedir uma crise na Inglaterra, ensinando
para aquele povo uma vida solidária e disciplinada. Porem, não se pode gloriar do passado e
esquecer de fazer algo hoje em prol do futuro.
Em toda a história pode-se encontrar a ação de Deus em busca da salvação da humanidade
seguida da ação do homem com seus projetos e conflitos. Wesley e os metodistas buscavam
uma verdadeira conversão e como continuidade queriam uma genuína santificação, através da
garça de Deus. João Wesley pregava para as massas populares da sociedade e ensinava
sobre a conversão ou regeneração, como uma experiência pessoal e cociente de recomeçar
uma nova vida, um novo nascimento.
Para trazer a doutrina Wesleyana aos dias atuais é preciso repensar alguns aspectos como o
caráter formal da linguagem doutrinaria de João Wesley e as circunstâncias culturais e
filosóficas da época, quando se esperava uma “atuação” conseqüente de um “ser”. A
regeneração é a ênfase da pregação Wesleyana, devendo a consciência pessoal do convertido
lhe ensinar sobre a responsabilidade social e evangelística.
Conversão significa uma resposta positiva à mensagem cristã e ao compromisso com Deus e
com o próximo. Os frutos desse compromisso são esclarecidos para os metodistas através das
regras gerais e servem de testemunhos evangelizados para a sociedade. Assim o Espírito
Santo age na história através da Igreja.
A doutrina Wesleyana trouxe diversas e amplas contribuições ao cristianismo por sua
abrangência de temas centralizados na fundamental e original doutrina bíblica. A mensagem de
Wesley se baseava em dois fatores: o teológico, de que Deus quer salvar a todos e o pastoral,
de que as pessoas já salvas (Igreja) devem contribuir com o propósito Divino, levando a
salvação a outras pessoas.
Deus tem um plano para salvar a humanidade do fracasso do pecado. O homem por si só não
consegue alcançar a Deus, mas através da sua proveniente graça é alcançado e redimido pelo
Senhor. O plano Divino continua em um processo de santificação pela prática do amor até
alcançar a perfeição Cristã.
Firme nessa graça é possível praticar a fé em obras de amor alcançando outras pessoas para
o Reino. As boas obras não ganham a salvação, ma são frutos dela. No chamado “sinergismo”
Wesleyano está a crença de que o homem e a mulher podem contribuir para o plano Divino de
salvar a humanidade, como sócios menores de Deus no negócio de implantar o Reino de Deus
no mundo, levando o evangelho a toda a raça humana.
O lema do movimento metodista era “espalhar a santidade bíblica em toda a terra”, crendo que
este é o objetivo de ser Igreja. Para Wesley a Igreja é um grupo de pessoas que vivem em
comunhão, buscam a palavra de Deus e participam dos sacramentos. Estas pessoas têm a
missão de levar o evangelho para outros que poderão ingressar na Igreja através da fé viva.
Para Wesley não era preciso que todos pensassem igualmente, havia liberdade cercada pela
unidade na essência doutrinária.
João Wesley aceitou o modelo de organização da Igreja Anglicana, mas estava aberto a novos
conceitos e estruturas. Ele mesmo não dirigia uma Igreja em si, mas uma sociedade de grupos
(bands) de pessoas que desejavam crescer na fé e na palavra de Deus. Para participar destes
grupos era preciso seguir as regras gerais: fazer o bem, não fazer o mal e observar as
ordenanças de Deus (vida de piedade).
A comunhão deve imperar na comunidade de fé em relacionamento, convivência e “santidade
social”, cuidando uns dos outros de forma organizada e missionária. A Igreja é renovada pela
palavra de Deus através da fé. O metodismo experimentou esta renovação de uma forma
popular, com a participação ativa de leigos e leigas, liderada de forma conservadora, mas
missionária. O objetivo maior do Movimento Metodista era a transformação da sociedade,
tendo a Igreja como instrumento da implantação do Reino de Deus, restaurando a humanidade.
A Igreja Metodista é uma “parte” ou “ramo” da Igreja universal e por isso é ecumênica com
outros cristãos. Nessa fé una Wesley ensinou que há um mesmo objetivo entre os Cristãos e
isso deve uni-los em comunhão na fé e na práxis do amor
Hoje há muitos ramos confessionais com estruturas que impedem a comunhão entre as Igrejas
na América-Latina. Falta o entendimento de que há “um só Deus e um só Espírito” que conduz
à mesma verdade. Diante de tanta diversidade confessional é difícil conceber uma Igreja
Mundial sem a compreensão do Cristo-Uno que vence barreiras culturais, geográficas,
idiomáticas e tradicionais.
O metodismo sempre se caracterizou respeitador das opiniões e desarmado de
confessionalismo, não se afirmando dono de uma particular doutrina. Destaca-se então a
organização estrutural da Igreja Metodista que vem se mostrando eficiente e eficaz. Esse
posicionamento favorece a relação ecumênica, não só preservando a herança metodista, mas
repartindo com todos a fé comum, em luta pelos direitos humanos e sociais.
Missõ integral

Teologia da Missão
Integral
Pode o Evangelho ser usado como mero palanque de uma
ideologia?
“A Teologia da Missão Integral é uma variante protestante da Teologia da Libertação”.
— Ariovaldo Ramos, na revista marxista Diplomatique.

Julio Severo

“Deus ouviu nossas orações!” Assim disse uma viúva ao abrir a porta da frente de sua
pobre casa e ver, com seu filho, várias caixas de compras de alimentos, roupas e
outros produtos. Tudo estava ali, na frente de sua porta, sem identificação nenhuma
do bondoso doador. Mas a viúva sabia que, fosse quem fosse, tinha sido um
instrumento dAquele que toca os corações para essas preciosas expressões de amor.

Testemunhos semelhantes se repetem em todas as épocas e lugares: em suas


necessidades, pessoas oram e recebem bênçãos especiais de doadores
desconhecidos. São desconhecidos movidos por Aquele que é amor e humildade, e
praticam o amor sem nenhuma ambição de aparecer, conforme Jesus mesmo
ensinou:
“Guardai-vos de fazer a vossa esmola diante dos homens, para serdes vistos por eles;
aliás, não tereis galardão junto de vosso Pai, que está nos céus. Quando, pois, deres
esmola, não faças tocar trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas
e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que já
receberam o seu galardão. Mas, quando tu deres esmola, não saiba a tua mão
esquerda o que faz a tua direita; Para que a tua esmola seja dada em secreto; e teu
Pai, que vê em secreto, ele mesmo te recompensará publicamente.” (Mateus 6:1-4
ACF)
Essa é a beleza da vida cristã: o amor em ação, em obediência ao Senhor Jesus
Cristo, se expressa em humildade. A caridade cristã é uma ação movida por puro
amor, nunca por ideologia.

Amor versus ideologia


Mas quando entra a ideologia, entra a imposição e vai embora o amor.
Onde Deus dá a cada pessoa a liberdade de ajudar quem realmente precisa, a
ideologia usa a força bruta para tirar dos outros com a desculpa de ajudar os
necessitados.
Deus ajuda, mediante seus servos, pelo amor.
A ideologia, mediante seus adeptos, impõe, em nome do amor.
Deus usa as pessoas voluntariamente.
A ideologia faz uso do Estado para obrigar as pessoas.
Essa é a diferença básica entre ideologia e amor inspirado por Deus.
A ideologia gosta de lidar com dinheiro, principalmente dinheiro dos outros. Enquanto
na vida cristã cada seguidor de Cristo usa seus próprios recursos para abençoar quem
está em necessidade, os adeptos da ideologia usam o dinheiro que é tirado dos
outros, muitas vezes pela força. E usam não somente para ajudar quem supostamente
precisa, mas também a si mesmos, tal qual fazia Judas.
Judas, o apóstolo que traiu Jesus, era responsável pelo dinheiro que as pessoas
voluntariamente doavam para os pobres. Ele usava o dinheiro para ajudar não
somente os pobres, mas também a si mesmo, e ainda assim aceitou suborno para trair
o Mestre.
A traição ao Mestre pode ocorrer de diversas formas. Quando um cristão só ajuda os
pobres com o dinheiro dos outros, vive disso e promove uma ideologia que defende o
Estado no papel de tirador do dinheiro dos outros para supostas caridades, o nome de
Jesus não é glorificado. É traído.
O que, por exemplo, faria um pastor adepto da Teologia da Missão Integral viajar a
Venezuela para dar apoio a Hugo Chavez, por suas políticas supostamente voltadas
aos pobres? Por que esse pastor não procurou um bom trabalho a fim de fazer, com o
dinheiro de seu suado salário, caridade para os pobres?

Assistência apostólica seletiva


Tanto os adeptos da Teologia da Libertação quanto os adeptos da Teologia da Missão
Integral se julgam mais apóstolo do que os doze apóstolos de Jesus. Os primeiros
apóstolos tinham na igreja um ministério de caridade não voltado aos descrentes ou à
sociedade, nem mesmo a todos os crentes. Era voltado exclusivamente às viúvas que
preenchessem certos requisitos:
“Cuide das viúvas que não tenham ninguém para ajudá-las. Mas, se alguma viúva tem
filhos ou netos, são eles que devem primeiro aprender a cumprir os seus deveres
religiosos, cuidando da sua própria família. Assim eles pagarão o que receberam dos
seus pais e avós, pois Deus gosta disso. A verdadeira viúva, aquela que não tem
ninguém para cuidar dela, põe a sua esperança em Deus e ora, de dia e de noite,
pedindo a ajuda dele. Porém a viúva que se entrega ao prazer está morta em vida.
Timóteo, mande que as viúvas façam o que eu aconselho para que ninguém possa
culpá-las de nada. Porém aquele que não cuida dos seus parentes, especialmente dos
da sua própria família, negou a fé e é pior do que os que não crêem. Coloque na lista
das viúvas somente a que tiver mais de sessenta anos e que tiver casado uma vez só.
Ela deve ser conhecida como uma mulher que sempre praticou boas ações, criou bem
os filhos, hospedou pessoas na sua casa, prestou serviços humildes aos que
pertencem ao povo de Deus, ajudou os necessitados, enfim, fez todo tipo de coisas
boas. Mas não ponha na lista as viúvas mais jovens; porque, quando os seus desejos
fazem com que queiram casar de novo, elas abandonam a Cristo. E assim elas se
tornam culpadas de quebrar a primeira promessa que fizeram a ele. Além disso, elas
se acostumam a não fazer nada e a andar de casa em casa; e, pior ainda, aprendem a
ser mexeriqueiras, metendo-se em tudo e falando coisas que não devem. Por isso, eu
quero que as viúvas mais novas casem, tenham filhos e cuidem da sua casa, para que
os nossos inimigos não tenham motivos para falar mal de nós. Pois algumas viúvas já
se desviaram e seguiram Satanás. Se alguma mulher cristã tem viúvas na sua família,
ela deve ajudá-las. Que ela não ponha essa carga sobre a igreja, para que a igreja
possa cuidar das viúvas que não tenham ninguém que as ajude!” (1 Timóteo 5:3-16
NTLH)
A ajuda da igreja era seletiva. Todas as viúvas em necessidade não tinham um direito
automático de receber assistência. Elas tinham primeiramente de passar por alguns
testes de qualificação moral.
Contudo, mais comumente adeptos de teorias cristãs de linha marxista se baseiam na
decisão dos primeiros apóstolos orientando toda a igreja judaica a entregar suas
propriedades à liderança apostólica. Mas, ao contrário do que uma interpretação de
Teologia da Missão Integral (MTI) faria, a intenção dos apóstolos jamais foi
transformar a igreja numa mega-agência de caridade para toda a sociedade.
O mesmo capítulo 5 de Atos que fala sobre entregar tudo aos apóstolos fala também
sobre apóstolos cheios de poder do Espírito Santo: “E muitos sinais e prodígios eram
feitos entre o povo pelas mãos dos apóstolos”. (Atos 5:12)
O verdadeiro Cristianismo pratica caridade para quem realmente precisa e merece, e
faz sinas e prodígios no meio do povo: curas, expulsões de demônios, etc. Os adeptos
da MTI, que não são conhecidos por sinais e prodígios de curas e libertação no meio
do povo, são mais conhecidos por defenderem o papel da igreja como uma força de
pressão sobre o Estado em sua ânsia de tirar os recursos dos cidadãos para supostas
práticas de caridade sem a seletividade que os apóstolos tinham.

Decisão dos apóstolos: inspiração estatal, ideológica ou meramente


eclesiástica?
A decisão dos apóstolos de que todos os membros da igreja tinham que ter tudo em
comum tinha como objetivo:
* Deixar os membros pobres e enriquecer os apóstolos, assim como se faz na
moderna Teologia da Prosperidade.
* Criar um sistema político para tirar de quem não tem para dar a quem não tem,
conforme propõe a Teologia da Missão Integral.
Se você escolheu uma das duas opções, você errou.
O que os apóstolos fizeram não foi um meio de se enriquecer à custa dos membros. E
eles também não estavam usando a igreja para criar um sistema político. Foi
exclusivamente uma decisão interna, uma decisão voltada apenas para a igreja
judaica. Jamais foi intenção deles transformar sua experiência de igreja em teocracia
socialista, pressionando o Estado a impor sobre a sociedade uma repartição forçada
de bens.
Uma transferência desse sistema para a esfera secular teria de impor certas medidas:
* Todos os cidadãos deveriam se submeter à autoridade dos apóstolos estatais e a
insubmissão teria a mesma conseqüência que sofreram Ananias e Safira: a pena de
morte.
* Todos os cidadãos deveriam entregar todos os seus bens aos apóstolos estatais.
Mesmo que ousemos considerar a possibilidade dos apóstolos aceitando a
secularização de sua decisão particular para sua igreja, transferindo-a para a
sociedade, qual seria o resultado?
A igreja judaica dos 12 apóstolos sofreu muito economicamente quando foi atingida
por uma grande crise de fome que atingiu todo o Império Romano. Mas as igrejas
fundadas e dirigidas pelo Apóstolo Paulo na Ásia Menor e Europa, que também
estavam no Império Romano, não só tiveram força econômica para prevalecer sobre a
crise de fome, mas até mandavam ajuda para a empobrecida igreja judaica.
Havia uma diferença marcante: Paulo não quis trazer para suas próprias igrejas as
práticas dos apóstolos de Jerusalém, que haviam estabelecido tudo em comum. (Veja
um estudo mais detalhado aqui.)

Assistencialismo forçado
Se uma grande fome atingir o mundo — e onde há políticas socialistas predominantes,
a miséria é inevitável a curto ou longo prazo —, até mesmo as igrejas cristãs serão
afetadas, inclusive igrejas dirigidas por apóstolos. Mas escaparão as igrejas que não
foram infectadas pela visão que está a serviço de uma ideologia de falsa compaixão.
Vejamos a proposta da Teologia da Missão Integral (TMI) usando como base as
práticas dos apóstolos:
A TMI quer que o Estado obrigue todas as pessoas a repartir sua renda para seus
programas assistencialistas.
A igreja apostólica usava apenas os recursos da igreja para sustentar a própria
igreja, nunca usando esses recursos para assistencialismo no mundo.
A TMI apóia qualquer governo corrupto e sem moral, contanto que faça
“assistencialismo”.
A igreja apostólica não tinha nenhuma proposta ou exemplo assistencialista ou
político. O que ela tinha era um programa de assistência às mulheres viúvas.
Esse programa estipula duas coisas bem claras: O dever de sustentar as viúvas
pertence às famílias delas. As que não tinham famílias podiam contar com a
ajuda da igreja se preenchessem certas condições de bom testemunho cristão.
As viúvas sem bom testemunhos ficavam de fora. Portanto, para ser qualificado
para receber a ajuda da igreja, não bastava ser pobre. Tinha de ter bom
testemunho.
Entretanto, os adeptos da TMI querem o Estado no lugar tanto das famílias como das
igrejas. Embora se classifiquem como cristãos e usem o Evangelho fora de contexto,
suas ações mostram que eles estão trabalhando para criar um Estado mais forte,
transferindo para ele as responsabilidades que são das famílias e das igrejas.
Sob inspiração marxista, mas com roupagem bíblica estratégica, a teocracia socialista
é de longe hoje a forma mais popular e predominante de ação política cristã, onde
católicos e evangélicos progressistas pressionam o Estado a impor sobre a sociedade
a repartição forçada dos bens dos cidadãos, sob o pretexto socialista de justiça social.
Aliás, o Estado teocrático socialista quebra toda separação entre igreja e Estado,
removendo das igrejas e suas famílias as áreas da educação, saúde, caridade, etc.
Em nome da compaixão pelos pobres, as comunidades eclesiais de base da Igreja
Católica, infectadas com a Teologia da Libertação, pregavam que uma teocracia
socialista era plenamente justificável. Com suficientes bases bíblicas da Teologia da
Libertação, a CNBB marxista deu o sinal verde para o PT e Lula subirem ao poder.
Não muito atrás, os adeptos da Teologia da Missão Integral também sinalizaram para
Lula que ele e sua gangue tinham o apoio dos evangélicos para decolar.
Hoje, graças à Teologia da Libertação e à Teologia da Missão Integral, o Brasil tem um
Estado cada vez mais socialista supostamente voltado para “os pobres”. E não nos
deixemos enganar. Embora a palavra “teologia” apareça frequentemente, o que vale aí
é a ideologia. O próprio Ariovaldo Ramos reconheceu, na revista marxista
Diplomatique, que “A Teologia da Missão Integral é uma variante protestante da
Teologia da Libertação”. E a Teologia da Libertação é a mais importante variante
religiosa da ideologia marxista. São duas faces da mesma moeda.
Adeptos dessa teologia, que também se consideram “progressistas”, têm histórico
comprovado de ligações socialistas.
Repetindo o que eu já disse sobre evangélicos progressistas:
Eles provocam incontáveis estragos à divulgação do Evangelho, ao pervertê-lo e
colocá-lo a serviço de uma ideologia que nada tem a ver com Jesus Cristo. Cada
tentativa de se implantar um reino humano dessa ideologia trouxe a manifestação do
reino das trevas: matanças, genocídios, mentiras, destruição e horrenda perseguição
aos verdadeiros seguidores de Jesus Cristo.

Roubo em nome da compaixão


Em nome da compaixão pelos pobres, o governo teocrático socialista tira de você e de
mim muito dinheiro através de políticas vorazes de impostos. Vejamos agora alguns
exemplos do uso do nosso dinheiro:
* Meu dinheiro é tirado à força de mim para ajudar o pobre do Fidel Castro e seu pobre
governo comunista.
* Meu dinheiro é tirado à força de mim para ajudar a pobre Autoridade Palestina, que
precisa perseguir cristãos e ajudar seus pobres grupos terroristas contra Israel.
* Meu dinheiro é tirado à força de mim para ajudar os pobres grupos homossexuais a
promover suas orgias, inclusive promovendo o homossexualismo nas escolas
públicas.
* Meu dinheiro é tirado à força de mim para financiar grupos pró-aborto a ajudar as
pobres mulheres e os pobres médicos a livrarem a sociedades de opressores bebês
em gestação.
* Meu dinheiro é tirado à força de mim para ajudar os pobres políticos socialistas do
Brasil a viajarem pelo mundo inteiro para se encontrar com amigos terroristas e
ditadores.
* Meu dinheiro é tirado à força de mim para ajudar muitos outros tipos de pobres,
conforme o governo decidir.
E, já que estamos numa teocracia, todos devem obedecer, sem questionar. Já viu
alguém querendo questionar a Deus? Mas, você perguntará, se estamos numa
teocracia, onde está Deus no centro? Ah, esqueceram de avisar! Logo que a Teologia
da Libertação e a Teologia da Missão Integral se tornam realidade numa nação, há
uma pequena mudança de “governo”. O papel meramente simbólico de Deus é
discretamente removido e o Estado socialista ocupa o trono! “Ei, Deus! Obrigado por
nos deixar usar seu nome para avançar nossa revolução! Obrigado também por nos
emprestar algumas partes do teu Evangelho por meio da Teologia da Libertação e da
Teologia da Missão Integral!”
Entretanto, não fique chocado: a Teologia da Libertação e a Teologia da Missão
Integral garantem que a preocupação central sejam os pobres e, quer a teocracia
socialista tenha Deus ou o Estado no trono, muito pouco importa. O que importa é
fazer tudo em nome da compaixão e dos pobres!
Jesus Cristo é a favor dos pobres, mas sua compaixão nada tem a ver com o
socialismo. Ele nos ensina a amar e ajudar os pobres voluntariamente. Eu e muitos
cristãos bem que gostaríamos de fazer mais, mas a teocracia socialista vem
sufocando nos cidadãos todos os recursos que deveriam estar disponíveis para atos
voluntários de caridade: Imensas quantias de impostos são tragadas pelo Estado, em
nome da compaixão pelos pobres, para financiar imensas políticas socialistas,
inclusive bolsas-famílias que sustentam um grande curral de eleitores que sustentam a
teocracia socialista.
Com o Deus verdadeiro, você tem a opção e o livre arbítrio de ajudar os pobres, o
quanto você quiser, do jeito que você quiser, quando você quiser. Com o falso deus da
teocracia socialista, a opção e o livre arbítrio são degolados. Quer queira quer não,
você e principalmente seu bolso são chamados a contribuir involuntariamente para a
revolução teocrática socialista AQUI E AGORA.
Há uma diferença cósmica entre Jesus e o Estado.
Jesus não usa o Estado para enganar os pobres, nem o usa para tirar dinheiro de
ninguém, nem o usa para forçar ninguém a perder seu livre arbítrio. Jesus chega até a
pessoa e a convida: Você quer me seguir? Você quer ajudar seu próximo?
Mas a teocracia socialista age muito diferente. Seus representantes chegam até você
e dizem:
Precisamos ajudar os “pobres”.
Aí você responde:
Legal! Com o que você vai ajudá-los?
Com o seu dinheiro.
Mas eu não posso dar agora…
Não estamos pedindo sua colaboração. Estamos exigindo seu dinheiro.
Peraí. Jesus quer que eu ajude, mas nem ele me obriga a nada.
Por acaso temos cara de Jesus? Entregue imediatamente seu dinheiro. Do contrário,
você será preso por insubmissão ao Estado.
Sem opção, você entrega seu dinheiro. Seus bolsos se esvaziam, e os bolsos dos
poderosos “a serviço” do Estado “compassivo” se enchem.
Qual é a diferença entre a Teologia da Prosperidade e a Teologia da Missão Integral?
As duas esvaziam seus bolsos. A primeira, no altar da igreja; a segunda, no altar do
Estado.
Na Teologia da Prosperidade, você enriquece os líderes da igreja, se você quiser
ofertar. Lembre-se: a Teologia da Prosperidade não força ninguém a entrar na igreja e
dar dinheiro.
Na Teologia da Missão Integral, você enriquece os líderes do Estado e suas loucuras,
quer você queira ou não. Lembre-se: a Teologia da Missão Integral defende uma
teocracia socialista onde todos são forçados a entregar dinheiro no altar do Estado.

Estado pecador
Em sua desculpa de ajudar os pobres por meio do aumento incessante e cruel de
impostos, o governo comete três pecados:
* Quebra um dos Dez Mandamentos, que exige não roubar.
* Tira do cidadão sua oportunidade de voluntariamente ajudar os pobres.
* Sustenta um populismo pesadamente caro para se solidificar no poder.
Jesus ensinou bem claramente em Mateus 6 que cada homem — jamais o Estado —
tem a responsabilidade e opção de ajudar diretamente os pobres. E Jesus ensinou
também a forma de dar: sem que ninguém saiba.
Por mais que queiram os adeptos da Missão Integral ou os adeptos da Teologia da
Libertação, o governo não consegue cumprir esses dois ensinamentos, por um motivo
bem simples: é dirigido às pessoas da igreja, não ao Estado.
Quando o Estado entra na esfera da igreja, para cumprir o papel de seus membros, o
resultado é perversão. Enquanto o homem ou a mulher que ama Jesus ajuda os
pobres com seus próprios recursos pessoais, o Estado que não ama Jesus tira os
recursos dos cidadãos à força e, bem diferente do que Jesus mandou, faz propaganda
e publicidade aos quatro cantos do mundo de toda migalha que dá, fazendo trombetas
tocarem sobre si e se fortalecendo num populismo oportunista.
Provavelmente, o governo gaste, do dinheiro do povo, tanto em migalhas aos pobres
quanto em propaganda para manter sua imagem de “protetor dos pobres”.
Imagine agora o cenário: Um homem está determinado a seguir a orientação de Jesus
de ajudar os pobres. Assim, ele vai até seu vizinho e diz: “Entregue-me seu dinheiro!”
Diante da recusa do vizinho, o homem o ameaça, finalmente conseguindo a grana.
Com o dinheiro em mãos, ele divulga para a cidade inteira que ele vai ajudar os
pobres. Pega uma parte boa do dinheiro e dá aos jornais, para fazerem muita
propaganda da generosidade dele. Pega outra parte do dinheiro e dá aos seus amigos
homossexuais, para que possam farrear à vontade. Pega outra parte do dinheiro e dá
para sua amiga que tem um trabalho de defender o aborto. Dá outra parte para outros
amigos. Pega um pouco para si e, finalmente, para não ser injusto com seu populismo,
espera os jornalistas, as câmaras, TVs, rádios, etc., para entregar sua “ajuda” aos
pobres.
Essa é a caridade sem Deus.
Essa é a caridade estatal.
Como é que alguns cristãos foram se meter nisso?
Eu creio que Jesus Cristo deu aos cristãos a autoridade e o poder de realizar sinais,
prodígios e maravilhas, inclusive expulsando demônios. (Veja Marcos 16)
Já passou da hora de os cristãos expulsarem de seu meio a Teologia da Libertação e
a Teologia da Missão Integral

Missão integral

O que é Missão Integral


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Muitos identificam a Teologia da Missão Integral como sendo uma


influência da Teologia da Libertação e da doutrina marxista. Mas a
verdade é que ela é bíblica e dialoga com mundo pós-moderno de
maneira eficaz.

A missão de Deus (missio dei) tem naturalmente a qualidade de ser


integral. “Deus amou ao mundo”, o “mundo” traz a ideia da
integralidade dos povos, todas as pessoas. E esse tom de
integralidade perpassa toda a missão. É o evangelho todo para todas
as pessoas respondendo a todas as necessidades. A missão integral
contempla o ser humano de maneira holística, isto é, em todas as
suas dimensões: física, espiritual, social e psíquica.

O professor Júlio Paulo Tavares Zabatiero explica que o apóstolo


Paulo traz uma ótica da integralidade do Evangelho. 1. O evangelho
integra judeus e gentios em uma nova humanidade; 2. O evangelho
integra a natureza criada; 3. O evangelho integra os poderes nas
regiões celestiais; 4. O evangelho integra todo o universo; 5. o
evangelho integra o ser humano como um todo. Em suma, esses
cinco tópicos na teologia paulina mostram que em Cristo haverá uma
convergência escatológica de todos esses elementos: povos, criaturas
(natureza), poderes, céus e terra. O caminho para essa convergência
será a reconciliação e a paz promovida pela ação da igreja,
comunidade de Cristo na Terra. Essa comunidade deve, através da
total obediência a Cristo, encarnar as virtudes do Reino de Deus aqui
e agora.

As duas principais virtudes do Reino de Deus que o prof. Zabatiero vai


identificar na Palavra de Deus são a compaixão e o discernimento. A
compaixão foi a motivação de Jesus em seu ministério. O principal
mandamento de Jesus foi amar. Então a solidariedade é a prática
dessa motivação na compaixão. Isso significa ver o outro como digno
do nosso amor e cuidado. Na diaconia cristã o ser humano não é visto
de maneira dicotômica, mas preocupa-se com o pobre (Gl 2:10). Essa
compaixão deve ser motivo de uma reflexão de quais são as formas
mais eficazes de servir aos necessitados. Qual é nossa
responsabilidade social como cristãos?

Para John Stott “a ação social e a evangelização são como as duas


lâminas de uma tesoura, ou como as duas asas de um pássaro. (…).
Tanto a evangelização pessoal quanto o serviço pessoal são
expressões da nossa compaixão. Ambos são formas de testemunhar
de Jesus Cristo, e ambos deveriam surgir de reações sensíveis às
necessidades humanas” (STOTT; 1983).

Isso nos leva à segunda virtude do Reino, o discernimento. De que


maneiras devemos agir? Esmolas? Para Zabatiero as esmolas são
uma ação insuficiente: “É preciso ações mais eficazes. Por exemplo:
projetos sociais de capacitação profissional, projetos sociais de
desenvolvimento comunitário; movimentos sociais de luta contra o
desemprego, contra a fome; movimentos políticos pela adoção de
mecanismos de defesa econômica do cidadão”

Em seu livro Ação Social Cristã, Hélcio da Silva Lessa dividiu a


responsabilidade social em três categorias: Assistência social; serviço
social; ação social. Ele usa uma ilustração na atitude de cristãos em
relação a prática da escravatura no século XIX. Na assistência social
os cristãos cuidaram da fome, sede e feridas dos escravos; no serviço
social eles iam mais adiante e compraram a liberdade de escravos e
criavam mecanismos para empregar e proporcionar uma vida digna
para esses ex-escravos; na ação social os cristãos lutaram contra a
instituição da escravatura.

O prof. Zabatiero define, em contra posição do nosso tempo pós-


moderno, que esse discernimento deve ser uma vida de reflexão e
não apenas de sentimentos dentro das igrejas. Precisamos de uma
razão comunicativa em lugar de um emocionalismo. E, nesse sentido,
a reflexão nos levará à uma integridade. O Deus da justiça deve ser
anunciado com integridade. A nossa fé deve nos levar à uma reflexão
teológica e essa, por sua vez nos levar à missão, às boas obras.

Integralidade da missão

INTEGRALIDADE DA MISSÃO

Por
Romildo Gurgel

MISSÃO

A missão tem como base toda a escritura sagrada, muito embora, a grande comissão
de (Mateus 28:19-20) traduz uma forma direta, como um dos mandatos mais significativos de
encarnar a vontade de Deus como instrumento reconciliador. Em primeiro lugar, trata-se do
último apelo convocativo do mestre aos seus discípulos, que podemos afirmar como um
mandato de proclamação (kerigma) do evangelho de uma forma pedagógica e contínua até
reproduzir discípulos reprodutores. Em segundo lugar, é uma chamada radical a todos os seus
eleitos, não especialmente aos oficiais da igreja, mas a todos que são verdadeiramente seus
seguidores que agradecem pela salvação seguindo-o participando da Sua missão de uma forma
que o glorifique através de palavras, gestos, atitudes e ações.

Mateus relata ainda em seu evangelho uma "comissão menor" anterior a esta, menos
abrangente, direcionada apenas para os doze, (cf. Mateus 10:5-42), geograficamente apenas
para as "ovelhas perdidas da casa de Israel" cuja instrução é bem detalhada abrangendo: o
foco da proclamação, o cuidado da aparência simples, o cuidado com o peso da bagagem, não
serem exigentes quanto a dieta e a hospedagem, serem cuidadosos quanto a possíveis
resistências, etc... é aqui que o Senhor profere uma de suas mais famosas frases, "Não vim
trazer a paz, mas a espada", isto devido ao contraste daquilo que ele encarnava,
diferentemente das religiões da sua época.

Quanto aos resultados da proclamação desta comissão menor, são percebidos através
das parábolas ensinadas por Jesus e por aquilo que sucedeu na história. O endurecimento dos
corações dos judeus, frente a salvação do seu messias, estava claramente declarado. O reino
seria tomado e entregue a outros povos. Como por exemplo a parábola dos dois filhos
de (Mateus 21:28-32), onde Jesus teceu a história de um homem que tinha dois filhos,
chegando para o primeiro (judeus) pediu que fosse trabalhar na sua vinha, onde este
prometeu ir, porém não foi. Por sua vez, chegou também para o segundo (gentios) fez o
mesmo pedido, sendo que este respondeu que não queria trabalhar na vinha, mas depois
arrependido do que disse, foi trabalhar. Jesus finaliza a parábola com estas palavras:

“Em verdade vos digo que publicanos e meretrizes vos precedem no reino de Deus. Porque
João veio a vós outros no caminho da justiça, e não acreditastes nele; ao passo que publicanos
e meretrizes creram” (vs.31-32).
Sequencialmente Jesus em outra parábola em (Mateus 21:33-46) parábola dos
lavradores maus), precisamente aponta para esta transição de encargo missional. No entanto,
esta segunda é bastante crucial em sua ênfase. Ele começa dizendo que um dono de uma casa
plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe, construiu um lagar, edificou uma torre e
arrendou-a a uns lavradores (Judeus) ausentando-se subsequentemente deste país. Chegando
ao tempo da colheita enviou alguns servos para receber os frutos do trabalho dos lavradores,
sendo seriamente maltratados, espancados um a um levando alguns a falecerem por esses
maus tratos. O dono da vinha enviando outros servos (profetas) foram tratados de igual modo.
Comovido pelo ocorrido e pela dureza dos arrendatários, decidiu enviar o seu próprio filho
achando que por ser filho, eles iriam respeitá-lo e recebê-lo como deveriam receber. Mas os
lavradores vendo-o disseram: ‒ É o filho, matemo-lo porque esse é o herdeiro e nos
apoderemos da herança. Assim procederam.

A conclusão da parábola está nos (vs.42-43) que diz:

“A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra angular; isso procede
do Senhor, e é maravilhoso aos nossos olhos? Portanto vos digo que o reino de Deus vos será
tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos”.
Diante dessas passagens e suas incumbências à missão que Deus destinou para nós
(gentios), a igreja tem a tarefa de trabalhar nesta lavoura na posição de serva obediente,
comprometida em engajar-se trabalhando e ao mesmo tempo colhendo e cuidando dos frutos
até que venha a prestação de contas quando o dono da casa pedir que apresente o relatório
de sua administração.

A ação missional da igreja é diretamente proporcional a fidelização daquilo que ela


proclama. (Barth, p.11) diz que não se pode saber sobre pregação, proclamação (kerigma) sem
se tomar conhecimento sobre os sacramentos. Comenta ele que:

“Não há pregação se o sacramento não vier e esclarecer”.

Muito interessante esta forma dele enxergar a proclamação, penso que aqui ele está
observando os dois lados de um caminho de mão dupla, conciliando o lado interno da
proclamação e o lado externo, proclamação e discipulado.

Não há como pensar sobre missão sem que percebamos que exista uma associação ao
cumprimento da proposta em cumpri-la através da igreja. Veja o que (Zwestsch, p.85)
escreveu em sua tese de doutorado sobre esse assunto:
“...Missão é um conceito atrelado à igreja cristã; serve aos seus ministérios ordenados
e afins, que desenvolvem programa e criam projetos no intuito não só de manter, mas
principalmente de expandir a igreja...”.
Seguindo essa mesma linha, de missão, igreja, não há como pensar sobre missão
desassociando-se do exercício pastoral, da igreja e da comunidade em sua volta.

(Barro p.121-123), comentando sobre essa realidade, fala do exercício pastoral que
peregrina em duas vertentes missionais que ele denomina como
eclesiocentrismo edintra (pastoral para dentro) e a eclesial ed extra (pastoral para fora). Ele
traduz que a pastoral eclesial é aquela que vive para fora dela mesma, valoriza a missão do
povo, do sacerdócio universal de todos os crentes, enquanto a pastoral eclesiocêntrica, refere-
se apenas as atividades dentro da igreja.

Entendo que a missão da Igreja embarca dois lados, é tráfego de mão dupla, tem como
base o vinde e o ide, é tanto interna, percebida como ambiente de reunião e preparação dos
santos, como externa, mundo onde as pessoas são escravizadas pelo sistema corrupto
pecaminoso. A missão interna é conectiva, agregadora e socializadora do reino, comunhão e o
tudo em comum. A missão externa, é proclamação somada à ação de contextualizar a
mensagem frente as realidades espirituais e sociais além de suas fronteiras, “se existir”. O
apóstolo Paulo nos ajuda muito a entender essa parte escondida, como sendo uma forma
intencional de empoderar os santos para a obra do ministério, conforme escreveu a igreja de
Éfeso:

(Efésios 4:11-13) – “Ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas,
outros para evangelistas, e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos
santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos
cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade,
à medida da estatura da plenitude de Cristo,”
Percebo que neste texto, os dons e ministérios possuem duas pautas, uma interna e
outra externa: a) Interna - ‘pastores e mestres’. b) externa ‘apóstolos, evangelistas e profetas’.

É aqui do lado da pastoral eclesiocêntrica que acontece o diálogo da igreja consigo


mesma, frente as realidades do contraste da vida comunitária que estão em volta dela. Como
disse (Berkhof, citado por Devid Bosch, p.463):

“A igreja só pode ser missionária se seu estar-no-mundo é, concomitantemente, um


ser-diferente-do-mundo”.
É aqui que aparece o caráter diferente transformador que contrasta com as
comunidades não transformadas. É aqui em que há o encontro da fé onde não há sinalização
de fé explícita e é nesse encontro que a missão acontece. É aqui que entra também a evidência
dos dons e ministérios que foram distribuídos aos santos e a capacitação e o encorajamento
missional floresce. É aqui onde o discipulado ganha a sua força e o treinamento se dá como
aconteceu com o treinamento dado por Jesus aos seus discípulos, mesmo de uma forma
desinstalada, artesanal e isolada (dentro). É aqui que os corações são confrontados e
encorajados a saírem da sua zona de conforto e perceberem que todos que são verdadeiros
discípulos, são convocados a serem empoderados, através do (discipulado) do lado de dentro e
frutificar para o lado de fora.

Entendo ainda que assim como a queda veio através do desejo humano de comer o
fruto proibido, a restauração do homem advém de uma contemplação do desejo de comer do
fruto produzido por Deus. Porque a missão nasce pela proposta que contrasta, reino de Deus e
mundo.

Para efeito de ilustração, perceba na (figura 1) abaixo que a raiz de uma grande árvore
é o alicerce de sustentação de toda arvore. Quanto mais a raiz se expandir e se aprofundar,
maior será a probabilidade dela ser frondosa e cheia de frutos. Todo processo multiplicador sai
do lado interno para o externo. Em outras palavras nossa missão é dá tempero a terra e
iluminar o mundo (cf. Mateus 5:13-14).

Externo

(ad extra)

(Mt.5:13-16)

(adintra)

(Efésios 4;11-13) (figura 1)

A grande comissão tem como base a ação trinitária, no sentido de colocar todas as
pessoas no Pai, no Filho e no Espírito Santo. A trindade incuba-se na ação transformadora do
aumento e crescimento e desenvolvimento da lavoura, através da ação da igreja na
proclamação pedagógica do evangelho. A abrangência do campo agora é bem maior: É o
mundo todo, envolve todas as raças, tribos e nações em toda situação social em que as
pessoas se encontram, devemos confirmar nossa obediência proclamando a redenção do Filho
como herdeiro da lavoura e da casa.

Na grande comissão, Jesus não deu uma grande sugestão, mas uma grande “missão”,
“remeter”, “enviar” que só pode ser obedecida desinstaladamente, informalmente,
relacionalmente e permanentemente. Fomos chamados a “ir” e não somente a “vir” (Mateus
11:28). Como sita (David Bosh, p.462 1952):

“A igreja é, sempre e ao mesmo tempo, chamada para fora do mundo e enviada para
dentro do mundo”.
Pelo menos duas vezes Jesus insiste enfatizar essa verdade: (João 20:21) - Jesus lhes
disse mais uma vez: “A paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, Eu também vos
envio.”

Deus nos chama para fora (ekkesia) e é Aquele que nos remete de volta para o mundo
em missão. Somos desafiados a ver em cada passo da caminhada uma oportunidade para
partilhar do amor de Deus revelada em Cristo. A melhor maneira de participar dessa vida é
empregando-a em algo que tenha implicações eternas.

Todo discípulo é convocado por Jesus a erguer seus olhos para além de suas próprias
fronteiras, compreendendo que o projeto divino de transformação inclui nossa participação e
empenho, na abrangência não só comunitária, mas também em todas “as tribos, línguas,
povos e nações” (Apocalipse 5:9). O Cristo que abraçou o mundo pelo seu amor (João
3:16), nos ordena a fazer o mesmo de maneira sábia, engajadora e responsável. Missão não
pode ser divorciada da vida e do exemplo. O evangelho que pregamos deve ser encarnacional.
Jesus criticou duramente os fariseus exatamente por isso quando disse: “Portanto, tudo o que
vos disserem, isso fazei e observai; mas não façais conforme as suas obras; porque dizem e
não praticam” (Mateus 23:3).

INTEGRAL

O significado da palavra integral possui algumas definições. (Barro, p.2 unidade 2) diz:

“É o que compreende todos os aspectos ou todas as partes necessárias para estar completo:
uma educação integral, uma reforma integral”.
Como a palavra integral tem a intenção de não deixar absolutamente nada de fora,
continua ainda (Barro, p.2) definindo mostrando a dimensão dessa palavra:

“Que com outros elementos forma uma unidade ou conjunto: os órgãos integrais do
corpo humano”.
É a partir dessa ideia que surge a missão integral, ou seja, a missão de Deus é integral,
incorpora todas as coisas criadas visíveis e não visíveis.

A missão integral foi gerada no seio da fraternidade Teológica Latino-Americana a pelo


menos pouco mais de 20 anos. Desde então a sua intenção tem sido colocar a Igreja dentro de
um marco teológico mais bíblico do que o tradicional movimento missionário moderno
(Padilla, p.13-14).

Escrevendo sobre a amplitude da missão integral aplicada ao reino de Deus, (Cunha,


p.24-29) tece o seguinte comentário:

“Quando Deus criou todas as coisas, ele tinha propósito para todas as áreas da vida do
homem e para a criação como um todo”.
Seguindo nesta linha, ele declara que Deus demonstra sua intenção de ter comunhão
com o homem, de promover relacionamento entre as pessoas, de vê-lo se relacionando de
forma correta com a natureza e de ter tudo caminhando dentro da ordem da própria criação.
Sua abordagem consiste em quatro aspectos das intenções de Deus na sua criação,
envolvendo a área espiritual, relacional, físico e sabedoria. Tanto a queda como na restauração
pela redenção de Jesus Cristo, essas quatro áreas da vida humana são integralizadas e
recuperadas na restauração.

O apóstolo Paulo ajuda a essa ideia dizendo:

“... havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse
consigo todas as coisas, tanto as que estão na terra, como as que estão nos céus” (Colossenses
1:20).
(Matthew Henry, Bíblia de estudo.p.1953), comentando este versículo diz:

“Deus por Cristo, reconciliou todas as coisas. Ele é o mediador da reconciliação que
proporciona a paz e o perdão aos pecadores, que os traz a um estado de amizade e favor no
presente, e levará todas as criaturas a uma gloriosa e bendita sociedade no final”.
(BARRO, p.3 unidades 2), dá a sua definição de missão integral:

“Missão integral é a proclamação e manifestação (demonstração) do Evangelho do


Reino de Deus em todas as dimensões da vida para restaurar (transformar) os relacionamentos
corrompidos pelo pecado das pessoas com Deus, com elas mesmas, com seu meio ambiente e
suas situações e realidades visando a glória de Deus”
Sendo assim, nutrido com esse embasamento, acho suficiente em dizer que a
integralidade da missão envolve toda a necessidade que os homens passaram a ter depois de
sua queda, desde o afastamento de Deus, os sofrimentos em busca de seu próprio alimento,
suas condições de abrigo, saúde, física, mental e espiritual e a recuperação integral ao estado
de originalidade na criação tendo a igreja de Jesus Cristo como instrumento do cumprimento
da missão integral na (missio Dei).