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O APOGEU DA REPÚBLICA VELHA (1889-1914)

DIFERENTES PROJETOS REPUBLICANOS pg. 460

Após a proclamação da República, militares e cafeicultores aceitavam a necessidade de um


governo militar forte, e de caráter provisório, capaz de consolidar a república; ainda se temia um
contragolpe monárquico.
Esse período ficou conhecido como República da espada, e abrangeu os governos dos
marechais Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto.

No Brasil de 1889 é possível identificar três projetos para a república:

Projeto republicano liberal: inspirado no modelo estadunidense e defendido, principalmente, pelos


cafeicultores paulistas, pregava:
. a descentralização política, dando autonomia aos estados;
. sistema de livre-competição econômica;
. separação entre Igreja e Estado;
. eleições;
. garantia de liberdades individuais.

Projeto republicano jacobino: inspirado na Primeira República Francesa e defendido por setores da
população urbana (classe média e intelectuais).
Pregava a liberdade pública de reunião e discussão, a participação popular na administração. Era
também bastante sensível a medidas de alcance social.

Projeto republicano positivista: baseado nas idéias do filósofo francês Auguste Comte, tinha ampla
aceitação no exército.
Visava a um regime quase ditatorial, com um governo forte, centralizado e ordeiro, capaz de
promover o progresso por meio de uma administração científica e racional, sob a tutela dos líderes, sem
participação popular direta.

O GOVERNO PROVISÓRIO DE DEODORO DA FONSECA (1889-1891) pg. 462

Cercado de oficiais positivistas, o marechal Deodoro da Fonseca foi escolhido para presidir o
governo provisório.
Logo no início do novo regime surgiram alguns problemas, como a falta de apoio da marinha
(ainda, em grande parte, monarquista). O autoritarismo do próprio Deodoro foi sempre um entrave às
articulações políticas e à busca de um consenso com os cafeicultores. Mesmo assim, não deixou de adotar
medidas importantes para a consolidação da república, como:
. extinção de instituições imperiais;
. banimento da família imperial;
. convocação de eleições para uma assembléia constituinte;
. separação entre Igreja e Estado.

Outro ponto importante foi a nomeação de Rui Barbosa para o ministério da Fazenda. Este
estava disposto a tomar medidas para promover o desenvolvimento industrial do país, para o que recebeu
apoio do governo.
Para combater os empecilhos a esse desenvolvimento (a falta de recursos para a industria e a
grande demanda por moeda) Rui Barbosa decidiu pela emissão de papel-moeda, o que se mostrou uma
medida ingênua. Resultou na emissão de grandes somas de papel-moeda sem lastro (correspondência em
ouro na reserva), um processo inflacionário marcado pela febre especulativa, conhecido como
Encilhamento.
A crise econômica desagradou especialmente as oligarquias rurais, pois era resultado de medidas
tomadas em nome da industrialização, que eles não almejavam.

Deodoro e o grupo positivista, para manter-se no poder, retardaram ao máximo a instalação da


assembléia constituinte, o que só aconteceu em novembro de 1890. A essa altura uma comissão liderada
por Rui Barbosa já havia preparado um projeto para a constituição, baseada no modelo estadunidense.
Após três meses de debate, a constituição de 1891 foi aprovada. Entre os principais pontos da
nova carta, podem citar-se:
. transformação do Brasil em República federativa (com um governo central e 20 estados com
grande autonomia);
. divisão dos três poderes;
. eleições diretas com o voto universal masculino (excluindo-se mulheres, analfabetos, mendigos,
menores de 21 anos, padres e soldados).

O GOVERNO CONSTITUCIONAL DE DEODORO DA FONSECA (1891) pg. 463

Excepcionalmente, o primeiro presidente da república seria eleito pela assembléia. Nessa eleição
foram escolhidos, como presidente, Deodoro, e como vice, Floriano Peixoto, da chapa opositora.
Mais uma vez o autoritarismo de Deodoro chocou-se com o Congresso, formado
predominantemente de cafeicultores. Juntou-se à crise econômica a primeira grande crise política
republicana.
Em tentativa de acalmar os ânimos, Deodoro nomeia o barão de Lucena para ministro da
Fazenda, uma figura monarquista que foi mal recebida tanto pelo exército como pelos cafeicultores.
Diante da oposição crescente Deodoro decreta estado de sítio, fecha o congresso e prende
adversários políticos.
Essas medidas causaram uma reação inesperada. Ao mesmo tempo, em Minas Gerais,
Pernambuco e Rio Grande do Sul, a oposição movimentou-se e alguns de seus líderes escaparam da
prisão. Também no exército, Deodoro perdia cada vez mais seu apoio.
Em 22 de novembro iniciou-se uma grande greve dos trabalhadores da Estrada de Ferro Central
do Brasil. Por fim, no dia seguinte, os navios da marinha atracados na Baía de Guanabara, sob as ordens
do almirante Custódio de Melo, apontaram seus canhões para a cidade, exigindo a renúncia de Deodoro
da Fonseca, que cede diante das pressões.

O GOVERNO DE FLORIANO PEIXOTO (1891-1894) pg. 464


Político bem mais hábil que seu antecessor, Floriano Peixoto consegue o apoio dos republicanos
radicais (jacobinos) e dos positivistas, e até mesmo dos cafeicultores (do projeto republicano liberal).
Sua ascensão ao poder foi uma volta à normalidade, com o Congresso reinstalado e o estado de
sítio suspenso.
Tomou então uma série de medidas paternalistas de grande importância para a sustentação de
seu governo, como a construção de casas populares e a suspensão do imposto sobre o comércio da carne,
agradando setores populares da capital federal, pois as medidas estavam restritas ao Rio de Janeiro.
Também estimulou a indústria e reformou as leis alfandegárias, adotando o protecionismo. A
crescente oposição estrangeira levou-o ao nacionalismo, unindo em torno dele toda a nação.

Revoltas e Oposição
Nem o apoio que conseguiu reunir evitou que Floriano enfrentasse as primeiras manifestações
contrárias ao seu governo. Baseavam-se na inconstitucionalidade de sua permanência no cargo, uma vez
que o presidente Deodoro não o tinha exercido pelo tempo mínimo de dois anos. Pela constituição, neste
caso, dever-se-iam realizar novas eleições.
Quando, em 1892, treze generais assinaram um manifesto pedindo o afastamento de Floriano e a
realização das eleições, o presidente os puniu prontamente, segundo o que previa o Código Militar para
casos de insubordinação.

Enquanto isso, no Rio Grande do Sul, o Partido Federalista, de oposição e contrário à excessiva
centralização vigente no estado, entra em conflito com o partido do governo estadual, o PRR (Partido
Republicano Rio-grandense). Este por sua vez defendia idéias positivistas e era base de sustentação de
Floriano, de quem naturalmente obteve apoio na disputa política.
O conflito logo ganha uma dimensão nacional quando os opositores de Floriano passam a apoiar
o Partido Federalista. A Revolução Federalista logo se espalha para outros estados do Sul.
Em 1893, o almirante Custódio de Melo repete a Revolta da Armada de 1891 que derrubou
Deodoro e aponta novamente os canhões da marinha para a cidade do Rio de Janeiro. Ao contrário do ex-
presidente, Floriano Peixoto não renuncia e a cidade é bombardeada enquanto as fortalezas em terra
respondiam aos ataques.
Apesar de a Revolução Federalista unir-se à Revolta da Armada, ambas são derrotadas. Em terra,
as tropas florianistas vencem os revoltosos na batalha da Lapa, no Paraná e tomam a cidade de Desterro,
que a partir daí se chamaria Florianópolis (Floripa!!), sendo a Revolução Federalista vencida
definitivamente em 1895, no governo de Prudente de Morais.
No Rio de Janeiro, com navios de guerra encomendados às pressas, principalmente dos EUA,
Floriano derrota os últimos navios na Baía de Guanabara, levando os rebeldes à rendição em 1894. Ele
iria governar até o último dia de seu mandato.

Equilíbrio Político Delicado


Realizadas as eleições, ganha o candidato dos paulistas, Prudente de Morais.
Parece ser também a vitória do projeto de república liberal, pois além de uma constituição
favorável contava agora com a presidência.
Já o republicanismo radical (jacobinismo florianista) e o positivismo perdiam força, porque,
sendo o Brasil um país eminentemente rural, não havia uma base social urbana que pudesse viabilizar
esses projetos.

TRANSIÇÃO PARA O PODER CIVIL (1894-1898) pg. 469

O governo de Prudente de Morais


O caráter transitório deste governo deve-se tanto à proximidade dos militares com o poder como
à agitação causada pela Revolução Federalista, enfraquecida, mas ainda em curso. A missão de Prudente
de Morais seria trazer o País de volta à normalidade, dentro do projeto político liberal da oligarquia
cafeeira.
Ele conseguiu um fim relativamente pacífico para a Revolução Federalista, anistiando os
principais líderes. Reatou, ainda, as relações diplomáticas com Portugal (rompidas por Floriano em 1893,
em razão do apoio lusitano à Revolta da Armada), entre outras coisas.
Em 1895 morre Floriano Peixoto, o que provoca reações do grupo jacobino-florianista contra o
presidente. Quando essa agitação atingia seu ápice, Prudente afastou-se temporariamente da presidência,
por motivos de saúde, assumindo o vice Manuel Vitorino, adepto do florianismo, o que acalmou os
ânimos.
Após seu retorno, o presidente gastou seus últimos meses de governo tomando medidas
econômicas em defesa dos cafeicultores, contrariando a tendência nacionalista e até modernizadora dos
governos anteriores. As taxas alfandegárias protecionistas foram bruscamente alteradas em 1897.

O conflito de Canudos
No contexto do latifúndio, do descaso das elites e do governo e das secas prolongadas, a
população sertaneja nordestina possuía poucas alternativas. Dentre elas, a emigração, o banditismo social
(o cangaço) e o misticismo religioso.
O misticismo religioso quase sempre se desenvolvia em torno de um líder messiânico, como foi
Antônio Conselheiro. Percorria o interior a pé, fazendo discursos e profecias, dando conselhos e
proclamando a fé em Deus. Arrebanhou seguidores e fundou a cidade de Belo Monte, na fazenda de
Canudos.
Canudos representava uma alternativa para o povo e começou atrair levas de sertanejos,
principalmente baianos. A comunidade livre de Belo Monte não tardou a incomodar o governo do estado
da Bahia, que resolveu acabar com o mau exemplo.
Sucessivas expedições do exército, com 100, 500, 1300 homens, falharam em subjugar a cidade.
O governo federal organizou uma quarta expedição que contava com 15 mil soldados, montando cerco a
Canudos. Mais tarde, o próprio ministro da Guerra partiu para a lá com mais alguns milhares de soldados,
bombardeando intensamente a cidade. A esse incrível contingente militar, Canudos ofereceu heróica
resistência, sendo, por fim, completamente destruída e mortos seus habitantes.

A sucessão de Prudente de Morais


Após atentado de que foi vítima, Prudente de Morais, desconfiando de uma conspiração
florianista, declara estado de sítio e move forte perseguição a seus inimigos.
O florianismo, principal força no exército, começa a esfacelar-se. As derrotas em Canudos
também contribuem para a volta aos quartéis e o afastamento do exército da política.
O APOGEU DA ORDEM OLIGÁRQUICA (1898-1914) pg. 472

Com Prudente de Morais, consolida-se o governo civil. A posse do próximo presidente marcaria
o início de um incontestável domínio oligárquico. É interessante notar, no entanto, que exatamente
quando os cafeicultores assumiam plenamente o controle político do país, acontecia a crise do café.

Economia: o combate à crise do café


O café respondia por mais de metade das exportações e a queda de seu preço teve forte impacto
na economia.
Um dos efeitos da crise foi a impossibilidade de pagar a dívida externa crescente. A inflação
causada pela excessiva emissão de moeda, que vinha crescendo desde o começo da república.

Combate aos efeitos da crise: funding-loan e saneamento financeiro


Campos Sales, o novo presidente da república, acertou o funding-loan em 1898. Tratava-se de
uma moratória; em troca da suspensão temporária no pagamento da dívida externa, concordava-se no seu
aumento e na ampliação dos prazos para pagá-la. Também se assumia a obrigação de fortalecer a moeda
brasileira e combater a inflação.
Sales nomeia Joaquim Murtinho como ministro da fazenda, que, para cumprir essas promessas,
toma medidas de grande prejuízo para a economia nacional. Faz um corte radical dos gastos públicos e
aumenta a arrecadação de impostos. Isso desacelera a economia e a indústria, reduzindo também a
emissão de papel-moeda e controlando a inflação, mas em contrapartida causa uma recessão violenta e o
aumento do desemprego.
Valoriza também o mil-réis, o que reduz a inflação, mas barateia os produtos importados – um
golpe na frágil indústria nacional.

Combate às causas da crise: a política de valorização do café.


Sendo o Brasil o maior produtor mundial de café, os produtores realizam, em 1906, o Convênio
de Taubaté, que tem por objetivo encontrar medidas para a valorização do produto.
A crise fora causada pelo excesso de oferta no mercado, e ficou acertado que o governo
compraria a produção, vendendo-a conforme surgisse a demanda. Os estoques poderiam ser usados para
garantir a elevação dos preços no mercado internacional.
Apesar de conseguir a temporária valorização do café, esse sistema representava enormes gastos
para o governo, que se servia de empréstimos externos.
Essa política de valorização, no entanto, estimulava a superprodução do café, que tinha sua
venda garantida, e também a cultura do grão em outros países. Enquanto isso, o governo se via obrigado a
destruir o excedente do estoque, o que causava graves prejuízos.
Ia-se evitando assim, de modo artificial, a decadência econômica da oligarquia cafeeira.

A borracha: alternativa ao café?


A indústria automobilística e pneumática de diversos países, em pleno desenvolvimento no início
do século XX, tinha a borracha como matéria-prima fundamental. Apesar de o produto chegar a ser
responsável por 40% do total das exportações do Brasil, nunca chegou a ser uma alternativa ao café, e sim
um surto econômico, com início, apogeu e decadência no curso de aproximadamente 50 anos.
AS LUTAS SOCIAIS pg. 476

A Revolta Popular de 1904


Aconteceu no Rio de Janeiro, quando a população revoltada tomou as ruas e avenidas elegantes
da capital, que foi palco de violentos combates durante uma semana. Comumente chamada Revolta da
Vacina, por causa do que foi apenas seu estopim – a vacinação obrigatória contra a varíola –, a tensão
social fora na verdade ocasionada pelas medidas de combate à inflação iniciadas por Joaquim Murtinho,
com impactos negativos sobre o povo, e também pela derrubada arbitrária de cortiços e moradias
populares para a construção de novas avenidas e prédios, a modernização do Rio.

Revolta da Chibata (1910) e do Contestado (1914)


Revoltados com o mau tratamento que lhes era dado pelos oficiais, os marujos dos couraçados
Minas Gerais e São Paulo ameaçam bombardear o Rio de Janeiro. Enviam uma carta ao presidente
solicitando o fim dos castigos com a chibata.
Diante do poder de fogo dos revoltosos, o governo promete o perdão aos líderes do movimento e
discutir a questão em troca da entrega dos navios.
Poucos dias depois, animados com o exemplo, os fuzileiros navais, estacionados na ilha das
Cobras, movem insurreição semelhante. Sem o poder de fogo que tinham os marinheiros, no entanto, o
movimento é reprimido violentamente.
Em meio à confusão, o governo decreta estado de sítio, prende os líderes da Revolta da Chibata e
promove punição violenta aos revoltosos, desrespeitando o que havia acordado. Poucos são os
sobreviventes.

O território “contestado” pelos estados de Santa Catarina e Paraná, era uma área esquecida pelo
governo, com a população entregue à própria sorte.
Repetindo a experiência de Canudos, desenvolveu-se, sob a forma de comunidades místicas, uma
alternativa ao poder político dos coronéis locais.
O movimento do Contestado foi eliminado, os populares massacrados.

MECANISMOS POLÍTICOS DO PODER OLIGÁRQUICO pg. 479

Política do Café-com-Leite: unindo o poder econômico de São Paulo e o político (os votos) de Minas, os
dois estados conseguiam alternar no poder políticos dos dois estados.

Política dos Governadores ou política dos estados: Acordo entre os governadores estaduais e o
presidente, que receberia apoio em troca da autonomia dos estados, viabilizando a permanência no poder
de certos grupos oligárquicos locais.

Comissão Verificadora de Poderes: se apesar de todas as fraudes eleitorais, fosse eleito um deputado de
oposição, a comissão se encarregaria de impedir sua posse e diplomação.

Clientelismo e voto de cabresto: os coronéis, grandes latifundiários, mantinham sob sua tutela uma
população miserável, que deles dependia exclusivamente, uma vez que esquecida pelo poder público.
Durante as eleições, cada coronel controlava uma massa de manobra, com diversos artifícios para
“convencer” o eleitorado a votar em seus candidatos, inclusive o castigo físico.

Os votos, o coronel os negociava com o governador em troca de favores, e eram canalizados para
um candidato à presidência, paulista ou mineiro.

ABALOS NA ORDEM OLIGÁRQUICA pg. 480

O Governo de Hermes da Fonseca (1910-1914)

A candidatura do marechal Hermes da Fonseca representou o primeiro abalo na ordem política


montada. Hermes conquistou o apoio do presidente em exercício, de Minas Gerais e do Rio Grande do
Sul, mas era repudiado pelos paulistas, que rejeitavam um novo governo militar.
São Paulo lançou então a candidatura de Rui Barbosa, que realizou a primeira campanha
presidencial moderna, a Campanha Civilista, percorrendo o País, fazendo discursos, etc. Apesar do
apoio dos baianos, e da população urbana, sensível ao projeto modernizador de Rui, ganhou o candidato
da situação, Hermes da Fonseca.
O novo presidente governou de forma conservadora do ponto de vista econômico. No campo
político, no entanto, realizou a chamada Política das Salvações – a substituição de um grupo oligárquico
por outro, mais leal ao governo federal. Isso se deu principalmente nos estados que apoiaram a
candidatura do opositor Rui Barbosa, ou, como no caso do Rio Grande do Sul, quando a oligarquia local
se mostrava mais fiel ao governo estadual que ao federal.