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A recepção crítica de Clarice

Lispector: momentos decisivos


Diego Miiller Fascina*
Alice Áurea Penteado Martha**

Resumo
Introdução
O presente trabalho traz reflexões
a respeito da recepção crítica sobre a Ler Clarice Lispector continua sendo
obra de Clarice Lispector em três mo- um desafio tanto para os analistas de
mentos: seu surgimento profissional,
literatura quanto para os leitores co-
com Perto do Coração Selvagem, em
1944, romance de estreia que inau- muns. Não porque ela seja uma escritora
gura um novo estilo de narrativa até difusa ou complexa estilisticamente,
então desconhecido em nosso país; mas porque, na enganosa facilidade de
o ponto alto de sua carreira, com a entendimento de seus textos, esconde-se
publicação da coletânea Laços de Fa-
mília, em 1960, e com o romance A
um registro literário fascinante e sempre
paixão segundo G.H., em 1964, textos aberto a novas descobertas.
de sua fase madura, que cristalizam Yudith Rosenbaum (2002, p. 8) afirma
todas as características formais e as que a obra da autora é vista até hoje
preocupações existenciais que a colo-
como “uma experiência, no limite, inde-
cariam entre os principais nomes de
nossa história literária, e finalmente, cifrável, seja para seu público cativo, seja
com uma de suas últimas publica- para os que dela se aproximam pela pri-
ções, A via crucis do corpo, de 1974, meira vez”. Tentar mensurar sua impor-
na qual a preocupação de escrever tância, não apenas como escritora que, a
por encomenda pareceu à crítica um
declínio no valor estético e nas carac- seu modo, renovou as letras brasileiras,
terísticas e técnicas que permearam
sua escrita durante toda sua obra. *
Doutorando em Letras, na área de Estudos Literários do
Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade
Estadual de Maringá. diegomullerfascina@hotmail.com
Plavras-chave: Clarice Lispector. Crí- **
Docente do Programa de Pós-Graduação em Letras da
tica literária. Recepção literária. Universidade Estadual de Maringá. apmartha@uol.
com.br

Data de submissão: mar. 2015 – Data de aceite: maio 2015


http://dx.doi.org/10.5335/rdes.v11i1.4976

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mas também como influência de parte ganha condições de julgamento mais
significativa do que encontraríamos mais criteriosos e menos impressionistas, os
tarde em nosso plano literário é inútil. juízos de valor proferidos pela crítica
Por mais estudos que sejam arrolados, colaboram decisivamente para fixar o
sempre ficará muito por dizer; “literatu- gosto do leitor, para eternizar ou fazer
ra é novidade que se mantém novidade”, esquecer o texto, além dela funcionar
disse Ezra Pound1 (2006, p. 33). como ferramenta esclarecedora de textos
No caso de Lispector, a inovação ope- que, muitas vezes, não se fazem lúcidos
rada ao organizar a estrutura de uma a uma “leitura despreparada”.
narrativa descontínua, que obriga a Reiterando as palavras de Saint-
uma reflexão sobre a linguagem literá- -Beuve, Roland Barthes diz, em Crítica
ria e seus mecanismos de representação e Verdade (2003)2, que a crítica é um dis-
da realidade, provoca em muitos uma curso que tem a intenção de dar um sen-
reação pouco positiva, tamanha a novi- tido todo próprio à obra e que, por isso,
dade que sua obra mantém. Isso se dá é diferente da leitura e sua tarefa não é
porque refletir a respeito desse tecido absolutamente descobrir verdades, mas
complexo, a densa corporeidade da qual somente validades, ou seja, não consiste
é feita o seu discurso, tem seu ato de em descobrir na obra ou no autor obser-
criação finalizado na leitura. Em outras vado alguma coisa de secreto que teria
palavras, a escritura de quem afirma passado despercebido, mas somente em
“estou tentando escrever-te com o corpo ajustar, como um bom marceneiro, que
todo” (LISPECTOR, 1994, p. 11) só pode aproxima apalpando inteligentemente
ser lida por “aqueles que sabem que a duas peças de um móvel complicado, a
aproximação do que quer que seja se faz linguagem que lhe fornece sua época (o
gradual e penosamente – atravessando existencialismo, o marxismo, a psica-
inclusive o oposto daquilo que se vai nálise, por exemplo) ao sistema formal
encontrar” (LISPECTOR, 1998, p. 5). de constrangimentos lógicos elaborados
Essas novidades, muitas vezes, são pelo próprio autor segundo sua época,
difíceis de serem percebidas sem o preocupando-se não em homenagear a
intermédio da crítica literária. Saint- verdade do passado, ou a verdade do ou-
-Beuve (apud ARRIGUCI JÚNIOR, tro, mas, sim, em construir a inteligência
1994) observa que o crítico literário é de seu tempo.
o que sabe ler e ensinar os outros a ler, Northrop Frye afirma em sua Anato-
isto é, ensinar ou ler literatura sem se mia da Crítica (1973) que a matéria da
preocupar com a crítica literária é uma crítica literária é arte, e a crítica, eviden-
tarefa bastante problemática e os moti- temente, é também uma espécie de arte.
vos, com o passar do tempo, tornaram- Arte parasitária, pois se baseia em outra
-se óbvios: pelo filtro da crítica, o leitor já existente, no caso a literatura. Frye diz

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que o crítico é um sujeito que mantém funda um estilo de narrativa até então
um discurso intelectual e que assume novo nas letras brasileiras; a publicação
não apenas o papel de escrevente (aque- da coletânea Laços de Família, em 1960,
le para quem a linguagem é um mero e o romance A paixão segundo G.H., em
instrumento); é também escritor (aquele 1964, textos que amadurecem esse estilo
para quem a linguagem representa um e demais preocupações temáticas traça-
problema), daí a crítica ser considerada das em seu surgimento; e, finalmente, os
arte. E ela precisa existir, porque ela pode contos de A via crucis do corpo, coletânea
falar, e todas as artes são mudas. publicada originalmente em 1974, em
É, portanto impossível estudar literatura: que, prevendo e temendo as palavras
uma pessoa a aprende em certo sentido, mas da crítica, a escritora recorre ao prefácio
o que se aprende transitivamente é a crítica do livro para afirmar: “Vão me jogar pe-
de literatura (grifo nosso). Similarmente, a
dificuldade que amiúde se sente de ensinar dras. Sou mulher séria” (LISPECTOR,
literatura nasce do fato de que isso não pode 1998a, p. 11), isso porque ao escrever por
ser feito: a crítica da literatura é tudo o que encomenda, Clarice percebeu a queda no
pode ser ensinado diretamente. A literatura
não é disciplina de estudo, mas objeto de
valor estético de sua obra, o que geraria
estudo (FRYE, 1973, p. 19). algumas polêmicas, como se verá mais
adiante.
Frye nos diz ainda que a função da
Levando em consideração que o crítico
crítica é procurar a melhor leitura para
também é um artista, teceremos algumas
a obra e, consequentemente, para melhor
informações a respeito dos teóricos que fo-
entendimento do mundo. A leitura crítica
ram fundamentais, especialmente nesses
não se concentra apenas na busca pra-
três momentos que aqui serão discutidos.
zerosa da função textual. Sua função é
Julgamos importante salientar, que, ape-
analítica, de busca da estrutura do texto,
sar de os tópicos trazerem no próprio títu-
desmontando-o como se faz a um corpo
lo, o nome desses teóricos, contribuições
humano em uma aula de anatomia.
de outros estudiosos serão adicionadas,
As contribuições de Barthes (2003,
a fim de sedimentarmos e reforçarmos a
2004) e Frye (1973) nortearão as discus-
importância dessas vozes iniciais.
sões propostas neste trabalho ao lado de
alguns conceitos teóricos da estética da
recepção de Hans Robert Jauss (1994). Antonio Candido e o raiar
Partindo desse início de reflexão, nossa de Clarice Lispector
intenção é realizar um mapeamento das
vozes decisivas da crítica literária na O surgimento profissional de Clarice
obra de Clarice Lispector, especialmente Lispector, em 1944, com a publicação de
nos três distintos momentos, já citados: seu primeiro romance Perto do Coração
sua recepção inicial, em 1944, com Per- Selvagem foi uma surpresa, tanto para
to do Coração Selvagem, romance que os leitores, não habituados com a temá-

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tica e com as técnicas utilizadas pela ficam excitados e “super excitados” pelas
autora, quanto para os críticos da época. coisas muito antes do público em geral.
Na contramão das tendências literárias Foi o que aconteceu com Antonio Candido.
vigentes da década de 1940, a autora Em um artigo significativamente intitu-
insurge contra a linearidade narrativa, lado No raiar de Clarice Lispector, publi-
num momento literário em que a lin- cado logo após o surgimento do romance,
guagem seguia uma concatenação lógica Candido, um crítico já respeitado apesar
para expressar e denunciar os problemas da pouca idade, realiza um estudo que é
histórico-sociais de nosso país. um ato de compreensão à jovem escritora,
A primeira voz abalizada da crítica é mostrando o espanto diante da novidade
de Antonio Candido. Como diz Leyla Per- de seu estilo. Realizando sua função de
rone-Moisés (2000), falar da importância crítico, Candido recebe a primeira obra
desse crítico para a literatura brasileira de Clarice e suas entusiasmadas palavras
é “chover no molhado”. Ela afirma que diante do novo, eternizam o romance:
ler Antonio Candido é algo que todos os Tive verdadeiro choque ao ler o romance
críticos ou aspirantes a crítico deveriam diferente que é Perto do Coração Selvagem,
fazer regularmente, pois sempre há mui- de Clarice Lispector, escritora até aqui
completamente desconhecida para mim.
to que se aprender com ele. Com efeito, este romance é uma tentativa
Dentre as qualidades que fazem de A.C. um impressionante para levar a nossa língua
crítico modelar, eu destacaria as seguintes: o canhestra a domínios pouco explorados,
amor à literatura, que o faz valorizar o texto forçando-a a adaptar-se a um pensamento
mais do que o contexto, o objeto mais do que cheio de mistério, para o qual sentimos que
o método; a enunciação delicada de suas a ficção não é um exercício ou uma aventura
avaliações, que nunca se apresentam como afetiva, mas um instrumento real do espí-
juízos de verdade, definitivos e indiscutí- rito, capaz de nos fazer penetrar em alguns
veis; o reconhecimento de valores estéticos dos labirintos mais retorcidos da mente [...]
independentes dos valores éticos e políticos. (p. 127). Clarice Lispector nos deu um ro-
Essas são qualidades que podem ser apren- mance de tom mais ou menos raro em nossa
didas e cultivadas por quem se dispuser a literatura moderna [...] dentro de nossa
tomá-las como exemplares (PERRONE- literatura é performance da melhor qua-
-MOISÉS, 2000, p. 329). lidade [...] (p. 128). A intensidade com que
sabe escrever e a rara capacidade da vida
Outras qualidades que não podem interior poderão fazer desta jovem escritora
ser ensinadas são aquelas que Candido um dos valores mais sólidos e, sobretudo,
mais originais de nossa literatura, porque
utilizou para saudar a primeira obra de esta primeira experiência já é uma nobre
Clarice: a sensibilidade e a capacidade realização (CANDIDO, 1970, p. 131).
de reconhecer imediatamente, dentre os
Candido completa dizendo que a jovem
escritores contemporâneos, aqueles que
estreante se aproximava de uns poucos
o tempo confirmaria como fundamentais.
violadores da rotina literária, tais como
Ezra Pound, em seu Abc da Literatura
Mário de Andrade, com Macunaíma,
(2006), afirma que o crítico e os artistas
ou Oswald de Andrade, com Memórias
em geral são as antenas da raça, pois

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sentimentais de João Miramar, que con- Acionando os conceitos de horizonte
seguiram entender o domínio da palavra de expectativas3 e de distância estética4,
sobre regiões mais complexas e mais inex- oriundos da crítica de Jauss (1994), po-
primíveis, ou fazer da ficção uma forma de demos ilustrar com mais rigor, a recepção
conhecimento do mundo das ideias. Talvez inicial da autora. O “choque” acima des-
tenha sido antes de tudo esse aspecto do crito pelo já supracitado Candido (1970)
romance que o próprio Oswald de Andrade nos mostra que a distância estética entre
perceberia ao colocar, entre os continu- os horizontes de expectativa (do público
adores das altas cogitações estéticas da e da obra) é extremamente aumentada,
semana de Arte Moderna de 22, Clarice uma vez que Perto do coração selvagem
Lispector ao lado de Guimarães Rosa. contrariou as experiências habituais
Na esteira de Candido, Sérgio Milliet dos romances regionalistas de 1930 e
também saúda a estreia da escritora. conscientizou o leitor para experiências
Milliet (apud SÁ, 1979, p. 24) afirma não expressadas ainda. Trata-se de um
que diante daquele nome desagradável, acontecimento literário e, segundo nos
pseudônimo sem dúvida, pensou estar informa Sá (1979), foram necessários
diante de mais uma dessas mocinhas que 20 anos para que, apenas em 1963, em
principiam cheias de qualidade, mas que uma edição popular, esse romance fosse
morreriam de ataque diante de uma crítica divulgado para um público cativo e mais
séria. Porém, ao ler efetivamente o roman- acostumado com o estilo de Lispector.
ce, publica em seu Diário Crítico, no dia 11 Dessa data em diante, a distância entre
de março de 1944, as seguintes palavras: as edições foi, sucessivamente, se encur-
Mas isso é excelente! Que sobriedade, que
tando, todavia, lançando mão de Jauss
penetração, e ao mesmo tempo, apesar (1994), a estreia da autora continua
do estilo nu, que riqueza psicológica! Leio sendo uma grande obra, pois, passando
ainda alguns trechos numa espécie de teste
mais de setenta anos de seu lançamento,
e resolvo começar. O primeiro capítulo con-
firma as impressões anteriores, e sigo lendo, continua a provocar o leitor, permitindo
sem parar mais, tomado de um interesse novas leituras, independentemente do
que não decai, que encontra novas vitami- momento histórico.
nas nas constantes observações profundas,
cristalinas e duras de Joana, na sua capa-
Ainda abordando a recepção inicial
cidade introspectiva, na coragem simples de Perto do coração selvagem, Candido
com que compreende e expõe a trágica e rica e Milliet preocuparam-se em marcar
aventura da solidão humana. Clarice Lis-
as diferenças de sua linguagem e não
pector tem o dom de dar as palavras, uma
vida própria. Ela as cria, nesse sentido de estabeleceram crítica a seu desempe-
emprestar-lhes um conteúdo novo, inespe- nho criador. O crítico foi Álvaro Lins.
rado, que acaba espantando a criadora e lhe Em um artigo intitulado A experiência
enchendo o espírito de fantasmas. Não as
domina mais, então; elas é que tomam conta incompleta: Clarice Lispector, sobre os
dela (MILLIET, 1981, p. 28). romances Perto do Coração Selvagem
(1944) e O Lustre (1946), o crítico não

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deixa de reconhecer a originalidade e os Clarice ficou muito abalada, porém era
méritos da escritora, mas considera o previsível a reação, levando-se em conta
romance como incompleto e inacabado, que vários de seus leitores e críticos,
sem unidade interna, já que se sustenta incluindo Álvaro Lins, estavam acostu-
mais por situações isoladas do que pelo mados a uma forma romanesca acabada
conjunto, apontando, dessa maneira, e linear.
a distância estética existente em seu Olga de Sá aponta que não ocorreu a
horizonte de expectativas. Álvaro Lins, que um romance novo, fora
Romances, porém, não se fazem somente dos moldes tradicionais, como ele mesmo
com um personagem e pedaços de roman- o reconhece, recusaria uma trama com
ces, romances mutilados e incompletos, são início, meio e fim e poderia terminar
os dois livros publicados pela Sra. Clarice
Lispector, transmitindo ambas nas últimas com um longo monólogo da protagonis-
páginas a sensação de que alguma coisa es- ta, “aberto” para as possibilidades que
sencial deixou de ser captada ou dominada oferece a cavalgada no cavalo novo, à
pela autora no processo da arte de ficção
procura do selvagem coração da vida.
(LINS, 1963, p. 192).
O crítico, no dilema de perceber uma
Lins (apud SÁ, 1979, p. 29) situa o originalidade, como foi o caso, mas não
livro na categoria do que ele chama de conseguir situá-la, refugia-se, então, no
literatura feminina. Às características álibi da idade da autora, de sua falta de
do temperamento feminino (potencial de experiência humana (SÁ, 1979, p. 30).
lirismo, narcisismo) atribui à presença As palavras de Lins reforçam a novida-
visível e ostensiva da personalidade da de da ficção clariceana e o despreparo
autora, em primeiro plano, na protago- crítico para a recepção de tal obra, cau-
nista Joana. Segundo Lins, Perto do Co- sando, o que Jauss (1994), emprestando
ração Selvagem é um romance original dos formalistas russos, chamaria de
nas nossas letras, embora não o seja na estranhamento.
literatura universal (arriscando a crítica Após a publicação de Perto do Coração
de influências negada por Candido): Selvagem, Clarice Lispector lança os
Não tenho receio de afirmar, todavia que o romances O Lustre, em 1946, e A cida-
livro da Sra. Clarice Lispector é a primeira de sitiada, em 1949. Em função de um
experiência definida que se faz no Brasil do
moderno romance lírico, do romance que se casamento com um diplomata brasileiro,
acha dentro da tradição de um Joyce ou de a escritora vai acompanhar o marido em
uma Virgínia Woolf (LINS, 1963, p. 193). suas andanças pelo mundo e em razão
No final de seu artigo, Lins informado disso se cria um hiato de onze anos sem
de que a escritora estreante é jovem, publicações.
reconhece-lhe um poder de inteligência A crítica não se posicionou diferente
acima de sua idade, mas denuncia a falta mediante a publicação desses dois ro-
de experiência vital, que vem do tempo mances. Gilda de Mello e Souza (apud
e da intuição necessária ao romancista. SÁ, 1979, p. 32) mescla em seu ensaio,

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intitulado O Lustre, as já citadas pala- O mesmo crítico, que saudava anos
vras de Candido e de Lins. Concorda antes a riqueza psicológica de Perto do
que Clarice Lispector é uma escritora Coração Selvagem, afirma agora que a
original, ambiciosa, possuidora de enor- química sintáxica do estilo clariceano
me talento e rara personalidade, porém, estava fadada a perder sua originalida-
seu segundo romance, traia, de certa de. Ao ler o terceiro romance, A cidade
maneira, a característica principal do sitiada, Milliet afirma que Clarice con-
romance que é ser romanesco e discursi- fundia-se na teia de suas imagens, que
vo. Nesse ponto, ela concorda com Lins, se sucedem nesse romance sem objetivo
ressaltando a mutilação do romance e, certo, pelo prazer da frase, da exibição
dessa vez, compara Lispector com Ka- de um requinte. Verbiagem, malabaris-
fka, como Lins havia feito anos atrás, mo, exibicionismo insistente, achados de
comparando-a com Joyce e Woolf. Com romancista, eis os graves defeitos desse
esse posicionamento, o que novamente romance. Apesar disso, o crítico reafirma
se percebe é o aumento da distância que Clarice Lispector é uma escritora de
estética, resultando na dificuldade em grande talento, cujo estilo se desdobra
receber um modelo romanesco inovador. a serviço de um temperamento feito de
Milliet também comenta o novo livro curiosidade sensual e de sensibilidade
de Clarice, comparando-o com Perto do angustiada (SÁ, 1979, p. 26).
Coração Selvagem e temendo que a for- O que Lins e Milliet, desnorteados
ma se transforme em fórmula. com os primeiros textos de Lispector,
Do ponto de vista psicológico observa-se em chamam de defeitos na estrutura da
Lustre, novo romance de Clarice Lispector composição dos romances, isto é, a co-
a mesma procura de fixação do imponderá- locação do tempo e espaço no plano da
vel e do diferente que caracteriza Perto do
Coração Selvagem. Neste romance como no descontinuidade, é precisamente o que
segundo publicado a heroína vive entre a Benedito Nunes apontará mais tarde
sensualidade e o pessimismo. Em ambos o como o ponto de maior força da escritora.
seu isolamento no mundo é total, a sua inso-
lubilidade completa [...] (p. 40). Romance de
uma envolvente tristeza é, no entanto esse Benedito Nunes e
livro uma obra de amor, de extravasamento
de amor, de plenitude emocional admirável. o formigamento da
E servida por um estilo exuberante de ima-
gens, em que a volúpia da palavra, da frase,
existência
o som e da cor se expande numa permanente,
e por vezes exaustiva sinfonia [...] Há, porém Benedito Nunes foi quem, até hoje, fez
um perigo de tocaia, o perigo da fórmula, estudos de mais longo fôlego acerca da
que a autora precisa obviar e que não raro
a atraiçoa no seu último romance. O estilo é
obra de Clarice Lispector. Seu primeiro
sem dúvida o grande trufo de Clarice Lispec- ensaio intitulado O mundo de Clarice
tor, mas é também a sua maior possibilidade Lispector, publicado em 1966, é uma
de perdição (MILLIET, 1980, p. 41). crítica que valoriza a obra de Lispector,

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questionando os estudiosos que não A experiência mística de A paixão segundo
conseguiam ver a importância de certos G.H. que um crítico chamou de encontro da
consciência com a realidade última termina
temas e situações, constantes na obra da pelo silêncio, implicando assim na desistên-
escritora brasileira e chama a atenção cia da compreensão da linguagem.
para isso logo na introdução:
Clarice respondeu prontamente:
Este ensaio é uma tentativa para inter-
Benedito Nunes, não é? Ele é muito bom.
pretar coerentemente a ficção de Clarice
Ele me esclarece muito sobre mim mesma.
Lispector, cuja importância cresceu muito,
Eu aprendo sobre o que escrevi (grifo nosso)
sobretudo depois do aparecimento de A
(SÁ, 1979, p. 189).
maçã no escuro (1961). A paixão segundo
G.H., de 1964, recebido pela crítica com Embora a afirmação pareça irônica,
respeitoso silêncio, quebrado por uma ou
outra apreciação, ainda não foi devidamente esta parece ser a grande função de um
avaliado quanto ao lugar que ocupa na prosa crítico literário: propor até ao próprio au-
de ficção da extraordinária escritora (grifo tor múltiplas visões de sua obra e ainda
nosso). Houve mesmo, a propósito desse úl-
timo romance de Clarice Lispector, reações
criar mecanismos para que venham à
de surpresa e de estarrecimento. Chegou-se tona essas inúmeras leituras. Benedito
até a falar no hermetismo da autora, de seu Nunes, um crítico preparado com os ins-
culto de vaguidão, e da incomunicabilidade
trumentos da lógica e da filosofia, era,
final dos propósitos da romancista (NUNES,
1966, p. 11). para a autora, o algo que ela não sabia
explicar, diferente do crítico comum.
Apesar de não ter sido o primeiro a
Devido à sua acuidade especulativa,
analisar a produção da autora, parece
Nunes encontra seu método de análise
ter sido Benedito Nunes quem mais se
na própria espessura psicofilosófica do
encantou naquele momento com sua
texto clariceano. Talvez os aplicadores
escrita, debruçando-se por toda sua
mecânicos de conceitos de linguistas, mi-
vida sobre a obra dela. Percebe-se em
tólogos, antropólogos e psicanalistas, ou
sua análise que, em nenhum momento,
de modelos derivados, jamais pudessem
Nunes fez menção ou tratou com inferio-
iluminar e interpretar tão bem a obra
ridade a obra de Clarice por ser mulher,
de Lispector.
ao contrário de Álvaro Lins:
Chegamos aqui, ao segundo momen-
Este tipo de criação literária não se ajusta to deste trabalho, em que a intenção é
muito bem os temperamentos femininos; e
talvez seja essa uma razão capaz de explicar
apontar o novo olhar que a crítica lan-
porque a escola realista e a escola naturalis- çou para a ficção de Clarice Lispector,
ta não foram propícias às mulheres escrito- especialmente após as contribuições do
ras, salvo um ou outro caso de inteligência
filósofo paraense. A coletânea Laços de
(LINS, 1963, p. 186).
Família, publicada em 1960, obra que
Em uma de suas raras entrevistas, quebra o período de silêncio da escritora,
Clarice Lispector é questionada pelo instaurado desde o início de suas via-
repórter: gens pelo mundo, e o romance A paixão

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segundo G.H., de 1964, são perfeitas para mostrar a “concepção-do-mundo” de
ilustrações da consolidação de todas as Clarice Lispector, ressaltando que
questões formais e existenciais que se [...] é sempre possível encontrar na litera-
iniciam com Perto do Coração Selvagem, tura de ficção, principalmente na escala do
mas apenas com os posicionamentos de romance, uma concepção-do-mundo, ineren-
te a obra considerada em si, concepção esta
Nunes, são mais bem visualizadas e que deriva da atitude criadora do artista,
discutidas. configurando e interpretando a realidade
Como apontou Barthes (2003), a fun- (NUNES, 1966, p. 15).
ção do crítico, no caso Benedito Nunes, Nas obras de Lispector, segundo
foi a de ajustar, como um marceneiro, a Nunes, há afinidades marcantes com a
linguagem que fornece sua época, nesse filosofia da existência, deixando claro
contexto, o existencialismo, ao sistema que essa sua percepção da filosofia exis-
formal da obra de Clarice Lispector. A tencial não fecha para outras possibili-
obra da autora parece ter sido seu gran- dades de análise. A partir de leituras de
de achado, pois o interesse maior de Nu- teorias sobre a náusea, a angústia e o
nes era propor uma reflexão a respeito de medo, como as abordadas em Ser e tem-
filosofia e arte, em especial, a literatura. po (1927), de Heidegger, O ser e o nada
Com isso, o teórico lançou luzes à obra (1943) e A náusea (1938), de Sartre, e O
da escritora que, a partir de 1960, teve conceito de angústia (1844), de Kierke-
seus textos (re)lidos, reconfigurados gaard, Benedito Nunes analisa a obra de
e respeitados pela crítica. Seria, pois, Clarice Lispector, mostrando que temas
na visão de Jauss (1994), uma genuína importantes de seus textos podem ser
tentativa de reconstrução do horizonte de elucidados por essas teorias.
expectativas, para se conhecer a história Os teóricos que contribuíram para
do efeito, isto é, a maneira pela qual o a fortuna crítica de Clarice, após 1960,
próprio ato da compreensão da obra da compartilharam as ideias propostas por
autora está abarcado pela história e, Benedito Nunes. A preocupação existen-
dessa maneira, afetado pela maneira que cial, a sondagem psicológica, o enredo
esses textos são lidos. não linear, o uso do monólogo interior
Benedito Nunes (1966) analisa, ini- e do fluxo de consciência, dentre outras
cialmente, três textos para comprovar características, passaram a ser melhor
a experiência da náusea no comporta- entendidas e apreciadas. O estudo do
mento das principais personagens das filósofo abriu margens para novas dis-
obras escolhidas para discussão: Ana, cussões e a escritora, que até então tinha
protagonista do conto Amor, de Laços seus livros empoeirados nas estantes de
de Família (1960); Martim, do roman- bibliotecas, passa a ser objeto de estudo
ce A maçã no escuro (1961), e G.H., do de muitos teóricos e principalmente
romance A paixão segundo G.H. (1964), passa a servir como fonte de inspiração

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para uma nova geração de escritores Afrânio Coutinho (2001) afirma que
que vinha despontando naquela época. Laços de Família tornou-se o fenômeno
Seria, então, de fato, a reconstrução do literário que é hoje, pouco mais de 50
horizonte de expectativas. anos de sua primeira publicação, pelo
Seguindo os posicionamentos de fato de que a vantagem da narrativa
Nunes, Massaud Moisés (1985) diz que curta para a autora está em que ela evita
literatura existencial, ou existencialista, as tiradas filosofantes, reduz o vício da
eis o rótulo que se pode colar na obra de intelectualização e a subjetivação da rea-
Clarice Lispector: os vocábulos “náusea”, lidade. Porém, as frases curtas, compos-
“nojo” e correlatos saltam-lhe da pena em tas de palavras diárias, são renovadas
certa fase de sua carreira, notadamente ciladas para o leitor menos avisado. Aos
em Laços de Família. Ele completa, poucos, compreendemos a complexidade
afirmando que contida nessas pequenas histórias.
[...] o existencialismo em Clarice Lispector Já Moisés (apud SÁ, 1979), em um
cumpre à risca o modelo psicológico inscrito artigo intitulado Clarice Lispector: con-
nessa filosofia de vida: toda a sua obra, desde tista, publicado em 1961, afirma que Cla-
Perto do Coração Selvagem até os textos pós-
rice transborda do conto e o seu talento
tumos (ainda que narrados na terceira pes-
soa), espraia-se como um imenso monólogo, para a lentidão e o microscópico não se
ou, com mais rigor, um solilóquio, uma vez que ajusta à rapidez da história curta. Assim,
se processa perante um interlocutor, repre- a tendência subjacente da escritora para
sentado pelo leitor ou pelo “eu” tornado objeto
de si próprio. Como que ao espelho, o “eu” se o romance pode tornar-se manifesta, bas-
narra interminavelmente, retomando sempre ta juntar os contos todos pelo seu núcleo
de ponto diverso o círculo em espiral de sua dramático, abstraindo certos incidentes
ansiosa indagação (MOISÉS, 1985, p. 458).
particulares, e se terá a atmosfera do
Juntando-se ao posicionamento da romance. Para Moisés, a linguagem de
crítica e ao amadurecimento estético da Clarice em Laços de Família, é plástica,
escritora, os contos de Laços de Família maleável, forte a ponto de não perder o
tornaram-se um dos pontos altos de aprumo e ser capaz de insinuar os sub-
nossa prosa nacional. Na obra, as ente- jetivismos duma retina atenta para os
diadas e infelizes personagens são “ilu- mínimos gestos.
minadas” pelo processo conhecido como Em 1961, um ano após a publicação,
epifania pelos detalhes cotidianos: rosas Laços de Família recebe o prêmio Jabuti
perfeitas sobre a mesa, um cego mascan- de Literatura na categoria “Contos, crô-
do chicletes, a exuberância do Jardim nicas e novelas”. Intelectuais da época
Botânico, um toque de ombros entre também manifestaram sua apreciação
mãe e filha numa intimidade de corpo pelo trabalho da escritora por meio de
há muito desconhecida, e num piscar cartas: Fernando Sabino afirma que a
de olhos um novo mundo se apresenta obra seria exata, sincera, indiscutível e
violentamente para esses personagens. até humildemente o melhor livro de con-

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tos publicado no Brasil e Érico Veríssimo que contemplam a obra da escritora. No
afirma que Laços de Família é a mais ensaio inicial sobre Clarice Lispector
importante coleção de histórias publica- (1966) e, posteriormente, na obra Leitura
das neste país na era pós-machadiana. de Clarice Lispector (1973), o romance
A paixão segundo G.H., publicada recebeu uma interpretação mais concisa
em 1964, obra que Alfredo Bosi (2006) e o título A experiência mística de G.H.
intitula de romance de educação exis- Para Nunes (1973, 1995), o momento
tencial, marca, ao lado de Laços, o ponto de compreensão do mundo e de si mesma
alto da carreira da escritora. A linhagem ocorre quando a protagonista entra no
de personagens clariceanas em busca do quarto da empregada que acaba de sair
núcleo da existência prossegue de modo do emprego e vê uma barata saindo do
mais radical neste que é um dos roman- guarda-roupa. Este inseto muda a com-
ces mais insólitos da autora. Desde sua preensão da existência de G.H., porque
abertura – a possíveis leitores –, o livro condensam-se pouco a pouco, em torno
quebra com as expectativas de um ro- do inseto, sentimentos contraditórios que
mance tradicional a ser digerido por um vão crescendo. Na visão do crítico, G.H.
leitor passivo. Clarice se preocupou com passa da comum aversão das donas de
o receptor de seus textos, demonstrando casa por baratas, o simples nojo físico, o
ter consciência da necessidade de identi- medo, até o súbito interesse despertado
ficação do leitor com sua obra, como po- pelo inseto caseiro dão lugar a uma estra-
demos perceber neste aviso esclarecedor: nha coragem, misto de curiosidade e de
A possíveis leitores impulso sádico-masoquista com que G.H.
Este livro é como um livro qualquer. Mas fechando a porta do guarda-roupa sobre o
eu ficaria contente se fosse lido apenas por corpo do animal, perpetra o ato decisivo.
pessoas de alma já formada. Aqueles que
sabem que a aproximação do que quer que Quando a protagonista vê a barata es-
seja se faz gradualmente e penosamente magada, o nojo se aprofunda, a ponto de
– atravessando inclusive o oposto daquilo secar-lhe a boca e revirar-lhe o estômago,
que se vai aproximar. Aquelas pessoas que,
só elas, entenderão bem devagar este livro
transformando-se em náusea.
nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, Como chamar de outro modo aquilo horrível
o personagem G.H. foi dando uma alegria e cru, matéria-prima e plasma seco, que ali
difícil; mas chama-se alegria. C.L. (LISPEC- estava, enquanto eu recuava dentro de mim
TOR, 1964, p. 7). em náusea seca, eu caindo séculos e séculos
dentro de uma lama – era lama, e nem se-
Em O drama da linguagem: Uma quer lama já seca, mas lama ainda úmida e
leitura de Clarice Lispector, Benedito viva era lugar onde remexiam com lentidão
Nunes (1995) nos apresenta um capítulo insuportável as raízes da minha identidade
(LISPECTOR, 1964, p. 58).
bastante elucidativo a respeito do roman-
ce em questão, intitulado de O itinerário Para o crítico e escritor Assis Brasil
místico de G.H. Esse mesmo capítulo já (1973), embora A paixão segundo G.H.
teria feito parte de outros textos do autor pareça, à primeira vista, um caminho

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novo ou diferente na obra de Clarice, é o Analisando a trajetória dos persona-
resultado mais objetivo de um pensamen- gens de Clarice Lispector, o crítico José
to desenvolvido no decorrer de todos os Américo Motta Pessanha, em um ensaio
seus livros. Para melhor entendimento do intitulado Itinerário da Paixão, publica-
romance, o crítico nos alerta que devemos do em 1965, afirma que o percurso de A
partir da leitura de A maçã no escuro, paixão segundo G.H., já estava traçado
pois tal romance é o passo anterior à e prometido em toda a obra anterior da
Paixão, em que a autora tenta cristalizar escritora.
seu pensamento. O teórico, concordando Era o rio subterrâneo, um rio de água polu-
com Benedito Nunes, chama a atenção da ída, o fluente e selvagem coração da vida.
crítica literária que terá de se sentir na A seiva oculta, o mal secreto, que nutria os
personagens, todos arautos do mesmo vento,
obrigação de abordar aspectos até certo todos preparadores do mesmo caminho. O
ponto extraestéticos da atividade criadora subsolo da obra clariceana. Se a superfície
de Clarice Lispector, sem dúvida alguma o terreno se acidentou em contos, em longas
extensões de romance ou se estilhaçou em
interligados, intimamente, com o seu breves anotações foi porque a superfície da
processo de se exprimir perante o mundo. obra acompanhou e refletiu abalos sísmicos
Finalizando seu estudo, Assis Brasil profundos. A obra clariceana, abriga a ges-
tação de uma visão de mundo que só podia
aponta que a técnica narrativa de Lispec-
terminar em A paixão. Uma espécie de itine-
tor em A paixão segundo G.H. é diferente rário oculto, em busca da raiz do ser-em-si
no quadro de seus livros anteriores, pois (PESSANHA, 1965, p. 23).
não é melhor nem mais convincente do
O único posicionamento negativo da
que qualquer outra usada pela autora.
crítica que encontramos nesse período
Tampouco é suficiente como realização
em discussão é o de Luis Costa Lima
no plano criativo – não é orgânica nem
(apud SÁ, 1979) que põe em cheque
se organiza como o pensamento central
toda a estrutura do universo ficcional da
da obra. A cristalização das intenções
autora. Na verdade, para Costa Lima,
estilísticas da escritora, que propomos
todos os romances publicados até 1961
para este segundo momento do trabalho,
são de pouco fôlego, por efeito da sua
ficam claras nas palavras do crítico:
desarticulação com a totalidade concreta,
Talvez as intenções de Clarice Lispector em que a subjetivação intelectualizada
tenham sido outras ao criar G.H., ou tal-
vez também não se tenha apercebido das
supre a falta de realidade e termina por
implicações múltiplas de um trabalho que esmagar as personagens e a matéria
está mais situado no campo do conheci- novelesca. Novamente o que se nota é
mento do que no campo da ficção. A paixão
uma rejeição diante do novo e a falta de
é o resultado de uma experiência das mais
novas e ousadas da ficção brasileira. E por preparo para recebê-lo. Porém, ao ler A
isso a autora se inscreve aqui como um dos paixão segundo G.H., o crítico escreve
nomes que constroem uma obra dentro de o ensaio A mística ao revés de Clarice
nova mentalidade e novos recursos estéticos
((BRASIL, 1973, p. 76, grifo nosso). Lispector, publicado em 1966, afirmando

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que apesar de tratar-se da mais abstrata é inevitável: Clarice Lispector de uma
das obras da escritora, é, entretanto, maneira geral é promessa de leitura
aquela em que o resultado do imaginário difícil e intranquila e, por isso, não satis-
aponta mais diretamente para a reimer- faz de imediato, a preferência literária.
são da realidade. Deixá-la de lado era mais confortável do
que tentar decifrá-la (LIBANORI, 2002,
Wilma Arêas e a hora do lixo p. 14). Porém, talvez seja esse enigma
que faz com que Clarice possa contar
Desde a publicação de A paixão se- com o aplauso de um público mais afeito
gundo G.H. até o terceiro momento deste às experiências ousadas. Recorremos
trabalho, que consiste na publicação dos novamente a Roland Barthes para fun-
contos de A via crucis do corpo, em 1974, damentarmos esta afirmação.
passaram-se exatos dez anos. Dentre Em O prazer do texto (1996), Barthes
as obras que Clarice Lispector publicou diz que o que dá prazer ao leitor não é o
neste ínterim, duas merecem destaque: óbvio, mas aquilo que fica sugerido, que
Os contos de Felicidade Clandestina, instiga. Para ele, o prazer que o escritor
em 1971, muitos deles já conhecidos experimenta ao escrever não garante o
pelos leitores do JB e grande parte deles prazer de seu leitor. É esse imprevisto
também já publicados em uma coletânea que faz com que o texto seja um espaço
de 1964, intitulada A legião estrangeira, de fruição. Não é o certo que atrai, mas
e ainda, Água Viva, em 1973, texto de as incertezas, aquilo que não pode ser
difícil definição, como a própria autora- apreendido que faz com que o texto seja
-narradora do livro afirma: “é inútil instigante. Segundo Barthes, por um
querer me classificar; eu simplesmente lado, o texto teria duas margens: uma
escapulo não deixando, gênero não me mais sensata, previsível, que faz uso da
pega mais” (LISPECTOR, 1978, p. 17). língua que se conhece, fruto da convenção
Trata-se mesmo de um texto líquido, social; e, por outro, haveria uma segunda
como sugere o título, em que a narrati- margem móvel, na qual ocorreria a morte
va se derrama numa fluidez altamente dessa mesma linguagem, para a criação
poética e radicalmente existencial. de outros sentidos. A fruição do texto e o
Os leitores de Água Viva tomaram seu valor estariam presentes no espaço
um choque semelhante àquele produ- entre essas duas margens. Um texto re-
zido pela leitura de Perto do Coração almente de valor deveria para ele obriga-
Selvagem, há 30 anos. Mesmo com todo toriamente apresentar essas duas faces.
o material já pesquisado e publicado a Assim sendo, podemos afirmar que
respeito de sua ficção, a escritora des- Clarice Lispector escreve textos de frui-
norteou a crítica literária mais uma vez, ção, pois, na maioria das vezes, suas obras
que ora parecia não compreendê-la, ora desconfortam, desconstroem o leitor, seja
procurava influências. A constatação do ponto de vista histórico, cultural ou

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psicológico. É característica do texto de A crítica pouco se pronunciou a respei-
fruição o que encontramos na autora: to dessa obra. Não há registros de con-
quebra de regras estabelecidas. Desde tribuições de Benedito Nunes que, como
seu surgimento, passando por todos es- sabemos, foi o teórico que estudou toda
ses importantes momentos que citamos a obra de Lispector. A autora de A via
neste trabalho, Clarice trouxe o novo, o crucis do corpo é totalmente diferente da
que sempre alarga a distância estética, escritora de Perto do Coração Selvagem,
algo que revê a relação entre texto e lin- de A paixão segundo G.H. ou ainda da
guagem, estabelecendo outras relações de escritora de Água Viva do ano anterior e
sentido que se lança em um tempo que os leitores, mais uma vez, estranharam
não o seu justamente por essa quebra de seu estilo.
convenções. Barthes afirma que texto de Clarice recorre ao prefácio da obra –
qualidade, isto é, de fruição, não pode ser Explicação – não a fim de preparar o espí-
absolutamente claro, ao contrário, deve rito de seus leitores para a possibilidade
possuir suas sombras. É nessas sombras de uma leitura difícil (como foi no caso de
que está seu potencial. Ele não faz parte G.H.), mas para esclarecer a gênese da
de uma ideologia dominante, ou seja, não obra e suas possíveis implicações:
está inserido somente em um padrão já Explicação
esperado. Ele deve possuir locais ocultos, O poeta Álvaro Pacheco, me encomendou
entranhas que permitem que jamais seja três histórias que realmente aconteceram
[...] Comecei no sábado. No domingo de ma-
dominado totalmente. nhã as três histórias estavam prontas [...]
No entanto, um ano após a densidade Eu mesma espantada. Todas as histórias
de Água Viva, a autora novamente sur- deste livro são contundentes. E quem mais
sofreu fui eu mesma. Fiquei chocada com a
preende seus leitores. Mas, não se trata realidade. Se há indecências nas histórias
de uma experiência ainda mais radical não é culpa minha. Inútil dizer que não
em sua estrutura ficcional ou na con- aconteceram comigo, com minha família e
com meus amigos. Como é que sei? Sabendo.
tínua preocupação com a existência de Artistas sabem das coisas. Quero apenas
seus personagens. Em 1974, divorciada avisar que não escrevo por dinheiro e sim
por impulso. Vão me jogar pedras. Pouco
de seu marido, com filhos para sustentar,
importa. Não sou de brincadeiras, sou mu-
Clarice Lispector se encontra em uma lher séria. Além do mais tratava-se de um
delicada situação econômica e, então, desafio (p. 11) Só peço a Deus que ninguém
me encomende mais nada. Porque, ao que
aceitando o pedido de seu editor, escreve parece, sou capaz de revoltadamente obe-
por encomenda, atividade que já havia decer, eu a inliberta. Uma pessoa leu meus
realizado há muitos anos. Os teóricos contos e disse que aquilo não era literatura,
era lixo. Concordo. Mas há hora para tudo.
tentam explicar o fracasso literário que Há também a hora do lixo (grifo nosso). Este
esta obra se tornou levando-se em conta livro é um pouco triste porque eu descobri
os problemas financeiros e o curto espa- como criança boba, que este é um mundo cão
(LISPECTOR, 1998, p. 12).
ço de tempo que a escritora teve para
produzir.

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A obra foi bem recepcionada pela a posse do corpo feminino e o retrata
crítica feminista liderada por Wilma cursando a sua verdadeira “via crucis”.
Arêas que, com a obra Clarice Lispector: Clarice Lispector, mesmo tendo que
Com a ponta dos dedos (2005), realizou escrever um livro sob encomenda, em
um estudo com o qual buscava lançar que trata de um assunto tão polêmico
novas luzes àquela obra tão mal vista, como o sexo, não deixa de mostrar ao lei-
intencionando, dessa maneira, colaborar tor que a escrita de A via crucis do corpo
para a reconstrução desse novo horizonte é um desafio e que, mesmo assim, sentia
de expectativas. A pesquisadora afirma nela “nascer a inspiração” diante da arte
que a autora estava ciente de que se lan- da palavra. Lispector, conforme nos diz
çava em um projeto de escrita libertária Arêas (2005), ao compor os textos dessa
que mostraria o cotidiano dos seres, em obra, apresenta histórias carregadas de
sua mais primitiva condição humana, um humor irônico revelado tanto na po-
focalizando a figura da mulher exposta pularidade de seus personagens, quase
a um enfrentamento de suas próprias sempre de classe baixa (os contos abor-
carências e traumas. Segundo Arêas dam prostitutas, travestis, mendigos e
(2005), as treze narrativas giram em marginais que vagueiam pelas noites
torno de mulheres e das necessidades cariocas), quanto nos acontecimentos
do corpo e suas exigências, de maneira absurdos mesclados de erotismo e me-
que a linguagem e o cenário erótico con- lancolia que formam as histórias.
tribuem para o arranjo e o desfecho de Deixando de lado todo um alicerce que
todas as histórias. a crítica havia sedimentado num período
O diálogo com o tema religioso é de trinta anos, desde suas primeiras
iniciado pelo título que dialoga com o conquistas ainda jovem, com Perto do
discurso bíblico da “via sacra”, “via cru- Coração Selvagem até a densa escrita
cis”, caminho da cruz e a relação entre o fragmentária de Água Viva, Wilma Arêas
sagrado (via crucis) e o profano (do corpo) (2005) afirma que em A via crucis, Cla-
acontece no título A via crucis do corpo. rice Lispector prova ao leitor que não se
Esse corpo pode ser entendido como o restringe apenas a temas abstratos ou
corpo humano, a carne, ou também como de cunho existencialista, mostra que não
o corpo do texto. está alheia à realidade do mundo e que
Pela primeira vez na sua literatura, o tem a rara sensibilidade de lidar com os
sexo aparece de forma tão direta e bru- mais diversos temas de forma natural,
tal. Para Arêas (2005), os tabus sexuais como viver é natural, o sexo faz parte da
são tratados por ela com a naturalidade vida; por meio de um discurso irônico.
de quem conhece perfeitamente a ótica Rosenbaum (2002) que também anali-
feminina e que não tem medo de expor sa a obra da autora pela ótica feminista
seus desejos e anseios. Lispector reclama é menos radical que Arêas, pois promove

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um olhar para a questão da mulher, mas tar a recepção da crítica em três impor-
não descarta as contribuições filosóficas tantes momentos da trajetória literária
que eternizaram a escritora, fazendo um de Lispector.
elo entre os aspectos sincrônicos e dia- A autora foi bem recebida, posta no
crônicos no decorrer da recepção da obra rol dos maiores escritores brasileiros e
clariceana, isto é, a pesquisadora aponta posteriormente mal vista, graças ao posi-
a transcendência da obra de Lispector e cionamento da crítica, que acompanhou
a articula à história de nossa literatura. sua obra, carimbando-a eternamente
Essa dupla face da obra clariceana – a temá- com suas palavras: ficcionista do tempo
tica existencial, filosófica ou metafísica e a para uns, escritora das sutilezas da alma
vertente realista, social, mediada sobretudo para outros, a verborrágica que gosta de
(mas não só) pela condição histórica da mu-
lher – é sua característica predominante. A falar difícil, a mística preocupada com
realidade e a linguagem, assim como o viver questões existenciais, a introspectiva,
e o escrever, caminham inexoravelmente jun- enfim, as classificações continuarão a
tas na obra da autora, mesmo que os textos
se inclinem ora a um ora a outro pólo mais
suceder-se, tentando abarcar um estilo
proeminente (ROSENBAUM, 2002, p. 87). rebelde a todos.
A questão é simples. Se Clarice Lis-
pector foi considerada autora de um
Considerações finais estilo tão problematizador da linguagem
e da vida, se representou uma ruptura
A crítica literária e sua atividade
com a tradição literária de seu tempo e
recepcional é um discurso indispensá-
se tem sua marca registrada na obra de
vel para a apreciação e o manuseio de
grandes escritores contemporâneos como
um texto ficcional. Completando essa
Lygia Fagundes Telles, Dalton Trevisan,
afirmação, Barthes (2003, p. 226) diz:
Rubem Fonseca, Caio Fernando Abreu,
“Certamente, a crítica é uma leitura
João Gilberto Noll, todos conscientes de
profunda, ela descobre na obra certo in-
terem sido precedidos pela sua singular
teligível, e nisso, é verdade, ela decifra e
literatura e, ainda, se é tema dos mais
participa de uma interpretação”.
variados estudos, como esse, por exem-
Chegamos ao fim deste panorama
plo, podemos simplesmente dizer que é a
crítico/recepcional da obra de Clarice
crítica realizando sua mais nobre função.
Lispector e muito ficou por comentar.
Trata-se de uma escritora que tem sua
obra lida e respeitada pelos maiores
estudiosos de literatura do Brasil, por
isso, as contribuições são muitas, os
estudos vastos. Porém, esperamos ter
esclarecido a questão fundamental que
norteou o nosso trabalho, ou seja, apon-

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Critical reception of Clarice truído socialmente e de acordo com o código de
normas estéticas e ideológicas de uma época,
Lispector: decisive moments e pode variar no decorrer do tempo.
4
Para Jauss (1994) é distância estética as expecta-
tivas entre o leitor e sua realização. Tal distância
Abstract determina o caráter artístico de uma obra.
The following work aims to bring
reflections about the critical accep-
tance over Clarice Lispector in three
Referências
different moments, meant decisive
in her work: her professional ari- ARÊAS, Vilma. Clarice Lispector: Com a
se with Perto do Coração Selvagem ponta dos dedos. São Paulo: Companhia das
(Closer to the Wild Heart), in 1944, Letras, 2005.
debut romance wich opened a new ARRIGUCI JÚNIOR, David. Leitura: entre
narrative style until then unknown o fascínio e o pensamento. São Paulo: FDE,
at our country;  the higher point at 1994.
her career, with the publication of
the collection Laços de Família (Fa- BARTHES, Roland. Crítica e verdade. Tra-
mily Bounds), in 1960, and with the dução Leyla Perrone-Moisés. São Paulo:
romance A Paixão Segundo G.H. (The Perspectiva, 2003.
Passion According to G.H.), in 1964, ____________. O prazer do texto. Tradução
words upon her mature stage, wich Jaime Guinsburg. São Paulo: Perspectiva,
crystallizes all of her formal traits 1996.
and existential concerns that would
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura
place her as the main names of our
brasileira. São Paulo: Cultrix, 2006.
literary history, and finally, with one
of her last publications: A via crucis BRASIL, Assis. História crítica da literatura
do corpo (The Body’s via crucis), from brasileira: A nova literatura. I – O romance.
1974, where, engaged in writing on Rio de Janeiro: Americana, 1973.
demand, the critics flagged a esthetic CANDIDO, Antonio. Vários Escritos. São
values decay and at the traits and Paulo: Livraria Duas Cidades, 1970.
technics wich flowed through her wri-
ting along her whole work. COUTINHO, Afrânio. A literatura no Brasil.
Rio de Janeiro: José Olympio, 2001.
Keywords: Clarice Lispector. Literary FRYE, Northrop. Anatomia da crítica. Tra-
critic. Literary reception. dução Péricles Eugênio da Silva Ramos. São
Paulo: Cultrix, 1973.
Notas JAUSS, Hans Robert. A história da literatura
como provocação à teoria literária. São Paulo:
1
A primeira edição é de 1934. Ática, 1994.
2
A primeira edição é de 1966.
3
De acordo com Jauss (1994), o horizonte de LIBANORI, Évely Vânia. Água Viva: O pro-
expectativas engloba o limite do que é visível cesso criador de Clarice Lispector e o papel
e está sujeito a alterações e mudanças, con- do leitor. Dissertação (Mestrado em Teoria
forme as perspectivas do leitor. O horizonte da Literatura e Literaturas de Língua Por-
de expectativas é responsável pela primeira tuguesa) – Universidade Estadual Paulista.
reação do leitor frente à obra, pois se encontra São Paulo, 2002.
na consciência individual como um saber cons-

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