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CHÁ COM

ABRAMELIN

Relato da Magia de Abramelin

Wanju Duli
2019

LIVRO 4
2
Sumário
Introdução.....................................................................................................5
Último Mês....................................................................................................7
Conclusão..................................................................................................134

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4
Introdução

Eu estou de mau humor e vou te matar!!!

OUSE pronunciar a palavra "Abramelin" na minha frente e eu te mato, cara!

Bela forma de iniciar meu último livro, hehe. Ah, eu não posso evitar. Estou
cansada, com sono, com fome. Abramelin tem drenado minhas forças nos
últimos dezoito meses, tanto de forma física quanto psicológica.

Mas eu sobrevivi. Por enquanto.

Muita gente vai ler apenas o Livro 4 e nem vai passar os olhos pelos outros três.
Ou, pior: vão direto para o final desse livro ler apenas a semana de ouro.

Você é uma pessoa livre e pode fazer o que quiser, é claro. Mas também é
verdade que ler a última página do livro sem ter lido o resto da história é como
pegar a coisa fora de contexto.

Eu cheguei até aqui por uma série de fatores. Não consigo explicá-los em
poucas palavras, mas posso tentar.

Comecei a operação com um grande foco na parte espiritual. Agora que estou
no final, meu foco mudou muito. Quero acreditar que foi para melhor.

Ainda vou mudar um monte ao longo da minha vida. Essa operação não é o fim
e sim o começo.

Apesar de tudo, a operação tem sido uma época incrível. Ela me ajudou
bastante, de formas que eu não saberia descrever agora.

Principalmente, a operação me mostrou as minhas falhas, o pior de mim. Ela


me ensinou que eu não sou tão disciplinada quanto eu achava que fosse.

Abramelin me ensinou minhas limitações e por isso lhe sou grata.


Já larguei de mim mesma, já deixei para lá. Seja o que Deus quiser agora.

Porto Alegre, 3 de outubro de 2019

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Último Mês

DIA 550

3 de Outubro, Quinta-feira

Sinto como se eu estivesse num estado de torpor nos últimos meses.

Mas agora eu acordei. Em breve irei checar o livro para revisar o que precisarei
fazer nessas últimas semanas.

Isso não significa que irei fazer tudo o que eu preciso fazer. Eu irei analisar, ver
o que é possível, o que não é, o que é realista, o que me interessa.

Porque uma coisa que o pessoal que faz a operação adora fazer é criticar quem
não segue as coisas que eles mesmos fizeram. Mas quanto ao que eles deixaram
de fazer, eles não querem ser criticados nisso.

Portanto, que cada um cuide de sua própria operação. Principalmente aqueles


que nunca fizeram e ainda têm a petulância de criticar.

Perfeccionistas. Por muito tempo eu disse que o segredo da vida é não ser nem
perfeccionista e nem pessimista. Mas há poucas semanas alguém disse pra mim
que eu era perfeccionista e eu fiquei espantada, como se tivessem me xingado
do pior xingamento possível.

Mas não dá para evitar: todos temos momentos da vida em que somos
perfeccionistas e pessimistas. Ninguém é perfeito.

E com essa operação eu vejo com clareza muitos defeitos meus que antes
ficavam escondidos. É vergonhoso, na verdade. Mas o que se pode fazer? Não
foi para isso que fiz esse negócio, em primeiro lugar?

Então quero acreditar que algo bom virá disso tudo. Ou não. Ou melhor, já
vieram várias coisas, tanto boas quanto ruins.

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Engana-se quem pensa que o importante na operação é apenas a semana de
ouro. Ela é apenas uma parte da jornada. O importante é a jornada, é claro. Foi
ela quem me ensinou o que eu precisava saber e não os últimos dias.

Mas tudo bem. Muito peso é dado aos últimos dias e eu me sinto pressionada.
Até porque essa é a segunda vez que eu faço a operação. Seria ruim se meu
resultado agora fosse pior do que aquele que tive quinze anos atrás.

"Lust for results". Existe essa expressão. Temos que tomar cuidado com isso.
Por isso eu digo que não fiz a operação pela última semana, mas pela coisa
completa.

E eu não vou mentir. Eu não quero fingir que tudo será maravilhoso na última
semana. Porque se não for eu vou dizer que não foi e pronto.

Não quero bancar a maravilhosa pessoa espiritualizada com uma vida na qual
tudo acontece de forma perfeita, os feitiços dão certos, almoça com Deus e
janta com o diabo.

Para ser sincera, essas coisas estão me interessando cada vez menos. Eu quero
ter um relacionamento saudável com minha espiritualidade. Não um
relacionamento violento.

Porém, de certa forma, a minha ansiedade esse mês tem me trazido também
boas sensações.

Estou me sentindo bem. Estou feliz! Pois esse mês terei uma grande aventura.

Como eu disse, vou tentar largar dos resultados e apenas viver o momento.
Desfrutar da jornada.

Meu coração bate forte agora. Fazia um tempo que ele não batia assim por
coisas espirituais. Por isso, eu quero transmitir essa energia que sinto! Para você
que me lê.

Vou tentar explicar: sim, eu me sinto sem energias, mas ao mesmo tempo vem
uma energia, não sei de onde. Deve ser dos céus, espero. Ou do inferno, ai não
ehehehe.

Cara, a vida é linda! Uma grande aventura.

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Eu tô piradona, mas de uma forma boa. Sinto adrenalina.

Para quem já enfrentou 18 meses, apenas mais um mês vai passar muito rápido.

Tô com fome, por causa das comidas que tive que cortar. Que Abramelin me
mandou cortar. Já tem muita gente ao meu redor com raiva desse tal Abramelin,
hahaha!

DIA 551

4 de Outubro, Sexta-feira

Hoje estou numa correria!

Foi o dia de São Francisco de Assis. Eu fui na missa ver os cachorrinhos serem
abençoados, haha!

Foi um dia bem divertido.

Algumas pessoas me perguntaram se estou sentindo uma sensação boa de dever


cumprido por ter concluído os 18 meses de Abramelin. É estranho, pois não
estou.

Isso não significa que não estou feliz. Ao contrário, estou super animada! Um
pouco ansiosa com o último mês. Também cheia de êxtase e emoção!

Mas é estranho eu não sentir essa sensação reconfortante por ter terminado os
três semestres. Quem sabe eu sinta quando a operação chegar ao fim de
verdade?

Difícil dizer. É porque a minha vida tomou rumos diferentes. Abramelin já não
tem o mesmo peso de quando iniciei a operação.

Eu tinha basicamente dois caminhos. Caso eu me empolgasse de verdade com


catolicismo e mergulhasse de cabeça, Abramelin não corresponderia com as
práticas da Igreja e por isso, mesmo sendo algo que exige intenso período de
orações e disciplina, teria perdido um pouco do significado.

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Porém, o fato de eu ter me afastado um pouco do catolicismo (ou melhor, não
ter o mesmo fervor de antes) também faz com que eu me afaste de Abramelin.

Ou seja, todas as opções da minha vida inevitavelmente teriam me levado para


longe da operação. Eu resolvi iniciá-la por dois motivos principais.

1- Se eu fosse a fundo de forma definitiva no catolicismo, a operação seria meu


último adeus ao ocultismo.

2- Caso eu me afastasse tanto do catolicismo, quanto de religiões em geral e


ocultismo, a operação seria meu último adeus à espiritualidade.

E qual das duas opções acabou acontecendo?

Eu não conheço o futuro e não tenho uma resposta certa. Mas o mais provável
é que num futuro, talvez no ano que vem ou em 2021, eu me afaste um pouco
mais do catolicismo.

Isso não significa que irei me afastar completamente dele. Nem de religiões e
ocultismo de forma definitiva.

Mas pode haver um afastamento significativo.

O motivo? Vou resumir: minha consciência me diz que é mais importante fazer
trabalhos de caridade ou ajudar os outros com minhas próprias mãos do que
orar. E um envolvimento mais profundo com religião vai me deixar com menos
tempo para eu fazer esses trabalhos que quero fazer.

Tem gente que concilia os dois, claro. E eu sempre serei grata à religião. Não
acho que irei me desligar totalmente. Eu acredito em Deus, eu rezo.

Mas eu gostaria de explicar que foi esse raciocínio que me afastou um pouco de
religiões e de Abramelin.

No próprio livro de Abramelin é dito que no período da operação são


permitidos trabalhos de caridade.

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Enfim, cada pessoa vive de um jeito e chega a conclusões diferentes. Essas
foram as conclusões que eu cheguei para a minha vida e não há como ir contra
minha consciência.

Eu cheguei a essa conclusão de forma definitiva depois que li um livro com um


relato de uma ex-freira que ficou por mais de dez anos com as Missionárias da
Caridade.

Fiquei um pouco triste ao ver como às vezes a Igreja Católica se preocupa mais
com o "simbolismo" dos trabalhos de caridade do que trazer mudanças para a
vida das pessoas de fato.

Claro, eles trazem muitas mudanças no mundo, fundam hospitais, colégios, etc.
Mas quando a religião vem sempre em primeiro lugar, eles sempre estão prontos
a sacrificar os outros ou a si mesmos em lugar de realizar cuidados urgentes.

Eu percebi que isso ia contra o que a minha consciência me dizia.

Por isso eu estou nessa etapa da operação nesse estado. Mas quero acreditar que
isso virá para melhor. As coisas tinham que ser dessa forma.

Acaba sobrando menos tempo para rezar, já que eu quero priorizar as mudanças
do lado de fora.

Por isso estou aliviada que a operação está acabando. Passar tanto tempo
orando já não tem tanta relação com o que sinto ser a prioridade da minha vida.

Não me importo com o que gosto ou com o que é mais confortável pra mim e
sim com o que é o certo. Ou melhor, eu não sou de ferro, mas ao menos para os
aspectos gerais da minha vida quero tentar viver com aquilo que minha
consciência me indica.

Eu quero dar o meu coração para Deus na semana de ouro. Deixarei tudo claro,
explicarei porque cheguei até aqui desse jeito. Não foi por mera preguiça ou má
vontade. Foi quase por uma questão de "objeção de consciência".

Quem está certo ou errado, isso eu somente saberei com certeza quando eu
morrer e for julgada no tribunal divino. Meu anjo e minha consciência irão
participar desse momento e quero colocar todas as cartas na mesa, sem
esconder nada para mim mesma.

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DIA 552

5 de Outubro, Sábado

O Yom Kipur acontece daqui poucos dias! Meu Deus, parece que foi ontem que
fiz esse jejum. É um jejum de apenas 24 horas que eu fiz no ano passado. Esse
ano acho que não vou poder fazer, pois terei uma celebração da família
exatamente para esse dia.

Hoje estou fazendo meu jejum semanal de 24 horas. Comecei ontem às 21:30 e
irei quebrá-lo hoje nesse mesmo horário.

Eu ando um pouco cansada de fazer jejuns. Como eu disse, geralmente eu só


faço quando estou em casa e posso beber muita água, pois é incômodo ficar
bebendo tanta água na rua e ter que ir ao banheiro o tempo todo.

Mas em geral, conforme o aspecto religioso tem menos peso na minha vida,
vejo menos sentido em fazer jejuns. Claro que tem o aspecto da saúde, para dar
um descanso para o fígado, pâncreas e rins. Mas eu não me vejo fazendo um
jejum principalmente por esse motivo, se não tiver o teor religioso.

Pois quando há religião no meio de um jejum, há um significado lindo. As


orações ficam tão poderosas! Não sei explicar o quanto. É meio monótono
fazer um jejum se você não vai orar ou meditar.

Sim, dá pra ver que eu amo religiões, não importa o que eu diga, haha!

Pode ser que eu esteja enganada. Pode ser que eu apenas ache que religião está
tendo menos peso na minha vida atual. Bem, um pouco sim, porque eu estou
exausta com a operação de Abramelin.

Mas eu me conheço e sei que volta e meia tenho saudades de fazer retiros. Eu
quero reservar mais tempo para leituras e outras atividades e por isso não quero
fazer tantos retiros como antes. Um mês de retiro me toma muito tempo que eu
gostaria de dedicar a outros projetos.

Por outro lado, claro que é uma bela experiência.

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Pode ser que no futuro, daqui uns anos, ou conforme pessoas ao meu redor
passem por situações difíceis como doenças (ou mesmo se elas morrerem) eu
me volte novamente e com mais intensidade para a religião. Isso é simplesmente
natural para o ser humano.

É difícil para mim dizer que vou fazer isso ou aquilo ou estar de tal forma daqui
10 ou 20 anos. Eu sei lá como vai estar minha cabeça! Espero mesmo que não
seja a mesma de agora, pois isso significaria que não aprendi muita coisa.

Gostaria de ter mais ou menos os mesmos planos de agora, mas também estou
aberta aos planos do meu eu do futuro.

Eu provavelmente não irei reler esse diário no futuro, porque eu não tenho
paciência para ler mil páginas. Mas é legal deixar esse registro.

Tá, eu até consigo ler mil páginas, mas de preferência conteúdo novo. Ou algo
que eu ame muito.

Já estou de saco cheio de relatar: "Minhas orações estão desse jeito, fiz tais
leituras", pois estou relatando isso nos últimos 18 meses. Socorro!

Acordar cedo até no fim de semana é entediante. Eu gosto de dormir, às vezes.


Planos para novembro: dormir e comer tudo o que existe que faz muito mal
para a saúde, incluindo muitas gorduras trans.

Até em mosteiros eles têm um dia por semana que dá pra acordar mais tarde,
caramba. Claro, eu não fui perfeita no meu calendário de Abramelin e houve
ocasiões em que dormi quando não devia, quando eu passava a noite em claro
ou dormia em pé. Ou quando eu ficava doente. Mas eu sou um ser humano. Até
no livro de Abramelin é dito que em caso de doença temos permissão para
deitar.

Eu estou tão de saco cheio de fazer o que Abramelin diz! Que cara chato, haha!

Mesmo assim, eu queria fazer isso. Ter essa experiência. Mesmo sendo pela
segunda vez. Pois da primeira vez eu tinha feito a versão de 6 meses da
operação. Queria experimentar a de 18 para ver a diferença.

A diferença é que na de 18 você tem mais tempo para se dispersar e se distrair.


É tempo demais! Talvez a de 6 seja melhor mesmo.

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Mas eu não me arrependo e estou muito feliz por ter feito a de 18.

Estou mais "espiritualizada"? Claro que não. Estou menos!!

E isso é uma coisa ruim? Não necessariamente. Depende do que se entende por
espiritualidade. Se ela for vista em sua forma clássica, com orações e leituras da
Bíblia, eu estou me dedicando a isso até menos do que no primeiro semestre da
operação, embora devesse ser o contrário.

Mas não estou fazendo isso por mera preguiça e sim porque estou usando esse
tempo para me dedicar a projetos do lado de fora que minha consciência me
indica ser o caminho a seguir. Eu vejo mais valor nesses projetos do que nas
orações.

De certa forma, meu anjo me mostrou esse caminho. Então é absurdo dizer que
ao orar menos eu estou seguindo a vontade de Deus? Pois Deus tem planos
diferentes para cada pessoa. Pode ser que Deus coloque uma pessoa em um
mosteiro e outra pessoa para ser professor, e outra para ser uma mãe ou um pai.
Enfim, cada missão tem sua beleza e significado tanto para o indivíduo quanto
para o mundo.

Não quero criticar o caminho de ninguém e sim descobrir qual o meu caminho.

Então uma pessoa que ora mais que eu é melhor que eu? Mais disciplinada? Não
necessariamente. Mas isso não é uma competição. Não importa quem é melhor
ou pior. Não quero me comparar com os outros e sim seguir meu caminho da
forma que acredito.

Agora você pode me dizer, tudo bem, mas agora você está fazendo Abramelin e
tem que seguir as regras. E eu respondo que regras não existem para nos
aprisionar e sim para nos libertar. Pessoas hipócritas costumavam acusar Ajahn
Chah (um monge budista da Tailândia que eu adoro) de nem sempre comer em
seu pote de mendicância, conforme a regra. Mas essa é uma regra para nos
ajudar na disciplina e não algo para sermos escravos.

A estrutura da operação de Abramelin é feita para nos auxiliar na disciplina e no


autoconhecimento e ela me ajudou muito nas duas coisas. Dito isso, conforme a
operação avança é nosso anjo que nos guia e nos ensina as regras. E conforme o

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que ele disse e o que minha consciência me indica, não vejo algo absurdo na
forma com que se tornou minha operação no ponto atual.

Até Jesus era criticado por ajudar pessoas no sábado, por comer em vez de
jejuar e coisas assim. Pessoas de fora que não compreendem sempre criticam e
não se olham no espelho.

Dá vontade de dizer: "Primeiro faça os 18 meses da operação de forma perfeita,


exatamente como Abramelin disse. E depois a gente conversa".

O catolicismo designa de "consciência laxa" quando estamos cometendo faltas


graves e as julgamos como levianas. Mas esse, claro, é um ponto polêmico
quando o que o catolicismo considera consciência laxa é aceito por outras
igrejas, como pela Igreja Ortodoxa e algumas outras.

Tudo muito subjetivo? Às vezes sim, mas outras vezes não. Nem tudo é
relativo. É preciso ter bom senso.

Fiz o registro mais cedo hoje, pois o dia será ocupado.

DIA 553

6 de Outubro, Domingo

Daqui algumas semanas, talvez no dia 20 desse mês, irei fechar esse blog. A
partir de então, o conteúdo irá direto para o PDF do Livro 4.

Fiz várias orações hoje. Ontem fiz várias horas de leitura.

Hoje não estou com muita vontade de fazer discursos. Estou tranquila.
Simplesmente feliz.

Estou em paz comigo mesma. Falta exatamente uma semana para o início da
Festa das Tendas e isso é bem emocionante! Irei pensar em algo especial para a
ocasião.

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É curioso como algumas coisas têm tanta importância numa etapa da vida e
depois já não é assim. Antigamente eu sentia uma grande urgência para ler o
maior número de livros de teologia possível. Li centenas de livros, até que eu me
acalmei. "É o bastante", concluí.

Atualmente tenho urgência em ler livros de outro tipo. E no futuro vou mudar
o tipo. É sempre assim. Mas talvez desse jeito funcione na minha vida. Quero
aproveitar o momento da paixão para ler sobre determinado assunto, enquanto
o coração ainda está batendo forte.

DIA 554

7 de Outubro, Segunda-feira

Faltam exatamente duas semanas para a semana de ouro!

Eu me sinto completamente normal, como se fosse um dia como qualquer


outro.

Hoje foi um dia fantástico (embora comum)! Eu me senti super bem o dia
todo.

Depois de amanhã vou participar de uma pequena festinha de aniversário com a


família próxima e todos estão furiosos com Abramelin, pois graças a ele
precisarei de uma comida especial - sem chocolate, sem nada de coisas doces ou
sobremesas, sem carne, peixe, etc. Várias restrições.

Minha defesa é, não é culpa minha, vá se entender com Abramelin! Minha mãe
disse: "Eu quero que esse Abramelin vá pra China!".

Enfim, ou isso ou eu não poderia participar da celebração, ou levar minha


comida num pote?

Acho que amanhã vai ser legal também. As orações estão boas.

Ah é, fiz a oração da manhã às seis da manhã na capela. A Bíblia estava aberta


ainda no Cântico dos Cânticos, 5.

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DIA 555

8 de Outubro, Terça-feira

Eu às seis da manhã fazendo orações na capela. Eu já conheci pessoas que


gostam de acordar todo dia às cinco da manhã, mas não muitas. Eu não sou
uma delas. Espero que eu não faça isso com frequência ao longo da minha vida.
A não ser que eu acabe tomando gosto pela coisa. Será?

Às vezes acostuma. Outras vezes...

A Bíblia estava aberta... em que livro mesmo? Cara, esqueci. Devia ter anotado,
hehe. Mas eu li um pouco do que estava escrito. Tinha uma frase impactante
sobre morte, como várias outras frases da Bíblia.

Os últimos dias têm sido surpreendentemente maravilhosos. Hoje foi


particularmente divertido.

Ontem terminei de ler um livro e hoje terminei de ler mais um! Minha vida
literária vai bem! Pois mesmo quando nada mais está acontecendo na minha
vida (o que raramente é o caso, pois agora temos Abramelin, não é mesmo?) o
fato de eu avançar nas minhas leituras sempre me traz esperança e alegria. A
certeza de que eu estou fazendo algo extraordinário com minha existência.

Afinal, outras pessoas se esforçaram para escrever livros, deixar suas histórias,
seus conhecimentos. Muitas vezes elas derramam lágrimas e sangue, até a
própria alma nos escritos. É uma honra poder desfrutar de um pouco disso!

A vida é meio estranha, mas também é especial. Eu tento senti-la de várias


perspectivas diferentes. Uma é através dos livros. Outra é através da religião.
Também pelo relacionamento com os outros. E muitas outras formas.

Cada coisa nova que eu descubro me fascina mais.

Eu já senti coisas extraordinárias em meditações e orações. Mas eu sempre


gosto de me desafiar. Não consigo me acomodar. Quero continuar explorando,
mesmo que seja difícil.

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Por exemplo, já sei até bastante sobre teologia ou, sei lá, filosofia, literatura e
coisas assim e por isso continuar nesses meios é confortável. Acabei me
movendo para outros lugares.

Um exemplo: no meio do ocultismo e da magia do caos eu já tinha lido muito e


experimentado várias coisas, por isso foi desafiador e emocionante
experimentar, por exemplo, o budismo, o cristianismo ou outras religiões.

Era um universo grandioso a ser explorado e esse desafio me fascinava, mesmo


que no começo eu fosse pouco mais que uma ignorante e não soubesse de
coisas totalmente básicas!

Mas há aquele momento grandioso em que você passa um pouquinho do básico


e se sente parte do grupo, da turma. E avança um pouco mais. De repente, você
é um deles!

Meu Deus, como a vida é linda! Como as pessoas, como o mundo, são
fascinantes!

Estou honrada pela oportunidade de existir. Não sei quanto tempo terei nesse
mundo, mas mesmo que eu não tivesse mais tempo eu seria totalmente grata a
todos que conheci, a tudo que aprendi, a todas as experiências que tive.

Muitas vezes eu penso que já vivi demais e que a vida é muito longa. Tenho
planos a longo prazo, pois talvez, se eu ainda tiver algumas décadas, é tempo
demais para prosseguir nos mesmos universos de sempre. Eu busco novos
desafios.

Mas depois de Abramelin eu vou estar tão cansada que vou querer um tempinho
de repouso. Afinal, eu também sou um ser humano.

De qualquer forma, irei prosseguir com leituras. Quais? Os livros que cruzarem
meu caminho. E outros que se acumularam por aqui.

DIA 556

9 de Outubro, Quarta-feira

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Acordei às cinco da manhã. Às seis da manhã fiz minha oração na capela. Entre
meio-dia e uma da tarde retornei para a capela para realizar a oração do meio-
dia.

Esqueci de novo o livro da Bíblia em que ela estava aberta. Preciso anotar da
próxima vez. Não sei porque não estou lembrando. De qualquer forma, dei uma
lida.

Chegou hoje um livro pelo correio e estou feliz! Vou começar a ler agora.

Eu me inscrevi num curso gratuito em fevereiro (que irá durar um mês mesmo)
de um tema que me interessa, então aparentemente meu mês de fevereiro será
bem ocupado, mas divertido!

Eu vivo dizendo coisas como: "minha vida está incrível, eu estou muito feliz!" e
eu realmente me sinto assim hoje. Mas isso não significa que não tenho dias
ruins. Eu tenho. Porém, na maior parte dos meus dias eu me sinto muito alegre
e grata com minha vida.

Eu já li uma vez num livro (não sei se é verdade) que isso pode ter a ver com o
estado de humor basal das pessoas. Algumas pessoas tendem mesmo a estar
mais para alegres na maior parte do tempo, enquanto outras, não que sejam
tristes ou deprimidas, mas não ficam pulando de alegria.

Eu, desde criança, e também adolescente, enfim, em todas as épocas da minha


vida, sempre fui uma pessoa que se encantava com o mundo, que ficava
pulando por aí, rindo, fazendo graça. Em geral sempre fui uma pessoa sincera
com meus sentimentos.

Por exemplo, nunca tive muita restrição em chorar na frente das pessoas
quando me sinto triste. Sempre fui a pessoa da família a simplesmente chorar e
buscar um abraço de um familiar quando estava triste, ou mesmo chorar no
colégio, haha!

Sei lá, eu nunca me importei de chorar de tristeza ou de pular de alegria na


frente das pessoas. Embora eu seja meio tímida (mas não com amigos! Com
meus amigos próximos eu me jogo no chão e brinco mesmo!), eu tenho esse
perfil.

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Então talvez eu não tenha tantos momentos tristes porque eu não guardo pra
mim, não fico retendo a tristeza. Eu simplesmente digo, hoje estou meio triste,
converso com as pessoas ao meu redor, escuto os conselhos, resolvo meus
problemas e geralmente supero rápido. E daqui a pouco já estou feliz de novo.

Claro que em situações graves da vida eu não vou estar feliz e não quero estar.
Eu não me incomodo com épocas de tristeza prolongada quando elas são
necessárias, como em situações de luto. Já passei por situações em que
morreram pessoas próximas e foi realmente difícil.

Mas também é um momento importante de amadurecimento.

Eu me sinto numa situação atual de aceitar minhas fraquezas. Pois eu tenho


muitos defeitos. Muitas vezes sou preguiçosa e tenho várias outras fraquezas,
mas eu não quero ser uma pessoa perfeita.

Mesmo que eu me sinta feliz em 99% do tempo, eu aceito que em dias


nublados, chuvosos, em que estou com muito sono, ou muito frio, ou cansada,
ou aconteceu algo ruim, eu terei momentos um pouco tristes. Mas não há nada
de errado nisso!

Há também ocasiões em que eu consigo me sentir feliz quando chove, achar


muito bonito a chuva, mesmo que minhas meias fiquem molhadas (aprendi a
carregar sempre um par de meias comigo, de tantas vezes que minhas meias
molharam até hoje).

Mas nem sempre é um processo fácil. Por mais que eu tente levar minha vida de
maneira tranquila, há pessoas ao meu redor que às vezes são muito preocupadas
(eu às vezes sou também) que podem me pressionar, me criticar, me deixar
triste.

Na hora da raiva eu boto a culpa nelas por minhas próprias tristezas e estresses,
mas eu não tenho que botar toda a culpa nelas. Afinal, a maior responsável por
meu estado de humor sou eu mesma. E, sim, há circunstâncias externas difíceis
de lidar mesmo, mas isso é a vida.

A operação de Abramelin não é uma tentativa de eu me tornar perfeita ou de


tentar ser feliz o tempo todo. Não, é um momento de eu reconhecer que é
normal não ser perfeita e não estar sempre feliz.

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É preciso aceitar minha imperfeição, a imperfeição dos outros e do mundo. É
suficiente apenas que minha vida tenha significado.

Sim, eu sinto que minha vida tem sentido porque eu não acho que a pessoa
tenha que ser realmente extraordinária ou especial para fazer sentido no mundo.
Toda pessoa é importante simplesmente por ser uma pessoa.

Até num sentido religioso eu penso dessa forma. Todos possuem uma alma,
uma parte sagrada, uma conexão com Deus.

E eu sinto que é importante eu sempre manter essa visão religiosa do mundo. É


preciso ter um equilíbrio.

Eu não quero ser aquele tipo de religiosa com visão muito restrita que apenas
reza e não faz nada ou não consegue sair de casa antes de consultar um oráculo,
como se fosse uma prisioneira do destino.

Mas eu também não quero ser aquele tipo de pessoa materialista que acha que
tudo acontece por acaso, que as coisas estão ruins, que a morte é o fim de tudo.

Eu quero ter os pés no chão, realizar minhas ações na terra com minhas mãos,
mas ter sempre uma esperança e olhos para o céu.

É isso que me sinto chamada a fazer. Já achei minha missão no mundo. Que
cada um ache a sua. Toda missão é importante. E cada pessoa é diferente. Ela
tem outras qualidades e defeitos que a tornam única, independente da missão
que tenham

Não estou falando isso apenas para soar bonito. Eu tenho momentos de raiva,
em que sinto raiva de pessoas, de situações, de injustiças.

Mas depois há outros momentos, em que consigo ver beleza e esperança até em
pessoas que num primeiro momento não gosto muito.

Isso é importante para eu ver coisas boas em mim mesma também. Pois eu
tenho momentos em que me acho uma pessoa ruim, mas nesses momentos não
entro em desespero porque lembro que eu não sou apenas ruim. Que tenho
lados bons também.

É algo fundamental para eu aprender a ver os lados bons dos outros.

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A maior parte das pessoas que conheci são pessoas incríveis. Quanto mais
conhecemos as pessoas é verdade que aprendemos seus defeitos, mas brilha
ainda mais seus lados bons.

Eu me sinto no direito de ter meus pequenos egoísmos e caprichos, mas


também quero ser uma testemunha para os outros.

Quero que a minha vida mostre para os outros o seguinte: está vendo, eu estou
aqui comendo sorvetes, chocolate, dormindo até meio-dia (nada disso durante
Abramelin, mas depois eu quero!) e eu queria te dizer que não há nada de errado
em ser preguiçoso, em deixar as coisas para a última hora (totalmente normal!)
em estar acima do peso, em ter momentos de tristeza, de tédio. Eu quero ser
egoísta, caprichosa e mimada sim! Mas eu também quero que uma parte de mim
possa inspirar as pessoas, alguns breves momentos de coragem e perseverança,
algumas luzes, algumas coisas que faço que parecem certas, que eu sinto serem
certas.

Eu quero me encontrar com meu anjo em Abramelin não pensando que vou
encontrar o gênio da lâmpada mágica e fazer desejos. Minha meta com meu
anjo não é fazer uma lista de pedidos para o Papai Noel, mas ter uma conversa
sincera, a meu respeito, sobre nós, sobre minha relação com Deus, com os
outros, com o mundo.

Em que eu posso melhorar? Como posso me tornar uma pessoa melhor?


Entendi qual o meu caminho, mas Deus sempre me surpreende com algumas
mudanças e devo apenas confiar, aceitar essas mudanças dentro de mim.

Sinto que estou num bom momento. Nessa noite acabou o Yom Kipur. Na
noite desse domingo vai começar a Festa das Tendas.

Estou muito feliz que tudo isso está acontecendo e que irá terminar com estilo.
O Dia das Bruxas é uma data divertida que sempre gostei e penso que será um
momento bom para a transição do fim da operação de Abramelin e o início da
etapa seguinte.

Eu não acredito que irão ocorrer mudanças profundas na minha vida após a
operação. De certa forma, sinto que as coisas continuarão iguais, mas com um
leve frescor.

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Da primeira vez que fiz a operação houve uma surpresa muito grande e aquela
experiência me mudou muito. Sei que algumas experiências do futuro irão me
mudar também. De alguma forma, não acho que especificamente a semana de
Abramelin será surpreendente.

Talvez porque eu não estou exigindo uma grande surpresa ou presente de Deus,
pois acho que o aprendizado ao longo desses 18 meses já foram o presente que
eu precisava. Acho que quando eu era adolescente eu era mais propensa a
buscar esse tipo de aventura ou recompensa imediata.

Como eu já disse, eu ando pelo arco-íris pela experiência da bela jornada e não
pelo pote de ouro.

Afinal, não há aquela história de que o pote de ouro no fim do arco-íris está
vazio? Porque as moedas foram espalhadas ao longo de todo o arco colorido.
Eram os pontinhos brilhantes das cores. Estávamos tão desesperados pelo pote
de ouro que não olhamos para o chão e perdemos de encontrar as moedas, que
é a vida em sim.

Não vivemos pelo momento da morte e encontro com Deus embora, sim, esse
seja um momento bem importante.

Estou muito emocionada ao saber que eu encontrei minha missão e não devo
ter medo se daqui pouco ou muito tempo Deus de repente dizer, OK, agora eu
quero que você faça algo completamente diferente, um desafio, sair de sua zona
de conforto.

Tudo bem. Quero aprender a ter fé e confiar.

Eu não pretendia escrever tudo isso hoje, mas eu desejei. Acabei escrevendo. Os
pensamentos simplesmente vieram. Estou tão animada a emocionada e eu
gostaria que vocês sentissem um pouco dessa emoção.

Claro, eu não estou feliz apenas porque a operação me fez feliz, porque ela não
faz milagres. Quem faz milagres é Deus. Sempre me senti feliz e com
esperanças, mas muitos anos atrás eu sentia um pouco de confusão a respeito da
minha missão.

Antigamente eu costumava dizer: "eu gostaria que um anjo descesse dos céus e
me entregasse um papel em que estivesse escrito com clareza qual missão Deus

23
me deu. Somente assim eu poderia seguir em frente com convicção, sem me
questionar mais. Pois o que mais me atrapalha não é a falta de disciplina, mas
não saber. Pois quando sabemos, caminhamos apenas para frente e colocamos
todas as nossas energias nisso".

No meu livro favorito, O Jogo das Contas de Vidro de Hermann Hesse, há uma
passagem que amo. É dito para o protagonista que há um tipo de pessoa que
vibra junto com o universo sem desperdício de energia. Porém, há um tipo de
pessoa que mesmo que seja excepcional, às vezes não se encaixa com o sistema
do mundo, com a forma com que as coisas funcionam, e embora sejam muito
inteligentes e habilidosas, elas desperdiçam todo o potencial delas.

Eu me identifiquei com isso ao pensar a época em que, lá atrás, eu estava


confusa sobre a minha missão. Eu sentia uma grande energia, disciplina,
vontade de sacrifício, de dar minha vida por uma causa, mas, raios, eu não sabia
que causa era essa!

Isso me trazia dor, pois eu queria me dedicar a algo que fizesse meu coração
bater forte, a algo que deixasse meu coração em chamas!! Mas eu não sabia o
que era, e quanta dor eu tinha!

Eu estava feliz naquela época também, mas somente porque eu tinha


esperanças. Eu pensava, um dia Deus vai me dizer, basta ter paciência. Isso não
significa esperar sem fazer nada, mas continuar investigando, lendo, vivendo,
procurando ativamente. E esse dia viria.

De fato, esse dia chegou. Eu já estava feliz, porque eu tinha esperança, mas
fiquei ainda mais feliz, porque a esperança se mostrou real.

Claro, Deus nunca conta tudo de antemão para respeitar nossa liberdade. É
evidente que eu não sei com detalhes tudo o que vai acontecer na minha vida
nos próximos 10 ou 20 anos, mas graças a essa clareza, a minhas orações,
vivências, conversa com Deus e com meu anjo nessas orações, eu finalmente
entendi o que Deus queria de mim.

Já expliquei várias vezes como sabemos qual é nossa missão. As coisas


simplesmente parecem certas. Há uma identificação. Não pensamos mais em
termos de "vou escolher o caminho mais fácil", mas o caminho que faz meu
coração acelerar, independente de ser fácil ou difícil. Nem corremos para a
chama e nem fugimos dela. Apenas vamos para onde devemos estar.

24
Quando entendemos nossa missão, estamos dispostos a passar dificuldades por
ela e poderemos encontrar alegria até em momentos de dor. Isso não significa
que estaremos fazendo nossa missão somente se formos alegres o tempo todo!
Mas haverá um senso de significado.

Estou contente pelas reflexões de hoje. Estou grata que agora em outubro,
nesse último mês da operação, eu esteja com essa maior clareza a respeito de
todas essas questões.

Fé, esperança e caridade são as virtudes teologais do cristianismo. São coisas


importantes para guardar no coração. O amor todos sabemos que é
fundamental. Mas para evitar momentos de desespero, o amor pode ser
alimentado com a fé em Deus, pois o amor dele é infinito. E a esperança é o que
nos faz prosseguir, com base nessa fé e nesse amor. Na verdade, um alimenta o
outro.

Se temos apenas nosso amor como fonte, muitas vezes podemos nos sentir
cansados. Mas se temos Deus, ele é uma fonte infinita! Então teremos forças. E
a esperança de fato evita momentos em que caímos em desespero diante da
morte ou de uma dor muito forte.

Geralmente o que nos desespera é a solidão. Quando sentimos que estamos


sozinhos naquele nosso sofrimento. Mas se temos Deus, se temos os outros, se
temos conosco a comunhão de santos e anjos, nunca estaremos realmente
sozinhos.

De uma perspectiva, somos sozinhos. Nós lidamos sozinhos com nossos


pensamentos. Mas Deus está perto, no coração. Não precisamos ter medo. E se
tivermos medo, tudo bem. Nossa vitória será ainda maior se, mesmo na
presença do medo, seguirmos em frente em nossa missão.

O mais importante é identificar essa missão. E Deus nos dará a força para
cumpri-la.

A operação de Abramelin é um passo importante para que essa missão fique


bem clara, pois é um processo de autoconhecimento que nos faz ter disciplina.
Nós iremos orar e meditar muito mais do que normalmente faríamos, já que
hoje em dia somos muito práticos. Mas é bom parar e ter essa conversa.
Entender como nos sentimos.

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A disciplina de Abramelin é importante para duas coisas: uma delas é nos
surpreendermos com nossa própria força e ver como é incrível termos
conseguido chegar até o fim e fazer tudo isso. Mas mais importante que nossa
força é aprender sobre nossas fraquezas: identificar todos os momentos que
falhamos na operação, em que nos enganamos.

Pedir perdão a Deus por isso. Perdoar a nós mesmos e aos outros.

Yom Kipur foi o Dia do Perdão, momento de confessarmos nossos erros, pedir
perdão e perdoar. Não é o momento de confessar os erros dos outros, mas os
nossos.

Quero que a semana de ouro seja um momento natural. É o momento de


conversar com meu anjo, coisa que tenho feito algumas vezes por dia ao longo
desses 18 meses. Então, sem medo, é o momento de um contato um pouco
mais próximo.

Claro que é um pouco assustador, mas também natural. É um momento de


apreciarmos a beleza da vida, do mundo. O grande mistério da vida e também
sua delicada beleza.

A vida é muito preciosa e também a morte. Há grandes dores no mundo, mas é


incrível como breves momentos de delicada alegria e amor podem superar tudo
isso.

O amor é tão forte quanto a morte, nos diz o Cântico dos Cânticos. Isso é o que
buscamos em nossa conversa com o anjo: um momento de amor e morte, pois
o processo todo de Abramelin serve para matarmos um pouco de nós mesmos,
nos esvaziarmos de nosso ego.

É apenas, com simplicidade, rezar. Por isso eu acho o cristianismo (judaísmo,


islamismo, etc) tão poderoso. É o momento em que uma pessoa muito simples
(mesmo que não saiba ler e escrever, que não tenha nenhum conhecimento e
habilidade especial) se ajoelha e ora.

Essa pessoa simples diz para Deus, com humildade, que é fraca, que precisa de
ajuda. Essa pessoa não é orgulhosa. Não quer estar acima de Deus ou dos
outros, ser mais inteligente ou poderosa.

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Ela simplesmente ora, pede perdão. Quer aprender a perdoar, a viver, a ajudar
os outros.

Então Deus responde, às vezes em silêncio, dentro de seu coração.

A operação de Abramelin a princípio parece algo bem sofisticado e pomposo,


com todos os seus utensílios, quadrados mágicos e demônios.

Algumas pessoas podem vivenciar esse tipo de operação se assim o desejarem.


Mas na minha visão de Abramelin e no que busco da operação, eu a vejo como
algo mais parecido a um camponês rezando na pequena capelinha da sua cidade
pequena.

É apenas um encontro com Deus com sinceridade, como se nos tornássemos


uma criança outra vez.

É confiar totalmente em nosso Pai que está no céu. Em nossa mãe Maria. É um
desejo de ser abraçado e protegido, porque é assustador estar vivo nesse mundo,
com a ameaça da dor e da morte.

E, ainda mais assustador que a dor física e a morte, é o medo de sentir-se


sozinho, de não ser aceito pelos outros, de não ser valorizado, respeitado.

Contaremos para Deus todos os nossos medos com sinceridade.

Eu vejo a operação de Abramelin não como algo pomposo do tipo alguém que
levanta uma espada para chamar entidades. Eu enxergo como um momento
para se ajoelhar e chorar no colo da nossa mãe e do nosso pai celestial.

Desculpe, diremos. Você me criou, foi tão bom para mim, mas eu me afastei
por tanto tempo do seu amor. Por favor, me aceite de volta, como o filho
pródigo. Não peço um banquete ou um prêmio. Eu só queria sentir um pouco
desse abraço, desse amor.

Eu vou te obedecer, meu Pai. Sei que é difícil, sei que não tenho disciplina,
tenho muito medo. Mas confio em ti, em sua sabedoria e experiência. No seu
tudo para preencher meu nada.

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A operação de Abramelin não gera um sentimento vago com um discurso vazio
sobre o amor, mas algo muito real. É o momento de receber sentimentos e
conselhos reais, que terão consequência direta na nossa vida.

É um tipo de ato heroico, mas muito simples. É um momento glorioso, da


mesma forma que cada nascer e pôr do sol são gloriosos. Cada nascimento e
morte são fortes, embora tanta gente nasça e morra todos os dias.

Eu busco essa conexão sagrada. Há momentos na vida em que me sinto mais


espiritual e em outros me sinto mais conectada com a matéria. Eu preciso desse
equilíbrio.

Mas somente Deus me contará o que eu preciso para esse momento da minha
vida.

DIA 557

10 de Outubro, Quinta-feira

Tive um sonho! Fazia um bom tempo que eu não me lembrava dos meus
sonhos. E sonhos perto da semana de ouro são particularmente importantes.

Eu estava assistindo a uma palestra num salão bem grande. Não lembro sobre o
que era, mas uma mulher estava num palco. As cadeiras estavam dispostas de
uma forma um pouco estranha, de modo que alguns de nós ficávamos de frente
uns pros outros e a palestrante dava umas passeadas pela plateia.

Uma guria talvez uns dez ou quinze anos mais jovem que eu e muita bonita,
com uma voz ligeiramente aguda e cabelos negros soltos divididos no meio, um
pouco mais longos que o meu, começou a falar comigo. Na verdade, ela
comentou com a amiga ao seu lado o quanto os livros que eu escrevia e as
coisas que eu dizia sobre ocultismo, espiritualidade, etc, eram ruins. Um tipo de
indireta muito direta, já que ela disse isso alto o bastante para que eu escutasse.

Eu me meti na conversa, é claro. Eu me defendi. Mas ela continuou com um


sorrisinho e dando seus discursos falando mal de mim. Eu não me abalei.
Quando ela mencionou que havia lido um dos meus livros, o Grimório da
Insolência, eu imediatamente sorri e disse: "Nossa, você até leu um livro meu!

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Agradeço muito por ter dedicado tanto tempo para isso. E inclusive o leu até o
fim para me criticar com tantos argumentos! Você se esforçou mesmo".

Dessa vez o sorriso dela sumiu e ela ficou com raiva. Eu continuava sorrindo e
ela foi até onde eu estava. Ela era tão leve que eu consegui levantá-la nas mãos!
E ela ficou esperneando e furiosa enquanto eu a erguia para cima. Sei lá porque
eu fiz isso, cara! Eu estava achando engraçado porque ela estava muito irritada
sem motivo nenhum.

Até que a palestrante viu a confusão e foi até onde estávamos. A palestrante
estava incomodada com o barulho da nossa conversa e eu disse a ela: "Desculpe
por perturbar. Não se preocupe, já irei resolver isso". A palestrante voltou para
o palco e eu continuei carregando a guria!

A princípio esse é um sonho meio sem sentido e até engraçado. Vou tentar
interpretar.

Essa guria que começa a falar mal dos meus livros parece ser outra pessoa, mas
também podemos interpretar o sonho como se fosse meu eu de 16 ou 17 anos
na época em que fiz a operação de Abramelin pela primeira vez. Acho que
interpretar dessa forma pode ficar divertido. Naquela época eu tinha cabelos
longos divididos no meio e não franja e cabelos nos ombros como agora.

O meu eu do passado está criticando meu eu do presente? Bom, não meu eu do


presente, já que ela está criticando um livro que eu escrevi uns seis anos atrás.
Ainda gosto de alguns livros que escrevi muitos anos atrás, ou alguns anos atrás,
embora eu já não me identifique com o que eu disse em todos eles.

Não sei quem era a palestrante e sobre o que ela estava falando. Talvez Deus?
(ou meu anjo). Eu não estava prestando atenção em Deus porque eu estava
muito ocupada debatendo com minhas vozes internas do passado e do presente.

E Deus veio reclamar, tirar satisfações! O que estava acontecendo? Por que eu
estava fazendo qualquer outra coisa que não fosse prestar atenção na palestra de
Deus? Eu tinha a grande honra de estar naquele salão, ouvindo Deus falar, mas
ainda assim eu estava ocupada com assuntos mundanos, dando atenção a
críticas e querendo me defender.

Talvez isso signifique que eu tenho que me focar mais em Deus e não me
importar tanto com críticas, seja do meu eu do passado ou de outras pessoas.

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Afinal, pelo amor de Deus, eu tenho mais o que fazer. Deus está falando
comigo e eu não devia deixar de escutá-lo apenas porque senti meu ego ferido
devido a assuntos sem importância.

Por que eu carreguei a guria e a levantei lá em cima? Talvez para mostrar que
aquelas críticas não eram pesadas como eu imaginava, mas na verdade leves, e
eu poderia lidar com elas facilmente.

Bem, essa foi apenas uma interpretação possível. A primeira que me ocorreu.
Poderia haver outras, igualmente divertidas.

Foi muito legal ter esse sonho hoje e poder lembrar de tantos detalhes dele!

DIA 558

11 de Outubro, Sexta-feira

Daqui dois dias já começa a Festa das Tendas. Será uma época para
começarmos a ficar sérios.

Hoje fiz a reza do meio-dia na capela de costume. Tirei uma foto da Bíblia para
lembrar que livro era: Jeremias capítulos 51 e 52.

Prossigo com minhas leituras. Hoje consegui dois livros novos, de uma autora
da Ruanda: Scholastique Mukasonga.

Acho importante prestar atenção nos livros que cruzam meu caminho nessa
época.

Fora isso, estou muito feliz. É tão chato dizer todo dia que estou feliz, né? Por
isso existem os dias nublados. Deus pensou, ela tem que ficar triste de vez em
quando, vou mandar uma nuvem escura para ela.

Eu ia fazer um jejum de 24 horas começando na noite de hoje e terminando na


noite de amanhã, mas fiquei menstruada. Isso me impede de jejuar, infelizmente.
Por um lado é bom e por outro é ruim, pois talvez eu não tenha outra
oportunidade de fazer um jejum de 24 horas até a semana de ouro.

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Mas como já fiz vários jejuns religiosos ao longo desses 18 meses, espero que os
antigos contem como crédito, hehe. De qualquer forma, continuo a tirar os
alimentos proibidos (carne, peixe, chocolate, doces, etc).

As orações estão lindas. Doces e pacíficas. Mas não vou me surpreender se


ficarem turbulentas quando chegar mais perto! Na verdade, até tenho certa
expectativa que isso aconteça, já que uma aventura requer um inimigo, uma
noite escura. Mas quem escolhe é Deus e não eu. Então vou apenas fazer minha
parte enquanto ele faz o resto e prepara o palco para o grande show.

DIA 559

12 de Outubro, Sábado

Esse é o registro de ontem. Não consegui fazer antes da meia-noite porque eu


fiquei praticamente o dia todo de cama, com cólica.

Tomei remédio duas vezes, perto da hora do almoço e da hora da janta, mas não
adiantou muito. Usei um travesseiro térmico, que deu certo alívio, mas também
não resolveu o problema. Fiquei horas sentindo dor e até enjoada. Só passou
hoje. Nem consegui dormir direito por causa da dor.

Ontem minhas orações foram difíceis, principalmente a oração do meio-dia e a


da noite. De noite eu orei muitas vezes. É preciso humildade para pedir a ajuda
de Deus nesses momentos, pois normalmente somos orgulhosos ou podemos
achar que um pedido egoísta não deve ser feito em oração.

Mas não é verdade. Deus quer que oremos para ele pedindo ajuda, tanto para
nós quanto para os outros. Esse é o significado da oração. Há outros tipos de
oração também, mas esse é o mais especial, porque nos conecta com Deus e
com os outros. É onde a humildade mais se expressa.

Sendo assim, foi um aprendizado. Eu tenho esse aprendizado todos os meses, o


que me faz orar por todas as pessoas doentes do mundo e me traz mais urgência
em fazer algo a respeito. Por isso agradeço.

Na sexta à noite terminei de ler o livro do Snowden. Ontem comecei a ler o


livro "Nossa Senhora do Nilo" de Scholastique Mukasonga. Está muito bom o

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livro. Infelizmente tive que interromper a leitura por causa da dor. Mas hoje irei
continuar.

Hoje recebi um e-mail do mosteiro de Portugal (fazia meses que eu não recebia),
escrito pela primeira monja que me acompanhou, mais de três anos atrás. No e-
mail que eu enviei no começo do ano, eu contei como foi o meu retiro no
mosteiro de Israel. Há cada vez menos monjas lá e o mosteiro está cada vez
mais isolado. Por um lado é bom, porque assim o mosteiro cumpre o propósito
a que foi designado, que é o isolamento e o silêncio para a oração.

Eu nunca me senti tão isolada quanto nesse mosteiro, de todos os que fui até
hoje. Pois nas cinco semanas que fiquei lá eu estava sem celular e sem internet.
Eu enviei até uma carta para casa. O silêncio era tão grande e meu isolamento
tão longo que foi quase desesperador. Mas eu li uns 30 livros (praticamente um
por dia) durante esse período, fazia orações a cada meia hora, muitas leituras da
Bíblia e aprendi um monte.

A partir da noite de hoje começa a Festa das Tendas. Já tenho que começar a
pensar onde farei as etapas finais da última semana.

Acho que esse e-mail que recebi foi um sinal de que tenho que fazer minha
última etapa num lugar simples. Não pretendo fazer num mosteiro. Quero que
seja um lugar perto de casa, para eu não perder muito tempo em deslocamento.
Também não quero que seja um lugar que dê vontade de fazer turismo, pois eu
não quero me distrair. Quero algo discreto, para que eu tente ficar apenas quieta
num canto, realmente rezando.

Eu terei apenas poucos dias disponíveis, então não faz sentido eu ir para um
lugar longe que eu levaria longas horas apenas para chegar no local.

Mas Deus irá cuidar de tudo. Para mim não faz tanta diferença o lugar, então
não estou preocupada. Pois Deus está em todos os lugares.

Senti um pouco disso quando estive em Israel. Eu não me senti particularmente


especial (ou não tanto quanto eu imaginava que me sentiria) por estar nos
lugares em que Jesus esteve. O judaísmo e o islamismo são ligeiramente mais
preocupados com locais sagrados, mas hoje em dia o cristianismo não é tão
preocupado com isso, a não ser para turismo ocasional.

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Então, além da questão da curiosidade, tanto faz onde estou ou onde estarei. Só
quero um momento de solidão e silêncio para estar com Deus.

Em no máximo uma semana, irei resolver essa questão. Ou meu anjo me dirá.

Ah, essa noite eu sonhei que estava tirando fotos de um lugar, mas não sei qual
era. Havia algumas árvores. De resto, não lembro.

DIA 560

13 de Outubro, Domingo

Nessa noite começou a Festa dos Tabernáculos. As pessoas ao meu redor ou


mesmo alguns que me acompanham pela internet parecem não entender o quão
especial é essa data. Eu me sinto incrivelmente solitária quanto a essa
incompreensão, mas talvez eu não me importe mais.

Hoje foi lindo. Magnífico. Essa noite é como ouro.

Começo a sentir um pouco do que em breve estarei sentindo. Parece que meu
anjo estão guardando algo para mim, esse tempo todo.

Não me importo se é algo grande ou pequeno. Sei que tenho aborrecido Deus e
meu anjo por muito tempo e errado incontáveis vezes. Ainda assim, somente
Deus sabe o meu desejo de fazer sua vontade. Minha sede de sacrifício.

Tenho quase certeza que quem não me conhece pessoalmente, mas só pela
internet, deve me achar uma pessoa pouco interessante, superficial, no máximo
um pouquinho gentil.

Ao pensar nisso, sinto menos vontade de compartilhar meu relato pela internet,
porque posso causar uma impressão errada sobre a importância do que estou
fazendo. Mas como já cheguei até aqui, irei carregar esse peso e continuar.

Eu gosto de compartilhar o que estou fazendo porque algumas pessoas podem


se identificar. Elas têm suas próprias vidas e, quem sabe, há algo de especial
quando duas vidas, mesmo que distantes, se encontram.

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Fora isso, é difícil para mim escrever tudo isso.

Então, aqui vai.

A oração da noite foi um pouco mais longa do que de costume. Eu a fiz


colocando aquele cântico grego ortodoxo no fundo.

Começou a Festa das Tendas! Quantas vezes já pronunciei essa expressão ao


longo desses 18 meses? Dezenas!

Quantas pessoas cruzaram a minha vida ao longo desses dezoito meses. Uma
amiga especial comentou sobre os sonhos que tive nos primeiros meses que
compartilhei por aqui.

Todos estão lutando. Todos estão tentando viver, mas a vida é dura. Há muito
sofrimento, há morte. Mas também há coisas lindas. Não precisamos ter tanto
medo.

Não pude evitar. Hoje derramei muitas lágrimas durante a oração. Eu chorei de
verdade. Não foram apenas poucas lágrimas. Chorei rios. As lágrimas
simplesmente não paravam, antes mesmo de eu começar a orar.

Esse é apenas um prelúdio da semana de ouro. Na minha primeira semana de


ouro, quinze anos atrás, eu também não conseguia parar de chorar.

Meu coração bateu forte. Eu senti algo incrível naquele dia, mas também senti
hoje.

O cheiro do óleo estava bem forte. Eu me ajoelhei no meu tapete muçulmano,


molhada com minhas lágrimas, e depois fiquei em posição fetal.

O que eu disse em minha oração? Algumas coisas foi o mesmo de sempre. A


confissão dos meus pecados. Eu perdoo os que me ofenderam. Peço perdão por
lhes ter ofendido. Agradeço pelo dia. São Miguel, São Gabriel, São Rafael,
protejam-me agora e na hora da minha morte. Deus, se tu queres me envia meu
Anjo Guardião na semana de ouro, nos dias prometidos. Por favor, proteja tais
e tais pessoas.

Isso é o que digo sempre. Mas hoje eu disse mais coisas.

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Eu apenas aguardei e as palavras novas vieram. Isso me deu coragem para
lembrar que as palavras virão no grande dia. Será algo intenso, muito intenso e
cheio de fogo.

O e-mail que recebi hoje do mosteiro também foi muito importante. Logo hoje
eu o recebi! Após talvez uns 7 ou 8 meses de silêncio.

Muitas vezes eu já desejei, ao longo da minha vida, poder me dividir em duas,


em três, em quatro. Eu deixaria uma de mim fazendo uma coisa. Outra
cumprindo outra missão.

Mas eu tenho apenas uma vida. Deus sabe disso, por isso ele não me deu quatro
missões, mas apenas uma.

Mas por que meu coração às vezes bate tão forte pelas outras missões, que eu já
entendi que não são minhas?

Como saber o que Deus está me mandando fazer?

Eu já entendi, mas é claro que às vezes sinto saudade do que ficou para trás.
Das outras vidas que eu poderia ter tido. E que eu ainda poderia ter, mas já
tomei minha decisão de seguir a vontade de Deus.

Eu poderia seguir outros caminhos mais fáceis e mais bonitos. Eu escolhi logo o
caminho mais feio e o mais difícil, o mais perigoso. Porque foi esse que Deus
escolheu para mim.

Deus viu em mim alguém muito mais corajoso do que eu mesma me considero.
E ele me disse, eu te escolhi para a missão que exige longos anos de preparação,
deixar teus confortos de lado, teus desejos, teus gostos. Eu te escolhi para fazer
algo muito difícil. Não receberei nada em troca, mas apenas a alegria pelo que
farei.

É claro que esse caminho é duro. É algo horrível, mas tão belo! Como eu posso
dizer não para Deus?

Eu vejo o brilho, a beleza de outras coisas que Deus me mostrou. Deus, por que
fez esse mundo tão belo, tão repleto de possibilidades? Se houvesse somente
uma escolha, eu não iria sofrer. Mas eu também não teria liberdade.

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Por isso Deus testou Adão e Eva com a maçã. Se não houvesse esse teste, eles
seriam obrigados a amar Deus sem liberdade.

Deus, socorro! Esse mundo é muito mais lindo do que meus olhos podem
suportar.

Muita gente considera o mundo horrível, devido ao sofrimento. Porém, se essas


pessoas o considerassem realmente horrível, não temeriam a morte. Somente
quem teme a morte entende a beleza do mundo.

Eu engano a mim mesma, minto para mim mesma, dizendo que eu não me
importo tanto assim com religião. É em momentos como esses que eu entendo
o quanto eu me importo.

Deus é Deus. Não há nenhum outro que o substitua. Nenhuma beleza do


mundo.

Pois um dia todos os corpos perecerão. E Deus será a única esperança. Não a
política, não a medicina, nada disso. Apenas Deus.

Nós corremos em busca de uma esperança, no dinheiro, na saúde, em qualquer


coisa. Mas não é aí que está a esperança.

Mas eu preciso ser sincera com minha consciência. Ainda há um longo caminho
para eu percorrer.

A operação aos poucos caminha para sua etapa final. Mas a vida vai continuar
depois dela.

DIA 561

14 de Outubro, Segunda-feira

Está ficando emocionante, hã?

Acordei às cinco da manhã e fiz minha oração às seis da manhã na capela.


Assim também será amanhã, depois de amanhã e depois. Mas não para sempre,

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pois estamos na última semana desse esquema de três orações diárias. Depois
começará um esquema diferente, em que vou rezar quase o dia inteiro.

Foi um dia agradável, em que fiz um monte de leituras, de vários tipos


diferentes.

Acho que essa semana vai passar rápido, mas já está sendo bem intensa.
Começou com muita força.

É como se meu anjo quisesse se mostrar o quanto antes. Ele tem algo a me
dizer. Mas ainda temos que esperar mais uma semana.

Ele me deu uma dica naquele dia da minha confissão, antes da viagem para a
Terra Santa. Naquela passagem da Bíblia. Ah, essa é minha passagem agora!

O Tanque de Betesda foi um lugar pacífico para oração. Eu fiquei muito feliz
em poder orar lá.

Aos poucos estou entendendo a mensagem para mim. Mas eu quero ouvir
pessoalmente. Eu quero sentir, para não esquecer jamais. Para que fique sempre
no meu coração.

Isso não significa que vou me tornar uma boa pessoa. Eu não sou uma boa
pessoa. Mas eu preciso entender.

Lembrei da passagem da Bíblia em que Jesus pergunta: Por que me chamas


bom? Bom é só Deus.

É assim que as coisas são.

Uau, estou sentindo uma sensação extraordinária agora. Eu irei aguentar mais
uma semana ou o céu cairá sobre mim antes disso?

Eu não deveria ter medo. Mas está intenso desse jeito dentro de mim. No
fundo, já começou.

Agora, só preciso preparar o templo do meu corpo. Aquele mesmo templo que
será destruído e reconstruído em três dias.

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Não por acaso, a chamada do anjo dura três dias. Também é o período que
Jesus levou para ressuscitar.

DIA 562

15 de Outubro, Terça-feira

Os últimos dias estão passando rápido.

Novamente, acordei cinco da manhã e fiz minha oração na capela. Hoje o salmo
que estava na página da Bíblia aberta na capela era especial. Era o meu salmo.

Da primeira vez que fiz a operação de Abramelin, eu lia esse salmo todos os
dias. Eu quase o decorei, porque tinha ouvido falar que era o salmo associado
aquelas datas dos anjos cabalísticos. Então esse era o salmo correspondente à
minha data de nascimento.

É o salmo 39. Não consegui achar em português agora porque nenhum site me
deixa copiar, então vou colar aqui em inglês:

1. I said, I will take heed to my ways, that I sin not with my tongue: I will
keep my mouth with a bridle, while the wicked is before me.
2. I was dumb with silence, I held my peace, even from good; and my
sorrow was stirred.
3. My heart was hot within me, while I was musing the fire burned: then
spake I with my tongue,
4. LORD, make me to know mine end, and the measure of my days,
what it is: that I may know how frail I am.
5. Behold, thou hast made my days as an handbreadth; and mine age is as
nothing before thee: verily every man at his best state is altogether
vanity. Selah.
6. Surely every man walketh in a vain shew: surely they are disquieted in
vain: he heapeth up riches, and knoweth not who shall gather them.
7. And now, Lord, what wait I for? my hope is in thee.
8. Deliver me from all my transgressions: make me not the reproach of
the foolish.
9. I was dumb, I opened not my mouth; because thou didst it.

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10. Remove thy stroke away from me: I am consumed by the blow of
thine hand.
11. When thou with rebukes dost correct man for iniquity, thou makest his
beauty to consume away like a moth: surely every man is vanity. Selah.
12. Hear my prayer, O LORD, and give ear unto my cry; hold not thy
peace at my tears: for I am a stranger with thee, and a sojourner, as all
my fathers were.
13. O spare me, that I may recover strength, before I go hence, and be no
more.

Achei esses comentários sobre ele:

Segundo Brueggemann e Bellinger, "o Salmo 39 articula esperança e desespero


simultaneamente"

Rabbeinu Bachya ensina no versículo 13, que menciona oração e lágrimas, que "a oração
precisa de lágrimas"

Acho particularmente os últimos versículos, 12 e 13, belíssimos.

Fiz mais algumas leituras hoje. As orações estão poderosas.

DIA 563

16 de Outubro, Quarta-feira

Acordei cinco da manhã e fiz minha oração na capela às seis, mas não consegui
ver em que página a Bíblia estava aberta pois havia uma moça lá na frente que
ficou talvez uns quinze ou vinte minutos lá de pé na frente da Bíblia. Talvez ela
precisasse mais do que eu.

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Hoje à noite vi o documentário "Fotógrafo de Guerra" de 2001, que conta
sobre o fotógrafo de guerra James Nachtwey. A fotografia (e o jornalismo) é
muito importante para que a realidade dos conflitos que acontecem ao redor do
mundo cheguem a muita gente. É uma poderosa arma de denúncia contra a
guerra.

No caso de James Nachtwey, ele não apenas fotografa de longe, mas de muito
perto e já passou por muitas situações de perigo. Fiquei surpresa em saber que a
maior parte das fotos que vemos de gente desnutrida e passando fome são
tiradas em abrigos que dão comida a essas pessoas. Ou seja, ele esclarece que
eles não apenas tiram fotos e as ignoram, mas essas pessoas são ajudadas. O que
nos faz pensar na situação de pessoas que não tem acesso a esses abrigos que
dão comida, já que as fotos dos abrigos já nos deixam chocados. E, ele diz, uma
das coisas que mais causa a fome é o contexto das guerras.

Eu gosto muito desse tema: guerras. No colégio nós estudamos mais a Segunda
Guerra, que foi mesmo uma das maiores guerras em que mais pessoas foram
mortas e de forma brutal. Porém, meu maior interesse são as guerras do século
XXI, que estão acontecendo agora, principalmente na África e Oriente Médio.
Algumas na Ásia também. Enfim, há conflitos em muitas regiões.

E eu vou explicar um dos motivos do meu interesse. A guerra envolve também


uma questão filosófica e moral. A questão que mais me assombra é: a guerra
deve ser evitada em todos os casos? Eu escrevi várias reflexões sobre isso no
meu último livro, Coração Branco.

Como eu já disse antes, já li biografias de grandes pacifistas, como Tolstói,


Gandhi e Martin Luther King. No caso de Nelson Mandela ele conta em sua
biografia que não conseguiu ser completamente pacifista, mas evitava o conflito
sempre quando possível.

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Em situações de escravidão, de racismo e de muitas violações graves de direitos
humanos, a guerra sempre deve ser evitada para que se mantenha o status quo
para sempre? Minha resposta é que, eu admiro o extremo pacifismo de Tolstói e
dos Quakers, mas ficar em silêncio diante das injustiças também não é uma
forma de violência, talvez tão cruel como tortura e morte? Claro, há formas de
protestar pacificamente e ser ouvido, como Gandhi fez, mas como disse
Mandela "A África do Sul não é os Estados Unidos" e o que Martin Luther
King fez não necessariamente funcionaria no contexto das leis da África do Sul
da época.

O cristianismo não é completamente pacifista pois possui a doutrina da guerra


justa de Santo Agostinho, apoiada por São Tomás de Aquino e outros teólogos.
Eu também já acompanhei a opinião dos jainas da Índia, na época em que eu
mesma estive envolvida com essa religião quando eu era adolescente.

Naquela época, aos 18 anos, eu era vegan, não pisava na grama e eu era
completamente contra a morte deliberada de qualquer ser. Tanto que os monges
jainas cobrem a boca com um lenço para não engolir pequenos seres
acidentalmente, andam descalços ou nus para não machucar outros seres e
passam uma vassoura por onde andam pelo mesmo motivo. Gandhi se inspirou
na doutrina de Ahimsa do jainismo, que também existe no budismo e no
hinduísmo. Claro, a posição dos monges jainas é mais simbólica (eles
reconhecem que é impossível viver sem matar outros seres), mas ainda assim
eles se posicionam contra a guerra.

Lembro da época em que eu participava do grupo de jainismo do orkut e alguns


jainas denunciavam a hipocrisia de outros jainas, pois eles não comiam carne e
nem ovos e nunca comiam após o anoitecer para evitar machucar pequenos
seres. Porém, eles perceberam pelas estatísticas que havia muitos jainas que
abortavam fetos femininos para não pagar o dote do casamento. Ou mesmo

41
alguns eram a favor do serviço militar ou permitiam certas profissões envolvidas
com isso.

Esse não é um tópico simples. A religião não está completamente separada do


mundo material, pelo contrário. O tema da guerra, da violência (ou não-
violência) sempre esteve presente na teologia das religiões.

Quando eu tinha 18 anos eu lia muitos livros sobre budismo, jainismo e não-
violência e eu era tão profundamente a favor de um pacifismo extremo que por
alguns meses eu achei que ser vegan não era o bastante e comecei a seguir o
frugivorismo, comendo só frutas, e somente as frutas designadas ao propósito
de serem comidas, para espalhar as sementes. Até eu ir parar no hospital por
isso e entender, amargurada, que vivemos num mundo cruel. Ou ao menos foi
essa a tristeza que eu senti na época.

Eu entendi que eu vivia num mundo em que precisamos comer outros seres,
mesmo que sejam vegetais. Você está matando vegetais, mosquitos, bactérias,
enfim. É realmente impossível viver sem matar. O ser humano evoluiu desse
jeito.

Naturalmente vem a questão: por que Deus criou um mundo em que


precisamos matar uns aos outros para viver? A história do Éden é uma
explicação que, é claro, envolve outras questões complexas, mas a explicação do
livre-arbítrio, da liberdade, tem certa beleza e faz um pouco de sentido.

É mais ou menos assim: Deus criou um mundo perfeito, mas não teríamos
liberdade, seríamos apenas fantoches de Deus se o obedecêssemos em tudo.

42
Deus queria que o obedecêssemos livremente. Quando desobedecemos, o
equilíbrio da natureza foi rompido. Não vivíamos mais em paz no jardim apenas
comendo frutas (como eu tentei fazer, só me esqueci que não vivo mais no
Éden, hehe). A partir daquele momento, os humanos e os animais se voltaram
uns contra os outros, houve um desentendimento, como uma Torre de Babel.

Não sei quanto a vocês, mas eu consigo sentir algo profundo nessa história. É
como se, no momento em que houve uma mancha na perfeição, todo o resto
entrou em colapso. A morte entrou no mundo, não somente a morte humana,
mas de todos os seres. Porque o ser humano, na história bíblica, não foi o
primeiro a pecar, mas os anjos. Então na verdade a perfeição já tinha sido
rompida antes, com Lúcifer.

O cristianismo reconhece que na história de Gênesis há elementos reais


misturados com simbolismos. Você não precisa aceitar a história literalmente,
mas também dizer que ela é uma completa mentira é o outro extremo. Eu sinto
sim uma verdade profunda, um ensinamento, um reflexo de uma verdade do
mundo nessa história, que também é contada de diferentes formas por outras
religiões.

Então, sim, nós vivemos num mundo violento, num mundo de guerra, em que
precisamos comer uns aos outros (independente de a pessoa comer carne ou ser
vegetariano, ela deve matar outros seres, incluindo insetos também. O que nos
faz ter menos pena de matar um mosquito ou uma bactéria que causa uma
doença mortal num ser humano é outra questão complicada).

Mas o mundo não é só isso. Também há amor e esperança. No documentário é


dito que um dos motivos de James Nachtwey prosseguir em seu trabalho é sua
crença de que o bem triunfa o mal, ou o certo triunfa sobre o errado. De outra

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forma, ele teria se tornado um cínico e acharia que seu trabalho como fotógrafo
não está fazendo diferença. Talvez o tivesse abandonado.

Mas são as pequenas coisas (ou grandes) que cada um faz que se somam e
fazem diferença. Isso é ter esperança. Eu gosto de religiões porque elas dão
esperança e otimismo para as pessoas e isso nós precisamos no mundo, para
não cair no desespero.

Uma vez eu li num livro de cristianismo que havia um lugar que um padre e
outras pessoas faziam trabalho voluntário ajudando pessoas pobres, jovens
usuários de drogas e algumas situações de miséria tão extrema que alguns
voluntários desistiram de trabalhar lá, dizendo: a cada pessoa que eu ajudo,
voltam mais dez em situações de miséria. Eu queria acabar com a fome no
mundo, mas de que adianta ajudar uma ou duas pessoas enquanto não é
resolvida a questão da fome? E com esse pensamento eles desistiam.

Porém, o padre citou a passagem na Bíblia em que Jesus diz: os pobres sempre
terão com vocês, mas a mim terão por pouco tempo. É uma passagem
misteriosa que já gerou muitos debates entre os teólogos. Uma bela
interpretação é que, devido ao pecado original, sempre haverá algum tipo de
tristeza e dor no mundo, ela nunca poderá ser completamente erradicada
somente por esforço humano. Somente por Deus no dia do Juízo Final.

O padre disse que em vez de isso ser motivo para desistir, é razão para ter
esperança. Pois, disse esse padre, ele entendeu que cabe ao ser humano não
acabar completamente com a morte e com a dor (a dor é inerente à existência
desde o Éden), mas fazer o que está ao nosso alcance. Essas pequenas
mudanças já fazem a diferença.

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Como eu costumo dizer, perfeccionismo e pessimismo são duas coisas que
podem nos enfraquecer. Se eu sou perfeccionista e quero acabar com a fome no
mundo, se eu não consigo isso imediatamente, não faço nada? Não, eu posso
ajudar com algumas coisas sem querer tudo perfeito. E se sou pessimista
também vou acreditar que meus esforços são em vão, que o mundo é um lugar
de dor extrema e vou cair em desespero.

Então a ajuda desse fotógrafo ou de qualquer pessoa que faz qualquer coisa,
mesmo que o mínimo, já faz diferença. Mesmo uma oração, nos ensinam as
religiões, já pode ser um começo para nos ajudar a mover o mundo. Ou, como
diz Santo Inácio de Loyola: reze como se tudo dependesse de Deus e trabalhe
como se tudo dependesse de você.

O que mudou em relação ao que eu pensava quinze anos atrás? Na época em


que fiz Abramelin pela primeira vez eu era essa pacifista idealista
vegan/frugívora amante do jainismo e religiões indianas.

Não me envergonho do meu eu daquela época, pois vejo muita paixão em quem
eu era. Porém, naquela época eu era sim um pouco perfeccionista e isso me
enfraqueceu, pois quando percebi que eu não conseguiria sobreviver sendo
frugívora (meu cabelo começou a cair, minha menstruação parou, minhas unhas
começaram a quebrar, etc) e eu só conseguiria seguir adiante sendo "apenas"
vegan, tendo que matar seres, eu fiquei muito triste. E minha determinação se
enfraqueceu muito. Fiquei triste com Deus, por ele ter criado um mundo assim
(eu mostrei esse meu desespero em livros que escrevi naquela época, tanto
Palácio dos Alfinetes quanto Velevi).

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Eu queria viver de forma perfeita, mas percebi que meu corpo humano não foi
feito para a perfeição. Mesmo que eu tivesse uma determinação de ouro, o
máximo que eu poderia era morrer como mártir, deixar meu corpo definhar
porque eu não conseguiria sobreviver daquele jeito.

Eu dizia, bem, enquanto estou viva estou matando seres. Se eu morrer, será a
forma mais compassiva de ajudar os outros, porque eu não precisarei mais
matar seres para manter esse corpo. Era inaceitável para mim que minha
existência estivesse causando sofrimento nos outros, apenas por eu existir.

Pensando dessa forma, até Greta Thunberg, vegan e ativista ambiental, achou
seu equilíbrio. Ela não é pessimista, tem esperanças que algumas mudanças
podem tornar nossa vida melhor.

Eu levei mais tempo para achar meu equilíbrio. Por isso, não devemos julgar o
equilíbrio de ninguém. Tendemos a achar que as pessoas ao nosso redor não são
tão compassivas e boas quanto nós. Mas isso não é verdade.

Jesus nos diz para não julgar. Não julgar, não julgar, não julgar! Mas nós
fazemos isso o tempo todo. Nós criticamos políticos por serem corruptos,
como se nós tivéssemos uma vida perfeita.

E eu falei tudo isso para poder falar sobre a guerra. Pois na guerra existe a
permissão para matar seres humanos. Como alguém pode ser a favor disso?

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Mas aí que está. Eu tive que ler muitos autores que defendiam o pacifismo e
argumentos de outros que não defendiam o pacifismo extremo para formar uma
opinião.

Principalmente nós que vivemos em países que não estão em guerra tendemos a
achar que todos que fazem guerra são estúpidos, idiotas, violentos, animais. Isso
não é verdade.

Nós que temos uma casa, que temos o que comer, que temos o mínimo
necessário, às vezes esquecemos o que é ter alguns dos nossos direitos mais
básicos violados. Será aceitável ficar sem comida, sem água, sem colégio para os
filhos, sem o mínimo de atendimento médico? Não estou falando sobre o Brasil,
mas sobre países em que a maior parte da população não tem praticamente
nada.

As pessoas desses países são estúpidas em defender a guerra? Definitivamente


não. Às vezes é uma última medida desesperada. Sim, a guerra pode causar
coisas piores, ela causa fome e doença, mas nesses países já havia fome e
doença! Sim, fica muito pior. Mas... e aí? Há a esperança de que naquela mesma
geração ou na próxima, alguma coisa (qualquer coisa!) seja feita. E por essa luta
mortes valem a pena? Talvez sim.

E o que todas essas reflexões têm a ver com Abramelin? Para mim tem tudo a
ver.

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Se pensar sobre o santo anjo guardião, sobre o valor dos anjos no cristianismo e
no judaísmo, de todas as guerras narradas na Bíblia, como não falar sobre
guerra?

Quem acha que guerras não tem relação com religiões, nunca leu a Bíblia. O
Velho Testamento está repleto de guerras! Deus é o Senhor dos Exércitos. E
ainda há algumas pessoas que ousam chamar a Bíblia de violenta, e depois vão
assistir Game of Thrones. Ora, para mim a Bíblia é muitas coisas: religião,
literatura, arte, ética, tem de tudo, é um universo. Se uma pessoa mata alguém e
culpa um videogame ou filme, vão se levantar para defender videogames e
filmes. Mas se uma pessoa mata alguém e era religiosa, vão dizer que a Bíblia é
violenta e incita crimes? Faça-me o favor.

Quem acha que guerra e religião estão distantes, nunca leu o Bhagavad Gita.
Mas, é claro, nossa tendência é defender as religiões orientais e clamar: a guerra
lá nesse texto hindu é representada de forma simbólica, para fazer referência à
nossa guerra interior, etc. Como se a mesma explicação não pudesse ser aplicada
na Bíblia em várias passagens!

A Bíblia deixa claro que todas as guerras que acontecem aqui fora são reflexo de
uma guerra espiritual que acontece entre anjos e demônios. E para mim isso faz
todo sentido como explicação da nossa guerra interna.

Não significa que Deus, anjos e demônios são apenas metáforas. Eu acredito
que eles são seres existentes. Pode ser que eles não existam exatamente da forma
que imaginamos. Mas, como diz o argumento, existem muitos seres
intermediários entre, vamos supor, o ser humano e uma bactéria. Existem
animais, vegetais e todo tipo de ser. Não seria estranho se não existisse nenhum
ser intermediário entre o ser humano e Deus? Não seria um salto muito grande?
Esse é um dos argumentos para defender a existência de anjos e demônios.

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As religiões abraâmicas falam principalmente de anjos e demônios, enquanto
outras religiões podem mencionar a existência de outros seres de diferentes
categorias espirituais. O ponto aqui é que seres assim existem e podem ser
chamados, pois eles são inteligentes.

O cristianismo nos ensina que os anjos são seres que lá na Primeira Rebelião de
Lúcifer passaram no teste que Deus aplicou para testá-los. Os demônios foram
os que reprovaram no teste. Os seres humanos ainda estão passando por esse
teste enquanto estão vivos.

Se eu quero ser aprovada no teste de Deus, por que não pedir ajuda a seres que
já foram testados numa prova parecida e foram aprovados? Eles terão várias
dicas. E nosso anjo guardião nos conhece de perto. Ele nos acompanha desde
que nascemos!

É importante passar no teste de Deus não só porque somos interesseiros e


queremos receber a recompensa de ir para o céu. Não é isso. Os santos nos
ensinam a amar Deus por ele mesmo, por puro amor, não porque queremos
recompensas.

Deus é todo o amor. A fonte do amor. Jesus resume os dez mandamentos em


apenas dois: amar Deus acima de todas as coisas e o próximo como a nós
mesmos.

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E o que é mais importante, amar Deus ou o próximo? Os dois! Eles são
praticamente a mesma coisa, são mandamentos muito parecidos. Um não exclui
o outro. Eles se complementam, alimentam um ao outro.

Claro que há um detalhe teológico sutil, pois se é melhor amar Deus


poderíamos passar a vida isolados no deserto rezando. Mas se é melhor amar os
outros podemos viver em serviço dos outros diretamente.

Essa também foi outra questão que me ocupou por um bom tempo e eu
demorei para entender. Hoje em dia o meu foco está mais nas pessoas do que
em Deus, mas eu também entendi que eles não são excludentes. Que ver o
sagrado, a alma de cada pessoa, nos incita ainda mais a ajudar os outros do que
ver as pessoas apenas como pedaços de carne que andam. Tudo bem, há
pessoas que não acreditam em Deus mas que possuem algum tipo de
espiritualidade ou um respeito inerente ao ser humano independente de
religiões.

Mas essa é uma questão principalmente de linguagem, pois falar de


espiritualidade às vezes é não envolver religião mas apenas fazer referência a
esse respeito e amor que temos uns pelos outros, e há um significado maior
nesse amor.

Considerando toda essa reflexão, para mim, repito, a operação de Abramelin é


aceitar que todas as guerras que ocorrem aqui fora e dentro de mim são reflexo
dessa guerra espiritual entre anjos e demônios. Eu faço parte dessa guerra e
estou lutando.

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Escolhi meu lado: é o lado de Deus e dos anjos, porque como definição
teológica, esse é o lado do bem, da justiça, do amor. E aqui sempre tem um
engraçadinho para dizer, ó, mas e os demônios, não temos que ter compaixão
pelos demônios?

Sim, é claro, o cristianismo nos ensina a odiar o pecado e não o pecador. Mas é
importante atentar para a definição teológica dos termos. Pois pode ser como se
você dissesse: não temos que ter compaixão e respeito pelas injustiças, respeito
pela violência, pelo ódio, pelo preconceito, etc?

Para explicar a questão dos anjos e demônios temos que entrar no conceito de
Kronos e Kairos. Os anjos e demônios, pela definição do cristianismo, NÃO se
encontram no tempo do relógio, Kronos, como o ser humano. E, diferente do
ser humano, anjos e demônios enxergam Deus com mais clareza, não é como
para nós que existe um véu.

Por estarem fora do tempo, a escolha dos anjos e dos demônios é final. Sendo
assim, eles já foram julgados no início dos tempos. Não há retorno, assim como
da perspectiva humana, mesmo que você acredite em reencarnação, uma vez
morto você está morto, perdeu o corpo, não há retorno. Nem tudo na vida dá
para voltar.

Então, da perspectiva cristã, o julgamento dos anjos e demônios já foi feito.


Agora (quando uso o termo "agora" falo de Kronos e não Kairos) falta o
julgamento dos humanos. A guerra que ocorre entre anjos e demônios é por
nossas almas.

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O cristianismo nos ensina que quando morremos é um anjo que leva nossa alma
para o céu. Mas no momento da morte, anjos e demônios podem brigar por
nossa alma. Os demônios querem levá-la para o inferno.

Mas existe o conceito de justiça. Nós seremos julgados no tribunal por três
julgadores, como nos ensina a Legenda Aurea: Deus, nosso anjo guardião e
nossa consciência.

Desde que eu aprendi isso e apreciei esse conceito e toda sua força, atento para
essa trindade. Deus é muito grandioso, é a perfeição e o amor. Se nos sentimos
por acaso meio distantes, basta lembrar que Jesus, o Espírito Santo, os anjos,
Maria, os santos católicos, todos eles atuam como elo, como ponte, entre nós e
Deus.

Nós podemos rezar para eles, para que intercedam por nós, para que sejam
nossos advogados no tribunal divino, mediadores.

E, repito, nós não queremos fazer o bem porque queremos ir para o céu porque
parece legal, confortável e prazeroso lá. Nada disso! Tanto que Peter Kreeft diz
que deve haver algo parecido com a dor no céu. É algo que nos purifica (função
do purgatório no catolicismo, a propósito).

É interessante traçar um paralelo entre o purgatório no catolicismo e aquele que


entrou na correnteza no budismo Theravada. Essa é a primeira das quatro
etapas da iluminação e uma vez que você entrou nela é impossível voltar. O
budismo nos diz que uma vez atingido esse estágio você irá se iluminar em no

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máximo quatro renascimentos, mesmo que não queira, pois seu karma foi
direcionado a isso de forma inevitável.

É algo parecido que ocorre no catolicismo: uma vez que você morre e cai no
purgatório, você irá para o céu mesmo que não queira após o período de
purificação no purgatório, pois sua alma irá se direcionar de forma inevitável
para o céu depois, como um ímã.

Independente de falarmos em alma ou em karma, é uma tendência da alma,


como se falássemos da física, de uma atração. É uma propriedade da alma ou do
karma, conforme a moralidade, de se dirigir para certo "local" (não é um lugar
físico).

O céu e o inferno não são lugares físicos. O cristianismo deixa isso claro. Viu,
depois de eu ler mais de trezentos livros de cristianismo isso serviu para alguma
coisa. Ao menos eu sei alguns detalhes da teologia católica que antes
confundiam minha cabeça. Os padres, monges, monjas, freiras, etc, não estavam
apenas sentados tomando um ar fresco nos mosteiros da Idade Média. Estavam
quebrando a cabeça para resolver essas questões teológicas. Eles deixaram tudo
escrito para nós.

Resolver essas questões não é vaidade, é importante para termos clareza e nosso
coração não nos enganar depois. É para mantermos o amor e a esperança, não
cairmos em desespero, termos esperança no mundo, na humanidade,
independente de nossas crenças religiosas. Ou diante da dor e da morte
podemos nos tornar pessimistas e desistir de tudo.

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Pois então, voltando ao assunto, eu quero falar com meu anjo guardião não
porque eu quero ir para o céu ou receber alguma recompensa. Não é porque eu
quero vê-lo em sua forma física ou escutá-lo. Isso é o de menos. Se ele não
quiser se mostrar, isso não é necessário. Isso é importante, claro, quando a
pessoa está com a fé fraca e precisa fortalecer sua fé e o anjo acha que isso pode
ajudar. Mas se ele acha que não faz diferença, pra mim também não faz, pois
confio no julgamento de Deus e do meu anjo.

Contatar o anjo guardião não é como ir para o parque de diversões e buscar


adrenalina. Claro, eu sou um ser humano, curto uma aventura, o medo que há
na experiência, testar meus limites. Mas se fosse só para testar meus limites eu
iria, sei lá, jogar videogame, escalar uma montanha. Eu poderia fazer isso
também, mas como meu Kronos tem limite, devo focar minhas atividades, haha.

Esse é um momento importante porque queremos entender a missão que Deus


nos deu, nosso lugar no mundo. Como podemos ajudar as pessoas ao nosso
redor? O que Deus quer de mim? Quem eu sou? E por aí vai.

Eu acho que a democracia dos mortos de Chesterton faz sentido. Se a maior


parte das pessoas que já viveu até hoje acreditou em Deus (talvez uns 99% de
todas as pessoas que já viveram, em diferentes épocas, países, etc) é provável
que ele exista.

Mas aí você diz, mas talvez Deus não exista da forma que é descrito na Bíblia.
Mas se você for usar o argumento de Darwin, da luta da sobrevivência do mais
apto, não é impressionante que mesmo hoje em dia as maiores religiões do
mundo sejam cristianismo e islamismo? Isso não nos diz algo? Foram as
religiões que sobreviveram e mais tiveram êxito na luta pela sobrevivência das
religiões. Você pode argumentar, alguns foram convertidos injustamente pela
força, mas o fato de haver pessoas não só motivadas por interesses políticos e

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financeiros, mas porque acreditavam numa religião a ponto de querer converter
outros, embora injusto e cruel, também entra na sopa da luta pela sobrevivência
e nesse cálculo (não vou entrar mais a fundo nessa polêmica para não
desviarmos o tema).

Se cristianismo e islamismo "funcionam" tanto para tanta gente, mesmo no


mundo de hoje, e faz tanto sentido para as pessoas, não nos sugere que há
algumas grandes verdades nessas religiões? Se elas já ajudaram tanta gente, faz
muito sentido que possam nos ajudar também.

Isso não significa que estamos apenas usando as religiões para nosso proveito,
mas é um reconhecimento de que pode existir uma verdade profunda nelas. É
um respeito por essa verdade, que nossa ignorância e limitação humana nos
impede de entender.

Ninguém precisa brigar ou disputar para defender qual religião é certa. É o


suficiente esse respeito pelo sagrado, essa abertura para esse mistério que nos
mostra todas as religiões. Mesmo pessoas não religiosas podem aceitar que há
coisas que não compreendemos. A ciência não explica tudo.

No meio de tudo isso, para mim brilha o santo anjo guardião, pois é um ser que,
é dito, está muito próximo de nós. Muito próximo mesmo. É dito que o
Espírito Santo habita nosso coração. É o Deus dentro de nós, de que nos falam
os indianos (sabiam que a Índia é o país do mundo com mais seminários
católicos? Adoro os indianos, porque eles têm tudo o que é bom: cristianismo,
Madre Teresa, hindusímo, budismo, jainismo! São um povo simples, generoso e
com uma espiritualidade viva e pulsante. Eu realmente achei a espiritualidade de
Israel um pouquinho desanimada, diferente do vigor da Índia. Mas isso também
pode dizer respeito ao estilo das religiões).

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Voltando ao anjo, eu achei importante explicar o significado para mim da
operação de Abramelin no meio de todas as questões importantes do mundo. Se
religião sempre foi tão importante para nossos antepassados, quem sou eu para,
com minha arrogância, afirmar que eles estavam errados, que agora que temos a
ciência não precisamos mais de Deus?

É fundamental mantermos a humildade. Deus e ciência não precisam ser


inimigos, mas aliados. Nós, como seres humanos, devemos fazer o máximo
possível para desenvolver a ciência e aplicá-la em benefício da humanidade. Mas
sempre com humildade, reconhecendo que não somos Deuses, que temos
limitações. E, quando já fizemos todo o possível, deixar o resto para Deus, com
o coração em paz.

Essas são coisas que busco, que quero conversar com meu anjo, e que tenho
conversado em oração. Eu quero ter coragem e esperança para fazer as partes
difíceis da missão que Deus me deu. E se um dia eu conseguir fazer coisas que
agradem a Deus, quero sempre ser capaz de manter a humildade e lembrar que
aquele não é mérito meu, que eu não fiz sozinha, mas que foi graças a Deus que
tudo foi possível. E graças a todas as pessoas na minha vida, mesmo as que me
criticaram, que acabam me trazendo aprendizados duros, que me aborrecem no
momento em que ocorrem, mas que acabo aprendendo também.

Estou feliz. Com um pouquinho de medo, ansiedade e emoção com a


proximidade da semana de ouro, mas isso faz parte de toda a aventura. Quero
que essas coisas estejam presentes mesmo.

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Por esses últimos 18 meses eu rezava, todos os dias: "Deus, por favor, me envia
teu anjo no fim da operação de Abramelin, na semana de ouro", mas nessa
semana tenho rezado: "Deus, por favor, me envia meu anjo guardião na semana
que vem".

O quão legal é poder dizer isso? Nem tenho palavras para descrever a emoção.
É uma pequena mudança de palavras que cada vez que pronuncio faz meu
coração pulsar com a expectativa!

Minha expectativa não é porque estou ansiosa e com medo em relação a meu
anjo aparecer ou não. Como eu já disse antes, uma aparição física, auditiva, que
agrade os sentido é o de menos. Isso é somente para os curiosos. Não estou
fazendo essa operação por curiosidade. Ela já foi satisfeita, e com estilo, da
primeira vez.

Agora eu espero um momento de recolhimento, de uma conversa sincera e mais


madura. Porque é claro que nesses últimos quinze anos aprendi coisas.
Antigamente eu era fascinada com os estados alterados de consciência que eu
conseguia nas meditações ou com aparições visíveis de entidades, como se fosse
um jogo.

Mas agora eu não sou mais uma criança. Ou melhor, fico feliz em manter uma
alegria juvenil e em me divertir com coisas bobas. Mas é importante entender
que essas aparições são apenas um toque a mais. Não é o centro da operação.

Em breve já estarei contando os dias. É realmente impressionante lembrar o que


importava na minha vida lá atrás e o que importa agora. Hoje em dia eu me

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impressiono bem menos com estados alterados de consciência, aparições,
roupas bonitas, utensílios mágicos elegantes.

O que me leva às lágrimas não é mais tanto algo bonito no exterior, uma voz
calma ou um odor agradável. Eu aprendi com os santos católicos que devo amar
o que é desagradável para os outros: uma pessoa pobre com cheiro ruim que
não toma banho há semanas, as roupas esfarrapadas, a lepra que São Francisco
de Assis antes repudiava, mas depois estava abraçando os leprosos e cuidando
das feridas deles. E até hoje são os leprosos que costuram as roupas usadas pelas
Missionárias da Caridade. Eles também se sentem felizes por terem um trabalho
e contribuir com essa corrente de amor.

Dizem que os anjos se escondem nos pobres, nos doentes, para nos testar. Em
vez de buscar uma aparição de um anjo elegante e com asas no silêncio e
solidão, por que também não buscar os anjos ao nosso redor?

Não naquele tom paternalista de "oh, eu estou ajudando as pessoas, como sou
bom", mas no reconhecimento de que quando ajudamos no fundo somos nós
que somos ajudados e aprendemos, pois assim aprendemos a sentir o amor, que
não tem preço.

DIA 564

17 de Outubro, Quinta-feira

A história de Daniel é uma das minhas favoritas na Bíblia. Minha parte preferida
é o anjo pegando Habacuc pelos cabelos, haha. Já li várias vezes o livro de
Daniel e sou uma grande fã.

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E por que estou falando de Daniel? Na última etapa de Abramelin, Abraão o
Judeu aconselha que fiquemos apenas com vegetais e água "como Daniel".

A cada semana que passa eu estou acrescentando mais restrições alimentares.


Por causa disso, tive diarreia na semana passada e estou tendo agora. Isso
porque se alteramos o que comemos subitamente, as bactérias do nosso
intestino mudam e muitas morrem. Por isso a diarreia.

Dentre os diários de Abramelin que eu já li, percebi que a maior parte das
pessoas que fazem a operação acaba passando mal perto da última semana ou
tem algum tipo de problema devido às restrições alimentares. Ramsey Dukes
relata que ficou muito fraco nessa etapa e o William Bloom até ficou com
hepatite.

É óbvio, pois com tantas restrições de comidas o nosso sistema imune


enfraquece e ficamos suscetíveis a muitas doenças. Por isso é preciso ter muito
cuidado com as restrições alimentares súbitas. O organismo leva certo tempo
para se adaptar.

Não sei se eu vou conseguir cortar tudo, mesmo na última semana. Vou fazer
alguns dos jejuns prescritos da semana de ouro, mas não posso exagerar, pois
vou estar sozinha e se eu passar mal será ruim.

Como eu relatei ontem, eu já testei diversas restrições alimentares ao longo da


minha vida. Já fui vegan por alguns anos no final da adolescência, já fui
frugívora por alguns meses, já fiz vários jejuns só com água por 24 horas, alguns
por 48 ou até 72 horas. Já fiz até jejuns sem água, sem nada.

Com base nessas experiências, o que eu concluí? Eu confirmo que, sim, fazer
jejuns e tirar alimentos deixa as orações poderosas. Quando sentimos fome e
sede e ficamos cansados, dependemos completamente de Deus e colocamos
nossas esperanças nele. O corpo começa a falhar, o coração começa a bater mais
forte, as extremidades ficam doloridas, podemos até ter dificuldade de respirar,
pois com menos comida temos menos água, a circulação falha para levar
nutrientes e oxigênio para os órgãos.

É preciso ter cuidado com isso. Eu entendo que viver apenas em função da
saúde e temer a doença e a morte o tempo todo não é o objetivo da vida, pois
nós não vivemos apenas para sobreviver. Ainda assim, é importante não fazer
qualquer coisa com o corpo sem ter ideia das consequências.

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A operação de Abramelin é diferente para cada pessoa. Cada um tem uma idade
diferente, gênero, condições de saúde, etc. Um diabético, por exemplo, pode
realizar a operação de Abramelin com sucesso, mas sem realizar os jejuns,
cuidando de sua saúde.

Algumas pessoas adoram julgar as outras e parecem acreditar que se todos os


jejuns não forem feitos e todos os alimentos prescritos não forem cortados, o
anjo não vai aparecer. Mas isso não é verdade.

Se for assim, você está discriminando pessoas e decretando que indivíduos com
certas doenças não podem realizar a operação. Ou seja, você está afirmando que
o anjo não visita pessoas doentes, mas apenas pessoas saudáveis. O que não faz
sentido nenhum.

Não tem problema se você não consegue seguir todos os passos da operação de
Abramelin conforme é dito no livro. O mais importante é tentar seguir a
operação com fidelidade o máximo que você conseguir.

O fundamental é ter a consciência tranquila de que você fez o que podia. É bom
distinguir o que foi deixado de ser feito devido a impedimentos reais ou apenas
preguiça, pois são coisas diferentes.

Deus não pede algo de nós que não somos capazes de realizar. Ele não vai exigir
que uma pessoa sem pernas se ajoelhe. Os hipócritas que dizem que uma oração
efetiva deve ser feita somente ajoelhada ou que uma boa meditação deve ser
feita somente em posição de lótus estão discriminando pessoas que não
possuem as pernas, cadeirantes ou que tenham problemas circulatórios ou
outras condições de saúde que as impedem de adotar tais posições.

As pessoas são diferentes. Por exemplo, a operação de Abramelin foi


direcionada principalmente para homens, sem pensar nas condições particulares
que as mulheres podem enfrentar, como menstruação, cólica e deficiências de
ferro.

Devo observar que durante a menstruação a imunidade das mulheres cai muito
e elas ficam mais suscetíveis a doenças. Tanto que durante o jejum do Ramadã
as mulheres têm permissão de beber água e comer durante o dia se estão
menstruadas e com cólica. Esse é um grande exemplo do islamismo, que se
lembrou que as mulheres existem (Uau! Metade da população mundial existe!).

60
Durante a menstruação as mulheres perdem muito sangue. E quanto mais
sangue perdemos, menos hemoglobina temos para transportar o oxigênio e os
nutrientes para os órgãos, o que pode levar a falha de alguns órgãos e a falta de
ferro.

Então exigir que algumas mulheres, principalmente menstruadas, cortem


totalmente os alimentos de origem animal da dieta pode ser perigoso. Não estou
dizendo que isso acontece a todas as mulheres, mas muitas podem ter esse
problema.

Eu já tive diversos problemas de saúde por causa de restrições alimentares que


faço desde a adolescência, tanto por razões religiosas quanto éticas. Tinha um
amigo meu que era vegetariano há dez anos e foi dito que "ele nunca teve
nenhum problema de falta de ferro", mas é óbvio, ele é homem! Ele não perde
um monte de sangue a cada mês. Por isso mesmo mulheres não podem doar
sangue com a mesma frequência que homens.

Essa questão da alimentação é irritante. Eu estou farta de pessoas que julgam


outras por causa do que elas comem. Até o Dalai Lama voltou a comer carne
em idade adulta por recomendação médica.

O raciocínio de "o que funciona para mim funciona para todos" é irritante.
Homens e mulheres precisam de alimentos diferentes, uma pessoa de pele
negra, uma asiática, etc, têm a genética diferente devido à história evolutiva de
seus antepassados, e também precisam de alimentação diferente. Dependendo
do que sua mãe comeu ao longo da gravidez, se você foi amamentado ou não e
por quanto tempo, tudo isso fez diferença no desenvolvimento dos seus órgãos
na época em que eles estavam sendo formados e na sua tolerância em relação a
certos tipos de alimentos, absorção de vitaminas, etc.

Quem nunca leu livros de nutrição e nunca estudou isso, sinceramente, devia
apenas calar a boca sobre esse assunto. Se quer se matar comendo determinado
tipo de alimento por razões éticas, religiosas ou o que seja, não deve exigir que
os outros devem fazer o mesmo. Vários santos católicos morreram cedo, aos 20
ou 30 anos, por causa de restrições alimentares severas. Mas isso é algo que cada
um deve buscar individualmente se vale a pena buscar esse martírio e não exigir
isso dos outros.

61
Jesus é criticado na Bíblia porque não fazia tantos jejuns como outros profetas.
É o que sai da boca do homem e não o que entra que o torna impuro, disse
Jesus.

Depois dessas palavras, não terei mais nada a acrescentar. Essa frase resume
tudo.

Ou melhor, tenho coisas a acrescentar. Alguns acreditam que Buda comia carne,
já que chegou a nós que ele morreu devido ao consumo de carne de porco
estragada, embora alguns traduzam como cogumelos (menos provável, já que é
mais provável que a disenteria tenha sido causada pelo consumo de uma carne
de porco mal cozida). De qualquer forma, no budismo Theravada, o mais
tradicional, os monges comem carne.

Já no caso de Jesus, além de comer peixe, é dito que ele comia o cordeiro de
sacrifício na Páscoa todos os anos, já que ele era judeu. Seria meio estranho se
ele não comesse o cordeiro como todos os outros judeus.

Claro que na época a carne não tinha essa produção em escala industrial como é
hoje e os animais são tratados de forma mais cruel atualmente. Isso é importante
levar em consideração.

Enfim, nós tendemos a atentar muito para a parte ritualística em vez de focar na
busca do amor. É claro que os rituais podem ajudar e seguir as regras é bom.
Mas não devemos ser prisioneiros de regras se isso diminui nosso amor e nos
transforma em moralistas, como os fariseus que seguiam todos os rituais mas
muitas vezes agiam sem compaixão.

Mudando de assunto, além de olhar o santo do dia, uma coisa legal é olhar o
evangelho do dia. Quando faço retiros em mosteiros é mais fácil acompanhar o
evangelho do dia, pois o padre o lê a cada missa.

É como uma mensagem particular para cada dia. Acho inspirador.

O evangelho de hoje é uma passagem de Lucas. Aliás, amanhã é o dia de São


Lucas! Gosto muito dele. Meu amigo Lucas, haha. Ele é legal porque ele era um
pagão convertido ao cristianismo, sendo que a maior parte deles eram judeus
convertidos. Isso o distingue. Por isso é interessante ler Lucas na Bíblia. Esse é
um livro com muitas passagens direcionadas a ensinar o cristianismo para
pagãos.

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Muitos de nós nos dias de hoje não fomos batizados na infância e não
frequentamos a igreja quando crianças ou adolescentes. Por isso, Lucas é um
livro direcionado para "nós", que desconhecíamos tanto o cristianismo quanto o
judaísmo quando pequenos.

Hoje realizei várias leituras. A propósito, já estou fazendo a lista de algumas


coisas que irei levar para minha pequena aventura e viagem que iniciarei na
segunda-feira pela manhã.

Dentre os itens da lista estão caderno e canetas para eu fazer minhas anotações,
já que não irei usar o blog para anotar. Só mais tarde eu digitarei no livro.

Levarei a Bíblia e outros livros para ler. Pano branco, óleo, incenso e outros
itens que ainda estou separando. Haverá mais coisas.

"Pois não desejas sacrifícios, senão eu os daria; tu não te deleitas em holocaustos. Os sacrifícios
para Deus são o espírito quebrantado; a um coração quebrantado e contrito não desprezarás, ó
Deus"

(Salmo 51, 16-17)

Reitero que um dos meus maiores aprendizados durante Abramelin foi a


consciência das minhas limitações. Pois sim, deixei de fazer algumas coisas por
impossibilidade, mas houve detalhes em que falhei por falta de disciplina
também.

Isso é natural, uma lembrança de que somos somente humanos e de que é difícil
seguir uma rotina de forma perfeita por um ano e meio.

Vou levar isso como lição de vida e ser mais paciente com os outros, perdoando
os outros e a mim mesma.

É normal que eu, vocês e todos tenhamos uma visão do que é ser gentil, agir
bem, como ter uma boa vida. E quando vemos ao nosso redor, nas outras
pessoas, exemplos que contradizem esse modelo que carregamos, nossa
tendência é julgá-los.

63
Mas não devemos julgar. Se vemos alguém fumando nossa tendência é criticar,
mas não é bem assim. Se vemos uma pessoa idosa fumando, devemos lembrar
que há algumas décadas a ciência ainda não conhecia todos os malefícios do
cigarro. As pesquisas científicas ainda estavam sendo feitas. Antigamente
cigarros eram recomendados até por médicos para aliviar ansiedade! E mesmo
depois que as pesquisas científicas concluíram sobre os malefícios do cigarro,
ainda foram necessárias mais algumas décadas de campanha publicitária para
tirar as propagandas, fazer com que os alertas chegassem à população, etc.
Então criticar um idoso que começou a fumar quando ainda não se conheciam
os malefícios é meio idiota.

Então criticamos pessoas que usam drogas (certas drogas ilegais hoje também
eram recomendadas por médicos há algumas décadas), bebem, fumam, sendo
que você nem conhece o que aquela pessoa passou na infância, adolescência, se
teve uma vida difícil, se adquiriu os vícios porque não tinha outras opções de
entretenimento do que pessoas com mais recursos.

Ah, mas você não, você é uma pessoa evoluída, um santo que não usa garrafas
de plástico e não anda de avião para não poluir o meio ambiente.

Sério, eu estou cansada dessas coisas. E eu faço questão de fazer todos esses
discursos no diário do meu último mês de Abramelin porque eu sei que mais
gente vai ler esse por curiosidade de saber o que vou dizer sobre a semana de
ouro.

É uma boa curiosidade, pois quando eu li outros diários de Abramelin eu queria,


claro, saber sobre o processo todo, mas não adianta: a cereja do bolo é a etapa
final.

Está chovendo hoje. Está bonito. Claro que está bonito, pois eu estou em casa e
não na rua molhando minhas meias.

Mas em algumas situações poéticas, como minha caminhada no mosteiro no


início desse ano, eu não me importei de pegar chuva. Tudo pode ser uma
aventura para quem está animado.

Às vezes eu reclamo demais: reclamo da chuva, do frio, do cansaço, do sono, da


cólica, etc. Mas eu quero aprender a reclamar menos e a me sentir mais grata por
todas as bênçãos que tenho.

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Cada vez que faço retiros em mosteiros também passo por desafios, pois não
tenho os confortos que tenho em casa. Mas eu estou disposta a enfrentar
desconfortos por causas que acredito que valem a pena. Acho que essas
experiências me amadurecem. O que é o caso de Abramelin.

Por exemplo, mesmo com diarreia eu estou disposta a fazer ainda mais
alterações nas minhas alimentações e jejuns, para vivenciar de forma plena
minha semana de ouro. Morrer eu não vou. Quando a operação terminar, volto
às minhas alimentações normais, vou ter mais algumas diarreias por causa das
bactérias novas que vou receber, mas rale-se. Eu também não quero ser tão
fresca.

Podemos ser rigorosos com a gente em certas ocasiões. Só devemos ter cuidado
em julgar os outros. Não é porque não sentimos dor em certas situações que os
outros não sentem. Eu já reparei que coisas que são desafiadoras para mim às
vezes são leves ou imperceptíveis para outros. E certas coisas que eu talvez
considere fáceis podem ser difíceis para outras pessoas.

Por tudo isso, é importante ter paciência e respeito. Sempre. É mais difícil falar
do que fazer. Eu nem sempre tenho paciência e respeito com os outros. Eu
julgo os outros demais, critico, sou injusta. Mas eu quero melhorar.

DIA 565

18 de Outubro, Sexta-feira

Atrasei meu registro hoje. Eu tinha muitas coisas que eu queria comentar, mas
demorei tanto para escrever que acabei esquecendo o que era.

Estou com sono. E estou com cada vez menos opções de coisas para comer.
Sobre a comida, a questão será resolvida quando acabar a semana de ouro.
Sobre o sono, sabe-se lá o dia em que irei me organizar, independente de haver
ou não Abramelin.

Ah, lembrei uma das coisas que eu ia contar. Em uma das orações de hoje eu
me emocionei e chorei. Tenho derramado lágrimas em muitas das orações agora
que está chegando tão perto.

Está chovendo. Peguei um pouco de chuva hoje, mas não muito.

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Fiz algumas horas de leituras hoje. Mas quero fazer muito mais na semana de
ouro. Será bem importante para mim. Há certos tipos de leitura que aquecem
meu coração e são necessárias.

Hoje até olhei na livraria se havia algum livro de espiritualidade me chamando,


ou algum outro, mas não havia nenhum.

Às vezes sinto vontade de pedir desculpas por certas coisas que escrevo no meu
diário. Mas outras vezes eu sinto que não devo fazer isso, pois esses
pensamentos fazem parte do processo e devem ser registrados.

Não faz o menor sentido que eu finja ser uma pessoa bondosa apenas para que
eu pareça legal fazendo a operação de Abramelin.

Eu não quero parecer legal. Eu quero parecer humana. Eu não quero que
pensem que eu sou um robô ou uma pessoa altamente disciplinada, para ser
admirada. Se acharem isso, será difícil que muitos se identifiquem com o que eu
falo.

Claro, é bom ter exemplos de pessoas que se dedicam. E eu me dedico sim, mas
tenho falhas.

Nesse ponto da operação eu já devia estar em isolamento, passando a maior


parte do dia rezando, lendo e jejuando. Mas eu decidi que minha operação seria
um pouco mais agitada. Ou melhor, pode-se dizer que meu anjo decidiu por
mim.

Ou melhor, não é justo eu colocar a culpa no meu anjo por tudo. Ele me indica
as direções, mas é claro que várias falhas minhas ocorrem por preguiça ou
porque estou a fim de fazer outras coisas em vez de ler mais ou orar mais.

De qualquer forma, estou fazendo minhas orações, leituras e jejuns. Não


exatamente tanto quanto eu devia estar fazendo nessa etapa. Eu reconheço isso.

Nos retiros em mosteiros já experimentei um pouco da experiência de


isolamento, silêncio e orações intensivas, principalmente nos mosteiros em que
fiquei completamente sem acesso à internet ou tive pouco acesso.

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A operação de agora está sendo importante também para eu aprender a conciliar
a espiritualidade com o mundo real.

Eu queria escrever mais coisas hoje, porque é fundamental na Festa das Tendas.
Mas eu realmente preciso dormir.

DIA 566

19 de Outubro, Sábado

Amanhã à noite será a última vez que irei atualizar o diário aqui no blog. A
partir de então, o blog passará a ser restrito. Posteriormente irei acrescentar o
relato da semana de ouro diretamente no Livro 4.

Então esse é meu penúltimo registro antes da parte crucial da operação.

Não sei se eu devia tentar dizer algumas palavras bonitas. Preparar-se para
Abramelin é quase como se preparar para um vestibular ou um concurso. O
importante foi o estudo diário realizado ao longo dos últimos 18 meses. O que
eu fizer dois dias antes não irá milagrosamente me tornar digna de receber meu
anjo se eu não me esforcei em nada ao longo desse ano e do ano passado.

Por outro lado, não é assim que Deus pensa. Basta lembrar da parábola dos
Trabalhadores da Vinha, que aparece em Mateus. Todos os trabalhadores que
vão trabalhar na vinha, não importa se começam o seu serviço bem cedo, de
tarde ou à noite, recebem a mesma recompensa. O que isso significa?

Jesus perdoou o bom ladrão. O bom ladrão não precisou fazer 18 meses de
orações de Abramelin para ir para o céu. Jesus garantiu que ele estaria com ele
no paraíso naquele mesmo dia. Isso é fantástico e mostra a nós o poder do
perdão de Deus.

É claro que não podemos nos tornar preguiçosos e pensar: Deus perdoa todo
mundo que se arrepende, então não vou fazer nenhum esforço, vou levar uma
vida ruim, me arrepender apenas na hora da morte e ir para o céu. Não é assim
que funciona.

Quando a nossa consciência percebe nossos erros, a partir de então temos que
começar a melhorar o quanto antes.

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Havia uma diferença entre o ladrão mau e o ladrão bom que estavam ao lado de
Jesus na cruz. Os dois cometeram erros, mas só um deles se arrependeu. Por
quê? Essa decisão de se arrepender não foi impensada. Foi porque, ao longo de
sua vida, o bom ladrão deve ter recebido ensinamentos que guardou consigo,
deve ter feito coisas boas, que vieram em sua memória e moveram seu coração
naquele momento.

É como os mártires cristãos. Lendo as histórias dos mártires e conversões


súbitas, às vezes temos a falsa impressão que uma pessoa que sempre foi ruim
do nada resolve morrer por Deus e faz isso sem olhar para trás. Mas não. É
como a história de São Maximiliano Kolbe. O martírio dele não foi uma decisão
súbita de última hora e sim reflexo de toda sua vida. Foi somente devido ao que
ele aprendeu e viveu por toda a vida que ele foi capaz de fazer aquele ato
heroico sem hesitar.

Esse é um aprendizado importante da operação de Abramelin: é claro que fazer


um intensivo por, digamos, uma semana ou um mês, como um retiro, faz com
que a gente aprenda muita coisa em pouco tempo. Mas o que mais nos ensina é
todos os dias orar um pouco, estudar um pouco, ler um pouco. Senão pode ser
algo que somente toca a pele, e não o coração, e é facilmente esquecido.

A única explicação que eu aceito para não ter tomado certas decisões na minha
vida antes é porque antigamente eu não tinha a consciência de que devia fazê-
las.

E não foi por falta de procurar. Desde o início da minha adolescência tenho lido
desesperadamente, conversado com pessoas, tido experiências, etc, em busca do
sentido da vida, do que é o melhor para eu fazer. E eu demorei muito, mas
realmente muito tempo para entender.

Agora que eu tenho clareza sobre isso, não tenho nenhuma desculpa para não
fazer as coisas que eu descobri que devo fazer.

A longa conversa que eu vou ter com meu anjo por volta de, hã, quarta-feira à
noite (ou exatamente quarta-feira à noite, a não ser que ele decida aparecer
antes, na segunda ou na terça à noite) será fundamental para eu confirmar tudo
o que ele me mostrou nos últimos 18 meses.

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Pois eu lembro a vocês que foi no final do ano passado que eu descobri qual é a
minha missão nesse mundo. Foi um momento inesquecível. Já vai completar um
ano desde que descobri e ainda estou firme nessa decisão. Espero continuar
firme nas próximas décadas.

É engraçado pensar que tenho um encontro marcado com meu anjo. Talvez
algumas coisas já comecem no chá das cinco da segunda-feira, hehe. Um chá
sem chá, já que provavelmente vou estar em jejum.

Nossa, isso me fez lembrar de um apócrifo muito engraçado. Eu já li um monte


de apócrifos e pseudo-epígrafos da Bíblia. Tenho inclusive um livro com mais
de mil páginas com uma coleção deles e li quase todos.

Em um dos apócrifos, não lembro o nome agora e vai levar muito tempo para
eu procurar, um anjo chega na casa de não sei quem, vai pedindo comida e mais
um monte de exigências e fica reclamando quando o cara demora pra trazer as
coisas pra ele. Lembro que eu morri de rir lendo aquilo, pensando: "Ah não, os
caras só podem estar de sacanagem". Pior que tem um monte de livros que
fazem parte do cânone da Bíblia com passagens muito engraçadas (Daniel é um
deles). Vários dos escritores da Bíblia tinham um senso de humor refinadíssimo.

O senso de humor de cada época e cultura é diferente, claro. Quem lê a Bíblia


sem saber dessas coisas pode se ofender ou não entender que eles estavam
tirando com a cara das pessoas em algumas passagens e acabar levando a sério,
haha. Daí a importância de ler comentários de exegetas, como os primeiros
padres da Igreja, que tinham familiaridade com a cultura daquele tempo.

Bom, meu anjo guardião é bacana e acho que vamos nos dar bem. Nosso
encontro foi breve (mas memorável) na primeira vez que fiz a operação.
Pretendo que dessa vez conversemos mais e de forma mais clara. Se ele quiser, é
claro. Quem decide é Deus.

Claro que também é uma experiência assustadora. Eu senti muito medo da


primeira vez e vou sentir de novo. Vou ficar aterrorizada, com o coração
batendo forte, suando, derramar lágrimas (é sempre assim, não adianta).

Só de pensar nisso já sinto uma emoção muito forte. Por um lado, fico
pensando que como estou fazendo pela segunda vez eu essencialmente já sei o
que me espera e mais ou menos o que vai acontecer, então não me preocupo
tanto. Por outro lado, eu sou uma pessoa diferente hoje e essa operação foi

69
diferente da primeira em muitas coisas, tanto para o bem quanto para o mal. Por
isso, eu preciso aceitar que não estou no controle.

É como Jesus diz no Apocalipse: "Eu faço todas as coisas novas".

Cara, está acontecendo! Muito em breve vai começar. Apenas mais dois dias e já
começa a grande preparação pela qual tanto esperei.

O que eu tenho a dizer para quem não acredita em Deus e em anjos? Eu não
acreditava em muitas coisas antes de me envolver mais profundamente com
espiritualidade. Depois que me envolvi, é diferente. Depois das minhas
experiências com estados alterados de consciência nas meditações e depois da
primeira vez que fiz Abramelin (que foi mais ou menos na mesma época, aos
meus 17 anos) o mundo mudou para mim.

Mas isso nunca está separado de um senso de sacrifício. A busca pode começar
por mera curiosidade. Eu mesma iniciei com uma curiosidade meramente
intelectual, pois, como eu costumava dizer na época, ninguém próximo ao meu
redor tinha morrido ou ficado gravemente doente para eu "precisar" de
espiritualidade.

Mas espiritualidade não é só pra isso. É um desejo desesperado de entender, não


apenas de forma intelectual ou filosófica, o sentido da vida. Você está disposto a
morrer para descobrir o significado da existência.

Quando criança ou adolescente eu usava muito essa expressão e fazia muito essa
pergunta: "qual o sentido da vida?". Eu ficava surpresa que os adultos não
soubessem. Como, eu me perguntava, alguém consegue continuar vivendo sem
saber disso? Vai viver para que então? Só para se divertir? Essa parecia uma vida
sem sentido.

As pessoas falavam coisas vagas como "o sentido da vida é o amor" e, ok, isso
não está errado, mas isso pode ser interpretado de muitas formas. Eu queria
algo mais específico.

Hoje em dia eu já não falo tanto em sentido da vida, mas na minha missão, pois
se o sentido da vida é o amor, minha pergunta não é qual o sentido da vida e
sim qual a missão que Deus designou para mim nesse mundo. É só isso que eu
preciso saber: de que forma específica Deus quer que eu expresse esse amor. E
que ele seja extremamente claro quanto a isso, quanto ao que ele quer. Se eu vou

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querer ou não obedecer Deus é outra história, é uma questão pessoal minha,
uma luta interna, mas eu não quero que Deus esconda de mim para proteger
minha liberdade. Pois eu só serei livre na minha decisão se eu souber o que ele
quer e eu aceito pagar o preço de saber o que Deus quer que eu faça e recusar.

Pois quando você não faz algo por ignorância a sua punição será menor, pois
você não sabia. Pois eu aceito pagar o preço de ir para o inferno, de
desobedecer Deus recusando o que ele me mandou fazer. Afinal, meu objetivo
não é ir para o céu, ter conforto ou prazer nessa vida ou na outra e sim ter a
consciência tranquila de que eu fiz o máximo possível para viver o melhor
possível. Mas primeiro eu quero saber o que devo fazer!

Explicando melhor: eu não quero ter a consciência tranquila para não sentir
culpa ou sentir uma sensação boa. Eu quero ficar em paz comigo mesma não
porque ter paz me dá uma sensação boa. E sim porque Deus me deu uma
missão e eu quero saber qual é. Irei lutar para cumpri-la.

E sim, será uma luta, com meus egoísmos, prazeres, com as opiniões e amores
das pessoas ao meu redor. O argumento do amor é sempre o mais destruidor e
confuso. Mas entre o amor humano e o amor divino, existe realmente uma
escolha? Bem, é o que meu anjo vai me contar.

Eu acredito que Deus e os anjos existem literalmente e não de forma


metafórica. Eles não são uma parte dos meus sentimentos, meu eu psicológico
interno, etc. Eles são uma parte de mim somente no sentido de que eu tenho
uma alma que veio de Deus e que os anjos também possuem uma. Mas há um
abismo entre o que eu sou e o que Deus (ou mesmo um anjo) é, assim como há
um abismo entre um pecador e um santo. Mas Deus é Deus e pode tornar o
possível impossível, pois a Bíblia diz: nada é impossível para Deus.

Deixando esse ponto claro, eu me preocupo que algumas pessoas busquem uma
existência material para Deus por aí, como se só acreditassem em Deus ou em
anjos se virem uma luz, se ouvirem uma voz, etc. Para mim coisas que mostram
fortemente a existência de Deus é o bem do mundo, é a sensação incrível que
sentimos de conexão uns com os outros e com o mundo.

Há quem prefira interpretar isso tudo como panteísmo, mas meu problema com
o panteísmo é que dizer que Deus está em tudo não é tão diferente assim de
dizer que Deus não está em nada. Se eu disser que há alma em tudo, num
pedaço de plástico, numa molécula, numa mônada de Leibniz, você acaba

71
mudando tanto o conceito original da alma que acaba perdendo um pouco do
sentido do que estávamos falando. Um problema de linguagem, diria
Wittgenstein.

O panteísmo acaba dissolvendo tanto o conceito de Deus a ponto de


transformá-lo numa ideia vaga, numa energia, que é quase uma maneira de
convencer seu próprio ateísmo ou ceticismo de que Deus existe. Mas de que uso
tem esse Deus tão dissolvido agora? É como dissolver um pozinho de suco
numa água e acabar não sobrando muita coisa. Aquilo é mesmo um suco? Pode
te nutrir da mesma forma que o suco real da fruta?

Mas não adianta, somos produto do nosso tempo. Vivemos no século XXI e
para nós o Deus de Abraão, Isaac e Jacó já parece um Deus meio estranho.

Eu acho a filosofia fascinante, mas há épocas em que eu encho o saco de tentar


ganhar uma discussão com bons argumentos, pois é possível vencer
praticamente qualquer discussão se você leu o bastante, conhece as regras do
jogo, os furos dos argumentos clássicos, etc. Mas aí vira apenas um jogo idiota,
não para engrandecer a alma, mas para ganhar a discussão.

Por isso atualmente eu migrei da filosofia para a teologia e da teologia para


coisas mais palpáveis, como ter um relacionamento real com pessoas, ajudar uns
aos outros, etc.

Eu estava farta da Torre de Marfim dos filósofos ou de Marx falando o que os


"proletários" queriam em vez de ele mesmo sair para conversar com eles e saber
o que raios eles queriam de fato, em vez de buscar isso em livros escritos por
filósofos aristocratas e ricos que não sabiam o que os pobres sentiam e
buscavam porque nunca conversaram com eles ou viveram no meio deles.

Tolstói via como a elite de escritores russos, seus amigos, temiam a morte e
como os camponeses simples e pobres encaravam a doença e a morte com mais
naturalidade devido à fé enorme que tinham. E de onde vinha tamanha fé?
Como Deus podia ser uma mentira se ele dava uma força REAL para aquelas
pessoas?

Isso não é apenas autossugestão. Se fosse, seria a maior mentira da história, na


qual acreditaram a maior parte dos maiores pensadores e sábios do mundo.
Como tanta gente teria morrido por uma mentira?

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Deus não é algo que possa ser explicado por argumentos filosóficos. Você
entende Deus ao se emocionar lendo as histórias dos grandes mártires ou vendo
na sua frente como tanta gente simples não teme a morte devido à fé. Isso é
realidade. Isso é muito mais real do que qualquer discussão dos filósofos sobre
argumento ontológico ou qualquer outro.

Sinceramente, eu já não dou a mínima para os argumentos da filosofia se Deus


existe ou não. Que diferença faz? Veja uma pessoa doente na sua frente, uma
pessoa morrendo, veja uma pessoa com uma fé forte o suficiente para morrer
por outra pessoa e aí está o seu Deus. E todos os argumentos da filosofia são
fracos, são nada diante da carne. Por isso a morte de Jesus foi muito mais forte e
poderosa do que o argumento de todos os filósofos. Por isso que comer a carne
e o sangue de Cristo na eucarisita é mais poderoso do que qualquer conversa
pretensamente inteligente sobre isso ou qualquer coisa. É algo que você vê, que
você sente, quando você chora, quando você morre.

Pois a operação de Abramelin também é um tipo de morte. Da primeira vez, eu


tive que dizer para Deus que eu aceitava morrer para ter aquela resposta. Eu
disse que não me importava, pois falei a ele que buscava o sentido da vida
desesperadamente desde os 13 anos e aos 17 anos 4 anos que pareciam décadas
já tinham se passado, se arrastado e eu descobri que sem aquela resposta não
adiantava para mim continuar vivendo, pois sem saber disso a vida para mim
não era nada.

E eu ainda mantenho a mesma opinião. A vida sem Deus não é nada, ou sem eu
saber o sentido da vida, sem saber minha missão. Se for para apenas brincar
nesse mundo prefiro estar morta.

Eu não me importo de ter passatempos, de ir ao cinema, jogar jogos, ler livros,


ter distrações, pois o ser humano precisa de lazer, de descanso. Mas eu quero ter
o direito de descansar somente se estou cumprindo meu dever de realizar a
missão que Deus me deu. Se eu não estiver cumprindo meu dever, eu nego meu
direito ao descanso ou mesmo à vida.

Eu tenho essa convicção dentro de mim e por isso mesmo eu não sinto culpa se
me divirto, se me distraio vez ou outra tirando fotos minhas, comendo comidas
que gosto, vendo séries, etc. Não sinto culpa somente porque estou com a
consciência tranquila de que na maior parte do meu tempo estou, sim,
realizando a missão que Deus me passou.

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Antigamente a minha maior angústia era entendê-la. Agora que sei o que devo
fazer, a coisa que mais me incomoda é precisar ter paciência para cumprir a
missão longa e difícil que Deus me deu, pois como eu já repeti mil vezes vai
levar pelo menos uns quinze ou vinte anos para eu começar a realizá-la. Uma
pequena parte dela já está sendo feita, mas por enquanto é algo muito sutil. Vai
ficar cada vez maior com o tempo e isso me acalma, embora eu fique ansiosa às
vezes.

Claro, eu não sou uma santa e às vezes eu me distraio demais com passatempos,
hehe, mas isso é normal.

A operação de Abramelin está sendo bem importante na minha vida, mas deixo
claro que não é a coisa mais importante da minha vida. E não é só a questão do
cristianismo ou catolicismo versus Abramelin. Tem a questão da minha
consciência.

No momento em que minha consciência (ou na minha interpretação, o próprio


Deus e meu anjo, mas esclarecendo aqui que eles são seres diferentes um do
outro) me esclareceu minha missão, se coisas que Abramelin me manda fazer
contradizem com o que devo fazer da minha missão, claro que minha tendência
é quebrar regras de Abramelin em nome do sentido da minha vida.

Já expliquei isso mil vezes, mas nunca é demais repetir. Eu não estou fazendo
essa operação para provar aos outros que eu consigo acordar todo dia às cinco
da manhã (monges fazem isso a vida toda melhor que eu e não apenas por
meros 18 meses), que consigo rezar três vezes ao dia (monges rezam a Liturgia
das Horas inteira mais de dez vezes por dia, muçulmanos rezam cinco vezes por
dia por toda a vida), que consigo ler livros sagrados (monges, padres,
muçulmanos leem bem mais, etc) e nem nada do tipo.

Estou fazendo porque achei que era importante e necessário nessa etapa da
minha vida repetir algo que eu fiz na adolescência mas com a cabeça de hoje. É
como reler um livro que eu amava na adolescência mas com a vivência de hoje.

Decidi compartilhar esse diário porque acredito que algumas pessoas podem se
identificar. E eu também fico feliz de poder compartilhar, de não guardar só
para mim.

74
Claro que há as partes irritantes de tornar isso público, porque as pessoas te
julgam e ficam apontando seus menores erros, tudo que você está fazendo de
errado.

Alguém poderia dizer, ah, o problema é seu que se importa com o que os outros
pensam de você, pois se você fosse uma santa mesmo não daria a mínima para o
que os outros dizem a seu respeito.

Nesse momento eu clamo: nossa, você descobriu a América! É sério que eu não
sou uma santa? Puxa, por um momento pensei que eu fosse. Obrigada por
deixar isso claro para mim.

Pois parece que as críticas me recordam de apenas uma coisa que eu já sei: eu
não sou uma pessoa perfeita, sou preguiçosa, às vezes prefiro jogar videogame
do que fazer uma oração longa. Mas como disse Jesus, quem nunca pecou, que
atire a primeira pedra.

Tenho certeza de que sou pior que você em várias coisas e tenho extremas
dificuldades em coisas que você tem facilidade. Mas essas são coisas que eu
tenho que superar. Como dizem os orientais, é o meu karma. Você tem o seu,
eu tenho o meu. Eu acho ler algo fácil na maior parte das vezes e nem por isso
fico dizendo que quem não sabe ler e escrever ou quem não gosta de ler é pior
que eu.

Frequentemente penso que meu anjo precisa de extrema paciência para lidar
comigo. E eu agradeço pela paciência dele.

Sim, eu demorei muito para fazer várias coisas na minha vida, para entender
coisas que talvez você tenha entendido e feito já na adolescência ou com vinte e
poucos anos. Mas meu ritmo é diferente do seu. Isso não é uma competição.
Essa é minha vida, a vida que Deus me deu, os aprendizados que ele me deu e
por isso eu a amo.

Deus me deu um Kronos e uma coisa que me orgulho de não ter tanto medo é
de começar algo do zero. De acabar uma etapa da minha vida e partir para a
próxima. Pense como eu me senti quando comecei a ler a fundo sobre
cristianismo aos 26 anos e conversando com pessoas que já conheciam a Bíblia
de trás para a frente desde a infância. Eu já tinha lido a Bíblia toda pela primeira
vez aos 17 anos, na época que fiz Abramelin pela primeira vez, mas nunca tinha

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lido dezenas de livros escritos por autores cristãos da mesma forma que eu tinha
lido os de budismo.

E logo após comecei a fazer outra coisa do zero, e outra e outra. Você se sente
como um bebê, como aprender um novo idioma, esporte ou instrumento
musical. Nós nos sentimos ignorantes, mas somos todos ignorantes diante de
Deus. E por isso eu não me importo, sigo em frente. Enfrentando os
julgamentos das pessoas, mas ainda assim se é o que Deus quer eu não me
importo com os olhares, julgamentos e humilhações.

E essa semana irei me humilhar diante de Deus e do meu anjo com a maior
alegria. Pois não me importo de me ajoelhar. Não quero ser Deus ou tomar o
trono, poder e a glória. Irei me satisfazer ao ficar em silêncio com a alegria de
servir. Tentar ajudar alguém (e ser ajudada sem perceber), mesmo sem receber
dinheiro em troca ou reconhecimento.

Foi uma longa jornada. Mas é apenas o começo. O fim da operação de


Abramelin não é o final de tudo, mas apenas o início de uma nova etapa. É
estranho pensar que alguém que acaba a operação depois ignora tudo e volta a
ter sua vida como antes. Pois algo que eu aprendi lendo diários de Abramelin é
que isso nunca acontece.

Após fazer a operação, sua vida jamais será como antes. Após tantas orações,
leituras, sacrifícios, e principalmente a vivência da semana de ouro, algo dentro
de você muda para sempre.

São Bruno disse:

“O proveito e a alegria que a solidão e o silêncio do deserto trazem a todos os que o amam, só
os que tiveram a experiência podem apreciar”.

E o mesmo vale para Abramelin: somente os que fizeram a operação poderão


entender o quanto que ela nos muda. Mas isso não deve ser reconhecido para
que seja criada uma elite dos que fizeram a operação que a separe dos que não a
fizeram, pois de fato a operação de Abramelin tem esse tipo de status devido ao
seu longo tempo de duração e dificuldade de realização.

Eu diria que deveria ser o oposto, já que um dos objetivos da operação é nos
ensinar humildade. E eu peço, por favor, Deus, me dá humildade. Eu quero que
esse seja um dos maiores tesouros da minha vida. É também um dos mais

76
difíceis de alcançar, principalmente quando você começa a realizar coisas que
sua consciência diz que são boas e santas.

Como disse Holden em "O Apanhador no Campo de Centeio", no momento


em que o ator da peça de teatro se dá conta que ele é muito bom, ele deixa de
ser tão bom.

Eu acho importante mantermos a convicção de que estamos, sim, seguindo o


caminho certo. Mas aquele é nosso caminho, é o caminho que Deus desejou
para nós. Que não julguemos o caminho dos outros, pois não conhecemos a
história de vida das pessoas e não podemos ler seus corações. Quem irá julgá-las
será somente Deus, o anjo guardião dessa pessoa e sua consciência no momento
da morte.

DIA 567

20 de Outubro, Domingo

Ainda bem que ontem eu escrevi bastante, pois hoje eu não terei tempo de
escrever muito.

Tive um sonho. Acordei seis da manhã para fazer minha oração da manhã mas
acabei caindo no sono de novo. E com essas interrupções do sono é comum
termos sonhos.

Não me lembro bem agora. Eu devia ter anotado assim que acordei. Afinal,
sonhos são importantíssimos nessa última etapa da operação.

É que no sábado eu vi alguns vídeos do "Breaking In The Habit", um canal do


Youtube de um frade franciscano que eu não via há um tempo. Isso deve ter
influenciado o sonho.

Um dos vídeos foi bem emocionante, que é ele contando como foi a cerimônia
em que ele foi ordenado padre, que aconteceu esse ano.

Esse tipo de cerimônia emociona. Em um momento do vídeo ele fala que


embora a gente saiba de antemão o que vai mais ou menos ocorrer na
cerimônia, nunca estamos completamente preparados para ela. O título do vídeo
é: "O dia em que minha vida mudou para sempre".

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Eu me identifiquei com isso, pois eu sei mais ou menos como é uma semana de
ouro de Abramelin. Afinal, eu já fiz a operação antes. Mas cada operação é
diferente da outra. E já faz muito tempo.

Então a verdade é que nunca estamos completamente preparados para esse


momento. É quase como a morte. Como diz Schopenhauer, se o sono é a irmã
da morte, o desmaio é sua irmã gêmea. E eu já desmaiei várias vezes ao longo da
minha vida. Mesmo após todos esses ensaios, é claro que a morte é a morte.
Nunca estamos completamente preparados.

Mas isso não é uma coisa ruim. A surpresa, o novo, essas coisas nos assustam e
frequentemente fugimos desses momentos, para não sermos desajeitados e
deixar transparecer nossa ignorância. Mas não tem problema. A vida não tem
ensaio, Deus está assistindo tudo, mas ele sabe que o ser humano é assim:
desajeitado, mas sabe ter um coração de ouro quando realmente quer.

E quanto ao meu sonho? Eu me recordo que em certo momento eu estava


debatendo com alguém sobre a Igreja. Eu também falei da ciência. Eu disse algo
como: "Viu, vocês criticam a Igreja Católica por isso e por aquilo, mas agora
aqui estão os cientistas fazendo exatamente o que vocês criticavam na Igreja!"

Eu poderia usar vários exemplos para demonstrar a verdade dessa frase. Mas eu
não quero falar sobre isso agora, pois no momento estou emocionada com o
que está acontecendo na minha vida.

Na noite desse domingo terminou a Festa das Tendas. Isso significa o mundo!

O quanto esperei por esse dia! Não foi por isso que eu passei por toda a
operação? Mas por que agora sinto um pouco de medo e nervosismo?

Vou deixar claro: uma parte de mim adora sentir esse medo e nervosismo. Essa
é uma das partes mais emocionantes da operação: gerar esse frio na barriga, esse
gelo no corpo inteiro.

Meu Deus, acabei de sentir um gelo enorme percorrendo todo meu corpo. Foi
uma sensação de: "Deus, eu tô muito nervosa, não quero mais continuar essa
operação, socorro!!"

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Sério, essa exata sensação tomou conta de mim agora. E eu não senti isso em
nenhum momento desses últimos dezoito meses".

Deve ser porque só agora eu estou me dando conta que está chegando a hora.

É como uma mulher grávida pronta para o parto ou alguém que está a beira da
morte. A verdade do que está acontecendo simplesmente desaba sobre nossa
cabeça.

Mas sim, eu gosto desse nervosismo. E eu passarei por muitos deles ao longo da
minha vida, já que Deus me deu uma missão difícil.

De qualquer forma, quero ficar em paz com isso. Eu já entendi que um dos
gatilhos de Abramelin é esse frio na espinha. Que também é o gatilho da
meditação e de muitas outras coisas.

Fico pensando o que sente alguém que não acredita em Deus mas resolve fazer
a operação de Abramelin só pelo "mas e se... for real mesmo?". Mesmo para
essas pessoas a operação pode funcionar e de fato há relatos de que ocorreu.

No meu caso, que já tive um contato tão forte com estados alterados de
consciência em meditação, ou que já tive um envolvimento grande com
budismo e catolicismo, imagine o que estou sentindo. E que já fiz a operação
uma vez e sei que funciona.

É por isso que não consigo explicar o meu nervosismo. É algo muito intenso.

É medo de verdade. É medo de derrubar. Estou sentindo muito medo. Estou


apavorada. Quero fugir, quero correr, como se corresse da morte ou do
julgamento divino.

Estar diante do anjo é como estar nu de todas as máscaras que usamos para
esconder as partes ruins de nós. Ele vê tudo. É o anjo guardião que nos
acompanhou por toda a nossa vida até agora e que está, nesse momento, ao
nosso lado.

Mas agora é a hora. Por que mesmo que eu resolvi fazer toda essa operação?
Porque ela estava lá, porque ela é possível. Irresistível.

As palavras estão fugindo. O mundo está desabando.

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Os próximos dias serão chuvosos e um pouco frios. O tipo de dia que não
gosto muito e que me deixa meio triste. Já comentei isso antes.

Mas Deus quis reservar dias assim para o começo da minha semana de ouro. E
Deus faz o que quer.

Se estou feliz? Pulando de felicidade, querendo gritar de alegria. Ao mesmo


tempo, o medo me domina, me deixa sem fala e sem ar. É um medo que
comprime o peito e que me faz ter vontade de chorar.

Mas tudo bem. Tudo já está terminando. Só mais uma semana. E depois...

E depois minha vida simplesmente voltará ao que era antes, não é mesmo? É
claro. Mas haverá algo dentro de mim que terá mudado para sempre. Outra vez.
Pois da primeira vez eu também mudei.

Eu nunca li um diário de Abramelin com uma operação de 18 meses. Somente


de seis. E eu nunca li o diário de alguém que estivesse fazendo a operação pela
segunda vez.

Por isso minha situação é duplamente assustadora. Mas é estranho ter medo de
um ser completamente bom. Por que temer a Deus? E por que temer seu anjo,
que é um mediador? É alguém que acalma nosso coração.

Eu tinha várias coisas para escrever hoje, mas já esqueci tudo. Minha mente
ficou em branco diante desse medo.

Então vou ir direto ao ponto e dar os avisos.

Vou viajar amanhã de manhã. Ficarei lá apenas poucos dias. Não pretendo ficar
completamente isolada. Vou estar sozinha, mas vou usar a internet, dar umas
voltas. Principalmente à noite que será uma solidão mais intensa.

Não sei com detalhes qual será meu cronograma de amanhã. Deixarei que o
Espírito Santo decida e me inspire. Uma das coisas que farei será ler mais do
livro de Abramelin e da Bíblia. De resto, que Deus me comunique o que ele
quer de mim.

Estou bocejando. Estou cansada, com sono.

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Amanhã a aventura começa. É o começo do fim. E mais jejuns.

Eu estou sonhando com os chocolates que poderei comer depois que a


operação acabar? Eu lembro a sensação de comer chocolates depois da
Quaresma, quando chega a Páscoa. É realmente maravilhosa.

Mas eu também lembro a sensação da presença do Santo Anjo Guardião da


primeira vez que fiz a operação. E é algo infinitamente mais maravilhoso do que
comer chocolates na quebra de um jejum.

Por isso tudo, eu aceito os sofrimentos que provo ao longo da minha vida, pois
a recompensa é infinitamente mais doce e vale todas as dores do mundo.

DIA 568

21 de Outubro, Segunda-feira

1º Dia da Semana de Ouro

Essas são as anotações do meu caderno:

Semana de Ouro

1º dia: 21/10/19

Acordei no meio da madrugada com palpitações, pois me dei conta que estava
no primeiro dia da semana de ouro. Que medo que senti! O dia já começou
intenso.

(9:35) Fiz minha oração entre 6 e 7h da manhã. Eu estava tranquila.

Fui até a rodoviária e peguei um ônibus. Ele acabou de sair.

Tem até gente conversando em alemão no ônibus. Consigo entender só uma


coisa ou outra.

Minha letra está meio tremida porque estou escrevendo no ônibus. Olhando a
paisagem pela janela.

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O tempo está bom. Tem uma criança chutando o banco atrás de mim.

Trouxe livros para ler durante a viagem, que não será muito longa.

(10:50) Há momentos da viagem que são muito bons e outros são


desconfortáveis. É incrível como tudo subitamente pode ficar maravilhoso,
como um milagre.

A vida é assim: quando as coisas estão ruins nós nos desesperamos e queremos
fugir. Nós esquecemos os momentos mágicos em que tudo fica mais lindo que
um sonho.

(14:10) No ônibus tive momentos de cansaço, sono e até enjoo. Cheguei meio-
dia.

Estava chovendo, então peguei um táxi direto para o hotel. Está chovendo até
agora.

Eu não me recordava se eu podia almoçar ou não no primeiro dia. No hotel eles


não servem almoço. Procurei restaurantes por meia hora na chuva e só achei
dois, que estavam fechados.

Como estava chovendo muito, eu não insisti na busca e voltei para o hotel.
Quando voltei, reli a parte do livro de Abramelin sobre isso e confirmei: não
devemos comer ao longo do dia, apenas após o pôr do sol ou quando se
finalizam as orações.

Acho que foi Deus quem fez isso por mim, enviando a chuva e me mandando
para um lugar isolado.

Eu me sinto imensamente feliz ao constatar os milagres de Deus nesse primeiro


dia. Sinto que ele está me protegendo e que meu anjo está perto.

Vou voltar para minhas orações.

(19:15) As orações da tarde foram bem difíceis. Eu não estava com vontade de
orar. Não me sentia inspirada ou chamada a isso. Então eu orei para que Deus
me desse vontade de orar. É o que se deve fazer nessas ocasiões.

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Eu estava muito cansada e sem disposição embora, estranhamente, eu não
estivesse com sono. O sono me incomodou um pouco somente pela manhã,
durante a viagem, mas não peguei no sono no ônibus.

Sendo assim, a tarde foi um desafio. Eu começava a orar e depois me distraía.


Também sentia bastante frio além de exaustão. O barulho da chuva e o tempo
nublado, em vez de adicionar uma atmosfera misteriosa, me desanimou.

Não era assim que eu tinha imaginado meu primeiro dia. Achei que eu ia chegar
na cidade, com um sol lindo, iria almoçar, dar umas voltas, ler um livro sentada
num banco de praça. E só mais tarde retornaria ao hotel.

Mas nada disso aconteceu, por causa da chuva. Preciso começar a amar o frio e
a chuva. Não me importo muito com calor (só com os insetos do verão).

Foi só por volta de 6h da tarde, quando parou de chover e a noite caiu que meu
coração se acalmou.

Em geral, eu prefiro a noite para esse tipo de coisa.

Fiz uma meditação em posição de lótus que durou por volta de 40 minutos.
Alterei apenas levemente meu estado de consciência. Eu acho incrível como
meditar é como andar de bicicleta: mesmo que eu fique semanas ou meses sem
meditar (talvez até anos em alguns casos?), meu corpo e minha mente se
lembram, me direcionando para o lugar certo.

Há um instante da meditação em que minha coluna se alinha, meus olhos


piscam (REM) e as coisas acontecem.

A meditação foi maravilhosa e me senti muito grata.

É difícil a cãibra nas pernas que às vezes sinto depois, mas mais de 17 anos de
meditação me ensinaram a lidar um pouco com ela e aprender com ela.

Fiquei contente após meditar. Logo, eu me ajoelhei diante da janela pedindo, se


Deus desejar, a presença do meu anjo (e conversação) na quarta-feira.

Hoje e amanhã eu descobrirei como treinar. Uma preparação para que eu


compreenda quais são as melhores posições, horários e como proceder.

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Logo irei jantar, pois Abramelin (ou Abraão o judeu, que seja) permite uma
refeição depois do pôr do sol.

Mais tarde quero rezar o rosário e ler a Bíblia.

Quero usar diferentes técnicas que aprendi para ver se Deus deseja me enviar
seu anjo. Devo ter paciência e não desanimar.

Farei o que deve ser feito, com a consciência do dever cumprido, independente
do que acontecer.

(21:00) É difícil explicar isso, mas eu já me senti feliz com o pouco que consegui
hoje.

É maravilhoso e mágico estar aqui fazendo essa operação!

Foi importante ter viajado, pois assim como um ritual tira nossa mente do
comum e a passa para o extraordinário, estar em outra cidade e num ambiente
não familiar gera essa atmosfera incomum.

É verdade que Abramelin e Abraão o judeu apontam a importância do altar, de


fortalecê-lo, por 18 meses.

Mas eu aprendi com o cristianismo que meu templo principal é meu corpo e eu
o levo comigo para onde vou.

No livro é dito que nosso anjo está sempre conosco, invisível, e nos guiando
para que possamos fazer as escolhas corretas ao longo da operação. Eu acredito
nisso.

Li um pouco de Isaías.

(23:05) Li mais um pouco do livro de Abramelin. Há algumas coisas que


discordo nele e que não irei seguir. Levaria muito tempo para eu listar tudo e as
minhas razões.

Porém, acredito que irei seguir a essência da operação, conforme a vontade de


Deus, do meu anjo e da minha consciência.

Já é tarde. Devo dormir para acordar cedo no segundo dia.

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DIA 569

22 de Outubro, Terça-feira

2º dia: 22/10/19

(8:00) Fiz a oração da manhã entre 5 e 6h. E agora tomei um banho gelado para
acordar. 13 graus e continua chovendo.

(9:45) Dei uma saída para comprar duas garrafas d'água de 1,5L. Quando faço
jejuns, mesmo curtos, sinto muita sede. Do ponto de vista médico, ficar sem
comer por 6h (eles arredondam para 8h nos exames para garantir) já é
considerado jejum.

Fiz mais uma oração agora de manhã. Li um pouco dos salmos. No livro de
Abramelin é recomendada entusiasticamente a leitura dos salmos durante a
operação.

A escolha da cidade foi ótima, pois estou hospedada num local relativamente
isolado. Raramente vejo uma pessoa na rua, ainda mais com essa chuva. O
motorista do táxi disse que a cidade é tão segura que se você andar por aí com
uma nota de cem reais na mão, não vai acontecer nada. As pessoas só vão achar
estranho.

Hoje estou achando a chuva poética e romântica. Ontem eu estava desanimada


para orar (secura espiritual), mas hoje estou entusiasmada. Deus atendeu minhas
preces!

Claro que a refeição à noite e uma boa noite de sono ajudou para eu recuperar
minhas energias.

(10:35) Eu tenho um pouco de receio de fazer jejuns que durem 24 horas ou


mais quando estou completamente sozinha, pelo risco de eu passar mal ou
desmaiar. Por isso, mesmo sendo a semana de ouro, não vou exagerar. Preciso
escolher: ou o jejum ou a solidão. Nem sempre é uma escolha fácil.

Li mais um pouco dos salmos.

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(13:50) Estou com diarreia. Não falei que as restrições de comida de Abramelin
me fazem passar mal? Fim de semana passado tive diarreia pelo mesmo motivo
e no outro também. Sobram poucas opções de coisas para comer e às vezes
preciso optar por coisas que não estou acostumada.

Eu sabia que isso ia acontecer: Eu pensei: "não vou fazer as restrições porque já
fiz da primeira vez e passei muito mal", mas então concluí: "OK, ao menos no
último mês e na semana de ouro vou fazer..."

E agora, Abramelin? E se eu passar mal amanhã enquanto estou chamando meu


anjo?

Estou frustrada e triste. Eu não vou aguentar ficar com essas restrições por mais
tempo. Claro, só faltam poucos dias. Até domingo eu aguento.

É revoltante. É muito triste fazer a operação por 18 meses e depois não finalizá-
la direito porque as restrições de comida recomendadas por Abraão o judeu me
fizeram passar mal.

Mas calma. Quem sabe isso venha para o bem. Quero acreditar nisso. Vamos
esperar.

Terminei de ler dois livros de Scholastique Mukasonga: "Nossa Senhora do


Nilo" e "Baratas". Gostei muito. Foram leituras intensas e ideais para o final da
operação. Justamente o que eu precisava.

(16:15) Fiz mais orações e mais leituras dos salmos nessa tarde.

(17:05) Li um pouco de "Recordações da Casa dos Mortos" de Dostoiévski.


Está muito interessante, sobre a vida dos presidiários russos (ele mesmo já ficou
preso por alguns anos, então é um livro parcialmente autobiográfico). É muito
engraçado também. Foi o único livro que me restou além da Bíblia e do livro de
Abramelin, agora que terminei os dois da Mukasonga. Acho que sobrevivo só
com ele até quinta, já que tem 300 páginas.

Vou voltar para e leitura dos salmos agora e em seguida iniciar minha oração e
meditação do fim da tarde, perto da janela, para ver meu anjo brilhar!

(17:35) Início da meditação.

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(18:15) Fiz 40 minutos de meditação. E agora irei orar. Curioso que nessa
meditação ocorreram coisas que nunca tinham acontecido antes em meditações.
Vi uma forma que estava girando. A primeira coisa que pensei foi "asas de
anjo", mas não sei.

(18:20) Ah cara, a meditação anterior foi tão boa que vou fazer outra. Rale-se.

(19:05) OK, eu "apenas" acabei de ter uma das experiências mais extraordinárias
da minha vida.

Fiz mais uma meditação de 40 minutos, sem grandes expectativas. Mas muita
coisa aconteceu.

Tive outra visão das asas na meditação. Mas elas não estavam girando dessa vez.
Elas se abriam.

1ª visão (fiz o desenho no meu caderno)

2ª visão (desenho)

Pedi pela presença e conversação do meu anjo guardião amanhã.

Ah, mas pedi que no dia de hoje meu anjo pelo menos me desse um sinal.

"Eu estou aqui" ele me disse.

Eu me dei conta que meu anjo sempre esteve ao meu lado. Apenas invisível e
silencioso.

Mas ele tinha mesmo falado comigo ou era só uma voz da minha cabeça?

Resolvi perguntar.

"Eu estou aqui" ele repetiu.

Isso me fez lembrar a cena em que o anjo repete exatamente a mesma frase para
os pais de Sansão na Bíblia.

Ele me pediu para acreditar, para ter fé.

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"Acredite"

Eu, ainda em meditação, abri os olhos e olhei ao redor para ver se ele estava lá
mesmo.

"Eu estou te preparando para amanhã. Eu estou aqui. Não é só uma voz da sua
mente"

Aconteceu outra coisa estranha nessa meditação. Meu corpo pendeu para trás,
empurrado por uma força, e eu caí deitada.

No instante em que abri os olhos e olhei para o teto... não, não foi meu anjo que
eu vi. Eu ouvi o barulho de uma furadeira.

Eu pensei: "tomara que esse barulho não aconteça amanhã, quando vou chamar
meu anjo".

Mas eu me dei conta que aquele barulho não estava me incomodando. Não
estava atrapalhando e não fazia a menor diferença ter barulho ou não. Já meditei
incontáveis vezes com barulho no fundo para me incomodar com isso.

Voltei para a posição de lótus. Fechei os olhos e senti um tipo de pressão no


peito, no coração.

Ainda de olhos fechados, eu distingui a silhueta de um anjo, como aparece nas


pinturas medievais. Acho que ele queria assumir uma forma que eu
reconhecesse e me deixasse à vontade. Não sei qual é a verdadeira forma de um
anjo ou se eles têm uma verdadeira forma, já que eles habitam em Kairos e não
Kronos.

Ele estava perto de mim, todo branco, levemente transparente. Havia o formato
de duas asas, veste branca comprida, cabelos e pés descalços. Não vi o rosto.

Ele brilhou. Mas eu não me impressionei, pois a dúvida tomou meu coração. Eu
perguntei:

"Você disse que está falando mesmo comigo. Que não é só uma voz da minha
cabeça ou imaginação minha. Mas eu queria saber se eu estou te vendo mesmo
ou se eu só imaginei ou inventei essa imagem. Eu acho estranho, pois não
parece que estou te ouvindo mesmo, porque eu ouço os sons de fora: pássaros

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antes do anoitecer e agora os sons da noite. Por que quando eu abro os olhos eu
não te vejo? Por que eu só te vejo com os olhos fechados? Quando fecho os
olhos vejo uma tela negra, coisas girando, até asas girando. Mas a sua imagem
não está na tela negra, mas em outro lugar"

Eu via o anjo com clareza. Ele estava com um dos joelhos apoiado no chão e
brilhava. Não vi a cor d cabelo e nem da pele, ou o tipo de cabelo. Nada disso
estava claro por causa do brilho. Ele parecia não ter rosto, ou eu não vi o rosto
ou expressão.

O anjo me explicou:

"Não se preocupe com nada disso. Eu estou te preparando para amanhã. Mas
tudo isso é completamente real. Não duvide"

Está bem, decidi.

"Tenho fé. Eu acredito" eu disse.

Deus às vezes nos deixa numa zona cinzenta, numa névoa, num véu, para testar
a nossa fé.

Confesso que minha experiência de ontem foi tão tímida que comecei a duvidar
e ter medo que meu anjo não fosse aparecer nessa operação. Na minha primeira
operação inicialmente eu vi uma luz vermelha brilhando forte, mas dessa vez
está tudo diferente.

É comum nos diários de Abramelin que se relate que o anjo demora


inicialmente para aparecer, para testar a nossa fé, nos deixar numa noite escura,
que nos amadurece. É o momento de atravessar o abismo, de saber se vamos
desistir ou seguir em frente.

Com a experiência de hoje meu anjo confirmou: ele vai aparecer amanhã. Já
temos até um horário marcado: entre 6 e 7h da noite.

Nem tenho palavras para dizer o quanto estou feliz.

Gente, será que eu pergunto pra ele se posso ligar o celular amanhã para
tirarmos uma selfie juntos? Brincadeira, hehe.

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Ah sim, esqueci de dizer! Antes de começar a meditação eu disse para meu anjo:

"Aceito morrer por Deus e por você, meu anjo guardião. Dou minha vida,
minha mente, meu corpo, minha alma, meu coração"

Voltando à descrição, depois que meu anjo esclareceu que tudo aquilo era real,
ele também disse:

"Será necessário manter silêncio sobre certas coisas que vou te contar"

Eu falei:

"Estou escrevendo um diário de Abramelin. Como vou saber o que posso


contar e o que não posso?"

Meu anjo respondeu:

"Não se preocupe, você saberá"

Aceitei essa resposta e fiquei mais tranquila, pois eu tinha medo de ofender meu
anjo contando o que não devia.

"Eu tenho muitas perguntas para te fazer" eu disse "Já posso fazer algumas
delas hoje ou pergunto amanhã?"

"Por que você tem perguntas?" me perguntou o anjo. "Saber que Deus te ama e
que eu te amo não é o bastante? Você quer saber sobre o futuro?"

Eu nunca tinha me questionado sobre o fato de eu ter perguntas. Sempre achei


natural.

Eu disse:

"Eu sei que Deus esconde certas coisas para respeitar nossa liberdade. Mas eu
tenho uma lista de perguntas, dentre elas umas cinco bem importantes que seria
fundamental eu saber a resposta para ter certeza sobre minha missão"

Listei minhas perguntas. Assim que terminei, em vez de responder, meu anjo me
abraçou!

90
Eu não esperava por isso. Imediatamente, comecei a chorar. As lágrimas caíam
de meus olhos como água.

Uma observação: eu não imaginava um anjo abraçando alguém, pois não há


relatos disso na Bíblia e minha imagem de como um anjo se porta é bíblica. Mas
acho que não é estranho que um anjo faça algo que Jesus, o próprio Deus, faria,
e Jesus tocava as pessoas e chorava.

Qual era a importância das minhas perguntas diante daquele abraço? Pensando
bem, nenhuma.

Eu me sentia completa. Mesmo assim, eu precisava entender.

"Então você não vai responder nenhuma das minhas perguntas?"

O anjo ficou em silêncio.

Resolvi repetir duas delas, bem importantes. Meu anjo não disse nada.

"Esse silêncio significa que estou no caminho certo? Que só preciso continuar
fazendo o que estou fazendo agora e com o tempo isso será esclarecido?"

O anjo não respondeu.

"E sobre minha missão?" perguntei. "Eu entendi certo? Ou é outra coisa? Se for
outra coisa, é só me dizer que eu paro imediatamente o que estou fazendo e
faço a outra coisa!"

Ele não respondeu.

"OK, e sobre religião?" perguntei.

Dessa vez, para a minha surpresa, meu anjo me respondeu com clareza.

Eu não posso colocar a resposta aqui, mas fiz umas três perguntas sobre isso.
As respostas me deixaram assombrada.

Percebi que ele só iria me contar isso hoje. E foi uma grande revelação.

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Amanhã eu não sei exatamente o que vai acontecer e o quanto ele vai me
contar.

Será que eu preparo uma lista de perguntas para não esquecer nada? Ou
pergunto o que vier no meu coração na hora? Não sei.

Só sei que depois de hoje minha fé aumentou muito. Que presente precioso!

Amanhã será maravilhoso.

Minha fé não é tão forte como eu pensava antes. Nós somos testadas em
ocasiões como essas. Fui tão cética que questionei se o que vi e ouvi não eram
imaginação minha. Mas como poderia ser, diante da emoção que senti?

(19:45) Agora vou pedir uma janta. Eu quero me lembrar de perguntar para meu
anjo amanhã sobre a questão da alimentação: o que é ou não permitido.

(21:55) Para amanhã, não esquecer do pano do batismo!

(22:07) Meu Deus, eu não consigo fazer mais nada hoje, socorro! Essa
experiência foi demais para o meu coração.

DIA 570

23 de Outubro, Quarta-feira

3º dia: 23/10/19

(7:30) O sol está entrando pela fresta da janela do anjo de forma mágica hoje,
após dois dias de chuva!

Tomei outro banho gelado, haha.

(14:12) Consegui chegar ao centro do Labirinto de Nova Petrópolis!

Hoje abriu o sol e eu senti que devia sair um pouco do hotel e explorar os
arredores após dois dias praticamente trancada no hotel por causa da chuva.

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Senti que a chuva foi uma forma de Deus sugerir que eu devia ficar em reclusão
para oração nesses dois dias. E isso foi fundamental, eu sinto, para meu anjo
aparecer ontem.

Hoje eu já estou um pouco mais tranquila. Mas agora vou voltar para o hotel, ler
mais salmos e orar mais um pouco.

(17:08) Eu não aguento mais passar mal e ficar doente por causa das restrições
alimentares de Abramelin.

Por motivos de saúde, penso em retomar minha alimentação normal assim que
terminar a semana de ouro, no domingo.

Ele manda ficar em jejum na semana de agradecimento, mas isso não faz
sentido nenhum. Em dias de celebração, como os domingos no cristianismo, até
durante a Quaresma nos mosteiros eles comem sobremesas.

OK, eu entendi que ele recomenda manter o jejum porque após a semana de
agradecimento começa o uso dos quadrados mágicos.

Só que a lógica de jejuar dos judeus é diferente da dos cristãos, porque Jesus
disse: "não é o que entra pela boca do homem, mas o que sai que o torna
impuro".

Sério, estou muito cansada após esses 18 meses. Estou no meu limite. Eu só
quero poder comer e dormir. Ter um pouco de liberdade.

Nas quatro vezes em que fiz retiros de um mês em mosteiros também passei
pelo sofrimento de ter que ficar sem comer quando estava com fome ou ter que
comer quando não tinha fome. Alimentos que eu nem sempre gostava. Parece
frescura, mas só quem passou por isso sabe. Estar com diarreia e ter que comer,
sei lá, iogurte, leite, sobremesas, para piorar ainda mais, porque não tem outra
opção.

(17:55) Fiz mais algumas leituras da Bíblia.

Para essa noite especial, vesti a roupa branca que usei no meu batismo. Como
nos outros dias, estou usando meu tapete muçulmano.

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Além do óleo, dessa vez teremos uma novidade: vou usar o pano branco que
usei na renovação do meu batismo para ofertar os biscoitos para meu anjo.

(18:10) Rituais de purificação prontos. Lavei o rosto e as mãos. Estou no meu


tapete e enrolei os biscoitos no pano branco. Vamos começar a meditação.

(19:40) Tudo durou 1:30, mas pareceu muito mais.

Ontem eu não imaginava que meu anjo fosse aparecer, mas ele apareceu. Eu vi a
forma brilhante!

Hoje eu achei que ia ver mais dele, mas a conversa ocorreu de outra forma.

Eu não calava a boca. Lá fui eu com minhas perguntas. Ele não respondia e nem
se mostrava.

Foi então que eu entendi: eu precisava escutar e não falar.

Comecei a meditação com minha oração. Disse que estava disposta a morrer
por Deus.

Recordei a Deus e a meu anjo todas as vezes em que meditei por longas horas
sofrendo e com dores horríveis. Falei das vezes em que rezei o rosário várias
vezes por horas seguidas até sentir dores insuportáveis nos joelhos e não ser
mais capaz de ficar em pé por causa da dor.

Falei outras coisas que já fiz e já sacrifiquei, mas listei também meus erros. Disse
que me arrependia e pedi perdão.

No começo, meu anjo não estava amoroso como ontem. Ele estava sério.

Ele me disse: "Eu vou te falar porque existe dor e morte no mundo. Eu vou te
mostrar"

Ele estava com um ar grave e sombrio. Eu aceitei o que ele me disse.

Eu senti muitas coisas. Ontem eu chorei de alegria, mas hoje chorei muito de
tristeza.

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Eu me lembrei que preciso morrer para renascer. Que preciso dar minha vida
por Deus e ser séria em minha missão.

Senti dores na perna da meditação, mas isso não era nada.

Fiz minhas perguntas de novo. Diante da minha insistência (como Abraão


insistindo com Deus para que ele salvasse os habitantes de Sodoma), para meu
espanto, ele respondeu algumas coisas que não respondeu ontem, mas não
tudo.

Quando eu perguntei sobre a minha missão, ele perguntou: de todas as coisas


que eu tinha listado, qual era a mais importante para mim.

Eu respondi, de imediato, sem nenhuma dúvida.

Pois então, ele disse, é isso.

Ele confirmou! Fiquei repleta de alegria.

Perguntei um ou outro detalhe. Algumas coisas ele disse sim, outras que eu
deveria esperar mais um pouco para termos aquela conversa de novo.

Eu imaginava que hoje eu o veria com mais clareza e que ele não responderia
minhas perguntas, mas foi o contrário. Ele respondeu quase tudo. No final, eu
pressionei mais um pouco e ele respondeu uma última coisa.

E, porque eu pedi, ele me deixou ver mais de si, incluindo de olhos abertos.

Meu anjo estava na minha esquerda, como ontem. Eu vi alguns detalhes dele na
escuridão, como sombras, mas sem o brilho.

Eu insisti várias vezes para que ele comesse os biscoitos, mas ele não comentou
nada sobre isso. Resolvi comer dois para encorajá-lo, mas ele não se manifestou.
Ele parecia tão sério ao querer me falar sobre dor e morte que ignorou os
biscoitos!

Mas no final ele já estava com um ar mais leve e em certo momento percebi que
ele sorriu para mim.

Ontem eu não vi o rosto dele. Mas hoje eu sei que ele sorriu.

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Ele também me orientou como proceder amanhã, na etapa de chamar os
espíritos. Perguntei se eu deveria prosseguir nessas etapas e ele disse que isso era
necessário para eu fortalecer minha disciplina.

Quantas revelações! Não foi nada do que eu esperava, mas foi incrível mesmo
assim.

Ele me disse que mais coisas ocorrerão nesses próximos três dias. Entendi que
foi por isso que ele não me mostrou tudo de uma vez.

(20:03) Estou cansada. Esses momentos são desgastantes. Mas tudo vale a pena.
Foi maravilhoso!

Chorei um monte ontem e hoje. Tive meditações extraordinárias. Não sei como
agradecer a Deus o bastante. Mas por que eu sou tão ávida e quero mais e mais?

(21:08) Acho que eu não tinha mencionado, mas meu anjo me deu autorização
para quebrar o jejum na semana de agradecimentos, já que não está me caindo
bem.

Mas ele pediu que eu o mantivesse nos próximos três dias. Então vou manter.

Como saber se é nosso anjo falando conosco ou apenas uma voz da nossa
cabeça? Podemos perguntar, como eu fiz. Na verdade existem vários livros
escritos por padres medievais com o título "Discernimento dos Espíritos". Eles
tratam exatamente desse tema. Também como discernir entre bons e maus
espíritos.

Mas há outra resposta: em certos momentos, nós simplesmente sabemos que


aquela é a verdade. Não há explicação. Você apenas... sabe.

(21:29) Hoje, conversando com meu anjo, eu me dei conta que é meio idiota eu
usar a desculpa de que tenho que esperar e ter paciência para realizar minha
missão e outras coisas que quero fazer. Para certas coisas na vida precisamos
esperar mesmo, mas em outras já podemos adiantar algumas partes.

Tenho que parar de culpar os outros e as circunstâncias e assumir a


responsabilidade pela minha vida.

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DIA 571

24 de Outubro, Quinta-feira

4º dia: 24/10/19

(5:00) Tive um sonho estranho. A cadelinha da minha mãe teve um filhote e em


seguida o comeu. Não conseguimos fazer nada a respeito.

O que será que significa?

Ah! Acho que entendi. Tem relação com uma pergunta. Meu anjo respondeu
minha pergunta durante o sono. Que máximo!

Meu anjo me disse ontem: "A sua missão é aquela que você brilha mais fazendo.
Deus quer te ver feliz e se coloca um desejo em seu coração não é por acaso".

(6:00) Tive outro sonho. Era uma autópsia...?

(17:45) Voltei para Porto Alegre às 13h e às 14h eu estava em casa.

Passei boa parte da tarde digitando os registros dos meus três primeiros dias em
Nova Petrópolis, até aqui.

A partir de agora, irei digitar diretamente. Já vou me preparar para o início da


noite do quarto dia.

(18:25) Início da meditação, que durou 1h.

Primeiramente eu chamei meu anjo. Ah, sim, o cheiro do incenso encheu o


quarto! É curioso como apesar de termos tantas tecnologias hoje, o ser humano
ainda se fascina tanto com o fogo.

Que as minhas preces subam para Deus como o incenso! Meu Deus, esse
incenso é forte, acho que coloquei demais.

Esses dias, e também hoje, houve um momento em que fiquei em posição fetal.
Essa posição é única para orar. Afinal, foi o próprio Deus que criou essa
posição para nós e era assim que estávamos no princípio de tudo. Até para

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dormir essa posição é estranhamente confortável.

É difícil descrever a experiência de hoje. No segundo dia foi algo maravilhoso e


surpreendente, com lágrimas de felicidade. Afinal, foi uma surpresa agradável, já
que eu não esperava que meu anjo fosse aparecer já no segundo dia!

No terceiro dia eu tinha expectativas mais altas, achando que ele ia se mostrar
ainda mais. Mas meu anjo decidiu me dar uma experiência diferente e fazer com
que eu sentisse um pouco da dor do mundo, para eu entender.

Ainda assim, ele me mostrou um pouco mais de si e até respondeu coisas que
não achei que ele diria.

Hoje também houve momentos emocionantes. E, sim, também derramei


algumas lágrimas.

Eu estava me sentindo aventureira! Logo no começo da meditação meu anjo já


foi falando comigo. Ele parecia um parceiro de batalha!

Estávamos juntos ali e podíamos contar um com o outro. Eu comecei com um


pouco de medo, rezando a oração do anjo da guarda, uma Ave Maria e um Pai
Nosso. Claro, também fiz minhas orações de costume, confessando meus
pecados, perdoando, agradecendo, pedindo proteção para várias pessoas, etc.

A seguir, eu me certifiquei de que a operação de hoje seria realizada conforme a


vontade de Deus. Porque, eu disse, se houvesse algum mal no que eu iria fazer,
eu não queria que nada daquilo fosse realizado e eu não iria prosseguir.

Meu anjo me tranquilizou e me assegurou de que não havia perigo.

A novidade de hoje foi escrever os nomes dos quatro reis: Lucifer, Leviathan,
Satan e Belial (ah, nada demais, aposto que você escreve os nomes dos quatro
reis o tempo todo!) e levar o bastão comigo.

Na verdade, eu não tinha bastão, pois não me lembro onde guardei o meu.
Então eu usei aquele que eu mandei fazer para o curso do Peter Carroll de
invocação dos Grandes Antigos de Lovecraft. Espero que o Pete não se importe
se um dia souber que usei a varinha para chamar os demônios na operação de
Abramelin. Eu diria que ele ficaria honrado, mas nunca se sabe.

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Então, o início de hoje ocorreu com estilo. Senti como se estivesse fazendo algo
grande e importante. E digamos que fiz.

Eu não tinha prosseguido até essa etapa da operação da primeira vez. Quando
fiz Abramelin em 2004, eu fiz apenas os três primeiros dias da semana de ouro,
em que chamamos o anjo.

E ele veio. Também foi a primeira vez que alterei profundamente meu estado de
consciência numa meditação, e derramei muitas lágrimas.

Infelizmente eu joguei fora o caderno com as minhas anotações dessa época. Eu


não cheguei a fazer um diário, mas eu anotei várias coisas alguns dias antes da
semana de ouro e durante.

Eu lembro apenas de algumas coisas, mas não de tudo. O anjo veio e me disse
várias coisas importantes. Eu simplesmente não senti a necessidade, na época,
de prosseguir para as próximas etapas, pois eu não tinha o menor interesse em
usar os quadrados mágicos.

Confesso que eu tampouco tinha interesse nos quadrados dessa vez. Porém,
meu anjo sugeriu que eu prosseguisse e eu obedeci.

Afinal, estou fazendo pela segunda vez e foram três semestres de preparação.
Seria realmente legal se tivéssemos novidades adicionais dessa vez.

É claro que eu não queria fazer nada que fosse contra a vontade de Deus ou
mesmo nada contra minhas próprias convicções e consciência.

Não foi o caso. Nada do que senti hoje me sugeriu que eu estivesse fazendo
uma coisa errada. Pelo contrário, pareceu algo natural.

Por um momento eu fiquei apenas com meu anjo, naquela atmosfera


reconfortante. Pedi sua proteção.

Ele, novamente, estava do lado esquerdo. E em certo momento, eu senti que era
a hora de chamar os quatro reis.

Num primeiro instante, eu não senti a presença deles. Eu apenas ouvi sons
estranhos.

99
Eu ouvi claramente sons de respiração ou de um chiado. Logo os sons
mudaram um pouco, mas definitivamente aquilo nem pertencia ao anjo e nem
era um som normal do ambiente. Tive certeza da proveniência.

Não fiquei nervosa. Não me senti ameaçada. Prossegui com minha fala com
confiança, falando sobre o poder de Deus e que eu queria que aquilo fosse feito
para que minha missão de servir Deus fosse realizada de forma boa.

Não vi a forma dos reis com clareza. Havia um pouco de sombra. Talvez um
pouco da cor negra e vermelha, mas quanto a isso não tenho certeza. Mas havia
formas, tanto de olhos fechados quanto abertos. Eu apenas não as distingui.

O momento definitivo e que confirmou a presença dos quatro foi quando


segurei o bastão e disse para que eles jurassem.

Senti, de imediato, uma pressão no bastão, que fez um movimento para baixo.
Nesse instante, senti uma grande emoção.

O bastão baixou exatamente quatro vezes. Quanto a isso, tenho extrema


convicção e nenhuma dúvida. Isso realmente ocorreu e não fui eu que fiz o
movimento para baixo.

Aquilo foi uma confirmação do que havia acabado de acontecer. Eu orientei os


quatro para retornarem no dia seguinte com os oito duques.

A seguir, disse que eles poderiam retornar para o reino deles, em paz.

Eles retornaram. Meu anjo confirmou e a partir daí eu requisitei mais um


momento com meu anjo para prosseguirmos nossa conversa.

Eu tinha duas coisas principais em mente: ver um pouco mais do anjo e repetir
algumas perguntas para as quais eu ainda não tinha uma resposta clara.

Meu anjo me disse para que eu não me preocupasse. As coisas estavam corretas
daquela forma.

"Mas como?" eu disse "Eu entendo minha missão. Mas me causa angústia não
saber dos detalhes. Eu não quero me desviar. Sei o que devo e o que quero
fazer, mas às vezes sou assombrada pela perspectiva de não poder seguir outros
caminhos. Porque a vida humana é como um sopro, dizem os salmos".

100
Meu anjo entendeu meu dilema.

"A duração da vida humana está certa como está, por enquanto" ele disse.

"E quanto aos alimentos?" perguntei a ele "Os vegetarianos e os vegans estão
certos? Eles evitam comer carne e produtos de origem animal, pelos animais e
pelo meio ambiente. Mesmo no caso de alguns deles sofrerem algum problema
de saúde e encurtarem as próprias vidas. Mas os santos também não fizeram
isso? Morreram cedo pelo que acreditavam: por Deus"

A resposta do meu anjo foi direta:

"Toda escolha de alimentos tem um peso. É um equilíbrio, é um teste. Alguns


alimentos encurtam a vida, outros mostram misericórdia pela vida dos outros.
Mas o ser humano não está vivo para ter uma vida longa ou muita saúde, mas
para servir Deus e os outros, com amor"

Aquela resposta do anjo me deixou claro: sim, existem escolhas alimentares que
demonstram mais compaixão. E não é nenhum engano, não é um erro que os
seres devam matar uns aos outros para viver.

Na Bíblia há a história do jardim do Éden, que explica uma parte de toda essa
história. Mas após essa conversa com meu anjo, eu entendo um pouco mais o
significado disso tudo.

Vivemos num mundo que venera a saúde, mas como não venerar, se a dor física
é algo tão insuportável? Quando minhas pernas doem durante a meditação,
quase dá vontade de vender a alma para o diabo ou aceitar morrer se aquela dor
terminar.

Como o ser humano pode ser tão fraco e ao mesmo tempo tão forte?

"E o sexo?" perguntei "As pessoas podem pegar doenças. Você corre o risco de
encurtar a própria vida pelo amor a outra pessoa. Também é uma questão de
equilíbrio, de fazer escolhas entre o amor próprio e o amor aos outros?"

Meu anjo disse: "Com frequência você responde suas próprias perguntas".

Achei graça quando ele disse isso. É verdade.

101
Eu: "Mas eu pergunto mesmo assim para me certificar se não há algum erro nos
meus pensamentos. No segundo dia você me surpreendeu com o que falou
sobre religião"

Para mim, essa é uma das questões mais difíceis do mundo: nós queremos ter
saúde e uma vida longa e dar isso aos outros. Mas se Deus é mais importante...

Pensando bem, isso não é necessariamente contraditório, já que há diferentes


formas de servir Deus. E, ainda assim...

Após ele responder algumas perguntas, eu pedi para ver mais do anjo. Ele talvez
esteja cansado desses meus pedidos, que a cada dia parecem mais fúteis.

Qual é a diferença eu ver mais dele? Ele já não me mostrou o bastante? Até
encostou em mim.

Mas ele satisfez a minha curiosidade. Dessa vez eu pude ver alguns flashes. E,
por um breve instante, o rosto dele, mas foi muito rápido.

Honestamente, eu me sinto um pouco culpada por essa curiosidade idiota. Na


verdade, tanto meus pedidos para vê-lo quanto minhas perguntas parecem ter a
cada dia menos importância.

O que é mais importante que amar Deus e aos outros, e servi-los? Mas é claro
que cada ser humano possui seus desejos e sua dignidade: uma alma. E Deus
respeita isso.

Deus criou uma missão para cada ser humano, mas não para torturá-los com
algo que não querem fazer e sim para que suas vidas brilhem mais.

Às vezes nós queremos fazer uma coisa porque é mais prazeroso e confortável.
Quando Deus nos dá nossa missão, ele leva em consideração os nossos desejos
sim. Ele não cria uma missão do nada. Há momentos em que ficamos confusos
quando aprendemos nossa missão muito cedo.

A nossa missão é uma mistura dos desejos de Deus para nós e da nossa
vontade. Então criamos esse equilíbrio entre o que nós queremos e o que Deus
quer.

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Nunca fazemos completamente o que Deus quer, porque não somos perfeitos.
Mas Deus aprecia nossos esforços desajeitados em desejar caminhar em sua
direção, como filhos que ainda não aprenderam a andar e precisam se apoiar nos
pais.

Meu anjo acha que os quadrados podem me ajudar a ter mais disciplina e
confiança no meu caminho. Pois sou insegura. Enquanto eu não tenho certeza
do que Deus quer, vivo com medo de desviar, pois sei que sou fraca.

Mas meu anjo me disse para me tranquilizar. Eu devo ser séria no que eu faço, é
claro. Mas há o outro extremo do desespero e eu estou caindo nele ficando
ansiosa.

Ele disse que está bom como estou fazendo (não perfeito, mas razoável o
bastante!). Então está. Ele não tinha, até agora, nenhuma advertência urgente
em relação à minha vida. Apenas pequenas correções, que eu reconheci como
certas.

Amanhã e depois de amanhã serão apenas a conclusão dos juramentos. No meu


entendimento, as etapas mais importantes já foram feitas. Por isso, não tenho
grandes expectativas para os próximos dias, além de uma formalidade.

Vamos esperar. Meu anjo me mandou ficar em jejum não apenas hoje, mas nos
três dias, então vou obedecer e ver o que me aguarda.

Mas eu não somente aguardo como uma espectadora passiva. Eu sou a


protagonista dessa jornada.

Achei curioso que os demônios não me disseram nada. Não tentaram me


assustar e obedeceram imediatamente. É melhor ficar alerta, pois amanhã pode
não ser igual a hoje e provavelmente não será. Pois nesses quatro dias, cada um
foi enormemente diferente um do outro. Cada um com sua própria beleza e
decepções, mas assim é a vida.

Eu não estava esperando um evento grandioso e sobrenatural, mas algo


realmente discreto. E para quem estava com medo que não acontecesse nada, eu
diria que aconteceu muito, mas muito mais do que nada.

Eu tenho, como vocês sabem, certo treinamento em meditações e orações e


tenho uma ideia de como me portar quando algumas coisas dão errado. Eu

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aprendi formas de direcionar meus pensamentos e emoções para desencadear
alguns efeitos, mas é claro que nessa operação eu não me vi no controle. Eu
estava naturalmente nervosa, esperando.

Para quem não tem esse treino, não precisa se preocupar. Você terá seis ou
dezoito meses (dependendo da modalidade da operação que escolha realizar)
para treinar o que fazer em situações de tensão, medo e secura espiritual.
Quanto a isso, acho que ninguém precisa se preocupar seriamente. Apenas
tomar as medidas básicas necessárias.

De resto, Deus não depende da nossa força para realizar coisa alguma, mas de
nossa fé. Ele só pede de nós que tenhamos humildade diante dos presentes que
ele nos dá. Grandes ou pequenos, apenas cabe a nós aceitar com alegria.

Se faltar a fé, rezamos para pedir fé. Se queremos muito algo, pedimos,
humildemente. Eu notei que quando insisto muito com meu anjo, ele aceita
fazer ou falar certas coisas, mas sempre devemos pedir respeitosamente e não
abusar dessa generosidade. Se ele acha que é melhor fazer dessa maneira, é
porque provavelmente é melhor assim. Temos a liberdade de perguntar para
tentar entender e isso não é errado. Também não precisamos ter medo.

DIA 572

25 de Outubro, Sexta-feira

5º dia: 25/10/19

(17:00) O penúltimo dia! Estou há 27 horas em jejum, me preparando para


iniciar o ritual daqui uma ou duas horas. Nesse momento irei acender o incenso
e todo o resto.

Hoje eu estou bem confiante, tanto devido ao sucesso de ontem como por
causa do jejum. Fiz exatamente como meu anjo mandou, então nada pode dar
errado, hã? Ou será que pode? Hahaha!

Nós estamos aqui também pela emoção da aventura, então venha o que vier!
Hoje é o dia de conhecer os duques, cara. Não são sujeitos que você conhece
todo dia.

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(18:20) Início da meditação.

Acendi a vela e a chama me guiou ao longo dessa jornada. Coloquei algumas


gotas do óleo de Abramelin na vela.

Inicialmente eu só queria sentir a presença reconfortante do meu anjo. Estava


muito claro que ele estava comigo. Sabe quando você tem uma certeza?

Eu simplesmente sentia a presença dele ali, ao meu redor. Era como se algo me
envolvesse, meu corpo inteiro.

Novamente, reparei que ele estava no lado esquerdo. Eu realmente não entendo
porque ele gosta tanto de ficar do lado esquerdo. Quem sabe eu pergunto?
Haha.

Tive uma visão do meu anjo, mas um pouco diferente. Eu vi algumas formas,
porém menos definidas. No exato instante em que vi o anjo, senti o cheiro da
vela, que havia se apagado naquele momento. Abri os olhos e constatei isso.

O que me agradou hoje foi a felicidade que senti ao estar na presença dele. Eu
me sentia totalmente protegida. Eu tinha convicção de que tudo ia dar certo
hoje, porque ele estava comigo.

Independente do que acontecesse, como eu poderia ter medo se ele estava ali?

Eu orei assim para Deus:

"Eu desejo que tudo o que eu ver, ouvir e vivenciar hoje seja verdadeiro. Não
quero que seja ilusão ou imaginação minha. Deus, eu te peço o real para mim"

Assim que eu orei isso, meu anjo falou comigo:

"Essa experiência é verdadeira"

Eu prossegui:

"Mesmo que eu sinta medo, eu aguento. Eu quero me preparar para o


sofrimento do mundo"

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Já que eu toquei no assunto, perguntei novamente:

"No terceiro dia tu, meu anjo, me mostraste a dor. Eu gostaria de entender um
pouco mais hoje"

Ele me mostrou mais um pouco e eu derramei algumas lágrimas, até sentir que
era o bastante.

Estava muito confortável ficar lá com meu anjo. Mas eu percebi que era hora de
prosseguir, chamando os duques.

"Posso chamá-los agora?" perguntei ao meu anjo.

"Pode fazer isso" ele disse.

"Pode me proteger?" perguntei a ele.

"Eu te protejo" meu anjo respondeu.

Chamei primeiro os quatro reis e disse para que eles chamassem os oito duques.

Fiz com que os duques prometessem lealdade a Deus e me auxiliassem quando


eu precisasse deles.

Ergui o bastão e, novamente, ele baixou oito vezes.

Eu já desconfiava que isso poderia acontecer novamente, então não fiquei


surpresa.

Fiquei me perguntando o que aconteceria se o bastão só baixasse, digamos, sete


vezes. Eu ia ter que iniciar uma briga e perguntar quem foi que não jurou,
consultar o rei responsável e criar uma confusão?

Felizmente isso não aconteceu. Fiquei aliviada.

Mas eu não queria dispensá-los ainda. Eu queria vê-los e ouvi-los. Eu disse:

"Hoje eu quero ouvir a voz de vocês. É preciso que me digam: 'Eu juro'"

Inicialmente eu não ouvi nada. Passou certo tempo até que eu ouvisse sussurros.

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E, dentre os sussurros, eu pude distinguir claramente:

"Eu juro"

Achei que ia sentir um arrepio ou algo assim. Foi um pouco inesperado ouvir
com tanta clareza, mas não senti medo.

Lembro que em algum momento eu acendi a vela de novo.

Eu pedi para ver os duques. E quando pedi isso, de olhos fechados, foi
exatamente quando senti uma dor horrível na perna.

Eu entendi que aquilo fazia parte da experiência e prossegui. Vi algumas formas


negras de fumaça. Quando entreabri os olhos e vi a vela brilhando no fundo,
algumas dessas formas ainda permaneceram, mas de forma muito discreta.

Ter essa experiência enquanto eu sentia tanta dor tornou tudo mais terrível.
Porém, o medo não me dominou.

Sempre imaginei que eu sentiria medo ao chamar os espíritos, mas não foi o que
aconteceu. Provavelmente meu anjo me protegeu disso.

Finalmente, senti que era o momento de dispensá-los. Disse para que eles
retornassem ao seu reino e que todos eles deveriam voltar amanhã de novo, para
trazer os espíritos servidores de cada um para jurarem também.

Eles partiram. Senti quando eles foram.

É curioso, mas mesmo quando eu sei que eles foram, eu gosto de confirmar
com meu anjo:

"Eles partiram?"

"Sim"

Tenho que confiar mais na minha intuição, no que eu vejo, ouço e sinto. Não
posso ser tão cética. É como se eu não acreditasse, não tivesse fé.

Eu disse para meu anjo:

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"Não estou pedindo para ver e ouvir você e os espíritos por vaidade. E sim
porque isso irá ajudar a fortalecer a minha fé"

Eu já conheci pessoas com muito mais fé que eu e que nunca tiveram esse tipo
de experiência ou que nunca atingiram estados alterados em meditações. Isso
me faz sentir bem fraca, mas não devo desanimar.

Eu acredito que Deus existe, isso é certo. E acredito no meu anjo guardião. Eu
acredito que existem espíritos caídos também.

Eu acredito na presença de Cristo na eucaristia. É preciso ter fé nisso! Não há


como verificarmos. É dito que Deus fez isso para confiarmos no testemunho
uns dos outros.

Para Deus é muito importante que acreditemos no que nossos amigos dizem. A
confiança deve existir. Deus quer que sejamos amigos.

Então, é fundamental confiarmos quando um amigo nos conta algo, mesmo que
pareça incrível. Pois se por acaso for mentira, o erro não estará em nós e
podemos ficar com a consciência tranquila. Mas se não tivermos acreditado em
algo que era verdade, quanta dor em nosso coração!

O que eu relato aqui é a minha experiência. Eu sei o que vi e ouvi, o que senti,
as lágrimas que derramei, o quanto meu coração bateu e me senti aquecida. E
meu anjo me confirmou que era real. Eu orei para que fosse real.

É claro que há diferentes graus de ceticismo, desde não acreditar que uma
cadeira ou nós mesmos não existimos, até não acreditar em espíritos.

O que eu tenho é apenas meu testemunho. Alguns dos maiores sábios, de


diferentes épocas, acreditaram em Deus. A maior parte dos sábios acreditavam.
Então como eu não vou acreditar?

Eu me sinto realizada com a experiência de hoje. Em que ela foi diferente de


ontem?

Hoje eu escutei os espíritos, pois ontem eu havia apenas ouvido chiados ou sons
estranhos que certamente não vinham do anjo. E hoje eu consegui escutar uma
frase.

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Eu também pude ver um pouco dos duques, numa experiência repleta de dor
física.

E meu anjo me mostrou um pouco mais da dor, houve mais lágrimas. Mas
houve também muita alegria! Ele estava comigo, nós lutamos juntos.

Então mesmo experiências repletas de dor valem a pena quando existe amor,
amizade, confiança. A vida vale a pena, mesmo com tanto sofrimento.

Eu perguntei hoje para meu anjo como podemos aguentar isso:

"Como é possível ao ser humano suportar tanto sofrimento e morte? A dor


física nos derruba. Uma doença nos deixa acabados. Então como o ser humano
poderá prosseguir? Há algum erro nesse pensamento?"

"Não há erro" disse o anjo "Assim é a dor para o ser humano"

"Então" eu disse "minha fé é fraca e tenho dificuldade em valorizar o espírito


diante da dor do mundo. Eu devo confiar no meu caminho, na minha missão?"

"Faça o que tem que fazer" falou o anjo "Eu te apoio"

Eu me sinto meio boba perguntando para meu anjo diversas vezes a mesma
coisa, como se não tivesse ouvido direito!

Por isso mesmo os anjos na Bíblia ficam repetindo as mesmas coisas. Nossa fé é
tão fraca que ficamos perguntando mil vezes.

Amanhã será o último dia da semana de ouro. Depois começa a semana de


agradecimento, que será mais leve. E, para finalizar, algo mais.

Mas não terminou ainda. Eu devo me focar no dia de amanhã.

Eu estou há quase 30 horas em jejum. Meu anjo me disse para ficar em jejum
hoje, então eu fiquei mesmo!

E logo no início da meditação eu lembrei a Deus e ao meu anjo que aquele


jejum foi feito porque meu anjo me pediu e eu obedeci.

Novamente, eu me sinto ridícula falando essas coisas, pois parece que estou

109
querendo atenção ou um elogio. Algo como: "Viu, pai, eu te obedeci! Me dá um
doce? Me dá um presente?"

Mas o maior presente do mundo é o amor de Deus.

Sou uma pessoa egoísta e frequentemente mal educada. Eu tenho várias falhas,
sou preguiçosa e me falta paciência. Eu culpo os outros, eu fico irritada.

Ainda assim, em cada oração eu perdoo e peço perdão por ter ofendido os
outros. Eu digo para Deus que se por acaso eu não perdoar os outros do fundo
do coração, para que ele me dê a força para perdoar e também para pedir
perdão com sinceridade e não apenas em palavras.

E eu agradeço pelo dia, pela bênção da minha vida.

Quando terminar a operação de Abramelin, é claro que eu vou continuar


rezando toda noite. Antes das refeições ou quando eu lembrar. Porque eu
preciso disso pra minha vida. Eu não me vejo mais vivendo sem isso.

Eu não quero esquecer de Deus jamais. Por mais que eu queira ser uma pessoa
prática como Marta, cinco minutos de orações ou a lembrança de Deus jamais
irá reduzir o tempo da minha vida e sim aumentar.

Pois cada vez que eu faço uma oração eu sinto mais amor em mim, mais amor
pelos outros. Eu lembro como a vida é linda apesar de tudo. E eu tenho
esperanças para continuar.

Esperança. Essa palavra é preciosa. É muito fácil cair no desespero. Mas eu


tenho apenas que acreditar.

Em parte, eu fiz a operação de Abramelin para me certificar de que minha


missão era aprovada por Deus e que eu tinha entendido certo. Mas por que eu
sou tão insegura? Se eu sinto do fundo do coração que é isso que devo fazer,
por que eu preciso que meu anjo desça dos céus e me diga, com todas as letras:
"SIM, é isso mesmo, agora siga em frente!" Porque enquanto Deus não me diz
isso eu fico com medo de estar fazendo algo errado.

Mas é por isso que Jesus enviou o Espírito Santo para nos guiar quando ele foi
embora. É para termos sempre Deus em nosso coração, nos contando sobre o
certo e o errado.

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Em breve irei quebrar o meu jejum, pois estou muito cansada após essa
experiência de hoje. E amanhã irei fazer meu último jejum da semana de ouro.

DIA 573

26 de Outubro, Sábado

O último dia da Semana de Ouro!!!

6º dia: 26/10/19

(17:00) Preciso de algo que me faça sentir viva. Por isso eu fiz a operação de
Abramelin. Eu queria algo forte, que me fizesse sentir mais viva do que nunca!
Sentir um pouco de morte, estranhamente, faz com que nos sintamos
perigosamente vivos.

Comecei a operação mais cedo hoje. Eu estava ansiosa para que terminasse
logo. E como eu havia comprado uma comida egípcia vegetariana para comer
em casa, para celebrar o fim de Abramelin, confesso que eu também estava com
vontade de experimentar logo, hehe.

Por toda essa agitação, e também pela ansiedade de ser o último dia, eu demorei
um pouco para me concentrar no começo da meditação.

Comecei como sempre, confessando meus pecados, perdoando, pedindo


perdão, agradecendo, pedindo proteção para mim e para outras pessoas, etc.

Aproveitei e orei para que Deus me desse concentração, pois estava difícil
manter o foco. Durante a meditação eu ficava pensando qual seria o gosto do
cuscuz egípcio. Esse prato é comum no norte da África, em especial Marrocos e
Argélia.

Felizmente, Deus atendeu as minhas preces. Logo consegui me concentrar na


meditação. Também orei para meu anjo e após essa oração eu alterei meu estado
de consciência.

Posso dizer que a semana de ouro foi finalizada com estilo, pois hoje aconteceu
algo que não havia acontecido antes.

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Quando chamei meu anjo, mesmo de olhos fechados houve uma grande luz
amarela. E a luz realmente encheu o quarto escuro.

Meu anjo quis me dar esse último presente, mesmo que eu não mereça. É claro
que eu me emocionei, pois eu não imaginava que hoje ia acontecer algo especial,
já que minha concentração estava dispersa e eu estava com um pouco de pressa
e ansiedade para que tudo acabasse logo.

Mas meu anjo entendeu isso e quis me ajudar. Fiquei com ele por um momento,
sentindo sua presença confortante.

Até que eu percebi que era hora de chamar os espíritos restantes, para que eles
jurassem sob o bastão.

Hoje eu escutei uns sons que pareciam vir de fora ou de outro lugar e dessa vez
eu me assustei apenas ligeiramente, porque fui tomada pela surpresa.

As formas deles eram bem difíceis de distinguir. Hoje tive bastante dificuldade
de ver algo físico. Mas eu não insisti para ver, pois não senti que fosse
necessário.

Expliquei aos espíritos que eles deviam jurar lealdade a Deus. Que se eu
precisasse usar os quadrados só faria isso se fosse para a glória de Deus e pelo
bem da humanidade. Se por acaso eu usasse um deles em mim ou em outra
pessoa, que isso fosse usado para que isso gerasse um bem maior para as outras
pessoas.

Desenhei um dos quadrados para usar como símbolo do juramento, mas deixei
claro que eu poderia preparar os quadrados a qualquer momento no futuro e
que eles deviam ativá-los.

Quando tudo terminou, dispensei os reis, os duques e seus espíritos.

Ainda tive um último momento com meu anjo, desfrutando da sensação de


finalmente ter finalizado a semana dourada.

Já provei o meu prato egípcio, que estava maravilhoso. Sinto uma sensação
muito boa por ter finalmente terminado essa semana.

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As coisas deram certo. Que bom.

A partir de amanhã começa a semana de agradecimento, que não envolve


nenhuma operação. Farei apenas algumas orações pelos próximos oito dias.
Prometem ser dias tranquilos.

Os quadrados mágicos só poderão ser usados após esses oito dias de


agradecimento. Ou seja, sem ser nessa segunda, a partir da outra segunda (dia 4
de novembro) já posso usá-los. A operação deve terminar formalmente mais ou
menos nessa data.

Logo quando eu estava me acostumando a fazer as meditações e orações para


chamar o anjo, a semana acabou. Mas eu confesso que eu também já estava
cansada e desejando que terminasse. Pois já são quase 19 meses de operação!

Durante a semana de agradecimento acredito que não ocorrerá nada


extraordinário, mas manterei o diário até o final de tudo.

DIA 574

27 de Outubro, Domingo

Hoje foi o dia de comer chocolate e sobremesa!! Ou melhor, o dia de agradecer


Deus por todas as bênçãos recebidas. :)

Mesmo com chuva fui até o supermercado e comprei um pudim e duas barras
de chocolate. E celebrei o primeiro dia da semana de agradecimento! Foi um dia
de muita alegria.

Honestamente, foi um dia tranquilo. As orações foram delicadas, pacíficas.

Ontem escrevi um texto no Medium chamado "Misticismo versus Magia". Pois


há muita gente que opta por não usar os quadrados mágicos da operação de
Abramelin porque consideram essa etapa da operação "baixa magia". Alguns
sequer chamam os espíritos familiares.

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Eu mesma tinha mais ou menos essa posição da primeira vez que fiz a operação.
Mas dessa vez eu quis que fosse diferente. Eu queria sentir o que era realizar a
operação completa.

Com a permissão de Deus e do meu anjo, segui até o sexto dia. E daqui oito
dias pretendo realizar a etapa final.

Foi divertido fazer diferente dessa vez. Foi emocionante e desafiador! Tudo
valeu a pena.

Se eu senti que valeu a pena orar por 19 meses duas ou três vezes por dia e
acordar cedo? Sim.

É claro que o processo é penoso, mas ao chegar aqui me sinto incrível.

Senti mesmo que essa semana de agradecimento será bem tranquila. Talvez eu
planeje uma pequena coisinha especial para cada dia. Um presentinho para meu
anjo a cada fim de tarde ou algo assim?

Ele não pareceu gostar muito dos meus biscoitos. :(

E o que eu aprendi sobre o meu anjo até agora? Ele é meio sério em vários
momentos e é de poucas palavras. Mas ele também tem um pouquinho de senso
de humor quando ele quer. Ele é gentil e atencioso. Responde as minhas
dúvidas, mesmo quando sou insistente. E ele parece ser muito poderoso, já que
os reis, duques e espíritos o respeitaram tanto! Eles juraram de imediato!

Meu Deus, que aventura! Que coisa maluca!!

Eu sinto que já voltei para minha vida comum? Não, de forma alguma, pois
ainda tenho oito dias! Só depois disso poderei responder a essa pergunta
apropriadamente.

Após todos esses encontros com meu anjo, eu aprendi que, sim, eu preciso de
mais disciplina e foco, mas eu também não preciso ficar tão ansiosa ou me
culpar.

Hoje mesmo eu fiquei tão empolgada com o fim da semana de ouro que
comecei a arrumar a minha casa! Varri, limpei as estantes, organizei minhas

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prateleiras, tirei todas as coisas das gavetas, tirei todas as roupas do guarda-
roupa e separei vários sacos para doar.

Eu gastei algumas horas nisso hoje e me sinto maravilhosa por ter feito tudo
isso! Sem dúvida foi influência da operação essa minha súbita energia para
realizar todos esses trabalhos.

Espero que essa semana seja linda também. Ah, quinta-feira é o Dia das Bruxas!
Será o máximo passar esse dia ainda em Abramelin!!

Acredito sinceramente que focar no nosso desenvolvimento pessoal e ter um


pouco de "egoísmo" (reservando tempo para a nossa educação, prazer e
descanso) é uma das formas mais efetivas de ajudar os outros. Mas cada um tem
seu caminho e sua forma de fazer as coisas.

Afinal, se não estamos descansados e de bem com nossa vida, como podemos
ajudar os outros? É necessário que cada um mantenha certa paz interior e
aprenda como fazer isso, senão só vamos colocar os outros pra baixo. E eu sou
a favor de otimismo e esperança, pois a vida tem muita beleza!

DIA 575

28 de Outubro, Segunda-feira

A última semana!

Acordei às cinco da manhã e fiz minha oração na capela às seis. Não sei se eu
ainda devo fazer as três orações diárias na semana de agradecimento, mas como
é a última semana vamos nos divertir.

Hoje passei numa livraria e encontrei livros que eu queria há muito tempo com
promoções ridículas (por exemplo, um livro que era 100 reais por 20 reais).

Foi um presente do meu anjo? Não sei, mas comprei quatro. Chegando em casa,
já li um pouco de cada e de alguns outros. Na verdade, acho que fiquei umas
cinco horas seguidas lendo e nem percebi.

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Foi meu anjo que me deu essa vontade de ler? Bom, eu sempre tenho vontade
de ler, então quanto a isso é um dom gratuito de Deus que vem de muito
tempo.

Mesmo assim, eu me senti muito disposta a fazer várias coisas hoje. Não sei
porque, mas pareceu um dia gigantesco, com mil horas! Eu fiz meus afazeres,
leituras, lazeres e ainda sobrou sei lá quantas horas. Nem sei o que fazer mais.

Claro que devemos levar em conta que eu acordei às cinco da manhã e


provavelmente vou dormir só depois da meia-noite, mas ainda assim.

Ontem e hoje foram dias tão fantásticos que é difícil de acreditar. Não tenho
palavras para agradecer, mesmo essa sendo a semana de agradecimento.

A vida não está a mesma.

Antes de começar a semana de ouro, confesso que minhas expectativas estavam


meio baixas. Eu achava que ia acontecer algo inusitado nesse período sim, mas
não achei que seria algo marcante a ponto de mudar minha forma de ver o
mundo.

Estranhamente, sim, minha forma de ver várias coisas mudou um pouco em


apenas poucos dias. É assustador pensar nisso.

Foi como fazer um intensivo espiritual, um retiro. Eu também sempre volto um


pouquinho diferente dos retiros que faço. Mas essa experiência com o anjo
transforma muito mais que uma viagem, não importa para qual lugar do mundo
seja.

Eu honestamente achei que essa experiência da semana de ouro me transformou


muito mais do que meu trabalho voluntário com as Missionárias da Caridade em
Calcutá ou do que minhas visitas aos locais santos em Jerusalém.

É verdade que eu senti algo especial ao visitar o Tanque de Betesda e meu anjo
me visitou na igreja naquela mesma noite. Ainda assim, não foi o mesmo do que
aquilo que eu senti na semana de conhecimento e conversação com o meu anjo

Você pode dizer que eu já o havia conhecido aos 17 anos. Mas cara, isso já faz
15 anos. Eu diria que eu mudei um pouco desde então.

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Heráclito diz que ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, porque tanto o
rio como nós mudamos. Mas nesse caso foi só eu que mudei. Deus e meu anjo
não mudaram, pois eles estão fora do tempo.

É um ponto teológico meio complicado, pois os anjos habitam o tempo


espiritual, Kairos. No caso de Deus, ele está completamente fora de qualquer
tempo, Kairos ou Kronos. Ou algo assim.

Sendo bem sincera, há poucos anos eu estava amando teologia e as questões


teológicas. Nos últimos tempos (principalmente nesse último ano) eu me sinto
muito mais Marta do que Maria. O tempo dirá se isso é algo bom. Mas eu
sempre quero ter em meu coração um pouco das duas.

Eu sempre vou amar teologia e questões teológicas e filosóficas, mas eu não me


sinto filosófica! Porque o encontro com o anjo não é algo que se explique em
palavras. É algo que supera qualquer filosofia.

Eu vivia escrevendo "estou muito feliz hoje" em praticamente todos os meus


registros do diário de Abramelin. Pois foi realmente uma época alegre da minha
vida. Deus me deu forças.

E atualmente, eu estou feliz? Ainda mais!

Porém, a felicidade não é algo que vai aumentando infinitamente. Ela tem um
limite. Logo vou voltar para minha média, para meu normal.

E isso não é ruim. É apenas lógico, pois se eu ficasse sempre pulando de alegria
isso viraria meu normal, minha média.

Não é ruim ter uma vida em que estamos mais ou menos na média, nem muito
alegres nem muito tristes, mas apenas satisfeitos, em paz.

Estou tendo muita dificuldade em saber descrever o que eu estou sentindo


agora. Eu simplesmente não sei! Algo mudou em mim, mas eu não sei explicar
exatamente o quê.

Vou tentar explicar de forma imperfeita. Estou extremamente feliz, com


vontade de gritar de alegria, mas no fundo da minha alma, do meu coração,
também há uma paz profunda.

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Eu tenho vontade de manter essa grande alegria e essa paz profunda? Aí que
está. Não necessariamente.

É claro que eu entendo que momentos de tristeza, tédio, etc, também fazem
parte da vida. Mas eles passam. De qualquer forma, eles também têm valor.

Eu me sinto com muita energia ultimamente. A energia que eu usei ontem para
limpar a casa, eu usei hoje para ler muito. E também há aquela sensação de que
meus dias estão infinitos.

Talvez meu anjo esteja me dando um pouco de Kairos de presente ao longo


dessa semana. Mesclando o tempo do relógio com o tempo espiritual, para me
dar essa sensação de estar em dois mundos simultaneamente.

Eu ainda estou nesse mundo, mas há algo no meu coração, na minha alma, que
está pulsando. Eu sou escritora, eu escrevo livros, deveria saber me expressar
bem, mas as palavras estão me fugindo.

É como se houvesse algo vivo dentro de mim. Algo que acordou. Que meu anjo
fez acordar.

E eu não quero dormir de novo e esquecer. Quero sempre lembrar. O modo


mais fácil é através da oração diária. Mesmo que seja apenas uma oração tímida,
ela mantém viva em nós essa paixão, essa sede intensa de aventura.

Eu sinto como se até minha rotina diária fosse a maior das aventuras. Ou ao
menos durante essa semana é essa a sensação. E talvez seja mesmo. Pois um
mundo com anjos é realmente brilhante!

Foi real sim. Foi tudo real. Agora não tenho a menor dúvida.

De forma alguma eu estou cética agora. Tenho certeza de que uma mentira ou
ilusão não teria me feito sentir o que estou sentindo. Isso só pode vir de Deus.

Eu teria vontade de passar a noite toda escrevendo sobre essa sensação, mas o
melhor mesmo é experimentar.

Se você já tiver feito a operação ou for fazer, o que vai sentir será diferente do
que estou sentindo. Não será melhor ou pior. Será apenas seu presente único e
particular, que Deus te deu.

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Mesmo a presença ou a ausência de uma sensação significam algo. É Deus nos
dizendo algo. Até na secura espiritual ou quando Deus se esconde e esconde seu
anjo, isso também simboliza uma verdade profunda.

Madre Teresa, por exemplo, passou décadas experimentando a noite escura. Ela
teve a noite escura da alma mais longa que já se conheceu. Sabemos que a noite
não é uma punição, mas pode ser um símbolo de grande graça.

Quando passamos por uma noite escura, pode ser Jesus querendo que nos
unamos a ele no sofrimento da Cruz. Que maravilhoso presente!

Pois Deus não quer nos mostrar apenas que o mundo é belo. Mas que é a
alternância entre beleza e feiura, alegria e tristeza, que molda um tipo de
equilíbrio misterioso, adequado ao nosso desenvolvimento espiritual. A uma
alegria mais profunda que vai nascendo dentro de nós, que não depende apenas
de conforto e prazer.

É um caminho de amadurecimento. É uma longa jornada.

Eu não quero que minha vida seja apenas uma droga: apenas uma busca de
sensações boas. Eu quero que ela seja algo mais, mesmo que esse mais envolva
sofrimento, desafios, ansiedades, tristezas, lágrimas.

E se esse mais faz parte da minha missão, não há dúvidas: vou simplesmente
abraçar e receber.

DIA 576

29 de Outubro, Terça-feira

Fui dormir mais de meia-noite e acordei cinco da manhã, mas eu não estava
com sono e sim cheia de energia.

Orei na capela às seis. Foi um dia muito bom!

Fiz mais algumas leituras. Tive conversas lindas com pessoas que admiro.

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Já é quase meia-noite novamente. Deixei para fazer meu registro mais tarde,
para ter mais coisas para contar, mas é melhor eu dormir, para descansar pelo
menos cinco horas antes de eu acordar às cinco novamente.

Ainda estou meio confusa com minha alimentação. Acho que ainda vou levar
um bom tempo para me readaptar.

De qualquer forma, foi um dia incrivelmente produtivo.

DIA 577

30 de Outubro, Quarta-feira

Ontem não consegui fazer o registro porque eu estava com muito sono. Após
três dias seguidos acordando cinco da manhã e dormindo menos de quatro
horas em cada um deles, eu estava acabada. Por isso, ontem me deitei às 10 da
noite e resolvi deixar o registro para hoje.

Eu estava lendo à noite e acabei dormindo em cima do livro. Achei que seria
legal escrever mais tarde para dar tempo de contar tudo o que fiz no dia, mas
não deu ahaha.

DIA 578

31 de Outubro, Quinta-feira

Hoje é Dia das Bruxas!!

Fiz a encomenda de doces temáticos de Halloween com uma amiga minha que
faz doces maravilhosos! (fomos colegas no ensino médio). Os doces são lindos,
em forma de abóbora, fantasminhas e outros bichinhos. E eles são muito bons!

Fiz um jejum de 21 horas porque provavelmente essa vai ser a última


oportunidade que terei para fazer um jejum antes do fim de Abramelin. Só
faltam mais 4 dias!

Quebrei o jejum comendo os doces de Dia das Bruxas. Também tirei umas
fotos vestida de bruxa, com meu velho chapéu.

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Vou ler bastante agora à noite. Tenho tantos livros que nem sei por onde
começar. Por isso acabo lendo um pouco de cada.

DIA 579

1º de Novembro, Sexta-feira

Tive um sonho. Mas não me lembro o que sonhei.

Esses dias tive dois sonhos que esqueci de anotar. Um deles eu lembro que foi
num parque de diversões.

Por que será que ando sonhando tanto com parques de diversão? Talvez seja
assim que eu veja a vida? Não, não, haha.

Eu vivo falando da importância da dor, do sofrimento, da morte, etc, mas sou


uma pessoa bastante otimista. Deve ser por isso mesmo: eu tento ver lados bons
até nas coisas ruins do mundo e por isso não me importo de falar sobre elas.

Não quero escondê-las ou fingir que coisas primordiais não existem. Mas é claro
que isso não apaga completamente o sofrimento. Isso porque ele não deve ser
apagado. Deus quer nos mostrar algo com a dor. Quer nos unir com Jesus na
cruz.

As leituras e orações vão bem.

Hoje é o Dia de Todos os Santos! Dia de lembrar também dos santos e mártires
esquecidos por nós. Mas Deus jamais os esquece. Eles estão com Deus agora no
céu.

E um dia eu também vou estar? Não sei. Espero que sim, hehe.

DIA 580

2 de Novembro, Sábado

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Hoje é o penúltimo dia da semana de agradecimento. Vou escrever antes hoje,
porque já tenho coisas para contar.

Terminei de ler uma biografia de Thoreau. Na verdade, estou lendo vários livros
ao mesmo tempo, como já comentei. Uns dez, ou vinte, ou sei lá quantos.

Às vezes eu me pergunto quais coisas que eu faço na minha vida que são perda
de tempo. Por exemplo, quais leituras são mais corretas para mim?
Frequentemente, não tenho como saber antes de ler.

Mas foi nostálgico ler esse livro, já que li um do autor na adolescência: Walden.

Respondi um e-mail do mosteiro hoje. Engraçado que cada vez que eu


respondo um e-mail deles sinto vontade de fazer outro retiro.

Mas eu não já tinha dito que essa etapa da minha vida já tinha acabado? Por que
eu ainda acho que devo fazer retiros?

O problema é que fazer retiros em mosteiros faz com que eu me sinta um


pouco como fazer a operação de Abramelin: eu me sinto presa, sem liberdade
de poder comer o que eu quiser, dormir o quanto eu quiser, fazer o que eu
quiser, etc.

Por outro lado, é algo único. É algo que me acrescenta um mundo.

Mas o mundo não é só isso. O mundo não é apenas Abramelin e mosteiros.

Há pessoas sofrendo. Não devíamos deixar a solidão de Abramelin e dos


mosteiros e ir ajudá-las?

Essa questão me atormenta e ainda vai me atormentar. Pois não é possível que
tantos sábios que optaram por caminhos solitários tenham errado.

Por outro lado, Buda e Jesus, na maior parte de suas vidas, viveram envoltos
pela multidão.

Mas espere. Buda passou seus primeiros 29 anos como príncipe, alguns anos em
isolamento, mas mais da metade de sua vida ele alternava entre períodos de
retiro mais intenso e ensinamentos. Jesus passou a maior parte de sua vida

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escondido, trabalhando, se preparando e apenas em seus últimos anos ele se
mostrou para a multidão.

Talvez a vida não se conte em anos. Não é a quantidade de algo feito que conta.
Mas às vezes é?

Não sei. Tudo isso é muito difícil. As pessoas são diferentes.

Às vezes eu tenho medo, mesmo quando sei que não preciso ter.

A morte pacífica de Thoreau me trouxe um pouco de paz. Não pretendo ter


uma vida ou morte pacíficas, mas é belo ver quando uma pessoa achou o seu
caminho.

Eu encontrei o meu caminho e não quero que chantagem emocional de pessoas


ao meu redor (ou pessoas distantes) me levem a outros caminhos. Nesse ponto,
é preciso ter um coração de pedra, mesmo que isso pareça feio.

É a minha vida. E não quero que ninguém mais se meta. Isso é entre mim e
Deus.

Muita gente vai me julgar conforme o que eu fiz e escrevi. Mas no final é só
Deus que vai decidir e os outros não devem se meter.

Essas não são palavras bonitas, mas eu busco mais a verdade do que a beleza.
Nem sempre a verdade é bonita.

DIA 581

3 de Novembro, Domingo

Hoje é o último dia da semana de agradecimento!

Tive um sonho. Primeiro, eu estava conversando com uma amiga minha. Acho
que estávamos realizando algum projeto juntas. Numa parte da conversa ela deu
a entender que eu não estava me esforçando o bastante no projeto.

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Eu gosto que as pessoas sejam diretas e claras comigo. Eu disse, OK, então
você faz o seu projeto e eu faço o meu. Pronto, simples. Inicialmente eu tentei
uma reconciliação, mas como ela manteve a mesma posição, resolvi deixar as
coisas claras para acabar com divergências, porque nem eu e nem ela
precisávamos passar por aquilo.

Uma maneira bem direta de resolver as coisas. Nem sempre a melhor maneira,
mas nesse caso achei que isso iria poupar as duas partes, economizar tempo e
energia. Bem prático.

O segundo sonho foi mais interessante. No primeiro eu estava num prédio,


caminhando pelos andares. No segundo sonho talvez eu ainda estivesse lá (acho
que foi uma continuação do primeiro) mas em certo momento entrei num tipo
de competição ou apresentação.

Parecia uma competição de videogame ou algo do tipo. Eu tinha reunido itens e


iria lutar contra um dragão. Tinha muita gente assistindo.

Consultei umas revistas (haha) e fiquei meio distraída. Acabei perdendo uns
quinze minutos e apareceu outro boss.

Perguntei para os organizadores se eu ainda devia lutar contra o dragão ou


contra esse segundo chefe, que era mais forte. A resposta foi: "Você deixou a
plateia esperando por tanto tempo, então agora pelo menos dê a eles um bom
espetáculo e lute contra o boss mais forte".

Se eu fosse interpretar isso em relação a Abramelin, eu diria: deixei quem estava


me acompanhando esperando por 19 meses, então agora tem que haver uma
sequência interessante para a operação.

O único problema desse raciocínio é que eu estou fazendo a operação para,


digamos, para mim mesma? E não para agradar os outros.

Porém, no cristianismo há o conceito de testemunha. Eu estou viva para ser


uma testemunha para os outros, então eu devo me esforçar para dar um bom
exemplo para os outros.

Isso é diferente, ao menos em teoria, de buscar fama ou glória, ou ao menos


deveria ser. Por isso eu sempre reforço a importância de focarmos tanto nos
nossos erros quanto nas nossas conquistas.

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Eu já disse várias vezes que não quero dar a impressão de que eu realizei uma
operação muito boa. Enfrentei vários problemas, principalmente com o sono,
comida e com a disciplina em geral.

Claro que era difícil acordar cedo, cortar certos alimentos, orar muito e ler os
livros sagrados. Eu fiz várias dessas coisas de forma imperfeita.

E agora que cheguei ao final da semana de agradecimento, haverá a última etapa.


Agora sim, estamos realmente chegando ao fim.

Não sei como irei me sair, mas farei o que deve ser feito. Mesmo que existam
falhas. Quero tentar ir até o fim, já que cheguei até aqui, mesmo aos tropeços.

DIA 582

4 de Novembro, Segunda-feira

Essa anotação é referente ao dia 4 de novembro, segunda-feira, ainda que tenha


sido escrita após a meia-noite.

Como eu já repeti mil vezes, ontem foi o último dia da semana de


agradecimento. Não sei se agradeci apropriadamente, mas o objetivo da semana
era dedicá-la para isso, principalmente através das orações de costume.

Hoje acordei às cinco da manhã e às seis fui rezar na capela. A Bíblia estava
aberta nos salmos cento e poucos.

Hoje foi um dia peculiar, pois iniciei o dia com mau humor, porque estava
nublado, frio e chovendo. Depois o humor melhorou, mesmo que a chuva
tenha piorado.

Terminei de ler vários livros nos últimos dias. Uns três ou quatro. Hoje mesmo
terminei de ler dois. Autoras da África, livros de islamismo, coisas assim.

Essa noite marca o primeiro dia da última etapa de Abramelin.

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Ela se caracteriza pelo uso dos quadrados mágicos, mas hoje foi apenas uma
introdução. Honestamente, não tive tanto tempo livre e além disso me
empolguei nas leituras dos livros, que julgo necessário terminar o quanto antes.
Também tenho meus projetos pessoais.

Começou a Feira do Livro de Porto Alegre recentemente e quero terminar os


livros que estou lendo atualmente para adquirir novos, para não acumular tantos
livros.

Não sei quanto vai durar essa última fase. Essa minha semana será cheia e
ocupada, então talvez eu tenha que estender essa etapa por umas duas semanas.

Não importa. Eu não fiz 19 meses de orações para correr na última etapa.

DIA 583

5 de Novembro, Terça-feira

Outra anotação após a meia-noite. Anotação de terça.

De novo, acordei cinco da manhã. Não sei como estou de pé ainda, sendo que
não dormi nada ao longo do dia.

Na verdade, ontem eu não dormi nada e hoje devo ter dormido talvez umas
quatro horas. Dormi pouco nos dois dias porque ando lendo muito.

Ando simplesmente encantada com as leituras ao meu redor, como se cada livro
fosse um novo mundo maravilhoso.

A vida é realmente fascinante! A cada livro que leio, mais eu amo tudo.

De certa forma, acho que meu anjo está guiando algumas de minhas leituras,
pois muitos livros que li me deram respostas importantes, também nesses
últimos meses e semanas.

Orei na capela às seis da manhã, como de costume. Ando muito feliz, embora
com sono.

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Hoje foi uma correria. Nem tomei café da manhã direito. Passei a manhã inteira
me sentindo no Ramadã, pois além de não comer não consegui tomar água por
umas seis horas seguidas.

Esqueci de dizer que fiz um jejum de 24 horas de sábado para domingo, para
orar. Para me preparar para o início dessa última etapa.

Sério, estou muito feliz. Mesmo com meus dias corridos por causa de todas as
minhas leituras.

Essa será uma semana lotada de eventos. Por isso, nem terei tanto tempo assim
para me dedicar realmente aos quadrados mágicos.

Vejamos dessa forma: a semana que passou foi a de agradecimento e a semana


atual eu poderei dedicar para orar por esse novo projeto que se inicia.

Pedirei para que meu anjo me guie em relação aos quadrados mágicos. O que
pedir? Como pedir? Qual devo usar e como?

Ele irá me guiar em breve e as orações dessa semana serão fundamentais para
que ele me envie sinais nos próximos dias, para que aos poucos as coisas fiquem
mais claras.

Eu tenho algumas coisas em mente já, mas irei confiar em meu anjo para que ele
me inspire mais e me diga o que Deus quer.

DIA 584

6 de Novembro, Quarta-feira

Hoje eu estava com ótimo humor porque foi dia de sol.

Acordei cinco da manhã e orei na capela às seis.

Foi um dia divertido. Eu estava com bastante sono hoje também, mas consegui
aproveitar bem o dia.

Prossigo com minhas leituras. Por enquanto não tenho grandes novidades para
contar.

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Essa semana não terei tempo de fazer muita coisa, então irei me focar nas
orações e leituras. Até que o tempo ideal se apresente.

DIA 585

7 de Novembro, Quinta-feira

Eu me sinto diferente? Sim.

É difícil explicar de que forma eu me sinto diferente. Mas as mudanças vieram


para melhor.

Estou feliz, mas eu não estava feliz antes? É diferente sentir-se feliz com Deus e
sem ele.

"O cristão não é um homem melhor do que os outros, nem mais inteligente, nem mais amoroso,
ele apenas caminha com alguém, ele se mantém na sua presença"
(Relatos de um Peregrino Russo, por Anônimo do Século XIX)

Ainda tenho muito que aprender. Por isso dizem que esse processo é apenas o
começo e não o fim.

A morte parece algo um pouco menos assustador. Porque você sabe que não
estará sozinho nesse momento: seu anjo guardião estará com você, lutando pela
sua alma.

É difícil explicar isso para quem não acredita em Deus ou anjos. Eu poderia
tentar traduzir em outros termos, mas às vezes não sinto vontade, para não
remover a magia.

Algumas coisas você entende e outras não. Simples.

DIA 586

8 de Novembro, Sexta-feira

128
Ontem terminei de ler mais um livro. No momento estou relendo "Angels and
Demons" de Peter Kreeft. Acredito ser uma excelente leitura para essa última
etapa.

O amor dos anjos é puramente espiritual. Ele é agape, um amor altruísta. Como
nós também podemos alcançar esse tipo de amor? É um amor que vem da
vontade e do intelecto e não dos sentimentos.

A tendência é sermos considerados frios quando não amamos com os


sentimentos. O amor animal não é errado. Mas também é importante
aprendermos a amar mais como anjos.

DIA 587

9 de Novembro, Sábado

Há uma questão interessante: será que queremos que Deus e nosso anjo nos
mandem fazer alguma coisa para que nos livremos da nossa responsabilidade de
escolher?

Essa questão se passou sim pela minha cabeça e teve alguém que me perguntou
sobre isso.

Eu diria que meu anjo me confirmou que a decisão é minha. Eu tenho livre-
arbítrio. Deus me dá a liberdade de fazer o que eu quiser.

Tudo bem, eu sei disso. Mas eu queria que meu anjo me dissesse o que Deus
mais gostaria que eu fizesse com minha vida.

A resposta que eu recebi foi bem surpreendente. Antes eu pensava que ou meu
anjo se negaria a responder e me deixaria no escuro ou ele seria totalmente claro
sobre isso.

Mas não foi uma coisa nem outra. Ele foi claro sobre minha missão, mas ele
também me disse que as coisas mudam. Que de repente Deus pode me mandar
fazer coisas diferentes ao longo da minha vida.

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Eu não tenho que me agarrar numa missão fixa para ficar tranquila, mas devo
sempre estar aberta para que Deus possa interferir na minha vida e me dizer
para fazer coisas diferentes.

Talvez eu desejasse me livrar da minha responsabilidade de escolher com uma


resposta pronta agora que serviria para toda a minha vida. Mas isso não existe.

A nossa missão muda conforme o tempo passa, conforme amadurecemos e


estamos prontos para a próxima etapa de nosso aprendizado nesse mundo.

Eu acho que essa foi uma das lições mais profundas e importantes que eu
aprendi com Abramelin.

Tudo bem, essa etapa dos quadrados mágicos será importante para me ajudar a
ter disciplina nas coisas que quero e que tenho que fazer. Mas isso não é o
fundamental.

O centro de tudo, o cerne da operação, não foi essa parte, mas meu anjo me
mostrar isso tudo. Foi ele me mostrar que ele não vai me dizer uma frase agora
que vai servir para toda minha vida e resolver todos os meus problemas.

Ele me disse as coisas com clareza, pois foi isso que eu pedi. Mas ele não vai
dizer algo para me proibir de escolher.

Meu anjo não fez terrorismo comigo me dizendo que se eu não seguir o
caminho A eu vou pro inferno. Ao contrário, Deus nos deixa livres e mesmo
em momentos de nossa vida que não seguimos bons caminhos, ele dá um jeito
de nos dar bons aprendizados e crescimentos também através desses outros
camiinhos.

Irei manter isso em mente sempre, pois assim não terei tanto medo de errar. Eu
posso errar. E depois dar um jeito de acertar no futuro, mas nós não vencemos
sempre.

Não fazemos Abramelin para aprendermos a ser vencedores sempre, mas para
aprender a perder. Para conseguir perdoar a nós mesmos quando fracassamos,
pois Deus perdoa.

DIA 588

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10 de Novembro, Domingo

Hoje completa uma semana desde as orações de preparação.

A partir de amanhã, devo iniciar o que não tive tempo para fazer ao longo dessa
semana.

É claro que se eu fosse esperar até eu ter tempo mesmo eu iria esperar, sei lá,
mais um ou dois meses pelo menos antes de iniciar o que eu tenho que fazer.

Por isso, com tempo ou sem tempo, farei essa semana. Acho que agora estou
preparada.

Ou melhor, nunca estamos realmente preparados, provavelmente, mas façamos


o que deve ser feito.

11 de Novembro, Segunda-feira

Não fiz o registro ontem porque eu estava exausta: cansada e com sono. Então
fiz hoje (terça) de manhã.

Estou há quase 30 horas de jejum, então eu fico mais cansada que o normal,
mesmo que a maior parte das minhas atividades ontem tenham sido ler livros.

Tomei muita água e mesmo assim estou com muita sede. Tomei uns 3 litros de
água ontem e hoje assim que acordei tomei mais meio litro, de uma vez, de tanta
sede.

Como eu já disse várias vezes, nos jejuns nos sentimos fracos e nossas orações
se tornam poderosas. Nós nos tornamos mais humildes diante de Deus.
Percebemos que sem ele não somos nada.

A nossa tendência é pensar que somos apenas mente e o corpo é apenas um


saco para nossa alma, mas não é bem assim. O cristianismo mostra como o
corpo é importante, pois Jesus adquiriu um corpo humano.

Jesus jejuou no deserto e foi tentado pelo diabo. Então devemos também nós
ficarmos em estado de deserto para sermos tentados pelo diabo.

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Essa é uma oportunidade para crescimento, aprendizado. É inesquecível.

Ontem fiz orações importantes. Estou estabelecendo os termos com meu anjo e
conversando com ele para descobrir o que eu preciso nessa etapa da minha
vida.

Já foi esclarecido que minha missão não é algo único que pode ser informado
tudo de uma vez. Ela pode ir mudando ao longo da vida e não devemos nos
assustar com isso.

Devemos aprender, em cada momento, a identificar o que é importante.


Quando nosso coração bate mais forte, pode ser Deus falando conosco.

Ontem e hoje meu coração está batendo bem forte, pelo esforço do meu sangue
em enviar oxigênio e nutrientes para meus órgãos. Então Deus está falando
bastante comigo, hehe.

Na doença Deus também fala conosco. É um aprendizado duro. As mulheres


experimentam esse aprendizado todo mês com as cólicas. Tem sido alguns dos
aprendizados mais difíceis da minha vida e uma maneira forte de eu lembrar que
eu tenho um corpo e não sou apenas mente.

Hoje à noite terei mais momentos inesquecíveis com meu anjo.

12 de Novembro, Terça-feira

Não fiz o registro ontem novamente porque eu estava exausta. Fiquei longas
horas lendo e depois fiquei com sono.

Pretendo que hoje seja o último dia de Abramelin. Não vale a pena estender
mais isso, ou vou acabar me dispersando.

Achei que essas últimas duas semanas foram importantes para eu ter clareza
sobre o que precisava ser feito. Mas agora eu devo tomar uma decisão. E que
seja hoje.

13 de Novembro, Quarta-feira

Esse foi, oficialmente, meu último dia de Abramelin.

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Completei agora 24 horas de jejum. Ativei um dos quadrados mágicos: o 18/11:
Happir, Amaosi, Paraop, Poarap, Isoama, Rippah.

Ele não será para uso imediato, mas para breve. Na verdade, eu escolhi um dos
quadrados mais como símbolo, pois posso usar outros quadrados no futuro.

Meu coração bateu mais forte quando ativei o quadrado. Claro que o fato de eu
estar em jejum pode ter influenciado também as batidas do coração.

Mas não importa. Eu me senti aquecida por dentro e me sinto aquecida agora.

E assim se encerra a operação.

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Conclusão

Todos dizem que a operação de Abramelin não termina após os 6 (ou 18)
meses, semana de ouro, semana de agradecimento e uso dos quadrados.

Isso é só o começo. O final da operação na verdade é o início do conhecimento


e conversação com nosso anjo, que pode se estender por toda vida.

Na verdade, Abraão o Judeu orienta uma série de jejuns e observâncias para se


fazer a cada ano, em datas específicas, para continuarmos a trabalhar com nosso
anjo para sempre.

Imagino que algumas pessoas façam isso mesmo, mas outras não. Eu arriscaria
dizer que, para a maior parte das pessoas que encerram formalmente a operação,
elas provavelmente continuam a usar os quadrados e contatar seu anjo em
ocasiões especiais, mas não mantém todas as observâncias do livro.

Eu mesma não pretendo manter. Para mim, a operação acabou aqui e, quando
necessário, poderei usar os quadrados ou contatar meu anjo.

Mas continuarei orando, acreditando em Deus e todo o resto.

Isso tudo não foi apenas um experimento ou diversão para mim. Eu levo tudo
muito a sério e sei o que vi e o que senti.

É claro que para os céticos que não acreditam em nada disso e vão me
perguntar se o uso dos meus quadrados deu certo, por mera curiosidade,
confesso que eu tenho pouca vontade de conversar com essas pessoas.

Mas se você já fez a operação, pensa em fazer e suas dúvidas não são apenas um
jogo, é um prazer trocar ideias.

Para toda pessoa, há coisas que o anjo permite contar e outras não. Mas isso é
natural.

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Foi maravilhoso passar por esses mais de 19 meses de tortura, quero dizer, de
noites sem dormir, quero dizer, de belo contato com Deus e com meu anjo.

Se eu me arrependo? Nunca! Eu faria de novo, uma terceira vez? Sim! Mas por
enquanto nem quero ouvir falar nisso.

Na verdade, eu prefiro que eu morra sem que tenha uma terceira vez. Se tiver,
espero que seja só daqui, sei lá, décadas.

Abramelin/Abraão sugere que se faça a operação entre os 25 e 50 anos, ou algo


do tipo. Mas se deu certo eu fazer aos 17, creio que vá dar certo eu fazer com
mais de 50.

Não sei porque as pessoas se preocupam tanto com minúcias ou detalhes da


operação. Muita gente me pergunta muito sobre a questão da idade, sobre a
importância do isolamento ou se importa fazer 6 ou 18 meses, preparar o óleo
ou utensílios adequadamente, etc.

A tudo isso eu respondo, ore para seu anjo e pergunte, peça sinais de como
deverá ser feita sua operação em particular. Deus conhece nosso coração e sabe
do que precisamos. Se houver impedimentos reais para que seja feita a operação,
você saberá.

Houve momentos brilhantes ao longo desse período, nos quais fiz jejuns,
orações longas, leituras santas, que derramei lágrimas, senti o coração bater
forte. Mas houve momentos em que fiz tudo errado, não acordei na hora, dormi
demais, não fiz jejuns, não li, fiz tudo ao contrário.

E devo dizer que todos os momentos da operação foram preciosos, os erros e


os acertos. Talvez os erros tenham me ensinado ainda mais. Mostrado minhas
limitações, minha preciosa humanidade.

Não sei porque eu e tanta gente tem interesse na operação de Abramelin. Acho
que é como escalar uma montanha ou fazer algo muito difícil. Porque somos
humanos e queremos experimentar, nos desafiar.

Além da curiosidade, também há um desejo pelo autoconhecimento e para nos


tornarmos pessoas melhores.

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Sim, eu sou egoísta, me desculpe. Honestamente, não tenho nenhuma desculpa
para isso. Acho que todos nós temos o direito de sermos um pouco egoístas. Há
momentos em que nosso egoísmo pode até ajudar outras pessoas. Por exemplo,
se investimos em nós mesmos para adquirirmos conhecimentos e habilidades,
isso pode nos tornar pessoas mais aptas para ajudar os outros depois.

Comecei a operação com um desejo católico por altruísmo e admiração pela


santidade e martírio. Termino a operação ainda respeitando todas essas coisas.

Mas eu não sou uma santa ou mártir e dificilmente me defino como altruísta. Na
maior parte do tempo, eu me sinto mais egoísta do que a maior parte das
pessoas que conheço.

Se eu devo mudar? Alguns de meus egoísmos sim. Outros, acredito que podem
ser benéficos para mim e para os outros.

Talvez essas palavras pareçam um pouco estranhas, mas até Deus descansou no
último dia, após a criação. O ser humano também pode descansar.

E agora, após tanto trabalho, em meio a acertos e falhas, chegou o meu


momento de descansar um pouco.

Acho que vou sentir saudades dessa época da operação. Já tenho preciosas
memórias dela.

Mas no futuro acontecerão outras coisas com minha vida, que respeitarei
também.

E sobre toda essa história da minha missão? Que eu tenho uma missão e tal? Eu
acredito que Deus dá uma missão para cada pessoa sim.

Mas talvez não apenas uma missão. Ele dá várias, as missões mudam, se
transformam. Deus não vai te dar uma resposta definitiva que resolverá todos os
seus problemas.

Mas esses 19 meses me fizeram descobrir muita coisa. Isso irá influenciar em
decisões importantes que tomarei no futuro. Algumas talvez daqui 1 ano, 2
anos, 5 anos, 10 anos, não sei bem.

Estou feliz, satisfeita e eu quero dormir um pouco. Pelo menos um pouco.

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Conheço pessoas que amam acordar todo dia às 4 ou 5 da manhã (mesmo que
poucas), mas eu não sou uma delas. Eu consigo fazer isso quando preciso, mas
agora eu só queria acordar um pouquinho mais tarde.

E eu quero muitos outros caprichos. Sou caprichosa, egoísta, eu sou muitas


vezes uma pessoa ruim e enxergo isso.

Não sei bem o que fazer com tudo isso. Felizmente, meu anjo me respondeu
algumas dúvidas bem importantes, mas outras eu vou precisar descobrir sozinha
no futuro. E se não fosse assim não seria divertido.

Porto Alegre, 13 de novembro de 2019

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