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Comunicação: conceitos, fundamentos e história

João Batista Perles∗

Índice Introdução
Introdução 1 Comecemos por falar brevemente sobre o
1 Fundamentos científicos 2 nosso objeto de estudo: o processo de co-
2 Do grunhido à Internet 4 municação. Ele representa um dos fenô-
3 Efeitos convergentes 11 menos mais importantes da espécie humana.
Considerações finais 14 Compreendê-lo, implica voltar no tempo,
Referências bibliográficas 15 buscar as origens da fala, o desenvolvimento
das linguagens e verificar como e por que ele
se modificou ao longo da história.
Resumo A linguagem, a cultura e a tecnologia são
Visando colaborar prioritariamente para com elementos indissociáveis do processo de co-
as disciplinas de Teorias da Comunicação municação. Quanto à primeira, Tattersall
e História da Comunicação, o presente (2006, p. 73) afirma categoricamente que
trabalho faz uma releitura do processo “[...] se estamos procurando um único fator
de comunicação, focando-se nos marcos de liberação cultural que abriu caminho para
conceituais, nos fundamentos científicos a cognição simbólica, a invenção da lingua-
e na história da comunicação. Para tanto, gem é a candidata mais óbvia.” Quanto aos
toma como elementos essenciais a tríade outros dois, nos parece pertinente concordar
linguagem, cultura e tecnologia. Recorrendo com Mayr (2006, p. 95) ao propor que “Uma
à pesquisa bibliográfica o texto reúne dife- pessoa do século XXI vê o mundo de ma-
rentes visões relacionadas ao processo de neira bem diferente daquela de um cidadão
comunicação e a história dos meios de co- da era vitoriana” e que “Essa mudança teve
municação de massa e conclui pressupondo fontes múltiplas, em particular os incríveis
a existência de uma transição de modelo avanços da tecnologia.” Souza Brasil (1973,
sócio-tecnológico da informação. p 76), mais incisivo, enxerga a cultura como
subordinada às formas de comunicação
Palavras-chave: processo de comunica-
ção, linguagem, cultura, tecnologia. Ora, se a existência da cultura está su-
bordinada a forma de comunicação do

Professor de Teorias da Comunicação na Facul- tipo humano, isto é, comunicação simbó-
dade de Selvíria (FAS)-MS; Professor de Jornalismo
Especializado nas Faculdades Integradas de Três La- lica, temos que admitir que os fundamen-
goas (AEMS)-MS. tos da comunicação precisam ser bus-
2 João Batista Perles

cados nos caracteres biológicos do ho- desenvolvimento da linguagem para simpli-


mem, pois cultura e comunicação sim- ficar um dos fenômenos mais importante da
bólica surgiram na terra simultaneamente socialização, cujos limites sempre estão por
como o próprio gênero humano. Assim, vir, conforme ressalta Baitello Júnior (1998,
cultura e comunicação são conceitos su- p.11):
plementares, não se constituindo, nem
um nem outro, fundamento mas condição Hoje o homem tenta lançar pontes (ainda
necessária para compreensão e existência que hipotéticas) não apenas sobre a ori-
de cada um. gem do universo, sobre o chamado big
bang, mas também sobre as raízes remo-
Sendo assim, a linguagem, a cultura e a tas dos códigos da comunicação humana.
tecnologia constituem a tríade de fatores que Constata que a capacidade comunicativa
alicerçam o presente trabalho. Para tanto, re- não é privilégio dos seres humanos; está
corremos à pesquisa bibliográfica, tomando presente e é bastante complexa em mui-
a antropologia, a história, a sociologia, a tos outros momentos da vida animal, nas
lingüística e as teorias da informação como aves, nos peixes, nos mamíferos, nos in-
campos de conhecimentos principais, mas setos e muitos outros.
não exclusivos.
Ao explorarmos o vastíssimo campo da Resgatando o termo em sua etimologia
comunicação em seus variados aspectos te- Marques de Melo (1975, p. 14) lembra
mos por objetivo geral contribuir para com as que “comunicação vem do latim ‘commu-
Teorias da Comunicação e a História da Co- nis’, comum. O que introduz a idéia de co-
municação. Além disso, consideramos que munhão, comunidade” (grifos do autor).
o presente trabalho serve como contraponto Mas, se falamos em “processo de comu-
à histórica dos meios de comunicação, intro- nicação”, cabe também uma rápida inspeção
duzindo alguns vieses, incluindo nomes de no termo “processo”. Berlo (1991, p. 33)
pessoas e seus papéis tantas vezes esqueci- assim descreve sua aceitação do termo:
dos por aqueles que contam a história dos
mass media. Um dicionário, pelo menos, define “pro-
cesso” como “qualquer fenômeno que
apresente contínua mudança no tempo”,
1 Fundamentos científicos ou “qualquer operação ou tratamento
De imediato, podemos classificar a comuni- contínuo”. Quinhentos anos do nasci-
cação conforme propõem os dicionários, as- mento de Cristo, Heráclito destacou a im-
sim o termo seria apenas mais um substan- portância do conceito de processo, ao de-
tivo feminino: “1. ato de comunicar; infor- clarar que um homem não pode entrar
mação, aviso; 2. passagem, caminho, liga- duas vezes no mesmo rio; o homem será
ção”. (Rocha 1997, p.154). Mas tal classi- diferente e assim também o rio. [...] Se
ficação, além de insuficiente para descrever aceitarmos o conceito de processo, ve-
o fenômeno, se serve do longo processo de remos os acontecimentos e as relações
como dinâmicos, em evolução, sempre

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em mudança, contínuos. [...] Não é coisa Na psicologia, com Pereira (1973, p. 108)
estática, parada. É móvel. Os ingredien- que procura lançar luzes sobre os elementos
tes do processo agem uns sobre os outros; sensoriais e, concomitantemente, sobre im-
cada um influencia todos os demais. portantes aspectos da experiência estética

Acolhendo o pressuposto de Berlo, Sousa O ser humano é um “sistema” aberto em


(2006, p. 28) assume o conceito de comu- constante intercâmbio consigo próprio
nicação como processo, em razão de que o (vida interior mental e visceral) e com o
termo “designa um fenômeno contínuo [...] mundo ambiental. Isso só é possível gra-
com sua evolução em interação”. ças aos elementos e órgãos que forma o
Não faltaram, ao longo dos estudos da co- Conjunto SENSORIAL (órgãos do sen-
municação, contribuições coerentes à com- tido, sensibilidade à dor, etc., etc.) e
preensão de fenômeno tão complexo. Seus às FUNÇÕES PERCEPTIVAS. [...] Du-
fundamentos científicos encontram-se an- rante a transmissão de sinais ou símbo-
corado na biologia mencionada por Teles los, no trabalho de comunicação, o colo-
(1973, p. 19) para quem rido emocional e a tonalidade afetiva tem
fundamental importância [...] (grifos do
Uma rocha se comunica, à medida que autor).
suas partículas nucleares se atraem ou se
repelem na intimidade de sua estrutura Na sociologia, quando Menezes (1973, p.
atômica. 147) propõe que o processo de comunicação
Como se vê, comunicação implica movi- poderia ser considerado como fundamento
mento. Por convenção, chamou-se vida da vida social
ao automovimento imanente. Sua exten-
são foi restrita ao campo biológico, plan- [...] Com efeito, num plano lógico de
tas e animais, em função da imanência. consideração dos fatos, o processo da
comunicação humana poderia ser enca-
Na antropologia, considerada por Souza rado como o fundamento da vida social
Brasil (1973, p. 80) quando questiona sobre e não o contrário, conquanto do ponto
a capacidade da fala de vista da natureza ou da estrutura de
tais fenômenos os dois se manifestam de
Já que não estamos estudando especifi- forma nitidamente inseparáveis e, mais
camente a evolução dos primatas, nem que isso, interdependente: [...].
mesmo a gênese humana em si, resta-nos
portanto saber por que se diz que o ho- Na lingüística, porquanto Souza (1973, p.
mem é sabido, já que só os sabidos pen- 209) sugere que a Lingüística e Teoria da Co-
sam e falam? [...] Quando e por que municação tem-se contribuído mutuamente
um determinado animal poderia ser clas-
sificado como homem e quando outro, Seria bizantinismo discutir-se, entre
que apresenta estrema semelhança anatô- Lingüística e Teoria da Comunicação,
mica, não o poderia? qual a que maior contribuição prestou à

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outra, já que elas se ajudam reciproca- “[...] ao analisar o fenômeno comunicativo,


mente, numa estreita correlação. [...] É cada ciência e corrente filosófica utiliza a sua
pacífico, desde Aristóteles, que o homem própria perspectiva, a sua própria terminolo-
é um ser social. Nem todos, porém, con- gia, os seus conceitos específicos”.
cordam com os fundamentos dessa so- Reconhecemos tais contribuições como
ciabilidade. Ninguém pode negar, en- fundamentais à compreensão do fenômeno
tretanto, que a comunicação (principal- comunicativo e, ampliando tais perspectivas,
mente a lingüística) (sic!) é condição ba- nos parece pertinente, até em função daquilo
silar dessa sociabilidade, que pressupõe que se tem estudo nos últimos anos, men-
um intercâmbio entre os homens a fim de cionar a existência de pressupostos sócio-
que seja possível a transmissão, de um interacionistas-discursivos difundidos pela
para o outro, de experiências, conheci- escola francesa, cujos axiomas foram inau-
mentos e apelos. gurados pelo lingüista russo Mikhail Bakhtin
e que deságuam no princípio do dialogismo.
E, finalmente, Sá (1973, p. 243) na filo- Mas aqui não discutiremos tais pressupos-
sofia quando, por analogia, estabelece uma tos em função do objetivo do trabalho e seus
primordial relação afirmando que limites espaciais, embora a tenhamos como
A teoria do Conhecimento está voltada mais uma caminho alternativo para pavimen-
para três aspectos importantes do saber: tação do campo espistemológico da comuni-
—Existe algo? cação.
—É possível conhecer?
—Pode-se transmitir? 2 Do grunhido à Internet
A Comunicação está voltada — pois que
nisto envolta — para estas mesmas inda- 2.1 Tecnologia e ferramenta
gações. Inverte-se, apenas, a colocação Para fins deste trabalho, entendemos como
do problema. tecnologia qualquer mecanismo que possibi-
—Pode-se (comunicar) transmitir? lite ao homem executar suas tarefas fazendo
—O que se comunica se conhece? uso de algo exterior ao seu corpo, ou seja,
—O que se conhece existe? tudo aquilo que se caracteriza como extensão
[...] A possibilidade da transmissão do do organismo humano. Assim visto, é neces-
conhecimento é assunto gnosiológico e é, sário ressaltar que o uso de tecnologia pelo
também, assunto de comunicação. homem teve início não relacionado à comu-
Também Marques de Melo (idem, p.31) nicação, mas à sobrevivência, uma vez que
traça um rápido panorama da comunicação as primeiras ferramentas utilizadas pela es-
por meio dos diversos conceitos: o cientí- pécie humana serviam para destrinchar ali-
fico, o filosófico e o estrutural. Adotando mentos. Classificados como modo industrial
este último para trilhar, o autor resume a co- Olduvainense, ou modo técnico 1, ele surgiu
municação enunciando: “Comunicação é o há cerca de 2,5 milhões de anos. Segundo
processo de transmissão e recuperação de in- Arsuaga (2005, p. 57), que atribui a utili-
formações”, mas adverte para o fato de que zação de tais objetos ao homo habilis “Os

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primeiros artefatos líticos (ou seja, de pe- idéia, e a significação, que consiste no
dra) datados com segurança foram recolhi- uso social dos signos.
dos em Gona, na região do Hadar, país dos
Afaris (Etiópia) e contam com uns 2,5 mi- A invenção de uma certa quantidade de
lhões de anos de antiguidade”. No que con- signos levou o homem a criar um processo de
cerne à emissão de mensagens, ou seja, ao organização para combiná-los entre si, caso
processo de comunicação, só muito tempo contrário, a utilização dos signos desordena-
depois é que o homem se serviu de algum ar- damente dificultaria a comunicação. Foi essa
tefato a fim de quebrar a barreira do espaço combinação que deu origem à linguagem se-
e do tempo. Para que a comunicação hu- gundo Bordenave (idem, p. 25) quando diz
mana alcançasse o estágio atual, tanto em vo- que “de posse de repertórios de signos, e de
lume e formatos, quanto em velocidade, fo- regras para combiná-los, o homem criou a
ram necessárias diversas transformações fisi- linguagem”. Certamente a afirmação de Bor-
ológicas e processos tecnológicos revolucio- denave refere-se à linguagem verbal (oral ou
nários. Algumas mudanças aconteceram há escrita) bem articulada e não à linguagem em
tanto tempo que quase nunca são menciona- sua acepção mais genérica que inclui a pos-
dos ou percebidos pelo homem, mas os seus sibilidade do homem emitir sons guturais a
traços se conservam e, vez ou outra, se fazem fim de expressar sensações. Não por acaso,
presentes nos gestos, expressões e ruídos que Tattersall (idem, p. 72) nos faz recordar que
emitimos. “os humanos tinham um trato vocal capaz de
produzir os sons de fala articulada mais de
meio milhão de anos antes que surgisse evi-
2.2 Linguagem e comunicação
dência de linguagem.”
Até hoje os estudiosos ainda buscam chegar É quase de domínio popular o fato de
a uma conclusão definitiva sobre como os que o processo de comunicação visual sur-
homens primitivos começaram a se comuni- giu muito antes da escrita. Não por acaso,
car entre si, se por gritos ou grunhidos, por conforme nos adverte Peltzer (1991, p. 98),
gestos, ou pela combinação desses elemen- “muito antes de qualquer escrita, os que
tos. habitaram as grutas de Altamira comunica-
De qualquer modo, o homem chegou à as- ram com seus semelhantes (e poder-se-ia di-
sociação dos sons e gestos para designar um zer que continuam a comunicar)” uma vez
objeto, dando origem ao signo, conforme nos que “quem visita hoje essas grutas recebe as
fala Bordenave (1982, p.24) mensagens cujos emissores são nossos ante-
passados [...]”. Esse fato, por si, torna desne-
Qualquer que seja o caso, o que a histó- cessário discorrer mais amplamente acerca
ria mostra é que os homens encontraram da importância da expressão visual para o
a forma de associar um determinado som homem. Entretanto, parece-nos interessante
ou gesto a um certo objeto ou ação. As- acolher alguns pressupostos teóricos formu-
sim nasceram os signos, isto é, qualquer lados por Santaella e Nöth (1998, p. 13),
coisa que faz referência a outra coisa ou para quem a imagem faz parte da expressão
humana “desde as pinturas pré-históricas” e

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“hoje, na idade do vídeo e infográfica, nossa 2.3 A escrita e a tradição oral


vida cotidiana—desde a publicidade televi- O homem descobriu que as palavras ou no-
siva no café da manhã até as últimas notícias mes de objetos eram compostos por unida-
no telejornal da meia-noite—está permeada des menores de som, descobrindo, portanto,
de mensagens visuais [...]”. os fonemas e, conseqüentemente, a possibili-
Inicialmente o homem comunicava os dade de representar os objetos e as coisas por
acontecimentos na mesma ordem em que meio destas unidades. Esta descoberta per-
eles se davam, ou seja, um caçador descre- mitiu o surgimento da escrita chamada fono-
via sua rotina na mesma seqüência dos fa- gráfica, na qual os signos representam sons.
tos. Se pegava uma arma, enfrentava um ani- A combinação dos sons em seqüências de
mal, matava-o e comia-o, assim desenhava diversos comprimentos pode, além de des-
nos pictogramas (desenhos ou símbolos) e crever objetos, representar idéias. A possi-
ideogramas (sinal que exprime a idéia e não bilidade dos signos gráficos serem represen-
os sons da palavra, em oposição à fonográ- tados por unidades de sons menores que as
fica). palavras deu nascimento ao conceito de le-
Há cerca de 3.000 anos antes de Cristo, os tras. Com elas, o homem formou os alfabe-
egípcios representavam aspectos de sua cul- tos. Antes que o alfabeto tomasse a forma
tura por meio de desenhos e gravuras colo- que o conhecemos atualmente, passou por
cados nas casas, edifícios e câmaras mortuá- inúmeras transformações. Primeiro surgiram
rias. os silabários, que consistiam num conjunto
Os signos sonoros e visuais, como o tantã, de sinais específicos para representar cada sí-
o berrante, o gongo e os sinais de fumaça, fo- laba chegando muito tempo depois ao alfa-
ram os primeiros a serem utilizados pelo ho- beto greco-latino (Gontijo, idem, p. 48-166).
mem a fim de vencer a distância. A utiliza- Mas, ainda assim, por séculos, a cultura
ção desses artefatos caracteriza a tecnologia continuou sendo transmitida oral e visual-
da comunicação em seus primórdios, já que, mente. Durante a Idade Média o povo não
através deles a mensagem humana vence o tinha acesso à linguagem escrita, que era res-
âmbito familiar e grupal. Mas somente com trita aos monges e às pessoas letradas.
a invenção da escrita, por volta do século IV Enquanto a linguagem se desenvolvia, os
antes de Cristo, é que o homem encontrou suportes e meios de comunicação também
uma solução mais definitiva para o problema iam se aperfeiçoando. O surgimento do pa-
do alcance, já que a mensagem escrita pode pel, inventado pelos chineses, substituiu as
ser levada de um para outro lugar. Mais do superfícies de pedra, os papiros e os perga-
que isso, a escrita inaugura o início da histó- minhos de couro, então utilizados para a es-
ria, uma vez que, sem ela, “poucos especia- crita.
listas ousam fazer assertivas, e a maior parte A história da escrita tem muito de fascí-
das interpretações é tão genérica e cautelosa nio. Antes que a tecnologia ocidental de im-
que quase nada revela sobre a vida na pré- pressão surgisse para disseminar os textos, as
história (Gontijo, 2004, p. 48).” cópias manuscritas circulavam entre os pou-
cos que decifravam seus códigos. Briggs e

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Burke (2004, p. 19) contam que “nas expe- também estará diretamente vinculada ao
dições que fazia, Alexandre, o Grande, car- desenvolvimento comercial e industrial
regava consigo um porta-jóias com a Ilíada das principais cidades da Europa. É com
de Homero,” e que, “além disso, uma grande a imprensa que a cultura sai dos claus-
biblioteca com cerca de meio milhão de ma- tros e vai para as ruas, permitindo o sur-
nuscritos foi erguida na cidade que levou seu gimento do público leitor. Quando uma
nome, Alexandria”. parte importante desses leitores passa a
se interessar pelas publicações políticas e
2.4 Prensa, tecnologia e decide se envolver com os assuntos pú-
blicos, teremos chegado ao nascimento
comunicação de massa do público político.
Entre 1438 e 1440, o alemão Johann Gens-
fleish Gutenberg aperfeiçoou os tipos mó- Porém, o jornal não foi o primeiro pro-
veis criados pelos chineses que foram os duto a ser impresso por meio da tecnologia
primeiros a imprimir livros. O sistema de dos tipos móveis. Antes, Gutenberg produ-
prensa tipográfica criado por Gutenberg, as- ziu cerca de 300 exemplares da Bíblia divi-
sociado às possibilidades oferecidas pelo al- didos em dois volumes.
fabeto romano, composto de pouquíssimas O clero, que via na impressão uma ame-
letras quando comparado aos inúmeros ide- aça ao seu domínio, rendeu-se à tecnologia
ogramas chineses, não somente possibilitou tipográfica e passou a utilizar o invento para
a produção de livros em grande escala, como imprimir as indulgências, textos teológicos e
propiciou o surgimento do jornal. Dava-se manuais de instrução para a condução de in-
então o primeiro passo para a democratiza- quisições, aumentando a influência da Igreja.
ção da escrita e, conseqüentemente, do saber, Bacelar, (2002, p.2) descreve como a pro-
conforme ressalta Gontijo (idem, p. 167) di- dução de textos foi fundamental para a que-
zendo que “quando foi possível mecanizar bra do papel da Igreja como guardiã da ver-
esse processo através da prensa e reproduzir dade espiritual. Segundo ele
em série, o livro tornou-se portátil e o saber
extrapolou os limites dos mosteiros, feudos Cópias impressas das teses de Lutero fo-
e nações.” ram rapidamente divulgadas e distribuí-
O surgimento do sistema tipográfico gu- das, desencadeando as discussões que vi-
tenberguiano é considerado a origem da co- riam iniciar a oposição à ideia do papel
municação de massas por constituir o pri- da Igreja como único guardião da ver-
meiro método viável de disseminação de dade espiritual. Bíblias impressas em
idéias e informações a partir de uma única linguagem vernáculas, em alternativa ao
fonte. latim, alimentaram as asserções da Re-
Ao surgimento da imprensa Fernando Sá forma Protestante que questionavam a
(2002, orelha) ressalta um outro importante necessidade da Igreja para interpretar as
marco histórico Escrituras — uma relação com Deus po-
dia ser, pelo menos em teoria, directa e
O aparecimento e difusão da imprensa pesssoal.

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Além de quebrar dogmas religiosos, Ba- O primeiro jornal brasileiro foi o Correio
celar (idem, p. 4) ressalta a importância da Braziliense. Seu número inicial foi lançado
imprensa também como instrumento de re- em 1o de junho de 1808, por Hipólito José da
voluções Costa. Sua impressão era feita em Londres,
porque a Coroa Portuguesa proibia a existên-
Veja-se como exemplo, o papel que a
cia de impressoras na colônia.
imprensa desempenhou nas colónias in-
No mesmo ano, a família Real, que fugia
glesas da América, divulgando e defen-
das invasões napoleônicas, chegou ao Brasil
dendo as ideias visionárias que deram
trazendo nos porões dos navios as máquinas
forma à Revolução Americana ou, mais
que iriam dar origem a Imprensa Régia, fa-
tarde ainda, o papel que desempenhou
zendo surgir o primeiro jornal impresso em
nos aparelhos de agitação e propaganda
território brasileiro. A Gazeta do Rio de
para a disseminação das ideais de todos
Janeiro foi fundada em 10 de dezembro de
os movimentos ideológicos revolucioná-
1808 e publicava documentos oficiais e no-
rios que, a partir do século XIX, se pro-
tícias de interesse da Corte, com linguagem
puseram transformar o mundo.
bem parecida com os atuais diários oficiais.
A tecnologia mecânica de Gutenberg au- Nos anos seguintes foram surgindo outros
tomatizou o sistema de produção de textos e periódicos, mas com linguagens marcada-
antecipou-se ao que seria a Revolução Indus- mente agitadoras, que partiam especialmente
trial, iniciada na Inglaterra em 1750. Assim, de Cipriano Barata e Frei Caneca. Desses,
não caracteriza exagero afirmar que a tipo- predominou o jornalismo panfletário da im-
grafia instituiu a tecnologia moderna de co- prensa que sobreviveu até metade do século
municação, visto que, antes, o que tínhamos XIX. Gontijo (idem, p. 285) assegura que
eram tecnologias primitivas (tambor, ber-
rante, fumaça) ou arcaicas (placa de barro, De início, os jornais demonstravam ter
papiro, pergaminho). alguma consciência de que parte da mis-
A associação mundial dos jornais aceita são era educar o povo. No entanto, du-
como verdadeira as evidências de que o pri- rante esse período turbulento, o que se
meiro jornal do planeta tenha sido o Rela- viu foi uma disputa radical, que fez surgir
tionen, produzido por Johann Carolus, em estilos vigorosos e originais de redação
1605. De acordo com o site Observatório jornalística, embora, muitas vezes, des-
da Imprensa (2005), Carolus residia em Es- cambassem para acusações infundadas e
trasburgo, que no século XVII pertencia ao ataques pessoais.
Império Alemão e hoje pertence à França.
Os descobridores do jornal, Martin Welker 2.5 A era da eletricidade
e Jean Pierre Kintz dão garantias de que o
periódico circulava em cópias manuscritas Na esteira do desenvolvimento tecnológico
desde 1604. Afora isso, não é incomum de- surgiu o rádio. As transmissões eletromag-
pararmos com textos que afirmam serem as néticas propiciaram primeiro a criação do te-
Actas Diurnas publicadas em Roma desde légrafo, que transmitia apenas código Morse.
59 a.C a origem do jornalismo. Em 1900 foi feita a primeira ligação radiote-

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legráfica de 300 km, entre Cornwall e a ilha invenção, no intuito de demonstrar algu-
de Wight, na Inglaterra. mas leis por elle descobertas no estuda da
Muito embora o nome do italiano Gugli- propagação do som, da luz e da eletrici-
elmo Marconi seja tido como o do inven- dade atravez do espaço, da terra e do ele-
tor do rádio, o certo é que em 1896 Mar- mento aquoso, as quaes foram coroadas
coni patenteou o primeiro aparelho transmis- de brilhante êxito. (sic!)
sor sem fios. Suas investigações começaram Estes apparelhos eminentemente praticos
por volta de 1894, quando conseguiu enviar são como tantos corollários deduzidos
sinais fracos a cerca de 100m de distância. das leis supracitadas. (Sic!)
Em pouco mais de dois anos os sinais já ul- Assistirão á estas provas, entre outras
trapassavam a barreira de 1 km. Mas antes pessoas, o Sr. P.C.P. Lupiton, represen-
que o cientista italiano tivesse realizado ex- tante do Governo Britânico e sua família.
periências de sucesso, o padre brasileiro Ro- (Sic!)
berto Landell de Moura já havia transmitido
voz por meio do eletromagnetismo. Grecco A primeira transmissão de música por
(2006, p. 77) afirma que “Há registros de que meio do eletromagnetismo se deu na noite
as primeiras experiências do padre Landell de Natal de 1906, na cidade de Brant Rock,
com transmissões de ondas portando a voz Massachusetts, Estados Unidos, por Regi-
humana teriam ocorrido entre 1893 e 1894. nald Fessenden. O sinal foi captado por na-
No mínimo um ano antes da façanha de Mar- vios a 80 km de distância.
coni na Itália”. Gontijo (idem, p. 355) tam- O advento do rádio marcou uma nova era
bém ressalta o fato de Landell ter se adian- nas comunicações, porque suas ondas possi-
tado a Marconi na transmissão radiofônica bilitaram a quebra de uma barreira que sub-
sistiu à tecnologia da impressão: o analfabe-
A primeira demonstração oficial de seu tismo. Como conseqüência, cristalizou-se o
invento foi a transmissão entre a avenida processo de massificação, cuja abrangência
Paulista e o bairro de Sant’ana, sem a o viabilizou como principal instrumento po-
ajuda de fios, de sua própria voz, através lítico da época.
da irradiação de uma onda eletromagné- No Brasil, a primeira transmissão radiofô-
tica, em junho de 1900, na presença de nica pública oficial ocorreu em 7 de setem-
autoridades e da imprensa, 22 anos antes bro de 1922, no Rio de Janeiro, quando o
do Centenário da Independência. presidente Epitácio da Silva Pessoa discur-
sou na inauguração da Exposição do Cente-
Vejamos como o Jornal do Commercio, nário da Independência.
em sua edição de 10 de junho de 1900, noti-
ciou o fato:
2.6 A estética da imagem
No domingo próximo passado, no alto Conforme nos explica Pacheco (2005, p. 2)
de Sant’ana, cidade de São Paulo, o pa- “estética tem sua origem em ‘estesia’, ou
dre Roberto Landell, fez uma experiência seja, sensação, sensibilidade, sentido. Em
particular com vários apparelhos de sua contraposição, temos a palavra ‘anestesia’,

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negação de ‘estesia’, em que os sentidos e 1950 existiam diversos modelos de recepto-


sensações são bloqueados.” Partindo de tais res. Estava, portanto, concretizado o invento
princípios, nos parece que as experiências que uniu o som e a imagem em movimento.
estéticas encontram-se relacionadas ao nú- O Brasil foi o quinto país do mundo a pos-
mero de sentidos que as mensagens e os suir emissora de televisão, depois dos Esta-
meios de comunicação são capazes de aci- dos Unidos, Grã-Bretanha, Países Baixos e
onar no homem. A tecnologia que propiciou França. A primeira emissora brasileira foi
a imagem em movimento e adicionou a ela o a PRF3-TV, futura Rede Tupi de São Paulo,
elemento sonoro, rompeu com as experiên- inaugurada em 18 de setembro de 1950.
cias estéticas até então vivenciadas por meio O incremento na comunicação viveu uma
da técnica de impressão. nova fase com a invenção dos satélites. Os
O cinema antecedeu a televisão enquanto primeiros geoestacionários do tipo Syncom
tecnologia que possibilitou a visualização da foram colocados no espaço nos anos de 1963
imagem em movimento. e 1964, servindo simultaneamente a diversas
Assim como o rádio, a televisão também estações terrestres de localidades ou países
nasceu de um conjunto de descobertas inici- diferentes.
adas em 1817 quando o químico sueco Tons Mas o processo de integração dos meios
Jacob Berzelius descobriu o selênio, que pro- de comunicação iria sofrer o mais profundo
duzia uma corrente de elétrons sempre que impacto com o advento da rede mundial de
atingido por um feixe de luz. computadores, denominada Internet. A rede
Em 1923, o russo naturalizado americano, planetária surgiu de experiências e pesqui-
Vladimir Zworykin, inventou o iconoscó- sas realizadas para fins militares no final
pio que, aperfeiçoado, iria se converter no da década de 1950 e, dela, deriva o debate
atual tubo de imagem dos televisores, tam- entre apocalípticos e integrados, permeados
bém chamado de cinescópio. De acordo com por um terceiro grupo denominado “técnico-
Gotijo (idem, p. 404) realístico” citado por Lemos (1998, p. 46):
Os primeiros passos para a televisão co- O imaginário da cibercultura é perme-
mercial foram dados pela RCA, com a ado por uma polarização que persegue
tecnologia desenvolvida pelo russo natu- a questão da técnica desde tempos ime-
ralizado americano Wladimir Zworykin. moriais: medo e fascinação. O que ve-
Foi o seu sistema, completamente eletrô- mos hoje, com o desenvolvimento da ci-
nico, que permitiu a primeira demonstra- bercultura (Internet, realidade virtual, cy-
ção pública, em Nova York, de transmis- borgs, hipertexto, etc.), é o acirramento
são das imagens produzidas nos estúdios da querela entre o que Umberto Eco cha-
da RCA. mou de apocalípticos e integrados (Eco,
As primeiras experiências de transmis- 1979).[...] um grupo de americanos
são iniciadas na década de 1930 na Europa criou, em março de 1998, uma corrente
e nos Estados Unidos foram interrompidas de pensamento e posicionamento em re-
pela Segunda Guerra Mundial, somente re- lação à tecnologia batizada de “técnico-
tornando após o conflito. Já na década de realismo”.

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Comunicação: conceitos, fundamentos e história 11

Mais recentemente, Briggs e Burk (idem, Nossa era é eminentemente mecânica.


p. 310) aludindo à Internet afirmam ser dela Viajamos de um lugar a outro a velocida-
a responsabilidade por uma nova psicologia des relativamente monstruosas, falamos
uns com os outros a grandes distâncias
Em um período de aceleração da tec- e lutamos contra nossos inimigos com
nologia, a Internet desafiou as previsões surpreendente eficiência — tudo com a
[...]. Rapidamente deixou para trás a fí- ajuda de artifícios mecânicos.
sica e desenvolveu uma psicologia pró-
pria, como havia sido feito o desbrava- Vinte anos depois (1947), o próprio Shoc-
mento da fronteira, e o que veio a ser kley, em parceria com Jhon Bardeen e Walter
chamado de sua “ecologia”, palavra nova Brattain, seria responsável pela invenção do
nos estudos da comunicação [...]. transistor, dispositivo eletrônico que levou
ao surgimento do circuito integrado, como
Assim, nos parece que a Internet conso- bem lembra Burke. (idem, p. 27).
lida uma era estetizada pela imagem, mas
não a supera, conforme se poderia deduzir Shockley dividiria um prêmio Nobel de
de modo simplista. física, em 1956, quando a miniaturização
de circuitos elétricos estava começando a
transformar todos os aspectos de projeto
3 Efeitos convergentes
e uso tecnológicos. [...] Todavia, a de-
Sentado em uma poltrona, acompanhado ou manda por transistores ainda engatinhava
não por outras pessoas, no silêncio de um cô- e só aumentou acentuadamente após o
modo tomado pela penumbra ou num am- advento do circuito integrado.
biente de extrema iluminação e sacudido
pela algazarra de vozes e sons, o homem Utilizamos esta introdução apenas para
aponta o controle remoto para a televisão e, descrever como a tecnologia, na ponta de
utilizando-se de suas múltiplas funções, “na- consumo, opera a sensação de linearidade.
vega” por diferentes canais, aumenta e dimi- Ao chegar no homem-consumidor, apare-
nui o volume do som, controla as cores e a lhos, equipamentos, acessórios e proces-
intensidade de luz da imagem etc. Tudo isso, sos promovem o bem-estar social resumido
envolvido na simplicidade das coisas e go- numa comodidade inimaginável há algumas
zando do conforto das condições que a vida décadas. O produto acabado esconde, em
moderna pode oferecer, dependendo, eviden- sua fetichização, uma cadeia de produção
temente, do poder aquisitivo de cada um. vertiginosa que vai desde o trabalho mais
Se voltarmos no tempo, em plena era do “simples” do operário que regula e controla
vapor, vamos nos deparar com um texto de as máquinas na linha de produção aos téc-
Willian Shockley, escrito em 1927, retra- nicos que operam os complexos equipamen-
tando uma época em que a mecânica tinha tos dos laboratórios de nanotecnologia, pas-
lá os seus deslumbramentos. (Burke apud sando pelos inúmeros pesquisadores encar-
Shockley, 2004, p. 26): regados de planejar as formas e os conteúdos
dos produtos que serão lançados como novas

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12 João Batista Perles

vedetes nos mais variados segmentos do con- ficos no King’s College, em Strand (Grã-
sumo. Eis, pois, aqui, o termo mágico pelo Bretanha), por seu inventor, o economista
qual tudo se move: consumo. Esse aspecto britânico Charles Baggage. Sem o computa-
é tratado por Jambeiro (1998, p. 3) quando dor não haveria como lançar os satélites geo-
lembra que a concepção de serviços e pro- estacinários e, nem tampouco, possibilidades
dutos se destina à apropriação das estruturas de interligar as pessoas por meio da Internet.
econômico-financeiras da sociedade. Quando em outubro de 1957 a ex-União
Soviética colocou o Sputnik no ar, seu lança-
Não importa a natureza da informação, mento chamou mais a atenção do que o pró-
a tecnologia necessária para transformá- prio computador — equipamento imprescin-
la, editá-la, transportá-la ou armazená- dível para a ocorrência daquele ato — des-
la é a mesma, embora em certa medida pertando, segundo Briggs (idem, p.293), o
persistam métodos e qualificações dife- governo norte-americano para uma corrida
renciados para os processos de concep- tecnológica.
ção e produção de serviços e produtos.
Serviços e produtos estes que passaram Por um breve período na história mun-
a submeter-se aos processos de apropri- dial, os satélites de comunicações, os
ação típicos das estruturas econômico- “comsats”, impossíveis de serem lança-
financeiras da sociedade. dos sem os computadores, atraíam mais
a atenção do que os próprios computa-
O cenário atual é caracterizado forte- dores. Os satélites eram as mais fasci-
mente pelas ocorrências de arranjos técnicos nantes (alguns diriam até “sexy”) expres-
que produzem ininterruptas convergências. sões de tecnologia depois do lançamento
Trata-se do equacionamento de conteúdos no do Sputinik pela União Soviética em ou-
formato de arquivos digitais, infra-estrutura tubro de 1957, o surpreendente “acon-
de transmissão e plataforma de visualização. tecimento” que levou o governo norte-
De acordo com Briggs (idem, p. 270), desde americano a encontrar uma resposta o
1990 o termo convergência é aplicado ao de- mais rápido possível.
senvolvimento tecnológico digital, “à inte-
gração de texto, números, imagens, sons e As primeiras transmissões de programas
a diversos elementos na mídia”. de televisão via satélite foram enviadas em
Para entendermos minimamente as vicis- 11 de julho de 1962. Futuramente o satélite
situdes da convergência precisamos retomar teria sua utilização ampliada para a telefonia.
a história do desenvolvimento tecnológico da Foi o lançamento do Sputinik que levou o
informação. O inventário desse processo his- governo norte-americano a investir no desen-
tórico, evidentemente, está além do que pre- volvimento da rede de computadores. A Ad-
tende este trabalho, mas é imprescindível ci- ministração dos Projetos de Pesquisa Avan-
tar ao menos os fatos mais relevantes. A co- çada do Departamento de Defesa dos Esta-
meçar pelo computador que, no início, fun- dos Unidos foi fundada em 1957 e recebeu
cionava mecanicamente. Seu protótipo foi grande injeção de verbas entre os anos de
exposto na Galeria de Instrumentos Cientí- 1968 e 1969, como resposta aos soviéticos.

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Comunicação: conceitos, fundamentos e história 13

No início, tratava-se de uma rede limitada, a e vem movimentando investimentos gover-


Arpanet, que compartilhava informações en- namentais na ordem de bilhões de dólares em
tre universidades de alta tecnologia e outros todo o mundo.
institutos de pesquisa. Há cerca de 2.500 anos, filósofos gregos
Independentemente das visões utilitaris- questionavam sobre a possibilidade da exis-
tas que rivalizavam as universidades e o tência de “tijolos” como componentes mais
Pentágono, havia uma preocupação tecnoló- simples da matéria a constituir as coisas do
gica com a denominada “arquitetura do sis- mundo. Guardadas as especificidades e res-
tema” que, segundo opinião de Briggs (idem, peitados os períodos históricos, essas elucu-
p.311), brações de cunho filosófico se tornaram reais
no século XIX com a descoberta do átomo, o
Qualquer que fosse a posição vantajosa, constituinte fundamental da matéria que, no
de cima ou de baixo, era de importância início, supunha ser indivisível.
crucial, tanto de imediato quanto a longo Em 1959, durante uma palestra no Insti-
prazo, que a “arquitetura do sistema” tuto de Tecnologia da Califórnia, o físico Ri-
(termo empregado com freqüência) dife- chard Feynman sugeriu que num futuro não
risse daquela construída para a rede te- muito distante os engenheiros poderiam pe-
lefônica. Os responsáveis pelo sistema se gar os átomos e colocá-los onde bem enten-
orgulhavam disso. Qualquer computador dessem. A palestra de Feynman é tida como
podia se ligar à Net de qualquer lugar, e o marco inicial da nanotecnologia.
a informação era trocada imediatamente, Mesmo no Brasil, onde os investimentos
em “fatias” dentro de “pacotes”. O sis- na área são parcos, a nanotecnologia já rende
tema de envio quebrava a informação em frutos. Um grupo de pesquisadores da Em-
peças codificadas, e o sistema receptor brapa, liderados pelo Dr. L. H. Matoso,
juntava-a novamente, depois de ter via- desenvolveu uma “língua eletrônica”, dis-
jado até seu destino. Esse foi o primeiro positivo que combina sensores químicos de
sistema de dados empacotados da histó- espessura nanométrica com um sofisticado
ria. programa de computador para detectar sa-
bores. O invento que ganhou prêmios e foi
A Internet, nos parece, representa a cul- patenteado é mais sensível que a língua hu-
minação de um ciclo de desenvolvimento da mana.
tecnologia da informação, tanto quanto ou- O físico Cylon Gonçalves da Silva, ex-
tros ciclos que se completaram. Mas tal afir- diretor do Laboratório Nacional de Luz Sín-
mação, longe da ingenuidade e crença sim- crotron e idealizador do Centro Nacional de
plista, não supõe fim algum, antes, aponta Referência em Nanotecnologia, levanta al-
para o surgimento de uma nova era, ainda gumas suposições sobre os limites da nano-
que insipiente. metria (Silva, 2004, p.3)
A nanotecnologia é um termo ainda novo
e quase desconhecido no vocabulário do pú- As aplicações possíveis incluem: aumen-
blico. Ele deriva da escala nanométrica que tar espetacularmente a capacidade de ar-
divide o metro por segmento de bilionésimo mazenamento e processamento de dados

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14 João Batista Perles

dos computadores; criar novos mecanis- pelo surgimento de novos produtos e ele-
mos para entrega de medicamentos, mais mentos que devem, num tempo ainda difí-
seguros e menos prejudiciais ao paciente cil de precisar, quebrar novos paradigmas co-
dos que os disponíveis hoje; criar mate- municacionais e alterar os condicionantes da
riais mais leves e mais resistentes do que relação humana.
metais e plásticos, para prédios, automó- Seguramente, os profissionais, donos de
veis, aviões; e muito mais inovações em empresas, estudantes da área de comunica-
desenvolvimento ou que ainda não foram ção, escolas de jornalismo, bem como espe-
sequer imaginadas. Economia de ener- cialistas da área, serão desafiados a produzir
gia, proteção ao meio ambiente, menor a partir de novas concepções, em que a ca-
uso de matérias-primas escassas, são pos- pacidade de criação e inventividade nunca se
sibilidades muito concretas dos desenvol- fez tão emergente.
vimentos em nanotecnologia que estão
ocorrendo hoje e podem ser antevistos.
Considerações finais
A velocidade do desenvolvimento na área A chamada sociedade da informação ou so-
de nanotecnologia levou pesquisadores a ciedade tecnológica é considerada por mui-
uma afirmação quase chocante, em março de tos autores como um fenômeno recente na
2004, durante o EPA (Environmental Protec- história do homem e é mais fácil senti-la
tion Agency), órgão do governo dos Estados do que descrevê-la, porque o mote princi-
Unidos, quando disseram que pal de sua existência se deve a complexos fa-
tores que fizeram emergir novos paradigmas
A nanotecnologia, incluindo a nanobio- na produção, recepção e percepção da infor-
tecnologia, tem sido divulgada pelas in- mação. Sobre seu advento, Jambeiro (idem,
dústrias e pelos governos como a pró- p.3) lembra que sua caracterização se dá nos
xima revolução industrial, a maior e a anos 70: “Na base tecnológica da mudança
mais rápida do mundo. Mais de 450 em- tem estado um intenso desenvolvimento ci-
presas dedicadas à nanotecnologia já es- entífico e tecnológico que, desde os anos 70,
tão no mercado produzindo uma gama vem apontando fortemente para a convergên-
de produtos da ’nano velha’, como par- cia entre a eletrônica, a informática e as co-
tículas usadas em cosméticos e atomiza- municações”.
dores, e produtos da ‘nano nova’ como No que concerne a sua complexidade e
chips, sensores e novas formas de car- percepção, Baitello Júnior (idem, p.11) ad-
bono. É preciso que o setor industrial se verte para o aspecto multifacetado do pro-
empenhe para que as preocupações rela- cesso comunicativo afirmando que
tivas à saúde e ao meio ambiente não se [...] Com esse espectro cada vez mais
desviem do progresso da nanotecnologia. amplo, ainda em crescimento exponencial,
pode-se dizer que não apenas houve e está
Tais elementos oferecem condições para havendo uma explosão informacional na so-
que possamos supor que um novo tempo ciedade humana de nosso tempo, como tam-
tecnológico venha se forjando, caracterizado bém se pode dizer que a investigação da co-

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Comunicação: conceitos, fundamentos e história 15

municação humana passa por uma explosão o da sociedade da nanoinformação ou da na-


similar, compreendendo que apenas uma vi- notecnologia. Não se trata de cunhar novas
são transdisciplinar poderá enxergar o objeto palavras, nem tampouco de exercitar a futu-
plurifacetado que é o processo comunicativo rologia. Afora o neologismo, e considerando
do homem. [...] A conseqüência mais imedi- aquilo que já falamos sobre aspectos estéti-
ata é que o instrumental de que a ciência dis- cos enquanto mecanismo associado aos sen-
punha para a investigação dos processos co- tidos, nos parece evidente a transição para
municativos seguramente não consegue mais um modelo social em que o processo de co-
dar conta da complexidade do objeto. municação vivencie novas experiências sen-
Uma das conseqüências do fenômeno da soriais.
rápida transformação pode se traduzir no
sentimento de incerteza, marcada por inten-
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Santaella (2003, p. 16) ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NOR-
Nas últimas décadas, tem havido uma MAS TÉCNICAS. NBR 14724. In-
constatação constante de que estamos atra- formação e documentação – trabalhos
vessando um período de mudanças par- acadêmicos: apresentação. Rio de Ja-
ticularmente rápidas e intensas. Tem neiro, 2002.
sido freqüentemente lembrado que o último
quarto do século XX não teve precedente na ARSUAGA, Juan Luis. O colar do neander-
escala, finalidade e velocidade de sua trans- tal: em busca dos primeiros pensado-
formação histórica. A única certeza para o res. São Paulo: Globo, 2005. 349 p.
futuro é que ele será bem diferente do que é BACELAR, Jorge. Apontamentos so-
hoje e que assim será de maneira muito mais bre a história e desenvolvimento
rápida do que nunca. A razão disso tudo, da impressão. Disponível em:
quase todos afirmam, está na revolução tec- <http://www.bocc.ubi.pt>. Acesso
nológica, uma idéia que se tornou rotineira e em: 21 mai. 2004.
lugar comum, nestes tempos de tecnocultura
[...]. BAITELLO JÚNIOR, Norval. Comunica-
Além disso, cada vez mais, a sociedade ção, mídia e cultura. Revista da Funda-
da informação se delimita pela fetichização ção Saede. V.12/no. 4. Out/Dez 1998.
do tempo. Citando Ramonet, Sylvia Mo- São Paulo. P. 11-16.
retzshon (2004, p.4) lembra que “não é mais
possível analisar a imprensa fora da lógica BERLO. David K. O processo da comunica-
do ‘tempo real’, que submete todas as for- ção. 7. ed. São Paulo: Martins Fontes,
mas e meios através das quais se pratica o 1991. 296 p.
jornalismo”.
BORDENAVE, Juan E. Díaz. O que é comu-
Finalizamos este trabalho sugerindo que
nicação. 1. ed. São Paulo: Brasiliense,
um novo tempo tecnológico vem se forjando,
1982. 106 p.
pressupomos uma transição do modelo da
sociedade da informação ou tecnológica para

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