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Curso Política e Cultura no

Brasil - Olavo de Carvalho


Ciência Política
Universidade Católica do Salvador (UCSal)
125 pag.

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Política e Cultura no Brasil – História e Perspectivas
OLAVO DE CARVALHO

Aula 1
12 de abril de 2016

[versão provisória]
Para uso exclusivo dos alunos do Seminário de Filosofia.
O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.
Por favor, não cite nem divulgue este material.

Boa noite, sejam bem-vindos.


Parece que algumas pessoas ainda estão com dificuldade de acesso. O Silvio Grimaldo está passando
um email para cada um, talvez demore um pouco pois o Gmail possui um limite de emails que pode
ser mandado ao mesmo tempo, dando a solução do problema, portanto, vamos entrar logo no assunto.
Desde o início da década de noventa eu comecei a reparar que algumas coisas muito estranhas
estavam acontecendo no Brasil. Na medida em que fui investigando essas coisas, eu percebi que elas
já estavam acontecendo desde muito antes, desde pelo menos a década de sessenta.
Durante o período militar, nós observamos que enquanto a esquerda se refazia da pancada recebida e
se articulava numa nova estratégia de acordo com os cânones de Antonio Gramsci, o governo militar
não sabia absolutamente nada e durante vinte anos eles não prestaram atenção ao que estava
acontecendo, permaneceram impávido colosso achando que estavam por cima da carne seca, até que
de repente viram que estavam pisando em terreno minado e foi uma debandada – era tudo quanto é
general querendo ir para casa o mais rápido possível.1
Na fase seguinte houve aquele fenômeno, que eu documentei no livro O Imbecil Coletivo, que foi a
total destruição da alta cultura no Brasil. Na época ela ainda subsistia, mas todos os melhores
representantes eram nonagenários. Era de se prever que a coisa ia terminar em breve, como de fato
terminou. Se vocês compararem a lista de grandes escritores que o Brasil tinha nas décadas de
cinquenta e sessenta e os que vieram depois é um negócio devastador, um fenômeno como nunca se
viu no mundo.
Mais adiante começou este crescimento extraordinário do banditismo, da violência assassina,
chegando a setenta mil assassinatos por ano e sem que houvesse um único debate a respeito na grande
mídia e também o fenômeno da total destruição da educação brasileira, onde os nossos alunos do
ensino secundário, sistematicamente, tiravam os últimos lugares nos testes internacionais, e também
não havia nenhum debate na mídia, e assim por diante.
Ou seja, várias coisas esquisitas que mostravam um hiato, uma defasagem, um abismo, entre o que
estava se passando e o reflexo disso na consciência nacional; consciência essa que parecia
completamente morta, o corpo do país estava sofrendo e a sua mente não estava reparando em
absolutamente nada.
Toda essa lista de fenômenos são coisas inéditas. Também o fenômeno do Foro de São Paulo, que
estava se formando, que era a maior organização política que já existiu na América Latina e estava
conquistando um país atrás do outro. E, ao mesmo tempo, a mídia ou fazia de conta que não via ou
negava taxativamente que a coisa sequer existisse. Ela só passou a admitir a existência do órgão

1
“Sto. Antonio Gramsci e a Salvação do Brasil”, In A Nova Era e a Revolução Cultural, Olavo de Carvalho.

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quando o próprio Lula fez dois discursos reconhecendo a atividade, o trabalho, desenvolvido no Foro
de São Paulo, declarando inclusive: “fomos nós quem colocamos o companheiro Chaves na
presidência” – e coisas desse tipo. Daí aos poucos começaram a tomar alguma consciência, até que
finalmente veio o vídeo do terceiro congresso do partido, onde o PT reconhecia o Foro de São Paulo
como comando estratégico da esquerda da América Latina, aí não deu para esconder mais, mas
mesmo assim ainda vieram tentativas de minimizar.
Bom, a coisa está muito grave, pois quando vemos um sujeito que está desempregado, doente, a
mulher dele fugiu, o cachorro morreu, ele perdeu a casa, o carro quebrou, e ele está aparentemente
normal e tranquilo, obviamente é porque ele está maluco. Então, é claro, o país estava doido nesse
sentido e alguma coisa precisava ser feita.
Já desde antes dos anos noventa eu me preocupava com este problema da ciência política. O que eu
notava era que todos os grandes representantes, tanto da filosofia política, quanto da ciência política
na modernidade, todos eles – Maquiavel, Hobbes, Locke, Montesquieu, Rousseau, Kant, Hegel,
Marx, até o próprio Nietsche – raciocinavam sempre com base numa ideia de sociedade ideal a ser
alcançada no futuro. A partir desse modelo da sociedade ideal, diagnosticavam o que estava se
fazendo por contraste com essa sociedade totalmente imaginária. É claro, isso introduzia uma
distorção completa no quadro pois, se o sujeito não consegue nem mesmo obter uma visão clara,
estruturada, detalhada, da sociedade existente, cujos dados estão na sua frente, estão fisicamente
visíveis, como é que ele vai conceber uma sociedade que só existe em sua mente? É claro, a imagem
da sociedade futura é um negócio esquemático, resumido, sumário – Karl Marx não chegou a escrever
trinta linhas sobre como seria o comunismo – e todos esses acreditavam, então, nessa imagem vaga e
sumária de uma sociedade futura, tomando-a como régua de medida para aferir o que estava
acontecendo na sociedade presente – isso é uma inversão. Ao invés de tentarem sondar o
desconhecido pelo conhecido, estavam fazendo o contrário, estavam sondando o conhecido pelo
desconhecido. É claro, isso nunca poderia dar certo. No entanto, isso era uma coisa tão disseminada
entre os pensadores políticos que eu cheguei à conclusão de que todo esse negócio está viciado desde
o começo. E, [mesmo] quando surge a ideia mais própria de ciência política, entre os séculos XIX e
XX, ela não muda, não se cura, desse vício. [Na verdade], apenas acrescenta o uso de alguns
procedimentos cognitivos das ciências naturais – estatística, medição, etc., [ou seja], não adianta nada
absolutamente. Pois estavam pegando uma fantasia e medindo ela.
Há alguns anos houve um livro publicado no EUA que testava a ciência política. Este, consultou os
cientistas políticos, os mais destacados, mais de uma centena deles, quanto algumas previsões sobre
os desenvolvimentos possíveis da situação [corrente] para os próximos anos e 98% deles erraram da
maneira mais escandalosa. Então, é a mesma coisa que responder à pergunta: Para que serve essa
ciência? Para absolutamente nada. Ou seja, é um cabide de emprego. É algo que serve bem a um
monte de picareta, tagarela, isto quando não serve ela própria de instrumento para enganar a
população.
Bom, esse negócio está muito malparado, nós temos de consertar essa coisa. Então, algumas decisões
cognitivas eram preciso serem tomadas.
A primeira decisão era declarar taxativamente: “eu não sei como é a sociedade melhor do futuro”. Eu
não sei, Maquiavel também não sabia, Kant também não sabia, Rousseau também não sabia, mas eu
estou declarando: “eu não sei, não sei como a sociedade deve ser e muito menos como ela será daqui
a cinquenta, cem ou duzentos anos.”
Segunda decisão: “eu não sei para onde a história está indo”. Eu fiquei muito contente quando li no
Eric Voegelin a observação de que “não podemos saber o sentido da história porque não sabemos
quando ela vai terminar”. É evidente que se pode perceber, por exemplo, o sentido de uma peça de
teatro ou de um romance, pois este tem um fim. Para a História, como não sabemos qual é a data do
fim do mundo, então não podemos saber qual é o sentido da História – essa me parece uma observação

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bastante óbvia. Então: “eu não sei qual é a sociedade melhor, eu não sei como ela será quando vier –
se vier – e eu não sei qual é o sentido da História” – esse foi o item nº 1. Foi a primeira decisão.
Dito isso, o que podemos fazer? Como podemos adquirir um ponto de vista vantajoso que nos permita
compreender o que está acontecendo? Este era o grande problema da ciência política: é tentar obter
grandes generalizações, criar leis da história, fazer estes grandes painéis que estes filósofos e
cientistas políticos fazem. Tudo isso é inútil se não investigar primeiro qual é o ponto de vista que se
deve adotar, por onde se deve olhar essa coisa para poder enxerga-la melhor. Qualquer desenhista
sabe disto, que não se pode desenhar a partir de qualquer distância ou qualquer posição, que se deve
encontrar um ponto de vista vantajoso que torne o objeto mais visível e mais facilmente representável.
Na época, desde muito jovem, eu tinha lido um bocado de Jean-Paul Sartre – como todo o mundo da
minha geração eu fui muito influenciado por este cidadão. Quando eu comecei a me colocar esse
problema, eu me lembrei de um treco que eu havia lido do Sartre e pensei: “bom, vamos tomar isto
como ponto de partida para nossa investigação”. Sartre teve um problema muito sério com o seu
padrasto, quando ele era pequeno, ele sentia que o padrasto havia roubado a mãe dele. E como o
padrasto era um sujeito típico da burguesia, Sartre pegou um ódio a burguesia, aqui entendida não só
no sentido econômico ou de classe social – vamos lembrar que Marx nunca teve ódio a burguesia,
pelo contrário, ele enaltecia a função histórica da burguesia. Sartre não via a burguesia assim só como
classe econômica, mas como uma espécie de categoria ontológica, era um modo de ser baseada na
falsa consciência, na exploração dos coitadinhos, no sistema moral fundado em inibições, hipocrisias
etc. E, ele foi criando ódio a essa “criatura” e, por ele sentir esse ódio, naturalmente ele se sentia
excluído da sociedade ordenada e confortável que o burguês havia criado. Desse modo, ele se
chamava a si mesmo de “o bastardo” – embora ele não fosse um bastardo, não fisiologicamente, no
entanto, ele adquire esse papel do sujeito que é rejeitado, que está fora do sistema, que está fora da
sociedade. A partir disso ele começa a se identificar com todos os outros excluídos e bastardos –
negros, homossexuais, criminosos, drogados, prostitutas, maoístas etc. –, todo mundo que não estava
muito confortável na sociedade começa a ser para Sartre um bastardo – é como se existisse uma
espécie de comunidade internacional dos bastardos.
Então eu pensei: “bom, ele não deixa de ter razão quando diz que quando o sujeito é colocado fora
da sociedade ele obtém um ponto de vista privilegiado; ele consegue ver que aquilo que aqueles estão
dentro não enxergam” – nesse ponto ele tem razão. Porém, se nós nos integramos na comunidade
internacional dos bastardos, então estamos integrados, não na sociedade presente, mas, na sociedade
futura, no conjunto de esforços, no oceano de pessoas e organizações que estão envolvidas na
produção dessa sociedade, isto é, estamos integrados de algum modo.
Mais ainda: quando nós vemos que a sociedade presente, a sociedade burguesa, trata todas essas
pessoas, todos esses grupos [dos excluídos], com especial carinho paternal, faz um monte de leis para
protegê-los, persegue quem fala mal deles, etc., além de ter toda uma gama de artistas e intelectuais,
todos eles bastardos, que ocupam os melhores lugares, ganham todos os prêmios Nobel, ocupam todas
as cátedras etc.: “epa, espera aí, o bastardo está duplamente integrado; ele está integrado na
comunidade internacional dos bastardos – negros, homossexuais etc. – e também na sociedade
burguesa, da qual ele desfruta de uma maneira privilegiada” – como o próprio Sartre, eu percebi. O
Sartre ganhou tanto dinheiro com os livros dele que quando o ofereceram um prêmio Nobel ele
rejeitou, um Prêmio Nobel para ele não era nada, “custava apenas um milhão de dólares, grande
porcaria” – ele sempre viveu como um grão-burguês. Então, ele tem razão ao dizer que o bastardo, o
rejeitado, enxerga as coisas melhor, porém, ele não é um bastardo, ele está brincando, ele está fingindo
– e os outros todos também. Nós sabemos das imensas vantagens que o sujeito desfruta por ele
pertencer ou representar um desses grupos supostamente excluídos.

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Eu me lembro que há alguns anos eu fiz na Maison des Sciences de l'Homme da Unesco, em Paris, a
conferência “Os mais excluídos dos excluídos”2. Bom, para dizer que o sujeito é excluído, ele tem de
não ter voz nenhuma, não ter chance. E eu descobri que os mais excluídos dos excluídos são os
mortos, pois eles não falam. Então, nós podemos inventar a respeito deles o que nós quisermos, mentir
o quanto quisermos, e isso evidentemente causa uma distorção da perspectiva histórica. Logo em
seguida aparece uma historiadora brilhante, que escreve algo exatamente sobre isto, isto é, o resgate
das vozes do passado, deixar os caras falarem.
Por exemplo, todos nós sabemos o que nós pensamos a respeito de Platão, a nossa visão sobre Platão.
Mas, o que Platão diria sobre nós? Essa pergunta está excluída. É claro, que se não articular as duas
perspectivas, a visão que o presente tem do passado e a visão que o passado teria do presente, então
estamos fora do senso real das proporções. Portanto, primeiro era preciso integrar na comunidade dos
bastardos todos os falecidos, todo o passado.
Então eu comecei a fazer uma série de exercícios neste sentido. “O que São Tomás de Aquino diria
do que ele está vendo aqui?” “O que Aristóteles ou Platão diriam?”. E eu vi que era preciso um
exercício mental para me colocar do ponto de vista de uma outra época, vencendo o que eu chamei
de “preconceito cronocêntrico”. As pessoas falam muito de preconceito etnocêntrico, todo mundo
quer ver tudo do ponto de vista desde a Europa. Hoje isso já não é assim, o ponto de vista do mundo
islâmico nós sabemos que predomina, que é o mais válido, e o ponto de vista europeu é apenas um
preconceito. Vencer o preconceito etnocêntrico é fácil porque todo mundo está falando que é preciso
vencê-lo e, além disso, a imensidão de material da Ásia e da África que vem sendo publicado já
eliminou o preconceito etnocêntrico. Mas e o preconceito cronocêntrico?
Nós continuamos vendo tudo apenas do ponto de vista da nossa época como se ela fosse uma coisa
privilegiada, como se ela fosse a culminação, o ponto mais elevado da evolução histórica, o que
evidentemente não é assim. Nós podemos dizer que, sob vários aspectos, muitas civilizações antigas
foram superiores a nossa e há coisas delas que ainda estão acima da nossa compreensão. Vejam, tudo
aquilo que o antropólogo polonês, (???), observou sobre o templo de Luxor, é absolutamente
incompreensível do ponto de vista da ciência atual, ou seja, os caras tinham uma ciência que nós não
entendemos. Então, por que não julgar a História do ponto de vista deles, imaginariamente? Aquilo
que Max Weber chamava de “experimento imaginário”? Isso já começou me dando uma amostra do
que poderia ser um ponto de vista privilegiado.
Então, o ponto de vista privilegiado teria de absorver o maior número possível de perspectivas e
integrá-las num centro de consciência. Ou seja, se eu estudasse, por exemplo, a filosofia escolástica,
eu não a estudaria do ponto de vista de um acadêmico do século XX, mas eu tentaria ver como o
escolástico via a si mesmo e como ele veria essa possibilidade de desenvolvimento que de fato
aconteceu. Eu sou, por exemplo, Duns Scot e eu tenho uma visão do que os caras escreverão de mim
no século XX e eu faço uma crítica disso. Eu fiz esse exercício muitas vezes. Praticamente tudo que
eu estudo, que eu leio, eu faço isto, eu mudo de época.
Aí foi que eu escrevi aquele ensaio que resumia a conferência “O mais excluído dos excluídos”,
mostrando que se o sujeito não é capaz de se julgar a partir dos valores e esquemas de uma outra
época ele não vai entender a sua época jamais3. E eu me lembrava que eu tinha lido no Benedetto
Croce um parágrafo brilhante onde ele diz: “se eu não possuo em mim nada da devoção cristã, ou do
espírito revolucionário de 1789, ou do espírito dos Founding Fathers, eu não vou entender nem a
civilização medieval, nem a revolução francesa, nem a guerra civil americana”.
Então, eu tenho de incorporar essas visões na minha própria de modo que elas se tornem, vamos dizer,
como um instrumento da minha visão das coisas. Nesse sentido, eu podia lembrar o famoso verso do

2
“Os Mais Excluídos dos Excluídos”, In O Futuro do Pensamento Brasileiro, Olavo de Carvalho.
3
“O Pensamento Brasileiro no Futuro: Um Apelo A Responsabilidade Histórica”, Ibid.

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Terêncio: “nada que é humano me é estranho”. Ou seja, eu tentei levar isso a sério. Isso ainda não é
um método evidentemente, mas é o começo do método.
Colocados esses problemas, eu voltei ao tema do bastardo, do excluído, do ponto de vista do excluído.
Karl Marx dizia que só o proletariado pode ter uma visão objetiva da história porque ele é a última
classe, porque ele vem depois de todas as outras. A visão de todas as outras estava nublada, deformada
pelos seus interesses de classe, ao passo que os interesses do proletariado coincidem com os interesses
da humanidade inteira, então ele pode ter uma visão objetiva. É claro, esse é um conceito totalmente
idealizado, o proletariado não tem nada disso e, além disso, nos sobra o enigma: se só o proletariado
pode ter uma visão integral e correta da história, como é que o primeiro que apresentou a visão integral
da história, que foi Marx, não era um proletário? Portanto já começa com esse problema.
Mas o que é o excluído realmente? Daí, por coincidência, alguém tocou para mim aquela musiquinha,
aquela cançãozinha do Enzo Jannacci, “Vengo anch’io. No tu no”, é uma letra muito engraçada, é
sobre um menino que fala: “vamos ao zoológico e vamos nos esconder e gritar o ‘leão escapou’, para
ver o efeito que faz”. Daí chega um menino pequenininho e fala: “vengo anch’io” – eu também vou.
Mas os outros respondem “no, tu no” – não, tu não. “Ma perché?” – porque não? – pergunta o menino.
“Perché no!” – porque não – eles respondem. Depois eles já são adolescentes e dizem: “nós vamos
sair com as garotas etc. para ver se chove e se estraga o nosso passeio”. E vem o pequenininho e fala:
“vengo anch’io”. Os outros respondem: “no, tu no”. “Ma perché?” – ele pergunta. Eles respondem:
“Perché no”. E assim vai.... Tudo o que eles inventam de fazer o pequenininho quer entrar também
mas eles dizem: “não, você não”. Até que chega o dia em que eles falam que vão se reunir para ir ao
seu enterro. Daí a mesma coisa: “vengo anch’io – no, tu no –ma perché? – perché no!”. Daí eu digo:
esse é o excluído total, esse não tem chance mesmo.
Existe alguém assim para que nós possamos adotar o seu ponto de vista? Existe, é Nosso Senhor Jesus
Cristo. Na cruz, Ele foi abandonado por todo mundo, os apóstolos todos saíram correndo, era a solidão
total. Mas ele era só a solidão total, foi só vítima da crucificação? Não, Ele é o logos, ele é a razão
divina, o fundamento de toda a ordem possível, só Ele conhece a ordem inteira. Então, eu vi que a
ideia do Sartre, e tantos outros como ele, era uma caricatura remota dessa ideia. Aquele que está no
centro e que tem perspectiva total é ao mesmo tempo o que está mais por fora e mais excluído. Bom,
evidentemente essa é a pista.
Quer dizer, quando o sujeito adota o ponto de vista do excluído, ao mesmo tempo ele não pode entrar
em uma outra comunidade de excluídos, ele tem de continuar excluído sozinho. Em segundo lugar,
se ele não entra numa outra comunidade ele não está contra nenhuma comunidade. Ele não vai se
definir pela sua oposição a isto ou aquilo, assim como o próprio Jesus Cristo não se definiu por sua
oposição a coisíssima alguma. Ao contrário, pendurado na cruz, Ele mesmo orava para que Deus Pai
perdoasse os seus carrascos.
Então, o Evangelho, nesse sentido, nos dava um modelo da ciência. Também me lembrei do verso,
acho que do capítulo seis do evangelho de Mateus, que diz que João Batista estava na cadeia e mandou
os discípulos dele irem a Jesus perguntarem: “é você o messias ou temos que esperar algum outro?”.
Jesus responde: “vocês vão lá e digam a João Batista o que vocês viram e ouviram, vocês viram o
leproso ser curado, viram o paralítico andando, viram o cego enxergando, vão lá e contem isso para
ele.” O que é isso aí? É um critério de verificação científica. Por que se o sujeito diz que um milagre
aconteceu, onde é que ele tem de ter acontecido? Tem de ter acontecido num campo não miraculoso,
que é no campo da experiência terrestre. Então, o sujeito não vai vir com um critério miraculoso para
confirmar o milagre, o critério tem de ser materialista na verdade.
Este conjunto de coisas, a busca do ponto de vista privilegiado, a assimilação da exclusão para que o
sujeito possa adotar verdadeiramente o ponto de vista daquilo que Sartre chamava de “bastardo”, tem
de concordar que o sujeito pode ficar sabendo de coisas que ninguém mais vai saber e que, portanto,
ninguém vai concordar, todo mundo vai achar que ele está maluco. Eu coloquei isso para mim há

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muito tempo. E se acontecer isso? Se acontecer, aconteceu. Eu quero saber o que está acontecendo
ainda que ninguém acredite em mim. Eu já tinha um emprego regularmente bom na mídia, não tinha
maiores ambições além daquilo e bom, então eu vou descobrir as coisas, escrever, contar, se ninguém
acreditar, dane-se. Isso tudo foi o começo da história.
Foi a partir daí que eu comecei a colocar as perguntas fundamentais que poderiam criar um método
da ciência política. Evidentemente nós teríamos de dividir o campo em dois, um se chama filosofia
política, o outro se chama ciência política.
Que é filosofia política? É o estudo dos métodos e critérios e o estudo do ponto de vista cognitivo
privilegiado que nós temos de alcançar para compreender os fenômenos desta área que nós chamamos
de política.
O que é a ciência política? É a aplicação desses critérios e conceitos à descrição e compreensão de
processos históricos e políticos reais, de preferência aqueles que estão acontecendo na nossa frente.
Pode se estudar os de outras épocas também, mas temos o privilégio de sermos testemunhas diretas
de tudo isso que está acontecendo e, sem dúvida, isso ajuda.
Por onde vamos começar? Existe uma documentação, uma coleção de fatos, a que precisamos ter
acesso, e esses fatos estão registrados em documentos e testemunhos. A maior parte deles documentos
escritos ou documentos gravados. Em suma, é a linguagem humana, é através da linguagem humana
que se toma conhecimento do que acontece e grande parte da ação política consiste em falar ou
escrever.
Por exemplo, o (???), quando levavam um problema para ele, ele dizia: “Eu vou fazer alguma coisa.
O quê que eu vou fazer? Eu vou falar”. Então, chamava o canal de televisão, falava e o que ele falava
tinha consequências. Então, grande parte da ação política se dá através da linguagem e, portanto, o
material à disposição do cientista político consiste de documentos linguísticos, escritos ou gravados.
O primeiro problema que tínhamos era este: “Como é que vamos entender esse material? Como
vamos coletar, como vamos olhar e como vamos compreender esse material?” Daí me ocorreu a
famosa distinção criada por Aristóteles: “O começo de toda ciência é o repertório das opiniões
admitidas”. São as opiniões correntes dos agentes políticos e dos seus intérpretes e toda a
documentação daí decorrente. E, dizia ele: “no campo específico da política nós temos de levar em
conta, em primeiro lugar, a diferença entre o discurso dos agentes e o seu próprio discurso”. Isto é, o
discurso do cientista que está observando e querendo compreender, esse discurso se distingue pelo
seu objetivo. Portanto, o discurso do agente político visa a produzir uma ação ou uma situação, mas
o discurso do cientista não, este visa apenas compreender o que está acontecendo. É claro, esses
elementos se interpenetram.
Por exemplo, o discurso do agente político pode incorporar parcelas enormes do discurso científico
para legitimar a ação que ele pretende empreender. Do mesmo modo, o próprio cientista político pode
pretender que a observação que ele está fazendo dos fatos interfira nos próprios fatos. Mas, de
qualquer modo, há uma diferença que é baseada eminentemente na famosa teoria das funções da
linguagem do Karl Bühler: a função denominativa, que é dizer o que as coisas são; a função
expressiva, que é expressar os seus estados interiores; e a função apelativa, que é agir sobre a cabeça
ou a alma do ouvinte. No caso do discurso político, evidentemente, a função apelativa predomina
sempre. No caso do discurso do cientista, é a função denominativa que predomina. Então, mesmo que
o discurso do agente incorpore elementos teóricos e científicos, e mesmo que o discurso do cientista
pretenda ter algum efeito [vocativo], a modalidade de discurso sempre permanecerá distinta.
É claro que para começar um estudo da ciência política seria necessário em primeiro lugar abdicar de
qualquer consequência. Se o sujeito não está fazendo nem questão de ser compreendido, quanto mais
de desencadear efeitos, mudar o mundo, etc., portanto, desistir em primeiro lugar. Isso quer dizer que,

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se o que eu estou falando for compreendido e desencadear efeitos benéficos, muito bem, se não
acontecer nada disso, a sua função científica foi cumprida.
Dito isso, o passo seguinte era entender o que é o agente político. Isso colocava diretamente o
problema da ação e do poder. O que é a ação humana? É a intervenção deliberada num estado de
coisas. Dada uma situação, o sujeito intervém para transformá-la em uma outra situação. O que não
quer dizer que o que se busca seja sempre a mudança e a novidade. O sujeito pode interferir [0:30] para
impedir que um estado de coisas mude, isso também é agir.
Por exemplo, tem um golpe de estado. Então alguém se mobiliza para impedir que aquilo aconteça,
como os nazistas tentaram na Áustria. Os caras estavam tentando um golpe de estado e o primeiro
ministro, Engelbert Dollfuss, fez uma constituição autoritária para impedir que aquilo acontecesse.
Essa é uma ação reacionária, por assim dizer. Ela reage a um estado de coisas para que ele não mude.
Isso também é ação.
Notem bem, tudo isso é um estudo teórico e apriorístico, um estudo puramente filosófico, eu não
estou fazendo ciência política ainda, estou fazendo apenas filosofia da política para tornar possível
uma ciência política mais tarde. Que é exatamente o que eu prometi fazer nessa aula, que era dar os
conceitos, métodos, e critérios da ciência política.
Depois, mais tarde, eu vou entrar no caso específico do Brasil e mostrar como que eu apliquei isso e
como foi possível em muitas situações descrevê-las corretamente e prever o seu desenvolvimento
com grande margem de acerto – na verdade eu não me lembro de ter errado nunca, às vezes eu não
acertei na mesma hora aquilo que eu previ, aconteceu mas demorou um pouco mais, mas sempre
aconteceu. [Graças a esses acertos eu pensei]: bom, é claro que estou na pista certa, a ciência política
é exatamente isso, é isso que tem de ser feito. Se os outros não fazem é porque não sabem ou não
querem, estão interessados em outras coisas.
O problema do agente nos colocava então duas questões. Primeira: quem age politicamente? A ação
política só se denomina política quando ela alcança uma sociedade inteira – é claro, existe política
local também, mas se falarmos em uma escala municipal, então a ação política na escala municipal
será a que alcance o município inteiro, e assim por diante. Segunda: quem é capaz desse tipo de ação?
Daí me ocorreu um problema, um negócio que eu chamei de pensamento metonímico. O
pensamento metonímico consiste em confundir o agente com um dos seus aspectos, ou com seus
instrumentos, ou um de seus estilos etc.
Por exemplo, quando se diz: “em 1789 a burguesia tomou o poder”. Isso é claramente uma metonímia,
não é uma realidade. O que se quer dizer de fato é que duas ou três pessoas, que talvez não fossem
nem burguesas elas mesmas, tomaram o governo e tomaram algumas medidas que favoreceram essa
classe burguesa, mas não que a burguesia tenha tomado o poder. Uma classe social pode tomar o
poder? Bom, para agir politicamente é preciso combinar as coisas, não se age a esmo, não é tudo fruto
do acaso. Então, como é que se reuniria uma classe social inteira para ela examinar, traçar planos,
deliberar e agir? Isso é impossível. O número de pessoas que participa de uma conspiração, de uma
revolução, de um golpe de estado, é ínfimo em relação à sociedade inteirinha e em relação à sua classe
social. Mais ainda, quantos burgueses, quantos capitalistas, haviam na liderança da Revolução
Francesa? Nenhum. Para não dizer que não tinha nenhum, tinha o Necker, era o único. Se nos
perguntarmos: “quantos proletários haviam no primeiro comitê central da URSS?” Nenhum. Então,
é claro que isso é um pensamento metonímico. Algumas pessoas ou um grupo determinado [é quem]
derruba o governo, toma o poder. Mas, tem gente que alega que eles representam uma classe, a qual
não foi consultada a respeito e a qual pode inclusive se incluir entre as vítimas do novo governo.
Então, eu vi que esse tipo de pensamento metonímico era um vício geral praticamente da modernidade
inteira. O modo de se dizer, por exemplo, “a Argentina declarou guerra ao Paraguai”. Quando vamos
ver, morreu mais gente na frente interna lutando contra o serviço militar do que no campo de batalha.

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Então, é claro que não foi a Argentina que declarou guerra, mas foi uma fração mínima da Argentina,
que estava no poder, que declarou guerra contra a vontade maciça da população.
No Brasil, foi o contrário, houve um entusiasmo bélico fabuloso. Todo mundo queria ir para a guerra
do Paraguai exceto os ricos, evidentemente. Foi daí que surgiram os famosos Voluntários da Pátria.
Vocês sabem o que é o Voluntários da Pátria né? Eram os ricos que contratavam, sei lá, quarenta
escravos para irem no lugar dele – “oh, te dou uma grana e você vai lá morrer no meu lugar” – e
pronto, eles viravam uns dos Voluntários da Pátria. Mas, em geral, a população apoiou maciçamente
o governo brasileiro na Guerra do Paraguai. No entanto, nos dois casos se usa a mesma expressão:
“O Brasil declarou guerra ao Paraguai” e “a Argentina declarou guerra ao Paraguai”.
Então, na própria seleção das palavras nós já estamos começando a nos enganar. Estamos nos
impedindo de ver qual foi a ação verdadeira e qual foi o agente verdadeiro – e essa distinção é
fundamental.
Ampliando um pouco mais a questão, surge esta pergunta: Quem é capaz de ação histórica? O que é
ação histórica?4 É a ação cujos efeitos se prolongam para além da duração da vida do seu agente.
Exemplo: o código de Napoleão Bonaparte que mesmo depois dele ter “caído do cavalo” continuou
em vigor por muito tempo; o Império que Carlos Magno funda que, apesar de depois seus
descendentes o estraçalharem, dura até depois de sua morte. São ações que têm consequências de
longo prazo, de grande profundidade e vastidão. Quem é capaz desse tipo de ação? Um país pode ser
um agente histórico? O Brasil pode ser um agente histórico? De jeito nenhum. Isto é um princípio
fundamental: a ação subentende a unidade do agente. Então, se tivermos quinze pessoas agindo sem
terem combinado nada, não temos uma ação, temos apenas uma confusão. Se combinaram, mas no
dia seguinte esqueceram ou traíram, também não agiram.
Logo, só é possível falar de um agente histórico quando existe uma unidade e persistência da ação ao
longo do tempo e isso só é possível quando o grupo que está empreendendo a ação consegue se
reproduzir ao longo das gerações, isto é, consegue formar pessoas que estão devotadas aos mesmos
objetivos, com a mesma intensidade, com o mesmo comprometimento profundo dos seus fundadores.
Isso restringe enormemente o número de agentes históricos. Nós estamos contando histórias que não
existem. Por exemplo, quando falamos “história do Brasil”. O Brasil não é um agente para contarmos
a história dele como se fosse a biografia de uma pessoa. “História do Brasil” quer dizer um monte de
acontecimentos inconexos que aconteceram mais ou menos dentro do mesmo território, isto é, o
território também muda, incorpora um pedaço, perde outro etc. Portanto, “história do Brasil” é uma
expressão metonímica, quer dizer, [na verdade é] a história das coisas que vários grupos de pessoas
fizeram dentro do Brasil – ou alegando estar agindo em nome do Brasil, nós não sabemos também se
estavam.
Por exemplo, quando o Barão do Rio Branco foi lá fazer a famosa disputa de fronteiras. Bom, ele
estava fazendo em nome do que ele achava que era o interesse nacional, mas a maioria da população
sabia? Não sabia absolutamente nada, quer dizer, o cara que está lá no Rio Grande do Sul está pouco
se lixando para a fronteira lá do Acre. Daí volta o Barão e todo mundo diz: “ele teve uma grande
vitória para o Brasil etc.” – é relativo. Um país não tem essa unidade de consciência capaz de se
reproduzir de geração em geração de maneira eficiente e de modo a preservar a linha de ação.
Mas há algumas entidades que têm. Por exemplo, a Igreja Católica tem. A Igreja Católica tem mais
ou menos os mesmos rituais, os mesmos mandamentos, as mesmas leis canônicas desde que ela foi
fundada até hoje. De vez em quando muda um pouquinho, reforma um pouquinho, mas em substância
continua mesma coisa. Significa que, de modo geral, estatisticamente, a maior parte dos indivíduos

4
Apostila do Seminário de Filosofia, Quem é o sujeito da história?, Olavo de Carvalho.

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que são formados dentro da Igreja Católica refletem uma linha de ação histórica que vem desde a
fundação da Igreja.
Do mesmo modo entidades esotéricas, como a Maçonaria, por exemplo. Todos os maçons passam
pelos mesmos rituais, obedecem aos mesmos valores etc., então é possível [que exerçam] uma ação
contínua.
Uma organização como o Partido Comunista, que é a organização política mais velha que existe no
mundo, a única organização que tem uma existência contínua há um século e meio, passando de
geração em geração a mesma formação. Formação quer dizer doutrinação? Não, é uma coisa muito
maior do que isso. É passar toda uma cultura, sentimentos, símbolos, reações etc. Existe aqui no EUA
um monte de livros sobre a educação daqueles que os americanos chamam de red diapers – fraldas
vermelhas – que são os filhos dos comunistas. E nós vemos que, de geração em geração, aquilo vai
passando e impregnando profundamente de modo que o sujeito, mesmo que deixe de ser comunista
mais tarde, continua com a mesma estrutura de personalidade e de algum modo vai continuar servindo
ao mesmo objetivo.
Portanto, existem entidades que tem capacidade de ação histórica5. Se nos perguntarmos: “As forças
armadas são agentes históricos?” De jeito nenhum. Elas não têm unidade suficiente, são um órgão ou
instrumento do estado, não são causa sui, não decidem o seu próprio curso como a Igreja Católica
decide, ou a Maçonaria, ou o Partido Comunista. Existe um elemento estranho que as envolve e
determina. Em certos momentos pode haver uma unidade entre um grupo de oficiais militares que
sentem do mesmo modo, que age então de maneira convergente – como ocorreu em 1964. É a unidade
desse grupo, então esse grupo é o agente, as forças armadas não são o agente.
Essa distinção é absolutamente fundamental para podermos descrever o que está realmente
acontecendo. É aquele verso do Antonio Machado: “A distinguir me paro las voces de los ecos” –
paro para distinguir as vozes dos ecos – e isso é fundamental para saber o que está acontecendo. Basta
isso.
Só com essas explicações já vemos que vícios de linguagem acumulados no debate político criam
uma confusão dos demônios. Usando esta linguagem amplamente metonímica o sujeito nunca vai
conseguir uma descrição apropriada do que está acontecendo. Esta foi uma das técnicas que eu
apliquei no diagnóstico das situações reais: “Quem está efetivamente agindo?” “Quem tem uma linha
de ação contínua por trás de milhares de ações que as ecoam?” – isso aqui é básico.
Eu vou mostrar para vocês nas próximas aulas como a gente aplica isso à descrição de situações reais
e como podemos, do mesmo modo, fazer uma descrição da situação atual e chegar a alguns
prognósticos.
Para ser um agente é preciso ter unidade. A unidade máxima que podemos ter é a de uma
personalidade, de uma consciência única que está pensando tudo. Então, é possível que um indivíduo
seja um agente histórico se ele conseguir ter uma unidade e persistência de propósito ao longo de toda
sua vida pública, de tal modo a deixar marcas que se prolonguem para além da duração de sua vida,
como fez, por exemplo, Napoleão Bonaparte. No caso de Napoleão isso se torna maximamente claro,
porque nós sabemos, pelo estudo das batalhas, que o exército napoleônico só funcionava onde o
próprio Napoleão estava presente, ou seja, ele tinha grandes generais, mas não adiantava ele delegar
o comando para esses generais, ele tinha de ir lá pessoalmente, porque só ele tinha a concepção
estratégica e tática integral na cabeça, os outros não a tinham, tinham só partes, portanto para que a
estratégia global funcionasse era preciso ter aquela cabeça. Em outros casos, nós vemos que os
indivíduos não têm essa unidade, mas o grupo que eles formam os agregam de tal maneira — como

5
Curso do Seminário de Filosofia, Guerra Cultural - Aula 2, Olavo de Carvalho.

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acontece no caso do Partido Comunista — que essa entidade, apesar das deficiências, falhas e
distrações de seus membros, continua agindo coerentemente e convergentemente ao longo do tempo.
Isso aí nos permite fazer uma distinção que eu aprendi com o Georg Jellinek, no livro Teoria Geral
do Estado, é um dos grandes livros de teoria política do mundo, onde ele diz: “princípio número
um...” – eu tinha alguns anteriores a este, mas para ele este é o começo” – “...distinguir na sociedade
o que é resultado de um acúmulo fortuito de causas e o que é resultado de um plano e de uma
deliberação”. Isto é, discernir intenções por baixo de similaridades e convergências. Ora, confundir
essas duas coisas é um dos preceitos fundamentais da ciência política e do comentário político, hoje.
Por exemplo, todo este pessoal que escreve sobre os Illuminati. “Ah, os Illuminati estão no poder” –
eles dizem. Bom, os caras que estão aí podem ter algo a ver com os Illuminati, mas os caras que falam
isso não têm a menor evidência da continuidade dessa organização ao longo do tempo, podem
aparecer quinhentas organizações diferentes que, por eles veem uma similaridade entre o que eles
estão fazendo e o que os Illuminati queriam fazer, eles dizem que são os Illuminati. Ou seja, eles
estão conferindo uma unidade substantiva a uma convergência de aparências.
Outra forma de pensamento metonímico: o organicismo. O organicismo é uma teoria inventada por
um pensador alemão conservador no começo do séc. XIX chamado Adam Muller, que propunha
considerar a sociedade como se fosse um organismo, um corpo animal vivo. Bom, é claro,
heuristicamente, como maneira de estimular a imaginação, o organicismo pode até funcionar pois ele
faz ver ligações que normalmente passariam despercebidas. Porém, uma sociedade ou um país pode
ter um tipo de unidade orgânica que tem um corpo animal? É claro que não, para que ele tivesse essa
unidade seria preciso que os indivíduos que o compõem não fossem unidades, mas apenas partes.
Muitos indivíduos na sociedade humana não são, de fato, individualidades, mas apenas partes, ou
seja, entram num processo que as transcende, que elas não compreendem, mas ao qual elas colaboram
passivamente, por assim dizer. Mas, tem outros indivíduos que são eles a matriz do que está
acontecendo, por exemplo: Napoleão, Lenin, Mussolini, Hitler etc. Então, o organicismo falha na
medida em que ele não reconhece o verdadeiro padrão de unidade, ele pega a presença de todos os
fatores, a pertinência de todos os membros de uma sociedade, como se fosse uma pertinência
orgânica.
É claro, isso aí não é uma metonímia, é uma metáfora, e como metáfora ela não é um conceito
descritivo apropriado. A metáfora é um tipo de pensamento analógico, é aquilo que tende a uma
unidade lógica a ser alcançada. O analógico é uma síntese de semelhanças e diferenças, tudo
misturado e o sujeito só entrará no terreno lógico quando ele separar o que tem a ver daquilo que não
tem a ver. A metáfora serve para despertar intuições, percepções, ideias, etc., mas ela não é uma
descrição da realidade, ela serve subjetivamente para ajudar a pessoa.
Por exemplo, não se pode fazer sexo com um comprimido de viagra. Ele é um componente que a
pessoa usa para facilitar o seu desempenho, mas não é com ele que a pessoa está transando – espero
que não seja, pelo menos; já inventaram tudo ultimamente. Então, a metáfora é como um comprimido
de viagra, ela faz a pessoa funcionar mais rápido, mas não quer dizer que a visão que ela está tendo
da realidade seja a mais adequada.
O próprio Karl Marx entra um pouco no organicismo sem perceber, porque ele vê a sociedade como
uma unidade conflitiva marcada sempre pela luta de classes. O que é a luta de classes? É também
uma metáfora. Que existem as classes sociais nós sabemos, mas onde termina uma e começa outra?
O historiador marxista inglês E. P. Thompson chegou à conclusão que não há critério econômico
suficiente para distinguir as duas classes, que é necessário levar em conta elementos culturais,
psicológicos, subjetivos etc. Ou seja, existem proletários honorários e burgueses honorários, que não
são proletários nem burgueses. Então, a própria distinção entre as classes já é um problema. E,
descrever a convivência delas como uma luta é também uma metonímia de fato, porque quando não
está havendo conflito de classe algum, se pode dizer que há um conflito de classe latente. Vejam,

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durante trezentos anos não houve nenhum conflito, daí aparece o conflito e eles dizem: “Estão vendo?
O conflito já estava latente nesses trezentos anos”. Portanto, o sujeito está confundindo o potencial
com o atual.
Se vocês lerem qualquer história das ideias políticas verão que quase 90% das ideias políticas são
erros desse tipo. São metáforas, metonímias, etc., quase sempre construídas em função daquela
tomada de posição prévia em favor de um certo modelo de sociedade que a pessoa nunca viu ou da
qual só se vê “as sementes”.
Por exemplo, quando John Locke cria toda a teoria da democracia moderna, alguns elementos dessa
democracia já existiam na Inglaterra, mas nem todos. Aquilo que estava ali em semente ele já via
como produto acabado e, em função desse produto acabado, julgava o que estava acontecendo no
tempo dele e assim por diante.
Se para ser um agente é preciso ter uma unidade, então o quê que define, que determina o curso da
ação tomado por um indivíduo ou um grupo? É o que ele tem na consciência. Então aí surge a noção,
que eu acho fundamental, do horizonte de consciência: aonde o sujeito não enxerga ele não age, ou,
se agir, age às tontas, não sabe o que está fazendo. Se a ação é uma transformação deliberada do
estado de coisas, então ela pressupõe uma deliberação e essa pressupõe, portanto, um conhecimento
da situação e esse conhecimento deve ter os seus limites, ou seja, há um ponto a partir do qual o
sujeito não enxerga mais.
Por exemplo, um exercício que eu fiz sobre o horizonte de consciência foi o livro que eu escrevi sobre
Maquiavel6. Tem uma série de coisas que ele sabe, mas tem outras tantas que são essenciais para
aquilo que ele está dizendo que ele não sabe absolutamente. No caso de Maquiavel, o horizonte de
consciência é bastante estreito, o que explica que o teórico da tomada do poder e o teórico da vitória
na política estivesse sempre do lado perdedor, ou seja, se ele entendesse realmente a sua teoria, ele
saberia escolher o lado vencedor. É um fracassado que vira o teórico do sucesso e não fez sucesso
nem mesmo com isso porque terminou a vida muito mal. Nós vemos que no julgamento das situações
reais o Maquiavel falhava miseravelmente e ele compensava essa sua incapacidade de diagnóstico
com uma espécie de pessimismo que simula o realismo, isto é, quando ele não sabe o que está
acontecendo então ele aposta no pior e isso dá a impressão de que ele é realista. Mas vejam, apostar
no melhor ou no pior é como diz George Bernanos: “o otimista e o pessimista são apenas o gordo e
o magro da filosofia, não há diferença entre eles”. Quer dizer, se o sujeito apostou no melhor ou no
pior, é tudo uma preferência subjetiva dele, não é uma coisa da realidade. Portanto vejam, aquilo que
no Maquiavel foi tido, de forma monstruosamente errada, como fundador do realismo na ciência
política, faltava totalmente o realismo e abundava o pessimismo, a aposta no pior.
Esse problema do horizonte de consciência pode ser resolvido na medida em que, conhecendo
historicamente a ação que o sujeito desempenhou e conhecendo os elementos da situação em torno,
nos vemos quais os pontos fundamentais que ele ignorou. O horizonte de consciência é definido pelo
– noção que eu tirei Jean Fourastié – mapa da ignorância. Não se trata de uma ignorância fortuita –
todo mundo ignora alguma coisa, evidentemente – e sim, como já me ensinava meu professor
Stanislavs Ladusãns, da diferença entre a nesciência e a ignorância. Nesciência é ignorar alguma
coisa, e ignorância é ignorar aquilo que se deveria saber. Por exemplo, um motorista de ônibus que
não sabe dirigir ônibus. O passageiro não precisa saber dirigir o ônibus, então isso é nesciência: “eu
não sei dirigir essa porcaria, mas o outro está dirigindo por mim”.
O mapa da ignorância não é o mapa da nesciência – o qual seria infinito, o número de coisas que nós
ignoramos é infinito. Mas, dentro da minha esfera de ação existem coisas que para desempenhar a

6
Maquiavel ou a Confusão Demoníaca, Olavo de Carvalho.

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ação que estou querendo desempenhar eu precisaria saber e se eu não sei, então se trata de ignorância
autêntica. Então, o mapa da ignorância delimita o horizonte de consciência.
Particularmente, se o indivíduo está estudando uma certa situação com vistas a agir nela ou obter um
conhecimento, existem certas perguntas fundamentais que ele precisa fazer, sobretudo aquelas
perguntas que surgem da experiência direta que ele tem da realidade.
Eu agora mesmo dei o exemplo de Marx, dos proletários que seriam os únicos portadores da visão
integral e objetiva da história. Ora, se eu sou Marx, se eu sei que só os proletários podem ter essa
visão objetiva, e ao mesmo tempo eu estou tendo essa visão objetiva antes deles, eu tenho de explicar
isso. Eu tenho que fazer esta pergunta: “Como foi possível que eu, não sendo um proletário e aliás,
jamais tendo visto um proletário, tenha chegado a compreender aquilo que eu mesmo estou dizendo
que somente um proletário pode compreender?”. Essa pergunta é essencial e ele não faz a pergunta.
Não fez porque foi desonesto? Não sei. Não estamos aqui fazendo um julgamento moral, estamos
fazendo um julgamento cognitivo. Então, vemos um ponto cego em um aspecto essencial da questão.
A teoria da ideologia de classe exigia que Marx colocasse esse problema – não sei como ele poderia
resolver, mas pelo menos colocar o problema ele teria de colocar; se ele não coloca é porque não viu.
Do mesmo modo, se pode aplicar isso a várias situações políticas concretas. Por exemplo, eu mesmo
citei, e depois neste curso vou estudar um pouco mais, quando Raymundo Faoro, que foi sem dúvida
um dos grandes cientistas sociais do Brasil, talvez o maior depois de Gilberto Freyre, apostou na
fundação do PT. Por que ele apostou? Porque ele tinha descoberto que no Brasil a luta de classes no
Brasil não é entre proletários e burgueses, é entre o povo, de um modo geral, e os donos do estado,
quem ele chamava de estamento burocrático, a faixa burocrática, são os donos do estado, quer dizer,
o Estado, no Brasil, é propriedade particular de certos grupos, não é um organismo anônimo,
impessoal e científico como é a administração estatal em outros lugares 7.
E, ele falava que era preciso destruir o estamento burocrático e ele acreditava que o PT podia fazer
isso. Por que ele acreditava? Porque ele nunca estudou a estratégia comunista, ele não sabia nada a
esse respeito. Mas, o pessoal do PT estudava. É só vermos os documentos que eles liam, as ligações
que eles tinham, a tradição a qual pertenciam, que saberemos que, é claro, eles são herdeiros e
continuadores do Movimento Comunista. Então, se eu não conheço a estratégia comunista eu não
posso saber o que eles vão fazer e não posso apostar ingenuamente que eles vão destruir o estamento
burocrático, como, de fato, não apenas não o destruíram, mas se transformaram nele.
Era previsível? Era. Contanto que o cientista tivesse feito a pergunta decisiva: “Quem são estes caras
nos quais estou apostando para destruir o estamento burocrático?”. Por que ele nunca fez essa
pergunta? Porque primeiro, ele nunca teve interesse nisso. Vocês vão ver que, nos livros dele, ele
quase nunca ele menciona isso. Não vemos ali um livro sobre estratégia comunista que ele tenha
citado ou que tenha lido, nada. Em segundo lugar, porque ele estava naquele momento da destruição
da ditadura militar, então, evidentemente, ele formulava tudo em termos de mocinhos e bandidos –
os bandidos são os que estão a favor da ditadura, e os mocinhos são os que querem destruí-la. Como
tem gente que até hoje vê assim, o PT inteiro está vendo assim, quer dizer, o Brasil inteiro, 90% da
nação brasileira representa os golpistas militares e aquela fração mínima, que gosta da Dilma, é o
povo – é uma maneira louca de ver.
Vejam, a chamada “luta contra a ditadura” formou mentalidades inteiras. Tem personalidades
inteirinhas montadas com base nisso – nós vamos estudar isso nas próximas aulas. E evidentemente
elas vão tentar repetir os mesmos esquemas cognitivos [1:00] para tentar obter uma visão do que está
acontecendo.

7
Os Donos do Poder, Raymundo Faoro.

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Essa noção do horizonte de consciência é básica. Nós podemos fazer o horizonte de consciência de
um indivíduo ou de um grupo inteiro. Para ver o de um grupo inteiro o que é preciso? É preciso ver
as discussões internas desse grupo, o que eles estão discutindo e quais são as perguntas que eles não
estão fazendo, perguntas ‘essenciais’ que não estão fazendo.
Por exemplo, eu acho incrível que no presente momento o pessoal do PT não pergunte: “Se é um
golpe, como é possível o povo inteiro estar contra nós?”. Outra coisa: “Se nós somos o povo e eles
são a elite, como é que as quinze famílias mais ricas do Brasil estão do nosso lado ao invés de estar
do lado dos golpistas? Como é que os banqueiros estão do nosso lado ao invés de estar do lado deles?”.
Eles não fazem essas perguntas.
Estão entendendo a noção do horizonte de consciência?
Para delinear o horizonte de consciência de um sujeito não é preciso saber tudo o que ele sabe, basta
saber o que ele ignora dos pontos que são essenciais para o conhecimento dele.
Então, o horizonte de consciência delimita as possibilidades do verdadeiro sucesso político. O quê
que é o verdadeiro sucesso político? Santo Tomás de Aquino dizia que uma ação é boa quando ela é
boa no seu propósito, nos seus meios de execução, no curso da sua execução e no seu resultado. Se a
pessoa teve uma boa ideia, conseguiu usar os meios apropriados e obter o resultado exatamente como
ela queria, bom, então essa pessoa é um sucesso.
É claro, todo sucesso humano é parcial, porque só se pode ver, na verdade, até o primeiro capítulo do
sucesso. Por exemplo, se os comunistas dizem: “nós vamos criar uma sociedade assim e assado”.
Muito bem, vocês vão criar já? Imediatamente? “Não. Primeiro nós temos de tomar o poder” – eles
respondem. Isso quer dizer que a maior parte de suas vidas será dedicada a tomar o poder e só sobrará
um tempinho mínimo para eles construírem a tal da sociedade. Porque simplesmente não vai dar
tempo. Depois que eles tomam o poder, eles dizem que antes de construir a sociedade eles ainda têm
de acabar de destruir o inimigo de classe e isso pode levar cinquenta, setenta, cem anos, então, não
vai acabar. Isto é, o objetivo proclamado pode ficar para as calendas gregas. O essencial é o primeiro
capítulo do seu sucesso, supondo-se que se consiga realizá-lo da melhor maneira possível.
Por exemplo, como Lênin, chefiando uma fração mínima, conseguiu articular as coisas de tal maneira
que um governo, que parecia indestrutível, caiu com a maior facilidade. Então, essa é uma ação bem-
sucedida, até esse ponto. E a construção do socialismo? Bom, esse é outro problema. Lênin morreu e
nada mais disse nem lhe foi perguntado.
Tudo isso coloca um problema que geralmente é ignorado em todos os cursos de filosofia e ciência
política, não só no Brasil, mas do mundo, que é o seguinte: “Quem pode estudar isso utilmente? E
que tipo de qualidades cognitivas, morais e psicológicas é preciso para conseguir estudar isso?”
O problema das qualidades psicológicas requeridas para estudar qualquer coisa geralmente é ignorado
– a não ser em domínios muito restritos. Por exemplo, se a pessoa vai estudar física. Bom, alguma
coisa de matemática ela tem de saber, tem de ter algum jeito para a coisa. Ela tem de ter aquela
disposição para a pesquisa experimental, para confrontação de resultados, etc., ou seja, a
personalidade dela tem de estar mais ou menos modelada pelos hábitos da ética científica – tudo isso
nós sabemos que precisa. Mas isso é tudo muito simples. E por que é simples? Porque a coleta dos
dados nas ciências físicas é feita por meios físicos – todas ciências naturais e físicas são assim.
Os fatos da biologia são fatos que se pega pelos cinco sentidos, ou diretamente ou através de
aparelhos, mas é através dos cinco sentidos. Isso quer dizer que – isso aqui é fundamental – os dados
que se apreendem em biologia, em geologia, em geografia, etc., qualquer ciência da natureza, são
totalmente heterogêneos em relação aos atos cognitivos que a pessoa pratica para os conhecer. Para
o sujeito praticar, por exemplo, a biologia, ele não precisa saber como o cérebro dele está funcionando
na hora em que ele enxerga um camarão ou um elefante. Os procedimentos cognitivos são uma coisa,

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os dados são outra coisa. Os dados nos são impostos pela natureza externa e, por assim dizer, a
psicologia do conhecimento é indiferente em qualquer uma dessas ciências.
Mas quando entramos nas ciências humanas e nas ciências políticas em particular, todos os dados que
temos à sua disposição foram produzidos pelos mesmos meios cognitivos com que nós os estamos
estudando. É a linguagem, a significação, atos de vontade, decisão, seleção, escolha, etc., tudo isso,
portanto, os dados são da mesma natureza dos seus processos mentais – essa diferença é
absolutamente fundamental. Se a pessoa não é capaz de repetir os atos cognitivos que produziram tal
ou qual ação política, então ela não irá entendê-la jamais. O que significa que ela precisa de uma
identificação temporária com o agente. O que a salva é que ela não está estudando um agente só, ela
não vai ficar a vida inteira estudando só Napoleão Bonaparte, ela não vai virar Napoleão, mas até
para entender Napoleão ela tem de entender os outros agentes – o príncipe de Metternich, o general
Wellington, e assim por diante. Como a pessoa se identifica com vários agentes, ela não se identifica
com nenhum deles, no fim das contas. Ela assume tudo aquilo como possibilidades de ação humana,
sabendo que ela poderia estar naquele papel, e que, em princípio, ela não é melhor e nem pior do que
aquela pessoa, mas apenas mais uma.
Essa abertura inicial à multidão dos dados e essa identificação com o agente são elementos sem os
quais não se pode estudar utilmente ciência política. O que significa que, se o sujeito já está entrando
na ciência política com um determinado ideal pronto, um ideal de sociedade pronto, ele não vai se
identificar com quem representa o seu oposto. Por exemplo, se eu quero uma sociedade igualitária eu
já terei nojo de quem vier com uma concepção hierárquica, eu não poderei me identificar com ele. Se
eu sou a favor da democracia capitalista eu não posso me identificar com Lênin, e se não posso me
identificar com Lênin eu não posso captar também o seu horizonte de consciência, ou seja, os limites
do que ele [pensou]. [Ou seja,] o sujeito vai raciocinando como ele, vai seguindo o fluxo interior dele,
mas chega a um ponto em que tem algo que o sujeito sabe e Lênin não sabe — “opa, aqui ele não
enxergou”.
Então, mapear o horizonte de consciência exige essa dupla operação simultânea: a identificação com
o agente e ter informações que ele não tem, mas que nós sabemos que, na situação dele, eram
importantes.
Quantas pessoas são capazes de exercer esse trabalho? Muito poucas na verdade. Porque isso aqui
requer, em primeiro lugar, imaginação. A maior parte dessas operações que o sujeito vai fazer só se
dão na sua imaginação, elas não estão ocorrendo na sua frente, ou elas ocorreram em outras épocas,
ou ocorreram em outro lugar no espaço que não é aquele onde o sujeito está. Se o sujeito não tem
amplitude imaginária suficiente para entender essa multidão de processos cognitivos e decisórios
humanos, ele não pode exercer utilmente a ciência política. É por isso que eu insisto com meus alunos
que eles tenham uma longa formação literária e artística antes de entrar em qualquer coisa, porque é
isso que vai ampliar a sua imaginação. É nesse sentido que Aristóteles dizia: “a poesia é mais
verdadeira que a história”. Por quê? Porque ela mostra o que poderia ter sido. Tem muitas situações
humanas que nós nunca vamos ver na realidade, mas que podemos imaginar pela ficção. E, é esse
repertório de figuras possíveis da vida humana, figuras possíveis do conhecimento humano, que nós
precisamos ter para podermos assimilar estes vários papeis desempenhados pelos vários agentes ao
longo do tempo.
Existe um elemento moral, sobretudo, que é o seguinte: a pessoa não se identifica com o sujeito se
ela não tiver alguma compaixão por ele. O que é compaixão? É sentir junto, sentir a mesma coisa.
Então, mesmo quando a pessoa estuda as ações de um sujeito que ela considera monstruoso, como
Hitler, como Lênin, como Stálin, etc., em algo eles têm de coincidir com ela, em algo tem de ser
possível ela ser igual a eles, senão ela não os entenderá de maneira alguma.
É claro que existe um ponto limite dessa compreensão, e esse ponto limite é ditado pelo fator
psicopatologia – a ausência de sentimentos morais no indivíduo. Quando se chega a esse limite o

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sujeito [objeto de estudo] começa realmente a praticar ações com as quais a pessoa realmente não
pode se identificar, não haverá compreensão íntima daquilo, existirá apenas compreensão externa do
tipo científico – a pessoa pode compreender os atos do maníaco do parque, ou de Stálin, ou do Fidel
Castro, pelos conceitos da psicopatologia, mas não por uma compreensão íntima, não é uma
compreensão por identificação, mas ao contrário. Então, justamente porque a pessoa tem os
sentimentos morais é que ela pode compreender o que é a ausência deles, mas não compreender por
identificação, ou seja, ela não pode suprimir os seus próprios sentimentos morais só para entender a
mente de um psicopata. Isso seria a mesma coisa que a pessoa arrancar o seu cérebro para estudar a
fisiologia cerebral, não dá para fazer. Quando se alcança esse limite, se vê que adentrou em um terreno
que, a rigor, é incompreensível. Ele é descritível e explicável cientificamente pela psicopatologia,
mas não o poderá ser pela ciência política. Aí será preciso pedir auxílio a psicopatologia para que se
possa entender este aspecto das coisas. Mas na quase totalidade das suas ações o psicopata não difere
de uma pessoa normal, só naquelas onde entra o problema do sentimento moral.
Mesmo no caso dos psicopatas mais monstruosos e disformes, será preciso tentar exercer essa
compreensão e para exercer essa compreensão será preciso se colocar do ponto de vista do excluído
total, ou seja, eu não tenho um grupo com o qual eu me identifico e por isso mesmo eu posso me
identificar com qualquer um, eu estou livre de algum modo. O que é a mesma coisa que dizer: “todo
mundo me rejeitou, eu estou lá no alto da cruz, e não estou com raiva de ninguém”. Esta aí é a
importância fundamental da figura de Nosso Senhor Jesus Cristo para todo este campo de estudos.
É claro que nós não chegaremos à amplitude de consciência de Nosso Senhor Jesus Cristo, nós nunca
seremos o logos, nós não sabemos como Ele criou o universo, porque o criou, etc., nem porque Ele
criou os seres humanos, mas dentro de uma escala humana a nossa compreensão pode se estender
indefinidamente. Só que o sujeito ser colocado fora de um determinado grupo, de uma determinada
sociedade, pode ser uma coisa tão aterrorizante que imediatamente ele busca um grupo
compensatório, com o qual ele se identifique. Que é exatamente o caso que acontece com Sartre e
outros. Esse erro tem de ser evitado de qualquer maneira.
Notem, a mais absoluta solidão cognitiva é necessária para essas coisas, mas essa solidão ao mesmo
tempo te abre para toda a humanidade através da compreensão e da compaixão. Vocês não estarão
sozinhos pois estarão com todo mundo, no fim das contas. Justamente na medida em que vocês foram
postos para fora, vocês poderão compreender quem está dentro e quem está fora do mesmo modo.8
Em seguida, a partir da “ideia da ação”, surge a teoria do poder. O que é o poder? Poder é capacidade
concreta de ação, não abstrata. Porque abstratamente eu posso ser Papa amanhã, mas concretamente...
O que eu, dentro da minha situação, posso fazer nos momentos seguintes? Qual é a minha liberdade,
a faixa da minha liberdade de ação? Do mesmo modo que é possível delimitar o horizonte de
consciência, é possível delimitar o raio de ação possível de um indivíduo ou grupo. E isso é da mais
alta importância, porque aí vocês vão descobrir uma coisa fundamental: “O que esse indivíduo ou
grupo não pode fazer de jeito nenhum? O que é impossível ele fazer?”. E aí se usa o método do
Sherlock Holmes: elimina o impossível e do que sobrar alguma coisa será verdadeira.
Por exemplo, quando eu disse, na primeira eleição do Lula, todo mundo acreditando que o Lula seria
derrotado, que era impossível que ele não vencesse a eleição. Eu não falei improvável, eu falei
materialmente impossível. Por quê? Eu tinha analisado o horizonte de consciência e as possibilidades
de ação das várias forças concorrentes, e vi que só uma tem força, só uma tinha uma ação contínua e,
sobretudo, só uma tinha uma estratégia, os outros tinham apenas táticas eleitorais limitadas a aqui e
ali. A diferença de poder aí era avassaladora. Podendo descontar, poderia haver um milagre, mas
excluído o milagre... E o milagre deve ser sempre excluído porque ele não está ao alcance da nossa
ciência.

8
A Vida Intelectual, A. D. Sertillanges.

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Lembrem-se sempre do seguinte: o conceito fundamental em qualquer ciência é o conceito de
necessidade. Necessidade quer dizer nec cedo, que vem de nec cedere, não ceder, ou seja, é uma coisa
que não cede, que não quebra. A necessidade significa apenas impossibilidade do oposto. Quando
uma ciência busca formular uma lei, uma regularidade ou constância, ela está querendo dizer que o
contrário é impossível. Existe, evidentemente, a impossibilidade absoluta e a impossibilidade relativa
ou estatística, com a qual a ciência em geral se contenta hoje em dia. Abaixo da impossibilidade
absoluta existem graus de possibilidade que são demarcados justamente na teoria dos quatro discursos
de Aristóteles.9 Há o absolutamente certo, ou necessário, ou impossibilidade do contrário; há o
provável, que é a certeza razoável, estatística – quantificada evidentemente, pois probabilidade não
quantificada é bobagem; em seguida há o verossímil, o que parece verdadeiro, o que desperta nas
pessoas um sentimento de que é verdadeiro; e por baixo disso há o meramente possível. Então, o que
é analisar uma situação política? É aplicar todos estes conceitos, o conceito do agente, da unidade do
agente, do horizonte de consciência, da disponibilidade dos meios de ação e tentar chegar a um
desenlace certo ou necessário, provável, verossímil ou meramente possível. Ou seja, classificar os
dados de acordo com os graus de credibilidade dos quatro discursos de Aristóteles. Feito isso, está
encerrado o assunto.
Logo, a filosofia política é o estudo dos métodos e critérios necessários para o conhecimento desse
setor específico da ação humana. Dizemos: “a política é um modo de ação”. A ação é a mudança
deliberada de um estado de coisas, e esta ação se torna política quando ela alcança toda uma
sociedade, alcança em princípio, não precisa alcançar imediatamente. Por exemplo, na hora em que
um sujeito assina um decreto, um presidente por exemplo, a ação dele está limitada àquele papel que
ele está rabiscando. Mas no dia seguinte aquilo é publicado no Diário Oficial, os agentes do estado
passam a exigir aquilo das pessoas e aquilo se alastra para a sociedade inteira. Então, esse modo de
alastramento das ações também é importante, quer dizer, quanto tempo leva para isso ou aquilo entrar
em ação.
Por exemplo, o pessoal diz assim: “na idade média, a Igreja dominava toda a Europa”. Dominava
como, meu filho? O papa baixava um decreto e até o decreto chegar ao último padre, na Sibéria por
exemplo, levava dez anos e em geral o emissário ainda era assaltado ou morto no meio do caminho.
Ou seja, a rigor o papa não mandava em nada, ele era reconhecido oficialmente como se mandasse,
mas o poder efetivo era muito limitado. Isto é uma norma para se estudar a Idade Média: os poderes
locais eram muito mais fortes do que qualquer poder central. Por exemplo, quem nomeava os bispos?
Era o papa? Não. Era o duque, o conde, o sujeito que mandava na cidade, ele era quem nomeava o
bispo e pronto, estava decidido. Para o papa conseguir autoridade de nomear os bispos foi só depois
da Renascença. Em geral o pessoal tem uma visão invertida, a autoridade, o poder do Papa cresceu
enormemente depois da Renascença, mas antes era bem menor – é o contrário do que o pessoal pensa.
E tudo isso por quê? Pensamento metonímico.
Do fato de que a civilização inteira era cristã, era católica, o sujeito acredita que o papa mandava em
todo mundo. Uai, mas para o papa mandar em alguém basta o sujeito ser católico? Não. É preciso
que, de algum modo, as ordens dele cheguem até o sujeito e que alguém o obrigue a cumprir. Mas,
ele não tinha esses meios.
Se pegarmos a patrística, grega e latina, do Jacques Paul Migne – uma coleção majestosa de dois mil
volumes gregos e dois mil latinos –, ali tem um monte de autores heréticos que estão incorporados
no patrimônio da igreja. O sujeito era herético e nem sabia que era. Então, só quando começou a
Inquisição foi que eles começaram a mandar os caras averiguarem o que fulano estava falando lá no
fim do mundo. E, mesmo assim, quantos hereges foram entrevistados pela Inquisição? Um número
ínfimo. Os outros continuavam propagando heresias sem nem saber, passaram a vida inteira falando
aquilo e nunca foram entrevistados, investigados, punidos nem coisa nenhuma. Isso quer dizer que a

9
Aristóteles Sob Nova Perspectiva, Olavo de Carvalho.

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própria unificação doutrinal da Igreja foi um processo longo, demoradíssimo e muito complicado.
Portanto pensar: “A Igreja na Idade Média tinha um poder monolítico” – está sonhando.
Na verdade, poder monolítico só surge no século XX, com o rádio. Antes do rádio não havia poder
monolítico. As ordens simplesmente não chegavam, levavam meses para chegar. Quando chegou o
telégrafo já aumentou muito, mas o telégrafo era só de um em um. Para passar uma ordem para toda
a população ao mesmo tempo, só o rádio. É por isso que a era do rádio foi também a era dos grandes
governos totalitários: na Itália, na Alemanha, na Rússia, na Espanha etc.
Meios de ação fazem parte do raio de ação. Meios de ação podem ser, por exemplo, pessoas que
retransmitem as suas ordens, podem ser instrumentos de propagação, pode ser mil e uma coisas, mas
uma regra é certa: se o sujeito não tem os meios, a ação não se cumpre.
Então, horizonte de consciência, raio de ação e meios de ação – isso é básico.
À filosofia política incumbe discutir os conceitos, métodos e critérios. À ciência política incumbe
estudar os fenômenos históricos e políticos reais, tentando obter a descrição mais exata e realista
possível e, portanto, o prognóstico mais razoável do seu desenvolvimento.
Quando se estuda fatos do passado não adianta fazer prognóstico. Quem vai ganhar a batalha de
Waterloo? Não é preciso prever porque já se sabe. Porém, aí entra aquele negócio que Max Weber
chamava de “experimento imaginário”. Para entender o que aconteceu é preciso imaginar o que não
aconteceu, o que poderia ter acontecido e é aí que a formação literária ajuda, a inventar outros enredos
possíveis que num dado momento poderiam ter ocorrido mas que foram afastados, quer dizer, na hora
em que foi tomada uma decisão foram afastados outros desfechos ou possibilidades.
É esse o entendimento das situações reais, passadas, ou futuras dentro de um limite previsível. O que
é limite previsível? Para mim, é o prazo da minha existência, supondo-se que eu não fique gagá nos
próximos vinte anos – eu espero não ficar, mas depois dos 88 eu estou autorizado – e até lá pretendo
continuar exercendo as coisas de uma maneira razoável.
Depois que eu convivi com tantos nonagenários monstruosamente lúcidos, como Paulo Mercadante,
Roberto Campos, Meira Pena, etc., então bom, eu tenho obrigação de até os oitenta e poucos anos
continuar funcionando.
Acho que não é preciso recapitular, essa aula foi bastante contínua.
Esses foram os conceitos básicos. Se vocês quiserem mais, está na minha apostila Problemas de
Método nas Ciências Humanas, disponível no Seminário de Filosofia ou no meu site, e na série de
apostilas que se chama Ser e Poder. Tudo isso está monstruosamente fragmentário e muito mal
escrito, isto é, ainda não é um livro, são apenas apostilas, mas o material está lá. E está também nas
transcrições e gravações do curso de Filosofia Política que eu ministrei na Universidade Católica do
Paraná. Tudo o que eu estou dizendo aqui é um resumo, é um condensado daquilo, feito só para
preparar as análises que a partir da próxima aula eu farei sobre a situação brasileira.
Faremos uma pausa e depois partimos para as perguntas.

***

Vocês notaram que o site do Seminário foi alvo de um ataque. Não foi coisa de moleque, foi um
negócio devastador, feito por profissional, feito por algum governo ou por uma grande empresa ou
uma grande organização. Atacou diretamente o provedor, que foi obrigado a tirar a página do ar para

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que não desmantelasse todo o sistema dele. Uma coisa enorme mesmo. É claro que não estava
preparado para uma coisa desse tamanho, mas é natural que aconteça de algum modo. O estado de
terror e pânico que este pessoal está justifica que eles façam qualquer coisa.
Muito bem, temos aqui uma pergunta...
Aluno: Durante o processo de impeachment da Dilma Rousseff ocorreram manifestações infantis dos
nossos políticos – brincadeiras de ciranda e de roda durante a entrega das denúncias da OAB,
piadinhas durante a sessão da Comissão – são todos loucos ou os nossos políticos são totalmente
despreparados?
Olavo: É óbvio que são totalmente despreparados. E, a história da formação da nossa classe política
é um dos temas das próximas aulas, nós vamos ver como as coisas chegaram a ficar assim. Não foi
sem razão, isso foi longamente preparado. É claro que se agravou nos últimos trinta ou quarenta anos,
mas existem problemas estruturais na formação da nossa classe política e no próprio sistema eleitoral.
Por exemplo, vocês sabem que o custo para eleger um deputado é muito maior do que o que ele vai
ganhar durante um ano, já começa por aí. É como se estivesse pedindo ao sujeito: "Ou você rouba ou
está lascado" – são coisas desse tipo. Há vários elementos, alguns são bem antigos, que vêm do tempo
da Independência. Vamos estudar isso nas próximas aulas.
Aluno: Professor, na conversa com Yuri Vieira o senhor afirmou que, a longo prazo, o país está
condenado. Minha dúvida é se características da maior parte da população brasileira como a
irreflexão e o apego a banalidades, deixam necessariamente o Brasil tendente ao colapso e
desintegração. A existência de uma classe intelectual verdadeira e de agentes políticos razoáveis
melhora significativamente a nossa situação?
Olavo: Sem a existência de uma intelectualidade preparada e de agentes políticos razoáveis não há
nenhuma esperança de sobrevivência do Brasil como unidade soberana nas próximas décadas, a
esperança é zero. Também vamos estudar isto nas próximas aulas: “Quem está querendo desmantelar
a unidade soberana do Brasil?” É o mundo inteiro, praticamente. A coisa não é brincadeira. Não é o
PT. Não é a Dilma. Este é outro problema: “Quando você vê o perigo, você o diminui, não porque
ele seja realmente diminuto, mas porque a sua mente não aguenta conceber o conjunto; não aguenta
ou porque não tem capacidade ou porque o medo o paralisa”. Isso acontece e nós vamos estudar nas
próximas aulas.
Aluno: Além da formação literária e artística o que mais podemos fazer para ampliar a capacidade
da nossa imaginação?
Olavo: Tem um negócio que se chama “experiência da vida”, sem isso você não vai à parte alguma.
Agora, se desde o início você é como uma flor de estufa, precisa ser conservada sob uma redoma para
não se sujar no mundo, você jamais vai entender nada. Ou seja, você vai precisar arriscar a sua
sanidade mental, a sua alma, tudo, sem isso não há conhecimento. Conhecimento é sempre uma coisa
perigosa e, por isso mesmo, não são todos que estão habilitados para adquiri-lo, para ir atrás dele.
Essa história da educação universal, é claro que é uma balela. Existe o famoso estudo do crítico inglês
Richard Hoggarth, que dizia: “bom, nós alfabetizamos todo mundo, agora vamos ver o que eles estão
lendo”. Quando foram ver, estavam lendo só fotonovela, pornografia, etc., isso era 90% do que liam,
[1:30] ou seja, tinha se criado um segundo tipo de analfabetismo – talvez pior do que o primeiro.

E a formação universitária hoje é a mesma coisa. Vocês acham que, de todos os analistas políticos do
Brasil, quantos são capazes de levar em conta esses fatores que eu expliquei aqui na primeira aula?
Eles não têm nem ideia disso. Em geral, o sujeito pode ter sido meio socialista na juventude, então lê
um pouco de Ludwig von Mises e acha que descobriu o segredo. Logo, sempre vai analisar as coisas
a partir de uma imagem idealizada de alguma coisa.

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Outro dia eu escrevi uma coisa óbvia: que o capitalismo não é um valor moral em si mesmo. Ele é
uma técnica, e como toda técnica ele pode se integrar em qualquer corpo de objetivos que se imagine.
O capitalismo foi integrado até mesmo na URSS, não se esqueçam disto, metade da economia
soviética era privada e o governo sabia perfeitamente e tolerava, porque sem isso não ia sobreviver.
Então, o capitalismo pode servir até como base para o socialismo. Portanto, não se pode partir da pura
definição de capitalismo e daí tirar a definição da boa sociedade, de uma ética, etc., como fazem
tantos liberais. Isso é fugir da realidade. O sujeito se apegou a um símbolo e ele espera que esse
símbolo tenha o poder salvador por si, porque ele não quer analisar a coisa em todos os seus
componentes.
Esse irrealismo – que se vê em praticamente em todas as análises políticas no Brasil –, é claro, vem
da decadência da cultura. As pessoas não têm modelos, não há um número suficiente de intelectuais
verdadeiros no Brasil para que os outros possam se modelar por eles, quer dizer, “vamos fazer o que
esses caras estão fazendo”.
No tempo em que tínhamos o Gilberto Freyre, por exemplo, nós sabíamos que tinha de se alcançar
um certo nível para poder discutir a coisa. Hoje em dia não tem mais isso. Os intelectuais, hoje, quem
são? Marcia Tiburi, Vladimir Safatle e outros. Esses viraram modelos, quer dizer, é a altura máxima
que se pode alcançar. “O que você quer ser quando crescer?” – pergunta a alguma criança. “Quero
ser a Marcia Tiburi” – é a resposta. Que é uma pessoa que deveria ser enxotada da vida intelectual e
recolocada em um emprego de garçonete. E tem muitos assim, não têm capacidade para serem
professores de ginásio. Qualquer professor de ginásio que eu tive no meu tempo era melhor do que
esses. É aquele negócio do Émile Durkheim: a capacidade que a sociedade tem de apreender a
anormalidade é limitada. Quando a anormalidade dura dois ou três anos, ela vira normal e assim se
vai caindo. E, aí é o negócio do Antonio Machado: “¡Qué difícil es cuando todo baja no bajar
también!” E assim, de queda em queda, a coisa vai, termina em um buraco sem fundo. A não ser que
alguém mande parar. É a nossa geração que tem de mandar parar.
Aluno: Se existe algum grupo, um diretório de estudantes, por exemplo, e o presidente do diretório
decide ludibriar as pessoas que seguem esse diretório com interesses escusos, ele ainda continua um
agente mesmo mentindo sobre seus objetivos?
Olavo: É claro que sim. Só que você não pode partir do princípio de que ele representa aquela
entidade, quer dizer, a traição, a infiltração, a dissidência interna, tudo isso tem de ser levado em
conta.
Por exemplo, existe o livro do Luís Mir, o repórter espanhol, que se chama O Partido de Deus, é um
livro sobre a formação do PT a partir das comunidades eclesiásticas de base, ele conta corretamente
a história, como o PT de fato se formou a partir dessas organizações, só que ele interpreta tudo como
se fosse interesse da Igreja, interesse do Vaticano, quando os caras, obviamente, estavam trabalhando
contra a Igreja. Ele não tem formação teológica suficiente para distinguir uma coisa da outra, então
ele vê os agentes certos, só que os interpreta no quadro errado.
Aqui é o mesmo caso, o sujeito está lá, não para servir àquele diretório, ele não é um representante
daquele diretório, mas é um agente infiltrado, um traidor ou alguma coisa. Assim como na Colômbia,
o Juan Manuel Santos se elegeu com o slogan “¡No más Farc!”. Até eu ajudei o cara a se eleger,
ajuda insignificante, mas a prestei, quer dizer, na época da eleição eu fui lá, fiz um monte de
conferências, falei para estudantes, etc., aticei de algum modo aquele entusiasmo pelo Juan Manual
Santos. O cara chegou lá e se vendeu, então o objetivo político dele agora é outro. Essas distinções
têm de ser feitas.
Agora, isso não se aplica ao caso do PT. A roubalheira do PT faz parte de uma estratégia e isso eu
estou dizendo há vinte anos. Quando o PT começou a destruir reputações nas cpi’s de noventa e três,
ele já estava preparando um esquema de corrupção mil vezes maior do que todo aquele que ele estava

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denunciando, a fachada de denúncias já era para encobrir uma outra coisa. Isso eu estou dizendo
desde noventa e três. Eu avisei que iam fazer isso e avisei também o pessoal da Odebrecht: “não se
metam com esses caras senão vocês vão se ferrar”. Mas quem sou eu? Sou um zé mané, um jornalista
que estava lá fazendo um serviço para eles. E, eles preferiram ouvir os assessores iluminados, deu no
que deu.
Aluno: Parabéns pela aula, notei que muito da metodologia aplicada remete a Voegelin.
Olavo: Remete em parte. É claro, eu devo muito ao Eric Voegelin, mas todos esses conceitos que eu
desenvolvi são meus. O conceito de horizonte de consciência, conceito de agente histórico, etc., tudo
isso é meu.
Vejam, quando Voegelin fala da progressiva diferenciação dos símbolos, é um processo
importantíssimo, ou seja, coisas que aparecem compactamente como símbolos numa certa época,
aparecem diferenciados em esquemas doutrinais, etc., numa época seguinte. Como acontece isso?
Acontece pelo processo de transformação de um discurso em outro – do poético para o retórico, do
retórico para o dialético, e do dialético para o lógico. Quando eu mostrei isso para o pessoal do Eric
Voegelin Society eles disseram que aquilo era como um pilar que faltava no edifício do Voegelin,
isto é, estava tudo certo em cima, só que ele não sabia ou não explicou como a coisa acontecia. Com
isso foi possível dar mais concretude às teorias dele, assim como vários outros conceitos servem para
isso também. De fato, eu não me inspirei no Voegelin, eu aprendi muita coisa com ele – todos nós.
Aliás, a simples descoberta de que havia um cientista político que não fazia essas burradas logo no
começo já foi um grande negócio.
Eu acho que é isso. Novamente, muito obrigado a todos, desculpem a falha da transmissão, mas as
gravações ficarão online para os inscritos nas próximas horas, o site do seminário voltará ao ar e lá
estarão as gravações, vocês vão ter acesso a tudo conforme prometido. Na próxima aula já tomaremos
as providências para que mesmo um ataque gigantesco, mesmo que seja empreendido pelo governo
da China, não consiga parar o nosso trabalho.
Isso aí, no fundo, é prova de que os camaradas estão realmente muito inseguros. Para uma organização
bilionária, com centenas de milhares de militantes como o PT, para eles ficarem com terror e pânico
a esse ponto, ficar com medo de um sujeito isolado, que não tem nada por trás – eles podem pensar
que tem a CIA, o Mossad, a Maçonaria, o raio que o parta, é tudo invenção; a única coisa que tem
por trás de mim é minha casa que está aí atrás –, é porque estão muito fragilizados. E estão fragilizados
por causa de falhas no seu horizonte cognitivo que se consolidaram ao longo do tempo e nós vamos
ver nas próximas aulas quais foram.
É isso aí. Até semana que vem. Muito obrigado! [1:38:22]

Transcrição: Francisco Jr., Deko Izarrigues e Leonardo Yukio Afuso


Revisão: Leonardo Yukio Afuso e Rahul Gusmão

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Política e Cultura no Brasil – História e Perspectivas
OLAVO DE CARVALHO

Aula 2
19 de abril de 2016

[versão provisória]
Para uso exclusivo dos alunos do Seminário de Filosofia.
O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.
Por favor, não cite nem divulgue este material.

Então vamos lá. Boa noite a todos, sejam bem-vindos.


Eu queria antes de tudo anunciar que em compensação ao atraso e demais problemas que houve na
semana passada eu vou dar um presentinho a vocês, vou prolongar, vou completar um pouco as
explicações teóricas que eu havia dado, portanto esta aula vai ser um complemento da aula teórica da
semana passada, assim, o curso terá cinco aulas ao invés de quatro. A aula teórica ao invés de ser só
a primeira serão duas, e depois mais três com a análise do problema concreto brasileiro do momento.
Para esse complemento de hoje, eu gostaria de levantar alguns temas teóricos que eu explorei nas
minhas apostilas e no curso do Paraná, mas que eu não mencionei na aula passada.
O primeiro desses itens, que eu acho que é excessivamente desprezado pela ciência política em geral
e até pela filosofia política, é o tema da diferença de poder. De todas as espécies animais, a espécie
humana é aquela em que a diferença de poder entre os seus membros é a mais ampla, a mais destacada
e a mais invencível; a mais impossível de eliminar. Se imaginarmos quaisquer espécies animais,
veremos que sempre há uma diferença entre os mais fortes e os mais fracos, porém a diferença de
poder não é tanta assim.

Imaginemos, por exemplo, um leão. Os leões vivem em famílias que agregam um certo número de
fêmeas e filhotes. Se notarmos o leão mais forte e mais rico, ele tem o quê? Um grupo de umas quinze
a vinte fêmeas e mais alguns filhotes, não vai passar disso aí. Não veremos um leão que tenha um
milhão de fêmeas e outro que só tem uma ou nenhuma, isso aí não existe. A diferença entre o mais
poderoso e o menos poderoso é muito menos destacada – em qualquer espécie animal. Num
confronto, numa luta, a diferença de poder entre membros da mesma espécie não é grande – dois
ursos, dois elefantes, dois camelos; a coisa não é tão diferente.
Agora, no ser humano, a diferença é tão grande, mas tão grande, que desde o início dos tempos vemos
uma tendência de dar ao chefe, ao governante, o estatuto divino. Júlio César se considerava seriamente
um descendente carnal da deusa Vênus, todos os césares tinham estatuto divino e isso não mudou
com os tempos.
Na Idade Média veio a famosa teoria dos dois corpos do rei, tão brilhantemente exposta pelo
historiador Ernst Kantorowicz, inclusive o livro foi traduzido no Brasil, Os Dois Corpos do Rei. Era
uma teoria de que o rei tinha dois corpos: um era o seu corpo físico e o outro era o corpo cívico, o
qual era imortal, evidentemente este último tinha um estatuto divino. A ideia do direito divino dos
reis surge um pouco mais tarde, por volta da Renascença, pois até então os reis adquiriam o seu direito
divino por uma delegação da Igreja, isto é, o sujeito era ungido pela Igreja e então era cercado, a partir
deste momento, de um direito divino. Daí veio a teoria de que os reis tinham o direito divino por
natureza, de que eles já nascem com o direito divino.
Notem que ao invés da passagem do tempo atenuar a diferença entre o divino e o humano na escala
social, ela aumenta. Quando chega ao caso de Napoleão Bonaparte que se coroa a si mesmo, passando

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por cima do Papa – “opa, a distância aumentou um pouco mais”. Essa tendência à divinização das
pessoas poderosas e importantes não diminui de maneira alguma, se vermos as figuras das grandes
socialites, os bilionários, estrelas de cinema, etc., a atmosfera de glamour e adoração que existe em
torno deles não parece diminuir, de maneira alguma.
Porém, a isso se acrescenta um fator ainda mais decisivo, que é o dos meios de ação. Os meios de
ação disponíveis para que um ser humano exerça o seu poder sobre outro se multiplicam, aumentam
e se aprimoram com o tempo. E isso não se pode deixar de ser levado em conta.
Se pensarmos assim: na Idade Média, que armas uma pessoa comum, um camponês ou um morador
da cidade poderia manobrar? Bom, ele poderia manobrar um porrete, um machado, uma espada, uma
adaga, uma lança... E que instrumentos o senhor das terras poderia manipular? Exatamente os
mesmos. Então, a única diferença que havia era a da quantidade de armas e da quantidade de
subordinados que podiam empregar essas armas. Ainda em Roma, o conceito de cidadania plena só
era atribuído ao indivíduo que tivesse terras e os meios físicos de defendê-las, ou seja, ele precisaria
ter uma certa quantidade de guardas armados para ele poder ser considerado um cidadão de pleno
direito, capaz de votar, de exercer a sua cidadania, etc., os outros tinham um estatuto menor, mas em
princípio as armas eram as mesmas. Com o que mataram César? Com punhais, que qualquer pessoa
poderia ter.
Ao longo do tempo surgem as armas de fogo. No início elas são de uso muito privilegiado, pois eram
armas muito complicadas, levava-se às vezes quase um minuto para carregá-las e elas só adquiriam
um valor efetivo se houvesse muita gente utilizando aquilo. Vamos supor, numa disputa de um
atirador contra dois atiradores, os dois atiradores com certeza venceriam, porque, dado o primeiro
tiro, o nego precisaria, primeiro, carregar aquele negócio de pólvora, botar ali uma espécie de rolha
com um tampão, depois enfiar uma bolinha, depois socar a bolinha até o fundo e depois ajeitar mais
um pouquinho de pólvora no cão – que aqui, [no EUA], eles chamam de martelo (hammer) – e assim
por diante, o negócio levava quase um minuto. Calcula-se que a velocidade máxima de carregamento
dessas armas, não as da Renascença, mas, ainda no século XIX, na Guerra Civil Americana, era de
dois ou três tiros por minuto. Quer dizer, se tivesse um de um lado e dois do outro, os dois venceriam
inevitavelmente. Portanto, o número de combatentes era um fator decisivo.
No instante em que se cria os cartuchos de papelão, depois os cartuchos com invólucro de metal, essa
vantagem diminui e, portanto, o número de combatentes tem de ser maior ainda para criar uma
diferença. Quer dizer, de um para dois, no tempo da arma de carregar pela boca era um negócio
decisivo. Quando vêm os cartuchos de metal essa diferença já não conta tanto, então é preciso
multiplicar o número de combatentes. E basta isso para explicar porque a Guerra Civil Americana foi
a maior guerra que tinha havido na história até então, porque todo mundo já não usava mais a arma
de carregar pelo cano, todo mundo tinha algum tipo de arma com cartuchos de metal e isso provocou
uma segunda mudança, uma grande preocupação, que era a velocidade dos tiros.
A primeira arma de “repetição” que aparece é o revólver de tambor, mas ele ainda era carregado da
mesma maneira que antigamente: cada buraquinho do tambor era preenchido de pólvora e se socava
ali uma bolinha. Daí apareceu um sujeito engenhoso que inventou os tambores removíveis. Se vocês
assistiram ao filme Josey Wales, com o Clint Eastwood, vocês verão como funcionava esses tambores
removíveis. A história se passa logo no fim da guerra civil, e as armas mais populares ainda eram
essas, não eram armas de cartucho de metal, ainda eram as de carregar com pólvora e bolinha. Então
o sujeito quando dá seis tiros ele troca o tambor por outro já carregado, ele tem de trazer tudo
carregado de casa. A partir do momento em que inventam os cartuchos de metal o problema passa a
ser a velocidade. Então, naturalmente se adaptam os revólveres de tambor a esses cartuchos e isso dá
uma vantagem muito grande.
Mas, como se sabe, as armas de mão não são de longo alcance. Então como adaptar isso para as armas
de longo alcance, os rifles ou as espingardas? O governo Lincoln, governo do norte, lança uma

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concorrência pública para quem inventar essa arma, estava garantida a venda de 20 mil, 30 mil, 50
mil cópias e aí aparecem duas armas históricas. O Rifle Henry, que possui aquilo que nós chamamos
de pente, nos EUA chama-se magazine, do tipo tubular, isto é, tem um cano acima e embaixo tem
outro. No cano de baixo os cartuchos ficam em fileira, comportando doze tiros. Então aparece o Rifle
Spencer, onde o magazine não era do tipo tubular, mas ficava no cabo, ficava por debaixo. Eu me
lembro de um tio meu que tinha uma dessas quando eu era pequeno. Esses rifles todos ainda são
fabricados hoje. Isso quer dizer que, com esse rifle de repetição, um soldado poderia ser tão eficiente
quanto dez. Então, evidentemente, isso multiplica o poder de ação de cada um e as tropas já não
precisam ser constituídas por tantas pessoas. E isso começa a fazer diferença.
Mais tarde aparece a metralhadora Gatling, que tinha dez canos e eles iam girando... E isso começa a
fazer uma diferença brutal. Um sujeito com uma dessas atrás de uma carroça dava conta de uma tribo
inteira de índios que quisesse perseguir.
Na medida em que as armas se aprimoram, a diferença de potencial entre os vários combatentes vai
aumentando. Já na primeira guerra vemos uma montanha de armas automáticas que começam a
aparecer, com calibres cada vez maiores e projéteis cada vez mais aperfeiçoados. Quando eles
inventaram as armas de repetição havia um problema: os projéteis eram todos de chumbo. O chumbo
“virava” dentro do cano, aquecia o cano e derretia o chumbo. Outro problema é que, nas armas
tubulares, tem-se uma bala atrás da outra e quando se dispara há o perigo da ponta de uma bala
disparar a bala seguinte e a coisa estourar na sua mão. Esses problemas foram sendo resolvidos e as
armas foram ficando cada vez mais perfeitas.
Além das armas, existem outros meios de ação que aumentam a diferença de potencial, uma delas é,
por exemplo, o telégrafo. A possibilidade de você poder passar instruções de maneira quase que
simultânea a exércitos que estão colocados à distância, isso faz uma diferença brutal. Se um tem de
mandar um mensageiro a cavalo e o outro pode passar um telegrama que chega na mesma hora, é
claro que o controle estratégico e tático do campo se torna muito maior. Quando surge, mais adiante,
o rádio, com a possibilidade de dar voz de comando a massas de milhões de pessoas simultaneamente,
então é claro que o poder aumentou e os primeiros beneficiários disso foram os grandes ditadores do
século XX – Mussolini, Hitler, Stálin, Mao Tsé Tung etc. Se não fosse o rádio, o fenômeno do
totalitarismo simplesmente não existiria, porque a ideia do totalitarismo é o controle total sobre a
sociedade e o controle total pressupõe evidentemente a simultaneidade; se o sujeito dá uma ordem e
a ordem leva seis meses para chegar ao fim do país, acabou, ele simplesmente não será obedecido.
E hoje em dia há a televisão, internet, etc., tudo isso aumentou de tal maneira a simultaneidade que
hoje se tem possibilidades como esta que se realizou na Espanha, onde fizeram um atentando numa
estação de estrada de ferro, explodiram um trem e mataram duzentas pessoas; vinte e quatro horas
depois teve uma manifestação popular monstruosa, não contra os terroristas, contra o governo. Ou
seja, uma manifestação organizada pelos mesmos adeptos dos terroristas. Como foi possível isso?
Internet.
Os meios de obter informação também foram se ampliando e multiplicando ao ponto de que é possível
um dos lados saber tudo sobre o outro, que não sabe nada sobre ele. A profissão de agente, de analista
de inteligência, também foi se aperfeiçoando, e às vezes o pessoal não tem ideia de como são os
serviços de inteligência dos outros países. Por exemplo, durante a guerra o melhor serviço de
inteligência era o da Inglaterra, sem sombra de dúvidas. E quem eram os analistas de inteligência?
Eram os maiores gênios que tinham na Inglaterra; toda a intelectualidade britânica estava no serviço
secreto. Isso, no Brasil, ainda é serviço que se entrega para qualquer um. E ainda se tem preconceito
contra esse serviço; no regime militar, o intelectual que fosse trabalhar para o SNI teria a carreira
liquidada – acho que ainda hoje teria.

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Esse crescimento do serviço de inteligência que houve no séc. XX é um fenômeno inédito na história.
Os serviços de inteligência, até o séc. XX, eram usados apenas em situações de guerra. De repente o
serviço secreto se torna o centro da administração, de modo que há hoje países inteiros que são
governados pela polícia secreta, e não pelo governo nominal. Vejam, na URSS se tinha eleições, tinha
o parlamento, etc., mas o parlamento não tinha ideia do orçamento da KGB, não sabia quanto dinheiro
ia para a KGB, aquilo não passava pelo parlamento. Quer dizer, muito acima do parlamento, inclusive
muito acima do comitê central do próprio Partido Comunista da URSS, estava a KGB. E está até hoje.
Esse fenômeno de países governados pela polícia secreta é um fenômeno que não poderia existir antes
porque não se tinha os meios materiais.
Um dos fatores de derrota do governo da Alemanha nazista foi o fato de que ela tinha seis serviços
secretos totalmente descoordenados, um tentando boicotar o outro, ao passo que na URSS havia a
KGB e o serviço secreto militar, o GRU, no qual podia haver algum atrito entre eles, mas nada
substantivo, no fundo todos trabalhavam pela mesma coisa. Então, a maior eficiência do serviço
secreto da URSS deve ter pesado formidavelmente no resultado da guerra.
Mais ainda, no século XX, aparecem essas técnicas de controle da mente alheia, que começam com
Pavlov, os reflexos condicionados, e vão se aperfeiçoando até chegar a tal da programação
neurolinguística e hoje já tem sistemas de hipnose instantânea que é um negócio fantástico. Tudo isso
custa muito dinheiro e esses meios não são acessíveis ao cidadão comum. Aí entra aquela regra do
Carrol Quigley: quando as armas são de acesso fácil e são baratas se tem uma situação de democracia,
porque todo o mundo pode ter as mesmas armas e isso equaliza mais ou menos o poder – no máximo
a diferença é estabelecida pelo número de combatentes. Mas quando as armas se tornam complexas,
de difícil acesso, muito caras, ou só podem, por vezes, ser manipuladas por técnicos/engenheiros
altamente treinados – imagine a diferença do nível de conhecimento que um piloto de avião na
primeira guerra mundial precisava e o que o piloto de um jato precisa hoje, o piloto de jato hoje é um
engenheiro –, então a dificuldade de acesso ao conhecimento dos meios de ação também é outro
elemento estratificador.
Portanto, no total, nós observamos em todas as sociedades humanas uma diferença muito grande de
poder entre os seres humanos, e essa diferença é irredutível – eu acho fantástico que os cientistas
políticos desprezem esse fato. Geralmente as pessoas tratam a diferença de poder como se fosse uma
anomalia. Bom, se ela é uma anomalia, então toda a espécie humana sempre foi anormal.
E, em segundo lugar, esse simples fato que eu estou descrevendo aqui basta para contrariar a famosa
teoria do Benedetto Croce de que a história é a história da liberdade10, ou seja, a história de como a
liberdade vai aparecendo e crescendo. Liberdade coisíssima nenhuma! Há a liberdade jurídica,
assegurada nas leis. Mas, a liberdade assegurada nas leis não é um meio de ação.
Aí entra a minha famosa tese de que, a distinção que se faz entre o direito e a garantia é apenas um
cinismo, porque, se não há garantia, o direito não existe efetivamente, e a garantia depende do poder
real existente. Resumindo, o direito, no fim das contas, se é um direito substantivo, que vigora
efetivamente na prática, então é porque há garantia. E se não tem garantia, não tem direito nenhum,
o direito é apenas um papel pintado. Então, podemos eliminar a distinção de direito e garantia,
entendendo que o direito sem garantia é um nada; e entre comparar o nada com alguma coisa... aliás,
o meu aluno Luiz Vergilio Dalla-Rosa, depois explorou mais a fundo essa minha tese no seu livro O
Direito como Garantia.
E de onde surge este elemento estrutural e permanente da vida humana, que é a diferença de poder?
Ora, todo o mundo está acostumado com o negócio do Karl Marx, que diz que essa diferença vem da
posse dos meios de produção. Quer dizer, as várias classes dominantes se distinguem por diferentes
modalidades de posse dos meios de produção. Bom, isso pode até acontecer, até certo ponto, porém

10
História como história da liberdade, Benedetto Croce.

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existe a seguinte observação – que eu também acho fantástico que ninguém tenha feito: para que haja
qualquer posse dos meios de produção, para que exista qualquer sistema de propriedade, a sociedade
já tem de estar altamente organizada e diferenciada. Se existe um tipo de propriedade e essa
propriedade é reconhecida pela sociedade, então é porque antes mesmo de existir essa propriedade já
existia uma organização social capaz de reconhecê-la. E, ora, isso quer dizer que o elemento
fundamental, o elemento diferenciador, antecede o sistema de propriedade; ele não pode ter sido
criado por ele – este é o item um.
Este elemento fundamental que criou, que fundamentou o sistema de propriedade, tem de continuar
existindo ao longo de toda a história do sistema de propriedade, pois, se eliminar o fator fundante, os
outros também caem – item dois.
Portanto, a diferença de poder entre os seres humanos não é determinada pela propriedade dos meios
de produção, porque a própria propriedade dos meios de produção é determinada pela diferença de
poder que a antecede. Então deve haver outros fatores.
Se esses fatores fundantes antecedem a diferenciação do sistema de propriedades e têm de continuar
existindo ao longo da história da propriedade, então eles é que são os fatores decisivos. E na análise
de qualquer situação política concreta são estes fatores que nós devemos levar em conta, antes mesmo
de levar em conta a diferença da propriedade dos meios de produção, ou qualquer sistema de
propriedade. Que fatores são esses?
Em primeiro lugar, existe o fator cronológico, este é o mais básico de tudo. Quem nasceu antes tem
mais poder do que quem nasceu depois; ninguém nasce mandando – isso é uma coisa tão óbvia né.
Então, os pais mandam nos filhos, não o contrário. Para que se chegue a uma situação em que os
filhos começam a mandar nos pais, como nós temos hoje, é preciso uma sociedade já muito
diferenciada e sofisticada. Mas, evidentemente esta não é a situação básica. Mais ainda, os filhos que
mandam nos pais começam a fazê-lo depois da adolescência, eles não nascem mandando.
Então eu comecei a pensar: vamos ver em que medida essa diferenciação cronológica, que se repete
igualmente a cada nova geração, ela tem uma presença na sociedade como tal, afetando não somente
a vida dos indivíduos, mas dos grupos – isso é outra coisa óbvia: os grupos que duram mais, mandam
nos que duram menos. A ação de longo prazo é uma condição de toda ação histórica; isso eu já
mencionei na aula passada. Quer dizer, uma ação adquire uma dimensão histórica quando os seus
efeitos ultrapassam a duração de uma vida humana.
Isso quer dizer que o grupo que for capaz de se perpetuar e de garantir que as novas gerações
prosseguirão a obra dos seus antecessores, terá uma imensa vantagem. E é claro que isto é um fator
material que tem de ser levado em conta – mas eu não encontro isto em Thomas Hobbes, nem em
John Locke, nem em Karl Marx, praticamente em ninguém. Quer dizer, é o estudo da antiguidade e
durabilidade como uma das fontes de poder. Ou seja, se existisse um homem que durasse trezentos
anos, ele teria uma imensa vantagem sobre os outros, porque os seus inimigos iriam morrendo
enquanto que as novas gerações não o conhecem. É claro que não existe ninguém que dure trezentos
anos, mas existem organizações que duram trezentos anos, ou que duram muito mais – a Igreja
Católica tem mais de 2 mil anos. A maçonaria tem sabe-se lá quantos séculos, o Islã tem mil e
quatrocentos anos, e assim por diante.
O simples estudo da durabilidade dos elementos em ação nos permite, às vezes, fazer previsões muito
acertadas. Ou seja, aquele que tem o plano de mais longo prazo, que vem prosseguindo numa ação
coerente ao longo dos tempos, terá uma ação mais eficiente do que aquele que chegou agora e que,
do mesmo modo que está limitado cronologicamente, estará limitado “espacialmente”, ou seja, estará
limitado na sua visão de campo.

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Onde se tem governos eletivos que duram quatro ou cinco anos, esses governos sempre estarão em
desvantagem em face de organizações mais duráveis. Daí eu me lembro da famosa entrevista do
general Giap que disse: “Nós levamos vantagem no Vietnã porque os americanos lutavam no campo
militar, ao passo que nós lutamos em todos os campos; nós lutávamos no campo cultural, religioso,
geográfico, psicológico, tudo ao mesmo tempo”. E por que eles faziam isso? Bom, eles tinham mais
de cem anos de experiência no Partido Comunista. E, mais ainda, o Vietnã é uma civilização guerreira
que sempre esteve em guerra com a China, então eles têm uma experiência militar enorme. De
repente, chega um presidente que acabou de ser eleito e que não está nem entendendo em que situação
está se metendo.
Nesse ponto se vê que, em geral, as democracias são mais indefesas do que as ditaduras, pelo simples
fato de que as ditaduras duram mais. E dizer que as democracias duram? Bom, as democracias como
sistema abstrato duram, mas os governos não duram, nem o executivo nem o legislativo. Então,
acontece uma outra situação que é característica das democracias: os governantes eleitos ficam nas
mãos dos funcionários de carreira. Quer dizer, o sujeito que é funcionário há vinte ou trinta anos tem
um domínio muito mais completo da situação do que o presidente que acaba de ser eleito. E, portanto,
aquele que dominar o funcionalismo público dominará o governante, quem quer que ele seja. A
história do Brasil é um exemplo típico disso.
Vejam, quando o PT começou a angariar adeptos no funcionalismo público ele sabia exatamente o
que estava fazendo. Não que eles tenham feito uma análise tão detalhada disso, mas há uma espécie
de instinto de se apegar aos meios de ação mais duráveis. Mesmo não tendo feito essa análise eles
agem assim quase que por instinto. É claro que no caso do Partido Comunista não é bem um instinto,
eles já têm uma experiência histórica.
Um segundo elemento diferenciador do poder é, evidentemente, o conhecimento e o controle
intelectual que o indivíduo tem da situação. Nós veremos que, muito antes de surgir qualquer
diferenciação de poder pela propriedade dos meios de produção, surge uma diferenciação de poder
pelo conhecimento.
Um pajé para mandar na tribo inteira não precisa de propriedade alguma, ele simplesmente conhece
os elementos fundamentais que estruturam a vida da sociedade, ele sabe como aquilo funciona. Se
vocês lerem o trabalho do Levi Strauss, O Feiticeiro e sua Magia, vocês verão que essas operações
mágicas, essas feitiçarias destinadas a matar pessoas, elas funcionam, mas só dentro de um meio
sociocultural homogêneo. É mais ou menos como dizer que macumbeiro só consegue matar
macumbeiro ou seus crentes, porque é preciso ter o suporte sociocultural para que a pressão da
sociedade inteira sobre a mente de um coitado, de uma vítima, o aterrorize suficientemente para
paralisar a sua circulação capilar e matar o desgraçado.
A posse desses meios de conhecimento é, portanto, um elemento diferenciador muito anterior à posse
dos meios de produção. E, pior, depois de diferenciadas as várias propriedades dos meios de produção
– quer dizer, vem primeiro a comunidade primitiva, o feudalismo, [0:30] o capitalismo, o socialismo,
o raio que o parta – este elemento diferenciador baseado no conhecimento continua existindo e
continua por baixo da diferenciação dos meios de produção. Hoje todo o mundo fala: “O
conhecimento e a informação, hoje, é poder” – ora, e quando não foi? Sempre foi. É coisa básica. Ou
seja, quando o Sun Tzu escreveu aquela regra – “Conhece teu inimigo” – isso já era verdade naquele
tempo.
Portanto, este elemento diferenciador é o que vai determinar a minha ideia do horizonte de
consciência. Logo, ao analisar as várias situações políticas, os conflitos, etc., tem de mapear os
horizontes de consciência e ver quem está enxergando mais – este sem dúvida levará vantagem.
Nos últimos anos, vemos que a partir de 64/65, o pessoal comunista no Brasil virou quase que um
monopolizador do conhecimento, eles sabiam o que estavam fazendo. Por exemplo, eles começaram

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a estudar Antonio Gramsci por volta de 64/65, alguns já conheciam um pouco antes, mas a coisa se
dissemina na esquerda a partir de 65, quando o Ênio Silveira da editora Civilização Brasileira publica
uns 70-80% das obras do Antonio Gramsci com tradução brasileira. E, uma parte dos comunistas foi
para a guerrilha e a outra parte ficou em casa estudando Antonio Gramsci, sabendo que os
guerrilheiros iam morrer, mas que eles iam levar a vantagem, portanto usando os guerrilheiros como
boi de piranha.
Eu pergunto: o pessoal que estava no governo, que estava nominalmente no poder, que eram os
militares e seus associados, não tinha a menor ideia do que estava se passando; quando eu publiquei
o livro A Nova Era e a Revolução Cultural, que foi o primeiro livro não gramsciano sobre o Gramsci
que saiu no Brasil, depois de trinta anos, quanto tempo depois levou para aparecer um sinal de vida
no meio militar? Levou oito anos. Em 2001, o general José Fábrega, escrevendo em um publicação
do meio militar, deu sinal de que tinha percebido, leu o livro e falou: “opa, é isso mesmo”. Mas aí o
governo militar já tinha acabado. E como foi que ele acabou? Acabou através da revolução cultural e
da ocupação de espaços, evidentemente. O governo que de repente se viu cercado e, sem que ele
percebesse como, estava todo o mundo contra ele, no Brasil e fora.
O que foi isso? Foi propriedade dos meios de produção? Não, foi simplesmente um horizonte de
consciência mais amplo que, de certo modo cercou o inimigo dentro de um ponto cego. O governo
estava em Brasília, cercadinho por forças que compreendiam a situação melhor do que ele e, portanto,
o conseguiam manipular.
Portanto, na análise de qualquer situação político-militar o horizonte de consciência é uma coisa
básica. Ora, a análise do horizonte de consciência tem o seguinte problema: só se consegue mapear
um horizonte de consciência que é menor do que o seu. Portanto, isso já coloca para o estudioso de
ciência política este desafio: o sujeito tem de estar mais consciente do que os personagens que ele
está estudando – isso é básico. E isso implica não somente um horizonte de informações mais amplo,
mas uma capacidade de integração dos conhecimentos maior.
Por quê? Ou na guerra ou no conflito político, todos os elementos, todas as correntes de causa, atuam
ao mesmo tempo, e o sujeito não sabe qual delas que vai predominar. Portanto, tem de ter uma visão
suficiente dos fatores econômicos, sociais, políticos, culturais, religiosos, morais, psicológicos, etc.,
e conseguir ver essa sociedade como um todo, sem cair no negócio organicista – que eu expliquei na
semana passada. Tem de entender que esses fatores não estão ligados uns aos outros como os órgãos
de um corpo humano, de um corpo animal; eles não têm esta coerência. Estes são apenas uma
simultaneidade e uma interação. Justamente porque não há uma ligação orgânica, a relação entre eles
pode ser enormemente variada, quer dizer, o peso relativo desses vários fatores pode mudar. Isto é,
num certo momento os fatos de ordem econômica podem predominar e passar adiante e determinar
todos os outros, mas em outros momentos pode haver fatos de ordem psicológica e, às vezes, até fatos
fortuitos, que podem exercer uma influência determinante no curso dos acontecimentos.
A interação desses vários fatores, como não é de natureza orgânica, e sim, [por assim dizer], da
natureza de um somatório, de um paralelogramo de forças, todos esses fatores, todas essas linhas
causais, sempre têm de ser levadas em consideração ao mesmo tempo e continuamente serem
reavaliadas. Isso vai fazer da filosofia e da ciência política uma área absolutamente fascinante, porque
é como se fosse um jogo de xadrez com milhões de peças, de agentes. E, no entanto, a atuação dessas
milhões de peças também está limitada pelo fato de que o conhecimento disponível a cada momento
é limitado. O conhecimento disponível para toda a sociedade também é limitado e em alguns casos é
tão limitado que um indivíduo, se quiser, pode subir acima disso e enxergar mais do que a sociedade
inteira – isso é perfeitamente possível, e aconteceu no Brasil.
Graças a isso ser possível, também é possível que a ciência política, em certos momentos, consiga
mapear o campo de forças com muito mais clareza do que os próprios agentes têm no momento. Foi
justamente nesta linha de análise que eu trabalhei ao longo de todo esse tempo. Eu queria saber qual

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era o horizonte de consciência, não necessariamente de cada indivíduo, mas de cada grupo, até onde
eles vão, o que eles não sabem, quais são os limites do [horizonte de consciência] – que como já
vimos, é definido pelos seus limites; quer dizer, além deste ponto o neguinho não enxerga, aí é a
fronteira do horizonte de consciência dele.
Às vezes pode se ficar sabendo do horizonte de consciência por sorte; a informação simplesmente cai
na sua mão. Eu me lembro de quando fui a assistir uma conferência do George Soros e no final eu fui
conversar com ele e perguntei sobre o Foro de São Paulo. Ele começou a falar do Foro de São Paulo,
mas mostrando que não conhecia nada a respeito, ele estava fingindo que conhecia. Ele tinha ouvido
falar daquilo pela primeira vez na vida. Como este homem está agindo na América Latina, dando
dinheiro para um, fortalecendo outro, se ele não tem nenhum controle de qual é o agente com que
está mexendo? Então, é evidente que o George Soros estava cercado de assessores que sabem muito
mais do que ele e que são eles quem estão tomando as decisões, e não o Soros em particular. Logo,
quando a gente fala “o Soros fez isso ou fez aquilo”, no que diz respeito à bolsa de valores, como se
quebra um banco ou a economia de um país, isso ele sabe, mas nas ações políticas propriamente ditas
ele não tem o menor controle de onde ele está agindo. Ele é, certamente, levado por um grupo de
assessores que pega o velho gagá cheio de dinheiro e simplesmente o manipula. Esta informação é
básica para entender o que o George Soros vai fazer, porque não adianta perguntarmos o que ele
pensa, mas saber quem são os seus assessores, consultores, etc., ler os livros deles e daí ficar sabendo
o que eles estão pensando.
É assim que se vai encontrando o caminho das pedras, o guiamento para saber que agente está
empenhado em fazer o quê, qual é o seu horizonte de consciência, quais são os meios de ação de que
ele dispõe, o que ele pode fazer e o que jamais ele conseguirá fazer.
Essa é a fórmula, é só isto. Não há mais nenhuma ciência política além disto. E o tempo que o pessoal
perdeu especulando leis históricas, constantes históricas, etc., teria sido muito melhor empregado se
fosse estudar caso por caso, porque toda ciência começa com a classificação dos seus elementos. A
fase classificatória é o início de uma ciência.
Por exemplo, qual foi a primeira teoria unificadora de toda a biologia? É o evolucionismo, de Darwin.
Foi o primeiro sujeito que inventou uma explicação geral para a vida animal. Antes disso o que se
fazia? Colecionavam bichos, classificavam e anotavam, era o que dava para fazer. Foi só quando a
classificação chegou a tal ponto que alguém pôde inventar, certa ou errada, uma teoria geral. Então,
todas as teorias gerais em filosofia e ciência política são prematuras, porque ainda não houve uma
classificação de acordo com estes critérios descritivos, que são os únicos que funcionam.
No Brasil, como nós poderíamos chegar a uma análise correta do que está acontecendo agora? Nós
teríamos de ver, das várias forças agentes, primeiro quais são as mais antigas. Por exemplo, a família
real é bastante antiga, mas ela não tem uma atuação contínua ao longo dos tempos. Então, a família
real, com certeza, não é um agente histórico. Depois que caiu, a família real deixou de ser um agente
histórico – se é que era antes.
Se vocês estudarem a vida de D. Pedro I e D. Pedro II, com certeza D. Pedro II não foi uma criação
de D. Pedro I. Este deu a si mesmo uma orientação intelectual que, para o seu pai, seria grego, seria
um enigma. E, essa orientação pouco tinha a ver com política, ele estava interessado em ciências
naturais, ele era um cientista, era um jovem muito sério na sua área. Vejam, ao cair do poder, ele não
lamentou nem um pouco. Ele estava cansado daquilo, ele não era um agente político, ele não queria
ser. Já no tempo de D. Pedro II, vocês vão ver que a iniciativa política já não estava bem nas mãos da
Casa Real.
Então, qual foi o agente histórico? Foi o exército? Foi a Maçonaria? Nenhum desses pode ter sido,
porque, quando chega a República, os dois lados em disputa eram maçons; o Imperador era maçom
e os seus inimigos também eram maçons. Logo, não se pode dizer que a maçonaria fez isso, mas

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apenas que a Maçonaria fez algo para si mesma – o que é possível. A mesma coisa na Revolução
Francesa: esses palhaços ficam dizendo: “Foi a Maçonaria que fez a Revolução Francesa” – bom, o
rei era maçom e todo o mundo era maçom, então não é que a maçonaria fez isso, é uma coisa que
aconteceu primeiro dentro da maçonaria e depois fora. E quanto ao exército? Quanto ao exército
vemos que também tinha elementos dos dois lados, por assim dizer. Tinha elementos monarquistas,
o próprio Deodoro da Fonseca era monarquista, e tinha elementos republicanos. Na Maçonaria a
mesma coisa, tinha elementos monárquicos e republicanos.
Isso quer dizer que nenhuma dessas entidades foi propriamente o agente que produziu aquilo. Só se
encontra uma unidade de ação na propaganda republicana, ou seja, o fator intelectual predominou.
Ou seja, o único agente histórico cuja voz predominou ali foram os propagandistas da República, dos
quais, em grande parte, eram discípulos de Auguste Comte. Ou seja, uma escola filosófica, que na
França já tinha perdido a sua hegemonia, se torna o elemento determinante do curso das coisas num
país da América Latina e os únicos agentes que pesam são os intelectuais, são propagandistas da causa
republicana.
É assim que a gente descobre. Como diz aquele famoso haikai de Antonio Machado: “A distinguir
me paro las voces de los ecos, y escucho solamente, entre las voces, una”. Então quem é esse um?
Quem efetivamente está agindo? Quem está falando e quem está ecoando? Isso é a coisa mais decisiva
na análise de qualquer situação.
Agora, vai pegar aí um Reinaldo Azevedo, um Marco Antônio Villa e pede para eles fazerem isto.
Isto está muito acima da capacidade e da imaginação deles, eles não têm ideia de como se faz isto,
nunca pararam para pensar no assunto por um minuto sequer. É por isto que eu fico bravo quando
começam a comparar as minhas opiniões com as dessa gente. Esses caras são apenas comentaristas
jornalísticos, a função deles é dar a notícia da semana e dizer alguma coisa contra ou a favor, isso é
tudo que eles podem fazer. Eu não estou fazendo isto. Eu estou aqui há trinta anos tentando
desenvolver instrumentos conceituais e descritivos para a gente poder fazer uma descrição científica
e, portanto, uma previsão científica do que vai acontecer, dentro de todos os limites da informação
disponível, os limites da minha cabeça e o coeficiente de imprevisibilidade que existe em toda
situação.
Existe um livro muito interessante de um autor chamado Nicholas Taleb que se chama The Black
Swan. O cisne negro, para ele, é o símbolo dos fatos imprevisíveis, porque até descobrirem a Austrália
ninguém sabia que existia cisne negro, acreditavam que todos os cisnes do mundo eram brancos.
Quando falava “cisne negro”, era apenas um ser mítico. Daí nego foi na Austrália e descobriu que
eles existem. Ninguém podia prever uma coisa dessas. Então ele vai ver que, em geral, todas as
previsões do mundo são feitas na base de uma estatística ou de um número, e o número, por definição,
não pode levar em conta um fato singular que pode mudar o panorama todo. Daí ele faz um estudo
sobre os fatos singulares. Este estudo dos fatos singulares não é absorvível dentro do corpo da ciência
política, mas ele é um instrumento auxiliar importantíssimo. Ou seja, sempre têm de levar em
consideração esta possibilidade do fato singular imprevisível que pode mudar o quadro inteiro.
Deve-se considerar também um outro elemento, a interferência divina. Existe interferência divina no
plano histórico? Existe. Assim como existe no plano físico, no plano da fisiologia humana. E, ele
pode ser estudado também, até certo ponto. Não que o sujeito possa prever as decisões divinas, mas
tem certas coisas que se sabe que Deus não fará. Portanto, até isso deve ser levado em conta. E onde
eu aprendi isso? Eu aprendi com um historiador tunisino, Ibn Khaldun, que sempre levava em conta
todos os fatores, inclusive a intervenção divina. E, por isso mesmo, o livro dele ainda é um grande
livro de sociologia política, embora escrito há muitos séculos.
Então, já entrando mais propriamente na análise da situação histórica e política brasileira, a qual será
formalmente o assunto das próximas aulas, nós podemos levantar algumas premissas básicas desse
estudo.

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A primeira é a seguinte, nós temos de traçar o horizonte de consciência de todos os agentes que se
apresentaram ao longo da história brasileira. Os agentes considerados individualmente quando forem
pessoas de grande gênio e grande capacidade como, por exemplo, Joaquim Nabuco, que foi um líder
da campanha abolicionista; e em grupo quando forem agentes mais anônimos, que contam mais pelo
número e pela ação repetida do que por outra coisa. Isso foi feito? Não, nunca foi feito, mapear o
horizonte de consciência dos grupos agentes nunca foi feito.
A pergunta seria essa: pega os vários agentes, por exemplo, os fundadores do império, os
propagandistas republicanos, os fundadores da República, os líderes da revolução de 30, de 64 (...)
até hoje, vai pegando todos eles, e perguntar pelo horizonte de consciência e pelo limite do horizonte
de consciência. A pergunta é muito simples, o que esses camaradas não sabiam, mas que era essencial
para o que eles queriam fazer? É uma espécie de história negativa, história da ignorância – uma
proposta, um modelo de Jean Fourastié. As coisas que se descobre nesse caminho são absolutamente
assombrosas, porque se pode tomar como regra geral que, ao longo da história brasileira, todos os
agentes tinham um horizonte de consciência muito limitado. Ou seja, todos eles ignoravam elementos
essenciais que eles precisariam saber para fazer aquilo que queriam fazer, todos eles, sem exceção.
Então, em geral, há um baixo nível de consciência e isto é uma constante na história brasileira, ainda
hoje.
Se vocês compararem isso com grupos agentes de outros países, vocês ficarão abismados com a
diferença.
Um elemento interessantíssimo é o que foi assinalado por um autor comunista, Roberto Schwartz,
que diz que os fundadores do império brasileiro (portanto, os homens da Independência) eram todos
senhores de terra. Portanto, do ponto de vista marxista, eles tinham um interesse de classe muito claro
e muito determinado, que era a manutenção da antiga estrutura. Esta não era propriamente feudal,
como demonstrou outro autor comunista, o Jacob Gorender, no livro O Escravismo Colonial, que é
um dos grandes livros da história brasileira. O Jacob Gorender demonstrou demostrou que o sistema
brasileiro não era um sistema feudal; ele era menos baseado na posse da terra do que na posse de
escravos. E, o Brasil foi o maior comerciante de escravos, o país mais escravagista do Ocidente —
comparado com os árabes foi nada, mas no Ocidente foi o grande escravagista. Toda a economia
brasileira era baseada na mão de obra escrava.
Notem, no feudalismo isso nunca aconteceu. No feudalismo, aliás, não havia escravidão. No
feudalismo havia a servidão da gleba, que era uma coisa completamente diferente. Porque, por
exemplo, o servo da gleba legava aos seus filhos a terra que ele tinha; ele não podia vendê-la, mas
continuava sendo dele, e os seus filhos tinham direito à herança. Os escravos, no antigo meio romano,
não tinham família, eles procriavam coletivamente. Juntava todo o mundo, todo mundo comia todo
mundo e daí ninguém sabia de quem eram os filhos. Então, não havia naturalmente o direito de
herança. Graças a uma luta de séculos, desenvolvida pela Igreja, se transmutou a escravidão na
servidão da gleba, onde os antigos escravos já podiam constituir família, legar os seus bens etc. É
claro que isso foi uma modificação profunda na história europeia. No Brasil nós nunca tivemos a
servidão da gleba, nós tínhamos a escravidão pura e simples.
Eu me lembro de ter lido no antigo Pasquim, que era um jornalzinho admirável, uma entrevista feita
com um senhor negro, que já estava com mais de 100 anos de idade, que tinha o emprego de
reprodutor. Era um negão alto, forte, bonito, saudável e a função dele era ir de fazenda em fazenda
comer as mocinhas para fazer filhos. Ou seja, a situação do escravo no Brasil se parecia muito mais
com a do escravo romano do que com a do servo da gleba. Então, falar em feudalismo é um nonsense
completo.
Segundo Jacob Gorender – e ele está 100% certo – o regime colonial brasileiro não era um feudalismo,
era o que ele chamou de escravismo colonial. E os líderes do movimento da independência (portanto
os fundadores do Império) eram todos senhores de terra, portanto senhores de escravos que viviam

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do escravismo colonial. Muito bem, a que eles apelaram para fazer a justificativa ideológica da
independência e, portanto, da fundação do Império? Ao discurso da moda, que era o discurso da
revolução francesa, que era um discurso contra eles mesmos; mas serviu. Então você vê toda aquela
gente falando em termos de democracia, de liberdade, etc., um discurso totalmente deslocado da sua
situação econômica real deles e do papel efetivo que eles tinham na realidade da sociedade brasileira.
Este deslocamento entre o discurso e a situação é outro elemento estrutural da história brasileira: nós
observamos isso na ação de quase todos os agentes, quer dizer, junto com um horizonte de consciência
limitado se tem este hiato, este descompasso, entre a ação real e o discurso que o justifica.
Por exemplo, eu citei na aula passada o discurso do senador (ou deputado?) ???, em que ele faz uma
defesa do escravismo de maneira muito nobre e elevada. Você não encontrará isso no Brasil. Nenhum
escravagista acreditava no escravismo. E acreditavam no contrário? Também não. Isso quer dizer que
o discurso é escolhido em função daquilo que se acha que vai soar bem no ouvido das pessoas. Ou
seja, esse elemento de fingimento é uma constante na história política nacional.
Ora, mas se as suas ações são justificadas na base do fingimento, eu pergunto: qual é a possibilidade
que um sujeito tem de montar aqui um discurso fingido só para a publicidade e ter, secretamente, por
dentro outro discurso racional, organizado e que expresse exatamente o que ele vai fazer? Só se for
um gênio ou um grupo muito organizado. Em geral, o próprio agente se confunde pelo seu discurso
auto-justificador e, portanto, não pode agir de maneira eficiente.
Quando você vê a longa sucessão de fracassos em grandes planos governamentais, que às vezes dão
resultados opostos ao que pretendiam – começa por aí. Este elemento teatral da conduta brasileira
tem efeitos materiais portentosos. Existe algum estudo sobre isso? Não. Inclusive a sugestão do
Schwartz, que é muito boa, caiu no vazio. Ninguém prosseguiu aquilo. E se prosseguiu tentou
prosseguir na base do marxismo mais vulgar e bobo, buscando explicar tudo pela posse dos meios de
produção. Quando na realidade o próprio Roberto Schwartz ouviu o galo cantar, mas não sabia onde,
porque ele também explicou este fenômeno em termos marxistas tradicionais; eu acabo de dizer que
ela, a propriedade dos meios de produção, por si mesma não explica nada, porque ela tem de ser
explicada por um fator mais básico. Mais material, por assim dizer.
Afinal de contas, o que é propriedade? Propriedade é um elemento jurídico. A propriedade não é uma
coisa física. Se você disser: “Ah, o sujeito tem um latifúndio de não sei quantos milhões de
quilômetros quadrados”. Ora, como ele tem? Ele segura na mão, ele está lá o tempo todo? Eu me
lembro de uma vez em que visitei um latifundiário em Goiás – se você andasse o dia inteiro de jipe o
terreno dele não acabava. Então, é claro que ele não tinha o menor controle de tudo aquilo. Tanto ele
não tinha controle que eu vou dizer o que aconteceu: deram um casal de porcos para ele e o casal de
porcos começou a proliferar, e proliferar (...), de modo que todo o território do terreno por onde você
andava estava cheio de porcos; e era tanto porco que ele não conseguia cercar os porcos. O que ele
fez? Cercou a casa dele. Ele se pôs no chiqueiro e os porcos ficaram em volta. Então você vê que o
controle material que ele tinha de sua propriedade era quase nulo, mas existe um controle jurídico,
um direito.
O que é um direito? É a obrigação de um terceiro. Se um terceiro aceita esta obrigação, ele reconhece
o seu direito. Então é claro que é um elemento totalmente abstrato, que só existe no papel; não é um
elemento material. Mas como Karl Marx diz que ele é materialista se ele acredita que tudo é decidido
pela propriedade, que é um elemento puramente abstrato, puramente mental? Materialista sou eu, ora.

Então nós temos de procurar por baixo da diferenciação do sistema de propriedades qual é o elemento
efetivamente material, concreto, que está ali presente. Por exemplo, a propriedade é um elemento
abstrato, mas o conhecimento não é; o conhecimento é um poder efetivo que o sujeito tem, aonde ele

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vai ele carrega aquilo. O conhecimento é algo como a força física, ela está onde você está, você não
pode estar aqui e bater no outro neguinho lá na esquina. O conhecimento também é a mesma coisa:
ele só será ativo onde você estiver agindo pessoalmente.
O estudo deste elemento – o do fingimento no Brasil – eu comecei a ficar impressionado com isso a
partir do livro do Roberto Schwartz, que eu li nem lembra quando. Eu vi e pensei: isso aqui tem de
ser aprofundado, é uma ideia genial. Mas como isso funciona? Muito mais tarde eu li no livro do
Conde Hernann von Keyserling, [1:00] Meditações Sul-Americanas, um depoimento que para mim foi
um estalo. Ele esteve no Brasil e disse: a elite brasileira é diferente de todas no mundo; porque no
mundo inteiro, eu vi que quando as pessoas fingiam ser alguma coisa é porque elas queriam ser aquela
coisa, queriam se tornar aquela coisa – por exemplo, estavam copiando Abraham Lincoln ou Winston
Churchill porque queriam ser um ou outro – mas no Brasil não é assim, as pessoas se contentam com
a imitação enquanto tal. [Ou seja,] eles não querem ser aquilo que eles imitam, querem ser bons
imitadores. A ideia de ser um bom imitador vem da ilusão de você controlar a situação pelo
fingimento; controlar tudo pela mentira. Como é que sem este fator nós conseguiríamos explicar o
fenômeno “PT”? Nunca.
Em vão vocês e procurem uma história do fingimento brasileiro. Ora, duas pessoas tão diferentes
quanto o Roberto Schwartz e o Conde Hermann von Keyserling – que era um homem rico e viajava
o mundo inteiro estudando um pouquinho sobre cada país –, quando esses dois caras começam a ver
a mesma coisa é porque essa coisa provavelmente existe; é importante e precisa ser estudada.
Então, o estudo desse elemento de fingimento na política brasileira, eu acho, é o fenômeno decisivo.
Porque é o fator mais constante; isso nunca mudou. Hoje mesmo eu fiz uma notinha dizendo: Vocês
já repararam que, no Brasil, todo o mundo que diz qualquer coisa o faz em nome do estado
democrático de direito? Bom, procure outros agentes históricos. Você vai ver Mussolini defendendo
o estado democrático de direito? Não, ele falava contra a democracia porque ele queria um regime
ditatorial fascista, o estado fascista. Na obra do grande teórico do fascismo, Giovanni Gentile, ele diz
claramente: “nós queremos um estado autoritário, o estado tem de estar acima de todo o mundo, os
seres humanos são apenas subprodutos do estado e o estado tem de mandar em tudo”. Se fosse um
fascista brasileiro chamaria de estado democrático de direito.
Notem, da Dilma até o Reinaldo Azevedo, o Villa, todos estão defendendo o estado democrático de
direito. Quem não percebe que isso faz parte do elemento estrutural brasileiro de fingimento? E quem
é que, depois dessa explicação, não perceberá “opa, sem entender isso nós não vamos entender nada
do que está acontecendo”?
Estão compreendendo em que sentido foi se dirigindo, ao longo dos anos, o meu tipo de análise? Eu
parto do princípio de que todos os agentes são seres humanos como eu, portanto têm uma psique que
funciona mais ou menos do mesmo jeito. E o que aconteceria a mim se eu começasse a levar adiante
esse discurso fingido? Eu teria de ter três discursos: um que eu apresento para uma plateia, outro que
eu apresento para os meus parceiros que vão agir realmente junto comigo e um terceiro para mim
mesmo. Quem consegue fazer isto? Tente fazer. Eu conheci um sujeito que tinha quatro amantes; ele
era casado com uma mulher e tinha mais três. Aquilo durou certo tempo, mas houve uma hora em
que todas descobriram e foi uma desgraça. Ele era um homem muitíssimo inteligente, era um escritor,
um negão bonitão, bem afeiçoado, bem falante, mas ele não conseguiu manter essa pluralidade de
discursos; não deu. Se você tiver uma amante já vai se atrapalhar. Você conhece algum caso de um
sujeito que teve uma amante secreta durante a vida inteira? Eu não conheço nenhum caso. Portanto,
vemos que o fingimento requer muito mais investimento intelectual do que a vida sincera.
Vocês nunca mentiram na vida? Eu já menti. Quando adolescente eu era um mentiroso, acho que
desde criança. Eu inventava cada coisa doida. Uma vez eu inventei que tinha descoberto um túnel
que ia da minha casa até a Praça da Sé e consegui enganar o meu irmão, ele ficou lá cavando para
achar, e eu rindo. Mas quanto tempo durou o fingimento? Dez minutos, logo fui descoberto. O Gugu

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inventou que as figurinhas de jogador de futebol vinham dentro das mexericas, e o irmãozinho Tales
ficou horas descascando mexericas para ver se descobria figurinha. E o Gugu ficou morrendo de dar
risada por trás.
O fingimento é um esforço intelectual. Por exemplo, eu estudei seriamente o método do Stanislavski
– a representação teatral – e ele vê que o fingimento do ator é baseado num sentimento real que ele
tem. Ele pega a situação do personagem, pega uma situação análoga que houve na vida dele e ele se
recorda desta situação na hora de representar o papel. O efeito externo é o mesmo, mas o que ele está
pensando não é o que o personagem está pensando. Bom, você acha que isso é fácil? Tanto não é fácil
que eu, tendo estudado tudo isso, consegui ser o pior aluno que o Eugenio Kusnet já teve.
Todo esse problema do fingimento brasileiro é um elemento estrutural permanente. Ele está presente
ainda hoje e tem de ser estudado. Não é que nós vamos denunciar os fingidos, não é nada disto, calma
lá. Se existe uma problemática nacional de fingimento nós temos de olhá-la com objetividade e
compaixão. E não achar que agora, de repente, nós vamos instituir o reino da sinceridade e botar todos
os fingidos na cadeia – isso é estupidez.
Também isto de você posar de reformador moral da nacionalidade – mas desde quando não aparece
este tipo de gente querendo fazer isso? Vocês já se esqueceram do Jânio Quadros? Cujo símbolo era
uma vassoura porque ia varrer toda a sujeira? Essa coisa de você posar como o representante de altos
ideais morais que, na sua vida privada, você não é capaz de personificar de maneira alguma. Quer
dizer, você quer que a sua vida pública seja muito melhor do que a sua vida privada, quando isso é
impossível. Leiam o livro do Reinhold Niebuhr, que era um esquerdista, mas escreveu um clássico:
Moral Man in Immoral Society. Ele demonstra por A + B que nenhuma sociedade pode ter o elevado
padrão moral de um indivíduo, que tudo que penetra na vida social e pública baixa imediatamente de
nível moral. Então, quando as pessoas se apresentam como grandes reformadores morais nas suas
funções públicas, elas também estão fingindo; todos estão fingindo. Hoje esse elemento do fingimento
está presente igualzinho na turma do governo e na turma da oposição. E tudo isso mostra que a ação
será altamente contraproducente, porque o complexo mental requerido para manter a ação é muito
complicado, e a possibilidade de desorientação é muito grande.
Ao mesmo tempo, é evidente que num meio assim considerado qualquer sinal de sincerismo brutal é
considerado monstruoso. Por que, por exemplo, as pessoas consideravam o teatro de Nelson
Rodrigues monstruoso, quase criminoso? Porque era baseado no “sincerismo obsceno”. Quando as
pessoas veem alguém falar as coisas na lata, como fala o Bolsonaro, elas têm a mesma reação. Elas
ficam mais chocadas do que é possível. Aqui nos EUA, hoje, acontece a mesma coisa. Depois dos
anos 80, quando começou o negócio do politicamente correto, começaram a impor a política do
fingimento desde cima. Mas não é um elemento presente na vida americana ao longo do tempo, tanto
que às vezes o sincerismo é aceito aqui como um valor. Existem inúmeros personagens que são
característicos pelo seu sincerismo brutal e todo o mundo gosta deles, mas no Brasil isso não é aceito
de jeito nenhum. Certos fenômenos que a gente vê acontecer no dia-a-dia só podem ser explicados
em função desta tradição do fingimento.
Ora, a mera tradição do fingimento faz com que todo o quadro da política nacional adquira um viés
farsesco. E pior, não é uma farsa premeditada. O conjunto da farsa não é premeditado por ninguém.
É uma situação em que ninguém sabe exatamente qual é o seu papel no conjunto, e por isso mesmo
todos têm presunções que estão infinitamente acima da sua capacidade.
Se você pensar, como foi possível que um Lula, e além dele, uma Dilma chegassem à presidência da
República? Porque o discurso da sua presunção, no qual ninguém acreditava, foi tomado como válido
por pessoas que também tinham um discurso no qual elas mesmas também não acreditavam. Então
temos aí quase que um quadro psicopatológico, e sem levar esses elementos em conta nós nunca
vamos entender coisa nenhuma do que está se passando.

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A partir da próxima aula nós vamos entrar mais profundamente na análise do caso brasileiro, dar
exemplos, etc., e no fim eu vou tentar traçar mais ou menos o jogo de forças real no momento. Mas
só pelo que eu já disse vocês imaginam o quanto é difícil traçar um quadro; fica difícil saber se os
planos de cada agente são aqueles que ele disse em público, ou se são outros completamente diferentes
ou se ele mesmo não sabe quais são os seus planos – é muito difícil fazer isso. Muito do nosso estudo
entra no campo da psicopatologia, querendo ou não. Num sentido que é diferente da aplicação da
psicopatologia à política de qualquer outro país.
Por exemplo, o livro do Lobaczewski, Ponerologia: Psicopatas no Poder. Evidentemente é um
estudo de psicopatologia política, mas no Brasil aquilo não basta. Ali ele está se referindo a tipos
psicopatológicos cuja conduta psicopática espalha uma anormalidade na situação. Ora, um momento:
se você pegar os fundadores do Império, eles não eram psicopatas. Houve um fingimento causado
por outra situação que não era de ordem psicopatológica, e sim cultural. E esse fator cultural nós
vamos estudar na próxima aula. E daí vocês vão entender porque eu insisto tanto na absoluta
necessidade de ter uma camada intelectual preparada, séria e sincera; que sem isso, absolutamente
nada vai melhorar no Brasil; podem os políticos prometerem o que quiserem, mas nós temos aí um
hiato cognitivo grave, antigo, permanente e que se agrava ao longo do tempo, porque a este hiato
cultural se soma o elemento da psicopatia.
É uma situação absolutamente nada invejável e que, em primeiro lugar, é um desafio cognitivo antes
de ser um desafio prático. “O que vamos fazer?” – ‘pera aí, mas nós nem sabemos o que está
acontecendo. Você já viu algum tipo de medicina em que a terapêutica antecede o diagnóstico?
“Primeiro nós vamos dar o remédio para o indivíduo e depois vamos investigar o que ele tem” – isso
nunca aconteceu no mundo; só se o método for totalmente doido. Mas no Brasil tem muitas pessoas
assim, elas são contra o estudo do diagnóstico e dizem: “O que interessa é agir!”. Ah é? E vai fazer o
quê? Na hora em que o sujeito diz “faz assim, assim e assim” você sempre vê que é besteira, coisa
infantil.
Há muito tempo nós não temos um esforço de mapeamento da situação. Pelo menos um esforço tão
sério como foi o do Raymundo Faoro, no tempo dele – que falhou por desconhecimento do elemento
comunista – foi um estudo muito sério – eu acho que o mais sério que se fez até hoje. A partir desta
análise do peso deste elemento de fingimento, estudar como este hiato que, no Império surge por
causas puramente culturais, se agrava com a introdução de duas coisas: primeiro, a propaganda
ideológica maciça; segundo, o elemento psicopatológico, nos levando à situação atual.
Então vamos fazer uma pausa e daqui a pouco voltamos com perguntas.

***

Aluna: Qual livro o senhor indicaria para conhecer em profundidade a história da evolução técnica
dos armamentos?
Olavo: Os livros sobre isso no Estados Unidos são tantos que é um negócio oceânico, eu não saberia
selecionar. Mas para você começar a se informar sobre isto eu sugiro alguns vídeos. A NRA, National
Rifle Association, tem vídeos maravilhosos sobre a história dos armamentos, inclusive tem um que é
fundamental, As Dez Armas que Marcaram a História, é fundamental. E tem alguns vídeos sobre
detalhes de armamentos. Hoje mesmo eu vi um que se chama Things that you didn´t know about
ammo. Ammo é abreviatura de ammunition. É excelente, mas é só sobre a munição. Bom, mas a arma
é essencialmente a munição, né.

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Eu recomento muito os vídeos de um sujeito chamado Mike Beliveau, que é o especialista em armas
de pólvora negra, as armas que se usava antigamente na Guerra Civil, etc., porque ele vai mostrando
cada arma. Ele explica a origem da arma, como era o funcionamento e em seguida testa a arma para
você ver como funciona. Outro que faz a mesma coisa, mas com armas modernas, chama-se
Hickok45. São excelentes, os caras realmente conhecem o negócio. Agora, são centenas de vídeos.
Você tem de ver um por um para saber como cada arma funciona. O que eu posso fazer é depois no
curso normal do seminário, o COF, é selecionar alguns livros e mostrar para vocês. Mas de cara o
que me ocorre são os vídeos.
Aluno: Antes de mais nada parabéns pelo conteúdo, é a primeira vez que estou fazendo um curso
com o senhor e estou muito entusiasmado...
Olavo: Obrigado.
Aluno: ...essa situação estrutural de fingimento pode ser atribuída diretamente ao marxismo em sua
concepção, uma vez que o próprio Marx viveu e pensou uma teoria alheia à própria ideia que ele
gerou?
Olavo: Bom, em primeiro lugar não vamos confundir o fenômeno do fingimento em geral com o do
fingimento nacional e particular – que é uma situação muito peculiar – com a paralaxe cognitiva.
Uma coisa não tem nada que ver com a outra. A paralaxe cognitiva pressupõe a honestidade do agente.
E a paralaxe cognitiva só acontece na filosofia, é um fenômeno especificamente da história da
filosofia, não pode ser transposto. Só se pode falar em paralaxe cognitiva quando você tem um corpo
doutrinal pronto. Por exemplo, a obra de Kant, a obra de Marx etc. Meras opiniões soltas e opiniões
de política não entram na categoria de paralaxe. Pode entrar na do fingimento em geral, mas o
fingimento brasileiro tem características peculiares que eu vou explicar nas próximas aulas.
Então é claro que não pode ser atribuído ao marxismo, mesmo porque é anterior ao marxismo. Você
já observa isso claramente na própria independência brasileira. E também não houve um
conhecimento do marxismo no Brasil até, eu acho, antes de 1910.
Aluno: Existe algum livro de história do Brasil em que se possa ter uma visão menos alienada dessas
situações?
Olavo: Eu acho que não, eu nunca encontrei nenhum. Onde eu busco documentos dessa coisa do
fingimento é na História da Inteligência Brasileira, do Wilson Martins, porque ele vai acompanhando
ano por ano os livros que foram publicados e você vê a circulação das ideias. E evidentemente 80%
das ideias que estão ali são apenas ideias esquisitas, absolutamente despropositadas, totalmente fora
do contexto, meras esquisitices e assim por diante. Ali você tem uma documentação enorme, mas
note bem, o Wilson Martins não está fazendo uma história do fingimento brasileiro, muito menos
uma análise política baseada nisto. Ele está apenas documentando os livros publicados.
Eu espero que saia daqui algum historiador capacitado a fazer uma história psicológica do Brasil.
Nem uma história psicológica existe. Por exemplo, o Gilberto Freire fez alguma coisa com relação à
história psicológica do Brasil colônia, depois o começo da República, mas o ponto de vista dele é
muito limitado; ele está interessado apenas em alguns fenômenos. E eu acho que precisaria fazer uma
história da mente brasileira. Mas em certos períodos vocês vão encontrar dificuldades imensas. Dos
últimos quarenta anos não se tem documento. Praticamente você tem de lidar com os fatos brutos.
Por exemplo, você pode pegar vídeos – eu mesmo citei vídeos sobre essa violência brutal que a gente
vê hoje nas escolas, juntando vinte para bater em um e outras coisas desse tipo; quanto a isso nós
temos este material bruto. Mas o material já depurado, aquele com que o historiador geralmente lida
– romances, peças de teatro, ensaios, estudos monográficos –, nós não temos. Então é uma dificuldade
imensa, mas eu espero que as pessoas continuem se formando, se preparando, para um dia nós
fazermos estas coisas.

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Aluno: Os elementos da ciência política ajustam-se ao caso da sociologia como ferramenta de
contaminação do pensamento técnico de gestores e operadores de polícia?
Olavo: Sem sombra de dúvida. Note, se nós todos estamos operando em cima de um quadro muito
mal conhecido, muito nebuloso, muito caótico, sobre o qual nós temos um domínio intelectual muito
precário, os operadores de polícia não são exceções, eles são gente que nem nós e estão com o mesmo
problema. Ninguém está sabendo exatamente onde está pisando. E, neste ambiente, quanto menos
segurança se tem, mais se tende a criar uma falsa segurança na base da reiteração histérica de
afirmações. Sempre tem um sentido hiperbólico...
Vocês se lembram de quando caiu o Collor? Por todo lado você via manifestações patrióticas, todo o
mundo batendo no peito, aquilo era o resgate da nacionalidade, agora seria o império da moralidade;
todo o mundo falou isso. Só eu que disse – baseado na Operação Mãos Limpas, que foi um truque do
Partido Comunista na Itália: “Vocês estão querendo imitar a Operação Mãos Limpas, que é investigar
todo o mundo, menos o Partido Comunista”. Então a Operação Mãos Limpas nunca passou de uma
propaganda de sabonete. Então, pegaram uma farsa italiana e a copiaram no Brasil, já é uma farsa
elevada à segunda potência. Então é claro que esse resgate da moralidade não vai acontecer, a
corrupção vai piorar. Tudo isso eu disse no tempo do Collor, porque para mim era óbvio, eu já estava
estudando esse negócio do fingimento naquela época.
Do mesmo modo, agora que teve o impeachment está todo o mundo batendo no peito: “É o resgate
da nacionalidade” – meu Deus do céu! Vamos ver o que aconteceu realmente. O que aconteceu
realmente foi o seguinte: nós tivemos uma eleição que foi totalmente fraudulenta. Eu pergunto a
vocês, quantos eleitores brasileiros, em 2014, votaram sabendo que a apuração seria secreta? Nenhum
foi informado. Todos foram enganados, ludibriados. Todos acreditaram que a apuração seria normal
como sempre, todo o mundo teria acesso, seria transparente. E daí vem o golpe na última hora: só
vinte e três pessoas teriam acesso [à apuração] e chefiadas por um homem do PT.
Aluno presente: Secreta e inalditável.
Olavo: Secreta e inalditável, absolutamente inalditável. Quem votou consciente disto? Então a eleição
foi fraudulenta na base. Mesmo se nenhum voto foi falsificado o sistema era fraudulento, não podia
ser aceito. Então o candidato “derrotado”, o seu Aécio Neves, tinha a obrigação de exigir a anulação
das eleições e a realização de uma nova eleição com a eleição transparente. Isso que ele tinha a
obrigação de fazer. Quando ele deu para trás, apareceram os que deram para trás junto com ele e
vieram com aquela conversa: “Nós temos de resolver dentro do sistema institucional do estado
democrático de direito etc.” – ou seja, temos de passar para a mão da classe política, a qual não vai
anular as eleições, não vai realizar novas eleições, vai adiar, adiar e adiar o máximo que puder e no
fim vai dar, no máximo, a cabeça da Dilma numa bandeja; vai demorar, vai ser difícil, e essa cabeça
terá de ser arrancada a fórceps. Enquanto que tudo podia ter sido resolvido já em março de 2015.
Com aquela pressão popular, aquele monstruoso apoio popular, o maior da nossa história, precisaria
surgir um líder ali que fizesse a reivindicação efetiva: anulação da eleição já, realização de novas
eleições já – isso é o que tinha de ser exigido. O pessoal saiu protestando, mas sem levantar nenhuma
bandeira específica. Então surgem duas bandeiras absolutamente alienadas: a primeira é a intervenção
militar; os caras pedindo para os milicos intervirem. Ora, mas você conversou com os milicos, você
perguntou para eles se eles querem? Isso é a mesma coisa que você ficar na arquibancada torcendo
para que o jogador faça isso ou faça aquilo, quando ele nem está ouvindo você falar. Então, ninguém
consultou os milicos. E tem outra coisa, se houver intervenção militar tem de ter o elemento surpresa,
mas vocês já acabaram com o elemento surpresa. Então, se vocês querem intervenção militar, vocês
já a estão boicotando desde já com todo este falatório.
Em segundo lugar, nem pararam para pensar em – suponhamos que haja uma intervenção militar, que
teremos um governo militar – como este governo militar vai se virar perante o mundo? Você tem uma

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estratégia para lidar com a pressão internacional em seguida? Não. Nem penaram nisso. “Queremos
intervenção militar e não interessa o que vai acontecer depois” – totalmente alienado.
E o próprio pessoal do impeachment. O primeiro cara que falou em impeachment, eu disse: o
impeachment é justo, tem de tirar a mulher daí, só que, se você pede o impeachment, você está
legitimando a eleição fraudulenta. Porque você não pode fazer um impeachment de um usurpador, de
quem não é presidente da República. Então o que nós temos de fazer é negar que ela seja presidente
da República desde já. Mas preferiram o impeachment. Por quê? Porque se houvesse a reivindicação
efetiva, isso seria a desmoralização de toda a classe política. O agente verdadeiro seria o povo e os
líderes dele – mas tem os interesses da classe política.
Notem, jornalista no Brasil: o número dos que recebem dinheiro de partido é muito grande. A mim
já vieram oferecer [dinheiro], o pessoal do PFL veio me oferecer dinheiro para eu escrever a favor
deles. Eu respondi: “Se vocês fizerem a coisa certa, eu escrevo a favor de vocês de graça, se fizerem
errado eu escrevo contra, também de graça; eu já tenho o meu salário que é pago pelo jornal, pronto,
acabou”. Agora, jornalista ganha muito pouco, para complementar o orçamento sempre aparece uma
coisinha assim e então a pessoa acaba defendendo. Quando você vê um estilo muito grandiloquente
– “O estado democrático de direto...” — pode ter certeza que tem dinheiro por baixo. – é batata, isso
aí é inevitável; eu conheço a classe jornalística há muito tempo e sei como as coisas funcionam.
Este emocionalismo barato faz parte do fingimento. E não é fazendo um fingimento anti-Dilma que
nós vamos corrigir este país. “Ah, vamos acabar com a corrupção” – mas espera aí, quem não sabe
que pelo menos 50% dos que votaram a favor do impeachment votaram para ver se eles mesmos
escapam das investigações? Aliás, este era o único problema: “Como fazemos para escapar das
investigações?” Tem dois jeitos: apostamos no PT, aceitamos o dinheiro do PT e daí o PT fica lá em
cima e nós ficamos em paz; ou “ah, o PT vai cair, então é melhor a gente apostar do outro lado” –
este foi o critério de 80% dos votos. Desses 80%, 40% preferiram apostar na continuação do sistema
e 40%, vendo a queda do sistema, decidiram apostar no outro lado para se salvar. Este foi o critério
único. Quem não sabe que foi assim? E quem acha que este é um bom jeito de acabar com a
corrupção? São loucos.
Daí vem esse boboca, amador, esse coitado do Reinaldo Azevedo, que deve estar gagá, que durante
muitos anos ele fez um bom serviço, mas de repente começa a ir acima das chinelas, falar de coisas
que ele não entende e dizer: “O impeachment era o caminho certo.” Mas o impeachment foi um
adiamento, gente. Conseguiu adiar por um ano. Agora, imagine o dano que o PT fez para o país
durante este ano. Era para cair no dia seguinte, com a pressão popular exigindo novas eleições
imediatamente. Se houvesse um líder com cabeça e com coragem teria feito [1:30] isso. Este líder tinha
de ser o Aécio Neves, mas ele também tinha rabo preso. Então nós temos todo o problema do
fingimento: você tem o falso herói, levantando uma falsa bandeira, fingindo que quer ganhar uma
eleição, mas na verdade ele quer perder – foi isso que aconteceu.
É sempre assim: mais fingimento para consertar o fingimento anterior – assim não dá, gente. Isto é
um processo neurótico. O neurótico troca de mentira. Isto é doença. E é isso que nós temos de cortar.
Uma coisa é a mentira política normal. Isto existe em toda política do mundo, todo o mundo mente.
Mas não tem um sistema total de fingimento. Você não tem personagens que são inteiramente
fingidos. Aqui nos Estados Unidos o primeiro foi Barack Obama, você não vê nenhum caso anterior.
Você vê políticos que mentem aqui e mentem ali. Mas um sujeito que mente na sua própria
identidade? Nunca houve antes. Porém, no Brasil são muitos.
Então quanto a ideia do impeachment, é claro, eu nunca fui contra. Mas ele é a alternativa número 15
ou 16. Agora, os caras diziam: “O impeachment é só o começo”. Mas o começo não era em março de
2015? Por que adiar o começo em mais de um ano? Por que fazer uma volta toda? “Ah, primeiro

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vamos acertar a Dilma e depois acertamos neles” – quando era para ir contra toda a classe política,
contra o TSE, contra o establishment inteiro.
E, notem bem, o povo tinha força para isto e estava consciente disto, tanto que o povo não aceitava a
presença de políticos nos palanques. A revolta não era contra o PT, era contra toda a classe política.
Então nós tínhamos na mão o quê? Uma situação revolucionária, sem o líder revolucionário. Aí
aparece a política do “senta que o leão é manso”, “vamos pelas vias institucionais”, etc., mas não
existe via institucional acima da vontade popular que a constituiu.
Vejam este pessoal como o Reinaldo Azevedo. Eles confundem as instituições com as pessoas que
estão ocupando as instituições. Uma coisa é você confiar nas instituições. Mas as instituições por si
não agem, elas agem através dos seus agentes concretos. Então, por um lado as instituições, por outro
lado os agentes concretos. Confiamos nas instituições, mas não nos agentes. O que tem de fazer?
Trocar os agentes, é claro.
Agora, se para tirar um agente você precisa legitimar todos os outros nas suas posições, você vai dizer
que ganhou? Não, você perdeu. Você obteve uma vitória mil vezes menor do que era para ter obtido.
Eu já estou cansado de amador palpiteiro [movido pelas] as suas emoções cívicas. Em primeiro lugar,
eu não estou falando em nome do estado democrático de direito nem de coisa nenhuma. Eu estou
falando em meu próprio nome. Eu sou apenas um observador que tenta ser científico e descrever as
coisas da maneira mais objetiva possível no momento. Quando as pessoas começam a aparecer diante
de você encarnando valores sublimes, você está dentro de um fingimento – é óbvio. Mesmo porque
todos encarnam o mesmo valor sublime. Há alguém que fala em favor de ditadura? Você conhece
algum comunista que diz “nós queremos a ditadura do proletariado”? Você conhece algum fascista
que diz “nós queremos o estado autoritário fascista”? Não. São todos defensores do estado
democrático de direito. De quantos minutos é preciso para entender que todos estão fingindo? Como
pode haver um conflito tão grande se os valores são os mesmos? Um está querendo matar o outro,
mas os dois estão falando em nome do mesmo valor – há algo errado nesta situação. Quanto de
imaturidade psicológica você precisa para não perceber o que realmente está acontecendo?
Bom, mas tudo isso seria assunto das próximas aulas. Vocês estão me forçando a antecipar, eu não
queria fazer isto. Eu vou analisar isto melhor nas próximas aulas, aqui foi só um improviso.
Aluno: O senhor vê algum efeito relevante decorrente da posição da mídia internacional e da política
de Bernie Sanders sobre o caso brasileiro? Para o Financial Times o impeachment pode ser apenas
o início de mais problemas e jogar o país no caos. Para o New York Times, Dilma é honesta, Bernie
Sanders criticou a suposta política intervencionista do Estados Unidos no Brasil.
Olavo: Bernie Sanders é um analfabeto. A política americana no Brasil se caracteriza pela total
ausência, há mais de vinte anos. Não há sequer o que se chama de Diplomacia Pública. O que é
Diplomacia Pública? Quando falam mal do país, ou mentem contra ele, o embaixador sai em sua
defesa. Mas [aqui] o embaixador americano não faz nem isso. Simplesmente não há propaganda
americana no Brasil. Há propaganda de empresas, é claro, mas isso não tem nada que ver. Nós
sabemos que as grandes empresas estão todas a favor da esquerda. Então a famosa presença americana
no Brasil é uma tremenda ausência. Como foi possível esta tremenda ascensão da esquerda, o Foro
de São Paulo dominar o continente inteiro? Ausência da política americana. Não há presença alguma.
Esse Bernie Sanders não sabe nem ler, coitado, é um infeliz, um boboca. Quanto ao Financial Times
e ao New York Times: vocês viram a pesquisa outro dia? 90% da população americana não confia
nem um pouco na grande mídia. Mas no Brasil, se saiu no New York Times vira palavra de Evangelho.
A autoridade do New York Times no meio jornalístico brasileiro é uma coisa incrível. Ele está falido,
teve de alugar metade do seu edifício para completar a folha de pagamento, está caindo e 90% da
população não acredita. Mas no Brasil, se o New York Times, o Partido Democrata ou a ONU falou

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alguma coisa, é autoridade total. E, essas mesmas pessoas falam de pensamento crítico – mas que
raio de pensamento crítico? É claro que isso pode ter efeito no Brasil, porque toda a nossa elite falante
leva essas coisas a sério.
Aluno: Como descobrir quais são as pessoas que cercam determinadas pessoas, por exemplo, Soros,
e como mapear o horizonte de consciência dessas pessoas?
Olavo: Bom, em primeiro lugar, aqui nos EUA esse problema não é tão grande porque grande parte
dessa pesquisa já foi feita. Há sites aqui que mapeiam o instituto do George Soros, a Open Society, e
dão os nomes de todo o mundo. Você confere os nomes, vê se escreveram livros, teses universitárias,
etc., lê cada um, e fica sabendo o que eles pensam e qual é o limite do horizonte de consciência.
Para saber o horizonte de consciência de alguém não é preciso ler tudo. Basta ver pontos essenciais
que o sujeito deveria saber, se ele não sabe, então pronto, terminou ali o horizonte de consciência
dele.
Contudo, no Brasil, nós não temos sequer um banco de dados sobre a esquerda brasileira, então o
serviço está todo por fazer. É por isso que eu digo que estão todos dando tiro no escuro e ninguém
quer saber de acender a luz, e é neste problema que nós temos de intervir. Antes de saber se tira a
Dilma, se põe a Dilma, se faz isso ou aquilo, [temos de saber] o que está acontecendo.
Primeiro o diagnóstico e depois a terapêutica, não o contrário. Agora, se o sujeito diz “precisamos
fazer alguma coisa agora”, então ele está querendo apanhar e será enganado de novo como já foi no
Diretas Já, no Fora Collor, em 64, quando os militares prometeram uma coisa e fizeram outra.
Também em 64 saíram todos dizendo “acabou o comunismo no Brasil” – que palhaçada, gente. Isso
é propaganda. Agora, a linguagem da propaganda é uma, a linguagem da análise política tem de ser
outra. É a diferença que o Aristóteles falava entre o discurso do agente e o discurso do observador
científico.
O problema é que no Brasil não há um número suficiente de observadores científicos para fazer o
pessoal se acalmar e pensar um pouco. Se você quer saber, tem um, que é este que vos fala, c’est moi.
Ninguém é obrigado a prestar atenção em mim. “Ah tem um maluco lá que falou tal e qual coisa”.
Bom, infelizmente o “Olavo tem razão”. Eu estou tentando descrever as coisas como elas são, eu não
estou tentando infundir emoções cívicas em ninguém. A minha obrigação é fazer exatamente o
contrário. Para o sujeito que quer fazer determinada coisa, qualquer um que chega e pede um
conselho, eu vou tentar descrever o melhor para ele. Eu não estou aqui a fim de boicotar ninguém, de
tomar posição. Para isso tem o Reinaldo Azevedo, o Villa, o PT inteiro. São palpiteiros partidários;
todos eles. Uns de graça, outros subsidiados.
Essa pergunta aqui não tem o nome da pessoa que fez. As perguntas dessa vez vieram anônimas.

Aluno: Como descobrir quais são as pessoas?


Olavo: No Brasil é osso. Vocês devem começar a fazer esse banco de dados. Eu estava mostrando
aqui a Enciclopédia da Esquerda Americana, está todo o mundo lá. Você entra no site do David
Horowitz, Discover the Networks, ‘tá tudo lá. Outro site, o Follow the Money, estão todos lá. Lá você
fica sabendo quais são os institutos, quais são os partidos, quais são os agentes, quem trabalhou para
quem, quem é ligado a quem. Todo este material bruto já se tem organizado. No Brasil não tem nada
organizado.
Vejam, nós podemos começar a fazer isso. Mas quem é que tem paciência? “Eu vou começar a fazer
um banco de dados sobre a esquerda com todos os nomes dos personagens, os nomes das entidades,
os nomes dos institutos, os nomes da ONGs, quem financia, com a bibliografia inteira e vou deixar

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isso pronto para que amanhã ou depois algum estudioso possa trabalhar esse material” – se ninguém
quiser fazer este servicinho humilde, não vai acontecer nada.
Aluno: É possível perceber, seja em discurso político seja na produção literária cultural brasileira,
esse estrato de fingimento cultural e diferencia-lo de um período posterior quando este já estava com
uma parcela de psicopatologia?
Olavo: Sem sombra de dúvida. Eu não acredito que o tipo psicopático predominasse na política
brasileira até os anos 60. A introdução da psicopatia na política brasileira a partir daí é obra da
esquerda, sem dúvida. Tipos absolutamente amorais, como Lula e Dilma, não tinha nenhum.
Veja, Getúlio Vargas era um homem mau. Consta que ele matou um índio quando era adolescente.
Sob muitos aspectos era um homem mau. Quando pressionado pela população, ao ver a população
revoltada, o que ele fez? Se matou. A vergonha foi tanta que se matou. E a Dilma? Vocês esperam
que a Dilma renuncie, que ela se mate? Não! É impérvia, é uma cara de pau total, cínica. Ou seja, ela
é uma psicopata, muito mais do que o Getúlio jamais poderia ter sido. Ele [Getúlio] podia ser
moralmente insensível em certos pontos, mas não na sua totalidade.
Veja, quando aparece um tipo como Zé Dirceu, que se casa com a mulher sob falsa identidade, que
fica com ela anos a fio e depois diz “tchau, eu vou embora, sou o Zé Dirceu, não sou esse com quem
você casou” – precisa de algo mais para dizer que é um psicopata? Como você vai confiar num sujeito
desses? Um sujeito que diz que é ex-agente do serviço secreto militar cubano. É ex? Como que ele
fez para sair, meu Deus do Céu? Me mostra a certidão de baixa. Não tem. Saiu coisíssima nenhuma,
o homem é agente do serviço secreto cubano até hoje. Ou seja, é uma vida inteira de fingimento
deliberado – isso não é fingimento histérico, mas deliberado, aí se entra na psicopatia mesmo. Esses
tipos começaram a aparecer uns atrás dos outros. Marco Aurélio Garcia, Gilberto Carvalho... Então a
introdução da psicopatia no Brasil foi a partir da radicalização das coisas, depois [da instituição] do
governo militar, já dentro do governo militar é que a coisa já começa a acontecer.
Aluno: Existem personagens históricos que o senhor estudou e que tinham esses discursos duplos,
triplos, somente evidenciado após esse estudo?
Olavo: A história da URSS é isso, o tempo todo. Só que no caso soviético não há, entre seus grandes
dirigentes, um fingimento histérico, mas um fingimento psicopático total, estudado, controlado, obra
de engenharia – isto você tem o tempo todo. A vida de Stálin é isto o tempo todo. A vida do Krushev
[também]. Por que ele denunciou Stálin? Ele denunciou Stálin assim como metade do parlamento
votou contra a Dilma: para se limpar na sujeira do outro. É claro que é isto.
Bom eu acho que por hoje é só, né. Voltamos na semana que vem.
Alguns desses assuntos dessas perguntas eu vou retomar de uma maneira mais ordenada. Mas vejam:
vocês estão tomando consciência de como e até que ponto nós ignoramos a situação real? Vocês estão
tendo uma ideia do déficit de informação que tem? É uma coisa monstruosa. E vocês têm ideia do
número de pessoas que querem intervir e agir sem saber o que está acontecendo? E do número de
pessoas que têm opinião formada, o número de vezes que bateram no peito dizendo que o país estava
a salvo. Estava a salvo do comunismo na data tal. Estava a salvo da ditadura na data tal. Estava a
salvo da corrupção na data tal. E, no entanto, tudo continua.
Eu sei o seguinte: o destino que eu escolhi foi este: eu quero saber o que está acontecendo e vou
documentar. Se eu explicar e ninguém acreditar, problema deles. Eu não ligo. O que eu quero é fazer
o meu serviço. Eu gosto de fazer isso. Fazer isso me deixa feliz, mesmo que ninguém preste atenção.
O simples fato de eu ter conseguido entender já é alguma coisa. O entendimento das situações é um
reconforto que prova a superioridade da inteligência humana. “Eu não sou um mosquitinho, não sou
um feixe de reflexos condicionados, não sou um cachorrinho de Pavlov, eu sou um ser humano e
estou exercendo a inteligência humana na medida em que Deus me deu, com o máximo do que eu

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posso” – isso já é uma satisfação, um orgulho, uma superioridade real e é uma demonstração da
liberdade humana. Tudo isto é bom.
Obter uma repercussão disso é bom, para quem se deu a repercussão. Você leu Olavo de Carvalho e
aprendeu alguma coisa? Bom para você, meu filho. Para mim também é um pouco bom, mas não é
tão bom quanto o trabalho em si. É um caso em que o trabalho vale mais do que sua própria
recompensa, seja em dinheiro, em audiência etc. Eu fico muito feliz por ter toda essa audiência,
porque prova que os brasileiros não são imbecis. Agora, o pessoal de mídia, os opinadores, os líderes,
são todos imbecis. O Reinaldo Azevedo é imbecil, o Villa é imbecil, Kim Kataguiri é imbecil,
Ostermann é imbecil, todo esse pessoal do parlamento é imbecil.
Vocês viram os discursos deles? Que coisa mais ridícula. Todo o mundo ali batendo no peito,
querendo ser grandiloquente e sendo apenas ridículos. Não se vê um presidente americano fazendo
isto. Vemos eles falando simples, como um sujeito fala com os amigos, todos são assim.
Hoje mesmo chegou esse livro aqui – eu ainda não li ainda: African Game Trails (Trilhas de Caça na
África), Theodore Roosevelt. Você é capaz de imaginar um presidente brasileiro matando um
elefante? Ele viu o elefante ele já está correndo, já está lá em Vila Nhocunhé. O elefante ‘tá na Bahia
e ele já ‘tá lá em Vila Nhocunhé. Então, é uma diferença monstruosa de qualidade humana. Por
exemplo, Theodore Roosevelt era um excelente escritor, um ensaísta, um literato. Um homem sério.
Você pode divergir da política dele em mil coisas, mas é uma divergência política e não um abismo
de diferença de qualidade humana.
Aluno: Churchill.
Olavo: Churchill é um dos grandes escritores do século XX. Vejam, eu estudei a vida do Lincoln e eu
acho que a vida política dele foi uma sucessão de erros monstruosos. Não precisava ter guerra civil,
não precisava ter nada disso. Ele era um cara doutrinário, ele tinha lido o tal do List, o homem da
economia autárquica, ele era um protecionista 100% – eu não sou contra o protecionismo
doutrinariamente, também não sou liberal doutrinário; eu acho que quando deve haver protecionismo
tem que ter e quando não for preciso não deve ter. Depois de ler os dois livros do DiLorenzo a respeito
do Lincoln eu falei “arrasador, o Lincoln era biruta”. Mas, ele foi um dos grandes escritores da língua
inglesa de todos os tempos, não se pode negar isto aí. Ele era um gênio. Era maluco, mas era um
gênio. Eu não acredito que fosse um santo, como os caras dizem. De santo ele não tinha nada, sob
muitos aspectos ele era um homem mau. Mas era de uma eloquência literária fora do comum, tanto
quanto o Churchill. Nós temos de reconhecer.
Bom, vocês conhecem algum governante brasileiro que é um clássico da língua? Clássico da língua
foi só Getúlio Vargas, que foi o sujeito que conseguiu escrever cinco volumes de discurso que até
hoje ninguém sabe o que ele disse lá, esta era a especialidade [dele]: falar, falar, falar, e não dizer
nada, absolutamente nada. Mas isto era uma arte que ele fazia e fazia de propósito, ele sabia o que
estava fazendo, mas ele não queria que ninguém soubesse, então ele embromava. É o gênio da
“embromation”.
Aluno: E o Lacerda.
Olavo: O Lacerda é o melhorzinho, mas não é um clássico da língua. Ele é um bom escritor e pronto,
acabou. Não vai passar daí. José Américo de Almeida é um bom escritor, mas também não vai passar
daí.
Aluno: Rui Barbosa.
Olavo: Rui Barbosa sim era um grande escritor, mas nunca chegou a ser um homem que efetivamente
teve o poder, e na política fez muita besteira.

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Bom, então eu acho que por hoje é só.
A mensagem fundamental é este alerta: “Nós temos de saber o que está acontecendo, meu Deus do
céu! Antes de querer fazer isso ou aquilo”. Este é o apelo. Pelo amor de Deus, vamos compreender a
situação. Em todo país tem de ter um número suficiente de pessoas dedicadas a compreender a
situação. E deixem os tagarelas e demagogos, isto sempre vai ter. Eles têm a função deles e nós temos
de cumprir a nossa.
Então até semana que vem, muito obrigado. [1:51:39]

Transcrição: Francisco Jr., Alex Voos e Israel Kralco Machado


Revisão: Leonardo Yukio Afuso e Rahul Gusmão

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Política e Cultura no Brasil – História e Perspectivas
OLAVO DE CARVALHO

Aula 3
26 de abril de 2016

[versão provisória]
Para uso exclusivo dos alunos do Seminário de Filosofia.
O texto dessa transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.
Por favor, não cite nem divulgue esse material.

Boa noite a todos. Sejam bem-vindos.


Encerrada mais ou menos a parte teórica que se prolongou por duas aulas ao invés de uma, hoje nós
devemos entrar diretamente na questão brasileira.
Quando se trata de explicar o estado de coisas numa sociedade é comum se recorrer a exemplos de
outras épocas, a precedentes históricos, que teoricamente definiriam o perfil de uma conduta coletiva.
Isso no Brasil é muito comum, existem muitos livros desse tipo, como O Retrato do Brasil, de Paulo
Prado, o Bandeirantes e Pioneiros, do Vianna Moog, daí por diante. Assim como existem também as
contestações: como o famoso O Caráter Nacional Brasileiro, do Dante Moreira Leite – que
esculhamba com todas as tentativas de traçar o perfil do caráter nacional brasileiro. Também na
literatura observam-se muitos personagens supostamente típicos, como o célebre Macunaíma e assim
por diante. Isto tudo forma para nós uma constelação de imagens que podem às vezes ser útil para
reconhecermos na realidade que estamos observando a recorrência de algumas condutas tidas como
típicas. Mas o problema é que tudo isso se encerra na base do impressionismo; são impressões que
temos, não é um procedimento efetivamente científico – embora eu não negue o valor dessas
contribuições.
Por exemplo, daqui a pouco veremos o que diz Vianna Moog no livro Bandeirantes e Pioneiros –
que é um dos grandes livros sobre Brasil, junto com o do Raimundo Faoro, que avalia algumas
condutas do povo brasileiro no tempo da colônia. Algumas dessas condutas aparecem ainda hoje de
maneira nítida, sobretudo entre figuras públicas. Vejam, o Lula: ele parece um tipo saído do Brasil
Colônia – é igualzinho, vocês verão. Mas tudo isso é apenas sugestivo.
O que eu pensei há anos foi “como aproveitar esta investigação de precedentes e estes personagens
típicos de uma maneira mais científica”. E eu cheguei à seguinte conclusão: como amostras de
condutas típicas, o problema da tipicidade se resolve, no fim das contas, numa amostragem estatística,
e essa amostragem estatística é praticamente impossível de se observar. Então, o valor destas imagens
é, sobretudo, literário. É um valor heurístico. Elas nos sugerem algumas condutas, e nós as
reconhecemos depois na vida real. Mas nunca poderemos generalizar – dizer que as coisas são assim
ou são assado. Mesmo porque a população brasileira aumentou muito – e aumentou muito com o
ingresso de imigrantes, [sobretudo] alemães, italianos, poloneses, japoneses, russos, etc., e isto não
acaba mais. Logo, se transpormos condutas do Brasil Colônia ou Brasil Império para hoje, estaremos
atribuindo uma continuidade histórica onde na verdade temos um cruzamento de linhas históricas
totalmente independentes.
Mas existe uma maneira muito simples de aproveitarmos este material de modo muito mais científico
e rigoroso: é através do conceito de “horizonte de consciência”. Ou seja, se as pessoas agiam assim
ou assado em uma certa época, isto não quer dizer, de maneira alguma, que elas continuariam agindo
assim e que possamos encontrar explicações de condutas atuais num precedente histórico. Mas, uma

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coisa é certa: aquilo que as pessoas não sabiam numa certa época e continuaram não sabendo numa
época seguinte demarca uma linha de continuidade muito clara. O horizonte de consciência, como
expliquei, é demarcado pelo seu limite, quer dizer, pela linha da ignorância. Ignorância no sentido
estrito, não é ignorar qualquer coisa, mas aquilo que é central para compreensão da própria situação
em que o indivíduo está.
Se nos perguntarmos quais eram os limites do horizonte de consciência da classe letrada, da classe
falante do século XVIII e XIX e se, investigando as épocas subsequentes, nós observarmos que estes
limites não foram transpostos, aí é mais do que justo percebermos uma continuidade de conduta. Os
sujeitos vão agir da mesma maneira, não por causa de uma herança histórica, não porque o pessoal
do século XVIII fosse assim, mas porque aquilo que no século XVIII eles ignoravam ainda continuam
ignorando. Então, o horizonte de consciência é o mediador entre os fatos brutos e a interpretação que
vamos fazer. Com isso nós escapamos do impressionismo em história. Não que o impressionismo
não tenha o seu valor – evidentemente eu tenho muito respeito por esses livros do Paulo Prado, do
Vianna Moog, etc., até o próprio Gilberto Freyre apela para impressionismo muitas vezes; o Gilberto
Leite de Barros, no livro A Cidade e o Planalto, que é um livro maravilhoso, um dos grandes livros
sobre o Brasil também, embora seja só sobre São Paulo, ele é um “Gilberto Freyre” paulista.
O que nós podemos observar desde o século XVIII e que continua igual é a seguinte coisa: primeiro,
conforme eu aprendi no livro do Vianna Moog, até o fim do século XVII, isto é, decorridos dois
séculos da descoberta do Brasil, a palavra “brasileiro” simplesmente não existia. Os filhos de
portugueses que nasciam no Brasil eram designados por um pejorativo: mazombo. O que era
exatamente o mazombo?
Vejam, os imigrantes do EUA odiavam a Europa. Quando eles vieram para a América do Norte
fugindo da Europa por perseguição religiosa ou política eles tinham todos os motivos para deixar a
Europa para trás e tentar realmente uma vida nova, tentar construir um país diferente – e de fato
construíram. Quer dizer, os princípios em que eles se basearam já desde o tempo da colônia eram
muito diferentes de tudo aquilo que eles tinham experimentado na Europa. Essas coisas não surgiram
com os Founding Fathers, nem com a constituição. Por exemplo, a autonomia das comunidades:
vemos que durante toda a colônia, quando surgia uma divergência numa comunidade, os divergentes
simplesmente iam embora e montavam outra comunidade do jeito deles. Por exemplo, a proliferação
de denominações protestantes uma atrás da outra era assim: deu um problema teológico e não
conseguiam resolver, eles pegavam a turminha deles, iam embora e montavam outra comunidade. A
independência das comunidades chegava a tal ponto que as pessoas ignoravam a existência de um
governo central. Quando na época da própria guerra da independência havia muitas comunidades que
não queriam governo central nenhum. Isto tudo já estava consolidado na América quando veio a
guerra da independência.
Ao passo que no Brasil ninguém veio para criar um país novo. O pessoal veio para fazer dinheiro e
voltar para Portugal. A quase totalidade dos que vinham era para isso – a não ser aqueles que tinham
sido expulsos de Portugal como degredados, como criminosos. Estes permaneciam no Brasil porque
não tinham como voltar. Outros permaneciam também não porque fossem criminosos, mas porque
deram azar e não conseguiram dinheiro suficiente para voltar. Até o século XVIII pelo menos, o
território brasileiro era um lugar onde ninguém estava por vontade própria. É claro que sempre
existem exceções, mas em média todos eles se consideravam mais ou menos exilados ou visitantes
temporários que queriam fazer seu pé de meia e voltar para Portugal. É claro que daí decorre uma
série de condutas, por exemplo, a falta de solidariedade coletiva, a incapacidade das pessoas se
organizarem, o individualismo – o Vianna Moog descreve isto muito bem, vou ler um pedacinho
aqui:
“No fundo, o mazombo, sem o saber, era ainda um europeu extraviado em terras brasileiras. Do Brasil e da
América, de suas histórias, de suas necessidades, de seus problemas, nada ou pouco sabia, porque vivia no
litoral...”

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Isto é uma constante no Brasil, quer dizer, a civilização se limitou ao litoral e deixou o interior todo
vazio.
“ ...mentalmente de costas voltadas para o país. Iam mal as coisas no Brasil? Ah, isto não era com
ele. Ademais, o que poderia fazer se era só contra todos?”

Vejam, muito deste estado de espírito nós vemos ainda hoje, não podemos negar isto aí.
“Na vida pública como na vida privada, nunca seria por sua culpa ou negligência que isto acontecia.
A culpa seria sempre dos outros. E assim, recusando-se, racionalizando, contradizendo-se, não
participando, reduzindo ao mínimo seus esforços físicos, espirituais e morais para o saneamento e
elevação do meio em que vivia, pagando para não se incomodar quando se tratava de interesse
coletivo; lisonjeando, transigindo, corrompendo, revolvendo céus e terras quando se tratasse de seus
próprios interesses, ninguém como ele para contaminar o ambiente de tristeza, imoralidade,
indiferença e derrotismo. Inesgotáveis como eram suas reservas de má vontade para com tudo que se
referisse ao Brasil, vivia a escancarar sua simpatia para tudo quanto fosse europeu.”

Vejam que essa visão idealizada que o indivíduo tinha da Europa, que ele tinha deixado pelas costas,
se expressa também no desprezo não só pelo local, mas também pela América do Norte. Percebam
que, no século XIX, o EUA já tinha uma civilização que em muitos aspectos era superior a tudo
quanto havia na Europa. E no Brasil ninguém admitia isso, achavam que os americanos eram
bárbaros. É uma coisa que ainda tem na mente de muita gente até hoje: “Se está na América não pode
prestar, porque só o que é da Europa, ou Portugal, ou da França é que presta no mundo.” Muitas
dessas condutas a gente ainda observa. É claro, se olharmos para o Lula ele se encaixa ali na descrição
de mazombo. E muitos outros políticos também. Mas ainda assim estamos no impressionismo.
Contudo, se transpomos essas informações para a noção do horizonte de consciência, o que
observamos? Em primeiro lugar, o núcleo das informações que chegavam a estas pessoas era
Europeu; da América elas não recebiam nada e localmente também não estavam produzindo nada.
Significa que o horizonte cultural se limita àquilo que está vindo da Europa, mas o que vem da Europa
não chega muito facilmente, leva meses para chegar pelos navios. Existe, portanto, aquela aspiração
de uma riqueza cultural que está distante, que é de difícil acesso e que apenas uns poucos privilegiados
é que podiam viajar para a Europa e ver o que estava acontecendo lá e se informar das últimas
novidades. Esta situação se consolida num dos traços mais constantes da cultura brasileira e, portanto,
da política brasileira. É o seguinte: o que é tido como o topo da civilização, como o valor supremo
que deve ser incorporado com muita dificuldade à cultura local, é a cultura europeia, a cultura
estrangeira do momento. Isto é o traço mais constante e é cientificamente comprovado.
Por exemplo, se observarmos em uma bibliografia quais são os autores estrangeiros que são citados
nas discussões brasileiras percebemos que são sempre os autores do momento, nunca os antigos.
Quantos brasileiros citaram Leibniz a propósito de qualquer coisa? Eu, até hoje, só vi um fazer isto
em discussões públicas – em teses, é claro, existem estudos especializados, uns dois ou três. Em
discussões públicas quem usa esse material como moeda corrente hoje em dia? Só eu. E material de
outras civilizações? Da Ásia? Do mundo islâmico? Procurem, por exemplo, citações de Ibn Khaldun,
um historiador tunisino. Eu vivia citando ele, mas não o via por parte alguma. E ele é simplesmente
o inventor da ciência social moderna. O inventor não foi Émile Durkheim, foi Ibn Khaldun. O
desinteresse por esse material é imenso.
Houve algum interesse por material estrangeiro, mas que paradoxalmente vinha da África pelo
impulso de, por assim dizer, valorizar as tradições africanas que restavam no Brasil. Ora, mas essas
tradições eram de ordem tribal, nunca fizeram uma contribuição científica a humanidade, não há
nenhuma filosofia altamente desenvolvida – este material eles buscavam. Mas e o resto? Vocês vão
encontrar pessoas no Brasil que estudaram mais culturas tribais da África do que estudaram
Aristóteles e Platão. E isto, então, cria, cristaliza-se, num hábito praticamente invencível: a escravidão
ao tempo, a sua época. O que eu chamei de “cronocentrismo”.

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O fato de algumas coisas estarem acontecendo hoje não significa que elas são mais importantes ou
decisivas do que as que aconteceram antes, não há a menor prova disto aí. Elas podem nos atrair a
atenção porque elas aparecem na televisão, nos debates públicos, as pessoas falam disto, mas não
quer dizer que estas coisas sejam decisivas. Se vocês virem o número de autores importantíssimos,
que atraíram a atenção dos brasileiros durante décadas, que foram estudados como mestres, como se
fossem ensinamentos definitivos, mas que depois desapareceram para sempre – por exemplo,
Augusto Comte. Comte domina o pensamento brasileiro por várias décadas. De repente aquilo
desaparece e as pessoas têm até vergonha de ter prestado atenção naquilo. Outro exemplo, Ernst
Haeckel. Era um discípulo meio bastardo de Darwin. Foi o sujeito que desenhou aqueles diagramas
mostrando a evolução das espécies – que hoje a gente sabe que aquilo foi tudo inventado, que não
existe. Teve várias edições em português que foram muito lidas no Brasil – era lido e ouvido como
se fosse um mestre. Hoje em dia está na lata de lixo da história.
Mas alguns não. Outros que foram lidos na época ainda são bastante respeitados, como Schopenhauer,
por exemplo. Ninguém jogou Schopenhauer no lixo. Embora já não tenha o destaque que chegou a
ter no meio do século XIX no Brasil. Mas outros autores que eram imensamente maiores não
receberam esta atenção. Sobretudo aqueles que eram de épocas anteriores.
Por exemplo, quando eu publiquei o meu livro Aristóteles em Nova Perspectiva, que foi em 95, fazia
trinta anos que não saía um livro sobre Aristóteles no Brasil. Até para disfarçar um pouco o vexame,
o pessoal da USP, mais que depressa, retirou da gaveta uma antiga tese do Oswaldo Porchat Pereira
– a tese não estava ruim, mas era apenas escolar, não tinha novidade nenhuma – e publicaram para
dizer “não é só você que está falando sobre Aristóteles”. Digo: “Eu sei que não sou só eu, mas todo
mundo ‘tá falando aí em segredo, dentro de casa”. Publicamente não existe nada, não se vê um
interesse efetivo por Aristóteles em todo o establishment universitário brasileiro durante trinta anos,
meu Deus do céu!
Vejam, enquanto isso o livro do Lincoln Secco, Gramsci e o Brasil: Gramsci foi o autor mais citado
em trabalhos universitários durante trinta anos. Gramsci pode ser interessante, etc., mas ele não é um
Aristóteles, não é um Leibniz, ou alguma coisa deste porte. Gramsci não fundou nenhuma ciência,
não fez nenhuma contribuição a ciência alguma. Ele apenas criou uma estratégia revolucionária – que
em muitos lugares fracassou. Ele não é nenhum Aristóteles, nenhum Santo Tomás de Aquino, nenhum
Hegel. Mas Gramsci entra no Brasil em 1965, através da Editora Civilização Brasileira, e aparece
para toda uma facção política como se fosse a salvação da lavoura. Então, automaticamente as
atenções se concentram naquilo. Parece, para as pessoas envolvidas no processo, que é uma grande
novidade que está acontecendo. Mas o que está acontecendo é a repetição de um mesmo padrão de
horizonte de consciência que vem desde o Brasil Colônia.
Ora, vejam que o característico não é tanto, vamos dizer, a idealização da Europa, não é tanto o
europeísmo, ou seja, nós não podemos captar uma característica positiva efetiva e dizer que ela
continua ao longo dos tempos, mas o lado negativo, a exclusão das informações, ainda continua. Mas
interpretando errado o europeísmo como se fosse ele um sinal de alienação, começa a surgir a partir
do romantismo e se intensifica, no começo do século XX, com o movimento modernista, a ideia de
que era preciso voltar as costas a Europa e começar a pensar no panorama local. Porém, culturalmente
este panorama local era pobre; não oferecia material para que se tivesse uma problemática
suficientemente rica para criar uma cultura. Então, o pessoal se volta para a paisagem, para o
território. Eu acho, por exemplo, interessante contrastar o poema do Raul Boop, Cobra Norato, com
o livro A Selva, do Ferreira de Castro, um romancista português meio comunista, mas um gênio, que
esteve um tempo na Amazônia e escreveu este livro que integra a experiência amazônica no corpo da
civilização inteira. Ao passo que os autores como Gastão Cruls, Raul Boop, etc., se concentram na
paisagem física, na flora e na fauna – falam de macacos, de tatus-bola. E, é claro, isto não é uma
reação eficiente ao europeísmo, porque o problema não era o europeísmo. Era o cronocentrismo.

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Ora, quanto ao europeísmo: o que há de tão absurdo em o sujeito que está em um país primitivo,
recém-descoberto, considerar que a cultura europeia é superior, enquanto que a dali é uma porcaria?
Não há nada de errado nisto. É claro que é mesmo. É uma concorrência desigual. Neste sentido, os
americanos, que odiavam a Europa, sempre foram buscar na Europa sua fonte de inspiração. Vocês
veem os Founding Fathers citando Platão, Aristóteles, Cícero, etc., o tempo todo. Ou seja, eles tinham
uma visão da Antiguidade – não como uma coisa meramente histórica ou folclórica, mas como uma
fonte atual de inspiração.
No Brasil não vemos isto de jeito nenhum. Só se vê o pessoal buscando inspiração na moda europeia
do momento – e que em seguida é esquecido. Portanto, o europeísmo é a face externa e falsa do
problema. O europeísmo era, por assim dizer, natural. O problema era o cronocentrismo, a escravidão,
não a um continente, mas a um momento do tempo. Na medida em que o pessoal do romantismo –
José de Alencar e outros – reage contra o europeísmo e, o pessoal modernista do século 20 também,
eles estão reagindo contra um falso problema e, evidentemente, eles não acertam o alvo.
O modo de se libertar de uma espécie de escravidão mental ao estrangeiro não era voltar as costas à
cultura europeia e começar a prestar atenção em tatu-bolas e macacos, pelo amor de Deus, era fazer
o que um único indivíduo fez, que foi o Mário Ferreira dos Santos. Era se libertar do cronocentrismo,
da escravidão ao momento. Era reconhecer: “Eu estou aqui no Brasil e não pertenço à cultura
europeia, embora receba um pouco dela, portanto estou livre também das limitações dela e eu posso
me abrir universalmente a todas as épocas e a todos os continentes”. Isto é, tirar proveito da sua
situação, ao invés de amaldiçoa-la – como faziam os mazombos – ou de forçar para louvá-la – como
se estar no meio de macacos e tatus-bolas fosse um grande valor civilizacional. Ao longo de toda a
história do Brasil só um sujeito pegou o truque. Ou seja, se queremos criar uma uma civilização, uma
cultura, que tenha um valor universal, só tem um jeito: temos de nos aproveitar da nossa posição de
marginal, de excluído da Europa, e aproveitar isto para nos libertar das próprias limitações
cronocêntricas da cultura europeia, meu Deus do céu. Ou seja, eu também percebi isto e pensei: “Mas
isto é uma maravilha, nós no Brasil estamos de fato numa posição privilegiada”. Nas culturas
europeias há certas coisas que o sujeito não pode falar porque eles não entendem.
Um exemplo que eu dou é o seguinte: quando apareceu a obra do René Guenón na Europa, por volta
dos anos 20, falando da metafisica oriental, da espiritualidade islâmica, etc., aquilo era tão estranho
que ninguém prestou atenção. Vejam que o homem não estava falando em nome próprio, ele estava
falando em nome de uma civilização inteira que tinha ali bem do lado e que estava destinada a invadir
a Europa e até ocupa-la mentalmente – como veio a acontecer depois. No entanto, se vocês
procurarem menções ao René Guenón – existem estudos sobre isto, “a repercussão de René Guenón
na cultura francesa” – verão que as repercussões eram muito discretas e, em geral, não foram análises
profundas, foram apenas aplausos entusiásticos daqueles que se tornaram discípulos dele e se
fecharam num universo guenonista quase como se fosse uma religião mesmo, ou reações de rejeição
um pouco caipiras – o sujeito ficava com raiva mas não sabia o que dizer – como André Gide, por
exemplo, que disse “bom, se Guenón tem razão, toda a minha obra cai por terra” e daí lhe perguntaram
“mas porque você não revê tudo”, ele respondeu “é muito tarde”. Isso é uma impotência intelectual.
Vejam que na Europa, o único país em que houve de fato um processamento crítico do pensamento
de René Guenón foi na Romênia. Lá todo o mundo leu René Guenón em profundidade e raciocina a
respeito. Mas qual é a importância do René Guenón? Ora, ele está anunciando desde a década de 30
que o Islã vai tomar conta [da Europa]. Naquela época isto parecia tão remoto, tão absurdo, que soou
apenas como se fosse uma criatura exótica. Isso mostra o despreparo da cultura europeia,
especificamente a francesa, para lidar com o que lhe é estranho. Isso não é eurocentrismo, quer dizer,
“nós somos superiores e nós queremos impor os nossos valores em todo lugar” – a simples existência
da obra de René Guenón mostra que os europeus não impuseram coisíssima alguma, que as tradições
orientais continuavam perfeitamente vivas e, sob certo aspecto, tinham até algumas superioridades

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intelectuais em relação ao ocidente –, era simplesmente um provincianismo, vamos dizer, um
provincianismo dos ricos.
Coisa que se observa também aqui no EUA – a dificuldade que o americano tem de entender que
outros países, outras sociedades, são também centros de iniciativa – que têm a impressão de que eles
são o cachorro e o resto do mundo é o rabo; que tudo que acontece no mundo começa aqui. E quando
se vai estudar, por exemplo, se vocês lerem o livro da Diana West, American Betrayal, se vê que a
iniciativa soviética foi imensamente poderosa aqui dentro e determinou o rumo da política exterior
americana durante anos. Então a URSS era o cachorro e o EUA era rabo. Mas, o patriotismo dos caras
não os deixa reconhecer isto – ‘tá lá o rabo proclamando “o cachorro sou eu, o cachorro sou eu”.
Estas limitações existem em toda a parte. Mas nós brasileiros somos o quê na ordem mundial? Nós
não somos nada. Nós somos o “zé mané quintessencial” e, por isso mesmo, estamos livres. Nós não
temos porque afivelar nas nossas cabeças as mesmas limitações intelectuais que aleijam tanto as
culturas europeias. Estas são culturas riquíssimas, poderosas, mas que têm uma tremenda dificuldade
de entender as outras, porque entra sempre o fator nacionalista – e o fator linguístico também.
Vejam, hoje nós falamos em globalismo, mas as dificuldades de tradução entre as línguas continuam
existindo [no mundo] igualzinho. Por exemplo, eu fiz uma breve tentativa de traduzir o René Guenón,
A Metafísica Oriental, que era um livrinho de trinta páginas – eu pulei ali como um cabrito. E eu
notei que o tradutor no qual o Guenón confiava, que era o Fernando Guedes Galvão, cometia erros
atrás de erros; às vezes chegava a inverter o sentido de frases. O Guenón evidentemente não lia
português, [0:30] e eu não sei porque ele confiava no Galvão e achava que ele era o seu tradutor mais
fiel. O Guenón é dificílimo de traduzir, é coisa de uma sutileza que se o sujeito não tiver muitos anos
de prática na literatura francesa ele não pega aquilo. Por exemplo, se o sujeito for traduzir Heidegger
para o francês: olha, é uma coisa dificílima. A cada três linhas tem de colocar uma nota de rodapé
dizendo “não é bem isso que ele quis dizer, é mais ou menos aquilo”. Então, estas dificuldades ainda
existem e, portanto, a tendência de culturas mais desenvolvidas se fecharem no seu universo nacional
aumenta na medida em que estas culturas são desenvolvidas. Elas criam um debate interno que, para
o estrangeiro, às vezes é totalmente incompreensível.
Por exemplo, o debate político americano se trava, sobretudo, através de livros. Cada campanha
eleitoral que tem aqui sai uns mil livros. Livros muito bons e de todos os lados. O estrangeiro que
chega aqui e quer se orientar lendo o NY Times ou ouvindo a CNN vai parar longe, não vai entender
o que está acontecendo. Por sua vez, o americano fechado no seu debate nacional que está tão
interessante, tão rico, tão maravilhoso, se esquece de que tem coisa acontecendo em outros lugares e
tende a minimizar e desprezar. O pessoal de mídia, por exemplo, que não é gente que estuda isso
efetivamente, fala “ah, esse tal de Aleksandr Dugin é um maluco.” Os estudiosos americanos da
Rússia dizem “não, isso aí é fundamental, é coisa importante, é aí que nós temos de ir”. A raia miúda
da mídia sempre se considera superior àquilo que ela não entende. Por isso os americanos são cegos
às iniciativas estrangeiras – sobretudo russas e chinesas – e isto torna o país totalmente vulnerável a
essas forças.
Nós estamos livres, nós não temos porque participar de nenhuma dessas limitações justamente porque
nossa cultura nacional ainda é incipiente nós não temos porquê comprar junto com as riquezas que
pegamos da cultura francesa, alemã ou americana, as suas limitações. Esta estreiteza do horizonte de
consciência fechado na atualidade – ou pelo menos na atualidade próxima; digamos num raio de
trinta, quarenta anos – evidentemente reduz o debate nacional a um círculo de ideias cada vez mais
restrito, porque as correntes que recebem este legado europeu e tentam repassá-lo à comunidade são
também correntes políticas que estão lutando pelo poder. E, evidentemente, quanto mais elas
induzirem todo o mundo a falar na linguagem daquela corrente, mais elas terão a hegemonia.
É curioso ler hoje as obras que nos anos 30 tiveram influência fascista. Muitas delas são obras muito
boas. Mas se nos perguntarmos onde foi parar tudo aquilo veremos que desapareceu. Por quê? Quando

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cai o movimento integralista – eles tentam um golpe contra Getúlio Vargas que os manda todos para
a cadeia ou para o exterior – automaticamente, uma vez que o movimento político pifou, o interesse
cultural por aquilo também diminui e vai indo embora. Quando passa certo tempo ninguém mais se
lembra daqueles autores que na época eram considerados tão importantes – assim como, amanhã ou
depois, ninguém vai se lembrar de Antonio Gramsci. Tem tantos autores fascistas quanto Gramsci e
similares. São intelectuais, têm algum valor. Mas nenhum deles é um pilar civilizacional, meu Deus
do céu.
Então, se analisarmos bem, esta limitação do horizonte de consciência é a causa principal de tudo o
que está acontecendo no Brasil. Veremos, por exemplo, a conquista da hegemonia pelos gramscianos
a partir de 1965 – é claro, elevou este pessoal a um nível de influência monstruoso sobre a sociedade.
Esse negócio do Lincoln Secco de que o Antonio Gramsci era o autor mais citado nas universidades:
ora, nós sabemos que a liderança universitária de hoje é a classe política de amanhã – isto é a coisa
mais óbvia do mundo. Onde vão se preparar os políticos? Nas universidades. José Serra, FHC, Miguel
Reale Jr., Marilena Chauí, etc., estão aí para mostrar o que estou dizendo, este pessoal todo eram
líderes estudantis há cinquenta anos e hoje são as grandes figuras do momento.
Na medida em que essas doutrinas gramscianas penetram no meio universitário elas adquirem
hegemonia em escala nacional. É claro que essa hegemonia é relativa, a cultura universitária não
chega ao povão. O povão ‘tá assistindo o programa do Faustão, a banheira do Gugu, ouvindo Amado
Batista, Cezar e Paulinho, Agnaldo Timóteo, música sertaneja e por aí vai. O povão ficou alheio a
isto; o que sedimentou uma revolta conservadora a partir de 2014/2015, com a qual os homens da
hegemonia não contavam absolutamente, eles achavam que tinham dominado tudo, mas não. Eles
dominaram uma fração da elite, a fração mais falante evidentemente, que inclui a mídia, as cátedras
universitárias etc. O que fizeram foi infectar toda essa gente com um estreitamento do horizonte de
consciência pior que antes.
Vejam, se vocês observarem o movimento esquerdista anterior aos anos 60, vão ver que ele evoluía
num diálogo e num confronto com outras possibilidades. Por exemplo, o confronto dos integralistas
com os comunistas nos anos 30: frequentemente eram pessoas que se conheciam e eram até amigas
umas das outras, porém tinham lá as suas divergências políticas. Porém, a ideia da hegemonia traz
em si o conceito da exclusão do adversário, de prendê-lo na espiral do silêncio: tem de ocupar todos
os espaços para que o diálogo, o debate político, seja algo interno da sua corrente. O que era, até os
anos 60, o debate interno da esquerda, se torna o grande debate nacional infectando até pessoas que
não têm simpatia nenhuma pelo comunismo.
O Gramsci, embora tenha vivido e escrito a sua obra por volta dos anos 30, só foi divulgado na Itália
a partir dos anos 50, quando começaram a escavar aqueles manuscritos e publicaram – uma edição
padrão do Gramsci surgiu até depois. No Brasil também, a primeira edição do Gramsci surge a partir
de 65, com o Ênio Silveira que publica cinco livros do Gramsci. Mais tarde se fez uma edição padrão,
uma edição completa, dos tais Cadernos do Cárcere. O Gramsci era atualidade. Antes de sair os livros
do Gramsci ele aparece citado pela primeira vez – que eu saiba, pode ter outra, não voltei a verificar
– no artigo do Otto Maria Carpeaux que era um homem de uma cultura europeia monstruosa e mostra
aquele cidadão que nenhum comunista tinha prestado atenção, até então. Eu não sei se foi o Carpeaux
pessoalmente quem sugeriu ao Ênio Silveira a publicação, os dois eram muito amigos, mas
certamente este artigo do Carpeaux chamou a atenção das pessoas.
O estreitamento do horizonte de consciência, que já era uma constante na história brasileira, se torna
proposital e sistemático a partir da ascensão do gramscismo, que vem com a ideia de ocupação dos
espaços, da monopolização do debate público e do gerenciamento dos antagonismos. Decorridos
trinta anos, quando o Lula faz aquela constatação – “Ah! Que maravilha, todos os candidatos
presidenciais são de esquerda” – já era a hegemonia gramsciana transposta para o terreno político
eleitoral.

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Uma vez, eu conversando com o Roberto Campos, nós fizemos a seguinte pergunta: “Quanto tempo
demora para que uma revolução cultural se transforme numa revolução política?”. Calculamos e
fechamos o negócio em cerca de trinte anos. Ora, quando entra o Gramsci no Brasil? Década de 60.
Quando o PT alcança pela primeira vez o seu esplendor? Década de 90. Então, a nossa conta não está
muito errada.
Notem bem, tudo isto que estou lhes explicando é baseado, não na ideia de uma repetição automática
de padrões de conduta, não num impressionismo baseado em personagens típicos, mas tão somente
numa noção quantitativa – e na verdade quantificável – que é o horizonte de consciência. Ou seja, o
que os sujeitos estavam lendo? Quais eram as ideias que circulavam? Em volta, quais as ideias
importantes sobre o mesmo assunto que eles não estavam estudando? É muito simples fazer isto. Eu
nunca quantifiquei porque isso não é trabalho para uma pessoa só, mas é uma noção perfeitamente
quantificável, na verdade é uma noção material.
Por exemplo, a partir dos anos 90 eu comecei a divulgar a lista dos livros faltantes no mercado
brasileiro e uma coisa que me impressionou muito foi o tal Dicionário Crítico do Pensamento da
Direita feito por 104 autores da esquerda com imensos patrocínios estatais e privados. E, ao procurar,
eu não via [ali no livro] nenhum dos autores de direita que eu tinha lido. Eu só via tipos insignificantes
e os mais absurdamente notórios que qualquer zé mané poderia conhecer. O que quer dizer que o
horizonte inteiro do pensamento conservador, sobretudo o anglo-americano que é um oceano, é
totalmente ignorado. E o que é isso? Estreitamento do horizonte de consciência. Se vocês se
perguntarem: “Por que o PT caiu do muro?” – foi por causa disto. Fazia trinta anos que ele ignorava
o pensamento de direita reduzindo-o àquela imagem estereotipada, caricatural, decorativa, que ele
mesmo tinha inventado. Isso quer dizer que se os direitistas fossem tão idiotas quanto o PT os traçava
em suas cátedras, o PT ficaria eternamente no poder. Jamais haveria essas manifestações populares,
esse protesto todo, esses 95% de oposição ao governo, nada disto teria acontecido.
O estreitamento do horizonte de consciência implica duas coisas: primeiro, você não conhece o seu
inimigo; segundo, você não conhece a si mesmo. Você viola as duas regras do Sun Tzu.
Até os anos 60 o pessoal da esquerda absorvia as outras correntes – liberal, conservadora, cristã,
legalista, etc. –, havia debates públicos entre essas pessoas. A partir dos anos 60, com a noção da
hegemonia, a ideia era ocupar os espaços, não deixar mais ninguém falar e fazer com que, nas palavras
do Antonio Gramsci, “todo o mundo seja socialista sem saber”, até os anti-socialistas – isto de fato
aconteceu. Só que isto agrava o problema do estreitamento do horizonte de consciência até um nível
catastrófico. Por que a ascensão da hegemonia veio junto com a queda do nível cultural do Brasil?
Veio junto com a destruição do sistema educacional, da alta cultura, com a desaparição da literatura
brasileira por trinta anos? Por causa disto. Ou seja, a hegemonia estanca o debate cultural porque o
reduz a uma conquista de espaços.
É claro que, nesta altura, nós vemos uma baixa no nível de consciência e os problemas maiores e mais
complexos se tornam absolutamente inacessíveis às mentalidades dos dois lados. Quando vemos hoje
as discussões internas do PT tentando diagnosticar o que está acontecendo e tentando explicar tudo
como um golpe da elite capitalista, percebemos que eles estão totalmente fora do mundo, porque a
elite capitalista está maciçamente a favor deles. Agora, depois de tantas denúncias, etc., eles pegaram
um pouquinho de vergonha na cara e começaram a reagir um pouco contra a corrupção, não contra o
comunismo. Então, o PT está fora do mundo. E, o pessoal do outro lado também está fora do mundo.
Não existe debate quando não existe uma mútua fecundação das ideias. Não há nenhum problema em
ler a obra de um autor com a qual não se concorde no essencial e ser inspirado por coisas que ele
sugere. Eu nem posso dizer, por exemplo, quantas ideias interessantes me vieram do livro do Jacob
Gorender, o Escravismo Colonial, que é um autor mais comunista que Karl Marx. Ou mesmo do
próprio livro do Caio Prado Junior, que inaugurou a guerrilha no Brasil, que é A Revolução Brasileira.
Ele escreveu este livro para convencer as pessoas de que deviam apelar para a luta armada – ou seja,

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que a velha estratégia de aliança do Partido Comunista com a burguesia nacional não ia funcionar –,
mas até isso não deixa de ter a sua verdade – “Se você quer tomar o poder, não pode ser por esse lado
assim, e assim (...) tem de ser pelo outro” – tem lá a sua cota de razão. Ou seja, só é possível vocês
debaterem quando se deixarem impregnar e fecundar pela ideia do adversário, quando vocês a
trabalharem e a transcenderem. Se vocês se isolam dela, se afastam, se só querem vê-la à distância,
sob forma reduzida, pejorativa, e caricatural, aí vocês estarão usando a política do avestruz. Então, o
gramscismo no Brasil virou uma política de avestruz – “Só nós falamos, então não queremos saber o
que os outros pensam. E, ignorando o pensamento da direita, aconteceu que o PT foi surpreendido de
repente por uma massa popular que foi às ruas pedindo a cabeça deles.”
Por outro lado, o pessoal da direita também entrou no mesmo negócio do estreitamento do horizonte
de consciência. Na medida em que foram descobrindo algumas correntes de pensamento da direita –
que eu mesmo fui o primeiro a mostrar por aí; é claro, não quer dizer que fui o primeiro a citá-las,
mas fui o primeiro a citá-las no debate público, isto é importante; se vocês procurarem em trabalhos
universitários poderão achar alguém que estudou o Burke e outros autores de direita como, por
exemplo, o Djacir Menezes, que é um filósofo conservador, um grande estudioso de Hegel sob o
ponto de vista conservador; ‘tá lá, mas tudo isto fica restrito. Na hora em que eu comecei a divulgar
centenas e centenas de livros que estavam ignorados, naturalmente o pessoal começou a lê-los. E,
quando se descobre, por exemplo, a história austríaca de economia, depositam naquilo uma esperança
monstruosa.
Quando o pessoal diz: “Menos Marx, Mais Mises”. Digo: “Um momento, ‘pera aí. O Mises é um
grande economista, é o cara que demonstrou a impossibilidade da economia estatista socialista e, sem
dúvidas, deu uma contribuição monstruosa; mas Karl Marx tem uma amplitude imensamente maior,
ele era um filósofo da cultura, em primeiro lugar; segundo, tem uma interpretação da história inteira,
o Mises não tem; terceiro, Marx foi o fundador da 1ª Internacional, ou seja, um líder de massas; o
Mises não foi”. Então, não se pode nivelar essas duas coisas. O Mises é muito melhor do que o Marx
em economia, sem sombra de dúvidas. Mas e o resto? Então, vendo a superioridade da economia
capitalista, que é uma coisa óbvia – é só olhar a publicação da Heritage Foundation, o Índice de
Liberdade Econômica no mundo, lá vocês veem que os países mais ricos são aqueles que têm mais
liberdade econômica, isto é o mais óbvio do óbvio, nem precisa discutir. E a questão da economia
estatizada o Mises matou em 1923 com o livro Socialismo, uma Análise Econômica e Sociológica, e
pronto! Acabou, está enterrado! Os próprios comunistas leram aquilo e concordaram, meu Deus do
Céu. Tanto concordaram que nunca mais insistiram muito na ideia da economia estatizada. Eles
querem estatizar a sociedade, ter o controle da sociedade. A economia é a parte menos controlável da
sociedade. Na URSS 50% da economia soviética era economia privada clandestina, o governo sabia.
“É clandestino, mas se nós fecharmos vamos todos para o buraco, então deixa os caras fazerem a
economia clandestina deles.”
Agora, uma análise em profundidade do Antonio Gramsci eu até hoje não vi. Eu vi análises
ensaísticas, como a minha própria, A Nova Era e Revolução Cultural. Foi o primeiro livro escrito no
Brasil sobre Gramsci que não fosse do ponto de vista gramsciano. Depois apareceram os do general
Coutinho, mais uns dois ou três, mas estamos ainda na esfera ensaística. Um estudo aprofundado
sobre o Antonio Gramsci nós não temos até hoje.
Pior ainda, no Brasil até hoje não temos sequer um mapeamento da esquerda nacional – quem são os
personagens, quais são as organizações, em que esfera elas atuam, da onde vem o dinheiro delas, etc.
Nós não temos uma visão do inimigo, temos apenas dois grupos de avestruzes, um lutando contra o
outro. Nenhum quer ver o inimigo. Têm tanto horror do outro que, quando o vê, sabe o que faz? Ele
cospe.
Eu até anotei durante um tempo o número de pessoas que reagiam aos meus livros com sintomas
físico-fisiológicos – dor de cabeça, ânsia de vômito, náuseas, um montão – é o protótipo da
impotência intelectual. “O que você consegue fazer diante disto é sentir-se mal?”. Então, do mesmo

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modo, eu vejo pessoas que também têm náuseas diante da esquerda. Mas enquanto elas estão tendo
náuseas, quem está sofrendo é elas, são elas que vão apanhar. Quem está na briga, não pode ter
náuseas. Como é que a pessoa vai pegar um cara para a briga se ela tem nojo de tocar no corpo dele?
Enquanto ela está assim, ele está enchendo ela de porrada. É uma coisa simples, se não existe uma
certa interpenetração, uma certa promiscuidade intelectual entre a pessoa e o seu inimigo, ela nada
conseguirá contra ele.
Observando o Brasil desde o tempo colonial, o fenômeno do mazombo explica o porquê da sujeição
dele à moda europeia do momento, pois ela representava a vida brilhante, rica, maravilhosa e variada
em comparação com a vida pobre e desértica que ele tinha no meio colonial. Então, está perfeitamente
explicado que eles se sentissem assim. Porém, o estreitamento do horizonte de consciência dele se
propaga nas épocas seguintes onde o pessoal, na verdade, tinha acesso a muito mais informação que
a Europa. Vejam, por exemplo, durante o Brasil Império era a mesma coisa.
Lembro, por exemplo, do Joaquim Nabuco com o seu livro Minha Formação, que é um livro
importante para o Brasil. Qual foi o autor que mais o influenciou? Walter Beckert, que era um
economista, fazia análise da bolsa de valores de Londres, era muito bom nisso, mas não passava disto.
Ele não era sequer um Maquiavel. E isso fez a cabeça do líder do movimento abolicionista do Brasil.
Ele era líder do Partido Conservador e chefe do movimento abolicionista no Brasil. Aliás, é pouca
coincidência? Quem fez o abolicionismo no Brasil? Foi o Partido Conservador. Isto mostra o
estreitamento do horizonte de consciência de uma das figuras de maior destaque do Brasil Império
que foi Joaquim Nabuco.
Nas gerações seguintes se observa a mesma coisa. Isso é agravado pelo fato de que as instituições de
cultura são muito fracas e são substituídas pela mídia. Isto se observou, sobretudo, durante o governo
militar, onde o grande centro de debates não era a universidade – era a mídia. Então, a mídia passa a
determinar o horizonte de consciência das universidades. Por exemplo, a Folha de São Paulo com seu
suplemento “Mais!”: falam que o “Mais!” é o house organ USP, mas ao contrário, a USP é o house
organ do “Mais!”. A palavra do suplemento “Mais!” cai sobre a USP como se fosse palavra de
Evangelho. A mídia assumiu a dianteira na luta cultural, no debate cultural, estreitando mais ainda o
horizonte de consciência.
Então, qual é a solução de tudo isso? Em primeiro lugar, nós temos de nos livrar deste cronocentrismo.
Eu escrevi sobre isso no meu livro O Futuro do Pensamento Brasileiro. O preconceito cronocêntrico
é muito pior do que o etnocêntrico, ele limita muito mais a mente. Por exemplo, o preconceito
etnocêntrico pode fechar você na civilização europeia, mas esta são trinta/quarenta países com
culturas nacionais enormemente ricas, você pode viver daquilo o resto da vida; já o cronocentrismo
é o que está saindo, sobretudo na mídia. Não há debate universitário fora daquilo que se fala na mídia.
Então, a mídia está fazendo a cabeça da cultura superior.
Nos anos 70 eu escrevi um ensaio sobre isso, chamado “Imprensa e Cultura”, mostrando que durante
um tempo, a mídia, os jornais, televisão, rádio, etc., tinham sido um reflexo da cultura superior; a
cultura superior se manifestava, sobretudo, através de livros, de obras mais complexas, e uma parte
disso ecoava na mídia de modo a despertar nas pessoas o interesse por ter um conhecimento mais
direto daquilo. Porém, a partir dos anos 70 estava acontecendo o contrário: a mídia estava delimitando
o horizonte da alta cultura. E isto no Brasil aconteceu de uma maneira avassaladora.
A primeira providência que nós temos de tomar é romper a camisa de força cronocêntrica – “Nós
aqui no Brasil, não pertencemos exatamente à cultura europeia, nem à cultura americana, a nada; nós
estamos soltos no ar”. É aquele poema do Murilo Mendes: o garoto que está sentado na rede que mil
ventos diferentes a estão balançando – este é o Brasil. Mas isso é uma sorte. Nós não estamos presos
a nada, podemos receber tudo, podemos incorporar todo o patrimônio da cultura universal sem
privilegiar isto ou aquilo.

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Este foi justamente o caminho seguido, com máxima amplitude, por uma única pessoa que é o Mario
Ferreira dos Santos, só ele fez isto. Quando lemos o livro do Mário que, aliás, estão horrivelmente
editados até hoje – as edições já eram ruins naquele tempo, porque ele produzia um livro atrás do
outro, mandava para a gráfica, que era dele mesmo, para imprimir e dava uma edição horrível; ele
pensava “bom, depois de eu morrer vem alguém e conserta isso”, mas não consertaram até hoje –, as
edições da É Realizações são um pouco mais bonitinhas por fora, mas o texto está com o mesmo
problema. Quando lemos os livros dele, a gente percebe que ele está à vontade para conversar com
Platão, Pitágoras, como se fossem contemporâneos. Na hora em que ele inventa um personagem de
ficção chamado Pitágoras de Melo e tem um diálogo com ele, ele atualizou Pitágoras e o transformou
em um cidadão que se encontra na esquina. Então, o diálogo filosófico do Mário Ferreira é com todas
as épocas e civilizações. Ele não caprichou muito no conhecimento asiático. E o conhecimento que
ele tem do legado islâmico é pouco, mas ele sabe que existe, ele não está tapado para isto, - também
vocês não podem exigir que um cara só faça tudo, né. O simples fato dele se mover igualmente à
vontade no século XX, século XIII, século I ou no século IV a.C., já mostra que ele está fazendo a
coisa certa: ele está incorporando na cultura brasileira o legado de toda a civilização mundial. Perceba
a diferença que isto faz.
Esse foi o caminho que eu mesmo segui. Eu passei anos estudando, por exemplo, este material
islâmico. Vocês sabiam que a Pérsia sozinha tem mais e melhores filósofos do que a Europa inteira?
Quando eu descobri isso eu quase caí de costas. Quando eu achei que tinha descoberto a noção do
conhecimento por presença – eu pensei: “Oba, eu sou um gênio!”: descobri que tinha um filósofo
persa do século XI que já tinha descoberto a mesma coisa.
Tudo isto está aberto à nossa espera para que nós integremos e daí sim criemos uma alta cultura
original e poderosa, desde o Brasil. Na hora em que estivermos nessa alta cultura vocês podem ter
certeza de que os reflexos sobre a política se seguirão inapelavelmente. Elevar o nível do debate
cultural é elevar o nível do debate político e elevar também o nível de qualificação dos políticos.
Agora, esperar resolver todos os problemas práticos para depois fazer isto: é um absurdo. Quer dizer,
o sujeito quer primeiro resolver todos os problemas para depois se tornar inteligente depois: depois
não precisa mais; depois já está na hora de morrer. Esse praticismo caipira brasileiro [1:00] que despreza
o conhecimento e nega isto, diz que o que interessa é agir, que é preciso fazer alguma coisa: “Vai
fazer o quê? Vai fazer besteira”.
Quando surge em 2015 a revolta popular e o pessoal logo em seguida se apega a uma das duas táticas:
impeachment ou intervenção militar. Eu pensei: “Mas espera aí, isso não são estratégias, isso são
práticas”. Se não tem estratégia nenhuma, então nenhuma tática vale nada. Não há uma concepção
estratégica porque as pessoas não conseguem sequer imaginar que é necessário ter uma estratégia.
Nem o PT, que tem a retaguarda de cento e cinquenta anos de marxismo nas costas e de cinquenta
anos de gramscismo, nem ele consegue fazer uma análise estratégica direito; se apegam a mitologias
de infância: “o golpe, o fascismo etc.”. Ora, esta coisa antifascista é um cacoete, meu Deus do céu!
Aconteça o que acontecer eles vão gritar contra o fascismo. Vejam, o saudosismo, esse automatismo
mental, chegou ao ponto de os caras adotarem o lema “Não passarão!”, que é o lema da república
espanhola contra os franquistas e que deu um azar desgraçado, logo em seguida os caras entraram e
ainda fizeram a musiquinha: “Ya hemos pasao ca pasamo”. Quer dizer, os caras se apegam a essa
mitologia de décadas atrás, mitologia que Stálin inventou, totalmente deslocada da situação. Um dia
a Roxane até estava comentando “se o PT ouvisse você eles estariam numa situação melhor” –
estariam sim.
Quando o pessoal se apegou à ideia da intervenção militar: foi voto vencido. Eram duas ideias idiotas,
na verdade. Porque, se você tem uma estratégia global, então todas as táticas servem para você. Você
usa um pouco disso, um pouco daquilo, conforme o momento, conforme a oportunidade. Mas se você
não tem [uma estratégia], você se apega à tática enquanto tal e se enrijece naquilo e transforma a mera
tática numa tomada de posição doutrinal. E foi isto o que o pessoal fez. O quê que é isto?

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Estreitamento do horizonte de consciência. Então, a intervenção militar foi voto vencido, porque o
pessoal ficava nas ruas gritando pela intervenção militar e não falava nada com os militares – “Olha,
vocês querem fazer intervenção?”. Nem perguntaram, meu Deus do céu. Todos eles, [os militares],
estavam dizendo “não queremos, não temos nada que ver com isso”. Vejam, pregar a intervenção
militar é sair na rua pregando o quê que os outros devem fazer sem sequer consultar os outros. Até
hoje, eu confesso: “eu não sei o que os militares estão pensando, perdi contato com eles faz dez anos”.
Mas o pessoal que estava gritando na rua também não sabia. E pior, discutiam se a intervenção militar
era constitucional ou não. Mas o que é uma intervenção militar? Como se faz? Que pontos do território
têm de ocupar? Que pessoas têm de tirar da esfera política e quais outras vai colocar no lugar delas?
Como vai, usando elementos das forças armadas, suprir todas as vagas na administração? Como fica
o país na esfera internacional? Que vai sofrer, evidentemente, se tem um golpe militar, uma reação
brutal como sofreu Honduras. Em Honduras a pressão foi tamanha que os caras, depois de derrubar
o presidente, acabaram elegendo um aliado dele, então fica o dito pelo não dito. Uma intervenção
militar, seja constitucional ou não, seja legal ou ilegal, ela tem de pensar em tudo isto. Isso é
intervenção militar. Se é legal ou ilegal, constitucional ou inconstitucional, é um problema adjetivo –
no entanto, o pessoal ficava discutindo isto.
Por outro lado, o pessoal do impeachment concentrava o seu ódio na pessoa da Dilma Rousseff que
a rigor não é ninguém. Aderiram a isto dizendo que “era a preservação das nossas instituições”. Mas
espera lá, as nossas instituições – a Nova República, Constituição de 88 – foram todas construídas
para criar esta situação, então, querer derrubar o PT preservando as instituições, é remover efeito
reforçando a causa – para mim parece uma coisa bastante óbvia. Quando vemos que a Constituição
aceita o direito à propriedade privada condicionando-a a sua utilidade social, pronto, já está aí. O
desejo de preservar as instituições é o desejo de preservar a Nova República e a elite que fez a Nova
República – constituída basicamente de duas correntes: PT e PSDB. Logo logo eles vão mostrar a
verdadeira face. Logo em seguida esse pessoal começou a aparecer defendendo casamento gay,
abortismo, desarmamento civil, absolutamente tudo o que o PT fez na esfera sociocultural. Então,
comprova aquilo que disse o FHC: “Não há divergência ideológica, apenas uma disputa de cargos”,
ou seja, sai daí que eu vou fazer o mesmo que você está fazendo, só que o governo sou eu. Foi
exatamente isto que aconteceu. E, evidentemente, quando se fala isso as pessoas dizem “ah, mas você
está contra o impeachment, contra a intervenção militar, contra isso, contra aquilo”. Por quê?
Dentro desse estreitamento brutal do horizonte de consciência, a tomada de posição emocional
substitui a análise dos fatos. Você não pode saber o que está acontecendo, não pode dizer o que está
acontecendo, tudo é interpretado como uma tomada de posição: está a favor ou contra, gosta de nós
ou não gosta, está contente ou irritado – é tudo assim. A coisa baixou a tal ponto que eu, atualmente,
só consigo me explicar corretamente para os meus alunos; para os outros não dá para explicar. Como
vou explicar uma coisa dessas para o Jean Wyllys, por exemplo? Ou mesmo para o FHC? Não dá,
não acompanham mais. Ou seja, todo esse pessoal mergulhou há anos no cronocentrismo; ainda é
vítima do cronocentrismo e nunca vão entender nada a partir disso aí.
Bom nas próximas aulas continuamos com a análise já da questão brasileira. O que não quer dizer
que as questões teóricas não serão levantadas, a qualquer hora podemos voltar a elas. Como eu
anunciei, eu vou dar cinco aulas neste curso e não quatro. Pois na primeira aula houve muita
dificuldade de acesso, muita gente ficou atrapalhando – nesta aqui também está tendo um pouco de
dificuldade de acesso, embora estejamos gravando, logo, as gravações ficarão aí a disposição. Como
esta é a terceira aula, teremos então mais duas. ‘Tá bem?
Pausamos aqui e daqui a pouco voltamos com as perguntas.

***

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Aluno: Como romper a camisa de força do cronocentrismo numa sociedade com perfil mazombo
dominada por mídias altamente limitadoras do horizonte consciência sem se utilizar deste mesmo
sistema como fizeram os esquerdistas nos últimos anos? A estratégia de quebrar essas correntes
apenas com a exposição dos agentes responsáveis por essa limitação do horizonte é suficiente?
Olavo: É claro que não é suficiente. Já dizia Stuart Mill: “A crítica é a função mais baixa da
inteligência”. Portanto, ela que vem na frente. Mas além disso existe todo um trabalho de
reinterpretação da vida brasileira inteira e do pensamento mundial inteiro. É isso que nós temos de
fazer. Por exemplo, a história do Brasil, a história dos últimos quarenta anos: você desmentir meia
dúzia de lendas urbanas colocadas em circulação por comunopetistas não adianta, isto é só o começo.
Vejam, que a história social e política dos últimos quarenta anos transcorreu em total escuridão.
Houve modificações psicológicas brutais, mas nada disso foi sequer documentado, quanto mais
narrado historicamente, nada disto foi feito. Então, nós temos de começar a criar uma barreira de
livros. Não são livros de polêmica, não são livros de combate, são livros que vão restaurar o
conhecimento, nós temos de criar esse conhecimento pois ele simplesmente não existe. Agora, a partir
da hora em que você começa a elaborar isso aí pode começar a surgir obras de ficção que reflitam
isso, mas eu acho que os historiadores têm de vir em primeiro lugar; contar o que se passou.
Por exemplo, existem pesquisas sobre mudanças comportamentais causadas pelas novelas da Rede
Globo, mas foi uma pesquisa. Existe algum livro inteiro ou um estudo sobre isso? Não. Existe algum
estudo em profundidade sobre a manipulação comportamental nas escolas? Não. Se vocês lerem o
livro do Pascal Bernardin, ali tem o repertório das técnicas que são usadas, que eu não costumo
chamar de doutrinação, pois doutrinação se dirige à inteligência. Doutrinação é você defender uma
ideia contra outra ideia, portanto supõe um debate. E o que estão usando nas escolas são processos de
mudança comportamental que não passam pela inteligência crítica, não passam pela mudança de
opinião, ao contrário, muda a conduta para mudar a opinião depois retroativamente, de uma maneira,
por assim dizer passiva. Não há nenhum estudo de grande escala sobre isto, nem sociológico e nem,
muito menos, histórico – “O estudo do ingresso das técnicas sociocontrutivistas no Brasil: como
entraram, como foram sendo aplicadas e que efeitos estão tendo?” Ninguém fez isto. Isto são no
mínimo teses universitárias. Teses de doutorado, não é de mestrado. São obras de grande porte que
têm de ser feitas, obras de 500/600 páginas, tudo muito bem documentado.
Vejam, a produção da narrativa ainda é monopólio do pessoal petista e/ou tucano, a direita brasileira
está atuando apenas na esfera do debate jornalístico. Dificilmente você vai encontrar um estudo em
profundidade sobre o que quer que seja. Nem mesmo um estudo meramente documental como, por
exemplo, O Imbecil Coletivo. Nem mesmo um estudo documental com aquela amplitude – o Imbecil
Coletivo se prolongou, na verdade, por oito volumes. Quer dizer, tem uma descrição fenomenológica
do que está acontecendo, mas ainda está na esfera descritiva, apenas. Não é um estudo narrativo, não
é um estudo sociológico, não é um estudo explicativo, é feito em tom humorístico, mas com espírito
descritivo, um espírito de documentar o que estava acontecendo antes que o pessoal esquecesse
completamente. Se vocês forem ver os autores que estou tratando ali, as polêmicas que eu trago: tudo
aquilo já foi esquecido. Se vocês perguntarem “quem é Gilberto Felisberto de Vasconcelos” ninguém
mais lembra, era um polemista importante na época, se não documentasse estaria esquecido, e na hora
em que você esquece a história você cai de novo, e de novo, e de novo no mesmo engodo porque
vocês já não sabem que é velho.
Eu estou falando só de atuação na esfera cultural, é isso que vai consolidar o poder. Vocês têm de se
tornar uma autoridade no campo – não é com polêmica que vocês vão se tornar uma autoridade. Tudo
isto está faltando.

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Um estudo em profundidade sobre a criminalidade no Brasil: não existe. Por exemplo, a sucessão de
leis que foram facilitando a atuação dos criminosos. De onde veio isso? De onde esses caras tiraram
essa ideia? Quais são as fontes intelectuais disso? Como foi que penetraram no Brasil?
Vejam, as grandes mudanças começam em pequenos círculos intelectuais e aos poucos vão
aumentando em círculos concêntricos até chegar à política, quando chega ao parlamento e vira lei –
aí pronto, fechou. É um processo demorado.
Quais são as fontes do nosso código do menor e do adolescente? Quais são as fontes intelectuais? De
onde tiraram? Quais são as fontes da ideia de casamento gay? O pessoal não estuda isso. Por exemplo,
os movimentos da esquerda americana são a matriz de tudo o que acontece no Brasil nessa área. Toda
essa política sociocultural da esquerda é inspirada na esquerda americana, que ninguém está
estudando, meu Deus do céu. Se vocês perguntarem “quantas pessoas no Brasil leram o livro do Saul
Alinsky”: duas, três, quatro? Está tudo no Saul Alinsky. Nós ainda não estamos contando a história,
nós ainda estamos permitindo que a narrativa esteja nas mãos de quem precisa falsificá-la.
Por exemplo, toda esta história das torturas: bom, que houve tortura houve, deve ter havido alguma,
certamente, porém nada disso está seriamente comprovado, a única prova é testemunhal – um diz que
o outro foi torturado e o outro diz que o um foi torturado e os dois levam indenização. Não foi feito
um estudo sério. Vou lhes dizer: todos os casos que eu averiguei eram falsos. O que não quer dizer
que todos absolutamente sejam falsos. Até onde eu averiguei todos eram falsos. Não averiguei muitos,
averiguei alguns em profundidade, como aqueles mencionados pelo Caco Barcelos, investiguei e
cheguei à conclusão que a alegação era materialmente impossível. Em outros casos também. Então,
até hoje não se fez, por exemplo, uma verdadeira comissão da verdade. Não adianta reclamar e
espernear, tem de opor a narrativa a uma outra narrativa bem documentada e séria.
Quando o pessoal começou a dizer que o Fome Zero havia tirado da miséria 30 milhões de brasileiros:
uai, o governo militar tirou da miséria tirou 30 milhões de brasileiros. Isto foi documentado na época
e não foi por causa de esmolinha, foi criando emprego. Ou seja, fizeram uma obra social muito mais
digna na esfera econômica – os milicos fizeram um serviço brilhante.
Também a história da ignorância militar sobre o gramscismo brasileiro: vocês sabem que o Geraldo
Sérgio Coutinho morreu amargurado porque os seus colegas não entendiam o que ele estava falando.
Ele escreveu dois livros sobre o Antonio Gramsci, as pessoas não prestaram atenção, não deram
importância e enquanto isso a revolução cultural gramsciana ia comendo todo espaço entorno. Por
que, ao longo de trinta anos de difamação e calúnia contra as FFAA, elas jamais processaram um
difamador? Nem um único? Quer dizer que eles foram concedendo ao adversário o direito de agredi-
los. Quando chegou àquele dia em que os estudantes sem-vergonhas pegaram os velhinhos na porta
do clube militar e cuspiram em veteranos da segunda guerra, heróis nacionais, meu Deus do Céu, e
não lhes aconteceu nada: isso é um efeito do estreitamento do horizonte de consciência. A classe
militar não tinha compreensão do que estava se passando, via tudo por estereótipos.
Por exemplo, um estereótipo: revanchismo. Será que é só revanchismo? Os caras só querem se vingar
do que aconteceu? Eles não querem o poder, não? Eles não têm um esquema muito maior do que a
mera revanche, no qual a revanche é um pedacinho assim? Então, é uma figura de retórica que se
substitui à descrição correta dos fatos. Pode parecer reconfortante porque o sujeito está tentando
depreciar o adversário quando usa este termo, mas na medida em que ele o deprecia ele está
encobrindo a ação dele.
Este predomínio do emocional no debate público, quando não do fingimento emocional, fingimento
histérico: tudo isto tem de ser suprido por conhecimento efetivo, gente. Temos de criar uma nova
cultura para criar uma nova política, não tem outro jeito.

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Aluno: Concordo que é preciso aprender mais e ampliar o horizonte de consciência geral, mas
também vejo a necessidade da ação rápida, pois o PT continua roubando o erário numa rapidez
estonteante. Se não forem tomadas as medidas de emergência o rombo vai ser tão profundo que vai
ser dificílimo recuperar.
Olavo: Já é dificílimo recuperar. E, em segundo lugar, quando você diz “precisamos fazer alguma
coisa, já” pense o seguinte: nos anos 60, teve uma parte da esquerda que disse “vamos adotar aqui o
Antônio Gramsci, vamos fazer a ocupação de espaços e daqui a 30 ou 40 anos nós tomamos o poder”
e a outra parte diz exatamente isto “precisamos fazer alguma coisa, já”. Aonde estão estes? Estão
todos no cemitério. Eles só serviram para uma coisa: de símbolo funerário para a revolução
gramsciana. Nessas horas eu sempre lembro de uma frase do Goethe: “É urgente ter paciência”. Se
você ficar apressadinho agora você vai morrer. Enquanto a situação está piorando você tem de desde
baixo ir construindo uma situação melhor. Não é tomar medidas urgentes para parar isto aí, vai ser
muito difícil parar este negócio.
Quando vemos que 35% do território nacional já foi doado para entidades estrangeiras, que o Brasil
já chegou aos 70 mil homicídios por ano, que as grandes empresas estatais foram todas falidas e hoje
a dívida do Brasil é de mais de um trilhão, aquela dívida que o Lula se gabava de ter sido paga – “não
devemos mais nada”; não, só um trilhão! – tudo isto é claro que é muito grave. Eles estão drenando
as energias do Brasil. Mas ‘pera aí o que nos impede de ir por baixo, enxertando energia positiva e
construindo uma nova cultura para criar uma nova política? Todas as oportunidades de ação imediata
devem ser aproveitadas, evidentemente, mas não é para confiar muito nelas. É para dedicar o melhor
de si para elas, mas se dedicar com o espírito de obrigação e não de esperança.
Por exemplo, quando as outras estratégias foram todas boicotadas e sobrou só a do impeachment, o
que eu faço? É claro que eu apoio o impeachment, foi o que sobrou. É a comparação que eu fiz: um
boxeador pode nocautear o adversário no primeiro round, mas ele pode esperar para vencer por pontos
no último – a estratégia do impeachment é isso. E ainda transformando em agentes do processo os
mesmos políticos que colaboraram com a criação de toda a situação atual. Ou seja, é uma estratégia
diminutiva, suicida, masoquista, mas preferiram adotá-la. Muito bem, só sobrou isso, então eu não
vou ficar contra a última coisa que sobrou. Mas ainda é possível fazer alguma coisa mesmo na esfera
da ação imediata.
Por exemplo, deve haver algum modo de desencadear uma investigação da polícia federal sobre a
questão da eleição secreta; não dos votos roubados, não do voto eletrônico, porque tanto faz os votos
serem eletrônicos ou impressos. O que é característico é as máquinas terem sido programadas para
não poderem ser auditadas. Por que fizeram isto, meu Deus do Céu? Ou seja, já estavam vetando
antecipadamente a possibilidade de uma fiscalização. Segundo, o povo não foi informado que a
apuração seria secreta; todos votaram crentes de que seria uma eleição normal com uma apuração
normal. Ou seja, o eleitorado inteiro foi enganado, então há evidentemente um crime. Quem praticou
esse crime? O TSE inteiro, a começar do seu presidente. Então, pedir ao TSE a anulação das eleições
é pedir que um criminoso se investigue e se castigue a si mesmo – é absurdo. Tem de ser feito algo
contra o TSE. Daí vem o pessoal: “Não, mas eles têm foro privilegiado, eles devem ser processados
não sei aonde...”. E investigados, não podem? Por que tem de acertar direto os ministros? Por que
não pode começar investigando o relações públicas ou qualquer funcionário, como fez o Sérgio
Moro? Vai pegando os caras de baixo até chegar a cima. Sempre há uma brecha para você agir.
Então, uma ação imediata que eu propus já em março de 2015 é esta: “Nós temos de agir contra o
TSE”. Se não podemos agir judicialmente, podemos agir policialmente. Vamos começar uma
investigação, meu Deus do céu. E a investigação naturalmente na hora em que estes funcionários de
baixo forem apertados eles vão fazer o quê? Apontar os seus superiores – “Foi o ministro quem
mandou.” Por que não foi feito isto até agora, se estão com tanta pressa, por que não fizeram isto em
março de 2015? Porque entrou esse pessoal falando: “Nós vamos fazer a marcha para Brasília, vocês
fiquem aí esperando que nós vamos ali a pé e já voltamos”. E o que vão fazer lá? “Vamos entregar a

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tocha ardente para a classe política para ela levantar e ser o líder da história” – meu Deus do céu, é
uma coisa de uma estupidez tão imensa – é claro, os personagens mais evidentes são estúpidos, mas
quem planejou isso por trás sabia o que estava fazendo. E caiu um bando de gente sem experiência,
esses Kim’s Kataguiri, Fernando’s Holliday, a Janaína Paschoal – que entende muito de direito, mas
em política é absolutamente cega; é uma boa menina, eu gosto muito dela, acredito que seja uma
pessoa sinceríssima, honestíssima, mas está metida no meio de raposa velha que come ela como se
fosse um cachorro-quente no café da manhã, entendem.
Então há muita coisa imediata que se pode fazer, e deve-se fazer todas elas. Só que não com
esperança, deve-se fazer de maneira histórica, por obrigação. Se não der certo, não tem importância,
eu fiz a minha parte. Agora, apostar na criação de uma nova cultura para gerar uma nova política, isto
aí vocês podem apostar que dá certo. Demora, mas dá certo. Sempre deu.
Aluno: Qual é a possibilidade do PSOL assumir o papel do PT na esquerda brasileira, como uma
reação à sua queda?
Olavo: Muita. Não só o PSOL, mas podem inventar novos partidos. O que é o PT? O pessoal diz “o
problema é o PT”. O PT não é nada, o PT é uma fachada do Movimento Comunista Internacional.
Nunca passou disto. Como ele deu certo, então o Movimento Comunista apoia o PT. Se ele der errado
eles jogam fora e pegam outro, como sempre fizeram. Faz cem anos que o Movimento Comunista
está fazendo isto, criando organizações de fachada, desfazendo e trocando, e o pessoal ainda não
entendeu, ficam sempre atacando um símbolo. É uma concepção fetichista da realidade criada pelo
quê? Por um horizonte de consciência estreito que se impressiona com as imagens e as ataca.
Não apareceu hoje uma senhora fazendo cocô na imagem do Bolsonaro? Isto é a política brasileira
hoje: pegam a imagem de um sujeito e fazem cocô nela. O que significa isso? Que mal isso fará ao
Bolsonaro? Absolutamente nenhum. Mas é uma expressão simbólica de um sentimento. Não é só a
esquerda que está fazendo isso, todo o mundo está. Quando, na verdade, a política – se vocês
entenderam as minhas primeiras aulas – é feita de ações concretas, de pessoas reais que agem umas
sobre as outras e, se vocês querem saber o que está acontecendo, vocês têm de pegar os canais, as
linhas de ações efetivas: quem falou com quem, quem deu ordem para quem, quem angariou quais
recursos, de onde, para fazer o quê.
Então, eu só acredito em micro-história – é a história dos fatos concretos. Quando não se tem isso,
quando não tem a documentação, então é obrigatório usar de grandes sínteses analógicas e simbólicas
mais ou menos ficcionais que às vezes dão uma ideia aproximada do que aconteceu, mas é só quando
não se tem os documentos. Mas no Brasil eu acho que existe até um excesso de documentos sobre o
que aconteceu nos últimos quarenta anos, só que ninguém está mexendo.
Por exemplo, eu queria há um tempo, mas não consegui realizar esse projeto por falta de tempo:
documentar a decadência visual do Brasil nos últimos cinquenta anos; a destruição da imagem das
cidades. Foi uma coisa absolutamente devastadora e que tem a ver com próxima pergunta. A
documentação disso aí existe, é questão apenas de juntá-la. Pegar, por exemplo, fotos da cidade de
São Paulo, como ela parecia nos anos 40 e 50, como as pessoas na rua se vestiam, qual era a aparência
dos prédios e ver, ano por ano, a coisa sendo degradada. Esta degradação é ajudada desde cima.
Notem, as escolas passaram a ensinar que a grafitagem é arte. O que é isso? É legitimar a destruição
da aparência sensível. E, eu já escrevi artigos falando sobre isto, quando o ambiente visual é muito
caótico as pessoas ficam burras. Se você não consegue fazer a síntese visual, como é que vai fazer a
síntese intelectual, meu Deus do Céu? Então, uma certa ordem estilística na aparência das cidades é
uma condição básica para poder ter uma civilização frutífera. Se vocês percorrem aqui os Estados
Unidos vocês verão que existe estilo em tudo quanto é lugar. As casinhas mais humildes têm estilo.
Na primeira vez em que eu fui a Curitiba a gente passava por uma favela no meio do caminho, eu
olhei a favela e quase caí de costas: as casinhas todas de madeira, todas bonitinhas, com folhinhas na
janela, tudo arrumadinho. Eu falei: “Meu Deus, a civilização está aqui!”. Isso quer dizer que não é

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uma questão de dinheiro. O brasileiro confunde cultura com dinheiro, ele acha que ser culto é ser
chique e não é. É ter o senso da forma, meu Deus do céu. Ou seja, não são os materiais que se está
usando que interessa, mas a forma que imprimem a eles. Aqui nos Estados Unidos vocês visitem um
acampamento de trailers, que são os sem-teto daqui: está tudo arrumadinho e bonitinho. Quando vem
um sujeito com uma ideia brasileira, falando “eu quero fazer uma casa original” e faz uma casa
diferente de tudo, paga os tubos para o arquiteto fazer uma monstruosidade: os vizinhos quase o
matam. Ele tem a ideia de que a casa dele está solta no espaço, não tem relação com o espaço em
torno.
Aluno: A embaixada do Brasil em Washington.
Olavo: A embaixada do Brasil em Washington, que coisa mais feia. Gastaram um dinheirão. É um
mico de mármore. Então, é preciso documentar isto: a destruição da paisagem visual brasileira, das
cidades. O pessoal está mais preocupado se queimaram uma árvore lá no Amazonas do que se
destruíram uma cidade inteira aqui, onde você mora. “Ah, mataram um mico-leão-dourado” – é uma
total falta do senso das proporções.
Aluno: Há pouco tempo me recomendaram o livro A Lei e a Ordem, de Ralf Dahrendorf, no qual ele
trata da questão da anomia, geralmente como sendo uma espécie de ante-sala para o totalitarismo,
geralmente como consequência da ordem jurídica causada por uma revolução. De modo que, após
uma revolução, o agente revolucionário, seja um indivíduo ou grupo, detém o poder absoluto, uma
vez que não está sujeito a nenhuma ordem jurídica.
Olavo: Evidentemente isto é um procedimento essencial de todo o movimento revolucionário. Quer
dizer, minar a ordem, não só a ordem jurídica, mas a ordem moral, a ordem lógica, a ordem linguística,
para deixar todo o mundo desorientado de modo que, ninguém entenda o plano de ação coerente que
só ele tem – só ele sabe o que ele está fazendo, [1:30] os outros não. Então ele acaba por predominar.
Então o que ele está querendo não é a desordem, a desordem é apenas um período, é uma interface
entre a ordem atual e a ordem que ele pretende montar, a qual necessariamente terá de ser totalitária.
Revolução, por definição, é um projeto de mudança total da sociedade a ser realizada mediante a
concentração do poder político. É claro que nós podemos usar a palavra “revolução” para outros
movimentos também, como a revolução americana, que [na verdade] não foi isso – não houve uma
concentração do poder, ao contrário, houve uma distribuição do poder –, mas no sentido em que eu
uso a palavra, no estudo da mentalidade revolucionária, revolução é isso.
Então este procedimento de criar o caos mental, moral, jurídico, etc., é absolutamente essencial, e nós
vemos que as forças de esquerda no Brasil estão fazendo isso há trinta anos, meu Deus do Céu. Eles
querem botar a desordem dentro das casas, dentro das famílias, de modo que as pessoas não se
entendam mais.
Quando se começa a promover, por exemplo, ideias políticas baseadas no desejo sexual do cidadão,
já se está em pleno caos. O desejo sexual não pode ser base de direitos, meu Deus do céu, é algo
totalmente subjetivo. E isto aí, hoje em dia, foi transformado num valor sacrossanto, tem um valor
religioso, não se pode tocar nisso aí. É claro que isso é indução à loucura, quem está fazendo isto
sabe. Quer dizer, só os engenheiros sociais lá de cima sabem. Os agentes comuns não têm ideia; eles
acreditam realmente que há um grande progresso da civilização na hora em que se tem banheiros
unissex; eles acham são um grande progresso e quem vai contra é um reacionário atrasado. Eu não
estou vendo progresso nenhum nisto aí, mesmo porque vocês vão ver que em muitas sociedades
primitivas havia banheiros unissex – aliás, não há banheiro nenhum, todo mundo faz cocô onde bem
entende. E porque nós voltarmos a isso é um grande progresso? Não estou entendendo.
A própria noção moderna de higiene está sendo perdida. Vejam esta foto desta moça fazendo cocô na
rua em cima da foto do Bolsonaro, vejam os outros com essa mania de cuspir na cara das pessoas:

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perderam a noção de higiene, a noção de que os corpos devem ser mantidos a uma distância
suficientemente segura. Notem que o caos penetrou até na esfera das sensações físicas.
Aluno: Em sua opinião, a descrença nas instituições não propicia para que grupos de esquerda
permaneçam no poder com promessas limitadas com efeitos imediatos? Com a crise do atual sistema,
qual seria em sua opinião a melhor forma para a renovação?
Olavo: Muito bem, depende de quais instituições você está falando. Se forem instituições criadas para
gerar o caos, então eu não vejo como você se abster de criticá-las sob o pretexto de que derrubar as
instituições favorece os revolucionários. Se foram os revolucionários que criaram as instituições para
favorecer a revolução, então você respeitar as instituições é você respeitar a revolução. Você precisa
ver o seguinte: quaisquer instituições têm de se basear nos princípios universais do direito. A
instituição não vale por si só porque foi criada. Instituições que obrigam você ao impossível violam
os princípios fundamentais do direito. Instituições que criam uma desigualdade de acesso às
informações fundamentais violam o princípio do direito. A eleição que nós tivemos fez o país inteiro
ter o acesso vedado às informações fundamentais sobre o seu destino. Então você cria uma
estratificação social monstruosa: lá em cima está o Sr. Toffoli, que é o onissapiente, ele está sabendo
tudo, está controlando tudo e aqui em baixo estamos que nem baratas tontas, sem saber o que vai
acontecer. Então, estratificação social não é só por meio econômico, existem milhares de meios. E o
que este pessoal tem criado é uma estratificação monstruosa onde eles sabem tudo, eles podem tudo,
eles têm o controle da informação, têm o controle do fluxo das notícias e o povo em baixo, tem de se
virar, andar no escuro e dizer amém.
Então é isso aí gente. Até semana que vem e muito obrigado. Desculpem novos problemas técnicos,
mas não há o que possamos fazer, muita gente terá de assistir a aula na gravação. [1:35:00]

Transcrição: Francisco Jr. e Diogo


Revisão: Leonardo Yukio Afuso e Rahul Gusmão

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Política e Cultura no Brasil – História e Perspectivas
OLAVO DE CARVALHO

Aula 4
03 de maio de 2016

[versão provisória]
Para uso exclusivo dos alunos do Seminário de Filosofia.
O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.
Por favor, não cite nem divulgue este material.

Boa noite a todos, sejam bem-vindos.


Hoje eu queria explorar mais a fundo o tema do comunismo, de como que ele penetrou no Brasil e
qual a razão da sua influência avassaladora sobre o curso das coisas no Brasil. Porém, quando se fala
em comunismo é necessário, em primeiro lugar, afastar uma série de erros grosseiros que se
consolidaram na opinião pública – quando falo opinião pública não estou me referindo ao povão, mas
aos formadores de opinião, as classes falantes, como os chamava Pierre Bordieu, onde vemos pessoas
como Reinaldo Azevedo, Marco Antônio Villa, Magnolli, etc., opinando a respeito frequentemente a
partir de um ponto de vista barbaramente amadorístico. Mas, ainda que as opiniões sejam amadoras
e não fundamentadas, elas se consolidaram como senso comum, sobretudo no meio empresarial, entre
os liberais etc.
Em primeiro lugar, devo dizer o seguinte: eu não conheço um único liberal que tenha estudado
marxismo em profundidade, nem um único. Em geral não estão qualificados para estudar, não são
capazes de acompanhar aquele tipo de raciocínio. Em primeiro lugar, ninguém vai entender uma
palavra de Karl Marx se não passou um tempinho mergulhado no Hegel, neste o sujeito já quebra as
pernas, Hegel é uma [espécie de] mata-burro, o sujeito vai andar e já quebra as pernas ali mesmo e
não prossegue mais. Então, este assunto, o comunismo, não é para amadores, não é para palpiteiros
jornalísticos; é um negócio enormemente complicado, difícil, desafiador, que deveria mobilizar os
melhores cérebros de um país. Mas, o mito de que o comunismo acabou na URSS em 1990 se
espalhou de tal modo que até mesmo a disciplina de Guerra Revolucionária, que estudava o
comunismo nas academias militares, foi suprimida pelo governo do Sarney. Quer dizer, mesmo a
classe militar, que teoricamente estaria incumbida de proteger o país contra o perigo de guerrilhas
comunistas, de ataques por parte da Venezuela, etc., está totalmente desguarnecida e despreparada
para estudar o assunto. No máximo sobraram na cabeça deles algumas noções que pegaram de
informes da ABIN dos anos 70 – quando sabem alguma coisa sabem isso. Eu acho que o estudo do
comunismo no Brasil ainda está para começar, tudo tem de ser feito desde o início.
Em primeiro lugar, temos de estar conscientes de que nada se sabe sobre um movimento político
qualquer quando nos deixamos guiar pela sua definição dicionarizada. Eu estou aqui para dizer que
alguns de nossos formadores de opinião, tudo o que eles sabem a respeito do comunismo é mera
definição dicionarizada. “O comunismo é um movimento que visa criar uma sociedade sem classes
por meio da estatização dos meios de produção” – portanto, primeiro a estatização dos meios de
produção, depois, no fim, a sociedade sem classes – muito bem, este é o objetivo proclamado do
comunismo. Agora, se dissermos: “O que é a Igreja Católica?”. A Igreja Católica é uma entidade que
tem por finalidade levar as pessoas para o Céu – é assim que ela se auto-define. Vocês acham que a
partir desta definição vocês entenderam alguma coisa historicamente da Igreja Católica? Basta este
paralelo para vocês verem que o conhecimento que as pessoas têm do comunismo é puramente verbal,
não vai passar daí e, portanto, as conclusões que tiram a respeito são sempre estapafúrdias. Isso é
regra geral, eu não conheço uma única exceção.

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Eu conheço alguns comunistas que têm conhecimento sólido em marxismo. Conheci o Jacob
Gorender, o Nabor Caires de Brito, que eram homens que tinham uma compreensão profunda do
marxismo, eles não estavam ali para brincadeira. Hoje em dia, nem mesmo na esquerda, eu sei se
ainda existe isso. Na direita, entre liberais e conservadores, não tem nenhum, podem tirar o cavalo da
chuva, não existe nenhum. O que quer que este pessoal diga sobre comunismo ou é apenas uma efusão
emocional, ou é a repetição de argumentos retirados do Von Mises e do Hayek dos anos 20 e 30 que
continuam repetindo como se fosse a última novidade, ou não é absolutamente nada. Portanto temos
de começar do zero. Como começar?
Regra nº 1: os objetivos proclamados de um movimento político, de uma entidade, ou de uma
instituição, são parte dela evidentemente, eles existem e algum peso exercem no conjunto. Porém, o
processo de consecução dessa ideia, o trajeto a ser percorrido para chegar a essa ideia, nesse ideal,
nesse objetivo, vai consumir 99,999% dos esforços, pois é evidente que ninguém pode criar nenhum
tipo de sociedade se não tiver o poder para fazê-lo. Então, o problema que se coloca imediatamente é
o da conquista de poder e não o da construção da sociedade sem classes.
Mesmo que os comunistas tomem o poder, como aconteceu na URSS, a construção da sociedade sem
classes é um objetivo de remotíssimo prazo, porque primeiro é preciso remover os remanescentes da
classe inimiga – a burguesia – e isso pode levar décadas ou séculos. Podemos dizer que na URSS ou
na China, a construção da sociedade sem classes nem chegou a ser cogitada. O esforço todo foi para
destruir os resíduos da ex-classe dominante.
Além disso, temos de considerar outra coisa: um movimento político ou uma entidade qualquer que
atue na sociedade tem de ser considerada na sua materialidade, ou seja, nos seus meios de ação
materiais e na substância material efetiva de suas ações. O ideal pode surgir como uma espécie de
bússola: indica mais ou menos a direção na qual se está indo. Mas este negócio é tão remoto que
vejam, até mesmo o próprio Lula disse “nós não sabemos o tipo de socialismo que queremos” – isso
depois de estar no poder durante dez anos, já ter criado o Foro de São Paulo etc. Mas como eles
puderam fazer tudo isso sem saber aonde chegar? É porque o tipo de socialismo não é o objetivo
primeiro, nem o segundo, nem o terceiro. Eles têm uma série de etapas a serem percorridas para
chegar lá e isso qualquer líder comunista sabe. Por exemplo, Nikita Kruschev não ia ficar sentado na
sua mesa pensando em sua sociedade sem classes quando tinha problemas muito mais imediatos para
resolver. Que problemas eram esses?
Em primeiro lugar, fato básico do comunismo e que todos estes iluminados da mídia e da universidade
ignoram: o Movimento Comunista é o único movimento político mundial há 150 anos, é o único!
Prestem atenção, quando se fala de outros partidos, todos operam apenas em escala nacional. Por
exemplo, o Partido Republicano: existe um candidato Republicano a presidência do Paraguai? A
presidência a Serra Leoa? Não, não tem. Por exemplo, o Partido Democrata Cristão da Itália. Tem
um candidato do partido Democrata Cristão da Itália a presidência da Somália, que já foi uma
possessão italiana? Não, não tem. Então, o simples fato de usar a mesma palavra – partido – para
designar todos os partidos existentes e o Partido Comunista já leva a um equívoco. Metam isto em
suas cabeças: é o único movimento político que opera em escala mundial. Não há uma cidade do
mundo onde não se tenha pelo menos um representante do Partido Comunista – nas suas várias
versões, é claro, também tem as suas divisões internas. Este é o fato básico que tem de ser levado em
consideração.
Significa que mesmo quando se proclama, como Stálin, a construção do socialismo num só país, isso
tem de ser entendido de maneira limitada e até irônica, porque nunca houve uma época em que o
Partido Comunista atuasse tão intensamente no mundo inteiro quanto na época do socialismo num só
país; a grande expansão do comunismo para tudo que é lugar foi no tempo do Stálin. Socialismo num
só país era, vamos dizer, um programa nominal, não era uma orientação efetiva. “Nós vamos esquecer
o Movimento Comunista mundial e cuidar só daqui, da URSS” – não era isso, Stálin nunca fez isso.

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O caráter mundial do Partido Comunista é o fato básico, ou seja, vamos seguir uma linha de raciocínio
puramente materialista: “Os ideais são os ideais e ninguém está com pressa de realizá-los mesmo
porque Karl Marx disse que levaria séculos; Lênin também disse que levaria séculos” – portanto,
ninguém está com pressa de chegar à sociedade sem classes, mas enquanto isso nós vamos ter de
fazer alguma coisa para adquirir os meios para, um dia, instituir a sociedade sem classes – estes meios
chamam-se “poder”. Então, o Partido Comunista é uma organização mundial incumbida de tomar o
poder em escala mundial. Porém, o que é escala mundial? É uma variedade imensa de situações locais.
Por exemplo, quando Mao Tsé Tung estava empreendendo a sua guerra revolucionária ele chegou à
conclusão de que ele precisava mobilizar os camponeses. Seria a “grande guerra revolucionária
operário-camponesa”. Do ponto de vista do marxismo clássico, de Marx e Lênin, isso era um absurdo
porque os camponeses, no esquema das classes tal como delineado por Marx, eram a classe mais
reacionária que existia; os camponeses eram inimigos naturais do proletariado urbano. E Mao Tsé
Tung de fato conseguiu mobilizar os camponeses e fez a sua guerra revolucionária com sucesso –
isso já seria um absurdo nos termos do marxismo clássico. Mas, o marxismo sempre tem essa
maleabilidade, ele se adapta à circunstância e, ali, se adaptou muitíssimo bem.
Quando, por outro lado, Trótski falava de revolução mundial, não podemos esquecer que a facção
trotskista, chamada Quarta Internacional, era um bando de gatos pingados que tinha um pouquinho
em cada país e não podia fazer a revolução sequer em um país. Portanto, Stálin, quando falava do
socialismo num só país, era uma camuflagem; e Trótski, quando falava da revolução mundial, era
apenas uma bolha de sabão. Logo, nem socialismo num só país, nem revolução mundial, trata-se de
alguma coisa completamente diferente.
Agora, imaginem o seguinte: o que é administrar um movimento político em escala mundial, que
existe na Zâmbia, na Serra Leoa, no Paraguai, no EUA, na França, na própria Rússia etc.? Como se
faz isso? Vocês acham que é fácil? Acham que basta pegar uma formuleta ideológica e implantar
aquilo para todo o mundo igualzinho? Dizer: “Vocês saiam e preguem isto assim e assim etc.”. É
assim que pensam e imaginam o comunismo idiotas como Marco Antônio Villa ou Reinaldo
Azevedo. São pessoas que não são capazes de partir de um conceito abstrato para dar substância real
a este conceito, isto é, pensar o objeto das suas afirmações não apenas como um conceito abstrato ou
como uma palavra, mas pensar como uma coisa real. O conceito abstrato é o mesmo considerado na
abstração e na coisa real. Se tomarmos, por exemplo, o conceito de “vaca”, ele é o mesmo no
dicionário e na vaca, só que a vaca real tem algo além de sua definição: tem as condições que
possibilitam a sua existência. Por exemplo, na definição da vaca não faz parte a grama, não faz parte
a ração, não faz parte o estábulo, não faz parte o dono da fazenda, não faz parte um monte de coisas,
tudo isso não está na definição, mas sem isso a vaca não existe.
Uma das grandes dificuldades no ensino da filosofia é ensinar às pessoas a tentar pensar não somente
com os conceitos abstratos, mas preenchendo-os das condições reais que possibilitam a existência
daquilo. Ou seja, se tem uma essência, mas essências são apenas conceitos. A essência não basta, tem
de haver a existência. A essência tal como está na existência e não como está no mero conceito
abstrato. Isso aqui é uma coisa absolutamente básica.
Eu estava aqui dando um exemplo de como as pessoas raciocinam só com conceitos abstratos
separados da realidade da sua materialização, por assim dizer, daí apareceu uma moça defendendo a
ideia dos banheiros unissex. Muito bem, mas como vão realizar isso aí? Serão só os transexuais que
terão acesso aos banheiros femininos ou todos os homens? Se forem todos os homens, vai acontecer
o seguinte: o transexual quer entrar no banheiro feminino porque se sente constrangido no banheiro
masculino, mas quando ele entrar no banheiro feminino estará cheio de homens. É isso que querem?
Não, não pode ser. Então vamos pensar na hipótese oposta: só os transexuais entram. Muito bem, o
que é um transexual? É uma pessoa que está vestida de mulher? Isso não pode bastar. É preciso que
seja um transexual bona fide, como dizem, um transexual de fato. Qual é a prova de que ele é um
transexual? Estar vestido de mulher não basta. Outra coisa: pode ser que o transexual esteja vestido

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de homem naquele momento, pois nem todos se vestem de mulher o tempo todo. Então será preciso
uma prova de transexualidade autêntica. Para quem vão mostrar a prova? Então deverá ter um porteiro
com uma regulamentação, varas especializadas de justiça, ia ser uma burocracia infernal
simplesmente para entrar num banheiro. Isso é necessariamente assim. Há pessoas que dizem: “Isso
pode aumentar o número de estupros”. Eu digo: “Não, isso aí é uma possibilidade, mas eu estou
raciocinando não as possibilidades e sim as condições necessárias da materialização da ideia, coisas
que vão acontecer necessariamente, não as que podem acontecer”. Então, tem várias coisas que será
preciso definir na transformação da ideia em realidade, será preciso tomar várias decisões legais, por
assim dizer. Então, uma decisão: o homem tem acesso ao banheiro feminino só na porta principal ou
também nas portas das privadas? No primeiro caso estarão assegurando que a pessoa tenha o direito
à privacidade só na privada. Agora, e os homens? Os homens não fazem pipi na privada, eles fazem
pipi em público. Se as mulheres não forem obrigadas a fazer pipi em público também, então elas
estão sendo discriminadas. Isso é um conflito que vai surgir necessariamente, não é como a
possibilidade de um estupro. Talvez não aumente o número de estupros. Pode ser que aumente, pode
ser que não aumente. Mas essas coisas que eu estou falando não são possibilidades, são exigências
reais que decorrem da transformação do conceito em coisa. Entendem como é isso? É como passar
do tridimensional para o plano.
Vejam, outro dia eu estava aqui querendo construir uma garagem e fui fazer a planta dela. Eu tinha o
conceito da garagem na minha cabeça. Para transformar não numa garagem tridimensional, mas numa
simples planta, eu tive de tomar um monte de decisões que não tinha tomado antes; e da planta para
a coisa tridimensional, outras tantas decisões. Qualquer projeto humano tem isto: ele consiste não na
sua ideia geral abstrata, mas na coisa e na situação real que vai ser criada. A maior parte das pessoas
não é capaz de fazer essa transição, não têm treinamento suficiente para isso. Elas pegam uma palavra,
pegam um conceito dicionarizado e tiram conclusões lógicas a partir delas. É assim que as pessoas
pensam. O Marco Antônio Villa não chegou a dizer que o PT não é um partido comunista porque ele
jamais pregou a socialização total dos meios de produção? Ele disse isso. O que é isso aí? É uma
conclusão tirada de uma definição de dicionário.
Ora, para estudar o Movimento Comunista nós temos de considerá-lo não no seu discurso ideal e
pretextual, mas na totalidade da sua existência material no mundo, da sua ação efetiva no mundo. E
quando tentamos conceber essa ação efetiva, vemos que é uma coisa de uma complexidade
monstruosa. Imaginem um alto funcionário da KGB incumbido, por exemplo, de coordenar os
trabalhos na América Latina. Só na América Latina ele já encontra uma variedade de situações
alucinante, pois as condições não são as mesmas em todos os países. Em alguns países pode haver já
uma tradição de Movimento Comunista, de modo que uma propaganda ostensivamente comunista
possa funcionar, mas em outros países não.
Além disso, tem o problema da etapa, porque a transição do capitalismo para o socialismo é vista
como uma etapa do desenvolvimento histórico. Essa etapa, por sua vez, se divide em inumeráveis
sub-etapas conforme o estado de desenvolvimento das forças produtivas. Por exemplo, em 1964
surgiu dentro do Partido Comunista uma discussão de “se o Brasil tinha ou não uma burguesia
nacional capaz de se aliar ao Partido Comunista”. O que é uma burguesia nacional? É uma burguesia
capitalista que tem interesses antagônicos ao capital estrangeiro. Uns diziam que sim, outros diziam
que não. Vocês sabem a resposta? Eu não sei. Então, naquela época surgiu este bafafá pois daí
deveriam derivar duas estratégias opostas.
Primeira: a estratégia de uma aliança com a burguesia nacional, portanto não iriam pregar
comunismo, iam pregar democracia, eleição direta, etc., para daí, tendo conquistado as liberdades
democráticas, o Partido Comunista tenha um espaço a mais para agir. Segunda: se não existe a tal da
burguesia nacional, então não adianta fazer aliança com ninguém, teriam é que partir para o pau – as
guerrilhas surgiram disso aí. Existe um livro do Caio Prado Júnior, A Revolução Brasileira, que toma

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o partido dessa última alternativa, enquanto o comitê central do partido, o Prestes e outros,
advogavam a continuidade da antiga estratégia da luta com a burguesia nacional.
Agora, imaginem como seria a situação num país africano onde a maior parte da população é tribal.
Por exemplo, na história da África do Sul, existe uma facção do Partido Comunista constituída
inteiramente de indígenas, população tribal, que se dedicavam à causa comunista de corpo e alma e
tiveram uma importância extraordinária. Porém, se são tribais, não fazem parte nem do proletariado,
nem do campesinato, eles são uma terceira coisa. E quais são os interesses de classe dessa gente?
Como articular esses interesses de classe, que é o interesse de uma tribo, na verdade, com a estratégia
global dos comunistas?
Mais ainda, dentro mesmo de países que correspondem mais esquematicamente à descrição
sociológica de Karl Marx, temos o problema da convivência entre as várias classes. Por exemplo, nos
anos 30, era mais ou menos doutrina oficial que a classe média é inimiga natural do comunismo e ela
tende naturalmente ao fascismo. As diferenças entre comunismo e fascismo, na verdade, em muitos
aspectos são irrelevantes, mas até certo ponto isso se verificou. Só que hoje nós sabemos que quem
mais contribuiu em dinheiro para a formação do partido nazista foi o proletariado alemão. A classe
média estava lá fornecendo mártires antinazistas a toda hora. E, mais ainda, se nós procuramos a
história dos líderes comunistas ao longo do desenvolvimento europeu, vemos que o número deles
pertencente ao proletariado é ínfimo, quase nulo – eram quase todos eles de classe média ou alta.
Como é que se administra isso? Por exemplo, quando um destes líderes falha, os outros dizem: “Ah,
é que ele ainda tem um resíduo de classe média”. Então ele tem uma tendência ou fascista, ou
anarquista, ou irracionalista, alguma dessas coisas. Porém, o próprio sujeito que fala isso também tem
um resíduo de classe média. Imaginem a complexidade da administração dessas coisas.
Isso quer dizer que se pegarmos a totalidade da ação dos partidos comunistas no mundo, não veremos
nenhuma unidade ideológica nessa coisa. Porque os discursos que têm de ser levantados nas diferentes
situações são distintos e, portanto, têm várias formas ideológicas. Por exemplo, no Brasil é clássico
o discurso nacionalista como instrumento do Partido Comunista, aqui ele sempre fomentou o
nacionalismo brasileiro. Mas que nacionalismo? O culto dos heróis nacionais, o culto dos símbolos
nacionais, o culto da história nacional? Não, é o culto ao anti-imperialismo ou anti-americanismo e
só – aliado, um pouco, ao senso de propriedade do solo, tipo “o petróleo é nosso”.
Pelos fatores que eu analisei na aula anterior, já vemos que existe a tendência brasileira a um
nacionalismo geográfico, por assim dizer. Em todo lugar os movimentos nacionalistas se baseiam na
história, nos grandes feitos em comum da população, nos heróis etc. No Brasil não, se baseiam
eminentemente num fator material, que é a posse do território. “São as nossas riquezas minerais, o
petróleo é nosso etc.” – já é um nacionalismo sui generis. O Partido Comunista viu nisso uma grande
oportunidade, pois se o nacionalismo é baseado no senso de propriedade da terra, então isso
naturalmente coloca o país em antagonismo com interesses estrangeiros que visam a propriedade da
mesma terra. Conclusão, durante longos anos não haverá discurso comunista em público, só haverá
discurso nacionalista. E impulsionado por quem? Pelo Partido Comunista e assim por diante.
A simples necessidade de adaptar o Movimento Comunista à variedade de situações locais já faz com
que se torne irreconhecível nele a presença do ideal da sociedade sem classes, porque ele não está
falando disso em parte alguma, isso aí aparece como uma referência muito longínqua. Em nenhum
lugar é disto que se trata: “Ah, nós vamos criar aqui no Paraguai a sociedade sem classes; vamos criar
na Zâmbia a sociedade sem classes”. Para criar uma sociedade sem classes é preciso partir das classes
existentes e elas não são as mesmas, a grade de hierarquia social não é a mesma em toda parte. Isso
quer dizer que só podemos entender o comunismo como um movimento mundial voltado à conquista
do poder em toda parte e pelos meios mais variados e imprevisíveis e, portanto, com as justificativas
ideológicas mais variáveis e imprevisíveis. Então, a pergunta é: “Se ele não tem unidade ideológica
e não há unidade de discurso, onde está a unidade então?”.

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Esse é outro item absolutamente fundamental para entender o comunismo: a unidade do comunismo
é do tipo hierárquico, é a obediência a um comando estratégico que determina as variações locais, as
controla e as administra, usando o acelerador e o breque e vários outros instrumentos. O comunismo
tem de ser entendido como uma organização material, tão material quanto um exército ou um Estado,
porém uma organização transnacional, transestadual e transcontinental. Por que quando o Fidel
Castro começa a organizar a sua guerrilha ele convoca uma conferência tricontinental? Isso já mostra
que o Movimento abrangia, no mínimo, três continentes – na verdade mais do que três. Hoje o que
vemos, qual a versão atual? É o BRICS. O BRICS tem países de quatro continentes: Europa, América
Latina, África e Ásia.
Isso quer dizer que o comando dessa coisa é um negócio enormemente complicado. A central de
comando está onde sempre esteve: na KGB, obviamente. Não está no governo soviético, isso é
importantíssimo entender. O governo soviético se constituía do comitê central do partido, do governo
constituído com seus ministérios, e da Duma (ou parlamento) – isso é o governo soviético. A KGB é
outra coisa. Essa, teoricamente, é um órgão do governo soviético, mas acontece que ela é muito maior
do que o governo soviético. A KGB é a maior organização de qualquer tipo que já existiu no mundo.
Só dentro da URSS ela tinha mais de 700 mil funcionários – depois diminuiu um pouco, hoje está
entre 300 e 400 mil – e que tem uma rede de colaboradores mundial. Os russos sempre tiveram a
mania de registrar tudo, os arquivos soviéticos contêm tudo. O acervo da KGB consistia-se de oito
bilhões de dossiês – na época em que fizeram a mudança de sede, [0:30] que foi coordenada por um
agente russo que escreveu um livro junto com o historiador Christopher Andrew, The Sword and the
Field, ele era o cara encarregado de fiscalizar a entrada e saída dos documentos no transporte de um
edifício para outro e só o transporte destes documentos levou dez anos. Então vocês imaginem a
abrangência do campo de informações que essa gente tinha de administrar. Comparado com isso a
CIA é uma escolinha de bairro, a CIA não tem essa abrangência. Hoje, talvez, está lutando para ter.
Só que eles estão muito atrasados nisso aí. Não podemos esquecer que os EUA não tiveram um
serviço secreto para atuar no exterior até a segunda guerra mundial. Na segunda guerra, a KGB já era
uma potência e o EUA, pela primeira vez, foi que tentou criar a OSS (Office of Strategic Services),
o que depois virou a CIA. A OSS foi criada durante a guerra, nesse tempo os EUA eram aliados da
URSS, então não havia prevenção contra a presença de agentes comunistas ali dentro. Resultado: a
OSS estava repleta de agentes comunistas e assim nasceu a CIA. A história da CIA é recheada de
contradições e absurdidades por causa dessa origem. A KGB não tem concorrentes. Não teve e não
tem. Nada se compara com o tamanho da KGB. E, é ali que se dá o controle dos movimentos
comunistas nos vários lugares. Isso quer dizer que, às vezes, nem o governo soviético sabia o que eles
estavam fazendo. O parlamento soviético e o ministério soviético jamais tiveram acesso ao orçamento
da KGB, eles não sabem quanto dinheiro tinha na KGB – isso é a mesma coisa que dizer que
praticamente só a KGB tem dinheiro.
Nós só podemos entender o Movimento Comunista se o tomarmos nessa sua materialidade, na
variedade das estratégias e sub-estratégias locais e na articulação dessas várias estratégias num único
objetivo. Qual é o objetivo? A sociedade sem classes? Talvez. Antes da sociedade sem classes
precisamos ter o poder. Isso quer dizer que 100% do esforço é para a conquista do poder – “Quando
tivermos o poder total, aí pensaremos na sociedade sem classes”. Porém, o poder total quer dizer
chegar ao governo? Não. O poder total é a extinção total da classe antagônica, a qual só começa a ser
um problema a partir do momento em que se toma o poder. Como extinguir a classe antagônica?
Matando todos? Não dá. Mesmo porque, se forem liquidar com os burgueses, no período em que
estiverem fazendo isso, é absolutamente necessário que o capitalismo continue funcionando.
Imaginem: eles tomam o poder e no dia seguinte todas as empresas vão embora, todos os burgueses
fogem: o país faliu, não tem nem o que administrar. Logo, é preciso que o capitalismo continue
funcionando durante o período da sua própria extinção – isso é fundamental no Movimento
Comunista. Então, como se faz para extinguir o poder da burguesia? Não é matando todos, não é
prendendo todos, não é mandando todos para el paredón ou para o gulag – é usando duas coisas:
inflação e impostos. Quem disse isso? Lênin.

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Vejam, Lênin toma o poder, não numa eleição democrática como o Lula, mas no bojo de uma
revolução sangrenta, ou seja, ele tem o poder total sobre o governo desde o primeiro dia. Mas este
poder total é só sobre o governo, não sobre toda a sociedade. Ele vai precisar estender este poder a
toda sociedade e para isso ele precisa destruir a classe antagônica e para isso só tem um jeito: é
aumentado impostos e criando inflação. A burguesia vai se tornando cada vez mais dependente do
governo até que se torne um órgão dele e a partir daí ele mete um comissário político dentro de cada
empresa, onde será ele quem manda. O empresário continua sendo o dono nominal, por algum tempo.
Depois ele tira até a posse nominal. Este processo é enormemente complexo e demorado, sem contar
também a variação das situações locais dentro da própria URSS, onde se tinha desde cidades com um
parque industrial imenso até uma imensa extensão de terras onde vigorava apenas uma economia
agrícola. Em outros lugares não tinha nem isso, se vivia ainda de uma economia extrativista. Como é
que se administra isso aí?
Por exemplo, Stálin criou muita fama dentro do Movimento Comunista como comissário das
nacionalidades. Quer dizer, a URSS abrangia muitas nações, com línguas diferentes e também a
variedade das situações locais exigia uma variedade de estratégias e táticas diferentes. Como
organizar e unificar tudo isso? Foi o Stálin quem fez este negócio. Stálin era um linguista, ele
compreendia as várias linguagens das nações – na verdade ele fez um belo trabalho – e ele sempre
conseguiu manter a unidade da URSS por baixo da diversidade de interesses nacionais sempre em
conflito. É claro que uma parte dos conflitos ele resolveu na base da brutalidade, mas outros não. Por
exemplo, havia lugares onde se podia impor o russo como língua oficial, já em outros lugares não
podia, ele teria de aceitar uma duplicidade de linguagens ou então tinha de promover a língua nacional
mesmo. E assim por diante. Então, só para administrar a coisa dentro de um só “país” – na verdade
eram muitos países – a coisa já era de uma complexidade imensa.
Isso quer dizer que não vão reconhecer o Movimento Comunista pela sua unidade ideológica em parte
alguma. O Movimento Comunista pode lançar qualquer bandeira que interesse ao aumento do seu
poder. Isso aí pode ser, por exemplo, o livre-comércio: Karl Marx sempre defendeu o livre-comércio,
porque se não houver livre-comércio, o intercâmbio internacional é frouxo e daí não podem exportar
a revolução para parte alguma. É preciso, naturalmente, a livre entrada de revolucionários em todas
as nações. Se não houver livre-comércio, fecha a fronteira: “E agora? Como vamos fazer para botar
os agitadores lá dentro?”. Hoje em dia vemos o pessoal achando que a coisa mais antagônica ao
comunismo é o livre-comércio. Por quê? Porque vão pelo conceito abstrato. Nem estudaram Karl
Marx, nem Lênin, nem coisa nenhuma. Quer dizer, este pessoal só pensa de uma maneira simplória,
que é para um comunista ler aquilo e dar risada, pelo menos um comunista profissional mesmo, às
antigas.
Só vamos reconhecer a presença da ação comunista pela via organizacional, não é pelo discurso
ideológico, não é pelas bandeiras levantadas. Por exemplo, o comunismo pode ser internacionalista
ou anti-nacionalista – em certos momentos, como foi na primeira guerra – e em outros lugares ele
pode promover o nacionalismo: como fez na África; ou como fazem na América Latina, porque
descobriram que os interesses nacionais têm um potencial anti-imperialista ou anti-americano e,
portanto, é preciso explorá-lo.
Mais ainda: uma coisa é luta de classes, outra coisa é luta de potências. Não há medida comum entre
essas duas coisas. Ora, eles dizem: “Nós queremos derrubar a burguesia”. Mas no momento existe
um outro treco que se chama “imperialismo americano”. Então: “Nós estamos lutando contra a
burguesia americana? Não pode ser, porque nós precisamos dela para sustentar o Partido Comunista”.
Essa foi a instrução que Stálin deu aos agentes comunistas no EUA: “Esqueçam o proletariado,
cultivem os burgueses e o beatiful people das artes e espetáculos, porque estes vão dar dinheiro para
sustentar o movimento”. Então não é a burguesia americana que estão combatendo, é o Estado
americano e a civilização americana, é isso que é preciso combater, mas sem tocar nas grandes
fortunas. Vejam como isso pode ser enormemente complicado. Isso quer dizer que um discurso anti-

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burguês, no EUA, só servia para enganar trouxa – aqueles imigrantezinhos italianos que tinham
chegado à véspera, estes ainda acreditavam nisso. Mas o pessoal que estava atuando efetivamente no
Partido Comunista, os revolucionários profissionais, nem tocavam na burguesia, ao contrário, tinham
as melhores relações – como têm até hoje. Vejam que se não fosse a grande burguesia americana, a
esquerda latino-americana já teria acabado há muito tempo. Se não fosse a fundação Ford, fundação
Rockfeller, fundação MacArthur, George Soros, Zuckerberg, o pessoal da Microsoft, etc., já teria
acabado.
Num determinado país o Movimento Comunista pode estar seguindo o discurso ideológico clássico
da destruição da burguesia e do poder proletário, mas em outros lugares ele pode ter de fazer um
discurso completamente diferente. As pessoas (amadoras) olharão e não reconhecerão a unidade disso
porque estarão procurando uma unidade ideológica e publicitária, uma linguagem publicitária, e isso
não existe. Estão entendendo a monstruosidade do erro que essas pessoas cometem ao estudar o
comunismo?
Não há unidade ideológica, não há unidade de discurso, não há uma unidade sequer de objetivos. Só
há uma unidade: a unidade do comando. E se perguntarem: “De onde vem o comando do Movimento
Comunista Internacional, hoje?”. Vem de onde sempre veio: da KGB. E, em estreita associação com
o serviço secreto chinês. É tudo uma obra de serviço secreto. Vejam, o serviço secreto, no ocidente,
basicamente consiste em coleta de informações essenciais para a segurança nacional. Mas o serviço
secreto no mundo comunista não é isso, o serviço secreto é tudo: ele dirige a educação, as publicações,
as normas morais, a literatura, as artes; tudo isso estava e está sob a administração da KGB (que hoje
chama FSB) até hoje.
Quer dizer, é muito difícil dizer quem está no comando. Procurem um grande líder: não vão achar
grande líder algum, o grande líder não manda nada comparado a KGB. Gorbachev, quando estava lá,
comparado com a KGB não era nada. Yeltsin também não.
Vejam, com todas as transformações que a Rússia passou, quem terminou na chefia? O chefe da KGB
– como não poderia deixar de ser. E vai continuar sendo sempre assim. Não há a menor possibilidade
da Rússia se transformar numa democracia, nem a China. Eles estão comprometidos com isso, eles
só sabem fazer isso. Qual o objetivo chinês no Brasil? Implantar a sociedade sem classes? Ora, vocês
estão brincando comigo?! O chinês está lá para comprar tudo a preço de banana. E promover o quê?
O capitalismo chinês, que é dependente do governo chinês. Quem é o maior investidor na China? É
o Exército Chinês. Então isso quer dizer que a ocupação econômica através das indústrias chinesas já
é ocupação militar virtual. E o empresário brasileiro – como sempre tão sábio; no Brasil, o sujeito
recebeu dinheiro do pai ele já acha que ele é Albert Einstein – diz: “Ah, os chineses mudaram, eles
não são mais comunistas, eles só querem fazer negócios”. É assim que os caras pensam, meu Deus
do céu! Porque não entendem a complexidade, a diversidade de situações, ou como dizia Trótski “o
desenvolvimento desigual e combinado”, isto é, há vários países em diferentes estágios do
movimento, da transformação revolucionária, e é preciso variar a sua estratégia e tática em cada um
conforme a situação local.
Eu estou falando tudo isso sem contar a possibilidade de erros – como cometeram no Brasil. Aqueles
que apostaram na guerrilha não sabiam que eles só iam servir para uma coisa: de garotos-propaganda
para outra facção do partido depois de mortos. À facção gramsciana que foi pela aliança com a
burguesia nacional, tomaram o MDB e através do processo eleitoral foram subindo e acabaram
dominado tudo, os guerrilheiros serviram para isso. O que mostra que a guerrilha não era uma
estratégia, a guerrilha era apenas uma tática errada que servia à estratégia contrária. Então, as
guerrilhas foram um erro evidentemente, mártires haveria de qualquer jeito e, aliás, seria até melhor
se não fossem guerrilheiros: se o governo começasse a matar apenas operários militantes desarmados,
a propaganda funcionaria muito melhor, ou então estudantes – como a morte daquele rapaz, Edson
não sei o quê, que foi explorada num movimento nacional. Quer dizer, se as vítimas fossem só pessoas
desarmadas a propaganda seria até mais convincente, mas como nós sabemos que pelo menos metade

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dos caras que morreram eram guerrilheiros armados, bom, não nos comovemos muito com suas
mortes – só eles mesmos se comovem.
A concepção estratégica de qualquer dirigente comunista consciente implica um horizonte de
consciência enormemente maior do que qualquer liberal ou conservador na praça. Aqui no EUA,
quantas pessoas compreendem o Movimento Comunista? Em outras épocas houve bastante gente,
hoje são poucos. Eu destacaria o Jeffrey Nyquist, a Diana West e, sobretudo, o Robert Chandler –
este livro dele é indispensável e deveria ser publicado no Brasil; este sujeito, em 2008, já estava
escrevendo sobre o Foro de São Paulo, não só falando dele, mas mostrando o encaixe do Foro dentro
da estratégia global comunista.
A partir dos anos 80, antes da queda da URSS, o Partido Comunista já havia feito algumas
modificações estratégicas globais. A primeira delas foi a absorção de outras facções comunistas, isto
é fundamental: o Movimento Comunista estava muito dividido, esfacelado, em facções antagônicas;
estava difícil administrar isso. Então decidiram abdicar da unidade ideológica, da unidade do
discurso, completamente e deixar entrar qualquer um que estivesse contra o imperialismo ou contra
o ocidente. Aí o movimento se abre para todas as tendências que nasceram com a escola de Frankfurt,
cujas doutrinas foram inicialmente rejeitadas pelo Estado Soviético.
A escola de Frankfurt não se origina em Frankfurt, mas em Moscou. Quem a criou foi Georg Lukács;
ele foi lá com essa proposta, várias teorias que, na época, soaram escandalosas. Uma delas é a teoria
da consciência possível, ou seja, não adianta apostar na consciência que o proletariado tem da sua
situação porque ele não tem nenhuma; nós temos de apostar na consciência que ele pode vir a ter – é
um pouco a teoria leninista do proletariado honorário: “Passa a ser proletário quem você nomeou
como proletário”. Em segundo lugar, Lukács dizia que a luta de classes é secundária, o principal é a
luta civilizacional: “O nosso obstáculo não é a burguesia, o nosso obstáculo é a civilização cristã
ocidental; sem derruba-la, nós jamais derrubaremos a burguesia porque a burguesia está protegida
sob uma carapaça cultural e civilizacional que são os valores cristãos, a cultura burguesa tal como ele
a entendida”. Ele queria mudar completamente o sistema de prioridades, a escala dos alvos
prioritários. Na concepção dele a luta cultural se tornava na prioridade número um e todas as outras
seriam subordinadas a ela. Na época isso soou escandaloso porque parecia contrariar a teoria da
infraestrutura e superestrutura. Karl Marx dizia que a organização da economia é a infraestrutura e
que a ideologia, a cultura, etc., era apenas um adorno construído em cima disso, é um adorno
justificatório de um estado de coisas na economia. E o que o Lukács estava dizendo parecia contrariar
isso aí, então na URSS ninguém quis saber isso aí. Mandaram ele de volta para o ocidente e lhe
disseram: “Você vai fazendo isso aí lá na Alemanha, na Hungria, onde você quiser, aqui não”.
Mas acontece que o negócio deu certo. A partir dos anos 80 a estratégia do Georg Lukács foi
realmente adotada pela URSS, quer dizer, os alvos culturais se tornaram prioritários e uma série de
bandeiras – de objetivos, ou de ideais, que antes eram desprezados pelo Movimento Comunista por
serem ideais “pequeno-burgueses” tingidos de irracionalidade, como vocês vão ver no próprio livro
do Lukács, A Destruição da Razão, já aparece tudo isto: feminismo, abortismo, gayzismo, liberação
de drogas, etc; o comunismo inicial até um certo ponto desprezava essas coisas, desprezava mas não
deixava de usá-las, usava, por assim de dizer, de maneira episódica –, começam a serem usadas
sistematicamente.
Então, nós podemos dizer que as ideias da escola de Frankfurt foram finalmente absorvidas pelo
Movimento Comunista Internacional e é daí que surge este florescimento enorme de reinvindicações
“pequeno-burguesas”, individualistas, etc. Querem uma coisa mais individualista do que o sexo? O
sujeito que está pensando em sexo pensa na vida sexual dele, não na do vizinho. Explorar interesses
sexuais não atendidos é explorar o individualismo das pessoas, mas o individualismo também pode
ser posto a serviço da máquina publicitária comunista, porque é criador de antagonismos e vai acirrar
as contradições. Não são contradições de classe – prestem atenção! Por exemplo, entre um gay e um
hétero há um conflito, mas não é um conflito de classes, os dois podem pertencer à mesma classe.

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Pode ser até que o gay seja um bilionário e o hétero conservador seja um pé rapado, aliás, isso
acontece. Nós sabemos que o povo brasileiro, o povo das camadas mais pobres, é 100% contra essas
coisas e nas classes altas tem inúmeros adeptos – classes altas, beautiful people, televisão, cinema
etc. Portanto, não é um conflito de classes, mas no conjunto serve à guerra civilizacional que é
essencial para a tomada do poder. A questão do conflito de classes e da destruição da burguesia pode
e deve ficar para depois, porque não se pode destruir a burguesia antes da tomada do poder. Aliás,
nem imediatamente depois, pois é preciso que ela continue trabalhando; não se trata de destruí-la,
mas de substituí-la gradativamente. Mesmo que não mude o sistema – que pode continuar capitalista
durante muito tempo – o que importa são os agentes que estão ali, o que importa é a submissão dos
grandes grupos econômicos à estratégia geral comunista.
Quando temos esses conceitos na mão – e acho que esses conceitos são absolutamente irrefutáveis,
isso é exatamente assim, não tem como não ser – então vemos, em primeiro lugar, que a visão que as
pessoas têm do comunismo nas classes falantes brasileiras é simplória, é bocó e perfeita para fazer
deles idiotas úteis. Em segundo lugar, a gente acaba vendo que a influência do Movimento Comunista
na política brasileira é imensamente maior que do que aquilo que a gente podia imaginar. Qual é a
tradição dominante nessa política? É a tradição trabalhista-getulista, do estado assistencial. Essa
política serve obviamente aos interesses do Movimento Comunista, que sempre a apoiou.
Se vocês perguntarem: “O outro lado esteve no poder por quanto tempo?”. Esteve durante os sete
meses do governo Jânio Quadros, e só. Depois esteve algum tempo com o Collor. Vejam a facilidade
com que o país se livrou desses dois governantes: isso basta para vocês medirem a força da influência
comunista. O Movimento Comunista domina o cenário político nacional há décadas, quando veio o
governo militar prometendo eliminar o comunismo, o que ele fez? Seguiu as mesmas políticas
estadistas e assistencialistas do Partido Comunista, porque a imaginação dos caras não vai além disso.
E, mais ainda, porque os militares não fizeram nenhuma propaganda anti-comunista? Por inibição
mental. É aquela ideia de “não vamos falar por que isso vai dar força ao inimigo” – é a política do
avestruz, eles acham que não falando do adversário ele não vai adquirir força. Eles mesmos se
colocam dentro da espiral do silêncio e acham que com isso estão negando publicidade ao inimigo –
como se eles estivessem loucos para obter publicidade.
O Movimento Comunista tem outra característica que é permanente: ele sempre tem dois andares,
uma fachada pública e uma fachada clandestina, mesmo onde o partido está legalizado; e o comando
está sempre e necessariamente na parte clandestina. Se houver líderes comunistas de alta projeção,
eles não estão no comando; o comando está sempre em baixo. Dentro da própria URSS: quando
vemos políticos soviéticos brilhantes, das duas uma: ou é um homem da KGB, ou não manda nada.
Se for homem da KGB, como o Putin, ele manda não pelas suas ações públicas, mas por ações
clandestinas como, por exemplo, mandar matar os adversários. O Putin condena alguém à morte
publicamente? Não, alguém vai lá e some com o adversário. Então, o poder do Putin se baseia
fundamentalmente em métodos de ação clandestinos, ação da KGB, e não na política normal – política
eleitoral, legislativa etc. A variedade das estratégias requerida para manter um governo mundial dá
ao Movimento Comunista uma elasticidade de discurso que é uma coisa monstruosa. Por exemplo,
há ali desde a pregação ateística oficial soviética até a teologia da libertação.
Hoje eu estava ouvindo um rapaz que fez uma gravação dizendo: “Olha, enquanto os soviéticos se
infiltravam na Igreja Católica e a dominavam, a CIA não ficou quieta, a CIA começou a fomentar
estas igrejas protestantes que fazem a teologia da prosperidade etc.”. A CIA fez isso? Digo: “Está
bem, repito para você a mesma pergunta que faço aos comunistas que dizem que a CIA fez o golpe
de 64: cite-me o nome de um agente da CIA lotado no Brasil”. Não tem nenhum. Ora, de onde veio
esse negócio da teologia da prosperidade? Veio do liberalismo ateu, meu Deus do céu. Eles vão
concentrar as coisas no lado econômico, promover a livre empresa, fomentar a atividade capitalista e
fugir das questões básicas. Em segundo lugar, a tal da teologia da prosperidade entrou no Brasil
fazendo muito mais propaganda anti-católica do que propaganda anti-comunista. Eu não vejo um

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pastor falar de comunismo, mas eu vejo os caras toda hora: “Não, este negócio de Maria é idolatria,
a missa não vale nada, o Papa é satanista”. Isso eu vejo eles falarem toda hora. Então, em que
estratégia isso está inserido? Na da CIA? O que é que a CIA pode ter a ver com isso?
Este imenso movimento – o crescimento das igrejas evangélicas no Brasil – em parte, tem um certo
potencial anti-comunista, mas é só um potencial, isso não apareceu ainda, não está atuando. Não
vemos ninguém fazendo discurso anti-comunista – há um ou dois. O Marco Feliciano por quê? Porque
eu disse para ele fazer isso e ele entendeu, esse homem é inteligente, ele entendeu. Mas vejam, de
modo geral, o crescimento das igrejas evangélicas contribuiu para entregar a Igreja Católica mais
ainda na mão da teologia da libertação. Hoje nós podemos dizer que a teologia da libertação domina
a Igreja Católica 100%, os focos de resistência que há são de pessoas isoladas, ou que sobraram de
outras épocas, ou que se informaram – como o Padre Paulo Ricardo e outros. Mas institucionalmente
a Igreja Católica está nas mãos dos teólogos da libertação.
E daí o fenômeno do PT. O livro do Luís Mir, O Partido de Deus, está muito certo ao dizer que foram
as comunidades eclesiais de base que geraram o PT. Só que ele acredita que as comunidades eclesiais
de base agem a favor da Igreja, para consolidação da Igreja, quando na verdade se dirigem à sua
destruição. Nós sabemos que, com a ascensão da teologia da libertação no domínio da Igreja Católica,
os fiéis fugiram da Igreja e foram tudo para as igrejas evangélicas. É óbvio que a teologia da libertação
não é um órgão da Igreja, não é um braço [1:00] da Igreja, é o braço do comunismo infiltrado na Igreja
para, em parte, destruí-la, enfraquecê-la, e usar o que sobrar dela, como dizia Antonio Gramsci, como
“megafone das nossas propostas”; ele dizia literalmente isto, não devemos destruir a Igreja Católica,
mas usá-la, infiltrar-nos nela e usá-la como megafone.
Isso quer dizer que vários movimentos culturais, religiosos, morais, etc., no momento todos eles estão
convergindo para a estratégia comunista, praticamente todos eles, inclusive o movimento do
impeachment. Vocês vejam, o movimento do impeachment surge como uma transformação do
protesto popular de março de 2015. Aquele movimento se atribui, em primeiro lugar, como uma
revolta contra toda a classe política, aliás, o movimento popular só existiu porque a classe política
não fez nada para parar a roubalheira, se ela tivesse feito, talvez nem existissem esses protestos, mas
“como os políticos não agem, agimos nós”. A partir daí, sobretudo o pessoal tucano, começou a
pensar “como é que nós vamos virar esta situação e transformar em nosso favor uma coisa que neste
primeiro momento está contra nós?”. Então para isso é que existem estes líderezinhos criados pela
mídia, como Kim Kataguiri, Fernando Holliday, etc., esses meninos são facilmente enganáveis, não
têm cultura nenhuma, não sabem coisa nenhuma, apareceram ontem, mal se livraram das fraldas, ou
seja, lhes oferece a perspectiva de uma carreira política e eles fazem qualquer coisa pela classe
política. E daí surge, em primeiro lugar, a ideia da marcha para Brasília, que consiste em transferir a
iniciativa do povo nas ruas para os políticos em Brasília. Um pouco mais adiante já aparecem as
figuras de Miguel Reale e Hélio Bicudo inserindo o movimento anti-petista na tradição das nossas
lutas, isto é, na tradição das lutas da esquerda que criaram o PT. E hoje praticamente já virou isso.
Vejam que o governo Michel Temer anuncia que vai ser o governo dessa gente, imaginem, por
exemplo, colocar o José Serra no Ministério das Relações Exteriores. Isso é garantia absoluta e
infalível a total submissão do Brasil aos interesses do grupo globalista encastelado na ONU, que é
um órgão perfeitamente dominado pelo Movimento Comunista. Isso quer dizer que o movimento
contra a classe política se transformou num movimento a favor dela. E hoje qual é o grande objetivo
dos “líderes”? Destruir a candidatura do Bolsonaro através do achincalhe, de processo, de calúnia e
através do parlamentarismo, que é a grande proposta do PMDB para que não chegue a haver eleições
presidenciais em 2018.
O que houve no Brasil foi uma transfiguração do movimento, que foi possibilitada pela inépcia e
inconsciência dos líderes. O horizonte de consciência desses meninos é deste tamanhinho, qualquer
raposa velha do tucanato percebe mais do que isso, e dirigentes comunistas percebem muito mais.
Tudo isso é muito fácil de fazer, entre outras coisas porque o Movimento Comunista domina a mídia

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brasileira 100%, isso não é um modo de dizer. Eu não estou dizendo: “Ah, os jornalistas são na maior
parte esquerdistas” – não é isso que eu estou falando. Estou falando que eles estão filiados ao
movimento, eles devem obediência a um comando central comunista e estão lá para isso – é em 90%
das redações ou mais.
Outro dia um jornalista da Folha, contando as suas memórias, dizia: “Quando eu era estudante eu era
da Libelu” – Libelu era um órgão da Quarta Internacional Trotskista – “depois mais tarde eu me
formei e fui trabalhar na Folha, quando cheguei estava todo o pessoal da Libelu lá dentro”. E estão lá
até hoje, então eu digo que a Folha é um órgão da Quarta Internacional. Por isso que colocou o
Demétrio Magnoli como colunista, porque ele é a voz da Quarta Internacional. O que é a Quarta
Internacional?
Houve quatro internacionais, que são momentos decisivos na história do comunismo.
A Primeira Internacional, chefiada pelo próprio Karl Marx, é a fundação do Movimento Comunista.
Isso não quer dizer que não existissem movimentos comunistas antes, mas Karl Marx foi lá,
assumindo, cortando todas as cabeças, e virou ele o chefe lá; então conseguiu fazer das suas ideias a
doutrina oficial do Movimento Comunista.
A segunda internacional é quando aparecem alguns membros de destaque do Partido Comunista
contestando teses fundamentais de Marx e apostando numa estratégia reformista: “Vamos parar com
esse negócio de revolução, nós podemos chegar ao comunismo através de reformas progressivas”.
Isso é um fato e acabou sendo adotado pelo Movimento Comunista, mas naquele momento deu
escândalo. Então, ali teve uma ruptura e cria-se a Internacional Socialista, que é até hoje a
representante da esquerda chamada “soft”. E o órgão básico disso aí é a Sociedade Fabiana, na
Inglaterra, que é dona da London School of Economics. Acontece que a Sociedade Fabiana foi criada
por quem? Por ingleses socialistas moderados? Não. Foi criada pelo governo soviético. Isso quer
dizer que o governo soviético, embora oficialmente se colocasse contra as doutrinas reformistas e
revisionistas, como eram chamadas, sabia que elas podiam ser úteis no ocidente. Assim mesmo
aconteceu com a escola de Frankfurt – “Nós não queremos esta conversa aqui dentro porque vai
romper a unidade do nosso discurso, mas isso pode ser útil lá fora”. Nós sabemos que o grande livro
escrito por Sidney e Beatrice Webb, que eram os gurus do movimento Fabiano, veio pronto do
movimento soviético, eles simplesmente assinaram. Então, tudo isso é órgão do Movimento
Comunista. Notem bem, não tem unidade ideológica. Ao contrário, tem uma diversificação ideológica
que justamente é o que permite a adaptação da estratégia mundial às diferentes condições locais,
culturais, econômicas etc.
Se analisarmos agora a história da cultura do século XX, veremos que pelo menos a metade dela –
cultura literária, musical, cinematográfica, artística etc. – é função do Movimento Comunista. Tem
um artigo que eu escrevi faz tempo chamado “A mão de Stalin está sobre nós”, deem uma olhada lá
e vocês verão a imensidão da influência dessa coisa. Nós podemos dizer que no EUA, por exemplo,
não teve um escritor célebre que não fosse de algum modo cercado e manipulado pelo Movimento
Comunista – isso não quer dizer que todos fossem entrar no partido, aliás, a ideia não era essa. A
ideia era fazer deles companheiros de viagem e agentes de influência. Ou seja, pessoas que, sem ter
uma carreira nominalmente comunista, aliás, podiam até ter a fama de conservadores, nos momentos
decisivos, apoiassem a URSS. Por exemplo, John Dewey nunca foi comunista pessoalmente, mas na
hora H ele sempre tomava partido da URSS; partido da sua isenção: “Não sou comunista, sou um
pragmatista etc.”, e assim por diante.
Frequentemente a identidade pública dessas pessoas é construída pelo Partido Comunista de maneira
inversa. Como, por exemplo, vocês já devem ter ouvido a história de que Ernest Hemingway foi
espião da CIA. Isso é impossível, vocês acham que o homem pode morar em Cuba durante 30 anos,
ser recebido pelo governo, ser bem tratado, e ninguém desconfiar que ele trabalha para a CIA? Isso é
absolutamente impossível. O que é certo é o seguinte: que ele trabalhou para a KGB, trabalhou; e, em

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seguida, é preciso disfarçar isso com a história de que ele trabalhou para a CIA; história absolutamente
sem fundamento nenhum e que não dá nem para argumentar teoricamente a favor dela.
A capacidade do Movimento Comunista de manipulação da opinião é um negócio prodigioso,
justamente porque essa influência não aparece com nome de comunista – e não aparece porque não
pode aparecer. Ela tem de ter a diversificação, a diversificação é a chave do sucesso. Vejam que,
mesmo no tempo em que a URSS tinha um discurso ideológico monolítico consolidado, por exemplo,
no tratado de marxismo-leninismo do Otto Kuusinen, que era o livro oficial da academia de ciências,
mesmo nessa época eles já diversificavam a estratégia e usavam, no exterior, agentes que estavam
em total discordância com o marxismo-leninismo clássico como, por exemplo, o pessoal da Escola
de Frankfurt, ou o pessoal do diálogo comunista-cristão. A começar por Roger Garaudy: existe um
livro muito interessante chamado Perspectivas do Homem, que saiu, eu creio, que nos anos 70, que
era a apologia do diálogo entre marxistas e cristãos. O marxista ortodoxo (marxista-leninista) não
podia aprovar isso, exceto como tática e fingimento, mas aquilo que é tática e fingimento não pode
funcionar só como tática e fingimento se não tiver um pinguinho de credibilidade, então tem de ter
pessoas que argumentem sinceramente a favor daquilo.
No fim, o Garaudy se atrapalhou todo com esta coisa e acabou virando muçulmano – “Quer saber,
nem comunismo, nem cristianismo, eu vou para o Islã”; e está lá até hoje. O que também serve,
porque o Islã também é órgão da KGB. Vejam o livro do Pacepa, ele diz coisas do tipo: nós criamos
o Yasser Arafat, nós o educamos, o botamos lá etc. Então, 80% deste movimento radical islâmico
está na mão da KGB. Também, será uma coincidência que todas as armas deles sejam sempre russas
ou chinesas? E daí o Putin vai dizer: “Não, nós não vendemos armas para ninguém, isso aí é um
negócio clandestino, não foi oficialmente o governo soviético que vendeu”. Mas desde quando a KGB
age oficialmente? É coisa de um cinismo extraordinário.
Quando se mede a totalidade dos canais de ação que essa gente tem, e não se deixa iludir pela
definição da sociedade sem classes, você entende: o Movimento Comunista existe materialmente, ele
não é um ideal e essa existência material é o que o caracteriza; ele é uma rede de organizações e de
canais de comando enormemente complexa, cheia de contradições que, para uma mentalidade
marxista formada na dialética, são perfeitamente manobráveis.
No ocidente, são os liberais e os conservadores que têm certa dificuldade de raciocinar dialeticamente,
porque eles querem uma coerência. “Se tem uma proposta assim e assim, tem de agir coerentemente
porque é a ação racional segundo fins” – isso aí, meu filho, funciona bem na economia e na indústria,
onde entra o fator humano a mente humana funciona dialeticamente. Por que funciona
dialeticamente? É muito simples: o ser humano não consegue se concentrar numa mesma ideia por
mais de uns poucos segundos, tudo o que pensamos é momentâneo. Isso quer dizer que, para pensar,
precisamos de superfícies de contraste. São superfícies de contraste que nos remetem de novo, e de
novo, e de novo, à mesma ideia que antes era fugidia, escorregadia. Em tudo que é humano se vê a
função essencial da dialética, ou seja, da contradição.
Por exemplo, toda a psicoterapia do Viktor Frankl, ela toda é baseada nisso aí. “Bom, se você quer
tirar uma ideia da cabeça do doente, você prega essa ideia para ele” – é o que ele chama de “hiper-
reflexão”. Se o sujeito tem uma fobia, por exemplo, de que tem um jacaré em baixo da cama, o que
o psiquiatra faz? “Realmente tem realmente um jacaré, você toma cuidado”. Então, ele faz com que
a ideia que assombra o sujeito, enquanto ideia, tente se transfigurar em realidade sensível, e aí isso
falha, e então a ideia vai perdendo a força.
Aluno: Professor, não seria intenção paradoxal?
Olavo: Exatamente, é a intenção paradoxal, não é hiper-reflexão, perdão. E assim em muitas outras
coisas; em toda a psicanálise vemos a utilização desses paradoxos o tempo todo.

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Ora, o pessoal liberal é tudo de formação econômica. Então eles pensam em termos de economia e
de indústria, não têm a capacidade de raciocinar na esfera político-cultural e psicológica. A vantagem,
nesse aspecto, é 100% do Movimento Comunista – ao ponto de torná-lo irreconhecível. Notem, é
uma ingenuidade imaginar que o Partido Comunista é como se fosse um clube onde, ou o sujeito tem
a carteirinha ou ele não pertence. A esfera dos companheiros de viagem e agentes de influência é
imensamente maior do que a dos militantes – e tem de ser. Não interessa para o partido que uma
pessoa aja sistematicamente em favor dele, que seja um adepto, não. Interessa que, nos momentos
decisivos, ele faça o que o partido quer.
Por exemplo, agora, porque é tão importante bloquear a candidatura do Bolsonaro? É muito simples:
a população brasileira é maciçamente favorável ao regime militar de 64. A prova disso é que, em
todas as pesquisas, as FFAA sempre continuam sendo apontadas como a organização mais confiável.
Mesmo agora, depois destes vexames que o comandante deu. Então, a confiança nas FFAA traduz
uma confiança no regime de 64. Nós sabemos que este problema de roubalheira simplesmente não
existia, nenhum dos generais presidentes saiu rico, os ministros não saíram ricos, alguns saíram até
bem pobres. Então, o pessoal tem uma certa nostalgia desta política higiênica que havia na época,
sem contar o fato de que aquele regime foi bom para a maioria. Foi muito mal para umas 10 mil
pessoas, que é o pessoal da esquerda, dos quais um em cada cinco foi parar na cadeia. Foi um total
de 2000 prisioneiros políticos no Brasil, ao longo de 20 anos – uns durante seis meses, outros durante
um ano, e assim por diante. E, de certo modo, embora o Bolsonaro não pregue o regime militar, ele é
visto como um representante dessa velha tradição, de honestidade, política higiênica, etc., e o povo
confia nele. Então, é absolutamente necessário retirá-lo do caminho e, para isso, o sujeito não precisa
ser comunista, pode ser um Reinaldo Azevedo, pode ser qualquer político tucano desde que ele faça
a coisa certa na hora certa.
A ideia de todo este movimento impeachmentista foi a de manter o conflito dentro das dimensões da
Nova República, dentro do quadro da Nova República, isso não pode mudar. A Nova República foi
feita por duas forças: PSDB e PT. E o terreno tem de continuar divido entre esses dois, com o PMDB
servindo de moeda divisionária, é o troco, como sempre foi.
As pessoas que colaboram com isso frequentemente não têm noção da estratégia geral que está em
jogo, elas vão por simpatias e antipatias. Por exemplo, o fato de que o Bolsonaro represente uma
figura nostálgica de uma época onde havia menos roubalheira, havia mais honestidade, não significa
que ele seja adepto de criar um regime militar, hoje. Se ele quisesse dar um golpe militar ele não se
candidataria à presidência, estaria lá no meio militar pregando um golpe militar. Esta confusão de
identidade que as pessoas grudam em cima das pessoas, através de calúnia, falsa informação, etc.,
tudo isso é um processo dirigido, evidentemente. As coisas não acontecem por acaso. Só que o
número de agentes que estão conscientes da coisa toda é muito pequeno. A maior parte não está,
porque não é capaz de conceber o que é a ação difusa, só pensa em termos de bloco monolítico e de
coerência ideológica, que é uma ideia que os próprios comunistas já abandonaram desde a década de
80.
Existe um trabalho da Rand Corporation a respeito da guerrilha de Chiapas, no México. E ali foi
testada, pela primeira vez, um novo modelo de organização dos partidos comunistas em redes onde
não havia uma hierarquia de comando, havia uma mobilização feita a partir de sinais anônimos
lançados pela internet. Com isso, se tinha muito mais capacidade de mobilização do que através de
uma organização hierárquica. Isso não quer dizer que o Partido Comunista não usasse isso antes,
usava. Por exemplo, usaram o front popular francês, mas a partir daí a coisa ficou sistemática. Isso
quer dizer que eles lançam palavras de ordem para centenas ou milhares de organizações distintas
que, naquele momento, convergem para obedecer àquela palavra de ordem. Elas não precisam ter
uma obediência sistemática à hierarquia comunista, basta que, nos momentos decisivos, eles possam
convergir. E daí aconteceu que, no México, o governo vencia todas as batalhas contra a guerrilha de
Chiapas, mas a guerrilha de Chiapas vencia todas as batalhas na opinião pública e na mídia mundial.

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Ora, se um jornalista de esquerda que trabalha no, por exemplo, La Nation, Le Monde, Figaro, ouve
o apelo de uma destas campanhas, ele vai precisar consultar o chefe dele no partido para aderir? Não,
ele já sabe de onde vem aquilo, reconhece a voz do dono, e imediatamente vai aderir. Então, esse
novo tipo de organização que, ao invés de ser hierárquico, é espalhado, ao invés de ser vertical é
horizontal, mostrou que funciona muito mais. E pior, fica muito mais difícil descobrir a origem dos
comandos. Tanto que, hoje em dia, as pessoas têm este problema: “Bom, existe o Movimento
Comunista, mas quem está comandando?”. É claro que é a KGB, só que é difícil rastrear a linha de
comando, porque ela é feita, hoje, de modo difuso.
Esse trabalho da Rand Corporation: não pode deixar de estudar isso aí porque foi o grande teste, o
modelo de todos os movimentos subsequentes. É esse modelo que se usa, por exemplo, para o
feminismo, o abortismo, para a liberação de drogas, os banheiros unissex, o que quiser. É de fato uma
presença avassaladora, e é evidente que tem um comando central. Só que, sabe quando nós vamos
saber o nome do cidadão? Nunca. Como nunca ficamos sabendo nas situações anteriores. Onde se
tem um governante nominal, podemos ter a impressão de que foi ele que mandou, mas em geral não
é.
Vejam a facilidade com que governantes soviéticos todo-poderosos foram retirados: Nikita Krushov,
Leonid Brejnev etc. Quem os retirou? Se alguém os retirou é porque tem um poder maior atrás deles.
E esse poder é o da organização super-secreta até hoje, que é a KGB, que é secreta até pelo seu
tamanho, ela é inabarcável. Agora, vocês imaginem a inteligência monstruosa das pessoas que
dirigem isso.
Por exemplo, quando lemos, hoje, o curso de filosofia do Alexandre Kojève, que era evidentemente
um homem da KGB, embora não pertencesse ao Partido Comunista. Alguém é capaz de discutir com
ele por cinco minutos? Ninguém. Nem com comunistas menores. Esses dias eu estive lendo duas
coisas sobre o Jean-Paul Sartre. Um era o livro do Thomas Molnar, que é um filósofo húngaro,
residente nos EUA e o outro do Roger Scruton, que fez uma versão aumentada do Thinkers of the
New Left: a dificuldade que os caras têm para se orientar nos meandros, para abrir a caixa preta do
pensamento de Sartre, é uma coisa monumental. Enquanto isso, o pensamento do Sartre mudou vidas
e mais vidas, sempre nesta base de aderir a slogans ou ideais oferecidos apenas na sua fórmula
abstrata. De tal modo que, a fórmula abstrata em si mesma aja sobre o centro emocional da pessoa,
sem precisar tomar a forma de uma realidade. Na maior parte desses casos se pode neutralizar o efeito
disso pelo método da intenção paradoxal do Viktor Frankl – “Vamos realizar essa sua ideia, vamos
ver como ela vai ficar”. Na maior parte dos casos, é claro, as pessoas vão resistir a fazer isso, porque
elas querem preservar intactos os ideais imantados daquela mágica, portanto, elas não podem trazer
isso “do céu para a terra”, não podem materializar a sua ideia, senão ela se desmantela por si mesma.
Por exemplo, o pessoal fala em liberação de drogas. O liberal diz: “Ah, o governo não deve interferir,
então deve deixar as pessoas fazerem o que quiserem” – teoricamente é isso, é uma ideia imantada
do prestígio da liberdade civil. Só que daí a gente pergunta: “E todos os crimes que foram cometidos
ao longo do tempo, em função do narcotráfico?”. Terão de ser todos anistiados. Milhares e milhares
de homicídios. Em segundo lugar, quem tem o controle da produção e da redistribuição? Os cartéis e
as FARC. Quem vai poder concorrer com eles no livre mercado? Terceiro, o fato de haver um
comércio legal impede que haja um comércio clandestino? Nunca impediu. Não é proibida a
fabricação de cigarros, então por que tem tanto cigarro contrabandeado? Ou bebida, ou qualquer outra
coisa. E assim por diante.
Então, basta pensar, materializar, a realização da ideia que vemos que a quase totalidade dessas ideias
não foi feita para resolver nada, mas para agravar o estado de coisas. Ora, agravar o estado de coisas
é sempre necessário porque é preciso manter as nações inimigas sob crise constante, evitando que
essas crises aconteçam dentro do campo. Por exemplo, na Rússia e na China, eles têm algum problema
com movimento gay ou feminista? Não têm problema nenhum. Se o sujeito começou a dar muito
palpite, simplesmente matam-no. Todos os problemas que eles evitam no seu território eles fomentam

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no território adversário. E, no território adversário – isto é importantíssimo – como não há nenhuma
organização anti-comunista mundial, então todos os sentimentos anti-comunistas são dirigidos a alvos
particulares e específicos. E a visão da articulação se perde completamente. O sujeito pode ser contra
o comunismo – “Ah, o comunismo é ateu”. Muito bem, mas esse mesmo cara pode favorecer o
comunismo numa outra coisa qualquer.
Do mesmo modo que o comunismo é o único movimento político de escala mundial, é só o
Movimento Comunista que tem uma visão global do processo. E isto é uma diferença fundamental:
O que o Movimento Comunista quer? Quer baixar decretinhos? Não. Ele quer dirigir o curso da
história, isso é um pouco mais complicado, mas eles estão fazendo isso. Vocês devem perceber que
o projeto implica uma dificuldade tão imensa que a possibilidade de erros é muito grande, mas no
conjunto eles estão obtendo sucesso, mesmo através do seu fracasso; que é a pergunta do Jean
François Revel, no ano 2000: “Como foi possível que, após a queda da URSS, o Movimento
Comunista crescesse em vez de diminuir?”. As quedas são apenas etapas de um movimento dialético
que não para. Enquanto as pessoas que se imaginam anti-comunistas continuarem pensando de uma
maneira provinciana, local, sem tentar elevar o seu pensamento à abrangência e a grandeza do projeto
comunista, ele vai continuar tendo vantagem, sempre.
Imaginem o que é esse movimento quando ele entra em um país como o Brasil, com uma classe
intelectual dominante formada do jeito que eu expliquei na última aula: é tomar doce da mão de
criança. Quer dizer, o número de idiotas úteis no Brasil – no parlamento, na mídia, sobretudo no
empresariado, no clero – é imenso. Os caras não sabem de onde vem as ideias que eles estão
defendendo, onde essas ideias se encaixam dentro de uma estratégia mundial, pensam tudo apenas
setorialmente. É aí que vemos o mistério, na década de 90 se pensou: “Bom, agora não há mais
comunistas, eles sumiram”. Sim, eles sumiram e estão em toda parte, estão governando tudo,
mandando em tudo e estão cada vez mais invisíveis. E, é claro que contra isso sempre se levantam os
chavões de sempre – “Ah, você está vendo comunista embaixo da cama”. Uma vez um deputado
gaúcho falou isso para mim e eu respondi: “Não, embaixo da cama não. Estou vendo em cima da
cama: ele foi lá, já comeu você, você acordou com uma vasta dor no traseiro e você não sabe de onde
veio essa [1:30] dor” – é exatamente essa a situação.
Se vocês perguntarem: “Um tipo como o Reinaldo Azevedo ou Villa tem alguma consciência de para
quem ele trabalha?”. Não tem nenhuma consciência e nem pode ter. É o problema do horizonte de
consciência. Quando Sun Tzu diz: “Conheça o teu inimigo” – temos de abarcar o horizonte de
consciência dele e o transcender, tem de ir além, não tem outro jeito. Agora, vocês acham que algumas
dessas pessoas têm um horizonte de consciência comparável, por exemplo, com o de Stálin, capaz de
manipular vinte ou trinta países ao mesmo tempo? É claro que não, nem se esforçaram para isso. O
tamanho do inimigo é tal que ele se torna invisível – para as mentes pequenas. Quando se consegue
abarcar esse horizonte de consciência e o transcender, então se começa a enxergar as limitações desse
movimento.
A primeira limitação é de natureza intrínseca: já vimos que a sociedade sem classes é o objetivo final
do socialismo e ele é inatingível não por dificuldades práticas, mas pela sua própria essência, ele não
foi feito para ser atingido, ele é a gasolina que mantém o movimento em ação, se ele for realizado ele
se cristaliza e perde liquidez. Então, automaticamente, o movimento revolucionário que não aceita
submeter-se a nenhum julgamento deste mundo – que seria o julgamento pela moral burguesa, pela
justiça burguesa, então ele se coloca acima disso –, só pode ser julgado pelo futuro. Se ele só pode
ser julgado pelo futuro, ele seria louco se esse futuro chegasse, porque daí ele seria julgado; ele não
seria mais o juiz, seria o réu. De vez em quando isso acontece: algum comunista decide fazer as contas
e diz: “Olha, isso aí deu tudo errado”. O número de defecções, de desilusões, é muito grande, mas o
Movimento Comunista sobrevive a isso e frequentemente consegue reciclar e reaproveitar os
desiludidos.

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Vejam, por exemplo, o Leonardo Padura. Ele se desiludiu com o comunismo cubano, mas está
colaborando com o comunismo brasileiro – ele acha que aqui no Brasil é diferente. Assim, sempre se
consegue reciclar essas pessoas. Por exemplo, o sujeito larga de ser comunista, sai do partido, então
ele entra, por exemplo, no PSDB, vira um socialista fabiano. É sempre possível reciclar.
O Movimento Comunista só vai ceder na hora em que existir um movimento anti-comunista mundial
que tenha uma estratégia abrangente. Eu acredito que só uma entidade pode fazer isso: a Igreja
Católica, porque ela é também uma organização mundial. Mas, ela não quer. Mesmo porque já foi
mais profundamente infectada do que as pessoas imaginam. Mas há muita coisa que nós podemos
fazer. A primeira delas é espalhar a consciência da mundialidade e da complexidade do Movimento
Comunista e apagar as noções simplórias de que, por exemplo: “Ah, para ser comunista você tem de
pregar a socialização dos meios de produção etc.”.
Entenderam? Então, ‘tá bom. Na próxima aula vamos nos aprofundar um pouco mais na situação
brasileira presente e nas perspectivas. Vamos fazer um intervalo e daqui a pouco voltamos com as
perguntas.

***

Aluno: A Igreja Católica está bem infectada, mas qual a visão dos judeus sobre o comunismo?
Olavo: Bom, os judeus estão tão divididos. Aqui no EUA, por exemplo, existe uma imensidão de
judeus entre os líderes comunistas e entre os líderes do movimento anti-comunista. Hoje a coisa está
malparada, porque, vejam, 72% dos judeus americanos votaram em Barack Obama – são
absolutamente loucos, são suicidas, é uma coisa de uma irresponsabilidade monstruosa. Depois de
tudo que o cara aprontou contra Israel não dava para prever? É claro que dava. Ainda tem gente que
diz que os judeus dominam o mundo, ora, os caras estão levando porrada de tudo quanto é lado, nem
entendem o que está acontecendo, coitados.
Aluno: Em sua opinião, seria possível ocorrer a intervenção constitucional? Seria ela uma
alternativa mais efetiva para o combate aos agentes da Nova República e o impeachment?
Olavo: Não, de jeito nenhum. Em primeiro lugar, veja que uma intervenção militar... aí é o mesmo
caso que eu disse: as pessoas pegam um conceito abstrato e imediatamente têm uma reação
emocional, a favor ou contra a coisa, no seu conceito abstrato, mas quando você tenta imaginar como
será isso concretamente a coisa se complica de uma maneira formidável. Então, em primeiro lugar,
as FFAA assumirem o controle do Estado implica que elas vão trocar 30% ou 40% do funcionalismo
público. Quem elas vão colocar lá? Se você tivesse partidos e movimentos de direita organizados,
como havia em 1964 – havia a UDN, o PSD e outros, um monte de governadores a favor – então
certamente havia os elementos para colocar nos vários postos, mas hoje não tem, é uma situação
completamente diferente.
Em segundo lugar, se você entende que o PT não é nada, é apenas uma pequena fachada local de um
imenso movimento mundial, você entende que a derrubada do PT pelas FFAA colocaria o Brasil
contra o mundo. Você acha que nossos generais estão preparados para enfrentar essa situação? Nem
em 64 estavam. Tanto que os generais foram derrubados pela pressão da mídia internacional, estava
todo mundo contra eles e chegou num momento em que não aguentaram mais. Não foi o movimento
das “Diretas Já” que os derrubou, de maneira alguma. Portanto eu acho isso uma coisa muito
complicada.

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Todo mundo está desesperado, querendo uma solução rápida, mas nestas horas eu me lembro de uma
frase de Goethe: “É urgente ter paciência”. Tudo o que nós queremos vai ser muito complicado de
fazer, vai demorar muito tempo, mas nós devemos isso aos nossos filhos e netos, quer dizer, esqueçam
a ideia de que a coisa vai melhorar no nosso prazo de vida. Não estamos trabalhando para a nossa
vida, estamos trabalhando para os nossos descendentes. Vejam, isso já é honra demais.
Se eu for ver tudo o que eu estou fazendo – eu nem mereço estar fazendo o que estou fazendo, quem
sou eu? Dizem que Deus não escolhe os capazes, Ele capacita os escolhidos – então, não tinha
ninguém para fazer, então pegou o tal do Olavo: “Ó, vai você mesmo”. Ninguém quer fazer, vou eu.
É uma honra muito grande eu estar fazendo tudo isso, mesmo que eu não consiga nada. O simples
fato de fazer já é mais do que eu mereço.
Aluno: Por que os metacapitalistas podem ter interesse no socialismo? É por não terem mais de
enfrentar a concorrência?
Olavo: Isso em parte. A motivação psicológica do metacapitalista é o desejo dele superar, na medida
em que ele conquistou uma posição ótima dentro do sistema capitalista, ele não quer mais se submeter
às regras do mercado e quer o controle. Mas no conjunto, em primeiro lugar, eles entendem de
economia e sabem que o regime de estatização total dos meios de produção é impossível e que,
quando o socialismo chega ao seu máximo desenvolvimento, ele chega ao regime chinês, que é o
socialismo “meia-bomba” no qual é o governo e mais meia dúzia de grupos econômicos, que são eles
mesmos e não vai passar disso. Isso é a fórmula da economia fascista. Só existem duas alternativas,
a economia liberal clássica e a economia fascista. As duas funcionam, isso é importante. “Ah, essa
economia estatizante não funciona” – não funciona numa democracia, meu filho, mas se você faz
uma ditadura começa a funcionar.
O fascismo foi inventado para tirar do buraco países que estavam completamente destruídos, como a
Itália, a Alemanha e a própria China. E a economia fascista funciona, só que ela só funciona na base
da ditadura – é trabalho escravo etc. Vejam, o Hayek, no livro O caminho da Servidão, ele não disse
que a economia estatizante não funcionava, ele disse que ela necessariamente levava ao totalitarismo,
ele tinha toda a razão. Agora, se você não faz questão de liberdade, democracia, se você só se
preocupa com o progresso econômico, então você pode aderir à economia fascista e você vai fazer
exatamente o que os chineses estão fazendo e o que o PT está fazendo no Brasil. É só isso que eles
fazem, vai ser sempre o socialismo “meia-bomba”. E os metacapitalistas só têm a ganhar com isso,
eles sempre ficarão sempre no poder, pois é um sistema oligárquico.
Não pode estatizar tudo porque senão você acaba totalmente com o mercado e aí cai naquela objeção
do Mises: se não tem mercado, as coisas não têm preço; se não tem preço, não há cálculo de preço;
se não há cálculo de preço acabou economia planejada. Para planejar a economia é preciso deixar
uma certa liberdade de mercado, mas não para todo o mundo, só para quem é amigo do governo – o
que é exatamente o sistema chinês, era o sistema italiano, o sistema alemão. Então esqueça, economia
socialista não existe. Só existem duas economias no mundo: capitalista e fascista. O resto é conversa.
Todos os comunistas sabem isso que eu estou falando. Não há mais nenhum com a ilusão da
estatização total, da sociedade sem classes, abolição do Estado, etc., nenhum acredita mais nisso. Mas
eles continuam querendo o objetivo do controle total da sociedade. Não podendo controlar totalmente
a economia, eles podem controlar todos os demais setores da vida social: a educação, a moralidade,
a psique das pessoas, o movimento cultural etc. E é exatamente o que eles fazem. A questão não é
acabar com a liberdade econômica. É que só sobra a liberdade econômica, mas para aqueles que
podem, que são os amigos do governo.
Aluno: Qual a perspectiva de movimentos tão recentes se imporem sobre um movimento tão antigo
como o comunismo, dado que quem está na luta há mais tempo vence?

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Olavo: Bom, existem alguns elementos que trabalham contra o Movimento Comunista, alguns
elementos da própria estrutura da realidade – a impossibilidade de a economia ser totalmente
estatizada é um. Isso quer dizer que, se eles vão ficar sempre no socialismo meia-bomba, sempre é
possível, nessa situação, lutar pela restauração das liberdades civis e até por liberdade econômica para
todo o mundo. Eles não podem extinguir isso completamente. Veja, um dos motivos pelos quais caiu
a URSS e não caiu o governo chinês: o governo chinês soube se adaptar muito bem a esta realidade
e o governo soviético nunca aceitou realmente a economia de mercado. Ele engolia a economia de
mercado no sentido de que não podia acabar com ela, então virou uma espécie de capitalismo
clandestino; e ficou clandestino até o fim, mas isso já era 50% da economia soviética.
Outra coisa, a economia soviética dependia de ajuda do governo americano. Foi o governo americano
que criou o parque industrial soviético na segunda guerra, foi ele que financiou tudo aquilo, se não
fossem os americanos não existia mais a URSS. Isto é um elemento para vocês pensarem como a
Diana West tem razão: no livro, quando ela mostra que agentes soviéticos infiltrados no governo
americano tiveram um poder extraordinário, determinaram a política exterior americana em
momentos decisivos – não é que eles sugeriram, eles mandavam. Harry Hopkins mandava na cabeça
do Roosevelt, Roosevelt já estava gagá, coitado. Tudo que Hopkins mandava fazer, ele fazia. Não é
que ele era um simpatizante comunista, era um homem da KGB, meu Deus do Céu! É claro que o
pessoal aqui ficou muito ofendido com o livro da Diana West, porque a obra conclui: “Vocês são
todos uns idiotas e trouxas”. Quem gosta de ser chamado de trouxa? Eu gosto. Quando eu sou trouxa
e alguém me avisa, eu fico muito grato. Como dizia um advogado que eu conheci: “Eu sou humilde
e vivo disso”. Agora, tem cara que diz: “Não, é minha imagem. Eu fui feito de trouxa?”.
Uma vez eu tive uma briga com uma seita de estelionatários, eles mantinham o seu poder nessa base.
Ninguém queria confessar que havia sido feito de trouxa. Eu fui lá e confessei: “Os caras me
enganaram mesmo! Fizeram isso, mais isso, mais aquilo...”. Você é trouxa. “Sou”. Pronto.
Aluno: Vereador tem potencial para iniciar alguma mudança?
Olavo: Não precisa ser vereador. Pode ser presidente de um sindicato, pode ser diretor de uma escola.
Essa luta não se trava no domínio do governo, do legislativo, do executivo; não é aí. É na sociedade.
O front principal é o front cultural. Onde está o front cultural? Onde quer que haja alguém que fale a
língua portuguesa no Brasil, lá é o front cultural. É para lutar na escala pequena, gente. Tem uns
meninos que apareceram dizendo: “Ah, nós vamos conquistar a UNE” – isso é mais importante do
que derrubar a Dilma. Conquistar um sindicato, uma escola, uma igreja, uma redação de jornal, é aí
que está a luta. A Dilma é um símbolo. Vão tirar um símbolo e colocar outro.
Este pessoal só entende a política na dimensão oficial – executivo e legislativo – isso é o oficialismo.
Os comunistas sabem que a política substantiva não está aí, é por isso que muitos deles concordam
em tirar a Dilma: “Tudo bem, se vocês querem o impeachment, vamos fazer o impeachment, não tem
problema”.
Aluno: Tendo em vista toda essa informação, onde o senhor conseguiria ver as saídas?
Olavo: A saída é longa, demorada e ela está no combate corpo-a-corpo. Isso aí é como, por exemplo,
a Batalha de Canudos, ou a Batalha de Huê, no Vietnã. É casa por casa, aliás, cômodo por cômodo.
Não adianta tentar tomar a cidade, tem de tomar o banheiro, a cozinha – é no pequeno. Estou falando
isso aí faz anos, mas todo mundo quer só política – é o oficialismo. É uma limitação do pessoal da
direita e é uma arma na mão da turma da esquerda. Eles sabem que o pessoal aqui pensa de maneira
oficialista, então vai sempre entregar o protagonismo para a classe política. Ora, a classe política eles
dominam. Não 100%, mas dominam.
Roxane: Isso que você está respondendo para ele se aplica a lutas como o combate à doutrinação
nas escolas?

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Olavo: Não é nas escolas, é em cada escola. Se o seu filho está numa escola, você vai lá e vence os
caras lá naquela escolinha. Esqueça a política maior que aparece na Rede Globo, não é lá que se
decidem as coisas. Veja, em 1964, quando o Partido Comunista aderiu à estratégia gramsciana, eles
lançaram um movimento enorme para conquistar as sociedades de bairros, uma por uma; e os
sindicatos, um por um; e as igrejas, e as escolas, uma por uma. Trabalharam nisso durante quarenta
anos e chegaram ao poder e dominaram tudo.
Agora, querem tirar os caras de Brasília, resolve fazer isso? Eles saem de Brasília, mas estão no resto
da sociedade. Os caras levaram quarenta anos, então, digamos, vamos deixar por 20%: oito anos.
Façam oito anos desse trabalho em cada escola, em cada sindicato, em cada igreja, e vocês verão os
frutos. Agora, se todo o mundo quer um resultado imediato: se um lado tem paciência e o outro é
imediatista, qual vai ganhar? Eu já expliquei que para um sujeito ser agente histórico as suas ações
têm de durar mais do que a duração da sua vida. Então, se você trabalha para ver o resultado em vida,
você não vai conseguir nada. É claro, o horizonte de consciência está limitado temporalmente à
próxima eleição, digamos. Eles sabem que o pessoal pensa assim, eles contam com isso – é a famosa
tartaruga fabiana.
Aluno: Obviamente a estratégia do Movimento Comunista é pelo poder, como o senhor já explicou.
Porém, em longo prazo eles esperam mesmo que o mundo se torne a utopia comunista de Marx?
Olavo: Sim e não. A utopia continua sendo uma espécie de cenoura de burro, eles são atraídos nessa
direção. Mas, por outro lado, os caras mais inteligentes sabem que isso não será realizado e que vão
parar no meio do caminho, então vão chegar à economia fascista chinesa – isso é o máximo. Porém,
para eles isso é muito bom, porque eles são contra a anarquia do mercado, eles querem uma economia
capitalista controlada, mas controlada por eles. Eles acham que isso é bom, todos acham que é bom.
Nós sabemos que não é, porque, mesmo que tenha sucesso, os beneficiários do sucesso serão só os
amigos do governo, como é na China. Na China tem cinco cidades enormemente prósperas e o resto
é uma miséria desgraçada, só que os miseráveis não têm como reclamar. Vocês veem algum
movimento de rua chinês protestando contra a carestia, contra a inflação? Nada. Não tem nada, não
tem sindicato, não tem greve. Então, vamos dizer, a economia controlada é reconfortante para todos
que querem o controle. Não que eles queiram isso para ferrar com a humanidade, essa noção eles não
têm. Eles acham que isso é bom.
Vejam, não tem um metacapitalista que não pense assim, Zuckerberg pensa assim, Steve Jobs pensava
assim, George Soros pensa assim, Rockefeller pensa assim, todos eles pensam assim: tem de
controlar, tem de botar ordem nessa coisa e quem tem de botar ordem somos nós. A pergunta é: “Por
que você? O que você tem a mais do que os outros seres humanos? Por que você acha que se deixar
a sociedade decidir por si mesma vai ser tudo uma anarquia?”.
Aluno: Ser conservador é isso.
Olavo: Ser conservador é isto, é deixar que a sociedade decida as coisas. Resguardar cada vez mais a
margem de liberdade. Não é ampliar os direitos, gente. Se vocês transferem a coisa para a esfera dos
direitos: o direito é uma obrigação imposta a terceiros, tem que ter alguém que vigie a aplicação dos
direitos, então tem de haver uma vara de justiça especializada, tem de haver burocracia etc. Não se
trata de direitos, trata-se de poder. Trata-se de preservar para a sociedade o poder de interferir, não o
direito de interferir. O direito é o que está no papel, o direito é o instrumento do poder central, sempre.
Então, querem banheiros unissex? “Ah, quero. Quero ter essa liberdade”. Mas não vai ter liberdade,
vai ter uma regulamentação. E essa regulamentação vai ser enormemente complicada. A cada vez
que você for entrar no banheiro, vai precisar pensar dez vezes, vai ter de consultar um advogado. É
isso o que vai acontecer.
Vocês não percebem que todas essas medidas, seja a favor do que for, sempre aumentam o controle
governamental sobre a sociedade? Por exemplo: “Queremos a liberação das drogas.” Muito bem,

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liberação quer dizer regulamentação; regulamentação quer dizer burocratização. Terá de haver um
imenso aparato governamental para controlar, vai ter de fichar cada viciado – que no momento não é
fichado. Para comprar droga numa favela, é preciso ir lá pegar, pagar e ir embora fumar o seu baseado.
Agora, se é o governo que fornece, meu filho, você vai ser fichado. Então, é o controle estatal
aumentando. Quando o pessoal fala sobre ampliação de direitos, eu digo: “Para mim não, eu não
quero direito algum, eu quero o poder de ação, poder de ação real, não o que está nas leis”.
Aluno: Se Reinaldo Azevedo e Marco Antonio Villa escreveram seus respectivos livros falando do
governo e apontaram diversas coisas irregulares, como eles não sabem para quem trabalham?
Olavo: É muito simples: eles entendem o “para quem trabalham” no sentido do contato direto.
Alguém que mandou fazer isso e pagou, até isso eles entendem. Mas nós usamos a expressão “para
quem trabalham” num sentido muito mais amplo: a corrente histórica à qual eles está servindo.
Aqueles que assistiram ao COF se lembram das minhas aulas sobre as camadas da personalidade:
camadas da personalidade são etapas que se percorre no desenvolvimento da personalidade e que,
cada uma implica e absorve a anterior; elas se definem por objetivos que o sujeito tem e, portanto,
pelo seu círculo de consciência. Quando a gente nasce, a primeira [camada] é termos controle do seu
próprio corpo, é disso que um bebê se ocupa. Por exemplo, quando ele começa a conseguir mais ou
menos controlar o cocô dele: ao invés dele fazer nas fraldas ele avisa a mãe para leva-lo no banheiro
– isso é uma grande conquista. Então, a primeira camada é esta, o domínio do corpo. O segundo
domínio já é o domínio sobre o corpo alheio e sobre os objetos em torno: o desenvolvimento da força
física, a afirmação física do sujeito. Terceiro, o domínio da linguagem, ele aprende o intercâmbio,
aprende a tentar dominar as pessoas não na porrada, mas na conversa. E assim sucessivamente.
A maior parte das pessoas, pessoas normais, adultas, chegam até a sétima camada, que chamamos de
“cidadania”. É o sujeito que tem consciência das suas finalidades de estado, seus direitos e deveres,
e sabe se mexer, sabe se virar nisso aí, isso é o máximo. Para o sujeito chegar a conhecer a que
corrente histórica ele está servindo, ele tem de chegar à décima primeira camada, que é onde o
indivíduo tem consciência do seu personagem histórico, por pequeno que seja. É preciso ver o
movimento total da história e ver o seu papel ali dentro – isso não é fácil. Se lhe perguntarem se
trabalha para tal coisa, ele responde: “É claro que não, eu estou trabalhando para o impeachment, para
a democracia etc.” Porque ele está vendo apenas a sua intenção subjetiva em função de um símbolo
abstrato a que ele imagina servir. Ele não está vendo concretamente o movimento da história e em
que corrente ele está se encaixando, querendo ou não – ter consciência disso não é fácil.
Um pouco antes disso, na nona camada, que é o que eu chamo de “personalidade intelectual”, é
quando a conduta do indivíduo já é determinada essencialmente pelo conjunto de conhecimentos de
que ele dispõe, é uma posição intelectual face à realidade – a maior parte das pessoas não chega nisso,
mesmo pessoas formadas, aparentemente cultas, não chegam nisso. A maior parte das pessoas pode
até estar exercendo uma posição intelectual, mas o objetivo dela pode ser um objetivo de camada
inferior. Pode ser de camada quatro – de conseguir afeição e aprovação social. Pode ser um objetivo
de camada cinco – de autoafirmação do ego. Pode ser de camada seis – de simplesmente ganhar
dinheiro. Pode ser qualquer coisa. Se o indivíduo continua evoluindo e crescendo, chega uma hora
em que a conduta dele realmente é determinada pela sua concepção mais ou menos organizada. É
muito difícil fazer isso. Geralmente as pessoas não têm uma concepção, elas têm opiniões soltas e a
ação delas não tem nada a ver com a opinião delas.
É por isto que eles não sabem: eles não têm desenvolvimento humano suficiente para saber a função
deles dentro das correntes históricas.
Aluno: Eu gostaria de saber os nomes dos livros que o senhor citou em sua aula, dos autores
americanos que conseguiram compreender a situação atual.

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Olavo: O primeiro que eu citei foi este: Shadow World de Robert Chandler. É uma visão da Guerra
Fria após a queda da URSS. É um livro absolutamente extraordinário. O segundo livro é o da Diana
West, American Betrayal. É um livro sobre o domínio exercido por agentes comunistas dentro do
governo americano, determinando em muitos episódios toda a política exterior americana.
Determinando, por exemplo, a interrupção da ajuda americana ao exército de Chiang Kai-shek e a
mudança para a ajuda concedida ao exército de Mao Tsé Tung. Isso determinou que a China se
tornasse comunista, só isso. [2:00] Pararam de dar dinheiro ao Chiang Kai-shek e começaram a dar para
o Mao Tsé Tung e ele tomou o poder. Quem fez isso? Foi um simples erro? Uma simples distração?
Pode ter sido da parte dos políticos e patriotas americanos, mas da parte do agente que estava soprando
coisas nas orelhas deles não foi. O terceiro livro é o do Jeffrey Nyquist, Origins of the Fourth World
War.
Aluno: A Maçonaria pode ser um agente contra o Movimento Internacional Comunista?
Olavo: Pode e deve, mas não é. Na Romênia, no tempo do Ceaușescu, metade da maçonaria estava
na cadeia e a outra metade estava comendo na mão do Ceaușescu, inclusive o Grão-Mestre, eu fui
testemunha pessoal disso. Me apresentaram ao senador Dan Amedeu Lăzărescu, que era o Grão-
Mestre da Maçonaria, o ídolo dos maçons – na Romênia todo mundo é maçom, até os cachorros são
maçons (a gente vê os cachorros na rua todos trocando símbolos maçons), eu não encontrei um lá que
não fosse – só que, passado um tempo, o meu amigo Andrei Pleșu investiga e descobre que esse cara,
durante todo o governo do Ceaușescu, estava entregando os companheiros de Maçonaria para a
Polícia Secreta e eles todos foram para a cana. Isso foi um escândalo desgraçado. Junto com Dan
Lăzărescu havia outros caras, também da elite maçônica, que estavam fazendo a mesma coisa,
entregando os seus companheiros.
Eu acho uma tolice imaginar que a Maçonaria tem uma ação unificada e coerente, não tem. O maçom
que está numa loja não sabe o que está se passando em outra loja. Quer dizer, a sociedade secreta é
secreta, em primeiro lugar, para os seus próprios membros. Um dia eu fiz um hangout com um grupo
maçons, e eles disseram: “Nós estamos fazendo uma campanha para esclarecer os nossos irmãos
maçons etc.” Estava dando um trabalho desgraçado porque eles tinham de ir de loja em loja tentar
explicar que focinho de porco não é tomada. Então, é evidente que não há uma ação coerente, existe
uma multiplicidade de tendências. Notem que ao longo da história muitos conflitos políticos se
originam na Maçonaria; há uma briga interna da Maçonaria e daqui a pouco isso se transpõe para
fora. Por exemplo: “Ah, a Maçonaria fez a república”. Não, os republicanos eram maçons e o
imperador também era. Na França, a Revolução Francesa, a Maçonaria fez a revolução? Não, o rei
da França também era maçom, o governo todo era maçom e os outros caras, os republicanos, também
eram maçons. Então a briga foi dentro.
Não dá para qualificar a Maçonaria como um agente histórico coerente. Ela tem capacidade para fazer
isso, porque ela pode moldar as cabeças dos seus membros de geração em geração, mas não até chegar
ao detalhe político. Eles conseguem passar a todos os maçons uma série de regras de conduta às quais
eles obedecem. Uma delas é não ferrar com os seus irmãozinhos de maneira muito evidente, se o fizer
tem de ser escondido. Uma certa lealdade entre eles existe; há uma certa fidelidade, pelo menos da
boca para fora, aos ideais da democracia moderna. Mas eu acho que não chega ao ponto de fazer as
cabeças dos seus membros, como faz o Partido Comunista, não chega a esta profundidade. O Partido
Comunista cerca o sujeito por tudo quanto é lado. Eles, na verdade, só convivem com comunistas o
tempo todo, eles não saem desse meio. Existem livros muito interessantes como este aqui, Raising
Reds, do Paul Mishler. Como era a educação das crianças comunistas nos EUA dos anos de 30/40?
Vocês vão ver que, desde pequenininho, o sujeito é cercado disso aí o tempo todo. Agora, existe
maçonaria infantil? Não. Quando o sujeito vai entrar para a Maçonaria ele já é homem feito, eles não
aceitam moleque. Não tem essa profundidade, não cerca a pessoa como o Partido Comunista ou como
as religiões cercam. O sujeito nasce e já é batizado dentro da Igreja Católica. É possível, a partir daí,
assegurar uma certa continuidade da conduta católica, pelo menos enquanto a Igreja não está, ela

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própria, infectada pelo inimigo. A Maçonaria tem alguma capacidade de ação histórica, mas eu acho
muito limitada.
Aluno: Como são formadas as novas gerações dos comunistas da nata da KGB, os que são
conscientes do movimento mundial e tentam guia-lo?
Olavo: Como sempre foi. Os homens da KGB, hoje, são os filhos, netos e bisnetos dos caras da KGB.
Quando eu estava na Polônia, na casa de um grande romancista polonês que é um personagem
histórico lá, participou de tudo, ele estava me dizendo o seguinte: “Hoje quem está governando a
Polônia são os netos e bisnetos dos comunistas, eles estão voltando através dos seus”. Todos eles são
formados assim, desde pequenininhos. O Putin é resultado da mesma educação. O Dugin é filho de
um oficial da KGB. Então, é uma oligarquia. Nada se compara à formação da mentalidade comunista
desde pequenininho.
Vejam aquele negócio do Antonio Gramsci, adaptar os contos de fadas para dar uma estrutura
comunista à imaginação das crianças. Como você faz isso? Através do cinema, da televisão, etc., o
tempo todo. Nos filmes aparentemente mais inocentes, este elemento está presente lá. É a famosa
diretriz do John Howard Lawson, que era um agente comunista que dirigia a escola de roteiristas de
cinema nos anos 1940 e 1950, ele dizia: “Não é para fazer filme comunista, é para fazer filme comum
no qual tem uma ou outra mensagem comunista no meio, porque nós não estamos tentando persuadir
uma pessoa inteira, estamos tentando ganhar o subconsciente das pessoas”. Acho que ele não tinha
lido Antonio Gramsci, mas adivinhou o gramscismo. Ele era 100% gramscista sem ter lido Gramsci.
Outro dia eu vi um filme, El Diablo. No filme todo o mundo é bom, exceto o macho branco
heterossexual. O índio era bom, o negro era bom, a mulher era boa, o bicho era bom. O filme parece
um filme comum de faroeste, mas quando se ver a estrutura, o raciocínio interno, está determinado
dessa maneira.
Aluno: As outras duas forças globalistas da Nova Ordem Mundial, sejam metacapitalistas ocidentais,
o Islamismo, o Clube de Roma, Bilderbergs, incluindo essas ideologias do modernismo e
cientificismo e toda histórico das tariqas islâmicas, se encontram e convergem no Movimento
Comunista?
Olavo: Às vezes convergem, às vezes divergem. A relação entre esses três grupos é enormemente
complicada. Veja que em alguns pontos do planeta eles operam no mesmo sentido. Por exemplo, nos
EUA é obvio, tem os globalistas do Partido Democrata e os Islâmicos de mãos dadas. Mas em outros
lugares isso não acontece. E, quanto ao comunismo, eu já li coisas de autores islâmicos que acreditam
que o Islã vai engolir o comunismo. “Porque o comunismo não tem alma, então nós criamos uma
sociedade comunista (fascista, na verdade) e daí entramos com o Islã para botar uma alma ali” – é
uma teoria. Ou seja: “Nós começamos antes, nós somos mais antigos, nós temos projetos de
longuíssimo prazo; os comunistas vão até um século adiante enquanto nós vamos ao Juízo Final,
então o nosso horizonte de consciência é mais amplo que o deles” – e é mesmo, nesse sentido; a longo
prazo eu creio que o Islã leva vantagem nessa coisa.
Aluno: Estou lendo o livro do Carlos Azambuja, A Hidra Vermelha, e ele cita o Georg Dimitrov, que
dizia que a luta pela paz dos movimentos pacifistas é luta pela vitória do socialismo no mundo.
Olavo: Mas é claro que é. Todas as campanhas pacifistas, até hoje, foram organizadas pelo
Movimento Comunista e só servem a ele. Por quê? É o pacifismo unilateral. Fazem a campanha
pacifista no EUA, mas não fazem na URSS e nem na China. “Ah, o desarmamento nuclear... nós
temos horror às bombas atômicas”. Onde fazem isso? Fazem no EUA, na Inglaterra, não fazem na
URSS, não fazem na China. A China está numa corrida armamentista louca. Quem vai pará-la?
Ninguém, não tem um movimento pacifista lá. Todos os movimentos pacifistas são organizados pelo
Movimento Comunista Internacional. E se o sujeito é pacifista e diz: “Eu não sou comunista, eu sou

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apenas contra a guerra.” – ele é um idiota; está se apegando a um ideal abstrato e a política não é feita
do confronto entre ideais abstratos, mas entre grupos, forças, organizações etc.
Aluno: É aquele negócio do “faça amor, não faça a guerra”.
Olavo: É o “faça amor, não faça a guerra”.
Aluno: Comunista.
Olavo: É claro. É isso em Nova Iorque. Agora em Moscou, é faz a guerra e não o amor. Todo este
moralismo cristão do Putin vale só para a Rússia, meu filho. Ele proíbe dentro da Rússia aquilo que
fomenta no exterior. Porque ele sabe que coisas como gayzismo, abortismo e feminismo enfraquecem
a sociedade. Ele quer transformar a Rússia num exército e os outros países num imenso parque de
diversões onde só tem criança, onde as pessoas não crescem para as responsabilidades e os perigos
da vida adulta, onde fica todo o mundo querendo banheiro unissex, querendo isso, querendo aquilo.
É claro que é uma concepção lúdica da vida. Um povo com uma concepção lúdica está totalmente
desarmado. Isso não vigora na China, não vigora na Rússia, mas em todo o ocidente.
Qualquer desses ideais que circulam por aí: todo ideal tem uma política por trás, os ideais não
aparecem do nada, alguém propôs. Vá ver quem propôs, por que, com que objetivo, com que cálculo,
daí vocês saberão o “para quem está trabalhando”. Não quer dizer que alguém contratou o sujeito
para fazer aquilo, que chegaram diretamente para ele e o mandaram fazer isso ou aquilo, não. É um
mecanismo muito mais sutil e difuso, de influência histórica difusa; e o fato é que os caras têm
conseguido controlar este movimento.
E daí surge outro aspecto. O pessoal comunista e afins, eles têm o sentimento de participar de um
gigantesco movimento histórico e isso dá uma grandiosidade épica à vida de qualquer idiota. Só que
é o seguinte, eles têm toda a razão, pois eles estão mesmo fazendo isso mesmo. É um movimento
grandioso que está dirigindo o curso da História – é claro, com erros e tropeços mas, no grosso, está
indo para lá. Eles só não sabem, primeiro, que o objetivo não será atingido, o movimento é para
continuar para sempre. Segundo, o pouco dele que é atingido cria uma economia fascista e um regime
totalitário e como todo regime totalitário, ele será moralista, repressor e intimidante o tempo todo.
Mas que eles estão participando de uma coisa épica, estão.
Em face disso chega o liberal com argumentinho de eficácia econômica, por exemplo. O que
acontece? Ele já posa de cínico. “Nós aqui estamos falando de grandes ideais, coisas maravilhosas
para a humanidade inteira e você fala apenas de lucro? Está demonstrando que o seu modo de ganhar
dinheiro é mais eficiente, mas nós não estamos interessados em ganhar dinheiro, nós estamos
interessados na transformação da humanidade”. Quer dizer, esse sentimento de participação que eles
têm é inteiramente verdadeiro e traduz a realidade da posição deles, ninguém poderá fazer face a eles
se não tiver um sentimento de participação igual e contrário. Não é com argumentinhos econômicos
ou com argumentinhos jurídicos que vamos vencer isso aí. É preciso ter um ideal igualmente grande,
só que real e realizável. Por exemplo, uma sociedade liberal culturalmente cristã, isso é realizável.
Não é uma sociedade cristã, um governo cristão, não. É uma sociedade liberal com cultura cristã
predominante.
Por isso que eu digo, o combate central não é na esfera política, é na esfera cultural. Vejam, a ideia
de uma sociedade cristã é um projeto revolucionário, também. E vai terminar no quê? Num regime
fascista, evidentemente. Não é a sociedade que tem de ser cristã, são as pessoas que têm que ser
cristãs, a massa da população. Assim, os valores cristãos predominarão sem precisar dominar
diretamente o Estado e sem precisar reformular a economia para ela ser mais cristã. Eu não acredito
em economia cristã. A economia é regida por aquelas leis que a economia austríaca percebeu, não
tem nada a ver com [isso]. É a mesma coisa que alguém querer uma anatomia cristã, ou fisiologia
cristã, isso não existe. Agora, a fisiologia funciona de acordo com as leis da fisiologia, mas o dono

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do corpo pode ser cristão. Então o que importa é o cristianismo predominar na cultura, na sociedade,
não nas leis, não no governo, não no Estado.
Aluno: Existe algum país atualmente que seja minimamente ciente desse Movimento Comunista?
Olavo: Todos os países do Leste Europeu. Todos estão sabendo, eles conhecem isso e sabem como
funciona – Hungria, Polônia, Romênia. Nesses tem a luta efetiva contra o comunismo, só nesses. E a
luta está feroz.
Aluna: Aquela amiga da Romênia disse que a Polônia já avançou bastante.
Olavo: Pois é. Na Polônia, quando eu estive lá em 2011, os comunistas estavam voltando ao poder.
Agora já tiraram. O presidente é cristão e conseguiram virar a mesa.
Na próxima aula vamos nos concentrar um pouco mais na situação brasileira.
Espero que vocês tenham relacionado uma aula com a outra. Toda essa ação avassaladora do
Movimento Comunista, no Brasil, ela encontra um terreno propício por causa da formação da nossa
intelectualidade, por causa da fragilidade da nossa cultura – fragilidade que aumentou enormemente
nas últimas décadas. Então, o que nós temos de fazer? Temos de fortalecer a nossa cultura, meu Deus
do Céu! “Ah, mas isso demora, nós precisamos...” – é urgente ter paciência. Se vocês querem fazer
as coisas a curto prazo, o esquema vigente vai sempre ganhar, porque ele tem todos os meios de ação
e vocês não têm nada. Nós temos de apostar no longo prazo, porque o plano deles é de longo prazo.
Agora, se temos urgência – “Ah, a situação está muito desconfortável” – imaginem assim: esse
desconforto vai durar até o último dia da minha porca vida, eu só quero que os meus netos ou bisnetos
tenham uma coisa melhor. É assim que se faz. Agora, se vocês querem apenas aliviar o desconforto
– a luta política não é pomada para hemorroidas, alívio imediato não existe.
Até semana que vem e muito obrigado. [2:18:09]

Transcrição: Francisco Jr. e Deko Izarrigues


Revisão: Leonardo Yukio Afuso e Rahul Gusmão

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Política e Cultura no Brasil – História e Perspectivas
OLAVO DE CARVALHO

Aula 5
10 de maio de 2016

[versão provisória]
Para uso exclusivo dos alunos do Seminário de Filosofia.
O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.
Por favor, não cite nem divulgue este material.

Boa noite a todos, sejam bem-vindos.


Hoje, completando o nosso roteiro, eu queria falar mais sobre esta questão do Foro de São Paulo e da
América Latina, mas a dificuldade aí é de duas ordens.
Em primeiro lugar, nós realmente não temos uma elite intelectual qualificada para enxergar e
compreender a situação do Brasil dentro do quadro internacional; não têm nem mesmo a ideia do
quadro internacional. O que o pessoal pensa a respeito do mundo, no Brasil, é diretamente
condicionado por dois elementos: a mídia americana — o NY Times e a CNN — e a mídia nacional.
Em segundo lugar, além dessa deficiência, que é puramente negativa, existe a atuação de um fator
ativo, que é a hegemonia esquerdista da mídia, a qual não vem de hoje, existe no mínimo há 60 anos,
na mais modesta das hipóteses. Creio que eu já tenha mencionado aqui sobre uma publicação do
sindicato dos jornalistas de São Paulo chamado “60 Anos de Jornalismo”, publicado na década de 80,
onde estão lá todas as grandes figuras do jornalismo paulistano, e mais de 90% delas eram membros
do Partido Comunista ou de algum partido parecido – do tipo da 4ª Internacional ou alguma outra
variante. Quer dizer, a história da mídia em São Paulo era a mesma história do Partido Comunista, as
grandes figuras de um eram as grandes figuras do outro. Esse fator geralmente não é levado em conta,
as pessoas, mesmo as que têm essa informação, não costumam levar em conta porque, ignorando o
que é realmente o Movimento Comunista e tendo dele uma concepção paroquiana e caipira, não
conseguem relacionar esse predomínio dos comunistas na mídia com o conteúdo do noticiário. Eles
acham que o sujeito, comunista ou não, é um “profissional de imprensa” cuja função é divulgar os
fatos, e cada um tem lá a sua opinião, mas ele não vai deixar que a sua opinião modifique os fatos,
quando na realidade a essência da profissão jornalística é a seleção dos fatos.
Como é que se faz um jornal? De manhã chega lá um funcionário chamado pauteiro, que vai fazer a
pauta, que são os assuntos que serão abordados na edição do dia independentemente do noticiário
internacional que possa vir pelas agências. Neste momento o sujeito já faz uma seleção dependendo
do seu critério de importância. Esse critério geralmente é baseado no quê? Nos outros jornais. Aquilo
que os outros jornais vêm considerando importante será considerado importante na elaboração da
pauta. A não ser, na quase impossível coincidência de que haja um pauteiro original, que tenha lá
suas próprias ideias e queira fazer alguma coisa diferente – coisa que eu nunca vi em 50 anos de
jornalismo.
Um colega meu, do tempo do Jornal da Tarde, que era um homem inteligentíssimo, aliás, era professor
de filosofia na USP, o Rolf Kuntz, ele dizia que os jornais praticavam autofagia: um só publica o que
os outros publicaram, um lê o outro e repete, o outro lê o um e repete. E isso ficou assim no Brasil,
sobretudo, depois dos anos 60/70 quando a mídia foi sendo unificada, quer dizer, o sindicato das
empresas jornalísticas adquiriu uma unidade de princípios maior, os vários donos de empresas de
mídia passaram a discutir as coisas mais constantemente e fizeram uma série de acordos, inclusive

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políticos, e isso uniformizou os jornais no Brasil inteiro. Além da uniformização empreendida pelas
próprias empresas, havia uma uniformização ideológica empreendida por membros da redação.
No jornalismo existe uma grande circulação de profissionais entre todas as redações. O sujeito que
faz uma carreira inteira em um só jornal é uma raridade – existe, mas eu creio que não passa de 5%.
Então, o sujeito está hoje na Folha, amanhã no Estadão, depois na Veja, e assim vai mudando; isso
propicia também uma uniformização. É claro que existe a direção ideológica do processo, o pessoal
do Partido Comunista dava certas instruções para prestigiar determinados personagens, seja da
política, seja das letras, seja das artes, e negligenciar outros.
Quando o Partido baixava uma instrução – “do fulano não é para falar” – como fizeram com Antônio
Olinto, um escritor brasileiro que tem seus livros traduzidos em mais de trinta idiomas, é um sucesso
internacional, a gente chega na Romênia tem lá uma biblioteca dele: durante trinta anos o nome dele
desapareceu da mídia brasileira. Depois voltou, já velhinho, voltou para o Brasil e daí foi posto na
academia, como uma espécie de prêmio de consolação, mas a cortina de silêncio vigorou durante
trinta anos. Isso é um fenômeno que tem de ser levado em conta. O meu próprio nome foi banido por
iniciativa do Milton Temer, que era um dos luminares do Partido, ele disse: “Do Olavo de Carvalho
não se fala”. Então, de fato, o meu nome desapareceu. É claro que, de vez em quando, aparecia uma
coisinha aqui, outra ali, mas totalmente desproporcional com o tamanho da atuação que eu estava
fazendo e do efeito social que estava se desencadeando. O sujeito saía na rua, só via cartaz escrito
“Olavo tem razão”, mas não havia uma menção a isso em jornal nenhum, noticiário nenhum; isso é o
normal, esse é o procedimento da espiral do silêncio.
As pessoas sabem que isso acontece, porém continuam lendo os jornais e vendo os noticiários da
televisão como sendo a sua principal fonte de informação. Isso está diminuindo hoje, graças à internet,
o pessoal se abriu mais para outras fontes, sobretudo para fontes diretas e a credibilidade da mídia no
Brasil não passa de 5%. Mas esses 5% são importantes porque é a elite, são os políticos, são os
professores universitários, em suma, são as classes falantes.
Em geral, o espectador de um noticiário de TV, ou o leitor de um jornal, não faz a conexão entre os
fatos que estão chegando para ele e a orientação ideológica que existe por trás; não conecta uma coisa
com a outra, não entende que uma publicação, um jornal, por exemplo, é um produto inteiramente
programado para impor uma certa visão das coisas. Essa visão não se impõe pela propaganda de
opiniões – isso é a coisa mais fundamental –, as páginas de opinião, nos jornais, são as menos lidas.
Temos o editorial, que é a opinião do jornal, e tem do lado uma série de artigos assinados, que são
opiniões mais variadas, mas dentro de uma gama previamente escolhida. A imposição da visão se dá
através da seleção do noticiário e da seleção sobretudo do critério de importância. Uma notícia pode
ser publicada numa notinha de dez linhas na página 15 ou pode ser manchete no jornal. Ela pode ter
uma sequência – um suíte, como se chama no jornalismo – ou não, podem noticiar a coisa uma vez e
desaparecer ou podem continuar e aquilo virar uma espécie de leitmotiv, um tema recorrente como,
por exemplo, os famosos crimes da ditadura viraram tema recorrente – mais recentemente, a
corrupção virou um tema recorrente. Se não quisessem, eles poderiam controlar isso noticiando só de
vez em quando e sem relacionar uma coisa com a outra. Em suma, o jornalismo não é um traslado da
realidade, ele é um produto planejado de antemão e que obedece a uma padronização bastante
rigorosa. Até o tamanho das matérias é programado. Antigamente se fazia um jornal da seguinte
maneira: cada repórter escrevia a coisa que queria do tamanho que queria, daí tinha um diagramador
incumbido de fazer aquilo caber nas páginas; ele tinha de fazer um cálculo, centimetrar e desenhar –
os diagramadores eram tremendamente inventivos naquele tempo. Depois, a partir dos anos 70, já foi
adotado no Brasil o sistema americano, onde a página era pré-diagramada e daí era o redator quem
tinha de se esforçar para fazer a notícia caber no desenho que o diagramador concebeu. Por incrível
que pareça, embora isso facilitasse o trabalho dos diagramadores, esse trabalho se tornou menos
inventivo e não mais inventivo, aí os jornais começaram a se parecer terrivelmente uns com os outros.
E o estilo americano, que é aquele estilo limpo, tudo geométrico, arrumadinho, acabou por

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predominar sobre o estilo europeu (sobretudo italiano e francês), que era o de páginas mirabolantes
desenhadas das maneiras mais inventivas.
Tudo isso foi contribuindo para que o jornalismo se uniformizasse. E o fato de copiarem modelos
americanos ajudava ainda mais a camuflar a orientação ideológica subjacente. Isso aconteceu em
todos os jornais e revistas brasileiros, sem exceção. Por exemplo, a revista Veja, não há nenhuma
diferença entre a diagramação dela e a da Time, ou da US News, Robb Report, e assim por diante.
Tudo vai ficando cada vez mais uniforme, e essa uniformidade basta para induzir no leitor uma
sensação de normalidade – existe uma rotina, as noticias acontecem durante o dia ou no meio da
semana e saem regularmente em tais ou quais publicações. Este fluxo de notícias que chega
diariamente ao cidadão dá para ele a impressão de uma estabilidade, por assim dizer, epistemológica
tremenda. O tamanho que as notícias ocupam dentro de um jornal é tido, pela população,
imediatamente como um critério da sua importância – se a coisa foi manchete em três, quatro ou cinco
deles, então é tremendamente importante. O pessoal não se lembra do seguinte: isto aí não é um
traslado objetivo da importância, esta é a avaliação feita por um jornalista. O jornalista, como
mediador entre a realidade e o leitor, praticamente desaparece sob o anonimato das notícias. Quando
sai alguma matéria assinada pelo João Pereira Coutinho ou pelo Reinaldo Azevedo a gente sabe quem
falou, mas as notícias não sabemos. Só dois tipos de matérias são assinadas no jornalismo: as
reportagens, que não se referem a um fato, mas a uma coisa mais durável, um fenômeno que é mais
durável e que ocupam muitas vezes uma ou duas páginas inteiras; e os artigos editoriais, artigos de
opinião. O resto é tudo anônimo e essa parte é a que pesa, porque ela é que dá o traslado da realidade,
o resto é opinião. O sujeito imagina que, se ele leu uma notícia assim ou assado na Folha, a mesma
notícia está saindo mais ou menos igual no Estadão, hoje isso é verdade mesmo. As notícias são
selecionadas por um critério uniforme e até mesmo redigidas de uma maneira mais ou menos
uniforme. A impressão de estabilidade e de realidade que isso dá nas pessoas é uma coisa monstruosa.
Na televisão acontece exatamente a mesma coisa, as coisas são recortadas para aparecer durante um
tempo X, com uma voz Y, [com várias predeterminações], e diariamente aquilo retorna. O jornalismo
como forma mentis, como estrutura de interpretação da realidade, nunca é discutido; isso não entra
em linha de conta na preocupação da maioria das pessoas, elas partem do material trazido pelos
jornais – “Esses materiais são os fatos e com base nesses fatos nós desenvolveremos as nossas
opiniões” –, ou seja, na sua cabeça se cria uma divisão igualzinha à que tem a estrutura do produto:
aqui tem a página de opinião, e ali tem as notícias.
É evidente que, na prática, é absolutamente impossível redigir uma notícia sobre o que quer que seja
se não houver alguma visão pessoal da coisa, o jornalista mesmo vai selecionar de acordo com seu
critério e de acordo com as normas vigentes do jornal. Em alguns jornais existia, por algum tempo
pelo menos, uma fórmula padrão para a redação: tinha uma abertura de tantas linhas, depois um
intertítulo, depois mais dez linhas, depois outro intertítulo, mais dez linhas e assim por diante.
Vejam, se existe essa uniformização industrial e gráfica do produto e, por outro lado, também existe
uma uniformidade ideológica na redação, então é claro que a imposição de uma certa visão das coisas
é avassaladora e sem contraste. Não há quem diga não, não há, por assim dizer, concorrência de
conteúdo entre os jornais – isso é importante. Eles não concorrem no conteúdo, todos apresentam o
mesmo conteúdo – eles têm lá os seus públicos tradicionais e tratam de mantê-lo ou conquistá-lo por
outros artifícios publicitários, mas o conteúdo das notícias não tem nada a ver com isso, mesmo
porque os jornalistas estão sempre mudando de redação em redação, então são sempre os mesmos
que estão fazendo tudo.
Isso quer dizer que o pessoal que vai estudar na universidade – ciência política, sociologia etc. – já
traz consigo uma visão de mundo factual que já está inteiramente estabelecida, não há como mudar.
Não há um processamento científico dessa coisa para que se possa investigar quais são os
fundamentos daquela visão que está sendo apresentada. Quando se faz isso é exatamente no sentido
de reforçar a mesma visão mediante uma falsa crítica. Por exemplo, a gente mostrar que o noticiário

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da Folha ou do Globo é condicionado pelos interesses da empresa: os interesses da empresa interferem
num jornal em 5%, no máximo. Eu trabalhei cinquenta anos no jornal, eu nunca recebi uma instrução
do patrão para escrever isso ou aquilo, isso é inteiramente decidido pela classe jornalística.
Frequentemente o dono do jornal nem aparece lá, mesmo aqueles que são jornalistas praticantes. Por
exemplo, eu trabalhei no Jornal da Tarde por muitos anos e eu vi o Rui Mesquita uma única vez, ele
simplesmente não aparecia na redação. O Otávio Frias de Oliveira, esse era uma raridade, era uma
figura mítica, eu via de longe.
Quando se faz uma análise da imprensa, se faz a análise pelos cânones marxistas tradicionais: “Aqui
existe uma classe dominante, os proprietários com os seus interesses e naturalmente o jornal deve
refletir os interesses de classe”. Então, se analisa por esse lado. O que camufla a coisa mais ainda,
porque estão vendendo o jornal com um noticiário inteiramente recortado por uma mentalidade
comunista e ainda condenando essa mesma mentalidade por ser capitalista. Podemos dizer que isso é
um massacre informativo e é isso que vivemos no Brasil há muito tempo e de maneira muito mais
vasta e uniforme do que em qualquer país que eu conheça. Aqui no EUA, por exemplo, há uma certa
uniformidade nos jornais, mas não é tanta. E sempre tem o fator rádio, que é o veículo mais popular
e que, em geral, se opõe à mídia impressa. Em outros países também acontece a mesma coisa, vemos
jornais de direita, de esquerda, jornal conservador, cristão, protestante etc. Aqui no Brasil não tem
essas coisas. Graças a isso, a nossa visão não só da situação nacional, mas sobretudo da situação
internacional é monstruosamente recortada e caipira. Isso é geral e nunca se fez um estudo a esse
respeito.
Quando nós vemos fenômenos como a ocultação do Foro de São Paulo por dezesseis anos, esse
fenômeno é mais importante do que tudo que o governo esteja fazendo. Não podemos esquecer o
seguinte: as decisões de um governo, da presidente da república, elas têm de ser discutidas no
ministério, depois passam pela câmara dos deputados, passam pelo senado, cria um bafafá, tem uma
discussão pública, e no fim aquilo vira uma decisão oficial ou não, mas aquilo que foi decidido pelos
meios de comunicação está decidido e está feito, ninguém vai discutir e não volta mais atrás. Isso
quer dizer que este pessoal tem nas mãos os meios de divulgar o que quiser e, sobretudo, ocultar o
que quiser.
Com uma visão padronizada dos fatos, que opiniões se pode desenvolver senão aquela que é
compatível com essa visão dos fatos? Mesmo que alguém seja contra o aborto ou a favor do aborto:
bom, ele é contra ou a favor nos termos daquilo que foi noticiado, a partir do material disponível e
sobretudo a partir do material indisponível, isto é, aquilo que ele não sabe não vai ser levado em conta
na sua opinião.
Então nós vemos fenômenos no Brasil que, vistos um pouco de longe, se tornam assustadores. Por
exemplo, vocês viram o número de matérias de imprensa, de livros, de programas de TV, de filmes,
que falam sobre a influência americana no golpe de 64: é uma imensidão, é um oceano. Qual é a base
factual disso? Existem alguns fatos que realmente aconteceram e sabemos que eles aconteceram
porque podemos confirmá-los por outras fontes. Por exemplo, sabemos que o presidente Johnson
mandou uma frota para ficar estacionada, nunca desembarcou no Brasil, e ela ficou ali por perto. Para
que? Bom, isto é obrigação constitucional do presidente americano: onde há uma ameaça de crise ou
de guerra civil, ele tem de mandar uma frota para recolher os cidadãos americanos que estão em
perigo, foi por isso que ele fez. Essa frota não interferiu em absolutamente nada no desenvolvimento
do golpe. Sabemos também do famoso telefonema do embaixador Lincoln Gordon ao presidente
Johnson, dizendo: “Presidente, os militares aqui colocaram os tanques na rua, o que nós fazemos?”.
Daí o Johnson disse: “Façam o que for necessário” – isso no dia 31 de março, quando os tanques já
estavam na rua. Nós sabemos que o embaixador Lincoln Gordon acompanhou algumas discussões
entre os generais e sabia que alguma coisa eles iam aprontar, mas ele nem sequer se preparou para
isso. Se o indivíduo, diante do fato consumado, pede instruções ao presidente, então é óbvio que ele
não participou do planejamento das ações. Embora tivesse alguma informação a respeito, mas não

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sabia sequer a data em que as coisas iriam acontecer. Por incrível que pareça, essa mesma gravação
desse mesmo telefonema é apresentada até hoje como prova da intervenção americana no golpe de
64. Qualquer pessoa com quem vocês possam conversar, sobretudo no meio universitário, se vocês
colocarem a coisa em dúvida, ela vai dizer: “Não, mas isso é óbvio, é um fato histórico comprovado”.
Não há comprovação nenhuma, é zero, literalmente zero. Não há nenhum sinal de uma intervenção
americana no golpe de 64, zero. Daí as pessoas dizem: “Não, mas o EUA tinha firmas americanas,
tinha a Light financiando movimentos de direita no congresso” – a Light não é americana, é
canadense. Escuta, mas se eles estavam alimentando uma oposição no congresso, o que isso tem a
ver com golpe militar, meu Deus do Céu? Se esperavam agir através do congresso, então certamente
não era com um golpe militar que eles contavam. Eles citam, por exemplo, o IBAD, o Instituto
Brasileiro de Ação Democrática, que tinha dinheiro americano, dinheiro da Light. De fato, tinha, mas
isso era uma ação dentro do congresso, era propaganda política normal dentro da concorrência
parlamentar e, sobretudo, tem o fator que há vinte anos eu digo, que é: “Bom, se o EUA interferiu
tanto, se a CIA interferiu tanto, tinha de ter pelo menos um agente da CIA lotado no Brasil; me deem
o nome de um agente que estivesse lotado no Brasil”. Desde 1964, até hoje, (meio século) estou
esperando o nome do tal agente, até hoje ele não apareceu.
Em compensação, a ação da URSS no Brasil naquela época – e desde então – é totalmente ausente na
mídia, no mundo das artes e espetáculos, no ensino universitário etc. E, para o cúmulo da ironia, os
documentos revelados pelo Mauro Abranches, um brasileiro que vive na Polônia, mas fala tcheco e
tem acesso aos documentos tchecos da STB, que é o serviço secreto tcheco, revelam claramente que
havia uma multidão de agentes secretos soviéticos no Brasil, com nome, CPF, RG, endereço, número
de telefone e cor da cueca! Sabe-se tudo a respeito desses caras! Bom, sabe-se quando se vai direto
às fontes, quando vemos a imagem pública, que é aquela que é transmitida na mídia, isso está
totalmente ausente. E, falar em ação da KGB, é se arriscar a ser chamado de teórico da conspiração,
de saudosista da guerra fria, disso e mais aquilo.
Existe realmente um bloqueio e esse bloqueio é do tipo da espiral do silêncio, não é uma coisa da
qual seja ostensivamente proibido de falar, ele não é feito de cima, não é que tenha um governo que
proíba, não há censura. Os agentes da censura, no caso, são os próprios jornalistas. O termo auto-
censura não se aplica. Auto-censura existe quando há uma ditadura e o jornalista, com medo de dizer
certas coisas, as omite para não desagradar o governo, isso é auto-censura. O que acontece no Brasil
não é uma auto-censura, é uma censura exercida por jornalistas, é completamente diferente. O
jornalista, como agente de uma facção ou de um partido, corta as notícias e faz desaparecer o que ele
bem entende. Isso é um fenômeno geral e endêmico no Brasil. E, se não começarmos a levar isso em
conta, nunca vamos entender nada do que se passa no Brasil e pior, não vamos entender qual a posição
do Brasil no mundo.
Hoje, quando vemos os documentos do PT, as discussões internas do PT nos últimos meses – que são
muito interessantes –, vemos que ali circula livremente a opinião de que o impeachment da Dilma é
intervenção imperialista do governo americano, o governo americano está derrubando a Dilma.
Escuta, mas o governo americano não é o Barack Obama? O Barack Obama não é o sujeito que
favorece a esquerda em tudo, não só no EUA, mas no mundo? Então por que ele estaria contra a
Dilma? Nesses meios as pessoas realmente acreditam nisso. É claro, acreditam, em parte, na base da
auto-persuasão histérica, porque a revolta popular que eclodiu contra eles é, para eles, um fenômeno
inexplicável. Eu posso explicar, eu sei por que ela aconteceu, mas eles não sabem. Para eles isso é
um fenômeno estranho, sem motivo, e tem de ter uma mão maligna do imperialismo americano por
trás, ou tem de ter outra explicação conspiratória qualquer. E eles estão realmente se apegando a isso
como avestruzes, não querem ver o que está acontecendo, e preferem inventar outro cenário que os
tranquilize psicologicamente. Embora a situação seja muito ruim, eles acreditam que se entenderem
a situação eles podem manipular: “Então este é mais um golpe imperialista e nós temos de reagir a
isso”, ou seja, eles estão repetindo o script de 1964. Em 1964 acreditaram na balela da intervenção
imperialista e continuam a cultivá-la até hoje de uma maneira avassaladora, não é um, nem dois

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livrinhos que saíram a respeito disso, tem uma biblioteca inteira a esse respeito, além de filmes. No
ano passado fizeram um filme de novo sobre isso e o filme ganhou um prêmio. Um comunista faz um
filme sobre isso aqui no Brasil, e lá em Paris outro comunista dá um prêmio para ele – não pensem
que isso é uma coincidência.
O comunismo é uma rede – eu já disse isto aqui: o comunismo não é uma ideologia, não é um regime,
ele é uma organização mundial, vocês têm de entender isso aí. A ideologia pode mudar, os planos
podem mudar, a estratégia pode mudar, mas a rede não é destruída, jamais. É claro que um indivíduo
pode sair e entrar outro no seu lugar, mas a rede continua funcionando e, na verdade, o número de
pessoas que sai é ínfimo, se pensarmos bem; é muito difícil o neguinho se desligar dessa coisa. Por
quê? Se o sujeito entra no partido com dezessete, dezoito anos, todo o seu círculo de amizades está
condicionado pelo partido. As festas que ele vai são de gente do partido, as conversas de que ele
participa são de gente do partido, a namorada que ele arrumou é do partido, o seu casamento e os
convidados são de gente do partido – quantos casamentos eu vi assim, gente! Eu tinha um contra-
parente que era o ferramenteiro que consertava armas para o e ele estava casando a filha. Eu e o meu
amigo Otto fomos convidados e fomos ao casamento, mas a casa era longe – Jardim raio-que-o-parta
–, então eu e o Otto ficamos circulando e tentando achar a casa, quando chegamos lá era quase meia
noite. Na hora em que nós entramos, um homem falou: “Puxa vida, que pena que vocês chegaram
agora, acabei de bater a última foto”. Na semana seguinte, todos que estavam na foto estavam presos
como cúmplices da guerrilha. É claro que somente 10% ali tinha algo a ver com a guerrilha, os outros
sabiam da coisa, mas não tinham nada a ver pessoalmente, mas eram todos gente do partido, só tinha
gente do partido no casamento – eu vi um monte de casamentos desse tipo.
Como é que se desliga disso, meu Deus do céu? “Agora eu não pertenço mais ao partido” – o sujeito
diz. Está bom, mas onde ele vai arrumar outros amigos que são contra o partido e que estão fora do
partido? Tem de refazer a sua vida! [0:30] Geralmente o que o sujeito faz, quando ele sai, é ser
considerado como estando num afastamento temporário; ele continua sendo tratado como se fosse
um membro do partido. Eu, por exemplo, os caras me chamavam de companheiro vinte anos depois
de eu ter saído do partido, o meu círculo ainda era de gente do partido. Quando havia amizade com
algum sujeito da direita era uma exceção que era considerada um sinal do seu espírito democrático.
Por exemplo, os sujeitos se davam bem com o Carlinhos Brickmann, que era assessor do Maluf,
ninguém desgostava dele porque era o direitista de estimação. Algum direitista tem de ter, ó raios!
Mas, em geral, os outros direitistas eram odiados, como Lenildo Tabosa Pessoa, Gustavo Corção,
etc., mas algum direitista, se tem amizade com um do partido, pronto, já é aceito como a exceção que
confirma a regra. Como o sujeito está num afastamento temporário, a sua atmosfera ideológica ainda
é a mesma, portanto ele logo trata de se enquadrar em algum tipo de corrente política que não seja
diretamente hostil ao partido. Por exemplo, ele vira um social-democrata, qualquer coisa assim, ou
então pode entrar no tipo da oposição padronizada, como por exemplo, ele vira um liberal; ele pode
ser um liberal, porque os liberais só têm contra os comunistas um ponto, que é o tal do livre mercado.
Mas quem disse que os comunistas são contra o livre mercado? Por exemplo, o livre-comércio
internacional. Karl Marx escreveu páginas e páginas a favor do livre-comércio internacional. Dentro
da estratégia mais ampla do Movimento Comunista, o livre mercado é absolutamente necessário
durante muito tempo. Lênin explica que é para estrangular os capitalistas “moendo-os entre as pedras
da inflação e dos impostos”. Ora, isso não é incompatível com a iniciativa privada, pelo contrário,
exige que exista uma iniciativa privada. Aí fica aquela discussão: mais imposto, menos imposto, a
inflação está alta, precisa diminuir, vamos controlar a inflação – a discussão sobre o controle da
inflação no Brasil durou sessenta anos. O centro da discussão é rebaixado para assuntos mais
imediatos e a disputa ideológica maior desaparece, por assim dizer, e essa desaparição dá a impressão
de o comunismo não existir mais. Estão entendendo como funciona isso?
Se a única oposição que tem é a de pessoas que pertenceram ao grupo esquerdista e agora estão fora
– com esse afastamento temporário – ou se enquadraram na oposição padronizada – que é
inteiramente controlável, porque o sujeito pode aderir ao livre mercado, mas ao mesmo tempo

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continuar apoiando outras propostas da esquerda, como casamento gay, abortismo, educação sexual,
etc., ele pode aceitar todo o programa cultural da esquerda – então ele não está atrapalhado porque,
se ele quer o livre mercado, nós até certo ponto também queremos, então a oposição não é tão grande
assim. Isto não é problema nenhum: aceitar o livre mercado nunca foi problema para os comunistas.
Eu mesmo já expliquei em vários artigos que os governos comunistas não tratam de estatizar a
economia, mas de estatizar tudo o mais, porque a economia é a parte mais volátil da vida social. É só
vocês acompanharem a bolsa de valores que vocês vão ver tal ação, da companhia tal, aqui em cima,
no dia seguinte, puft, caiu; o ranking de um país qualquer estava lá em cima, do dia para a noite, cai
e depois sobe de novo. Como é que você vai controlar uma coisa dessas? A economia é incontrolável
por natureza.
Mas tem coisas que são controláveis como, por exemplo, a educação estatal. Quer dizer, os
regulamentos da educação têm de ser implantados lá de cima e vão até a última escolinha de Vila
Nhocunhé, São Tomé das Letras, está lá, seguindo as mesmas coisas, os mesmos critérios. Saúde
pública também, é tudo uniformizado. As leis penais, tudo isso é uniformizado. É mais fácil controlar
o resto da sociedade e deixar a economia correndo do jeito que ela está – Lênin já sabia disso, meu
Deus do céu!
Se o pessoal liberal faz tanta propaganda do livre mercado e faz disso o grande cavalo de batalha que
os separa da esquerda – eles juntos, comunismo e fascismo, é tudo estatizante do mesmo modo; não
deixam de ter razão, sob certos aspectos –, então a discussão se concentra nisso e o resto todo não
tem importância.
Por exemplo, convencer um liberal de que este negócio de casamento gay é um item fundamental da
estratégia esquerdista: o cara vai levar anos para perceber, porque isso não tem efeito direto na
liberdade do mercado, aliás, ao contrário, ele facilita a liberdade de mercado, pois os gays são um
setor importante do mercado. A primeira página gay da imprensa nacional foi lançada pela Folha sob
este pretexto: “Eles são uma fração importante do mercado e nós não podemos desprezá-los.” Tem
toda a razão, é verdade. Se fizessem uma página para os cornudos, também seria uma imensa facção
do mercado – “Se tutti i cornuti del mondo portassero un lampione, che brutta illuminazioni”. Só que
ainda não existe orgulho dos cornudos. Existe orgulho gay, mas dos cornudos ainda não. Tem cornudo
contente, mas não cornudo orgulhoso. [risos] É só por isso que não tem a página dos cornudos. O
gayzismo em si não oferece ameaça à economia de mercado, mas oferece ameaça sob outros aspectos.
A principal ameaça dele é o ímpeto regulamentador do Estado. Para “resguardar” os direitos da
comunidade gay, eles têm de fazer um monte de regulamentos que diminui a liberdade de todo o resto
e isso evidentemente é uma delícia, porque é uma reinvindicação de um grupo pequeno que dá ao
governo instrumentos para ele controlar todo o resto.
Vejam, no EUA tem projetos de lei que proíbe qualquer empresa recusar qualquer tipo de serviço à
comunidade gay sob alegação religiosa – “Não, não posso fazer isso porque viola os [meus valores]”.
Por exemplo, há uma empresa que faz festinhas e daí a contratam para fazer festinha para casamento
gay: “Não, não posso fazer isso porque contraria a minha religião; somos católicos, protestantes,
ortodoxos, judeus, sei lá o que”. Eles não mais poderão fazer isso. Significa o seguinte: eles vão forçar
toda a população a contrariar os seus princípios religiosos para servir àquela pequena comunidade
gay que, na verdade, não passa de 2% ou 3% da população; nunca passou, mesmo hoje. Mas se vocês
perguntarem para as pessoas aqui no EUA, por exemplo, a maioria está convencida de que 20% é
gay. Não sei de onde tiraram esses 20%.
Esse negócio gayzista é apoiado pelas facções esquerdistas por essa razão. Não porque os esquerdistas
morram de amores pelo gayzismo, nunca foi assim, mas ao contrário, onde quer que tenha um governo
comunista os gays são perseguidos. Em Cuba, eles são jogados numa sessão que só tem aidéticos para
morrerem lá dentro. Não vamos nem falar dos islâmicos que matam essa gente a 3x2 com o apoio da
esquerda ocidental inteira. O gayzismo é útil para esquerda por causa disto: ele é um instrumento para
a geração de controles estatais invasivos, mas não vai tocar na economia. Portanto, o liberal diz: “Ah,

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‘tá tudo bem se tem livre mercado”. Assim, chega um ponto onde só há a liberdade econômica, mas
só essa liberdade, não tem mais nenhuma – na China é assim.
Então, quem pensa que o comunismo tem algo a ver com controle estatal da economia está muito
enganado. Controle estatal da economia é um ideal, uma cenoura de burro que eles colocam na frente
para o neguinho ir atrás. Isso nunca vai se realizar porque é uma coisa auto-contraditória, é impossível
– como já demonstrou Ludwig von Mises, em 1923.
Então, se não vai acontecer – aí é o mesmo raciocínio que eu fazia quando era pequeno: eu não
gostava de história de super-herói, de fantasma, de lobisomem, isso aí não vai acontecer, mas história
de guerra pode acontecer, de polícia pode acontecer, então porque eu vou me preocupar com essa
bobagem, vou me preocupar com a bolha assassina agora? Não é possível. O Gugu tinha o mesmo
instinto: separar os super-heróis possíveis dos impossíveis. Na verdade, todos são impossíveis. Este
pendor liberal pelo livre mercado faz com que eles acreditem numa espécie de condicionamento
econômico da política e da cultura – “Se houver liberdade de mercado haverá todas as outras
liberdades”. Mas não, isso é uma condição necessária, mas não suficiente. Sem liberdade de mercado
não dá para existir as outras liberdades, mas ela por si não produz as outras liberdades, ao contrário,
ela pode servir de instrumento para liquidação das outras liberdades.
Graças a tudo isso, a visão que nós temos do cenário internacional — mesmo a população mais “culta”
do país — é absolutamente provinciana, é um recortezinho minúsculo, onde todos os fatores
importantes são absolutamente desconhecidos. A aula anterior que eu dei, para dar a vocês uma
dimensão do Movimento Comunista, que as pessoas desconhecem no Brasil, já dá um sinal disso aí.
Principalmente no caso da visão que nós temos da história brasileira, essa coisa da intervenção
americana — ora, procurem lá no Mauro Abranches, tem o site dele que, vejam só, foi retirado da
Wikipédia; o verbete sobre ações da KGB no Brasil foi retirado de lá, ela está totalmente sob controle
dessa gente; “Ah, porque eles são diretores da Wikipédia?”. Não, a Wikipédia é editada por gente
fora, então é só organizar um grupo de editores que esteja constantemente fiscalizando e mudando a
redação das coisas conforme o interesse desse grupo. Basta ter um grupo militante que o grupo
militante controla a Wikipédia totalmente, esse grupo existe mesmo. Hoje em dia existe até
oficialmente. Para que existe o MAV?
“Em fevereiro de 1964, foi montada uma operação de desinformação na KGB...

Isso foi retirado dos documentos da STB, o serviço secreto tcheco.


...com o objetivo de convencer a opinião pública de que, após a morte de John Kennedy, o EUA
tenderia a adotar uma política externa agressiva na América Latina. E, que tal política resultaria em
um maior intervencionismo econômico, político e militar do governo americano na região.”

Notem bem, o que aconteceu foi exatamente o contrário. A partir do governo militar no Brasil, a
intervenção americana foi diminuindo até se reduzir a zero. É claro que havia a intervenção das
empresas que queriam vender os seus produtos no Brasil, isto aí continua havendo, sobretudo no
próprio mercado de show business, de venda de discos etc. Mas a ação do governo americano é nula,
não tem sequer o que se chama de diplomacia pública, que é quando falam mal do país e o embaixador
dele vai e dá uma entrevista reclamando daquilo – hoje não tem nem isso. Podem dizer o que quiser
do EUA que o embaixador não vai dar uma palavra – mesmo porque, em geral, os embaixadores, já
trocados pelo sr. Obama, já são todos favoráveis ao lado de lá.
“Esta foi a Operação Toro, conhecida também como Operação Thomas Mann, numa alusão ao
assistente do secretário de Estado do EUA, Thomas A. Mann, escolhido pelos agentes de
desinformação para ser acusado de ser o autor dessa política. A Operação Thomas Mann consistiu em
implantar informações falsas na mídia latino-americana, dando a entender que tais informações
partiam de órgãos oficiais do EUA. As principais falsificações postas em circulação foram: um
comunicado de imprensa com carimbo oficial da agência de informações americanas no Rio de Janeiro,

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revelando a política imperialista concebida por Thomas A. Mann; panfletos de um fictício “Comitê
para a Luta contra o Imperialismo Ianque”, que denunciava a presença de agentes da CIA e do FBI no
Brasil e que esses agentes estariam disfarçados como empresários, jornalistas e diplomatas.”

Essa carta foi falsificada pelo serviço tcheco. O chefe do serviço tcheco no Brasil, Ladislav Bittman,
confessou isso aí já faz mais de vinte anos. Houve, então, várias informações desse tipo e essas
informações já estão desmentidas pela própria fonte, mas elas continuam sendo usadas
imperturbavelmente na mídia, no jornal, no show business, nas escolas etc.
Isso é para vocês terem ideia do seguinte: a circulação de informação no Brasil é controlada 100%
pela esquerda, não é 99%, é 100%. O pouco que sai contra eles é oposição interna, é briga de detalhes.
Por exemplo, quando apareceu Hélio Bicudo contra a corrupção petista: oposição à corrupção existia
até no comitê central da URSS. Quantos funcionários ali, na URSS, não foram demitidos, presos e
fuzilados por causa de corrupção? A luta anti-corrupção não tem sentido ideológico algum e não afeta
em nada a estrutura de poder da esquerda, mas ao contrário, é um processo de auto-purificação que,
de tempos em tempos, tem de voltar a ser feito de novo, se não o negócio vira bagunça. Eles podem
permitir que o sujeito roube para o partido, mas quando permitem isso, no terceiro mês ele começa a
roubar para si mesmo. E daí pronto, a coisa saiu do controle. Como aconteceu com o PT: a roubalheira
petista saiu do controle, então tem de acabar.
Um verdadeiro desenho do poder comunista no Brasil e na América Latina não aparece em parte
alguma. Por isso o pessoal fica achando que não existe. Mas quem está fazendo o desenho? São eles
mesmos. Isso é uma coisa que se pode comprovar caso por caso. Se vocês pegarem a história de cada
jornalista brasileiro vocês vão ver: primeiro, o número deles que pertenciam a organizações de
esquerda e que ainda continuam vinculadas a elas é enorme; segundo, o número dos que foram
treinados pela KGB ou treinados em Cuba também é enorme. Alguns deles, de vez em quando
confessam, como o Ancelmo Gois, por exemplo – o Mauro Santayana não confessou ainda, mas para
mim é notório. E tem outros – esse pessoal todo que faz a Carta Capital, por exemplo. São eles que
controlam a mídia e ao mesmo tempo controlam a mídia dita de oposição. Isso já acontecia no tempo
dos militares, meu Deus do céu!
Quem controlava a Folha de São Paulo? Era o Cláudio Abrahão, que era um trotskista radical, por
exemplo. Quem controlava o Jornal da Tarde? Era o Ricardo Ohtake, o Narciso Kalili, essa gente.
Quem controlava as revistas da Editora Abril? Eles mesmos. E eles mesmos também faziam pequenos
semanários de oposição denunciando a grande mídia, que eram eles mesmo que faziam. Isso
aconteceu durante todo o regime militar. Portanto, se eles controlam a mídia e a anti-mídia, então eles
controlam tudo. Nada se opõe a eles, absolutamente nada.
Foi vendo essas coisas que eu decidi publicar o Imbecil Coletivo, porque essa uniformidade mental
da mídia, do ensino, das artes, etc., estava imbecilizando as pessoas, estava virando uma situação na
qual qualquer hipótese que não fosse a majoritária era concebida como loucura, como doença mental.
Mesmo as pessoas que sabem que este noticiário é controlado não levam isso em conta na hora de ler
cada notícia. Elas sabem que estão mentindo, mas tal mentira em particular elas aceitam, aquela outra
em particular elas também aceitam, e outra, e outra etc.
Por exemplo, a gente vê a entrevista do tal do Geneton com o general Leônidas: o general diz:
“Durante o tempo que eu dirigi o DOI-CODI não houve nenhum caso de tortura, nenhum caso chegou
ao meu conhecimento, absolutamente nenhum”. Daí o Geneton diz: “Não, mas é fato histórico
comprovado”. Bom, cadê a comprovação? A comprovação é o depoimento dos mesmos que dizem
que foram torturados – “Eu digo que você foi torturado, você diz que eu fui torturado, e nós dois
ganhamos indenização”. Não há, ao longo de todos esses milhares de indenizações, um único exame
de corpo de delito, nem um único, nunca. Vocês comparem isso, por exemplo, com o caso do Richard
Wurmbrand, que foi torturado nas prisões comunistas da Romênia e que fez questão de ser examinado
por uma comissão médica, em público, na ONU, mostrando marcas de queimadura, cicatriz, dente

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quebrado, etc., as fotografias estão lá à disposição. Bom, como é que no meio de não sei quantos mil
torturados não tem uma única marca? Uma vez eu li um depoimento de um advogado dizendo: “Não,
naquele tempo os caras estavam lá cortando dedos, furando olhos, cortando nariz” – me mostrem um!
O único dedo cortado que eu vi foi o do Lula, que ele mesmo que cortou com a sua habilidade
mecânica extraordinária. Essa coisa é tão repetida e jamais contestada. Quando é contestada é de
maneira absolutamente inábil – o militar mais inteligente que se opôs a isso foi o general Leônidas,
mas deixou muito a desejar pois ele já estava com 88 anos. Então, tudo passa como fato notório.
Quem quer discutir o assunto, a primeira coisa que tem de dizer: “Bom, caso de tortura houve, mas
isso é o máximo de oposição, de enfrentamento, que as pessoas se permitem”. Perguntem para mim:
“Naquele tempo você estava na esquerda, você acompanhou, me diz quantos casos comprovados de
tortura você ficou sabendo?” – eu respondo: “Nenhum, nunca”. Eu não vi um sujeito machucado, eu
não vi ninguém sair lesado. Por exemplo, peguem as fotos dos terroristas trocados por embaixadores:
estão todos inteiros, não tem um que sequer pareça desnutrido. Então, na verdade, eu não vi nenhum
caso, mas na época eu acreditava porque os colegas diziam. Também nunca vi um sujeito que
chegasse para mim e dissesse: “Eu fui torturado”. A minha contraparente que diziam que havia
perdido um rim durante uma tortura, eu perguntei para ela: “A senhora foi torturada?”. Ela respondeu
que não, mas até hoje o nome dela está na lista dos torturados.
Na verdade, não houve nenhuma verificação, nunca. Mas a mera proposta da verificação aparece
como uma provocação fascista e o pessoal que está contra os comunistas, que é anti-petista, tem
inibição de discutir essa coisa. Escuta, mas se vocês têm inibição é porque o julgamento que os outros
fazem de vocês já tem poder sobre vocês, evidentemente. “Ah, eles vão me chamar de fascista!” –
mas eles vão chamar de qualquer jeito, eles já chamaram de fascista o Fernando Henrique Cardoso,
o José Serra, até o Alckmin. O Alckmin manda reprimir uma greve lá: “Ah é fascista!”. O Alckmin,
que é um cara que faz tudo o que eles querem.
Vejam, a inibição que as pessoas têm ao pensar que serão massacradas: o que elas querem dizer com
massacradas? Quer dizer que vão falar uma coisinha contra elas? Mas eles vão falar de qualquer jeito.
Esse temor entrou muito profundamente na cabeça de todo mundo, então isso é uma dominação
psicológica total. Se vocês não querem passar pelo teste, se vocês não querem ser rotulados de
fascistas, então vocês não vão poder fazer nada, porque eles vão te rotular de qualquer jeito, isso é a
primeira coisa que eles fazem.
Curiosamente, depois que soltaram o livro da Márcia Tiburi, Como Discutir com um Fascista,
começaram a aparecer cursos de como debater com fascistas nas faculdades e dados por pessoas que
jamais debateram com ninguém. Isso é uma coisa extraordinária, porque eu só me aventurei a dar
algumas lições sobre a arte de debater depois de eu ter participado vitoriosamente de vários debates
— eu provei que sabia fazer e depois fui ensinar como se faz, mas eles não. Eles ensinam como faz
sem nunca terem feito e isso é aceito como coisa normal. Quantos debates com “fascistas” a Márcia
Tiburi teve? Nenhum, zero. E no dia em que se aventurar a ter um vai se dar muito mal, principalmente
se o fascista for este que vos fala. Esta situação de anomalia epistemológica está consolidada no Brasil
há muito tempo. E as decisões políticas que são tomadas com base nisso serão sempre erradas e
acabarão sempre favorecendo o mesmo lado.
Vejam, quando decidiram por esta estratégia do impeachment, a primeira coisa que eu falei foi:
primeiro, impeachment demora; segundo, impeachment legitima a eleição fraudulenta, pois não se
pode fazer impeachment de alguém que não é presidente da República, não se pode fazer
impeachment de um usurpador, esse tem de ter o seu mandato cassado e ir para a cadeia. “Ah, mas
isso é muito difícil de conseguir, vamos pelo objetivo mais modesto” – eles disseram. Quem disse
que o mais modesto é o mais fácil?
Imaginem uma moça de um metro e vinte sendo estuprada por um brutamonte, mas ela tem um
revólver na bolsa: o que é o mais fácil dela fazer? Matar o cara. Agora, bater nele ela pode? Não pode.
Ela não pode vencê-lo, ela só pode destruí-lo. Então, o que é aparentemente o mais difícil é, na

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verdade, o mais fácil. Do mesmo modo, o impeachment tem de passar pelo beneplácito da classe
política, será preciso conquistar um por um. Logo, tem duas forças: de um lado há a intimidação
popular e, do outro lado, tem a propina. Vamos ver o que pesa mais? “Eu tenho mais medo de ficar
sem dinheiro ou tenho mais medo de a população bater em mim se eu sair na rua?” – foi isso durante
meses. Não foi assim? Estou errado? Estou exagerando? Não. Foi exatamente isso. A contabilidade
que os caras fazem é essa. “Este aí está me oferecendo dinheiro, mas os votos estão do outro lado. Se
eu aceitar o dinheiro agora eles não votam em mim, daí acabou a mamata.” – é um cálculo desse tipo,
durante meses e ainda prossegue.
Mais ainda, no meio tem um treco chamado STF. Ora, pensem bem, nós queremos tirar a Dilma, mas
qualquer proposta da Dilma tem de ser discutida no ministério, tem de passar pela câmara dos
deputados, pelo senado, leva um tempo, e aí ela é filtrada, modificada, atenuada, etc., e no fim
aprovam alguma coisa. A não ser que ela faça por medida provisória, mas medida provisória é
provisória. E as decisões do STF? São nove neguinhos que nunca foram eleitos. Foram todos
escolhidos pelo PT, com exceção do Gilmar Mendes. O que eles decidem entra em vigor na mesma
hora. Não há instância superior. Então, meu Deus do céu, qual dos dois é mais perigoso, a Dilma ou
o STF? É óbvio que é o STF. Qual é o grande problema nosso, é a Dilma? Não, a Dilma é um símbolo
de uma situação. Comparem, pedir auxílio do STF para tirar a Dilma é pedir auxílio de um leão para
te livrar de um bicho de pé. Todo mundo escolheu isso. Por quê? Porque temos uma atmosfera
psicológica preparada para isso há mais de 60 anos.
Notem, a palavra hegemonia tem de ser levada muito a sério. Hegemonia quer dizer um controle do
imaginário popular, não é das opiniões da massa. Opinião é uma coisa que o indivíduo pensa e sabe
que pensa. Imaginar é algo que passa pela cabeça dele e que depois ele esquece, mas que vai
determinar a conduta dele na hora H. São conjuntos de símbolos, de reações espontâneas, de emoções
impensadas, etc., e é isso que decide a conduta das pessoas. A vontade vai para onde a imaginação
for, o que não está na sua imaginação não está na sua vontade – isso aí é batata. O que não formos
capazes de imaginar não seremos capazes de fazer e se a nossa imaginação está toda povoada de
reações e símbolos que são favoráveis a uma certa política, nós acabaremos favorecendo essa política
mesmo que, conscientemente, na esfera das opiniões, nós estejamos contra.
Por exemplo, existe cultura cristã conservadora no Brasil? Não, meu filho, nem cultura cristã. O
cristianismo virou subcultura especializada – special interest – não faz mais parte da cultura geral.
Vejam, até os anos 50/60 tínhamos a opinião cristã personificada em grandes nomes da literatura,
como Jorge Lima, Murilo Mendes, Manuel Bandeira, o próprio Ariano Suassuna, Alceu Amoroso
Lima, Gustavo Corção, eram todos grandes escritores nacionalmente reconhecidos e eram o pessoal
cristão-católico.
Aluno: E o Nelson Rodrigues?
Olavo: O Nelson Rodrigues um pouco menos, ele era católico, mas não era essa a identidade dele,
ele era um católico paradoxal – que nem eu. Ele falava palavrão, falava das putarias e essa coisa todo
– eu também sou assim. Por mais católico que ele fosse, ele não fazia parte do grupo católico, por
assim dizer – como eu também jamais farei, se Deus quiser.
Desde então, a opinião católica – para não falar da protestante – desapareceu da esfera reconhecida
como sendo da alta cultura. E, hoje, livros cristãos só saem por editoras cristãs para serem vendidos
nas igrejas, nas livrarias das igrejas, assim como a literatura protestante. Como se fez isso? Isso é o
que se chama hegemonia. Eles gradativamente vão empurrando [para a periferia da cultura], não vão
proibir os livros, não vão censurar os livros, porque para isso seria preciso uma ação de Estado, e essa
é oficial, portanto, todos ficam sabendo que aquilo foi decidido.
Agora, quando eles vão ocupando espaços, eles vão removendo os seus concorrentes, um a um, um
pouquinho de cada vez, sob mil pretextos ou sem pretexto nenhum e, de repente, eles desapareceram.

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E, depois que seus concorrentes desaparecem, se evidencia aquela norma do Émile Durkheim [1:00]
que diz que a capacidade que uma sociedade tem de reconhecer uma anomalia é limitada, quer dizer,
qualquer anomalia que dure um certo tempo passa a ser normal. Vejam, esse processo da hegemonia
aposta nisso. Quando o Gramsci fala em reformar o senso comum, o que é esse senso comum? O
conjunto de opiniões? Não. É o conjunto de símbolos, de reações, etc., que estão antes da opinião,
que são, por assim dizer, pré-verbais – é isso que eles estão tentando mudar. O senso comum diz
respeito às percepções, imaginações e emoções, não a opiniões. As opiniões são uma expressão
parcial, limitada e superficial. Na hora em que eles dominam o senso comum, toda a anomalia que
eles inventaram, dentro de uma geração ou menos, se torna normal, se torna uma situação
estabelecida.
Por exemplo, se falarmos em literatura católica, no Brasil, as pessoas não sabem o que é. Nunca
ouviram falar. Se pegarmos a molecada que não está no curso de letras – porque no curso de letras é
obrigado a ler de tudo um pouco – e falarmos de Murilo Mendes, por exemplo, nenhum deles sabe
quem foi. Cria-se um grupinho de aficionados – como, por exemplo, os aficionados pelo Gustavo
Corção que devem ser umas duas ou três mil pessoas – que continua sempre com saudade daqueles
escritores, porém eles não têm vigência pública. Os caras que antes representavam uma facção
importante da literatura brasileira [sumiram]. Assim como havia os autores comunistas, como Jorge
Amado, Graciliano Ramos e outros, havia também os anti-comunistas, que eram também anti-
fascistas e não-filiados a igreja, como o José Marques Rebelo, ou o próprio Carlos Drummond de
Andrade – que sempre foi anti-comunista, embora fosse meio esquerdista. Quando eles fundaram a
União Brasileira de Escritores, que na época se chamava Associação Brasileira de Escritores (ABDE),
os comunistas queriam roubar os livros, queria roubar os registros dos votos e falsificar a eleição, o
Carlos Drummond de Andrade pegou o livro e o defendeu contra os comunistas a pontapés, aquele
homenzinho pequenininho ficou num canto dando pontapé em comunista. Ele foi queimado na mídia
por causa disso? Não. Naquele tempo não tinha como fazer isso. Uma vez consagrado como grande
escritor o sujeito tinha o seu nicho – hoje em dia não se tem mais. Mas e se o cara fizesse isso hoje
em dia? Ia ser pior que o Bolsonaro, pior que o Olavo de Carvalho, iam falar o diabo dele, da mãe
dele, da avó dele, do cachorro, do papagaio, da sogra.
À medida que essa situação foi se consolidando, ela passa a ser a nova normalidade. Então, ninguém
espera, por exemplo, que a opinião católica ou protestante conservadora apareça no jornal da grande
mídia. Pode aparecer um pouquinho como, por exemplo, de vez em quando eles aceitam um artigo
de algum arcebispo que, muito polidamente, cheio de dedos, etc., ele diz que é contra o aborto – “Mas
olha que escândalo, o bispo é contra o aborto, meu Deus do céu!”.
O que estou tentando [demonstrar] – nem sei se estou conseguindo dar para vocês a verdadeira
dimensão da coisa – não é o problema de que há uma opinião predominante. Há um universo inteiro
invisível e isso significa que a posição do Brasil no quadro internacional não é acessível a partir da
cota de informações disponíveis. Por exemplo, aquilo que eu expliquei, no debate com o Dugin, que
existem os três grupos globalistas, que às vezes concorrem, às vezes colaboram, etc., aquilo é
essencial, é exatamente o que está acontecendo. O que nós vemos disso na mídia brasileira? Nada.
Ora, mas isso é [diz respeito] ao destino do mundo, é isso que está sendo decidido aí. Não é uma
intriguinha de gabinete. É o principal do que está acontecendo. Isso é assim entre o povão? Não. Isso
é assim entre as classes falantes, entre os universitários, entre as pessoas diplomadas – tudo bem, é
verdade que 50% delas são analfabetos funcionais e isso ajuda mais um pouco. Como poderemos ter
uma política internacional vantajosa para o país? O cavalo de batalha do Trump é isto, é uma política
internacional vantajosa para o país: ao invés de tirar o dinheiro do nosso bolso, ele põe algum lá
dentro – que é uma obrigação, todo governante tem de fazer isso pelo seu país. Como podemos fazer
isso no Brasil? Não podemos. Porque nós não podemos sequer enxergar o que os poderes
internacionais estão fazendo, isso está proibido.

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O velho sonho, por exemplo, que nos anos 60 chamavam de política externa independente – que na
verdade queria dizer política externa pró-comunista, mas usemos o termo de maneira neutra. Uma
politica externa independente é impossível no Brasil de hoje. Mais impossível do que jamais foi.
Ninguém vai pisar nos interesses da Rússia, ou da China, ou dos grupos globalistas. Por quê? Por que
não há uma oposição política? Não. Porque não há uma intelectualidade capaz de explicar o que está
acontecendo. Vocês entendem o drama do Brasil? Antes do drama do mensalão, petrolão, antes das
perdas financeiras e até antes das perdas de vidas humanas, antes dos setenta mil homicídios, existe
uma perda intelectual anterior sem a qual nada disso aconteceria. Qual é o grande problema do Brasil,
hoje? É tirar a Dilma? Vocês pensam que isso é um negócio mágico? Que tira uma pessoa [da
presidência] e muda tudo? Vocês acham que essa pessoa manda no Brasil? Ela não manda nada,
coitada. Ela faz o que o Lula a manda fazer. E o Lula faz o que o Foro de São Paulo manda fazer. O
Foro de São Paulo faz o que a China, a Rússia e os poderes globalistas mandam fazer. O grande
problema é: “Quem manda no Brasil?”. Essa questão está proibida, porque só podemos pensar as
coisas pelo lado oficial, pelos cargos nominais.
Eu sugiro para vocês a leitura do livro A Elite do Poder, do sociólogo americano Wright Mills, que
era um homem da esquerda. Ele, nos anos 60, fez esta pergunta: “Quem manda nos EUA?”. E daí ele
foi ver quais eram os grupos, os ambientes, as pessoas, etc., que realmente decidem. Ora, os políticos
são uma fração mínima disso aí. Evidentemente há os grupos empresariais, os bancos, etc., mas
também há os clubes que os caras frequentam, as igrejas que eles frequentam, os seus círculos de
amigos, tem isso e mais aquilo, e mais aquilo outro e então ele faz um panorama da estrutura de poder.
Não existe equivalente disso no Brasil. Quando alguém tenta fazer, copia o Wright Mills e faz do
ponto de vista marxista, isto é, faz dando a impressão de que o que manda no Brasil é uma estrutura
de classes onde a burguesia manda. A burguesia no Brasil não manda nada. A burguesia está na mão
da burocracia – alguns estão na cadeia.
O empresariado brasileiro já teve voz forte em outra época. Eu lembro que no tempo do Costa e Silva
o governo baixava um imposto e o Theobaldo de Nigris telefonava para ele e dizia: “Olha aqui,
presidente, nós não vamos pagar esta porcaria”. Era assim, nesses termos. E não pagava mesmo. Vai
fazer isso hoje. Hoje, se o empresário não quiser pagar, ele não tem nem jeito de fazer isso, porque
as notas fiscais que ele passa não é mais ele quem passa, é o governo. Vejam, se o governo controla
até as notas fiscais, é claro que já estamos num regime socialista e não percebemos ainda. Não temos
mais liberdade econômica. A gente pode produzir o que o governo quer, cobrar o quanto ele quer,
vender para quem ele quer e assim por diante. Ou seja, já é uma economia fascista. A economia
fascista se define por isto: existe uma economia de mercado, controlada com rédea curta pelo governo.
Só existem dois tipos de economia: liberal e fascista. Na verdade, nem a liberal existe mais. Portanto,
só existe a economia fascista. É nisso que estamos hoje – realizando a profecia do Winston Churchill:
“Os fascistas do futuro se denominarão anti-fascistas”.
Quando eu decidi dedicar a minha vida à formação de uma nova elite intelectual brasileira, eu sabia
o que estava fazendo. Não é porque eu gosto da alta cultura, gosto de boa música, de bons quadros,
não é por isso. É porque a existência de uma intelectualidade em um país é a condição mínima para
que a classe política e o povo saibam do que estão falando e possam tomar decisões razoáveis
baseadas na realidade. Isso no Brasil se tornou impossível. Até hoje o ciclo petista já está acabando
e ainda tem gente que não acredita no Foro de São Paulo, meu Deus do céu. Como isso é possível?
Isso é uma anomalia. É uma incapacidade intelectual monstruosa. Os nossos alunos tiram os últimos
lugares porque eles são alunos do secundário, se eles fossem ministros, deputados ou professores
universitários, tirariam um lugar abaixo do último – como disse o próprio ministro da educação, Paulo
Renato: “Tiramos o último lugar, mas poderia ser pior”. Ou seja, iam criar um lugar especial abaixo
do último para caber os brasileiros, só não tiveram de fazer isso porque não era ele, Paulo Renato,
que estava lá fazendo o teste – ele nem é petista não, é da turma tucana.

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Esta coisa do conhecimento tem de ser levada muito a sério. A regra número um do Sun Tzu é
conhecer o seu inimigo. Mas não é só conhecer o inimigo, é conhecer o território em que vai ter a
batalha, conhecer o motivo da batalha – “O estamos disputando, afinal de contas?” –, conhecer os
meios de poder, ou seja, conheça todo o repertório de informações necessárias. Mas, esse repertório
se tornou inacessível e impossível, portanto, é algo que alimenta, não apenas o ciclo vicioso de ações,
mas acabam sempre por fortalecer os mesmos donos do poder de sempre, como está acontecendo
exatamente agora, a mesmíssima coisa de novo. Então, já entregamos tudo de uma vez para o inimigo,
que foi o que aconteceu nos últimos vinte anos.
Eu não sei se isso lhes deu uma imagem de como eu estou vendo as coisas daqui de onde estou. É
muito importante estar no EUA porque aqui eu tenho mais informações sobre o Brasil do que no
Brasil – não na mídia, evidentemente. Porém, eu me lembro que a primeira vez em que vim aqui, eu
estava na cidade Bloomington do estado da Indiana, estava passando por lá e de repente eu vi um
edifício imenso, o Instituto de Estudos Brasileiros – no Brasil não tem um desses. Vejam,
Bloomington é uma cidadezinha de 30 mil habitantes. E existem outros. Para quem quer informações
sobre o Brasil, aqui tem arquivos e mais arquivos que estão a sua disposição. Onde é que eu fui
descobrir que o Fernando Henrique Cardoso tinha participado de uma reunião com o pessoal do Foro
de São Paulo em 1993? Foi aqui. Só tinha isso aqui. Não tem no Brasil. Estar aqui é uma coisa propícia
para quem quer investigar o Brasil. Aqui se tem muito mais acesso a informação do que no Brasil. A
mídia daqui, ainda que haja uma certa uniformização, não é como no Brasil que há uma uniformização
total, aqui ainda tem debates políticos. No Brasil não tem mais isso. Tem combate contra a corrupção,
que é outra coisa.
Com o quê o pessoal estava revoltado em março de 2015? Era só com a Dilma? Não. Era com a
Dilma, com a apuração secreta, a eleição fraudulenta, o mandato ilegítimo, dinheiro do governo
rolando para o MST, parcelas inteiras do Brasil sendo dadas para ONG’s internacionais, dinheiro
público sendo usado para salvar ditaduras comunistas moribundas, setenta mil homicídios por ano,
políticas de favorecimento ao banditismo, o povo estava contra tudo isso, inclusive ideologia de
gênero. Agora, dizer que tudo isso se condensa na Dilma? Só se o cara for louco. Existem poderes
muito mais decisivos do que a Dilma, um deles é o STF. Muito mais importante do que tirar a Dilma
é quebrar a autoridade dos homens do STF, antes de tentar o impeachment da Dilma. O impeachment
seria uma das medidas que estariam na programação, num plano como a alternativa número 53.
Poderia ser feito, mas não como prioridade. Porque em março de 2015 tínhamos a ação das massas
na rua, depois eles transferiram, aí não era mais as massas, era os políticos de Brasília, os quais não
eram nem aceitos nos palanques nas ruas. Aqueles que eram os réprobos, os desprezados, de repente,
viraram os protagonistas da situação. E graças às maravilhosas inteligências do pessoal do MBL, do
Reinaldo Azevedo e outros. É evidente que a classe política pensa antes de tudo na sua própria
sobrevivência. Eleger um deputado custa mais do que tudo o que ele vai ganhar em toda a sua carreira,
portanto ele tem de se defender por outros meios. A simples sobrevivência dos deputados exige que
eles se corrompam – isso é realmente assim no Brasil. É claro que esse pessoal vive com medo de
perder a mamata. Outra coisa, o Brasil tem uma das mais altas taxas de substituição da classe política
do mundo. “Precisamos renovar a classe política, tirar todos eles e botar gente nova” – ora, [eles
colocam lá] gente nova e mais corrupta do que a anterior. O sujeito chega lá, inexperiente, ele vai ter
de se adaptar ao sistema. Ele logo percebe que se ele não roubar, ele está lascado. Não adianta trocar
as pessoas. Temos de fazer outra coisa.
Temos de quebrar a estrutura institucional e criar uma outra na qual o povo possa controlar os
políticos e não o contrário – esse é o problema do Brasil. Quem manda é o estamento burocrático ou
é o povo? O povo nunca teve chance. Vejam, o nível de participação dos americanos na política daqui
é uma coisa imensa, os brasileiros não conseguem imaginar. No Brasil tivemos essa manifestação
popular depois de sessenta anos. Durante sessenta anos a esquerda teve o monopólio das
manifestações de rua, até que teve uma contra eles. E para reunir essa gente é difícil. A partir do
momento que estavam reunidos na rua, o que era preciso ser feito? Organizá-los e criar militância,

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era isso que era preciso fazer. Pensar em tirar a Dilma? Primeiro nós temos de ficar fortes, nós temos
de ser um poder organizado. A massa organizada tem de ser um poder. Depois que ela for um poder,
não precisa mais decidir se vai tirar a Dilma ou o Lula, ela fará tudo isso e mais alguma coisa. Mas,
diluir a massa e transformá-la apenas em reivindicadora de favores da classe política, é claro que isso
foi uma traição. Mas os caras não sabem que foi uma traição porque eles nem tinham ideia de que
podiam agir de outra forma.
Qualquer pessoa com o mínimo de experiência nessas coisas entendia que, em março de 2015, a
massa tinha ali nas mãos uma situação revolucionária. A massa inteira estava desprezando todas as
autoridades, já havia a desobediência civil em germe ali. Bastava ter alguns líderes preparados para
isso, mas essa perspectiva era grande demais para a cabeça deles. São pessoas que quando pensam
em política, pensam em partidos, em eleições, no congresso, etc., isto é, só pensam em política pela
via institucional. Isso é agravado pela mentalidade juridicista que confunde os textos legais com a
estrutura real do poder. No Brasil, sempre que o governo decide uma coisa ilegal e anti-constitucional,
as pessoas dizem: “Ah! Mas isso não tem base legal, não tem base constitucional” – e daí? Isso tem
base na força, tem base no poder, tem base nos meios de ação e por isso mesmo será feito contra as
leis. Esse raciocínio juridicista é tão absurdo quanto dizer que não existe crime no Brasil porque o
código penal proíbe. É proibido ter crime, então não tem – é um raciocínio do mesmo tipo.
Como foi que chegamos a este estado de psicastenia, onde qualquer um nos faz de trouxa? Como
chegamos ao cúmulo de o destino da nação, a salvação do país, acabar na mão de um sujeito como
Renan Calheiros? Foi isso o que aconteceu essa semana. Foi para isso que nós saímos à rua em 2015,
para depois chegarmos para o sr. Renan e pedirmos por favor para que ele quebre o nosso galho, para
que salve o impeachment? Vocês não percebem que isso já é dobrar a espinha da massa, é forçar a
massa a beijar o pé da classe política? A mesma classe política que abriu caminho para a ascensão do
PT, que favoreceu a instalação do mensalão, do petrolão etc. Então, é claro que o sentido dos protestos
públicos foi invertido sob pretextos formalistas jurídicos, do respeito às nossas instituições etc. Mas
são as instituições mesmo que estão fazendo isso. É o STF, é o Congresso Nacional, é a presidente
da República. “Ah! É uma quadrilha que se apossou das instituições” – eles dizem. Mas na medida
em que eles se apossaram eles se tornaram o Estado. Não entenderam ainda? A quadrilha se apossou
do STF: bom, tem algum STF externo para condenar o STF? Não tem, são eles mesmos. Quando
chega a esse ponto, não podemos mais recorrer às instituições para eliminar o mal, porque elas são o
mal. Logo, elas têm de cair. Têm de ser substituídas por outras, evidentemente. Outras que deem ao
povo mais meios de ação.
Quando vocês raciocinam pelo lado jurídico vocês entram num círculo vicioso. “Houve fraude nas
eleições, houve apuração secreta, então vamos reclamar” – ‘tá, mas não podemos processar o homem
do STF pois ele tem foro privilegiado. “Então temos quem no STF?” – o STF também é gente deles.
“Então temos de apelar às forças armadas” – ‘tá lá nas Forças Armadas o homem batendo continência
para o Foro de São Paulo. Fechou o círculo, gente. Não tem para onde correr. Só existe uma força
favorável ao povo: o próprio povo. Portanto, ou se organiza a militância popular, ou então vocês estão
lascados. Vocês podem sempre tentar, como é tradição na política brasileira — leiam o livro do Paulo
Mercadante, A Consciência Conservadora no Brasil —, um arranjo, uma conciliação, uma pizza, que
vai ser sempre humilhante para o povo, que é exatamente o que está acontecendo.
Ainda está em tempo de fazer alguma coisa? Sempre está em tempo de fazer alguma coisa, enquanto
não morrermos alguma coisa dá para fazer. No meu entender, o que temos de fazer são duas coisas:
primeiro, reformar a alta cultura nacional, que é exatamente o que estamos fazendo aqui, que é criar
uma nova geração de intelectuais que possam criar uma “barreira de livros”, uma barreira de
informações fidedignas que deem às pessoas uma visão correta do que está acontecendo e lhes permita
tomar decisões mais apropriadas; segundo, organizar a militância popular fora dos partidos, não pode
ter nada a ver com partido político nenhum, sem a participação de nenhum político destes que estão
em Brasília, esses têm de ser rejeitados in totum, eles foram forçados a votar pelo impeachment.

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Notem bem, o que é o impeachment? Em primeiro lugar é a consagração das eleições. Tanto que, se
retira a Dilma, tem de colocar o Michel Temer. Mas o mandato dele é tão ilegítimo quanto o dela, os
dois foram eleitos numa apuração secreta que, em si, é fraude. Então, vocês consentem com essa
humilhação: “Ah! Que bom, me livrei da Dilma”. Quer dizer, vocês estão tirando o bicho de pé com
a ajuda de um leão faminto.
Sempre haverá pessoas que posam em favor dessas coisas mediante argumentos padronizados.
Quando o sujeito fala que é democrata, que é a favor das instituições democráticas: em 100% dos
casos estaremos falando com um vigarista. Em nenhum momento a democracia esteve em questão.
Tem alguma proposta de ditadura militar? Não, não tem. Tem alguma proposta de comunismo? Não,
os comunistas não falam de comunismo. Todo mundo é a favor da democracia. Não tem ninguém
que não seja a favor da democracia da boca para fora. Mas se todos são, então isso não significa nada
na boca de ninguém. Agora que o vigarista já disse que é democrata, já mostrou que é bonzinho, me
diga o que ele quer realmente. Qual é sua proposta concreta? Aí a conversa muda.
Esta pose de “eu sou o democrata, o outro é o fascista”: vocês nunca perceberam que todos chamam
seus opositores de fascistas? O PT chama o Reinaldo Azevedo de fascista. O Reinaldo Azevedo os
chama de fascistas. Só eu que não estou chamando ninguém de fascista. Por quê? Porque eu sei que
tudo o que está em discussão no Brasil não tem nada a ver com fascismo. O fascismo como economia
já está consagrado no Brasil e isso ninguém questiona. No fundo, o fascismo enquanto política de
estado, é o que todos estão fazendo. O fascismo, me parece, não está em questão. Eu não creio que o
conceito de fascismo se aplique à descrição de nada do que está acontecendo, exceto na esfera
econômica. O conceito de fascismo virou algo tão elástico que pode ser usado indiferentemente pelos
dois lados. Hoje, o conceito de fascismo é apenas um porrete – para mim não é; para mim é um
conceito científico que serve para a descrição de certas políticas, certas facções, durante certo período
da história.
No Brasil, de fato, só existiu um protofascismo no tempo do Getúlio Vargas, que, por coincidência,
metia os fascistas na cadeia. Ele não meteu os integralistas na cadeia? Meteu. Porque ele só queria o
fascismo dele, o dos outros não servia. E o que continuou dominando o Brasil? A política getulista.
Na verdade, até hoje domina. O JK foi eleito por quem? Pelo mesmo conluio getulista-comunista,
que era o PTB e PSD. Havia duas facções getulistas: a dos pobres, que era o PTB, e a dos ricos, que
era o PSD, mas no fundo era a mesma coisa. O outro lado, a UDN, a única vez que teve uma chance,
elegeu um louco, que era o Jânio Quadros. Uma vez elegeu um louco e outra vez elegeu um incapaz,
que era o Collor, essas foram as duas únicas chances que a direita brasileira teve – meu Deus do céu!
O Collor era, evidentemente, uma pessoa fraca. Era um fanfarrão, mas era muito fraco. Tanto era
fraco que depois virou o quê? Puxa-saco dos seus inimigos. Foi esse cara que vocês elegeram
presidente da República? Vocês não têm vergonha, gente? E o Jânio Quadro? Era só conversar com
ele por cinco minutos para ver que ele era um louco, megalômano e histérico. Quando escolheram a
candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes: bom, era um homem decente, etc., mas era um homem
ultra-polido, muito educado, que não fazia mal a ninguém – assim não adianta. O único político viável
que teve desse pessoal da UDN foi o Carlos Lacerda, mas ninguém nunca apostou nele – “Ah! Ele
fala umas coisas muito duras, escandaliza as pessoas, ele as choca”. Essa auto-censura politicamente
correta já existe no Brasil há muito tempo e ela é um dos fatores de imbecilização.
Vejam, o Brasil está cheio de pessoas capacitadas para comentar as miudezas da semana. “Ah! O
Renan Calheiros falou isso, o Cunha falou não sei o quê” – é isso aí, esses são os assuntos do Reinaldo
Azevedo, do Marco Antônio Villa; são comentários jornalísticos.
Agora, pessoas qualificadas para descrever as grandes estruturas de poder, as grandes forças que estão
produzindo a história, simplesmente não existem mais. Nós precisamos produzir essas pessoas o
quanto antes e é exatamente isso o que eu estou tentando fazer com esse curso, com o COF, etc., e na
verdade com muito mais resultados do que jamais esperei. Graças a Deus isto aí está acontecendo e
dentro de menos de uma geração teremos muita gente fazendo um trabalho como o meu, muita gente

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mesmo. Bom, aí teremos a perspectiva de surgir uma nova classe política melhorzinha. Antes disso,
não. Vamos ter de contar ainda com Renan Calheiros, com Cunha, essa mesma gente de sempre.
Em primeiro lugar, qual é o critério para escolher um político? Não se pode escolher um cara
medíocre, meu Deus do Céu. O sujeito tem de ter qualidades intelectuais efetivas, isso é coisa básica
no mundo inteiro! Vejam, aqui no EUA qual foi a dificuldade do George Bush? Ele não parecia ter a
qualificação intelectual necessária – na verdade ele tinha, é claro, ele era piloto de avião a jato não é
um zé mané, o problema dele era um problema de fala. Ele não tinha o physique du rôle, por assim
dizer. Então, tem de ser um intelectual de grande qualidade. Vejam, os presidentes americanos, quase
todos eles eram escritores excelentes. O Theodore Roosevelt, o Abraham Lincoln, o Calvin Coolidge,
todos eles. O sujeito tem de ser um intelectual e ter algo a mais que para ser um intelectual ele não
precise. Agora, no Brasil, a qualificação intelectual tem sido um handcap. Por exemplo, o Carlos
Lacerda tinha qualificação intelectual. Resultado: os outros medíocres tinham inveja e queriam
rebaixá-lo. Ao invés de subir o nível da classe inteira, não, eles têm de baixar. Isso não pode continuar
assim, meu Deus do céu. Nós temos de mudar a relação do brasileiro com o conhecimento, o brasileiro
tem de começar a respeitar o conhecimento e não os títulos e honrarias, que são símbolos exteriores
e que podem ser concedidos a qualquer analfabeto funcional – como hoje são concedidos de montão.
Hoje nós temos um ministro da educação que, em público, diz o seguinte – vejam, ele não falou isso
na cozinha, ele não estava bêbado falando num botequim, ele estava fazendo um discurso oficial:
“Galileu Galilei foi queimado vivo porque disse que a terra era redonda”. O que é para fazer com um
sujeito desses? Dar um [1:30] tapa na cara? É muita honra para um sujeito desse eu lhe dar um tapa na
cara. Pior: o sujeito fala isso e continua sendo ministro da educação. Ninguém o tira de lá. Isso não
escandaliza as pessoas. Por quê? Parece que a cultura, o conhecimento, é só um adorno, é uma coisa
para enfeitar, o sujeito vai continuar o mesmo, é como um diploma que ele pendura na parede. Esse
conceito de cultura, no Brasil, já existe há séculos. Já era assim no século XIX, só que na época não
tinha as consequências catastróficas que tem hoje, porque ainda havia um certo grupo de pessoas, um
grupo pequeno, mas influente, que sabia selecionar melhor as pessoas.
No tempo do império, quem eram os escritores de maior prestígio? Eram os melhores. Não eram os
piores, os mais medíocres, enquanto os de talento ficavam no fundo do poço. Ninguém duvidava que
os grandes escritores fossem Machado de Assis, Cruz e Sousa, Coelho Neto, Rui Barbosa, ninguém
punha em dúvida isso. Ninguém ia colocar um cara medíocre no lugar deles. Aos poucos isso foi
mudando, de modo que o oficialismo, os títulos, as amizades, começaram a contar mais, e depois o
sucesso editorial, o número de exemplares vendidos. Ora, o número de exemplares vendidos depende
da promoção que a editora faça e não da qualidade do livro, uma coisa não tem nada a ver com a
outra. A qualidade de um produto não tem nada a ver com a qualidade da sua publicidade. É possível
fazer um produto muito ruim e contratar a melhor publicidade do mundo e vice-versa. Também os
editores foram deixando de ser pessoas de cultura e se tornaram meros marqueteiros. Isso é um perigo.
O editor tem um poder de seleção que é uma coisa devastadora. Tudo isso foi contribuindo para
agravar formidavelmente o desprezo brasileiro pela cultura com esse cortejo de consequências que é
uma coisa incrível.
Elegeram o Fernando Henrique Cardoso porque ele parecia um intelectual. Na verdade, ele é apenas
um repetidor de bobagens marxistas, é um homem medíocre, evidentemente. Não tem nenhuma obra
notável, ele não fez nada senão repetir as bobagens que aprendeu com Eduardo Galeano, com o
Florestan Fernandes, que era outro burrão e outros. Enquanto isso, os caras de grande talento mesmo
iam embora para o exterior, como o Alberto Guerreiro Ramos.
Esse amor à mediocridade é uma coisa consoladora. O sujeito sente que o outro que está lá em cima
é um idiota igual a ele, ele sente que poderia estar ali no lugar do outro. Foi por isso que votaram no
Lula, meu Deus do céu. Votaram nele porque ele era um incapaz, não apesar de ser um incapaz –
“Não ele era pobre e tal” [sic]. Bom, ele subiu na vida e tem todas as marcas exteriores de quem subiu
na vida, ele usa ternos melhores, apara as unhas, apara a barba, fica mais bonito, mas por dentro ele

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continua o mesmo analfabeto de sempre, ou seja, de fato, ele só subiu exteriormente, ele não é um
brasileiro que subiu por seu mérito, ele foi subido por forças que se interessavam em ter um símbolo
de trabalhador lá em cima. A coisa foi piorando e daí a pouco começa a entrar o negócio estético –
“Temos de colocar lá as pessoas mais feias, porque a beleza é um símbolo da dominação de classe, é
um padrão imposto pela burguesia”. Então, eles pegam umas mulherzinhas insignificantes,
doentinhas, e botam lá para dizer que não estão discriminando: o número de proteínas virou um
critério racial, se o sujeito tem muita proteína, ele é branco, se ele tem pouca proteína, é preto. O que
é isso? Ficou todo mundo louco! Estou exagerando?
Aqui no EUA pelo menos alguma presença eles exigem dos caras. Votaram no Obama, mas ‘pera aí,
ele tem uma presença, ele fala bonito – tudo lido no teleprompter –, ele é um bom ator, tem alguma
presença, ele não passa vexame nisso aí. O Bill e a Hillary Clinton não passam vexame. O Donald
Trump não passa vexame. Todos eles sabem falar, sabem se explicar, sabem fazer algum raciocínio
e têm uma presença física – isso é importante. O governante é um símbolo do país. Não que precise
necessariamente ser um sujeito atlético, porém também não pode ser um sujeito que dê a impressão
de que está doente. A não ser que se queira explorar o símbolo inverso, como Mahatma Gandhi. Mas,
o Gandhi se afirmava como asceta e não em primeiro lugar como político. Por isso ele podia ser
magrinho, andar de tanga, fazer cocô em público – como ele fazia; ele reunia os discípulos, dava uma
privadinha para cada um, e ele ficava lá ensinando milhares de pessoas a fazer cocô. Eu sugeriria que
a Dilma fizesse isso.
Isso significa que o desamor brasileiro ao conhecimento acabou virando um negócio masoquista e
depressivo e se esta geração não parar com isso a próxima não vai conseguir. Nós já chegamos ao
fundo do poço. Ainda tem um pouco de energia para tentar nadar para cima, então temos de aproveitar
essa energia. Este curso foi concebido, entre outras coisas, com esse objetivo.
Hoje não vai haver a segunda parte, a das perguntas e respostas, mas eu lhes oferecerei mais uma aula
extra semana que vem só para as perguntas e respostas. Portanto, semana que vem estarei aqui só
para responder as perguntas. Espero não ter decepcionado ninguém com esse curso. Teve um sujeito
que reclamou: “Ah! Ele não cumpriu o programa”. Eu devolvi o dinheiro dele de volta, no próximo
curso eu peço a orientação dele. Mas, eu acredito que cumpri sim o programa. Muito obrigado, até
semana que vem. [1:37:17]

Transcrição: Francisco Jr.


Revisão: Leonardo Yukio Afuso e Rahul Gusmão

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Política e Cultura no Brasil – História e Perspectivas
OLAVO DE CARVALHO

Aula 6
17 de maio de 2016

[versão provisória]
Para uso exclusivo dos alunos do Seminário de Filosofia.
O texto desta transcrição não foi revisto ou corrigido pelo autor.
Por favor, não cite nem divulgue este material.

Vamos lá. Boa noite a todos, sejam bem-vindos.


Estamos transmitindo de um outro local, de maneira meio improvisada pois estamos mudando de
casa. Estamos passando um tempo aqui na casa do Pedro enquanto termina umas reformas na nova
casa na qual eu espero mudar para lá dentro de algumas semanas.
A aula de hoje vai ser diferente. Eu vou interromper a minha exposição e dar mais de dez minutos
para vocês me mandarem perguntas. Eu já tenho algumas, posso ir respondendo essas aqui enquanto
espero que chegar as outras. Ao invés das perguntas serem no intervalo serão antes da exposição. Se
tiverem perguntas, mandem agora, não esperem para mandar depois.
Então vamos lá, tenho aqui uma pergunta:
Aluno: Boa noite. Parabéns pela iniciativa deste curso e pelas aulas sempre ricas e didáticas.
Gostaria de fazer uma pergunta mais geral envolvendo o entendimento que alguns cientistas políticos
têm acerca do comunismo como uma religião política, expressão que o Voegelin empregou no início
dos seus estudos vindo, porém, a abandoná-la mais tarde, assim como ao que ela significava. Percebo
que Horia-Roman Patapievici, assim como Vladimir Tismaneanu, continuam a empregar essa
expressão em seus livros. Não vejo citadas neles senão a Nova Ciência da Política, do Voegelin, como
demonstra o livro deste último, Do Comunismo: o destino de uma religião política, que eu traduzi e
saiu pela Vide Editorial, e também o seu mais recente livro, The Devil in History, que estou
traduzindo. O senhor poderia explicar novamente, agora para um público mais amplo, que é o dos
seus alunos, em que está errada essa concepção e se ela poderia ser tomada ao menos num sentido
metafórico?
Olavo: É evidente que é num sentido metafórico, num sentido elástico. O comunismo tem algumas
semelhanças com a religião, com grandes religiões, mas é sempre uma analogia apenas, não é um
conceito rigoroso. Uma analogia é uma síntese de semelhanças e diferenças. Se usa uma analogia
quando se quer dar uma ideia geral e vaga de algo do qual não se tem uma ideia precisa. A metáfora
é perfeitamente legítima quando se está explorando um terreno novo e ainda não se tem os conceitos
[formados]. Porém, dada uma metáfora, essa tem várias camadas de significados possíveis, e é preciso
analisar esta, decompor os seus vários significados possíveis, e ver aquele que confere com a realidade
e aquele no qual o objeto difere daquilo com o qual está sendo comparado. Essa é a crítica que o
Voegelin faz aos conceitos não analisados.
Isso se aplica perfeitamente ao caso da religião política. Se o sujeito vê o comunismo apenas pela sua
semelhança com a religião, ele está abolindo as diferenças. Ele não está lidando com o conceito a
rigor. Na verdade, o comunismo se parece muito mais com seitas gnósticas e com movimentos
messiânicos. Portanto, não faz parte de nenhuma das grandes religiões da humanidade — nem o
budismo, nem o islamismo, nem o hinduísmo e nem o cristianismo.

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Além disso, o próprio conceito de religião é um problema. Por exemplo, em árabe, a palavra com que
o Islã se designa a si mesmo é Din. A palavra Din vulgarmente se traduz como “religião”, mas na
verdade Din quer dizer uma lei constitutiva. No conceito do Din não se distingue a lei religiosa da lei
natural; a lei moral da lei natural. É como se fosse uma lei universal que está em vigor, portanto não
está implicando ali um ideal moral, mas uma realidade presente. Quer dizer, a vontade de Alah está
onipresente e se manifesta por igual na natureza, na sociedade humana e, sobretudo, na esfera jurídica.
Por exemplo, religiões como o budismo e o cristianismo têm com a esfera jurídica uma relação muito
remota. Pode se dizer que algumas leis dos países ocidentais foram inspiradas na religião, mas não
ditadas por ela. A distinção entre uma esfera religiosa e uma esfera civil é das mais antigas no
ocidente. A própria formação da Idade Média com as duas colunas, Igreja e Império, já mostra que
não havia no ocidente um conceito como o do Din, que abrangeria tudo isso de uma maneira idêntica.
Por exemplo, quando se vê uma discussão no parlamento de um país islâmico, a fonte que eles citam
não é uma constituição civil, é o próprio Corão. No ocidente, um deputado discutindo uma lei,
evidentemente, pode citar a Bíblia, mas apenas como uma inspiração, não como uma fonte do direito.
A Bíblia é fonte do direito só no sentido em que a civilização em geral é uma fonte do direito, mas
não é uma fonte oficial, por assim dizer.
Então, o próprio conceito de religião tem os seus problemas.
Em que medida, por exemplo, se pode aplicar igualmente esse conceito a coisas tão diferentes como
o islã, o cristianismo e o budismo? Nós sabemos que no budismo, na verdade, não existe uma doutrina
budista. Existe apenas uma técnica espiritual budística que, se a praticar, supostamente o sujeito vai
chegar a uma iluminação, e aí então ele vai ter um conteúdo doutrinal, mas até lá não.
Vejam, antes de entrar mais profundamente em filosofia, eu fiquei estudando religiões comparadas
por um tempão, e a única conclusão a que cheguei é que as religiões são incomparáveis. Elas não têm
pontos de equivalência, são fenômenos radicalmente heterogêneos.
Por exemplo, o cristianismo se apresenta claramente como uma via de salvação. Pode se dizer a
mesma coisa do judaísmo? De maneira alguma. O judaísmo é o regulamento divino da vida do povo
judeu, não está se falando em salvação da alma. E a que povo específico se dirige o cristianismo? A
todo e a qualquer um. A mensagem cristã se dirige sobretudo à liberdade do indivíduo, não enquanto
membro de uma comunidade, mas simplesmente enquanto membro da espécie humana. Como
podemos colocar essas coisas num mesmo plano e compará-las? Não tem comparação, temos de
reconhecer a heterogeneidade.
Se o próprio conceito de religião é nebuloso e vago, tem mais valor metafórico do que qualquer outra
coisa, quanto mais não teria uma expressão indireta como "religião política"? É admissível que os
primeiros estudiosos do comunismo, que estavam tateando, usassem metáforas. Porque sem
metáforas não se chega lá. Quem estudou a teoria dos quatro discursos sabe que se não passar pela
imaginação poética não chegará a coisa nenhuma. As metáforas, as figuras de linguagem, são as
primeiras explorações que se faz sobre um fenômeno que não se domina intelectualmente, que se
percebe e sente, mas que não se domina intelectualmente.
Podemos dizer que as modernas ideologias de massa têm uma linha de continuidade histórica direta
com seitas gnósticas e movimentos messiânicos, podemos inclusive reconstituir essas influências. No
livro do James Billington, Fire in the Minds of Men, vemos claramente como uma coisa foi se
transformando na outra, isto é, não é uma semelhança o que se vê. Não é que o comunismo se parece
com o movimento messiânico, ele sai historicamente de dentro dele. É, por assim dizer, uma
influência material de autor para autor – um sujeito influenciou outro que influenciou outro que
influenciou outro e chegou aqui. Ali já se está se aproximando de uma visão mais científica e mais
rigorosa.

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Temos sempre de estar trabalhando essas coisas. Não rejeitar as metáforas, é claro. Não se pode dizer
que está errado chamar de religião política, porém é um pouco primitivo. Eu acho que hoje nós já
temos uma compreensão maior. Quando eu procurei descrever o espírito revolucionário, a
mentalidade revolucionária, a ideia era essa: especificá-la e distingui-la de coisas que possam se
parecer com ela.
Por exemplo, a fé religiosa que é outro bicho de sete cabeças. Quem sabe o que é fé? Por exemplo,
quando as pessoas usam fé como sinônimo de crença. “Bom, crença é crença, não é afirmação” – eu
digo. O sujeito diz: “dois mais dois, é quatro” – você acredita ou não? Agora, a fé no sentido cristão
não é bem isso.
Se observarmos os primeiros seguidores de Cristo, aqueles que se beneficiaram de milagres – o cego,
o aleijado, a mulher que tinha hemorragia, todos esses –, quanto que eles conheciam da doutrina
cristã? Quase nada. E, no entanto, eles tinham fé. O que era fé? Era a confiança na pessoa e na
identidade do Nosso Senhor Jesus Cristo. “Se Você diz que Você é o filho de Deus, então eu
acredito!” – eles pensavam. É como o doente diz para Ele: "eu não posso me curar, mas Você pode,
eu acredito que Você pode". Então, a confiança numa pessoa é uma coisa completamente diferente
da crença numa doutrina ou numa teoria e, no entanto, a palavra fé é usada normalmente como crença,
às vezes até num sentido diminutivo.
Por exemplo: “você tem fé num candidato, fé no Donald Trump, fé na Hilary Clinton, você acha que
eles não vão te enganar” – essa é uma fé pessoal, é a fé numa pessoa, mas não é a mesma que a fé no
Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é uma pessoa diferente. Se confia na identidade divina do Nosso
Senhor Jesus Cristo porque Ele declarou, mas não se tem o mesmo tipo de fé na Hilary Clinton, ou
no Donald Trump, ou no Bolsonaro, ou no Michel Temer, ou na Dilma, ou no Lula – no Lula quase
chegaram a ter, porque ele tinha aquele negócio de fazer imposição de mãos: quando ele ia no
Nordeste, o pessoal dizia: "presidente, eu estou aqui com febre, com hemorroidas, faça imposição de
mãos para me curar". Era que nem o Inri Cristo [risos]. Então, tinha esse negócio de quase fé religiosa
com o Lula.
São muitos fenômenos que podem nos aparecer todos juntos. Como dizia Mário Ferreira dos Santos:
"a primeira visão que nós temos de alguma coisa é uma síntese confusa”. Essa síntese confusa se
expressa numa figura de linguagem, a síntese confusa tem que ser decomposta e analisada para se
chegar no fim a uma síntese clara e distinta.
Aluno: Seria possível em poucas palavras conceituar quais as diferenças entre leninismo, trotskismo
e stalinismo?
Olavo: Perfeitamente. Isto aí acompanha a história das grandes reuniões do movimento comunista,
as famosas internacionais, a primeira, segunda, terceira e quarta.
Fizeram, primeiramente, a fundação do movimento comunista pelo próprio Karl Marx, que chegou
lá, deu uma rasteira nos concorrentes e virou chefe do movimento, que já existia na verdade.
Na segunda internacional surgem algumas divergências, pois eles já tinham alguma experiência
revolucionária, e alguns dos teóricos, dos pensadores do movimento comunista, acreditavam que a
ideia revolucionária já estava ultrapassada, que se podia chegar ao comunismo por meio de uma
sucessão de reformas pacíficas. Então é de onde sai, evidentemente, uma ruptura, uma parte que
aderiu a isso, o teórico principal chama-se Eduard Bernstein – existe até o livrinho fundamental dele
publicado em português, se chama Socialismo Evolucionário, enquanto oposição ao socialismo
revolucionário.
O que hoje nós entendemos por leninismo se define praticamente por oposição a essa corrente, era o
socialismo revolucionário stricto sensu, ou seja, o partido é a vanguarda do proletariado, que se
adianta a ação do próprio proletariado, toma o poder pela violência e, em seguida, constitui o

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proletariado em nome do qual ele estava agindo. O proletariado, em nome do qual o leninismo fala,
é um proletariado mais potencial do que qualquer outra coisa. Nós sabemos que na Rússia, no tempo
da revolução, não se tinha um proletariado industrial muito desenvolvido, era um proletariado
incipiente, isto é, a maior parte da população era camponesa – classe esta que na versão original do
comunismo era tido como reacionária. Então, a vanguarda toma o poder em nome do proletariado,
mas é um proletariado que ainda não existe – pelo menos não como massa organizada –, existe apenas
potencialmente. Esse é o leninismo: é o império do partido, o partido é o grande agente da história.
O trotskismo se define, por sua vez, bem mais tarde por oposição à teoria do Stálin – do socialismo
num só país. Ele viu simplesmente que não dava para expandir a revolução. A ideia inicial, tanto de
Marx quanto Lênin, era trotskista, por assim dizer, eles acreditavam numa revolução internacional,
uma revolução mundial. Na guerra de 1914, naturalmente, os líderes comunistas esperavam que o
proletariado da Inglaterra, da França e da Alemanha se rebelassem contra os seus governantes e, ao
invés de ir para o campo de batalha, derrubassem o governo, fizessem uma revolução, visto que eles
achavam que uma situação de crise e de guerra poderia precipitar uma revolução proletária em toda
parte, ou seja, os proletários não iriam se aliar aos burgueses.
A teoria leninista dizia que a guerra que estava sendo travada em função de um conflito de interesses
de imperialistas, isto é, vários imperialismos em conflito. E o proletariado não deveria embarcar nisso:
"olha, nós não vamos morrer para enriquecer os burgueses, então, ao invés do francês combater o
alemão e vice-versa, cada um derruba o seu próprio governo" – isso não aconteceu, mas sim o
contrário. Foi um negócio escandaloso pois o entusiasmo patriótico que tomou conta do proletariado
nas várias nações europeias foi um negócio acachapante.
Assim, os comunistas caíram do cavalo, e o Stálin, que era o homem mais esperto de todos, disse:
“não vai dar para fazer a revolução internacional, nós podemos continuar fazendo a subversão
internacional, mas não podemos contar com a revolução na Alemanha, nem na Inglaterra e muito
menos nos Estados Unidos; nós temos é de consolidar aqui o poder soviético no nosso território” –
Trotsky não concordou, ele tinha ambições muito maiores, ele viu que nesse sistema de socialismo
num só país ele seria no máximo ministro de alguma coisa, e ele queria ser um grande líder
revolucionário mundial, então ele cria a quarta internacional, que é a trotskista.
As diferenças são essas. Essas coisas umas se definem pelas outras, isto é, não são teorias
independentes, são teorias reativas, não criativas – criativo foi Karl Marx, ele quem criou tudo isso.
O leninismo já é uma resposta a uma situação local determinada, a situação de um proletariado
incipiente, ou seja, se tiverem intenção de fazer uma revolução proletária num país sem proletariado,
terão de partir para o leninismo. O leninismo é uma pequena elite armada, violenta, muito agressiva
e ambiciosa que toma o poder por um golpe militar no fim das contas, e depois convoca o proletariado
para apoiá-lo retroativamente. O stalinismo também surge em função do fracasso da revolução
europeia, da revolução mundial. E o trotskismo surge em resposta à ditadura stalinista. Vejam, muitas
das críticas que os trotskistas fazem ao regime stalinista são idênticas ao que o pessoal da direita fazia
na Europa toda e nos Estados Unidos, no entanto, ele fazia essas críticas não em nome de uma ideia
de democracia, de paz, etc., mas em nome da frustração do revolucionário que esperava a revolução
mundial e teve que se contentar com o socialismo num só país.
Então, a quarta internacional sempre foi uma coisa absolutamente irrelevante durante muito tempo.
O Trotsky foi assassinado, ele tinha pouquíssimos seguidores. Os dias finais dele são umas das coisas
mais melancólicas que se pode imaginar, pois o homem era escorraçado, perseguido e expulso de
qualquer lugar. Veio conseguir um lugarzinho no México e nem ali teve sossego, Stálin o perseguiu
até matá-lo.
Mas, nos últimos anos, sobretudo com a queda da União Soviética, o trotskismo volta a ter um certo
atrativo – muita gente diz que Trotsky se levantou do túmulo – pois a ideia de revolução mundial

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voltou sobretudo com esses novos meios de comunicação, a começar pela internet. Hoje pode
acontecer de desencadear movimentos de protesto numa escala mundial em 24 horas, isso vive
acontecendo. Houve uma série de modificações na estrutura do próprio partido soviético, que abandou
a estrutura hierárquica leninista e adotou um tipo de organização mais flexível, onde se abdica da
unidade doutrinária e se aceita qualquer corrente de ideias desde que se encaixem na estratégia, ou
seja, a unidade do movimento cessa de ser uma unidade doutrinária e passa a ser uma unidade
estratégica – na verdade sempre foi, Stálin soube usar todas as correntes políticas que podiam se
encaixar na sua estratégia; um exemplo é a própria teoria do companheiro de viagem, alguém que não
compartilha necessariamente da ideologia marxista, mas que está colaborando de algum modo e
ninguém soube manipular melhor o companheiro de viagem do que o próprio Stálin.
Portanto, essas diferenças são reativas e relativas – não sei se ficou claro essa resposta.
Aluno: Estava lendo essa semana o ensaio do Roger Scruton chamado Freedom is Discontents. Nesse
ensaio ele comenta que um dos motivos de a ideia comunista ainda está viva é o fato de o partido
comunista não ter sido julgado em côrte e de não ter tido o seu “Nuremberg”, até porque, pelo o que
entendi, eles destruíram todo o processo jurídico que poderia julgá-los. Nesse contexto, guardada as
devidas proporções, é importante que todos os petistas sejam julgados e condenados?
Olavo: Para mim é a coisa mais óbvia. O único país onde se promoveu um julgamento dos crimes do
comunismo foi o Camboja. Esse julgamento está se arrastando há muitos anos. A ideia do julgamento
foi boicotada abertamente por todos os Estados ocidentais e pela ONU. Mas, os cambojanos não se
conformaram porque o que houve ali foi realmente uma coisa dantesca, em poucos meses mataram
dois milhões de cidadãos cambojanos, e sem contar todos aqueles que conseguiram fugir. Eu não sei
em que pé está atualmente esse julgamento, mas sei que ele prossegue e não tem nenhuma repercussão
na mídia internacional, é um assunto completamente abafado, é [como se fosse um] fenômeno
nacional, local, cambojano.
É evidente que os crimes dos comunistas ultrapassam em dimensão e às vezes até em crueldade os
crimes dos nazistas. Não podemos esquecer a noção de totalitarismo, é claro. O regime nazista foi um
regime totalitário, mas foi um totalitarismo imperfeito. A Alemanha no auge do poder nazista tinha
seis serviços secretos diferentes que se boicotavam um ao outro, no meio da confusão sempre tinha
uma margem para o perseguido escapar. Na URSS não, a coisa era muito mais unitária, entre o serviço
secreto militar GRU e a KGB. É claro, houve sempre uns pontos de atrito, porém eram menores,
nunca houve um problema sério como houve entre os vários serviços secretos alemães.
Além disso, temos que considerar que o nazismo teve muito menos tempo para se consolidar do que
o comunismo. O nazismo durou doze anos, foi tudo feito às pressas. O Hitler é eleito em 1933, e ele
cria o seu sistema ditatorial em seis ou sete anos. Não é a mesma coisa que o comunismo, que é um
movimento que começa em 1848 e que chega ao poder, na Rússia, em 1917, ou seja, tiveram muito
mais tempo para se preparar, tinham uma militância enormemente maior e, mais ainda, o comunismo
sempre foi um movimento internacional, enquanto o nazismo era um movimento local alemão com
obstáculos internos que dificultavam a sua expansão.
O próprio fato de ser um movimento nacionalista – como é que se vai num país estrangeiro obter
apoio para o nacionalismo de um outro país? O que é que o italiano tem a ver com os interesses
nacionais da Alemanha? Então, tem de fazer uma série de conversões para convencer o italiano, o
japonês, o argentino, etc., para aderir aquela coisa, criando cópias, adaptações nacionalistas. Mas, no
fim das contas, o nacionalismo ia ter que entrar em confronto, mais dia menos dia. Portanto, um
nacionalismo internacionalista é, de fato, não apenas uma contradição lógica, mas uma contradição
material.
Se os crimes nazistas foram julgados? Não podemos esquecer que o tribunal de Nuremberg foi uma
invenção de Stálin. Ele adorava um julgamento teatral, ele achava isso importante. Na época o

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Churchill foi contrário: "não tem nada que julgar os caras, tem que pegar e matar na hora, não tem
que perder tempo com essa palhaçada jurídica" – mas o Stálin insistiu, porque ele gostava deste
cenário, do julgamento. De fato, os caras que foram a julgamento em Nuremberg, na maior parte
deles, com exceção do Hermann Göring, eram de pessoas insignificantes, os condenados todos eram
uns zés-manés. O único sujeito que, além do Göring, tinha realmente alguma influência, era o Hjalmar
Schacht, que era o homem do dinheiro, e acabou sendo inocentado, no fim das contas. É evidente que
foi um julgamento simbólico, mas este espetáculo teve o mérito de tornar o nazismo efetivamente
odioso, isto é, mostrar o horror do nazismo ao mundo – nada de similar foi feito em relação aos
comunistas.
Vejam, a ideia dos campos de concentração. De onde Hitler tirou ela? Ele copiou da Rússia. Ele
estava com tecnologia que havia tirado da Rússia. O próprio conceito dele, de estrutura do partido,
da função do partido, é um conceito leninista, e daí por diante.
Nós podemos dizer, de fato, que a única diferença que existe entre o nazismo e o comunismo é a
seguinte: há um socialismo internacionalista, que mesmo no tempo do Stálin continuou atuando em
todos os países – Stálin tem a teoria do socialismo em um só país, mas ele atuou em toda parte – e o
Trotsky tinha a teoria do socialismo internacional, socialismo mundial, mas não atuava em parte
alguma (não podia, coitado); por outro lado, há o socialismo nacionalista – essa é uma diferença
básica.
Também há uma diferença na esfera econômica. Que, aliás, é uma diferença mais verbal do que outra
coisa. Porque o sistema nazista – uma economia fascista de modo geral – não fala na estatização
completa dos meios de produção, eles falam numa estatização parcial e num controle da economia
por meio do Estado. Então, eles deixam que os empresários continuem donos das suas empresas desde
que estejam relacionados ao Estado, como se fossem empregados, isto é, têm que fazer tudo o que o
Estado manda e se não obedecer está lascado. Exemplo maior é o do famoso bilionário alemão, (???),
que não querendo colaborar com o regime, fugiu para França, foi sequestrado e trazido de volta: "ah,
você não quer trabalhar para mim, vai ter que trabalhar sim, desgraçado" – fez Hitler.
Então, esse regime, esse socialismo meia bomba, no qual se conserva a liberdade econômica pelo
menos a certos grupos, é o que está em vigor hoje na China. Não tem como dizer que o regime chinês
é internacionalista, ele é barbaramente nacionalista e é um socialismo meia bomba, tipo fascista. Na
verdade, só existiram essas duas economias. Economia comunista nunca existiu e nunca vai existir,
porque a estatização completa dos meios de produção é um contrassenso, nunca vai funcionar, como
já demonstrou Ludwig von Mises, em 1923. A diferença entre a economia nazista e a economia
comunista é mais uma diferença verbal, na verdade as duas faziam a mesma coisa, mesmo porque a
URSS continuou tolerando a economia privada durante muito tempo, pode-se dizer que 50% da
economia soviética era economia privada clandestina, no entanto o governo sabia, e sabia que
precisava daquilo, por isso deixava a coisa rolar.
No fim das contas, só existem dois modelos econômicos: economia liberal e economia fascista. E,
todos os governos do mundo ocupam esses territórios de uma maneira bastante móvel: pode ter um
pouco de liberalismo ou um pouco mais de fascismo, e assim por diante.
O aluno aqui cita aqui uma frase minha:
Aluno: "Uma democracia de verdade, com ordem constitucional e transparência, o Brasil nunca
mais terá”.
Olavo: Isso eu disse e repito. Por quê? Isto é muito importante, a coisa mais importante que está
acontecendo no Brasil e [0:30] pouca gente quer comentar pois isto não interessa a ninguém. Em março
de 2015, o povo estava consciente de ter sido ludibriado por uma eleição fraudulenta, feita com
apuração secreta – quando falo apuração secreta, eu não estou falando mal das maquininhas de votar,

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não estou falando contra o voto eletrônico; com voto eletrônico ou com voto impresso, qualquer
eleição cuja apuração seja feita por apenas vinte e três pessoas e sob a chefia de um emissário de um
dos partidos, e sem que o restante da população tenha o menor acesso à fiscalização da apuração, aí
existe já uma fraude; o problema não está no voto eletrônico, está na apuração secreta. Mas, o Brasil
é especialista em trocar as questões, isto é, ignoratio elenchi – esta é uma figura sofística que significa
que o sujeito não apreende qual é o ponto que está em discussão; estamos discutindo uma coisa e aí
aparece outro sujeito discutindo outra coisa, mas pensando ser a mesma. Qual é a minha posição sobre
voto eletrônico? Nenhuma. O problema não é o voto ser eletrônico ou impresso, o problema é a
apuração. Se fizer todos os votos impressos e botar vinte e três pessoas numa sala contando os votos,
sem que ninguém possa fiscalizá-las, então tem uma fraude. Se fizer a mesma coisa com as
maquininhas, também é uma fraude. E foi isso o que aconteceu.
O problema foi a apuração secreta que nega a transparência, que é condição básica da democracia.
Perguntem a qualquer um, qualquer estudante principiante de Direito: "se não tem transparência, tem
democracia?" Todo o mundo sabe que não. A condição básica da democracia, que é a transparência,
foi negada e pior, foi negada sem que ninguém fosse avisado de antemão. Perguntem a si mesmos:
vocês sabiam que os seus votos seriam contados numa apuração secreta? Ninguém sabia, ninguém
foi avisado. Portanto, foi uma fraude premeditada, uma fraude dolosa, porque ocultou do eleitor as
condições em que seu voto seria apurado. O povo inteiro sabia disso. Tanto que, o senhor Aécio
Neves durante a campanha era um ídolo nacional, passados quinze minutos depois da apuração, ao
reconhecer a vitória da Dilma, ele caiu na preferência popular, deixou de ser um herói para ser um
coitado, um sujeito desprezível, um rato.
Todo o povo que saiu na rua sabia: "nós fomos enganados". O que era para fazer? Era para rejeitar
em massa o resultado da eleição, exigir novas eleições imediatamente, exigir a punição dos
responsáveis pela fraude e pedir novas eleições, que era o normal, era isso o que todo o mundo queria
de imediato. Daí, vieram os gênios do MBL, o senhor Reinado Azevedo e os outros que estavam
vendo que nos movimentos de rua – isto é importantíssimo – os políticos eram todos rejeitados, ou
seja, havia uma crise de confiança com relação à classe política, ninguém confiava mais em político
nenhum, eles tentavam subir no palanque e o povo não deixava. Todo o sistema representativo
brasileiro entrou em crise, pois ele estava conivente com a apuração secreta e por isso, praticamente,
toda classe política foi rejeitada.
Então, tínhamos ali uma situação nitidamente revolucionária. Uma situação onde a ruptura entre a
classe governante e o povo era total. O desenvolvimento normal disso seria uma rejeição total da
eleição, portanto, a negação da legitimidade do governo e da eleição da Dilma e do Temer, para em
seguida ter a convocação de novas eleições e, eventualmente, uma situação revolucionária mesmo,
de criar um governo provisório, como se fez, por exemplo, na Ucrânia. Lá o povo invadiu os edifícios
do governo, botou, a pontapés, os caras para fora de lá, e obrigou o governo a mudar a situação.
O Brasil precisaria, durante algum tempo, de uma democracia plebiscitária, onde as decisões fossem
passadas para a mão do povo. Evidentemente, os políticos quando viram isso ficaram aterrorizados e
chamaram os seus office boys: Kim Kataguiri, Fábio Ostermann, Reinaldo Azevedo, Villa e disseram:
"nós vamos ter que dar um jeito nisso; o poder está escapando das nossas mãos, eles não estão mais
apenas contra o PT, eles não mais confiam em nós". Fizeram então uma manobra para restaurar o
poder da classe política, usando a Dilma como bode expiatório. Ou seja, concentraram todas as
baterias na Dilma para preservar o restante da classe política. E, é por isso que o impeachment teve
tantos votos.
Agora, a partir do momento em que, gradativamente, de uma maneira bastante sutil e engenhosa, a
iniciativa foi sendo transferida da população, da massa, para a classe política, através de seus
servidores – Kim Kataguiri, Fernando Holliday e outros – que, imediatamente, foram aceitos como
líderes por toda a mídia, vocês acham que isso é coincidência? De onde saiu o Kim Kataguiri?
Ninguém sabe. É um molequinho que tinha feito dois ou três vídeos, não representava ninguém e, de

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repente, um longo processo de transformação da consciência pública nacional, que durou vinte anos,
é atribuído a pessoas como o Kim Kataguiri e Fernando Holliday. Quer dizer, os meninos subiram no
palanque, deram um grito e a nação inteira se levantou. Será que é possível uma coisa dessas? Só um
idiota pode acreditar nisso aí.
Eu que estou agindo nisso desde vinte anos antes, eu sei a dificuldade que foi. Como é que nós
podemos introduzir uma nova consciência pública? Não de marketing e propaganda, mas através do
procedimento usual da história das ideias, que é a difusão para os círculos mais ativos
intelectualmente, para que depois vá acertando, por círculos concêntricos, massas maiores, que nem
vão saber de onde a ideia saiu – isso é normal, é assim que as coisas procedem na história.
Inspirado não em marketing e propaganda, mas na história das ideias, eu comecei a injetar várias
ideias – mas não se tratava apenas de lançar novas opiniões ou novas ideias. Em primeiro lugar, há
um estado de letargia mental, letargia intelectual causada por quarenta anos de socioconstrutivismo,
de monopólio esquerdista de todos os canais de opinião, etc., ou seja, o pessoal está incapaz de reagir
intelectualmente, portanto, primeiro tinha de criar uma possibilidade de reação intelectual, o que
subentende o dever de educar as pessoas e despertar nelas a inteligência. Não se trata, evidentemente,
de uma ação política, mas de uma ação cultural e psicológica que visa despertar alguns milhares de
pessoas intelectualmente capacitadas para que tomem posse da sua inteligência e assim possam reagir
– essas pessoas são, evidentemente, vocês.
Através desse processo, a consciência de certos fatos que eram até então ignorados, é que começa a
se alastrar e pode chegar até a orelha de um Kim Kataguiri, que está lá em Vila Nhocunhé, e ele não
sabe de onde isso saiu, pode até achar que foi ele quem fez. Quando eu comecei, no fim dos anos
oitenta, o Kim Kataguiri não existia, nem em formato de espermatozóide ainda, os espermatozoides
ainda estavam se formando no saco do pai dele, e daí o cara acha, retroativamente, que foi ele quem
fez.
As ideias se propagam em círculos concêntricos, mas sem a consciência de todo o seu rastreamento
e de toda a sua gênese. É uma coisa paradoxal porque, ao mesmo tempo em que se tem a tomada de
consciência, isto é, certos fatos se tornam conhecidos, é também uma inconsciência histórica. É uma
mistura de consciência e inconsciência.
A partir do momento em que todas as baterias se concentraram na pessoa da Dilma, quer dizer, ficou
a obsessão de tirar a Dilma, digo: “bom, tirar a Dilma quer dizer então que não vai haver mudanças
estruturais; não teremos, por exemplo, uma representatividade maior da classe política; a classe que
política que está aí vai continuar aonde está, continuará onipotente, ela vai fazer o que quiser, apesar
das suas divisões internas, mas ainda é o bom e velho estamento burocrático de que falava o
Raimundo Faoro”. Lembrem-se que o PT se formou com a promessa de destruir o estamento
burocrático e, num curto processo, ele mesmo se transformou nele, portanto o domina. Em seguida,
o PT perde o domínio do estamento burocrático – foi exatamente isso o que aconteceu. Mas, o
estamento burocrático não perdeu o domínio do país, ao contrário.
Quando lançaram a ideia do impeachment: é claro, não sou contra o impeachment da Dilma, nunca
fui, muito menos como o Reinado Azevedo estava dizendo – inclusive hoje mesmo ele publicou um
artigo altamente calunioso, difamatório, criminoso mesmo, dizendo: “o Olavo nunca acreditou que o
impeachment fosse acontecer". Ora, como não? O que eu disse desde o início é que: primeiro,
impeachment é um negócio demorado; segundo, ele passa a iniciativa para a classe política, já que
impeachment é discutido no Congresso e não nas ruas, ainda que as ruas possam pressionar, a decisão
não é delas, o povo pode gritar o quanto quiser, se a classe política não aceitar, não aceitou, portanto
se está legitimando a decisão da classe política; e terceiro, não há impeachment de um presidente
ilegítimo.

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Portanto, o impeachment tirava uma presidente legitimando a eleição fraudulenta. Ora, aceitar a
eleição fraudulenta só para tirar uma pessoa? Fomos enganados obviamente. Perdemos o poder de
iniciativa, obtivemos uma migalha do que queríamos, não reformamos o sistema político, não
quebramos o poder do estamento burocrático, não criamos uma verdadeira democracia com
representatividade e transparência, mas ao contrário, consolidamos o poder do estamento burocrático
e ainda o transformamos num herói da história. A partir do momento em que o povo aceita isso, ele
aceita viver sem transparência. "Nós não precisamos saber o que está acontecendo, basta vocês
tirarem a Dilma e talvez, sei lá, botar o Lula na cadeia" – é isso que o povo aceita. Se tirar a Dilma e
até botar o Lula na cadeia: isso muda a estrutura do poder? Não, meu filho. Muda os ocupantes do
poder. O sistema continua exatamente o mesmo. E, esse sistema já provou que pode enganar o povo
quantas vezes quiser – “ele faz uma eleição fraudulenta na sua cara e você ainda fica contente de
trocar um governante ilegítimo por outro governante ilegítimo”. O Temer é melhor que a Dilma? Sem
sombra de dúvida. Pelo menos ele sabe falar português. É um homem de cultura e algumas medidas
que ele está tomando parecem muito justas – acabar com a Lei Rouanet, cortar financiamento para
ditaduras comunistas falidas, etc. – ele está fazendo a coisa certa. Só que é o seguinte: ele é ilegítimo
do mesmo jeito. E, nós aceitamos isso, ou seja, nós aceitamos a parte pior e mais vasta da história em
troca de mudar uma migalha: tirar a Dilma e, talvez, colocar o Lula na cadeia. O estamento
burocrático perde algo com isso? Não. Ele ainda é o mesmo sistema, trocou os ocupantes apenas.
Isso significa que o povo desistiu da transparência e aceitou essa imensa fraude, isto é, quiseram se
livrar de uma fraude mediante outra fraude – “nós aceitamos o prêmio de consolação”. Não temos a
democracia com transparência, não temos eleições limpas, mas aceitamos tudo isso porque nos
livramos da Dilma, isso é uma decisão de extrema gravidade. Tão grave quanto a que aconteceu no
Estados Unidos, no momento em que aceitaram o Obama com seus documentos falsos, ou seja, “nós
não sabemos quem é esse cara, nem de onde ele saiu, sabemos que os documentos dele são falsos,
mas não vamos mexer nisso porque isso vai criar uma crise institucional, etc.” – todo mundo ficou
com medo de falar no assunto, então aceitaram o farsante e serem feitos de idiota.
É claro, a partir daí a democracia está corroída, não vai funcionar mais. Ela mostra que um grupo
ativo e ambicioso é perfeitamente capaz de controlar o destino da nação sem que o povo possa fazer
nada. Ora, a ideia da democracia, que eu saiba, não é o governo do povo? O governo, através de seus
representantes, tem de fazer o que o povo quer, tem de prestar satisfação a ele. Mas se o sujeito não
precisa prestar satisfação nem de quem ele é, e se no Brasil não precisa prestar satisfação nem mesmo
de uma eleição fraudulenta, então significa que a elite é onipotente e o povo aceitou viver sem a
transparência, desistiu do poder, abdicou do poder em troca de um alívio. É claro, tirar a Dilma é um
alívio, é evidente que é.
Desde o início eu disse isto: “o impeachment é ótimo, só que, ele não pode ser o plano nº 1, ele tem
de ser plano nº 12 ou 13, isto é, se falhar tudo o mais pelo menos virá o impeachment, que foi o que
aconteceu, porém demorou. Houve o impeachment? Não, ainda não houve. O impeachment vai
começar ainda. Ou seja, de março de 2015 até o fim do impeachment são quase dois anos e, no
entanto, o povo em março de 2015 já estava desesperado. Ora, então por que o povo foi as ruas?
Porque a classe política não fazia nada, ela estava conivente. O povo toma a iniciativa e essa iniciativa
tinha de ser fortalecida, e não transformar o povo apenas numa massa de manobra que vai reivindicar
coisas para o congresso, não é isso. Se houvessem novas eleições, não apenas presidenciais, mas
também legislativas, eu acho que 98% do congresso teria sido colocado para fora. Isso teria sido,
realmente, o fim do estamento burocrático e o começo, o nascimento da democracia brasileira.
Prestem bem atenção, no período republicano, nós tivemos intervalos de democracia – intervalos de
cinco anos, dez anos. A quase totalidade da nossa era republicana foi constituída de ditaduras, nunca
tivemos a democracia. Em março de 2015, tínhamos finalmente a chance [de termos uma democracia
verdadeira], que era, como bem viu Raymundo Faoro, [a chance de] quebrar o poder do estamento
burocrático e criar uma nova classe política submissa aos interesses da população – é claro, isso

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implica mudanças na legislação eleitoral, implica muitas coisas. Essa chance estava na mão, era isso
o que o povo estava querendo, mas [houve] a demora e foram adiando, adiando e adiando.
O primeiro truque foi a marcha para Brasília. Quanto tempo leva os moleques para, andando,
chegarem a Brasília? Enquanto isso o povo nas ruas fica fazendo o quê? Fica todo mundo na rua
gritando, ou vão todos para casa e esquecem? É claro que isso foi uma fraude. É claro que isso foi
inventado por estrategistas muito capacitados, muito astutos, e que desejavam salvar não o Brasil,
mas a si próprios, o poder da classe política, o poder do estamento burocrático.
Eu imagino o Raymundo Faoro se retorcendo no túmulo. Porque aqueles dos quais ele esperava a
destruição do estamento burocrático se transformaram no próprio estamento burocrático e o
fortaleceram monstruosamente. Em seguida, eles perdem o poder do estamento burocrático sem que
o estamento burocrático seja abalado no mínimo que seja.
Tudo o que eu estou falando leva em conta o diagnóstico esplêndido do Raymundo Faoro, que no
Brasil a luta de classes não é entre burguesia e proletariado, mas é entre os donos de Estados e a
população em geral. Quando vemos coisas como, por exemplo, o plebiscito do desarmamento em que
o povo foi maciçamente contra. Perguntamos: foi aplicado? Não. Aí vemos que a decisão do povo
não interessa. O povo decidiu tal coisa, mas “nós aqui, a elite, os iluminados, nós queremos outra
coisa”. A partir do momento em que o governo Temer é aceito como legítimo: pronto, aceitou. Não
precisa controlar eleição, basta tirar aquela mulher de lá e pôr esse outro aí que é o vice dela. É aí que
diz Lênin: “a melhor das vitórias é quando se faz o adversário perder a vontade de lutar”.
Quanto tempo será preciso, agora, para se criar uma nova situação de revolta, de ira popular, como
se tinha em março de 2015? Não vai acontecer tão cedo. Só se o Temer fizer uma quantidade
infindável de erros. Coisa que ele não vai cometer porque ele não é nenhum idiota, ele já provou que
não é. É claro, está melhor com o Temer, porém a situação de ilegitimidade continua, e foi aceita
como tal em função do alívio, quer dizer, o que era para ser uma cura, tornou-se apenas um paliativo.
A chance de uma verdadeira democracia que implique a transparência foi perdida, eu creio, que por
muitos anos, se não para sempre – é esse o diagnóstico. É claro, isso acontece para a imensa satisfação
das pessoas que entraram nisso visando a salvação da classe política – do tucanato, em primeiro lugar.
Os office boys do tucanato – MBL, Kim, Holliday, Reinaldo Azevedo – estão aí para isso.
Foi isso que aconteceu e aconteceu exatamente como eu previ. Eu falei: “se perderem essa chance
agora, eles vão transformar o que é uma revolução brasileira, um capítulo fundamental da revolução
brasileira...” – o conceito de revolução brasileira foi discutido muito, sobretudo na esquerda; tem o
livro do Pessoa de Moraes, Sociologia da Revolução Brasileira, não deixem de ler; tem vários livros
do José Honório Rodrigues a respeito desse processo, que é o povo tentando se erguer e criar uma
sociedade política a altura das suas aspirações e sendo sucessivamente derrotado pelo estamento
burocrático. Portanto, aconteceu de novo, exatamente como eu disse.
Espero que tenha ficado clara esta resposta.
Aluno: O senhor poderia por favor falar um pouco sobre as funções dos símbolos na política? A
esquerda sempre fez bom uso dos seus símbolos, de modo que, eu creio, a direita continuará sem
identidade enquanto não tiver os seus próprios símbolos.
Olavo: Não se trata só dos próprios símbolos. Vocês têm ideia da profundidade dos estudos
gramscianos sobre linguagem? É uma coisa que na direita ninguém estudou. Eu não conheço um
único sujeito na direita que tenha estudado isso. Mesmo eu, o conhecimento que eu tenho disso é
superficial, mesmo depois de todos esses anos. Por quê? Esse pessoal gramsciano eram milhares de
pessoas altamente qualificadas, que ficavam estudando como poderiam modificar o senso comum,
quer dizer, o modo de sentir da população, através da manipulação da linguagem. Manipulação que,
não começa em discurso político nem que a vaca tussa, começa nos dicionários – “então, nós vamos

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fixar a acepção de cada palavra etc.” Os dicionaristas, em vários países do mundo, sempre estiveram
a serviço do partido comunista, ninguém escondia isso – Antônio Houaiss não escondia isso, Aurélio
Buarque de Holanda não escondia isso.
Então, começa numa sedimentação de uma linguagem que vai aprisionar as pessoas numa camisa de
força, elas não vão conseguir pensar de outra maneira. Para escapar disso só se o sujeito for um
escritor, um dominador eficaz do idioma – que, modéstia à parte, eu sou isso aí, eu sei o que fazer
com a língua portuguesa, entendo como ela funciona e sei como fazê-la funcionar ao contrário disso,
porém tem um só neguinho fazendo isso e dez mil fazendo o contrário.
Mesmo assim, a coisa funcionou e nós conseguimos quebrar a hegemonia cultural comunista – aliás,
conseguimos não, eu consegui sozinho; vai dizer que Reinaldo Azevedo ajudou nisso? Tá brincando,
né? Antipetismo é uma coisa, meu filho, quebrar a hegemonia cultural é outra. Para quebrar a
hegemonia cultural, é preciso ter o domínio de um horizonte [de consciência] muito maior do que os
seus adversários têm. É preciso conhecer tudo o que todos esses pensadores de esquerda produziram
ao longo do tempo – a começar pelos dicionários – e começar a mudança na esfera da linguagem,
muito por baixo, o que exige operações estilísticas que um Reinaldo Azevedo jamais compreenderá
nem em cinquenta anos de estudos, ele não está qualificado para isso – nem ele nem o Villa, são
pessoas de cultura ginasiana, se vê pelo modo deles escreverem.
Um elemento importante nesse processo hegemônico é o sujeito impedir que as suas figuras de
linguagem sejam analisadas. É colocar as figuras de linguagem como se elas fossem uma tradução
direta dos fatos através do processo, que eu já expliquei em artigo, de imantar certas palavras, certas
expressões de um apelo emocional direto, quer dizer, o sujeito age diretamente sobre as emoções do
seu ouvinte ou leitor sem passar pela representação do objeto.
Por exemplo, se o sujeito falar a palavra discriminação, ou racismo, ou direitos humanos, ou
diversidade. Pergunte assim: “olha, me descreva exatamente, concretamente, o que é a tal da
diversidade” – eles não sabem e, no entanto, eles gostam disso. Peça que lhe diga exatamente o que
é discriminação, ou o que é racismo – as pessoas, no máximo, conseguem reproduzir uma definição
nominal. Então, temos uma palavra e temos a sua definição nominal. “Agora me dê a representação
concreta, sensível, do objeto do qual você está falando, do fato” – elas não conseguem.
Por exemplo, quando se fala em ditadura militar. Como é que conseguiram fazer o Bolsonaro se
passar como adepto de uma ditadura militar se o cara é candidato a presidente da república? Vocês
acham que quem está planejando um golpe vai se candidatar a presidente dentro do sistema que ele
mesmo quer derrubar? Isso é absolutamente impossível. Ele estaria ao contrário, ao invés de estar
fazendo propaganda eleitoral para si mesmo, ele estaria conspirando com os militares. Mas, a ideia
de que o homem é favorável a ditadura militar é passada de maneira quase geral, baseada no fato de
que ele defende alguns atos da ditadura militar de sessenta e quatro.
Ora, promover a restauração histórica de um regime extinto é a mesma coisa que propor a volta deste
regime? Por exemplo, eu posso fazer aqui uma apologia do governo de Luis XVI. Isso quer dizer que
eu estou propondo a monarquia francesa? É claro que não. Quer dizer, a restauração histórica é uma
coisa, e a proposta política é outra. Mas, através da fusão destas duas figuras é possível dar a
impressão de que qualquer sujeito que diga qualquer coisa em favor do regime de sessenta e quatro
se passe por um militarista – isso, é claro, é uma exploração da confusão mental; mas essa exploração
é tão vasta que praticamente todo o vocabulário da mídia é feito nesta base; não da mídia esquerdista
ex professo, de toda a mídia.
Por exemplo, o Reinaldo Azevedo consegue me fazer passar por um defensor do golpe militar, que
eu nunca defendi. Ao contrário, tem gravações de dois anos antes eu dando bronca nos caras, falando:
“como vocês estão pensando em golpe militar, vocês tiveram alguma iniciativa política, civil ou
jurídica antes para resolver a coisa?” – nada. “Então vocês não tentaram as vias civis normais e já

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estão tentando apelar para os militares, o que é isso?” – isso dois anos antes. Também tem análises
extensas que eu publiquei no Facebook mostrando toda inconveniência e dificuldade de um golpe
militar, a começar pela dificuldade na ordem internacional, quer dizer, hoje em dia se tem realmente
uma situação de interdependência, não se pode dar um golpe em Honduras sem que o mundo inteiro
reaja de alguma maneira. E vocês acham que a nossa “direita” está preparada para enfrentar uma
campanha internacional? Não.
Vejam, mesmo com o impeachment da Dilma: o impeachment da Dilma não foi um golpe militar. E
vejam a reação internacional que houve – o jornal Le Monde essa semana dizendo: “o Brasil está
dividido”. Vocês já viram uma divisão de 95% contra 5%? Isso não é divisão, é unanimidade. Mas,
é apresentando como se fosse divisão, como se fosse meio a meio, como se fosse uma situação de
guerra civil, estando metade do país contra a outra metade. Então, nem o pessoal do impeachment
estava preparado para lidar com isto. Quer dizer, quando aparece um monte de petista falando na
CNN, no Le Monde, no New York Times, etc., contra o impeachment, a turma do impeachment foi
pega com as calças na mão, eles não esperavam isso. Por quê? Eles não têm sequer conhecimento da
situação internacional. O sr. Reinaldo Azevedo conhece a situação internacional, como eu conheço o
torneio brasileiro de futebol, que eu deixei de acompanhar em 1957. E não se esqueçam, essas pessoas
são quem vivem de comentar os “acontecimentinhos” da semana, não têm uma visão estrutural maior,
não são capazes de uma análise sociológica, ou sócio-psicológica, nada, isso está longe da esfera [de
conhecimento] deles e, no entanto, são essas pessoas que formam opinião.
O fato de serem antipetistas não significa que fossem capazes de gerar efeitos culturais de longo
prazo, não. Primeiro era preciso quebrar a hegemonia cultural, meu Deus do céu, e ela foi quebrada.
Começou a ser quebrada com o livro O Imbecil Coletivo, depois com O Mínimo e com mais nada.
Foram esses dois livros que fizeram isso, esses dois livros tornaram possível haver uma opinião
pública [1:00] direitista que, anteriormente, estava rigorosamente excluída – excluída até em termos de
centimetragem nos jornais; isso se pode provar matematicamente: quantas opiniões de “direita”
cabiam num jornal, por exemplo? Havia na base de um colunista de direita para outros cem de
esquerda. O próprio Luiz Garcia, diretor de redação do O Globo, dizia: “nós contratamos o Olavo de
Carvalho porque nós estávamos precisando ter pelo menos um direitista ali, para não dar na vista” –
é assim. Eles tinham o domínio dos jornais, dos canais de TV, do show business e das manifestações
de rua. Pela primeira vez surgiu uma manifestação de rua contra eles em 2014, de maneira toda
impremeditada. O governo é quem começa uma manifestação de rua e o povo a vira do avesso.
Vejam, que um trabalho de vinte anos resultasse numa quebra da hegemonia e, portanto, na eclosão
de movimentos populares, isso não tem nada de novidade. Novidade seria se um moleque de dezenove
anos subisse em um palanque e, porque ele deu um grito lá, o povo inteiro se levantasse. Mas, as
pessoas preferem acreditar nessa hipótese do que acreditar na hipótese do longo trabalho de fusão por
círculos concêntricos. E, evidentemente, interpretam isso com aquela psicologia pejorativa de
botequim, que é natural: “não, o Olavo quer se glorificar”. Mas espera aí, como assim me glorificar?
Eu pedi algum lugarzinho em alguma academia? Algum cargo público? Alguma verba estatal ou pedi
algum programa de televisão para mim? Eu não pedi nada. Então, que raios de glorificação é essa que
não se traduz materialmente em nada? Agora, pessoas como Reinaldo Azevedo, Villa e outros,
pediram alguma coisa e obtiveram. No mínimo, tem grandes empresas dando respaldos a eles e estão
ganhando bem para fazer isso. Eu, o que eu ganho vem direto do público para mim, não passa por
nenhuma grande empresa, eu não tenho patrão. E essa é uma diferença brutal.
Nós sabemos, por exemplo, que a Editora Abril foi uma das principais culpadas da destruição da
educação brasileira através das revistas que eles distribuíam para todo professorado nacional das
escolas primárias e secundárias – as revistas Nova Escola e Sala de Aula. Isso fez a cabeça de todo
professorado brasileiro metendo Emilia Ferreiro, Célestin Freinet, etc., tudo quanto comunista na
cabeça deles. Vejam, a Editora Abril pode ter sido antipetista, mas as suas simpatias pela esquerda
continuam iguaizinhas.

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Manipulações por símbolos existe, mas não é um fenômeno total, e sim a manipulação da linguagem
em geral e isso continua funcionando. Vejam, quando um tipo como Reinaldo Azevedo, consegue
posar de defensor da democracia e dos direitos humanos e coloca quem está contra ele como
militarista, o que é isso? É manipulação da linguagem. Ele está usando símbolos condensados, não
analisados, que não correspondem a fato concreto nenhum, mas que desencadeia uma reação
imediata. Quem é que não é contra o militarismo e a favor da democracia? Ora, aí só falando como o
Saul Bellow: “eu sou a favor de tudo o que é bom e contra tudo o que é ruim”. Isso é uso de um topos.
É o uso de um argumento padronizado que tem efeito imediato sem passar pela representação dos
objetos e fatos considerados.
Aluno: É possível fazer uma previsão sobre até que ponto o nível de bem-estar do brasileiro vai
piorar nos próximos anos ou décadas?
Olavo: Olha, eu acho que do ponto de vista econômico vai melhorar, sem dúvida. Só não vai melhorar
se o Temer for muito burro, pois ele tem tudo na mão para melhorar. Todo mundo sabe o que é preciso
fazer, não precisa ser nenhum gênio da economia para saber o que é preciso fazer, portanto, é só fazer.
[A partir daí] os reflexos na economia serão bastante rápidos, quer dizer, seis meses, um ano. Mas,
melhorando a economia, o pessoal começa a exigir menos na política – pelo menos num primeiro
momento – até que a própria prosperidade crie uma classe ambiciosa, aí o sistema se inverte.
Bom, eu vou fazer um intervalo e enquanto isso eu vou imprimindo novas perguntas. Daqui 10
minutos nós voltamos. Está bem?

***

Então vamos lá. Temos aqui uma segunda série de perguntas.


Aluno: Sou estudante do ensino médio em uma escola particular e tenho 16 anos. Minha pergunta é
como ser um agente influenciador dos meus colegas despertando-os para a militância e
intelectualidade? E como trazer mudanças para a minha escola para que possa ter voz forte contra
doutrinações de professores marxistas?
Olavo: Isso aí é um desafio que não se vence do dia para noite. Por quê? Hegemonia significa um
controle intelectual da situação. Por exemplo, há o controle da linguagem, o controle dos conceitos
em jogo, controle dos símbolos, etc., tudo isso foi elaborado ao longo de mais de cem anos. Logo,
você não vai conseguir vencê-los se você não souber mais do que eles – não mais do que cada um
individualmente, isso às vezes é até fácil –, saber mais do que a comunidade na qual cada um se apoia,
pois esta também existe como círculos concêntricos – ela começa com um sujeito que tem seu grupo
de referência imediata, tem as organizações militantes e partidárias, tem os círculos internacionais e
tem toda a tradição intelectual marxista por trás.
É por isso que eu coloquei naquele artigo, “Estudar antes de falar”, sequencias de leituras que o sujeito
deve fazer para conhecer o que é esse negócio de movimento comunista, aquilo ali é um programa de
estudos que leva cinco anos, mais ou menos.
Pensem assim, quanto tempo levou para o pessoal da Escola de Frankfurt conseguir ter alguma
influência no meio universitário americano? Levou meio século. Eles começaram a trabalhar no
começo do séc. XX e foram, muito gradativamente, aos trancos e barrancos, com muita dificuldade,
conseguindo audiência até se tornar, por assim dizer, uma corrente dominante – quando eu falo
corrente dominante, isto quer dizer o seguinte: as pessoas repetem as ideias deles sem saber da onde
saiu; se vocês perguntarem para qualquer um desses estudantes que repetem ideias frankfurtianas a

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torto e a direita, quem foi Max Horkheimer, o sujeito não sabe; assim como tem gente aí repetindo
coisas que eu disse no O Imbecil Coletivo, e se perguntarem a eles quem foi Olavo de Carvalho, eles
também dirão que não sabem – isso é normal na história da ideias, as coisas são sempre assim. Quer
dizer, quem acompanha realmente os processos e a autoria dos movimentos é só o historiador
seriamente empenhado em conhecer a coisa. A massa não sabe, a opinião pública não sabe e não tem
porque saber.
No começo dos anos noventa eu já tinha entendido que isso tinha de ser um processo muito lento e
que tinha de passar primeiro pela restauração da inteligência das pessoas, ou seja, tinha que ter um
processo educacional voltado simplesmente, não para a política, para o saneamento da inteligência.
Ora, os milhares de alunos que eu tenho, todos eles depõem que ficaram mais inteligentes com meu
curso. Não é que eles aprenderam: “ah, eu estava na esquerda e passei para direita” – não é isso.
Passar para a direita até o Reinaldo Azevedo passou, meu Deus do céu, até o Villa passou, isso
qualquer idiota faz. Agora, o sujeito começar a compreender as coisas, começar a entender os
processos com maior sutileza, tornar-se capaz de decifrar o que antes era indecifrável: isso sim é o
que é necessário fazer.
Reparem vocês, nos meus artigos todos, o que tem de pregação política ali é mínima, 99% é só análise.
É claro, de vez em quando eu também tenho um contra ou a favor. Mas, esse contra ou a favor, não
é a tônica do que estou falando, ao contrário, essa é a tônica desses comentaristas, eles só abrem a
boca para dizer contra ou a favor, só isso. É o máximo que seus cérebros conseguem. Agora, analisar
mesmo as coisas? Isso eles não são capazes de fazer. A análise é também um exercício, um exercício
para diferenciar a sua visão de modo que as sínteses confusas vão se clareando gradativamente até se
transformar em conceitos descritivos, os mais exatos possíveis. Era isso que é a primeira coisa a fazer,
um trabalho na esfera da educação, não da política.
Por exemplo, essa coisa de marxismo: vejam, toda a direita brasileira tem esse vício de subestimar o
adversário, ela leva uma rasteira atrás da outra e ainda faz de conta que não sentiu. Olha, o
impeachment da Dilma: a esquerda nacional está dando uma nova rasteira no país inteiro fazendo o
pessoal esquecer que foi enganado numa eleição fraudulenta, quer dizer, a saída da Dilma é um alivio
tão grande – um alivio simbólico na verdade – que o pessoal esquece que foi feito de trouxa. “Eu
concordo ser feito de trouxa desde que tire essa mulher daí” – agem assim. Eles trocaram uma
mudança substantiva por uma mudança simbólica. Essa mudança simbólica será substantiva, creio
eu, na esfera econômica. Mas que vai mudar este sistema para um sistema transparente... eu lhes digo:
um homem que vive pela opacidade e foi colocado no poder pela opacidade, não vai querer
transparência nenhuma. Me desculpem, eu nada tenho contra o Temer. Na verdade, tenho até uma
certa simpatia – bom, depois dessa sua antecessora é difícil não ser simpático, né? Se botasse, sei lá,
um elefante na presidência, me pareceria simpático.
Mas o fato é o seguinte, nas análises que eu fiz, só tenho como interlocutores: os meus alunos e alguns
observadores estrangeiros como Diana West, Jeffrey Nyquist, Alexandre (???), Cliff Kincaid, sujeitos
estudiosos e altamente gabaritados, esses são meus interlocutores. Agora, no Brasil não tem nenhum.
Vocês acham que eu posso discutir as coisas com Reinaldo Azevedo? Se eu der um livro do Georg
Lukács para o Reinaldo Azevedo ler, ele morre. Ele não aguenta chegar na página cinco – eu não
estou brincando. Agora, tem interlocutores aqui: no Eric Voegelin Institute, na America's Future
Foundation, na Accuracy in Media – nesses aí tem.
No Brasil, eu acho que o último que eu tive foi o Paulo Mercadante, ele entendia o que eu estava
escrevendo. Agora, vem aí o seu Reinaldo Azevedo dizendo: “esses meninos ficam chamando ele de
mestre” – espera aí, vou dizer a Reinaldo quem foi que me chamou de mestre: foi o Paulo Mercadante,
o Meira Penna, o Ives Gandra, o Herberto Sales, o Josué Montello, o Jorge Amado, o Roberto
Campos, o Paulo Francis, esses eram os maiores escritores brasileiros, esses reconheciam meu
estatuto de mestre, de alguém que estava ensinando algo para eles, não é a molecada boba que está
dizendo isso. Todos esses sempre me colocaram num estatuto superior ao deles, pois estavam

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aprendendo comigo. Não há vergonha nenhuma em aprender com os outros. Eu também aprendi com
muita gente e sempre reconheci [a cada um] o seu estatuto superior.
Eu acho que se pegarem toda a minha obra ela não vale um décimo do valor da do Mario Ferreira dos
Santos. A obra dele vai levar séculos para ser assimilada no Brasil – se chegar a ser. A minha até que
está sendo assimilada com uma certa rapidez, pelo menos a parte mais popular. Agora, se quiserem
entender o pensamento do Olavo de Carvalho, terão primeiro de estudar a epistemologia dele, a teoria
do conhecimento, as teorias lógicas dele, a teoria dos quatro discursos, a teoria da tripla intuição – o
que eu chamei de intuicionismo radical – tudo isso. Eu fiz uma lista das minhas teorias. Vocês acham
que esse pessoal está qualificado para entender isso? Se eles não entendem isso, é claro que eles não
irão entender também minhas analises políticas – análise política é assim, é o efeito do efeito do efeito
do efeito, é a parte mais periférica, a qual não é fundamento de si própria. Então, o pensamento de
um filósofo, ou se pega na sua estrutura geral ou não se pega nada. O sujeito vai pegar no máximo
opiniões soltas que ele catou no Facebook, e que ele vai poder falsificar à vontade.
Então, se você quer ser um agente de mudança você vai ter que estudar muito, meu filho. Também
vai ter de passar muita humilhação e ainda ficar quieto ouvindo besteira: você sabe que fulano está
errado, mas você não sabe ainda discutir aquilo, “espera aí, minha vingança será maligna, espere um
pouquinho” – você vai pensar. Isso aí é que nem o menino que tem o azar de ter um irmão mais velho
ruim, que bate nele, que judia: “espera aí, eu vou crescer, e aí eu te pego” – ele pensa. Tem que ser
assim, tem que ter paciência. Quanto tempo você acha que eu engoli quieto toda a sorte de besteiras?
Quando eu comecei a soltar aquelas notinhas do O Imbecil Coletivo já fazia vinte anos que eu estava
observando esse fenômeno e esperando que alguém mais qualificado analisasse aquilo e
desmantelasse aquela máquina infernal, mas ninguém fez. As pessoas qualificadas [para isso]
estavam muito velhas. O único que não estava suficientemente velho foi o Paulo Francis, mas ele
estava doente, ele tinha um problema cardíaco e não sabia, daí o homem morreu e nada mais disse e
nem lhe foi perguntado. E pior, o Paulo Francis ainda tinha um rabo preso emocional com a esquerda,
ele queria ser amado pelo pessoal da esquerda. “Bom, eu não vou cair nessa, eu conheço essa gente
e eu não quero amizade deles de jeito nenhum” – eu falei. Se eles ficarem bravos, é normal. Se eles
decidirem não falar nada – e foi o que fizeram, de fato – melhor ainda. É isso que eu quero, quero
que fiquem quietos. A tal da espiral do silêncio funcionou ao contrário, eles fizeram a espiral do
silêncio contra eles mesmos, e funcionou – a operação vaca amarela, como eu a chamei, funcionou,
todo mundo quieto e ficou só eu falando, ótimo.
Tudo isso dá muito trabalho. Tem que ter paciência e sangue frio. Tem que se preparar e não entrar
em campo [antes disso]. Não tente convencer ninguém de nada, eu nunca tentei convencer ninguém
de coisa nenhuma. Eu estou apenas expondo, fazendo análises. A quantidade de apelo retórico nos
meus artigos é mínima – tem um pouquinho, isso é inevitável. O contra ou a favor ali? Vejam, para
eu me pronunciar contra ou a favor de alguma coisa só depois de conhecê-la muito bem e daí, no fim,
uma parte pelo menos, eu posso ser contra ou a favor.
Agora, no Brasil todo mundo quer que o sujeito tenha posição sobre tudo. “Qual é a sua posição sobre
o sionismo?’’ – por que é que eu tenho de ter alguma? Eu nem li o livro do Theodor Herzl ainda,
sobre o sionismo. Como é que eu posso ter opinião sobre essa coisa? Bom, eu tenho alguma simpatia
pelo estado de Israel porque os caras se ferraram tanto na segunda guerra que [eu acho] que eles têm
direito a um pedacinho de terra e isso é o máximo que eu posso conceber a respeito – isso não é uma
posição. Mas no Brasil todo mundo tem que ter uma posição a respeito de tudo e pior, tem que ser
uma posição imutável.
Vejam, a gente tem de ter fidelidade a certos princípios, mas na política não tem princípios. Existem
princípios morais, epistemológicos, metafísicos, etc., mas princípios políticos não existem, meu Deus
do céu. Na política tudo é mutável em função da fidelidade aos mesmos princípios, que não são de
ordem política. Agora, no Brasil o sujeito tem que ter uma posição política, essa posição tem que ser

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fixa e tem que ter opinião sobre tudo. O número de mensagens que eu recebo perguntando qual a
minha opinião sobre fulano de tal, [é enorme]. Eu digo: olha, eu tenho por norma não ter opiniões
sobre pessoas, a não ser que primeiro o sujeito solte uma opinião a meu respeito, daí eu sou obrigado
a responder. Mas no Brasil é assim: o sujeito escreve o diabo a meu respeito e aí quando eu respondo,
eles dizem: “ah, o Olavo arruma briga com todo mundo”. Quer dizer, a coisa está evidentemente
invertida.
Hoje mesmo, nos comentários do Reinaldo Azevedo o sujeito disse: “ah, ele começou a criticar o
Francisco Razzo”. Não, o Francisco vem me criticando há muito tempo até que um dia eu soltei uma
ou duas frases a respeito dele, foi o máximo, em geral fazendo gozação. Alguma coisa
verdadeiramente agressiva, verdadeiramente ofensiva, se eu tivesse feito eles teriam me processado.
Por que não me processa? Porque não tem fundamento.
Mas então, é assim: prepare-se.
Aluno: O senhor disse no curso que falta um mapeamento da esquerda no Brasil, algo que ligasse os
nomes, instituições, o caminho do dinheiro, etc., e seria ainda um caminho de formiguinha. O senhor
tem algum modelo de mapeamento em mente?
Olavo: Olha, existe um site que se chama Discover the Networks, é um site organizado pelo David
Horowitz. O Horowitz é uma enciclopédia da esquerda americana, na cabeça dele já tem tudo, então
ele pegou essa emenda experiência que ele tem e transformou em um site, em uma série de livros.
Agora mesmo está saindo o livro negro da esquerda americana escrito em dez volumes feito por ele,
ou seja, está todo mundo lá, ele conhece todo mundo, o que cada um fez – é aquele negócio “eu sei
quem você é e o que você fez” – e ele pode contar a história de todo mundo, isso é indispensável
numa luta política.
Agora, no Brasil parece que é o contrário, a norma é o inverso do Sun Tzu: “não conheça seu inimigo
e faça de conta que ele nem existe”. Tem também aquele: “não vamos falar disso para não reforçar”.
Essa é a ideia mais idiota do mundo, quer dizer, os caras tão fazendo vinte e quatro horas por dia
propaganda, manipulação, marketagem, assassinato de reputação, etc., o outro lado fica quieto para
não dar público a eles. Mas eles já têm seu próprio público, meu Deus do céu. Então, isso uma ideia
fetichista. Da á impressão que é sua fala que dá existência ao outro, e não é, a coisa realmente não é
assim, isso nunca funcionou. Ficar quieto enquanto estão mentindo a seu respeito, nunca é boa
política, todo mundo que fez isso [deu errado].
Vejam, eles começam banindo o sujeito um pouquinho e quando ele fica quieto o banimento é total.
Grande escritor brasileiro que era o Meira Penna e ele ficou fora da grande mídia durante trinta a
quarenta anos. O Antônio Olinto, é uma gloria da literatura nacional, o homem está traduzido em
trinta idiomas, e durante trinta anos o nome do Olinto não aparecia em nenhum jornal brasileiro,
estava totalmente proibido e isso a despeito do fato de que ele, como adido cultural brasileiro na
embaixada de Londres, deu ajuda para tudo quanto é comunista fugido – é assim que os caras
agradecem.
Para conhecer o adversário tem que conhecer também a sociedade em que está, não basta conhecer
só o adversário. Tem que enxergar claro, isso é a coisa mais importante do mundo. Agora, querer
fechar os olhos e seguir em frente: “não, precisamos agir, precisamos agir” – como fala todo mundo.
Agir o quê? Estudem a vida do Mike Tyson. Como é que ele chegou onde chegou? Ele assistia muitas
vezes cada vídeo das lutas dos seus adversários, ele sabia tudo que eles iam fazer e por isso mesmo
ele fazia antes. Era só, o segredo era só esse. Os caras às vezes eram muito maiores que ele, tinham
mais força física, mas ele previa em tempo. É a norma do Auguste Comte: “saber para prever, a fim
de poder”. Está muito certo isso aí, não há outra forma. Desde Sun Tzu até o Auguste Comte, todo
mundo concorda. Se o sujeito não sabe onde está nem o que está fazendo e nem sabe onde o outro
está e nem o que ele está fazendo, ele vai se ferrar.

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Qual foi a primeira iniciativa de direita no Brasil? Foram os liberais. Propaganda liberal, propaganda
do livre mercado. Que malefícios isso fez para a esquerda? Nenhum. Porque daí chegava o seu Lula
e dizia: ”não, nós reconhecemos a importância do livre mercado, queremos a colaboração da iniciativa
particular” – pronto, absorvia tudo; e ele queria mesmo, não era da boca para fora. Quem disse que
comunismo é contra o livre mercado? Quem disse que é contra o livre comércio? Karl Marx escreveu
páginas e páginas a favor do livre comércio. Sem livre comércio não haveria revolução internacional,
sem livre comércio não haveria sequer a circulação das ideias e se não tem a circulação das ideias a
propaganda socialista não chega a lugar algum.
Portanto, a propagada das ideias liberais foi politicamente inócua, porque o ponto básico do
comunismo não é a economia, é o controle da sociedade. Na sociedade existem elementos que são
mais duráveis, mais estruturais, mais permanentes e tem elementos que são mais transitórios e
voláteis. A economia é o mais volátil. Quem acompanha a bolsa de valores sabe que do dia para noite
um país próspero pode ir para o buraco. Uma empresa grande pode cair. Na economia tudo pode
mudar em 10 minutos. Então como é que se controla uma coisa dessas? A economia é a parte mais
difícil de controlar.
Agora, a educação dá para controlar. O sujeito baixa um decreto, todo mundo tem que seguir e isso
pode durar vinte, trinta ou quarenta anos. Na esfera artística, por exemplo: o sujeito acostuma uma
pessoa um certo tipo de símbolos, de figuras, de situações típicas etc. e aquilo se eterniza, inclusive
a ponto de se tornar uma segunda natureza, ou seja, o senso comum vira uma segunda natureza. E aí
é o negócio do Gramsci: a reforma do senso comum, isto é, “nós vamos fazer todo mundo sentir como
nós queremos que eles sintam, mas sem que eles saibam que isso é comunismo”, ele disse isso, meu
Deus do céu, é o poder onipresente e invisível.
É aí que a coisa tem de ser atacada, não na economia. Mas, tem o velho topos brasileiro: “ah, nós
temos de ter propostas positivas, não podemos ficar só na crítica”. E a esquerda, ao contrário, sempre
soube aquela expressão do Hegel: “o trabalho do negativo”. Toda a escola de Frankfurt é baseada no
trabalho do negativo, ela nunca propôs nada, só crítica, só a coisa ácida, corrosiva, o tempo todo – as
transformações saem daí.
Prestem atenção nisto: não se pode transpor para esfera da luta cultural o que é uma luta pelo domínio
do curso da história. Essa não é uma luta por cargo, não é para eleger um cargo, não. O que os
comunistas querem é dirigir o curso da história – e eles conseguem, com muita frequência, dirigir o
curso de tudo para onde eles querem.
Por exemplo, se vocês lerem o livro do Hans Joachim, a respeito da segunda guerra. Ela inteirinha
foi um plano de Stalin para chegar exatamente onde chegou. Antes da guerra, a União Soviética estava
isolada, não mandava nada, estava na tanga e quando terminou ela dominava metade da Europa e
com dinheiro chovendo de tudo quanto é lugar. Esse era o plano, e deu certo.
Existe também um preconceito de que tudo na histórica acontece espontaneamente por acumulação
fortuita de acontecimentos: são pessoas que nunca estudaram a estrutura do poder. É muito mais fácil
um homem, um sujeito dirigir o curso da história, do que uma massa dirigir o curso da história. As
pessoas não conhecem, não entendem como é esse mecanismo, não entendem como funciona um
plano estratégico de longuíssimo prazo, que leva em conta todas as ações do inimigo e as controla
através do controle do fluxo de informações que chega até ele.
Durante toda a guerra, todo o fluxo de informações que chegava ao presidente Roosevelt era dado
pela KGB, o homem não recebia uma informação que não passasse pelo crivo da KGB antes, o que
quer que ele decidisse era no sentido que eles queriam. Como que eles faziam isso? Era propaganda
comunista? Não. Eles colocavam agentes lá que nunca iriam fazer propaganda comunista, eles não
estavam lá para fazer propaganda comunista, mas para dirigir o fluxo de informações que chegava ao
presidente. Leiam o livro da Diana West, American Betrayal. Vocês ficarão impressionados em saber

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até que ponto o governo soviético controlou, na mais branda das hipóteses, 30% ou 40% da política
exterior americana durante décadas, sem que ninguém soubesse. Até hoje se fala disso e as pessoas
não gostam de ouvir falar disso. Os comunistas não gostam, por quê? Está dando bandeira, está
revelando nossas estratégias. E, os outros não gostam porque é um vexame: “nós fomos feitos de
idiotas” – quem gosta de confessar que foi feito de idiota? Se cria aí um tabu.
Eu sugiro as obras do David Horowitz como um modelo, mas não é só ali. Vejam também o site
Accuracy in Media, do Cliff Kincaid, que também tem muito material. Mas o modelo funcional, o
modelo, por assim dizer, “internético” da coisa, é o Discover the Network – isso é a coisa mais
urgente, isso deveria ter sido feito trinta anos atrás.
Vejam, o pessoal conseguiu o impeachment da Dilma e acha que venceram. Mas como venceram se
eles nem sabem quem é quem? Por exemplo, resolva o seguinte problema: o sr. Raul Jungmann é um
agente do Foro de São Paulo ou não? Nós vemos o pessoal dizendo todo tipo de coisa, o único
brasileiro que diz que não sabe é eu, porque de fato eu não sei, não há pesquisa suficiente sobre isso.
O PPS, que é o partido dele, diz: “há 10 anos nós divergimos do Foro de São Paulo” – divergiram,
mas vocês saíram do Foro de São Paulo oficialmente? Existe alguma colaboração secreta, algum
compromisso mais discreto? Não sabemos.
Aluno: (inaudível). [1:30]
Olavo: Então, o PPS é o antigo partido comunista que diz: “nós não queremos totalitarismo, nós
mudamos de conversa” – mas isso aconteceu também na Itália, o partido comunista italiano também
mudou de nome. Mas vejam, vocês sabem quantas vezes a KGB mudou de nome? Umas 20. Então,
mudar de nome, criar uma nova cara, criar uma nova fachada, isto é a tecnologia mais antiga dos
comunistas, meu Deus do céu.
Aluno: (inaudível).
Olavo: Agora, colocar o José Serra nas Relações Exteriores: quem é o Serra? É um office boy da
ONU, ele nunca fez nada que não fosse mandado pela ONU. Tanto que, enquanto ele destruía o
sistema de saúde nacional, ele era celebrado na ONU como um dos melhores ministros da saúde do
mundo, pois ele fazia o que eles queriam – botar o Serra nas Relações Exteriores é entregar o Brasil
de joelhos para os grupos globalistas. Quais serão os resultados disso? Não sei. Porque as vezes a
ONU sugere alguma coisa boa também. “Tudo que os globalistas fazem é coisa ruim!” – isso é coisa
estúpida.
Por exemplo, os credores são todos globalistas e eles querem receber o dinheiro deles, é errado isso?
Então, eles querem que o Brasil faça o saneamento das suas finanças para poder pagar as dívidas. O
saneamento das finanças é bom para eles, mas é bom para nós também. O pessoal diz: “os
Rockefellers são uns demônios” – mas eles fizeram coisas boas também; fizeram hospitais, escolas,
universidades, eles criaram a cidade de (???), criaram um monte de coisas. Tudo isso é uma coisa
ambígua, temos de chegar, num “somatório final” para vermos se eles estão concorrendo, no fim das
contas, na “somatória geral”, para o bem ou para o mal, mas esse julgamento é difícil. Quando a coisa
é uniformemente má já desde sua raiz, 100% má, como é o marxismo, então, aí a coisa é diferente.
Mas com outras forças...
Por exemplo, vejam esse pessoal islâmico, eles fazem uma crítica do comunismo que é um negócio
maravilhoso, muito bem feito. Aquele tal do (???), pouca gente compreende o comunismo tão
intimamente quanto ele. Só que ele quer tirar o comunismo e botar a sharia: colocar as mulheres de
burca, fuzilar os homossexuais etc. Então, isso não quer dizer que a sua parte analítica seja maligna.
Olha, existe um ditado, islâmico aliás: “Não pergunte quem eu sou, mas recebe o que te dou.” – eu li
isso uns trinta anos atrás e percebi: é genial. Temos de aprender até com Satanás, enquanto ele estiver
dizendo a verdade a gente aceita, a hora que ele mentir a gente não aceita mais – é muito simples.

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Agora, no Brasil, é aquele negócio: o sujeito tem que raciocinar em bloco: “se fulano é ruim, então
tudo que ele diz é ruim” – não se pode dizer isso. Nem a coisa que tem a raiz maligna é 100% maligna,
porque tem aquele negócio (outro ditado): “O diabo diz a verdade nove vezes para poder mentir
melhor na décima.” – isso quer dizer que muita coisa ali se aproveita. O marxismo fez análises
absolutamente espetaculares de uma série de assuntos. Eu vou rejeitar isso só porque é marxista? Não
faz o menor sentido. Quando a gente vê as interpretações que Georg Lukács fez sobre Balzac, sobre
Dostoiévski, sobre Stendhal, são maravilhosas.
Reparem, a gente não deve tomar partido de pessoas ou de partidos. A opção deve ser entre a verdade
e o erro, entre o bem e o mal, considerada de maneira abstrata e genérica e identificá-la, com a suas
respectivas dosagens, em cada situação – isso é o que tem de fazer. Agora, se o sujeito está fora da
busca da verdade, se ele está fora do espírito científico, se o que ele quer é um partidarismo, então
ele tem que jogar tudo em bloco, sempre. Por exemplo, o Reinaldo Azevedo ou como todas essas
pessoas fazem. O negócio deles é: antipetismo e antimilitarismo – pronto, está feito. “Nós somos a
favor da democracia e dos direitos humanos” – eles pensam. Isto é, o sujeito vai pensar em bloco e
cada vez que discordarem dele ele dirá que é um atentado contra os direitos humanos, que é um
atentado contra a democracia brasileira é evidente. Mas é claro, isso é tudo teatro. Nós temos que sair
desse teatro, temos que voltar ao senso de realidade.
Por exemplo, o Reinaldo Azevedo acha que eu era contra o impeachment. Mas espera aí, impeachment
é um meio de ação, portanto os meios de ação têm de ser julgados em função de seus objetivos, não
os objetivos em função dos meios de ação. Agora, por exemplo, impeachment e intervenção militar,
que são ambos meios de ação, se transformaram em partidos doutrinários: “eu sou a favor disso, sou
contra aquilo”. No curso de um processo de transformação não se pode apelar a um instrumento
parlamentar, como é o impeachment, não se pode apelar a uma intervenção militar, não se pode apelar
a uma manifestação popular, não se pode apelar a todos os meios que existam – é isso que todo mundo
faz.
Por exemplo, Lênin era a favor de uma intervenção armada. Isso quer dizer que ele fosse contra uma
intervenção parlamentar? É claro que não, meu Deus do céu. Vai se usando os meios conforme [suas
disponibilidades]. Mas ora, se esse pessoal não sabe nem distinguir entre os meios e os fins,
transformam os meios em valores que têm de ser defendidos ou atacados, então estamos discutindo
com um jumento, não há mais o que dizer. Agora, quando as situações se precipitam, o povo fica
angustiado porque está sem dinheiro, está sendo roubado, então tudo se radicaliza e daí o simplismo
toma conta da mentalidade das pessoas.
Aluno: Não têm sensibilidade dialética.
Olavo: Não têm sensibilidade dialética. Aliás, nem sabem que raio de coisa é a dialética.
Aluno: Gostaria que o senhor falasse da influência que Hegel exerceu na formação do movimento
revolucionário. Além disso, na sua opinião, qual a importância de Hegel hoje para a filosofia?
Olavo: Hegel é o cara que ensinou as pessoas a pensar dialeticamente. E por que a dialética funciona?
A dialética funciona porque ela corresponde a estrutura da cognição humana. Tudo nós conhecemos
por comparação e contraste. Isto é, a verdade direta e linear só Deus tem. O pensamento humano vai
por contrastes e contradições e, por isso mesmo, a esfera da ação humana, da história, da cultura, etc.,
funciona dialeticamente.
Por exemplo, uma corrente política que no curso do seu progresso, do seu crescimento, se transforma
no seu contrário, isso é quase uma regra, meu Deus do céu. Está aí o PT, fundado para destruir o
estamento burocrático, se transforma no próprio estamento burocrático e ainda o fortalece. Para quem
leu Hegel isso aí é fichinha, é claro que ia acontecer isso. Para não acontecer seria preciso que se

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fizesse uma conversão da conversão, a negação da negação, e que continue dialetizando. Todos os
processos humanos são assim.
Por exemplo, eu coloquei uma notinha no Facebook dizendo: “parece que a era de ouro dos assassinos
de reputações está acabando porque quanto mais achincalham o Trump, mais votos ele tem; quanto
mais achincalham o Bolsonaro, mais ele sobe nas pesquisas; quanto mais falam mal de mim, mais
meus livros vendem, mais alunos tem no meu curso.” Então, parece que a coisa inverteu, é o
mecanismo do Pavlov. Ele dizia que o estímulo excessivo, ao invés de despertar o reflexo, o amortece.
Ou seja, também é um procedimento dialético.
Aluno: (inaudível).
Olavo: É. O sujeito tem uma espécie de “cansaço” do reflexo. O quê que é isso? É um mecanismo
dialético que se observe na neurofisiologia.
Hegel é o grande mestre do pensamento dialético. O problema do Hegel era a influência gnóstica.
Também sobre o gnosticismo: “ah, todo gnosticismo é errado” – mas não, os gnósticos descobriram
grandes coisas. Não é possível ser contra uma corrente de pensamento se não se absorve o que ela
tem de positivo, assim não se pode fazer nada. Vamos supor: eu subo no ringue para lutar com um
sujeito, só que eu só vejo defeito nele, eu não vejo habilidade, não vejo talento, não vejo treinamento,
não vejo nada – ele vai me dar um cacete monumental. Subestimar o inimigo é, por assim dizer, uma
falta de dialética.
Aristóteles entendia a dialética só como um método de pesquisa. E, Hegel descobriu que muitas coisas
na realidade da história funcionam dialeticamente, não é só na investigação da verdade. Então, a
dialética de Aristóteles é um método de investigação. Em Hegel ela se transforma, vamos dizer, numa
descrição da própria estrutura da realidade, portanto não é o filósofo que está dialetizando, é a
realidade que sucede dialeticamente e ela tem de suceder dialeticamente porque a mente humana
também é dialética. E é dialética por um motivo muito simples, o Gurdjieff dizia o seguinte: “todos
os problemas humanos se resolveriam se nós fossemos capazes de ficar 5 minutos concentrado no
nosso polegar” – não dá. O sujeito olha, daqui a pouco já está pensando em outra coisa. Então, é a
necessidade do contraste. Por exemplo, luz e sombras: se a quantidade de luz for pouca ou excessiva,
o sujeito não enxerga nada, é preciso ter um “jogo” de luz e sombra.
Aluno: Na primeira aula o senhor explicou que só sob o ponto de vista do excluído total, Jesus Cristo,
seria possível compreender a realidade. Não entendi direito como o cristianismo se aplica para
executar esse processo de análise.
Olavo: Muito bem. O primeiro elemento do cristianismo: você vai desistir dessa vida, porque você
sabe que vai morrer, portanto a consciência da morte tem que te acompanhar em todos os momentos.
Junto com a consciência da morte, vem a abdicação de ilusões e expectativas mundanas, portanto a
aceitação total da realidade tal como ela se apresenta. Então, você não quer mais corrigir o mundo,
você quer entender como o mundo é, você espera que o mundo o fale.
Só isso já te coloca em uma posição, por assim dizer, epistemologicamente vantajosa, porque você
quer a realidade e não, vamos dizer, a vitória do seu sentimentos e desejos. É claro, você tem seus
sentimentos e desejos, mas nossos sentimentos e desejos estão colocados sobretudo na outra vida. O
quê que eu desejo? Eu desejo a paz eterna junto a Jesus Cristo e Nossa Senhora. Posso querer algumas
coisas aqui, mas não quero tanto não, não vou me esforçar tanto por isso – “ah, eu quero um carro
novo”, mas e se eu não tiver um carro novo? Que se dane. Se vier um carro novo, é bom.
O Michel (???) contava a história de um monge que vivia no topo da montanha e um dia veio a
população inteira da cidade indignada trazendo um bebê e dizendo: “o filho é teu, toma” – ele pegou.
Passou três meses eles voltaram lá e disseram: “não, o filho não é seu não, dá aqui de volta” – ele

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entregou, e essa foi toda a reação dele. Mas durante isso ele cuidou do bebê. Lhe deram o bebê e lhe
tiraram o bebê: para ele estava bom de um jeito e estava bom de outro.
Então, isso te coloca numa posição cognitivamente vantajosa.
Veja, Cristo era um excluído total, não havia ninguém a favor dele, todos apóstolos fugiram. É assim,
é exclusão total, a miséria total e a derrota total. Mas por outro lado, ele é o logos, ele é a lógica
interna de toda a realidade, é através dele que tudo foi criado. Então, ele tem a exclusão total e o
domínio total ao mesmo tempo. Eles não aparecem ao mesmo tempo, mas estão lá ao mesmo tempo.
Fazer isso é imitação de Cristo, quanto mais você se retira dos interesses deste mundo, mais esse
mundo lhe aparece como ele é mesmo porque você participa do logos.
Eu acredito piamente, o Espírito Santo pode ter a função de dar inspiração especial para você, de lhe
dar uma revelação, mas ele tem uma função usual e costumeira que é simplesmente sustentar nossa
inteligência. Se retirar o Espírito Santo a inteligência para de funcionar na hora, até mesmo a
consciência de nós mesmos. Nós só temos um eu por delegação de Deus, o único eu que existe mesmo
é o de Deus, Ele é efetivamente o Eu. Nós somos por delegação. Tanto que, por exemplo: nas nossas
ações, todas elas são igualmente personalizadas? Todo mundo é original o tempo todo? Não, tem
muita coisa que é a sociedade que passa para você, a genética que passa para você sem te consultar.
Portanto, tem um lado impessoal, um lado anônimo em você, todo nós o temos. O nosso eu não
domina a totalidade do nosso horizonte, só um pedacinho. Mas Deus é 100% um Eu, não há nada
n’Ele que não seja Ele mesmo. Então, compreender isso, que até o seu eu é uma doação, é reconhecer
a sua total impotência.
O reconhecimento da total impotência lhe dá alguma potência, relativa, limitada, mas muito eficaz.
Eu testei isso na minha vida. Eu consegui despertar todo esse imenso movimento – despertar, não
controlar; eu não lidero movimento, nunca liderei, eu simplesmente coloquei os estímulos no
momento certo e funcionou; fui eu quem fez isso, ninguém mais; quando os outros começaram a
fazer, eles já eram o reflexo do que eu tinha feito.
Vocês veem, o Reinaldo Azevedo vindo botar banca para cima de mim – quando eu contei para ele
da existência do Foro de São Paulo ele estava chegando no congresso do PSDB e, naturalmente, ficou
incrédulo e ainda levou mais alguns anos para entender o que estava acontecendo – [assim como]
todo esse pessoal. Isso com relação ao Foro de São Paulo, porque o resto eles não entenderam até
hoje.
É próprio do sujeito muito inteligente considerar que os outros são também inteligentes, porque,
mesmo que eles não o sejam, o sujeito inteligente os olha pelo lado da inteligência potencial, e ele
fala a essa parte. Para mim, pode chegar o maior jumento da paróquia, eu vou falar para a inteligência
dele, não para a burrice dele. Eu vou vê-lo sempre como uma criatura inteligente, inteligente
atualmente ou potencialmente, é a essa parte que eu falo. Agora, quem é burro acha que todo mundo
é burro, sobretudo quem é mais inteligente do que ele.
Eu quando falo com vocês, eu estou vendo a zona iluminada de suas inteligências, aquilo que vocês
estão enxergando, não o que vocês não estão enxergando. O que vocês não estão enxergando vocês
podem vir que a gente remove.
Então, entendeu o que é o aspecto intelectual cognitivo da imitação de cristo?
Uma vez um cara me perguntou o que eu achava do livro do Tomás Kempis, Imitação de Cristo, eu
disse: “olha, esse livro me sustentou de pé na pior parte da minha existência”. Era a fase onde eu
estava metido na esquerda, meus amigos estavam todos indo para cadeia, eu sem emprego e com um
bando de filhos para sustentar, eu tive que me recolher de volta na casa da minha mãe – maior
humilhação para um homem casado – e naquela época eu lia esse livro o tempo todo e aprendi que se
as coisas estão ruins, então aceita. Porque essa vida aqui é passageira. Da carne nada se aproveita, vai

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morrer tudo mesmo. Espera um pouco, que daí depois as coisas ou melhoram – ou não melhoram,
mas não depende da pessoa.
Então, a conformidade com o real é uma coisa preciosa, é nela que a pessoa coincide com o logos,
ela coincide com a razão universal – por breves momentos e de maneira parcial, mas coincide. A
imitação de Cristo não tem só o lado moral, ela tem o lado cognitivo também, muito mais profundo
do que o moral.
Quando Ele diz: “abdicar dos bens desse mundo” – bom, eu posso abdicar deles, mas vou ter que
continuar lutando por eles porque em volta tem pessoas que continuam precisando. Como é que eu
vou explicar para o bebê para ele abdicar da mamadeira? Não posso fazer isso, né. O cachorro:
“abdique do seu osso” – não posso fazer isso. Então, o lado moral dessa operação é relativo, mas o
lado cognitivo é absoluto.
Eu acho que nós vamos ter que parar por aqui. Está chegando o Pedro, ele está trazendo os meus
cachorros e isso aqui vai virar uma bagunça.
Olha, eu agradeço muito toda a atenção que vocês me deram durante esse curso. Financeiramente,
esse curso ajudou a me livrar de uma situação grave que, felizmente, já está 80% vencida.
Agradeço a todos que ajudaram a promover esse curso, agradeço a todos que vieram, aos que não
puderam vir, mas que mais tarde comprarão o curso na gravação, agradeço também ao que
atrapalharam porque a propaganda negativa é propaganda, no fim das contas, então, obrigado
Reinaldo Azevedo, obrigado Villa, obrigado Kim, obrigado todo mundo.
Deus abençoe a todos e até a próxima se Deus quiser. [1:49:51]

Transcrição: Fabio Mendes e Jaime Cosmo


Revisão: Leonardo Yukio Afuso e Rahul Gusmão

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