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Direito Agrário

Profa. Flávia

03/03/15

Histórico do direito agrário moderno

O conceito do direito agrário moderno é o direito da empresa agrária, mas já foi o


direito da terra, o direito da reforma agrária, entre outros.

Para que o direito agrário fosse considerado uma disciplina autônoma era preciso
resolver a questão dos princípios, já que se trata de um ramo do direito que caminha
muito entre o público e o privado. A autonomia legislativa também era um problema: era
preciso haver um código específico para o direito agrário. Entretanto, atualmente essas
questões não nos importunam mais.

No Brasil, o desenvolvimento, não apenas acadêmico, mas também econômico e


social acaba dando novo ar ao direito agrário, em cuja área as pesquisas podem variar
muito a depender do recorte conferido pelo(a) pesquisador(a). Trata-se de uma história
ainda em construção.

Há dois tipos de autonomia no direito: autonomia absoluta e relativa. Nenhum ramo


tem autonomia absoluta.

A especialidade envolve ter um objeto de estudo diferenciado. Aqui na faculdade, o


direito agrário é encarado como uma especialização do direito civil.

Para que um ramo do direito hoje se desenvolva não é mais necessário apresentar
um código próprio, bastando haver leis relativas ao objeto do ramo. Também não há mais
a necessidade de haver princípios próprios.

AGRARIEDADE X RURALIDADE

Agrário envolve agir na terra; o rural envolve a questão espacial. A atividade é a


protagonista no espaço rural; portanto, a situação brasileira ainda pede que se considere
a atividade desenvolvida na espaço rural. Este envolve mais a questão de gestão do
território, abarcando outras atividades que não somente as agrárias.

Quanto à relação com outros ramos do direito, entende-se que o direito agrário é
multidisciplinar, podendo se relacionar com as mais variadas disciplinas, como economia,
civil, direitos humanos, etc.

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Atualmente, há novas vertentes, como direito agroambiental. Esperava-se que o
novo código florestal seria a ligação entre o direito agrário e o direito ambiental, mas isso
não ocorreu. Outra vertente é o direito agroalimentar, que envolve questões ligadas à
sanidade, ao direito do consumidor e ao direito à informação.

17/03/15

Empresa agrária e atividade agrária

O objeto de estudo do direito agrário, em um primeiro momento, tem relação com o


conceito de empresa disposto no Código Civil.

O imóvel rural tem que cumprir com sua função social. Divisão entre os
constitucionalistas: a função social se dá somente por meio da produtividade (a partir de
parâmetros do governo) ou sempre que são cumpridos os requisitos (produtividade,
preservação ambiental e relações de trabalho justas)?

No Brasil, na prática, não se desapropria apenas por questões ambientais.

Como se deve entender a atividade agrária se ela não pode ser entendida como
atividade conservacionista?

A ideia do Brasil desenvolvimentista era de que só se cumpria a função social se


houvesse produção. Atualmente, entretanto, é preciso avaliar se esse é ainda um anseio
da sociedade. É preciso fazer uma releitura do conceito de atividade agrária. Questão de
gestão do patrimonial ambiental rural que passa a ter um olhar público, compondo os
anseios de uma nova sociedade.

O conceito de empresa veio nesse tom “neutro” trazido pelo Código italiano.
Organização de bens e serviços, de forma profissional, voltados para o mercado. Em
nenhum momento se tratou do tamanho da organização; fora do conceito de mercado,
está a agricultura de subsistência.

O empresário agrário, seja ele pequeno ou grande, tem os requisitos de empresa.


O diferencial é a atividade agrária.

Art. 971. O empresário, cuja atividade rural constitua sua principal profissão,
pode, observadas as formalidades de que tratam o art. 968 e seus parágrafos, requerer
inscrição no Registro Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, caso em que,
depois de inscrito, ficará equiparado, para todos os efeitos, ao empresário sujeito a
registro.

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empresário agrário = organização + voltada para o mercado + atividade
principal agrária

Registro facultativo (há grandes empresários, que se beneficiam do registro, mas


há também pequenos agricultores, para os quais o registro pode não ser vantajoso).

Atividade agrária: desenvolvimento de qualquer ciclo biológico, seja animal ou


vegetal, voltado ao mercado. O desenvolvimento de qualquer ciclo biológico traz riscos
adicionais a uma atividade comercial normal (o produto agrícola está sujeito a pragas sem
controle, por exemplo).

Não há a necessidade de se envolver com a transformação biológica completa; no


Brasil, um contrato pode envolver apenas parcialmente um ciclo biológico (ex.: engorda
de gado). Fim produtivista. Pode haver a incorporação de objetivos conservacionistas,
mas é preciso repensar o conceito de empresário. O conceito atual, em sua essência
italiana, já poderia ter uma abertura a atividades conexas, sem que perdesse o status de
empresário quem exercesse, juntamente com a atividade agrária, uma atividade
conservacionista, por exemplo. Conceito de atividade multifuncional.

Atualmente, atividade agrária é aquela que desenvolve, mantém ou conserva


ciclos biológicos ou parte desses ciclos. Se houver uma atividade extrativa, por exemplo,
trata-se de atividade agrária. Apesar de o extrativista não desenvolver atividade, ele
mantém ciclos biológicos.

A depender do contexto, a atividade extrativista pode seguir a concepção clássica


de atividade agrária ou a concepção atualizada. O grande problema é a valorização disso
no mercado.

Com uma atividade conservacionista, hoje, já é possível preencher os conceitos de


atividade agrária e de função social da propriedade. É preciso repensar os conceitos.

24/03/15

cont. atividade agrária

Modelo favorável à diversificação

O elemento mais importante da empresa é o perfil dinâmico, a atividade.

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Desde 1965, o código brasileiro era basicamente uma tradução do código italiano
no tocante à atividade agrária. Hoje, o nosso código, com todas as modificações que
sofreu, traz a denominação atividade agrária.

O modelo italiano, em 42, apresentava as três atividades principais, mas também


certas atividades conexas: aquelas que estão ligadas à atividade agrária mas que não são
propriamente atividade agrária. Já era um modelo favorável à diversificação da atividade
no campo; a atividade no meio rural já não poderia ser sinônimo de atividade agrária. O
termo rural traz uma noção espacial: trata-se de um espaço no qual pode ser
desenvolvida a atividade agrária e outros tipos de atividades.

Essas atividades conexas favorecem a diversificação das atividades no campo.

Não desnatura a atividade do empresário agrário o fato de ele exercer também


atividade comercial, mas é preciso impor limites.

Para uma atividade comercial não descaracterizar a empresa agrária, é necessário


apresentar conexões de tipo objetivo e subjetivo. As conexões do tipo objetivo envolvem
uma estrutura orgânica funcional conectada (exemplo típico: produção de tomate e
comercialização do molho); as conexões subjetivas envolvem o fato de o mesmo
proprietário que exerce a atividade principal ser o agente da atividade conexa.

No entanto, entendeu-se que não bastariam as conexões objetivas e subjetivas;


era preciso estabelecer um padrão de normalidade. Acrescentou-se também um limite
financeiro: não pode a atividade conexa dar renda superior a 50% do faturamento do
empresário. Se isso ocorrer, há prevalência da atividade comercial.

Há atividades conexas típicas e atividade conexas atípicas (como o turismo rural).


Estas não têm ligação com a prorrogação do ciclo.

Atividades multifuncionais

A política agrícola comunitária passou por alguns ciclos desde a década de 50


(primeiro na União Europeia e depois no Brasil). Em um primeiro momento, houve a
expansão do produtivismo; posteriormente, surge a necessidade de controlar a produção
excedente. Na década de 80, começam as negociações na OMC: os produtos agrícolas
entram em pauta; entendeu-se que deveriam ser reduzidos os subsídios para a
agricultura.

A partir do último regulamento, de 2013, retorna a modulação de ajudas.

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O conceito de atividade agrária também foi sendo alargado com o passar dos anos
na União Europeia. Não somente pelas questões de subsídio, mas também por questões
de preservação ambiental. Isso se inicia na década de 90, quando os subsídios precisam
ser repensados e há grande preocupação com questões ambientais.

Os regulamentos de 2003 e 2013 apresentam o conceito de atividade agrária não


apenas como produção, mas também manutenção e valorização de ciclos biológicos.
Possibilidade de ajudar produtores que tenham atividades de valorização e conservação
de ciclos biológicos; não mais é necessária a produção. Surgem dois tipos de empresas
agrárias: as primárias, que desenvolvem os ciclos biológicos, e as multifuncionais. Estas
não precisam estar atreladas a uma atividade principal, sendo suficientes a conservação
e/ou a valorização do ciclo biológico.

Entretanto, surge também um dilema: esse alargamento do conceito de atividade


agrária criou um inchaço no orçamento da política agrícola, que tendia a enxugar seus
gastos.

Nosso código, ao utilizar o termo atividade rural, dá ensejo tanto a atividades


primárias quanto a atividades multifuncionais; todavia, é preciso haver um limite.

Empresário agrário

O conceito de empresa agrária deriva do conceito de empresário. Trata-se daquele


que desenvolve atividade profissional com vistas ao mercado (art. 966 CC).
Art. 966. Considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade
econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de serviços.
É preciso combinar o requisito da habitualidade com a atividade agrária a título
principal.

É possível haver empresário agrário a título coletivo. Nesse caso, é dada ao


empresário a faculdade de escolher entre assumir um tipo societário ou escolher a forma
simples. A forma simples pura para empresário coletivo agrário traz alguns benefícios,
como menor carga tributária, desnecessidade de regularização, escrituração contábil,
contrato social mais simplificado, etc.

No Brasil, houve extensão do conceito de atividade principal ao empresário agrário;


na União Europeia não se tem essa restrição, o que faz com que muito dinheiro se perca
a título de política agrícola.

Estabelecimento

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Perfil objetivo ou patrimonial de estabelecimento: atualmente, o estabelecimento é
entendido como uma universalidade de bens. A unidade é dada pela atividade
empregada. Discussão antiga: quais bens compõem essa universalidade? Bens materiais
e imateriais. Não há mais a prevalência do fundo rústico; há outros bens que não somente
a terra. O fundo rústico (a terra em seu estado natural) pode integrar o estabelecimento,
mas não necessariamente; não se utiliza mais como sinônimo de estabelecimento agrário
o fundo rústico, que atualmente é prescindível. Atualmente, é apenas necessário que haja
uma estrutura que permita o desenvolvimento de um ciclo biológico (essa estrutura não é
necessariamente a terra).

Fundo instructo x estabelecimento agrário

No fundo instructo, tem-se o bem principal e os bens acessórios, que permitem o


aparelhamento do principal: há uma relação de subordinação dos bens acessórios ao
principal. No estabelecimento, a relação não é de subordinação, mas de coordenação.

Aumenta cada vez mais a presença de bens imateriais na empresa agrária,


principalmente o uso de marcas. A marca de certificações é a grande novidade na
restrição do livre comércio.

07/04/05

Elementos imateriais do estabelecimento

Quando se falava em direito agrário, naturalmente se falava também em


propriedade. Não entrava em discussão a questão funcional.

Hoje, quando se fala em estabelecimento agrário, vai-se além da propriedade, da


terra. A terra pode ser um dos elementos, mas não necessariamente; é possível haver
empresa agrária sem fundo rústico, o que não desfigura a figura da empresa e do
empresário agrário.

Quando se tem estabelecimento, não há subordinação, mas coordenação; os bens


estão organizados de maneira a dar maior facilidade ao desenvolvimento da atividade
proposta.

Marca

A marca cumpre a função de diferenciar produtos do mesmo gênero no mercado.

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No caso de marcas coletivas, o titular são entes coletivos (associações,
cooperativas). É mais vantajosa para os pequenos empresários. Entretanto, a função de
qualidade na marca coletiva é secundária.

A marca de certificação, por sua vez, tem como função primordial a qualidade, a
certificação de qualidade tanto do produto como da produção. O titular não é quem
produz; existem empresas certificadoras, que podem ser públicas ou privadas e que
estabelecem padrões de qualidade. A empresa certificadora não pode certificar seus
próprios produtos. Por exemplo, uma das políticas brasileiras no setor energético é a
criação de um novo combustível, o biodiesel, proveniente de oleaginosas. O fomento para
tanto foi incentivar o patrocínio do biodiesel pela agricultura familiar. A ideia é que a
empresa produtora de biodiesel deveria comprar uma parte de seus produtos de
empresas familiares, certificadas por selo social, que é um tipo de marca de certificação.

No passado, marcas de certificação só eram pensadas para entes privados, para


agregar valor ao produto. Atualmente, trata-se também de um instrumento de política
pública, utilizado, no Brasil, para desenvolver a agricultura familiar. O problema é que não
existe, no país, um órgão fiscalizador.

Há uma presença muito forte da marca de certificação no mercado agrícola. Ela


pode ser utilizada de maneira cumulativa com a marca coletiva e, assim, reforça a
qualidade do produto e tem seu preço diluído entre vários membros da associação ou da
cooperativa.

Indicação geográfica (Lei 9.279/96)

A indicação de procedência e a denominação de origem são espécies do gênero


“indicação geográfica” e são, por excelência, um dos elementos imateriais do
estabelecimento, uma vez que envolvem ligação estrita com o território. Quando há
indicação geográfica, valoriza-se não somente o produto, mas também o meio ambiente,
a história do produto, o modo de fazer.

Tanto a indicação de procedência quanto a denominação de origem a produção


está ligada a determinada zona geográfica. A indicação geográfica pode ser direta ou
indireta (por meio de sinais ou símbolos que suscitam na mente do consumidor ligação
com certa zona geográfica).

O nome geográfico normalmente vem acompanhado do nome do produto. A


titularidade é coletiva.

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- indicação de procedência

Art. 177. Considera-se indicação de procedência o nome geográfico de país,


cidade, região ou localidade de seu território, que se tenha tornado conhecido como
centro de extração, produção ou fabricação de determinado produto ou de prestação de
determinado serviço.
A indicação de procedência pode ser utilizada para qualquer produto ou serviço,
desde que haja relação com o território, sendo que o produto não precisa apresentar
determinada característica ou qualidade. Trata-se de uma função informativa, que
independe de reconhecimento prévio. A tutela conferida é chamada de negativa.

- denominação de origem

Art. 178. Considera-se denominação de origem o nome geográfico de país,


cidade, região ou localidade de seu território, que designe produto ou serviço cujas
qualidades ou características se devam exclusiva ou essencialmente ao meio
geográfico, incluídos fatores naturais e humanos.
A denominação de origem, por sua vez, envolve o lugar de produção e também
aspectos qualitativos, além de depender de reconhecimento prévio. A tutela, nesse caso,
é positiva. Na denominação de origem, as condições naturais imprescindíveis à produção
do produto são praticamente impossível de serem reproduzidas.

Há controvérsia acerca da possibilidade de se usar a denominação de origem para


serviços: apesar de a lei prever, a doutrina majoritária entende que a denominação de
origens designa apenas produtos.

Os requisitos da denominação de origem são um processo de elaboração e


produção desenvolvido na região fixada na denominação e qualidades do produto devido
ao meio geográfico (elemento natural e/ou humano). Os titulares são todas as empresas
agrárias situadas na zona geográfica determinada; trata-se de um elemento imaterial que
acompanha o estabelecimento. Diferentemente da marca, não pode ser vendida (a menos
que para empresas produtoras situadas na mesma zona geográfica). “Mãos unidas" =
pertence a todos (da região).

14/04/15

Resolução de caso prático