Você está na página 1de 130

PLANO DIRETOR INTEGRADO

DA UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

Versão 1.2
EQUIPE

DIRETORIA EXECUTIVA DE PLANEJAMENTO INTEGRADO


ELABORAÇÃO
Aline Eid Galante
Edilene Teresinha Donadon
Flávia Brito Garboggini
Gabriela Romero
Thalita dos Santos Dalbelo
ESTAGIÁRIOS
Mariana Valentin
Marina Nakahara
Andrei Marcondes
Natália Marangoni
Alef Costa
Pedro Cunha
COORDENAÇÃO
Thalita dos Santos Dalbelo

GRUPO DE COLABORAÇÃO TÉCNICA


Centro de Computação
Centro para Manutenção de Equipamentos
Coordenadoria de Projetos da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo
Coordenadoria de Projetos e Obras
Diretoria de Serviços de Transporte
Diretoria Executiva de Planejamento Integrado
Divisão de Manutenção
Divisão de Meio Ambiente
Divisão de Sistemas
Prefeitura do Campus
Programa de Ações Imediatas - DEPI

II
Programa de Georreferenciamento e Acervo - DEPI
Pró-reitoria de Extensão e Cultura
Secretaria de Administração Regional
Secretaria de Vivência nos Campi

GRUPO DE COLABORAÇÃO CONCEITUAL


Profa. Dra. Maria Gabriela Caffarena Celani
Profa. Dra. Emília Wanda Rutkowski
Profa. Dra. Silvia Aparecida Mikami Gonçalves Pina
Prof. Dr. Evandro Ziggiatti Monteiro
Prof. Dr. Sidney Piochi Bernardini

CÂMARAS TÉCNICAS DE GESTÃO


CTG Ambiente Urbano
CTG Campus Inteligente
CT Educação Ambiental
CTG Energia
CTG Fauna e Flora
CTG Recursos Hídricos
CTG Resíduos

III
SUMÁRIO

1. APRESENTAÇÃO............................................................................................................................. 1

1.1. PLANO DIRETOR INTEGRADO .............................................................................................................. 2


1.2. METODOLOGIA PLANO DIRETOR INTEGRADO DA UNICAMP ...................................................................... 4
1.3. ANÁLISE DO RELATÓRIO DAS OFICINAS DE CARTOGRAFIA SOCIAL ................................................................ 8
1.4. MAPEAMENTO DA ACESSIBILIDADE SOCIOAMBIENTAL .............................................................................. 9

2. PRINCÍPIOS NORTEADORES ......................................................................................................... 11

2.1. OBJETIVOS ESTRATÉGICOS DO PLANES ................................................................................................ 12


2.2. SUSTENTABILIDADE URBANA............................................................................................................. 14
2.3. UNIVERSIDADE SUSTENTÁVEL ........................................................................................................... 21
2.4. LABORATÓRIO VIVO ........................................................................................................................ 23

3. PANORAMA DA UNIVERSIDADE .................................................................................................. 24

3.1. USOS E PATRIMÔNIO CONSTRUÍDO .................................................................................................... 25


3.1.1. Histórico de planejamento territorial na Unicamp ........................................................... 25
3.1.2. Uso e ocupação ................................................................................................................ 33
3.1.3. Patrimônio construído ...................................................................................................... 45
3.1.4. Patrimônio cultural........................................................................................................... 47
3.2. INFRAESTRUTURA URBANA ............................................................................................................... 54
3.2.1. Saneamento ..................................................................................................................... 54
3.2.2. Energia Elétrica ................................................................................................................ 57
3.2.3. Tecnologia da Informação e comunicações ..................................................................... 57
3.2.4. Resíduos ........................................................................................................................... 58
3.3. MEIO AMBIENTE ............................................................................................................................ 61
3.3.1. Sub-bacias da Unicamp – campus Zeferino Vaz ............................................................... 61
3.3.2. Áreas de preservação permanente e protegidas .............................................................. 64
3.3.3. Áreas verdes destinadas a experimentação ..................................................................... 65
3.3.4. Áreas verdes destinadas ao uso comum .......................................................................... 65
3.4. MOBILIDADE URBANA E ACESSIBILIDADE ............................................................................................ 67
3.4.1. Meios de Transporte ........................................................................................................ 73
3.4.2. Ciclovias e Ciclofaixas ....................................................................................................... 79
3.4.1. Calçadas, caminhos e travessias ...................................................................................... 82
3.4.2. Estacionamentos .............................................................................................................. 86
3.4.3. Acessibilidade especifica à pessoa com deficiência .......................................................... 88
3.5. VIVÊNCIA E FRICÇÃO SOCIAL ............................................................................................................. 90
3.5.1. Vivência e fricção social na atualidade ............................................................................ 92
3.5.2. Igualdade de gênero......................................................................................................... 98
3.5.3. O impacto das redes digitais na estrutura física dos campi universitários ...................... 99
3.6. UNIVERSIDADE E SOCIEDADE .......................................................................................................... 102
3.6.1. O localismo e o universalismo da universidade .............................................................. 102
3.6.2. O destino dos espaços universitários contemporâneos.................................................. 104
3.6.3. Integração campus e cidade........................................................................................... 105
3.6.4. A Unicamp como fator de crescimento regional ............................................................ 110
3.6.5. Extensão universitária e diversidade de usuários ........................................................... 111

IV
4. CENÁRIO FUTURO E DIRETRIZES ................................................................................................ 113

4.1. QUALIFICAÇÃO DO USO E OCUPAÇÃO ............................................................................................... 113


4.1.1. Centralidades acadêmicas ............................................................................................................. 117
4.1.2. Centralidades tecnológicas ........................................................................................................... 117
4.1.3. Parque Tecnológico da Unicamp ................................................................................................... 117
4.1.4. Saúde ............................................................................................................................................ 117
4.1.5. Praças pavimentadas .................................................................................................................... 117
4.1.6. Praças verdes e bosques ............................................................................................................... 118
4.1.7. Preservação ambiental .................................................................................................................. 118
4.1.8. Áreas alagáveis .............................................................................................................................. 118
4.2. EFICIÊNCIA NA UTILIZAÇÃO DA INFRAESTRUTURA URBANA .................................................................... 119
4.3. RESPONSABILIDADE AMBIENTAL...................................................................................................... 119
4.4. PROMOÇÃO DA MOBILIDADE E DA ACESSIBILIDADE INCLUSIVAS .............................................................. 120
4.5. INCENTIVO À FRICÇÃO SOCIAL ........................................................................................................ 120
4.6. INTEGRAÇÃO UNIVERSIDADE E SOCIEDADE ......................................................................................... 121

5. PROJETOS E SUBPROJETOS ........................................................................................................ 121

6. CÓDIGO PARA PROJETOS DE EMPREENDIMENTOS .................................................................... 123

7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................................................. 124

V
1. Apresentação

O planejamento urbano reconhece a dinâmica e a complexidade do território e tem


como objetivo responder aos problemas e estabelecer mecanismos de controle sobre o
desenvolvimento de determinada área. É entendido como uma técnica do Urbanismo.
Apesar de as preocupações com o ordenamento dos espaços urbanos terem surgido
nas cidades, especificamente nas cidades industriais, quando se entende os campi
universitários como extensões das suas cidades e detentores do caráter institucional de
uso e ocupação do solo, a elaboração de um planejamento urbano específico faz-se
necessária.
A universidade, como agente social, é capaz de adotar o cenário sustentável de
modelo de desenvolvimento. Nesse sentido, o Plano Diretor Integrado da Unicamp (PD-
Integrado), como instrumento de gestão que estabelece princípios, diretrizes e normas de
desenvolvimento territorial, indica diretrizes voltadas à sustentabilidade, considerando as
vocações das áreas já urbanizadas e definindo as vocações das novas áreas da universidade.
A versão 1.2 do PD-Integrado teve o objetivo de desenvolver a metodologia
apresentada à Comissão de Planejamento Estratégico Institucional da Unicamp (COPEI), em
abril de 2018, que inclui o processo integrado, gradual e contínuo de planejamento, com
colaboração da comunidade local e que está embasado em princípios de desenvolvimento
sustentável. Nesta versão, o PD Integrado apresenta, principalmente, o panorama atual do
campus Zeferino Vaz, com indicativos e leitura preliminar do território dos campi de Limeira
I e II, Piracicaba, da Moradia Estudantil, do Cotuca (Colégio Técnico de Campinas) e do
CPQBA (Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas, Biológicas e Agrícolas). O
aprofundamento no panorama desses campi será concluído na próxima versão. Além disso,
esta versão também apresenta as vocações do campus Zeferino Vaz e os parâmetros de
qualidade urbana para os setores, a fim de direcionar as ocupações futuras.

1
1.1. Plano Diretor Integrado

O Plano Diretor Integrado tem a missão de integrar a gestão da Unicamp como


universidade sustentável ao planejamento do seu uso e ocupação. Essa integração
considera os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e envolve a participação de todos
os atores sociais da Unicamp e seu entorno. Para isso, está em colaboração direta com o
Gestor Universidade Sustentável no sentido do atendimento às legislações ambientais
vigentes; da redução do impacto ambiental das instalações da universidade; da melhoria
da vivência universitária e das relações externas, com órgãos públicos e privados; da
valorização da experiência dos estudantes e pesquisadores no campo da sustentabilidade
e da melhoraria do papel social da Unicamp.
Para isso, estabelece os seguintes objetivos específicos:
- Elaborar e atualizar o panorama dos campi nas dimensões de Uso Urbano e
Patrimônio, Infraestrutura Urbana, Meio Ambiente, Mobilidade e Acessibilidade, Vivência
e Fricção Social e Universidade e Sociedade.
- Estabelecer diretrizes para alcançar os cenários futuros desejados pela comunidade
universitária e pelas demandas da sociedade e mantê-las atualizadas.
- Desenvolver e atualizar o masterplan que contemple os cenários desejados e as
soluções para os setores de vocações dos campi universitários e seus parâmetros de
qualidade de ocupação;
- Institucionalizar o Plano Diretor Integrado em toda universidade.
- Desenvolver projetos urbanos voltados para as diretrizes do PD Integrado.
- Atualizar o Plano Diretor Integrado periodicamente.
- Implantar os princípios do International Sustainable Campus Network (ISCN) ao
planejamento dos campi e representar a universidade nas atividades dessa rede;
- Estabelecer relações com os institutos e faculdades da Unicamp para parcerias em
laboratórios vivos nos campi.
- Elaborar e atualizar o Código para Projetos de Empreendimentos nos campi.

2
O produto do desenvolvimento do PD-Integrado estará em constante atualização e
será publicado quadrienalmente, de forma a estabelecer os princípios, diretrizes e normas
de planejamento urbano sustentável para a Unicamp. O plano tem a sustentabilidade
urbana como conceito norteador e é desenvolvido a partir de áreas de planejamento
urbano que fazem a relação com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável: Uso e
Patrimônio, Meio Ambiente, Infraestrutura Urbana, Mobilidade e Acessibilidade, Vivência
e Fricção Social e Universidade e Sociedade.
O documento resultante desse trabalho foi apresentado e aprovado pela COPEI, na
versão 1.2, em dezembro de 2018. A equipe responsável pelo O Plano Diretor Integrado
ainda fará oficinas de colaboração da comunidade acadêmica – professores, alunos e
funcionários representantes das faculdades e institutos – e integrará de forma mais
completa os demais campi da Unicamp. Além disso, ainda haverá o processo de desenho
do masterplan que contempla o cenário futuro desejado e todas as integrações necessárias
com as prefeituras municipais dos respectivos campi.

3
1.2. Metodologia Plano Diretor Integrado da Unicamp

A metodologia de desenvolvimento do Plano Diretor Integrado baseia-se na


colaboração da comunidade universitária através de oficinas para construção do panorama
atual de cada uma das áreas de planejamento considerando as potencialidades e
fragilidades e os levantamentos técnicos existentes; dos cenários futuros desejados; das
diretrizes e ações para alcançá-los e de indicadores, responsáveis pelo monitoramento
desses cenários. Essa colaboração é feita através de grupos:
- Grupo de Colaboração Técnico: formado pelos órgãos responsáveis por
planejamento, projeto, execução e manutenção civil da Unicamp – CPO, CProj,
Setores de Projetos da Área da Saúde, DSIS, DM, DMA, CCUEC, Prefeitura do
Campus, SAR, PROEC e Secretaria de Vivência – que tem como objetivo integrar o
planejamento urbano do campus e colaborar no levantamento do panorama, do
cenário futuro da universidade e das diretrizes para alcançá-lo.
- Grupo de Colaboração Conceitual: formado pelos professores da FEC-
FAU/Unicamp, que tem como objetivo colaborar na integração de conceitos de
planejamento urbano sustentável no Plano Diretor Integrado.
- Grupo de Colaboração Associado: formado pelas Câmaras Técnicas de Gestão de
Ambiente Urbano, Fauna e Flora, Qualidade do Ar, Resíduos, Recursos Hídricos,
Energia, Educação Ambiental e Campus Inteligente, que tem como objetivo
colaborar na elaboração do panorama, do cenário futuro para a Unicamp e das
diretrizes para alcança-lo; integrar o planejamento urbano dos campi; assessorar em
questões técnicas para solução de problemas urbanos visando à sustentabilidade
para atender às demandas de projetos urbanos e de levantamentos e diagnósticos
do Plano Diretor Integrado. Cada CTG está vinculada a área de planejamento
correspondente no PD-Integrado, conforme Figura 1.
- Grupo de Colaboração Comunidade Local: formado pelos estudantes, professores,
funcionários e usuários diários dos campi universitários.

4
Figura 1 – Estruturação do Plano Diretor Integrado e Grupo de Colaboração Associado

As informações das oficinas são organizadas através de quadros e seguindo o fluxo


de desenvolvimento de cenário desejado representado na Figura 2. A definição do cenário
que se deseja para o futuro da universidade leva ao desenho do masterplan, com a
delimitação de setores de vocações dos campi universitários e seus parâmetros de
qualidade de ocupação, envolvendo a requalificação das áreas ocupadas e a expansão da
Unicamp no Hub Internacional de Desenvolvimento Sustentável (Fazenda Argentina).
Como continuação ao Fluxo de desenvolvimento de um cenário desejado, foi
estabelecido que cada Área de Planejamento do Plano Diretor Integrado será constituída
por Projetos, com seus respectivos Subprojetos, que definirão o conjunto de ações e
instruções a serem seguidas atendendo à diretrizes estabelecidas, sempre alinhadas com
os demais órgãos técnicos da Unicamp. Os subprojetos de cada Área de Planejamento são
divididos em: soluções de curto prazo, os que possuem baixo grau de complexidade e
exigem pequeno investimento; de médio prazo, que possuem complexidade ou
investimento baixo e os de longo prazo, em que tanto complexidade como investimento
são grandes. A Figura 2 representa o dinamismo dessa sequência.

5
Figura 2 – Fluxo de desenvolvimento de um cenário desejado

Alguns desses subprojetos que já existem, estão sendo desenvolvidos por órgãos
técnicos da Unicamp e estão sendo integrados ao Plano Diretor Integrado através de suas
diretrizes. Outros projetos de planejamento e infraestrutura urbana surgirão como
demandas do próprio plano e serão desenvolvidos através de uma rede de colaboração
com institutos e faculdades, formando laboratórios vivos, em que graduandos e pós-
graduandos, orientados por professores e embasados nas diretrizes do Plano Diretor
Integrado de acordo com as áreas de planejamento. Todos esses projetos passarão pelo
processo da cadeia de decisão, com a análise multicritério do Programa de Ações Imediatas
da DEPI.
A validação do Plano Diretor Integrado será feita através de oficinas junto à
comunidade local, bem como apresentação junto à COPEI e ao CONSU. Após a primeira
validação, o programa deve estar em constante atualização para que seja publicado a cada
4 anos. Os projetos decorrentes do Plano Diretor Integrado terão fluxo contínuo.
Para isso, o quadro seguinte indica as ações que devem ocorrer durante o ano de
2019, a fim de concretizar a validação do PD-Integrado.

6
A validação do Plano Diretor Integrado será feita através de oficinas junto à
comunidade local, bem como apresentação junto à COPEI e ao CONSU. Após a primeira
validação, o programa deve estar em constante atualização para que seja publicado a cada
quatro anos. Os projetos decorrentes do Plano Diretor Integrado terão fluxo contínuo.

7
1.3. Análise do relatório das oficinas de cartografia social

Para a integração da percepção urbana dos usuários dos campi ao PD-Integrado,


foram consideradas as Oficinas de Cartografia Social realizadas pela CTG Ambiente Urbano.
Essas oficinas foram feitas para conhecer a percepção ambiental da comunidade
universitária sobre sustentabilidade, com o intuito de realizar um diagnóstico participativo.
O mapeamento dos padrões de uso e apropriação dos espaços foi realizado através da
legenda do Green Map System®, um sistema padronizado de ícones destinados a identificar
a sustentabilidade no território.
Assim como as oficinas de colaboração do Grupo de Colaboração Técnica, as oficinas
de cartografia social possuem dois momentos: um que representa o cenário atual do local,
com as percepções e a identificação de aspectos de sustentabilidade e outro, com a
proposta de um cenário futuro para o local. Os mapas resultantes das oficinas foram
disponibilizados para a integração ao PD-Integrado, que os analisou através da associação
entre a legenda Green Map System® e as áreas de planejamento, tendo como viés a
percepção da comunidade frente ao ambiente urbano.

8
1.4. Mapeamento da acessibilidade socioambiental

Para investigar os espaços de transição entre o domínio público (os espaços de uso
coletivo) e o domínio privado (os espaços das Unidades) do ambiente do campus foi
adotado como método de análise o Ecological Model of the Urban Environment proposto
por Stanford Anderson (1990), ajustando-o às especificidades de um campus universitário.
Este método permite fazer uma leitura com razoável grau de sensibilidade das
gradações inerentes aos dois domínios (o público e o privado) em sistemas urbanos
complexos, a partir da classificação e mapeamento das várias forças sociais que ocorrem
dentro do ambiente físico, de forma a identificar a correlação entre o uso e a forma da
cidade (ou de um fragmento dela). Os espaços da cidade (ou de partes dela) que são
publicamente acessíveis compõem um subsistema operacional que permite detectar o
nível de acessibilidade e os padrões de atividade de um determinado setor urbano. Esse
subsistema é desenhado para incluir todos os espaços que são, direta ou sequencialmente,
acessíveis a partir do domínio público, incluindo os espaços que são apenas visualmente
acessíveis.

“O espaço de domínio público não está delimitado apenas por prédios,


desde que, em geral se estendem para dentro deles; nem pela relação
de propriedade, uma vez que espaços publicamente acessíveis e os de
propriedade pública podem conviver ou ser contíguos; nem pelos
limites de acesso físico, uma vez que espaços visualmente acessíveis
podem ser importantes elementos na forma, atividade e significação da
rua” (ANDERSON, 1990, p. 280).

Importante apontar que espaços acessíveis se referem aqui não apenas àqueles com
acessibilidade a PCD (Pessoas com Deficiência), como são comumente entendidos, mas
abrange o universo mais amplo do conceito de acessibilidade como a condição primordial
para a apropriação e uso de um espaço. Poder estar em um lugar é a condição inicial para
poder usá-lo. Stephen Carr (1995) classifica três tipos de acesso ao espaço público: físico,
visual e simbólico ou social. O acesso físico refere-se à ausência de barreiras espaciais ou
arquitetônicas (construções, plantas, cercas, água etc.). No caso do espaço público, são
considerados também a localização das aberturas, os fluxos de pessoas, as condições de

9
travessia, a qualidade ambiental dos trajetos, entre outros. O acesso visual, ou visibilidade,
define a qualidade do primeiro contato com o espaço, do usuário com o lugar, mesmo à
distância. Perceber e identificar ameaças em potencial são procedimentos instintivos antes
de adentrar um espaço. O acesso simbólico ou social refere-se à presença de sinais - sutis
ou ostensivos – indicativos de quem é e quem não é bem-vindo ao lugar.
Tendo em conta esses conceitos, para detectar o nível de acessibilidade e os padrões
de atividade do campus-sede da Unicamp, a DEPI, com o auxílio de estagiários, está
finalizando um levantamento extensivo quadra a quadra, que foi denominado
Mapeamento da Acessibilidade Socioambiental do Campus (MASA), focando em um dos
três subsistemas operacionais sugeridos por Anderson (1990): os espaços de direto público,
(que, no caso do campus que é um território público do Estado, equivalem aos espaços de
uso coletivo).
O mapeamento consiste no levantamento de: (1) calçadas, passeios e caminhos,
incluindo também os caminhos informais, localizando rampas e escadas para vencer
desníveis e classificando-os por materiais e níveis de acessibilidade; (2) barreiras físicas
construídas (tais como muros, muretas, cercamentos e obstáculos à livre passagem de
pessoas); (3) barreiras naturais (taludes e desníveis acentuados que impossibilitam a
passagem); (4) os acessos às edificações e o nível de controle de cada acesso; (5) os fluxos
de pedestres e a intensidade desses fluxos. Ver relatório com a análise do Mapeamento
da Acessibilidade Socioambiental do campus da Unicamp (MASA).

10
2. Princípios norteadores

O Plano Diretor Integrado está baseado em princípios norteadores que regem a


Universidade: os objetivos estratégicos do Planes; e em conceitos universalizados: a
sustentabilidade urbana, a universidade sustentável e o laboratório vivo, com o objetivo de
organizar a ocupação do território e sistematizar o desenvolvimento do espaço para
alcançar o melhor aproveitamento em termos sociais, políticos, ambientais e econômicos
da Unicamp.

11
2.1. Objetivos estratégicos do Planes

O Planejamento Estratégico da Administração da Unicamp 2016-2020 – Planes –


define como missão da Universidade “criar e disseminar o conhecimento científico,
tecnológico, cultural e artístico em todos os campos do saber por meio do ensino, da
pesquisa e da extensão. Formar profissionais capazes de inovar e buscar soluções aos
desafios da sociedade contemporânea com vistas ao exercício pleno da cidadania”1. Além
disso, estabelece seus objetivos estratégicos que criam as condições necessárias para
integrar as dimensões técnicas do planejamento com a esfera política da administração.
No que tange aos Objetivos Estratégicos, o Planes tem como fio condutor quatro pilares:
tornar a Universidade digital; ampliar os princípios da sustentabilidade de maneira ampla;
aprimorar a gestão dos processos internos e aumentar a transparência administrativa. A
implementação desses pilares favorecerá o alcance dos quinze objetivos traçados, os quais
se inserem dentro de três grandes blocos, segundo o

Quadro 1.

Quadro 1: Objetivos Estratégicos do Planes 2016-2020

OS 15 OBJETIVOS ESTRATÉGICOS DO PLANES – 2016-2020

OBJETIVOS DE RESULTADO PARA A SOCIEDADE


1 Aprimorar o acesso, permanência e desenvolvimento acadêmico, profissional e
pessoal como mecanismo de promoção, igualdade e diversidade
2 Posicionar-se como protagonista no relacionamento com as esferas pública e privada
3 Aperfeiçoar a governança coorporativa para a promoção da transparência e
accountability
OBJETIVOS PARA EXCELÊNCIA NO ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO
4 Aprimorar os métodos educacionais para torna-los flexíveis, contemporâneos e de
aprendizagem centrada no estudante
5 Promover a inserção de inovação e empreendedorismo na instituição e na sociedade
6 Difundir o conhecimento produzido para a sociedade
7 Aumentar o impacto nacional e internacional de pesquisa
8 Atualizar a infraestrutura física e tecnológica da academia

1
http://www.unicamp.br/unicamp/ju/650/planejamento-estrategico-da-unicamp-2016-2020

12
9 Ampliar a internacionalização com docentes, discentes, pesquisadores e funcionários
10 Intensificar parcerias com diferentes setores da sociedade
OBJETIVOS PARA EXCELÊNCIA NA GESTÃO ADMINISTRATIVA

11 Garantir a sustentabilidade orçamentária e financeira


12 Aumentar a eficiência dos processos de trabalho com o suporte tecnológico

13 Compatibilizar a disponibilidade de pessoal às necessidades dos processos e serviços


14 Favorecer a trajetória de desenvolvimento pessoal e profissional
15 Otimizar a infraestrutura, os serviços e o uso dos espaços dos campi para garantia de
um ambiente saudável, verde, seguro e acessível

13
2.2. Sustentabilidade urbana

Em 2015, mesmo ano em que as metas de desenvolvimento sustentável da Rio+20


entraram em vigor, ocorreu nova reunião de líderes mundiais em Nova York, a Cúpula de
Desenvolvimento Sustentável. Nessa reunião foi definida uma nova agenda, para finalizar
o trabalho dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) e lançar os novos 17
Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) no documento “Agenda 2030” (UN-
HABITAT, 2016b), indicados na Figura 3. O Relatório dos Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável do Milênio 2015 indicou que os ODM foram bem-sucedidos em todo o mundo,
mas ainda existiam deficiências (UNITED NATIONS, 2015a) e, no sentido de atendê-las em
diferentes níveis, foram criados os ODSs.

Figura 3 – Objetivos de Desenvolvimento Sustentável

Fonte: https://nacoesunidas.org/conheca-os-novos-17-objetivos-de-desenvolvimento-
sustentavel-da-onu/

A Conferência Mundial Habitat-III, que ocorreu em Quito, em outubro de 2016,


declara como direito humano o direito à cidade e estabelece uma Nova Agenda Urbana,
que apresenta elementos essenciais à criação de um padrão de desenvolvimento
sustentável urbano para um novo modelo de cidade. Seu território compreenderia as áreas
urbanas, periurbanas e rurais, e a igualdade seria integrada à questão da justiça social.
Existe também o reconhecimento da cultura no empoderamento do desenvolvimento

14
sustentável pelos cidadãos, contribuindo com a criação de novos padrões de produção e
de consumo sustentáveis e uso responsável dos recursos (UN-HABITAT, 2016a).
A Habitat-III reconheceu a importância do planejamento e do desenho urbano para
estabelecer uma provisão adequada de bens comuns, incluindo ruas e espaços abertos, em
um padrão eficiente de construções, e criou um tema na Nova Agenda Urbana chamado
“Prosperidade e oportunidades urbanas inclusivas e sustentáveis para todos”, que inclui:

Comprometemo-nos a promover o desenvolvimento de estratégias


espaciais urbanas, incluindo instrumentos de planeamento e
desenho urbanos que apoiem a gestão e a utilização sustentáveis
dos recursos naturais e do solo, compacidade e densidade
adequadas, policentrismo e usos mistos, por meio de estratégias de
ocupação de vazios urbanos ou de expansões urbanas planejadas,
conforme o caso, para desencadear economias de escala e de
aglomeração, fortalecer a planificação do sistema de
abastecimento alimentar, aumentar a eficiência dos recursos, a
resiliência urbana e a sustentabilidade ambiental (UN-HABITAT,
2016a, p. 18).

Além disso, são colocados itens referentes à necessidade de integração de serviços,


infraestrutura e territórios urbanos e rurais, a fim de promover maior igualdade social,
eficiência de serviços e utilização sustentável dos recursos naturais. Essas diretrizes
incluem: compacidade, uso misto, integração de modais de transporte e uso de
plataformas e ferramentas digitais.
A Nova Agenda Urbana assume “[...] integralmente os compromissos adotados
durante o ano de 2015, em particular a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável,
incluindo os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável” (UN-HABITAT, 2016a, p. 3) e
coloca que sua implementação deve contribuir

[...] para a implementação e localização da Agenda 2030 para o


Desenvolvimento Sustentável de maneira integrada, e para a
consecução dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável e suas
metas, inclusive o ODS 11 para tornar as cidades e os
assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e
sustentáveis (UN-HABITAT, 2016a, p. 4).

15
A UN-Habitat possui uma série de parcerias, entre as quais se destaca a já
mencionada International Council for Local Environmental Initiatives (ICLEI), associação
mundial de governos locais para o desenvolvimento sustentável, que atua em mais de 100
países, e a Urban-LEDS (Urban Low Emission Development Strategies), que também está
vinculada à ICLEI, mas age na escala local. Ambas as associações trabalham com agendas
paralelas e que se remetem constantemente aos Objetivos de Desenvolvimento
Sustentável da ONU, principalmente ao número 11.
O ODS 11 – cidades e comunidades sustentáveis – enfatizou a urbanização e
reconheceu que as cidades conectam outros objetivos (Quadro 2). O ODS 11 é monitorado
através de indicadores que constam no documento “Sustainable Development Goal 11 –
Make Cities and Human Settlements Inclusive, Safe, Resilient and Sustainable” (2016b).

Quadro 2 – Objetivo de Desenvolvimento Sustentável n. 11


Objetivo 11: Cidades e assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis
11.1 Em 2030, garantir acesso à moradia adequada, segura e a custo acessível, a serviços básicos
e a adequação de favelas.
11.2 Em 2030, providenciar acesso à segurança, acessibilidade de custo e de mobilidade e
sistemas de transporte sustentáveis a todos, melhorando a segurança nas rodovias,
expandindo o transporte público com atenção especial a necessidade dos que estão em
situação o vulnerável, mulheres, crianças, pessoas com deficiência e idosos.
11.3 Em 2030, realçar a urbanização inclusiva e sustentável e a capacidade de participação,
integração, planejamento e gestão de assentamentos humanos sustentáveis em todos os
países.
11.4 Fortalecer esforços para proteger e salvaguardar a cultura e a herança natural mundial.
11.5 Em 2030, reduzir significativamente o número de mortes e o número de pessoas afetadas e
reduzir substancialmente as perdas econômicas diretas relativas aos produtos brutos
domésticos causados por desastres, incluindo os relacionados à água, com foco na proteção
de pessoas pobres e em situações vulneráveis.
11.6 Em 2030, reduzir o adverso impacto ambiental per capita das cidades, incluindo atenção
especial à qualidade do ar e à gestão de resíduos.
11.7 Em 2030, providenciar acesso universal à segurança, às áreas verdes e públicas inclusivas e
acessíveis, particularmente para crianças e mulheres, idosos e pessoas com deficiência.
11.a Apoiar vínculos positivos econômicos, sociais e ambientais entre áreas urbanas, periurbanas
e rurais expandindo o desenvolvimento do planejamento nacional e regional.
11.b Em 2020, aumentar substancialmente o número de cidades e assentamentos humanos que
adotaram e implementaram políticas e planos voltados à inclusão, eficiência em recursos,
mitigação e adaptação à mudança climática, resiliência a desastres e desenvolveram e
implementaram, na linha da Sendai Framework for Disaster Risk Reduction 2015-2030, gestão
de risco de desastres holísticos em todos os níveis.
11.c Apoiar países de baixo desenvolvimento, incluindo com auxílio financeiro e técnico, na
construção sustentável e em edifícios resilientes usando materiais locais.

16
Fonte: UN-Habitat (2016a, p. 24).

Para o planejamento e o desenho urbano, o ODS 11 não se basta. É preciso integrar


e interconectar todos os ODSs, pois é no território urbano que devem ocorrer todas as
transformações para o desenvolvimento sustentável. Nessa linha de pensamento, existem
diversas publicações sobre como devem ser pensados o ODSs de forma local, no ambiente
urbano. O relatório “Local Implementation of the SDGs & the New Urban Agenda: towards
a swedish national urban policy” (FABRE, 2017) indica a necessidade de integrar as diversas
agendas para o desenvolvimento sustentável e implementar metodologias de ação e de
monitoramento para fazer cumprir os ODSs.
A publicação brasileira sobre a implementação dos ODSs a nível local é o Guia para
Integração dos ODSs nos Municípios Brasileiros (CNM, 2017). Nele são estabelecidas formas
de aplicação e monitoramento de cada um dos ODSs no planejamento urbano, que no caso
da Unicamp, remetem às seis Áreas de Planejamento do PD-Integrado, conforme resumo
no Quadro 3.

Quadro 3 – Aplicação dos ODSs no Planejamento Urbano


ODS Aplicação no planejamento urbano Áreas de Planejamento
do PD-Integrado
Acesso aos serviços essenciais básicos – água, Infraestrutura urbana;
energia, saúde, assistência social e educação –, às vivência e fricção social;
tecnologias e à inclusão social. universidade e
sociedade.
Acesso a alimentos nutritivos e seguros, à saúde, à Meio Ambiente;
produção alimentar sustentável e à agricultura Universidade e
local; redução de riscos à saúde. Sociedade; Vivência e
Fricção Social.
Promoção de saúde e bem-estar para todos e em Meio Ambiente;
todas as idades, acesso aos serviços básicos, à Infraestrutura Urbana;
segurança no trânsito, às atividades esportivas e à
Mobilidade e
programas sociais. Acessibilidade;
Universidade e
Sociedade; Vivência e
Fricção Social.
Educação inclusiva; escolas sustentáveis e ensino Uso e Patrimônio;
de sustentabilidade. Universidade e
Sociedade; Vivência e
Fricção Social.

17
Fim da discriminação contra mulheres, Uso e Patrimônio;
empoderamento e igualdade de gênero, Universidade e
manutenção de rede de atendimento e assistência Sociedade; Vivência e
à mulher. Fricção Social;
Mobilidade e
Acessibilidade.
Manter o direito à água potável, à saúde à Infraestrutura Urbana e
segurança alimentar, ao saneamento e a gestão de Meio Ambiente.
resíduos.

Acesso às diferentes fontes de energia, Uso e Patrimônio;


principalmente as renováveis, eficientes e não Infraestrutura Urbana.
poluentes.

Crescimento econômico, trabalho e emprego; Uso e Patrimônio;


produção e consumo sustentáveis e incentivo a Universidade e
estratégias de desenvolvimento econômico que Sociedade.
aproveitam oportunidades, vocações e recursos
de seus territórios.
Promoção de infraestrutura necessária para Uso e Patrimônio;
conexão globalizada; transporte, saneamento, Infraestrutura Urbana;
energia, comunicação e informação sustentáveis; Mobilidade e
industrias inclusivas, eficientes e menos Acessibilidade.
poluentes; eficiência no uso de recursos e
infraestruturas resilientes.
Redução das desigualdades: renda, patrimônio, Uso e Patrimônio;
tipos de moradias, acesso à serviços básicos, à Universidade e
justiça, às atividades esportivas e de lazer; Sociedade; Vivência e
oportunidade de trabalho; participação pública Fricção Social.
nas decisões políticas e promoção de uso misto do
solo.
Promoção de qualidade de vida dos habitantes eUso e Patrimônio; Meio
do planejamento urbano; acesso aos serviços Ambiente;
básicos e desenvolvimento do urbano nos Infraestrutura Urbana;
aspectos econômico, físico e social. Mobilidade e
Acessibilidade;
Vivência e Fricção
Social; Universidade e
Sociedade.
Produção e consumo sustentáveis; inovação Meio Ambiente;
industrial; destinação adequada de rejeitos; Infraestrutura Urbana.
reciclagem de resíduos e promoção de economia
circular.
Prevenção aos desastres naturais; redução de Uso e Patrimônio; Meio
emissão de gases de efeito estufa: conservação e Ambiente;
manejo florestal sustentável e monitoramento das Infraestrutura Urbana.
emissões.

18
Redução do lançamento de efluentes, de resíduos Uso e Patrimônio; Meio
industriais e sólidos na rede fluvial. Ambiente;
Infraestrutura Urbana.

Preservação dos ecossistemas terrestres, das Meio Ambiente;


florestas e da biodiversidade; promoção da Infraestrutura Urbana;
mudança de comportamento, do equilíbrio Vivência e Fricção
ambiental e do bem-estar social. Social; Universidade e
Sociedade.
Melhoria da segurança pública; aumento da Uso e Patrimônio; Meio
responsabilidade e da igualdade social; Ambiente;
transparência e combate à corrupção. Infraestrutura Urbana;
Vivência e Fricção
Social; Universidade e
Sociedade.
Implementação da Agenda 2030; fortalecimento Uso e Patrimônio; Meio
das alianças locais através de organizações e Ambiente;
movimentos sociais; gestão de recursos e de Infraestrutura Urbana;
pessoas; incentivo às parcerias público e privadas Mobilidade e
e à colaboração entre governo, instituição e Acessibilidade;
empresas. Vivência e Fricção
Social; Universidade e
Sociedade.

Apesar da série de publicações e do compromisso firmado de cumprir a Agenda 2030,


poucos estão sendo os avanços em relação aos ODSs. No meio urbano, as iniciativas
continuam sendo pontuais e, na maioria das vezes, em regiões privilegiadas.
Em 2018, foi lançado o primeiro relatório de acompanhamento dos ODSs. Ele indica
que as situações de conflito e a mudança climática são os principais fatores para o aumento
do número de pessoas subalimentadas ou desnutridas e refugiadas, além de diminuir o
acesso aos serviços básicos de saneamento, água potável e saúde. Ao mesmo tempo, o
relatório indica que houve melhoria na qualidade de vida da população em geral nos
últimos dez anos, com redução da taxa de mortalidade infantil e aumento do acesso à
eletricidade (UNITED NATIONS, 2018a).
No Fórum Político de Alto Nível2 que ocorreu em Nova York, em 2018, foi discutida a
área temática de “Transformação para sociedades sustentáveis e resilientes”, com a

2 O Fórum Político de Alto Nível é um evento anual coordenado pela ONU que acontece desde a Conferência
das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável Rio +20 e que tem um papel central no
acompanhamento e na revisão da Agenda 2030 a nível global. Nele ocorrem compartilhamentos de experiências
e formação de parcerias entre os países envolvidos.

19
concentração no grupo de indicadores para os ODSs 6, 7, 11, 12, 15 e 17. Um dos resultados
desse fórum foi a publicação do Relatório Síntese do ODS 11, “Tracking progress towards
inclusive, safe, resilient and sustainable cities and human settlements”, que descreve o
progresso da comunidade em direção a implementação da Nova Agenda Urbana e seus
desafios.
Nesse relatório há ênfase na valorização da urbanização sustentável como
facilitadora do alcance aos ODSs, pois considera-se que o processo da urbanização é
incontrolável e, por isso, as áreas urbanas tornam-se cada vez mais críticas em termos do
alcance dos ODSs e das metas sociais, econômicas e ambientais da Nova Agenda Urbana.
O relatório analisa uma série de importantes desenvolvimentos relacionados à prevalência
de favelas nas cidades, espaços abertos, transporte público, poluição do ar, participação
cidadã e políticas públicas. Ele também examina os desafios do desenvolvimento de
metodologias para indicadores do ODS 11 que estão começando a serem monitorados e
para os quais existem parcerias da ONU com uma série de agências voltadas para o
urbanismo sustentável (UNITED NATIONS, 2018b).
O histórico das reuniões e metas internacionais sobre o desenvolvimento sustentável
urbano começou com a preocupação estritamente ambiental: poluição atmosférica e
degradação do meio ambiente. Atualmente, tem-se uma enorme gama de temas correlatos
que variam desde economia, passando pelas questões sociais e culturais e pelas questões
de infraestrutura. O urbano tem o potencial de progresso na criação de sociedades
sustentáveis porque nele está a integração das questões econômicas, ecológicas, políticas
e culturais. Por isso, torna-se cada vez mais urgente a implementação do planejamento, do
desenho e das ações para a sustentabilidade urbana.

20
2.3. Universidade sustentável

As universidades são os centros de formação dos futuros tomadores de decisão para


os setores sociais, políticos e econômicos (LOZANO, 2006). Nelas encontram-se as
oportunidades de formação de profissionais e líderes pautados no desenvolvimento
sustentável; de produção de conhecimento e tecnologias que visam ao desenvolvimento
sustentável e de promoção de capacitação à comunidade, com disseminação do
desenvolvimento sustentável. São as universidades que podem desenvolver a estrutura
intelectual e conceitual para atingir o objetivo do desenvolvimento sustentável (CORTESE,
1992).
Considerando o campus universitário como um locus urbano ou mesmo um
microcosmo da sociedade (ALSHUWAIKHAT e ABUBAKAR, 2008; FINLAY e MASSEY, 2002;
CORTESE, 2003; LIPSCHUTZ, WIT e LEHMAN, 2017), a mudança que se inicia no
planejamento urbano de uma universidade é uma oportunidade de exemplo e replicação
na cidade como um todo.
A Unicamp está inscrita na Rede Internacional de Campus Sustentável3 (ISCN) desde
abril de 2015. Essa rede estabelece três princípios que devem ser seguidos pelos seus
membros:
- demonstrar respeito pela natureza e sociedade: as considerações de sustentabilidade
devem ser uma parte integrante do planejamento, construção, reforma e operação de
edifícios no campus;
- para garantir desenvolvimento sustentável de longo prazo para o campus, o planejamento
estratégico, plano diretor, objetivos e metas devem incluir metas ambientais e sociais;
- para alinhar a missão principal da instituição com o desenvolvimento sustentável,
instalações, pesquisa e ensino devem estar interligados como um “laboratório vivo” para a
sustentabilidade.
O Plano Diretor Integrado reconhece o papel da Unicamp para o desempenho do
desenvolvimento de tecnologias, estratégias, cidadãos e líderes necessários para a

3
International Sustainable Campus Network (ISCN)

21
sustentabilidade. Assim, implementa os princípios do ISCN, definirá metas e publicará o
desempenho de suas ações regularmente.

22
2.4. Laboratório vivo

O Plano Diretor Integrado da Unicamp propõe que os projetos urbanos resultantes


de suas demandas sejam implementados através de laboratórios vivos com o objetivo de
colocar em prática suas diretrizes a fim de alcançar os cenários futuros desejados, como
medidas necessárias para a transição para a sustentabilidade nos campi. Os laboratórios
vivos são espaços físicos e institucionais para processos colaborativos que agem sobre
desafios complexos de cunho social e tecnológico do desenvolvimento sustentável (KÖNIG,
2013; LOZANO, 2006).
Nos laboratórios vivos podem existir parcerias público-privadas em que empresas,
poder público e comunidade local criam soluções através de inovação, as experimentam,
validam; desenvolvem protótipos e as apresentam ao mercado. Esse é um processo co-
criativo que permite a integração efetiva entre pesquisa e inovação em um espaço físico
determinado com a colaboração de profissionais técnicos e acadêmicos e usuários do
espaço.
O uso do campus da universidade como laboratório vivo apresenta-se como um nicho
para a transição para a sustentabilidade e seu fortalecimento e prosperidade resultam na
transformação do espaço da Unicamp e impulsionam a replicação de seus resultados. O
objetivo principal de implementar os projetos de planejamento urbano como laboratórios
vivos na Unicamp é transformar a comunidade local para a sustentabilidade e, através da
sua consolidação, influenciar e divulgar as soluções para além do campus, de modo a
expandi-las.

23
3. Panorama da Universidade

O capítulo de Panorama da Universidade apresenta a visão atual da Unicamp, dentro


de cada uma das seis áreas de planejamento do PD Integrado, a saber: (1) Usos e
Patrimônio Construído, (2) Infraestrutura Urbana, (3) Meio Ambiente, (4) Mobilidade e
Acessibilidade, (5) Vivência e Fricção Social e (6) Universidade e Sociedade. Nelas são
apresentadas as potencialidades e as fragilidades indicadas pelas oficinas com o Grupo de
Colaboração Técnica, juntamente com a assessoria do Grupo de Colaboração Conceitual e
das Câmaras Técnicas de Gestão, além da integração com as Oficinas de Cartografia Social.

24
3.1. Usos e patrimônio construído

Este item traz um panorama sobre o uso e a ocupação dos campi universitários que
pertencem à Unicamp ou estão sob regime de comodato. Nele é tratado o histórico de
planejamento territorial específico do campus Zeferino Vaz, com indicações para os demais
campi e o patrimônio cultural que a universidade possui.

3.1.1. Histórico de planejamento territorial na Unicamp

A Universidade Estadual de Campinas, criada por lei em dezembro de 1962, nasceu


de uma mobilização sem precedentes da população da cidade pela criação do que
inicialmente seria uma Faculdade de Medicina. Foi um conjunto de ações lideradas pelo
Conselho de Entidades de Campinas, frente ao Governo do Estado que durou cerca de vinte
anos e que, no início da década de 1960, resultaram na proposta de João Goulart, então
Presidente da República, para a criação de uma Escola Federal de Medicina em Campinas.
Foi então que o Governo do Estado de São Paulo respondeu politicamente com a lei de
criação da Universidade Estadual de Campinas.
O projeto universitário da Unicamp, pautado nas orientações conceituais
estabelecidas pela Comissão de Planejamento da Unicamp (COPLAN), presidida pelo Reitor
Prof. Zeferino Vaz tinha a preocupação de assegurar a continuidade entre formulação,
projeto e implementação, para evitar que seus conceitos originais se perdessem com o
tempo e fossem descaracterizados, como aconteceu nos casos de suas duas antecessoras,
a Universidade de São Paulo (USP) e a Universidade de Brasília (UnB). No caso da Unicamp,
partiu-se do fundamento que inspirou a proposta inicial da USP: uma estrutura
universitária dotada de um centro como ponto referencial obrigatório, mas,
diferentemente da universidade instalada na capital, dimensionada para a escala do
pedestre.
Estabeleceu-se, por princípio, que o modelo físico mais adequado para a Cidade
Universitária Zeferino Vaz – o campus-sede da Unicamp, localizado em área rural no
Distrito de Barão Geraldo – seria aquele com uma configuração radial regendo seu processo

25
de construção para que a proposta pedagógica de integração das diferentes áreas do
conhecimento se consolidasse no território como espaço interdisciplinar. Dessa forma, foi
estabelecida a proposta de desenho urbano radial-concêntrico, com os institutos das
ciências básicas e das ciências humanas justapostos, lado a lado, com seus vértices voltados
para a grande praça central do Ciclo Básico de modo a facilitar o convívio de professores e
alunos das diferentes áreas do saber. As faculdades das engenharias e das ciências
aplicadas ficariam no segundo nível da estrutura radial, colocadas no prolongamento dos
institutos, conforme a afinidade entre as disciplinas.
Nesse sentido, é possível afirmar que, ao longo das cinco décadas de existência da
Unicamp, o Plano Urbanístico Original, elaborado pelo arquiteto João Carlos Bross, na
segunda metade da década de 1960, constitui o único Plano Diretor que direcionou a
ocupação do seu campus-sede. Este plano, pela presença continuada do seu autor, o
professor Zeferino Vaz, atuando em sintonia com os dirigentes de então, nunca chegou a
ser formalizado em um documento escrito, mas vigorou por todo o período de implantação
da universidade, como é conhecido o período de 12 anos de gestão do Reitor Prof. Zeferino
Vaz, entre 1966 e 1978. Com seu traçado radio-concêntrico e contemplando o núcleo
central do campus, esse projeto urbanístico concretizou no território o conceito de
universidade concebido pelos seus fundadores, conforme pode ser visto na Figura 4, que
mostra a evolução dos diagramas conceituais para os croquis do desenho urbano da
Unicamp.

26
Figura 4 – Concepção do núcleo central da Unicamp

Fonte: João Carlos Bross, 2006.

Planejou-se uma praça central, que pudesse representar o centro do conhecimento,


com movimentação e intercâmbio de estudantes, pesquisadores e professores. As áreas do
conhecimento estariam ao redor dessa praça: humanidades, ciências exatas e biológicas e
saúde, além de um centro de vivência.
O final dos anos de 1970, quando se finalizava a gestão de Zeferino, caracterizou-se
como um período de grande crescimento da Unicamp, que levou a uma grande demanda
de espaço físico para atender às unidades em funcionamento e para abrigar as que estavam
sendo criadas. Concomitantemente, foi um período de grande escassez de recursos, que
culminou com a impossibilidade de finalizar grandes obras em execução, tais como: o
Ginásio Multidisciplinar, o prédio do IMECC (Instituto de Matemática, Estatística e
Computação Científica) e o Hospital das Clínicas (HC). Essa conjuntura coincidiu com o início
da deterioração do plano urbanístico original. A Universidade, nessa época, adquiriu
diversos galpões em estrutura metálica de baixo custo e os implantou em caráter provisório
e de forma dispersa pelo campus, para suprir em curto prazo o déficit de espaço físico das
unidades, visando substitui-los posteriormente por edifícios mais adequados, o que não
aconteceu. Os galpões permanecem em uso até hoje. No mapa da Figura 5, que mostra os
edifícios construídos durante a gestão de Zeferino Vaz, até 1978, é possível observar alguns
desses galpões já implantados nas glebas 1, 2 e 4.

27
Figura 5 – Edificações na Unicamp até 1978

Fonte: Unicamp/ DEPI/ PGEO, 2017.

Na sequência, na gestão do Reitor Prof. José Aristodemo Pinoti, com a persistência


da crise financeira, a Universidade adotou como alternativa a implantação de edifícios
padronizados e de baixo custo que ficaram conhecidos no campus como “Pinotinhos”.
Foram construídos mais de 70 prédios dessa tipologia nas décadas de 1980 e 1990,
conforme mostra o mapa da Figura 6. A implantação desses edifícios que atendiam
demandas isoladas das unidades e órgãos ocorreu sem a visão territorial adequada,
preenchendo grande parte dos terrenos disponíveis nas quadras já consolidadas e
ocupando novas quadras.

28
Figura 6 – Implantação de edifícios “Pinotinhos”: entre 1980 e 1990

Fonte: Unicamp/ DEPI/ PGEO, 2017.

No início dos anos de 1980, a Universidade já reconhecia a necessidade de um


planejamento físico-territorial para resolver as distorções de uso e ocupação do solo que
se concretizavam no território e chegou a contratar o arquiteto Claudio Mafra, que na
época estava desenvolvendo o projeto da Biblioteca Central, para elaborar um Plano
Diretor para o campus. Mafra relatou4 que foram iniciados os levantamentos, mas os
trabalhos foram interrompidos e não foi concluído nenhum documento que orientasse o
crescimento do espaço da Universidade. Outras duas iniciativas de planejamento do

4
Informações prestadas pelo arquiteto Cláudio Mosqueira Mafra, em entrevista, aos arquitetos Flávia B.
Garboggini e Antonio Luis T. Castellano, em 2011.

29
campus ocorreram nas décadas de 2000 e de 2010, nas duas gestões do Reitor Prof. Tadeu
Jorge, ambas também não se concretizaram5.

Figura 7 – Exemplos de disfunções urbanas no espaço universitário do campus Zeferino Vaz

Fonte: DEPI, 2018.

A composição da Figura 7 mostra alguns resultados do planejamento desordenado.


A inexistência de uma instância na Unicamp dedicada ao planejamento físico-territorial
desde finais da década de 1970, consolidou uma lógica de ocupação do campus Zeferino
Vaz estruturada a partir de demandas isoladas, sem uma visão de conjunto, gerando
disfunções urbanas que podem ser observadas na atualidade, tais como: áreas ocupadas
por edificações de baixa qualidade e em vários casos subaproveitadas; ocupação
desordenada das quadras, com expansões de edificações que desqualificam o ambiente do

5
Os capítulos 4 e 5 da tese de doutorado de Garboggini (2012) apresentam um histórico detalhado, com
fontes documentais do processo de ocupação do território do campus. GARBOGGINI, F. B. O potencial dos
espaços abertos na qualificação urbana: uma experiência piloto na cidade universitária Zeferino Vaz. Tese de
doutorado, Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo, UNICAMP, 2012.

30
campus (os chamados “puxadinhos”); equipamentos de infraestrutura implantados de
forma inadequada, que se configuram como empecilhos ao aproveitamento otimizado das
quadras; utilização sistêmica de veículos individuais, motivada pela ineficiência dos
sistemas de transporte coletivo; estacionamentos insuficientes embora ocupem áreas
significativas do campus; congestionamentos em horários de pico dentro do campus e nas
vias que lhe dão acesso; espaço do pedestre relegado a planos secundários e poucos deles
com acessibilidade facilitada a todos; ausência de padrões urbanísticos que criem uma
identidade para o campus.
Nos mapas da evolução territorial das edificações do campus, por períodos (Figuras
de 09 a 12) é possível acompanhar a forma como se deu a ocupação cronológica do
território do campus Zeferino Vaz. A Figura 12 mostra também as novas glebas adquiridas
pela Unicamp em 2013, que pertenciam à Fazenda Argentina e que aumentaram a área do
campus existente, até então com 2,4 milhões de metros quadrados, em 1,4 milhões de
metros quadrados, totalizando um campus de aproximadamente 3,8 milhões de metros
quadrados.

Figura 9 - Edificações construídas entre 1966 e Figura 8 – Edificações construídas entre 1978 e
1977 (em vermelho) - campus Zeferino Vaz 1986 (em azul) – campus Zeferino Vaz

31
Figura 11 – Edificações construídas entre 1987 e Figura 10 – Edificações construídas entre 1996 e
1995 (em verde) – campus Zeferino Vaz 2006 (em magenta) – campus Zeferino Vaz

Figura 12 – Edificações construídas entre 2007 e 2015 (em marrom) – campus Zeferino Vaz

Fonte: Unicamp/ DEPI/ PGEO, 2017

32
3.1.2. Uso e ocupação

O campus Zeferino Vaz está localizado na microbacia do Ribeirão das Pedras,


pertencente à bacia do Ribeirão das Anhumas, formado pelos rios Mato Dentro, Proença,
e Lago do Café, que nascem e/ou percorrem a região central do município de Campinas,
São Paulo, e que, por sua vez, está na grande bacia do Piracicaba, Capivari e Jundiaí – PCJ.
Em termos geopolíticos, a bacia do Ribeirão das Pedras está na Área de Influência Direta
da Estrutura Macrometropolitana do município de Campinas, na Macrozona
Macrometropolitana, no distrito de Barão Geraldo. Aí estão localizados os campi
universitários da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Pontifícia Universidade
Católica de Campinas (PUC-Campinas) e da Facamp (Faculdades de Campinas), além de
parques tecnológicos, empreendimentos comerciais de grande porte, indústrias e áreas
residenciais e comerciais. De acordo com o Plano Diretor de Campinas, a Unicamp
configura-se como Polo Estratégico de Desenvolvimento.
Iniciando em uma escala macro, de acordo com o Plano Diretor e com a Lei de
Parcelamento, Uso e Ocupação de Solo (LPUOS) do Município de Campinas, o campus
Zeferino Vaz está inserido em uma zona de interesse estratégico para desenvolvimento de
Região Metropolitana de Campinas (RMC), denominada Zona de Atividade Econômica A -
ZAE A - conforme Figura 13.

Figura 13 – Unicamp/Polo CIATEC II no contexto do município de Campinas

33
Fonte: LUOS do Município de Campinas, 2018 – adaptada.

A ZAE A contém o Polo CIATEC II, no qual o campus Zeferino Vaz está parcialmente
inserido, conforme indica a delimitação em amarelo da Figura 13. A área já ocupada no
campus Zeferino Vaz possui 2.447.057,44m², está localizada no Distrito de Barão Geraldo
e conforma-se como indutora da urbanização de seu entorno.

Figura 14. A área total desse campus, considerando a área ocupada, delimitada em
vermelho, e a Fazenda Argentina, delimitada em azul, é de 3.891.700,00m² e a área total
do CIATEC II é de 8.752.642,00m². A área já ocupada no campus Zeferino Vaz possui
2.447.057,44m², está localizada no Distrito de Barão Geraldo e conforma-se como indutora
da urbanização de seu entorno.

Figura 14 – CIATEC II com delimitação do campus Zeferino Vaz e da Fazenda Argentina

Fonte: DEPI, 2018

34
O cenário atual do território do campus Zeferino Vaz remete a um planejamento
territorial interrompido, que acarreta disfunções urbanas e diminuição da qualidade da
dimensão físico-espacial do ambiente urbano, resultando muitas vezes na:
- descaracterização de conceitos do plano urbanístico inicial do campus;
- desvalorização dos espaços abertos, criação de barreiras e falta de continuidade e de
conexão dos espaços urbanos e caminhos de pedestres;
- implantação de edifícios novos sem definição do uso pretendido, resultando em reformas
precoces de espaços recém-construídos;
- existência de espaços urbanos subaproveitados;
- implantação de edifícios novos ou ampliações de edifícios existentes gerando
interferências entre a edificação, as redes de infraestrutura e a vegetação;
- falta de espaços construídos ou abertos qualificados que favoreçam o convívio e as
relações sociais inerentes à vida universitária;
- construção de edificações e estruturas urbanas de baixa qualidade, que comprometem a
qualidade do ambiente interno e externo;
- criação de conflitos de uso do espaço;
- instalação de edifícios e atividades que funcionam como polos geradores de tráfego, sem
a previsão da infraestrutura correspondente;
- falta de segurança devido a locais com baixa iluminação e baixo fluxo de pessoas;
- locais com excessiva impermeabilização, como os muitos bolsões de estacionamento.
A falta de planejamento urbano reflete, inclusive, na taxa de ocupação por quadras
do campus Zeferino Vaz. O mapa da Figura 15 mostra maiores taxas de ocupação nas
quadras de ocupação inicial do campus – primeiro anel do ciclo básico, administração e
área da saúde – e menores taxas nas demais quadras, o que indica a existência de áreas
subaproveitadas. Em complementação, o mapa do coeficiente de aproveitamento da
Figura 16 mostra que, apesar de a verticalização não ser uma característica relevante nas
construções da Unicamp, os edifícios com mais de um pavimento representam aumento
do aproveitamento do espaço existente.

35
Figura 15 – Mapa da taxa de ocupação das quadras do campus Zeferino Vaz

Fonte: DEPI, 2018

36
Figura 16 – Mapa de Coeficiente de Aproveitamento das quadras do campus Zeferino Vaz

Fonte: DEPI, 2018

37
Quanto ao uso do solo, o campus Zeferino Vaz está composto por diversas atividades,
com destaque para os locais de ensino e pesquisa, como salas de aula e laboratórios e
edifícios da área da saúde. As demais atividades são para apoio e contemplam espaços para
biblioteca, administração e infraestrutura, cultura, vivência e esportes.

Figura 17 - Mapa de usos do campus Zeferino Vaz

Fonte: DEPI, 2018

38
O mapa de uso do campus Zeferino Vaz, representado na Figura 17, mostra a
existência de alguns setores que possuem vocações de acordo com os atuais usos de suas
instalações. As quadras localizadas na região sul – 03, 31, 40 e parte da 30, por exemplo,
têm a nítida vocação para prestação de serviços à comunidade e para ensino, pesquisa e
extensão no setor da saúde, uma vez que ali encontram-se: o Hospital das Clínicas, a
Faculdade de Ciências Médicas, o CEB, o CAISM, o Hemocentro, Gastrocentro e a
Policlínica.
As quadras 01 e 02 possuem vocação de uso administrativo e compõem a ocupação
inicial do campus Zeferino Vaz, com a administração geral e superior. Outros edifícios de
uso administrativo estão localizados em regiões pelo campus. As quadras do núcleo central,
composto pela praça e o primeiro e segundo anéis do Ciclo Básico, mantém seus usos
iniciais de ensino e pesquisa nas áreas de humanas, exatas e biológicas e as quadras 04, 05,
06, 08, 38, 25, 27, 28, 43, 47, 48, 49 e 52 estão mais voltadas para o desenvolvimento de
ciências tecnológicas. Apesar de haverem exceções, o predomínio é de salas de aulas, de
pesquisa e laboratórios.
As quadras 45, 50 e 51 compõem uma área de 100 mil m² e fazem parte do Parque
Científico e Tecnológico da Unicamp, administrado pela Agência de Inovação Inova
Unicamp. A criação do parque foi formalizada pela Deliberação CAD-A-001/10 e o
credenciamento definitivo no Sistema Paulista de Parques foi formalizado pelo DOE de
23/01/2016. Nesse documento consta um acréscimo de 200 mil m² na área da Fazenda
Argentina, conforme indica Figura 18.

39
Figura 18 - Áreas do Parque Científico e Tecnológico da Unicamp

Fonte: DEPI, 2018

A área da Fazenda Argentina, adquirida pela Unicamp em 2013, possui uma única
ocupação com os edifícios da antiga sede, objeto do evento Campinas Decor de 2018.
Grande parte da área da Fazenda está arrendada para a usina Ester, com plantação de cana-
de-açúcar. O contrato de arrendamento é acompanhado, também, pela Divisão de Meio
Ambiente, da Prefeitura do Campus, para o atendimento das questões ambientais do
contrato.
Atualmente, a Fazenda Argentina e parte do campus Zeferino Vaz fazem parte do
Polo CIATEC II, compondo a Zona de Atividade Econômica A, para a qual será elaborada
legislação específica, visando garantir sua destinação para atividades de alto teor
tecnológico que investissem em pesquisa e desenvolvimento e que promovessem intensa
articulação com as universidades. Destacam-se entre os objetivos e diretrizes do Plano
Diretor do Município de Campinas para essa área: tornar a cidade mais saudável, acessível,
inovadora e inclusiva, objetivando sustentabilidade para as presentes e futuras gerações;
incrementar a atratividade econômica de Campinas, considerando especialmente suas
vocações, dentre as quais, o desenvolvimento científico e tecnológico, visando a inserção
do município na economia do conhecimento. Apesar de sua localização privilegiada, da

40
existência de legislação específica e da presença de algumas empresas, não houve, até o
momento, uma efetiva urbanização da área que promovesse a atração das atividades
previstas, permanecendo a maior parte das glebas ainda vagas.
Por outro lado, há o interesse da Unicamp no desenvolvimento do Hub Internacional
de Desenvolvimento Sustentável (HIDS) na Fazenda Argentina e na expansão do conceito
de distrito sustentável no CIATEC II. Considerando que os projetos urbanísticos de bairros
e distritos sustentáveis do futuro devem contemplar um arranjo físico-territorial de uso
misto em que as diferentes atividades possam estar integradas às economias neles
exercidas, o HIDS poderá ser um indutor da criação de um distrito sustentável modelo,
tendo a Unicamp como centro irradiador de conhecimento e alinhado às estratégias
urbanas delineadas pelo município de Campinas, através de uma parceria bem
estabelecida. Para tanto, é fundamental o desenvolvimento de um planejamento para toda
a região do Polo II – CIATEC, partindo das diretrizes de uso e ocupação para a área, que
serão estabelecidas através da colaboração entre pesquisadores e docentes da Unicamp e
da PUC-Campinas, técnicos da DEPI e da equipe técnica da Secretaria de Planejamento e
Desenvolvimento Urbano da Prefeitura Municipal de Campinas.
Em Campinas, além do campus Zeferino Vaz, também existem as instalações do
CPQBA, destinado a apoiar projetos de pesquisa tecnológica, industrial e de prestação de
serviços especializados em química, biologia e agrícola, atendendo à demanda do setor
produtivo e de órgãos governamentais. O CPQBA é referência nacional em produtos
naturais, biotecnologia e meio ambiente e conta com as divisões de: agrotecnologia,
bioprocessos, farmacologia e toxicologia, microbiologia, química analítica, química
orgânica e farmacêutica, química de produtos naturais e recursos microbianos. O CPQBA
possui 407.563,2m² e está localizado na Avenida Alexandre Cazelatto, no município de
Paulínia.

41
Figura 19 - CPQBA

Fonte: DEPI, 2018

O Programa de Moradia Estudantil da Unicamp tem suas instalações localizadas na


Vila Santa Izabel, também no distrito de Barão Geraldo e destina-se à moradia gratuita de
alunos regularmente matriculados em cursos de graduação ou pós-graduação oferecidos
pela Unicamp. A admissão desses estudantes é feita através de processo seletivo por
critérios socioeconômicos levantados por assistentes sociais e respeitando-se o número de
vagas disponíveis. O terreno possui 55.043m², com 245 residências ativas, cinco
interditadas no Bloco B e duas no Bloco H, devido a problemas estruturais.

42
Figura 20 – Delimitação da área do programa de moradia estudantil da Unicamp

Fonte: DEPI, 2018

Ainda no município de Campinas, existe o Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais da


Unicamp, LUME Teatro, que está localizado a Rua Carlos Diniz Leitão, 150, na Vila Santa
Isabel. O LUME é um coletivo de atores que trabalha com o redimensionamento técnico e
ético do ofício de ator e possui 30 anos de atuação por meio de oficinas, demonstrações
técnicas, intercâmbios de trabalhos, trocas culturais, assessorias, reflexões e projetos
itinerantes.

No município de Limeira, a Unicamp possui dois campi. O campus I possui as


instalações do Colégio Técnico de Limeira (COTIL) e da Faculdade de Tecnologia (FT), em
um terreno de 51681,15m². O COTIL oferece ensino médio e técnico em Edificações,
Enfermagem, Geodésia e Cartografia, Informática, Mecânica e Qualidade. Atualmente
possui cerca de 1.500 alunos. A FT oferece os cursos de: Tecnologia em Análise e
Desenvolvimento de Sistemas; Sistemas de Informação; Tecnologia em Saneamento
Ambiental; Tecnologia em Construção de Edifícios; Engenharia Ambiental; Engenharia de
Telecomunicações e Engenharia de Transportes, além de cursos de pós-graduação.

43
O campus II de Limeira possui as instalações da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA)
em um terreno de 484.855m². Esse campus possui um projeto completo de implantação,
com portarias, vias e caminhos principais, localização de edifícios e de serviços. Porém,
como sua ocupação está em andamento, algumas diretrizes estão em modificação,
inclusive para serem alinhadas ao planejamento do município de Limeira, como a portaria
que estava prevista para ser construída na Avenida Francisco Dandrea, projeto que não é
de interesse porque o anel viário de Limeira não terá saída para essa avenida.
A Secretaria Administrativa Regional (SAR) fornece suporte administrativo e
tecnológico para a provisão dos serviços e demandas específicas dos campi de Limeira e
Piracicaba. Cabe a SAR, que funciona de forma integrada à DEPI, a coordenação de serviços
de infraestrutura das áreas coletivas desses campi, bem como a relação com órgãos
externos.

Figura 21 – Campi I e II de Limeira

44
Fonte: DEPI, 2018

A Faculdade de Odontologia de Piracicaba (FOP) está no campus dessa cidade e


possui salas de aula, laboratórios e administração. A manutenção desse campus também
está sob a gestão da Secretaria Administrativa de Assuntos Regionais (SAR). É parte
integrante da FOP o colégio onde funcionam os cursos profissionalizantes, clínica
extramuros e o Centro de Especialidades Odontológicas (CEO), este último em parceria com
a Prefeitura Municipal de Piracicaba.

Figura 22 - Delimitação da Faculdade de Odontologia de Piracicaba

3.1.3. Patrimônio construído

As edificações têm impacto direto na qualidade de vida dos usuários e no


desempenho das atividades universitárias. O campus apresenta tipologias variadas de
edificações e com qualificações diversas. Conforme o histórico de ocupação do campus

45
Zeferino Vaz, contido no item 3.1.1 deste documento, as tipologias de construção
arquitetônica podem ser classificadas de acordo com o período em que foram implantadas,
como indicam os mapas das figuras de 9 a 12.
De maneira geral, diversas edificações apresentam problema de conformidade legal
em questões como acessibilidade, segurança contra incêndio e licenciamento perante
órgãos reguladores, como a Anvisa. Observam-se ainda edifícios com baixo desempenho
energético e térmico, pouca exploração de sistemas passivos para controle térmico e falta
de intenção à sustentabilidade.
Sobre o desempenho de uso das edificações, a DEPI realizou a Pesquisa sobre espaços
construídos dos campi da Unicamp, em 2018, que teve como objetivo entender a
percepção do usuário sobre os espaços existentes na universidade. Foram consultados os
setores da administração superior e central, da área da saúde, todas as unidades e os
grupos de colaboração ao Plano Diretor Integrado, conceitual e técnico. O resultado dessa
pesquisa apontou que o espaço com bom aproveitamento de utilização é um espaço
compartilhado e multifuncional que apresenta condições adequadas para o
desenvolvimento das atividades previstas. Nesse sentido, foi unanimidade a percepção de
que existem espaços construídos ociosos ou subutilizados nos campi e a maior parte das
opiniões constou que novos edifícios deveriam ser solicitados apenas quando esgotadas as
possibilidades de reaproveitamento de estruturas existentes.
Ainda nessa pesquisa, foi sugerido que a otimização dos espaços nos campi, quanto
ao uso, acontecesse a partir do compartilhamento de espaços e equipamentos e de uma
mudança cultural sobre a noção de propriedade pessoal dos espaços públicos, através do
estabelecimento de governança adequada. Também foram indicadas tanto a necessidade
de inovação nas formas de trabalho e de ocupação dos espaços existentes, como novos
modelos de espaço e uso de tecnologias que permitem acesso remoto.
A pesquisa também indicou que 42% da comunidade acadêmica que respondeu à
pesquisa tem a percepção de que a unidade ou o órgão do qual faz parte não possui um
programa de manutenção predial preventiva ou preditiva. Além disso, 77% dos
respondentes alegam que existem edifícios em situação precária e que necessitam de
atenção urgentemente.

46
Contribui também para as deficiências dos espaços construídos a falta de integração
e institucionalização de normativas internas referentes a projetos e obras. Hoje em dia cada
uma das áreas técnicas que desenvolvem ou contratam projetos possui um manual próprio
ou atende a regras internas sobre o desenvolvimento de projetos, o que pode resultar em
incompatibilidades, tanto na contratação e/ou execução da obra quanto no acervo do
material do projeto. Por isso, este Plano Diretor tem como um dos seus produtos o Código
para Projetos de Empreendimentos, que tem como objetivo integrar e institucionalizar um
documento único para ser seguido no desenvolvimento de projetos de edifícios nos campi.

3.1.4. Patrimônio cultural

A identidade cultural e a noção de pertencimento dos usuários dos campi são


essenciais para o futuro da universidade. Por isso, a valorização do histórico de construção
do ambiente urbano e das edificações é importante no contexto histórico-social.
Dentre seu patrimônio construído, a universidade apresenta diversas edificações e
espaços abertos de interesse cultural tais como o traçado urbano do núcleo central do
campus Zeferino Vaz, onde se localizam maior parte dos edifícios projetados por João
Carlos Bross nos anos 1970, conforme ilustrado nos painéis de imagens das maquetes
preservadas pelo SIARQ (Figuras 23, 24 e 25). Há ainda prédios de valor histórico localizados
fora do espaço do campus Zeferino Vaz, como é o caso do Cotuca e do CIS Guanabara,
localizados em Campinas. Estes são edifícios do Governo do Estado de São Paulo que estão
sob a concessão da Unicamp (Figuras 26 e 27).

47
Figura 23 – Fotos das maquetes do edifício da reitoria e do Ciclo Básico

Fonte: SIARQ.
Figura 24 – Fotos das maquetes do Hospital das Clínicas e do Instituto de Biologia

Fonte SIARQ.

48
Figura 25 – Fotos das maquetes do IEL, IFCH, IFGW e IQ

Fonte SIARQ.

O antigo edifício do Cotuca localiza-se na rua Culto à Ciência, 177. Esse edifício, que
pertence à Fazenda do Estado de São Paulo, está sob o regime de comodato e é tombado
pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do
Estado de São Paulo – Condephaat. O conjunto arquitetônico, que possui 3000m², foi
construído em 1918 e abrigou o Cotuca entre 1967 e 2014. Considera-se o edifício como
um patrimônio cultural da Unicamp.
Desde 2014, o conjunto arquitetônico do Cotuca está desocupado devido a
deterioração da estrutura do seu telhado. Foram realizados estudos especializados para
diagnosticar a situação dos edifícios como um todo, especialmente o forro, com propostas
para restauração. Os laudos apontam a necessidade de reparos, recuperação e reforços,
sem comprometimento da estrutura principal. Porém, os Conselhos de Patrimônio
Histórico e Cultural exigem restauro completo do conjunto arquitetônico e seu entorno.
Ainda assim, o uso do conjunto arquitetônico deveria ser revisto, pois suas características
atuais não atendem às normas de ocupação para instituição de ensino. Existe também a
necessidade de adequação às normas de proteção contra incêndio e acessibilidade,
incluindo a instalação de elevador externo e a mitigação das inadequações dos espaços
externos às pessoas com deficiência (PCD).

49
Figura 26 – Edifício do Colégio Técnico da Unicamp

Fonte: DEPI, 2018

Ainda no município de Campinas, também sob o regime de comodato da Fazenda do


Estado de São Paulo, existe o Centro Cultural de Inclusão e Integração Social da Unicamp -
CIS-Guanabara. O complexo possui, aproximadamente, 9000m² e é tombado pelo Conselho
de Defesa do Patrimônio Cultural de Campinas – Condepacc.
O CIS-Guanabara é vinculado e mantido pela Pró-Reitoria de Extensão e Cultura
(PROEC) e destina-se a proporcionar condições adequadas para o desenvolvimento de
projetos de educação, cultura e lazer para o público de Campinas e Região Metropolitana.
A denominação Centro Cultural de Inclusão e Integração Social consolida o perfil

50
sociocultural das ações desse órgão, na direção de criar, promover e consolidar-se como
um espaço de ofertas públicas de bens culturais, vinculados à promoção da causa da
emancipação humana, a partir da natureza da Universidade e seus participantes.

Figura 27 - CIS-Guanabara

Fonte: http://www.cisguanabara.unicamp.br/inst.htm

Na cidade de Piracicaba, além do campus da FOP, existe o edifício em que hoje está
o Colégio Técnico de Próteses, que também é do Governo sob a concessão da Unicamp e
que é um edifício tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Piracicaba.

51
Figura 28 - Colégio Técnico de Próteses de Piracicaba em 2018 e em 1960

Fonte: Google Maps e https://www.expo50anos.unicamp.br/2/unidade/10/fop

No decorrer dos anos, no entanto, não se instituiu uma cultura intencional de


conservação e valorização de edifícios e espaços abertos considerados de valor histórico e
cultural da Unicamp. Considerando a importância dos espaços e edificações como parte
representante da história da Universidade, a valorização e a conservação desses espaços
mostram-se fundamentais. Para isso, deverá ser efetuado um levantamento sistemático

52
para caracterização desse patrimônio, visando subsidiar o Plano Diretor na tomada de
decisão sobre as formas de intervir, manter e/ou preservar esse patrimônio.

53
3.2. Infraestrutura urbana

Os recursos essenciais ao pleno funcionamento de uma universidade são aqueles


relacionados à infraestrutura que mantém o sistema ativo, tais como abastecimento de
água, coleta de esgoto, drenagem, energia e comunicação, incluindo também toda a cadeia
de manejo de resíduos até o tratamento e a destinação final. Portanto, trata-se nesse item
o saneamento, a energia elétrica e a tecnologia da informação e comunicação dos campi.
Como panorama geral no campus Zeferino Vaz, tem-se que a maior parte ocupada
do território possui infraestrutura de redes antigas que necessita manutenção e
atualização. Existem áreas no campus totalmente desprovidas de infraestrutura,
dificultando o planejamento urbano e a estimativa de custo e de tempo de implantação de
novos empreendimentos. Também foram identificados pontos sujeitos a alagamento,
cursos d’água e redes de água pluvial contaminados por ligações indevidas de esgoto,
prejudicando ainda mais um sistema já defasado.
A ausência de cadastro adequado das redes, a diversidade de bases de dados e
sistemas de informações e a diluição da responsabilidade sobre a gestão das mesmas (DSIS,
DMAN, DEPI e CCUEC) ocasiona dificuldade de planejamento, tanto na identificação de
problemas como na elaboração de um plano de melhorias. Além disso, a falta de um plano
conjunto de manutenção preventiva das redes acaba por prejudicar a integridade dos
espaços urbanos e edificações quando demandam intervenções emergenciais. Nesse
sentido, o Acervo Físico-Georreferenciado da Unicamp, em construção pela DEPI, auxiliará
a unificar as informações e subsidiar o planejamento.

3.2.1. Saneamento

O sistema de saneamento do campus Zeferino Vaz pode ser categorizado em:


abastecimento de água potável, coleta de água pluvial e coleta de esgoto. As questões
vinculadas às águas fluviais e barragens são tratadas no item de sub bacias na área de
planejamento de meio ambiente.

54
Em termos de abastecimento de água potável, no campus Zeferino Vaz, a SANASA
é responsável por cerca de 70% do abastecimento, incluindo a área do Hospital das Clínicas
da Unicamp e outras áreas acadêmicas. O restante do abastecimento é completado pela
água proveniente de poços artesianos. Considerando os problemas climáticos e suas
recorrentes secas, os poços artesianos significam uma reserva estratégica de
abastecimento do campus.

Figura 29 – Mapa de rede de abastecimento de água potável

Fonte: DEPI/Geo 2019

55
Tanto a distribuição de água como a coleta de esgoto ocorrem por redes da
Universidade sob responsabilidade de manutenção da Prefeitura do campus através da
Divisão de Sistemas (DSIS). A responsabilidade da manutenção interna ao edifício é da
unidade a que pertence, através de mão de obra própria, terceirizada ou ainda por
solicitação à Divisão de Manutenção ou à Divisão de Sistemas. A Sanasa é responsável pelo
afastamento e tratamento do esgoto coletado.
O Sistema de Drenagem é definido como o conjunto formado pelas características
geológico-geotécnicas e do relevo e pela infraestrutura de macro e micro drenagem
instaladas.
São componentes do Sistema de Drenagem:
• Fundos de vale, linhas e canais de drenagem, planícies aluviais e talvegues;
• Elementos de micro drenagem, como guias, sarjetas, meio-fio, bocas de lobo,
tubulações, entre outros;
• Elementos de macrodrenagem, como canais naturais e artificiais, galerias e
reservatórios de retenção ou contenção e dissipadores de energia;
• Sistema de áreas protegidas, áreas verdes e espaços livres.
O sistema de drenagem do campus Zeferino Vaz está sob responsabilidade do Plano
Diretor Integrado da DEPI, sendo que a Prefeitura do Campus, através da Divisão de
Sistemas - DSIS e da Divisão de Manutenção -DMAN, com auxílio da Divisão de Meio
Ambiente - DMA, realiza a manutenção da rede de drenagem.
A área de contribuição do sistema de drenagem ultrapassa os limites do campus e
como um todo passou por grande modificação urbanística nas últimas décadas,
ocasionando aumento da impermeabilização do solo, acelerando a velocidade de
escoamento superficial e agravando o uso de condutos e canais.
Entre os principais problemas identificados destacam-se:
• Ocupação de áreas naturalmente sujeitas à alagamento;
• Ampliação sem controle de áreas impermeáveis;
• Áreas com deficiência de drenagem.

56
3.2.2. Energia Elétrica

A principal fonte de energia dos campi da Unicamp é a elétrica, ligada a rede de


energia da concessionária que atende a cidade de Campinas. Existe uma iniciativa para
geração de energia através de painéis fotovoltaicos, em um projeto piloto organizado pela
Câmara Técnica de Gestão de Energia, em parceria com a Companhia Paulista de Força e
Luz (CPFL), chamado Campus Sustentável.
A energia do campus Zeferino Vaz é fornecida pela CPFL em uma subestação de alta
tensão. A Prefeitura do Campus, através da Divisão de Sistemas, é responsável pelo
recebimento, transformação para média tensão e distribuição, manutenção e adequação
pelo campus através de uma rede própria. A responsabilidade pela manutenção da rede
interna aos edifícios é da unidade, através de mão de obra própria, terceirizada ou ainda
por solicitação a Divisão de Manutenção ou Divisão de Sistemas.
O panorama da energia elétrica do campus Zeferino Vaz indica que:
• Edifícios existentes, especialmente os mais antigos, não possuem projetos elétricos;
• 70% das cabines elétricas existentes estão superadas e/ou fora das normas;
• Inúmeras obras elétricas ocorrem no campus sem conhecimento da DSIS,
resultando em falta de integração do planejamento e da base de dados;
• Falta micromedição em muitos edifícios.

3.2.3. Tecnologia da Informação e comunicações

O Centro de Computação da Unicamp (CCUEC) provê os serviços de Tecnologia da


Informação e Comunicação (TIC) para a Universidade Estadual de Campinas:
• Desenvolvimento dos sistemas de informação;
• Hospedagem e operações do Datacenter;
• Redes, infraestrutura e telecomunicações;
• Suporte e consultoria.

57
O CCUEC é responsável pelo fornecimento e suporte das redes de dados que
permitem a interconexão dentro da universidade e o acesso remoto de alunos, docentes e
funcionários.
O panorama do campus Zeferino Vaz indica que não existe um mapeamento
sistemático das redes de telefonia e que, em sua maioria, está obsoleta e não funcional. O
Centro de Computação (CCUEC) mantém atualizado o mapeamento das redes de dados de
sua responsabilidade no campus e está realizando a substituição gradativa das redes
antigas de telefonia por cabeamentos óticos e metálicos. Nesse sentido, a responsabilidade
pelos cabeamentos é do CCUEC, mas ainda não há definição do órgão responsável pela
manutenção das redes de dutos secos de telecomunicações.
A Prefeitura do Campus está realizando projetos-pilotos para implantação de
Internet das Coisas através do Projeto Smart Campus: instalação de dispositivos nos postes
de iluminação pública para telegestão; sensores para controle do consumo de energia nas
edificações; sensores em dois ônibus circulares; proposta para implantação de sensores
para monitoramento animal, irrigação e controle de filas de restaurante. Ainda assim, é
necessário consolidar os conceitos de Smart City e IoT nos campi. Este projeto tem como
objetivo utilizar o conceito de Internet das Coisas na Unicamp de modo a obter informações
para uma inteligência de controle mais eficiente e tomada de ações mais assertivas, de
forma que tornem nosso dia a dia no campus mais produtivo.

3.2.4. Resíduos

A Unicamp gera grande quantidade e diversidade de resíduos e para isso, existe um


Plano de Gestão de Resíduos - PGR em processo de consolidação pela Câmara Técnica de
Gestão de Resíduos. O programa tem por objetivo elevar o desempenho ambiental da
Universidade, atender os requisitos da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS) e das
demais leis ambientais, bem como, adotar as melhores práticas para prevenir a geração de
resíduos sólidos e causar o menor impacto ambiental possível decorrente de suas
atividades

58
O PGR atua em toda a cadeia de manejo de resíduos até o tratamento e a destinação
final, assim como em ações de conscientização, visando reduzir a geração na fonte. Faz
parte dessa política a corresponsabilidade do gerador e o conhecimento do manejo do
resíduo pelos usuários.
O PGR e os programas relacionados estão disponíveis e devem ser de conhecimento
de toda a comunidade universitária:
- Plano de Gestão de Resíduos - PGR6
- Programa de Gestão de Resíduo - PGRB7
- Programa de Gestão de Resíduos Químicos - PGRQ
A limpeza urbana e a coleta seletiva estão sob responsabilidade da Prefeitura do
campus, através da Divisão de Meio Ambiente – DMA, contemplando os serviços de
varrição de áreas comuns e limpeza dos pontos de coleta de lixo, entre outros.
O serviço de coleta seletiva é responsável por coletar papel, papelão, plástico, metal,
vidro, madeira (pallets e embalagens de madeira), cartuchos, toners e lâmpadas
fluorescentes gerados nas Unidades/Órgãos. Atualmente a coleta é feita em 87 pontos
dentro do campus e sob demanda, por ordem de serviço.
Existem pontos que necessitam melhorias e devem abranger projetos específicos
relacionados aos resíduos nos campi:
• necessidade de minimizar a geração e intensificar a reciclagem;
• necessidade de intensificação dos programas para redução da geração de resíduo
perigoso;
• resíduo urbano no campus é destinado ao aterro sanitário, sem nenhum tipo de
reaproveitamento;
• a recuperação de solventes de uso laboratorial é parcial;
• necessidade de consolidação do Plano de Gerenciamento de Resíduo de Construção
Civil;

6
http://www.ggus.depi.unicamp.br/wp-content/uploads/2016/03/PGR-07-11-16.pdf
7
http://www.ggus.depi.unicamp.br/wp-content/uploads/2016/03/PGRB-09-11-16.pdf

59
• não há reaproveitamento de resíduos de poda e de resíduos de alimentos
provenientes dos restaurantes universitários.

60
3.3. Meio ambiente

Nesta área de planejamento do Plano Diretor Integrado, trata-se das questões


ambientais nos campi da Unicamp: a configuração das sub bacias e a permeabilidade; as
áreas de preservação e a arborização urbana do campus Zeferino Vaz.

3.3.1. Sub-bacias da Unicamp – campus Zeferino Vaz

O campus Zeferino Vaz está localizado na micro bacia do Ribeirão das Pedras,
pertencente à bacia do Ribeirão das Anhumas, formado pelos rios Mato Dentro, Proença,
e Lago do Café, que nascem e/ou percorrem a região central do município de Campinas e
que, por sua vez, está na grande bacia do Piracicaba, Capivari e Jundiaí – PCJ.
Para compor as áreas de contribuição para os córregos canalizados do campus, foram
delimitadas cinco micro bacias através da topografia, como pode ser visto na Figura 30.
Essa delimitação extrapola os limites do território da Universidade, demandando um
planejamento integrado com a Prefeitura do Município de Campinas nas tomadas de
decisões, considerando que a área é de ocupação consolidada e impermeabilizada e que
há grande contribuição no escoamento de águas pluviais para as lagoas do Parque
Professor Hermóneges de Freitas, mesmo local onde desembocam os córregos canalizados
do campus Zeferino Vaz.
Estudos realizados nas micro bacias da Unicamp, ainda que preliminares e genéricos,
indicam que a permeabilidade atual das áreas de contribuição varia entre 57% e 70%.
Porém, quando se considera cada uma das quadras do campus, estudos indicam que
enquanto algumas quadras, afastadas das áreas de ocupação inicial da Unicamp, como as
quadras 41 e 42, apresentam permeabilidade acima de 90%. Outras quadras, que
representam áreas de ocupação inicial e urbanização consolidada, apresentam
permeabilidade abaixo de 25%, como pode ser visto na Figura 31.

61
Figura 30 - Mapa de micro bacias da Unicamp com delimitação por vias e limites

Fonte: DEPI, 2018.

62
Figura 31 – Permeabilidade por quadras no Campus Zeferino Vaz

Fonte: DEPI, 2018

63
3.3.2. Áreas de preservação permanente e protegidas

As áreas verdes destinadas à preservação e à proteção têm ênfase na conservação


dos recursos naturais e da biodiversidade, cujas funções principais são a proteção do solo
e cursos d’água, interceptação de águas das chuvas, refúgio para a alimentação e
reprodução da fauna, formação de áreas de conectividade entre remanescentes florestais,
regulação do microclima e valorização da paisagem do campus, proporcionando sensação
de bem-estar à comunidade.
Dentro deste escopo, temos no campus as seguintes situações:
• Áreas de preservação permanente: instituídas pela Lei 12.651 de 25 de maio
de 2012 e que consistem em espaços legalmente protegidos, ambientalmente frágeis
ou vulneráveis, podendo ser públicas ou privadas, urbanas ou rurais, cobertas ou não
por vegetação nativa.
• Áreas verdes protegidas: são espaços não necessariamente frágeis ou
vulneráveis, que estão fora dos limites legais previstos, mas que foram destinados à
preservação ambiental, recebendo os plantios compensatórios em cumprimento a
Termos de Compromisso Ambiental da Universidade, sendo averbados como áreas
verdes protegidas e tendo, portanto, o mesmo regime de utilização das áreas de
preservação permanente.
Estes espaços abrigam espécies nativas da fauna e da flora e em sua maioria
encontram-se protegidos (áreas parcialmente cercadas) de forma a evitar que a fauna
transite pelas ruas e avenidas, mas permitindo seu deslocamento pelas áreas de
preservação ambiental e para as áreas externas ao campus.
De maneira geral, não são permitidas obras para urbanização e edificação nestas
áreas e seu acesso é restrito, a fim de proteger a biodiversidade e prevenir a comunidade
do contato com animais peçonhentos e vetores de doenças, como o carrapato estrela por
exemplo, transmissor da febre maculosa. São proibidas também quaisquer atividades de
interação direta com a fauna e flora, salvo em situações de pesquisa com as devidas
autorizações legais.

64
Nestas áreas são permitidas atividades educativas e de pesquisa, bem como ações de
manejo para a conservação, como manutenção de aceiros, controle de espécies exóticas
invasoras, plantios de enriquecimento, dentre outras, observando-se as regras e cuidados
necessários.
Dentro do contexto de conservação da biodiversidade, o planejamento das áreas
verdes do campus deve estar em consonância com as legislações federal, estadual e o Plano
do Verde do município de Campinas, favorecendo a conectividade entre as áreas de
preservação ambiental do campus com os fragmentos florestais das áreas externas,
permitindo o fluxo gênico de fauna e flora.

3.3.3. Áreas verdes destinadas a experimentação

São espaços verdes destinados às pesquisas científicas e trabalhos acadêmicos, como


os campos experimentais localizados na FEAGRI (Faculdade de Engenharia Agrícola), por
exemplo.
Estas áreas seguem regulamentações específicas, de acordo com as finalidades a que
se destinam, sob responsabilidade da Unidade onde estão inseridas.

3.3.4. Áreas verdes destinadas ao uso comum

São espaços verdes destinados predominantemente ao lazer e recreação, para uso


direto da comunidade, onde estão incluídas:
• Praças
- Praças para recreação, com estrutura para permanência de pessoas: Praça da Paz,
Praça do Ciclo Básico, Praça das Bandeiras – Reitoria e Praça Milton Santos.
- Praças de finalidade paisagística (rotatórias), onde não há estrutura para
permanência de pessoas: Praça Henfil, Praça Carlos Drummond de Andrade e Praça Pau-
Brasil.
• Bosques

65
- Bosque da FEF (Faculdade de Educação Física), formado por árvores de espécies
nativas e exóticas, fornece estrutura para atividades esportivas.
• Jardins e áreas de vivência nas unidades
- Área de vivência do IMECC
- Jardim do IQ
- Área de vivência do IEL
- Área de vivência do IFCH
- Áreas ajardinadas da FCM
- Entre outros
• Arborização de vias

A arborização das vias da Universidade abriga uma coleção de espécies nativas e


exóticas que foram introduzidas no campus desde a época do antigo Parque Ecológico, sob
coordenação do Professor Hermógenes Leitão Filho. Esta diversidade da flora fornece
condições de alimento e abrigo para diversas espécies de aves e abelhas. As árvores
presentes nas vias e calçadas, além de embelezar o campus, contribuem para a melhoria
da qualidade do ar e para a amenização da temperatura do meio urbano, favorecendo a
criação de um ambiente agradável e estimulando as pessoas a caminharem e
permanecerem nas áreas externas.
A distribuição desta arborização é predominante nas áreas de ocupação mais antiga,
onde existem áreas bem sombreadas com a presença de alamedas de árvores adultas,
como a Rua Cândido Portinari, por exemplo, enquanto há deficiência de cobertura arbórea
em áreas de urbanização mais recentes, próximos aos prédios da Inova, por exemplo.
Os conflitos existentes entre a arborização e equipamentos/mobiliários urbanos,
como calçadas, redes subterrâneas, aéreas, iluminação, resultam na mutilação e
erradicação de árvores, com o consequente comprometimento de muitas de suas funções.
Muitas dessas situações ocorrem como resultado da falta de um planejamento conjunto,
que compatibilize a implantação destas estruturas e da arborização.

66
3.4. Mobilidade Urbana e Acessibilidade

A natureza do campus Zeferino Vaz

Atualmente, o campus Zeferino Vaz é um ambiente urbano onde circulam


aproximadamente 50.000 veículos e 80.000 pessoas diariamente (excluindo finais de
semana), segundo informação da SIC – Secretaria de Informação ao Cidadão. Tendo em
vista esses números e a localização da Unicamp no contexto urbano, com proximidade às
rodovias intermunicipais Dom Pedro I, Governador Adhemar Pereira de Barros e Professor
Zeferino Vaz, é possível afirmar que o campus possui natureza geradora de tráfego bem
como se configura como passagem de ligação entre áreas importantes da cidade de
Campinas, além disso mantém relação importante com a região metropolitana que inclui
seus 20 municípios. Muitos deles residências de funcionários, alunos ou de usuários dos
serviços que a universidade dispõe.

Figura 32 – As rodovias e o campus Zeferino Vaz

67
Fonte: Google Maps, 2018

A natureza formal do projeto urbano inicial desse campus, no qual a praça do Ciclo
Básico estabelece-se como o centro e as primeiras vias seguem o desenho circular
enquanto as demais saem em raios, não propicia uma rápida compreensão espacial para
os usuários, causando, inclusive, desorientação. Aliada à uma sinalização incompleta e falta
de boa comunicação visual para as edificações é comum que os usuários se sintam perdidos
no campus, seja caminhando ou se locomovendo de bicicleta, automóveis e ônibus.

68
Figura 33 - Ruas e Avenidas do campus Zeferino Vaz e o partido urbanístico

Fonte: DEPI, 2018.

Os demais campi apresentam os mesmos problemas de sinalização, mas dada a


diferença de dimensões não se configura um problema de orientação, porém todos eles
são geradores de tráfego nos bairros em que se inserem e mantém relação muito próxima
com o entorno.

69
Sobre chegar ao campus Zeferino Vaz
O Campus principal da Unicamp dispõe de 6 portarias em uso, a P01 – da FEF – a
P02 –, FEA -, a P03 - da Central de informações, P04 – da Prefeitura do campus, P05 – HC,
P06 – Creche e Sérgio Porto e P07, a ligação com a Fazenda Argentina, que está desativada.
Para chegar às portarias que dão acesso à universidade, algumas avenidas do entorno se
configuram como ligação de acesso nem sempre fluidas.

Figura 34 - Conexões de fluxos de veículos com a cidade

2 1

Fonte: DEPI, 2018.


De acordo com o mapa da Figura 34, ao Sul, o principal acesso é a Avenida
Guilherme Campos que liga a Unicamp à Rodovia D. Pedro I, nos horários de pico ela chega
a parar as pistas de subida no trecho que se aproxima da Praça Dr. Carlos Foot Guimarães,
indicado pelo item 1, e em casos especiais, como greve chega a parar a Rodovia. Além das
portarias descritas, à noroeste, há a antiga ligação entre o campus e a Fazenda Argentina,
no momento sendo utilizada apenas quando solicitado e à sudoeste, há a entrada pela
Rodovia Mogi-Mirim Rua Ricardo Benetton Martins, indicado pelo item 3, que atualmente

70
faz a ligação ao Parque Tecnológico de Campinas e dá acesso à sede da Fazenda. A entrada
de Barão Geraldo pela Praça General Dom José de San Martim, indicado pelo item 2,
alimenta a Romeu Tórtima, não menos complicada. Ao Norte, a entrada da FEF é
alimentada principalmente pelas avenidas: Prof. Atílio Martini, Francisco de Toledo e a que
alimenta o balão Henfil, a Av. Martin Luther King, todas elas têm o fluxo prejudicado nos
horários de entrada e saída.

Figura 35 – Mapa com indicativos de trânsito típico às 8:00

Fonte: DEPI, 2018. Fonte: Google, 2018

71
Figura 36 - Mapa com indicativos de trânsito típico às 17:00

Fonte: DEPI, 2018. Google, 2018

À oeste, as Avenidas Romeu Tórtima e Roxo Moreira e sua Extensão, a Av. Martin
Luther King são utilizadas como vias de passagem entre as portarias 03, 04 e 05, pois os
veículos utilizam esse trecho para chegar à Barão Geraldo, utilizando o campus como rota
de passagem, conforme Figura 37.

72
Figura 37 – Fluxos de trânsito – Unicamp como rota de passagem

Fonte: DEPI, 2018.

3.4.1. Meios de Transporte

Transporte Municipal e Intermunicipal


Campinas oferece um sistema de transporte coletivo de acesso à universidade
considerado ineficiente pela comunidade. Atualmente apenas 8 linhas municipais atendem
o campus e o terminal de Barão Geral e 7 linhas intermunicipais, fazendo percursos de 9
dos 20 municípios da RMC. Como parâmetro, o Shopping Pq. D. Pedro é atendido por 13
linhas municipais e 8 linhas intermunicipais.

73
• Municipal - Linhas 2.10-2 - 2.66 - 3.29 (Área da Saúde, Administrativa e Acadêmica)
- 3.30 (Área Acadêmica) - 3.32 (Área da Saúde) - 3.36 (Área da Saúde e Administrativa)
- 3.37 (Área Acadêmica) - 3.39 ("Corujão")

Figura 38 – Linhas de transporte público municipal que atendem à Unicamp

Fonte: DEPI, 2018.

• Intermunicipal - Americana (642) - Cosmópolis (607) - Hortolândia (653/746) -


Jaguariúna (715) - Nova Odessa (642) - Paulínia (607) - Sumaré (642/652/653/746) -
Valinhos (724) - Vinhedo (724).

74
Figura 39 - Linhas de transporte público intermunicipal que atendem à Unicamp

Fonte: DEPI, 2018.

Transporte por fretados


Atualmente 2.892 pessoas utilizam o sistema de fretados diariamente, não há local
específico para estacionamento desses 510 ônibus distribuídos em 800 linhas, muitos
estacionam no estacionamento do CDC/Ginásio e a maioria não permanece no campus
após o percurso.

75
Figura 40 – Linhas de transporte Intercamp – Limeira-Campinas

Fonte: DEPI, 2018.

Trânsito interno e Fluidez

O campus principal conta com ruas e avenidas e não apenas de acessos locais como
os demais campi. Assim, ocorre a repetição dos problemas urbanos das cidades dentro
dele, tais como, falta de fluidez em horários específicos (Fig. 40), congestionamentos em
alguns casos e impedimentos de trânsito em greves e outros. Há a necessidade de estudos
mais aprimorados de fluxo externo para otimizar o interno, além de incremento no
transporte público com novas modalidades para atrair o usuário de veículos individuais.

76
Figura 41 – Fluxos de trânsito internos

Fonte: DEPI, 2018.

O campus não dispõe de terminal de ônibus (municipais/ intermunicipais/ fretados)


e essa carência é mais fortemente percebida na Área da Saúde; A pouca interação do
transporte municipal e a universidade contribui para a utilização de veículos individuais e
não o contrário. Entendimentos permanentes com a Prefeitura de Campinas podem
melhorar os serviços de transporte urbano no campus e estimular a utilização do
transporte público.

Transporte entre Campus e Moradia

O transporte circular interno é gratuito e cobre toda a área do campus e moradia


estudantil. No entanto, é visto como inadequado pelos usuários por diversas razões:
conforto, ruídos, demora, percursos, ausência de alternativas de tipologias ou modais,
mobiliário urbano inexistente ou inadequado, além de falta de pontos de ônibus e outros
deteriorados.

77
Figura 42 – Trajetos dos circulares internos da Unicamp – Campus Zeferino-Moradia Estudantil

Fonte: DEPI, 2018.

Transporte Circular Interno

O transporte circular interno é gratuito e cobre toda a área do campus e até


moradia. No entanto visto como inadequado pelos usuários por diversas razões: conforto,
ruídos, demora, percursos, ausência de alternativas de tipologias ou modais, mobiliário
urbano inexistente ou inadequado, além de falta de pontos de ônibus e outros
deteriorados.
Com uma área de 2.454.842,78 m², o campus sede necessita de um sistema de
circular interno que atenda às necessidades do usuário. O atual modelo abrange o campus
como um todo com duas linhas em ida e volta e uma linha noturna diferente atendendo os

78
institutos e serviços que se mantêm funcionando. Os ônibus utilizados são de modelo
urbano, com 60 lugares. Além das informações oferecidas pelo site da Prefeitura, tais como
horários, descrição das linhas e localização real por GPS, é oferecido no aplicativo Unicamp
Serviços, para ser consultado por smartphone, desde fevereiro de 2018. A funcionalidade
foi desenvolvida dentro do Projeto Smart Campus e contempla, nesse primeiro momento,
os trajetos 1 e noturno.

Figura 43 - Rotas de ônibus circulares internos – Mapas de localização real

Fonte: https://www.prefeitura.unicamp.br/servicos/diretoria-de-servicos-de-transporte/mapa-
circulares

Será necessário levantamentos qualitativos e quantitativos para sugerir melhorias


nesse sistema, tais como o estudo de: novos modais para atender necessidade específicas,
como atendimento de pequenas distâncias para a PCD; sistemas eficientes e sustentáveis
de entregas de materiais de outras unidades (Coleta do HC, Restaurantes, Laboratórios,
etc.); melhoria do mobiliário urbano, ajustes de frequência, melhoria de pontos de ônibus
e comunicação visual, mapas físicos, melhorar divulgação dos Apps, etc.

3.4.2. Ciclovias e Ciclofaixas

Podemos afirmar, mesmo sem um levantamento quantitativo no campus que o


número de usuários de bicicletas é expressivo. Diversas ações foram realizadas nos últimos
anos com o objetivo de estimular o seu uso, tais como o MOBIC – experiência de aluguel
de bicicletas que funcionou por alguns meses e foi interrompido por problemas na gestão,
criação de ciclovias, praça do ciclo básico, etc, polo.

79
Figura 44 - Ciclovias e ciclofaixas existentes

Fonte: DEPI, 2018.

Tendo em vista a sustentabilidade como eixo central do PD-Integrado, cabe ressaltar


a importância da implantação das ciclovias e ciclofaixas projetadas para o campus, como
consta Figura 44, bem como sua interligação com o entorno da universidade,
especialmente, com a moradia estudantil. Para isso, também deve haver a infraestrutura
para atendimento dos ciclistas, como bicicletários e paraciclos. Nesse sentido, o mapa da
Figura 45 apresenta pontos estratégicos informados pelo aplicativo Unicamp Serviços, com
possibilidade de transporte de bicicletas nos ônibus circulares internos e disponibilidade

80
de um guia educativo, em que constem as indicações do Código de Trânsito Brasileiro e
cartilha.
Figura 45 – Pontos sugeridos para paraciclos e bicicletários

Priorizar a implantação de ciclovias e ciclofaixas de acordo com o fluxo principal,


interligação de trechos existentes, a ser levantado. Implantar placas de sinalização
informando usos de bicicletas e pedestres compartilhados e veículos e bicicletas.
Recuperação das áreas já revitalizadas que foram desvirtuadas no seu uso original
projetado – Exemplo RU e adjacências, além de propor a revitalização das ciclovias e
ciclofaixas já implantadas pela Prefeitura Municipal de Campinas em Barão Geraldo,
conforme Figura 46 e solicitar a continuidade de implantação do plano.

81
Figura 46 – Trajetos das ciclofaixas e ciclovias do Distrito de Barão Geraldo

Fonte: Plano Local de Gestão da Macrozona 3, 2006

3.4.1. Calçadas, caminhos e travessias

Nos últimos 15 anos foram implantadas 18 passagens em nível, foram criadas


ciclovias e ciclofaixas, além de realizadas algumas revitalizações de calçadas e praças, mas
apesar dessas intervenções em prol do pedestre nos últimos anos, ainda prevalece o
espaço veicular sobre o espaço do pedestre.

82
Figura 47 - Mapa de levantamento de calçadas

Fonte: DEPI, 2018.

Em 2018 a Prefeitura do Campus e a DEPI realizaram um levantamento das calçadas


no campus sede da Unicamp e o resultado foi de 78,30% de calçadas já existentes. O que
seria uma boa notícia em números não se reflete na concepção do pedestre. Desse valor,
57,4% são de calçadas em piso cimentado. Não obrigatoriamente acessíveis, nem mesmo
adequadas aos pedestres. Ao somarmos esse valor ao das quadras sem calçamento

83
(21,6%), temos que: 79% das calçadas não contemplam as questões de mobilidade no
campus. O padrão desenvolvido pela Unicamp na Coordenadoria de Projetos e Obras (CPO)
utiliza os princípios de acessibilidade e de mobilidade urbana para seus projetos, mas
atualmente, apenas 20,9% das calçadas atendem esses requisitos e dessas, 10% estão em
áreas sub-ocupadas.
As calçadas da Unicamp possuem diferentes padrões, de acordo com o período em
que foram construídas e suas exigências: larguras, recuos, materiais, continuidade e
acessibilidade. Essa diversidade e a falta de qualidade da situação atual levaram a CPO a
criar um padrão de calçadas em 2011, porém dada a natureza das execuções de obras por
demanda, grande parte do padrão foi implantado quando da construção de novos edifícios.
Desse modo, elas se encontram sem continuidade no campus. Além disso, dada a falta de
institucionalização por parte da administração superior do padrão de calçadas, ele não tem
sido seguido amplamente, tendo muitos trechos sido construídos em concreto, por
exemplo.
Os novos padrões foram propostos considerando a necessidade de aumento da taxa
de permeabilidade do campus, com o uso de blocos intertravados de concreto em
diferentes espessuras, de acordo com o tipo de tráfego. Apesar de existirem diferentes
padrões de larguras e composição das calçadas, a recomendação é de uso de rotas
acessíveis, com faixas de piso podotátil e inclinação suficiente para o deslocamento de
cadeirantes e pessoas com baixa mobilidade. Além disso, os passeios devem ter, no
mínimo, 1 metro de largura e recomenda-se que estejam recuados pelo menos 1 metro da
guia a fim de criar uma faixa para posteamento, sinalização e passagem de infraestrutura.
As calçadas devem ter rotas contínuas, com faixas de pedestres elevadas e com
rebaixamento nas calçadas. Para possibilitar a arborização dos passeios, as calçadas devem
possuir espaço adequado para acomodação das árvores. Este espaço deve estar livre de
redes subterrâneas e demais interferências. A seleção das espécies a serem plantadas e
seu espaçamento deverá ser realizada pela área competente – DMA/Prefeitura, onde o
porte deverá estar em conformidade com a largura da calçada, recuo das construções e
interferências de entorno, e as características da espécie (tipo de flor, fruto, folhas, entre
outras) em conformidade com as particularidades de utilização da área (árvores com

84
potencial de atração para morcegos não devem ser plantadas próximo às áreas da saúde,
por exemplo).
Outro aspecto importante dos caminhos na Universidade se trata da dificuldade do
pedestre em transpor grandes quadras que apresentam cercamento, como demonstra o
mapa abaixo. Percursos que seriam rápidos e curtos aos pedestres, são interrompidos com
cercas e impedem esse trânsito, estimulando a utilização de veículos em muitos casos. Os
casos mais emblemáticos são da Faculdade de Engenharia Agrícola e quadras próxima ao
HC.

Figura 48 - Mapa de barreiras físicas para pedestres

85
Fonte: DEPI, 2018.

3.4.2. Estacionamentos

A Unicamp possui uma série de estacionamentos com vistas a facilitar o


deslocamento dos usuários de automóveis. Como pode ser visto na Figura 48, a maioria
dos estacionamentos são de uso público e alguns são fechados, de uso restrito a
funcionários e docentes de determinadas unidades.

Figura 49 - Mapa de estacionamentos existentes no campus Zeferino Vaz

Fonte: DEPI, 2018.

86
O PD Integrado não recomenda a ampliação das áreas de estacionamento nas
regiões de ocupação urbana consolidada. As necessidades de novas vagas devem ser
resolvidas nas quadras dos novos edifícios ou em bolsões de estacionamento verticais
(vamos mesmo propor isso?) atendidos pelo sistema de circular interno.
Para novos empreendimentos dentro do campus, recomenda-se que a cada 50m²
de construção seja prevista uma vaga de estacionamento, preferencialmente com piso
permeável e descoberta. Recomenda-se também que, gradualmente, os pisos
impermeáveis dos estacionamentos existentes sejam substituídos por pisos permeáveis e
que haja o plantio de vegetação arbórea nos arredores das vagas para conforto ambiental
de usuários. Além disso, os edifícios que demandarem carga e descarga de materiais de
grande porte ou perigosos devem ter pátio previsto em sua área de intervenção.
Com o objetivo de reduzir o tráfego intenso de veículos na região da área da saúde
e nas demais regiões indicadas nos mapas da Figura 41, foi realizado o mapeamento dos
bolsões de estacionamento existentes no campus Zeferino Vaz, bem como os possíveis
locais para instalação de novos bolsões de estacionamento que pudessem comportar os
veículos particulares para que veículos coletivos realizassem o transporte de pessoas para
áreas de maior fluxo.

87
Figura 50 – Bolsões de estacionamento no campus Zeferino Vaz

Fonte: DEPI, 2019

3.4.3. Acessibilidade especifica à pessoa com deficiência

Em análise dos dados do censo de 2010, o Brasil tem mais de 23% da população com
algum tipo de deficiência. Esse número tende ainda a aumentar dado o aumento da
expectativa de vida, considerando que pessoas após os 60 anos tendem a apresentar ao
longo do tempo, problemas de audição, visão ou de mobilidade. Desde de 2000, há leis que
definem a adequação do existente e cria regras para as novas obras. Na época o prazo para

88
essas adequações era de um ano da promulgação da lei, mas a universidade vem tendo
muitas dificuldades em se adequar, a Ouvidoria tem tido diversas reclamações dos
usuários, inclusive com reclamações também ao Ministério Público, as quais têm
reverberado nos setores já citados que tentam atender as demandas em separado, porém,
falta-nos a visão de conjunto e compartilhada, na qual as ações possam ser planejadas e
executadas por cada área em uníssono e tragam um resultado duradouro e de qualidade.
Atualmente, cada um desses setores tem tomado conhecimento das norma e leis e de
suas revisões de maneira própria, sem ações propositivas conjuntas ou de esclarecimento
público e pelas leis é papel da Universidade divulgar e fomentar a inclusão das Pessoas com
deficiência além de estimular ações para dirimir o preconceito. Pode-se garantir hoje que
as obras novas e de reforma/manutenção têm atendido integralmente a norma no que diz
respeito às questões civis, porém muitas especialidades estão ficando de fora, uma vez que
esses órgãos não atuam em todas as especificidades contidas na lei e regulamentada pelas
normas, como exemplo a comunicação visual de edifícios e urbana, a colocação de
tecnologias assistivas. De uma maneira geral, há falta de acessibilidade urbana em
praticamente todo o campus, em maior ou menor grau, inexiste semáforos sonoros, rotas
urbanas completas acessíveis, sistemas de transporte completamente acessível, inclusive
faltam dados sobre as pessoas com deficiência para que a atuação seja mais eficiente.

89
3.5. Vivência e fricção social

O conceito de “fricção social” nasceu juntamente com a proposta pedagógica da


Unicamp. João Carlos Bross, autor no plano urbanístico original para o campus, a define
como “oportunidade de relacionamentos interpessoais que caracterizam a vivência
universitária e que resultam na produção de conhecimento”8 (BROSS, 2017).
O estabelecimento, pela COPLAN, nos anos de 1960, de que o modelo físico mais
adequado para a cidade universitária seria aquele com uma configuração radial, na escala
do pedestre, regendo seu processo de construção, visava desde o início garantir que a
proposta pedagógica de integração das diferentes áreas do conhecimento se consolidasse
no território como espaço interdisciplinar, reproduzindo a vitalidade dos grandes centros
mundiais de desenvolvimento científico e cultural.
Esses princípios denotam a intenção clara dos fundadores da Unicamp de criar
oportunidades para que a convivência de pessoas ocorresse no campus de forma
sistemática, extrapolando as atividades convencionais das salas de aula e dos laboratórios.
Nesse enfoque, os espaços do campus vistos como suporte físico da vivência universitária
e da experimentação dos valores de cidadania, que envolve convívio mediante “fricção
social”, solidariedade, cultura e humanismo ganham uma importância estratégica.
A proposta de desenho urbano radial-concêntrico do núcleo central do campus, foi
concebido com os institutos (das Ciências Exatas, Biológicas e Humanas) justapostos, lado
a lado, com seus vértices voltados para a grande praça central do Ciclo Básico e com as
faculdades das engenharias e das ciências aplicadas no segundo nível da estrutura radial,
colocadas no prolongamento dos institutos, conforme a afinidade entre as disciplinas,
como mostra os infográficos da Figura 51.

8
Definição de fricção social” fornecida por Bross à equipe da Diretoria Executiva de Planejamento
Integrado, em reunião ocorrida no segundo semestre de 2017, na DEPI/Unicamp.

90
Figura 51 - Infográficos de Bross - 40 anos de Unicamp

Fonte: Palestra FEC-Unicamp, agosto de 2006.

Ao longo de toda a história da Unicamp e em especial, a partir da inauguração do CB-


1, em 1972, a Praça do Ciclo Básico tem sido ponto referencial de vida pública no campus.
Espaço de vivencia universitária e fricção social por excelência, foi e continua sendo cenário
de importantes eventos políticos e culturais que marcaram a vida da Universidade nas suas
cinco décadas de existência (Figura 52). A interdisciplinaridade e a abertura para a
experimentação, o olhar sobre o conhecimento como algo em permanente construção, a
indissolubilidade entre pesquisa, ensino e extensão, em grande medida representados no
desenho do campus radial-concêntrico, são características que compõe a essência do
ambiente universitário da Unicamp.

Figura 52 - Fotos do CB-I na década de 70 e na atualidade

Fonte: DEPI, 2018.

91
3.5.1. Vivência e fricção social na atualidade

O mapa síntese dos resultados das oficinas de cartografia social9 realizadas pela
Câmara Técnica de Gestão do Ambiente Urbano do GGUS, que representa a percepção da
comunidade universitária em relação ao espaço do campus, ilustra o reconhecimento da
relevância dos espaços de uso coletivo que potencializam a vivência universitária e a fricção
social, pelos participantes das oficinas.

Figura 53 - Mapa resultado das oficinas de cartografia social

Fonte: CTG Ambiente Urbano, 2018.

9
Sobre as oficinas de cartografia social, ver item 3.2 – Análise do relatório das oficinas de cartografia social

92
Dos resultados obtidos, 43,57% correspondem às categorias que tratam de atividades
onde a vivencia universitária e a fricção social ocorrem: Atividades ao ar livre (14,65%),
Cultura (15,26%), Ativismo (2,62%) e Serviços Públicos (11,04), conforme mostra a Figura
54.
Figura 54 - Gráfico dos resultados obtidos nas Oficinas de Cartografia Social

Fonte: DEPI-Geo/Unicamp, 2018.

Morfologicamente, o campus da Unicamp estruturou-se a partir da tradição


americana, diferentemente do modelo europeu, como um espaço anti-urbano, que nasceu
isolado da cidade. Além disso outro aspecto dessa tradição de campus:

... é o entendimento da paisagem como uma linguagem em pé de


igualdade com a linguagem da Arquitetura. A paisagem cultivada é
formalmente conectada a todos os espaços abertos, e não apenas
ao seu edifício adjacente, com o objetivo de definir cenários
variados para interações sociais. A intimidade dos pátios, o caráter
do engajamento social dos jardins, a formalidade das quadras, a
monumentalidade dos gramados e a informalidade dos campos
esportivos são definidos através da disposição arquitetônica dos
componentes da sua paisagem (GARBOGGINI, 2012).

93
No campus Unicamp, esses elementos estavam contemplados no plano urbanístico
original para o núcleo central do campus, onde a escala do pedestre e os espaços de
vivência e interação social entre as edificações eram privilegiados, porém muitas dessas
características originais foram deturpadas no processo de ocupação do campus. Nele a
linguagem da arquitetura das edificações sempre prevaleceu em relação à linguagem da
paisagem. Os espaços abertos sempre foram tratados como espaços residuais, resultantes
da implantação de edifícios autônomos e não integrados ao entorno. Um exemplo dessa
desvalorização dos espaços abertos de uso coletivo pode ser ilustrado com o caso das
quadras do IFCH e IEL:

No projeto para os prédios daquelas quadras que ocupam o


entorno da praça, os edifícios eram articulados, formando praças
internas que integravam os dois institutos por meio da rua, gerando
continuidade e incentivando a interação social entre eles. Essa
proposta de integração espacial entre as unidades, entretanto, foi
descaracterizada ao longo do tempo, com a construção de novos
prédios implantados de forma inadequada, obstruindo vistas,
ângulos visuais importantes e passagens entre lugares estratégicos
(GARBOGGINI, 2012, p.135).

Figura 55 - a) Foto da maquete original mostrando a configuração proposta por Bross para as
quadras do IEL e IFCH (Fonte: SIARQ_UNICAMP). b): Foto de trecho da maquete do campus, na
década de 2000, mostrando as quadras do IEL e IFCH , com os prédios construídos posteriormente

Fonte: Flavia Brito Garboggini.

O campus é hoje carente de espaços de vivência com mobiliário urbano e


infraestrutura adequada. Os espaços onde são ofertadas essas condições - como por

94
exemplo as áreas que passaram por requalificação na Praça do Ciclo Básico, as academias
ao ar-livre implantadas no campus, entre outros - são amplamente utilizados pela
comunidade universitária.

Figura 56 - Fotos das áreas requalificadas da Praça do Ciclo Básico

Fonte: ASCOM/Unicamp

A falta de segurança gerada pela criminalidade urbana, que atinge também o campus,
inibe a utilização dos espaços abertos, principalmente no período noturno, mas observa-se
que as áreas de convívio equipadas adequadamente, com iluminação apropriada e câmeras
de monitoramento são bastante utilizadas também no período noturno.

95
Figura 57 - Espaços abertos iluminados

Fonte: GARBOGGINI, 2016.

Faltam, entretanto, informações sistematizadas sobre as manifestações


socioculturais que ocorrem nos campi e políticas abrangentes de incentivo às atividades
sociais dentro da universidade. Existem inciativas promovidas por unidades e grupos
específicos (tais como SAE, SVC, PROEC etc.), com gestões setoriais, que necessitam ser
integradas. Tais atividades acontecem tanto nos espaços formais como nos informais.
No Mapeamento da Acessibilidade Socioambiental (MASA), em desenvolvimento
pela DEPI, dentre outros atributos, está sendo mapeada a intensidade dos fluxos de
pessoas nos espaços abertos de uso coletivo, permitindo detectar com razoável grau de

96
sensibilidade as áreas do campus onde a vivência universitária ocorre de maneira mais
plena e aquelas com potencial para que atividades coletivas venham a ocorrer.
Além dos fluxos de pessoas, o MASA, que adotou como método de análise o Modelo
proposto por Stanford Anderson (1990), mapeou e qualificou os caminhos e passeios do
campus, as barreiras físicas existentes nas quadras, os pontos de acesso aos edifícios, entre
outros atributos que permitem detectar o nível de acessibilidade e os padrões de atividade
de um determinado setor, identificando assim a correlação entre o uso e a forma dos
espaços abertos do campus. O mapeamento demonstra também que regiões do campus
são utilizadas apenas como passagem e não como espaços de permanência de pessoas. No
exemplo ilustrativo da quadra da FEC, observa-se que a área reticulada com textura mais
densa equivale à área de entorno da cantina, ponto de encontro, com maior intensidade
de uso na quadra. A existência de alambrado cercando a quadra direciona os fluxos de
pessoas para os locais onde existem aberturas e portões. Os tipos de pavimento
caracterizam também a existência ou não de calçada, o tipo de pavimento e se ele é
acessível ou não a pessoa com deficiência.

Figura 58 - Detalhes do Mapeamento da Acessibilidade Socioambiental da FEC. Na imagem, à


direita, o mapeamento da intensidade de fluxos de pedestres da quadra, e na imagem à esquerda,
o mapeamento dos caminhos e passeios, das barreiras físicas e acessos

Fonte: DEPI, 2018.

Outra carência vivenciada pelos usuários do campus é a escassez de serviços


essenciais à vida universitária, tais como cantinas, farmácias, papelarias, copiadoras etc.,

97
o que obriga a comunidade universitária a se deslocar para as áreas do entorno do
campus ou para o centro de Barão Geraldo para acessar tais serviços.
Existe ainda o problema relacionado à falta de infraestrutura de apoio aos usuários
das áreas da saúde (pacientes, acompanhantes, motoristas etc.) e a falta de serviços de
comércio com valor mais acessível aos usuários dos hospitais. Para o enfrentamento desta
dificuldade, a Universidade tem buscado apoio do governo municipal e/ou estadual para
instalação do “Bom Prato” (restaurante de baixo custo) na área da saúde. Além disso a
SVC está executando projetos emergenciais, contemplando centro de vivência na área de
entrada do HC com inclusão de infraestrutura de apoio – sanitários e bebedouros, para
atender esse público.
Os espaços destinados às organizações estudantis também são inadequados à
convivência saudável da comunidade discente e necessitam de atenção. A Universidade
oferece o programa “UniversIDADE”, voltado ao público de 3ª idade, mas não possui
infraestrutura física adequada à faixa etária.
Importante apontar também a subutilização ou utilização inadequada de
equipamentos de uso institucional, tais como o Ginásio Multidisciplinar, que abriga o
Centro de Convenções, por dificuldades de manutenção e de adequação às normas
vigentes, uma vez que está em processo de aprovação junto ao Corpo de Bombeiros do
Estado de São Paulo.

3.5.2. Igualdade de gênero

A Unicamp segue em busca da igualdade de gênero e busca locais de representação


no território dos campi que representem segurança e igualdade às mulheres, como locais
bem iluminados e em que haja empoderamento feminino. Hoje existem coletivos
feministas na Unicamp, criados por alunas, que visam alertar para a necessidade da
promoção da igualdade de gênero:
- “Minas do IQ” – Instituto de Química;
- “MUDA – Coletivo de Mulheres da Medicina Unicamp” – Faculdade de Ciências
Médicas;

98
- “Frente Feminista Limeira” – Campus de Limeira;
- “Las Chicas do IE” – Instituto de Economia;
- “MIA – Mulheres do IA” – Instituto de Artes;
- “Rosa Lilás” – fundado por mulheres de diversos cursos;
- “Coletivo Charlotte Perriand” – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo;
- “Grupo Elza – Mulheres do IMECC” – por alunas, professoras e funcionárias do
IMECC
- “Camaleoas” – ProFIS;
- “Chá das Minas” – Instituto de Biologia.

3.5.3. O impacto das redes digitais na estrutura física dos campi universitários

As tecnologias digitais têm sido utilizadas cada vez mais intensamente nas
instituições de ensino e pesquisa, proporcionando comunidades interativas e integradas
em assuntos acadêmicos e possibilitando a comunicação do indivíduo em seu próprio
espaço e tempo. As novas formas de aprendizagem que utilizam essas tecnologias
contemporâneas representam incontáveis benefícios relacionados a mais velocidade na
transmissão das informações e a avanços da qualidade de materiais de ensino e,
consequentemente, dos processos de ensino.
Em paralelo às novas possibilidades trazidas pelas tecnologias da informação, para a
construção do conhecimento, entretanto, é essencial que se continue proporcionando
diferentes formas de comunicação e interação entre as pessoas. Os espaços físicos que
proporcionam a convivência fora das salas de aula, dos laboratórios e computadores,
independentemente das demais formas de comunicação, continuarão sendo sempre
componentes acadêmicos necessários e indispensáveis à formação do indivíduo
(MATURANA; VARELA, 1995). As praças, os espaços culturais e de serviços que agregam
pessoas são elementos essenciais à vida universitária plena, pois integram o processo de
ensino e aprendizagem, possibilitando que indivíduos de diferentes culturas,
nacionalidades e interesses possam conhecer os “iguais” e os “diferentes”, lidar e interagir
de forma concreta com eles.

99
A valorização dos espaços de uso coletivo de um campus deve ser um dos focos de
atenção da universidade para o estabelecimento de ações estratégicas de desenvolvimento
do processo de ensino e aprendizagem de forma global, assim como a preocupação com as
tarefas cotidianas dos alunos, professores e funcionários. Ocorre, entretanto, que
instituições de ensino que disponibilizam as tecnologias digitais tendem a subestimar e, por
vezes, atrofiar o desenvolvimento de espaços comuns de convívio. Ao mesmo tempo,
tradicionalmente nas escolas e universidades brasileiras, por motivos de variadas
naturezas, mas principalmente por questões de ordem econômica, investimentos na
construção de edificações caracterizam-se como prioridade em relação à construção,
tratamento e manutenção dos espaços abertos de uso coletivo. Espaços de convivência e
de integração de pessoas são comumente relegados a planos secundários, sendo deixados
inacabados, em estado de má conservação ou mesmo nem chegando a ser implementados
(GARBOGGINI; et. al., 2010).
No início da década de 2010, ao mesmo tempo em que a Unicamp implementou o
Projeto Rede Sem Fio, que cobre toda a área da Praça do Ciclo Básico, executou também a
primeira etapa do Plano de Requalificação da Praça do Ciclo Básico, conforme Figura 59.
Foi a primeira vez que a Universidade investiu recursos significativos para qualificar um
espaço aberto de uso coletivo no campus. Essas duas iniciativas em conjunto demonstram
o reconhecimento da Universidade sobre a importância estratégica de conciliar vivência
comunitária às novas formas de comunicação possibilitadas pelas tecnologias da
informação.

Figura 59 – Projeto Rede sem Fio e Plano de Requalificação da Praça do Ciclo Básico

Fonte: PRG/PRDU-Unicamp.

100
A Secretaria de Vivência dos Campi, responsável pela segurança, vem trabalhando
para a estruturação de um sistema inteligente de monitoramento por câmeras, visando a
integração dos diferentes monitoramentos que hoje funcionam de forma desintegrada, por
estarem sob responsabilidade de setores independentes. A SVC enfrenta dificuldades para
capacitação de recursos humanos para operação e manutenção.
Além disso, a Universidade desenvolve hoje diversos projetos piloto de IoT e discute
parcerias com outras instituições para tornar o espaço universitário um campus cada vez
mais inteligente (Smart Campus). Em 30 de outubro de 2018, o Grupo Gestor Universidade
Sustentável (GGUS), por meio de sua Diretoria Executiva de Planejamento Integrado (DEPI),
apresentou a Câmara Técnica de Gestão de Campus Inteligente (CTGCIn), que deverá gerir
projetos de inovação tecnológica voltados para soluções em campus inteligentes.

101
3.6. Universidade e sociedade

Cidade e campus de uma universidade pública, segundo Ranieri (2005), são espaços
físicos que abrigam instituições sociais correlatas: o município e a universidade. Essa
correlação se estabelece do ponto de vista de que ambos gozam de “[...] autonomia para
decidir o que lhes é próprio [...]” (RANIERI, 2005, p. 95).
Nesse enfoque, campus e cidade podem ser abordados como áreas superpostas –
uma dentro da outra - e ambas com autonomia de decisão. No caso do município, a
autonomia decorrente do pacto federativo é política e administrativa e volta-se
inteiramente para o interesse local. No caso da universidade, a autonomia é exercida nas
vertentes didático-científica, administrativa, de gestão financeira e patrimonial para
atendimento das atividades fim - o ensino, a pesquisa e a extensão. Nos dois casos, não se
trata de ser independentes ou soberanos, mas de serem autônomos, dentro dos limites
fixados pela Constituição, tendo em vista o interesse público universal e o bem comum,
finalidade do Estado que a universidade deve necessariamente perseguir (GARBOGGINI,
2012).

3.6.1. O localismo e o universalismo da universidade

No mundo contemporâneo, o local e o universal não se opõem em termos


conceituais ou político-ideológicos, [...] dada a interdependência e à impossibilidade de
dissociação dessas categorias, especialmente no campo da ciência e da cultura” (RANIERI,
2005, p. 99).
A dicotomia localismo/universalismo não significa oposição entre cidade e campus
universitário. O âmbito local está sempre inserido em uma comunidade maior, alcançando
as esferas regionais, nacionais e internacionais. A universidade contemporânea não pode
excluir-se da dimensão local, sob pena de perda da sua referência e a da sociedade na qual
se insere. É inegável sua responsabilidade social, o que a distingue fundamentalmente das
suas tradicionais ancestrais. O movimento estudantil nos anos 1960, no Brasil, foi um porta-

102
voz radical da reivindicação da quebra do isolamento universitário em favor da intervenção
social.
É da concepção da multidiversidade, elaborada por Clark Kerr (1982, p.92), aplicada
à universidade, que resulta a teorização do utilitarismo de suas atividades-fim,
disponibilizando-as para o desempenho de serviços públicos e a satisfação das
necessidades sociais. A explosão das funções, rompendo a dualidade original
ensino/pesquisa para incluir a extensão universitária, reflete essa situação e é correlata ao
crescimento populacional, à crescente complexidade da vida contemporânea e à
associação inevitável entre educação e trabalho, que potencializa a demanda pelo ensino
em todos os níveis.
A área ocupada por um campus de uma universidade estadual ou federal no Brasil
é uma área pública, mantida com recursos públicos, destinada a uma finalidade específica
e com seu uso limitado por lei. Os interesses privados são, assim, restringidos pelos
interesses da coletividade. O uso limitado e regulamentado é uma das formas de conciliar
o público e o privado, em uma relação complementar que se solidifica na medida em que
o interesse individual se identifica com o coletivo. Essa relação pode estimular a retomada
do elo com a cidade a partir do espaço universitário – o campus.
Além do esporte e dos serviços da área da saúde, outra forma de promover a
conciliação entre público/privado em prol do coletivo dá-se por meio da difusão cultural,
sendo múltiplas as oportunidades dentro do espaço universitário, que abriga acervos de
várias naturezas: artística, científica e documental. A qualidade e a intensidade dos fluxos
de ideias e contribuições acadêmicas e científicas que partem do campus para a cidade
são o fundamento da dimensão simbólica do espaço universitário. Não são localismos que
devem reger o diálogo entre universidade e cidade, mas o que há em comum entre elas,
especialmente no plano da história e da cultura. A partir das respectivas autonomias, essa
relação já se manifesta no exercício mútuo e cotidiano do pluralismo, do convívio na
diversidade, na sinergia e na cooperação (GARBOGGINI, 2012).

103
3.6.2. O destino dos espaços universitários contemporâneos

A formulação de um Plano Diretor para um campus universitário está inserida no


âmago de uma ampla discussão acerca do destino dos atuais complexos universitários que
se implantaram ao longo das últimas décadas, sob uma concepção urbanística coerente
com as práticas do ensino, pesquisa e extensão, mas que vêm passando por transformações
significativas quanto à sua capacidade de suporte frente às novas demandas sociais e sua
relação com os espaços regionais onde se situam.
É possível destacar um conjunto de questões e desafios que pautam hoje os
problemas enfrentados pelos mais diversos campi universitários frente às novas demandas
da sociedade contemporânea:
• as atividades de extensão que passaram a fazer parte relevante da missão da
universidade. A partir de 2024, 10% nos currículos deverá ser em extensão
universitária;
• a inserção na trama urbana que os envolvem e sua relação com o espaço regional,
considerando a consolidação do papel das universidades em um campo mais
ampliado de atuação;
• os novos pressupostos tecnológicos que corroboram a prática do ensino, da
pesquisa e da extensão universitária;
• a expansão das suas relações com a sociedade;
• o modelo corrente de mobilidade, que distorceu a concepção urbanísticas original,
privilegiando o transporte individual em detrimento do transporte coletivo e outros
modais, incluindo a bicicleta e os pedestres;
• as interfaces entre os sistemas viário e modais de transporte do campus e da cidade;
• o conforto dos usuários que utilizam os espaços construídos e abertos da
universidade e as condicionantes do campus e seu entorno, relativas à densidade
populacional diante das dinâmicas de expansão;
• as novas práticas de lazer e esportes que se introduzem pelos mais diversos
usuários, no aproveitamento dos inúmeros espaços abertos e arborizados,
existentes e potenciais;

104
• a demanda por mecanismos que promovam a maior convivência entre corpo
diretivo, funcionários administrativos, docentes e discentes como forma de
sociabilidade e melhor integração cotidiana também com a comunidade externa;
• as possibilidades de instalação de novos usos e atividades relacionadas com as
novas demandas e necessidades cotidianas de todos os usuários que utilizam suas
instalações;
• as novas tecnologias que possibilitam a oferta de novos serviços no campus e
novas formas de interações interpessoais entre a comunidade universitária e a
comunidade externa em várias esferas (da esfera local à global).

3.6.3. Integração campus e cidade

O campus da Unicamp foi implantado no início dos anos de 1960, no Distrito de Barão
Geraldo, na época uma área rural, isolada da cidade de Campinas. O campus se conectava
à cidade por meio de uma única estrada de terra. Entretanto, com o passar das décadas, a
expansão urbana avançou em direção ao campus, inserindo-o fortemente no contexto da
Região Metropolitana de Campinas, trazendo consigo ambiguidades na fronteira entre o
domínio da cidade e o domínio da Universidade (GARBOGGINI, 2012), reflexo da falta de
planejamento territorial de ambas – cidade e universidade.

Figura 60 - Vista aérea da área rural onde a Unicamp viria a se instalar nos anos de 1960 e o
campus inserido na Região Metropolitana de Campinas na década de 2010

Fontes: SIARQ e DEPI_Geo/Unicamp.

105
Junto com o campus, na década de 1960, foram criados também os loteamentos
residenciais da Cidade Universitária I e II, onde boa parte do corpo docente da Universidade
passou a habitar. Como não havia habitação estudantil no entorno, os alunos moravam na
cidade de Campinas e se deslocavam com dificuldade para a Unicamp por transporte
coletivo ou individual.

Figura 61 - Projeto do núcleo central da Unicamp e dos bairros Cidade Universitária I e II.

Fonte: SIARQ

Mateus Pereira (2006), em sua dissertação de mestrado, fez um relato minucioso


sobre a questão dos transportes como uma das principais bandeiras perseguidas pelos
estudantes no decorrer das décadas de 1970 e 1980. Mais tarde, já nos anos de 1990, foi
construída a Moradia Universitária no Distrito de Barão Geraldo, o que promoveu uma
integração forte entre o campus e o Distrito, em relação aos fluxos de pessoas e o
crescimento de serviços para atender à população estudantil.

106
Figura 62 - Foto aérea com localização da Moradia Estudantil, a cerca de 3,5km do campus
Zeferino Vaz

Fonte: DEPI-Geo/Unicamp, 2018.

À medida que a Unicamp e o Distrito se expandiam, mais alunos foram


paulatinamente transferindo suas moradias para as proximidades e a grande demanda de
moradia para estudantes, que excedia a oferta da Universidade, gerou um fenômeno de
mutação nos bairros residenciais unifamiliares – Cidade Universitária I e II – que nasceram
juntamente com a Unicamp, introduzindo novas tipologias habitacionais e um aumento
significativo do comércio nos principais eixos de penetração. Investidores e proprietários
de lotes passaram a pressionar o poder público no sentido de possibilitar mudanças no
zoneamento dos bairros para obter permissão para construção de residências
multifamiliares destinadas à moradia de estudantes. Apesar das resistências do poder
público e de movimentos de moradores contrários às alterações de zoneamento da área
da Cidade Universitária I e II, essa tendência acabou por se impor. Atualmente, existe
grande oferta de residências multifamiliares de aluguel destinadas aos estudantes, e as
avenidas principais do bairro tendem a ser transformar em corredores comerciais, com
oferta variada de serviços.
Se, inicialmente, nos anos de 1960, as dificuldades para acessar o campus da Unicamp
relacionavam-se à precariedade das vias de acesso, uma vez que, localizado em uma área
rural, não existia ainda infraestrutura viária e de transporte adequadas, posteriormente,
com a urbanização do distrito e da Região Metropolitana de Campinas, a natureza dos

107
problemas se transformou, na medida em que o fluxo de veículos aumentou
exponencialmente. A facilidade de acesso a veículos individuais, adicionada à baixa
qualidade do sistema de transporte coletivo no Distrito, rapidamente fez com que a
estrutura de estacionamentos se mostrasse subdimensionada e insuficiente frente às reais
demandas de vagas, especialmente nas áreas do núcleo central e da área da saúde.
Até o início dos anos de 2000, campus e bairros do entorno (Cidade Universitária I e
II) funcionavam como continuidades um do outro. Não existia delimitação entre o espaço
do campus e o espaço dos bairros. As avenidas de perímetro do campus eram
compartilhadas e os habitantes utilizavam o campus como extensão do bairro. Quando, no
ano 2000, o território do campus foi cercado por alambrados e foram instaladas portarias
de controle de acesso, em resposta ao aumento da criminalidade urbana, a construção
dessas barreiras físicas para proteger o patrimônio da Universidade gerou polêmicas junto
à comunidade universitária e aos meios de comunicação (FOLHA DE SÃO PAULO, 2000). Até
então, o sistema viário da Universidade e dos bairros do entorno era permeável aos fluxos
de veículos, mas, uma vez delimitado por alambrados e com algumas ruas sendo obstruídas
ao franco acesso de veículos, os fluxos do campus foram todos canalizados para as portarias
de acesso controlado, gerando gargalos de trânsito nas entradas do campus e levando a
congestionamentos nos horários de pico. A partir daí, passou a ocorrer uma segregação
física entre o espaço do campus do espaço da cidade.
Com o aumento das opções de moradia estudantil e com o adensamento
populacional, no entorno do campus, além de um aumento significativo do fluxo de
veículos, ocorreu também o aumento dos fluxos de pedestres e ciclistas, que, até então,
eram pouco significativos na região. O campus e os bairros do entorno passaram a
demandar adequações físicas. As ruas dos bairros, as vias de acesso e os próprios acessos
à universidade, originalmente destituídos de espaços para pedestres e ciclistas, passaram
a ser pressionados pela demanda a se adequarem a essa nova realidade. Foi criada pela
Prefeitura de Campinas uma ciclofaixa no canteiro central da Avenida 2, que dá acesso à
Praça Henfil e à Unicamp. Por sua vez, na execução da primeira etapa do Plano de
Requalificação da Praça do Ciclo Básico, pela primeira na sua história, a Universidade
implementou no campus, um acesso exclusivo para pedestres.

108
Figura 63 - Ciclofaixa construída pela PMC no canteiro central da Avenida 2 e o primeiro acesso
exclusivo para pedestres e ciclistas projetado no campus, na década de 2010

Fonte: GARBOGGINI, 2016.

No final da primeira década de 2000, a instalação de câmeras de monitoramento


possibilitou o início da eliminação das barreiras físicas no interior do campus. No projeto
de 2006 para requalificação do entorno do Ciclo Básico não foram projetados fechamentos
por alambrado como havia sido feito na reforma do conjunto de salas do Ciclo Básico I, em
2003, quando foram instaladas grades de proteção para assegurar a segurança do
conjunto. Em 2016, a Universidade criou uma parceria com a CIMCamp da Prefeitura
Municipal de Campinas e as portarias de acesso controladas por cartão foram substituídas
por câmeras de monitoramento, permitindo novamente o livre acesso ao campus.
Entretanto o monitoramento das câmeras feito pela CIMCamp-PMC até o presente
momento não está integrado ao monitoramento interno do campus. Esta integração está
sendo tratada pela Secretaria de Vivência Comunitária (SVC), criada em 2017.
Esses novos eventos – a substituição de barreiras físicas por câmeras de
monitoramento e a comunicação virtual em todo o campus, possibilitadas pelo acesso às
tecnologias digitais, podem ser entendidos como o início de um processo de redução da
segregação socioespacial no campus.
No que tange à mobilidade urbana, a integração dos modais de transporte urbano da
cidade com o transporte interno do campus é bastante deficiente e restringe-se a linhas de
ônibus. O sistema de ciclovias previsto para Barão Geraldo não foi totalmente

109
implementado e diversos trechos executados estão descaracterizados, demandando
manutenção.
A Prefeitura Universitária tem implementado experiências piloto de utilização de IoT,
visando melhorias nos sistemas de transporte no campus. É necessário integrar essas
iniciativas com as iniciativas da EMDEC. O transporte por aplicativo (tipo UBER) já ocorre
no interior do campus, mas não existe um sistema que customize esse tipo de transporte
para as necessidades da comunidade acadêmica.

3.6.4. A Unicamp como fator de crescimento regional

É possível afirmar que o desenvolvimento do distrito de Barão Geraldo foi alavancado


pela presença da Universidade. A Unicamp é hoje um fator de crescimento regional, tendo
em vista que cidades com maior nível educacional tem maior potencial para o seu
desenvolvimento do que aquelas com menor capital humano, além de serem mais
resistentes às crises econômicas (GLAESER, 2004)10. De fato, a instalação da Unicamp foi
crucial para o desencadeamento do desenvolvimento tecnológico à simetria da ampliação
das pesquisas científicas que se intensificaram com o tempo. Desde a sua fundação, várias
instituições e empresas se estabeleceram nos seus arredores.
Mais que a dicotomia rural-urbana, há que se considerar, também, que nos últimos
dezesseis anos o entorno da Unicamp sofreu alterações importantes, com o incremento
das vias de circulação. A reforma e ampliação da Rodovia Zeferino Vaz integrou-a ao
complexo rodoviário regional, através da SP-065/Rod. Dom Pedro I e desta com a SP-
340/Rod. Gov. Adhemar de Barros, além das vias mais próximas ao campus, tais como a
Estrada da Rhodia e outras avenidas arteriais, o que vem mudando drasticamente os
remanescentes de vida ou paisagem rural.
A construção do Shopping D. Pedro, inaugurado em 2001, atraiu também diferentes
empresas e negócios (serviços) para a região e transformou fortemente o entorno, com
aumento da construção para fins residenciais e de investimentos, tornando-a um atrativo

10
Glaeser, E. L.; Saiz, A.; “The Rise of the Skilled City", Urban Affairs, vol. 5, no., 47-94, 2004

110
para a especulação imobiliária, que cria dificuldades para a resolução de problemas de
ordenamento no uso e ocupação do solo e de polo gerador de tráfego.

3.6.5. Extensão universitária e diversidade de usuários

A inclusão da extensão universitária na missão da Universidade como sua terceira


atividade-fim (junto com ensino e pesquisa), ratifica a relevância do desempenho de
serviços públicos e da satisfação das necessidades sociais não apenas da sua comunidade
interna, mas da população numa esfera mais ampla. A partir de 2024, de acordo com as
exigências do MEC, 10% do curriculum das Unidades deverá ser em cursos de extensão
universitária, sendo o foco das atividades a produção de conhecimentos embasada na
expertise acadêmica, que tragam impactos para a sociedade.
A Unicamp oferece programas de inclusão social (tais como PAAIS e cotas étnico-
raciais e vestibular para indígenas), além de uma extensa gama de serviços públicos de
saúde, esporte e lazer à sociedade. A Universidade disponibiliza também cursos voltados à
formação de professores e alunos da rede pública de ensino, recebe professores de outras
instituições, pais de alunos, alunos de escolas de ensino fundamental e médio em
atividades programadas para as férias de verão, grupos da terceira idade, encontros
universitários com centenas de participantes, congressos científicos, fóruns, além de uma
gama diversificada de atividades voltada à comunidade externa.
O campus recebe diariamente, além de professores, alunos e funcionários, um
grande contingente de usuários dos serviços públicos de saúde oferecidos. Milhares de
consultas, exames, procedimentos e internações disponibilizados para pacientes e suas
famílias, sem que uma infraestrutura adequada no que tange à mobilidade urbana e
acolhimento esteja disponível para recebê-los. Este contingente utiliza a Unicamp todos os
dias do ano, tendo em vista a natureza dos serviços prestados.
A área de saúde da Unicamp é formada por um complexo hospitalar envolvendo o
Hospital de Clínicas, o Hospital Estadual Sumaré (HES), o Hospital da Mulher "Professor
Doutor José Aristodemo Pinotti" – Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher (Caism)
e por setores de apoio como o Hemocentro, o Centro de Diagnóstico de Doenças do
Aparelho Digestivo (Gastrocentro) e o Centro de Estudos e Pesquisas em Reabilitação “Prof.

111
Dr. Gabriel O.S. Porto” (Cepre). Essa área como um todo está inserida dentro da Faculdade
de Ciências Médicas (FCM) e realiza atividades de ensino, pesquisa, assistência e extensão.
Atende a cerca de 500 mil pacientes por ano, principalmente provenientes da macrorregião
de Campinas e sul de Minas Gerais.
O centro esportivo da FEF é aberto à população. Os moradores do bairro utilizam sua
estrutura nos finais de semana, assim como as academias ao ar livre espalhadas pelo
campus que também é utilizado também como local de caminhada, corrida e ciclismo pelos
moradores do distrito.
Locais do campus com atrativos naturais têm se transformado espontaneamente em
locais de convívio social (tais como (1) regiões com vistas privilegiadas como o entorno da
rotatória de acesso à PUC-Campinas e a área nas proximidades do Museu de Ciências, que
vêm sendo utilizadas como pontos de observação de pôr do sol, (2) Anfiteatro da Praça da
Paz é utilizado a noite por diversos grupos sociais e religiosos, (3) Praça do Ciclo Básico é
utilizada para festas noturnas, o que muitas vezes se configura em um problema para a
Universidade.
Embora faltem alternativas de acesso ao Distrito de Barão Geraldo durante a noite e
pouca oferta de serviços culturais, o campus conta também com um hotel - a Casa do
Professor Visitante - e outras estruturas existentes utilizadas como alojamento,
principalmente em encontros universitários tais como o Ginásio Multidisciplinar e
conjuntos de salas de aula.
Uma das estratégias da Unicamp é aumentar substancialmente sua interação da com
instituições externas (públicas e privadas) visando também viabilizar a captação de
recursos. Observa-se hoje que as Unidades e órgãos com maior interação com a sociedade,
tem maior pujança financeira.

112
4. Cenário futuro e diretrizes

4.1. Qualificação do uso e ocupação

Sendo o ambiente urbano e construído o espaço suporte onde ocorrem as relações


sociais, as vivências e ações cotidianas dos usuários do campus, é possível afirmar que o
uso e apropriação desses espaços pelos usuários estão diretamente, mesmo que não
exclusivamente, relacionados à qualificação destes.
Dessa forma, mostra-se imprescindível a consolidação de um novo modelo de uso e
ocupação do espaço do campus, visando sua qualificação como espaço que contribui para
a qualidade de vida de seus usuários, para a funcionalidade, para a qualidade ambiental,
que estimula a permanência, o convívio social e o intercâmbio de ideias entre os diversos
agentes e usuários do espaço, e que adota a sustentabilidade SEA como eixo estruturador.
Para isso, propõem-se:
1. Ordenar e controlar o crescimento físico do campus e a implantação de novos
edifícios ou ampliações de edifícios existentes considerando:
i. A otimização do uso dos espaços existentes, minimizando os espaços
existentes ociosos e o aumento da área construída sem que haja real
necessidade.
ii. Proximidade e integração com áreas/atividades correlatas, evitando
conflitos de uso dos espaços.
iii. A disponibilidade e o impacto no sistema viário e infraestrutura existentes.
iv. A responsabilidade ambiental.
v. Garantir a permeabilidade do solo.
2. Implementar e sistematizar a deliberação de empreendimentos, desde o
planejamento inicial.
3. Avaliar as situações de risco ou conflitos de uso nos espaços do campus, com a
finalidade de propor formas de mitigar e/ou solucionar os problemas. Para isso faz-
se necessário efetuar levantamento das situações de risco ou conflito existentes.

113
4. Classificar os edifícios e suas atividades segundo seu porte e avaliar seu impacto no
sistema viário como polo gerador de tráfego.
5. Incentivar o uso do campus pelos pedestres e ciclistas. Para isso faz-se necessário:
6. Valorizar as áreas de convívio visando incentivar a fricção social e o intercâmbio de
ideias dos diversos usuários do espaço do campus. Para isso faz-se necessário:
7. Incentivar a realização de projetos e obras que representem novos paradigmas para
a Universidade que se pretende construir.

Considerando que o campus Zeferino Vaz possui urbanização consolidada, com


exceção da área da Fazenda Argentina, que passará por um processo de planejamento
urbano, com vistas a criação de um Hub Internacional de Desenvolvimento Sustentável, foi
feita a setorização do território com o objetivo de agrupar setores com a mesma vocação
e situação de urbanização para determinar parâmetros urbanísticos que direcionem as
novas construções, reformas ou substituição de edifícios e acessos ou vias de circulação.
Para isso, também foi considerado o processo histórico de ocupação do campus, as áreas
de riscos ambientais e as áreas de interesse de adensamento. Em quadras em que não for
possível seguir os parâmetros estabelecidos, devido a ocupação atual, devem ser seguidas
medidas mitigatórias, de acordo com o projeto que está sendo desenvolvido e passando
pela análise da equipe do Plano Diretor Integrado da Unicamp.
As medidas mitigatórias incluem implantação de sistema de captação e retenção de
águas pluviais: coletadas por telhados, coberturas, terraços e pavimentos descobertos em
áreas edificadas ou pavimentadas, que tenham área impermeabilizada; requalificação de
estacionamentos para terem 40% da área total ocupada revestida com piso permeável ou
área permeável natural.
FALTA FALAR SOBRE ENERGIAS RENOVÁVEIS E EE E OUTRAS INSTALAÇÕES
SUSTENTÁVEIS PARA AS CONSTRUÇÕES.
Como orientações gerais, recuos e afastamentos devem garantir a qualidade do
ambiente urbano e do ambiente construído, de forma a assegurar condições de ventilação
e iluminação naturais para as edificações e para a circulação do entorno dos edifícios,
considerando a orientação solar, a direção dos ventos predominantes, o uso do edifício sua

114
salubridade e as normas vigentes pertinentes. Os edifícios podem ser construídos
unificados, se tiverem empenas cegas e se não prejudicarem a qualidade dos demais
edifícios e da circulação do entorno, de acordo com análise da equipe do Plano Diretor
Integrado da Unicamp.
Considerando a urbanização e a possível necessidade de adaptação dos novos
parâmetros urbanísticos em casos de reformas ou novas construções em quadras que
podem já ter extrapolado o limite estabelecido para seu setor, entende-se a necessidade
de medidas mitigatórias a serem usadas nas áreas que já apresentam taxa de
permeabilidade crítica. Para isso, foram definidas três categorias de áreas:
- Quadras com mais de 60% de área impermeabilizada, definidas como áreas de
risco e com priorização de intervenções. Devem adotar coleta, armazenamento e reuso de
águas pluviais através de bacias de retenção, cisternas e demais tecnologias sustentáveis.
- Quadras que possuem entre 60% e 40% de impermeabilidade, definidas como
áreas de atenção. Devem ter indicação de medidas compensatórias para reformas e novas
construções.
- Quadras com menos de 40% de impermeabilidade, definidas como áreas de
ocupação recente. Devem ter projetos e diretrizes voltados para a taxa de permeabilidade
de 40%.
Dessa forma, o PD-Integrado estabelece os seguintes setores de vocações:

115
Figura 64 – Mapa de setorização do campus Zeferino Vaz

116
4.1.1. Centralidades acadêmicas
Objetivos - Promover maior fruição pública;
- Garantir a permeabilidade do solo;
- Garantir a vocação da área;
- Promover uso misto, com inserção de serviços;
- Proibir a construção de novos edifícios e de expansões nas
áreas sob risco de alagamento.
Parâmetros Taxa de permeabilidade 0,4
Urbanísticos Espaço de fruição pública (pavimento térreo) 0,4

4.1.2. Centralidades tecnológicas


Objetivos - Garantir a vocação das áreas do setor com uso acadêmico e
de serviços;
- Promover maior fruição pública;
- Garantir a permeabilidade do solo.
Parâmetros Taxa de permeabilidade 0,5
Urbanísticos Espaço de fruição pública (pavimento térreo) 0,3

4.1.3. Parque Tecnológico da Unicamp


Objetivos - Institucionalizar as diretrizes urbanísticas estabelecidas no
projeto de urbanização das quadras 45, 50 e 51:
- Promover maior fruição pública;
- Garantir a permeabilidade do solo.
Parâmetros Taxa de permeabilidade 0,4
Urbanísticos Espaço de fruição pública (pavimento térreo) 0,2

4.1.4. Saúde
Objetivos - Aumentar o potencial construtivo através do adensamento
da ocupação;
- Garantir a vocação das áreas do setor com uso acadêmico e
de saúde;
- Promover maior fruição pública;
- Garantir a permeabilidade do solo.
Parâmetros Taxa de permeabilidade 0,4
Urbanísticos Espaço de fruição pública (pavimento térreo) 0,4

4.1.5. Praças pavimentadas


Objetivos - Promover maior fruição pública;
- Garantir a permeabilidade do solo;

117
- Garantir a vocação do local;
- Promover a arborização.
Índices Taxa de permeabilidade 0,6
Urbanísticos Espaço de fruição pública (pavimento térreo) 0,8

4.1.6. Praças verdes e bosques

Objetivos - Promover maior fruição pública;


- Garantir a permeabilidade do solo;
- Garantir a vocação do local;
- Promover a arborização.
Índices Taxa de permeabilidade 1
Urbanísticos Espaço de fruição pública (pavimento térreo) 1

4.1.7. Preservação ambiental

Objetivos - Promover a conservação dos recursos naturais e da


biodiversidade: proteção do solo e cursos d’água,
interceptação de águas das chuvas, refúgio para a
alimentação e reprodução da fauna, formação de áreas de
conectividade entre remanescentes florestais, regulação do
microclima e valorização da paisagem do campus;
- Proporcionar bem-estar à comunidade.
- Proibir construções nesse setor.
Parâmetros Taxa de permeabilidade 1
Urbanísticos Espaço de fruição pública x

4.1.8. Áreas alagáveis

Objetivos - Promover segurança contra alagamentos;


- Promover fruição pública;
- Restringir construções a equipamentos e mobiliários
urbanos.
Parâmetros Taxa de permeabilidade 0,95
Urbanísticos Espaço de fruição pública (pavimento térreo) 1

118
4.2. Eficiência na utilização da infraestrutura urbana

SÍNTESE DE DIRETRIZES PARA A ÁREA DE PLANEJAMENTO INFRAESTRUTURA


URBANA
• Redução dos riscos de inundação e alagamento
• Elaboração de um plano de gestão de águas
• Implantação de um sistema de captação e reuso de águas pluviais
• Estabelecimento de programa de manutenção programada das redes dos campi
• Promoção de um programa de incentivo ao uso consciente de energia
• Racionalização da ocupação e da utilização da infraestrutura
• Garantia da preservação do solo e do lençol freático com isolamento das redes de
serviços de infraestrutura
• Modernização e eficiência na rede de iluminação pública
• Promoção do uso de fontes de energia renovável
• Eliminação de riscos ambientais

4.3. Responsabilidade Ambiental

SÍNTESE DE DIRETRIZES PARA A ÁREA DE PLANEJAMENTO MEIO AMBIENTE


• Estabelecimento de conectividade das áreas de preservação do campus entre si e
entre os fragmentos de vegetação da área externa à universidade, permitindo o
fluxo gênico de fauna e flora.
• Elaboração de programas de ação para a conservação dos recursos naturais do
campus, com ênfase na proteção dos cursos hídricos e da biodiversidade.
• Elaboração de um plano de arborização urbana para os campi.

119
4.4. Promoção da mobilidade e da acessibilidade inclusivas

SÍNTESE DE DIRETRIZES PARA A ÁREA DE PLANEJAMENTO MOBILIDADE E


ACESSIBILIDADE
• Estimular o uso do transporte público
• Estimular transporte por bicicletas
• Proporcionar boas experiências de caminhabilidade
• Diminuir o uso de transporte individual
• Tornar o campus acessível à PCD
• Integrar modais de transporte

4.5. Incentivo à Fricção Social

SINTESE DE DIRETRIZES PARA “INCENTIVO À VIVÊNCIA E FRICÇÃO SOCIAL”


• Valorizar e expandir as oportunidades de relacionamentos interpessoais através da
vivência universitária, criando espaços de convívio que propiciem a produção do
conhecimento.
• Favorecer práticas sociais e culturais, garantindo a oportunidade de toda a
comunidade usufruir das benfeitorias e dos serviços ofertados pela Unicamp.
• Implementar melhorias através da elaboração de ações e da criação de espaços
públicos, que propiciem o aumento da qualidade de vida da comunidade.
• Implementar projetos que visem a tornar o campus mais hospitaleiro e acolhedor
• Atualizar os espaços dos campi de maneira a propiciar a implementação de novas
tecnologias que ajudem a vivência universitária.

120
4.6. Integração universidade e sociedade

SÍNTESE DE DIRETRIZES PARA A ÁREA DE PLANEJAMENTO UNIVERSIDADE E


SOCIEDADE
• Aumentar a interação com a comunidade externa através da oferta de espaços
públicos e infraestrutura adequada hh
• Aumentar a integração com órgãos e instituições públicas e privadas
• Integrar as várias modalidades de transporte, propiciando maior qualidade no
deslocamento e, com isso, reduzindo o número de carros dentro do Campus.

5. Projetos e subprojetos

O Plano Diretor Integrado contempla os projetos relacionados aos cenários futuros


prospectados e alinhados com suas diretrizes, com soluções de curto prazo, as que
possuem baixo grau de complexidade e exigem pequeno investimento; de médio prazo,
que possuem complexidade ou investimento baixo e as de longo prazo, em que tanto
complexidade como investimento são grandes. Alguns desses projetos já existem, estão
sendo desenvolvidos por órgãos técnicos da Unicamp e estão sendo integrados ao Plano
Diretor Integrado através de suas diretrizes. Outros projetos urbanos surgirão como
demandas do Plano e serão desenvolvidos na especialidade da área de planejamento
referente, com a colaboração do programa de residência da FEC-FAU/Unicamp, das
Câmaras Técnicas de Gestão e dos pesquisadores especialistas que atuam nos campi
universitários que demonstrarem interesse na solução de determinado problema. Todos
esses projetos passarão pelo processo da cadeia de decisão, sendo contemplados por uma
cuidadosa análise pela equipe do Plano Diretor Integrado e análise multicritério, em
conjunto com a Diretoria de Serviço de Gestão de Processos e Qualidade.
Nesse sentido, o PD Integrado deve planejar e gerenciar as atividades dos secretários
executivos das Câmaras Técnicas, para que as atividades de planejamento, implantação de
ações e gerenciamento das Câmaras Técnicas estejam sempre vinculadas ao planejamento

121
urbano e para que as demandas do PD Integrado sejam organizadas e encaminhadas às
respectivas câmaras.

122
6. Código para projetos de empreendimentos

O Código para Projetos de Empreendimentos tem o objetivo de integrar e


institucionalizar um documento único para ser seguido no desenvolvimento de projetos de
edifícios nos campi. Esse Código está em elaboração colaborativa com o grupo técnico e
deve ser publicado no segundo trimestre de 2019.

123
7. Referências Bibliográficas

ANDERSON, Stanford. On Streets. Cambridge, Massachusets: MIT Press, 1990.


BRASIL. Lei 12.651, de 25 de maio de 2012.
BRASIL. Lei 9433, de 8 de janeiro de 1997.
BRASIL. Lei 6.902, de 27 de abril de 1984.
CARR, Stephen; MARK Francis; LEANNE, Geanne Rivlin; STONE, Andrew. Public Space.
New York: Cambridge University Press, 1995.
FOLHA DE SÃO PAULO. Deputados repudiam cercamento de campus da Unicamp.
13/09/2000. Disponível em:
<http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u9925.shtml>. Acesso em: 08 set.
2011.
GARBOGGINI, Flávia B. O potencial dos espaços abertos na qualificação urbana: uma
experiência piloto na Cidade Universitária Zeferino Vaz. Tese de Doutorado. Faculdade
de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo. 2012.
GARBOGGINI, Flavia B. Por uma arquitetura dos espaços abertos: a reabilitação do
campus da Unicamp no século XXI. Campinas, São Paulo; Editora Unicamp, 2016.
GLAESER, E. L.; Saiz, A.,The rise of the skilled city, Urban Affairs, vol. 5, no., 47-94, 2004.
KERR, C. The uses of the university. 3ª ed. Cambridge: Harvard University Press, 1982.
MATURANA, Humberto; VARELA, Francisco. A árvore do conhecimento - As bases
biológicas do conhecimento humano. Tradução Humberto Mariotti e Lia Diskin.
Campinas, SP: Ed. Psy, 1995.
PEREIRA, Matheus Camargo. Tecendo amanhã: história do Diretório Central dos
Estudantes da Unicamp (1974-1982). Dissertação (Mestrado em Educação) – Faculdade
de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2006
RANIERI, Nina Beatriz. A Cidade e a Cidade Universitária: Autonomia, localismo e
universalismo. In: LANNA, Ana Lúcia Duarte. Cidades universitárias, patrimônio
urbanístico e arquitetônico da USP. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo,
2005.
RUTKOWSKI, Emília W. Desenhando a Bacia Ambiental: subsídios para o planejamento
das águas doces metropolitan(izad)as. Tese de Doutorado. Faculdade de Arquitetura e

124
Urbanismo da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1999.
SÃO PAULO. Lei 12.526, de 2 de janeiro de 2007.
SÃO PAULO. Plano Diretor
TORRES, Roseli B.; ADAMI, Samuel F.; COELHO, Ricardo M. Atlas socioambiental da Bacia
do Ribeirão das Anhumas. Pontes Editores, Campinas, 2014.
Universidade de São Paulo. Plano Diretor 2013 – Cidade Universitária “Armando de Salles
Oliveira”. USP, 2013.

125