Você está na página 1de 71

Aviso

Direitos Autorais

Você está com o eBook Educação Moral - Sua Aplicação na Família e Escola, de Marcus De
Mario, publicação eletrônica comercializada pelo autor. O eBook é um livro no formato eletrônico,
permitindo a leitura e sua impressão para uso pessoal, e como todo livro, é protegido pela Lei de Di-
reitos Autorais e Conexos. Assim, qualquer cópia (digital, impressa ou por qualquer outro meio), ou
o envio deste arquivo a outras pessoas, sem autorização do autor, significa violação dos direitos au-
torais. Nesse sentido apelamos à sua consciência ética:

Não copie nem envie este arquivo.

Divulgue o livro, incentivando sua compra. O autor dedicou parte dos direitos autorais para o Insti-
tuto Brasileiro de Educação Moral (IBEM), organização não governamental sem fins lucrativos, e o
produto da venda deste livro permite a manutenção dos serviços de formação e capacitação de edu-
cadores que o Instituto desenvolve.

Respeite a lei. Somente assim teremos um mundo melhor.


Marcus De Mario

EDUCAÇÃO MORAL
SUA APLICAÇÃO NA FAMÍLIA E ESCOLA
Educação Moral - Sua Aplicação na Família e Escola
©Marcus De Mario
1ª edição: agosto de 2008
2ª edição – maio de 2013
Edição eletrônica no formato eBook

Capa e Diagramação: Marcus De Mario


.
Marcus De Mario
Rio de Janeiro, RJ
Tel. (21) 3381-1429
www.marcusdemario.com.br
marcusdemario@gmail.com

Pedidos
www.almadolivro.com

O autor cedeu parte dos direitos autorais para o Instituto Brasileiro de Educação Moral.

Todos os direitos de reprodução, cópia, comunicação ao público e exploração econômica desta obra
estão reservados única e exclusivamente para o Autor. Proibida a reprodução parcial ou total da
mesma, através de qualquer forma, meio ou processo, sem a prévia e expressa autorização do Autor,
nos termos da legislação em vigor sobre direitos de autor e conexos.
ÍNDICE
Introdução
1. A Educação e o Homem Moral
A Teoria e a Prática - Uma Visão Sobre o Ser Integral

2. A Moral
Uma Nova Definição - O que é moral - O bem e o mal - A virtude

3. A Imagem do Homem
O Paradigma Holístico - Autoridade Moral

4. A Inteligência
Uma Questão de Consciência Moral

5. A Situação
A Causa Geradora da Educação - O Contexto de Vivência do Educando - Por que educar?

6. O Educando
A Causa da Educação - Influência da Ação Educativa - A Quem Educar

7. A Educação
O Que é Educação - Os Fins em Educação

8. O Homem
O Que é o Homem - Eterno Educando

9. O Processo Ensino-Aprendizagem
Além de Provas e Notas – Avaliação - Critérios Básicos

10. A Escola
Um Pouco de História - Ensinar e Educar - Repensando a Didática - Os Objetivos da Escola

11. A Família
Algumas Importantes Questões - Célula Básica da Sociedade - O Lar pode ser Considerado uma Es-
cola? - Qual a Influência dos Pais na Educação dos Filhos? - O Ambiente Familiar é Modelo a ser
Seguido pela Escola? - O Ideal da Formação Moral está na Família?

12. A Educação Moral


O Voo do Pássaro - Resumo Didático

13. Os Educadores e a Educação Moral

Sobre o Autor
INTRODUÇÃO

Desde que o homem se entende por um ser consciente na face da Terra, vem procurando a
melhor maneira de conservar sua cultura, passando-a de geração a geração, assim como aprimoran-
do as conquistas intelectuais que aperfeiçoam essa cultura. Passo a passo vem o homem descobrin-
do a si mesmo e, embora o formidável avanço em todas as áreas do conhecimento, não raro é sur -
preendido com um novo achado, muitas vezes desmoronando conceitos ou redefinindo as pesquisas.
É que o Universo está longe de sua capacidade total de apreensão, assim como a natureza do planeta
em que vive ainda é um maravilhoso mundo a oferecer descobertas.
E o próprio homem? O corpo físico é a mais perfeita organização que se conhece, no entan-
to, não sabemos boa parte do como e porque ele funciona tão perfeitamente. E a questão da mente,
da personalidade, do consciente e inconsciente? Em todas as épocas especulações de ordem filosófi-
ca, teológica, política, psicológica, científica, vem procurando responder às inúmeras indagações
que envolvem o homem e a vida e, pelo menos, uma certeza resiste a todas as investigações: que a
educação é o fator primordial que coordena o comportamento humano, que a educação é a grande
formadora do homem e responsável pela transmissão cultural e seus avanços, de geração a gera-
ção. Dentro desse entendimento é que pouco a pouco surgiram as escolas, os métodos, as técnicas,
os recursos e assim por diante, numa proclamação da importância da educação. Entretanto, o ho-
mem ainda é um ser deseducado.
A violência marca profundamente o viver humano.
A morte é encarada com horror e ao mesmo tempo como solução.
As discussões de ordem espiritual são relegadas ao misticismo ou à indiferença dos gabine-
tes científicos.
A dissolução social é evidente mesmo onde predomina o avanço cultural e tecnológico.
Numa palavra, encontramo-nos enredados em concepções materialistas que vem sufocando
os melhores propósitos, e chegamos a declarar que a escola já não está mais educando, e que essa
tarefa, também de responsabilidade da família, parece ter sido por esta esquecida.

Consideramos o materialismo como sendo todos os pensamentos filosóficos baseados na suposi-


ção do homem como corpo, do homem como um ser que nasce, vive e morre, do homem na con-
cepção do viver imediato, desta única existência. Não fazemos distinção, no presente livro, das
escolas filosóficas, pois consideramos apenas duas grandes correntes do pensamento: o materia-
lismo e o espiritualismo.
Reclama-se, e com razão, da necessidade de revermos o sistema escolar, de repensarmos a
educação, e aqui está o ponto nevrálgico da questão, pois não se pode fazer uma reforma do sistema
escolar, ou seja, do ensino, sem que a educação seja repensada e entendida.
Todo ensino está sujeito a desvios e mesmo inoperância quando distanciado dos fins da
educação, por isso que a construção e reforma de escolas, a contratação de professores, a mudança
de métodos, a distribuição de livros didáticos e outras medidas equivalentes não trazem o resultado
esperado. Podem oferecer a alfabetização mais rápida ou a diminuição da repetência, mas o homem,
que é um educando do berço ao túmulo, ou melhor, de antes do berço e depois do túmulo, como va-
mos ver, embora alfabetizado e desenvolvido na sua inteligência, continua sendo hipócrita, vaidoso,
orgulhoso, egoísta, enxergando a vida apenas pelo prisma das vantagens pessoais. Esse homem
pode construir impérios sem dar importância a quantos está esmagando. Pode usurpar os direitos
alheios à vontade manipulando a própria justiça. Então, diante desse quadro, onde falhamos na edu-
cação?
Afirmamos que a falha está justamente no entendimento que fazemos da educação.
Por esse motivo chamamos a atenção para os fins da educação e, aí sim, para a operacionali-
zação do ensino propriamente dito.
Quando o homem conhecer a arte da formação moral, der importância ao manejo do caráter,
estará colocando a educação no lugar que ela merece, corrigindo os passos da humanidade e, ven-
cendo a estrutura social adversa, mudar para melhor, perceberá que antes de tratar da estrutura do
edifício deve solidificar suas bases, que estão todas na filosofia que rege o trabalho educacional.
Como podemos educar se não sabemos o que é educação?
Para composição deste livro dois materiais publicados de forma independente foram unidos,
juntado parte dos textos de “A Educação Integral do Ser” com os textos completos de “O Espírito
da Educação”. Naturalmente eles sofreram uma releitura, supressões e complementos, para dar ori-
gem a esta obra, que considero definitiva, “A Educação Moral e Sua Aplicação na Família e
Escola”.
É, a educação moral, o caminho a ser trilhado pela humanidade se quiser um futuro bem di-
ferente do vivido até o final do século vinte, e para isso valores precisam ser renovados, sentimentos
necessitam ser desenvolvidos e o caráter direcionado para o bem coletivo, ou naufragaremos a soci-
edade novamente no caos destruidor do egoísmo e do materialismo. Por isso a educação moral só
pode ser dirigida com eficácia por uma filosofia que priorize a espiritualização do homem.

Marcus De Mario
1

A EDUCAÇÃO E O HOMEM MORAL

A teoria e a prática
A literatura sobre educação é bastante farta, deixando-nos em posição cômoda para estudar e
praticar. Não faltam livros sobre sociologia da educação, filosofia da educação, currículo, psicolo-
gia da educação, teorias do desenvolvimento da aprendizagem e assim por diante. Qualquer estu-
dante pode deleitar-se à vontade numa biblioteca ou numa livraria, repletas em títulos sobre educa-
ção. As universidades produzem teses e trabalhos os mais diversos no campo da educação, portanto,
não é por falta de material apropriado que o ensino nas escolas não anda a contento. Na verdade, te-
mos constatado em experiências diversas junto aos professores, a existência de um comodismo ge-
ral quanto a continuar os estudos após a recepção do diploma de formação. E nos cursos de forma-
ção temos notado muito verbalismo em detrimento da teoria. Expliquemos este enunciado que, na
verdade, não é nosso, mas de Saviani (1).
Professores e estudantes confundem teoria e prática com verbalismo e ativismo. A teoria,
sempre imprescindível em qualquer ramo do conhecimento humano, significa o estudo, a aprecia-
ção, enfim, o próprio conhecimento da ciência ou disciplina à qual nos dedicamos. A prática corres-
ponde às experiências acumuladas de aplicação da teoria. Já o verbalismo é aquele palavrório inútil,
carregado de academicismos, quando muito se fala, mas pouco se diz. O ativismo é a ação imediata
movida pela curiosidade, pela impetuosidade. A teoria não se confunde com o verbalismo, assim
como a prática não significa ativismo. Exemplifiquemos a partir de uma situação comum em nossos
cursos de formação. Ao estudar sobre estágios do desenvolvimento psicológico da criança, o estu-
dante sentir-se-á impelido a entrar em sala de aula numa escola para colocar em prática o que acaba
de aprender. Entretanto, o estudo não se circunscreve a uma única aula, e o conhecimento, dinâmi-
co, se desdobrará a seus olhos em outras aulas. Se a cada aula o estudante quiser colocar o conheci-
mento adquirido em prática, estará fazendo ativismo, um laboratório de experiências aleatórias, e
não prática, ou seja, a aplicação metódica e racional da teoria. O mesmo entendimento temos sobre
o estudo da teoria e o verbalismo, quando o professor insiste em muito palavrório, em muita infor-
mação vazia, sem objetividade, sem critério.
A partir do exemplo acima vemos que é comum a separação entre teoria e prática, quando na
verdade são indissociáveis, são complemento um do outro. Os cursos que priorizam a teoria durante
vários períodos de estudo colocando a prática apenas na forma de estágio ao final, cometem um
grande erro, pois privam os estudantes de construírem as experiências, de fazerem uso da criativida-
de e, a partir do conhecimento, desenvolverem uma consciência crítica.
A questão da teoria e da prática versus verbalismo e ativismo nos leva a outra questão, esta
fundamental, que é definirmos a educação. Esta definição é mesmo prioritária, pois se trata de en-
tendermos a educação, o que ela é, a que se destina, o que queremos com ela. Precisamos responder
satisfatoriamente perguntas como: O que estou fazendo na escola? Para quê educar? É necessária a
compreensão sobre o sentido e o significado da educação. Por isso dizemos: “ninguém pode educar
se não souber o que é a educação”. É preciso estudar, ou seja, mergulhar no conhecimento teórico.
Para nós, a educação é o conjunto de estudos e experiências que propiciam ao educando de-
senvolver suas potencialidades de forma equilibrada, objetivando sua formação integral com o fim
de termos o homem moral.
Fica implícito em nossa definição o finalismo superior da educação: o homem moral. E tam-
bém o caminho para esse fim: a formação integral, equilibrada, que podemos ao nível do ensino
destacar como sendo a aplicação da interdisciplinaridade, ou seja, o conjunto das disciplinas e dos
temas de estudo em ação cooperativa, e não isolada. Também está caracterizado na definição, a
aplicação da experiência própria, do trabalho por parte do educando, assim como o reconhecimento
de que ele é o agente de si mesmo, por ser portador de suas próprias potencialidades. Estamos falan-
do da educação integral, aquela que conjuga de forma dinâmica os agentes sociais, o eu indivíduo e
a vida num processo interativo. É sem dúvida, um processo educativo elaborado, mas o único que
assegura o cumprimento de seu finalismo superior.
As ações equilibradas da natureza, do meio social, dos estados afetivos, da personalidade,
etc., formam o processo da educação. Essa é a visão integral que leva em consideração as trocas e
influências entre a família, a escola, os meios de comunicação, o trabalho, o lazer e tudo o mais.
Isso importa em estabelecer que vida é educação, e tão rica é a vida que todo artificialismo é dis-
pensável.
Muitos educadores – professores, assistentes sociais, psicólogos, pais, etc. – se desestimu-
lam frente a atividades de estudo, pesquisa e elaboração prática em grupo, denunciando sua falta de
visão do homem e do mundo, não conseguindo funcionar satisfatoriamente no âmbito das relações.
Esses educadores são sistemas fechados, responsáveis pelo verbalismo inconseqüente e pela cons-
tante troca de atividades na busca de soluções. Estão sempre à procura de receitas prontas sem per-
ceber a dinâmica e profundidade da vida.
Em nossa definição dizemos que a educação deve levar o indivíduo a ser um homem moral,
e isso acontecerá quando priorizarmos a formação no lugar da informação. Quando colocarmos a te-
oria e a prática a serviço da educação integral do ser.
Preconizamos através destas palavras a reformulação dos cursos de formação de educadores.
Também defendemos a recapacitação dos educadores em atividade, pois toda teoria será derrotada
se os responsáveis por sua aplicação não forem capacitados para colocá-la em prática. Enquanto os
educadores estiverem arraigados ao ensino compartimentado, disseminado em disciplinas e maté-
rias estanques, sem visão de totalidade, sem compreensão da interatividade das partes que compõem
o todo, esse ensino não conseguirá promover de forma equilibrada as potencialidades do educando.
Ainda mais grave é constatarmos que, enquanto os educadores não se conscientizarem que a
educação possui o finalismo superior de formar o ser, e não apenas de instruí-lo, essa educação que
é promovida desde muito tempo jamais conseguirá estabelecer condutas éticas e relações de ordem
moral. Para estabelecê-las será necessário resgatar os valores humanos: materiais, intelectuais, mo-
rais, espirituais, que se encontram marginalizados, substituídos pela instrução, pelo imediatismo. É
necessário conjugar, com o mesmo peso, os valores humanos com a instrução, ou em outras pala-
vras, equilibrar no processo da educação a formação do caráter com a formação intelectual. Ao
mesmo tempo desenvolvermos capacidades motoras e intelectuais com a sensibilização dos senti-
mentos e aquisição de virtudes.
Realmente, temos de concluir que não é a falta de conhecimento o motivo de tantos proble-
mas no âmbito do ensino, mas, isto sim, a falta de visão integral do mesmo e a falta de conscientiza-
ção sobre a vida e o finalismo superior da existência do ser humano. Quando os educadores com-
preenderem essa verdade, eis que surgirá plena a educação.

Uma visão sobre o ser integral


Todos os dias presenciamos distúrbios educacionais, ou seja, presenciamos situações que
evidenciam estar doente o processo de ensino instalado na escola e na família.
São professores que gritam.
São pais violentos.
São professores em greve.
São pais omissos.
São professores sistemáticos e indiferentes.
São pais déspotas e autoritários.
São escolas em decadência física.
São lares desequilibrados.
São escolas tecnológicas sem sentimento.
São famílias materialistas sem amor.
E assim vão se apresentando as situações que evidenciam estar o processo educacional longe
de fins e objetivos maiores. A formação do ser foi trocada pela informação para o ser. A educação
foi substituída pela instrução. Os fins deram lugar aos métodos.
O professor passou a profissional da educação, preocupado com cargos e salários, e as esco-
las particulares são encaradas como empresas: os alunos são o produto e os professores os operá-
rios.
Como as cogitações sobre o ser humano tendem a vê-lo apenas na perspectiva tecnológica,
na sua estrutura física, seu psiquismo e psicologia ficam perdidos entre teorias que apenas camu-
flam o materialismo e defendem os interesses e prazeres imediatos. Nada há de mais profundo, em-
bora a ciência não consiga desvendar no corpo as coisas da alma, do ser integral e profundo que to-
dos somos.
E como vemos esse ser integral? Como alma criada por Deus dotada dos princípios da inteli-
gência e do sentimento. Esta é nossa perspectiva do ser humano, é assim que vemos e sentimos a
criança.
Nunca pudemos admitir o nada existencial, nem nos acomodarmos no simples ensinar,
transmitir conteúdo, porque percebemos na vida algo maior do que o nascer, viver e morrer. Há que
existir finalidade superior para nossa existência no mundo, e a resposta está na alma eterna que to-
dos somos, habitantes de um mundo para um destino que não se encerra nas portas da morte.
Há milênios o homem cultua a transmissão do conhecimento, geração a geração, desenvol-
vendo técnicas e métodos, recursos e teorias, sem lograr o alcance da felicidade, da paz e do equilí-
brio social. É que não cultiva o seu desenvolvimento moral, individual e coletivo.
Assistimos as escolas de todos os níveis ocuparem-se com o ensinar cultura, com o transmi-
tir conhecimento, relegando ao abandono a formação dos sentimentos, a orientação do caráter. Tra-
tam os alunos como seres desprovidos até mesmo de razão, quanto mais de espiritualidade. Este o
ponto a considerar: a reforma do ensino. Entretanto, essa reforma só poderá ser realizada a contento
quando se entender o que é a educação. Reformas políticas pela força da lei apenas revestem a edu-
cação de uma capa, disfarçando seu conteúdo, sua prática. Reformas pedagógicas atreladas ao méto-
do continuam reforçando desvios e se caracterizam pelo modismo do momento. Ambas são refor-
mas de superfície. A verdadeira reforma do ensino é aquela que parte do entendimento que educa-
ção é formação do ser, que prioriza o desenvolvimento do raciocínio e do sentimento, que une o co-
nhecimento com a experiência, que estabelece ser o educando uma dualidade interexistente, portan-
to, dotado de potencialidades. A verdadeira reforma do ensino acontecerá quando o ato de educar
for um ato de amor profundo e estiver firmemente consolidado em diretrizes superiores de vida.
Essa educação, na sua vertente prática, propomos nesta obra, ao estudarmos os principais fa-
tores da educação.
Não nos move a pretensão de estabelecer um método, mas desafiar professores e pais, legíti-
mos representantes da educação, a refletirem sobre os fatores que compõem o processo educacional,
reavaliarem suas posições e colocarem em prática a proposta da educação moral.
A educação moral é uma arte.
Arte da formação de hábitos.
Arte de direcionar o caráter para o bem.
A educação moral se efetiva legitimamente quando educamos através de uma filosofia espi-
ritualista, integrados no verdadeiro espírito da educação, gerando indivíduos responsáveis, consci-
entes, íntegros e equilibrados numa sociedade que se fará, paulatinamente, pacífica e feliz, rumo ao
seu destino e à sua causa: Deus.

(1) Saviane, Demerval. Educação Brasileira, Estrutura e Sistema. Campinas: Autores Associa-
dos, 7ª ed., 1996, 161 p.
2

A MORAL

Uma nova definição


Moral ou ética. Alguns autores as consideram como palavras que identificam o mesmo as-
sunto. Já outros estudiosos afirmam que são palavras definindo conceitos diferentes.
Vejamos algumas definições:

“Ética e moral dizem respeito a como devemos nos conduzir perante os outros, isto é, refe-
rem-se aos valores que elegemos para pautar nossa vida” (1).

“Moral ou ética é uma ciência prática que visa alcançar o puro e simples bem do homem,
tendo por objeto a perfeição do homem através de sua livre ação” (2).

“A ética é o estudo filosófico dos valores e da conduta moral. Trata de questões como “O
que é a vida boa para os homens?” e “Como nos deveríamos comportar?”. Seu tema é fornecer
valores corretos para ações corretas. Esses valores, ou princípios, justificam ou condenam a con-
duta pessoal de cada um de nós” (3).

O que é moral?
Filósofos - materialistas e espiritualistas - já procuraram a melhor definição e o estudo de
suas conseqüências, nem sempre logrando êxito satisfatório, mas é imprescindível que estabeleça-
mos uma definição de moral, de formação do caráter através da educação, e isso vamos fazer tendo
em mente nossa concepção do homem como um ser integral existindo numa coletividade.

Moral é a regra da boa conduta, da distinção que fazemos entre o que é bom e o que é ruim, para
nós e para os outros, utilizando um ensino milenar daquele que se considerava Mestre: façamos
aos outros somente o que queremos eles nos façam.

Essa definição e esse ensino são universais, independem de credo religioso ou formação cul-
tural, da posição social ou política em que se encontre o homem.
Assim estabelecida, a moral nada tem de religioso no sentido de obedecer aos dogmas desta
ou daquela corrente de pensamento doutrinário. Estamos no terreno da moral como valor da alma,
onde todos se entendem quando a questão é de analisar os valores éticos do comportamento, estabe-
lecida a regra que damos acima.
Um homem moralizado vale mais que uma multidão de intelectuais.
É fato encontrarmos homens de elevada cultura mergulhados em vícios morais. Já quem se
eleva na formação moral sabe utilizar a cultura com proveito.
O homem tecnológico se prende ao exterior da vida, no valor da cultura, do diploma, na sa-
tisfação de tudo o que se prende ao corpo.
O homem moral se preocupa com o interior para melhor equacionar o exterior. A cultura
tem o valor que merece, mas a conquista de virtudes é primordial. Ele valoriza a alma antes que o
corpo e percebe este corpo como parte de si mesmo, que também deve ser cuidado enquanto instru-
mento de crescimento para a alma.
A educação atual está voltada para a formação do homem tecnológico.
A educação verdadeira volta-se para a formação do homem moral.

O bem e o mal
A educação moral irá trabalhar com duas realidades essenciais: o bem e o mal, o que é bom
e o que é ruim na formação do caráter. Este nosso enunciado pode levar muitos teóricos da educa-
ção julgarem ser necessário estabelecer o que deve ser ensinado e o que não deve ser ensinado, mas
não é isso o que estamos propondo, mesmo porque tudo deve ser ensinado, ou melhor, tudo deve ser
facultado ao educando conhecer, ao mesmo tempo em que, exercitando suas potencialidades morais
e intelectuais, sob a orientação do educador, vai separando o joio do trigo, entendendo o que lhe faz
bem ao caráter e faz bem para o próximo na sua conduta social.
O educando é livre para estudar, para aprender, para conhecer, competindo ao processo da
educação coordenar o ensino, levando o educando a conquistar plena consciência de si mesmo, com
liberdade. Liberdade que é acompanhada de responsabilidade, pois a regra áurea da moral é fazer ao
próximo o que se queira também que ele nos faça.
O bem é sempre o bem, em toda parte e em qualquer circunstância. Ele é bom para nós e
para os outros e traz sempre a felicidade. A ausência do bem é que caracteriza o mal.

O bem está sempre ligado às virtudes.


O mal está sempre ligado aos vícios.
Em todo trabalho escolar deve o educador estimular o educando a discutir a importância do
que está aprendendo para a formação do seu caráter, pois assim o educando estabelecerá, ele pró-
prio, o que mais lhe convém, sempre tendo em vista que seu viver não é isolado, egoísta, mas coleti-
vo e, portanto, o seu caráter em formação é que dirá dele perante os outros.
Não deve o educador ser passivo, mas dinâmico e sempre aberto aos questionamentos indi-
viduais de seus educandos, sabendo colocar em discussão os valores representados pelos atos tanto
na sala de aula como fora dela. É dessa proveitosa discussão e reflexão que o educando compreen-
derá o que é o bem e o mal.

A formação do caráter é prioridade na educação moral.

Um bom caráter se distingue:

1 - Pela honestidade;
2 - Pela humildade;
3 - Pelo espírito de fraternidade;
4 - Pelo respeito aos direitos alheios;
5 - Pelo cumprimento dos seus deveres de cidadania;
6 - Por estabelecer a justiça;
7 - Por promover o progresso mais harmônico da sociedade.

Esse é o homem que recebe uma formação promovida pela educação moral, e que não vai
utilizar a tecnologia, o avanço científico, o saber da cultura, para proveito apenas de si mesmo,
como temos assistido.
O currículo, segundo uma filosofia espiritualizante, deve trabalhar o entendimento e o exer-
cício da bondade, sensibilizando o educando na área do sentimento nobre, dando a ele ideais de vida
elevados, pois como individualidade espiritual, corpo e alma, a vida para ele tem significado muito
mais profundo.
Mais uma vez lembramos que a educação moral independe de qualquer credo religioso, e
também não se confunde com aulas de civismo, pois a educação moral trabalha a conscientização
do educando como ser, o auto-conhecimento, no dizer de Sócrates o “conhece-te a ti mesmo”, para
que ele possa ter uma atuação social digna, respeitando e sendo respeitado, sabendo que todo o bem
realizado promove-o para melhor situação na continuidade da vida como alma.
Pode-se fazer a objeção que o homem como ser integral é mera teoria sem base concreta.
Que não é uma verdade por não ser uma realidade. Não é nosso objetivo escrever um tratado sobre
a espiritualidade do homem. Convencemo-nos disso pelas pesquisas sérias a respeito, por ser em
nós uma crença racional que responde às diversas indagações sobre a vida. E mesmo que tomásse-
mos o homem-alma como uma teoria, isso em nada invalidaria a proposta da educação moral, que
pode ser aplicada mesmo num meio onde o pensamento é declaradamente materialista, pois a arte
da formação do caráter é um problema da educação e somente esse caminho promoverá o progresso
da humanidade, renovará a sociedade, que então deixará de conviver com os vícios de todas as es-
pécies e conhecerá dois estados de espírito tão sonhados: a paz e a felicidade.
A educação moral promove homens de bem que tirarão do papel a declaração dos direitos
humanos, e só esse resultado já basta para concluirmos sobre sua fundamental importância.
Os interesses individuais materialistas tem retardado a moral dentro da educação, bloquean-
do as tentativas a respeito, mas não podem segurar indefinidamente o que é melhor para a humani-
dade. O egoísmo e o orgulho da inteligência exacerbada irão cair mais cedo ou mais tarde, e o sofri-
mento que a tanto tempo vem agindo através da dor, levará o homem a reconhecer que somente a
educação moral pode livrá-lo do flagelo do materialismo.
A partir do momento em que o bem estiver instalado na consciência do educando, ele:

1 - Lutará contra a violência utilizando o sentimento do amor;


2 - Derrubará a corrupção pelo uso da retidão do caráter; e
3 - Utilizará o saber para construir em benefício de todos.

Numa sociedade formada por indivíduos voltados para o bem não há lugar para o mal. Essa
sociedade será fruto da educação moral.

A virtude
O desenvolvimento das potencialidades morais do homem, aqui encarado como educando,
deve ter início na infância, abrangendo com bastante ênfase o período compreendido entre a faixa
etária que vai do zero aos sete anos, pois nesse período é a criança acessível aos bons conselhos,
mais facilmente segue os exemplos que lhe são sugeridos. É a fase em que suas tendências próprias
estão latentes e influenciáveis. Nessa fase devemos combater os vícios e potencializar as virtudes,
iniciando o processo da educação moral que vai se estender depois na escolaridade e na vida como
um todo.
Exercícios constantes, individuais e sociais, devem estimular a compreensão das virtudes e
sua incorporação pela criança, assim como o diálogo sobre os acontecimentos sociais que envolvem
seu viver devem facultar a tomada de consciência sobre si mesma e a opção pelo bem. Dizemos op-
ção porque a educação moral não pode ser imposta, ela deve ser adquirida, interiorizada, a partir das
próprias potencialidades latentes, motivo pelo qual é uma educação de dentro para fora. É um pro-
cesso lento que pede por parte do educador o acompanhamento individual tanto quanto possível,
mas cujos resultados desabrocham mais tarde como as flores das sementes.
Entre as virtudes, podemos destacar as seguintes:

1. Consciência dos deveres a cumprir;


2. Respeito aos direitos alheios;
3. Solidariedade para com os demais;
4. Saber trabalhar em grupo ofuscando o egoísmo;
5. Utilizar a inteligência para o progresso coletivo;
6. Ser humilde, compreendendo que mesmo o mais inteligente dos homens não sabe todas as
coisas;
7. Exercício da fraternidade sem preconceitos;
8. Tolerância para com as faltas alheias porque também possuímos nossas próprias falhas;
9. Igualdade perante a lei promovendo a justiça equilibrada;
10. Espírito de renúncia para promover a concórdia;
11. Honestidade nas relações sociais e familiares;
12. Ação constante no bem.

Esses itens, apenas alguns entre tantos outros ligados às virtudes, já nos dão um currículo
imenso, e podem ser trabalhados, no período escolar, em conjunto com as matérias intelectuais do
conhecimento humano. O homem virtuoso sabe o que fazer do conhecimento que possui, enquanto
o homem desvirtuado da moral, com o caráter carregado de vícios, naufraga os conhecimentos em
atos de egoísmo e orgulho.
Ficamos a olhar o homem em tenra idade, ensaiando seus passos na nova existência, e nem
nos damos conta de que esse ser aparentemente frágil é uma alma dotada de consciência, carregan-
do tendências inatas. De onde vem as manhas tão freqüentes? Como possui habilidades que lhe não
foram ensinadas? Como pode demonstrar carinho e em outras vezes repulsa, até mesmo violência?
Tudo isso já está nele, por isso que a educação moral trabalha de dentro para fora, partindo do pró-
prio educando, do que ele já traz, do que ele é.
Por uma falsa visão da educação descuidamos da formação do caráter e deixamos que os ví-
cios suplantem as virtudes, e achamos graça quando o bebê dá socos no rosto da mãe, ou quando se
joga no chão e chora sem derramar uma única lágrima. Ou quando espalha os brinquedos pela casa
e se revolta quando queremos que os recolha. E dizemos que é apenas uma criança, que deve mais é
brincar. E quando brinca e fere maldosamente um colega, esclarecemos tratar-se de um ato de pura
inocência, pois ela não sabe o que está fazendo.
De quem é a culpa pela má formação do seu caráter?
Da educação?
Não! A culpa é dos educadores, incluindo-se os pais e também todos os indivíduos, que par-
tem de uma falsa filosofia ou de uma culposa e irresponsável atitude de descaso.
Então, a educação, por ignorância dos que a devem promover ou mesmo deliberadamente
para proteger interesses outros, se faz improfícua, se debate entre técnicas, métodos e recursos que
visam apenas a aquisição do conhecimento, entregando ao seio da sociedade esses indivíduos sem
responsabilidade, sem atitudes dignas, sem espírito coletivo e que amam somente o que possuem
em termos materiais, antes e acima do seu semelhante.
Não há como combater os vícios e suas conseqüências sem uma reformulação atual da edu-
cação, promovendo uma filosofia que se baseie na moral e na formação do caráter para o bem. Po-
dem mudar as leis e fazerem declarações humanistas que o quadro não mudará, pois os que devem
colocar em prática as leis e as declarações são os mesmos homens corrompidos por essa educação
que trabalha a inteligência e aconchega todos os vícios.

Referências bibliográficas
(1) Taille, Yves de La. Conceito de Ética Ainda é Pouco Conhecido na Escola. Rio de Janeiro:
Jornal do Brasil, 11 de junho de 2000.
(2) Maritain, Jacques. Introdução Geral à Filosofia: Elementos de Filosofia 1. Rio de Janeiro:
Agir, 9ª ed., 1970, 203 p.
(3) Kneller, George. Introdução à Filosofia da Educação. Rio de Janeiro: Zahar, 4ª ed., 1972, 167
p.
3

A IMAGEM DO HOMEM

A perspectiva holística
Devemos estabelecer nosso pensamento sobre o homem de forma clara e objetiva, pois todo
desenvolvimento de nossa visão de sua formação integral dependerá de sabermos o que é o homem
e quem é esse ser do qual estamos tratando, e do qual somos exemplo.
O homem é o sujeito fundamental da educação, quer esteja na posição de educando ou na de
educador, por isso que a filosofia da educação deve procurar insistentemente uma visão integrada
do homem para compreendê-lo e compreender a própria educação.
São diversas as visões filosóficas sobre o homem, as quais podemos reunir em quatro gran-
des grupos:
1. Perspectiva Essencialista (antropologia metafísica) – imagem abstrata da natureza huma-
na, idealista, sem dar conta do social.
2. Perspectiva Naturalista (antropologia cientificista) – o homem é um simples prolonga-
mento da natureza orgânica.
3. Perspectiva Histórico-Social (antropologia existencialista) – o homem é a sua historicida-
de; o ser do homem só pode ser apreendido em suas mediações históricas e sociais concretas da
existência.
4. Perspectiva Holística (antropologia integral) – o homem é um ser bio-psico-social-espiri-
tual.
A adoção de uma das perspectivas sobre o homem é essencial para que a filosofia da educa-
ção possa estipular valores, fins e normas, respondendo a questão do para quê educar.
A primeira perspectiva, idealista, não nos satisfaz porque estuda o homem sem levar em
conta os aspectos de sua vivência.
A segunda perspectiva, materialista, não alcança nosso propósito, pois tudo encerra no bio-
lógico, deixando muitas questões sobre o ser sem respostas satisfatórias.
A terceira perspectiva, histórica, é incompleta, deixando de lado a realidade psíquica do ho-
mem.
A quarta perspectiva, holística, é a que vem de encontro ao nosso pensamento e, portanto, é
a que adotamos ao visualizar o homem como um todo:
Bio – porque vive num corpo orgânico e esse corpo mantém relações com outras espécies e
com a natureza.
Psico – porque é dotado de variada gama de elementos psicológicos.
Social – porque mantém-se em estado de convivência com os outros e com a natureza, de-
senvolvendo sua inteligência e sua moral.
Espiritual – porque sua essência transcende o corpo e situa-se na alma, a verdadeira indivi-
dualidade, o ser do homem.
Estabelecida assim nossa visão sobre o homem podemos agora mergulhar em sua formação
integral, estudando-o como um todo.

Autoridade moral
A história da evolução do homem mostra-nos diferentes autoridades predominando na con-
vivência social. De início temos a autoridade física, a lei do mais forte, surgida pela necessidade da
sobrevivência num meio hostil. O domínio da natureza exigia esforço físico, assim os mais capazes
passaram a exercer o domínio do grupo. Entretanto, logo o homem compreendeu que não bastava a
força física, era preciso acumular estratégias, conhecimentos, experiências. Surge então uma nova
autoridade: é o ancião, ou patriarca, reconhecido pelos seus feitos e sua sabedoria, com ascendência
sobre os demais. Com a expansão dos domínios territoriais, a maior complexidade da vida social
com o advento de nova técnicas e materiais, outra autoridade começa a surgir, espécie de mistura
entre as duas anteriores: une-se o mais forte com a sabedoria e temos a autoridade do chefe militar.
Somente quando a família começa a predominar de maneira mais estável, e os recursos passam a ser
de domínio individual, é que uma nova autoridade social se instala, a do descendente, pela herança
filial. Esses mesmos recursos acumulados trouxeram outra autoridade, especialmente poderosa por-
que ligada à corrupção dos costumes: a autoridade do dinheiro. E, finalmente, temos o estabeleci-
mento da autoridade considerada suprema, a autoridade da inteligência, de quem detém o conheci-
mento, pois este está capacitado para construir, transformar, ganhar, ensinar.
Em resumo, através da história da evolução humana identificamos os seguintes tipos de au-
toridade:
Autoridade da força física.
Autoridade da experiência.
Autoridade militar.
Autoridade filial.
Autoridade econômica.
Autoridade do conhecimento.
Todas estas formas de autoridade convivem nas mais diversas épocas formando sistemas,
uns abertos, outros fechados, interagindo, influenciando e sendo influenciado. Não existe linha divi-
sória no tempo entre estas formas de autoridade. Natural que em determinada época e em dada cir-
cunstância uma ou outra autoridade tenha predominado sobre as outras, mas fato é que diariamente,
nos mais diferentes grupos sociais, as autoridades são encontradas em plena ação.
Não levamos em consideração a existência da autoridade política porque a mesma é exercida
em função da conquista do poder ou pela chefia militar ou pela força econômica, ou pela manipula-
ção do conhecimento, e vezes outras por força da descendência filial, embora tantas vezes incompa-
tível com a real capacidade de ser autoridade.
Neste estudo ousamos indicar a existência de uma sétima autoridade. Trata-se da autoridade
moral, daquela força que une equilibradamente o conhecimento com a conquista de si mesmo e a
prática de condutas éticas. Esta é a única e exclusiva autoridade legítima, reconhecida universal-
mente e válida em qualquer tipo de relação social. A autoridade moral prevalece na mediação de
conflitos porque não é paliativa, mas justa e definitiva.
Em que consiste a autoridade moral?
Na visão integral, holística, do homem, a autoridade moral é o conjunto vivo da experiência,
do estudo, da compreensão de si mesmo enquanto ser, da interiorização de virtudes e da ação equili-
brada no convívio social. A autoridade moral não usa de dois pesos e duas medidas, pois repousa na
sabedoria aliada á prudência, ou, em outras palavras, na harmoniosa fusão do conhecimento com a
ética, onde o próprio exemplo é a prova irrefutável dessa autoridade.
De todos os sistemas de autoridade, a autoridade moral é aquele que melhor se adequa ao re-
sultado do fim da educação na visão integral.
A educação na visão integral deve ser entendida do ponto de vista do todo – a autoridade
moral reside no equilíbrio do todo.
A educação na visão integral relaciona e integra os elementos que educam o ser – a autorida-
de moral existe no equilíbrio desses elementos no ser.
A educação na visão integral faz uma abordagem humanista do ser, da vida e da sociedade –
a autoridade moral é essencialmente humanista ao relacionar os direitos com os deveres.
A autoridade moral caracteriza-se por ser um sistema aberto que interage com os outros, que
se relaciona, que permuta, que ouve e não apenas fala, que não se impõe mas é aceito pela compre-
ensão e pelo bom senso.
A autoridade moral é a única força social acompanhada em seu discurso pelo exemplo, cara-
cterística exclusiva que lhe pertence e que a distingue das demais.
O homem educado na visão integral deverá alcançar o pleno exercício da autoridade moral,
resultado que assegura legitimidade ao processo de formação holística do ser.
4

A INTELIGÊNCIA

Uma questão de consciência moral


Que o homem é dotado de inteligência, isso ninguém duvida; que essa inteligência apresenta
graus diversos de manifestação é fato reconhecido; que os mecanismos da inteligência estão relacio-
nados aos órgãos cerebrais, está comprovado; que a inteligência revela aspectos além do conheci-
mento adquirido pelo estudo, também é fato observado. Contudo, que é a inteligência? Teremos
mais de uma inteligência? podemos classificar a inteligência através de suas manifestações? Qual a
causa da inteligência?
Parece-nos que podemos responder a estas perguntas conhecendo as diversas teorias a res-
peito da inteligência. Estudando as manifestações da inteligência temos as seguintes propostas:

Inteligência Cognitiva – Segundo Jean Piaget e outros, o desenvolvimento mental é fruto


de um processo contínuo de adaptação movido por sucessivas desequilibrações e reequilibrações. A
aprendizagem, subordinada ao desenvolvimento, é realizada pelo educando através de trocas e inter-
câmbios, em diferentes estágios de desenvolvimento. De acordo com a etapa de desenvolvimento a
criança terá possibilidade de relacionar diversos estímulos do meio – aqueles que tem algum signifi-
cado para ela. Essa escolha através da atribuição de significados é que propicia a aprendizagem. Em
cada fase de desenvolvimento encontramos estruturas mentais (cognitivas) próprias. Essas estrutu-
ras apresentam um processo de integração, assim, a inteligência é o processo de equilibração pelo
qual passam todas as estruturas cognitivas.

Inteligência Prática – Esta tese reconhece que as pessoas conhecedoras profundas de deter-
minadas áreas do conhecimento humano têm mais inteligência prática do que acadêmica, ou coefi-
ciente de inteligência (QI). A inteligência advém da capacidade de obter soluções adequadas para os
problemas e não dos conhecimentos adquiridos na escola. A inteligência prática é criadora, capaz de
encontrar soluções e resolver problemas desconhecidos. Outra característica é o fato de ser pouco
verbalizável. Os pesquisadores tem demonstrado que a relação entre idade e inteligência prática é
muito variável, e que o acúmulo de experiências é mais importante que o acúmulo de conhecimen-
tos.
Inteligências Múltiplas – O psicólogo Howard Gardner e outros propõe que existem várias
áreas de inteligência que funcionam independentes, até certo ponto. Que a inteligência é um poten-
cial biológico e psicológico e que esse potencial se realiza mais ou menos como conseqüência de
experiências e fatores culturais e motivacionais que afetam a pessoa. Gardner sugere que todos os
seres humanos dispõem de sete inteligências autônomas que se desenvolvem e combinam-se entre
si numa multiplicidade de possibilidades: verbal ou lingüística, lógico-matemática, espacial, corpo-
ral-cinestésica, interpessoal, intrapessoal e musical.

Inteligência Moral – Teoria desenvolvida pelo psiquiatra Robert Coles que afirma que a in-
teligência moral não é adquirida apenas com a memorização de regras e regulamentos, em discus-
sões abstratas nas aulas ou da obediência às normas da casa. Diferencia o caráter do intelecto e su-
gere que a criança está sempre à procura de orientação moral, conseguida principalmente através da
observação dos exemplos dos pais. A inteligência moral se revela no modo como a criança se com-
porta, como fala com os outros, como os leva em consideração.

Inteligência Emocional – Teoria desenvolvida por Daniel Goleman e outros, onde o ho-
mem é dotado, além da inteligência, também de emoções, que podem ser positivas (alegria, bem es-
tar, etc.) e negativas (raiva, ciúme, etc.), já estando cientificamente comprovado que as emoções
afetam o comportamento biológico do ser, além de seu comportamento moral. Inteligente emocio-
nal é o indivíduo que sabe trabalhar suas emoções, que sabe reconhecê-las, controlá-las e utilizá-las
com melhor proveito na vida, tornando os relacionamentos pessoais mais ricos. A inteligência emo-
cional pode ser resumida no “conhece-te a ti mesmo”, através da auto-observação, levando à auto-
consciência.

De forma geral observamos em todas as teorias confusão entre inteligência e conhecimento,


entre desenvolvimento da inteligência e desenvolvimento do conhecimento.
Jean Piaget distingue bem a inteligência do conhecimento quando escreve: “O conhecimen-
to não procede nem da experiência única dos objetos nem de uma programação inata pré-formada
no sujeito, mas de construções sucessivas com elaborações constantes de estruturas novas.” Quem
constrói o conhecimento e as formas de conhecer é quem conhece – o sujeito – em interação neces-
sária e constante com o que é conhecível – o objeto – o que significa termos uma proposição cons-
trutivista/interacionista.
Sendo o homem um ser integral somente uma proposição sobre a inteligência preenche to-
dos os requisitos: ela se encontra, como potencialidade, na alma, o ser do ser, e sua manifestação
através da personalidade é auxiliada pelo desenvolvimento dos mecanismos do conhecimento e da
aplicação dessa potencialidade. Assim, não concebemos várias inteligências, mas sim várias formas
de manifestação da inteligência que devem ser canalizadas para a consciência moral do indivíduo e,
consequentemente, suas ações éticas para consigo próprio e na sociedade.
5

A SITUAÇÃO

A causa geradora da educação


O educando (o homem) é um ser integral – alma e corpo – cuja origem não está vinculada ao
corpo biológico, mas à alma. E qual é a origem da alma? Deus!
Será o homem capaz de construir o universo, e com perfeição? Terá condições de fazer o dia
e a noite? Poderá colocar o sol, com todas as suas funções, na posição em que está? Dominará a
criação da semente que se faz árvore?
O homem transforma, sempre a partir do conhecido, mas o conhecido é existente antes do
homem existir. Somos efeito de uma grande causa, sábia e justa: Deus.
Embora a ciência – que é humana – não tenha ainda estabelecido a origem do homem, lutan-
do entre teorias e pesquisas, podemos afirmar termos duas origens distintas: a espiritual, como
alma, e a biológica, a partir do momento em que passamos a habitar o planeta. O corpo não é a
alma, pois o corpo morre, se decompõe, e a alma é imortal. A própria ciência, através da medicina e
da genética, confirma isso. Os transplantes trocam os órgãos físicos e continuamos a ser os mesmos.
Durante longo tempo procurou-se a alma dentro do corpo e não se achou. Procuram a mente
e a personalidade no cérebro e não as encontram. São os fatos dizendo que somos alma e não corpo.
Assim a causa geradora da educação do homem é Deus, pois que se somos criados por Ele,
se existimos, somos criados e recebemos a existência para alguma finalidade. Como a história hu-
mana é a história da evolução do homem – no saber e na moral – concluímos que o processo é a
evolução, tendo como consequência que o fim da educação é a perfeição do homem.

Deus – causa da educação

Evolução – o processo da educação

Perfeição – fim supremo da educação

Onde se dá, onde acontece o processo de evolução, que é o próprio processo de educação?
Ele se dá na própria vida, porque vida é educação. E a vida é um amálgama de situações, de confli-
tos que precisam se estudados e compreendidos, tanto em relação ao educando como indivíduo,
como também indivíduo no coletivo.

O contexto de vivência do educando


Vive o educando no mundo. Ele possui personalidade, inteligência, valores, sentimentos,
corpo físico, e está envolvido pela natureza e por situações as mais diversas, dentro da sociedade
humana. A partir de nossa visão espiritualista, temos:

Contexto Físico – A educação não despreza a situação física do educando, que pode ser
classificada em duas vertentes: a) a situação do corpo físico do educando; b) a natureza física, o am-
biente natural em que ele vive. Um educando com o corpo perfeito difere de um educando com cor-
po deficiente, portador de necessidades especiais. Isso deve ser levado em consideração durante o
processo educacional. Deficiências auditivas, motoras, visuais e outras interferem ativamente no de-
senvolvimento tanto da criança quanto do jovem. Também o ambiente físico em que o educando
vive deve ser considerado elemento importante na educação. Ter ou não contato direto com a natu-
reza, morar num casebre ou numa casa espaçosa e confortável, entre outros fatores naturais do am-
biente de vida do educando, não pode ser desprezado. Sempre que os Educadores não levam em
conta o contexto físico temos problemas no processo educativo, tanto na escola como na família.

Contexto Psicológico – Todos somos dotados de um complexo sistema psicológico determi-


nante da personalidade, com variáveis sutis, escalonado em estágios de desenvolvimento, dependen-
te de estímulos. Quando não consideramos o psicologismo do educando muitos esforços educacio-
nais se perdem. Ainda mais grave: atropelamos os estágios de desenvolvimento e baixamos a au-
to-estima, quando a educação deveria positivar o potencial psicológico daquele que está conosco
para receber todo o suporte necessário para seu pleno desenvolvimento.

Contexto Social – O educando é um ser que vive no coletivo, faz parte de diversos grupos
comunitários, e estes compõem a sociedade geral em que ele está inserido. Sofre a influência dos
meios de comunicação e também dos diversos grupos aos quais pertence. Nessa interação não ape-
nas é influenciável, possui também o poder de influenciar, numa troca incessante que enriquece seu
saber, sua conduta, suas experiências de vida. Não é possível educar se o processo pedagógico não
traduz em si mesmo o contexto social em que o educando vive.

Contexto Afetivo – Emoções e sentimentos fazem parte da educação integral. São retratos
vivos do indivíduo e se entrelaçam com seu psicologismo. A maior carência do ser humano, em to-
dos os tempos, sempre foi a carência afetiva, causa geradora da depressão e outros estados aflitivos
da alma. Não é por acaso que o instinto materno é o amor em ação. A educação que não é feita com
amor pode até conseguir desenvolver a intelectualidade do educando, mas não terá força para subli-
mar seus sentimentos, nem mesmo para encaminhar a afetividade, entendida esta como disposição
afetiva de ajuda, de troca salutar para a construção do bem individual e coletivo.

Contexto Intelectual – Quais os estímulos recebidos pelo educando na família? É-lhe ofer-
tado ferramental, recursos e outros fatores que o auxiliam no ato de pensar, de desenvolver o bom
senso, de escolher com responsabilidade? E na escola, damos-lhe mais do que conteúdo curricular?
Ensinamos os porquês das coisas, seus significados, sua utilização na vida e suas conseqüências? O
desenvolvimento cognitivo, objeto de muitos estudos, não é mera teoria que se aprende num curso:
a prática pedagógica nunca pode esquecer que trabalhamos intensamente, o tempo todo, a capacita-
ção intelectual do educando. O que devemos entender é que educação não é sinônimo de instrução.
Parece um discurso repetitivo, mas a realidade tem demonstrado que a teoria está longe da prática
que ainda se realiza dentro da escola, de forma geral.

Contexto Espiritual – É aqui onde devemos concentrar esforços. Desenvolver a espirituali-


dade do educando para que ele saiba discernir entre o bem e o mal, tenha força de vontade para tra -
balhar consigo mesmo a conquista e o aperfeiçoamento das virtudes. Não estamos defendendo esta
ou aquela religião, mas sim um trabalho educacional ligado à religiosidade, que dê ao educando um
ideal superior de vida e uma fé ao mesmo tempo racional e emocional, ou seja, equilibrada. Traba-
lhando o contexto espiritual desenvolvemos com segurança a formação do caráter e a consciência
ética do nosso educando, o que sintetizamos na educação moral, que efetivamente realiza a educa-
ção integral do ser. É trabalho da escola, da família, da sociedade e não apenas das instituições reli-
giosas.

Por que educar?


Eis uma pergunta que muitos pais e muitos professores não sabem responder a contento.
Não sabem porque confundem a condição de ter um diploma de curso superior, ou uma escolarida-
de média, como sendo a própria educação. Não é, nunca foi e jamais será.
A educação do ser integral que todos somos somente se realiza se trabalharmos a educação
integral do ser.
Devemos educar para aperfeiçoar o homem.
Aperfeiçoar no sentido intelectual e também no sentido moral, lembrando que a educação é
sempre progressiva, não se faz total, plena, de um momento para outro.
Devemos educar para moralizar.
Devemos educar para que o ser encontre-se consigo mesmo e realize a missão a que se desti-
na: estar com o outro e estar com Deus para fazer da vida uma vida repleta de amor e sabedoria.
Devemos educar para que o homem seja a bondade em ação.
Devemos educar para sensibilizar os sentimentos.
Devemos educar para que o homem desenvolva suas potencialidades em harmonia, direcio-
nando-as através de um ideal superior, assim construindo uma sociedade justa, imparcial e ética.
Assim o homem saberá enfrentar a vida porque estará preparado para a vida. Saberá viver no
coletivo porque substituirá o egoísmo pela solidariedade. Colocará em ação, através dos estímulos e
exemplos positivos recebidos continuamente, a auto-educação do caráter e da inteligência.
Educar para acionar o processo de auto-educação.
A realidade integral do homem nos dá esta visão de profundidade sobre a educação.
Devemos educar para que o educando receba e vivencie o amor, estando apto a reconhecer
no outro seu irmão, na vida sua escola, na sociedade sua oportunidade de construir o bem.
Devemos educar para que o amor direcione todas as potencialidades do homem, levando-o
ao ato da perfeição de si mesmo. Então teremos um homem justo, honesto, cidadão, ético, afetivo.
Trabalhador, moralizado e espiritualizado.
6

O EDUCANDO

A causa da educação
O educando, seja qual for sua faixa etária, é um ser integral objeto da educação, ou seja, é
com ele, para ele, por causa dele que a educação existe.
O educando não é uma coisa. Também não é um objeto. Igualmente não pode ser classifica-
do com um boneco.
Quando está numa sala de aula, o professor deve ter consciência que os alunos à sua frente
são seres humanos, são almas dotadas de potencialidades perfectíveis, esperando por estímulos po-
sitivos que auxiliem seu processo de crescimento interior. São seres humanos ansiosos por aquisi-
ção de conhecimentos e também por conquista de si mesmos, para vivenciarem plenamente ideais
superiores de vida.
Todo professor deve estar consciente do seu papel de educador de almas.
A criança, o adolescente, o jovem e o adulto possuem fases distintas de desenvolvimento,
fases essas que possuem ampla interação com os contextos educacionais que já estudamos. Par que
melhor ele se eduque, o processo educacional deve trabalhar em harmonia com todos os contextos.
O educando é a causa da educação.
O conteúdo curricular não é a causa da educação.
A carga horária de ensino não é a causa da educação.
As disciplinas curriculares não são a causa da educação.
É e sempre será a causa da educação o próprio homem. Somente a insensibilidade e a igno-
rância podem trabalhar tudo, menos a criança que ali está, rica em si mesma, inteligente e afetiva,
com seus olhos repletos de esperança, depositando toda sua confiança no professor, pois sua vida
está nas mãos e no coração daquele mestre.
Minha memória está repleta de cenas vivas com crianças, jovens e adultos. Abraços bem
apertados, sorrisos de alegria, palavras de agradecimento, lágrimas de gratidão, felicidade em apren-
der, e tantas outras cenas que talvez um livro não pudesse conter todas as descrições. São cenas vi-
vas porque sempre me dediquei com todo amor ao ato de educar, mesmo trabalhando com adultos
em cursos de capacitação, pois reconheço em todos eles seres humanos, iguais a mim mesmo, com
suas potencialidades aguardando meu afeto, meu ideal, minha visão integral, mesmo com falhas,
pois eles sentem em mim mais do que um coordenador, a sagrada esperança de ter encontrado um
educador, e eu somente poderei chegar a esse patamar se compreender que diante de mim está outro
ser humano. Assim deve ser todo professor.

Influência da ação educativa


Pais e professores, em sua maioria, não possuem visão plena da influência que a educação
exerce na vida de seus filhos e alunos. As preocupações de ordem material e intelectual sufocam a
educação, substituída pela instrução, verdadeiro adestramento para a vivência social.
Exemplo do que estamos falando é a escola que, de forma geral, sempre com suas exceções,
está preocupada em realizar a preparação dos seus alunos para as provas universitárias, direcionan-
do todos os seus esforços para o conteúdo curricular, deixando em segundo plano a formação do ca-
ráter, a sensibilização dos sentimentos e outros fatores essenciais da verdadeira educação.
Outro exemplo é o quadro normalmente encontrado nas famílias e que podemos compreen-
der com a seguinte história:
“O pai e a mãe estavam reformando o quarto da filha, que havia completado cinco anos de
idade. Naquele momento estavam pintando as paredes, com o pai sobre uma escada, enquanto a
mãe pintava a parede da metade para baixo. A filha entrou no quarto, com os braços cruzados so-
bre o peito, e, muito séria, perguntou: “Que diabos! Quando vocês vão terminar?”. A menina saiu
batendo os pés no chão, mostrando sua contrariedade, o que deixou o pai extremamente irritado.
Este, olhando, atônito, para a esposa, perguntou: “Mas, que diabos, onde nossa filha aprendeu a
falar assim?” E arrematou dando um chute no degrau da escada”.
Esta história retrata bem o poder da influência da educação, e o quanto os pais não são cons-
cientes dessa influência.
O educando é extremamente influenciável pelos exemplos, pelo que lhe é proporcionado. Se
recebe bons estímulos desenvolve com mais facilidade suas potencialidades. Se não recebe esses
bons estímulos, sua dificuldade em mostrar suas capacidades é maior.

A quem educar?
A resposta clássica é: a criança.
Entretanto, será somente a criança?
Não somente a criança, mas todo e qualquer ser humano em qualquer faixa etária e em qual-
quer condição de vida. Todo ser humano é educável. Alguns com limites, outros com potencial
quase ilimitado, mas todos podem ser educados.
Devemos educar a criança antes mesmo do nascimento, já que ela é alma imortal, ligada aos
pais desde a concepção. A ciência já provou que o bebê, no útero materno, recebe as vibrações de
carinho que lhe são endereçados através de afagos na barriga da mãe; reage às conversas íntimas,
das juras de amor de seus pais. Isso acontece porque a criança não é o somente corpo que está em
formação, mas sim a alma eterna que acompanha o processo e se adapta a ele.
Até o mais bruto dos homens é educável, pois está nele o germe de todos os sentimentos.
Nesse caso é preciso sensibilizá-lo, e somente o amor pode fazer isso.
Eduquemos sempre, não apenas na escola, mas em todos os lugares, aproveitando as cir-
cunstâncias da vida, pois a formação do caráter e o desenvolvimento da inteligência não esperam
por hora e lugar marcados.
7

A EDUCAÇÃO

O que é educação
Entendemos a educação como sendo formadora da moral e da inteligência do homem, em
outras palavras, como sendo o elemento que desenvolve toda a potencialidade existente no ser hu-
mano, por isso que compreender a educação é saber direcionar o homem no mundo.
Muita importância tem sido dada ao desenvolvimento da inteligência, principalmente com as
descobertas da epistemologia genética, mas quase nenhum espaço tem sido oferecido ao problema
da moral. As correntes psicológicas do pensamento se contradizem, as religiões se confundem em
esquemas teológicos ininteligíveis, as filosofias se perdem em buscas e divagações carentes de fun-
damentação. A pedagogia, que é a teoria da educação, o conjunto dos princípios educacionais, ig-
nora o problema da moral.
Busca-se compreender os mecanismos da alfabetização através dos estágios de desenvolvi-
mento, assim como da capacitação do processo ensino-aprendizagem, tudo ligado exclusivamente à
inteligência, e não se sabe o que fazer quando a questão é do caráter, é da moral.
A escola remete o problema à família, que por sua vez o devolve à escola, e a educação se
transforma num jogo em que o objeto principal é o educando, disputado e manipulado, ou mesmo
abandonado, sem que se resolva, afinal, a questão de sua formação.
Não basta termos homens inteligentes, que saibam ler e escrever e que tenham uma profis-
são, isso não é suficiente. Não basta termos homens que saibam fazer cálculos ou administrar, ou
que saibam ser artistas ou governar. Esses homens, em todas as épocas, sempre os tivemos, e nem
por isso vivemos moralmente melhor hoje, porque não é suficiente trabalhar apenas o desenvolvi-
mento da inteligência.

Educar é transformar. Educar é potencializar. Educar é trabalhar tanto a inteligência quanto a


moral, para que o homem saiba, através da moral, o que fazer da inteligência.

Mas, isso não fazemos, e ficamos a admirar as primeiras palavras balbuciadas pela criança,
sem notarmos que são acompanhadas por uma avalanche de defeitos do caráter, que uma boa educa-
ção trataria de corrigir, evitando que crescida, essa criança, agora adolescente ou jovem, transforme
as palavras em gírias, obscenidades e atos menos dignos.
Mas, que estamos dizendo? Que é mais importante a formação moral do que a
alfabetização? Não. O que estamos dizendo é que a alfabetização não é o principal, embora impor-
tante e necessária, mais importante, no período que vai até os sete anos, é o acompanhamento de
suas tendências para que possamos corrigi-las ou aperfeiçoá-las, solidificando o bom caráter.
Vemos os pais preocupados em matricular seus filhos na escola desde a mais tenra idade,
privando-os do ambiente familiar, para que aprendam desde cedo a ler, escrever, nadar, dançar, jo-
gar, pouco se importando quanto à filosofia educacional da escola, e se os filhos estão crescendo
com uma série de vícios comportamentais, como:

Ludibriar a regra do jogo


Roubar o material escolar do colega
Mentir sobre suas atividades escolares
Desrespeitar os professores

Tudo isso, afirmam os pais, são problemas da escola, pois a educação se aprende na escola.
Como se enganam esses pais! A escola atual (as que baseiam seu ensino meramente na instrução)
não educa, ela transmite conhecimentos, sua primeira preocupação é com o processo ensino-apren-
dizagem. A formação do caráter do educando passa longe de suas coordenadas pedagógicas, a ponto
de muitos diretores escolares verem na escola um negócio comercial como qualquer outro, no caso
da escola particular, onde o lucro é o mais importante; ou onde o problema é do governo, no caso da
escola pública.
Como podemos perceber, o problema da educação não se resume em construir escolas.

Compete à educação levar o homem para objetivos definidos em sua vida, em que ele tome atitu-
des baseadas na sua plena consciência, sabendo que não vive isolado ou apenas para si, mas
numa coletividade, numa sociedade organizada em que, se tem direitos, possui também deveres.
A educação do caráter gera responsabilidades. A educação moral gera seres sensibilizados, com
sentimento no coração, que irão buscar o desenvolvimento da inteligência para o progresso co-
mum.

É verdade que a educação como formadora moral do homem foi preocupação de vários filó-
sofos e educadores (ver capítulo 9), mas também é verdade que suas experiências foram poucas e
quase sempre sem incentivo, entretanto, tanto a teoria como a prática sempre deram excelentes re-
sultados, mas os interesses da política, da economia de massa e da tecnologia científica abafaram
essas vozes e seus projetos, com os resultados desastrosos que hoje estamos sentindo: a falência do
sistema escolar, a desestruturação da família e a decadência das estruturas sociais. Predomina o re-
laxamento dos laços morais e os interesses são tão imediatistas que já não se sabe nem quem somos
e nem para que vivemos.
Precisamos retomar o verdadeiro sentido da educação, aceitando que a inteligência desacom-
panhada da moral leva o homem a dramas vivenciais que poderiam ser evitados se houvesse sido
trabalhada a formação do caráter desde a infância.
Eis o que é educação: o desenvolvimento harmônico de todas as potencialidades - morais,
motoras, espirituais, intelectuais - do homem, e nisso estamos de acordo com o pensamento de Pes-
talozzi.
A educação não pode ser tratada como um dado estatístico ou como números de um orça-
mento, pois estamos lidando com a formação do homem, no hoje e para o futuro, e isso não pode
ser mensurado quantitativamente.
A educação é, acima de tudo:

1 - Qualidade;
2 - Trabalho interior;
3 - Floração de dentro para fora.

A educação não pode ser resumida em simples relatórios que levam em conta apenas os as-
pectos materiais do processo de educação.
A educação não pode ser confundida com o aspecto exterior, formal do processo, ela se
apresenta pelos resultados visíveis da atuação do homem na sociedade, onde se acentua, mais uma
vez, que a diferença entre uma sociedade instruída e outra não instruída, não está propriamente no
processo educacional da formação intelectual, mas sim na estrutura moral que compõe cada uma
dessas sociedades, haja vista que encontramos os mesmos índices de violência em ambas, e que nas
sociedades ditas civilizadas o teor da corrupção, que é um problema moral, é mais acentuado.
A amplitude da educação e sua relevância na formação moral do homem está necessitando
de entendimento. É a falta dessa visão que tem deteriorado os esforços educacionais que, desvincu-
lados da filosofia da educação, não conseguem resultados de longo curso, pois sugerem fórmulas
simplistas agarradas ao ensino, quando sabemos que a instrução é apenas uma parte da educação.

Os fins em educação
Toda atividade realizada sem objetivos estabelecidos pode se perder no meio do caminho.
Antes de uma tarefa ser iniciada é preciso saber:
1 - Porque ela será realizada; e
2 - Para que fim os esforços serão feitos.

Do contrário ela poderá se tornar inútil ou improdutiva, sem alcançar o que se pretende.
Quem administra sabe muito bem que planejamento, organização e método são essenciais para se
obter bons resultados, e em educação isso não é diferente, pelo contrário, é mesmo fundamental,
porque um educador só pode educar se souber para que está educando, ou seja, a educação só pode
ter resultados positivos e profundos se estiver direcionada por uma filosofia que lhe dê as diretrizes
pedagógicas.
Fora disso é brincar de ensinar.
Perguntemos a um professor:

Por que você educa?

Ele dificilmente sairá de uma resposta que vá além do ensinar, porque desconhece até mes-
mo o que é uma filosofia de educação.
E se lhe for perguntado:

Qual é a filosofia educacional da escola que você leciona?

Também será difícil responder, porque o salário e as condições de apoio, leia-se técnicas e
recursos, é que preponderam na escolha de onde se vai trabalhar para ensinar.
Não podemos falar em educar porque existe uma grande diferença entre o educar e o ensi-
nar.
Educar é extrair do educando tudo aquilo que ele traz em si mesmo, na forma de potência,
fazendo com que ele se revele através do que possui, exercitando a conquista de si mesmo e do co-
nhecimento. Para educar precisamos ter educadores, ou seja, pessoas conscientes que sua atuação é
de orientador, estimulador, com muito amor pela tarefa da educação e com sensibilidade para saber
trabalhar as diferenças apresentadas pelos educandos. Todo educador é um estudioso da pedagogia.
Ensinar é transmitir conhecimentos de fora para dentro, no que a maioria dos professores se
especializou, muitas vezes em choque com a realidade psicológica do educando e utilizando méto-
dos dissociados de uma educação bem orientada. Para ensinar basta termos um professor, onde o
mais importante é apresentar o diploma de formação e garantir o emprego, com honrosas exceções
que nos remetem à categoria do educador.
Professor, não se limite a cumprir um currículo dando aulas dentro de uma sala de aula. Seja,
acima de tudo, um educador. Preocupe-se em ficar sempre atualizado. Respeite os estágios de de-
senvolvimento psicológico do educando. Integre-se na escola e saiba porque você educa. Para
isso, procure inteirar-se da filosofia que rege o sistema educacional, a escola e o currículo.

Depois das experiências da chamada escola psicológica da educação, entre o final do século
XIX e início do século XX, tivemos um acentuado predomínio das correntes de pensamento mate-
rialista na educação, que a partir da década de setenta tomou como base as bem sucedidas investiga-
ções e experiências sobre o desenvolvimento da inteligência, com uma sucessão de metodologias de
ensino tomadas de empréstimo dessas pesquisas. O homem, visto a partir dos estágios sensórios-
motores predominou, e a psicologia, que significa estudo da alma, retirou a alma de suas cogitações,
tudo encerrando no capítulo da mente física, dos mecanismos explicados sempre de forma a fechar
questão no organismo biológico. As organizações mundiais ligadas à educação, e os próprios gover-
nos das nações, ficaram absorvidas pelas estatísticas e índices, medindo a cultura pelo analfabetis-
mo existente, ou pela percentagem anual do orçamento destinado à educação, o que normalmente
significa verba para construir prédios escolares, distribuir livros didáticos, oferecer merenda às
crianças carentes, contratar professores. Em toda parte a filosofia de trabalho é o materialismo, mes-
mo que disfarçado sob algum outro nome, com a preocupação centrada na inteligência e na aquisi-
ção do saber.
Os sentimentos e a moral estão fora da filosofia materialista da educação. Pensadores como
John Locke ou educadores como Pestalozzi estão fora das cogitações do trabalho educacional, por-
que eles priorizavam a moral. Entretanto, as teorias e o trabalho desses pensadores e educadores, fa-
mosos ou não, possuem resultados positivos na formação do caráter do educando, o que nunca a fi-
losofia materialista conseguiu.
Como se pode combater a violência apenas com indivíduos dotados de inteligência, mas sem
senso moral?
Como falar de direitos da cidadania para indivíduos com o caráter corrompido?
Como corrigir os vícios da sociedade com uma educação que não trabalha a auto-educação,
que não estimula a conquista de virtudes?
Como pode uma filosofia de falsos valores comandar a educação, entregando na corrente so-
cial gerações despreparadas para uma vida de valores morais?
Para corrigirmos os rumos e as falhas da educação é preciso reformularmos a filosofia que
comanda essa educação, por isso propomos a adoção de uma filosofia espiritualizante. Não se trata
de copiarmos modelos místico-religiosos, os quais respeitamos, trata-se de termos uma filosofia que
considere o ser humano dotado de alma, o seu componente além do corpo físico, sua essência,
onde a moral, a formação do caráter, tem mais importância que a formação intelectual, sem des-
prezá-la, mas orientando-a. Essa filosofia possui a força de provocar a renovação individual porque
dá ao homem um novo destino, modificando sua maneira de encarar a vida. A ética, os valores, a
justiça, o direito e tudo o que é ligado às virtudes, passam a ter lógica, razão de ser. Essa filosofia da
educação transforma o mundo a partir da transformação do indivíduo.
A questão fundamental não está em construirmos escolas e no número de vagas para abran-
ger todos os educandos, mas está toda na filosofia da educação que adotamos. Ela dirá o tipo de
adulto queremos sejam as crianças.
8

O HOMEM

O que é o homem
O homem é um ser espiritual dotado de moral e inteligência. Tanto a moral, ou sentimento, e
a inteligência, tem sua sede na alma, sendo o corpo físico um instrumento da alma. A moral e a inte-
ligência são princípios ativos que se desenvolvem de acordo com os estímulos que a educação pro-
picia, considerando-se a educação formal dada pela escola e pela família como a educação dada
pela vida, porque o ato de viver já é um ato de educação. A vida é educação porque está plenificada
numa filosofia que supera, transcende o conhecimento humano, e onde tudo é harmonia.
Resumindo:

Homem = ser integral {moral e inteligência}

Moral e Inteligência são princípios ativos desenvolvidos pela educação.

Educação = escola + família + vida.

Essa visão do homem como ser integral requer necessariamente uma nova visão da socieda-
de humana e uma nova visão da finalidade da vida. Se ele é dotado de moral e inteligência, por que
apenas trabalhar esta última? A harmonia da natureza revelando-nos um pensamento sábio nos diz
do equilíbrio que precisamos fazer, na educação, entre a formação moral e intelectual, pois assim
estaremos trabalhando harmoniosamente as potencialidades do ser integral que é o homem.
O homem não é apenas o corpo físico, biológico, frágil, criado na concepção e com fim mar-
cado pela morte. Essa visão leva o homem a encarar a vida apenas do ponto de vista material, nada
enxergando além do dia-a-dia e dos interesses que lhe tocam mais de perto as preocupações de sa-
tisfazer as necessidades e vaidades. Considerando-se um ser físico, é mais importante trabalhar a in-
teligência, para melhor aproveitar a existência, entretanto, ele não consegue disfarçar o vazio que
lhe vai por dentro, que lhe corrói o coração, onde luta para decretar leis humanitárias, direitos co-
muns, sem contudo conseguir vivenciá-los por faltar nele aquele sentido outro de explicar a si mes-
mo, de explicar a vida. Tanto saber, tanto progresso, e o sofrimento continua, e a felicidade não é
encontrada.
O homem é espírito eterno, marcado pela realidade de ser uma alma num corpo físico, por
esse motivo que a ciência não consegue encontrar a mente no cérebro. Esta visão faz com que o ho-
mem veja a vida para além dos horizontes de nascer e morrer, dando mais importância à formação
moral, pois moralizado ele terá condição de dirigir a inteligência para boas realizações. Seu coração
já não conhecerá o vazio, pois terá sentimento, compreensão do que é direito e do que é justo, não
apenas para si, mas para toda a sociedade. Haverá progresso com a diminuição do sofrimento, pois
ser feliz com o próximo é sua meta.
No estudo da história humana encontramos apoio para a afirmação que o homem é um ser
integral.
Na antiguidade egípcia falava-se dos dois elementos, alma e corpo, com a crença que a alma
continua sua vida em outro plano.
Na Índia milenar o eu espiritual se sobrepõe ao corpo, e sua volta a esta existência é marcada
tanto pelos vícios como pelas virtudes do esforço realizado em progredir numa vida.
Na Grécia filosófica, Sócrates ensinava a realidade espiritual e tinha como preocupação a
formação moral da juventude. Platão formula diretrizes políticas e sociais onde predominam os va-
lores da ética e da dualidade corpo/alma do ser humano. O pensamento aristotélico é todo empenha-
do nas virtudes da alma.
Marcando a humanidade, o pensamento, os ensinos e os exemplos de Jesus falam do homem
espiritual e da necessidade da educação ser regida pelo amor, único caminho que conduz o homem
a Deus.
Agostinho repete a formulação do homem espírito.
Em meio ao obscurantismo da Idade Média surge o educador Vittorino da Feltre para desta-
car a criança e sua realidade psicológica, já advertindo que ela não é um adulto em miniatura, mas
um ser em desenvolvimento.
Mortificando o corpo e demonstrando a pureza de sua alma, outro marco na história humana
é Francisco de Assis, a lembrar novamente que o amor e a moral estão acima dos interesses mate-
riais.
Comênio, o grande educador realista, lança as bases da psicologia do desenvolvimento, pro-
clama a excelência da escola com padrões didáticos de ensino e estuda o homem como sendo alma
e não corpo.
O naturalismo, na pessoa de Rousseau, devolve o homem a seu pai e criador, Deus, e revolu-
ciona a educação.
As portas ficam abertas para o surgimento de Pestalozzi, o pai da educação, que considerava
o ser cristão como um ato de moral e não de confissão religiosa, exaltando a excelência da família
na educação dos filhos e das escolas baseadas nas regras de conduta moral.
E assim outros filósofos, outros educadores, outros pensadores, outros pesquisadores, inclu-
sive no século vinte, dos quais podemos citar Jean Piaget, o biólogo que trouxe o conhecimento das
estruturas cognitivas do pensamento, educador por autodidatismo, e que tinha uma preocupação em
encarecer que a moral em educação é mais importante que a inteligência.
No campo da psicologia temos Jung, considerando a existência da alma como única fonte
para explicar os fenômenos classificados de inconsciente.
Em todas as épocas e em todos os lugares encontramos estudos sobre o homem como um ser
integral, alma e corpo, e a preocupação com a educação moral.
Infelizmente o homem deu preferência a trilhar o caminho materialista, e mesmo com os re-
sultados não satisfatórios encontrados, ele teima em fazer mudanças aparentes, na forma, mas não
de fundo, sem conseguir solucionar a questão da sua educação.
No longo curso da história o homem sempre se colocou no papel de educando, pois que ele
o é, independente da idade física e da posição social, procurando conhecer-se e conhecer o mundo
em que vive. Posicionou o conhecimento em diversas ciências e questionou a vida, não logrando
ainda o final desse aprendizado, já que ainda não se conhece, não desvendou todos os mecanismos
da natureza, nem penetrou nos segredos da vida, embora sua incessante atividade técnico-científica.
Perduram enigmas materiais e morais que já estariam solucionados se o homem aceitasse sua reali-
dade integral, e se trabalhasse a educação pela formação moral. Como um aluno rebelde, repete as
lições, avança vagarosamente no curso da vida e teima em não aceitar a verdade que incessantemen-
te lhe aparece: somente a inteligência não basta, somente os interesses materiais não satisfazem.
O homem moral na sua realidade integral é o passo civilizatório que estamos por dar no progres-
so, e isso depende da educação, que por sua vez depende de ser conduzida por uma filosofia espi-
ritualizante.

Eterno educando
Costumamos dividir o processo educacional em quatro etapas distintas:

1. A educação infantil com alfabetização;


2. O ensino fundamental;
3. O ensino médio com formação geral e técnica;
4. A educação superior com universidade e pós-graduação.

Dos quatro aos vinte e cinco anos, em média, temos o educando, o estudante. Formado, com
o respectivo diploma, ele passa a integrar a grande massa dos trabalhadores, nas mais diversas ativi-
dades.
Para a lei humana ele não é mais um educando, pois seu período escolar terminou.
Devemos considerar a educação compreendida tão somente nas linhas demarcatórias do pe-
ríodo escolar?
Se assim for, a educação existe apenas dentro da escola?
E os cursos de especialização feitos fora desse regime?
E o aprendizado nas atividades cotidianas da vida?
E o núcleo familiar, onde se processam aprendizados comportamentais de profundo signifi-
cado?
A leitura de um jornal, de uma revista, de um livro, de um Cd-Rom, não transmitem cultura
e desenvolvem a inteligência?
Em verdade, a educação não se encerra nas quatro paredes da escola, nem no tempo de vida
escolar, mas se estende por toda a vida.
É uma falsa idéia considerar a escola como sinônimo de educação, assim como considerar a
educação restringida ao período escolar.
Lembramos a história, já muito contada, mas valiosa e profunda para nossa reflexão, daquela
mãe que procurou um educador e perguntou-lhe quando deveria iniciar a educação de seu filho.
Este lhe perguntou quantos anos tinha a criança, ao que foi informado possuir três anos. Então o
educador respondeu à mãe: pois a senhora já perdeu três anos.
Na verdade podemos dizer três anos e nove meses, já que o ser humano demonstra consciên-
cia desde o momento da concepção, respondendo, ainda no útero materno, aos estímulos de cari-
nhos, palavras, sentimentos.
O educador da história alerta para a educação na família, e como esta antecede a escola e
perdura após esta, podemos perceber o quanto ela é importante no processo educacional do homem,
não do estudante limitado a um período, mas do ser humano, que nunca deixa de ser um educando.
E quando a família é interrompida por algum motivo, temos a vida, que deve ser entendida em três
estágios:

a) O antes,
b) O durante, e
c) O depois.

Na sua realidade integral, o homem vive antes do nascimento, já se encontra, como alma,
mergulhado na vida. Dessa vida ele vem para sua existência física, acoplado ao corpo, e, com a
morte do corpo, retorna à vida plena de alma que sempre foi e será.
Sempre um educando, um eterno educando, seja na família, na escola ou na vida, e também
eterno educador, pois quem educa deve se educar, e quem se educa pode educar, num processo con-
tínuo.
O viver em sociedade - e todas as instituições humanas em maior ou menor escala copiam o
modelo social - estimula a troca de experiências, o aprendizado constante, e estabelece regras de
conduta, de comportamento, de valores que, se não obedecidas, estabelecem a desordem. Eis o pro-
blema do ser humano, já que essas regras de convivência tem fundamento moral e não simplesmen-
te intelectual.
Uma lei pode ser um primor de intelectualização, de erudição, mas pode estar fundamental-
mente errada por considerar critérios não éticos, que privilegiam grupos em detrimento de outros,
daí a expressão muito usada: “mas isso é injusto!”. E o que é injustiça? O que é justo? Só obteremos
resposta significativa através do estudo da moral, despojado esse estudo de pontos de vista pessoais.
Voltamos à questão da moral e não poderia ser diferente, porque a base da educação, como
também seu fim último, é a formação moral do homem. Essa formação se dá ao longo do curso da
vida e seria muito facilitada e ampliada se tivéssemos as escolas trabalhando nesse sentido, o que
acontecerá quando organizarem o ensino nas bases de uma filosofia espiritualizante qual estamos
apresentando.
9

O PROCESSO ENSINO-APRENDIZAGEM

Além de provas e notas


Este é um tema muito rico sobre o qual as pesquisas a respeito do desenvolvimento da aqui-
sição do conhecimento, tanto na infância como nos estágios seguintes, vem alargando e solidifican-
do, desde que educadores, a partir principalmente de Rousseau, vieram chamando a atenção para os
aspectos psicológicos da aprendizagem.
Era comum, antes do pensador suíço, a criança ser tratada apenas como um adulto em minia-
tura, sem ser levado em conta sua condição de infância, seu psicologismo, suas estruturas mentais e
o fator biológico do corpo em desenvolvimento. A educação baseava-se em falsas premissas e o en-
sino era totalmente arcaico, baseado na memorização, repetição de lições e cátedra severa por parte
dos professores e pais. Contudo, em respeito à história da educação, devemos lembrar que a existên-
cia de jogos infantis usados no processo educacional já existia entre os antigos gregos, assim como
as correntes primitivas de pensamento e ação cristã tratavam as crianças de forma diferenciada dos
adultos. Os protestantes, no início da reforma religiosa, dedicaram-se com intensidade ao ensino in-
fantil, e o célebre educador Comênio, no século XVII, preconizava o uso da didática a partir da di-
visão do ensino em estágios delimitados pelo desenvolvimento do educando. É dele a divisão dos
graus escolares e a primeira classificação dos estágios de desenvolvimento psicológico.
Apesar de todas essas contribuições ao longo da história e da profundidade das pesquisas do
século XX, com Piaget, Montessori, Vigotsky, Emília Ferreiro, Paulo Freire e outros, constatamos
que o processo ensino-aprendizagem está mais perto dos tempos arcaicos do que da chamada mo-
dernidade, pois é comum vermos professores utilizando em larga escala a aula expositiva e exercí-
cios prontos, num total desconhecimento dos métodos pedagógicos e numa irritante comodidade, do
que trabalhando o despertar das potencialidades em sintonia com o desenvolvimento apresentado
pelo educando.
Desrespeitando-se estágios psicológicos, os processos de ensino-aprendizagem oferecem
modelos prontos, pré-concebidos, normalmente desvinculados da realidade familiar e social do edu-
cando, ou seja, nada tem a ver com a vida prática. Tudo se resume num amontoado de conhecimen -
tos que devem ser aprendidos, decorados, exercitados, mas sem saber qual o uso que se fará deles
depois de encerrado o período escolar. Não se trabalha a crítica nem o entendimento subjetivo,
como se o educando fosse um pássaro ao qual se dissesse bastar bater as asas e o empurrássemos do
ninho para voar, verificando que o mesmo não consegue. E dizemos que o pássaro (o educando) não
soube aprender. Melhor seria dizer que não soubemos ensinar.
Sempre nos perguntamos, na vida prática, do que nos valeram aquelas aulas de matemática
na infância onde boa parte do ensino se fixou nas equações de segundo e terceiro grau, se nunca
soubemos empregá-las, pois isso não nos foi ensinado.
Resultado: esquecemos todo o aprendizado e hoje somos obrigados a recorrer aos livros para
recordar, e mesmo assim por obrigação de algum exame ou para auxiliar os filhos na sua trajetória
escolar.

Nenhum processo ensino-aprendizagem é completamente válido se desvinculado da realidade


prática da vida - do ponto de vista do uso da inteligência - e também da realidade fundamental da
vida - do ponto de vista moral.

O existir possui duas referências.


Uma, imediata, que é o viver em sociedade, de acordo com as leis humanas e biológicas.
Outra, não menos imediata, mas num estágio superior à primeira, nas relações morais entre
os indivíduos e sua destinação futura, no reconhecimento da dualidade corpo-alma.
O processo ensino-aprendizagem necessita trabalhar essas duas referências sob pena de ficar
cego de uma vista, como aliás tem sido até o momento.
Temos visto escolas onde o processo ensino-aprendizagem possui o que de mais moderno se
tem em recursos e técnicas, e em que a metodologia obedece os padrões das pesquisas de desenvol-
vimento genético e psicológico, mas onde faltam noções básicas de moral. Tudo é feito para se de-
senvolver a inteligência, no objetivo de explorar a aquisição do conhecimento, da cultura humana,
mas nada é feito para formar o caráter. Esse ensino mascara os seus próprios defeitos, trabalha a
formação de fora para dentro e ilude os pais com a apresentação de trabalhos muitas vezes feitos pe-
los professores em nome das crianças. Tudo é bonito, mas superficial.
De que vale um processo de aprendizagem com os últimos recursos técnicos concebidos se o
professor grita em sala de aula?
Se esse processo nada ensina a respeito das relações ético-comportamentais?
Se tudo se resume em algumas provas ou exames decisivos de avaliação?
Basta uma boa nota numa prova final e o ano letivo desastroso no conhecimento e/ou no
comportamento é esquecido.
Avaliação
Uma avaliação correta do processo ensino-aprendizagem só pode ser feita através da implan-
tação de uma nova dinâmica do sistema avaliativo do educando, pois a prática intelectual e moral
depende inteiramente da capacidade do educando em aplicar o conhecimento adquirido, e essa aqui-
sição também depende dos estímulos que lhe são oferecidos.
Propomos que a avaliação seja feita levando-se em conta o rendimento escolar, abolindo-se
a expressão em conceitos determinados por provas, testes e exames. Essa nova dinâmica do sistema
de avaliação do educando no processo ensino-aprendizagem pode ser resumida através de:

1 - Uma avaliação contínua;


2 - Verificada através dos aspectos formativos da inteligência e do caráter;
3 - Registrada em fichas de acompanhamento individual;
4 - Segundo critérios pré-estabelecidos;
5 - Feita tomando como base os objetivos da escola e do plano de curso adotado;
6 - Expressa ao término do ano letivo por um pronunciamento final que representará a análi-
se do aproveitamento escolar em termos de crescimento potencial do educando.

Essa dinâmica possui a vantagem de integrar o educando no processo ensino-aprendizagem,


estimulando a auto-educação e o compromisso real com o seu desenvolvimento, além de levar o
professor a um verdadeiro trabalho educacional. Este sistema avaliativo pode ser considerado mais
trabalhoso e subjetivo, entretanto, afirmamos que essa subjetividade é mais objetiva que uma prova
onde o educando camufla seu despreparo com um estudo específico de ocasião, liberando o profes-
sor de um aprofundamento didático-pedagógico, o que nos leva a algumas considerações sobre os
métodos no processo ensino-aprendizagem.
Lembramos que esta proposta de avaliação não pode ser implantada de forma imediata, pois
significa um processo em um tempo que deve levar em conta a preparação dos educadores e outros
fatores pedagógicos, mas que não pode ser adiada indefinidamente.

Critérios básicos
A educação, tomada como formadora do espírito, é feita pelo educando e orientada e estimu-
lada pelo educador, conjugando o uso da inteligência, da razão e do conhecimento com a formação
do caráter e o uso das virtudes. Desse modo, a metodologia educacional deve levar em consideração
três critérios básicos:
1. Educação com Amor - A educação é um ato de amor. Cada educando é uma inteligência
despertando para a vida, e mais do que isso, é uma consciência moral que desabrocha. Essa inteli-
gência e essa consciência precisam de aceitação e compreensão, pois do contrário se ressecam, tor-
nam-se amargas, voltam-se para a rebeldia e a maldade. Educar é amar porque a educação é a ajuda,
o amparo, o estímulo. A violência - física e moral - contra o educando é um estímulo negativo que
desperta as suas reações inferiores. Só o amor educa, fazendo-os crescer no bem.

2. Educação com Exemplo - O exemplo é uma didática viva. Nossos exemplos exercem
maior influência do que as nossas palavras. Ensinamos o que não fazemos e queremos que os edu-
candos sigam nossas palavras. O psiquismo infantil é como uma janela aberta, no lar e na escola,
haurindo as influências dos indivíduos à sua volta, dos organismos sociais e do ambiente, razão pela
qual devemos procurar integrar pais e professores na ação educativa, pois o exemplo é a mais ampla
e profunda didática que pode ser aplicada ao educando. Pais e professores que derem bons exem-
plos de conduta moral e de uso da inteligência para o bem comum, estarão perfeitamente integrados
no fim supremo da educação, que é formar o caráter, o cidadão consciente de seus deveres e dos di-
reitos que cabem não somente a ele, mas a todos, igualmente. Façamos, portanto, aquilo que fala-
mos, para que a teoria se transforme em prática.

3. Educação com a Experiência Própria - O educando aprende pela experiência. Quando


colocado frente a uma situação real ou simulada, próxima à realidade; quando o educando se vê
diante de uma situação-problema em que ele tem de encontrar a solução, então aprende a raciocinar,
a analisar, a pensar e a agir. O educando não aprende decorando definições, mas compreendendo
conceitos. Pela prática ele compreenderá a teoria e não o inverso. O processo ensino-aprendizagem
deve oferecer experiências conjugadas com a teoria, para que o educando venha a desvendar os mis-
térios da vida em conjugação harmônica com Deus, através da compreensão, da lógica, do bom-sen-
so e da realidade moral do viver.

Mais do que cursos para a aprendizagem de algumas técnicas e utilização de recursos didáti-
cos, os professores devem ser levados para cursos de formação filosófica onde tomarão consciência
do que seja a educação, tratando então de reformular o processo ensino-aprendizagem ao incorpora-
rem sua responsabilidade com a formação moral, tratando o educando como ele merece, ou seja,
como ser integral que tem uma vida pela frente, com direitos e deveres. Ele precisa conhecer e tam-
bém saber o que fazer com esse conhecimento.
Novamente devemos insistir neste ponto, que não bastam as escolas existirem para termos
educação, e que o papel das escolas deve ser reavaliado.
10

A ESCOLA

Um pouco de história
O trabalho escolar nos moldes em que hoje conhecemos e concebemos é fruto de uma paci-
ente evolução no entendimento da educação, sofrendo diversas interrupções ao longo da história hu-
mana, haja vista que encontramos o primeiro sistema escolar na China milenária, onde existiam as
escolas superiores. As primeiras se espalhavam pelas cidades maiores e as segundas habilitavam os
que haveriam de trabalhar para o governo real, entretanto, o sistema era precário e a escola muitas
vezes não passava de um local coberto com as crianças sentadas no chão e tendo um professor sem
nenhum tipo de formação, numa cátedra baseada na exposição e exercícios de memorização.
No mundo ocidental as escolas tiveram sua implantação através dos gregos de duas formas
distintas: as escolas do estado e as escolas livres ou particulares, cada uma com sua filosofia pró-
pria. E por falar em filosofia, quase todas as escolas particulares pertenceram a filósofos e livres
pensadores, principalmente em Atenas, com uma curiosa particularidade: nem sempre existia o pré-
dio escolar, pois muitos preferiam ministrar suas aulas ao ar livre. As escolas estatais da Antiga
Grécia conheceram um sistema de ensino que influenciou em muito a organização escolar que de-
pois foi sendo implantada no mundo.
Essas experiências estão recuadas no tempo e ficaram durante largo período da humanidade
relegadas ao esquecimento, pois a educação foi primordialmente considerada questão de família e
de exclusividade do domínio religioso. Mosteiros, conventos e igrejas não podem ser considerados
verdadeiramente como escolas, porque limitaram o ensino ao confessionalismo religioso, à cateque-
se, com práticas que hoje consideramos absurdas.
Somente com Lutero vamos ter uma retomada do ensino básico feito na escola, e com a
abertura das universidades e instalação do ensino superior. Tudo ainda muito carregado de religio-
sismo, mas ensaiando a fixação do uso de escolas para promover o ensino.
A partir do século XVI começamos a encontrar atividades dignas de registro por parte de
educadores, e é no século XVII que a escola começa realmente a ser discutida e vai pouco a pouco
tomando formas mais definidas. A escola evolui na medida em que a compreensão do ato de educar
se estabelece, e com o rompimento definitivo das amarras religiosas, ao final do século XVIII os
sistemas escolares estatais começam a ser implantados na Inglaterra, na França, na Suíça e na Ale-
manha, surgindo o jardim da infância por obra do educador alemão Froebel.
A evolução é patente, mas a escola, como um todo, mantém um processo ensino-aprendiza-
gem amarrado a velhas fórmulas e a criança ainda é um adulto em miniatura, e o professor o cate -
drático todo poderoso. Palmadas, reguadas, chicotadas, exercícios quilométricos e outros métodos
violentos são comuns, e só tiveram a decretação de seu fim durante o século XX.
Nos últimos tempos uma preocupação com a didática vem levando a escola a conhecer pro-
jetos arquitetônicos, internos e externos, os mais variados, procurando-se um modelo que melhor
atenda ao ensino, dentro de uma metodologia que priorize o educando e a utilização de recursos
compatíveis com o ensino que se propõe.
É uma nova etapa na história da escola.

Ensinar e educar
Temos assim dois assuntos principais em torno da escola:

1 - O ensino que nela se pratica, e


2 - Qual o seu significado na educação.

A escola, em contrapartida ao confessionalismo religioso e a educação de cunho familiar,


oferece a democratização do ensino, podendo alcançar maior número de educandos e abranger o co-
nhecimento humano mais largamente. Organizada dentro de um sistema - o escolar - obedece a uma
divisão por etapas de aprendizado, desde o jardim de infância, o pré-escolar, até a universidade,
obedecendo nessa divisão as faixas etárias determinadas pelas pesquisas sobre o desenvolvimento
psicológico e orgânico do ser, embora isso possa ser discutido, variando de acordo com as formula-
ções dos pesquisadores e educadores.
Mundialmente a divisão por faixas etárias é utilizada, mas nisso já temos sérios questiona-
mentos, pois cristaliza-se o ensino sem levar em consideração o desenvolvimento das potencialida-
des do educando, que pode estar além ou aquém da simples classificação de sua idade. Se esse já é
um problema a ser resolvido em torno do desenvolvimento da inteligência, imaginemos a ortodoxia
da divisão etária em relação ao desenvolvimento moral do educando. É triste vermos o psiquismo
infantil atropelado pela intransigência do sistema escolar, impedindo o seu avanço e não estimulan-
do seu progresso.
Muitos casos de repetência e abandono ocorrem por falta de motivação do educando, que,
como autodidata avança muito mais rapidamente no saber e na moral do que dentro do sistema es-
colar. Isso não é uma regra, mas mostra-nos que a escola não pode ser estruturada num sistema fe-
chado, rígido, como vem acontecendo.
Outro fator dentro do ensino oferecido pela escola é a massificação, a quantidade em detri-
mento da qualidade. Salas de aula superlotadas não podem oferecer nem ensino substancial nem
educação formativa do ser. Nesses casos, é comum o professor dar atenção apenas aos que se inte-
ressam e se esforçam, largando os demais a si mesmos. E nem poderia ser diferente, pois ele não
pode trabalhar sozinho diante de cinqüenta ou mais alunos, sob pena de perder o acompanhamento
individual e ter seus esforços metodológicos nulificados.
O acompanhamento individual é o melhor processo em educação e para isso as escolas de-
vem manter em sala de aula o máximo de vinte alunos, além de um educando mais adiantado. É o
pequeno mestre adotado por Pestalozzi. Em harmonia com a individualização da educação, a sala de
aula deve manter espaço adequado para as atividades e o material a ser utilizado ao alcance do edu-
cando. Lembramos que o professor deve ser um educador, um orientador do processo de formação
intelecto-moral do educando, e não um catedrático que vai expor os seus próprios conhecimentos, e
que muitas vezes expõe de forma errônea.
Seja qual for a metodologia de ensino escolhida pela escola, dentro das diversas correntes de
pensamento pedagógico, uma diretriz não pode ser perdida, a de que o educando é um ser integral,
possui corpo e alma, e é dotado tanto de inteligência como de sentimento, de moral. A metodologia
deve estar orientada por uma filosofia educacional que leve em conta esses elementos, pois do con-
trário teremos instalado todo um trabalho que vai priorizar a inteligência e o materialismo, com as
funestas consequências de gerações inconseqüentes desarmonizando o viver em sociedade e des-
crente de objetivos e finalismo superior da vida.

Repensando a didática
Como nosso assunto é o ensino que se pratica na escola, devemos uma palavra sobre a didá-
tica. A escola é vista como o local onde se ensina, onde se transmite conhecimento e, portanto, o lo-
cal onde se faz a educação. Essa é a visão generalizada dos pais e dos governos, cometendo um erro
capital.
A transmissão do conhecimento através do ensino não encerra a questão, a abrangência da
educação. Formação da inteligência e do caráter estão muito além do que apenas transmissão e assi-
milação do conhecimento. E como se dá o ensino praticado na escola?
Podemos descrevê-lo, de forma geral, honrando-se as exceções, com facilidade:

a) Crianças sentadas em carteiras enfileiradas;


b) Um professor utilizando o quadro de giz;
c) Exercícios mimeografados ou impressos;
d) Testes periódicos;
e) Notas que estabelecem o nível de conhecimento do educando;
f) Algumas atividades extraclasse;
g) Trabalhos em grupo, muitos dos quais meras cópias bibliográficas.

Eis o resumo do ensino praticado pela escola, ressalvando-se as exceções, como já o disse-
mos.
Em conjunto com esse ensino, muitos problemas.
Depredação do prédio escolar, desrespeito ao patrimônio, regimentos internos mais adequa-
dos a quartel militar, ou afrouxamento da disciplina, péssimos exemplos por parte dos professores,
interesses meramente financeiros nas escolas particulares, falta de material didático, desvio da esco-
la de seu verdadeiro fim através da implantação do assistencialismo, e tantos outros problemas em
relação aos alunos e sua conduta que teríamos de escrever um livro somente sobre esse tema.
Apesar dessa constatação defendemos a escola como o lugar propício à educação, desde que
corrigidos os desvios, e desde que se faça sua conjugação com a família e a sociedade, pois escola
isolada é instituição desvinculada da vida, perdida no existir coletivo do homem.

Os objetivos da escola
A formação profissional, ou pelo menos o preparo para o exercício de alguma atividade para
o sustento próprio é o objetivo a que vem se apegando a escola e todo o sistema de ensino, com a
implantação do diploma regendo as funções profissionais e até mesmo a posição social do indiví-
duo.
Entretanto, o diploma não oferece nenhuma garantia de qualidade de quem o está apresen-
tando. É meramente um documento conquistado através de notas tiradas em provas e exames que
não levam em consideração a capacidade crítica, interpretativa, do fazer por si mesmo, possibilitan-
do ao mau aluno apresentar-se ao mercado de trabalho condignamente, mas sem nenhuma qualida-
de, desprovido dos recursos intelectuais necessários e ainda sem formação moral, sem a honestidade
de um caráter reto. Esse é o resultado de uma escola onde o instruir e entregar um diploma absorve-
ram o finalismo superior da educação.
O preparo profissional pode fazer parte da escola, mas não pode absorver todo o seu traba-
lho. Há que se ter em mente que um profissional capaz deve, também, além das habilidades neces-
sárias ao exercício da profissão, ser dotado de honestidade, de retidão de caráter, de espírito coleti-
vo, de respeito e solidariedade, o que se consegue com a educação moral.
Todo planejamento é dinâmico, flexível, e a escola trabalha, dentro da didática e do método,
o currículo, ou seja, as matérias que serão ensinadas, trabalhadas com o educando. Se numa empre-
sa a preocupação constante com a avaliação do planejamento é prioridade, na escola a preocupação
dominante é com a rigidez do currículo e a obrigatoriedade de seu cumprimento por parte do profes-
sor, mesmo que esse conteúdo esteja em desacordo com a clientela - os educandos - e oferecendo
problemas na sua implantação. Ao professor compete seguí-lo, não importa como, e encerrar o ano
letivo com toda a carga curricular ministrada. A filosofia educacional pode ficar perdida no meio do
caminho porque o que se quer é cumprir o currículo.
As expressões artísticas, as atividades lúdicas, as pesquisas sérias, os eventos extra-classe, as
novas idéias para a prática do ensino, devem ficar para discussão de seu aproveitamento no próximo
ano, isso se houver aceitação.
A escola deve ser dinâmica, deve possuir um ambiente de integração entre a direção, os pro-
fessores, os alunos, os pais, como extensão e ampliação da família. A escola também pertence aos
que nela trabalham e nela estudam. Deve ser participativa com a comunidade em que está instalada.
E seu currículo tem de ser aberto, tem de ser reavaliado constantemente, principalmente para o
acompanhamento da formação moral dos educandos, que rege mesmo o ensino intelectual.
O papel da escola na educação é de importância capital. Se não substitui a família, é nela em
que podemos trabalhar a formação integral do educando, explorando o desenvolvimento de suas po-
tencialidades, na conjugação harmoniosa da transmissão cultural do conhecimento, do uso das fa-
culdades intelectuais, e na formação do caráter sensibilizando os sentimentos.
O que determina o sucesso ou o fracasso da escola e do sistema escolar é a ordem em que
colocamos os fatores acima, e que defendemos seja a seguinte:

1. Formação do caráter sensibilizando os sentimentos;


2. Exercício prático do uso das faculdades intelectuais; e
3. Transmissão cultural do conhecimento.

Essa é a escola representante legítima da educação.


Dessa escola sairão seres verdadeiramente educados, com consciência moral do amplo signi-
ficado da cidadania, do respeito ao próximo, da justiça e demais valores que fazem a alma se sobre-
por ao corpo, levando a razão a se conjugar com o coração, por obra da aplicação de uma filosofia
espiritualizante.
Nessa escola, conforme a visualizamos neste capítulo, está o futuro feliz do homem e da hu-
manidade.
11

A FAMÍLIA

Algumas importantes questões


Considerada como a célula básica da sociedade, devemos perguntar se a família faz parte do
processo educacional.

O lar pode ser considerado uma escola?


Quais as influências dos pais na educação dos filhos?
O ambiente familiar deve ser transposto para a escola como um modelo a ser seguido?
Pelos vínculos afetivos que ligam seus membros, temos na família o ideal da formação mo-
ral?
Enfim, qual o papel representado pela família, na educação?

Como já deixamos evidente, consideramos a família como parte do processo de educação, e


parte importante, mas não detalhamos este nosso ponto de vista a partir dos princípios de uma filo-
sofia espiritualizante, o que faremos agora através dos questionamentos que acabamos de fazer.

Célula básica da sociedade


No mundo ocidental o modelo familiar composto de pai, mãe, filhos, uma moradia e paren-
tes mais próximos, começou a se fixar no século XVI, quando as relações se tornaram mais está-
veis.
Copiando o modelo patriarcal dos romanos, judeus e muçulmanos, a família estabeleceu no
homem-pai o chefe, o mandatário, visto que a mulher, mesmo sendo mãe, até então era considerada
como “sem alma”, portanto, sem direitos, conforme estabelecera a igreja. Importante notar que o es-
tabelecimento da família se deu com o início da queda do poder exercido pela religião tradicional
católica e o surgimento do movimento renascentista com novas idéias acerca da sociedade, do mun-
do e da vida.
Como toda evolução é lenta, podemos acompanhar passo a passo a fixação da família, vendo
os filhos se transformarem de “pequenos adultos” sem maior significado, em “crianças” com os res-
pectivos direitos. O modelo patriarcal trouxe alguns prejuízos pela imposição da obediência cega ao
pai, e pela escolha deste do futuro reservado aos filhos, além de colocar a mulher em posição sub-
missa, doméstica, o que só viria a ser questionado a partir da implantação da revolução industrial.
Esse acompanhamento da evolução da família pelas linhas da história é muito importante
para termos uma visão lúcida da mesma, levando em conta a própria evolução da sociedade.
Em todas as estruturas sociais humanas encontramos a família, desde sua forma primitiva,
simples, até formas mais estáveis e complexas. A união do homem e da mulher para gerar um filho
é o princípio da família como célula social que reúne num mesmo ambiente, e por motivações afins,
dois seres. Estudos sociológicos já levados a efeito determinam a íntima relação existente entre a fa-
mília e a sociedade, entre as estruturas que predominam numa e noutra, de tal maneira que a família
é considerada o instituto básico de formação da organização social. É a célula que, aglutinada com
outras, constitui o corpo da sociedade.
As relações sociais podem ser encontradas nas relações familiares, assim como as relações
mantidas no ambiente familiar se refletem no comportamento do indivíduo na sociedade.
Na vida escolar recebemos o aluno.

Aluno = educando = homem em desenvolvimento.

O aluno traz comportamentos e conhecimentos hauridos na família, do seu relacionamento


com os pais, com os irmãos ou com outros parentes mais próximos, o que atesta ser a família emi -
nentemente educadora, do contrário o agora aluno na escola deveria vir como um papel em branco
para iniciar o seu processo educacional, o que, efetivamente, não ocorre, e aí está a história humana
para nos provar este fato, diariamente.
Da maneira como se construiu a família, como ela encara os valores de convivência, teremos
a formação da sociedade, que refletirá sempre os seus indivíduos e a estrutura familiar que lhe for-
ma a base.

O lar pode ser considerado uma escola?


Há no título acima uma sugestão de estudo muito importante e que passa despercebido pela
grande maioria.

Lar é diferente de casa.

Quando a família está para ser constituída existe uma preocupação grande quanto ao lugar
onde ela irá se fixar, ou seja, a casa que se transformará na moradia dessa família. Cuidados arquite-
tônicos são providenciados. A decoração é revista. Estuda-se a vizinhança. A casa está pronta. En-
tretanto, o lar desmorona alguns meses depois - o lar e não a casa - entre brigas, confusões, ciúmes.
A casa ali está no mesmo lugar de sempre, mas pesa sobre o lar uma atmosfera de intranqüilidade,
de desunião.
Casa é o local, o lugar onde a família vai se instalar materialmente, formada de paredes,
chão, teto e todos os recursos disponíveis para se levar a existência a contento.
Lar é o ninho aconchegante formado pelo amor, o ambiente psicológico e afetivo que deter-
mina as boas ou más qualidades das relações internas entre os familiares.
A preocupação excessiva com a casa tem determinado o fracasso do lar.
O estabelecimento do lar, em bases legítimas do amor, determina a casa em que a alegria es-
pontânea predomina sobre as preocupações de ordem estritamente aparente.

O lar detentor desse legítimo amor que educa, que orienta, que protege, que estimula as relações
morais, desenvolvendo assim a formação do caráter de seus membros, é uma legítima escola.

Podemos dizer, sem erro, que a escola deveria ser, tanto quanto possível, cópia do lar, exten-
são do mesmo, mas para isso se faz necessário que a família, como instituição social encarregada de
trabalhar prioritariamente os valores morais do caráter, se reposicione, estruturando o seu viver com
os objetivos voltados para o lar e não para a casa.
É comum verificarmos a família preocupada com as compras do mês, com a pintura da fa-
chada residencial, com a decoração interna, com a aquisição deste ou daquele bem de consumo,
com as finanças para conforto da existência, e esquecida da educação dos filhos, que tudo possuem
materialmente, mas não possuem respeito ao próximo, desobedecem ao pai e à mãe, vivem em total
liberdade a tudo destruindo, sendo classificados como crianças “mal-educadas”. Mal educadas por-
que essa família não formou um lar. E se o lar desestruturado mal educa, é uma verdade que o lar
bem estruturado educa, e essa constatação é feita pelas pessoas diariamente, classificando o lar
como escola.
O lar não é a escola da instrução intelectual, mas:

Da educação do sentimento;
Da consolidação dos valores ligados ao bem;
Do exercício de condutas que visam ao preparo para viver em sociedade;
Da aquisição de recursos éticos que validam o comportamento moral.
Esse é o verdadeiro lar, a verdadeira escola que compete à família organizar, sem o que tere-
mos uma instituição social doente, desequilibrada, sem ética, lançando na vida desajustados crôni-
cos.
Como escola da alma, o lar deve ser dinâmico, propiciando a seus componentes sentimento
de união, de solidariedade, de diálogo construtivo, iniciando os filhos nas pequenas tarefas domésti-
cas e introduzindo-os nas atividades da complexa sociedade humana. Tudo isso faz parte da educa-
ção, que é formadora do ser.
A família exerce em maior grau a parte da educação moral, da formação do caráter, ao mes-
mo tempo que auxilia a parte da educação intelectual, competência maior da escola, o que nos indi-
ca a necessidade da integração entre a escola e a família.
Uma escola que se faça um lar torna-se extensão da família para o educando.
Um lar que complementa a escola torna-se extensão da sala de aula para o educando.
Essa integração, fortalecendo a educação moral para que esta direcione a educação intelec-
tual, será conseguida no melhor entendimento do papel educador do lar e também da escola.

Qual a influência dos pais na educação dos filhos?


Compete aos pais a formação moral dos seus filhos, e nisso está a mais sublime tarefa de um
educador, tarefa essa que exige responsabilidade, verdadeira missão a que os pais não podem se fur-
tar, respondendo pelos atos dos filhos enquanto estes se fazem dependentes. Em verdade, pais de
consciência culpada pela má educação oferecida a seus filhos vivem dramas de remorso, mesmo
quando estes já são adultos.
Há pais que por indolência do próprio caráter, apresentando uma culposa indiferença, esti-
mulam os caprichos dos filhos, não lhes corrigindo as más tendências verificadas desde os primei-
ros instantes, porque a criança é uma alma que já traz as potencialidades a serem desenvolvidas, as
tendências inatas que cumpre serem desenvolvidas, se boas, ou corrigidas, se más. Isso é competên-
cia primeira dos pais, educadores da alma infantil que lhes procura para receber no seio da família a
preparação para o viver social.
Num mundo em que as más tendências do caráter predominam, a correção das mesmas é en-
tendida como sendo o uso de métodos violentos. Tenta-se educar pelas surras, pelos castigos corpo-
rais, pelo uso de vocabulário degradante, quando a educação está no amor conjugado com a dis-
ciplina, está nos bons exemplos a que os pais devem se obrigar em dar a seus filhos.
Como podemos exigir o cumprimento de obrigações, como podemos deplorar comporta-
mentos, quando somos os primeiros a não cumprir com essas mesmas obrigações e quando nossos
exemplos não servem para serem seguidos?
Quantas vezes temos surpreendido mães utilizando de violência física acompanhada de pala-
vrório fútil, porque seu filho pronunciou uma palavra de baixo significado? Como pode ela exigir
cuidado com as palavras quando não dá exemplo? O filho, com naturalidade, pensará: “se minha
mãe pode usar essas palavras, por que eu não posso?”. Mas não lhe oferecem explicações, apenas
atitudes violentas, nem se preocupam em realizar uma auto-educação que seria muito mais proveito-
sa para os olhos da infância.
Estimulam-se vícios os mais diversos e depois se queixam do comportamento que os filhos
observam na família e nos outros meios sociais. Na verdade os pais deveriam queixar-se de si mes-
mos. Deveriam realizar um exame de consciência, não quanto aos esforços de proporcionar a educa-
ção ou a ilustração da inteligência, mas em relação ao que fazem no capítulo da educação moral.
Mesmo quando os pais revelam certo conhecimento do seu papel na formação dos filhos,
desviam a educação para a total liberdade, deixando os filhos livres para fazer o que quiserem, pois
assim eles crescerão sem traumas e sem as interferências prejudiciais da autoridade que pode lhes
cercear o desenvolvimento. Essa explicação não tem respaldo no bom senso nem nas pesquisas pe-
dagógicas. A liberdade sem responsabilidade cria verdadeiros monstros. Como aquelas crianças
que, numa visita, precisam ser agarradas pelos pais para não destruírem a casa alheia, de tão acostu-
madas a agirem plenamente em liberdade, sem consideração à propriedade e aos direitos do seme-
lhante.
Ou aquela criança sem cerimônia, que não diz para onde vai, com quem vai, e chega como
auto-convidada, sem dar maiores satisfações, demonstrando que respeito é matéria ultrapassada no
processo educacional. Será mesmo?
Estes exemplos, que denominamos cenas de educação familiar, acontecem sob a indiferença
ou o beneplácito dos pais, que a tudo assistem sem qualquer reação, espantando-se mais tarde quan-
do os filhos os deixam de lado e enveredam pela filosofia materialista de enxergarem apenas a si
mesmos, sem outro sentimento. Esse é o resultado do descuido com a formação do caráter, afastan-
do o educando da sua realidade de alma criada por Deus para o progresso, o que depende nesta exis-
tência da tarefa educacional dos pais, que, como já o dissemos, tem a missão de educar e não sim-
plesmente de cuidar.

O ambiente familiar é modelo a ser seguido pela escola?


Imaginemos um grupo de pessoas unidas por laços afetivos do mais puro sentimento, onde o
diálogo construtivo aparece em todas as circunstâncias e os pais se preocupam com os exemplos da-
dos aos filhos.
Imaginemos esse grupo em harmonia, tanto nos afazeres domésticos como no lazer, perfeita-
mente integrado no meio social em que vive.
Imaginemos esse grupo, onde se encontram a paz e a felicidade, resolvendo de forma frater-
na, no apoio mútuo, todos os problemas da vida comum.
Imaginemos um grupo assim, de crianças risonhas, jovens responsáveis, adultos trabalhado-
res, e todos percebendo a vida com objetivos sérios e elevados.
Esse grupo é exemplo de um ambiente familiar equilibrado, moralizado, e há modelo melhor
para a escola?
A escola deve ser o complemento da família no que esta tem de bom, pois não poderíamos
indicar para a escola o modelo de uma família desequilibrada, sob pena de desarmonizarmos o tra-
balho escolar.
A discussão sobre o ambiente doméstico da família deve ter caráter de prioridade em nossa
sociedade, pois do que fazemos entre as quatro paredes da casa que nos abriga, depende a estrutura
do lar, e, em escala maior, a estrutura social.
Assistimos o estabelecimento de ambientes familiares degradantes do ponto de vista moral,
e também inoperantes, deixando a indolência habitar os corações e as mentes, com o conseqüente
afrouxamento dos laços afetivos, e pouco fazemos para reverter essa situação, queixando-nos depois
dos graves delitos cometidos pelos membros dessa família sem orientação, sem princípios. Essa fa-
mília não é modelo a ser seguido, mas grupo a ser reorientado, necessitado de educação.
Quando dizemos que o ambiente familiar deveria ser reproduzido no ambiente escolar, que-
remos dizer que a escola deve ser um local:

1 - Agradável;
2 - Estimulando os educandos a verem nos educadores outros pais (os educadores não como
substitutos dos pais, mas como amigos, orientadores, mantendo uma relação plenificada pelo
sentimento do amor); e
3 - Onde os sentimentos ligados às virtudes predominam.

Para que isso aconteça a família deve fazer crescer a árvore do amor entre seus membros,
para que os frutos não venham a apodrecer logo após a colheita, em outras palavras, o ambiente fa-
miliar deve ser exemplo de união, concórdia e respeito, onde todos cumprem com seus deveres sem
atropelar os direitos dos outros.
Essa é a família em que deve se transformar a escola.

O ideal da formação moral está na família?


Desde que compete aos pais educar seus filhos, tendo nisso uma missão pela qual devem
responder, e sendo a educação o desenvolvimento das potencialidades morais e intelectuais, onde os
exemplos e sentimentos afetivos preponderam na formação do caráter, é sem dúvida que encontra-
mos na família o ideal da educação moral.
A criança, nos primeiros estágios de seu desenvolvimento, é dependente dos cuidados e dos
afetos dos pais, sendo fortemente influenciada pelos estímulos que recebe por parte dos que a de-
vem proteger e amar. Ninguém e nenhuma instituição pode substituir as noites mal dormidas de
quem vela a cabeceira do filho. Quem fornece as primeiras palavras a serem ouvidas pelo recém-
nascido? Quem lhe entrega sorrisos, abraços, carinhos? Quem chora junto com o choro da criança,
ainda um ser frágil lutando por dominar o organismo físico? São os pais, missionários da educação
moral de seus filhos no ambiente familiar.
A formação moral é feita através de alguns elementos que sobram na organização familiar.
O primeiro deles é o exemplo, empregado pelos pais até mesmo de forma automática, semi-
consciente. Os pais são espelhos em que os filhos se refletem, por isso os cuidados com as atitudes e
as palavras diante deles e também diante dos outros, pois o exemplo não pode ser um aqui e outro
ali. No exemplo encontramos a força da educação moral.
O segundo elemento encontrado na família é a conduta afetiva. Para uma boa formação
moral é imprescindível integrar o educando numa atmosfera de bons sentimentos. É necessário que
ele se sinta aceito, estimulado a mostrar quem ele é e quais são suas tendências e suas potencialida-
des. O afeto entre pais e filhos, educadores e educandos, possui alcance moral muito maior que
qualquer recurso didático.
Temos o terceiro elemento, o sentido de união, muito importante para fazer com que os fi-
lhos, sentindo-se protegidos, amparados e estimulados, possam dar seus primeiros passos com segu-
rança, sabedores que os pais ali estão para ampará-los quando necessário, mas sem coibir-lhes as
experiências, os eventuais erros e acertos, experiências essas que serão feitas procurando-se sempre
o melhor para um caráter bem formado, consciente.
A família é detentora dos elementos primordiais para levar a efeito a educação moral, entre-
tanto, nem sempre consegue resultados satisfatórios, isso porque, como já estudamos, a família vem
sofrendo um processo de afrouxamento de seus laços, tendo perigosamente caminhado para os inte-
resses egoístas e imediatos das coisas que dizem respeito somente ao prazer material, e de forma in-
dividual. Siga-se o caminho dos interesses coletivos e espiritualizantes e a missão educadora da for-
mação moral será resgatada por essa mesma família.
Pelo fato de termos na família o ideal da formação moral não se segue que somente ela pos-
sa trabalhar esse aspecto, primordial, da educação.
A moral também pode ser, e deve ser, objeto da escola.
As metodologias pedagógicas só podem ser consideradas completas levando em conta a edu-
cação da inteligência moral.
Na educação, a família não pode ser desprezada. Sua influência é por demais sensível, e boa
parte dos males do fracasso do ensino se deve a termos relegado a família a plano secundário, desli-
gando-a da escola, do sistema escolar, das idéias educacionais e das filosofias da educação, e, numa
outra vertente, retirando dela a parte que lhe cabe na formação da estrutura da sociedade.
Enquanto a família estiver reduzida a um grupo que habita momentaneamente uma casa,
sem maiores vínculos, estaremos envolvidos com graves questões que somente uma visão da educa-
ção moral do homem poderá resolver.
12

A EDUCAÇÃO MORAL

O voo do pássaro
Quando recebemos uma criança para educar estamos diante de um mundo rico de vivências
e experiências trazidas pela alma e ampliadas pela educação recebida na família. Repleta de idéias e
tendências que lhe são inatas, está diante de nós para receber educação, passando a ser considerada
um educando em determinado estágio de desenvolvimento. Tudo o que ela traz deve ser observado,
porque sem a observação perderemos o fio que nos liga a ela, seremos educadores que não conse-
guem romper a casca, ficando apenas na superfície, fazendo da educação um processo de ensino de
fora para dentro, quando deveríamos colocar para fora todas as virtudes potenciais da criança num
processo estimulador que age de dentro para fora.
A criança não é uma desconhecida, não possui um mundo inacessível para nós, pois que já
fomos crianças, já passamos pelo mesmo período em que ela se encontra. Todo pai, toda mãe, todo
educador deve parar para meditar, para refletir, buscando seu interior no resgate de um passado cha-
mado período infantil, procurando verificar quais eram então seus valores, como enxergavam o
mundo, que importância davam à família, como se sentiam sendo crianças e como recebiam o trata-
mento dado pelos adultos, enfim, quais eram seus comportamentos e a razão deles.
Essa meditação é útil para dois objetivos:

1. Avaliar a si mesmo, agora adulto; e


2. Entender a criança que está diante de nós.

Com o passar dos anos e o avanço na idade temos uma tendência a arquivar o passado, prin-
cipalmente a infância, cristalizando idéias e comportamentos do momento presente que insistimos
em transferir para o trabalho educacional junto à criança, num esforço que culmina em grandes fra-
cassos.

Educador, onde está tua infância? Resgate-a e terás a medida exata do trabalho que deve ser fei-
to para educar!
As escolas vivem repletas de professores mal humorados, bravios, desinteressados, com pro-
blemas de ordem material e moral, com formação profissional deficiente e sem visão psicológica,
distanciados de bons valores morais. Estão presos à aplicação de algumas técnicas, de alguns recur-
sos e a um currículo montado apenas e tão somente com matérias do conhecimento humano. Não,
esse professor está longe de conhecer a educação moral, ou seja, o ideal da educação.
Para integrar-se na educação moral o professor necessita empreender o vôo do pássaro para
fora do ninho. Ele tem de bater asas vencendo distâncias, trazendo a criança que ele já foi para a
criança que agora está sob sua responsabilidade, tornando-se então um educador preocupado com o
que faz, constantemente se atualizando e levando o educando a auto-educar-se, como ele mesmo,
educador, está se auto-educando.

Há quadro mais belo que educandos envolvendo seu mestre em demonstrações de respeito e cari-
nho?

O professor que não se emociona, que não chora diante de um quadro assim tão familiar,
que não se transforma em um segundo pai ou segunda mãe, não consegue ser um educador.
A educação dos últimos séculos, embora conhecendo chamas renovadoras, vem se arrastan-
do no obscuro túnel dos vínculos materiais, dando tanta importância à razão e ao desenvolvimento
da inteligência, que não conseguiu atingir sua finalidade, ou seja, não conseguiu educar as gerações,
enlutadas por uma intelectualidade degenerada, egoísta, orgulhosa, fomentando guerras, destruição,
políticas desonestas, dramas morais pungentes, desigualdades sociais e tudo o mais que nos mantém
vinculados à dor em todos seus matizes.
Os métodos se sucedem, as leis são modificadas e, contudo, o quadro continua o mesmo,
apesar do avanço constante da tecnologia e das pesquisas em todas as áreas do conhecimento. É que
falta ao homem trabalhar a arte da formação do caráter. Quando ele fizer isso terá compreendido o
sentido da educação moral.
Dos bancos escolares uma geração moralizada precisa sair para iniciar a renovação da socie-
dade. Serão pássaros livres da filosofia materialista do viver. Terão por objetivo o avançar nas virtu-
des, vendo na sociedade a grande instituição humana que lhes ampara o caminhar terreno, e que
deve ser amada, protegida, ampliada e conservada, e não dilapidada por interesses mesquinhos, in-
dividuais ou de grupo.
A educação moral estendendo-se sobre a educação intelectual para bem direcioná-la. Não te-
mos dúvida que esse é o caminho, que a boa vontade das autoridades e o esforço dos que lutam por
educar pode consolidar.
Deixemos o amor envolver a educação e formemos o caráter dos educandos - na família e na es-
cola - pois as sementes estão no mundo aguardando a água que lhes transforme em flores e
plantas, a água viva da educação moral para um mundo melhor.

Resumo didático
Compreendemos a educação moral dentro da seguinte proposta:

1. A educação - na escola e na família - deve ser regida por uma filosofia espiritualizante;

2. Essa filosofia deve basear-se na visão do ser integral;

3. O primeiro objetivo da educação através dessa filosofia é a formação moral do educan-


do:

4. O segundo objetivo da educação através dessa filosofia é a espiritualização do educando;

5. No esforço educacional a escola deve integrar-se com a família e a família com a escola;

6. Compreende-se formação moral como sendo a formação do caráter do educando, através


da compreensão das virtudes e sua prática;

7. Para que se possa plenamente fazer a formação moral, o ensino deve estar conjugado
com a realidade vivencial do educando;

8. Currículo, na educação moral, conjugará a formação do caráter com a formação intelec-


tual, fazendo com que a primeira discipline e oriente a segunda;

9. Tanto quanto possível, a escola deve refletir a família;

10. Os professores devem educar com amor, tornando-se segundos pais e mães;

11. Lar deve ser compreendido como unidade social educadora por excelência;

12. As provas e testes devem ser abolidos e substituídos por uma avaliação que leve em con-
ta o progresso contínuo do educando, seu interesse e sua vivência dos ensinos.
Não há verdadeira educação sem que os educadores estejam conscientes da filosofia que orienta
o processo educacional.
13

OS EDUCADORES E A EDUCAÇÃO MORAL

Neste capítulo entregamos ao leitor uma pesquisa biobliográfica sobre alguns dos principais
educadores da humanidade, acompanhando uma sequência cronológica.
Não pretendemos apresentar um quadro completo. Sem dúvida alguns educadores que aqui
não aparecem deveriam estar listados, mas optamos por um quadro sintético com os principais re-
presentantes das várias correntes de pensamento.
Como o leitor poderá apreciar, vários desses educadores propuseram a educação moral, pre-
ocuparam-se com a formação do caráter do educando, com que a educação fizesse com que o edu-
cando adquirisse virtudes e conseguisse, através da auto-educação, equilibrar o conhecimento com a
prática moral.
Como não vivemos isolados, mas coletivamente, e a história é um processo, lembramos que
muitos desses educadores influenciaram em sua época a sociedade em que viviam, e também in-
fluenciaram os educadores que vieram após, como foram influenciados pelos educadores que vive-
ram antes. O pensamento educacional é construído ao longo do tempo e não existe “novidade” que
não tenha sido intuída antes, no farto terreno da pesquisa, da experiência prática e do conhecimento
teórico.
Que o leitor possa resgatar o sentido histórico da educação, transportando esses educadores
para os dias atuais, sentindo que o ideal da educação moral é presente desde remotas épocas.

Sócrates (496AC-399AC) - Chamado de “o mais espantoso fenômeno pedagógico do Ocidente”.


Vivendo na Antiga Grécia, na cidade de Atenas, considerava que sua missão principal era “verifi-
car se o que a alma do jovem está para gerar é ilusório e falso ou nobre e verdadeiro (...) Aqueles
que convivem comigo mostram-se muito ignorantes no começo, mas depois, à medida que progride
nossa convivência (...) fazem progressos admiráveis (...); e isso, evidentemente, sem nunca terem
aprendido nada de mim; só por si mesmos descobrem muitas coisas belas e conservam-nas; mas
quem faz o parto sou eu (...).” Preocupava-se com o esclarecimento. Não um esclarecimento super-
ficial, mas desmascarante, que mostrava ao esclarecido a sua própria ignorância. Para Sócrates, o
autoconhecimento é o início do caminho para o verdadeiro saber. Sua arte de envolver os outros em
contradição chamava-se maiêutica. Como filósofo espiritualista descortinou a alma, a integridade e
consciência do indivíduo, a liberdade interior e a tarefa da autoformação. Como educador, a sua
preocupação era o despertar e o estimular o impulso para a busca pessoal da verdade, através do di-
álogo vivo e amistoso com seus discípulos.

Platão (427AC-347AC) - Vivendo em Atenas e discípulo de Sócrates, fundou uma escola, a Acade-
mia, transformando-a em modelo para as futuras universidades. Para ele, a tarefa central de toda a
educação é retirar os olhos do espírito enterrado no grosseiro pantanal do mundo aparente, em cons-
tante mutação, e fazê-lo olhar para a luz do verdadeiro ser e do divino. Para Platão, o trabalho de
conhecer não é tarefa apenas intelectual, é também obra de amor. Seus principais livros são: Apolo-
gia de Sócrates; Diálogos; República e Banquete.

Aristóteles (384AC-322AC) - Estudou na Academia, tendo Platão por professor, para depois, em
336AC, fundar sua própria escola. Segundo ele, três fatores principais determinam o desenvolvi-
mento espiritual do homem: disposição inata; hábito e ensino. O homem só alcança a sua perfeição
através do hábito, e conclui: para tornar-se homem, a educação é necessária, e isso desde o nasci-
mento. A aprendizagem necessita do encontro com a realidade externa existente e no fundamento
da fé. O homem chega à razão ouvindo, e não só olhando.

Sêneca (54AC-39DC) - Educado em Roma, defende a dignidade humana, a igualdade de todos os


homens e a abolição da escravatura. Confia na razão, no querer e na atitude moral, mas considera
que tornar o homem moralmente bom é uma arte especial. A idéia da necessidade de auto-educação
ocupa o centro da pedagogia de Sêneca, e a provocação de resultados, pois “só através desses desa-
fios se podem conhecer talentos e adquirir virtudes”.

Agostinho (354-430) - Foi professor e bispo católico, defendendo a vida da virtude e do autoconhe-
cimento como instrumento legítimo na busca da verdade eterna. Somente trilhando o caminho da
interioridade, iluminados pele fé em Deus é que podemos atingir a paz e a sabedoria. Reconhecia o
valor dos exercícios físicos, da literatura, da matemática, da lógica e da retórica, contudo, conside-
rava como objetivo básico da educação o desenvolvimento da consciência moral cristã. Deixou,
como principal obra, o livro Confissões.

Tomás de Aquino (1225-1274) - Professor da Universidade de Paris e padre, para ele ensinar é uma
das formas mais elementares do ser espiritual. Organizou estudos, reformou programas de ensino e
fundou escolas superiores, onde dizia que no ensino unem-se a contemplação admirada da realida-
de, a força do silencioso ouvir - não da opinião dos outros, mas da verdade das coisas - , o olhar
para o homem que precisa aprender, a amável aceitação de quem ouve e o correspondente esforço
de esclarecer, simplificar, transmitir, por parte de quem ensina. Pela sua razão, o homem participa
da razão divina, a causa suprema da verdade. Pela experiência dos sentidos, pelo pensamento e a
linguagem, aprende a realidade. Destacam-se dois de seus livros: Sobre o Mestre e Summa Teológi-
ca.

Vittorino da Feltre (1378-1446) - Foi o mais renomado educador italiano da renascença. Ensinou
nas Universidades de Pádua e Veneza. Em 1428 organizou a Escola de Mântua onde ensinou litera-
tura, história e civilização no lugar de línguas, tendo ocupado um palácio inteiro. Essa escola passou
a ser chamada de “Casa Amena”. Os esportes e jogos alternavam com os estudos, cultivava-se a
apreciação estética e, acima de tudo, as influências morais e cristãs. Para ele, a educação visa a uma
preparação direta para uma vida útil e equilibrada, e a escola deve se basear nas atividades naturais
da criança. Não escreveu nenhum livro, ficando apenas o registro de seu trabalho durante dezoito
anos na escola.

Martinho Lutero (1483-1546) - Líder alemão da reforma protestante, lutou para libertar a educação
do domínio da Igreja Católica empenhando-se em disseminar escolas e sustentava uma concepção
mais verdadeira da função da educação na vida. Encarava a família como uma instituição educativa
tão importante quanto a escola. Elaborou currículos onde predominavam as ciências, a música e a
ginástica ao lado do estudo das línguas. Lutero foi o primeiro a propor que a educação era dever do
estado, e nas escolas protestantes acolhia meninos e meninas sem distinção de ordem social, o que,
para a época, era um avanço notável.

François Rabelais (1483-1553) - Homem de universidade e erudito francês, combateu a vida for-
malista, insincera e frívola da época, influenciando pensadores e educadores com suas idéias. Ele
patrocinava uma educação que incluía elementos sociais, morais, religiosos e físicos, uma educação
que conduzisse à liberdade de pensamento e de ação. Dava grande importância ao desenvolvimento
das ciências. Suas teses educacionais podem ser encontradas em dois livros de sua autoria: Gargân-
tua e Pantagruel.

Michel de Montaigne (1533-1593) - Não considerava a educação como saber adquirido nos livros,
mas sim no treino dos sentidos e na educação física, na compreensão do conhecimento. “Fazer seu
aluno sentir que a elevação e o valor da virtude verdadeira consistem na facilidade, utilidade e
prazer de seu exercício e que ela deve ser adquirida pela ordem e boa conduta, não por meio da
força”. Deixou três livros muito importantes sobre educação que muito influenciaram a França e os
demais países europeus: Da Pedantaria; Da Educação das Crianças e Da Afeição dos Pais pelos
Filhos.

François de Salignac de La Mothe Fenélon (1651-1715) - Fecundo educador, projetou e dirigiu a


Nouvelles Catholiques em Paris, França, um colégio exclusivamente para moças, causando grande
espanto à sociedade. Recomendava uma educação atraente iniciada desde a primeira infância. Con-
siderava a educação de acordo com cinco fundamentos: 1) Aproveitar a curiosidade natural da
criança; 2) Utilizar uma instrução indireta; 3) Propiciar uma instrução atraente; 4) Procurar diversi-
ficar a aprendizagem; 5) Utilizar a narrativa informal com fábulas e pequenas histórias para ensinar
educação moral e religiosa. “Em um receptáculo tão precioso como a mente de uma criança não se
deve verter nada além de coisas essenciais”. Seus principais livros são: Tratado da Educação das
Jovens; Educação das Moças; Fábulas e Telêmaco.

John Locke (1632-1704) - Educador e pensador inglês, é um dos primeiros a tratar a educação de
forma total, integral, considerando assim a vida física como a intelectual e moral. Insiste em come-
çar a educação do espírito desde cedo, pois das primeiras impressões depende a vida posterior. Na
educação o decisivo é a preparação para a virtude, a formação moral, que consiste em primeiro lu-
gar no domínio das paixões, na submissão dos instintos à razão. Para Locke cumpre implantar os
hábitos não com o impor atos às crianças, mas fazendo-as realizá-los espontaneamente, prazerosa-
mente. “As diferenças que se encontram nas aptidões e costumes dos homens devem-se mais à edu-
cação que a qualquer outra coisa”. É o primeiro representante da educação ativa: começar pelo
jogo e convertê-lo aos poucos em trabalho; educação das boas maneiras, a conversação, a atenção
aos outros, a tolerância. Insiste na necessidade de se conhecer o caráter das crianças. De sua obra
destacam-se dois livros principais: Ensaio sobre o Entendimento Humano e Pensamentos sobre
Educação.

Johan Amós Comênio (1592-1670) - É o representante mais importante do movimento realista. Es-
tabelecia que “o último fim do homem é a felicidade eterna com Deus”. A educação deve auxiliar o
homem a alcançar esse fim. Para Comênio o fim religioso último devia ser atingido pelo domínio
de si mesmo, e este por sua vez devia ser assegurado pelo conhecimento de si mesmo, o que inclui
o de todas as coisas. O conteúdo da educação deveria ser enciclopédico, numa organização de fatos
em torno de princípios universais. Seu método de ensino copia a natureza e baseia-se em três princí-
pios: os sentidos; o intelecto e a revelação divina. Defende o estudo dos fenômenos naturais e a de-
pendência da percepção sensorial de todo conhecimento relacionado com a natureza. Comênio or-
ganizou uma grade curricular de acordo com o nível de desenvolvimento da criança e organizou a
escola nos moldes como hoje a conhecemos. Deixou uma obra que é considerada marco na literatu-
ra pedagógica, o livro Didática Magna.

Jean Jacques Rousseau (1712-1778) - Este pensador suíço que adotou a França como pátria, en-
tendia que a felicidade e o bem estar humanos são direitos de todos os indivíduos, não o privilégio
especial de uma classe favorecida. Defendia que a educação devia preparar o indivíduo para viver
numa sociedade onde cada um contribuísse mediante seu trabalho para a manutenção, ligado pela
simpatia a todos os seus semelhantes, e pela benevolência a todos que necessitam de auxílio. A edu-
cação é um processo natural. É o desenvolvimento interno e não acréscimo exterior. É a expansão
das aptidões naturais, não aquisição de informação. É a própria vida e não a preparação para o futu-
ro distante da infância em interesses e características. Foi o primeiro a ver claramente a diferença
entre a mente da criança e do adulto, reconhecendo a infância como idade distinta com fases que
cumpre estudar e respeitar. “Ponde vosso aluno atento aos fenômenos da natureza, e depressa o fa-
reis curioso; para alimentar-lhes a curiosidade não vos apresseis jamais em satisfazê-la. Ponde ao
seu alcance as questões e deixai-os resolvê-las”. Rousseau deixou os seguintes livros: A Origem e
Desigualdade Entre os Homens; O Contrato Social, e o mais importante, Emílio ou Da Educação.

Johan Heinrich Pestalozzi (1746-1827) - Seu pensamento fundamental é que as reformas sociais e
políticas deviam surgir pela educação - não da educação corrente que apenas procurava munir a
criança de formas exteriores, decoradas. “O conhecimento sem atividades práticas constitui o dom
mais funesto que um gênio inimigo tenha dado à nossa época”. Demonstrou que o problema da
educação devia ser considerado do ponto de vista do espírito da criança, encontrando-se em cada
uma os germes de todas as faculdades, sentimentos e aptidões, buscando o fim da educação, o de-
senvolvimento moral e intelectual e bem estar material da criança. Foi o criador da escola para o
povo. “A humanização do homem, o desenvolvimento de todas as manifestações da vida humana,
levada a maior plenitude e perfeição é a grande finalidade da educação”. Pestalozzi teve várias
experiências educacionais, assim como dedicou-se à literatura, até ficar famoso na direção do Insti-
tuo de Yverdon, cidade da Suíça, onde durante anos aplicou seu método pedagógico com extremo
sucesso, desenvolvendo a educação moral ao lado da educação intelectual. Seus livros são de leitura
obrigatória: Diário de Um Pai; Leonardo e Gertrudes e Como Gertrudes Ensina seus Filhos.

Froebel (1782-1852) - Acentua a importância da criança, dos seus interesses, experiências e ativi-
dades como ponto de partida e meios da instrução, além do melhoramento moral dos alunos através
da educação. Para Froebel, que era alemão, a educação, começando pela atividade espontânea da
criança e desenvolvendo-se às idéias e interesses volitivos permanentemente formados, era mais
largamente um treino afetivo do que intelectual. São dois os seus princípios: 1) Os materiais de en-
sino só produzem um desenvolvimento real da criança se forem escolhidos tal como a vida é; 2) A
educação só produz resultados desejados, tanto individuais como sociais, se a instrução escolar se
relacionar diretamente com a vida. Foi o criador, na Alemanha, do Jardim de Infância, dando gran-
de ênfase ao trabalho do pré-escolar. Seu principal livro é A Educação do Homem.

Maria Montessori (1870-1952) - Um trabalho pedagógico baseado em dar às crianças total liberda-
de de criação tornou a educadora italiana conhecida em todo o mundo. Ela combate todas as formas
de autoritarismo, a massificação do ensino e o comportamento competitivo, defendendo o direito da
criança de procurar e encontrar seu próprio ritmo de aprendizado e desenvolvimento. Montessori
partia do princípio de que o desenvolvimento da inteligência da criança implica uma educação me-
tódica, criando para isso material didático especial consistindo numa série de jogos destinados a
proporcionar uma educação sensorial, estimulando a observação. Criou a Casa dei Bambini, que se
espalhou por toda a Itália, uma escola com todo o material de sala de aula adaptado às crianças. De
seus livros destacam-se: Método da Pedagogia Científica Aplicada à Educação; Auto-Educação
nas Escolas Elementares; A Criança; Educação para um Mundo Novo e A Mente Absorvente.

Jean Piaget (1896-1980) - Para este pesquisador suíço somente a psicologia poderia fornecer uma
ponte entre a teoria do conhecimento e o desenvolvimento biológico do ser, e a partir desse pensa-
mento, em sucessivas experiências, nasceu a idéia central do seu trabalho: a maneira de pensar da
criança é diferente, residindo essa diferença na qualidade e não na quantidade. Demonstrou que a
criança possui estágios de desenvolvimento, possui estruturas de pensamento, e que esses estágios e
essas estruturas precisam ser respeitados e estimulados pelo processo da educação. A criança tem
uma forma própria e ativa de raciocinar e de aprender. “Do nascimento ao final da adolescência a
educação é uma só e constitui-se de fatores fundamentais como o auxílio da família, o desenvolvi-
mento individual, e é a escola que fica com uma boa parte da responsabilidade quanto à formação
intelectual e moral do aluno, sendo responsável assim pelo sucesso final ou o fracasso do indivíduo
na realização de suas próprias possibilidades e em sua adaptação à vida social”. Piaget escreveu
muito, destacando-se os livros O Nascimento da Inteligência na Criança; A Construção do Real na
Criança; Gênese das Estruturas Lógicas Elementares; A Formação do Símbolo na Criança; A Gê-
nese do Número na Criança e Para Onde vai a Educação?.
SOBRE O AUTOR

Marcus De Mario nasceu em São Paulo, capital, fixando residência, ainda na juventude, na
cidade do Rio de Janeiro.
É escritor, educador e consultor, tendo fundado em 1999 o IBEM – Instituto Brasileiro de
Educação Moral, organização não governamental sem fins lucrativos, do qual é Diretor Geral, onde,
através do Projeto Educação Moral para Formação do Homem, desenvolve a Pedagogia da Sensibi-
lidade, a Escola do Sentimento e o Programa Vivendo Sempre em Paz, realizando palestras, semi-
nários, oficinas de vivências e cursos (presenciais e a distância), sendo igualmente editor da revista
ReConstruir, sobre educação.
Como consultor empresarial desenvolve o Programa Afetividade e Convivência na Empresa
(PACE), onde trabalha a gestão humanizada de pessoas e a liderança espiritualizada junto a empre-
sas.
Coordena, através da Internet, as atividades do Portal Orientação Espírita.
Para conhecer o trabalho de Marcus De Mario, acesse os seguintes sites:

Instituto Brasileiro de Educação Moral


www.educacaomoral.org

Portal Orientação Espírita


www.orientacaoespirita.org

Alma do Livro
www.almadolivro.com

Blog sobre Educação


http://analiseecritica.blogspot.com
Adquira os lançamentos de

Marcus De Mario

Livros eletrônicos (eBook) e impressos nas áreas de:

Educação
Auto-Ajuda
Gestão de Pessoas
Romance
Espiritualismo
Espiritismo

Conheça nosso catálogo em


www.almadolivro.com

Faça seu pedido:


Telefone: (21)3381-1429
Email: contato@almadolivro.com