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Skate, lazer e as emoções: reflexões a partir do pensamento

De Norbert Elias e Eric Dunning.

HONORATO, T. Skate, lazer e as emoções:


reflexões a partir do pensamento de Norbert
Tony Honorato
Elias e Eric Dunning. In: 7º Simpósio
Internacional Processo Civilizador: História,
Núcleo de História e Educação
Civilização e Educação., 2003, Piracicaba-SP. 7º
Simpósio.. Piracicaba-SP : UNIMEP, 2003. v. 01. PPGE/UNIMEP/CAPES
thonorat@unimep.br

Resumo:
O presente artigo discute aspectos da teoria do lazer e das emoções de Norbert Elias e Eric
Dunning, na prática que denominamos lazer-skate. Apresentamos a busca do prazer como
elemento fundante desta atividade de lazer, tendo como pano de fundo o processo civilizador que
o homem tem construído processualmente através dos seus comportamentos, costumes e hábitos.
Palavras-chave: Lazer, Emoções e Skate.

Abstract:
This paper argue aspects of the theory of the leisure and of the emotion by Norbert Elias and
Eric Dunning, at the practice that denominations leisure-skate. Presents the search pleasure as
basic element the this leisure activity, basead on a civilizing process we aim under the that man
to have build-up processing by through your conduct, custom and habit.
Key-Words: Leisure, Emotion and Skateboarding.

Em 03 de agosto de 1500 a frota de Cabral após ter “descoberto” o Brasil, já se


encontrava em Melinde, costa oriental da África, a caminho da cobiçada Índia. Passaram-se 502
anos, muitas mudanças ocorreram, tanto nos costumes como nos hábitos dos homens ocidentais.
Hoje, após todo este tempo, comemora-se na data de 03 de Agosto, o Dia do Skate, diríamos que
isso seja mais uma das práticas culturais aventureiras, que o homem construiu através de suas
experiências/relações comportamentais ao longo do tempo.
A prática cultural do Skate no Brasil é recente, Chaves1 aponta que “ela chega na
década de 60, com uma galera que começava a surfar por aqui, influenciada pelos anúncios na
revista Surfer. Na época o seu nome era “surfinho”, e era feito de patins pregados numa madeira
qualquer, sendo as rodas de borracha ou de ferro”. Embora esta atividade seja recente, tem se
proliferado por todo território nacional. Neste sentido, Costa2 diz que “as atividades de esporte de

1
CHAVES, C.; BRITTO, E. A onda dura:3 décadas de skate no Brasil. São Paulo: Parada Inglesa, 2000.
p. 13.
2
COSTA, V. L. M. Esportes de aventura e risco na montanha: uma trajetória de jogo com limites e
incertezas. Rio de Janeiro, 1999. Tese de Doutorado (Doutorado em Educação Física). Coordenadoria de
Pós – Graduação da Universidade Gama Filho. p. 103.
alto risco e de recreação vêm despertando a atenção das pessoas, aumentando-lhes a
popularidade”.
Para Costa3, as atividades de esporte de alto risco estão ligadas às aventuras, e as
aventuras por sua vez, apresentam-se como exterior à trama global da vida; todavia, está
organicamente ligada a ela e marca o momento agudo desta necessidade interior que impregna a
história pessoal. Assim, as aventuras podem ser culturais/históricas, vistas pela ótica das
condições humanas.
As condições culturais e históricas4 do homem, são marcadas pelos vazios
construídos por eles mesmos. No processo de construção do homem, urge a necessidade de criar
e recriar novas práticas sociais, como as atividades de lazer que estão associadas ao lúdico, ao
prazer, ao devaneio, ao risco e a aventura5, para tentar preencher alguns espaços vazios e
proporcionar emoções prazerosas.
Elias6 trata as emoções humanas como elemento significativo de análise; logo, seu
pensamento é de que o desenvolvimento humano não se refere ao crescimento material, mas sim,
emocional.
O pensamento de Elias parece ser simples, mas defronta com alguns problemas.
Podemos apresentar, por exemplo, os estudos psicológicos e biológicos das emoções humanas,
que na maioria preocupam-se com os aspectos estruturais, desconsiderando ou encobrindo as
diferenças estruturais entre emoções humanas e aquelas de espécies não humanas.
As discussões a respeito da união funcional das características que os homens
compartilham com outras espécies e aquelas especificamente humanas ainda são raras7. Tais
discussões poderiam ser úteis para haver um consenso sobre o conceito de emoções humanas e a
de espécies não humanas.

3
Ibid.
4
Ao falarmos de condições culturais e históricas, defrontamos impreterivelmente com a velha questão do
próprio homem. Norbert Elias foi um dos autores que buscou compreender a condição humana, a qual ele
compreende pelo lento e prolongado processo da construção do próprio homem.
5
O lazer pode ter outras características, mas essas são fortemente identificadas nas atividades de lazer
e/ou esportes radicais, no caso de nosso objeto de estudo, a prática do lazer – skate.
6
ELIAS, N. Sobre seres humanos e suas emoções: um ensaio processual-sociológico. In:
FEATHERSTONE, M.; HEPWORTH, M.; TURNER, B.S. editors. Publicado pela primeira vez na
Revista: Theory, Culture and Society, 4, 1987. Posteriormente publicado na The body: Social process and
cultural theory, 1991. p. 103-125. Trad. M. L. Bissoto; F. C. Fontanella.
7
Ibid. p. 01.
Elias observa a presença de duas tendências opostas nas ciências humanas: as
propriedades compartilhadas entre humanos e outras espécies, legitimando-se para status para
ciências naturais. Nesse enfoque, para o autor, permanecem indiferentes inovações evolucionárias
características da espécie humana.
Os representantes desta ciência, normalmente, selecionam como relevante o que
consideram características humanas naturais invariáveis, preferencialmente as que os humanos
compartilham com outras espécies, ou seja, seríamos naturalmente macacos. Para Elias, trata-se
de uma abordagem monística8 e reducionista.
A outra tendência, é a dos tipos de ciências humanas, incluindo quase todas as
ciências sociais. Esta tendência se preocupa com objetivos que geralmente são vistos como
pertencentes à natureza. Elas tratam seu objeto de estudo como algo apartado da natureza, como
algo a ser explorado inteiramente em si mesmo. A maioria destas ciências (história, sociologia
etc.), preocupa-se com fatores humanos que são exclusivamente humanos, distinguindo a
humanidade de outras espécies, ou melhor dizendo, o ser humano representaria o rompimento
com o mundo de outra espécie9.
O ponto fundante e freqüente da discussão entre sociólogos, sobre a ausência de
características distintivas, e a relação de evolução biológica e desenvolvimento social, sendo o
termo “evolução” utilizado indiscriminadamente como referência para ambos.
Para Elias, a terminologia evolução restringe-se ao nível biológico, enquanto a
expressão desenvolvimento traz natureza distintiva de aprendizagem de mudança sócio-cultural.
Neste sentido, uma antiga tradição sugere uma divisão absoluta entre natureza e não-natureza,
sendo que ambas as tendências sofrem inabilidade para compreender a natureza dos processos.
Elias estranha a longo prazo, por exemplo, os observadores nascidos num estágio
posterior de tais processos, reconstituírem a seqüência de fases antecedentes, porque aparecerá a
dificuldade da extinção do ser entendido pelo viés puramente biológico.

8
Monismo: Muitos filósofos recusaram a bifurcação cartesiana da realidade em substância física e mental.
Spinoza elaborou uma teoria denominada de teoria do duplo atributo, também chamada de teoria do duplo
aspecto, de acordo com a qual o mental e o físico são modos distintos da mesma substância, Deus. O
mental e o físico são somente dois da infinita multiplicidade de modos desta substância única. Numa
extrapolação desta teoria, muitos filósofos elaboraram outras teorias segundo as quais toda a realidade é
realmente de um só tipo: Hobbes- realidade seria do tipo material (materialismo), Bekerley, a realidade é
mental (idealismo) e o idealismo hegeliano, onde tudo é parte do Mundo do Espírito. Ibid. 02. ( nota da
tradutora)
9
Ibid. 02.
Para a reconstituição a longo prazo, Elias apresenta a tendência de que os humanos
ocuparam a terra pela aprendizagem, a partir da experiência, e pela transferência de
conhecimento de uma geração para outra. Nesta perspectiva as emoções humanas podem servir
como um útil, embora não único ponto de partida para reconstituição de um processo.
Elias10 aponta três hipóteses sobre o processo evolutivo dos seres humanos: “os seres
humanos, como espécie, representam uma ruptura evolucionária; os seres humanos não somente
podem aprender muito mais que as outras espécies, eles também devem aprender mais para se
tornarem seres humanos funcionando plenamente; nenhuma emoção de uma pessoa adulta é, em
qualquer caso, um padrão reativo geneticamente fixado, inteiramente não aprendido”.
Desta forma, as emoções humanas no entendimento de Elias distinguem-se em três
aspectos: um componente comportamental, um componente fisiológico e um componente
sensível, haja vista que, a aprendizagem desenvolve uma função importante no componente
sensível, ou seja, o sentimento é um componente indispensável das emoções humanas.
No estudo das emoções há dois significados diferentes, isso pode ser um entrave no
uso inadvertido dos termos. Um é no sentido amplo, onde o termo emoção é aplicado às reações
que envolvem o organismo todo em seus aspectos somático, sensível e comportamental, já o
outro, é no sentido de restrito, onde o termo emoção só se refere ao componente sentimento
representado uma auto-imagem humana.
Elias11 nos aponta que para estudar as emoções é relevante que seus aspectos venham
num todo, formando uma única abordagem. No caso dos seres humanos, impulsos emocionais
não aprendidos estão sempre relacionados à auto-regulação pessoal aprendida, mais
especificamente ao controle aprendido das emoções.
O segundo apontamento é a inadequação de uso rotineiro do conceito de “expressão
de emoções”, porque as emoções e os movimentos relacionados têm uma função intimamente
ligada ao contexto das relações com outras pessoas e, em um sentido mais profundo, com a
natureza ao seu redor.

10
ELIAS, N. Sobre seres humanos e suas emoções: um ensaio processual-sociológico. In:
FEATHERSTONE, M.; HEPWORTH, M.; TURNER, B.S. editors. Publicado pela primeira vez na
Revista: Theory, Culture and Society, 4, 1987. Posteriormente publicado na The body: Social process and
cultural theory, 1991. p. 103-125. Trad. M. L. Bissoto; F. C. Fontanella.
11
Ibid. p. 23. Elias denomina os apontamentos aqui apresentados como re-orientação.
Feito o esboço do lazer-skate enquanto emoções humanas, o apresentaremos como
uma forma de atividade de lazer através das evidências que Elias e Dunning12 enfatizaram por
meio das mudanças ocorridas em longo prazo, tanto nas emoções, quanto nas estruturas de
controle das pessoas; tendo os pontos das reações emocionais no lazer que vão desempenhar
funções desrotinizadoras proporcionando tensões/excitações agradáveis.
Uma das evidências que Elias e Dunning apontam em relação ao lazer, é que nas
sociedades industriais mais avançadas são menos freqüentes as situações críticas sérias que
originam comportamentos de excitação nos indivíduos, eles demonstram com isso a capacidade
progressiva de aumento do autocontrole social e o autodomínio da excitação exagerada. Neste
sentido fica explícito que a organização social do autocontrole torna-se mais efetiva. Logo, as
erupções de sentimentos fortes acabam por apresentar-se de outra maneira, transformando-se em
motivo de embaraço, vergonha ou arrependimento, portanto, só as crianças não serão censuradas,
e o “auto controle em parte já não se encontra sob seu domínio. Tornou-se um aspecto de
estrutura profunda da sua personalidade”13.
Outro apontamento significativo que os autores analisam centra-se no binômio
trabalho/lazer. Para eles “a noção de que as atividades de lazer podem ser explicadas como
complementares ao trabalho, é raramente considerada problemática”, porque o lazer é
denominado pelo prazer e o trabalho é totalmente desprovido do mesmo. Contudo, nas
Sociedades-Estado profundamente organizadas do nosso tempo, onde a pressão de formas de
controle externos e internos de um tipo relativamente permanente é extensível a tudo, a satisfação
do lazer ou a falta deste pode ser da maior importância para o bem-estar das pessoas enquanto
indivíduos ou sociedades14.
Para Elias e Dunning, nas sociedades mais diferenciadas e urbanizadas o tempo do
trabalho é rigorosamente regulado. Fora dele, o trabalhador tem o tempo livre, que somente uma
porção deste tempo livre pode ser voltado ao lazer, no sentido de ocupação escolhida livremente
e não remunerada, escolhida antes de tudo, porque é agradável para si mesmo15.

12
ELIAS, N.; DUNNING, E. A busca da Excitação. Lisboa: Difel, 1992.
13
Ibid. p. 103.
14
Ibid. p. 106.
15
Ibid. p. 107. Para Elias e Dunning a atividade de lazer que ocupar o tempo, só será atividade de lazer se
estiver fora das rotinas sociais.
Os autores esboçam a tipologia correspondente das formas de ocupação do tempo
livre, em três espectros16:

1) Rotinas do tempo livre: provisão rotineira das próprias necessidades biológicas e


cuidados com o próprio corpo (comer, beber, descansar etc.); Governo da casa e
rotinas familiares conservar a casa em ordem, lavar roupa, cuidar dos animais etc. As
atividades apresentadas aqui além de ser rotineiras não são muito prazerosas.
2) Atividades de formação, auto-satisfação e autodesenvolvimento: trabalho comunitário
de voluntário, estudo, hobbies, atividades religiosas etc. Essas atividades, às vezes,
mesmo prazerosas, reprimem manifestações espontâneas.
3) Atividades de lazer: encontros sociais formais ou informais, jogos e atividades
miméticas, como participante espectador e miscelâneas de atividades esporádicas
prazerosas e multifuncionais (viajar, jantar fora etc.).

São notáveis que as atividades de lazer são mais associadas à quebra de rotinas, que
vão caracterizar-se pelo “descontrole controlado” das restrições sobre os impulsos e as
manifestações emocionais.
Além da quebra de rotina, nota-se duas diretrizes em Elias e Dunning (1992) para
denominar as atividades de lazer: em primeiro é a compulsão social, ou seja ocorre uma
participação voluntária sem constrangimento, e em segundo é a escolha da atividade, por sua vez,
esta decisão é tomada em função de si mesmo ou do grupo, sem desrespeitar as regras
socialmente estabelecidas.
As atividades de lazer, para Elias e Dunning17, portam comportamentos miméticos.
Esses comportamentos significam que as apresentações/atividades de jogos, teatros, esportes,
dentre outras, com emoções intensas presentes, estarão livres de restrições de uma forma
controlada, apresentando tensões prazerosas.
Segundo Elias e Dunning18, “sob a forma de fatos de lazer, em particular os da classe
mimética, a nossa sociedade satisfaz a necessidade de experimentar em público a explosão de
fortes emoções, um tipo de excitação que não perturba nem coloca em risco a relativa ordem

16
Ibid. 147.
17
ELIAS, N.; DUNNING, E. A busca da Excitação. Lisboa: Difel, 1992.
18
Ibid. p. 112.
social e que pode ter um efeito catártico19, diferente do que sucede com as excitações de tipo
sério”, que iria caracterizar-se como não mimética20.
Nas atividades miméticas nota-se a existência de autocontrole, ou melhor, “os
descontroles emocionais controlados”. Isso, para Elias e Dunning não reflete a compensação das
tensões do cotidiano, e sim, o que realmente deve produzir/buscar no lazer, ou melhor dizendo, o
“desenvolvimento de tensão-excitação” é a peça fundamental de satisfação no lazer.
Assim, a exposição feita até agora, aponta que as emoções humanas, assim como as
atividades de lazer, são desenvolvidas e aprendidas processualmente e também que os estudos de
Norbert Elias e Eric Dunning contribuem para a compreensão dos aspectos - lazer e emoções -
contidos na prática do lazer-skate, com os avanços dos estudos sociológicos configuracionais. E
concluo fazendo uso de uma citação de Bachelard (1992, p. 110) que me inspira profundamente
nesta investigação: “A aventura que tende a descobrir o mundo, descobre ao mesmo tempo a
intimidade humana. Tanto o que é profundo no mundo e no homem, tem o mesmo poder de
revelação. A viagem é reveladora do viajante.”

Referências Bibliográficas:

CHAVES, C.; BRITTO, E. A onda dura:3 décadas de skate no Brasil. São Paulo: Parada Inglesa,
2000.
COSTA, V. L. M. Esportes de aventura e risco na montanha: uma trajetória de jogo com limites e
incertezas. Rio de Janeiro, 1999. Tese de Doutorado (Doutorado em Educação Física).
Coordenadoria de Pós – Graduação da Universidade Gama Filho. p. 103.
ELIAS, N. Sobre seres humanos e suas emoções: um ensaio processual-sociológico. In:
FEATHERSTONE, M.; HEPWORTH, M.; TURNER, B.S. editors. Publicado pela primeira vez
na Revista: Theory, Culture and Society, 4, 1987. Posteriormente publicado na The body: Social
process and cultural theory, 1991. p. 103-125. Trad. M. L. Bissoto; F. C. Fontanella.
ELIAS, N.; DUNNING, E. A busca da Excitação. Lisboa: Difel, 1992.

19
O termo catártico vem da teoria de Aristóteles, que sobre o efeito da música e do drama, tem como peça
central, o conceito de catarse, que representa “expulsar substância nocivas do corpo, com a limpeza do
corpo por meio de uma purga”. (Elias e Dunning, 1992 p. 122.)
20
É relevante dizer que as atividades miméticas acompanham as forças e os padrões das necessidades
emocionais que diferem de acordo como o estágio que a sociedade atinge no processo de civilização.
(Elias e Dunning, 1992)

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