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RELATO DE PESQUISA

Paciente crítico e comunicação: Paciente crítico e


comunicação: visão
de familiares sobre

visão de familiares sobre sua sua adequação pela


equipe de enfermagem

adequação pela equipe de enfermagem

THE CRITICAL PATIENT AND COMMUNICATION:


THE VISION OF THE FAMILY REGARDING THE NURSING TEAM

EL PACIENTE CRÍTICO Y LA COMUNICACIÓN:


VISIÓN DE LOS FAMILIARES SOBRE SU ADECUACIÓN POR EL EQUIPO DE ENFERMERÍA

Luciana Cintra Inaba1, Maria Júlia Paes da Silva2, Sandra Cristina Ribeiro Telles3

RESUMO ABSTRACT RESUMEN 1 Enfermeira da UTI do


A comunicação é considerada Communication is considered an La comunicación es considerada Hospital Universitário da
Universidade de São Paulo
importante variável no cuidado do important variable in the care of una importante variable en el (HU/USP). Graduada pela
paciente crítico e de sua família, critical patients and their families, cuidado del paciente crítico y de Escola de Enfermagem da
whose difficulty concerning su familia, cuya dificultad para Universidade de São Paulo
cuja dificuldade em se comunicar (EEUSP).
é expressa na literatura. O objetivo communication is expressed in the comunicarse es expresada en la lucianainaba@hotmail.com
da pesquisa foi verificar o que é literature. The purpose of this sur- literatura. El objetivo de esta 2 Professora Livre-Docente
do Departamento de
comunicação adequada com a vey was to verify what is consi- investigación fue verificar qué es Enfermagem Medico-
equipe de enfermagem na dered adequate communication comunicación adecuada con el Cirúrgica da EEUSP.
percepção do familiar do paciente with the nursing team in the per- equipo de enfermería en la juliaps@usp.br
3 Enfermeira Chefe da
crítico. Estudo exploratório e de ception of the critical patient’s percepción del familiar del Unidade de Terapia
campo, realizado na UTI do family. This is an exploratory and paciente crítico. Se trata de un Intensiva do HU/USP.
Hospital Universitário da USP. A field study carried out at the estudio exploratorio, descriptivo sa.telles@zipmail.com
população constituiu-se de 13 Intensive Care Unit of the Univer- y de campo, realizado en la UCI
familiares de pacientes internados. sity of São Paulo’s Hospital Uni- del Hospital Universitario de la
Os dados foram coletados em versitário. The population surve- USP. La población se constituyó
novembro de 2003 e analisados, yed was comprised of 13 relatives de 13 familiares de pacientes
segundo a proposta de Bardin. of critical patients. The data was internados. Los datos fueron
Foi considerada comunicação collected in November of 2003 and recolectados en noviembre del
adequada aquela em que a analyzed according to Bardin 2003 y analizados según la
comunicação é um meio de proposal. Communication was propuesta de Bardin (1977). Se
informação - as informações são considered adequate when it consideró comunicación adecuada
claras e objetivas, há esclareci- was a means for information – the a aquella donde la comunicación
mento de dúvidas, há orientações; information was clear and objecti- es un medio de información - las
e a comunicação é uma forma de ve, doubts were clarified, orienta- informaciones son claras y
tornar o cuidado mais humanizado tion was provided and communi- objetivas, hay aclaraciones de
- havendo comunicação verbal cation was a form of humanizing dudas, orientaciones; y la comu-
mesmo com o paciente sedado, health care – and there was verbal nicación es una forma de tornar el
tendo alguém como referência para communication even when the cuidado más humanizado - habi-
que os familiares possam recorrer. patient was sedated, with some- endo comunicación verbal aunque
body as a reference whom the el paciente esté sedado, teniendo
relatives could resort to. a alguien como referencia a donde
los familiares puedan recurrir.

DESCRITORES KEY WORDS DESCRIPTORES


Comunicação. Comunication. Comunicación.
Relações profissional-família. Professional family relations. Relaciones profesional-familia.

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Família. Family. Familia.
Equipe de enfermagem. Nursing team. Grupo de enfermería.
Unidades de terapia intensiva. Intensive care units. Unidade de terapia intensiva.
Recebido: 09/12/2003 Rev Esc Enferm USP
Aprovado: 10/09/2004 2005; 39(4):423-9.
INTRODUÇÃO de ser responsável e capaz de se adaptar ao meio e
Luciana Cintra Inaba
Maria Júlia Paes da Silva a afeição diz respeito a necessidade de expressar e
Sandra Cristina R. Telles Ao longo da graduação, uma das autoras do ar- receber amor(6).
tigo constatou o quanto a comunicação é importan-
A comunicação é um aspecto importante ao aten-
te para a vida das pessoas, principalmente para os
dimento de pacientes críticos e o enfermeiro pode,
enfermeiros, outros profissionais da saúde e tam-
se tiver um bom contato, uma boa comunicação com
bém para os pacientes e seus familiares. Somente
a família, estabelecer um melhor cuidado(7). Contri-
pela comunicação efetiva é que o profissional pode
bui para a excelência da prática da Enfermagem e
ajudar o paciente a conceituar seus problemas,
cria oportunidades de aprendizagem para o pacien-
enfrentá-los, visualizar sua participação na experi-
te, podendo despertar o sentimento de confiança
ência e alternativas de solução dos mesmos, além de
entre paciente e enfermeiro, permitindo que ele ex-
auxiliá-lo a encontrar novos padrões de comporta-
perimente a sensação de segurança e satisfação(6).
mento(1).
A dificuldade de comunicação faz com que a
O cuidar é feito com o outro e não apenas um
necessidade de cuidados seja aumentada. O paci-
procedimento, uma intervenção técnica, mas uma re-
ente ao enfrentar a situação de não poder se comu-
lação de ajuda, que envolve respeito, compreensão e
nicar com alguém, necessita de auxílio e atenção
o uso do toque de forma mais efetiva(2). Infere-se que
redobrados da equipe no seu cuidado(8). A ansieda-
se o cuidado é feito com o outro, a comunicação ade-
de, o desconforto e a insegurança sentidas pelos
quada é fundamental, principalmente no cuidado com
pacientes críticos, podem ser maximizados para
os pacientes críticos e terminais. Comunicação ade-
aqueles cuja capacidade de comunicação se encon-
quada é aquela apropriada a uma determinada situa-
tra limitada(8).
ção, pessoa, tempo e que atinge um objetivo defini-
do(1). Existem dois tipos de comunicação: a verbal e a Se os cuidados são redobrados aos pacientes
não-verbal, sendo que a comunicação verbal refere- críticos, principalmente os com deficiência na co-
se às palavras expressas por meio da fala ou escrita e municação, mesmo que temporariamente, a presen-
a não-verbal ocorre por meio de gestos, silêncio, ex- ça da família é muito importante para aliviar a ansie-
pressões faciais, postura corporal...(1). dade, o desconforto e a insegurança citadas. O pro-
fissional de saúde não pode, de maneira alguma,
Em um estudo realizado com enfermeiras que
negar o núcleo no qual o paciente vive, e o familiar
cuidam de lesados medulares, verificou-se que a
é muito importante para que se possa entendê-lo e,
comunicação verbal é melhor compreendida que a
por essa razão, ajudar na tarefa de reequilibrar e re-
comunicação não-verbal, porque esta não é sempre
harmonizar o doente(9).
percebida conscientemente pela equipe de Enferma-
gem(3). Porém, a atenção à comunicação não-verbal Neste trabalho, a família é entendida como pes-
é essencial ao cuidado humano, por resgatar a capa- soas aparentadas que vivem na mesma casa, como
cidade do profissional de saúde de perceber, com um conjunto de gêneros afins(10).
maior precisão, os sentimentos do paciente, suas
dúvidas e dificuldades de verbalização, além de aju- Além de dar apoio ao paciente, a família pode
dar a potencializar sua própria comunicação(1). É ur- oferecer as informações necessárias para um me-
gente a necessidade dos enfermeiros conhecerem lhor cuidado, pois decodifica os gostos, manias,
ou resgatarem a comunicação não-verbal emitida por expressões dos pacientes com restrição de comuni-
eles e pelos pacientes, como maneira de entender cação verbal; e esses dados podem ser essenciais
melhor o que acontece nas relações entre enfermei- aos cuidados de Enfermagem(11).
ro e paciente(4).
Outros autores acreditam na importância da pre-
Além disso, a comunicação não-verbal é uma das sença do familiar ao lado do paciente e afirmam que
bases nos cuidados paliativos, que são os cuidados a evidência teórica, prática e investigacional do sig-
prestados aos pacientes cuja enfermidade não res- nificado que a família dá para o bem estar e a saúde
ponde mais aos tratamentos curativos, e que preci- de seus membros, bem como a influência sobre a
sam de qualidade de vida, enquanto ela durar(5). A doença, obriga os enfermeiros a considerar o cui-
dor e outros sintomas são expressos pela comunica- dado centrado na família como parte integrante da
ção verbal e não-verbal(1,5). É também por meio da prática de Enfermagem(12). Os pacientes relatam que

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Rev Esc Enferm USP
comunicação que o ser humano pode satisfazer suas
necessidades de inclusão, controle e afeição, sendo
que a inclusão refere-se a aceitação pelo outro, o
os problemas sentidos por eles e suas expectativas
em relação à equipe de Enfermagem recaem mais na
área expressiva, pois queixam-se da separação da
2005; 39(4):423-9. controle ocorre quando se experimenta a sensação família, do ambiente desconhecido e agressivo, da
quebra nos hábitos de alimentação e hidratação, do críticos e de alertar os profissionais de Enfermagem
Paciente crítico e
medo de morrer, da dependência de outrem, do des- para a importância dos cuidados com a família deste comunicação: visão
respeito à privacidade e da falta de atenção indivi- tipo de paciente, lembrando que cuidar é a essência de familiares sobre
sua adequação pela
dualizada(11). da Enfermagem e que só pode-se exercê-la se o fi- equipe de enfermagem
zermos com conhecimento científico, ética e, acima
Além disso, é importante que a família participe de tudo, amor(7).
no cuidado dos pacientes terminais. O morrer pos-
sui cinco estágios: a negação, a ira, a barganha, a OBJETIVO
depressão e a aceitação(13). A família pode proporci-
onar serenidade ao paciente e, caberá ao pessoal de
Verificar o que é comunicação adequada com a
saúde introduzí-la na assistência ao paciente, orien-
equipe de Enfermagem na percepção do familiar do
tando-os sobre cada estágio(14).
paciente crítico.
Um estudo realizado em cinco hospitais gerais
de Belo Horizonte, verificou as necessidades de MÉTODO
cuidados de Enfermagem na assistência ao pacien-
te terminal e referiu que a necessidade de comunica- Tipo de estudo
ção representou o maior percentual na categoria de
necessidades psicossociais; que tanto a comunica- O estudo é do tipo exploratório e de campo. Neste
ção verbal quanto a não-verbal são essenciais para tipo de estudo o pesquisador aprofunda seus estu-
o relacionamento humano e auxiliam o paciente nas dos nos limites de uma realidade específica, bus-
fases do processo morrer, citadas anteriormente(15). cando antecedentes e maiores conhecimentos para,
em seguida, planejar uma pesquisa descritiva que é
O contato estreito da família com o sujeito hos- um estudo caracterizado pela necessidade de se ex-
pitalizado, além de benéfico para este, diminui o sen- plorar uma situação não conhecida, da qual se tem
timento de desamparo do familiar diante do sofri- necessidade de maiores informações(18).
mento desse indivíduo(16). Além disso, segundo
as mesmas autoras, a família deve, e tem amparo Foi realizado um levantamento da realidade da
legal, ser informada das condições de saúde de seu população escolhida por ser necessário saber a opi-
familiar, como também pode participar ativamente nião destas pessoas para conseguir atingir o objeti-
desse processo. vo do presente estudo. Um pesquisador de campo
deseja aproximar-se das pessoas estudadas de modo
As famílias dos pacientes necessitam também a compreender uma situação, a partir de seu cenário
de cuidados e não devem ser vistas como um auxílio natural, sem uma estrutura ou controle por ele im-
“técnico” ao trabalho de Enfermagem, mas como posto (19).
indivíduos a serem cuidados também pela Enferma-
gem(16). Para que a família cumpra o seu papel de dar Local de inquérito
suporte à situação vivenciada pelo paciente, tam-
bém precisa de suporte nas suas necessidades físi- O estudo foi realizado na Unidade de Terapia
cas e emocionais, como uma conversa esclarecedora, Intensiva do Hospital Universitário da Universida-
uma cadeira extra para que o familiar possa ficar to- de de São Paulo. Trata-se de um hospital-escola
cando seu ente querido, um cafezinho num momen- público de grande porte da cidade de São Paulo,
to mais crítico(11). que conta com 12 leitos e 63 profissionais de Enfer-
magem no seu quadro de pessoal.
Entretanto, se observou que os profissionais de
saúde não assumem que cuidam das famílias, que são Sujeitos da pesquisa
responsáveis por elas, lembrando que as famílias tam-
bém correm riscos de doenças físicas, além da inse- Foram entrevistados 13 familiares de pacientes
gurança, irritabilidade, que comprometem a sua capa- internados na Unidade de Terapia Intensiva há pelo
cidade de decisão e de auxílio ao seu ente querido(17). menos três dias e que aceitaram participar do estu-
do. O número total de familiares entrevistados de-
Devido a importância da inserção da família no pendeu da compreensão do fenômeno estudado.
cuidado do paciente crítico e considerando o quan-

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to esta necessita dos cuidados de Enfermagem, prin- Aspectos éticos e
cipalmente de uma comunicação adequada com a Procedimentos de coleta de dados
equipe, é que surgiu a motivação para realizar este
estudo com a finalidade de conhecer a real necessi- 1º) Solicitada autorização para a Comissão de
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dade de comunicação das famílias dos pacientes Ética e Pesquisa da Instituição envolvida; 2º) Após 2005; 39(4):423-9.
aprovação, solicitada autorização dos familiares para vistados variou entre 24 e 61 anos, tendo como média
Luciana Cintra Inaba
Maria Júlia Paes da Silva serem entrevistados, antes do horário de visita. En- 45 anos. Do total de entrevistados, cinco eram filhos
Sandra Cristina R. Telles tregue uma carta de apresentação, no qual foi apre- do paciente, três eram irmãos, duas eram cunhadas,
sentado o título da pesquisa, o objetivo e foi solici- duas eram esposas e um era marido. Apenas quatro já
tada a colaboração para participar do estudo. Nesta haviam tido experiência anterior com internação de
carta estava explicado que o entrevistado poderia familiares em UTI. O nível de escolaridade variou en-
desistir de participar do estudo a qualquer momen- tre analfabeto e nível superior completo, porém na clas-
to e que as informações seriam mantidas em absolu- sificação dos dados, não foram identificadas diferen-
to sigilo e anonimato. O local e o horário foram es- ças na essência das respostas obtidas.
colhidos pelos próprios sujeitos da pesquisa. 3º)
Solicitado autorização ao entrevistado para gravar Categoria 1:
a entrevista, que continha as seguintes perguntas Comunicação como meio de informação
norteadoras: 1) Na sua opinião, como deveria ser a
comunicação ideal da equipe de Enfermagem res- Quando questionados sobre o que seria comu-
ponsável pelo cuidado do paciente internado na UTI, nicação, 12 (n total 13) afirmaram que é conversar
com a família deste? 2) O que é comunicação com a com alguém.
equipe de Enfermagem? Além destas questões, Comunicação é a gente poder conversar, fazer
constou das entrevistas dados como: idade, sexo, perguntas sobre o paciente e não manter
grau de parentesco, experiência anterior com paren- aquela distância que geralmente existe entre as
tes internados na UTI e grau de escolaridade do pessoas. (E5)
entrevistado.
Fica explícita que a comunicação permite que
Tratamento de dados pacientes e familiares sintam satisfação e seguran-
ça aos serem cuidados pelos enfermeiros(6).
Os dados foram transcritos e analisados segun-
do a proposta de análise de conteúdo de Bardin(20). Os familiares consideram que a comunicação
Segundo este autor, a análise de conteúdo é um adequada é aquela em que as informações sobre o
conjunto de técnicas de análise das comunicações, estado do paciente acontecem nos horários da visi-
e organiza-se em três pólos cronológicos: a pré aná- ta e são transmitidas de uma maneira simples, clara
lise, a exploração do material e o tratamento dos e objetiva, sem o uso de termos difíceis, para a com-
resultados, a inferência e a interpretação(20). Propõe preensão até de pessoas com menos escolaridade.
a codificação e a categorização do material coleta- Quando às vezes minha mãe vem, ela leva o
do. A primeira corresponde recado tudo ao contrário pra gente, ela falava
uma coisa e era outra. (E10)
a uma transformação dos dados brutos do texto
que por recorte, agregação e enumeração per- Para um melhor esclarecimento das explicações é
mite atingir uma representação do conteúdo. importante repetirmos as informações aos familiares.
A segunda corresponde ... quando a gente não entende, eles chegam e
falam de novo. (E10)
a uma operação de classificação de elementos
constitutivos de um conjunto, por diferenciação
A importância das orientações e do contato direto
e, seguidamente, por reagrupamento segundo o
do enfermeiro com o familiar aparece em quase todos
gênero, com os critérios previamente definidos.
os discursos. Segundo esses familiares, a equipe de
Para realizar a análise de conteúdo, há um con- Enfermagem deveria explicar melhor o que está acon-
junto de técnicas que podem ser utilizadas, como: a tecendo, as informações do dia, a evolução do pacien-
análise categorial, a análise de avaliação, de te, o porquê da urina estar colúrica ou porque o paci-
enunciação, de expressão, das relações e análise de ente está edemaciado, o que significa estar “estável”.
discurso(20). No presente estudo, utilizou-se a análi-
Quando dizem: ele está regular, pra mim regular
se categorial que funciona por operações de
pode ser tanta coisa... . (E2)
desmembramento do texto em unidades, em catego-
rias segundo reagrupamentos analógicos. Além disso, relatam que orientar o familiar tam-
bém é muito importante.
APRESENTAÇÃO E

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... semana passada eu viajei, quando eu che-
ANÁLISE DOS DADOS guei, estava o papelzinho escrito lá, aí eu olhei
aquilo ali e vi que tinha que colocar luva, tinha
Foram realizadas 13 entrevistas com familiares, que ter avental e eu não sabia se era para os
Rev Esc Enferm USP
2005; 39(4):423-9. sendo 9 mulheres e 4 homens. A idade dos entre- enfermeiros ou se era para nós... . (E3)
Devido à estas orientações e explicações dadas, mensagens enviadas e recebidas, sendo que as
Paciente crítico e
a comunicação da equipe de Enfermagem com o fa- próprias mensagens e o modo como ocorre o inter- comunicação: visão
miliar foi considerada muito importante câmbio exercem influência no comportamento nas de familiares sobre
sua adequação pela
pessoas nele envolvidas, como já referendado em equipe de enfermagem
... se você chega e vê ele intubado, enfiado numa
literatura(6).
máquina aqui, outra ali, você não sabe o que é
aquela máquina, não sabe o que aquela máquina A comunicação é tida como algo muito impor-
está fazendo, então é super importante o relaci- tante para a família porque consideram que é a liga-
onamento da Enfermagem com a família do paci-
ção com o saber sobre o estado do paciente. A mai-
ente. (E2)
oria referiu preferir que as informações sejam verda-
Quando faltam informações, eles ficam perdidos, deiras e transmitidas sem mentiras.
sem saber para quem perguntar e o que fazer.
É falar tudo com certeza e com verdade. (E11)
Tem pessoas leigas que entram já chorando e em
Queixam-se quando há um silêncio da equipe de
desespero porque não foram orientadas. (E2)
Enfermagem.
Afirmam ter dificuldades em ter acesso a quem
Quando falam pra mim: olha, eu não posso falar
detém as informações e que o ideal seria ter uma
nada, isto é muito ruim. (E1)
central de informações, uma pessoa que saiba de
cada caso para poder transmitir aos familiares. Pare- A própria capacidade de afeto empático, de co-
ce importante a Enfermagem estar presente durante locar-se no lugar de outra pessoa, leva as pessoas a
a visita dos familiares aos pacientes, explicando os seguir certos princípios morais como a justiça e a
cuidados do dia, os problemas de Enfermagem e verdade(21). Então, a empatia é fundamental para a
esclarecendo as dúvidas dos familiares. comunicação adequada já que nos leva à seguir o
caminho da verdade.
... geralmente se determina um horário para o
médico falar com você e nos demais horários de Definem, portanto, comunicação adequada como
visita há um silêncio. (E1)
a recepção de informações daquilo que o indivíduo
As falas anteriores reforçam o encontrado por quer saber, fazer as perguntas e obter as respostas,
outros autores de que é importante conversar e ori- receber notícias. Além disso, relatam que é impres-
entar os familiares, esclarecer sobre as rotinas, a cindível que o enfermeiro entenda aquilo que o fa-
impossibilidade de uma acomodação adequada para miliar está perguntando e vice-versa.
o acompanhante, atender suas necessidades e ex-
pectativas, orientar sobre como o familiar poderia Categoria 2:
ajudar e a quem recorrer em caso de dúvidas(17). Comunicação como cuidado mais humanizado

Alguns familiares afirmam ter medo e receio de Oito (n total 13) também relacionaram o bom aten-
fazer perguntas e saber algo que não gostariam. dimento com a boa comunicação.

Eu não fiz pergunta nenhuma, estou com medo e O ideal seria como está sendo aqui, o pessoal
receosa, prefiro não saber. (E4) daqui atende muito bem... as enfermeiras tratam
a gente como se fizesse parte da família. (E5)
Em contrapartida, outros relataram estar dispos-
tos a saber sobre o estado de seu familiar e enfren- Nessa fala fica explícita a dimensão humana do
tar a situação. cuidar, onde o familiar também se sente cuidado,
incluso ao meio, respeitado e acolhido(2,6,9).
Se for grave ou o que seja, eu estou aqui para
saber. (E9) Afirmam que o familiar sofre até mais que o
internado e que certos comunicados os deixam
Além do paciente, a família pode apresentar as apavorados.
cinco fases percebidas em situação de perda (nega-
ção, ira, barganha, depressão e aceitação) e neces- A gente sabe que é grave, ela está na UTI justa-
sita de assistência neste período; precisa de um ser mente porque é grave e toda a esperança está
humano que o deixe falar, chorar ou gritar, se neces- dentro daquela UTI . (E1)
sário(13). Nos exemplos citados, encontramos a ne-

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gação e a aceitação, respectivamente. Por isso, acreditam que o ideal seria que as en-
fermeiras proporcionassem conforto aos familiares
Nessa categoria fica claro que comunicação ade- e dessem atenção a eles, conversassem, acalmas-
quada é um processo de compreender, compartilhar sem e esclarecessem as dúvidas existentes. Rev Esc Enferm USP
2005; 39(4):423-9.
O internado está sedado, e o parente está aqui Alguns ressaltam a importância da comunica-
Luciana Cintra Inaba
todo dia, então você vem acompanhando e você ção não-verbal na comunicação com os familiares.
Maria Júlia Paes da Silva
Sandra Cristina R. Telles quer, às vezes, na verdade, até um conforto. (E1)
Não adianta só falar, a sua expressão já acaba
Quanto mais o clima for de conforto e confiança, amenizando e tranqüilizando a gente. (E8)
mais a experiência pode ser positiva porque os ges-
tos de atenção e cuidado ficarão presentes sempre Em estudo realizado em um hospital privado, ve-
na lembrança dos familiares(11-12). rificaram que a comunicação verbal e não-verbal in-
fluenciam o comportamento das pessoas e promo-
Alguns relatam vivenciar com a equipe de En- vem a satisfação dos pacientes com a assistência de
fermagem um relacionamento seco e técnico, na Enfermagem(23). É bom lembrar também a importância
maioria das vezes, sem humanização. Para esses de estarmos atentos à percepção correta da comuni-
entrevistados, o ideal seria que existisse um relacio- cação não-verbal porque nem sempre a mensagem
namento mais humano e maleável. não-verbal tem o mesmo significado para diferentes
pessoas e situações, exigindo validação verbal da
Deveria ter um curso de relacionamento humano,
compreensão dos sinais não-verbais percebidos(1).
de tratar das pessoas de uma maneira mais ele-
gante. (E1) Houve entrevistados que não souberam definir
comunicação:
Essa fala confirma dados anteriores(1,3) que apon-
tam para a importância da equipe de Enfermagem Eu não sei responder a esta pergunta, sou anal-
resgatar mais conscientemente a comunicação não- fabeta, entende? (E4)
verbal, que é a dimensão da comunicação que qua-
lifica as relações, permitindo a demonstração dos mas se colocaram quanto a maneira como deve ocor-
sentimentos e a verificação da coerência dos nos- rer a comunicação adequada entre a equipe e os
sos gestos e posturas no estar com as pessoas. familiares.

Os familiares afirmam que tratar dos pacientes Pra mim está de acordo. Fui bem atendida. Prefi-
ro não perguntar mais nada, eu prefiro não
com carinho, acariciando-os, conversando com eles,
saber. (E4)
mesmo estando sedados, hidratá-los e fazer a higie-
ne diária, fazem parte de uma comunicação ideal. Nessa fala, surge novamente a negação, um dos
estágios possíveis de serem encontrados nos pro-
Não sei se ela está ouvindo ou não, mas mesmo
que ela não esteja ouvindo eu acho importante cessos de perda(13).
conversar, fazer um carinho no rosto, passar
Vale ressaltar, portanto, que o enfermeiro con-
alguma coisa nela, é o contato que eu gostaria
que tivessem com ela. (E7)
segue cuidar da família quando for capaz de perce-
ber que é por meio de retroalimentações que esses
Já foi verificado que a comunicação com o paci- indivíduos buscam seu equilíbrio(24).
ente sedado é necessária, é reconhecida como fun-
Seria bom se tivesse alguém em todos os horá-
ção do enfermeiro, é algo que o diferencia como
rios, todas as horas, alguém que conversasse
profissional e, algumas vezes, infelizmente, o conta- com a gente. (E1)
to com o paciente sedado é um ato condicionado,
sem reflexão(22).
CONCLUSÕES E
Além disso, referem que a enfermeira deve ter CONSIDERAÇÕES FINAIS
paciência com o paciente e com o familiar. Cumpri-
mentar e sorrir, colocar o paciente em primeiro lugar, Comunicação adequada para os familiares é con-
esquecendo os problemas pessoais. versar e receber informações pertinentes ao que o
indivíduo quer saber; é entender o que o outro quer
... o problema é a enfermeira que não está bem
transmitir e sentir-se bem atendido, tratado também
em casa. A boa enfermeira, mesmo que esteja
com carinho e paciência. É aquela em que há infor-
com algum problema, ela deixa os problemas em
casa e o paciente fica em primeiro lugar. (E6)
mações claras e objetivas; há explicações sobre o
estado do paciente e sobre os equipamentos, son-
Todos nós possuímos autoconsciência que iden- das, catéteres e drenos nele existentes. Existe a ne-

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tifica e nomeia nossas emoções despertadas e man- cessidade das famílias de se comunicar com a equi-
tém a autoreflexividade, mesmo em meio a emoções pe de Enfermagem durante os horários de visita,
turbulentas(21). Se conhecermos e aceitarmos as nos- receber orientações e esclarecer dúvidas, assim
Rev Esc Enferm USP
sas próprias emoções, conseguiremos controlá-las e como, ter satisfeita sua necessidade de conforto,
2005; 39(4):423-9. as impediremos de prejudicar a assistência ao familiar. receber palavras carinhosas e atenção.
Além disso, verifica-se que existe a percepção da clarecimento de suas dúvidas e ser tranqüilizados e
Paciente crítico e
coerência ou não da comunicação não-verbal pelos orientados. comunicação: visão
familiares, principalmente das expressões faciais e do de familiares sobre
O cuidar, inclusive do familiar, implica em perce- sua adequação pela
toque. A preocupação deles com o cuidado de seu equipe de enfermagem
ente querido em relação a higiene, hidratação da pele ber o outro como ele se mostra, nos seus gestos e
e comunicação verbal, mesmo que sedado, foi falas, em seus conceitos e limitações. Não é sufici-
exemplificado como comunicação adequada. ente deixar a família entrar na UTI, é necessário cui-
dá-la para potencializar nosso trabalho na Enferma-
Há necessidade de alguém da equipe de Enfer- gem; é preciso questioná-la sobre as dúvidas, ob-
magem ser referência para os familiares; alguém a servar-lhe as reações e comportamentos, entender-
quem eles possam recorrer para uma conversa, es- lhe as emoções.

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