Você está na página 1de 7

EXCELENTÍSSIMO(A) SENHOR(A) DOUTOR(A) JUIZ(A) DE DIREITO DA

____ VARA DA FAZENDA PÚBLICA ESTADUAL DA COMARCA de XxXXX

Pauliane Silva Dias, brasileira, solteira, estudante, inscrito no RG MG


15.846.054 e no CPF 0984.452.276-00, residente e domiciliada na rua Lisboa n°
36, e-mail paulianesd@outlook.com, por meio de sua advogada Paula Quites,
infra-assinado, conforme procuração anexa, com endereço profissional (...),
endereço que indicam para fins do art. 77, V do CPC, vem respeitosamente
perante Vossa Excelência, com base no art. 5º LXIX da Lei 12.016/2009 e vem
impetrar:

MANDADO DE SEGURANÇA COM PEDIDO LIMINAR

Contra ato praticado por ANACÉLIA SANTOS ROCHA, reitora da


FUNDAÇÃO MOVIMENTO DIREITO E CIDADANIA, n o s t e r m o s d o a r t .
7 º , I I , d a l e i 1 2 . 0 1 6 \ 2 0 0 9 , c o m s e d e d e s u a s atividades na rua
Álvares Maciel, 628, Santa Efigênia, CEP 30150-250, do curso de Direito,
situado na cidade de Belo Horizonte/MG, pelas razões de fato e de direito
a seguir aduzidas:

3. SÍNTESE DOS FATOS

A referida estudante prestou vestibular para instituição supracitada no ano de


2014 e o início das aulas se deram no segundo semestre do mesmo ano, ano
em que a referida aderiu ao sistema de financiamento estudantil (FIES), pois a
mesma atende aos requisitos para ser beneficiaria de 100% de bolsa do mesmo.

Ocorre que, em decorrência de não ter atingido nota suficiente para aprovação,
a referida reprovou em algumas disciplinas, e não conseguiu se formar
juntamente com sua turma no primeiro semestre de 2019, ano da previsão de
conclusão do mesmo.

Importante ressaltar que a Universidade supracitada tem um sistema de


disposição de créditos por disciplinas por meio dos quais, existe uma
limitação semestral de 40 créditos por aluno. A referida instituição
também impõe limites a realização de matricula através do instituto de
pré-requisitos. Sendo assim, um aluno só consegue se matriculas em
determinadas disciplinas se antes já tiver sido aprovado nas disciplinas
por eles estabelecidas. Portanto, a pessoa que não logrou êxito na
obtenção de notas em uma matéria, s ó c o n s e g u e c u r s á - l a n o v a m e n t e
no período seguinte.

E o a l u n o q u e , d o mesmo modo, não conseguiu aprovação em


disciplina cuja carga horária é ministrada no s e g u n d o s e m e s t r e d o
ano letivo, só consegue cursá-la no ano seguinte. Desse modo,
i nviabiliza e atrasa, em parte, a feitura das disciplinas em que o aluno carrega
dependência, seja ela em decorrência de faltas ou não obtenção de notas.
No segundo semestre do ano de 2019, a impetrante já cursava os a l g u m a s d
isciplinas do
10º período do curso, mas em decorrência de normas ac
a d ê m i c a s j á o u t r o r a mencionadas, a matricula nas aulas das
demais disciplinas, para concluir o curso de Direito só puderam
acontecer no fim de ano de 2020, pois a o limite de créditos imposto pela
faculdade e os pré requisitos impedem que a impetrante consiga se matricular
nas demais matérias ainda esse semestre.

Na tentativa de despertar a empatia dos representantes da instituição, a aluna


explicou sua atual situação acadêmica em um e-mail enviado a secretária e a
pró-reitoria da faculdade. No e-mail, a requerente expõe que está em seu último
período de aditamento do FIES e que se encontra desempregada e por este fato,
sem condições de arcar com o curso sem o auxilio do Financiamento estudantil,
que se encerra neste semestre. Porém o pedido foi indeferido.

Este indeferimento, se levado a cabo, poderá causar grande


prejuízo ao estudante que terá de cursar isoladamente apenas
uma matéria no próximo período letivo para formar-se, sem
falar que perderá a formatura com sua turma, já paga.

1. DA GRATUIDADE DA JUSTIÇA

A situação econômica da impetrante não lhe permite arcar com as custas


processuais e honorários advocatícios sem que isso implique em prejuízo ao seu
sustento e de sua família, conforme declaração de hipossuficiência e
documentos anexos. Razão pela qual, requer-se a este juízo que seja deferido
o benefício da gratuidade da justiça, nos termos da Lei n. º 1.060/1950, dos arts.
98 e 99 do Código de Processo Civil e do art. 5º, LXXIV, da Constituição Federal.
A impetrante encontra-se desempregada atualmente.

2. DA TEMPESTIVIDADE

A Lei 12.016/2009 estabelece em seu art. 23 que o direito de requerer mandado


de segurança extinguir-se-á decorridos 120 (cento e vinte) dias, contados da
ciência, pelo interessado, do ato impugnado.
O ato administrativo impugnado, recusa de pedido de quebra de pré-requisitos
imposta pela faculdade de Direito, lhe fora enviado no dia 02/03/2020, sendo que
o prazo decadencial para impetração do presente remédio constitucional seria
10/06/2020. Logo resta preenchido o requisito da tempestividade.
4. DO DIREITO LÍQUIDO

A Constituição Federal de 1988 consagra em seu art. 5º LXIX o mandado de


segurança como remédio adequado para proteger direito líquido e certo, não
amparado por habeas corpus ou habeas data, quando o responsável pela
ilegalidade ou abuso de poder for autoridade pública ou agente de pessoa
jurídica no exercício de atribuições do Poder Público.
A Lei 12.016/2009 ratifica e disciplina a presente via processual, que no caso
pretende atacar o ato administrativo da autoridade coatora que não considerou
o autismo como deficiência na forma da lei.
O art. 37, VII da CR/1988 estabelece que lei reservará percentual dos cargos e
empregos públicos para as pessoas com deficiência e definirá os critérios de sua
admissão.
Trata-se de uma política constitucional afirmativa para a garantia da isonomia no
acesso a cargos e empregos públicos por pessoas com deficiência.
O artigo 27 da Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com
Deficiência (Decreto 6.949/2009), que possui força normativa constitucional por
inteligência do art. 5º §3º da CR/1988, estabelece o dever dos Estados Partes
de empregar pessoas com deficiências no setor público em igualdade de
oportunidades com as demais pessoas.
Como corolário desse diploma internacional, a Lei Brasileira de Inclusão da
Pessoa com Deficiência (Lei 13.146/2015) assevera em seu art. 35: “é
finalidade primordial das políticas públicas de trabalho e emprego
promover e garantir condições de acesso e de permanência da pessoa com
deficiência no campo de trabalho.”
Para atender a esse microssistema constitucional e legal de garantia de acesso
dos direitos das pessoas com deficiência no setor público, foi publicado o recente
Decreto 9.508/2018 que reserva às pessoas com deficiência percentual de
cargos e de empregos públicos oferecidos em concursos públicos e em
processos seletivos no âmbito da administração pública federal direta e
indireta.
De igual modo, o raciocínio constitucional e federal simétrico da reserva de vagas
para pessoas com deficiência foi consagrado no Estado de Minas Gerais por
meio do art. 1º da Lei Estadual 11.867/1995, bem como no município de Belo
Horizonte pela lei 9078/2005 e, sobretudo, pela redação atualizada do art. 7ªA
da Lei Municipal 7.863/99 que estabelece a reserva de 10% de vagas para
pessoas com deficiência concursos públicos nesta capital.
O edital elaborado e publicado pelas autoridades impetradas é manifestamente
ilegal na medida em não traz nenhuma regra expressa de garantia do percentual
mínimo de reserva de vagas para pessoas com deficiência.
Deixar de reproduzir a política de reserva de vagas para pessoas com
deficiência, ainda que seja em processo seletivo municipal, nada mais é do que
a violação da garantia do tratamento isonômico diretamente ligado à dignidade
humana das pessoas nessa qualidade.
No presente remédio constitucional, a lesão ao direito líquido e certo decorre da
omissão normativa do edital publicado que é manifestamente ilegal e
inconstitucional por não trazer a previsão expressa da reserva de vagas para
pessoas com deficiência.
A impetrante é pessoa com deficiência, com formação específica em psicologia,
atendendo a todos os requisitos do edital e está sendo privada do tratamento
isonômico que poderia lhe garantir a igualdade de oportunidades no acesso aos
cargos de psicólogos oferecidos pelo município de Belo Horizonte.
O direito líquido e certo da impetrante é comprovado pela manifesta violação à
letra da lei, bem como à hermenêutica constitucional aqui defendida, somada
aos documentos oficiais que seguem anexos, cumprindo o requisito da prova
pré-constituída exigida pelo art. 6º da Lei 12.016/2009.
Não é por acaso a propositura do presente remédio constitucional, pois sendo
corrigido o processo seletivo atacado, a autora terá garantido o direito subjetivo
de concorrer de forma isonômica com a prerrogativa de acesso via reserva de
vagas para pessoas com deficiência.
Cumpre esclarecer que a premissa de reserva de vagas para pessoas com
deficiência em cargos e empregos públicos, contido no art. 37 da CR/1988,
é indiferente no que tange à forma efetiva ou temporária de provimento.
Considerando que se trata de norma constitucional relativa ao trabalho da
pessoa com deficiência, ou seja, norma de direito fundamental, necessário se
faz buscar a sua máxima efetividade, sob pena de afronta à dignidade humana
das pessoas nessa qualidade.
Nesse sentido, vale lembrar o constitucionalista J.J. Gomes Canotilho, ao
ensinar que, segundo o princípio da máxima efetividade, a uma norma
constitucional deve ser atribuído o sentido que maior eficácia lhe dê.
Ademais, nenhum argumento razoável existe para justificar a diferenciação entre
a necessidade de reserva em concursos ou em processos seletivos
simplificados, seja para cargos e empregos públicos de provimento efetivo ou
temporário.
A igualdade material é direito líquido e certo e tem que acontecer, sob pena de
institucionalização de fraude a uma das principais políticas de inclusão da
pessoa com deficiência no trabalho existentes em nosso ordenamento jurídico.
Logo, é inequívoca a necessidade imediata de suspensão do processo seletivo
aqui atacado, como medida de segurança, para que o edital seja retificado e o
certame sofra as adequações necessárias para assegurar à impetrante o direito
de participar com a prerrogativa de acesso pela reserva de vagas às pessoas
com deficiência, assegurando assim o respeito à sua dignidade e a efetividade
do tratamento isonômico garantido pelo texto constitucional.
5. DO PEDIDO LIMINAR

Segundo o art. 7º, III, da Lei 12.016/09, a tutela de provisória urgência será
concedida sempre que houver elementos capazes de evidenciar a probabilidade
do direito e o perigo de dano ou risco ao resultado útil do processo.
O art. 8º da Lei nº 13.146/2015 - Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com
Deficiência – estabelece que é dever do Estado assegurar à pessoa com
deficiência, com prioridade, a efetivação dos direitos referentes à educação, à
profissionalização e ao trabalho entre outros decorrentes da Constituição
Federal, da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e seu
Protocolo Facultativo e das leis e de outras normas que garantam seu bem-estar
pessoal, social e econômico.
A prova inequívoca do direito pleiteado ou requisito da probabilidade do direito –
fumus bonis juris – está consubstanciada nas disposições legais já expostas,
bem como dos documentos que seguem anexos como provas pré-constituídas
suficientes para sustentar a violação do direito líquido e certo aqui defendido.
Para tanto seguem anexos fazendo parte integrante deste mandado de
segurança, o edital publicado sem previsão de reserva de vagas para pessoas
com deficiência; laudo médico atestando a deficiência física da impetrante;
diploma de graduação da impetrante no curso de psicologia; classificação da
impetrante na primeira etapa do processo seletivo; e-mails enviados pela
impetrante questionando a violação legal, sem nenhuma resposta da
Administração Pública.
É evidente que o edital do processo seletivo municipal atacado viola diretamente
toda a construção constitucional para empregabilidade da pessoa com
deficiência no setor público, mitigando a garantia da reserva de vagas para
pessoas com deficiência, que deveria ser adotada em todo e qualquer concurso
público ou processo seletivo para provimento de cargos efetivos ou temporários.
O direito líquido e certo de participação isonômica da impetrante está sendo
violado por total ofensa ao artigo 27, “g)” da Convenção Internacional dos
Direitos das Pessoa com Deficiência (Decreto 6.949/2009), ao art. 37 VIII
CR/1988, bem como ao arcabouço protetivo de acesso ao trabalho da pessoa
com deficiência estabelecido pela Lei Brasileira de Inclusão da PcD (Lei
13.146/2015).
Ademais a ausência da reserva de vagas para pessoas com deficiência no edital
atacado, afronta diretamente as legislações específicas que fixam percentuais
mínimos para reserva de vagas das pessoas com deficiência em concursos
públicos e processos seletivos, quais sejam, o Decreto Federal 9.508/2018, a Lei
Estadual 11.867/1995, a Lei Municipal 9.078/2005 e Lei Municipal 7.863/99,
diplomas que assegura a isonomia e a garantia da máxima efetividade na
inclusão de pessoas com deficiência no setor público, nas três esferas, federal,
estadual e municipal.
O perigo de dano irreparável – periculum in mora – é patente uma vez que o
direito líquido e certo já foi violado dada à celeridade de realização de processos
seletivos dessa natureza, de modo que, a Administração Pública já concluiu as
etapas de análise curricular e entrevista individual, homologando o certame em
29/06/2019, antes mesmo que se esgotasse o prazo decadencial para a
impetração do presente mandado de segurança, sendo certo que a impetrante
foi aprovada na etapa de análise curricular, mas sequer foi convocada para
entrevista individual.
Cumpre esclarecer que a Administração Pública municipal já iniciou as primeiras
convocações para contratação imediata, sendo que, das 12 (doze) vagas
previstas no edital, ao menos 01 (uma), deveria estar reservada para pessoas
com deficiência, seguindo o raciocínio constitucional e legal já devidamente
fundamentado nesta exordial.
É inegável a real violação de direito líquido e certo já sofrida pela impetrante e
que carece da imediata segurança aqui pleiteada, a fim de que o processo
seletivo seja suspenso para que a Administração Pública municipal tome as
medidas necessárias para adequar o processo seletivo à política constitucional
da reserva de vagas para pessoas com deficiência.
Admitir que a Administração Pública municipal prossiga com as convocações
dando cabo ao processo seletivo na forma em que esta, seria o mesmo que se
institucionalizar a violação do direito de reserva de vagas para pessoas com
deficiência e negar as garantias constitucionais de inclusão da pessoa com
deficiência no trabalho em igualdade de oportunidades com os demais.
Não há outra saída senão a procedência do presente remédio constitucional para
assegurar a efetividade do direito líquido e certo da impetrante participar em
igualdade de oportunidades do processo seletivo atacado.
Se o processo seletivo não for suspenso no presente momento, corre-se o
risco de que todas vagas sejam providas SEM A GARANTIA
CONSTITUCIONAL DE ACESSO A NENHUM CANDIDATO COM
DEFICIÊNCIA, sobretudo em relação à impetrante que se inscreveu sem ter a
opção de declarar sua deficiência e ainda se encontra cerceada no que tange ao
direito de participar e avançar no certame em igualdade de oportunidades com
os demais, por ausência de tratamento isonômico.
Para tanto, estão preenchidos os requisitos e pressupostos legais da Lei nº
12.016/2009 para a concessão do pedido liminar, determinando a SUSPENSÃO
DO PROCESSO SELETIVO SIMPLIFICADO SUGESP (EDITAL 01/2019), até
as autoridades impetradas tomem as providências necessárias para
assegurar a reserva de 10% das vagas para pessoas com deficiência no
certame; ou até que haja decisão definitiva no presente mandado de
segurança.

6. DOS PEDIDOS E REQUERIMENTOS

Ante ao exposto, o impetrante pede e requer:


a. que seja deferida a gratuidade da justiça, nos termos da Lei nº 1.060/50,
tendo em vista a declaração de hipossuficiência e documentos anexos;
b. a concessão da LIMINAR inaudita altera parte pars, para suspender o
Processo Seletivo Simplificado SUGESP (Edital 01/2019), até que as
autoridades impetradas tomem as providências necessárias para
assegurar a reserva de 10% das vagas para pessoas com deficiência no
certame; ou, até que haja decisão definitiva no presente mandado de
segurança, a fim de assegurar à impetrante o direito de prosseguir e
disputar uma das vagas do certame, com isonomia e em igualdade de
oportunidade com os demais, conforme toda fundamentação jurídica e
normativa de defesa dos direitos das pessoas com deficiência
apresentados no bojo do presente remédio constitucional;

c. a notificação das autoridades coatoras e seus respectivos órgãos de


representação judicial, nos termos do art. 7º da Lei 12.016/2009;

d. a fixação de honorários sucumbenciais;

e. a intimação do Ministério Público, preferencialmente à competente


Promotoria de Justiça dos Direitos das Pessoas com Deficiência e Idosos;

f. a condenação dos impetrados nos honorários de sucumbência


correspondentes às fases processuais em que for forem aplicáveis;

g. que ao final seja concedida a segurança em caráter definitivo para


assegurar a fiel observância à reserva de vagas para pessoas com
deficiência no Processo Seletivo Simplificado SUGESP (Edital 01/2019),
garantido assim o tratamento constitucional digno e isonômico, às
pessoas com deficiência, em igualdade de oportunidade com os demais;

h. a juntada de todos os documentos anexos;

i. a produção de todos os meios de prova admitidos em direito;

Dá-se à causa o valor de R$ 1.000,00 (mil reais) para efeitos fiscais.

Termos em que pede deferimento.

Belo Horizonte, 06 de agosto de 2019.


Local e data
Advogado
OAB

Você também pode gostar