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GEORGES BALANDIER
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Professcur à la Sorbonnc

ANTROPOLOGIA
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POLITICA

Tradução de
OcTAVIO MENDES .CAJADO

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DIFUSÃO EUROP~IA DO LIVRO
EDITORA DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
Tflulo do original

ANTHROPOLOGIE POLITIQUE

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grado à antropologia política, especialização tardia da antropolo-
gia social, cujas teorias, métodos e resultados apresenta de ma-
neira crítica./ Propõe, nesse sentido, uma primeira síntese, uma
3 91. o i primeira tentativa de reflexão geral que versa sôbre as sociedades
políticas - estranhas à história ocidental - reveladas pelos an-
1°?> -\ 1 1e'- . tropólogos./ Essa posição difíc il sugere os riscos enfrentados;
êstes são assumidos na medida em que todo saber científico que
se constitui deve conformar-se em ser vulnerável e parcialmen-
te contestado. Um empreendimento dessa natureza só pôde
ser levado a cabo em razão dos progressos realizados, durante
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os últimos vinte anos, graças a investigações diretas, que am-
pliaram o inventário dos sistemas políticos "exóticos" e às pes-
J quisas teóricas mais recentes. Para essa tarefa, contribuíram am-
plamente os antropólogos e sociólogos africanistas; o que justi-
555-0
.. ...
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fica as inúmeras referências a seus trabalhos .
Este trabalho deseja igualmente destacar as contribuições
.....,~10~/7-/ da antropologia política aos estudos que visam a uma melhor de-
~"'::. limitação e a um melhor conhecimento do campo polltico. Defi-
·~ ne um modo de marcação e dá, assim, uma resposta à crítica dos
especialistas, que censuram aos antropólogos poliristas o orienta-
rem seus esforços no sentido de um objeto mal determinado. Exa-
mina a relação entre o poder e as estruturas elementares, que lhe
fornecem seu primeiro fundamento, os tipos de estratificação so-
cial que o tornam necessário, os rituais que lhe asseguram o arrai-
19 69 ( go no sagrado e intervêm em suas estratégias. Essa tentativa não
podia eludir o problema do Estado - e examina longamente os
caracteres do Estado tradicional - , mas revela até onde se torna
Copyright by urgente dissociar a teoria política da teoria do Estado. Mostra
Presses Universilaires de France, Paris que as sociedades humanas produzem tôdas o político e estão
Direitos exclusivos para a língua portuguêsa: tôdas franqueadas às vicissitudes da história. Daí que se reen-
Difusão Européia do Livro, São Paulo
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contrem e, de certo modo, se renovem as preocupações da filo-
sofia política.
Essa apresentação da antropologia política não excluiu as
tomadas de posição teórica. Muito pelo contrário, representa
a ocasião de se construir uma antropologia dinâmica e crítica
sôbre um dos terrenos que se afiguram mais propícios à sua
edificação. Nesse sentido, o livro retoma, em nível mais alto de
generalidade, as preocupações definidas no curso de nossas in- CAP1TULO I
vestigações efetuadas no domínio africanista. Considera as socie-
dades políticas não só sob o aspecto dos princípios que lhes CONSTRUÇÃO DA ANTROPOLOGIA POL1TICA
regem a organização, mas também em função das práticas, estra-
tégias e manipulações que elas provocam. Toma em considera-
ção a defasagem existente entre as teorias que as sociedades pro-
duzem e a realidade social, aproximativa e vulnerável, que re- A antropologia política surge, ao mesmo tempo, como pro-
sulta da ação dos homens - de sua política. Pela própria na- jeto - antiqüíssimo, porém sempre atual - , e como especia-
tureza do objeto ao qual se aplica, pelos problemas que encara, lização da pesquisa antropológica, de constituição tardia. Sob
a antropologia política adquiriu incontestável eficácia crítica. Para o primeiro aspecto, ass~gura a ultrapassagem das experiências e
concluir, recordamo-lo: esta disciplina possui agora uma virtude doutrinas políticas particulares. Tende assim a fundar uma ci-
corrosiva cujos efeitos principiam a sentir certas teorias estabe- ência do político, que encara o homem sob a forma do homo
lecidas. Ela concorre, dessa maneira, para uma renovação do politicus e pesquisa as propriedades comuns a tôdas as organi-
pensamento sociológico, exigida não só pela fôrça das coisas zações políticas reconhecidas em sua diversidade histórica e geo-
mas também pelo devir das ciências sociais( 1 ). gráfica. Nesse sentido, já se encontra presente na Política de
Aristóteles, que considera o ser humano como ser naturalmente
G.B.
político e visa antes ao descobrimento de leis do que à defini-
ção da melhor constituição concebível para todo Estado possível.
Sob o segundo aspecto, a antropologia política delimita um campo
de estudos no seio da antropologia social ou da etnologia. En-
trega-se à descrição e à análise dos sistemas políticos (estruturas,
processos e representações) próprios das sociedades consideradas
primitivas ou arcaicas. Assim entendida, é uma disciplina re-
centemente diferenciada. R. Lowie contribuiu para a sua cons-
trução ao mesmo tempo que lamentava a insuficiência dos tra-
balhos antropológicos em matéria política. Um fato é signifi-
cativo: as sessões realizadas nos Estados Unidos em 1962 -
I nternational Symposium on Anthropology - não lhe dão aten-
ção alguma. Em datas ainda mais recentes, os antropólogos con-
tinuam a passar atestados de indigência: quase todos reconhecem
( 1) Esta obra, que utiliza os resultados de pesquisas pessoais efe· que "desprezaram o estudo comparativo da organização política
tuadas no curso dos dez últimos anos, deve muito às observações e su· das sociedades primitivas" ( I. Schapera). Daí os mal-entendi-
gestões formuladas no seio do "Grupo de Pesquisas em Antropologia e
Sociologia Políticas", cuja direção assumimos. Claudine Vida! e Frandne dos, os erros, as afínnativas enganadoras, que conduziram à ex-
Dreyfus, colaboradoras dêsse grupo, prestaram ajuda preciosíssima, tanto clusão da especialização e do pensamento políticos de grande
na verificação da documentação quanto na revisão do manuscrito. número de sociedades.

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De uns quinze anos a esta parte, inverte-se a tendência. lugar concedido a êsse modêlo de sociedade política no pensa-
Multiplicam-se as investigações nesse terreno, notadamente na mento marxista e neomarxista constitui prova, aliás, da impor-
África negra, onde mais de uma centena de " casos", observados, tância dessa contribuição.
podem ser submetidos a um tratamento científico. As elabora- Montesquieu, com efeito, é o iniciador de um cometimento
ções teóricas começam a exprimir os resultados obtidos graças científico que definiu, durante algum tempo, as funções da an-
às novas pesquisas. O súbito progresso explica-se tanto pela tropologia cultural e social. Faz um inventário em que se pa-
atualidade - pela consideração dada às sociedades mutantes tenteia a diversidade das sociedades humanas. Com êsse in-
oriundas da descolonização - quanto pelo devir interno da ci- tuito, recorre aos dados da história antiga, às "descrições" dos
ência antropológica. A partir de então, reconhecem os politi- viajantes, às observações relativas aos países estrangeiros e es-
cólogos a necessidade de uma antropologia política. G. Almond tranhos. Esboça um método de comparação e classificação, uma
faz dela a condição de tôda ciência política comparativa. R. tipologia; o que o leva a valorizar o domínio político e identifi-
Aron constata que as sociedades chamadas subdesenvolvidas "es- car, de certo modo, os tipos de sociedades segundo os modos
tão prestes a fascinar os politicólogo,s desejosos de fugir ao pro- do govêrno. Numa perspectiva análoga, a antropologia tentou,
vincialismo ocidental ou industrial". E C. N. Parkinson "come- primeiro, determinar as "áreas" das culturas e as seqüências cul-
ça a pensar que o estudo das teorias políticas devia ser confiado turais considerando os critérios técnico-econômicos, os elemen-
aos antropólogos sociais", tos de civilização e as formas das estruturas políticas( 2 ) . I sso
~sse êxito tardio não se verifica sem. contestações nem am- equivale a fazer do "político" um caráter pertinente para a di-
bigüidades. Para certos fi lósofos - e nomeadamente P. Ri- ferenciação das sociedades globais e das civilizações; e por vêzes,
cceur - , só a filosofia política se justifica; na medida em que a conceder-lhe Ufl1 status científico privilegiado. A antropologia
o político é fundamentalmente o mesmo de uma sociedade a ou- política aparece sbb o aspecto de uma disciplina que examina
tra, em que a política ·é um "alvo" ( télos) e tem por finalidade sociedades "arcaicas" em que o Estado não está nitidamente cons-
a natureza da cidade.. Trata-se de uma recusa total das ciências ti~ído e sociedades em que o Estado existe e apresenta confi-
do fenômeno político, que só pode ser refutada, por seu turno, gurações muito diversas. Encara necessàriamente o problema
por um exame aprofundado d ês te último. As incertezas por do Estado, de sua gênese e de suas expressões primeiras: consa-
muito tempo manifestadas por essas disciplinas, no tocante aos grando uma de suas obras principais a essa questão ( The Origin
seus domínios, seus métodos e suas finalidades respectivas, não o/ the State, 1927), R. Lowie volta a encontrar assim as preo-
são nada propícias a um empreendimento dessa natureza. Não cupações que absorviam os pioneiros da pesquisa antropológica.
obstante, cumpre ten~ar reduzí-las. Ela é também confrontada pelo problema das sociedades segmen-
tárias, sem poder político centralizado, objeto de um debate an-
tigo e sempre renovado. O historiador F. ]. Teggart, freqüente-
L SIGNIFICAÇÃO DA ANTROPOLOGIA POUTICA mente citado pelos autores britânicos, afirma: "A organização
1Como disciplina que ambiciona adquirir o estado científico, política é coisa excepcional, característica apenas de certos gru-
a antropologia poütica impõe-se, a princípio, como modo de re- pos. . . Todos os povos foram durante certo tempo, ou ainda o
conhecimento e conhecimento do exotismo político, das "outras" são, o rganizados em base diferente" ( The Processes o/ History,
formas políticas. É um instrumento de descoberta e estudo das 1918) . Com trinta anos de distância, o sociólogo americano R.
diversas instituições e práticas que asseguram o govêrno d os ho- Maciver continua a admitir que "o govêrno tribal difere de
1
tôdas as outras formas de govêrno" (The W eb o/ Government).
mens, bem como dos sistemas de pensamento e dos símbolos ~ Por diferença essencial ou ausência do político, estando ambas
que as fundam,{ Quando elabora a noção de despotismo oriental
(sugerindo um tipo ideal no sentido de Max Weber), quando mais postuladas que demonstradas, as sociedades que depen·
classifica à parte as sociedades que ela define e põe em evidência (2) J. H . Stewart precisa a êsse respeito: "A estrutura sócio
tradições políticas diferentes das da Europa, situa-se Montes- -polltica presrn-se ela mesma à classificação e é mais nltidnmente mani·
quieu entre os primeiros fundadores da antropologia política. O festa do que os demais aspectos da cultura."

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dem do estudo antropológico situam-se à parte. Dicotomias su- situação atual das sociedades políticas exóticas nos induz a exa-
márias pretendem exprimir essa posição: sociedades sem organi- minar, numa perspectiva dinamista, as relações entré organiza-
zação política - sociedades com organização política, sem Esta- ções políticas tradicionais e organizações políticas modernas, en-
do - com Estado, sem história ou com hist6ria repetitiva - tre tradição e modernismo; além disso, submetendo as primeiras
com história cumulativa etc. Tais oposições são enganosas; criam a uma verdadeira prova, ela requer a seu propósito, uma visão
um corte falsamente epistemológico, embora a velha distinção en- nova e mais crítica. A confrontação ultrapassa o estudo da di-
tre sociedades primitivas e sociedades civilizadas tenha marcado a versidade e da gênese das formas jurídicas, suscita também o
antropologia política desde o instante do seu nascimento. Adi- problema do seu relacionamento generalizado, de suas incompa-
ando o estudo metódico dos "sistemas primitivos de organização tibilidades e antagonismos, de suas adaptações e mutações.
política", os antropólogos possibilitaram as interpretações nega-
tivas: as dos teóricos estranhos à sua disciplina, que negam . a
existência de tais sistemas. 2. ELABORAÇÃO DA ANTROPOLOGIA POL1TICA
A evocação dessas questões sugere as /inatidades principais
a que pôde visar a antropologia política, e continuam a defini-la: Se a antropologia política se define, em primeiro lugar,
pelo consideração do exotismo político e pela análise compa-
a) Uma determinação do polítiÇ.2__Su_e-1}ª9 . liga êste últi-
mo apenas às sociedades chamaâãshistóricas, nem r existência rativa a que conduz, suas origens podem ser tidas como remo-
tas. A despeito das sugestões retomadas em diversas épocas,
de um aparelho · estatal. , ri · . 1 ,'_. • •
elaborou-se com lentidão; seu nascimento retardado tem razões
b) Uma elucidação dos processos de formação e transfor- que em parte lhe explicam as vicissitudes.
mação dos sistemas políticos por meio de uma pesquisa paralela
a) Os precursores. - Reconstituindo o itinerário de sua
à do historiador; evitando-se de um modo geral a confusão do
ciência, os · antropólogos descobrem amiúde os marcos afastados
"primitivo" e do "primeiro", o exame dos testemunhos que re-
que constitbem prova do caráter permanente (e inelutável) de
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montam ao tempo dos primórdios (da "verdadeira juventude
suas preoctlpações fundamentais. M. Gluckman invoca Aristó-
do mundo", segundo a fórmula de Rousseau), ou que dão conta teles: seu "tratado do govêrno", sua busca das causas que pro-
das transições, permanece privilegiado.
vocam a degradação dos governos estabelecidos, sua tentativa de
e) Um estudo comparativo, que abrange as diferentes determinar as leis da mudança política. D. F. Pocock evoca a
expressões da realidade política, não mais dentro dos limites de atenção já concedida por Francis Bacon às provas relativas às
uma história particular - a da Europa, mas em tôda a sua ex- sociedades diferentes ou "selvagens". Lloyd Fallers recorda que
tensão histórica e geográfica. Nesse sentido, a antropologia po- Machiavel - em O Príncipe - distingue duas espécies de go-
lítica quer-se antropologia na plena acepção do têrmo. Ela con- vêrno que prefiguram dois dos tipos ideais diferenciados por
tribui, assim, para reduzir o "provincialismo" dos politicólogos, Max Weber na sua sociologia política: o "patrimonialismo" e o
denunciado por R. Aron, para construir "a história mundial do "sultanismo".
pensamento político" almejada por C. N. Parkinson. É, todavia, entre os criadores do pensamento político do
Sobrevindas nas sociedades em vias de desenvolvimento, as século XVIII que convém procurar os iniciadores do tentame
mutações emprestam um sentido suplementar aos tentames con- antropológico. O precursor privilegiado continua sendo Montes-
jugados da antropologia e da sociologia política. Permitem o quieu. Sublinha-o D. F. Pocock reportando-se ao Espírito das
estudo, atual e não retrospectivo, dos processos que asseguram a Leis: "É a primeira tentativa séria de inventário da diversidade
passagem do govêrno tribal e do Estado tradicional ao Estado da sociedade humana, no intuito de classificar e comparar estas
moderno, do mito à doutrina e à ideologia políticas. Eis aí um últimas, a fim de estudar no seio da sociedade o funcionamento
momento propício ao estudo, uma dessas épocas "charneiras" solidário das .instituições''(l1 ). Visto que as sociedades se defi-
que Saint-Simon procurava ao interpretar a revolução industrial,
a formação de um nôvo tipo de sociedade e de civilização. A (3) D. F. PococK, Social A11thropology, Londres, 1961.

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nem pelas suas formas de govêrno, essa contribuição prepara o eia: procurar o processo de formação das classes sociai~ e do Es-
advento da sociologia e da antropologia políticas. Entretanto, tado por dissolução das comunidades primitivas; determinar as
há mais alguma coisa para se encontrar do que essa prefiguração características de uma sociedade "asiática", que parece particular.
e mais alguma coisa para se reter do que a definição de uma A tentativa encerra certa contradição interna, sobretudo se se
forma política destinada a um êxito científico protelado: o "des- encarar a contribuição de F . Engels. Êste último trata a his-
potismo oriental". Segundo a fórmula de L . Althusser, Mon- tória ocidental como representativa do desenvolvimento geral da
tesquieu provoca "uma revolução no método"; parte dos faros: humanidade, introduzindo assim uma visão unitária do devir das
"as leis, os costumes e os diversos usos dos povos da Terra"; ela- sociedad~s e das civilizações. Por outro lado, na própria medida
bora as noções de tipos e leis; propõe um classificação morfoló- em que a sociedade "asiática" e o Estado que pode regê-la são
gica e histórica das sociedades - vistas sobretudo, e é impor- considerados à parte, ela se acha de certo modo excluída da his-
tante não o esquecer~ como sociedades políticas. tória - condenada à estagnação relativa, à imutabilidade. Essa
Rousseau é mais freqüentemente considerado filósofo po- dificuldade subsiste no seio das primeiras pesquisas antropológi-
lítico mercê do Discurso sôbre a Desigualdade e do Contrato cas: de uma parte, visam estas ao estudo das gêneses. dos pro-
Social. Sua contribuição nem sempre foi corretamente avaliada cessos de formação e de transformação, ao mesmo tempo que
pelos especialistas da sociologia e da antropologia políticas. Ela, admitem ser quase impossível "descobrir a origem das institui-
contudo, não se reduz ao contrato hipotético pelo qual o gênero ções primitivas" (Fortes e Evans-Pritchard); de outra parte. in-
humano sai do estado "primitivo" e muda sua maneira de ser, teressam-se pelas formas mais específicas d as sociedades e das ci-
à argumentação que C. N. Parkinson denomina "retórica do sé- vilizações, em detrimento não raro do exame dos caracteres co-
culo À'V'III " e "senilidade" . Sem abandonar a busca impossível muns e dos processos gerais que contribuíram para a :;ua formação.
das origens, Rousseau considera cientificamente os usos dos "po- b) Os primeiros antropólogos. - Foi sobretudo sob o as·
vos selvagens" e tem a intuição de suas dimensões históricas e pecto de sua gênese que êles consideraram os fenômenos políticos,
culturais. Retoma por sua conta o relativismo do Espírito das com tão evidente discrição que se lhes pôde negar o interêsse
Leis e reconhece que o estudo comparativo das sociedades per- pelo assunto. Max G luckman denuncia uma carência total: "Ne-
mite que se compreenda melhor cada uma delas. Elabora uma nhum dos primeiros antropólogos, nem mesmo Maine, se o rei-
interpretação em têrmos de gênese: a desigualdade e as relações vindicarmos como antepassado, encarou o problema polítk·); tal-
de produção são os motores da história. Reconhece, ao mesmo vez porque as pesquisas iniciais no terreno da antropologia fôs-
tempo, a especificidade e o desequilíbrio de todo sistema social, sem consagradas às sociedades em pequena escala da América,
o debate permanente entre a "fôrça das coisas" e a "fôrça da da Austrália, da Oceania e da índia."
legislação". O s temas do Discurso prefiguram, às vêzes, a aná- Sem embargo disso, a referência aos pioneiros é freqüente.
lise de F. Engels ao elucidar "a origem da família, da proprie- A Sir Henry M;iine, há pouco evocado e amiúde esquecido, autor
d ade privada e do Estado". da célebre obra: Ancient Law ( 1861 ), estudo comparativo das <-
É, aliás, com Marx e Engels que ressurgem certas correntes 1 instituições indo-européias, que revela duas "revoluções" no
1 devir das sociedades: a passagem das sociedades baseadas no
do pensamento político do século XVIII. A obra dêles contém
o esbôço de uma antropologia econômica - em que se põe status para as sociedades fundadas no contrato; a passagem das
em evidência um " modo de produção asiático" - e de uma organizações sociais centradas no parentesco para as organizações
antropologia política - notadamente com a reconsideração do dependentes de outro princípio - notadamente o da "contigüi-
"despotismo oriental" e suas manifestações históricas. ~les or- dade local", que define " o fundamento da ação política co-
ganizam essa reflexão alicerçados numa documentação exótica: i mum". Essa dupla distinção se encontra na origem de um de-
relatos de viajantes e "descrições", escritos relativos a comuni- bate sempre aberto. A referência mais freqüentemente citada
dades aldeãs e aos Estados das fndias no transcurso do século continua a ser , entretanto, a Ancient Society ( 1877) de L. H. ~
XIX, trabalhos dos historiadores e etnógrafos. Seu empreendi- '\Morgan, inspirador de F. Engels e pai reverenciado da maior
mento (mais esboçado que concluído) obedece a dupla exigên- ! parte dos antropólogos modernos. :2le reconhece duas espécies
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de govêrno "fundamentalmente distintas" e significativas da evo-


lução antiga das sociedades: "A primeira, na ordem do tempo, tação das teorias exóticas do govêrno: Beni Prasad. publica a
funda-se nas pessoas e nas relações puramente pessoais; pode ser sua Theory o/ Government in India em 1927( 4 ). As obras dos
considerada como sociedade (societas). . . A segunda fw1da-se politic6logos começam a praticar breves incursões antropológicas;
no território e na propriedade; pode ser considerada como Estado assim, a History o/ Political Theories ( 1924) de A. A. Golden-
( civitas). . . A sociedade política é organizada sôbre estrutu- weiser faz nomeadamente alusão ao sistema político dos iroque-
ras territoriais, toma em consideração relações de propriedade e ses da Amédica do Norte.
as relações que o território estabelece entre as pessoas". Esse -D Os primeiros tratados de antropologia conferem lugar limi-
modo de interpretação conduz pràticamente a antropologia a pri- tadíssimo aos fatos políticos; o de F. Boas (General Anthropo-
var do político vasto conjunto de sociedades. Morgan foi vítima logy) reserva um capítulo aos problemas do govêrno; o de R.
do próprio sistema teórico, tomado de empréstimo, nesse caso, Lowie ( Primitive Society) sistematiza as teses do autor e apre-
em parte, aos trabalhos de Henry Maine. Consagrou vários ca- senta sucinto inventário dos principais resultados. Mas a revo-
pítulos de sua grande obra à "idéia de govêrno", mas não dei- lução antropológica determinante é a da gé~eJ.21..0, quan-
xou de negar a compatibilidade do sistema dos clãs (sociedade do se multiplicam os estudos de campo . e as elaborações teóri-
primitiva) com certas formas de organização essencialmente po- cas ou metodológicas que dêles resultam. As pesquisas consa-
líticas (aristocracia, monarquia). Suscitou também uma contro- gradas às sociedades scgmentárias (chamadas "sem Estado"),
vérsia, que renasce a todo instante no seio da teoria antropoló- às estrutura-;-Cloparenteséo- e -aõSinodelos de relações que re-
gica. Em 19.56, I. Schapera retoma-a mais uma vez em seu gem estas últimas, conduzem a uma delimitação melhor do cam-
livro: Government and Politics in Tribal Societies. po político e à melhor apreensão da diversidade de seus aspectos.
c) Os antropólogos politistas. - É depois de 1920 que se É no terreno africanista que se realizam os progressos mais
elabora uma antropologia política diferenciada, explícita e não rápidos; as sociedades submetidas à investigação organizam-se em
mais implícita. Parte da problemática antiga, mas explora os escala maior; nelas se manifesta mais nitidamente do que nas
materiais novos decorrentes da pesquisa etnográfica. Volta a microssociedades "arcaicas" a diferenciação das relações de pa-
discutir o Estado, sua origem e suas expressões primitivas, ques- rentesco e das relações propriamente políticas. Em 1940, pu-
tão já retomada por Franz Oppenheimer no princípio do século blicam-se três obras, hoje clássicas. Duas delas, que se devem
(Der Staat, 1907). a E. E . Evans-Pritchard, expressam os resultados de pesquisas
diretas e comportam novas implicações teóricas. The Nuer, li-
Com alguns anos de intervalo, publicam-se dois estudos im- vro que apresenta os traços gerais de uma sociedade nilótica,
portantes, que correspondem à mesma preocupação. o de w. c. revela, ao mesmo tempo, as relações e instituições políticas de
MacLeod, que utiliza a documentação reunida pelos etnógrafos um povo aparentemente d esprovido de govêrno; demonstra a
americanistas: The Origin of 't he State Reconsidered in the possibilidade de existência de uma "anarquia ordenada". The
Light of the Data Aboriginal North America ( 1924 ) . O de R . Political System o/ the Anuak é exclusivamente um estudo de an-
A. Lowie - The Origin of the State ( 1927) - que determi- tropologia política que versa sôbre um povo sudanês, vizinho dos
na o papel respectivo dos fatôres internos (que provocam a di- nuer, que elaborou duas formas contrastadas e concorrentes de
ferenciação social) e ·dos fatôres externos (que resultam da govêrno dos homens. A terceira obra é uma coletânea coletiva,
conquista) na formação dos Estados. São os produtos de ten- dirigida por E . E. Evans-Pritchard e M. Fortes: A/rican Politi-
tativas que se querem científicas, estribadas em fatos, e niti- cal Systems. Obedece a uma exigência comparatista, apresentan-
damente distintas dos empreendimentos da filosofia política. O do "casos" nitidamente diferenciados; precedido de uma intro-
problema das origens é também focalizado por Sir J ames G. Pra- dução teórica, propõe o esbôço de uma tipologia; é apreciado
zer, que encara as relações entre magia, religião e realeza, tor- P?r M. Gluckman como a primeira contribuição que visa a dar
nando-se assim o iniciador dos trabalhos que elucidam a rela-
ção entre o poder e o sagrado. Abrem-se novos terrenos de ( 4) No correr dos anos vinte, multiplicam-se os estudos consagra-
pesquisa; alguns vão desaguar no reconhecimento e na interpre- dos ao pensamento político dos hindus; evoquemos os de U. Ghostal
(1923), Ajir Kumar Sen (1926) e N. C. Bandyopadhaya (1927).
14
2
1.5
r-

um status científico à antropologia política. É verdade que os


responsáveis pela obra marcam suas distâncias em relação aos ciado a estas últimas. E impõe um exame mais acurado .das ques-
"filósofos do político", menos preocupados em "descrever" do tões de método. · "

que em "dizer qual o govêrno que os homens deveriam adotar".


bstá visto q ue essa ahrmação suscita reservas, mas não há um
3. MÉTODOS E TEND~NCIAS DA ANTROPOLOGIA POL1TICA
especialista que não se manifeste devedor em relação aos dois
grandes antropólogos . Os métodos não se diferenciam, no início, dos que caracte-
D epois de 1945, o número dos africanistas poliristas aumen- rizam o conjunto do tentame antropológico. Tornam-se mais
ta ràpidamente. Seus estudos, primeiro que tudo, são fruto específiéos quando a antropologia política, implícita ainda, ven-
de intenso trabalho realizado no campo. Êles estudam, ao mes- tila problemas que lhe são próprios: o processo de formação das
mo tempo, as sociedades segmentárias (Fortes, Middleton e Tait, sociedades estatais, a natureza do Estado primitivo, as formas
Southal, Balandier) e as sociedades estatais (Nade!, Smith, Ma- do poder político nas sociedades de govêrno mínimo etc. Adqui-
quet, Mercier, Apter, Beattie). Induzem investigações teóricas rem tôda a sua originalidade desde o instante em que a antro-
e sínteses regionais, que confrontam sistemas de parentesco; as- pologia política se torna um projeto científico que visa a um
sim, no que concerne às sociedades de linhagem, 1'ribes Without objetivo e a finalidades bem determinadas . Sofrem então a in-
Rulers, publicado em 1958 sob a direção de Middleton e Tait; e fluência das sociologias políticas estabelecidas - a de Max We-
no que respeita aos Estados da região oriental interlacustre, ber ou, mais raramente, a de Marx e Engels (por exemplo, no
Primitive Government, publicado em 1962 por L. Mair. O li- caso de Leslie White). São beneficiados, não obstante, pelos
vro de I. Schaperl,l, Government and Politics in Tribal Societies progressos que realiza a antropologia geral.
(1956), tem um alcance geral, como o sugere o próprio título, Tais métodos caracterizam-se pelos instrumentos a que re-
embora se funde exclusivamente nos exemplos tirados da Áfri- correm, pelos problemas a que se aplicam. Não se definem su-
ca Meridional. Examina os mecanismos que asseguram o funcio- ficientemen te quando se opõem os trabalhos teóricos, que cons-
namento dos governos primitivos e elucida certos problemas de troem sua área de estudos fundados na contribuição das pesqui-
terminologia. Quanto às pesquisas mais recentes, orientadas sas de campo, aos trabalhos que se limitam à elaboração imedia-
pelas situações decorrentes da independência, estas estabelecem to dos dados resultantes da pesquisa direta. Convém estabele-
junção entre a antropologia política e a ciência política ( Apter, cer um inventário sumário dêsses métodos, antes de avaliar-lhes
Coleman, Hodgkin, Potkhin, Ziegler), mostrando a necessidade a eficácia científica no reconhecimento do campo político.
de uma cooperação interdisciplinar. a) O tentame genético. - É, ao mesmo tempo, o primeiro
Fora do terreno africanista, uma obra domina a literatura na história da disciplina e o mais ambicioso. Suscita os proble-
especializada; a que E . R . Leach consagrou às estruturas e organi- mas de origem e "evolução" a longo prazo: origem mágica ou
zações políticas dos cachins da Birmânia: Política! Systems of e religiosa da realeza, processo de constituição do Estado primi-
H ighland Burma ( 19 54). Êsse estudo valoriza o aspecto polí- .! tivo, passagem das sociedades construídas sôbre o "parentesco"
tico dos fenômenos sociais. D epois de Nade! (e de seus prede- para as sociedades políticas etc. É ilustrado por uma série de
cessores), identificam-se a sociedade e a "unidade política", em- obras - desde as dos pioneiros até o estudo histórico de W.
bora as estruturas sociais sejam encaradas com referência a "idéias C. MacLeod: The Origin and History o/ Politics ( 1931 ). En-
relativas à distribuição do poder entre pessoas e grupos de pes- contra de certo modo seu resultado nas pesquisas etnológicas
soas". E. R. Leach elabora - e é essa sua principal contribui- que, inspiradas pelo marxismo, lhe associam uma concepção dia-
ção - um estruturalismo dinâmico, prenhe de úteis sugestões à ,) lética da história das sociedades.
antropologia política. Mostra a instabilidade relativa dos equilí- ' b) O tentame funcionalista - Identifica as instituições po-
brios sócio-políticos ("equilíbrios móveis", segundo a fórmula de líticas, nas sociedades chamadas primitivas, a partir das funções
Pareto), a incidência das "contradições", a defasagem entre o t assumidas. Segundo a expresão de Radcliffe-Brown, leva a en-
sistema das relações sociais e políticas e o sistema de idéias asso- carar a "organização política" como aspecto da "organização to-
16
17
tal da sociedade". Com efeito, a análise coloca em presença politicólogo D. Easton afirma que o objeto dessa disciplina per-
uma das outras instituições propriamente políticas (como o apa- manece mal definido porque "inúmeros problemas conceituais
relho da realeza) e instituições multifuncionais, utilizadas cm não foram resolvidos". Uma das iniciativas mais aprofundadas
certas circunstâncias para fins políticos (como as "alianças" ins- é a de M. G. Smith, que tenta estabelecer com rigor as noções
tauradas entre os clãs ou as linhagens) . Bsse típo de tentame de base: ação política, competição, poder, autoridade, adminis-
permite definir as relações políticas, as organizações e sistemas tração, cargo etc.; é tanto mais útil (pelos resultados) quanto
que elas constituem, mas pouco contribuiu para elucidar a natu- encara a "ação política" de maneira analítica, a fim de assinalar
reza do fenômeno político. Bste é geralmente caracterizado por a parte comum a todos os sistemas. O léxico dos conceitos-chave
dois grupos de funções: as que fundam ou mantêm a ordem so- continua a ser, não obstante, mais fácil de se redigir que de se
cial, organizando a cooperação interna ( Radcliffe-Brown); as que carregar de conteúdo.
garantem a segurança assegurando a defesa da unidade política. A elaboração dêsses conceitos deve ser completada pelo
c) O tentame tipológico. - Prolonga o precedente. Visa à estudo sistemático das categorias e teorias políticas indígenas,
determinação dos tipos de sistemas políticos, à classificação das sejam estas últimas explícitas ou implícitas, e sejam quais fo-
formas de organização da vida política. A existência ou não do rem as dificuldades opostas à sua tradução. A lingüística é, as-
Estado primitivo parece fornecer um primeiro critério de dife- si m, um dos instrumentos necessários à antropologia e à sociolo-
renciação: é o que prevalece em A/rican Political Systems. Essa gia políticas. Não se poderia ignorar o fato de que as sociedades
interpretação dicotômica é hoje constestada. De fato, pode-se que dependem da primeira dessas duas disciplinas impõem a
construir uma · série de tipos que se estendem dos sistemas de elucidação das teorias que as explicam e das ideologias que as
govêrno mínimo até os sistemas de Estado nltidamente constituí- justificam. A. Southall, J. Beattie e G. Balandier sugeriram os
do; progredindo de um tipo para os outros, o poder político se meios que se devem empregar para construir os sistemas que
diferencia cada vez mais, organiza-se de maneira mais complexa põem de manifesto o pensamento político indígena.
e centraliza-se. A simples oposição entre as sociedades segmen- e) O tentame estruturalista. - Substitui o estudo genético
tárias e as sociedades estatais centralizadas parece tanto mais con- ou funcionalista pelo estudo do político efetuado a partir de
testável quanto o africanista A. Southall mostrou a necessidade modelos estruturais. O político é visto sob o aspecto das rela-
de se introduzir pelo menos uma terceira categoria: a dos Esta- ções formais, que expõem as relações de poder realmente instau-
dos segmentários. radas entre os indivíduos e entre os grupos. Se nos ativermos à
Além dessa crítica, o próprio método é pôsto em dúvida; interpretação mais simples, as estruturas políticas - como tôda
a tal ponto que a tipologia às vêzes se compara a uma vã "tau- estrutura social - são os sistemas abstratos que revelam os
tologia" (E. R. Leach) . Conviria ao menos não confundir e princípios que unem os elementos constituivos das sociedades
misturar as tipologias "descritivas" e as tipologias "dedutivas" políticas concretas. Num artigo estimulante, consagrado à "es-
(D. Easton) . Importaria não eludir a principal dificuldade: trutura do poder entre os hadjera'i( G), grupo d e populações do
os tipos definidos são "imóveis"; e, segundo a vigorosa fórmula Chade, J. Pouillon precisa e ilustra uma das possibilidades do
de Leach, "já não podemos satisfazer-nos por mais tempo com método estruturalista aplicado ao campo da antropologia política.
tentativas que estabelecem uma tipologia de sistemas fixos". A aplicação incide sôbre um conjunto de microssociedades que
d) O tentame terminológico. - Uma primeira marcação e apresentam ao mesmo tempo parentescos (o nome geral -
uma primeira classificação dos fenômenos e sistemas poHticos re- hadjera'i - os evoca) e variantes significativas, notadamente no
dundam necessàriamente em tentativa de elaboração das catego- tratamento do "poder". Dupla condição, a presença de elemen-
rias fundamentais. Tarefa difícil, que requer, previamente, pre- tos comuns e · a diferenciação na disposição dêstes últimos, é
cisa delimitação do campo político( 5 ). Está longe de ter sido necessária à tentativa; permite que se construa, em dois graus,
concluída. Num ensaio que versa sôbre antropologia política, o
(6) J. PouILLON, La structure du pouvoir chez les Hadjerai (Tchad),
(5) Ver o capítulo II: "Terreno do político". cm L'Homme, setembro-dezembro de 1964.

18 19

j
"sistemas" que correspondem ao conjunto das moralidades de
organização sócio-política e um "sistema dos sistemas" - o que nâmica das estruturas tanto quanto o sistema das relações que as
se considera capaz de definir o poder hadjera'i. Daí, os dois mo- constituem: isto é, tomar em consideração as incompatibilidades,
as contradições, as tensões e o movimento inerente a tôda socie-
mentos do estudo: primeiro tempo, localização das "relações es-
truturais internas de cada organização considerada como um sis- 1
·~
dade. Impõe-se tanto mais em antropologia política quanto o
terreno político é aquêle em que estas últimas se apreendem
tema"; segundo tempo, interpretação do conjunto das organiza-
ções estudadas como "se fôsse produto de uma combinatória". melhor e em que a história imprime mais nltidamente sua marca.
No caso em aprêço, o método põe sobretudo em destaque as E. R. Leach contribuiu diretamente para a elaboração dêsse
combinações diferente§ (equivalência, diferenciação parcial, acen- tentame, depois de haver buscado as razões de seu aparecimento
tua7ão variável) dos podêres relig1oso e político, o jôgo de uma tardio. Implica a influência dominante de Durkheim - em de-
lógica que se realiza sob formas diversas no interior da mesma trimento da influência de Pareto ou Max Weber - permitindo
estrutura global. As variantes podem assim mostrar os "estados" uma concepção que acentua os equilíbrios estruturais, as unifor-
da mesma estrutura. midades culturais, as formas de solidariedade; de tal sorte que
Aplicado ao estudo dos sistemas políticos, o tentame estru- as sociedades portadoras de conflitos aparentes e franqueadas às
turalista suscita dificuldades que lhe são próprias em nível mais mudanças se teriam tornado "suspeitas de anomia". Denuncia
geral. E nomeadamente as que considera E. R. Leach, estrutu- os "preconceitos acadêmicos" e o etnocentrismo dos antropólo-
ralista moderado, no estudo sôbre a sociedade política cachim. gos que eliminaram alguns dados de fato para tratar apenas
Partindo do fato evidente de que as estruturas elaboradas pelo das sociedades estáveis, não ameaçadas pelas contradições inter-
antropólogo são modelos que existem apenas como "construções nas e isoladas no interior de suas fronteiras. Em suma, Leach
lógicas", impõe a formulação de uma primeira pergunta: como nos incita a tomar em consideração o ,contradi1ório, o co_nfli-
ter a certeza de que o modêlo forma l é o mais adequado? Por t\!.Q_SO o aproximativo e o relacional externo. ssa orientação
outro lado, Leach examina uma dificuldade mais essencial. "Os se r~necessárrãão progresso c:laãrítrõpologia política, pois o
sistemas estruturais, tais como os antropólogos os descrevem, são político se define em primeiro lugar pela defrontação dos inte-
sempre sistemas estáticos"; são modelos da realidade social que rêsses e da competição.
apresentam um estado de coerência e equilíbrio acentuado, quan- Sob o impulso de Max Gluckman, os antropólogos da es-
do a realidade não tem o caráter de um todo coerente, pois encer- cola de Manchester orientam suas pesquisas no sentido de uma
ra contradições, revela variações e modificações de estruturas. No interpretação dinâmica das sociedades. G1uckman examinou a
caso particular da organização política cachim. Leach localiza o natureza das relações existentes entre o "costume" e o "confli-
fenômeno de oscilação entre dois pólos - o tipo "democrático" to" ( Custom and Conflict in A/rica, l 955), a "ordem" e a "re-
gumlao( 7 ) e o tipo "aristocrático"' shan - , a instabilidade do belião" ( Order and Rebellion in Tribal A/rica, 1963). Su:i
sistema e os ajustamentos variáveis da cultura, da estrutura sócio- contribuição diz respeito, ao mesmo tempo, à teoria geral das
política e do meio ecológico. O rigor de várias análises estrutu- sociedades tradicionais e arcaicas e ao método da antropologia
ralistas é aparente e ilusório. Explica-se por uma condição ne- políi ica. ~ste último encontra sugestões em sua teoria da rebe-
cessária, mas amiúde disfarçada: "A descrição de certos tipos liíio e em seus estudos consagrados a certos Estados africanos.
de situação irreais. a saber, a estrutura de sistemas de equilí- A rebelião é vista como processo permanente, que influi de ma-
brios" (E. R. Leach).
neira constante nas relações políticas, ao passo que o ritual, de
f) O tentam e dinamista. - Completa de um lado o prece- um lado. é encarado como meio de exprimir os conflitos e ul-
dente, corrigindo-o em alguns pontos. Tenciona apreender a di- trapassá-los afirmando a unidade da sociedade. O Estado afri-
. cano .tr~diciona~ p~~~s~e por.tad_or <k__uffià-eonte~
( 7) Todos os têrmos tirados das Hnguas vernnculares são transcri- organizada - -rmrahzada - que OOntr.ihui::§tesJ)ãnr.rõiãriuten~
tos segundo um sistema muito simplificado: uma letra representa sempre ção do sistema que-para-a-sua -modificação; ã-instabilidade rela-
um som; u = u, ü = i (o som do u em francês); o til assinala a nasa- tiva e a rebelião controlada seriam, assim, as manifestações nor-
lização: õ = om.
mais de processos políticos próprios dêsse tipo de Estado. Como
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21
se vê, a novação teórica é real; mas não é conduzida até o seu tórica e do conhecimento regido por ela: a história príblica (fixa-
término. Max Gluckman reconhece ~a dinâmica interna como da nos traços gerais e relativa a tôda uma entidade étnica) coe-
constitutiva de tôda sociedade, porém lhe reduz o alcance modi- xiste com a história privada (definida no pormenor, sujeita a
ficador. Ela é tomada em consideração - assim como os efei- deformações, que se refere a grupos particulares e a seus inte-
tos resultantes das "condições externas" - mas inscreve-se numa rêsses espedficos). Um estudo de Ian Cunnison levado a cabo
concepção da história que liga as sociedades dependentes da an- entre os habitantes de Luapula, na África Central, proporciona
tropologia a uma história considerada repetitiva. uma ilustração concreta. Define a situação respectiva das duas
Essa interpretação provoca um debate ao qual não há fugir, modalidades da história africana: no plano da história chamada
e cuja importância se manifesta, aliás, pelo interêsse crescente impessoal, estão associados o tempo e a mudança; no plano da
concedido às análises antropológicas de espírito histórico e pela história chamada pessoal, o tempo é abolido e as modificações
multiplicação dos ensaios teóricos que a avaliam. Após longo havidas por nulas - as posições e interêsses dos grupos são,
período de descrédito, que se explica pelas ambições desmesura- de certo modo, fixados. Essa análise mostra, por outro lado, até
das da escola evolucionista, pelas ingenuidades da escola difu- que ponto os luapulas têm consciência do papel do acontecimen-
sionista e pela prevenção negativa da escola funcionalista, essas to no devir de sua sociedade e adquiriram o sentido da causali-
questões voltam a encontrar lugar de relêvo no campo da pes- dade histórica; para êles, esta última não depende da ordem so-
quisa antropológica. Um pequeno trabalho de E. E. Evans~ brenatural, pois os acontecimentos são principalmente sujeitos à
-Pritchard ( Anthropo!ogy and History, 1961) contribui para a vontade dos homens.
reabilitação da ·história. O debate só encontrará sua conclusão
quando se começar a distinguir sem riscos de confusão: os meios
do conhecimento histórico, as formas assumidas pelo devir his-
1·· A ligação entre história e política é aparente, até no caso das
. sociedades abandonadas às disciplinas antropológicas. A partir do
instante em que as sociedades já não são vistas como sistemas
tórico e as expressões ideológicas que recobrem a história real. imóveis, o parentesco essencial de sua dinâmica social e de sua
Para a antropologia política, a elucidação das relações existentes ' · história já não pode ser desconhecido. Outra razão se impõe
entre êsses três registros é condição necessária. com maior fôrça ainda: os graus da consciência histórica acham-
Num terreno que durante muito tempo se considerou alheio -se em correlação com as for mas e o grau de centralização do
à história - o das sociedades e civilizações negro-africanas - , poder político. Nas sociedades segmentárias, os únicos guar-
os trabalhos recentes começam a demonstrar a falsidade das in- diães do saber que tem por objeto o passado são geralmente
terpretações demasiado estáticas. A realidade da história afri- detentores de poder. Nas sociedades estatais. a consciência his-
cana, manifestada por suas incidências sôbre a vida e a morte tórica parece mais viva e mais extensa . É, aliás, no seio destas
das sociedades políticas e das civilizações negras, já não pode últimas que se apreende, com nitidez, a utilização da história
ser ignorada. Tomando em consideração essas dimensões, re- ideológica para finalidades de estratégia política; J. Vansina re-
velam as pesquisas que a consciência histórica não surgiu por velou-o perfeitamente a propósito do antigo Ruanda. Resta ain-
acidente, em conseqüência das provações da colonização e das da lembrar que o encaminhamento dos países colonizados para
transformações modernas; mostram - desmentindo o ponto de a independência pôs a serviço dos nacionalismos uma verdadeira
vista de J.-P. Sartre - que não foi apenas uma história estran- história militante. Foi, portanto, mercê de uma necessidade que
geira que se "interiorizou". Em seu estudo do Nupe (Nigéria), se tornou manifesta que a teoria dinâmica das sociedades, a an-
S. F. Nadel distingue dois níveis de expressão da história (o tropologia e a sociologia políticas e a história foram levadas a
da história ideológica e o da história objetiva) e verifica que unir seus esforços. E êsse encontro empresta nôvo vigor à pre-
os nupes posuem uma. consciência histórica (chama-lhes histori- visão de Durkheim: "Estamos convencidos. . . de que dia virá
cally minded), que opera sôbre cada um dos dois registros( 8 ). em que o espírito histórico e o espírito sociológico diferirão
Novas pesquisas confirmaram essa dualidade da expressão his- apenas por nuanças".

( 8) Ver A Black Byzantium, Londres, 1942.

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diversos antropólogos - que cercas sociedades primitivas são


desprovidas de organização política?

1. MAXIMALISTAS E MINIMALISTAS

Fundamentada por pesquisas diretas, a informação etnográ-


CAP1TULO II fica revela grande diversidade de formas políticas "primitivas";
quer se trate do domínio americano - desde os bandos de es-
O TERRENO D O POLÍTICO quimós até o Estado imperial dos incas do Peru - , quer se
trate do domínio africano - desde os bandos de pigmeus e ne-
grilhos até os Estados tradicionais, alguns dos quais, como o
A antropologia política viu-se, desde o princípio, confron- Império Mossi e o Reino de Ganda, ainda subsistem. Se essa
tada com os debates tão essenciais à existência da filosofia polí- variedade exige classificações e tipologias, impõe, primeiro que
tica que a colocaram em perigo a tal ponto que R. Polin, entre tudo, a questão prévia da marcação e delimitação do campo po-
outros, mostra a necessidade e a urgência de apresentar-lhe a lítico. Nesse sentido, opõem-se dois campos: de um lado, os
"definição" moderna e a "defesa". Em suas ambições extre- maximalistas; de outro, os minimalistas. _Q__p~im~o, cujas re-
mas, as duas disciplinas colimam atingir a própria essência do ferências sãú antigas e ainda reverenciadas, pocrerja ter por d i-
político sob a diversidade das formas que o tornam manifesto. visa a afirmação de Bonald: não existe sociedade sem govêrno.
Suas relações, não obstante, parecem assinaladas pela ambigüi- Já a Política de Aristóteles encara o homem como um ser "natu-
dade. Os primeiros antropólogos denunciaram o etnocentrismo ralmente" político e identifica o Estado com o agrupamento so-
da maioria das teorias políticas: R. Lowie vê nestas uma refle- cial que, abrangendo todos os outros e ultrapassando-os em ca-
xão principalmente centrada no Estado, que recorre à concep- pacidade, pode existir definitivamente por si mesmo. ~sse modo
ção unilateral do govêrno das sociedades humanas. Nesse senti- de interpretação, em seu resultado extremo, leva a assimilar a
do, a filosofia política identifica-se com a filosofia do Estado e unidade política à sociedade global. Assim, em seu estudo sôbre
não se ajeita com os dados resultantes do estudo das sociedades os fundamentos da antropologia social, escreve S. F. Nadei:
"primitivas". Os antropólogos modernos opõem o caráter cien- "Quando se examina uma sociedade, encontra-se a unidade polí-
tífico de sua pesquisa ao caráter normativo das filosofias políti- tica e, quando se fala na primeira, considera-se de fato esta últi-
cas, a validade de seus resultados às conclusões não provadas dos ma"; de tal sorte que;çis instituições políticas são as que assegu-
teóricos. Se essas críticas não bastaram a dar à antropologia po- ram a direção e manutenção "do mais extenso dos grupos coleti-
lítica fundamentos menos vulneráveis, serviram, todavia, à causa vos, isto é, a sociedade". E. R'. Leach retém essa assimilação e
dos politicólogos radicais, como a de C. N. Parkinson, que quer aceita implkitamente a igualdade estabelecida entre a sociedade
afastar êstes últimos dos "caminhos batidos" e os incita a cons- e a unidade política definida por sua capacidade máxima de
tituir "uma hist6ria mundial do pensamento político". Seu pro- inclusão.
jeto junta-se, de certo modo, à exigência dos especialistas, que Algumas das análises funcionalistas não contradizem essa
pretendem fazer da antropologia política uma verdadeira ciência ampla acepção do político. Quando I. Schapera define a orga-
comparativa do govêrno. ~sse projeto comum, de um conheci- nização política como o "aspecto da organização total que asse-
mento que se deseja objetivo, e de uma desocidentalização dos gura o estabelecimento e a manutenção da cooperação interna
dados, não elimina as considerações iniciais a tôda filosofia polí- e da independência externa", estabelece o parentesco, pela se-
tica. Como identificar e qualificar o político? Como "construí- gunda dessas funções, entre sua noção do político e as precedentes.
-lo" se êle não é uma expressão evidente da realidade social? '. ~ minimalistas mostram-se negativos ou ambíguos no to-
Como determinar-lhe as funções específicas se se admite - com cantéã atribuição de um govêrno a tôdas as sociedades pri miti-
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25
vas. Muitos hostoriadores e sociólogos se encontram entre êles; da distinção rígida estabelecida entre "sociedades de Estado" e
exceto Max Weber, que soube lembrar a anterioridade da polí- "sociedades sem Estado". Mas essa interpretação também é con-
tica cm relação ao Estado, o qual, longe de se confundir com testada, notadamente por D. Easton, em seu artigo consagrado
ela, não é mais que uma de suas manifestações históricas. An- aos problemas da antropologia política: a análise teórica de Smith
tropólogos antigos e modernos situam-se igualmente entre os que efetua-se - no seu entender - em nível tão elevado que só
contestam a universalidade dos fenômenos políticos. Um dos por despregar o exame das suas diferenças, permite que se apre-
"fundadores'', W. C. MacLeod, encara os povos que estuda - endam as semelhanças entre os sistemas políticos. A incerteza,
como os iuroques da Califórnia - desprovidos de organização portanto, continua total.
política e vivendo num estado de anarquia (The Origin and
History of Politics, 1931 ). B. Malinowski admite que os "gru-
pos políticos estão ausentes" entre os vedas e aborígenes austra- 2. CONFRONTAÇÃO DOS IvffiTODOS
lianos e R . Redfield sublinha que as instituições políticas podem
faltar inteiramente no caso das sociedades "mais primitivas". E A ambigüidade encontra-se, ao mesmo tempo, nos fatos, nos
o próprio Radcliffe-Brown, no estudo sôbre os andamaneses (The tentamcs e no vocabulário técnico dos especialistas. À primeira
Andaman I slanders, l 922) , reconhece que êsses ilhéus não dis- vista, o têrmo "político" comporta várias acepções - algumas
põem de nenhum "govêrno organizado". das quais são sugeridas pela língua inglêsa, que distingue polity,
Com efeito, a constatação negativa raro tem valor absoluto; policy e politícs. Não se poderia confundir, sem riscos cientí-
na maior parte. das vêzes, exprime tão-somente a falta de institui- ficos reais, o que diz respeito : a) às formas de organização do
ções políticas comparáveis às 1que regem o Estado moderno. govêrno das sociedades humanas; b) aos tipos de ação que con-
Mercê dêsse etnocentrismo implícito, não satisfaz. Daí as ten- - cÕrrem pãra a direção dos negócios públicos; e) às estratégias
tativas que visam a romper uma dicotomia demasiado simplista, - que resultam da competição dos- ind!yJduos e dos grupos. Dis-
que opõe as sociedades tribais às sociedades de govêrno nltida- - tinções às quais conviria acrescentar){'íma . uarta cate oria: a do '
mente constituído e racional. Tais empreendimentos operam de conhecimento político, que exige se CõõSi" erem os meios de in-1
acôrdo com meios diferentes. Podem caracterizar o campo po- terpretação e justificação aos quais recorte a vida política. ~sses
lítico menos por suas formas de organização do que pelas fun- ·diversos aspectos não são sempre diferençados nem são sempre
ções exercidas; sua extensão, nesse caso, amplia-se. Elas tendem tratados da mesma maneira. O destaque emprestado a um e a
também a marcar um limiar, a partir do qual se manifesta niti- outro dentre êles acarreta definições diferentes do terreno
damente o político. Recorda-o L. Mair: "Alguns. antropólogos ·., político.
'1- cons!d~ran.· am estabelecido que a esfera do político principia a) Determinação pelas /ormas de organização espacial. -
_onde_ ter!l_liI!! a do parentesco." Ou então a dificuldade é enca- 1 As contribuições de Henry Maine e Lewis Morgan deram parti-
rada de frente, e o conhecimento do fato político é procurado a cular importância ao critério territorial. "-Ü campo político se
partir das sociedades em que êle é menos aparente - as socie- apreende em primeiro lugar como sistema de organização que
dades chamadas "segmentárias". Assim, M. G. Smith consagra ·opera no quadro de um território delimitado, de uma unidade
longo artigo( 0 ) às sociedades de linhagens, que examina sob política ou espaço que suporta uma comunidade política. ~sse
um triplo aspecto: como sistema que apresenta características critério aparece na maioria das definições da organização polí-
formais, como modo de relação distinto do parentesco e, sobretu- tica (no sentido lato) e do Estado. \!Max Weber caracteriza a
do, como estrutura de conteúdo político. Induzido a considerar atividade política, fora do recurso legítimo à fôrça, pelo fato de
a vida política como aspecto de tôda vida social e não coroo pro- se desenvolver no interior de um território de fronteiras preci-
duto de unidades ou estruturas específicas, recusa a pertinência sas; ela instaura assim uma nítida separação entre o "interior"
e o "exterior" e orienta de maneira significativa os comporta-
(9) M. G. Smith, On Segmcntnry Lineage Systems, in Joumal o/ mentos. RadcliHe-Brown conserva igualmente o "quadro terri-
the Roy. A11th. Imtitute, vol. 86, 1956. torial" entre os elementos que definem a organização política.

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~----- - ----------- --· ~~----.....

E outros antropólogos fazem o mesmo, entre os quais I. Scha- à elaboração de categorias aplicáveis a tôdas as sociedades e, por-
pera, que mostrou que as sociedades mais simples organizam a tanto, à construção de uma ciência política comparativa.
solidariedade interna a partir do fator de parentesco e do fator
territorial. Isso, aliás, não é senão repetir uma afirmação de Entre as características comuns a todos os sistemas políti-
Lowie quando à compatibilidade de princípio de parentesco e do cos, G. A. Almond sublinha duas delas: a realização das mes-
princípio territorial. mas funções por todos os sistemas políticos; o aspecto multi-
funcional de tôdas as estruturas políticas - nenhuma das quais
A partir de um estudo de caso - o da sociedade segmen-
é totalmente especializada. A comparação pode ser feita se se
tária dos nuer do Sudão - , E . E. Evans-Pritchard acentua a de-
levarem . em conta o grau de especialização e os meios utiliza-
terminação do campo político em referência à organização terri-
dos para exercer as "funções políticas". Quais são estas últi-
torial. P recisa êle: "Entre os grupos locais, há relações de or-
mas? Sua identificação é tanto mais necessária quanto um estu-
dem estrutural que podem ser chamadas políticas. O sistema
do comparativo não poderia limitar-se à confrontação das estru-
territorial dos nuer é sempre a variável dominante, em relação
com os outros sistemas sociais". turas e organizações; concebido nesses têrmos, êle seria tão insu-
ficiente "quanto a anatomia comparada sem a fisiologia com-
O acôrdo é, portanto, amplo. Essa constatação leva F. X. parada". Almond distingue duas grandes categorias de fu n-
Sutton a fo rmular uma questão de método( io). Constituem as
ções: as que dizem respeito à política compreendida lato sensu
representações territoriais o coração dos sistemas políticos? A
- a "socialização" dos indivíduos e a preparação para os "pa-
ser assim, o seu estudo passaria a ser o primeiro passo da an-
péis" políticos, confrontação e o ajustamento dos "interêsses",
tropologia e dá sociologia políticas, quando o recurso a noções
a comunicação dos símbolos e das "mensagens"; e as que dizem
de poder e autoridade permanece contestável na medida em que respeito ao govêrno - a elaboração e aplicação das "regras".
as faz surgir tôda estrutura social.
Tal distribuição das funções permite encontrar os diversos as-
b) Determinação pelas funções. - Fora dessa determinação pectos do campo político, mas em nível de generalidade, que
pelo território sôbre o qual se impõe, e que êle organiza, o po- facilita o cotejo, reduzindo a distância entre sociedades políti-
lítico é freqüentemente definido pelas funções que exerce. Sob cas desenvolvidas e sociedades políticas "primitivas".
sua forma mais geral, estas últimas são vistas como garantias da A interpretação funcional d eixa em suspenso questões fun-
cooperação interna e da defesa da integridade da sociedade con- damentais. Não explica a contento os dinamismos que assegu-
tra as ameaças externas. Contribuem p ara a "sobrevivência físi- ram a coesão da sociedade global, como o que evoca Max G luc-
ca" desta última, consoante a fórmula de Nade!, e permitem a kman ao observar que essa coesão d epende da "divisão da socie-
regulação ou a resolução dos conflitos. As funções de conserva- dade em séries de grupos opostos, que acarreta vinculações que
ção, acrescentam-se em geral as de decisão e direção dos negó- se recruzam", e quando interpreta certas formas de "rebelião"
cios públicos, ainda que, tornando manifesto o govêrno sob seus como contribuições para a manutenção da ordem social. Além
aspectos formais, sejam elas de natureza diferente. disso, permite que subsista uma imprecisão, pois as funções po-
Alguns estudos teóricos recentes levam mais adiante a aná- líticas não são as únicas que preservam a ordem. Para dife-
lise funcionalista. É o caso da introdução de G. A. Almond à rençá-las, Radcliffe-Brown as caracteriza pelo "emprêgo, ou pos-
obra coletiva: The Politics of Developing Areas (1960). O sis- sibilidade do emprêgo, da fôrça física". ~le endossa a teoria
tema político nela se define como executor, em tôda sociedade de Hobbes e a de Max Weber, para quem a fôrça é o meio
independente, "das funções de integração e adaptação" pelo re- da política, a itltima ratio, pois a dominação (Herrschaft) está
curso, ou pela ameaça do recurso, ao emprêgo legítimo da coação no coração do político.
física. Essa interpretação ampla permite que se não limite o
campo político às organizações e estruturas especializadas; visa
'fÉ pela coerção - legltimamente empregada - que as fun-
ções como as estruturas políticas são mais amiúde qualificadas.
Ela é, todavia, mais um conceito de determinação do que um
( 10) F. X. SuTTON, Representation and Narure of Polirical Systems, conceito de definição; não esgota o campo do político, como o
in Compor. Stud. in Soe. and Hisl., vol. II, 1, 1959.
critério da moeda não cobre todo o campo do econômico.
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i
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'ic) Determinação pelas modalidades da ação política. - Vá-
rios estudos recentes, devidos a antropólogos da nova geração, D. Easton formula dupla crítica em relação a êsse tenta-
deslocaram o ponto de aplicação da análise: das funções para me analítico: êle comporta um "postulado" ( ~existên~ia de
os aspectos <la ação política. Depois de haver notado as con- relações hierárquico-administrativas nos sistemas de linhagens)
fusões do vocabulário técnico e as insuficiências da metodolo- eencõore as "diferenças significativas" entre os diversos siste-
gia, M. G. Smith propõe nova formulação dos problemas. Para mas poüticos. Não obstante, situa sua própria tentativa num
êle, a vida política é um aspecto da vida social, um sistema mesmo contexto. A ação pode chamar-se poü ú_ca_'..'. g~~ndo é
de ação, como o demonstra sua definição geral: "Um sistema mais ou menos diretamente ligada à formulação e execução de
político é simplesmente um sistema de ação política". Ainda decisões. coagentes para um dado sistema social". Dêsse ponto
assim cumpre determinar o conteúdo desta última, sem o que a -de vista, as decisões políticas são tomadas no seio de unidades
fórmula se reduz a pura tautologia. A ação social é política sociais muito diversas, como familias, grupos de parentesco, li-
quando procura controlar ou influenciar as decisões relativas aos nhagens, associações, emprêsas, algumas atividades das quais cons-
negócios públicos - a policy no sentido que lhe dão os autores tituem de certo modo o "sistema poütico" próprio. Ess.a inter-
anglo-saxões. O conteúdo dessas decisões varia de acôrdo com os pretação laxista é desprovida de eficácia científica. D . Easton
contextos culturais e as unidades sociais em cujo seio se expres- deve, aliás, limitá-la e reservar ao conjunto das "atividades que
sam, mas os processos de que resultam se situam sempre e ape- implicam a tomada de decisões que interessam a sociedade glo-
nas no quadro da competição entre os indivíduos e entre os bal e suas principais subdivisões", a apelação de sistema político.
grupos. Tôdas as unidades sociais interessadas nessa competi- !le define assim o político por certa forma da ação social, a
ção possuem, por isso, caráter político. que assegura a tomada e execução das decisões e, por um campo
Por outro lado, M. G. Smith opõe a ação política à ação de aplicação, "o sistema social mais inclusivo" - isto é, "a so-
administrativa, malgrado sua estreita associação no govêrno das ciedade como todo". Easton considera em seguida as condições
sociedades humanas. A primeira se situa no nível da decisão requeridas para que possa operar a decisão política: a formula-
e dos "programas" mais ou menos explkitamente formulados, a ção das perguntas e a redução de suas contradições, a existên-
segunda no nível da organização e da execução. Uma se define cia de um costume ou de uma legislação, os meios administra-
pelo poder, a outra pela autoridade. Precisa Smith que a ação tivos de executar as decisões, os organismos de tomada das de-
política é, por natureza, "segmentária", pois se exprime através cisões e os instrumentos de "sustentação" do poder. Partindo
"de grupos e pessoas cm competição". A ação administrativa, dêsses dados iniciais, estrema os sistemas políticos " primitivos"
ao contrário, é, por natureza, "hierárquica'', pois organiza nos di- dos sistemas "modernos". No caso dos primefros as "estrutu-
versos graus, e segundo regras estritas, a direção dos negócios ras de sustentação" são vadáveis, o regime estabelecido é rara-
públicos. O govêrno de uma sociedade implica sempre, e em mente ameaçado pelos conflitos que amiúde, entretanto, ºdão
tôda a parte, essa dupla forma de ação. Por conseguinte, os origem a novas comunidades políticas. !sse tentame acentua,
sistemas políticos só se distinguem na medida em que variam no
grau de diferenciação e no modo de associação das duas ordens
de ação. Sua tipologia não deve, portanto, ser descontínua, a
1 l. dessarte, dados especificamente antropológicos, à custa da rein-
trodução implícita da dicotomia que pretendia eliminar.

exemplo da que opõe as sociedades segmentárias às sociedades d ) Determinação pelas características formais. - Cada uma
centralizadas estatais, senão constituir uma série que apresenta das tentativas precedentes tenta descobrir os aspectos mais ge-
os tipos de combinação da ação política e da ação adminis- ,l rais do campo político, quer se trate das fronteiras que o deli-
trativa( 11 ). 1' mitam no espaço, quer se trate das funções ou modos de ação
que o põem de manifesto. Hoje em dia se reconhece que o mé-
~J~ todo comparativo, que justifica a pesquisa antropológica, impõe
~
( 11) Ver as contribuições teóricas de M. G. Smith, On Segmantary o recurso a unidades e processos abstratos de preferência a uni-
Lineage Systcms, ]ournal o/ the Roy. A nthr. Inst., 86, 1956, e capftu-
los gerais de Government i11 Zn:uau, Londres, 1960. ! dades e processos reais: Tanto Nadei quanto Max Gluckman
estão de acôrdo sôbre essa necessidade.

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. As pesguisas dita~struturaligas.,. que operam em nível ele-


vadoâe abstração e formalização, não se consagram de maneira comando e obediência? Nas sociedades não estatais o poder se
alguma ao sistema das relações políticas, e isso por motivos que encontra em circuitos pré-politicos - criados pelo parentesco,
não são todos acidentais. Com efeito, elas dão das estruturas, pela religião e pela economia. As sociedades de .Estado dispõem
J ,d e circuitos especializados; êste são novos, mas não eliminam
que "fixam" erri detrimento de seu dinamismo, como já o ob-
servou Leacb, uma visão monista; o que explica sua difícil adap- os circuitos preexistentes, que subsistem e lhes servem de mo-
tação ao estudo do nível político em que a competição põe a dêlo formal. Assim, a estrutura de parentesco, ainda que fictí-
nu o pluralismo, em que os equilíbrios permanecem vulneráveis, cia ou esquecida, pode modelar o 'E stado tradicional. Nessa
perspect.iva, uma das tarefas da antropologia política passa a
em que o poder cria verdadeiro campo de fôrças. Se se distin-
guir, como o faz E. R . Leach, o "sistema das idéias" do siste-
L - ser o descobrimento das condições de aparecimento dêsses cir-
ma político "real", chegar-se-á à conclusão de que o método es- cuitos especializados.
truturalista é mais apropriado à apreensão do primeiro do que Dessa maneira se efetuou um deslizamento da ordem das
à análise do segundo. Além disso, releva observar desde logo estruturas para a ordem das gêneses. Explica-se pela passagem, no
que "a estrutura ideal da sociedade", a despeito do fato de "ser curso da argumentação, do campo das relações formais (da or-
ela, ao mesmo tempo, elaborada e rígida", se constitui a partir dem das ordens) para o das relações reais ( de comando e do-
de categorias cuja ambigüidade fundamental permite interpre- minação). De mais a mais, e essa dificuldade parece fundamen-
tar a vida social (e política) como sempre conforme ao modêlo tal, afirmar que a estrutura que se impõe em última instância
formal. Ela induz, por isso, a distorções significativas. é política equivale a enunciar uma petição de princípio.
Uma análise de J. Pouillon, apresentada no quadro de um e) Avaliação. - Êsse inventário dos tentames é também
grupo de estudos consagrado à antropologia política( 12 ), ilus- um dos obstáculos encontrados pelos antropólogos que abor-
tra o tentame estruturalista tal e qual se aplica a esta última. daram o campo político. Revela êle que as delimitações con-
Primeiro que tudo, procura uma definição do político: trata-se tinuam imprecisas ou contestáveis, que cada escola tem sua
de um domínio de fatos ou de um aspecto dos fenômenos so- maneira própria de tratá-las, muito embora utilize amiúde
ciais? Na literatura clássica, a resposta se estriba no recurso às os mesmos instrumentos. É nas sociedades chamadas de "go-
noções de sociedade unificada (unidade política), de Estado vêrno mínimo" e de "govêrno difuso" ( Lucy Mair) que a
(presente ou ausente), de poder e subordinação (fundamentos incerteza se mostra maior; os mesmos parceiros e os mesmos
da ordem social), cuja insuficiência constata J. Pouillon. Obser- grupos podem ter nelas funções múltiplas - entre as quais as
va êle que nem tôda subordinação é necessàriamente política, funções políticas - que variam segundo as situações, como
que nem tôda sociedade e nem todo grupo conhecem apenas numa peça de teatro de um ator só. As finalidades políticas não
uma ordem, porém ordens mais ou menos compatíveis e, final- são atingidas unicamente por intermédio das relações qualifi-
mente, que, em caso de conflito, uma ordem d eve prevalecer cadas de políticas e, ao revés, estas últimas podem satisfazer a
sôbre as outras. Êste último ponto determina, ao ver de J. interêsses de natureza diferente. Num trabalho consagrado aos
Pouillon, a determinação do político: evoca a preponderância tangas da Africa Oriental (The Politics of Kinship, 1964 ), J.
de certa estrutura sôbre as demais numa sociedade unificada. Van Velsen, o verifica em outro nível de generalidade: "As re-
A estrutura privilegiada varia segundo as sociedades, segundo lações sociais são mais instrumentais do que determinantes das
suas características de extensão, número e gênero de vida. atividades coletivas". A partir dessa observação, concebe êle
Daí outra formulação das questões próprias à antropologia um método de análise chamado "situacional"; um nôvo meio
política: quais são os "circuitos" que explicam que certos ho- de estudos que se impõe, no seu entender, pois "as normas, as
mens possam comandar outros, como se estabelece a relação de regras gerais de conduta, são traduzidas na prática (e) são,
em última instância, manipuladas por indivíduos em situações
particulares, a fim de servir a fins particulares". No caso dos
(12) "Grupo de Pesquisas em Antropologia e Sociologia Políticas" tangas, para os quais o poder não está ligado a posições estru-
( Sorbonne e Escola Prática de Altos Estudos).
turais nem a grupos específicos, os comportamentos políticos
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só se manifestam em certas situações. E êstes últimos se ins-
crevem num campo móvel, em que os "alinhamentos se modifi- Singh Uberoi ( Politics o/ the Kula Ring, 1962), refere que os
cam contlnuamente". interêsses individuais se exprin1em em função dos bens .kula e
que os subclãs considerados superiores se acham situados nas al-
As fronteiras do político não devem ser traçadas somente
em relação às diversas ordens de relações sociais mas também deias mais opulentas e participam mais ativamente do ciclo. O
em relação à cultura encarada em sua totalidade ou em alguns exemplo permite medir a extensão em que o fenômeno políti-
de seus elementos. No estudo sôbre a sociedade cachim (.Bir- co pode ser mascarado; deixa entrever que a pesquisa - a
mânia), E. R. Leach destacou uma correlação global entre os qual, todavia, é antiga - da essência do político continua afas-
tada de .s eu término.
dois sistemas: quanto menos aprofundada é a integração cultu-
ral, tanto mais eficaz é a integração política, ao menos por sub-
missão a um só modo de ação política. Semelhantemente, mos- 3. PODER POL1TICO E NECESSIDADE
trou êle o mito e o ritual como "linguagem que fornece os ar-
gumentos justificadores das reivindicações em matéria de direi- As noçõe~ .,de poder, coerção e legitimidade impõem-se ne-
tos, de status e de poder. O mito comporta, com efeito, uma cessàriamente, e de maneira solidária, no curso da pesquisa. Em
parte de ideologia; consoante a expressão de B. Malinowski, é que e por que são fundamentais? De acôrdo com Hume, o
uma "carta social", que garante "a forma existente da socieda- poder é apenas uma ~tegoda subjet~; não é Oin dado, senão
de com seu sistema de distribuição do poder, do privilégio e da uma hipótese, que deve ser verificada. Não constitui uma qua-
propriedade"; possui uma função justificante da qual sabem valer- lidade inerente aos indivíduos, mas aparece sob um aspecto es-
-se os guardiães da tradição e os administradores do aparelho po- sencialmente teleológico - sua capacidade de produzir efeitos, ,.
lítico. Situa-se, portanto, no campo de estudos da antropologia por si mesmo, sôbre as pessoas e as coisas. É, aliás, por essa
política, nas mesmas condições do rito, em algumas de suas eficácia que geralmente se define. M. G. Smith precisa que o
manifestações, quando se trata de rituais que são exclusivamente poder é a capacidade de agir efetivamente sôbre as pessoas e
(caso dos cultos e processos relativos à realeza) ou inclusivamen- as coisas, recorrendo a uma gama de meios que vãi da persua-
te (caso do culto dos antepassados) os instrumentos sagrados do são à coerção. Par.a J. Beattie, o poder é uma categoria parti-
poder. cular das relações sociais; implica a possibilidade de constran-
ger os outros em tal ou tal sistema de relações entre indivíduos
As dificuldades de identificação do político encontram-se
e entre grupos. O que coloca J. Beattie na esteira de Max
também no nível dos fenômenos econômicos, quando se con-
Weber, para quem o poder é a possibilidade dada a um ator,
sidera à parte a relação muito aparente existente entre as rela-
no interior de determinada relação social, de se ver em condi-
ções de produção, que regem a estratificação social, e as rela-
ção de dirigi-la a seu talante.
ções de poder. Certos privilégios econômicos (direito eminente
sôbre a terra, direito sôbre as prestações de trabalho, direito Com feito, o poder - sejam quais forem as formas que
sôbre os mercados etc.) e certas contrapartidas econômicas ( obri- lhe condicionam o emprêgo - é reconhecido em tôda sociedade
gação de generosidade e assistência) estão associados ao exer- humana, ainda que rudimentar. Na medida em que se revela so-
bretudo pelos seus efeitos, convém estudar êstes últimos antes
cício do poder e da autoridade. Há também defrontações eco-
nômicas da mesma natureza que o potlatch hindu, que põe em de examinar-lhe os aspectos e atributos. O poder está sempre
ação o prestígio e a capacidade de dominação dos chefes ou no- a serviço de uma estrutura social que se não pode manter pela
táveis. Ilustrações africanas e melanesianas mostram-no com só intervenção do "costume" ou da lei, por uma espécie de
nitidez. Nova análise dos ciclos de troca kula, estudados por conformidade automática às regras. Lucy Mair recordou-o pro-
Malinowski nas ilhas Trobriand ( Melanésia), revela que a troca veitosamente: "Não existe nenhuma sociedade em que as re-
regulamentada de bens precisamente determinados, e reservados gras sejam automàtícamente respeitadas". Além disso, tôda so-
exclusivamente para êsse uso, é aí, em primeiro lugar, "uma for- ciedade é vulnerável, realiza um equilíbrio aproximativo. Os an-
ma de organização política". O autor dessa reavaliação, J. P. tropólogos que se desvencilharam dos preconceitos fixistas re-
conhecem essa instabilidade potencial, mesmo em meio "arcai-
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i
f co". O poder, portanto, tem por função defender a sociedade Estudando as "representações políticas", F . X. Sutton sublinha
contra as próprias fraquezas, conservá-la em "bom estado", como a importância dos símbolos que asseguram a diferenciação em re-
1 se poderia dizer; e, se necessário, preparar as adaptações que não lação ao exterior, bem como a dos grupos e indivíduos "repre-
lhe contrariem os princípios fundamentais. Enfim, desde o ins- sentativos".
tante em que as relações sociais ultrapassam as relações de pa-
rentesco, sobrevém entre os indivíduos e os grupos uma compe- Certas circunstâncias mostram bem êsse duplo sistema de
tição mais ou menos aparente; cada um dos quais visa a orien- relações, êsse duplo aspecto do poder sempre orientado para
tar as decisões da coletividade no sentido de seus interêsses par- o interior e para o exterior. Em grande número de sociedades
ticulares. O poder (político) surge, por conseguinte, como pro- de tipo clânico, em qt1e o poder é uma espécie de energia di-
duto ~a competição e como meio de contê-la. fusa, a ordem dos fatos políticos se apreende tanto pelo exame
das relações externas quanto pelo estudo das relações internas.
Essas constatações iniciais acarretam uma primeira conclu- Uma ilustração dêsse caso pode encontrar-se entre os nuer do
são. O poder político é inerente a tôda sociedade: provoca o Sudão oriental. Os diferentes níveis de expressão do fato po-
respeito às regras que a fundam; defende-a contra as próprias im- lítico definem-se Jlfimeiro, em sua sociedade, segundo a natu-
perfeições; limita, em seu seio, os efeitos da competição entre os reza das relações externas: oposição controlada e arbitragem
indivíduos e os grupos. São essas as funções conservadoras ge- entre linhagens ligadas pelo sistema genealógico, o parentesco
ralmente consideradas. Reconendo a uma fórmula sintética, de- ou a aliança; oposição e hostilidade regulamentada (que visa
finir-se-á o poder como resultante, para tôda sociedade, da neces- apenas ao gado) no quadro das relações tribais; desconfiança
sidade de lutar contra a entropia que a ameaça de desordem - permanente e guerra em busca de cativos, de gado e das provisões
como ameaça todo sistema. Mas não se deve concluir daí que dos celeiros, em detrimento dos estrangeiros, dos que não são
essa defesa recorre a um meio só - a coerção - e só pode nuer. Em sociedades de outro tipo, a dupla orientação do oo-
ser assegurada por um govêrno bem diferenciado. Todos os der pode exprimir-se por dupla polarização. Um exemplo ( afri-
mecanismos que contribuem para manter ou recriar a coopera- cano, mas existem muitos outros alhures) concretiza essa veri-
ção interna devem também ser implicados e considerados. Os ri- ficacão. O da chefia tradicional dos bamilequês, nos camarões
tuais, as cerimônias ou processos que asseguram a renovação pe- ocidentais, cujas duas ÍÍftUras dominantes são: o chefe ( fo) e
riódica ou ocasional da sociedade são, tanto quanto os sobera- o primeiro dignitário ( kwipu), que desempenha o papel de chefe
nos e sua "burocracia", os instrumentos de uma ação política guerreiro. Aquêle aparece como fator de unidade, guardião da
assim compreendida.
ordem estabelecida conciliador e intercessor junto dos antepas-
Se o poder obedece a determinismos internos, que o reve- sados e das divindades mais atuantes. ~ste se acha mais vol-
lam como necessidade a que tôda sociedade está sujeita, não tado para o exterior, encarregado de vigiar as ameaças de fora
surge menos como resultante de uma necessidade externa. Tôda e assegurar a manutenção do potencial mili tar. O s dois podêres
sociedade global está em relação como o exterior; relaciona-se, encontram-se, de certo modo, em re~ime de competição e re-
diretamente ou à distância, com outras sociedades, que consi- presentam, redprocamente, um papel de contrapêso; constituem
dera como estrangeiras ou hostis, perigosas para a sua seguran- os dois centros do sistema político. Vê-se assim o quanto estão
ça e a sua soberania. Em decorrência dessa ameaça do exterior, estreitamente associados em matéria de qualificação e organiza-
ela se vê obrigada não só a organizar sua defesa e suas alianças, ção do poder os fatôres internos e externos.
mas também a exaltar sua unidade, sua coesão e seus traços dis-
tintivos. Necessário pelas razões de ordem interná ora exa- A análise permaneceria incompleta se não se levasse em
minadas, o poder toma forma e se reforça sob .a pressão dos pe- conta uma terceira condição: o poder - por mais difuso que
rigos externos - reais e/ou supostos. O podei· e os símbolos seja - implica uma dissimetria no seio das relações sociais. Se
que lhe estão ligados dão, assim, à sociedade os meios de afir- estas últimas se instaurassem baseadas numa perfeita reciproci-
mar a coesão interna e exprimir a própria "personalidade", os dade, o equilíbrio social seria automático e o poder estaria vo-
meios de se situar e proteger em relação ao que lhe é estranho. tado ao deperecimento. Mas não é isso o que acontece; e uma
sociedade perfeitamente homogênea, em que as relações recí-
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1
1 procas entre os indivíduos e os grupos eliminassem tôda oposi-
r
ção e tôda cisão, parece ser impossível. Reforça-se o poder com A ambigüidade do poder não é menos evidente. Surge como
a acentuação das desigualdades, que são a condição de sua ma- necessidade inerente a tôda vida em sociedade, exprime a coa-
nifestação pelo mesmo motivo que êle é a condição da manu- ção exercida por esta última sôbre o indivíduo e é tanto mais
tenção delas em bom estado. Assim, o exemplo das sociedades coativa quanto encerra em si uma parcela de sagrado. Sua ca-
"primitivas", q ue se puderam qualificar de igualitárias, revela, pacidade de coerção é, portanto, grande, a ponto de ser consi-
ao mesmo tempo, a generalidade do fato e sua forma mais ate- derada perigosa pelos que devem sofrê-la. Certas sociedades,
nuada. De acôrdo com o sexo, a idade, a situação genealógica, por conseguinte, dispõem de um poder que é, a todos os mo-
a especialização e as qualidades pessoais, ali se estabelecem as mentos, descarregado de suas ameaças e de seus riscos. Quan-
preeminências e subordinações. Mas é nas sociedades em que do expõe a "filosofia da chefia índia'', P. Clastres mostra êssc
são patentes as desigualdades e as hierarquias - que evocam 1 ) descarregamento pela análise da organização política de várias
1 sociedades ameríndias. Três proposições resumem a teoria im-
classes rudimentares ( protoclasses) ou castas - que se apreende,
com tôda a clareza, a relação entre o poder e as dissimetrias que p lícita destas últimas!' o podel', em sua essência, é coerção; sua
afetam as relações sociais. transcendência constitui para o grupõ- um -risco mortal;c:Ccllefé
O poder político acaba de ser examinado, como necessida- tem, portanto, a obrigação de tornar tnãnifesta, a cada ins_tante, _
de, em relação à ordem interna que mantém e às relações ex- a inocência de sua função. -- -
ternas que ~ontrola; acaba de ser examinado também em sua O poder é necessário, porém conservado dentro de limites
relação com uma das características de tôdas as estruturas so- precisos. Requer o consentimento e certa reciprocidade. Essa
ciais: a dissimetria mais ou menos acentuada, a potencial variá- contrapartida é um conjunto de responsabilidades e obrigações
vel de desigualdade. Convém examinar-lhe agora os dois aspec- muito diversas segundo os regimes em aprêço: paz e arbitragem,
tos principais: a sacralidade e a ambigüidade. defesa do costume e da lei, generosidade, prosperidade do país
Em nenhuma sociedade o poder poiítico é totalmente dessa- e dos homens, acôrdo dos antepassados e dos deuses etc. De
cralizado; e quando se trata das chamadas sociedades tradicio- um modo mais geral, pode-se dizer que o poder deve justificar-
nais, a relação com o sagrado impõe-se com uma espécie de evi- -se mantendo um estado de segurança e prosperidade coletivas.
dência. Discreto ou aparente, o sagrado está sempre presente É o preço que deve ser pago pelos seus detentores; um preço
no interior do poder. Por intermédio dêste último, a sociedade nunca integrnlmente pago.
é apreendida como unidade - a organização política introduz
Quanto ao consentimento, êste supõe, ao mesmo tempo,
o verdadeiro princípio totalizador - , ordem e permanência. Ela
um princípio: a legitimidade, e mecanismos: os que refreiam os
é apreendida numa forma idealizada, como garantia de seguran-
ça coletiva e puro reflexo do costume ou da lei; posta à prova abusos de poder. Max Weber faz da legitimidade uma das ca-
sob o aspecto de valor supremo e coativo, torna-se, assim, a ma- tegorias fundamentais de sua sociologia política. Observa êle
terialização de uma transcendência que se impõe aos indivíduos que nenhuma dominação se satisfaz corri a obediência pura, mas
e aos grupos partícularEJ Poder-se-ia retomar, a propósito do busca transformar a disciplina cm adesão à verdade que ela re-
ooder, a argumentacão utilizada por Durkheim no estudo das presenta - ou pretende representar. Estabelece uma tipologia
formas elementares da vida religiosa. A relacão entre o Poder que distingue os tipos (ideais) de dominação legí tim11 : . a domi-
e a sociedade não difere essencialmente da relação estabelecida, _nação legal, de caráter racional; a dominação tradicional, que
no seu entender, entre o "totem" australiano e o clã. E essa tem por base a crença no caráter sagrado das tradições e na
relação é evidentemente carregada de sacralidade. A literatura legitimidade do poder conservado de acôrdo com o costume;
antrooológica permanece. em _grande parte e. Por vêzes, à sua a gominação carismfil~ de caráter emocional, que supõe a con-
revelia, uma espécie de ilustração dêsse fato( 13 ). fiança total depositada num homem excepcional, em razão de
sua santidade, de seu heroísmo, ou de sua exemplaridade. Tôda
a sociologia política de Weber é um desenvolvimento conduzido
(13) Ver o capítulo V: "Religião e poder".
a partir dêsses três modos de legitimação da relação de comando
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39

L
e obediência ( 14 ) • Nela se inspirou o tenta me teórico de vanos detentores, está sempre, embora em grau variável, sujeito à
antropólogos. J. Beattie diferencia o poder - no sentido ab- contestação. É, ao mesmo tempo, aceito (como garantia da or-
soluto do têrmo - da autoridade política. Se esta última im- dem e da segurança), reverenciado (em razão de suas implica-
plica o "reconhecimento público" e a "aceitação", ambos su- ções sagradas) e contestado (porque justifica e mantém a desi-
põem a legitimidade, que deve ser considerada como o critério gualdade). Todos os regimes políticos põem de manifesto essa
distintivo da autoridade. Daí uma definição que acentua os dois ambigüidade, quer se conformem à tradição, quer se conformem
aspectos: "A autoridade pode ser definida como o direito re- à racionalidade burocrática. Nas sociedades africanas sem cen-
conhecido de uma pessoa ou de um grupo, por consentimento tralização do poder - por exemplo, as dos fangues e dos po-
" da sociedade, de tomar decisões relativas aos demais membros vos vizinhos do G abão e do Congo - mecanismos corretivos,
~ 'ldl' da sociedade"( i :s) .
:lt de ação incidiosa, ameaçam de morte quem quer que abuse da
. ~ Num estudo consagrado aos tjfopias da Polinésia, R. Firth autoridade ou da riqueza. Em certos Estados tradicionais da
:?"considera com grande atenção o problemã da " aquiescência" e África negra, as tensões resultantes da desigualdade das condi-
l?
y
das incidências da "opinião pública" ( Essays on Social Organi- ções são liberadas em circunstâncias determinadas - e afigura-
zation and V alues, 1964). Lembra êle que o poder não pode -se então que as relações sociais se acham, repentina e proviso-
ser completamente autocrático. ~ste procura e recebe uma parte riamente, invertidas. Mas a inversão é dominada: permanece or-
variável de adesão dos governados : seja por apatia rotineira, seja ganizada no quadro de rituais apropriados, que podem, sob êsse
por incapacidade de conceber uma alternativa, seja por aceitação aspecto, denominar-se rituais de rebelião, segundo a expressão de
de alguns valores comuns reputados incondicionais. Mas, de Max Gluckman. A astúcia suprema do poder consiste em con-
·\. \ qualquer maneira, os governados impõem limites ao poder; ten- testar-se ritualmente para melhor consolidar-se efetivamente.
~~~\ taro mantê-lo entre certos limites, recorrendo a "instituições for-
~~ mais" ( conselhos ou grupos de anciãos designados pelos clãs)
\;. e aos "mecanismos informais" (boatos ou acontecimentos que 4. RELAÇOES E FORMAS POL1TICAS
~ dão a conhecer a opinião pública). Assim voltamos a encontrar
a atrhigüidade já evocada: o poder tende a desenvolver-se como Em sua obra intitulada T ribes without Rulers ( 1958), J.
(' relação de dominação, mas o consentimento que o torna legítimo Middleton e D. Tait se propõem definir as " relações políticas"
- ~ende a reduzir-lhe o domínio. Tais movimentos contrários ex- independentemente das formas de govêrno que as organizam.
licam por que "nenhum sistema político é equilibrado". R. Qualificam-nas pelas funções exercidas: são as relações "pelas
· th afirma com vigor que nêles se encontra, ao mesmo tempo, quais pessoas e grupos exercem o poder, ou a autoridade, para
"a luta e a aliança, o respeito ao sistema existente e o desejo a manutenção da ordem social no interior de um quadro terri-
de modificá-lo, a sujeição à lei moral e a tentativa de contorná- torial". Distinguem-nas, segundo sua orientação, interna ou ex-
-la ou reinterpretá-la segundo as vantagens particulares". Ao con- terna; umas intervêm no seio da unidade política, cuja coesão,
trário da interpretação hegeliana, a política não realiza neces-
sàriamente a ultrapassagem das particularidades e dos interêsses
particulares.
' cuja manutenção em bom estado ou cuja adaptação asseguram;
as outras operam entre unidades políticas distintas e são essen-
cialmente de tipo antagonista. Não há aí nada de muito nôvo.
~A ambigüidade é, pois, atributo fu ndamental do poder, que, Já Radcliffe-Brown identificava as relações políticas pela regu-
ná medida em que se apóia numa desigualdade social mais ou lação da fôrça, que elas instauram, e mostrava que podem ope-
menos acentuada, na medida em que assegura privilégios aos seus rar tanto nas relações entre os grupos quanto no seio dos grupos
Partindo de sua própria experiência de pesquisa - as so-
( 14) Ver a apresentação que dela faz J. FREUND em sua Sociologie ciedades cen tralizadas da África oriental - e recorrendo a um
de Max Weber (1966), publicada nesta mesma coleção. método analítico, J. Maquet distingue três ordens de relações
( 15) ]. BEATTIE, Checks on the Abuse of Política! Power in some que podem encontrar-se associadas no processo político, e que
African Statcs, in Socio/ogus, 9, 2, 1959.
possuem uma característica formal comum, cuja importância já
40
41
,,.._.
- - - - -· -~i. · - - - - - .......·-- ·--·· ...,_,._

foi destacada: são nitidamente dissimétricas. chamadas políticas esbarram de pronto nos seus limites. Max
Maquet constr6i
três modelos relacionais constituídos de três
elementos - os Weber parte de uma relação fundamental, a de comand~ e obe-
atôres, os papéis e os conteúdos específicos. Apresenta-os sob
a forma seguinte: diência, mas constr6i sua sociologia política procurando as dife-
i rent~s maneiras possíveis de concebê-la e organizá-la. Para não
deixar a essa relação um conteúdo pobre, inscreve-a num campo
J mais vasto - o das diversas formas de organização e justificação
el.e~en5ar 1Modêlo
Modêlo
elementar Modêlo elementar da "dominação legítima". Os antrop6logos modernos tropeç~­
da relação da estra~tficaçao 1 da relação feudal ram n9s mesmos obstáculos. Estudaram sistemas e organiza-
política social
1 ções políticas, aspectos, modos de ação e processos qualificados
Superior, igual ~1
de políticos; não puderam determinar de maneira rigorosa, e
Atôre~ Governantes
e Governados
11
inferior, de acôrdo
com a posição na 1
Senhor e
dependente
com utilidade as relações políticas. M. G . Smith lembra que
essa noção é de caráter mais substantivo que formal. A "subs-
ordem dos estratos
- -----1 tância" que as diferencia das outras categorias de relações so-
ciais s6 pode ser descoberta por uma elucidação da natureza do
Papel Comandar 1Sa?erconduzir-se de 1 fenômeno político. Por isso mesmo, a filosofia política não
/ b d
coeecer acordo tt
com o seu Proteção e pode ser dispensada pela antropologia política tão cômodamente
. S a ZIS serviços
quanto o deram a entender E. Evans-Pritchard e M. Fortes na
1 1 1 introdução a African Political Systems.
Conteúdo Coerção física
específico legitimamente Acôrdo Passando do nível analítico para o nível sintético - o das
Posição
utilizada Interpessoal formas da organização política - , as questões de método e ter-
minologia não são menos difíceis, ainda que se considere ultra-
passado o debate que opõe as sociedades "tribais" às sociedades
J. Maquet precisa que êsses modelos têm valor operat6rio, "políticas". Predominam efetivamente as interpretações latas,
que visam sobretudo à classificação dos fatos e a um estudo e I. Schapera dá uma definição aceita ao precisar que "o go-
comparativo que s6 pode realizar-se em certo nível de abstração. vêrno, em seus aspectos formais, implica sempre a direção e o
Assinala, com razão, que funções e relações não estão ligadas contrôlc dos neg6cios públicos por uma ou várias pessoas, a
de maneira simples e unívoca; não se poderia, portanto, partir que cabe regularmente essa função". Tôdas as sociedades se acham
das primeiras para diferençar e comparar rigorosamente as se- assim interessadas, mas impõe-se a distinção das diferentes for-
gundas. Mostra que os Estados tradicionais examinados - os mas de govêrno. A procura dos critérios de classificação ressus-
da região inter1acustre da África ·oriental - se diferenciam cita as dificuldades encontradas na determinação do campo po-
pelo tratamento impôsto a cada um dêsses modelos e pelas com- lítico.
binações 16variáveis que realizam a partir das três relações funda- O grau de diferenciação e concentração do poder continua
mentais( ). A apreensão dos problemas permanece, contudo, a ser referência amiúde utilizada. Orienta notadamente a distin-
formal.
ção feita por Lucy Mair de três tipos de govêrno. No nível in-
As dificuldades inerentes ao tentame analítico já foram ven- ferior, o govêrno minillJ.O, assim qualificado de acôrdo com três
tiladas; êle separa elementos que s6 têm significação em virtude sentidos : estreiteza da comunidade política, número restrito dos
de sua situação num conjunto real ou logicamente constituído. detentores de poder e autoridade, fraqueza do poder e da auto-
Os ensaios que tentam isolar e definir uma ordem das relações ridade. Em posição vizinha situa-se o govêrno difuso, que de-
pende, em princípio, do conjunto da população adulta masculi-
na, mas no qual certas instituições (como as classes de idade)
( 16) Relatórios inéditos do "Grupo de Pesquisas em Antropologia e certos detentores de cargos (que dispõem de autoridade cir-
e Sociologia Políticas" ( 1965).
cunstancial) asseguram, de direito e de fato, a gestão dos neg6-
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~f ...................................--------

cios públicos. A forma mais elaborada, que se escora num po- nação legal é ilustrado de maneira mais adequada pela burocracia
der nitidamente diferenciado e mais centralizado, é a do_govérno e antropólogos como Lloyd Fallers (em Bantu Bureaucracy,
_estatal. Essa tipologia de três têrmos ultrapassa a divisão con- 1956) interpretaram as evoluções modernas das estrutui:as po-
<resfaãa (e hoje rejeitada) em sociedades "sem Estado" e socie- líticas tradicionais, que, no seu entender, asseguram a passagem
dades "de Estado"; mas, ao estabelecer apenas categorias gros- de um sistema de autoridade dito " patrimonial" para um siste-
seiras, requer a determinação de subtipos, multiplicáveis em ex- ma burocrático. O tipo de dominação tradicional, em que as
cesso, e se revela sem utilidade científica. Tampouco se presta, relações pessoais servem exclusivamente de apoio à autoridade
como as tipologias anteriores, a uma classificação simples das política, assume formas diversas. As da gerontocracia (que liga
sociedades políticas concretas; porque estas últimas - como o o poder ·à ancianidade), do patriarca/ismo (que mantém o poder
demonstrou Leach a partir de seu estudo dos cachins - podem no interior de determinada familia), do patrimonialismo e do
oscilar entre dois tipos polares e apresentar uma forma híbrida; sultanismo. O aspecto mais disseminado é o que se qualifica
porque o mesmo conjunto étnico - o dos ibos da Nigéria meri- de patrimonial. Sua norma é o costume considerado como in-
dional, por exemplo - recorre, às vêzes a modalidades variadas violável, sua forma de autoridade é essencialmente pessoal, sua
de organização política. De mais a mais, nenhuma tipologia organização ignora a administração no sentido moderno do têr-
explica satisfatoriamente as transições ao estabelecer tipos des- mo. Recorre mais a dignitários do que a funcionários, desconhe-
contínuos. Lucy Mair o reconhece implicitamente quando consi- ce a separação entre o domínio privado e o domínio oficial. É
dera "a expansão do govêrno" antes de estudar os Estados tra- a forma de dominação tradicional que a literatura antropológica
dicionais bem éonstituídos. Já R. Lowie, apresentando "alguns ilustre com mais freqüência. Quanto à dominação carismática,
aspectos da organização política entre os aborígenes americanos", esta constitui um tipo excepcional. É uma pctência revolucio-
e demonstrando a necesidade de uma análise genética, lembrara nária, um meio de subversão que opera contra regimes de caráter
que o Estado "não pode expandir-se de repente". tradicional ou legal. Os movimentos messiânicos com prolon-
Recenseando as dificuldade próprias de tôda pesquisa tipo- gamentos políticos, que proliferaram no curso dos últimos de-
lógica, D. Easton sugere que se estabeleça um "continuum de cênios na África negra e na Melanésia, ilustram êsse poder dis-
tipos" que tenha antes um caráter descritivo do que um con- solvente, que ataca a ordem tradicional e dá lugar ao fervor
teúdo dedutivo. Faz a prova disso utilizando o critério da di- utopico.
ferenciação dos papéis políticos: diferenciação em relação aos de- Essa tipologia, "ideal" e não descritiva, parece igualmente
mais papéis sociais, entre êsses próprios papéis, e com referên- vulnerável. Deve associar, em combinações variáveis, critérios
cia às funções específicas ou difusas que exercem. Tenta assim diferentes: natureza do poder, modo de detenção do poder, ci-
construir "uma escala de diferenciação de três dimensões". Mas são entre relações privadas e relações oficiais, intensidade do di-
o progresso obtido ao restabelecer uma continuidade arrisca-se namismo potencial etc. Não pode caracterizar os tipos políticos
a perder-se no plano das significações. Easton o reconhece, pre- de maneira unívoca. Por outro lado, estabelece oposições -
cisando que "essa classificação só terá sentido se se encontrarem entre o racional e o tradicional, entre estas categorias e a do
variações de outras características importantes associadas a cada carisma - que contradizem os dados de fato e alteram a natu-
ponto do contínuum" ( 17 ). O que equivale a afirmar que ne- reza do político. Os três elementos estão sempre presentes,
nhuma tipologia tem significação por si mesma. ainda que desigualmente acentuados, generalidade que os resul-
Max Weber estabeleceu tipos ideais, que serviram de refe- tados obtidos no campo da antropologia política confirmam.
rência a alguns pesquisadores que exploravam o campo da an- Se proporciona os meios de empreender um estudo compa-
tropologia política. O critério de classificação já foi estudado: rativo ampliado, esta última não resolveu, por isso, o problema
é a forma assumida pela "dominação legítima'', que não depen- da classificação das formas políticas reconhecidas em sua diver-
de necessàriamente da existência do Estado. O tipo de domi-
sidade histórica e geográfica. Mede-se tal insuficiênciq desde o
instante em que se examinam as sociedades de poder centrali-
(17) Ve.r Poli ti cal An thropology, op. cít. zado. A fronteira entre os sistemas políticos de chefia e os sis-
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temas monárquicos ainda não é rigorosa. O tamanho da uni-. ganização política dos achantis de Gana. Num estudo compara-
dade política não basta a determinar-lhe o traçado emborn tenha tivo dos reinos africanos, J. Vansina propõe uma tipologia, apre-
incidências diretas sôbre a organização do govêrno: existem che- sentada como "classificação de modelos estruturais". O ensaio
fias de grandes dimensões (nos Camarões, entre os bamilequês, revela claramente os problemas de método, não resolvidos, que
por exemplo). A coincidência do espaço político e do espaço impõe um cometimento dessa natureza. Recorre êle a cinco
cultural - isto é, a existência de uma dupla estrutura unitária tipos que se caracterizam, de fato, por critérios heterogêneos:
- também não constitui critério distintivo; ela é tão excepcio- despotismo, parentesco clânico dos soberanos e dos chefes subal-
nal nas sociedades de chefias quanto nos reinos tradicionais. A ternos, incorporação e subordinação dos "antigos" podêres, aris-
mesma incerteza volta a encontrar-se quando se observa a com- tocracia que tem o monopólio do poder e, por fim, organização
plexidade do aparelho político-administrativo: o das chefias ba- federativa( 1 º). J. Vansina não se pôde ater simplesmente aos
milequês não é menos complexo que aquêle em que se apóiam dois critérios "íntercruzados" que a princípio escolheu: o grau
os soberanos da Africa central e oriental. Os elementos de di- de centralização e a regra de acessão ao poder e à autoridade
ferenciação são de outra natureza . O chefe e o rei não diferem políticos. Nem poderia ser de outra maneira, em virtude da
apenas pela extensão e intensidade do poder que exercem, senão diversidade das formas assumidas pelo Estado tradicional e dos
também pela natureza dêsse poder. Sugere-o R. Lowie ao ana- aspectos múltiplos - porém de interêsse cientifico desigual -
lisar a organização política dos ameríndios. ~le opõe o "chek em função dos quais pode efetuar-se sua classificação. Segundo
~tu!~" ao '~hefe forte" cuja ilustração é o imperador inca. a interpretação dada ao fenômeno político, um ou outro preva-
p tmeiro ·não detém plenamente o uso da fôrça (sua função lecerá: o grau de concentração e o modo de organização do po-
é amiúde distinta da do chefe de guerra), não legifera (mas vela der, a natureza da estratificação social que rege a distribuição
pela manutenção do costume) e não tem o monopólio do poder dos governantes e governados, o tipo de relação com o sagrado,
executivo. Caracteriza-se pelo dom oratório (o poder de per- em que se funda a legitimidade de todo govêrno " primitivo" .
suasão), o talento pacificador e a generosidade. O segundo tipo Essas três ordens de tipologia são possíveis mas não· têm o
d e chefe, em compensação, dispõe da autoridade coercitiva e da mesmo valor operatório.
soberania total; é soberano na plenitude do têrmo. Por outro Como se vê, a diversidade das organizações políticas é mais
lado, o critério da estratificação social é pertinente quanto à reconhecida do que conhecida e dominada cientlficamente. Con-
distinção das socied ades de chefia e das sociedades monárqui- vém procurar as causas da deficiência. A mais aparente é o
cas. No seio destas últimas, os sistemas de ordens, de castas (ou atraso dos trabalhos de antropologia política - tanto no nível
pseudocastas) e de classes (ou pseudoclasses) constituem a estru- do inquérito descritivo quanto no da elaboração teórica. Mas
tura principal da sociedade e a desigualdade nelas rege tôdas as não é a mais grave. Se nos abalançarmos à definição e à classi-
relações sociais predominantes. A tipologia política deve, por ficação dos tipos de sistemas políticos, construiremos modelos
conseguinte, recorrer a meios de diferenciação que não depen- que servirão para mostrar no que se equivalem ou diferem as
dem unicamente da ordem política.
sociedades, em sua organização do poder, e que permitem se es- ·- )
Dificuldades semelhantes aparecem no momento de se clas- tudem as transformações explicando a passagem de um tipo para
sificarem os Estados nltidamente constituídos. A existência de outro. Os reveses sofridos nesse campo induzem à formula-
um ou vários centros de poder define as duas categorias comu- ção de uma pergunta capital: d isp§ell!..-ªJnJr9_p_o logia e a socio-
mente utilizadas: "monarquias centralizadas", de uma parte; "mo- logia de modelos adaptados ao estudo das formas políticas? '-
narquias federativas", de outra( 18 ). Essa divisão rudimentar '"A- resposta, pÔr ora, é negativa. Enquanto o conhecimen-
possui limitada utilidade, ainda que fôsse apenas em razão d a to das relações e processos políticos não tiver progredido atra-
raridade do segundo tipo - freqüentemente ilustrado pela or- vés de um exame sistemático de suas múltiplas manifestações,

( 18) S. N. EtsENSTADT, Primitive Political Systems, in A merican


A11thropologist, LXI, 1959.
(19) J. VANSJNA, A Comparison of African Kingdoms, in A/rica, 32,
4, 1962.
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4
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as dificuldades continuarão totais. A pr6pria natureza dos fenô-


menos políticos constituirá por muito tempo o obstáculo prin-
cipa~lse admitir que êsses últimos se caracterizam pelo as-
pect sintético~-onfundem-se com a organização da sociedade
glob !~eh,, inamismo' (fundam-se na desigualdade e na com-
petição). Para erem adequados, os modelos necessários à sua
classificação devem poder exprimir relações entre elementos he-
terogêneos e explicar o dinamismo interno dos sistemas. É em
razão dessa dupla exigência que os modelos de classificação, ela- CAP1TULO III
borados pelos antropólogos estruturalistas, não se prestam ao
estudo do campo político; não respeitam nem uma nem a outra PARE ~J'ESC O E PODER
das duas condições. Não podendo reduzir-se a um "código"
(como a linguagem ou o mito) nem a uma "rêde" (como o pa-
rentesco ou a troca), o político continua a ser um sistema total Para inúmeros autores, a ordem do parentesco exclui teori-
que ainda não recebeu tratamento formal satisfat6rio. Tal veri- camente a do político. Já, segundo a fórmula de Morgan refe-
ficação exige que se refreiem as ambições da antropologia polí- rida mais acima, uma rege o estado de societas, a olltra o de
tica em matéria de tipologia. Impende, por enquanto, que nos civitas, do mesmo modo que, consoante a terminologia antropo-
limitemos ao estudo comparativo de sistemas aparentados, que lógica que está na moda, uma evoca as estruturas de reciproci-
apresentem, de certo modo, variações sôbre o mesmo "tema" e dade, a outra as estruturas de subordinação. Nos dois casos,
pertençam à mesma região cultural. Essa busca proporcionaria a dicotomia é manifesta. Surge igualmente na teoria marxista,
a possibilidade de versar os problemas de formalização - expe- em que a sociedade de classes e o Estado resultam da "dissolu-
rimentando uma microtipologia - e aprofundar o conhecimen- ção das comunidades primitivas", onde a emergência do político
to do político, a partir de uma família de formas políticas liga- intervém com o apagamento "dos laços pessoais de sangue".
das umas às outras pela cultura e pela hist6ria. Volta a encontrar-se, em formas originais, na tradição filosófica;
notadamente na fenomenologia de Hegel, que opõe paralela-
mente o universal ao particular, o Estado à família, o plano
masculino (que é o do político e, por conseguinte, superior, ao
feminino.
Longe de conceber o parentesco e o político como têrmos
que se excluem mutuamente ou que se opõem um ao outro, a
antropologia política revelou os laços complexos existentes entre
os dois sistemas e fundou a análise e a elaboração teórica de
suas relações por ocasião das pesquisas de campo. As socieda-
des chamadas de linhagens ou segmentárias, acéfalas ou não es-
tatais, em que as funções e instituições políticas são pouco di-
ferenciadas, forneceram o primeiro campo de provas. Foi, com
efeito, a propósito delas que se abriu a fronteira traçada entre
o parentesco e o político. Assim, o estudo da organização da
linhagem e de sua projeção no espaço tornou aparente a exis-
tência de relações políticas escoradas na utilização do princípio
de descendência fora do quadro estreito do parentesco. Seme-
lhantemente, sempre nessas sociedades, o parentesco fornece ao
político um modêlo e uma linguagem; é o que mostra Van Vel-
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