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DOS CRIMES CONTRA A FÉ PUBLICA

A fé pública constitui-se em realidade e interesse que a lei deve proteger, pois sem ela
seria impossível a vida em sociedade. De fato, o homem necessita acreditar na veracidade
ou na genuinidade de certos atos, documentos, sinais e símbolos empregados na
multiplicidade das relações diárias, nas quais intervém.
Não se trata de bem particular ou privado. Ainda que, no caso, exista ofensa real ou
perigo de lesão ao interesse de uma pessoa isoladamente considerada, é ofendida a fé
pública, ou seja, a crença ou convicção geral na autenticidade e valor dos documentos e
atos prescritos para as relações coletivas. Esta é a razão da tutela penal do Estado, porque
sem a fé pública a ordem jurídica correria sérios riscos.
Para ilustrar esse raciocínio, convém imaginar a confusão generalizada que reinaria no
âmbito social se, em toda e qualquer relação jurídica, uma pessoa tivesse que provar sua
verdadeira identidade, é dizer, demonstrar ser ele quem realmente afirma ser. Entretanto, a
partir do momento em que a identidade civil de alguém consta de um documento, formal e
materialmente válido (exemplos: certidão de nascimento, carteira nacional de habilitação,
carteira funcional etc.), seu titular está livre de provar sua qualificação, pois o documento
se reveste de fé pública, ou seja, a sociedade acredita em sua legitimidade.
Quem atenta contra a certeza das relações jurídicas, substituindo o não verdadeiro ao verdadeiro, ataca em
seu escopo fundamental a fé inerente à sociedade humana. A violação da fé pública caracteriza o crime
de falso (delicta falsum). É ele que ofende o bem jurídico protegido pela lei penal, pois é o contrário da certeza
ou verdade jurídica, exigida pela ordem social.1 Em síntese, o falso é a contraposição ao real, ao verdadeiro, ao
legítimo.
De fato, ao punir os crimes contra a fé pública o legislador protege os sinais
representativos de valor e os documentos não pela confiança que despertam, mas porque,
com a lesão de sua integridade, são ameaçados os interesses ou bens jurídicos de várias
naturezas:

(a)os interesses patrimoniais dos indivíduos;


(b)o interesse público na segurança das relações jurídicas;
(c)o privilégio monetário do Estado; e
(d)os meios de prova.

CRIMES DE FALSO: REQUISITOS


Os crimes de falso reclamam três requisitos, a saber: (a) dolo; (b) imitação da verdade;
e (c) dano potencial. Vejamos cada um deles.

Dolo
Os crimes contra a fé pública são dolosos. A lei não abriu espaço para figuras culposas,
ou seja, não existe nenhum crime de falso punido a título de culpa.
O dolo do falsum é a consciência e a vontade da imitação da verdade inerente a
determinados objetos, sinais ou formas, de modo a criar a possibilidade de vilipendiar

1
relações jurídicas, com o consequente rompimento da confiança pública nesses objetos,
sinais ou formas.
Se não bastasse, alguns crimes de falso exigem também um especial fim de agir
(elemento subjetivo específico), a exemplo do que se verifica na falsidade ideológica (CP,
art. 299), na qual o sujeito omite, em documento público ou particular, declaração que dele
devia constar, ou nele insere ou faz inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser
escrita, “com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato
juridicamente relevante”.

Imitação da verdade
A imitação da verdade (ou imitação do verdadeiro) pode ser realizada por duas formas
distintas:

a)alteração da verdade ou immutatio veri: é a mudança do verdadeiro, ou seja, altera-se o


conteúdo do documento ou moeda verdadeiros; e
b)imitação da verdade propriamente dita ou imitatio veritatis: o sujeito cria documento ou moeda falsos,
formando-os ou fabricando-os.2

A concretização da imitação da verdade (em sentido amplo) é suscetível de ser


produzida pelos seguintes meios:

a)contrafação: também conhecida como fabricação, consiste em criar materialmente uma


coisa semelhante à verdadeira;
b)alteração: é a transformação da coisa verdadeira, de forma a representar algo diverso da
situação original;
c)supressão: equivale a destruir ou ocultar a coisa ou objeto, para que a verdade não
apareça;
d)simulação: é a falsidade ideológica, relativa ao conteúdo do documento, pois seu
aspecto exterior ou formal permanece autêntico; e
e)uso: é a utilização da coisa falsificada.

Dano potencial

O prejuízo atinente ao crime de falso não precisa ser efetivo. Basta a potencialidade da
sua ocorrência. Se não bastasse, o dano não há de ser necessariamente de índole
patrimonial, pois do contrário o legislador teria inserido tais crimes no título
correspondente aos delitos contra o patrimônio.
Para reconhecimento do dano potencial, a imitação da verdade deve revestir-se
de idoneidade, ou seja, é fundamental sua capacidade para iludir ou enganar um número
indeterminado de pessoas de inteligência e prudência medianas.
Somente há dano potencial quando o documento falsificado é capaz de iludir ou
enganar as pessoas em geral. Destarte, a falsificação grosseira, passível de
2
reconhecimento ictu oculi (a olho nu), não caracteriza o falso, pois não representa perigo à
fé pública. Com efeito, o abalo da fé pública está condicionado aos malefícios da
falsificação.
A imitação da verdade destituída de capacidade lesiva não afeta o sentimento coletivo
de confiança tutelado pela lei penal. Mas, se, nada obstante sua natureza precária, a
falsidade revelar-se capaz de enganar uma pessoa na situação concreta, subsistirá o crime
de estelionato, nos moldes do art. 171, caput, do Código Penal.
De igual modo, não há falar em dano potencial, e, por corolário, em crime contra a fé
pública, quando a imitação da verdade carece de eficácia jurídica, constituindo um
documento manifestamente nulo, a exemplo do que se verifica quando se falsifica a
assinatura de alguém que se obriga a ceder a outrem todos os terrenos situados na Lua e
registrados em seu nome. Nos precisos ensinamentos de Nélson Hungria:
O falsum integra-se com a dolosa imitatio veri, mas, entenda-se: imitatio potencialmente capaz de enganar, para o efeito de conculcar uma relação
jurídica e, portanto, de acarretar o praejudicium alterius. Se não se apresenta essa potencialidade, ou porque a imitação não convence ao homo
medius ou porque cria coisa inócua ou nula (por motivo outro que não a própria falsidade), não se dá a conturbação da fé pública e não há falar-se
em crimen falsi. (…) O falsum como um fim em si mesmo, abstraído da potencialidade do praejudicium alterius, é uma inanidade, que deixaria
imperturbada ou intacta a fé pública (no sentido legal que aqui importa).3

ESPÉCIES DE FALSIDADE
Os crimes delineados nos arts. 289 a 311 do Código Penal comportam três espécies de
falsidade: material (ou externa), ideológica e pessoal.
Falsidade material, também conhecida como falsidade externa, é a que incide
materialmente sobre a coisa. A imitação da verdade se dá mediante contrafação (exemplo:
criação de um documento falso, a exemplo de uma carteira de identidade
falsa), alteração(exemplo: inserir palavras
em um documento já existente, modificando seu conteúdo) ou supressão (exemplo:
retirar uma determinada expressão de um contrato).
Falsidade ideológica, por sua vez, é aquela em que o documento é materialmente
verdadeiro, ou seja, há autenticidade em seus requisitos extrínsecos, mas seu conteúdo é
falso. Sua característica primordial é a genuinidade formal do escrito, mas não existe
veracidade intelectual do conteúdo. Não há contrafação, alteração ou supressão de
natureza material. A imitação da verdade é viabilizada unicamente
pela simulação (exemplo: “A” declara perante o tabelião, durante a lavratura de escritura
pública relativa à aquisição de um imóvel, o estado civil de solteiro, quando na verdade
era casado).
Falsidade pessoal, finalmente, é a que se relaciona não à pessoa física, mas à sua qualificação (idade,
filiação, nacionalidade, profissão etc.), como no exemplo do sujeito que atribui a si mesmo falsa identidade para
obter vantagem em proveito próprio. E, como lembra Magalhães Noronha: “A fé pública não deixa de ser
ofendida com essa falsidade, pois é iludida e enganada acerca da pessoa, em seus atributos ou qualidades”.4

Art. 289 – Moeda falsa

3
Art. 289 - Falsificar, fabricando-a ou alterando-a, moeda metálica ou papel-moeda de curso
legal no país ou no estrangeiro:

Pena - reclusão, de três a doze anos, e multa.

§ 1º - Nas mesmas penas incorre quem, por conta própria ou alheia, importa ou exporta,
adquire, vende, troca, cede, empresta, guarda ou introduz na circulação moeda falsa.

§ 2º - Quem, tendo recebido de boa-fé, como verdadeira, moeda falsa ou alterada, a


restitui à circulação, depois de conhecer a falsidade, é punido com detenção, de seis meses a
dois anos, e multa.

§ 3º - É punido com reclusão, de três a quinze anos, e multa, o funcionário público ou


diretor, gerente, ou fiscal de banco de emissão que fabrica, emite ou autoriza a fabricação ou
emissão:

I - de moeda com título ou peso inferior ao determinado em lei;

II - de papel-moeda em quantidade superior à autorizada.

§ 4º - Nas mesmas penas incorre quem desvia e faz circular moeda, cuja circulação não
estava ainda autorizada.

Classificação:
Crime simples
Crime comum (§ 3.º é crime próprio)
Crime formal, de consumação antecipada ou de resultado cortado
Crime de perigo concreto
Crime de forma livre
Crime comissivo (regra)
Crime não transeunte
Crime instantâneo
Crime unissubjetivo, unilateral ou de concurso eventual
Crime plurissubsistente (regra)
Informações rápidas:
Objeto material: moeda metálica ou o papel-moeda de curso legal no país ou no
estrangeiro.
Princípio da insignificância: não é admitido na seara dos crimes contra a fé
pública.
A falsificação pode se dar mediante fabricação ou alteração.
A falsificação grosseira,perceptível a olho nu, exclui o crime (crime impossível).
Elemento subjetivo: dolo (não se exige intenção lucrativa). Não admite
modalidade culposa.
É crime não transeunte (deixa vestígios de ordem material).
Tentativa: admite (crime plurissubsistente).
4
Ação penal: pública incondicionada.
Competência: Justiça Federal.

Objetividade jurídica
O bem jurídico penalmente protegido é a fé pública, relativamente à confiabilidade do sistema de emissão
e circulação da moeda. Nas ponderações de Teodolindo Castiglione: “Perante o art. 289, a defesa da fé pública
está em preservar a legitimidade da emissão e da circulação da moeda e de tudo o que possa dificultar, em todos
os seus aspectos, as transações regulares que, na sociedade, se realizam com a moeda”.5

Objeto material
É a moeda metálica ou o papel-moeda de curso legal no País ou no estrangeiro.
Moeda, em sentido amplo, é a medida comum dos valores (como o metro, o grama e o litro o são das
quantidades) e o instrumento ou meio de escambo. É o valorímetro dos bens econômicos, o denominador comum
a que se reduz o valor das coisas úteis.6
Somente podem ser objeto material do crime tipificado no art. 289 do Código Penal a moeda metálica ou
papel-moeda de curso legal no País ou no estrangeiro. Consideram-se de curso legal as moedas metálicas e
cédulas que não podem ser recusados como forma de pagamento, tal como acontece no Brasil com o Real, nos
termos do art. 1.º da Lei 9.069/1995.7
Portanto, a definição não abrange outros documentos ou objetos aceitos
consuetudinariamente como medida de valor ou troca sem curso forçado, a exemplo dos
cheques de viagem. Como já decidido pelo Superior Tribunal de Justiça:
A possível falsificação que permeia a hipótese não é de outro documento senão cheques de viagem, os quais não se confundem com moeda,
elemento objetivo do tipo de moeda falsa (art. 289 do CPB). Conforme extrai-se do próprio tipo, o crime de moeda falsa apenas terá vez se houver
falsificação, por fabricação ou alteração, de moeda metálica ou papel-moeda de curso legal no país ou no estrangeiro.8

Pela mesma razão, também não podem ser objeto material do crime em apreço o
padrão monetário já extinto (exemplo: Cruzeiro Real – Lei 9.069/1995, art. 2.º) ou
inexistente, pois não se enquadram no conceito de moeda. Tais condutas, todavia, não são
penalmente irrelevantes, pois é possível subsistir o crime de estelionato (CP, art.
171, caput).
Em consonância com o art. 48, inc. XIV, da Constituição Federal, é atribuição do
Congresso Nacional dispor sobre moeda e seus limites de emissão:
Art. 48. Cabe ao Congresso Nacional, com a sanção do Presidente da República,
não exigida esta para o especificado nos arts. 49, 51 e 52, dispor sobre todas as
matérias de competência da União, especialmente sobre:
(…)
XIV – moeda, seus limites de emissão, e montante da dívida mobiliária federal.
E, nos termos do art. 3.º, inc. II, da Lei 4.595/1964, compete ao Conselho Monetário
Nacional, “regular o valor interno da moeda, para tanto prevenindo ou corrigindo os surtos
inflacionários ou deflacionários de origem interna ou externa, as depressões econômicas e
outros desequilíbrios oriundos de fenômenos conjunturais”.
Se não bastasse, o art. 4.º, inc. I, da Lei 4.595/1964 estatui ser da competência do
Conselho Monetário Nacional, segundo diretrizes estabelecidas pelo Presidente da
República, “autorizar as emissões de papel-moeda”.
5
A competência para emissão da moeda é da União, a ser exercida exclusivamente pelo
Banco Central do Brasil, a teor da regra contida no art. 164, caput, da Constituição
Federal. Essa competência, aplicável à moeda metálica e ao papel-moeda, deve ser
exercida nas condições e limites autorizados pelo Conselho Monetário Nacional (Lei
4.595/1964, art. 10, inc. I).
Finalmente, a fabricação do papel-moeda e da moeda metálica será realizada, em
caráter exclusivo, pela Casa da Moeda, em obediência ao comando imposto pelo art.
2.º, caput, da Lei 5.895/1973: “A Casa da Moeda do Brasil terá por finalidade, em caráter
de exclusividade, a fabricação de papel-moeda e moeda metálica e a impressão de selos
postais e fiscais federais e títulos da dívida pública federal”.

Princípio da insignificância
O princípio da insignificância – causa supralegal de exclusão da tipicidade – não é
admitido na seara dos crimes contra a fé pública, aí incluindo-se a moeda falsa, ainda que
a contrafação ou alteração recaia sobre moedas metálicas ou papéis-moeda de ínfimo
valor. Na linha da jurisprudência do Supremo Tribunal Federal:
A Turma indeferiu habeas corpus em que condenado pela prática do delito previsto no art. 289, § 1.º, do CP – por guardar em sua residência duas
notas falsas no valor de R$ 50,00 – pleiteava a aplicação do princípio da insignificância. (…) Enfatizou-se, ademais, que o bem violado seria a fé
pública, a qual é um bem intangível e que corresponde à confiança que a população deposita em sua moeda, não se tratando, assim, da simples análise
do valor material por ela representado.9

Núcleo do tipo
O núcleo do tipo é “falsificar”, no sentido de imitar, reproduzir ou modificar moeda de
curso obrigatório no País ou no estrangeiro. A falsificação pode se dar mediante
fabricação ou alteração.
A fabricação, também conhecida como contrafação, exige a criação material da
moeda metálica ou papel-moeda, conferindo-lhes aparência de objetos verdadeiros.
Exemplo: O sujeito, valendo-se de papel e tintas especiais, fabrica cédulas de dinheiro.
Na alteração, por sua vez, opera-se a modificação da moeda metálica ou do papel-
moeda originariamente verdadeiro, para ostentar valor superior ao real. Exemplo: O
agente faz com que cédulas de R$ 1,00 (um Real) se pareçam com notas de R$ 100,00
(cem Reais).
A alteração apresenta-se como uma fraude à fé pública. Consequentemente, é
imprescindível sua potencialidade lesiva à crença coletiva na moeda. Destarte, não basta a
mera supressão ou modificação de símbolos ou emblemas nas cédulas, ou então a
substituição de letras e números, se da conduta não resultar o aumento do valor
representado pela moeda. Exemplificativamente, não comete o crime definido no art.
289, caput, do Código Penal o sequestrador que, depois de receber vultosa quantia em
dinheiro em troca da libertação da vítima, suprime alguns numerais das notas, visando
evitar o rastreamento posterior do dinheiro pela Polícia.

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Também não caracteriza o delito a raríssima e esdrúxula situação em que alguém
falsifica moeda metálica ou papel-moeda, diminuindo seu valor. Como alerta Nélson
Hungria:
(…) somente um rematado insensato poderia entregar-se à tarefa de alterar moeda em prejuízo próprio, substituindo, por exemplo, na moeda
metálica, chumbo por ouro, ou, no papel-moeda, trocando dizeres ou algarismos para inculcar menor valor. Tal indivíduo não deveria ser submetido a
processo penal, mas a processo de interdição, ou ser metido numa casa de orates, pois o seu ato equivaleria ao de jogar fora ou rasgar dinheiro, isto é,
ao mais iniludível indício de loucura, segundo o jocoso mas acertado provérbio popular.10

A questão da falsificação grosseira


A moeda falsa, assim como os demais crimes contra a fé pública, tem como requisitos
a imitação da verdade e o dano potencial.
Para reconhecimento da potencialidade de dano, a imitação da verdade deve ser dotada de idoneidade, isto
é, precisa despontar como apta a ludibriar as pessoas em geral. Em outras palavras, é fundamental a capacidade
de circulação da moeda falsa na sociedade como se verdadeira fosse.11
Nesse contexto, a falsificação grosseira, perceptível ictu oculi (a olho nu), exclui o
crime definido no art. 289, caput, do Código Penal. Trata-se, na verdade, de crime
impossível (CP, art. 17), em face da ineficácia absoluta do meio de execução no tocante à
fé pública.
No entanto, se na prática a moeda falsa, nada obstante a precariedade da sua fabricação
ou alteração, funcionar como meio fraudulento para obtenção de vantagem ilícita em
prejuízo alheio, estará caracterizado o crime de estelionato, delineado no art. 171, caput,
do Código Penal. Em sintonia com a Súmula 73 do Superior Tribunal de Justiça: “A
utilização de papel-moeda grosseiramente falsificado configura, em tese, o crime de
estelionato, de competência da Justiça Estadual”.

Moeda falsa e art. 290, caput, 1.ª figura, do Código Penal: distinção
A conduta de inserir em papel-moeda verdadeiro números e letras retirados de outra
cédula, igualmente verdadeira, para aumentar seu valor, acarreta a configuração do crime
de moeda falsa (CP, art. 289, caput), pois o comportamento do sujeito não implica a
formação de um exemplar da moeda com fragmentos verdadeiros, mas em sua alteração.
Exemplo: “A” modifica uma nota de R$ 1,00 (um Real), colando sem corpo os dizeres
retirados de uma cédula de R$ 100,00 (cem Reais).
De outro lado, se o agente forma uma cédula com fragmentos de notas verdadeiras, a
ele será imputado o crime definido no art. 290, caput, 1.ª figura, do Código Penal.
Exemplo: “A” guardava em sua carteira somente a metade de uma cédula, anteriormente
rasgada pelo seu filho. Ao encontrar em via pública outra metade, de nota diversa mas
também verdadeira, decide formar uma nova cédula.

Sujeito ativo - Cuida-se de crime comum ou geral, podendo ser cometido por qualquer pessoa.12

7
Sujeito passivo
É o Estado, interessado na preservação da fé pública, e, mediatamente, a pessoa física
ou jurídica prejudicada pela conduta criminosa.

Elemento subjetivo
É o dolo, independentemente de qualquer finalidade específica. Não se exige a
intenção lucrativa (animus lucrandi), mediante a colocação da moeda falsa em circulação,
e também não se admite a modalidade culposa.

Consumação
A moeda falsa é crime formal, de consumação antecipada ou de resultado cortado:
consuma-se com a falsificação da moeda metálica ou papel-moeda, mediante fabricação
ou alteração, desde que idônea a enganar as pessoas em geral. É irrelevante se o objeto
vem a ser colocado em circulação, bem como se alguém suporta efetivo prejuízo.
É suficiente a falsificação de uma só moeda metálica ou papel-moeda. A contrafação
ou alteração de várias moedas no mesmo contexto fático configura crime único. Por seu
turno, a falsificação de diversas moedas em momentos distintos importa no
reconhecimento da pluralidade de crimes, em concurso material ou crime continuado, se
presentes os demais requisitos exigidos pelo art. 71, caput, do Código Penal.

A prova da materialidade do fato


A moeda falsa insere-se no rol dos crimes não transeuntes, isto é, deixa vestígios de
ordem material. Destarte, a prova da materialidade do fato reclama a elaboração de exame
de corpo de delito, direto ou indireto, não podendo supri-lo a confissão do acusado (CPP,
art. 158).

Tentativa
É cabível, em face do caráter plurissubsistente do delito, permitindo o fracionamento
do iter criminis.
Vale destacar que a simples posse ou guarda de instrumento ou qualquer objeto
especialmente destinado à fabricação de moeda enseja o reconhecimento do crime de
petrechos para falsificação de moeda, tipificado no art. 291 do Código Penal.

Ação penal- A ação penal é pública incondicionada, em todas as modalidades do delito.

Lei 9.099/1995
A moeda falsa, em sua modalidade fundamental, na forma equiparada e nas figuras
qualificadas (CP, art. 289, caput e §§ 1.º, 3.º e 4.º), é crime de elevado potencial ofensivo.
8
A pena mínima cominada inviabiliza a incidência dos institutos previstos na Lei
9.099/1995.

Classificação doutrinária
A moeda falsa é crime simples (ofende um único bem jurídico); comum (pode ser
praticado por qualquer pessoa); formal, de consumação antecipada ou de resultado
cortado (consuma-se com a prática da conduta legalmente descrita, independentemente da
superveniência do resultado naturalístico); de perigo concreto (basta a potencialidade de
dano à fé pública, reclamando prova da idoneidade da falsificação); de forma
livre (admite qualquer meio de execução); em regra comissivo; não transeunte (deixa
vestígios materiais); instantâneo (consuma-se em um momento determinado, sem
continuidade no tempo); unissubjetivo, unilateral ou de concurso eventual (pode ser
cometido por uma única pessoa, mas admite o concurso); e
normalmente plurissubsistente (a conduta pode ser fracionada em diversos atos).

Competência
O crime de moeda falsa, em qualquer das suas modalidades, é de competência da Justiça Federal, pois
ofende interesses da União (CF, art. 109, inc. IV).13
De fato, compete à União a emissão de moeda, bem como legislar sobre sistema
monetário e de medidas, títulos e garantias dos metais (CF, art. 21, inc. VII, e art. 22, inc.
VI). Além disso, a competência da União para emitir moeda será exercida exclusivamente
pelo Banco Central (CF, art. 164, caput).
Anote-se, porém, a exceção atinente à falsificação grosseira, com incidência da Súmula
73 do Superior Tribunal de Justiça: “A utilização de papel-moeda grosseiramente
falsificado configura, em tese, o crime de estelionato, de competência da Justiça
Estadual”. Na hipótese de dúvida quanto à qualidade da falsificação, subsiste a
competência da Justiça Federal.

Figura equiparada: art. 289, § 1.º


Como estabelece o art. 289, § 1.º, do Código Penal: “Nas mesmas penas incorre quem,
por conta própria ou alheia, importa ou exporta, adquire, vende, troca, cede, empresta,
guarda ou introduz na circulação moeda falsa”.
O objetivo do legislador é punir a circulação da moeda falsa. Com efeito, o § 1.º do
art. 289 do Código Penal incrimina conduta posteriores à falsificação da moeda, razão pela
qual o autor do crime antecedente não pode figurar como sujeito ativo do delito. Para ele,
as condutas representam fatos impuníveis (post factum impunível). De fato, se o falsário
realizar qualquer das ações aqui descritas, responderá somente pelo crime tipificado
no caput do art. 289 do Código Penal, solucionando-se o conflito aparente de leis penais
com a utilização do princípio da consunção.

9
Trata-se de tipo misto alternativo, crime de ação múltipla ou de conteúdo variado.
A lei descreve vários núcleos, e a prática de mais de um deles, no tocante ao mesmo
objeto material, configura um único crime.
Pouco importa o motivo que levou o agente a colocar em circulação a moeda falsa. A
fé pública é violada ainda que a moeda metálica ou o papel-moeda falso seja utilizado para
o pagamento de atos imorais (exemplo: dívida de jogo ou de prostituição) ou ilícitos
(exemplo: preço cobrado para a morte de alguém).
A consumação ocorre na entrada da moeda falsa em território nacional (“importar”), na
saída para o exterior (“exportar”), no momento da tradição (“adquirir”, “vender”, “trocar”,
“ceder” e “emprestar”), com a permanência em determinado local (“guardar”) ou no
instante em que o agente introduz, de qualquer modo, a moeda falsa em circulação.
Os crimes são formais, de consumação antecipada ou de resultado cortado, pois
aperfeiçoam-se com a prática das condutas legalmente descritas, salvo no núcleo
“vender”, no qual o delito é material ou causal, pois reclama a produção do resultado
naturalístico, consistente no recebimento de determinado valor em troca da entrega da
moeda falsa.
São também crimes instantâneos, pois consumam-se em um momento determinado,
sem continuidade no tempo, exceto no núcleo “guardar”, de natureza permanente, no
qual a consumação se prolonga no tempo, por vontade do agente.
A tentativa é cabível, em todas as modalidades do delito, em face do seu caráter
plurissubsistente, permitindo o fracionamento do iter criminis.
Embora se trate de delito contra a fé pública, nada impede a existência de um sujeito
passivo mediato, consistente na pessoa física ou jurídica prejudicada pela conduta
criminosa. Consequentemente, nada impede a incidência das agravantes genéricas
previstas no art. 61, inc. II, do Código Penal à circulação de moeda falsa. Na visão do
Superior Tribunal de Justiça:
Nos casos de prática do crime de introdução de moeda falsa em circulação (art. 289, § 1.º, do CP), é possível a aplicação das agravantes dispostas
nas alíneas “e” e “h” do inciso II do art. 61 do CP, incidentes quando o delito é cometido “contra ascendente, descendente, irmão ou cônjuge” ou
“contra criança, maior de 60 (sessenta) anos, enfermo ou mulher grávida”. De fato, a fé pública do Estado é o bem jurídico tutelado no delito do art.
289, § 1.º, do CP. Isso, todavia, não induz à conclusão de que o Estado seja vítima exclusiva do delito. Com efeito, em virtude da diversidade de meios
com que a introdução de moeda falsa em circulação pode ser perpetrada, não há como negar que vítima pode ser, além do Estado, uma pessoa física ou
um estabelecimento comercial, dado o notório prejuízo experimentado por esses últimos. Efetivamente, a pessoa a quem, eventualmente, são passadas
cédulas ou moedas falsas pode ser elemento crucial e definidor do grau de facilidade com que o crime será praticado, e a fé pública, portanto, atingida.
A propósito, a maior parte da doutrina não vê empecilho para que figure como vítima nessa espécie de delito a pessoa diretamente ofendida. 14

Figura privilegiada: art. 289, § 2.º


Nos termos do art. 289, § 2.º, do Código Penal: “Quem, tendo recebido de boa-fé,
como verdadeira, moeda falsa ou alterada, a restitui à circulação, depois de conhecer a
falsidade, é punido com detenção, de seis meses a dois anos, e multa”. Cuida-se
de infração penal de menor potencial ofensivo, de competência do Juizado Especial
Criminal e compatível com a transação penal e com o rito sumaríssimo, em conformidade
com as disposições da Lei 9.099/1995.
Trata-se de autêntico privilégio, pois o legislador previu, no tocante à pena privativa de liberdade, limites
mínimo e máximo sensivelmente inferiores. O fundamento do tratamento penal mais brando repousa no princípio

10
da proporcionalidade15 e no móvel do agente: sua finalidade não é lesar a fé pública, mas simplesmente evitar
prejuízo econômico, transferindo-o a outra pessoa.
O recebimento de boa-fé da moeda falsa é pressuposto do delito. Com efeito, se o
agente recebeu a moeda falsa de má-fé, ou seja, com conhecimento da sua falsidade,
incorrerá no crime definido no art. 289, § 1.º, do Código Penal.
Para o reconhecimento do delito, exige-se o dolo direto, evidenciado pela expressão
“depois de conhecer a falsidade”. Em outras palavras, o fato será atípico, evitando-se a
responsabilidade penal objetiva, se o sujeito restitui a moeda à circulação, desconhecendo
a falsidade.
A consumação se dá no momento em que o agente, ciente da falsidade, restitui a
moeda à circulação. A tentativa é admissível, em face do caráter plurissubsistente do
delito, permitindo o fracionamento do iter criminis.

Figuras qualificadas: art. 289, §§ 3.º e 4.º


O legislador incidiu em grave equívoco nos §§ 3.º e 4.º do art. 289 do Código Penal, ao
prever tais delitos como qualificadoras da moeda falsa. Nesses crimes, a moeda é
verdadeira. A ilicitude recai na forma ou na quantidade de sua fabricação ou emissão (§
3.º), ou então no destino a ela conferido ou no momento em que vem a ser colocada em
circulação (§ 4.º).

.Art. 289, § 3.º: Crime próprio


De acordo com o art. 289, § 3.º, do Código Penal: “É punido com reclusão, de três a
quinze anos, e multa, o funcionário público ou diretor, gerente, ou fiscal de banco de
emissão que fabrica, emite ou autoriza a fabricação ou emissão: I – de moeda com título
ou peso inferior ao determinado em lei; e II – de papel-moeda em quantidade superior à
autorizada”.
Trata-se de crime próprio ou especial, pois somente pode ser cometido pelas pessoas expressamente
indicadas no tipo penal: funcionário público,16 diretor, gerente ou fiscal de banco de emissão da moeda. O
fundamento do tratamento penal mais severo repousa na traição dos deveres inerentes ao cargo do sujeito ativo.
O inciso I é aplicável à moeda metálica. Pune-se a conduta de fabricá-la, emiti-la ou
autorizar sua fabricação ou emissão com título ou peso inferior ao determinado em lei.
Título é o texto veiculado na moeda (exemplo: 1 Real); peso, por sua vez, representa a
quantidade de metal utilizado na confecção da moeda. Como a lei fala somente em “peso
inferior ao determinado em lei” (lei penal em branco homogênea), o fato é atípico quando
o peso da moeda é superior ao legalmente previsto.
O inciso II, por seu turno, diz respeito ao papel-moeda. A legislação, mediante o
controle do Conselho Monetário Nacional e do Banco Central, limita a fabricação ou
emissão de papel-moeda. Se o sujeito dolosamente ultrapassa esse limite, incide no crime
definido no art. 289, § 3.º, inc. II, do Código Penal. Cuida-se de lei penal em branco
homogênea, pois é preciso analisar o limite fixado em lei para emissão ou fabricação de
papel-moeda. Exemplificativamente, o art. 1.º da Lei 8.891/1994, editada à época da

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criação do Real como padrão monetário, autorizou a impressão de um bilhão e quinhentos
milhões de unidades do novo papel-moeda.
Pune-se somente a fabricação ou emissão de papel-moeda em quantidade superior à
autorizada. Destarte, não há crime, mas ilícito administrativo, na hipótese de emissão ou
fabricação de moeda metálica em montante superior ao autorizado, pois não se admite a
analogia in malam partem no Direito Penal.
Os crimes são formais, de consumação antecipada ou de resultado cortado: consumam-
se com a realização das condutas legalmente descritas, independentemente da circulação
da moeda ou de prejuízo a alguém. A tentativa é possível.

Art. 289, § 4.º: Desvio de moeda e circulação antecipada


Como estatui o art. 289, § 4.º, do Código Penal: “Nas mesmas penas incorre quem
desvia e faz circular moeda, cuja circulação não estava ainda autorizada”.
O crime é comum ou geral, podendo ser cometido por qualquer pessoa. A moeda é
verdadeira, mas o agente altera seu destino ou a coloca em circulação antes da autorização
da autoridade competente. Consuma-se com o desvio ou com a efetiva circulação
antecipada da moeda, pouco importando se sobrevém prejuízo a alguém (crime formal). A
tentativa é cabível.

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