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2/29/2020 “Foi uma revolução rápida e bonita”

EDIÇÃO 36 | SETEMBRO_2009

correspondência

“FOI UMA REVOLUÇÃO RÁPIDA E BONITA”


"A suspensão dos direitos, a cassação de boa parte do Congresso etc., isso tinha de ser feito, por mais sinistro
que pareça", escreveu Elizabeth Bishop a Robert Lowell a propósito do golpe militar de 1964. "De outro modo
teria sido uma mera 'deposição', e não uma 'revolução' - muitos homens de Goulart continuariam lá no
Congresso, todos os comunistas ricos fugiriam (como alguns fugiram, é claro) e os pobres e ignorantes seriam
entregues à sua sorte"
OTAVIO FRIAS FILHO

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2/29/2020 “Foi uma revolução rápida e bonita”

“Se você nunca vê um Picasso autêntico, finge que Portinari é bom – ou se nunca ouviu música boa, finge que Villa-Lobos é o maior” FOTO: © COLEÇÃO NEW
YORKER_2008_EDWARD SOREL_CARTOONBANK.COM_TODOS OS DIREITOS RESERVADOS

N
esta segunda e última parte dos trechos selecionados da
correspondência entre os poetas americanos Elizabeth Bishop e
Robert Lowell, a crise política que agitou o Brasil no começo
dos anos 60 vem para o primeiro plano. Bishop passara a viver no Rio
(e em Petrópolis) em 1951; estava de passagem quando se apaixonou
por Lota de Macedo Soares. Incentivadora do gosto pela arte
moderna e amiga íntima de Carlos Lacerda, Lota seria incumbida por
ele, governador da Guanabara a partir de 1960, de criar o parque do
Aterro do Flamengo. Convocou o paisagista Roberto Burle Marx
como seu braço direito, com quem depois se desentenderia.

Surpreende a veemência que uma poeta nada interessada em política,


como Bishop, emprega contra os herdeiros populistas de Vargas e
seus aliados comunistas. Ela reflete a intensa polarização ideológica
que devastou a vida pública brasileira na época. Reflete também a
posição de Lota, então lacerdista incondicional (Lacerda e sua amiga
viriam a romper relações depois de 1965). Mas não apenas isso:
Bishop tinha aversão à vulgaridade justiceira dos grandes projetos
coletivistas, ao contraste entre seus belos propósitos e à mediocridade
militante. Sintomático, conforme consta de uma das cartas, que ela
lesse Alexander Soljenítsin já em 1963, mal o “dissidente” soviético
fora traduzido para o inglês.

No âmbito privado, o contexto das passagens a seguir é a dissolução


do amor entre as duas mulheres. Lota se deixa enredar no labirinto
burocrático do governo, vê o sonho do Parque do Flamengo ser
amputado, sofre de depressão e doença cardíaca. Bishop se afasta do
Rio, compra uma casa em Ouro Preto. E se apaixona pela
“companheira vivaz, gentil e divertida” mencionada em uma
passagem abaixo. Em setembro de 1967, Lota viajou em desespero a
Nova York, à procura de alguma reconciliação com Bishop. Depois de
um encontro tumultuoso, Lota tentou se matar por ingestão de
barbitúricos. Hospitalizada, morreu uma semana depois.
O centenário de Lota acontece no ano que vem; o de Bishop, no
seguinte.

Rio de Janeiro, 15 de junho de 1961

Querido Cal

Um bom exemplo do humor político brasileiro derivado do cinema.


Não sei se um filme italiano medianamente bom chamado O Belo
Antonio chegou a Nova York ou não. Trata do tema ousado da
impotência. Bem, o novo e único porta-aviões brasileiro, de segunda
mão, que custa milhões e milhões de dólares inexistentes e desliza
lentamente para cima e para baixo pela baía com um ou dois
helicópteros na vasta pista do convés, agora é chamado de Belo
Antonio.

Lota está trabalhando duro e está se saindo tremendamente bem. Tem


sido até atacada nos jornais, a intriga corre solta e duas pessoas
pediram demissão. Devo ter contado a você que ela trabalha como
“coordenadora- chefe do Aterro” – tendo o aterro, ao que parece, 6
quilômetros de comprimento. Não tinha me dado conta do tamanho
até irmos ver ontem. Ela está recusando o pagamento – isso é muito
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ruim, mas uma boa precaução. Está sendo maravilhoso para ela e, se a
coisa sair da maneira como ela quer, será um grande e esplêndido
parque sombreado, dois ou três restaurantes, parques de recreação,
cafés ao ar livre etc. – oferece a todas as classes do Rio um lugar para
ir caminhar, desfrutar a paisagem e a brisa marinha, do que eles
carecem tremendamente. Se você tiver alguma idéia sobre parques de
recreação (como deve ter provavelmente) nos diga… Perguntei a
[1]
Howard Moss sobre isso e ele escreveu que tinha uma boa idéia:
enormes estátuas de cimento dos patriarcas. (Ele também ficou
extasiado com as suas traduções de Baudelaire na Partisan Review.)

O paisagista… (sei que você provavelmente não compartilha o meu


interesse por decoração de interiores, arquitetura moderna, jardins
etc., mas afinal de contas moro de fato num dos pretensamente
melhores exemplos – de arquitetura, quero dizer – na América do
Sul). Bem, você deve ter ouvido falar dele – dão aulas sobre ele em
[2]
Harvard, é chamado o moderno Le Nôtre e eu acho que é um dos
verdadeiros gênios brasileiros – Roberto Burle Marx. Ele deu uma
grande festa na sua fazenda (na verdade, seu viveiro de plantas –
acres e acres de lindos, e de certo modo tristes, flamboyants, e de
ameaçadoras plantas e árvores subtropicais) para o nosso amigo
[3]
governador e todo mundo que tem algo a ver com o “aterro”. Burle
Marx é também um bom cozinheiro. Havia porcos assados, peixes de
1 metro de comprimento e fantásticas decorações de frutas e flores
com metros de altura, que todo mundo rasgou em tiras no fim do dia
para levar para casa. Infelizmente alguém teve a idéia de trazer uma
comissão comercial chinesa que tinha acabado de chegar de Cuba –
oito ou dez chineses pequenos, de aspecto relaxado, joviais, de
cabelos compridos, que não tocavam em álcool e faziam muitas
perguntas sobre as pessoas, em francês ou em mau inglês. (Mao-Mao
– que se pronuncia como Mow – quer dizer “mau-mau” em português
e é uma expressão comum. Depois que todos eles recusaram o uísque
e o vinho outra vez, com ar cada vez mais severo, Roberto disse
“Mao-Mao Tse-tung”.) Tentei conversar com um deles cujo inglês era
muito limitado e quando me disse que “Castro-forte-forte”,
brandindo o punho, e “Batista-mau-mau” (como se eu não tivesse
ouvido falar dele, provavelmente), pela primeira vez, eu creio, um
verdadeiro calafrio de medo e horror do comunismo desceu pela
minha espinha. Eram uns homenzinhos lúgubres, de ar ignorante, os
olhos ardiam com uma paixão justiceira – e lá estávamos nós muito
alegres, admirando as plantas e a coleção de antiguidades de Roberto
etc., nos entupindo de comida e à beira de colher o que semeamos.

Elizabeth

Castine, Maine, 31 de agosto de 1961

Querida Elizabeth

Passei a semana inteira preocupado com você, no seu tumulto. Na


tevê, vimos [Jânio] Quadros deixando o país sem uma gravata sequer,
soldados brasileiros protegendo a embaixada americana no Rio etc.
Espero que tudo esteja bem com você. Avise se eu puder fazer
alguma coisa, como lhe mandar dinheiro.

Rio, 14 de setembro de 1961

Querido Cal

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Ficamos todos muito comovidos com sua oferta de dinheiro… Recebi


sua carta quando subimos para Samambaia no último fim de semana.
Por acaso tínhamos ido ao banco e às casas de câmbio um dia antes de
serem fechadas, portanto estamos bem – na verdade, podemos até
mandar dinheiro para os nossos amigos que ficaram desguarnecidos.
Agora os bancos estão abertos de novo. De todo modo, não
imaginava que você estivesse vendo tevê em Castine.

Foi um período triste e terrível para todos aqui e agora não estamos
[4]
gostando nem um pouco da forma como as coisas estão andando.
Lota, é claro, se envolveu muito em tudo isso e passou noites inteiras
no palácio do governador, chegando em casa só para o café da
manhã. Você sabe que o governador do estado da Guanabara é um
velho amigo nosso, Carlos Lacerda, e foi ele quem deflagrou todo o
movimento, mais ou menos. É extremamente complicado, claro. Até
escrevi uma nota para o New York Times a respeito, uns dez dias
[5]
atrás – talvez você tenha visto, talvez não publiquem. Mas na
verdade, os jornais americanos que vi – ou o que foi citado deles nos
jornais daqui – entenderam tudo completamente errado. Meu único
postulado era que os EUA não acreditam em nenhuma palavra do
que a Rússia diz; no entanto, quando se trata da América do Sul, a
tudo o que qualquer um diga – ditadores ou aspirantes a ditadores,
da direita ou da esquerda (como agora) –, os EUA dão fé. A situação
parece muito ruim. Porém – não vou entrar em detalhes! –, acho que
quando for para N.Y. darei palestras, depois de jantares, a respeito da
situação no Brasil. Parece que sei muito a respeito do assunto. A
esquadra passou para um lado e para o outro, soltando fumaça no
mar, na frente do nosso apartamento aqui, e eu olhei pelo binóculo.
Mas o Rio mesmo ficou muito tranquilo graças ao Carlos, que o New
York Times chama de “feudal e reacionário” etc., etc. O Exército de
fato é tão pouco belicoso que eles recuaram – e na verdade se
portaram muito bem!

Elizabeth

Sábado, 16

Não acredite no que você vê sobre “legalidade” e salvar a preciosa


“Constituição”! Todos os velhos vigaristas estão voando de volta para
os seus cargos o mais depressa que podem & o PC age abertamente
agora.

A grande Bienal vai começar daqui a pouco em São Paulo – temos de


ir, eu acho.

Será que terei de fazer outra viagem ao pesadelo de Brasília? Deus me


livre.

No momento, ando meio apaixonada pelo último imperador – dom


Pedro II – seguramente o mais nobre imperador do mundo, no que
[6]
diz respeito ao caráter. Tentou abraçar Whittier, à maneira
brasileira, quando se conheceram. Whittier recuou, é claro. Quando se
separaram, dom Pedro desceu atrás dele pela escada (isso aconteceu
[7]
na casa de Longfellow, num jantar) e finalmente conseguiu abraçá-
lo (dom Pedro tinha 1,95 metro de altura). Traduziu um poema muito
ruim de Whittier, “O lamento de uma alma perdida” – não sobre a
escravidão, como eu tinha pensado, mas sobre um pássaro do
Amazonas – e mandou para ele uma caixa de vidro com esses
pássaros, empalhados. Mas não vou continuar a revelar minhas
surpresas eletrizantes…

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Até logo, nos veremos em breve – Lota manda abraços.

Elizabeth

25 de setembro [1961]

Querido Cal

Aqui, tudo está uma confusão, e uma tragédia, na verdade. Deus sabe
o que vai acontecer depois. Parece excessivamente pró-comunista
[8]
para mim e, por favor, diga a Kennedy ou a Arthur S. Jr. para se
mexerem. A América do Sul inteira poderia muito bem azedar – para
o lado do comunismo –, como uma leiteira, eu acho, e a culpa é
metade do Brasil e metade nossa. (Um pensamento alegre para deixar
com você.) Lota está de novo no “palácio” – ela adora uma briga
felizmente, mas isso tudo já é demais. Todo mundo acusa todo
mundo, e Lota está sendo atacada nos jornais também – em geral por
ciúmes e despeito. Acho que é como nos EUA, na verdade, mas numa
escala tão pequena e tão pessoal – e eu nunca me envolvi nos EUA!

Como seria bom encontrar você.

Elizabeth

Rio, 22 de janeiro de 1962

Querido Cal

Vi um anúncio de Os Sertões – Rebellion in the Backlands –, o melhor


livro brasileiro depois de Machado de Assis & escrevi pedindo que
lhe mandassem um exemplar. Você nunca vai ler o livro inteiro, mas
pule a primeira metade e passe direto para a parte narrativa – é
maravilhoso, de fato. Desconfio que influenciou Hemingway – numa
tradução para o espanhol – e ele quase mostrou isso (sua descrição da
[9]
retirada em Caporetto).

14 de abril de 1962

Querida Elizabeth

Estou pessimamente preparado para falar a platéias brasileiras.


Botsford parece supor que posso adquirir em poucos dias fluência na
leitura em português, mas é claro que nunca vou conseguir. Gosto de
verdade de alguns poemas de Bandeira, e também de Jorge de Lima,
[10]
e já cheguei à metade de Epitaph of a Small Winner de Machado
de Assis – tremendamente bom. Posso adivinhar que os brasileiros
vão me deixar com a sensação de ser um bárbaro, com a cultura
francesa e latina deles, que nós jamais tivemos. É muito mais
contundente descobrir que os brasileiros têm isso do que ver a mesma
coisa na França, onde já é de se esperar que seja assim. Estou
começando a acreditar nas tiradas arrogantes de Eliot sobre nós, a
respeito da maturidade da mente latina. Vou levar uma porção de
antologias etc., e acho que posso declamar e ler em voz alta,
interminavelmente, a poesia em inglês deste século. Acho que eles já
conhecem os grandes nomes – ou serão tão ignorantes como nós?
[11]
Ninguém aqui, exceto o jovem entusiasta, sequer conhece Neruda.

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Querida, mal podemos esperar, lembranças a Lota.

Cal

Rio, 19 de dezembro de 1962

Querido Cal

Também ando fazendo algumas traduções. Acabei de ler um livrinho


muito bom sobre Santos Dumont – você até podia gostar, eu acho –
muito justo e cordial. Ele era um personagem delicado, feito um
colibri, e é uma pena que os aviões não tenham sido desenvolvidos da
maneira como ele (& Leonardo) sonhava – todos seus aviões e seus
planos fazem os nossos jatos parecerem grosseiros e mortíferos. E
esses pilotos musculosos e aeromoças sensuais teriam lhe inspirado
pavor. (Um dia quero escrever um poema sobre tudo isso.)

10 de fevereiro de 1963

Querida Elizabeth

Espero ver a sua Lispector na The New Yorker. Quer que eu entre em
[12]
contato com Jack Thompson e fale sobre sua outra amiga? Sei
perfeitamente bem quem ela é – o jovem brasileiro que esteve aqui
disse que ela e Clarice são as melhores prosadoras no Brasil –, mas
não tenho a sua carta à mão e não tenho certeza da grafia.

Rio, 5 de março de 1963

Querido Cal

Brasil e França estão prestes a entrar em guerra, parece, por causa das
lagostas brasileiras – navios de guerra a postos, notícias de hora em
hora, igual a uma comédia musical.

Aquela senhorita Kray me escreve dizendo que minhas traduções de


Cabral de Melo são “excelentes” – que bom, mas eu queria saber
como ela sabe disso. Posso escrever aquele poema longo inteiro só
[13]
por diversão – se encaixa em inglês com muita facilidade. Também
traduzi alguns poemas de Drummond. Você se importa por eu ter
traduzido “A mesa”, aquele de que você gostou? É o melhor dos
poemas de memórias da infância – e essa parte da poesia dele é a que
mais me agrada. Claro que traduzi do meu jeito rigorosamente literal,
de modo que se você, a qualquer momento, quiser produzir uma
versão Lowell, cheia de vivacidade, eu não acho que a minha vá
interferir com a sua nem um pouco – elas seriam muito diferentes.
Além do mais, no poema, tem muita gíria do Rio que não está no
dicionário – assim você podia “pesquisar” o sentido das palavras na
minha versão (se eu fizer isso – só farei se me pagarem por mais
outros trabalhos).

Obrigado por oferecer ajuda para Rachel de Queiroz. No momento,


estou de folga quanto a tentar ajudar quem quer que seja! – talvez só
para brasileiros! Eles são tão inconfiáveis… É adorável poder ser

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assim, e nós talvez sacrifiquemos muita coisa, com as nossas


consciências e tudo o mais.

Mas tenho a sensação de que, se eu conseguir organizar tudo, ela


pode muito bem dizer que não, que está sem vontade, ou que sem o
marido não pode ir – e depois irá embora para as suas fazendas do
Norte, assoladas pela seca, e ficará deitada numa rede enquanto vê o
gado morrer de sede… Ah, querido, eu gosto dela, mas já tive
problemas de personalidade de sobra por um tempo. Ela acabou de
voltar para o Norte outra vez, para ficar seis meses, bem na hora em
que eu achava que estávamos chegando a algum lugar; e agora tudo
voltou à estaca zero outra vez. Também não ouvi mais falar dos
contos de Clarice. Ela se ofereceu para mandar os contos pelo correio
algumas semanas atrás – aposto que nunca fez isso! Infelizmente só
fui descobrir o melhor conto quando já era tarde demais. Ela me
entregava um conto de vez em quando – talvez eu termine isso
[14]
também, só para fazer o trabalho direito – e depois acabou. Ah,
sem dúvida vou acabar cedendo, mas por um tempo quero pensar
nos meus assuntos.

Elizabeth

Piada infantil brasileira: por que um Volkswagen parece uma bunda?


Resposta: porque todo mundo tem um…

14 de março

Cal,

Isto está na minha escrivaninha há uma semana porque achei que era
maçante e mal-humorado demais para mandar – acabei de reler e,
embora não ache muito interessante, acho que dá para enviar… O
Brasil venceu a guerra da lagosta. Meu canarinho teve um ataque do
coração (acho). Faz uma semana que mal vejo Lota, mas sábado é o
aniversário dela e teremos uma espécie de noite de gala em
Samambaia nesse dia… Fui maldosa a respeito de Rachel de Q. Ela
quer muito ir para os EUA, eu sei, e se ela escrevesse artigos para cá,
provavelmente, talvez tivesse dinheiro para pagar a viagem do
marido também – os dois são muito dedicados. Ela devia ir, o lugar
está ficando inundado de literatura antiamericana violenta, poemas
(acabei de receber dois livros desse tipo) etc. – todos tão rasteiros. Os
escritores e poetas soam como no início da década de 30 nos EUA e é
uma pena que pareçam querer passar por tudo aquilo outra vez –
também passaram por isso aqui (a geração de Rachel). Acabei de ler
[15]
Um Dia na Vida de Ivan Deníssovitch – o livro que Philip Rahv
resenhou. É comovente e estimulante, acho.

Elizabeth

Rio, manhã de terça-feira,

26 de maio de 1963

Querido Cal

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Supõem-se que Carlos [Lacerda] concorrerá para presidente em 1965.


Salve-nos. Muita coisa pode acontecer antes, mas se ele for eleito
tenho certeza de que Lota seria ministra da Educação ou
embaixadora, ou outra coisa. Acredito que ela é de fato a única amiga
que ele tem, às vezes – a única que ousa dizer a ele a amarga verdade
de vez em quando, e ele aceita. Levamos a ele uma carta às onze da
noite de domingo, na qual ela o advertia quanto ao “macarthismo” – e
ela já produziu efeitos.

Todos os comunistas, estudantes, janguistas, nacionalistas etc. se


esgoelam sobre “reforma agrária” – como se qualquer um com juízo
fosse contra a reforma agrária no Brasil. Mas o que eles realmente
querem são mudanças aterrorizantes na Constituição que dariam a
Goulart poderes ditatoriais. Aparentemente há muitas leis boas –
sempre existem aqui – e tudo que eles têm que fazer é colocá-las em
prática. Mas rotulando tudo de “reforma agrária”, quando o que
querem é escrever uma nova Constituição, eles mantêm o povo
atordoado, como de hábito, e os estudantes esgoelando que Carlos é
contra o camponês… Ó, Senhor, estou cheia disso.

Os rapazes brasileiros são muito diferentes dos americanos, sem


dúvida – amantes dos 14 anos em diante, mais ou menos. Eles sabem
tudo de l’amour, mas não têm a menor idéia de como fazer a cama.
Ou limpar os sapatos, ou de como ganhar dinheiro – ou quanto custa
viver – ou como é a vida real da sua empregada. De fato, eles nem
vêem a classe pobre como gente, e ainda acham que são comunistas.

Com amor sempre.

Elizabeth

Rio, 28 de junho [1963] – alvorada

Querido Cal

Acho que o desejo vem primeiro e é isso o que conta, mas se você
nunca vê um Picasso autêntico, finge que Portinari é bom – ou se
nunca na sua vida ouviu música boa, finge que “bossa nova” é bom,
ou Villa-Lobos é o maior etc.

Muito amor.

Elizabeth

Rio, 2 de julho de 1963

Querido Cal

Darcy Ribeiro – que era o reitor da Universidade de Brasília quando


você esteve aqui (& lhe deu seu livro sobre arte plumária) – subiu
muito e bem rápido desde então. Chegou a ministro da Educação, a
chefe de alguma coisa – gabinete – e no momento está travando uma
queda de braço com Carlos. Os jornais vespertinos dizem que o
governo vai destituir Carlos; os jornais da manhã dizem que Carlos
entrou com uma ação na Justiça contra o governo! Que a maldição
[16]
caia sobre as suas duas casas…

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Clarice foi convidada para outro congresso literário na Universidade


do Texas e está se mostrando muito reticente e complicada, mas acho
que em segredo está muito orgulhosa e vai acabar indo, é claro. Vou
ajudá-la com o seu discurso. Penso que vamos ser “amigas”, mas ela é
a escritora mais não literária que já vi e “nunca abre um livro”, como a
gente costumava dizer. Nunca leu nada que eu pudesse descobrir –
acho que é escritora autodidata, como uma pintora primitiva.

Rio, 11 de outubro de 1963

Vinicius [de Moraes] – lembra dele? – casou pela quinta vez. Fugiu
com uma garota de 20 anos, filha do embaixador ou cônsul italiano –
e ela estava noiva de outro. O jovem descartado desafiou V. para uma
briga. Aí quando os dois “foram lá fora”, ele olhou para o coitado e
bêbado V., desistiu e foi embora. V. deixou uma carta para os pais,
dizendo saber que era um comportamento ruim para um
“diplomata”, mas que como “poeta” ele não se conteve… Todos têm
pena da garota…

Rio, 26 de novembro de 1963

Querido Cal

Não tenho muito o que dizer a você, na verdade – os últimos dias


foram como um pesadelo, é claro –, mas senti vontade de lhe escrever
um bilhete. Lota chegou cedo em casa na sexta-feira, de volta do
trabalho, para me contar sobre Kennedy antes de eu ouvir a notícia no
rádio. Se bem que há uma greve no rádio e na tevê já faz uma semana
mais ou menos, e só a rádio do Ministério da Educação está no ar.
Todos os jornais publicaram edições especiais naquela noite. Fomos à
rua e a visão das multidões foi terrivelmente comovente – as ruas
lotadas de gente, as bancas de jornal cheias e muitas pessoas
chorando abertamente. A dor aqui foi autêntica, sem dúvida – certos
ou errados, eles tinham a sensação de que Kennedy era um amigo do
Brasil. Você sabe que os brasileiros são muito mais formais a respeito
da morte do que nós. Devo ter recebido quinze ou vinte telefonemas e
algumas visitas – de “condolências”. Eles também se sentem tão mais
próximos de seus políticos do que nós – na sua maneira de pensar,
todos os americanos devem se sentir como se tivessem perdido um
parente. E têm reações emocionais muito mais rápidas do que os
anglo-saxões – ou do que eu tenho, pelo menos. Lota almoçou com
Carlos hoje e ele disse que estava começando a se sentir normal outra
vez; ao passo que hoje é o dia em que estou começando de fato a me
sentir mal.

Uma estação de tevê finalmente voltou ao ar e assim nós vimos,


provavelmente, alguns dos horríveis cinejornais que você viu –
aqueles carros desmesurados adernando feito gelatina nas curvas,
aqueles rostos gordos do Texas, solenes e burros, aquelas
intermináveis imagens das costas de guardas cobertas de coldres e
cartuchos de munição… Ah, Deus, que barafunda. Talvez uma parte
esteja esclarecida quando você receber esta carta, mas receio que o
assunto vai se arrastar.

Amigos nossos acabaram de voltar depois de passar três meses em


Washington e na Filadélfia – americanos – e dizem que estão
contentes por estar de volta, por mais horrível que seja a situação por

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aqui. Acham que a atmosfera por lá está muito Sodoma e Gomorra,


creio – dinheiro, dinheiro, dinheiro e aterradores problemas com os
negros. Bem, aqui estamos esperando um golpe (do presidente) a
qualquer momento. Hoje e ontem o clima ficou mais quente, MUITO
quente – e a gota de água, no que diz respeito a greves, é uma greve
de coveiros… aqui não se costuma embalsamar e não há refrigeração
que chegue!

Com muito amor, como sempre.

Elizabeth

10 de março de 196[4]

Querida Elizabeth

Saiu uma matéria no Times nesta manhã sobre o fato de Goulart ter
encampado refinarias de petróleo e muitas terras – lúgubres
ponderações dos EUA sobre a agitação incessante. Espero que não
haja nenhum problema novo.

Penso em vocês duas todo dia. Mande mais notícias, e um outro


poema ou poemas. A família manda seu amor e eu, todo o meu.

Cal

3 de abril de 1964

Querida Elizabeth

Tudo parece calmo e em paz no Brasil no último dia e meio, mas


ainda tremo ao tentar imaginar a agitação dos últimos dias e, sem
dúvida, das últimas semanas ou meses.

As últimas notícias que li informam que os fuzileiros navais estavam


atacando o palácio do governador cercado por barricadas e, enquanto
isso, a polícia do governador tentava tomar o pequeno Forte de
Copacabana. Enquanto eu voltava de avião para casa, havia um céu
claro sobre o Atlântico quando chegamos lá e imaginei a mesma lua,
milhares de milhas ao sul, brilhando sobre o mesmo oceano, tudo
estranhamente mais próximo, porque a praia de areia, como uma
estrada, levava até você, e em pensamento a gente podia andar sobre
ela e se perder, quando então pensei em aglomerações em conflito,
formadas por soldados magros e de capacete. Graças a Deus tudo
acabou. Percebo que depois que deixei o Brasil tudo fermentou e que
aquela única semana tinha pouco a revelar do que viria a ser a
realidade na semana seguinte. Espero que a mudança tenha atenuado
as sombras para você e Lota, e também para o país. Escreva e conte o
que aconteceu com vocês e tudo aquilo que seus olhos iluminaram.

Rio de Janeiro, 4 de abril de 1964

Queridos Lowellzinhos,

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Bem, foi uma revolução rápida e bonita, debaixo de chuva – tudo


terminado em menos de 48 horas. De fato, sentimos um estranho
esvaziamento, nos preparamos para viver coladas no rádio e na tevê,
deitadas sobre muitos sacos de café; eu assei pão – não havia pão para
vender etc. – e também assei um pernil de porco! Porque achamos
que ia faltar gás. Agora estamos comendo o pernil todo… Revoluções
modernas, aprendi, são engraçadas, tudo pára de funcionar – menos o
telefone, porque é automático –, portanto todo mundo fica sentado no
escuro, sem tomar banho etc., telefonando para os amigos o dia
inteiro e a noite inteira.

Lota e outra mulher eram as únicas no Palácio Guanabara (de Carlos).


Lota tinha um salvo-conduto de um dos generais, e entrava e saía
passando pelas tropas do presidente, que cercaram o palácio. Todos
os homens lá dentro mostravam as armas uns para os outros etc. Mas
o palácio não resistiria a um ataque, havia apenas 100 soldados, com
armas leves. No dia 1º de abril, Carlos lançou um pedido de socorro
pelo rádio e pareceu de fato desesperado. Peguei a transmissão em
ondas curtas, por intermédio do estado de Minas, pois o governo
ocupou as estações de rádio aqui e, por dois dias, só captamos um
monte de mentiras e o hino nacional. Esse foi o pior momento – eu
sabia que Lota estava lá dentro, ela insistiu em voltar para lá, ou eu
esperava que estivesse e que não fosse apanhada pelas tropas
federais. Contudo uma hora mais tarde tudo havia terminado. Todo o
exército veio e voltou-se contra Goulart – e ele já havia fugido, mas
nós não sabíamos. Então uma enxurrada de pessoas saiu para as ruas
– chuvas de papel picado, bandeiras, música etc. Saí de carro com um
amigo para ver a cidade. Na calçada, um autêntico toque do Rio –
homens grandes e peludos, de calção de banho, dançando feito
loucos, sacudindo suas toalhas molhadas. A coisa toda transcorreu
debaixo de violentas tempestades, portanto o papel ficou grudando –
carros, tanques, tudo lambuzado de papel molhado.

As duas últimas semanas correram cada vez mais alucinantes.


Goulart exagerando o seu papel obviamente, e pelo visto
superestimando sua força como um tolo – ou sendo forçado a isso. O
outro lado (nós somos os “rebeldes”!), subestimando a força deles.
Segunda à noite vimos Goulart na tevê fazendo um discurso
bombástico num comício-monstro de sargentos. Foi terrível, quase
patético – os agitadores tentando ler discursos escritos para eles, sem
conseguir ler direito etc. L & eu chegamos a dizer uma para a outra:
“Bem, isso é o fim, não tem jeito.” E sem dúvida foi mesmo. O
Exército não ia aceitar aquilo. Só um exército continuava
supostamente leal ao presidente – e então em 1º de abril ele também
mudou de lado & foi o fim. Mas o clima estava bastante tenso quando
soubemos que o Rio se encontrava completamente sob controle
federal, exceto por Carlos, que se mantinha resistindo naquele tolo
palaciozinho, enquanto o único exército “inimigo” estava marchando
para supostamente nos subjugar… Muito pouca gente morreu, pelo
menos até onde a gente sabe. (Desconfio que isso ocorreu porque não
havia veículos de transporte e poucos carros estavam na rua;
provavelmente algumas dúzias das mortes de costume devidas a
atropelamentos e acidentes de carro foram evitadas…) O Forte de
Copacabana desempenhou um papel importante, mas só um soldado
foi morto. Agora faz dois dias que estão prendendo pessoas – oh,
Deus – e a maioria dos figurões fugiu.

Rio de Janeiro, 7 de abril de 1964

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2/29/2020 “Foi uma revolução rápida e bonita”

Mais de 3 mil pessoas presas só no Rio. Carlos deu várias e várias


ordens, nenhuma brutalidade policial será permitida etc., mas
incidentes acontecem com qualquer polícia.

A coisa mais estimulante, na verdade, foi a passeata do dia 2. Foi


planejada por duas semanas como uma manifestação anticomunista.
Nessa ocasião, no dia 2, a revolução já estava terminada e os
comunistas em fuga; portanto, não era mais necessária. Porém mais
de 1 milhão de pessoas saíram às ruas e marcharam – de novo
debaixo de uma chuvarada. Foi de fato impressionante. Estou
mandando para você algumas revistas com fotos – vamos ver se você
recebe. De fato a manifestação foi espontânea e não é possível que
sejam todos da direita rica e reacionária… O dia 1° de abril é aqui o
dia da mentira, portanto agora andam dizendo: “A verdade apareceu
no dia da mentira.” Não acredito em tudo o que os jornais dizem, é
claro, mas Lota está em condições de saber bastante coisa.
Descobriram até agora mais de 15 toneladas de material de
propaganda chinesa e russa – além de armas, explosivos etc. A
quantidade é que é impressionante.

Ando horrivelmente deprimida com o que está acontecendo por aqui


e meu único pensamento é ir embora por um tempo. A Inglaterra é o
melhor lugar, creio – posso falar a língua, mais ou menos, e acho que
eles não dão a mínima para o Brasil, assim ninguém vai me fazer
perguntas.

Elizabeth

Rio, domingo, 13 de abril de 1964

Querido Cal

A junta militar provavelmente parece muito pior vista de fora do que


vista daqui. Como você sabe, os militares no Brasil jamais na sua
história tentaram tomar o poder ou mantê-lo – e Castelo Branco
relutou em ser presidente. Agora temos um vice-presidente terrível
[17]
– sagaz, mas desonesto –, porém não acredito que ele vai ter muito
poder. A suspensão dos direitos, a cassação de boa parte do
Congresso etc., isso tinha de ser feito por mais sinistro que pareça. De
outro modo teria sido uma mera “deposição”, e não uma “revolução”
– muitos homens de Goulart continuariam lá no Congresso, todos os
comunistas ricos iriam fugir (como alguns fugiram, é claro) e os
pobres e ignorantes seriam entregues à sua sorte.

Muito amor.

Elizabeth

14 de abril

Estou FURIOSA com o que os jornais dos EUA andam dizendo, pelo
que vejo citado, e com os comentários do adido cultural que veio
jantar conosco na noite passada…

Ele estava admitindo que os EUA eram pró-Carlos embora, claro, não
possa dizer isso abertamente, e que as coisas saíram da maneira como
eles queriam. Enquanto isso, argumenta que é errado retirar os
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2/29/2020 “Foi uma revolução rápida e bonita”

direitos civis etc. Bem – idealmente falando, é claro –, o que é que se


pode conseguir num país pobre, fraco, praticamente sem polícia
nenhuma? Os EUA podem enfrentar espiões, sindicalistas, corridas
armamentistas; o Brasil obviamente não pode. Se tivessem dado esse
passo trinta anos atrás, na primeira vez que Vargas ficou fora do
poder – cassando seus direitos civis –, ele nunca teria sido capaz de
voltar como ditador, e todos os anos de degradação e abatimento
[18]
poderiam ter sido evitados… R. Aron foi a única pessoa que
conseguiu entender as coisas por aqui – e sou grata a Carlos por ter
citado Aron. Pergunte para Hannah Arendt! Aposto – se ela souber
alguma coisa sobre o Brasil – que ela estaria de acordo com Carlos
agora. Claro que é o que ele faz – o que ele é capaz de fazer – e eu
gostaria de poder ficar longe por dois anos e não ter de passar pela
próxima fase.

É gozado, os americanos esbravejam sobre “democracia” há anos –


um grande princípio geral –, depois esbravejam de novo quando
espiões chineses são presos ou uma dúzia de conhecidos desonestos e
cretinos são mandados para o exílio… É um estranho senso de
proporção acerca dos países, para dizer o mínimo.

Claro que um problema é que os EUA nunca mandaram pessoal de


[19]
primeira linha para cá. Gordon comportou-se bem, acho. Ele fez
uma piada: “Agora os EUA têm a sua Casa Branca e o Brasil tem o
seu Castelo Branco…” Não é a perfeita piada de sala de aula de que
os estudantes riem educadamente? Coitado do professorzinho.

1º de maio de 1964

Querida Elizabeth

Não acho que a revolução aí não deu certo. A última Time traz um
levantamento da apropriação indevida de terras feita por Goulart –
um por cento das terras do Brasil! Ele parece mais desonesto do que
Kubitschek. Parece loucamente ineficiente, desonesto e corrupto. Só o
seu ministério, acho, era de figuras ilustres, mas é possível escrever
uma tragédia ótima sobre como o presidente preparou a própria
queda. O problema com as matérias da imprensa é que há excessivas
palavras políticas fixas. Atualmente, elas não significam a mesma
coisa em dois países, quaisquer que sejam, e até de um mês para o
outro os fatos mudam. Acho que todo mundo tem a sensação de que
o Brasil estava caindo rapidamente no caos, até mais rapidamente do
que os brasileiros sabiam ou previam, até o último momento.

Você fala sobre o temperamento artístico, que não combina com esses
assuntos. Mas você capta as coisas de forma bem perspicaz e retorna
à superfície com as mãos cheias. Sou um pateta nessa matéria.
Gostaria que você pudesse achar formas, narrativa, descrição, ficção,
poemas para expor isso. Talvez seja preciso tempo e distância. Olho
nenhum no mundo viu o que seus olhos viram. Tenho uma vaga
imagem de uma sequência de poemas ao longo dos quais a Revolução
se movimenta – nenhum enredo ou polêmica óbvios, mas a coisa
corporificada, presente em todo o seu aspecto terrível, absurdo –
bom, mau, real, confuso, esclarecido e, no fim, julgado. Não me refiro
a nada neutro ou para além da política, é bem o contrário, tudo
resgatado dos clichês levianos, duros, superficiais de que os que se
afastam abrem mão da realidade, de que nós todos abrimos mão até
daquilo que conhecemos bem. Estou pensando de fato que a

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Revolução podia fornecer a você um fio para costurar as impressões


coletadas ao longo da sua estada de dez anos.

Samambaia, 22 de maio de 1964

Querido Cal

Carlos vai partir nesta noite para ficar uns meses fora – esse estranho
sistema brasileiro é uma boa idéia no caso dele. Se ficasse, sem dúvida
iria começar a lutar contra o Castelo Branco, mais dia, menos dia, pois
é da natureza dele lutar, e agora que perdeu a sua GRANDE causa,
pelo que mais pode lutar? Quero dizer, ele venceu este round contra
os “comunistas”, então o que vai fazer agora? Há pessoas muito boas
e honestas no novo gabinete – o New York Times etc. estão
absolutamente ERRADOS –, mas estou tão farta de tudo isso que não
suporto mais pensar no assunto.

Elizabeth

27 de agosto de 1964

Querido Cal

Todos estão morrendo. Um de nossos melhores amigos, o arquiteto


Affonso Reidy (não sei se você o conheceu – magro, alto, impecável,
mais escocês do que brasileiro, e um dos melhores arquitetos) acabou
de morrer aos 54 anos, depois de seis meses terríveis. Lota ficou
muito abalada (por essa razão parti de Londres duas semanas mais
cedo – para chegar aqui antes da morte dele). Reidy e sua esposa
tinham uma casa de fim de semana perto da nossa e agora acho que
não sobrou ninguém para a gente conversar ou receber em casa para
jantar no domingo – está um deserto. Reidy também era uma das
poucas pessoas sãs com quem Lota tinha trabalhado. Ela jura que
todos os homens brasileiros são ligeiramente doidos – as mulheres
podem ser sãs, mas infelizmente são retardadas mentais…

O Brasil?, você me perguntou. Eu prefiro não pensar nisso. Quando


voltei, tive a sensação de que não conseguiria suportar, e não
conseguiria mesmo se não fosse por Lota, claro. Agora já estou me
acostumando um pouco outra vez. Mas tenho de ficar me lembrando
de que Lota, de algum modo, assume isso a sério, de que ela está
fazendo um trabalho útil e muito bem-feito, e de que no ano que vem
nós vamos para a Europa outra vez (agora isso parece estar mesmo
certo). Há uma tênue depressão, a inflação anda horrível, embora não
tenha mudado grande coisa enquanto estive fora, e se sente uma
agitação em toda parte e o tempo todo.

Elizabeth

Rio, 6 de julho de 1965

Querido Cal

Não houve muito estardalhaço sobre a ida de soldados brasileiros


para a República Dominicana – acharam que ia haver, mas não

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2/29/2020 “Foi uma revolução rápida e bonita”

houve. Fico acordada e rezo de noite para que ninguém seja morto!
(Três feridos voltaram até agora. O primeiro caiu de uma árvore.
Como diz L., na certa estava roubando frutas, no tradicional estilo
brasileiro. Um outro explodiu sua própria granada de mão, nada
sério, e um de fato foi ferido pelo “inimigo”, de novo sem gravidade.)
Os jornais dizem que o Exército americano os enviou para “comandar
o trânsito – com calma e tranquilidade”! Isso parece o procedimento
rotineiro do Exército – mandar um ferreiro costurar ou soldados que
falam francês para o Japão…

Elizabeth

Rio, 2 de agosto de 1965

Querido Cal

Li de fio a pavio uma enorme antologia – Uma Controvérsia de


Poetas – e os seus três poemas familiares na antologia são os ÚNICOS
que me fariam, bem, atravessar a rua para cumprimentar o poeta.
Talvez haja um ou dois bons além deles, mas nada de comparável, na
verdade. Achei o livro inteiro tremendamente deprimente; fez me
sentir muito démodé, como diz Lota. Eu tenho de escrever prosa
usando palavrões, f…, m… e assim por diante, vejo isso… – e não é
estranho que de todos os problemas e de todo o nervosismo possa
sair algo razoavelmente “sereno”? Bem, agora eu nem me importo se
for mal recebido – o que você disser já é o bastante!

Também acabei de ler o último livro de Sylvia Plath e o de Auden – e


queria saber o que você acha deles. Sylvia P. me parece uma perda
trágica – embora eu mal consiga suportar ler seus poemas até o fim,
são muito sofridos. Um pouco informes demais para o meu gosto,
também – mas um verdadeiro talento, não acha? E Auden parece
estar desfrutando em excesso uma espécie de velhice prematura… Há
alguns bons, porém.

Bahia – bem, acho que você deu uma passada por lá, ou ficou lá por
uns dias bem insatisfatórios que eu me lembre, quando ninguém
conseguia encontrar ninguém. Passei uma temporada ótima de fato,
mas é tão pobre – mesmo comparado com o pior do Rio – que acaba
sendo muito deprimente. Ruínas magníficas, na maior parte – e ouvi
muita música meio africana, e comi um monte de comida meio
africana. As prostitutas (sempre em volta das igrejas, na rua atrás da
igreja) quase arrastaram Ashley, que estava do meu lado, e
assoviavam e chamavam por ele das janelas das sacadas. Como ele é
o homem de aspecto mais professoral do mundo – alto, magro, de
óculos muito grossos e costas curvadas –, acho que ficou um pouco
assustado. Todos os “intelectuais” são assim, muito de esquerda –
quando não são comunistas, como Jorge Amado – e muito friamente
polidos conosco, americanos. Ficamos oito dias.

Lota anda estafada de tanto trabalho. Levamos o maior susto por


causa do coração dela. Sem contar nada para Lota, chamei o médico e
o cardiologista para virem no domingo de manhã e tudo está bem,
graças a Deus. Em consequência dormimos direto por umas quatro
horas – de alívio, suponho. Lota anda tremendamente importante
ultimamente e, é claro, correm rumores (sempre correram, na
verdade) de que ela está ganhando uma “fortuna” com o seu parque e
guardando o dinheiro no exterior – uns dizem que nos EUA, outros
na Suíça… Carlos está cometendo um erro depois do outro, me

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2/29/2020 “Foi uma revolução rápida e bonita”

parece – perdeu a mão, ou algo assim. Duvido muito que venha a ser
eleito agora. (E tenho medo que seja eleito.)

Elizabeth

Ouro Preto, Minas Gerais,

19 de setembro de 1965

Querido Cal

O Rio começou a ser demais para mim outra vez e por isso subi para
cá – com a intenção de ficar só duas semanas. Agora já faz um mês e é
provável que fique mais duas semanas. Depois é possível que Lota
tire uns dias de folga, suba para cá e então volto com ela. Tem sido
uma fase absolutamente mortal para ela e me sinto culpada por
abandoná-la, mas eu não estava ajudando grande coisa, de fato –
vagando pelo apartamento no meio do maior calor, tentando
trabalhar, sem nenhum sucesso, enquanto ela enfrenta políticos,
salafrários, jornalistas, dezoito horas por dia… Agora escrevo para ela
quase todo dia e tenho certeza de que ela aprecia minhas cartas mais
do que minha companhia por ora, coitada! Aqui é muito parado, mas
adoro. Fico com a nossa amiga Lili Correia de Araújo, a dona do hotel
onde você ficou, mas moro na casa dela – um enorme prédio
construído numa encosta na periferia da cidade, com uma mina de
ouro no quintal, além de alojamentos de escravos em ruínas, jardins
morro acima em degraus nivelados e água corrente que desce por um
maravilhoso conjunto de aquedutos, túneis, fontes, tanques de pedra
etc. agora cobertos por samambaias muito crescidas e musgos. Lili
tem uma aterradora coleção de algemas e argolas de prender os pés
encontradas em escavações no terreno. Ela é dinamarquesa, casada
com um pintor brasileiro muito tempo atrás, quando estudava arte
em Paris. Nossos idiomas ficam muito misturados. Eu a chamei de
tow-headed [mulher de cabelo muito claro] e ela pensou que eu tinha
dito two-headed [de duas cabeças]. Ela diz your ass [sua bunda] em
vez de dizer your ace [seu ás] quando estamos jogando cartas.

Rio, 18 de novembro de 1965

Querido Cal

Houve uma pequena manifestação de intelectuais na frente do hotel


[20]
Copacabana Palace, e dois ou três homens foram presos. Porém,
não tenho muita simpatia por eles tampouco. NÃO há uma
“ditadura” aqui – acho que todos eles só querem virar mártires, na
verdade. Por outro lado, parece que a nossa diplomacia latino-
americana se perdeu de todo e transferiram tudo para as mãos do
Pentágono – tenho a sensação que, de fato, é apenas uma manobra
militar.

Gosto de Ouro Preto porque tudo aqui foi feito na hora, à mão, de
pedra, ferro, cobre e madeira – e tiveram de inventar muita coisa –, e
tudo resistiu muito bem durante quase 300 anos. Eu achava que era
só sentimentalismo da minha parte – agora estou começando a levar
isso mais a sério. Bem, estou curiosa para ver minha terra natal outra
vez. Conte o que anda fazendo – em Harvard de novo? E eu estou
morrendo de vontade de ver você & conversar com você.
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Amor.

Elizabeth

15 West 67 Street, Nova York,

15 de setembro de 1966

Querida Elizabeth

Em meados do verão, seguindo meu desejo e ignorando meu bom


senso, fui a uma festa de aniversário para Jackie Kennedy: um edifício
branco em forma de torre, quartos alugados para os convidados pela
nossa anfitriã, a senhora Paul Mellon, sob os olhares de relance
vespertinos do que deviam ser outros convidados, mulheres com
penteados de 30 centímetros de altura, sorrisos, mas nada de
apresentações, informação de que o nosso barco ia chegar às oito, que
podíamos tomar um drinque ou alguns drinques grátis, nadar
sozinhos – na água quase congelada do Maine –, um passeio de carro
solitário e maçante, e o regresso para os convidados reunidos e
bebendo. Pessoas com nomes como os dos figurões do noticiário, das
finanças, da política, mas muitas vezes sem nenhum parentesco, ou
primos distantes. Barco com champanhe em copos de papel, uma
lancha acompanhando nosso barco, lindo pôr do sol, creditado ao
planejamento da senhora Mellon. Depois atracar no cais, enxames de
novos conhecidos-desconhecidos com lampiões, grande barraca, ar de
simplicidade rústica muito cara. Horas de espera, com a sensação de
que ninguém do nosso mundo era conhecido de nenhum dos outros
convidados, exceto Mike Nichols. Ar de drama e espera por Jackie, o
avião fretado para Lillian Hellman e os Styron. Após um tempo, de
súbito, Jackie se faz presente e conversa com Mike Nichols; o grupo
de Hellman está lá, os dois senadores Kennedy, McNamara. Mais
tarde, um jantar suntuosamente simples: só consigo me lembrar das
costelas de carneiro cor de sangue. Mike Nichols ao lado de Jackie,
depois pessoas de meia-idade dançando as danças novas, não muito
frenéticas, mas jovens demais para mim. A sensação foi de uma
festança para uma extemporânea Maria Antonieta ligeiramente
cafona, quando a idade para ficar empolgado com esse tipo de coisa já
passou, o esplendor da alta sociedade, um pouco sinistro e de mau
gosto num mundo de pobreza e sangue. A pessoa mais interessante
para conversar era Bobby Kennedy, mas, como Carlos, junto com a
franqueza, ele dá uma sensação assustadora de ambição e poder.

Cal

3 de março de 1967

Querido Cal

Fiquei comovida com a “leitura” do meu poema… meu único poema


em um ano ou mais. Bem, é simpático da sua parte gostar dele,
certamente não poderia ser muito mais simples do que é. Fiquei
debruçada naquela janela dia após dia (foi escrito um ano atrás, em
outubro – dane-se a New Yorker! Mas é o único jeito de ganhar algum
dinheiro) porque a casa VELHA aonde fui e que comprei fica em
frente à casa de Lili, numa diagonal, no outro lado da rua – e também
na frente de uma cascata, que passa embaixo das janelas. Tenho uma

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2/29/2020 “Foi uma revolução rápida e bonita”

vista magnífica que inclui seis ou oito igrejas. Estou instalando uma
varanda pequena, mas autêntica, nos fundos, para tomar o café da
manhã ou tomar um café depois do jantar. A casa é de 1720-40, refeita
muitas vezes, claro, mas L. e eu sempre quisemos ter uma casa velha
para brincar, e ela está planejando um jardim celestial e murado, com
uma fonte etc. É provável que só passemos lá um mês ou dois de cada
vez – mas eu espero que você veja a casa num dia desses.

Mas tivemos de abreviar nossa estada em duas ou três semanas. Lota


estava piorando e eu estava louca para levá-la para casa de novo – e
ela também queria vir, diferente da sua personalidade viajante de
costume. Ela detestou Londres – não sei se algum dia serei capaz de
levá-la a Londres outra vez. É pena porque acho que foi a sua saúde
que a deixou tão crítica – chegou a me convencer que Trafalgar
Square é feia e completamente ERRADA… & assim com tudo o mais!
Faz muito tempo que esse ataque vinha se preparando em Lota, os
médicos me garantiram – ela estava com um aspecto horrível quando
voltei em julho. Mas não consigo deixar de me culpar por ter me
afastado, embora eu achasse que precisava deixar a atmosfera daqui
por um tempo – & isso faz-me sentir culpada. Ela ficou numa clínica
aqui por dois períodos – depois, por fim, eu também desabei e fui
para a mesma clínica (dirigida por freiras de Barcelona), mas ela
estava dez vezes mais doente do que eu e só está melhorando muito
gradualmente. Agora no dia 8 vamos para Samambaia passar uma
longa temporada, por isso se você escrever POR FAVOR use o
endereço de Petrópolis. Ela ESTÁ muito melhor, mas passamos de
fato um mau pedaço & torço muito para que ela abandone aquele
emprego de todo – ah, bem, tudo isso é muito complicado para ir
mais a fundo e tenho certeza de que seria a mesma coisa que
trabalhar para um governo ou uma prefeitura em qualquer outro
lugar do mundo…

Uma das questões mais sérias é que Carlos traiu todos de uma forma
horrível – depois de todos os seus anos de luta contra a gangue de
Vargas e a corrupção, de repente, por razões políticas, passou para o
lado deles (e dos comunistas) de novo. Faz anos que não consigo
suportá-lo; ao menos continua a escrever cartas de amor para L.; na
verdade, tenta fazer as pazes com ela de novo – mas como Carlos
deixou, de fato, o “parque” de Lota indefeso, e agora ele pode muito
bem ser dividido em duas partes, ela ainda se sente muito
amargurada e não creio que algum dia vá mudar. De todo modo,
para o inferno com os políticos.

Lembranças para a família – muito amor – e obrigado pelo seu livro.

Elizabeth

Caixa Postal 279, Petrópolis, Est. do Rio de J. (melhor agora), 23 de


abril de 1967

Querido Cal

Carlos começou (com seus ex-inimigos, a maioria dos quais está


oficialmente no exílio ou pelo menos não pode ocupar cargos
públicos por dez anos) uma coisa chamada “Frente Ampla”! Faz mais
de dois anos que não o vejo. Parece que ficou ofendido com uma
pequena matéria que escrevi para o New York Times, que foi
abominavelmente cortada e desfigurada, mas me atrevi a dizer que o
Rio estava em muito mau estado e não incluí um elogio a ele…

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[21]
Esse novo presidente, por mais sinistra que fosse a sua “imagem”
quando estive nos EUA, na verdade é provavelmente um pouco mais
liberal do que o último, mas não parece muito promissor. Lota teve
[22]
diversas entrevistas com o novo governador (que derrotou Carlos
duramente) e ele é desolador – disse para Lota que essa parte da
cidade estava boa (está caindo aos pedaços) e não fazia nenhum
sentido tentar fazer nada sobre a “Zona Norte” onde vivem milhões
de pobres. Imagine dizer uma coisa dessas. Sem falar nos
[23]
deslizamentos de terra, com centenas de mortos. “Não é culpa
minha se a terra resolve se mexer quando sou governador”, e assim
por diante – inacreditável. Um velho homem de Vargas.

Lembranças à esposa e à filha, se estiverem com você outra vez.

Elizabeth

Nova York, N.Y., 10 de julho de 1967

Querido Cal

Lota tem um ótimo psiquiatra – shrink, como dizem meus alunos e


você também! Não fui exatamente tratada, mas fui vê-lo uma vez por
semana mais ou menos – e graças a Deus Lota tem esse psiquiatra e a
nossa criada dedicada – eu não permitiria que fosse de outro modo.
(Ele lê você – o shrink –, Deus também lê, sem dúvida.)

Elizabeth

1599 Pacific avenue, São Francisco, Califórnia, 9 de janeiro de 1968

Querido Cal

Vou passar a borracha em toda a minha estada no Brasil; foi de fato


terrível demais para se comentar – não só a arrumação das malas, por
mais horrível que tenha sido, mas o comportamento das pessoas que
pensei que eram minhas amigas por quase dezesseis anos. Creio que
tudo pode ser explicado, mas tive antes a sensação de que eu estava
sendo usada como uma espécie de bode expiatório – sem exagero – e
agora acho que a morte de Lota deixou todo mundo com uma
sensação de culpa, e então eu apareci e fui inconscientemente usada
desse modo. Seja como for, vou levar anos para esquecer e estou
planejando como poderei voltar a Ouro Preto sem passar perto do
Rio. Houve algumas exceções, claro, graças a Deus. Mas se alguém
por lá quiser me ver outra vez vai ter de ir a Ouro Preto me visitar.

A casa lá é absolutamente adorável – espero que você possa vê-la um


dia. Deve ficar totalmente pronta em julho e, se eu conseguir
economizar o dinheiro necessário, vou tentar voltar lá no verão, eu
acho. Passei dez dias lá – um alívio enorme na maior parte do tempo.
Vinicius de Moraes também estava hospedado no hotelzinho,
“repousando”, e foi uma ótima companhia – é de fato muito gentil e
simpático. Levou-me até o avião quando fui embora do Rio (eu estava
indo sozinha, num táxi, do meu hotel) – e chegou até a pagar uma
parte do meu excesso de bagagem, de outro modo eu nunca teria
embarcado. Nesta altura, ele deve estar visitando Nova York, acho.
Seja como for, tem tanta admiração por você que assumi a

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2/29/2020 “Foi uma revolução rápida e bonita”

responsabilidade de lhe dar o endereço do seu apartamento (não do


outro) e o obriguei a jurar segredo quanto a isso. Talvez ele vá
procurá-lo e vocês possam ir almoçar juntos ou algo assim… Ele foi
um ótimo amigo para mim nesse período.

Graças a Deus, Cal, agora estou com uma companheira vivaz, gentil,
divertida – não creio que eu fosse capaz de morar sozinha por
enquanto, ou morar em Nova York, e seguramente não no Brasil.
Suzanne é de fato uma boa garota e datilografa todas as minhas cartas
de trabalho; vai datilografar para mim etc. “Secretária” soa decadente
para mim, mas talvez eu estivesse mesmo precisando de uma
secretária, e por muito tempo!

Com muito amor sempre.

Elizabeth

[Ouro Preto, Brasil],

9 ou 10 de dezembro de 1969

Querido Cal

Agora acho que Ouro Preto é um lugar maravilhoso para visitar, mas
eu não queria morar aqui… pelo menos acho que não. Neste
momento, faz uma noite maravilhosa depois de um mês de chuva; as
pedras estão lindas, esta É a casa mais bonita do mundo e o guarda-
louças foi pintado. No entanto eu gostaria de levar a casa, ou a casa
de Lota, pelo ar – como aquela igreja na Itália –, milagrosamente para
Connecticut ou algum estado assim.

Vinicius de Moraes esteve aqui rapidamente na semana passada –


[24]
imediatamente seguido pela sua quinta esposa, para ficar de olho
nele, grávida de seis meses, e com mais três filhos de um casamento
anterior… Perguntou tudo sobre você e de algum jeito viu alguns de
seus sonetos, que admirou imensamente. Coitado, parece doente,
terrível, e não consegue parar de casar & beber. Tem planos para ir a
N.Y. em maio, mas duvido que faça isso.

Belo Horizonte, 3 de maio de 1971

Querido Cal

Me dou conta de que o meu mundo brasileiro chegou de fato a um


fim e tenho de sair dele depressa. Levei muito tempo para reagir,
como sempre. Céus, mas espero que você esteja bem e que tudo esteja
bem com você.

Elizabeth

[1]
Howard Moss (1922-87), poeta e editor americano.

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[2]
André Le Nôtre (1613-1700), paisagista francês, jardineiro de Luís
XIV, criador do parque de Versalhes.

[3]
Carlos Lacerda (1914-77).

[4]
No início de setembro, os militares e os “legalistas” que queriam
honrar a Constituição selaram um compromisso precário, mudando
temporariamente o regime para o parlamentarismo, governado por
um primeiro-ministro. Isso permitiu que Goulart assumisse a
Presidência no dia 7 de setembro como uma autoridade simbólica, na
dependência de um plebiscito nacional.

[5]
Não foi publicada.

[6]
John Greenleaf Whittier (1807-92), poeta abolicionista e americano.

[7]
Henry Wadsworth Longfellow (1807-82), poeta americano.

[8]
Arthur M. Schlesinger Jr. (1917-2007), historiador americano, na
época conselheiro do presidente John F. Kennedy.

[9]
Ver Adeus às Armas, Ernest Hemingway (1929).

[10]
Memórias Póstumas de Brás Cubas.

[11]
Refere-se aos versos 136-137 do poema “A vaidade dos desejos
humanos” (1749), de Samuel Johnson, a respeito de um intelectual
idealista.

[12]
Rachel de Queiroz (1910-2003).

[13]
Elizabeth Bishop traduziu uma parte de Morte e Vida Severina.

https://piaui.folha.uol.com.br/materia/foi-uma-revolucao-rapida-e-bonita/ 21/22
2/29/2020 “Foi uma revolução rápida e bonita”

[14]
As traduções de Elizabeth Bishop dos contos “The smallest woman
in the world”, “A hen” e “Marmosets” (respectivamente “A menor
mulher do mundo”, “Uma galinha” e “Macacos”), de Clarice
Lispector, foram publicadas na The Kenyon Review, em 1964.

[15]
Romance de Alexander Soljenítsin (1918-2008) publicado
clandestinamente na União Soviética e traduzido para o inglês em
1963.

[16]
Alusão a Romeu e Julieta, de Shakespeare. Imprecação feita por
Mercúcio, ao morrer, contra os Montecchio e os Capuleto.

[17]
José Maria Alkmin (1901-74).

[18]
Raymond Aron (1905-83), intelectual francês.

[19]
Lincoln Gordon, o embaixador americano no Brasil.

[20]
A manifestação foi na frente do Hotel Glória e dela participaram
oito intelectuais, entre eles Antônio Callado, Glauber Rocha e
Joaquim Pedro de Andrade.

[21]
Arthur da Costa e Silva (1902-69).

[22]
Francisco Negrão de Lima (1901-81).

[23]
Trata-se das enchentes de fevereiro e março de 1967.

[24]
Na verdade, sua sexta esposa, Cristina Gurjão.

https://piaui.folha.uol.com.br/materia/foi-uma-revolucao-rapida-e-bonita/ 22/22

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