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A SAÚDE DO TRABALHADOR COMO

UM DIREITO HUMANO

José Antônio Ribeiro de Oliveira Silva*

Resumo: A saúde do trabalhador é um direito humano, um valor fun-


damental do sistema jurídico, alicerçado no princípio ontológico da
dignidade da pessoa humana. Trata-se de um bem jurídico que com-
põe o catálogo das necessidades básicas do ser humano, na teoria do
mínimo existencial. Como um direito essencial, deve a saúde ser enten-
dida como o mais completo bem-estar físico-funcional da pessoa, em
seus aspectos negativo e positivo. Esse direito tem dois aspectos essen-
ciais, que configuram seu conteúdo mínimo: a) o direito à abstenção,
por exemplo, de exigência de horas extras habituais; b) e o direito à
prestação, com as medidas de prevenção estipuladas pelas normas
regulamentadoras.

Palavras-chave: direitos humanos; saúde do trabalhador; dignidade


da pessoa humana.

Sumário: 1 Introdução; 2 Noção de direitos humanos; 3 Fundamento


dos direitos humanos; 4 As gerações de direitos humanos; 5 A saúde
do trabalhador como um direito humano; 6 O direito à saúde do traba-
lhador; 7 O meio ambiente do trabalho – o princípio da prevenção; 8 O
conteúdo essencial do direito à saúde do trabalhador; 9 Conclusão; 10
Bibliografia.

1 INTRODUÇÃO talogados nas Constituições con-


temporâneas como direitos funda-
Dentre os direitos sociais que mentais1 , o direito à saúde assume
foram reconhecidos à pessoa huma- especial relevância, porquanto de
na e há quase um século estão ca- pouca valia os direitos de liberda-

*José Antônio Ribeiro de Oliveira Silva é Juiz do Trabalho, Titular da Vara de Orlândia (SP),
Mestre em Direito Obrigacional Público e Privado pela UNESP, Doutorando em Direito Social
pela Universidad de Castilla-La Mancha (Espanha) e Professor do CAMAT – Curso Avançado
para a Magistratura do Trabalho em Ribeirão Preto (SP).
1
Os direitos sociais foram erigidos em norma constitucional pela primeira vez em 1917, com a
Constituição do México, e logo em seguida com a Constituição de Weimar, na Alemanha, em
1919. A Constituição brasileira de 1988 traz um rol de direitos sociais em seu art. 6º, destacan-
do-se alí os direitos à educação, à saúde, ao trabalho e à previdência social.
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de se a pessoa não tem uma vida mano, compreendida no catálogo


saudável que lhe permita fazer suas de necessidades básicas das pessoas,
escolhas. Basta lembrar que, estan- na teoria do mínimo existencial,
do doente, a pessoa não pode tra- em respeito à sua dignidade
balhar e, se desempregada, não terá ontológica.
forças para exercer o seu direito ao
Posteriormente, pretende-se
trabalho, outro direito humano
fornecer uma noção do direito à
fundamental. Demais, conforme a
doença que lhe tenha acometido, saúde, em geral, bem como do di-
não poderá exercer determinadas reito à saúde do trabalhador, como
atividades profissionais, diminuindo espécie, a fim de se ter caminho se-
o seu leque de escolha quando da guro na busca do conteúdo essen-
procura de trabalho, pouca valia cial deste direito, na prevenção e na
tendo nesses casos a liberdade pre- recuperação da saúde. E no campo
conizada no inciso XIII do art. 5º da saúde do trabalhador há dois
da Constituição Federal. aspectos essenciais que devem ser
analisados: o direito à abstenção e o
Destas breves considerações direito a inúmeras prestações, da par-
se pode dessumir que a saúde do tra- te do Estado e do empregador,
balhador, como espécie da saúde em consubstanciando o direito de pre-
geral, é um direito humano e, como venção, no seu conteúdo essencial.
tal, é inviolável, devendo ser obser-
vado rigorosamente tanto pelo em- Por fim, serão estudadas al-
pregador quanto pelo Estado em gumas das violações mais graves à
sua atividade regulatória e de fis- saúde do trabalhador, para que se
calização. E que quaisquer viola- tenha a possibilidade de construção
ções a esse direito fundamental, de uma nova forma de interpreta-
principalmente se resultado de aci- ção do manancial de normas e prin-
dente do trabalho, devem encontrar cípios a respeito da matéria, à luz
uma resposta satisfatória do siste- do princípio ontológico da dignida-
ma jurídico, pela voz interpretativa de da pessoa humana, com o obje-
da doutrina e da jurisprudência. tivo de se fornecer a adequada pro-
teção a esse bem tão valioso: a saú-
Neste pequeno artigo preten- de do trabalhador.
de-se desenvolver um estudo dessa
temática, apresentando, primeiro, O que importa é que haja
uma noção de direitos humanos, efetividade na proteção à saúde do
entendidos como os valores funda- trabalhador, em respeito ao direito
mentais de todo e qualquer sistema fundamental a uma vida digna,
jurídico, com alicerce no princípio da fundamento último de qualquer
dignidade da pessoa humana. Buscar sistema jurídico. Esta é a grande
os seus fundamentos também é pre- preocupação que permeia o artigo
ciso, para se encontrar, ao lado de que segue.
seu fundamento ético-político, um
de ordem moral – a idéia de digni- 2 NOÇÃO DE DIREITOS HU-
dade do ser humano. Com base MANOS
nestas reflexões, será possível sus-
tentar que a saúde do trabalhador Observa Antônio Augusto
também se trata de um direito hu- Cançado Trindade que a idéia de
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direitos humanos é tão antiga como da humanidade, ligada à organiza-


a própria história das civilizações, ção da comunidade política4.
tendo se manifestado em culturas O postulado ético de Immanuel
distintas e em momentos históricos Kant está no princípio de toda expla-
sucessivos, na afirmação da digni- nação sobre os direitos humanos, no
dade da pessoa humana, na luta momento em que aquele filósofo
contra todas as formas de domina- enunciou que o homem não pode ser
ção, exclusão e opressão, na luta empregado como um meio para a reali-
contra o despotismo e a arbitrarie- zação de um fim, pois é um fim em si
dade, na asserção da participação mesmo, haja vista que, apesar do ca-
na vida comunitária e do princípio ráter profano de cada indivíduo, ele é
da legitimidade2 . Demais, o avan- sagrado, porquanto na sua pessoa pulsa
ço do reconhecimento e respeito a humanidade. Este postulado conduz
aos direitos da humanidade não foi à dignidade da pessoa humana5 . Daí
simétrico, porquanto alguns países decorre que toda pessoa:
os incorporaram a seus estatutos
[...] tem dignidade e
básicos antes de ou-
não um preço, como
tros, havendo muito
as coisas. A huma-
ainda a se conquis- “...o homem não pode ser em-
nidade como espé-
tar em inúmeros paí- pregado como um meio para a cie, e cada ser hu-
ses. Com efeito, realização de um fim, pois é um mano em sua indi-
pode-se mesmo afir- fim em si mesmo, haja vista vidualidade, é pro-
mar que os direitos que, apesar do caráter profa- priamente insubs-
humanos são uma no de cada indivíduo, ele é sa- tituível: não tem
conquista histórica. grado, porquanto na sua pes- equivalente, não po-
Por isso Celso Lafer soa pulsa a humanidade.” de ser trocado por
preconiza que esses coisa alguma.6
direitos tiveram re-
conhecimento em Por isso Miguel
cada época, representando, assim, Reale, o maior jusfilósofo brasilei-
uma conquista histórica e política3 . ro, afirmou que o valor da pessoa
São uma construção, uma invenção humana é mesmo um valor-fonte, o

2 CANÇADO TRINDADE, Antonio Augusto. Tratado de Direito Internacional dos Direitos


Humanos. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 1997. v. 1, p. 17.
3 LAFER, Celso. A reconstrução dos direitos humanos: um diálogo com o pensamento de
Hannah Arendt. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p. 124.
4
Ibidem, p. 134.
O postulado ético de Kant foi exposto em sua obra Fundamentação da Metafísica dos Costu-
mes, uma introdução à Crítica da Razão Prática. Para Immanuel Kant, o homem e, de uma
maneira geral, todo o ser racional – existe como fim em si mesmo, e não apenas como meio para
o uso arbitrário desta ou daquela vontade. [...] Os seres, cuja existência não assenta em nossa
vontade, mas na natureza, têm, contudo, se são seres irracionais, um valor meramente relativo,
como meios, e por isso denominam-se coisas, ao passo que os seres racionais denominam-se
pessoas, porque a sua natureza os distingue já como fins em si mesmos, ou seja, como algo que
não pode ser empregado como simples meio e que, portanto, nessa medida, limita todo o
arbítrio (e é um objeto de respeito).
5 KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Tradução de Leopoldo
Holzbach. São Paulo: Martin Claret, 2006, p. 58-59.
6
COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. 3. ed. rev. e
atual. São Paulo: Saraiva, 2003, p. 21-22.
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fundamento último da ordem jurí- direitos são apenas estas duas: im-
dica, na medida em que o ser hu- pedir os malefícios do poder ou dele
mano é o valor fundamental, algo que obter benefícios9.
vale por si mesmo, identificando-se Segundo Pérez Luño, jusfiló-
seu ser com sua valia7 . sofo espanhol, os direitos humanos
Os direitos humanos são, por- são verdades demonstradas através
tanto, valores fundamentais de todo e dos ditames da reta razão, expres-
qualquer sistema jurídico, pelo menos sando um conjunto de faculdades
num Estado democrático de Direi- jurídicas e políticas próprias de to-
to. Repousam sobre o valor maior dos os seres humanos e em todos
da dignidade da pessoa humana, um os tempos10.
princípio praticamente absoluto Não é a positivação, tam-
para o mundo do direito. pouco sua constitucionalização,
José Afonso da Silva anota que os torna dignos dessa adje-
que a dignidade da pessoa humana é tivação: humanos. São direitos hu-
um valor supremo, que atrai o con- manos porque indissociáveis da
teúdo de todos os di- pessoa humana, ou
reitos fundamentais de sua dignidade.
do homem, desde o “Os direitos humanos são, por- Vale dizer, a digni-
direito à vida8 . tanto, valores fundamentais de
dade da pessoa so-
mente estará assegu-
N o r b e r t o todo e qualquer sistema jurídi- rada quando respeita-
Bobbio sustenta que co, pelo menos num Estado de- dos esses direitos. Até
os direitos humanos mocrático de Direito. Repousam porque ainda exis-
são direitos históri- sobre o valor maior da dignida- tem Estados que não
cos, nascidos em cer- de da pessoa humana, um prin- os reconhecem, ao
tas circunstâncias, na cípio praticamente absoluto para menos em sua tota-
luta em defesa de o mundo do direito.” lidade, nas ordena-
novas liberdades ções internas. Por
contra velhos pode- outro lado, mesmo
res, e nascidos de modo gradual. que determinado Estado promova,
Afirma que os direitos não nascem na ordem interna, a despositivação
todos de uma vez e nem de uma desses direitos, eles não deixarão de
vez por todas, tendo em vista que ser imprescindíveis aos seus nacio-
surgem como proteção diante das nais. De tal modo que a positivação,
ameaças à liberdade da pessoa ou conquanto valiosíssima para a
como remédios para suprir as indi- exigibilidade dos direitos humanos,
gências humanas, ou seja, como exi- não tem o condão de lhes conferir
gências, sendo que estas só nascem esse rótulo, ainda que se mude a
quando surgem determinados nomenclatura para direitos funda-
carecimentos. As exigências dos mentais.

7
REALE, Miguel. Filosofia do direito. 14. ed. atual. São Paulo: Saraiva, 1991, p. 210.
8SILVA, José Afonso da. Curso de Direito Constitucional Positivo. 27. ed. rev. e atual. até a
Emenda Constitucional n. 52, de 8.3.2006. São Paulo: Malheiros, 2006, p. 105.
9
BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Tradução de Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro:
Campus, 1992, p. 5-7.
10
PÉREZ LUÑO, A. E. La tercera generación de derechos humanos. Navarra: Editorial Aranzadi,
2006, p. 13.
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Os direitos humanos são direi- gama de liberdades essenciais, bem


tos naturais, que pertencem ao indi- como direitos mínimos à afirmação
víduo – que não pode ser dividido – da pessoa para a concretização do
e precedem a qualquer sociedade ideal de igualdade. Sem os direitos
política. Não se pode olvidar, ain- sociais mínimos, a igualdade será
da, que inúmeros direitos encon- meramente retórica. Sem as liberda-
tram-se positivados nas Constitui- des, a igualdade não se justifica.
ções atuais, mas sem que haja a eles
respeito efetivo, mormente quanto 3 FUNDAMENTO DOS DIREI-
aos direitos humanos denominados TOS HUMANOS
de sociais.
Entretanto, de se reconhecer Conquanto Norberto Bobbio
que a expressão direitos fundamen- enuncie que o fundamento dos di-
tais é a preferida pelos constitucio- reitos humanos é um problema mal
nalistas e até mesmo pelos doutrina- formulado, afirmando ser ilusória
dores de direito do trabalho. De- a busca de um fundamento abso-
mais, quando se está luto desses direitos11,
a falar de direitos hu- o problema da
manos positivados “...a distinção essencial entre fundamentação dos
na Constituição, na- direitos humanos e direitos fun- tais direitos é ainda
da obsta que a eles se damentais assenta na idéia de atual. É tão atual
dê a adjetivação de que aqueles têm como titula- que em recente obra,
direitos fundamentais. res apenas a pessoa humana, publicada na Espanha
Tem-se que a distin- obra de Deus, ao passo que os no ano de 2006,
ção essencial entre di- direitos fundamentais também apontou-se o equí-
reitos humanos e direi- têm como titulares as pessoas voco de Bobbio, ao
tos fundamentais as- jurídicas, criação do homem.” afirmar que o pro-
senta na idéia de que blema dos funda-
aqueles têm como titu- mentos dos direitos
lares apenas a pessoa humana, obra humanos teve sua solução na De-
de Deus, ao passo que os direitos fun- claração Universal dos Direitos do
damentais também têm como titu- Homem, aprovada pela Assem-
lares as pessoas jurídicas, criação do bléia-Geral das Nações Unidas, em
homem. 10 de dezembro de 1948. Em pri-
De tal modo que, a título de meiro lugar, a referida Declaração
conclusão e sem qualquer preten- não deixa claro que os direitos hu-
são de esgotar tão ampla matéria, manos são reconhecidos e não cria-
pode-se fornecer (apenas) uma no- dos pelos textos positivos. De outra
ção geral de direitos humanos. Tem- parte, a locução direitos humanos
se que direitos humanos são um con- revela certa ambigüidade, encon-
junto de direitos, garantias, faculda- trando-se referência a direitos na-
des, positivados ou não no sistema turais, direitos fundamentais, direi-
jurídico, sem os quais a dignidade da tos subjetivos, direitos morais, liber-
pessoa humana estará seriamente dades públicas etc. Não parece pos-
ameaçada, açambarcando toda uma sível implementar eficazmente os
11
BOBBIO, Norberto. A era dos direitos, p. 5.
114 Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, n. 31, 2007

direitos humanos se não sabemos uma utilidade ao serviço de outras


previamente em que consistem12 , de realidades. O conceito de dignida-
tal modo que se deve buscar o seu fun- de do ser humano supõe uma tra-
damento. dução laica da idéia cristã de que
todos os seres humanos são filhos
Gregório Robles também cri-
de Deus13 .
tica o posicionamento de Bobbio,
asseverando que seu argumento Ángela Aparisi, ainda na obra
esconde um sofisma que um filóso- coletiva objeto de análise, após re-
fo não pode permitir-se. E pondera futar a tese de Bobbio, aponta que
que é importante saber por que os várias são as razões pelas quais se
representantes dos mais diversos pode afirmar que o estudo do fun-
países e ideologias proclamaram damento dos direitos humanos não
que todos estavam de acordo com é uma questão meramente supérflua
a declaração dos direitos humanos. ou inútil, destacando-se seu aporte
Não se pode separar o fundamen- de que é precisamente a constante
to do fundamentado, já que o pri- violação de tais direitos que põe a
meiro determina o descoberto a falta de
conteúdo do segun- fundamentos sólidos
do. Prossegue afir- e a ausência de con-
mando que o consen- vicções geralmente
so geral que permitiu compartilhadas. A
esta declaração re- “A justificação última dos direi- diversidade de pres-
presenta o funda- tos humanos é, pois, a digni- supostos ideológicos
mento relativo dos di- dade da pessoa, em tudo aqui- subjacentes aos
reitos numa socieda- lo que se mostra imprescindí- dis tintos sistemas
de plural e heterogê- vel à sua existência.” políticos desfaz a
nea (ética política), ilusão de uma acei-
mas que, além do fun- tação internacional
damento político (ou ou de um amplo con-
de ética política), que senso social, o que
é justamente o tal consenso, está o demonstra a necessidade da justifi-
fundamento moral, que é o funda- cação e fundamentação dos direitos
mento absoluto dos direitos. Este humanos14.
fundamento é, em minha opinião,
A justificação última dos direi-
a idéia de dignidade da pessoa hu-
tos humanos é, pois, a dignidade da
mana. Ou, para ser mais exato, a
pessoa, em tudo aquilo que se mostra
idéia de dignidade do ser humano,
imprescindível à sua existência.
haja vista que o ser humano é um
fim em si mesmo. É um valor em si O objeto dos direitos humanos
mesmo, e não uma 114coisa ou é possibilitar o pleno desenvolvimen-

12
PUERTO, Manuel J. Rodríguez. ¿Qué son los derechos humanos? In: QUIRÓS, José Justo Megías
(Coord.). Manual de derechos humanos: los derechos humanos en el siglo XXI. Navarra:
Editorial Aranzadi, 2006, p. 14-15.
13ROBLES, Gregório. La olvidada complementariedad entre deberes y derechos. In: Manual de
derechos humanos: los derechos humanos en el siglo XXI, p. 39-41.
14APARISI, Ángela. Fundamento y justificación de los derechos humanos. In: Manual de derechos
humanos: los derechos humanos en el siglo XXI, p. 163-164.
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to da personalidade de cada um, ou, princípio de valor, que é o


de outro modo, oferecer-lhe as con- primeiro da Constituição por-
dições materiais e morais para que tuguesa: o princípio da digni-
possa alcançar o máximo desenvol- dade da pessoa humana.15
vimento possível, de acordo com
sua vontade. Fala-se, então, em Percebe-se, assim, a referên-
bens humanos básicos, como a vida, cia constante ao princípio-guia: o da
a saúde, a segurança social, o tra- dignidade da pessoa humana – o
balho, a alimentação, a habitação, fundamento dos direitos humanos.
o vestuário, a liberdade de consci- Nesse princípio se pode identificar,
ência, a educação. portanto, todos os direitos, onde
quer que estejam previstos, ou ain-
Daí se verifica que a referência
a alguns valores é constante, como a da que não positivados – normal-
vida, a liberdade, a igualdade, bem mente nascidos da criação jurispru-
como a educação, a saúde, o traba- dencial –, merecedores da adjeti-
lho, a moradia, a segurança, a ali- vação humanos ou fundamentais. Na
mentação e o vestuário, direitos pre- definição do conteúdo essencial dos
conizados nos arts. 5º, 6º e 7º da direitos humanos está a preocupa-
Constituição Federal brasileira. ção com a esfera de liberdades e de
direitos materiais sem a qual não há
Viera de Andrade foi o pri-
asserção da pessoa humana en-
meiro a procurar estabelecer a es-
treita correlação entre os direitos quanto tal. Por isso a referência
humanos e o princípio da dignida- constante, conforme a ideologia de
de da pessoa humana. Ele distin- cada doutrinador, a alguns valores
gue os direitos fundamentais, em humanos básicos, como a vida (prin-
seu conjunto, dos demais, por te- cípio de tudo), a liberdade (toda a
rem uma estrutura, uma função e gama de liberdades difundida na
uma intenção próprias. Assevera disciplina dos direitos individuais)
que a consagração de um conjunto e a igualdade, aqui entendida como
de direitos fundamentais tem uma igualdade real, para cuja realização
intenção específica: se torna imprescindível a satisfação
[...] explicitar uma idéia de de direitos sociais básicos, como a
Homem, decantada pela educação, a saúde, o trabalho, a mo-
consciência universal ao lon- radia, a segurança social, a alimen-
go dos tempos, enraizada na tação e o vestuário.
cultura dos homens que for-
mam cada sociedade e rece- 4 AS GERAÇÕES DE DIREITOS
bida, por essa via, na consti- HUMANOS
tuição de cada Estado concre-
to. Idéia de Homem que no Os valores humanos básicos
âmbito da nossa cultura se identificam a categoria de direitos
manifesta juridicamente num humanos da época contemporânea,

VIEIRA DE ANDRADE, J. C. Os direitos fundamentais na Constituição Portuguesa de 1976.


15

Coimbra: Almedina, 1983, p. 84-85.


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cujo reconhecimento foi gradativo, Quanto aos direitos humanos


numa evolução histórica que acom- de primeira geração, também cha-
panhou o evoluir da própria huma- mados de direitos de liberdade, pra-
nidade. Assim é que houve primei- ticamente todos os doutrinadores
ramente a positivação dos direitos enfatizam que foram os grandes
de liberdade, posteriormente dos di- movimentos revolucionários do séc.
reitos sociais e no estágio atual es- XVIII que resultaram no reconheci-
tão sendo positivados os direitos de mento em caráter mais abrangente
solidariedade. A doutrina clássica (dito universal) dos direitos huma-
concebe, para explicar didatica- nos denominados de liberdades pú-
mente essa evolução, as denomina- blicas. A Declaração de Direitos da
das gerações de direitos humanos16, Virgínia, de 12 de junho de 1776, a
falando em direitos de primeira ge- Declaração de Independência dos
ração, dentre os quais as liberdades Estados Unidos da América do Nor-
de religião e de pensamento, ao lado te, de 4 de julho de 1776, e a Revo-
do direito à vida e à propriedade; lução Francesa, com sua Declaração
de segunda geração, compreenden- dos Direitos do Homem e do Cida-
do os direitos sociais dos trabalha- dão, de 26 de agosto de 1789, foram
dores e alguns direitos de ordem o marco histórico da afirmação dos di-
econômica e cultural, como o direi- reitos de liberdade, de igualdade for-
to à saúde e à educação; por fim, mal e de propriedade (um direito
os de terceira geração, a partir da inviolável e sagrado – art. 17 da
Declaração Universal dos Direitos Declaração dos Direitos do Homem
Humanos de 1948, como o direito e do Cidadão – exigência dos revo-
à paz, ao meio ambiente, ao desen- lucionários burgueses).
volvimento etc. Era o movimento pelo reco-
Atribui-se a Karel Vasak, Di- nhecimento de direitos inatos à pes-
retor do Departamento Jurídico da soa humana, a fim de que a eles fos-
UNESCO, a concepção genera- se dada maior garantia e proteção,
cional dos direitos humanos, quan- mormente diante dos poderes públi-
do ministrou, em 2 de julho de cos. Essa luta foi primeiro para que
1979, a Aula Inaugural da Décima os direitos humanos naturais fossem
Sessão do Instituto Internacional de declarados de forma solene, assu-
Direitos Humanos de Estrasburgo, mindo-se um compromisso em rela-
defendendo a idéia de direitos hu- ção a eles, e logo em seguida pela
manos de terceira geração. Ele co- sua positivação nas Constituições
locou ênfase nos direitos humanos que se seguiram, dando origem ao
de terceira geração, que completa- constitucionalismo moderno. A
ram as liberdades civis e políticas positivação, portanto, não cria os di-
da primeira, bem como os direitos reitos humanos, somente os reconhe-
econômicos, sociais e culturais da ce, nesse movimento de asserção do
segunda17. final do séc. XVIII.

A referência às gerações de direitos humanos tem aqui a exclusiva finalidade de explicar didatica-
16

mente a evolução histórica dos mencionados direitos, a única serventia que pode ter a tal teoria.
17
PÉREZ LUÑO, Antonio-Enrique. La tercera generación de derechos humanos, p.15.
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Os direitos de primeira gera- regime capitalista de produção nos


ção são de duas categorias: a pri- séc. XVIII e XIX. Porém, na busca
meira de direitos humanos naturais frenética por produtividade e
ou liberdades, e a segunda de direi- majoração do lucro, deu-se a explo-
tos do cidadão ou direitos políticos. ração desumana dos seres humanos
Dentre as liberdades em geral, como trabalhadores, espoliados em seus
direitos humanos, incluem-se as li- direitos mais fundamentais, dentre
berdades de crença religiosa, de os quais a saúde e a própria vida,
pensamento, de expressão, de loco- em muitos casos.
moção, bem como o direito à segu-
rança e à propriedade. Logica- As péssimas condições de tra-
mente, também o direito à vida, balho a que foram submetidos os
razão de ser do próprio Direito. Em trabalhadores, incluindo mulheres
suma, os direitos à vida, à liberda- e crianças, deixavam expostas as
de e à propriedade constituem a es- chagas do sistema capitalista. Por
sência dos direitos denominados de isso se conta somente a primeira
primeira geração, ou a clássica tríade história da época das revoluções, de
do pensamento individualista, cujo sucesso e progresso fantástico,
desenvolvimento levou ao reconhe- advindo da revolução científica e
cimento de inúmeros direitos civis tecnológica, que propiciou o au-
e políticos nos séc. XIX e XX, culmi- mento da produção e da produti-
nando no Pacto Internacional de vidade, ao lado da consolidação da
Direitos Civis e Políticos de 1966, democracia moderna e da abolição
não havendo Constituição digna dos privilégios nobiliárquicos19. Não
desse nome que os não reconheça a segunda história, do pauperismo
em toda a extensão 18 no estágio da classe trabalhadora, de sua ab-
atual da civilização, neste terceiro soluta miséria20.
milênio.
Foi essa situação de miséria,
Quanto aos direitos sociais, de aviltamento da condição huma-
enquanto direitos de igualdade mate- na dos trabalhadores pelos capita-
rial, passaram à ordem do dia ape- listas, que levou às lutas por direi-
nas no final do segundo quartel do tos sociais. As duríssimas e muitas
séc. XIX, surgindo posteriormente a vezes desumanas condições de vida
chamada segunda geração de direitos e de trabalho do proletariado, re-
humanos. sultantes da Revolução Industrial,
A liberdade de mercado, maior fizeram com que se tomasse cons-
aspiração da ascendente burguesia, ciência de que a salvaguarda da
propiciou o desenvolvimento do dignidade humana exige libertar o

18
BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional. 19. ed. atual. São Paulo: Malheiros,
2006, p. 563.
19
MEDEIROS, João Leonardo Gomes. A economia diante do horror econômico. 2004. 204 f. Tese
(Doutorado em Economia). Instituto de Economia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio
de Janeiro, 2004, p. 23.
20
O Capítulo VIII da obra O Capital, de Marx, é consulta obrigatória para quem pretende compre-
ender a situação de miséria e doenças que levaram às lutas pelo reconhecimento dos direitos sociais
e por que devem ser assegurados de fato. São estarrecedores os relatórios oficiais de saúde pública
inglesa, destacando-se o de 1863. MARX, Karl. O capital: crítica da economia política. Tradução
de Reginaldo Sant Anna. 22. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004. Livro I.
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ser humano não só do medo, da Por outro lado, a exploração


opressão e da tirania, mas também da classe trabalhadora, decorrente
da necessidade econômica, da fome, da industrialização, propiciou a
da miséria, da falta de cultura21. Pas- conscientização dos operários e as lu-
sou-se, então, a exigir a intervenção tas por melhores condições de traba-
do Estado nas relações jurídico-pri- lho. Os trabalhadores e suas orga-
vadas, a fim de restabelecer o ideal nizações passaram a reagir às rela-
de igualdade, princípio de justiça ções desumanas e precárias das
imanente ao Direito Natural. Não a grandes indústrias. Os intelectuais,
igualdade formal, expressa nas de- alguns políticos e, mais tarde, a Igre-
clarações de direitos e nas constitui- ja Católica, passaram a lutar por
ções dos Estados democráticos de uma regulação do mercado de tra-
Direito, que serve apenas para mas- balho. Essa luta se deu no campo
carar as diferenças sociais, mas a político e sindical, tendo sido o Ma-
igualdade material, que por sua vez leva nifesto Comunista (1848), de Marx e
à liberdade real, no lugar da liberda- Engels, um marco nesse processo.
de meramente abstrata do individu-
alismo burguês. O resultado dessa ação co-
letiva dos trabalhadores foi a res-
Paulo Bonavides pontifica posta dada pelo Estado, ainda no
que os direitos de segunda geração
séc. XIX, seja mediante políticas so-
nasceram abraçados ao princípio da
ciais, seja pela edição de leis
igualdade, do qual não se podem
protetivas dos trabalhadores, dan-
separar, pois fazê-lo equivaleria a
desmembrá-los da razão de ser que do início ao intervencionismo esta-
os ampara e estimula22. tal nas relações jurídicas entre em-
pregados e empregadores. Esse
A segunda geração de direi- intervencionismo deu origem ao
tos humanos surge, assim, em de- Estado social de Direito, assim como
corrência da deplorável situação ao denominado constitucionalismo
da população pobre das cidades social. Primeiro, exigiram-se pres-
industrializadas da Europa Oci- tações positivas por parte do Esta-
dental, que era constituída, basi- do (serviços públicos), para a satis-
camente, por trabalhadores expul- fação das necessidades imediatas
sos do campo, processo que teve da população, sobremodo as rela-
origem nos cercamentos levados a cionadas à seguridade social, à saú-
efeito naquele continente, com o de, à educação e à proteção dos di-
objetivo de criar mão-de-obra dis- reitos trabalhistas; posteriormente,
ponível para a indústria, pois os houve a positivação dos direitos so-
camponeses, expulsos do campo, ciais, incluindo-se os direitos espe-
tornaram-se muitas vezes mendi- cíficos dos trabalhadores, nas Car-
gos nas cidades23. tas políticas do séc. XX.
21
FERNANDEZ, Maria Encarnación. Los derechos económicos, sociales y culturales. In: Manual
de derechos humanos: los derechos humanos en el siglo XXI, p. 103-104.
22
BONAVIDES, Paulo. Curso de Direito Constitucional, p. 564.
23
Cf. KARL MARX sobre a forma de acumulação primitiva, o ponto de partida do modo de
produção capitalista. O capital: crítica da economia política. Apresentação de Jacob Gorender.
Coord. e rev. de Paul Singer. Tradução de Regis Barbosa e Flávio R. Kothe. São Paulo: Abril
Cultural, 1984. v. 1, Livro Primeiro, Tomo 2 (Capítulo XXIV), p. 261-275.
Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, n. 31, 2007 119

Dessa explanação se percebe reito ao trabalho, à educação e à


que somente no séc. XX, em 5 de seguridade social.
fevereiro de 1917, com a promul- Destarte, estavam reconheci-
gação da (nova) Constituição do dos os direitos sociais mais importan-
México, mais de 127 anos após a Re- tes, quais sejam: os direitos ao tra-
volução Francesa, é que verdadeira- balho, à saúde, à educação e à pre-
mente se deu reconhecimento his- vidência social. Inaugurava-se, as-
tórico aos direitos sociais, como o sim, o chamado Estado social de Di-
direito ao trabalho, à saúde, à edu- reito, o Welfare State.
cação e à previdência social, na Lei
Fundamental de um país. E por isso Sem embargo, a turbulência
são denominados direitos humanos socioeconômica iniciada no final da
de segunda geração. Foi a Consti- década de 1960 fez com que a par-
tuição mexicana de 1917 a primei- tir daí ganhasse novamente força o
ra a atribuir aos direitos trabalhis- laissez faire, culminando no triunfo
tas a qualidade de direitos funda- do capitalismo liberal no final do
mentais, juntamente século XX, colocando
com as liberdades “...somente no séc. XX, em 5 em xeque o Estado so-
i n d i v i d u a i s e o s de fevereiro de 1917, com a cial de Direito e, por
direitos políticos 24 , promulgação da (nova) Cons- via de conseqüência,
nos seus arts. 5º e tituição do México, mais de 127 os próprios direitos
123, contendo um rol anos após a Revolução Fran- sociais, cujo reconhe-
de direitos mínimos cesa, é que verdadeiramente cimento foi fruto de
do trabalhador (art. se deu reconhecimento histó- árduas lutas inicia-
123). E mais, foi a rico aos direitos sociais, como das 26ainda no séc.
primeira a instituir a o direito ao trabalho, à saúde, XIX .
função social da pro- à educação e à previdência
priedade (art. 27), um país.”
social, na Lei Fundamental de 5 A SAÚDE DO
bem como a criar a TRABALHADOR
responsabilidade dos COMO UM DI-
empregadores por acidentes do tra- REITO HUMA-
balho, lançando, de modo geral, NO
as bases para a construção do mo-
derno Estado Social de Direito25. Por tudo o que já visto, é
possível afirmar que a saúde do tra-
Entretanto, a Constituição de balhador trata-se de um direito hu-
Weimar – aprovada em 31 de julho mano. Como tal é inalienável,
de 1919, pouco depois da ratifica- imprescritível e irrenunciável. E é
ção do Tratado de Versalhes pela um direito natural de todos os tra-
Alemanha, ocorrida em 9 de julho balhadores, em todos os tempos e
daquele ano – é, com certeza, a fon- lugares, ainda que sua positivação
te mais conhecida de reconhecimento tenha ocorrido tardiamente, como
dos direitos sociais, sobretudo do di- se viu. Se a saúde do trabalhador é

24
COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos, p. 174.
25
Ibidem, p. 177.
26
Em virtude de se tratar apenas de um artigo sobre a saúde do trabalhador, não serão analisados
aqui os chamados direitos humanos de terceira geração.
120 Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, n. 31, 2007

algo a ele inerente, imanente, em cias, em nome do princípio-guia do


respeito à sua dignidade essencial sistema jurídico brasileiro, qual seja,
e até mesmo para uma boa presta- o da dignidade da pessoa humana,
ção de serviços ao empregador, tra- indissociável do próprio direito à
ta-se de um direito natural, no senti- vida, o fundamento último de todo
do de intrínseco à conformação de Estado de Direito, social ou não.
sua personalidade e de seu desen- Essa complementaridade entre os
volvimento enquanto pessoa. É um direitos à vida (integridade físico-
direito imprescindível para o ser funcional e moral), à saúde do tra-
humano. De tal forma que assim se balhador e ao meio ambiente do tra-
insere no continente maior dos di- balho também pode ser extraída de
reitos humanos, como conteúdo uma interpretação sistemática da
destes, vale dizer, como um dos va- Constituição Federal (arts. 1º, 5º, 6º,
lores fundamentais do sistema jurídi- 7º, 200 e 225), na qual se encontra,
co, sem o qual a dignidade da pes- portanto, um fundamento máximo
soa humana estará seriamente àquele direito. Nestes dispositivos se
ameaçada. encontra, então, a nítida inter-
dependência entre os tais direitos –
Esse direito é dotado de um
vida, saúde do trabalhador e meio
conteúdo essencial, identificado nas
ambiente do trabalho equilibrado-,
condições mínimas que devem ser
interpretação levada a efeito com
atendidas para a sua satisfação, já
base no princípio ontológico da dig-
que componente do rol de necessi-
nidade da pessoa humana, um valor
dades básicas do ser humano. O di-
praticamente absoluto no sistema
reito à saúde do trabalhador tem
jurídico nacional.
um conteúdo essencial bastante
extenso, configurando um direito O princípio da dignidade da
individual subjetivo à sua proteção. pessoa humana é o ápice da cons-
Na complementaridade entre os trução jusfilosófica na evolução cultu-
direitos à vida (com suas projeções ral da humanidade, encontrando-se
exteriores – a integridade físico-fun- bem conformado na doutrina atual,
cional e moral), à saúde em sentido havendo inclusive monografias so-
estrito e ao meio ambiente equili- bre o tema, merecendo destaque a
brado, é que se identifica o conteú- obra de Ingo W. Sarlet. Nesta obra
do essencial do direito em questão. o insigne constitucionalista obser-
Nessa conformação teve papel de- va que a ordem constitucional em
cisivo a Organização Internacional vigor, que consagra a idéia da dig-
do Trabalho, adotando convenções nidade da pessoa humana, parte do
e recomendações para a proteção pressuposto de que a pessoa, tão-
à saúde do trabalhador, muito an- somente em virtude de sua condi-
tes da Aliança das Nações e da Or- ção humana, é titular de direitos que
ganização das Nações Unidas. devem ser reconhecidos e respeita-
Demais, as normas de prote- dos pelos outros e pelo Estado,
ção à saúde do trabalhador são de remanescendo aí uma fundamenta-
ordem pública. De maneira que a ção metafísica da mencionada dig-
saúde do trabalhador, como direi- nidade, derivada do pensamento
to básico, fundamental, tem de ser cristão e humanista. Adverte que
atendida em quaisquer circunstân- não há como fornecer um conceito
Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, n. 31, 2007 121

fixo e acabado de dignidade, pois de direitos, mormente na área dos


se trata de uma noção em perma- direitos sociais, a nova dogmática
nente processo de construção e de- pode ser utilizada no sentido inver-
senvolvimento, dado o pluralismo so, para se conferir efetividade ma-
e a diversidade de valores presen- terial aos chamados direitos sociais
tes nas sociedades democráticas mínimos, situação longe de ser
contemporâneas27. alcançada em países periféricos
como o Brasil, no qual nunca hou-
O referido princípio significa,
ve, de fato, a implantação de um
em uma síntese muito apertada, que
verdadeiro Estado social de Direi-
a pessoa humana é dotada de direitos
to. E pode a Justiça do Trabalho
essenciais sem cuja realização não terá
desenvolver uma jurisprudência
forças suficientes para a conformação
criativa muito importante nesse
de sua personalidade e o seu pleno de-
contexto.
senvolvimento enquanto pessoa. Vale
dizer, não será respeitada como Quanto ao mínimo existencial
pessoa, enquanto tal. Há direitos ina- social, os doutrinadores procuram
tos, indissociáveis da identificá-lo, haven-
condição de pessoa do referências tam-
humana, pessoa que “O referido princípio significa, bém às necessidades
merece o maior respei- em uma síntese muito aperta- básicas do ser huma-
to possível, simples- da, que a pessoa humana é do- no. Agora, o que se
mente por ser, por tada de direitos essenciais sem entende por necessi-
existir. Esses direitos cuja realização não terá forças dades básicas? O mais
consubstanciam o suficientes para a conformação importante é definir,
que se tem conven- de sua personalidade e o seu concretamente, quais
cionado chamar de pleno desenvolvimento en- as necessidades bási-
mínimo existencial. quanto pessoa.”
cas, inadiáveis, que
compõem o mínimo
Isso significa
existencial proposto
que o Estado passa a
pela doutrina, pois há teorias para
reduzir seu tamanho como pres- todos os gostos e credos, mas que
tador de serviços públicos, dedican- não resolvem o problema concreto
do-se apenas ao mínimo que dele se dos necessitados, os quais não têm
pode exigir – a doutrina neoliberal sequer condição de acesso à discus-
do Estado mínimo. Por isso agora a são acadêmica que se trava, longe
doutrina jurídica se põe a encon- das áreas de ocupação humana em que
trar qual é o catálogo mínimo de di- a teoria deveria descer à prática.
reitos fundamentais que compõe o
conteúdo essencial da dignidade da A satisfação dos direitos so-
ciais, na implantação de um autên-
pessoa humana, na perspectiva de
tico Estado social de Direito, é o
que os demais podem esperar por caminho mais seguro para a
satisfação. concretude da teoria do mínimo
Conquanto não se possa con- existencial. Pelo menos a satisfação
cordar com essa tarefa reducionista dos direitos básicos dos trabalhadores,

SARLET, Ingo Wolfgang. Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Consti-


27

tuição Federal de 1988. 4. ed. rev. e atual. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2006, p. 38-41.
122 Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, n. 31, 2007

empregados ou não – aí incluídos os dia, a alimentação, a educação, a


benefícios previdenciários, o direito saúde, o lazer, o vestuário, a higie-
à saúde e o direito à educação gra- ne, o transporte e a previdência so-
tuita, pelo menos no nível funda- cial, razão pela qual o salário míni-
mental. Sem a realização dos direi- mo fixado por lei deveria atender to-
tos sociais que configuram o chama- das estas necessidades, simplesmen-
do patamar civilizatório mínimo, na te porque vitais.
feliz expressão de Mauricio Godinho
De tal modo que a saúde do
Delgado28, não há falar em direitos
trabalhador, como espécie do gêne-
humanos sociais ou de segunda ge-
ro, compõe, ineludivelmente, o cha-
ração, os quais desempenham du-
mado conteúdo essencial da dignidade
pla função, de limitar a autonomia
da pessoa humana, não podendo, ja-
do mercado e, em conseqüência
mais, ser postergada sua proteção e,
disso, de materializar a justiça
em caso de doença, o tratamento
distributiva, especialmente através de
mais adequado deve ser o mais bre-
um sistema de prestações e serviços
ve possível.
públicos, para a satis-
fação das necessidades
básicas da população. “De tal modo que a saúde do tra- 6 O DIREITO À
SAÚDE DO TRA-
Em suma, pode- balhador, como espécie do gêne- BALHADOR
se afirmar que a Cons- ro, compõe, ineludivelmente, o

tituição Federal brasilei- chamado conteúdo essencial da

ra definiu muito bem o dignidade da pessoa humana, Não há como


não podendo, jamais, ser poster- dissertar sobre o di-
tal mínimo existencial
social, quando no seu gada sua proteção e, em caso de reito à saúde do tra-
art. 6º consagrou os doença, o tratamento mais ade- balhador sem antes
direitos sociais à edu- quado deve ser o mais breve colacionar uma no-
cação, à saúde, ao possível.” ção do que é o direi-
trabalho, à mora- to à saúde, enquan-
dia29, ao lazer, à segurança, à pre- to gênero.
vidência social, à proteção da ma- Por longo espaço de tempo a
ternidade e da infância, e à assis- saúde foi entendida simplesmente
tência social aos desamparados. como o estado de quem se encon-
Mais rigorosa, ainda, quando tra sadio, sem doença30. Todavia, a
elencou as necessidades vitais bási- partir de 1946, com a criação da
cas dos trabalhadores, urbanos e OMS (Organização Mundial da
rurais, e de sua família, no inciso Saúde) – cuja existência oficial co-
IV do seu art. 7º, as quais são meçou em 7 de abril de 1948, quan-
identificadas como sendo a mora- do da ratificação de sua constitui-

28
DELGADO, Mauricio Godinho. Curso de Direito do Trabalho. 4. ed. São Paulo: LTr, 2005, p.
1321.
29
O direito à moradia foi introduzido no catálogo do art. 6º pela Emenda Constitucional nº 26, de
14 de fevereiro de 2000.
30
Segundo os léxicos, a expressão saúde provém do latim salute, que significa salvação, conserva-
ção da vida. Por isso sempre foi tida como o estado da pessoa cujas funções orgânicas, físicas e
mentais se acham em situação normal, ou como o estado do que é sadio ou são.FERREIRA,
Aurélio Buarque de Holanda. Novo dicionário da língua portuguesa. 2. ed. rev. e aum., 23.
impr. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986, p. 1556.
Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, n. 31, 2007 123

ção por vinte e seis países31 –, hou- psicologia e em outras áreas do co-
ve um passo à frente na definição nhecimento humano mostra-se in-
da saúde, haja vista que aquela completa. A anatomia do corpo hu-
agência especializada da ONU for- mano diz respeito ao seu aspecto
neceu um conceito positivo do direi- físico: cabeça, tronco, membros (su-
to, em sua carta de fundação, qual periores e inferiores), órgãos (olhos,
seja: a saúde é um estado de com- ouvidos, nariz, boca, coração, cé-
pleto bem-estar físico, mental e so- rebro etc.), aparelhos (digestivo, res-
cial, e não somente a ausência de piratório, circulatório, reprodutor,
afecções ou enfermidades32 . encéfalo etc.), sistemas (nervoso,
muscular, arterial, ósseo, dentário
Em seguida a Declaração
etc.). E a fisiologia é o estudo da fun-
Universal dos Direitos Humanos,
cionalidade do corpo humano, ou
proclamada pela Assembléia Geral
seja, de suas funções, do funciona-
das Nações Unidas, em 10 de de-
mento dos órgãos. Quem diz órgão
zembro de 1948, assegurou como um
diz função e vice-versa.
direito humano a saúde e o bem-estar,
em seu art. XXV, n. 1, sendo que o O Órgão é a parte do corpo
Pacto Internacional sobre Direitos que serve para sensações e
Econômicos, Sociais e Culturais, funções do homem, por
aprovado na XXI Sessão da Assem- exemplo, os olhos, ouvidos,
bléia Geral das Nações Unidas, em pele, etc. Por meio dos órgãos,
Nova York, no dia 19 de dezembro no organismo, operam-se as
de 1966, reconheceu em seu art. 12, funções especiais e distintas,
n. 1, o direito de toda pessoa a desfru- e, ao contrário, vários órgãos
tar o mais elevado nível possível de podem destinar-se a uma só
saúde física e mental. função 33.
A saúde, portanto, é o mais A saúde ou incolumidade do
completo bem-estar físico e funcional corpo humano abrange todos os
da pessoa, sendo que, dentre as di- seus tecidos, órgãos e também as
versas funções do organismo, en- infinitas funções destes órgãos, pois
contram-se as do encéfalo, ou do função é o mecanismo de atuação
cérebro, se se preferir. Pois bem, a de órgãos, aparelhos e sistemas .
função mental ou psíquica do or- Dentre as funções podem ser cita-
ganismo humano é apenas uma das as seguintes: respiratória, cir-
dentre tantas funções, razão pela culatória, digestiva, excretora,
qual a menção constante à saúde reprodutora, locomotora, sensitiva
física e mental na área jurídica, na (visão, audição, olfato, paladar e

ROSEN, George. Uma história da saúde pública. Tradução de Marcos Fernandes da Silva
31

Moreira, com a colaboração de José Ruben de Alcântara Bonfim. São Paulo: Hucitec: Ed. da
Universidade Estadual Paulista, 1994, p. 344-345. A OMS assumiu os poderes e os deveres da
Organização de Saúde da Liga das Nações, que havia sido criada em 1923.
Constitución de la Organización Mundial de la Salud. Disponível em: <http://www.who.int/
32

gb/bd/S/S_documents.htm>. Acesso em: 16 mar. 2007.


PENNA, João Bosco. Lesões corporais: caracterização clínica e médico legal. Leme-SP: LED
33

Editora de Direito, 1996, p. 148-149.


124 Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, n. 31, 2007

tato), psíquica, mastigatória, fun- 1967, tampouco as Emendas Cons-


ção de preensão etc. E a saúde men- titucionais que se inauguraram a
tal, ligada à atividade funcional do partir de 1969 (Primeira Emenda)
encéfalo, abrange a consciência, a trataram do tema saúde como um
atenção, a concentração, a orienta- direito fundamental. A atual Cons-
ção, a percepção, a memória, a tituição inovou em matéria de direi-
afetividade, a inteligência, a vonta- tos fundamentais e, dentre os direi-
de, a linguagem, nas palavras do tos sociais assegurados pelo art. 6º,
Prof. João Bosco Penna34. Destarte, pela primeira vez a saúde foi posi-
o mais adequado seria sempre men- tivada como um direito fundamental.
cionar saúde física e funcional (in-
clusive mental ou psíquica). Demais, ela criou um título
específico para a Ordem Social (Tí-
Enfim, é pacífico que o con- tulo VIII). Neste, assegurou o direito
ceito atual de saúde compreende os à saúde como um direito de
seus aspectos negativo e positivo. Por
seguridade social, mais precisamen-
isso Canotilho e Vital Moreira afir-
te como um direito de todos e de-
mam que o direito à proteção da
saúde, como os direitos sociais em ver do Estado, garantido mediante
geral, comporta duas vertentes: políticas sociais e econômicas que
visem à redução do risco de doen-
[...] uma, de natureza negati- ça e de outros agravos e ao acesso
va, que consiste no direito a igualitário às ações e serviços para
exigir do Estado (ou de tercei- sua promoção, proteção e recupe-
ros) que se abstenham de ração, nos termos de seu art. 196.
qualquer acto que prejudique Cuidou como de relevância públi-
a saúde; outra, de natureza ca as ações e serviços de saúde (art.
positiva, que significa o direi- 197), que, segundo o art. 198, cons-
to às medidas e prestações tituem um sistema único (SUS).
estaduais visando a preven- Dentre as atribuições do SUS, ar-
ção das doenças e o tratamen-
roladas no art. 200, destaca-se a de
to delas35.
colaborar na proteção do meio ambi-
Afirma-se que a função nega- ente, nele compreendido o do traba-
tiva identifica a saúde como um di- lho (inciso VIII).
reito de defesa, ao passo que a fun-
ção positiva do direito o qualifica Quanto às leis infracons-
como um direito prestacional. titucionais, a mais importante é a
Lei nº 8.080, de 19-9-90 – Lei Or-
No sistema jurídico brasileiro, gânica da Saúde –, que regulamen-
observa-se que somente na Consti- ta o Serviço Único de Saúde, dis-
tuição Federal de 1988 é que a saú- pondo seu art. 3º que:
de foi positivada como um direito
fundamental. Numa análise das A saúde tem como fatores
Constituições mais recentes, nem a determinantes e condicio-
Constituição de 1946 nem a de nantes, entre outros, a alimen-

Ibidem, p. 124 e 169.


34

GOMES CANOTILHO, J. J.; MOREIRA, Vital. Constituição da República Portuguesa anota-


35

da. 2. ed. rev. e ampl. Coimbra: Coimbra Ed., 1984. v.1, p. 342-343.
Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, n. 31, 2007 125

tação, a moradia, o sanea- primar sobre o direito funda-


mento básico, o meio ambien- mental à vida, que está em
te, o trabalho, a renda, a edu- jogo quando se discute a tu-
cação, o transporte, o lazer e tela da qualidade do meio
o acesso aos bens e serviços ambiente. É que a tutela da
essenciais; os níveis de saúde qualidade do meio ambiente
da população expressam a é instrumental no sentido de
organização social e econômi- que, através dela, o que se
ca do País. protege é um valor maior: a
qualidade da vida36.
Há, induvidosamente, uma
estreita ligação entre o direito à saú- Em suma, pode-se afir-
de e o direito à vida. O que se pro- mar que o direito à vida e
tege na tutela da saúde é, em últi- suas projeções exteriores, as
ma instância, o direito humano à referidas integridade física e
vida e à incolumidade física e fun- moral, convergem com o di-
cional (inclusive reito à saúde, para se tornar
mental ou psíquica). um só.
À interpretação siste- Pois bem, se a
mática da Constitui- saúde é o mais com-
ção Federal brasileira “Em suma, pode-se afirmar que pleto bem-estar físi-
isso revela, encon- o direito à vida e suas proje- co, mental e social
trando-se nela, pois, ções exteriores, as referidas in- que o Estado deve
um fundamento máxi- tegridade física e moral, con- proporcionar às pes-
mo à mencionada vergem com o direito à saúde, soas, porquanto o
proteção, como já se ser humano tem um
afirmou.
para se tornar um só.”
direito fundamental
É importante ao gozo do grau
ter a consciência de máximo de saúde
que o direito à vida que se pode alcançar
digna é a matriz de todos os demais em determinado tempo e lugar; se
direitos fundamentais da pessoa o direito à proteção da saúde com-
humana. O direito à vida porta duas vertentes, uma de na-
tureza negativa e outra de nature-
[...] é um fator preponderan-
za positiva, também o direito à saúde
te, que há de estar acima de
do trabalhador deve ser examinado
quaisquer outras considera-
nessa perspectiva, por ser uma espé-
ções como as de desenvolvi-
cie daquela.
mento, como as de respeito ao
direito de propriedade, como A assertiva de que a saúde do
as da iniciativa privada. Tam- trabalhador é espécie da saúde ge-
bém estes são garantidos no ral, ou que se trata de conteúdo
texto constitucional, mas, a deste continente, pode ser extraída
toda evidência, não podem da interpretação das normas desti-

SILVA, José Afonso da. Direito ambiental constitucional. 5. ed. São Paulo: Malheiros, 2004,
36

p. 70.
126 Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, n. 31, 2007

nadas à disciplina da matéria, em quados (art. 40.2), reconhecendo-


nível constitucional e principal- se no art. 43.1 o direito à proteção
mente na legislação infracons- da saúde. Demais, todos têm o di-
titucional. reito a desfrutar de um meio ambi-
ente adequado para o desenvolvi-
A Constituição de 1988, de
mento da personalidade, assim
forma inédita, positivou a saúde
como o dever de conservá-lo (art.
como um direito fundamental, pos-
45.1).
to como um direito social (arts. 6º e
196 a 200). Relativamente à saúde Também na legislação infra-
do trabalhador, além da disciplina constitucional brasileira verifica-se
mais avançada do que nas Consti- a confluência do direito à saúde do
tuições anteriores (art. 7º, incisos trabalhador com o direito à saúde
XXII e XXVIII37), as quais se refe- em geral, pelo exame da Lei Or-
riam apenas a higiene e segurança gânica da Saúde (Lei n. 8.080/90).
do trabalho, a Constituição atual con- O art. 3º da indigitada lei é de
tém um capítulo específico sobre a pro- extrema relevância, ao conformar
teção do meio ambiente (art. 225), um o núcleo essencial do direito,
dos fatores fundamentais à garan- positivando os fatores determi-
tia da saúde, quiçá o mais impor- nantes e condicionantes do direito
tante, preconizando que no meio à saúde, dentre os quais o meio am-
ambiente geral está compreendido o biente e o trabalho.
meio ambiente do trabalho (art. 200,
A saúde do trabalhador é,
inciso VIII – artigo que versa sobre
assim, uma espécie da saúde geral,
o Sistema Único de Saúde).
tanto que o SUS tem de prover, den-
Na Espanha, há uma nítida tre suas atividades, as predispostas
inter-relação entre os direitos à vida, à proteção e recuperação dessa saú-
à saúde em geral e à saúde do tra- de (art. 6º, I, c, e § 3º – o qual elenca
balhador, porque a proteção à saú- tais atividades).
de somente se concretiza no binômio
prevenção-reparação, sendo o direi- 7 O MEIO AMBIENTE DO TRA-
to à vida e o direito à integridade BALHO – O PRINCÍPIO DA
física os fundamentos constitucio- PREVENÇÃO
nais desse binômio porque Todos
têm direito à vida e à integridade
física e moral (art. 15 da Consti- A internacionalização da luta
tuição espanhola), devendo os po- por um meio ambiente equilibrado
deres públicos velar pela seguran- entrou em cena apenas na década
ça e higiene no trabalho, garantin- de 1970. No ano de 1972 a Confe-
do o descanso necessário, mediante a rência das Nações Unidas sobre o
limitação da jornada laboral e as férias Meio Ambiente Humano, reunida
periódicas remuneradas, e promo- em Estocolmo de 5 a 16 de junho
vendo centros de atendimento ade- daquele ano, proclamou relevan-

Estes dispositivos asseguram o direito social dos trabalhadores urbanos e rurais à redução dos
37

riscos inerentes ao trabalho, por meio de normas de saúde, higiene e segurança (art. 7º, XXII), bem
como o direito ao seguro contra acidentes do trabalho e à reparação dos danos por parte do
empregador (inciso XXVIII).
Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, n. 31, 2007 127

tíssima Declaração, com vistas à pro- des laborais, sejam remunera-


teção e ao melhoramento do meio am- das ou não, cujo equilíbrio
biente humano. está baseado na salubridade
José Afonso da Silva anota do meio e na ausência de
que a Declaração de Estocolmo agentes que comprometam a
abriu caminho para que as Consti- incolumidade físico-psíquica
tuições posteriores reconhecessem dos trabalhadores, indepen-
o meio ambiente ecologicamente dentemente da condição que
equilibrado como um direito funda- ostentem (homens ou mulhe-
mental, dentre os direitos sociais, res, maiores ou menores de
com sua característica de direitos a idade, celetistas, servidores
serem realizados e direitos a não se- públicos, autônomos etc.)40.
rem perturbados.38 A preocupação com o ambi-
Quanto ao meio ambiente ente de trabalho é antiga no direito
geral, foi promulgada no Brasil, em laboral. Por certo que não havia a
1981, a Lei n. 6.938, de 31 de agos- compreensão completa e genérica
to daquele ano, cujo art. 3º, inciso que hoje se tem sobre o meio ambi-
I, define o meio ambiente como o ente em geral e, em particular, o do
conjunto de condições, leis, influ- trabalho, o que se alcançou na dé-
ências e interações de ordem física, cada de 1970, como já referido.
química e biológica, que permite, A evolução das legislações
abriga e rege a vida em todas as suas nacionais e da normatização inter-
formas. nacional pela OIT revelam a cres-
Raimundo Simão de Melo ob- cente preocupação com o ambien-
serva que o legislador fez opção por te de trabalho, culminando nas Con-
um conceito jurídico aberto, a fim de venções n. 148, 155 e 161, nas quais
criar um espaço positivo de incidên- se acentuou o campo de proteção à
cia da norma legal, lembrando que saúde do trabalhador e se lhe con-
essa lei está em plena harmonia com feriu um caráter abrangente, para
a Constituição Federal de 1988, cujo todos os trabalhadores, de todos os
art. 225, caput, buscou tutelar todos setores da atividade econômica. E
os aspectos do meio ambiente (na- recentemente foi aprovada a Con-
tural, artificial, cultural e do traba- venção n. 187, que ainda não foi
lho)39. objeto de estudo no Brasil.
Quanto ao meio ambiente do Procedendo-se ao estudo das
trabalho, Celso Antônio Pacheco citadas Convenções, nota-se que a
Fiorillo o define como Conferência Internacional do Tra-
[...] o local onde as pessoas balho, preocupada com as conse-
desempenham suas ativida- qüências danosas à saúde do tra-

38
SILVA, José Afonso da. Direito ambiental constitucional, p. 69-70.
39
MELO, Raimundo Simão de. Direito ambiental do trabalho e a saúde do trabalhador: respon-
sabilidades legais, dano material, dano moral, dano estético. São Paulo: LTr, 2004, p. 27.
40
FIORILLO, Celso Antônio Pacheco. Curso de direito ambiental brasileiro. São Paulo: Saraiva,
2000, p. 21.
128 Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, n. 31, 2007

balhador provocadas pela conta- controle permanente do estado de


minação do ar, pelo ruído e pelas saúde dos trabalhadores expostos
vibrações, aprovou, na reunião de ou que possam estar expostos aos
1977, a Convenção n. 148, relativa à riscos profissionais derivados da
matéria. Esta Convenção foi apro- contaminação do ar, do ruído e das
vada no Brasil pelo Decreto vibrações no local de trabalho. Este
Legislativo n. 56, de 9-10-81, controle deverá compreender um
ratificada em 14-1-82, promulgada exame médico anterior ao empre-
em 15-10-86 pelo Decreto n. go e exames periódicos, conforme
93.413, passando a vigorar no dia determine a autoridade competen-
14-1-83. te, sem qualquer despesa para o tra-
Ela disciplina que a legislação balhador.
nacional do Estado-Membro que ra- Entrementes, foi a Convenção
tificar a Convenção deve dispor n. 155 da OIT o grande marco inter-
sobre a adoção de medidas preven- nacional na proteção à saúde dos tra-
tivas e limitativas dos riscos profis- balhadores, tendo em vista que a re-
sionais no local de trabalho devidos ferida Convenção, conforme seu
àqueles agentes (art. 4º). Tratando art. 1º, aplica-se a todas as áreas de
das medidas de prevenção e de pro- atividade econômica.
teção, disciplina o art. 8º que a au-
toridade competente deve fixar os A mencionada Convenção
limites de exposição àqueles agentes, de 1981 foi aprovada tardiamente
o que foi cumprido pelo Brasil, atra- no Brasil, apenas em 17-3-92, pelo
vés da NR-15, norma que fixa os li- Decreto Legislativo n. 2 do Con-
mites de exposição a todos os agen- gresso Nacional; foi ratificada em
tes insalubres. No art. 9º se prescre- 18-5-92, promulgada pelo Decreto
veu que, na medida do possível, de- n. 1.254, de 29-9-94, passando a ter
ver-se-á eliminar todo o risco devi- vigência nacional em 18-5-93.
do à contaminação do ar, ao ruído De acordo com o art. 3º, letra
e às vibrações no local de trabalho. b, desta Convenção, o termo traba-
Apenas quando as medidas referi- lhadores abrange todas as pessoas
das no art. 9º não forem suficientes empregadas, inclusive os funcionários
para reduzir os agentes agressivos públicos. Seu art. 4º obriga todos os
a limites de exposição aceitáveis, é Estados-Membros a formularem,
que o empregador deverá propor- colocarem em prática e reexa-
cionar e conservar em bom estado o minarem periodicamente uma políti-
equipamento de proteção pessoal ca nacional coerente em matéria de
apropriado (art. 10). De tal modo segurança e saúde dos trabalhado-
que, em primeiro lugar se deve buscar res e o meio ambiente de trabalho;
a eliminação do risco e, somente quan- esta política deve ter como objetivo
do isso não seja possível, num se- prevenir os acidentes e os danos à
gundo momento se deve providen- saúde derivados do trabalho, ten-
ciar a neutralização do agente agres- do ainda como meta a ser alcançada
sivo, mediante o fornecimento de a redução ao mínimo, na medida em
equipamento de proteção. que for razoável e possível, das cau-
E, de acordo com o art. 11 da sas dos riscos inerentes ao meio
Convenção n. 148, deve haver um ambiente do trabalho.
Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, n. 31, 2007 129

A preocupação com a 5-90, promulgada pelo Decreto n.


efetividade da política nacional de pro- 127, de 22-5-91, tendo entrado em
teção foi tanta que se estipulou a vigor no dia 18-5-91.
obrigação de os Estados-Membros,
dentre outras tarefas, elaborar es- De acordo com ela, os empre-
tatísticas anuais sobre acidentes do gadores têm a obrigação de criar
trabalho e doenças ocupacionais, bem Serviços de saúde no trabalho, com
como realizar sindicâncias toda vez funções essencialmente preventivas
que um acidente do trabalho, um e encarregados de aconselhar tan-
caso de doença ocupacional ou to eles (empregadores) quanto os
qualquer outro dano à saúde indi- trabalhadores e seus representan-
que uma situação grave, sendo obri- tes na empresa, especialmente so-
gatória, ainda, a publicação anual de bre: 1º) os requisitos necessários
informações sobre as medidas adotadas para estabelecer e manter um am-
para a aplicação da política nacional biente de trabalho seguro e salubre,
referida (art. 11, letras c, d e e)41. de modo a favorecer uma saúde fí-
sica e mental ótima em relação ao
De acordo com o art. 13 da trabalho; 2º) a adaptação do traba-
Convenção, deve ser dada proteção lho às capacidades dos trabalhado-
a todo trabalhador que julgar ne-
res, levando em conta seu estado de
cessário interromper uma situação
saúde física e mental (art. 1º da re-
de trabalho por considerar, por
ferida Convenção).
motivos razoáveis, que ela envolve
um perigo iminente e grave para E recentemente, reconhecendo
sua vida ou sua saúde. Ressalta-se a magnitude, em nível mundial, das
que, enquanto o empregador não lesões, doenças e mortes ocasionadas
tiver tomado as medidas corretivas pelo trabalho, bem como a necessi-
necessárias, não poderá exigir dos dade de prosseguir a ação destina-
trabalhadores a sua volta a uma si- da a reduzir o índice de acidentes
tuação de trabalho onde exista, em e doenças ocupacionais, a Confe-
caráter contínuo, um perigo grave rência Geral da Organização In-
ou iminente para sua vida ou sua ternacional do Trabalho, em sua
saúde (art. 19, letra f, segunda 95ª reunião, adotou, com data de
parte). 15 de junho de 2006, a Convenção
Mais tarde a Conferência In- n. 187, que poderá ser citada como
ternacional do Trabalho, na reu- o Convenio sobre el marco pro-
nião de 1985, aprovou a Convenção mocional para la seguridad y salud
n. 161, que tornou obrigatória a en el trabajo, 2006. Segundo estima-
criação de Serviços de saúde no tra- tivas da OIT, morrem todos os dias
balho. A Convenção foi aprovada 6.000 trabalhadores vítimas de do-
no Brasil pelo Decreto Legislativo enças ou acidentes relacionados
n. 86, de 14-12-89, ratificada em 18- com o trabalho42.

41
Por isso a Previdência Social publica anualmente estatísticas sobre acidentes do trabalho e
doenças ocupacionais, em seu banco de dados: DATAPREV. Anuário estatístico de acidentes
do trabalho 2005. Disponível em: <http://www.previdenciasocial.gov.br/pg_secundarias/
previdencia_social_13.asp>. Acesso em: 16 fev. 2007.
42
ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Disponível em: <www.ilo.org/ilolex/
cgi-lex/ convds.pl?C187>. Acesso em: 12 fev. 2007.
130 Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, n. 31, 2007

O objetivo da mencionada Con- o desenvolvimento de uma cultura


venção, de acordo com o seu art. 2º, nacional de prevenção, contribuir
é o de que todo Estado-Membro que para a eliminação dos perigos e ris-
a ratifique promova a melhora con- cos do ambiente de trabalho, ou sua
tínua da segurança e da saúde no tra- redução ao mínimo possível, razo-
balho, com o fim de prevenir as le- ável e factível, assim como incluir
sões, as doenças e as mortes objetivos, metas e indicadores de
provocadas por acidentes, median- progresso (art. 5º).
te o desenvolvimento de uma polí- A Convenção n. 187 ainda
tica, um sistema e um programa não entrou em vigor, porquanto isso
nacionais, com consulta às organi- se dará doze meses após a data em
zações mais representativas de em- que as ratificações de dois Estados-
pregadores e de trabalhadores. A Membros tenham sido registradas
respeito da política nacional, o art. pelo Diretor Geral da OIT (art. 8.2).
3º estipula que os trabalhadores Não há notícia de nenhuma ade-
têm direito a um meio ambiente do são até esta data43. Entretanto, não
trabalho seguro e saudável, razão se pode questionar o irrefragável
pela qual a política destinada a esse valor que tem a referida Conven-
fim deve ter como princípios básicos ção para a proteção da saúde do
os seguintes: a) avaliação dos ris- trabalhador, tanto que nominada
cos ou perigos no local de trabalho; de marco promocional na luta con-
b) o combate, em sua origem, a es- tra os efeitos danosos das doenças
tes riscos ou perigos; c) o desenvol- e acidentes do trabalho.
vimento de uma cultura nacional
de prevenção em matéria de segu- A Conferência Geral da OIT
rança e saúde que inclua informa- adotou, para complementar esta
Convenção, também em 15 de ju-
ção, consultas e formação profissio-
nho de 2006, a Recomendação n. 197,
nal.
que poderá ser citada como a
Dentre as inúmeras exigências Recomendación sobre el marco
que devem ser cumpridas pelo sis- promocional para la seguridad y salud
tema nacional de proteção à saúde do en el trabajo, 2006. Na Recomenda-
trabalhador, arroladas no art. 4º, des- ção se preconiza que o sistema na-
tacam-se as de se estabelecer me- cional de proteção observe as con-
canismos para garantir a observân- venções e recomendações cataloga-
cia da legislação nacional, aí inclu- das no seu Anexo, por serem de
ídos os sistemas de inspeção, bem extrema importância para o men-
como mecanismos de apoio para a cionado marco promocional, mor-
melhora progressiva das condições mente a Convenção n. 155 (sobre se-
de segurança e saúde no trabalho, gurança e saúde dos trabalhadores) de
nas microempresas, nas pequenas 1981, a Convenção n. 81 (sobre a ins-
e médias empresas, e na economia peção do trabalho) de 1947 e a Con-
informal. No que diz respeito ao venção n. 129 (sobre a inspeção do tra-
programa nacional, deverá promover balho na agricultura) de 196944.

43
ORGANIZAÇÃO INTERNACIONAL DO TRABALHO. Disponível em: <www.ilo.org/ilolex/
cgi-lex/ convds.pl?C187>. Acesso em: 25 abr. 2007.
44
A Convenção nº 129 ainda não foi ratificada pelo Brasil, que tem, no entanto, um dos setores agrícolas
mais produtivos do mundo, empregando, em conseqüência, inúmeros trabalhadores rurais.
Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, n. 31, 2007 131

O que se verifica é uma inten- SUS tem diversas atribuições rela-


sa preocupação da OIT com os aci- cionadas à saúde laboral, de acor-
dentes e doenças ocupacionais ocor- do com o art. 6º, § 3º, da Lei n.
ridos nas micro, pequenas e médias 8.080/90.
empresas, preocupando-se ainda
No que se refere às obrigações
com os trabalhadores da economia
básicas do empregador para a ga-
informal, temas que devem ser bem
rantia do direito à saúde do traba-
disciplinados no programa nacional
lhador, ele tem de cumprir todas as
a ser desenvolvido para que se esta-
prescrições normativas sobre o
beleça, de fato, o marco promocional
tema, estejam elas na Constituição,
da segurança e saúde no trabalho.
nas leis infraconstitucionais, nas re-
Essa disciplina, embora deva consi-
gulamentações, nas chamadas nor-
derar as limitações das pequenas
mas coletivas, ou nas disposições de
empresas, não pode, em absoluto,
caráter internacional, como os tra-
olvidar-se do princípio da dignidade
tados, convenções e recomenda-
da pessoa humana e de que a saúde
ções. Porém, é melhor identificar as
laboral é um direito humano de todos
normas aí contidas com aqueles
os trabalhadores, independentemen-
dois aspectos dantes mencionados,
te do tamanho da empresa.
do direito à abstenção e à presta-
ção, incluindo neste o direito à pre-
8 O CONTEÚDO ESSENCIAL venção.
DO DIREITO À SAÚDE DO
No tocante ao primeiro as-
TRABALHADOR
pecto, tem o trabalhador o direito
de abstenção do empregador quanto
A saúde do trabalhador é um
ao fator tempo de trabalho: a) não-
direito humano fundamental de
exigência de prestação de horas
natureza negativa e positiva, que
extras habituais (art. 7º, XIII e XIV,
exige tanto do empregador quanto
da CF); b) não-exigência de labor
do Estado não somente a abstenção
nos intervalos intra e interjornadas;
de práticas que ocasionem a doen-
c) não-exigência de trabalho nos
ça física ou mental do trabalhador,
dias de repouso semanal e feriados,
mas também uma positividade, isto
tampouco nos períodos de férias
é, a adoção de medidas preventi-
(art. 7º, XV e XVII); d) não-exigên-
vas de tal doença. Eis aí os dois as-
cia de trabalho da mulher durante
pectos essenciais do mencionado di-
o período de licença-maternidade
reito: a) o direito à abstenção; b) e o
(art. 7º, XVIII); e) não-exigência de
direito à prestação, por sua vez sub-
trabalho noturno, perigoso ou in-
dividido em direito à prevenção e
salubre a menores de 18 anos (art.
direito à reparação.
7º, XXXIII). E também direito à abs-
Se para a garantia do direito tenção quanto ao fator saúde mental
à saúde o Estado tem de cumprir ou psíquica, sendo que o direito de
algumas obrigações básicas, tam- não-agressão a essa saúde compre-
bém no campo da saúde do trabalha- ende: a) o não-tratamento rigoro-
dor ele tem de cumprir estas mesmas so, vexatório, quando das ordens e
obrigações, porquanto se trata de fiscalização do serviço; b) e a não-
espécie da saúde geral. Por isso o exigência de produtividade superior
132 Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, n. 31, 2007

às forças físicas e mentais do traba- possibilidade de embargo e interdi-


lhador. ção, na medida em que o Delegado
Quanto às prestações a que Regional do Trabalho, diante de
está obrigado o empregador, tra- laudo técnico do serviço competen-
tam-se de um imenso caudal de te que demonstre grave e iminente
normas, envolvendo: a) a obrigação risco para o trabalhador, poderá
de prevenção; b) e a obrigação de interditar estabelecimento, setor de
reparação. Esta envolve a respon- serviço, máquina ou equipamento,
sabilidade do empregador pelos ou ainda embargar obra, indican-
danos de natureza física ou funcio- do na decisão tomada, com a bre-
nal (inclusive mental) causados ao vidade que a ocorrência exigir, as
empregado, em decorrência de aci- providências que deverão ser
dente do trabalho ou doença adotadas para prevenção de aci-
ocupacional, matéria que foge aos dentes do trabalho e doenças pro-
estreitos limites deste artigo. fissionais (item 3.1);
Relativamente à prevenção, o b) NR-4 – prevê a obriga-
Brasil possui uma das mais avan- toriedade de que as empresas públi-
çadas e extensas legislações de pro- cas e privadas que possuam empre-
teção à saúde do trabalhador, es- gados regidos pela CLT mantenham
pecialmente no que se relaciona ao Serviços Especializados em Enge-
meio ambiente do trabalho. E a nharia de Segurança e em Medici-
principal obrigação do Estado na do Trabalho – SESMT, com a fi-
quanto a esta matéria é a de fiscali- nalidade de promover a saúde e pro-
zar o cumprimento das normas de pro- teger a integridade do trabalhador
teção por parte do empregador. no local de trabalho (item 4.1), con-
Quanto a estas normas, de se forme o risco da sua atividade prin-
recordar que em 1977 a Lei n. 6.514 cipal e a quantidade de empregados
deu nova redação ao Capítulo V do (Quadros I e II);
Título II da CLT, o qual disciplina
c) NR-5 – dispõe sobre a
sobre a Segurança e Medicina do Tra-
obrigatoriedade de que as empresas
balho, sendo que em 1978 a Porta-
ria n. 3.214, do Ministério do Tra- organizem e mantenham funcionan-
balho, aprovou as NRs (Normas do em seus estabelecimentos uma
Regulamentadoras) do referido ca- CIPA – Comissão Interna de Preven-
pítulo, normas que foram recepcio- ção de Acidentes, cujo objetivo está
nadas pela nova Constituição. Atual- descrito no item 5.1;
mente são 33 (trinta e três) normas d) NR-6 – torna obrigatório o
regulamentadoras45 . No que se re- fornecimento gratuito de equipa-
laciona à prevenção, podem ser mento de proteção individual – EPI,
destacadas as seguintes NRs: adequado ao risco e em perfeito es-
a) NR-3 – a qual regulamen- tado de conservação e funciona-
ta o art. 161 da CLT, tratando da mento (item 6.2);

MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO (MTE). Normas Regulamentadoras. Disponível


45

em: <http://www.mte.gov.br/legislacao/normas_regulamentadoras/default.asp>. Acesso em:


2 abr. 2007. A Norma Regulamentadora nº 33 trata da Segurança e Saúde nos Trabalhos em
Espaços Confinados.
Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, n. 31, 2007 133

e) NR-7 – a qual estabelece a ambientais do posto de trabalho e


obrigatoriedade de elaboração e à própria organização do tra-
implementação, por parte dos em- balho (item 17.1.1), tratando des-
pregadores, do Programa de Con- ses aspectos nos itens 17.2 a 17.6;
trole Médico de Saúde Ocupacional h) NR-31 – instituída pela
– PCMSO, com o objetivo de pro- Portaria MTE n. 86, de 3-3-200546
moção e preservação da saúde do – esta NR tem por objetivo estabe-
conjunto dos seus trabalhadores lecer os preceitos a serem observa-
(item 7.1.1); dos na organização e no ambiente
f) NR-9 – que estabelece a de trabalho, de forma a tornar com-
obrigatoriedade de elaboração e patível o planejamento e o desen-
implementação, por parte de todos volvimento das atividades da agri-
os empregadores e instituições que cultura, pecuária, silvicultura, ex-
admitam trabalhadores como em- ploração florestal e aqüicultura,
pregados, do PPRA – Programa de com a segurança e saúde e meio
Prevenção de Riscos Ambientais, o ambiente do trabalho (item 31.1.1).
qual tem como finalidade a preser- Em conclusão, o conteúdo es-
vação da saúde e da integridade dos sencial do direito à saúde do trabalha-
trabalhadores, através da antecipa- dor abrange os seguintes aspectos:
ção, reconhecimento, avaliação e
conseqüente controle da ocorrência 1º) direito à abstenção: a) do
de riscos ambientais existentes ou Estado – a não-interferência no
que venham a existir no ambiente exercício do direito; b) do emprega-
de trabalho, tendo em consideração dor – quanto ao fator tempo de traba-
a proteção do meio ambiente e dos lho, a abstenção de exigir trabalho
recursos naturais (item 9.1.1); em horas extras habituais, nos in-
tervalos intra e interjornadas, nos
g) NR-17 – importante regu- dias de repouso semanal e feriados,
lamentação sobre ergonomia, que nos períodos de férias, assim como
estabeleceu parâmetros a fim de de exigir trabalho da mulher duran-
permitir a adaptação das condições te a licença-maternidade e dos me-
de trabalho às características psico- nores de 18 anos trabalho noturno,
fisiológicas dos trabalhadores, de perigoso ou insalubre; quanto ao fa-
modo a proporcionar um máximo tor saúde mental, a abstenção de tra-
de conforto, segurança e desempe- tamento rigoroso quando das or-
nho eficiente (item 17.1), estipulan- dens e fiscalização do serviço, bem
do que as condições de trabalho como de exigir produtividade supe-
incluem aspectos relacionados ao rior às forças físicas do trabalhador;
levantamento, transporte e descar-
ga de materiais, ao mobiliário, aos 2º) direito de prevenção: a) do
equipamentos e às condições Estado – as prestações atribuídas ao

Esta Portaria revogou a Portaria MTb nº 3.067, de 12-4-1988, a qual tinha, com quinze anos de
46

atraso, regulamentado as condições de labor do trabalhador rural, tendo em vista que já o art. 13
da Lei nº 5.889/73 (Estatuto do Trabalho Rural) havia delegado competência para que o então
Ministro do Trabalho elaborasse as normas preventivas de segurança e saúde no trabalho rural.
GONÇALVES, Edwar Abreu. Manual de segurança e saúde no trabalho. 3. ed. São Paulo:
LTr, 2006, p. 917.
134 Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, n. 31, 2007

SUS (na forma do § 3º do art. 6º da A despeito da concepção


Lei n. 8.080/90), a obrigação de edi- negativista de Norberto Bobbio a
tar normas de saúde, higiene e se- respeito da busca dos fundamentos
gurança para a redução dos riscos dos direitos humanos, tem-se que
inerentes ao trabalho, bem como de sua fundamentação é de extrema
proteger o meio ambiente geral e relevância para a compreensão de
principalmente de fiscalizar o cum- seu verdadeiro conteúdo e para que
primento das normas de ordem pú- se tenha condições de justificar a
blica por parte do empregador; b) sua exigibilidade perante o Estado
do empregador – a obrigação de e diante dos particulares, na cha-
cumprir tais normas, especialmen- mada eficácia horizontal dos direi-
te as NRs, para a proteção do meio tos humanos. Para além do funda-
ambiente do trabalho e da saúde do mento ético-político de sua justifi-
trabalhador, assim como de contra- cação, encontrado na positivação
tar seguro contra acidentes do tra- internacional promovida pela De-
balho. claração Universal dos Direitos
Humanos, há um fundamento moral
9 CONCLUSÃO (ou ético em sentido estrito), que é
a idéia de dignidade do ser humano,
O objetivo principal deste ar- que é um fim em si mesmo, conforme
tigo é o de demonstrar que a saúde já expusera Immanuel Kant na for-
do trabalhador trata-se de um mulação do seu postulado ético,
direito humano, em atenção ao ainda no séc. XVIII.
princípio ontológico da dignidade Quando se discorre sobre di-
da pessoa humana, fundamento reitos humanos há sempre referên-
maior do Estado Democrático cia a alguns valores básicos ou funda-
(e So cial) de Direito em que se mentais, como a vida, a liberdade,
consubstancia a República Federa- a igualdade, bem como a educação,
tiva do Brasil. a saúde, o trabalho, a moradia, a
Os direitos humanos são va- segurança, a alimentação e o ves-
lores fundamentais de todo e qualquer tuário, direitos fundamentais pre-
sistema jurídico, cujo fundamento vistos nos arts. 5º, 6º e 7º da Consti-
último é o da dignidade da pessoa tuição brasileira. De modo que se
humana, um princípio praticamen- pode sustentar que os direitos hu-
te absoluto no mundo jurídico. A manos são um conjunto de direitos,
despeito da preferência doutrinária garantias, faculdades, positivados ou
pela expressão direitos fundamen- não no sistema jurídico, sem os quais
tais, tem-se que os direitos huma- a dignidade da pessoa humana estará
nos são direitos naturais, inatos à pes- seriamente ameaçada, açambarcando
soa, que pertencem ao indivíduo – toda uma gama de liberdades es-
que não pode ser dividido – e pre- senciais, bem como de direitos mí-
cedem a qualquer sociedade políti- nimos à afirmação da pessoa para
ca, numa perspectiva jusnatu- a concretização do ideal de igual-
ralista, por expressarem valores im- dade (material).
prescindíveis à existência da pessoa O princípio da dignidade da
humana e ao desenvolvimento de sua pessoa humana, ápice da construção
personalidade. jusfilosófica na evolução cultural da
Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, n. 31, 2007 135

humanidade, é o mais profundo ali- bém a saúde do trabalhador, como


cerce dessa temática. Tal princípio espécie, dever ser compreendida
significa, em síntese, que a pessoa como um direito humano funda-
humana é dotada de direitos essenciais mental de natureza negativa e po-
sem cuja realização não terá forças sitiva, exigindo do empregador e do
suficientes para a conformação de sua Estado não somente a abstenção de
personalidade e seu pleno desenvolvi- práticas que possam levar à doen-
mento. Tais direitos consubstanciam ça do trabalhador, mas também a
o que se tem convencionado cha- adoção de medidas preventivas de
mar de mínimo existencial, sendo tal doença.
possível falar em um núcleo essencial Na positividade da Constitui-
da dignidade humana, que é também ção brasileira de 1988 se verifica
direito (ou norma), além de princí- que a mesma proteção dada à saú-
pio-guia do sistema jurídico. Com de em geral é também destinada à
efeito, pode-se afirmar que a Cons- saúde do trabalhador, numa inter-
tituição brasileira definiu muito pretação sistemática dos arts. 6º, 7º,
bem o referido mínimo existencial XXII e XXVIII, 196 a 200 e 225. De
social, em seu art. 6º, definindo ain- igual modo, a Lei Orgânica da Saú-
da com mais rigor as necessidades de, tratando do SUS, especifica as
vitais básicas dos trabalhadores no ações para a proteção da saúde do
inciso IV do seu art. 7º. De tal modo trabalhador, mais especificamente
que a saúde do trabalhador, como no § 3º do seu art. 6º. Também o
espécie do gênero, compõe, segura- meio ambiente do trabalho encon-
mente, o chamado conteúdo essen- tra a mesma proteção disposta para
cial da dignidade da pessoa humana. o meio ambiente geral, em face do
princípio da prevenção, em cumpri-
Quanto à saúde, deve ser con- mento às Convenções n. 148, 155, 161
siderada como o bem-estar físico-fun- e 187 da OIT, importantíssima
cional da pessoa, sendo incompleta normativa internacional para a pro-
a alusão à saúde mental, porquan- teção do meio ambiente do traba-
to há diversas funções do organis- lho e, por via de conseqüência, da
mo humano, sendo uma delas a saúde do trabalhador.
função mental ou psíquica, de
modo que a saúde abrange o bem- Por fim, o conteúdo essencial
estar anatômico do corpo humano, do direito à saúde do trabalhador
quanto ao seu aspecto físico, bem tem dois aspectos essenciais, quais
como o seu bem-estar fisiológico, ou sejam: 1º) direito à abstenção: a) do
seja, de todas as funções, de todos Estado – a não-interferência no
exercício do direito; b) do emprega-
os órgãos do referido corpo.
dor – quanto ao fator tempo de traba-
O mais importante nessa lho, a abstenção de exigir trabalho
temática, no entanto, é a concep- em horas extras habituais, nos in-
ção de que o conceito de saúde com- tervalos intra e interjornadas, nos
preende os seus aspectos negativo e dias de repouso semanal e feriados,
positivo, tendo as pessoas direito a nos períodos de férias, assim como
uma abstenção de práticas que a de exigir trabalho da mulher duran-
violem, assim como a prestações te a licença-maternidade e dos me-
destinadas a sua efetivação. Tam- nores de 18 anos trabalho noturno,
136 Revista do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região, n. 31, 2007

perigoso ou insalubre; quanto ao fa- derechos humanos en el siglo XXI.


tor saúde mental, a abstenção de tra- Navarra: Editorial Aranzadi, 2006.
tamento rigoroso quando das or-
dens e fiscalização do serviço, bem BOBBIO, Norberto. A era dos di-
como de exigir produtividade supe- reitos. Tradução de Carlos Nelson
rior às forças físicas e mentais do Coutinho. Rio de Janeiro: Campus,
trabalhador; 2º) direito de preven- 1992.
ção: a) do Estado – as prestações BONAVIDES, Paulo. Curso de Di-
atribuídas ao SUS (na forma do § reito Constitucional. 19. ed. atual.
3º do art. 6º da Lei nº 8.080/90), a São Paulo: Malheiros, 2006.
obrigação de editar normas de saú-
de, higiene e segurança para a re- CANÇADO TRINDADE, Antonio
dução dos riscos inerentes ao tra- Augusto. Tratado de Direito Inter-
balho, bem como de proteger o meio nacional dos Direitos Humanos.
ambiente geral e fiscalizar o cum- Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris,
primento das normas de ordem 1997. v. 1.
pública por parte do empregador;
b) do empregador – a obrigação de COMPARATO, Fábio Konder. A
cumprir tais normas, especialmen- afirmação histórica dos direitos
te as NRs, para a proteção do meio humanos. 3. ed. rev. e ampl. São
ambiente do trabalho e da saúde do Paulo: Saraiva, 2003.
trabalhador, assim como de contra- DELGADO, Mauricio Godinho.
tar seguro contra acidentes do tra-
Curso de Direito do Trabalho. 4.
balho.
ed. São Paulo: LTr, 2005.
Do exposto, conclui-se que há
um farto manancial legislativo e de FERNANDEZ, Maria Encarnación.
normas internacionais para a proteção Los derechos económicos, sociales
da saúde do trabalhador, como y culturales. In: QUIRÓS, J. J. M.
um dos bens mais relevantes de (Coord.). Manual de derechos hu-
todo o sistema jurídico, já que manos: los derechos humanos en el
consubstancia uma vertente pri- siglo XXI. Navarra: Editorial
mordial dos direitos humanos. Aranzadi, 2006.
É necessário, pois, que os atores
FERREIRA, Aurélio Buarque de
jurídicos utilizem as normas postas
e, na falta destas, tenham a Holanda. Novo dicionário da lín-
criatividade para oferecer a devida gua portuguesa. 2. ed. rev. e aum.,
proteção a esse bem essencial, à luz 23. impr. Rio de Janeiro: Nova Fron-
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