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01. Crítica a nível normativo: é constitucional?

Caso não seja, é possível sua inclusão no


ordenamento via Emenda Constitucional?

A Medida XVII do Projeto Anticrime está eivada de inconstitucionalidade. Como


visto, o projeto de lei em análise pretende introduzir o parágrafo único ao art. 2º da Lei
nº 11.671/08, cuja redação pretende ampliar consideravelmente a competência do juízo
federal de execução penal, o qual cumulará ações de natureza cível ou penal que tenham
por objeto fatos ou incidentes relacionados à execução da pena ou infrações penais
ocorridas no estabelecimento penal federal.

A competência do juízo federal é regida unicamente pela Constituição Federal de


1988 (no art. 109), não sendo permitido à legislação infraconstitucional elaborar normas
desta matéria, o que inclusive já foi ressaltado pela Suprema Corte, na ocasião do
julgamento da ADI 2.473:
Competência da Justiça Federal definida na Constituição, não cabendo a lei
ordinária e, menos ainda, a medida provisória sobre ela dispor (ADI 2.473‑MC,
Rel. Min. Néri da Silveira, julgamento em 13-9-2001, Plenário, DJ de 7-11-
2003.) (nota técnica da defensoria pública)

Dessa forma, é incabível a presunção de que que está presente o interesse da


União, simplesmente pela infração ter sido praticada em presídio federal. Nesse sentido,
esta circunstância não se subsume ao previsto no art. 109 da Constituição Federal.

Além disso, o constituinte originário optou por separar os sistemas de jurisdição


(art. 92 CF) em Justiça Federal, Justiça do Trabalho, Justiça Eleitoral, Justiça Militar e
Justiças Estaduais. O que diz respeito à disciplina da competência pela legislação
infraconstitucional (arts. 11, §3º, 113, 121, 124, parágrafo único da CF) coube a esta a
Justiça do Trabalho, Eleitoral e Militar, para a Justiça Estadual ficou a competência
residual, já a Justiça Federal tem sua competência regida pela Carta Magna em seu artigo
109. Logo esta não pode ser regulada por lei ordinária , pelo fato de que oposto das demais
jurisdições, a Constituição Federal não delegou esta função ao legislador ordinário.

Outra proposta de alteração da Medida XVII que também chama muito a atenção
é a do art. 11-A, pelo qual as decisões relativas à transferência ou à prorrogação da
permanência do preso em estabelecimento penal federal de segurança máxima, ou à
concessão e denegação de benefícios prisionais ou à imposição de sanções ao preso
federal poderão ser tomadas por colegiado de juízes, na forma das normas de organização
interna dos Tribunais.
Ao definir que decisões de relevante interesse dos presos estejam sob a
competência de órgão colegiado, atinge-se frontalmente o princípio do juiz natural,
verdadeira cláusula pétrea de nosso ordenamento (art. 5º XXXVII e LIII). Desta forma é
incabível deliberação de proposta de emenda conforme o disposto no art. 60, §4º, logo
não será possível a inclusão desta lei no ordenamento jurídico via emenda constitucional.

Ademais, o viés seguido pelo projeto de lei em tela é extremamente punitivista


por apresentar um regime ainda mais gravoso ao réu que o modelo vigente, como ocorre
com o aumento do tempo máximo de permanência do preso de 360 dias para até 3 anos,
além da possibilidade de renovação desse prazo por número indeterminado de vezes.
Ademais, a presente medida busca inovar no campo da execução penal ao criar, no
ordenamento jurídico brasileiro, o chamado “regime fechado de segurança máxima” (art.
3º, §1º), o que destaca ainda mais o recrudescimento do sistema penal.

O projeto de lei ainda prevê a possibilidade de os Estados e o DF construírem


presídios e estabelecimentos de segurança máxima, indicando novamente que a solução
para a criminalidade é a punição extrema e o encarceramento massivo. Diante de tudo
quanto exposto e tendo em vista a falência do sistema prisional brasileiro, constata-se
que, além da inconstitucionalidade flagrante, a medida em tela não traz melhorias ao
sistema penitenciário, tampouco será efetiva ao combate ao crime, pois não está pautada
em estudos.

Referências bibliográficas

 BORBA, Rodrigo Esperança.


 Defensoria Pública da União. Nota Técnica da Defensoria Pública da
União em face do Pacote de Sugestões Legislativas Apresentadas em
04 de fevereiro de 2019 pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Brasília, 13 de maio de 2019.

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