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Jornal Informativo de História Antiga

Sumário
Editorial
2 Culinária na Roma Antiga,
Além da Alimentação

Entrevista
4 Julio Gralha debate sobre as
práticas alimentares no Egito
Antigo

Alimentação na Normalmente templos famosos, pirâmides misteriosas,


5 Antiguidade
Banquetes, Recepções e
e tumbas magníficas são as grandes atrações no Egito.
Alguém já se perguntou qual era a dieta dos egípcios?
Rituais na Mesopotâmia Como era o café pela manhã?
Pág. 7
Cultura & Sociedade
7 Alimentação: uma
abordagem cultural e social
da História do Egito A Mesopotâmia, berço de uma sociedade original que
se constituiu a partir do IV milênio a.C., inventou a
escrita e com ela um rico, complexo e refinado
Conselho Editorial sistema cultural.
Prof. Dr. Fábio de Souza Lessa Pág. 5
UFRJ
Prof. Dr. Alexandre Carneiro
Cerqueira Lima
UFF
Profª. Drª. Ana Lívia Bomfim Vieira
UEMA

Expediente
Coordenação e Direção
Profª. Drª. Maria Regina Candido
A alimentação está relacionada à Conhecido por sua excelência acadêmica e
Coordenação de Publicações compromisso com as pesquisas em
satisfação de uma das carências
Prof. Ms. José Roberto Paiva História Antiga, o NEA/UERJ teve a grata
Gomes
mais elementares do homem. Na
Roma Antiga, o ideal da culinária satisfação de ver os pesquisadores José
Edição tradicional era a dieta vegetariana, Roberto, Carlos Eduardo, Junio Cesar,
Prof Mestrando Carlos E. Campos condizente com o mos maiorum, o Marcos Davi e Pedro Vieira (colaborador),
costume dos ancestrais. sendo aprovados para o Doutorado do
Editoração Gráfica
Pág. 2 PPGHC/UFRJ, Mestrado do PPGH/UERJ
Profª Mestranda Tricia Carnevale
e Mestrado do PPGH/UFF. Pág. 8
Revisora
Profª. Msª. Alessandra Serra Viegas

Desde 1998 - Edições Trimestrais


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Profª. Drª. Regina Maria da Cunha Bustamante

A alimentação está relacionada à satisfação de uma das carências mais elementares do homem. Todavia, com as
transformações e as diferenciações das técnicas de preparação dos alimentos, houve uma distinção operatória e conceitual
entre alimentação e culinária, pois a ação de comer vai além do ato – essencial – de sobreviver. A necessidade e o gosto,
aliados, constituem os parâmetros da culinária. Mais do que os condimentos e as matérias-primas utilizadas, os modos de
cozinhar e de comer identificam uma sociedade: os homens não são apenas o que comem, mas também a maneira como
comem. Daí, a relevância do estudo deste tema em seus mais diferentes aspectos: produção, distribuição, preparo e
consumo dos alimentos; preferências e significação simbólica dos alimentos; hábitos culinários; proibições dietéticas e
religiosas; comportamentos à mesa, dentre outros.
O modelo dietético clássico baseava-se em três produtos agrícolas primordiais: o cereal, a vinha e a oliveira (a “tríade
mediterrânea”), dos quais derivavam respectivamente o pão, o vinho e o azeite. Na Roma Antiga, o ideal da culinária
tradicional era a dieta vegetariana, condizente com o mos maiorum, o costume dos ancestrais. Estes eram considerados
como frugais (frux, fruto), aproveitando quase todos os produtos da terra. As papas (puls) eram a base da alimentação,
quer como prato único, quer como acompanhamento. Feitas com grãos torrados e umedecidos e, depois, com farinha, elas
eram simplesmente cozidas em água e sal ou, às vezes, leite e melhoradas com favas, lentilhas ou hortaliças. Os frutos e
as saladas com ervas aromáticas faziam o gosto das mesas ricas, enquanto os substanciais pratos de leguminosas e as
sopas de ervas, mesmo as bravas, apaziguavam a fome do povo.
Se até ao século II a.C., a alimentação dos grupos sociais pouco diferiu, após a expansão romana, houve uma
crescente diferenciação. O regime frugal circunscreveu-se então aos camponeses e pobres. Difundiu-se o consumo de
carne, de peixe fresco e de pães e aumentou a importação de artigos destinados à ostentação nos banquetes. Escritos
antigos descrevem as festas luxuosas dos ricos, como o banquete de Trimalquião no Satyricon de Petrônio. Segundo
Juvenal (Sátira XII, 174-175), uma ocorrência frequente era que convidados sujassem o chão com vômito resultante dos
seus excessos. A boa mesa era privilégio de uma minoria que tinha condições de gastar pequenas fortunas em refeições
suntuosas. A elite romana estava mais aberta à novidade e ao exotismo culinário do que as outras camadas sociais. Os
gourmets de maior reputação, como Apício e Lúculo, eram aristocratas. A maior sensibilidade da elite às inovações neste
campo decorria da ostentação e do seu poder aquisitivo em contraste com o tradicionalismo e o baixo poder aquisitivo das
camadas populares.
Houve tentativas de refrear os excessos à mesa. No século II a.C., uma série de leis suntuárias (Orchia, Fannia,
Didia, Aemilia e Licinia) incidiam sobre os gastos da elite. Mas, ao longo do século I a.C. e à medida que as leis perdiam a
rigidez, os excessos aumentavam, voltando a ser reprimidos, sem sucesso, na época imperial. A defesa de uma
alimentação tradicional baseava-se na valorização simbólica de determinados alimentos, relacionados a uma vida saudável
e, por extensão, a uma sociedade menos viciosa. A
agricultura era vista como símbolo da civilização: o
homem produzia seus próprios alimentos dominando
a natureza graças ao processo de domesticação das
plantas. Contrariamente, a caça e a pecuária eram
próprias do espaço selvagem, da natureza. Assim, a
carne – de animais domésticos e, sobretudo, a da
caça – tinha, culturalmente, uma forte co no tação
“s elv agem ”, o que f avo recia s ua identificação
como alimento dos povos “bárbaros”, demandando,
Tipo: Mosaico de chão (opus tesselatum) em tesselas policromáticas,
figurativo em fundo branco. Proveniência: Decorava o triclinium (sala por isso, a sua oferenda como sacrifício aos deuses
de jantar) de uma rica casa particular em Diocaeserea / Sepphoris para ser consumida pelo homem civilizado.
(Tzippori em Israel). Período: Provavelmente, 2ª. metade do século
III. Referência bibliográfica: DUNBABIN, K. M. D. The roman Paradoxalmente, a carne era o alimento por
banquet; images of conviviality. Cambridge: Cambridge University
excelência do banquete, comensalidade relacionada à
Press, 2003, plate XII.

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à civilidade urbana. Os
tratados médicos
reforçavam a relação entre
uma alimentação frugal e
uma sociedade sem vícios.
Para os antigos romanos,
saúde era sinônimo de
equilíbrio, que se
manifestava na relação do
homem com o mundo.
Doença e saúde indicavam
estados de alma. Na ótica
de filósofos como Sêneca, a
Tipo: Mosaico de chão (opus tesselatum) em tesselas policromáticas, figurativo em fundo branco.
doença seria um possível
Proveniência: Decorava uma exedra (sala de recepção) abobada, próxima ao peristylium (pátio com
reflexo de uma falta moral colunas) e defronte do triclinium (sala de jantar) de uma rica casa particular (“Casa do Triunfo de
propiciada por uma Dioniso”) em Hadrumetum (atual Sousse na Tunísia). Período: Início do século III. Referência
sociedade permissiva. bibliográfica: BLANCHARD-LEMÉE, M. et alii. Mosaics of Roman Africa; floor mosaics from Tunisia.

Na época imperial, os London: British Museum Press, 1996, p. 75, fig. 47.

romanos faziam três


refeições diárias: de manhã, o ientaculum (vinho, pão e queijo); depois, ao meio-dia, o prandium (um pouco de carne e
fruta com algum vinho), pequena pausa sem qualquer ritual, em que se comia geralmente de pé e, por fim, ao cair da
tarde, a cena, que era a principal refeição do dia, em que a família e, eventualmente, convidados, reuniam-se
confortavelmente para compartilhar uma comida mais substanciosa regada à bebida e com diversão. A cena era preparada
para usufruir o otium e se opunha ao ligeiro prandium, que ocorria ao meio-dia, quando ainda se voltaria às atividades, ou
seja, ao negotium. A cena requeria tempo para seu preparo e consumo; despertava a gula e o prazer, propiciando a
civilidade e a sociabilidade, típicas do meio urbano. Enquanto o prandium estava mais de acordo com a dieta frugal dos
camponeses, pautada principalmente em alimentos de origem vegetal visando dar energia para exercer as atividades, a
cena estava condizente com as transformações no regime alimentar através do consumo crescente de carnes e produtos
exóticos vindos de todo Império, como se comprova no tratado culinário de Apício. O triclinium (sala de jantar composta
por três leitos em volta da mesa) era o lugar próprio para a cena nas domus (casas) romanas. Cada anfitrião tentava
suscitar a admiração dos seus convidados através da exposição de pratos exóticos ricamente adornados, apresentados por
escravos bem vestidos em baixelas de ouro, prata, cristal e vidros trabalhados, num ambiente com móveis requintados e
pinturas e mosaicos nas paredes e chão. O fausto estabelecia uma espécie de hierarquia de poder na tecedura social. Na
Roma Antiga o espetacular impunha-se, quer na vida pública, quer na privada. Desenvolveu-se uma etiqueta cada vez
mais refinada e suntuosa à mesa, estabelecendo hierarquias e conferindo status. A culinária exótica e a requintada liturgia
da mesa constituíam-se em elementos da lógica de prestígio, que fundamentava a estrutura e a dinâmica da sociedade
imperial romana. Ω

Referências Bibliográficas Profª. Drª. Regina


DUNBABIN, K. M. D. The roman banquet; images of Maria da Cunha
conviviality. Cambridge: Cambridge University Press,
2003.
Bustamante

FLANDRIN, J.-L.; MONTANARI, M. (dir.). História da Professora Associada de


alimentação. São Paulo: Estação Liberdade, 1998. História Antiga da UFRJ. Pesquisadora do “Laboratório de
História Antiga” (LHIA) e “Sport: Laboratório de História do
MONTANARI, M. Comida como cultura. São Paulo: Esporte e do Lazer” da UFRJ, bem como do “Laboratório de
Editora SENAC São Paulo, 2008. Estudos sobre o Império Romano” da USP, UNESP-Franca,
UFG, UFES e UFOP. Bolsista de produtividade do CNPq.

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Entrevista concedida ao Pesquisador Carlos Eduardo da Costa Campos – NEA/UERJ


Philía: Qual a sua temática de na Antiguidade e na Idade Média; Religião, o prazer sexual, o amor e neste sentido
pesquisa? Mito e Magia na Antiguidade e na Idade ervas e alimentos considerados ligados ao
Média; Cultura, Religião e Sociedade na prazer deveriam estar presentes. Tal
Gralha: Tenho trabalhado com as relações África Antiga e Medieval. Acesse nosso site: divindade parece ter sido considerada a
de poder e sociais através de uma www.nehmaat.uff.br. patrona dos ébrios (popularmente
abordagem cultural e da cultural material. conhecidos como pinguços!). Neste sentido
Assim sendo, através da arquitetura, da Philía: O senhor poderia narrar para os vinho não poderia faltar!
iconografia e das práticas mágico-religiosas leitores sobre como seria as práticas
tento compreender as sociedades antigas, alimentares no Egito Antigo? Philía: Os alimentos também fariam
sobretudo o Egito Antigo. Ou seja, analiso parte dos rituais fúnebres no Egito
as práticas políticas e sociais legitimadas Gralha: Os antigos egípcios, assim como Antigo?
por práticas culturais. Atualmente também nós, possivelmente realizavam diversas
desenvolvo pesquisa tomando por base os refeições durante ao dia. De fato não está Gralha: Os alimentos nos ritos funerários
usos do passado. Na Egiptologia é claro quantas e a que horas elas teriam como função alimentar o morto. Mas
conhecido como egiptomania. Desta forma aconteciam. De um modo geral temos de que forma? Bem os egípcios acreditavam
a pesquisa se refere ao uso de elementos cenas de banquetes e de refeições (talvez o que tudo na natureza conteria uma forma
da Antiguidade e do Mundo Medieval com jantar) em tumbas e templos e a partir de energia conhecida como KA, um tipo de
forma de legitimidade de poder (social, destes elementos tentamos fazer uma força vital que nas oferendas funerárias
cultural ou político) nas sociedades análise do cotidiano alimentar. Mas o que alimentariam de forma invisível e energética
modernas. Atualmente analise os usos de egípcios comiam? o morto. De tempos em tempos estes
elementos egípcios antigos e greco- Partindo da hipótese de três refeições seriam alimentados apesar de haver outras
romanos na arquitetura do Rio de Janeiro e diárias poderíamos assim descrevê-las: na formas de obter alimento no espiritual
da cidade de Campos. primeira refeição pela manhã, pão de trigo egípcio (Amenti).
ou cevada com algum tipo de recheio e
Philía: Professor Gralha, nos relate cerveja deveriam ser a base da Philía: Haveria algum alimento de
sobre a sua trajetória acadêmica. alimentação. Frutas como tâmara, melão e maior importância na dieta cotidiana
a dum (fruta comum no Egito), e mel do egípcio?
Gralha: Iniciei a vida profissional como também poderiam compor o “café da Gralha: Sem dúvida as listas de banquetes
engenheiro de sistemas de computação. manhã”. É possível que o leite e o queijo nos da conta de que o pão nas mais
Em seguida, nos anos 90 terminei a fizessem parte de algumas mesas diversas formas era o principal alimento do
graduação em História (UERJ) e em 2000 matutinas. egípcio antigo.
defendi a dissertação de mestrado em A refeição do dia (o equivalente ao almoço
História Social (Egito Antigo) pela UFF sob a se realmente existia) deveria ser feito no Philía: Haveria algum alimento, que
orientação do Prof. Dr. Ciro Flamarion. Em local de trabalho e além dos produtos sofreria restrições religiosas para sua
2009 (após três anos de pesquisa) finalizei citados, nas mesas abastadas seria possível ingestão pelos egipcios?
a tese de doutorado em História Cultural encontrar um tipo de carne, variedades de
(trabalhei como o Egito Ptolomaico) sob a vinho e grãos (lentilha e grão de bico, por Gralha: Particularmente não conheço. Mas
orientação do prof. Dr. Pedro Paulo Abreu exemplo). Aqueles segmentos de poucos o fato de eu desconhecer não significa que
Funari. De 2000 até a presente data tenho recursos e os agricultores possivelmente não houvesse algum tipo de restrição.
sido consultor para diversas revistas de teriam em suas mesas um tipo de ave ou Talvez em certa época do ano à população
História (Aventuras na História, Leituras na peixe, pão e cerveja. evitasse certos alimentos ou, no caso de
História, Recreio e etc). A refeição da noite (o equivalente ao jantar) sacerdotes, em períodos religiosos
Fui professor de História nas Faculdades seria a refeição mais completa. Dependendo significativos poderia haver algum tipo
Integradas Simonsen, UERJ e atualmente do poder aquisitivo seria possível ter na interdição alimentar.
sou professor Adjunto em História Antiga e mesa pães, bolos, cerveja, vinho, alface,
Medieval da UFF – PUCG. cebola, azeite, mel, ovos, carne (peixe, ave
e carne de vaca), frutas (uvas, figos,
Philía: Poderia nos descrever sobre o tâmaras, dum, melão e melancia), verduras Prof. Dr. Julio Cesar
seu grupo de pesquisa? (ervas, alho poro e alface), grãos (lentilha, Mendonça Gralha
ervilhas, grão de bico e outras sementes) e
Gralha: A criação do Núcleo de Estudos em temperos (canela, mostarda, alecrim,
História Medieval, Antiga e Arqueologia cominho... A pimenta do reino chega ao Professor Adjunto de História Antiga e
Transdisciplinar (NEHMAAT) visa Egito via o mundo Greco-romano). Medieval da UFF-PUCG. Coordenador
desenvolver estudos nas áreas citadas do Núcleo de Estudos de História
estabelecendo uma relação com o mundo Philía: O senhor poderia nos contar Medieval, Antiga
moderno e contemporâneo quando possível sobre os alimentos que seriam e Arqueologia
tendo por base as práticas culturais, sociais utilizados como oferendas para a Transdisciplinar
e as relações de poder. A arquitetura, os deusa Harthor?
(NEHMAAT).
símbolos, os rituais, o cotidiano, a
Professor
iconografia, a política, a urbanização e as Gralha: De fato a maioria dos alimentos
práticas religiosas são privilegiadas. O serviam como oferendas para os deuses,
colaborador do
núcleo foi criado na UFF – Pólo Universitário entretanto, alimentos vermelhos tais como, NEA-UERJ e
de Campos dos Goytacazes no curso de vinhos, uvas, figo do sicômoro, bem como coordenador do
História. Estamos trabalhando em quatro flores (lírio do rio – lótus) e incenso de CEHAM
linhas de pesquisa: Usos do Passado no mirra comporiam uma significativa oferenda
Mundo Moderno e Contemporâneo; Cultura, para a deusa Hathor. É preciso lembrar que
Economia, Sociedade e Relações de Poder esta deusa tem como atributos a felicidade,

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Profª. Drª.Katia Maria Paim Pozzer

RESUMO: A Mesopotâmia, berço de em fase de deciframento, temos um e o valor dos objetos deveria ser
uma sociedade original que se grupo significativo que trata da equivalente.
constituiu a partir do IV milênio a.C., culinária mesopotâmica.
inventou a escrita e com ela um rico, Os mensageiros ficavam sob a
complexo e refinado sistema cultural. Para os mesopotâmicos, realizar um responsabilidade e os cuidados da corte
Dentre quase meio milhão de banquete era uma grande que lhes recebia: eles deveriam receber
documentos escritos em sumério e demonstração de hospitalidade para cotas de vestimentas, óleo, carne,
acádico, já encontrados e em fase de cereais, prata e eram alojados em
com os convivas, que deveria ter uma
deciframento, temos um grupo casas requisicionadas da população
organização antecipada e uma rígida
significativo que trata da culinária local. Este local, chamado de bît
etiqueta a ser respeitada.
mesopotâmica.
napṭarim (literalmente, a casa do
A maioria das receitas culinárias anfitrião), era onde os estrangeiros
PALAVRAS-CHAVE: rituais,
termina com a expressão "Pronta para residiam e seu anfitrião era responsável
alimentação, Mesopotâmia.
servir", encerrando assim a função do pelos seus atos frente ao rei (Black;
As novas pesquisas no campo da cozinheiro e entrando em cena os George; Postgate, 2000). É, pois, na
história da alimentação foram convidados. Entretanto, os textos são casa de seu napṭarum (o anfitrião) que
impulsionadas pela nova história bastante lacunares sobre o ato de se os grupos de mensageiros se
cultural, assim, estudos sobre a alimentar. Raros relatam um banquete instalavam com seus serviçais, asnos e
significação simbólica dos alimentos, os palaciano ou uma simples refeição suas bagagens antes de entrar no
hábitos culinários e o comportamento à (Lion; Michel, 2003: 32-37). São os palácio (Charpin, 1988: 142).
mesa contribuíram para desvendar as textos literários e religiosos que nos
relações entre alimentação, cultura e trouxeram mais informações a respeito Quando embaixadores estrangeiros
estrutura social (Flandrin; Montanari, do banquete mesopotâmico. estavam presentes em refeições reais,
1998). o tratamento recebido por cada grupo
Os antigos mesopotâmicos era determinado pela posição
Cada sociedade e cada cultura praticavam a hospitalidade. As fontes hierárquica que possuíam aos olhos de
possuem uma cozinha original que documentais de caráter diplomático e seu anfitrião. A posição e o lugar
depende de suas preferências, seu administrativo, os mitos e as epopéias ocupados durante o banquete também
meio natural e sua economia. mencionam a conduta apropriada para eram expressões de diferenciação: ter
Conhecemos parcialmente o passado a recepção de um convidado, segundo direito a sentar-se numa cadeira era
culinário dos homens na pré-história, os hábitos da época: troca de indício de prestígio, ao contrário,
graças aos achados arqueológicos de apresentações e de palavras amistosas, aqueles que se sentavam no chão eram
resíduos alimentares, utensílios e oferecimento de vestimentas limpas e visivelmente menosprezados.
habitações. Mas, é somente com o novas, unção do corpo com óleos
Antes de passar à mesa todos
advento da escrita, no final do IV perfumados e bebidas e comidas em
deveriam lavar as mãos em água limpa,
milênio a.C., que podemos conhecer os abundância.
pois um provérbio sumério diz: "É uma
mais antigos sistemas de gostos e
Na corte mesopotâmica, os abominação levar à boca mãos
procedimentos tradicionais usados para
banquetes eram importantes impuras". Quando todos estivessem
a transformação dos alimentos: as
momentos de acordos políticos e acomodados iniciava-se o serviço. Os
receitas culinárias (Drachline; Petit-
consolidação de amizades, onde um serviçais traziam bandejas com iguarias
Castelli, 1984).
complexo e estrito protocolo deveria finamente preparadas, tudo regado a
A Mesopotâmia, berço de uma ser seguido. Os emissários dos reis não muita cerveja! Nas mesas, estavam à
sociedade original que se constituiu a eram somente encarregados de disposição dos convivas pratos, copos,
partir do IV milênio a.C., inventou a transmitir mensagens, eles também jarros, colheres, facas e os
escrita e com ela um rico, complexo e levavam os presentes. A troca de dons guardanapos, que eram colocados
refinado sistema cultural. Dentre quase e contra-dons testemunha as boas sobre o colo para evitar que os
meio milhão de documentos escritos relações diplomáticas entre dois alimentos sujassem as roupas. A
em sumério e acádico, já encontrados e Estados, a prática deveria ser recíproca documentação iconográfica e epigráfica

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da antiga Mesopotâmia sobre os anunciava uma outra etapa, a do Archives Épistolaires de Mari I/2 -
banquetes privilegia a esfera do poder divertimento, com lutadores, Archives Royales de Mari XXVI. Paris:
ERC, 1988.
real e religioso (Joannès, 2001: 716). A saltimbancos, dançarinas e músicos. Os
partir dela sabemos da realização destes músicos seculares tocavam nas tabernas DRACHLINE, P.; PETIT-CASTELLI, C. A
com a finalidade de celebrar uma (As tabernas eram lugares de venda de Table avec Cesar. Paris: Éditions Sand,
1984.
importante vitória militar ou a cerveja e de prostituição, cf. O Código de
inauguração de um novo templo ou Hammu-rabi § 108-111) e em FLANDRIN, J.-L.; MONTANARI, M.
palácio. celebrações sociais. Os músicos dos História da Alimentação. Tradução de
Luciano V. Machado e Guilherme J. F.
palácios costumavam receber rações
A base da alimentação eram os Teixeira. São Paulo: Estação Liberdade,
alimentares e alguns templos mantinham 1998.
cereais (cevada e trigo), legumes
escolas de música. Além disso, a música
diversos, frutas – como a tâmara, maçã,
era, juntamente com a literatura, a GLASSNER, J.-J. La réception de l'hôte,
pêra, figo, romã, uva – cogumelos, ervas le vivre et le couvert. Dossiers
linguagem e a matemática uma das d'Archéologie. Dijon: Éditions Faton, n.
condimentares, carnes de animais de
disciplinas básicas do ensino formal 280, p. 44-47, 2003.
pequeno e médio porte: suínos, aves
mesopotâmico. Na iconografia
(codornas, passarinhos, patos, gansos, JOANNÈS, F. Dictionnaire de la
mesopotâmica há inúmeras referências a
das quais se consumiam os ovos), os Civilisation Mésopotamienne. Paris:
instrumentos musicais, que eram de três Robet Laffont, 2001.
animais de caça, peixes de água doce e
tipos: os instrumentos de corda (harpa,
salgada, crustáceos, mariscos e insetos, LION, B.; MICHEL, C. Un banquet à la
lira e alaúde); de sopro (flautas simples
leite, manteiga e outras gorduras cour assyrienne. Dossiers
e duplas de junco, madeira ou metal); e d'Archéologie. Dijon: Éditions Faton, n.
vegetais (sésamo e oliva), mel e
de percussão (tambores de vários 280, p. 24-31, 2003.
produtos minerais (sal e cinzas).
tamanhos e formas) (Pozzer, 2007).
Consumiam mais de 20 qualidades de POZZER, K.M.P. Uma História da Festa -
queijos, uma centena de tipos de sopas, A iconografia de baixos-relevos, os culinária e música na Mesopotâmia
Antiga. Textura - Revista de Letras e
cerca de 300 qualidades de pães, onde a objetos arqueológicos e a documentação
História. Canoas: Editora da ULBRA, n.
forma também variava (Pozzer, 2005). epigráfica revelam a importância social 11, p. 47-55, 2005.
do prazer à mesa no mundo
mesopotâmico. No imaginário babilônico, _____________. O Banquete do Rei e a
Política nos Tempos de Paz. In:
comer e beber juntos servia para Cerqueira, F.V.; Gonçalves, A.T.; Nobre,
fortalecer a amizade entre os iguais e C.K.; Silva, G.J.; Vargas, A.Z. Guerra e
para reforçar as relações entre o rei e Paz no Mundo Antigo. Pelotas:
Leeparq/UFPel, IMP, 2007. p. 139-152.
seus súditos. A partilha do alimento,
mais do que a própria composição da
refeição, era o mais importante. O que
fundava o banquete era esta Profª. Drª. Katia Maria
Além de comer, os babilônicos comensalidade entre os participantes e Paim Pozzer
também bebiam! A cerveja, considerada remetia a uma das expressões da
a bebida mais popular e mais antiga na solidariedade básica da comunidade
região (anterior ao III milênio a.C.), era (Glassner, 2003: 45). O banquete
um ingrediente fundamental em também era um ato político, ritualizado e
qualquer banquete na Mesopotâmia. sagrado. Com ele selavam-se acordos de
Esta bebida fermentada, à base de paz entre os homens e garantia-se a
cereais, era preparada a partir da proteção divina para que a vida na terra
maceração e fermentação da cevada e fosse mais próspera e mais feliz.
de tâmaras, segundo técnicas
Referências Bibliográficas Professora do Curso de História da
aprimoradas, de mais de 30 maneiras
diferentes: fabricava-se cerveja branca, Universidade Luterana do Brasil
BLACK, J., GEORGE, A.; POSTGATE, N. A
Concise Dictionary of Akkadian. (ULBRA), Doutora em História pela
vermelha, clara, escura, adoçada ao mel
Wiesbaden: Harrassowitz Verlag, 2000. Université de Paris I – Panthéon-
e perfumada com múltiplos aromas.
Sorbonne
Ao final da refeição, antes da CHARPIN, D.; JOANNÈS, F.; (pozzer@terra.com.br)
LACKENBACHER, S.; LAFONT, B.
sobremesa, era realizado um brinde, que

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Prof. Dr. Julio Gralha


RESUMO: Normalmente templos da árvore Sicômoro dedicado a deusa Apud MACIEL E MENASCHE, 2007, p.
famosos, pirâmides misteriosas, e Hathor. 2).
tumbas magníficas são as grandes
atrações no Egito. Alguém já se Tanto na refeição matutina quanto Desta forma ao estudar as práticas
perguntou qual era a dieta dos egípcios? nas outras uma coisa os egípcios não alimentares, de uma cultura ou
Como era o café pela manhã? dispensavam: uma boa cerveja! Que sociedade, estamos partindo de uma
Percebemos que alguns alimentos pela manhã seria o substituto do nosso análise particular para uma situação
poderiam fazer parte da nossa mesa e “café-com-leite” Ao que parece nas macro. Diante deste ponto práticas
outros nem tanto, mas através do que outras refeições, além do que já foi econômicas, políticas e as relações com
bebemos (ou bebíamos) e comemos (ou relatado, os egípcios faziam uso de o meio-ambiente podem ser percebidas
comíamos) é possível identificar práticas grãos tais como o grão de bico e por uma análise cultural e social a partir
culturais, sociais e relações de poder. lentilhas, e conheciam condimentos de um pano de fundo — compreendido
como canela, manjericão, cuminho e aqui como Cultura Material —, que
PALAVRAS-CHAVE: Egito, alimentação, mostarda. Aparentemente a pimenta foi neste caso em particular, se relaciona as
cotidiano, sociedade. introduzida pelos gregos por volta do práticas alimentares.
século V ou III a.C.
Normalmente templos famosos, Referências Bibliográficas
pirâmides misteriosas, e tumbas Bem, percebemos que alguns
magníficas são as grandes atrações no alimentos poderiam fazer parte da nossa RODRIGUEZ CIVITELLO, Linda. Cusine
Egito. São elas que nos seduzem diante mesa e outros nem tanto, mas através and Culture. New Jersey: WILEY, 2008.
da Terra dos Faraós, mas gostaria de do que bebemos (ou bebíamos) e MACIEL, Maria Eunice Maciel e
tratar de um assunto pouco explorado... comemos (ou comíamos) é possível MENASCHEL, Renata Menasche1.
Alguém já se perguntou qual era a dieta identificar práticas culturais, sociais e Alimentação e cultura, identidade e
dos egípcios? Como era o café pela relações de poder. Certos valores são cidadania. Você tem fome de quê?
manhã? E o almoço? O que bebiam, euforizados (valorizados) pela Curitiba: IBASE, 2007
<http://www.ibase.br/modules.php?name
além de água, é claro? Quais eram as alimentação. Imaginários sociais e =Conteudo&pid=920&print=1> Acesso
frutas? Podemos dizer que as refeições relações simbólicas podem ser em: 26 dezembro 2010
e os alimentos eram parecidos com as identificadas. Status, poder e prestígio
nossas? Podemos analisar práticas podem ser demonstrados pelos MILLÁN, Amado. Malo para comer,
culturais e sociais através de um estudo banquetes e a qualidade dos alimentos e bueno para pensar: crisis en la
cadena socioalimentaria. In: ARNAIZ,
da alimentação? bebidas e finalmente práticas mágico- Mabel Gracia (coord.). Somos lo que
religiosas também podem ser analisadas comemos: estudios de alimentación y
Apesar de diversas pesquisas da vida pelas oferendas votivas e funerárias, e cultura en España. Barcelona: Ariel,
cotidiana ainda não está bem claro interdições alimentares. Assim sendo 2002.
quantas refeições os egípcios faziam e a quando verificamos na sociedade
que horas. Entretanto, sabemos que TALLET, Pierre. História da
egípcia a relação do figo com a deusa Alimentação no Egito Antigo. São
pela manhã os egípcios comiam pão nas Isis, do figo do sicômoro com a deusa Paulo:SENAC, 2002
mais variadas combinações tendo o trigo Hathor ou do grão de bico com o deus
e a cevada como base. Hórus estamos diante da expressão

Além do pão, que poderia ter outros


material de uma dada cultura e valores Prof. Dr.
simbólicos e mágicos que se tornam
complementos, frutas como a tâmara e
assim objeto de pesquisa, e neste Julio Cesar
provavelmente variações do melão
sentido podemos salientar que:
também estariam no cardápio, além de Gralha
uma carne que podia ser de ave, peixe Na alimentação humana se
ou gado. Evidentemente os menos materializa a estrutura da sociedade, se
favorecidos deveriam ter só pão, um atualiza a interação social e Professor Adjunto de História Antiga e
peixe e frutas como tâmaras. Os mais socioambiental, as representações Medieval da UFF-PUCG. Coordenador
abastados podiam ter na sua mesa socioculturais (crenças, normas, valores) do Núcleo de Estudos de História
frutas mais ricas como o figo que que dão significado à ação social [...] dos Medieval, Antiga e Arqueologia
representava o seio de Isis. De fato, que têm em comum uma mesma cultura. Transdisciplinar (NEHMAAT). Professor
existiam outras formas de figos, mas que A abstração conceitual da cultura se colaborador do NEA-UERJ e
não chegaram ao ocidente como a fruta concretiza no prato. (MILLÁN, 2002 coordenador do CEHAM

PHILÍA - ISSN 1519-6917


8 - Informativo de História Antiga – Jan, Fev, Mar de 2011 – Núcleo de Estudos da Antiguidade – UERJ

Pesquisadores do Núcleo de Estudos da Antiguidade são aprovados para Mestrado na UERJ,


UFF e Doutorado na UFRJ
Em dezembro deste ano, pesquisadores do Núcleo de Estudos da Antiguidade participaram da seleção para mestrado
e doutorado em universidades da nossa cidade.
Conhecido por sua excelência acadêmica e compromisso com as pesquisas em História Antiga, o NEA/UERJ teve a
grata satisfação de ver os pesquisadores José Roberto de Paiva Gomes, Carlos Eduardo da Costa Campos, Junio
Cesar Rodrigues Lima, Marcos Davi Duarte da Cunha e Pedro Vieira da Silva Peixoto, colaborador do Núcleo, sendo
aprovados para o Doutorado do PPGHC/UFRJ, Mestrado do PPGH/UERJ e Mestrado do PPGH/UFF.

O Prof. Ms. José Roberto apresentou o projeto: "As Imagens da Citarista na Tirania dos Pisistratidas (561 a 510 a.C.)" e
obteve o segundo lugar no Doutorado em História Comparada da UFRJ; o Prof. Junio Cesar, "Interações Culturais entre
o Império Romano e a Sociedade Judaica do Século I d.C."; o Prof. Marcos Davi tratou do "Poder da Talassocracia da
Realeza Palaciana Minóico-Micênica no Mar Mediterrâneo (os povos do mar e as expansões micênicas)"; e o Prof.
Pedro Vieira, o tema "A Morte sobre Rodas: Gênero, Hierarquias Sociais e Práticas Mortuárias nos Enterramentos do
Norte da Bretanha nos Séculos IV - III a.C.".
A aprovação dos pesquisadores expressa a seriedade com que o Núcleo de Estudos da Antiguidade tem conduzido
suas pesquisas e a certeza de que o NEA continua firme em seu objetivo de socializar o saber acadêmico e zelar pela
qualidade e confiabilidade de suas pesquisas.

Prof. Carlos Eduardo da Costa Campos


conquista o primeiro lugar na seleção para
Mestrado da UERJ
O Prof. Carlos Eduardo
da Costa Campos
conquistou em dezembro
o primeiro lugar no
Mestrado do
PPGH/UERJ, com o
projeto “Religião como
uma Estratégia do
Imperialismo Romano
em Sagunto nos séculos
I aC - II dC”, obtendo
média 9,8.

Carlos Eduardo, ex-aluno da UERJ e pesquisador do Núcleo


nos últimos três anos obteve menções honrosas na 17ª e
19ª como também conquistou o prêmio máximo na 18ª
Semana de Iniciação Científica da UERJ e ainda possui uma
diversidade de publicações sobre suas pesquisas.

Normas para Publicação: R454 Catalogação na Fonte


UERJ/Rede Sirius/CCS/A
- 800 palavras ou 5000 caracteres com espaço; Philía: jornal informativo de história antiga. – vol.1, n.1
(1998) - . – Rio de Janeiro: UERJ/NEA, 1998 –
- Biografia resumida do autor;
v. : Il.
- Resumo (35 palavras ou 230 caracteres com espaço) e 3
palavras-chave; Trimestral.
ISSN 1519-6917
- 02 Imagens com referência;
- 01 Foto do autor de rosto; 1. História antiga – Peródicos. I. Universidade do
- Fonte: Tahoma 9, espaçamento entre linhas simples; Estado do Rio de Janeiro. Núcleo de Estudos da antiguidade.
- 03 Referências bibliográficas CDU 931 (05)

Confira o restante da programação no site do NEA: www.nea.uerj.br. - Programação sujeita à alterações.

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