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O SOFRIMENTO PSÍQUICO NA PERSPECTIVA DA

PSICOPATOLOGIA FUNDAMENTAL

*
Paulo Ceccarelli

RESUMO. Partindo da palavra PSICOPATOLOGIA, o autor mostra, de forma resumida, como cada contexto histórico tentou
“decompor” o sofrimento psíquico em seus elementos de base para classificá-lo, estudá-lo e tratá-lo. Após uma breve
apresentação da psicopatologia na contemporaneidade, o autor introduz os pressupostos da Psicopatologia Fundamental e suas
contribuições na compreensão do sofrimento psíquico. Ainda que não seja objetivo do texto participar do debate atual sobre as
diretrizes curriculares que norteiam a formação do psicólogo, o autor toma o estudo do conhecimento (logos) da alma (psyché)
- a psicologia - como exemplo de um dos campos de aplicação da Psicopatologia Fundamental.
Palavras-chave: psicopatologia, sofrimento, transdisciplinaridade.

PSYCHIC SUFFERING FROM THE FUNDAMENTAL


PSYCHOPATHOLOGY PERSPECTIVE

ABSTRACT. Starting from the word PSYCHOPATHOLOGY the author briefly shows how each historical context had its
own way to decompose psychic suffering to classify it, study it and cure it. After a short discussion about psychopathology in
contemporaneity the author introduces the theoretical bases of Fundamental Psychopathology and its contributions to
understanding psychic suffering. Although this text does not claim to participate in the debate about psychology students
training, the author exemplifies through the study of the soul (psyche) knowledge (logos) one of the applications of
Fundamental Psychopathology..
Key words: psychopathology; suffering; transdisciplinarity. 1

A palavra "Psico-pato-logia" é composta de três Como tal, cuida de Eros doente. Doente pelo excesso
palavras gregas: "psychê", que produziu "psique", (pelo excesso pulsional). O médico é terapeuta, pois
"psiquismo", "psíquico", "alma"; "pathos", que exerce a terapéia: o cuidado sobre Eros
resultou em "paixão", "excesso", "passagem", restabelecendo, assim, o equilíbrio pulsional para que
"passividade", "sofrimento", "assujeitamento", Eros seja liberado desse excesso. O acometido pela
"patológico" e "logos", que resultou em "lógica", paixão, o paciente, o passivo, o portador de sofrimento
"discurso", "narrativa", "conhecimento". Psico-pato- psíquico, é aquele que padece de algo cuja origem ele
logia seria, então, um discurso, um saber, (logos) desconhece e que o leva a reagir, na maioria das vezes,
sobre a paixão, (pathos) da mente, da alma (psiquê). de forma imprevista. As paixões atestam nossa
Ou seja, um discurso representativo a respeito do permanente dependência ao Outro.
pathos psíquico; um discurso sobre o sofrimento Cada contexto histórico-político teve sua
psíquico1; sobre o padecer psíquico. A psychê é alada; psicopatologia, ou seja, suas tentativas de “decompor”
mas a direção que ela toma lhe é dada pelo pathos, o sofrimento psíquico em seus elementos de base para,
pelas paixões. a partir dai, compreendê-los, classificá-los, estudá-los
Médico é aquele - diz Platão no Banquete - que e tratá-los. Como resultado, temos ao longo da história
está sempre atento ao pathos, às paixões, pois as várias metapsicologias, cada uma com referências
doenças apresentam-se como um excesso de paixões. próprias e diferentes perspectivas teórico-clínicas.

* Psicólogo, psicanalista. Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII. Docente da
graduação e pós-graduação do departamento de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais-PUC-MG.
1
A psicopatologia, como tradição, surge com os gregos, encontrando sua expressão máxima no teatro de Ésquilo. Conf., FEDIDA,
P., "Tradition tragique du psychopathologique. A propos du pathei mathos de l'Agamemmon", in Crise e contre-transfert, Paris,
PUF, 1992, 19-36. Berlinck, M., "O que é Psicopatologia Fundamental", in Rev. Latinoam. Psicop. Fund., vol. I, no. 1, março,
pp. 46-59.

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Para Freud (Freud, 1976, p. 202), a "psicoanálise" é vistos como encarnações do demônio (fenômeno
uma análise do psiquismo no sentido que a química dá extremante atual, quando os USA propõem-se lutar
a esse termo. Trata-se de decompor, de analisar, os contra o “eixo do mal”.)
elementos que constituem "os sintomas e as Nos séculos XV e XVI o peso das explicações
manifestações patológicas do paciente". religiosas em relação à loucura começa a perder
Na Grécia pré-socrática2, o sofrimento psíquico terreno, na medida em que o estudo da medicina,
era um castigo dos deuses irritados com a hybris dos fortemente influenciado pelo retorno das idéias de
homens. Em Homero, a Atê turva temporariamente a Galeno, passa a considerar componentes psicológicas
razão, fazendo da loucura um estado de desrazão. Por na loucura, o que propicia o aparecimento da noção de
ser obra de Zeus, o homem não é responsável por sua alienado.
loucura, e nenhum estigma é-lhe acarretado. A terapia Enquanto no século XVII as categorias platônicas
era o misterioso pharmakon, que reinseria o sujeito em são acrescentadas às teorias da loucura, o XVIII é
seu grupo social. marcado por uma psicopatologia desordenada, devido
Nos textos trágicos, a loucura resulta da à falta de fundamentação sólida da fisiologia nervosa.
impossibilidade de escolha individual nos conflitos Conseqüentemente a nosografia é difusa, com critérios
entre paixões, lealdades e deveres impostos pelo variados e imprecisos. As classificações são ora
destino. extremamente abrangentes, o que as torna pouco úteis,
Nas obras de Eurípedes a loucura se psicologiza, e ora drasticamente limitadas, tornando-se de difícil
tanto a sua etiologia quanto os quadros clínicos são confirmação. No início do século XVIII o pensamento
atribuídos às conseqüências das emoções na vida dos médico em relação às "doenças do espírito" e a prática
homens. O modelo mítico-teológico da antiguidade é do internamento permaneceram estranhos um ao
substituído por uma visão racionalista das outro; no final desse século as duas correntes -
contradições, limitações e fraquezas humanas. pensamento e prática - sofrem uma primeira
Com Hipócrates, a loucura - a perda da razão ou convergência, embora não se tratasse ainda de uma
do controle emocional - é entendida como um efeito conscientização de que os internos eram doentes
do desarranjo na natureza orgânica do homem. Sua (Foucault, 1978, p. 432).
etiologia deve ser buscada nas disfunções humorais. No início do século XIX, precisamente em 1801,
Tal concepção afasta definitivamente a influência Pinel publica seu Tratado Médico-Filosófico sobre a
divina na loucura. Essas idéias, que revelam uma visão Alienação Mental. Obra revolucionária, o Tratado
organicista do distúrbio, terão profunda influência na modifica radical e definitivamente a visão da loucura e
medicina nos séculos XVIII e XIX. inaugura uma nova especialidade médica, que mais
Platão dá uma visão completamente nova da tarde chamar-se-ia psiquiatria. É célebre o episódio,
psyché, ao considerá-la como composta de três almas: que se tornou histórico, de Pinel retirando os grilhões
uma racional, o logos, uma afetivo-espiritual e uma e correntes que prendiam os pacientes em Bicêtre. Na
terceira que seria apetitiva. Para Platão, a loucura primeira edição do Tratado Pinel (Pinel, 2005, p. 72)
atestaria o desarranjo no equilíbrio das três escreve:
componentes da psychê, fazendo com que a parte
racional, o logos, perdesse o controle. A alienação mental exige o trabalho atento de
No segundo século da era Cristã, o célebre médico autênticos observadores para sanar a
romano Cláudio Galeno retoma e aprimora a teoria desordem em que se encontra.
platônica das três almas, apresentando uma concepção
bem mais embasada da loucura. Entretanto, como E na segunda edição lemos (Pinel, 2005, p. 78):
Hipócrates, considera o desarranjo humoral como a
causa da doença mental. Não se poderia compreender o conceito
mesmo de alienação se não se enfoca a causa
A visão medieval da loucura está intimamente
que mais freqüentemente a provoca, quero
associada, ou mesmo identificada, à possessão dizer, as paixões violentas ou exasperadas
demoníaca. Esta perspectiva ganha espaço à medida pelas contradições.
que a hegemonia do cristianismo se impõe. Derivam-
se daí, por exemplo, as lutas contra os hereges que, Esboça-se aqui o princípio que marcará a
por insistirem em cultuar divindades "pagãs", são psiquiatria emergente: o apego à observação como
procedimento para evitar as possíveis distorções no
2
conhecimento da alienação provocada pela
Os parágrafos que se seguem sobre a visão da loucura nebulosidade da psicopatologia vigente.
segunda as épocas, inspiram-se em Isaias Pessotti. Conf.
Pessotti, I,. "A loucura e as épocas", Rio de Janeiro, Editora Esquirol, o mais importante sucessor de Pinel,
34, 2ª edição, 1995. amplia os conceitos desse último ao sustentar que

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existem diversas formas de loucura, todas devendo ser fenômenos em questão; um sistema de classificação
compreendidas como distúrbios das funções racionais. independente de qualquer apriorismo teórico. Isso
Até o final do século XIX não existia, em rigor, significa deixar de lado os problemas etiológicos e
um saber sobre o sofrimento psíquico que acometia o centrar-se na nosografia. A grande crítica que se faz a
homem. A preocupação vigente era a doença, a esta abordagem é o fato de não levar em conta a
sintomatologia: conhecer para classificar. Os grandes subjetividade tanto daquele que está sendo
psicopatólogos daquela época, dentre os quais "classificado" quanto daquele que classifica: o olhar
Havellock-Ellis e Krafft-Ebing, tinham por de quem olha não é imune à sua própria organização
preocupação classificar e etiquetar as organizações subjetiva (é interessante lembrar que em julho de
psíquicas que escapavam às referências de 2002, numa reunião realizada em Londres, Inglaterra,
normalidade. a Associação Mundial de Psiquiatria e a Organização
A expressão Psicopatologia, que deu nome ao que Mundial da Saúde decretaram uma moratória de 10
muitos médicos faziam, principalmente na França, na anos para seus sistemas classificatórios - o DSM-IV e
Alemanha e na Inglaterra, durante todo o século XIX, o CID-10 - pois eles vinham sofrendo severas críticas,
inaugurou a tradição médica que se manifesta, até pois sua pretensão "universal" revelou-se inoperante).
hoje, nos tratados de psiquiatria e de psicopatologia Temos ainda o desenvolvimento das
médica. O aparecimento da Psicopatologia como neurociências e o espantoso crescimento dos
disciplina organizada se dá com a publicação da psicofármacos, que reforçam a idéia da origem
Psicopatologia geral de Karl Jaspers, psiquiatra e biológica dos transtornos psíquicos. Podemos supor,
filósofo, no início do século XX. Jaspers visava sem exagero, que em breve não necessitaremos mais
descrever e classificar, de forma minuciosa e da psicopatologia para tratarmos um transtorno
sistemática, as doenças mentais. psíquico. Não será necessário levar em conta os
A grande ruptura epistemológica é feita pela aspectos subjetivos, os conflitos internos e as
psicologia profunda de Freud. A partir da dimensão do experiências psíquicas de cada um: bastará conhecer o
desejo, que submetido às leis da linguagem escapa a uso das moléculas químicas (Ceccarelli, 2001a).
qualquer apreensão direta de sua finalidade, Freud Seja como for, os elementos da psicopatologia, as
postula que o sujeito - louco ou não - sempre que fala, manifestações do pathos, constituem os princípios
fala do, e a partir de,seu pathos, que aqui confunde-se presentes nos estudos, pesquisas e tratamentos do
com a trama discursiva que o constitui. É esta trama, psicopatológico, sejam eles feitos pela psiquiatria ou
inicialmente encarnada pelo Outro, que possibilita que pela psicologia. Entretanto, por não haver uma rede
o pathos, como passividade, alienação, transforme-se, significante única, uma trama discursiva última que
na situação terapêutica, em percepção, em experiência. acolha os elementos básicos da psicopatologia, o
Hoje, o termo "psicopatologia" encontra-se fenômeno patológico foi repartido em uma pluralidade
associado a um grande número de disciplinas que se de metapsicopatologias.
interessam pelo sofrimento psíquico. Isso trouxe um Torna-se, então, necessário que os pressupostos
problema, por vezes uma impossibilidade, tanto de básicos da Psicopatologia sejam submetidos a
diálogo intercientífico entre as diferentes abordagens interrogações sobre suas condições de possibilidade.
teóricas, quanto de confrontação crítica dos modelos Isto significa que devem ser objeto de uma ciência
por elas utilizados, o que evidencia que o fenômeno primeira, que o psicanalista francês Pierre Fédida
psíquico não é redutível a uma única forma discursiva. (Berlinck, 1998) denomina Psicopatologia
Dentre as inúmeras tentativas de superar os Fundamental: uma psicopatologia primeira,
impasses criados pela pluralidade de leituras do convocada a dar conta da interdisciplinaridade e da
pathos, o expoente máximo é, sem dúvida, o DSM-IV transdisciplinaridade presentes nas psicopatologias
(Manual de Diagnóstico e Estatística da Associação atuais.
Psiquiátrica Americana) e o igualmente reputado CID-
1O (Classificação Internacional de Doenças). Esses
manuais oferecem uma definição empiropragmática PSICOPATOLOGIA FUNDAMENTAL
das entidades nosográficas. Busca-se, acima de tudo,
"o ideal de um acordo mínimo com relação à A preocupação central da Psicopatologia
delimitação formal e operacional das categorias Fundamental é contribuir para a redefinição do campo
diagnósticas empregadas" (Costa Pereira, 1998, p. 62). do psicopatológico. Ela propõe uma reflexão crítica
Tentou-se criar uma nomenclatura única que forneça dos modelos existentes e uma discussão dos
uma linguagem comum a pesquisadores e clínicos de paradigmas que afetam nossos objetos de pesquisa,
diferentes orientações teóricas, uma abordagem feita nossas teorias e nossas práticas. A Psicopatologia
unicamente a partir da observação direta dos

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Fundamental reconhece e dialoga com outras leituras Psicopatologia Fundamental, o pathos manifesta uma
presentes na polis psicopatológica. subjetividade que é capaz, através da expressão em
A noção de fundamental deve ser compreendida palavras, de transformar a paixão em experiência,
no sentido de uma «fundamentalidade», uma servindo para a existência do próprio sujeito. O
"intercientificidade dos objetos conceituais. Trata-se diagnóstico, para a Psicopatologia Fundamental, é
de um projeto de natureza intercientífica, onde a apenas um recurso para orientar a escuta e balizar o
comparação epistemológica dos modelos teórico- caminho, e não um instrumento classificatório-
clínicos e de seu funcionamento propiciaria a ideológico a ser utilizado para definir, a priori, uma
ampliação do limite e da operacionalidade de cada um organização ou uma estrutura na qual o sujeito deva
destes modelos e, conseqüentemente, uma ser encaixado; e menos ainda, um discurso que
transformação destes últimos. A Psicopatologia contribua para a cronificação do sofrimento e/ou
Fundamental é o fórum de toda a metapsicopatologia. discriminação do sujeito.
É importante frisar que não se trata de uma
interdisciplinaridade, mas de uma
transdisciplinaridade, pois campos diferentes, cada PSICOPATOLOGIA FUNDAMENTAL E
qual com métodos, procedimentos e objetivos próprios APARELHO PSÍQUICO
não se comunicam facilmente. A transdisciplinaridade
reune, em uma ampla rede de significações, os A Psicopatologia Fundamental, no esteio das
conhecimentos específicos e singulares de cada posições freudianas, concebe o psiquismo como uma
modelo em torno de uma concepção ética comum aos organização que se desenvolveu para proteger o ser
diferentes saberes. Isso possibilitará a existência de humano contra os ataques, internos e externos, que
um campo discursivo que produza interações e leve a punham sua vida em perigo. O psiquismo é parte
construções metafóricas. integrante do sistema imunológico: da mesma forma
A Psicopatologia Fundamental, cujo campo que um sujeito pode ser mais suscetível de contrair
conceitual é o da psicanálise, organiza-se em torno do doenças por possuir um sistema de defesa debilitado,
patei mathos esquileano: aquilo que o sofrimento ele pode também estar menos equipado para responder
ensina. Trata-se de resgatar o pathos, como paixão, e aos ataques, internos (pulsionais, passionais) e
escutar o sujeito que traz uma voz única a respeito de externos (mudanças ambientais, perdas diversas), que
seu pathos, transformando aquilo que causa encontra ao longo da vida e, por conseguinte,
sofrimento em experiência, em ensinamento interno. “adoecer” psiquicamente.
Transformar o pathos em experiência significa, Essa concepção do psiquismo é tirada das teses
também, considerá-lo não apenas como um estado apresentadas por Freud em um de seus textos mais
transitório, mas, - e talvez sobretudo - como "algo que polêmicos, cujas conseqüências ainda não foram
alarga ou enriquece o pensamento” (Berlinck, 1998, p. totalmente avaliadas: Neuroses de transferência:
54). Cria-se um discurso sobre as paixões, sobre a uma síntese (Freud, 1987), Utilizando-se, mais uma
passividade, sobre o sofrimento, enfim, sobre o sujeito vez, da referência mitológica, Freud concebe o
trágico. Encontramos aqui a essência de aparelho psíquico (seelischer Apparat) como
Psicopatologia: o conhecimento da paixão, do patológico em sua origem. Uma defesa contra o
sofrimento psíquico. O pathos, em si, nada ensina, não excesso; uma resposta à violência à qual o ser
conduzindo senão à morte. Quando a experiência é, ao humano se viu exposto quando das mudanças
mesmo tempo, terapêutica e metapsicológica, estamos provocadas por uma catástrofe ecológica de
no âmbito da Psicopatologia Fundamental. proporções avassaladoras: a perda do Éden. Para
Por entender a questão páthica, as paixões, como enfrentar o excesso sem adoecer - as transformações
uma dimensão inerente do Ser, a Psicopatologia do meio ambiente (excesso externo) e as demandas
Fundamental sustenta que se crie uma psicopatologia pulsionais que não podiam ser satisfeitas (excesso
própria a cada sujeito, que lhe permitirá transformar interno) -, foram necessárias profundas
em experiência as manifestações de seu pathos; isto é, reorganizações psíquicas. Esse longo processo, a
que lhe permita, via transferência, refazer seus História da Humanidade (filogênese) é repetida por
caminhos pulsionais e suas escolhas objetais. cada ser humano (ontogênese). "As neuroses”,
Embora a Psicopatologia Fundamental não escreve Freud (Freud, 1978, p. 72), “têm que prestar
dispense os saberes construídos por outros discursos seu testemunho sobre a história do desenvolvimento
para a compreensão do adoecer psíquico, ela não está da alma humana". O ser humano traz um sofrimento
tão interessada na descrição e classificação da doença psíquico, geneticamente herdado, causado pelo
mental, mesmo porque essa noção vem apresentando excesso. Freud resgata a noção grega de pathos
grandes transformações (Berlinck, 2003). Para a colocando-a como ingrediente central da essência

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do humano, de tal forma que a particularidade da psicopatologia clínica, psicopatologia do trabalho,


organização psíquica de cada um deve ser das relações empresariais, do desenvolvimento...
compreendida como uma criação singular e única Não obstante, a complexidade intrínseca do
para garantir a sobrevivência da espécie. Para psicopatológico indica que o objeto de trabalho da
Freud, em Neuroses de transferência: uma síntese, psicologia - as paixões que constituem o sujeito -
as neuroses, as perversões e as psicoses são modos não é apreensível por um discurso único e muito
de subjetivação encontrados pelo sujeito frente à menos redutível a uma forma discursiva que o
desmedida pulsional. unifique. Daí a importância, na perspectiva de
Se, por um lado, o excesso (de pathos) causa Psicopatologia Fundamental, de que o estudante de
dor, por outro, ele cria subjetividade. No humano, a psicologia tenha contato com a multiplicidade das
dor tem um destino sui generis ao adquirir "psicopatologias" - fenomenológica, psicanalítica,
representação psíquica (Berlinck, 2000). É por existencialista, comportamental, humanista e outras
“falar” que a dor solicita escuta; escuta essa que, tantas - para que ele se dê conta de que a
sendo terapêutica, possibilita o recuo necessário psicopatologia que sustenta a prática psicológica
para transformá-la em experiência. Na atualidade, constitui um vasto território habitado por diferentes
entretanto, observa-se um movimento cada vez perspectivas epistemológicas, com metodologias
maior no sentido de eliminar a dor - de evitar próprias e irredutíveis. Cada corrente teórica da
contato consigo mesmo - do que para transformá-la psicologia propõe, dentro do referencial que lhe é
em experiência. A espantosa produção de próprio, possíveis apreensões do pathos que
analgésicos, cada vez mais eficientes, revela “o traduzem diferentes leituras do fenômeno observado
desejo de se livrar da sensação, já que da dor o - diferentes leituras do real - gerando diferentes
humano não se livra (Berlinck, 1999). construções da realidade.
A Psicopatologia Fundamental sugere que o
estudo da psicopatologia no curso de psicologia
PSICOPATOLOGIA FUNDAMENTAL E deveria abordar os vários discursos sobre o pathos.
FORMAÇÃO DO PSICÓLOGO Uma aula ideal convocaria psicopatólogos de
diferentes filiações de maneira que, a partir de um
Embora não seja objetivo deste texto participar determinado fenômeno psíquico, cada teoria da
do debate atual sobre as diretrizes curriculares que polis psicopatológica tivesse direito à palavra.
norteiam a formação do psicólogo, tomaremos o Teríamos, neste caso, um exercício legítimo da
estudo do conhecimento (logos) da alma (psyché), o transdisciplinaridade tal como a entende a
da psicologia, como exemplo de um campo onde a Psicopatologia Fundamental: uma confrontação de
Psicopatologia Fundamental teria uma palavra a modelos onde aquilo que pode parecer óbvio para
dizer. um talvez seja motivo de perguntas para outro.
A psicologia, como ciência, foi construída ao Além disto, tal confrontação permitiria mostrar que
longo da história como uma tentativa de tanto a nossa prática quando nossa escuta são
compreensão de um fenômeno social novo. O determinadas pelo modelo que elegemos.
"fenômeno novo" é o sentimento de "eu", cujas Um exemplo: tanto autores da Escola Inglesa
origens no Ocidente encontram-se na revolução (McDougall, 1972; 1987; Khan, 1987) quanto da
burguesa, que transformou a organização feudal e Americana (Kernberg, 1975; 1988; Stoller, 1975;
instaurou uma nova forma de organização social. 1984) relatam casos clínicos de perversão
Isso significa que a psicologia surge como resposta trabalhados em análise com êxito. Para estes
a um movimento político historicamente datado, e autores, a dificuldade com o perverso é suportar sua
que, como toda ciência emergente, é tributária da monotonia discursiva, o que requer do analista uma
ideologia que permitiu o seu aparecimento. disposição particular para acompanhar o sujeito na
(Ceccarelli, 2002) Essa mesma ideologia apresenta repetição de sua pesquisa sexual infantil e,
distintas leituras do “fenômeno novo”, do “eu”, finalmente, introduzi-lo no mundo subjetivo de
leituras essas que sustentam as diferentes forma não ameaçadora. Já para a Escola Francesa de
epistemologias que definem tanto o normal como o Jacques Lacan (Lacan, 1959; 1960; 1963), a
patológico. Todo ensino de psicologia, em suas perversão, vista como estrutura, resiste à psicanálise
mais variadas áreas de atuação, apóia-se, ainda que e o perverso não é analisável.
implicitamente, em uma leitura do pathos. Essa, por Ampliando a questão teríamos outro exemplo
sua vez, sustenta a epistemologia que define a ainda mais radical: em agosto de 2004 ocorreu em
noção de sujeito, a qual, conseqüentemente, Belo Horizonte o XIII Fórum Internacional de
determina a prática e orienta a clínica: Psicanálise, organizado pelo Círculo Psicanalítico

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de Minas Gerais. O tema do Fórum foi “As Berlinck, M. (1998) O que é Psicopatologia Fundamental. Rev.
múltiplas faces da perversão”. Inspirado por ele, Latinoam. Psicop. Fund. 1(1), 46-59.
organizei na PUC-MG um debate sobre a perversão Berlinck, M. (1999). A dor. Rev. Latinoam. Psicop. Fund. 2(3),
para o qual convidei colegas das diferentes linhas da 46-58.
psicologia. O resultado foi a total falta de consenso Berlinck, M. (2000). Aspectos metapsicológicos das
entre os debatedores sobre a definição de perversão, psicopatologias contemporâneas. Conferência apresentada em
Fortaleza - CE em 13/05/2000, mas não publicado.
sua escuta e condução clínica. Ora, do ponto de
vista epistemológico isso em nada nos surpreende, Berlinck, M. (2003). Ato Médico. Jornal do Conselho Federal
de Psicologia. 28(75), 4-5.
pois, como já disse, campos diferentes, cada qual
Ceccarelli, P. R. (1999). Identidade e instituição psicanalítica.
com métodos, procedimentos e objetivos próprios
Boletim de Novidades da Livraria Pulsional, 12(125), 49-56.
dificilmente se comunicam. Mas para os alunos em
Ceccarelli, P. R. (2001a). Delinqüência: resposta a um social
formação o resultado foi angustiante. Ponderaram, e patológico. Pulsional, Revista de psicanálise, 14(145), 5-13.
com razão, que para o sujeito que procura ajuda,
Ceccarelli, P. R. (2001b). Entrevista com Pierre Fédida. Rev.
sujeito esse que desconhece as correntes da Latinoam. Psicop. Fund. 4(1), 168-174.
psicologia, seu “futuro psíquico” estaria diretamente
Ceccarelli, P. R. (2002). Psicologia Hospitalar: aspectos legais,
ligado à linha seguida pelo profissional que ele éticos e políticos. Revista de Psicologia Plural, 17, 71-78.
elegeu. Como resolver este impasse? Costa Pereira, M. (1998). Formulando uma psicopatologia
A pergunta que fica é: existe uma posição, uma fundamental. Rev. Latinoam. Psicop. Fund., 1(1), 60-76.
leitura do fenômeno, mais verdadeira do que a Foucault, M. (1978). História da Loucura. São Paulo: Editora
outra, ou devemos nos perguntar sobre os limites da Perspectiva. (Trabalho original publicado em 1972).
teoria que norteia nossa escuta? Ou ainda: existe um Freud, S. (1976). Linhas de progresso na teoria psicanalítica.
modelo mais verdadeiro que outro, ou é a nossa E. S.B., Vol. XVII, Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original
transferência que determina nossas escolhas teórico- publicado em 1918).
clínicas? (Ceccarelli, 1999) Questionar a certeza Freud, S. (1987). Neurose de transferência: uma síntese. Rio
sobre a qual determinada enunciação repousa é o de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1928).
que caracteriza o discurso científico. Kernberg, O. F. (1975). Agressão nos transtornos de
Muitas vezes, devido aos complexos personalidade e nas perversões. Porto Alegre: Artes Médicas.
inconscientes que são despertados em nós pela fala Kernberg, O. F. (1998). Perversão, perversidade e normalidade:
daquele que está em nossa frente, apressamo-nos a diagnóstico e considerações terapêuticas. Revista Brasileira de
buscar respostas que confortem nossas angústias. Para Psicanálise, 32(1), 67-82.
evitar isso, devemos estar atentos às formas Khan, M. M. R. (1987). Alienación en las perversiones. Buenos
discursivas que apresentam respostas para tudo e, ao Aires: Nueva Visión. (Trabalho original publicado em 1979).
mesmo tempo, não suportam críticas: quando os Lacan, J. (1988). A ética da psicanálise. (O seminário do livro
7). Rio de Janeiro: Zahar.
conceitos teóricos transformam-se em dogmas, o
discurso transforma-se em religião e seus pressupostos Lacan, J. (1966). Kant avec sade. Em Écrits. Paris : Seuil.
(Trabalho original publicado em 1963).
em leis. (Religião do latim "re-ligare" religar com
Deus, ou com aquele que ditou, ou escreveu, a teoria.) McDougall, J. (1972). Scène primitive et scénario pervers. Em
La sexualité perverse, Paris, Payot, pp. 50-94.
Temos, neste caso, o dogmatismo, onde qualquer
atividade crítica é severamente punida. Não podemos McDougall, J. (1997). As múltiplas faces de Eros: uma
exploração psicanalítica da sexualidade humana. São Paulo:
nos esquecer de que a dimensão imaginária da Martins Fontes.
transferência pode transformar uma teoria em verdade
Pessotti, I. (1995). A loucura e as épocas. Rio de Janeiro:
incontestável. Editora 34.
É neste sentido - cabe repetir - que as diversas
Pinel, P. (2005). Traité médico-philosophique sur l'aliénation
leituras do fenômeno psíquico devem ser reconhecidas mentale. Paris: Les empêcheurs de penser en ronds/Seuil.
como possíveis. Sem este reconhecimento, nossa (Trabalho original publicado em 1809).
prática corre o risco de transformar-se em uma prática Stoller, R. (1975). Perversion. New York :Pantheon Books.
perversa no sentido empregado por Freud nos 3 Stoller, R. (1984). La perversion et le désir de faire mal. In:
Ensaios: uma fixação de uma pulsão sexual em uma Nouvelle Revue de Psychanalyse La chose sexuelle. 29, Paris.
única forma de satisfação (Ceccarelli, 2001b). Gallimard, , 147-172.

REFERÊNCIAS Recebido em 14/05/2005


Aceito em 30/09/2005

Psicologia em Estudo, Maringá, v. 10, n. 3, p. 471-477, set./dez. 2005


Sofrimento psíquico e psicopatologia fundamental 377

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Psicologia em Estudo, Maringá, v. 10, n. 3, p. 471-477, set./dez. 2005