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Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

Centro de Ciências Humanas e Sociais

Escola de Educação

Departamento de Fundamentos da Educação

Disciplina: HFE0051 - Psicologia e Educação

Profa. Dra. Lucia Maria de Freitas Perez

QUESTÕES

1) Desde 1887, Sigmund Freud elegera como seu amigo predileto Wilhelm
Fliess, médico otorrinolaringologista, dois anos mais novo do que ele e a quem fora
apresentado por Josef Breuer, que lhe sugeriu assistir às conferências de Freud sobre
neurologia. Fliess também estava fazendo pesquisas sobre a fisiologia sexual e Freud
contava com seu apoio para a teoria sobre a sexualidade. A partir dessa identificação,
irrompeu uma intensa amizade que perduraria até 1904, ano em que foi interrompida a
correspondência entre eles. A amizade entre Freud e Fliess ocorreu precisamente
durante o período de criação da psicanálise, e a correspondência de Freud para Fliess
tornou-se um valioso documento. Nessas cartas, constatamos que Freud colocava
Fliess no lugar do analista, dirigindo a ele suas questões fundamentais, tanto pessoais
quanto teóricas. É a convicção de que a causa das afecções mentais deve ser buscada
na sexualidade que sela o encontro dos dois homens, Freud e Fliess. Tanto um quanto
o outro desenvolviam uma teoria inovadora cujo cerne estava na sexualidade feminina.
E foi na condição de alguém que também concorreu para a antecipação de uma ciência
que este ajudou aquele exercendo a função de sujeito suposto saber. O laço entre Freud
e Fliess é tecido em função de certa relação ao saber que, por tomar a sexualidade
como meta (o ponto que constituía o objeto de maior interesse desses dois homens era
a bissexualidade: Freud desbravou a psicologia tanto quanto Fliess quis, sem êxito,
fazer o mesmo com a biologia), se transforma em relação amorosa, na qual cada um se
apaixona por aquilo que supõe no outro. A relação entre ambos perdurou e Fliess foi
considerado como a inspiração de Freud na criação da Psicanálise, que escrevera cerca
de 300 cartas àquele. Em uma delas, horas depois de seu sonho memorável com a
injeção aplicada em Irma, Freud o tratava como seu “daimon”, seu destino, sua
inspiração. Em seu sonho com Irma, diante da conversa absurda que presencia entre
Otto, Leopold e Dr. M., o próprio Freud sai de cena e depois retorna com uma
referência ao saber de Fliess, como que para dar sentido à discussão. Comente.

2) O acolhimento do que restava não absorvido pelo saber, causando-lhe


uma redução do sentido, aponta para a dimensão da verdade que, ao retornar nas lacunas
do saber, o impregna com uma inércia própria. É nesse movimento que localizamos
Freud em busca da constituição de um saber que incluísse a contingência da sexualidade
e a particularidade do sujeito. A insistência com que Freud busca reparar os impasses,
incluindo-os na ampliação de um saber sempre renovado, assemelha-se, em alguns
momentos, à história do caldeirão furado. Exemplo da contradição e da falta de sentido
é essa história, que Freud se lembra durante a análise de seu próprio sonho de injeção de
cocaína aplicada em Irma, em “A interpretação dos sonhos”, dizendo:

“Toda a desculpa − pois o sonho não passava disso − lembrava vivamente a defesa apresentada pelo
homem acusado por um de seus vizinhos de lhe haver devolvido danificada uma chaleira tomada de
empréstimo. O acusado assegurou, em primeiro lugar, haver devolvido a chaleira em perfeitas condições;
em segundo, que a chaleira tinha um buraco quando a tomou emprestada; e, em terceiro lugar, que de
modo algum, havia algum dia tomado emprestado uma chaleira de seu vizinho” (FREUD, 1900, pg. 128).

Quando o indivíduo coloca tudo a seu favor, sua argumentação perde o


sentido e ele acaba por se entregar. Discorra de modo a indicar a que se deve a
disfunção ilustrada por essa pequena história.