Você está na página 1de 106

“Pra homem já tô eu”

Masculinidades e socialização lésbica em um bar no centro do Rio de Janeiro

Andrea Lacombe

Dissertação de Mestrado apresentada


ao Programa de Pós-graduação em
Antropologia Social, Museo Nacional,
da Universidade Federal do Rio de
Janeiro, como parte dos requisitos
necessários para a obtenção do título
de Mestre em Antropologia Social

Orientador: Otávio Velho

Rio de Janeiro
Fevereiro de 2005
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL
MUSEU NACIONAL

“Pra homem já tô eu”


Masculinidades e socialização lésbica em um bar no centro do Rio de Janeiro

Andrea Lacombe

2005
“Pra homem já tô eu”
Masculinidades e socialização lésbica em um bar no centro do Rio de Janeiro

Andrea Lacombe

Orientador: Otávio Velho

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-graduação em


Antropologia Social, Museo Nacional, da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
como parte dos requisitos necessários para a obtenção do título de Mestre em
Antropologia Social

Aprovada por:

Prof. Otávio Velho (orientador)

Prof. Adriana Vianna (PPGAS)

Prof. Eliane Berutti (UERJ)

Rio de Janeiro
Fevereiro de 2005
RESUMO

A presente dissertação pretende abordar as diferentes maneiras em que se

manifestam as masculinidades femininas, no contexto de um bar de “entendidas” do

centro da cidade do Rio de Janeiro. A mesma se baseia no trabalho de campo

realizado no período correspondente aos meses de maio a agosto de 2004.

Para tal fim, analisa, em uma primeira instância, os modos em que se

estrutura o lugar em relação aos possíveis significados dos termos bar e boteco no

que diz respeito à constituição da freguesia, o tipo de bebidas consumidas, os

horários de funcionamento e o fluxo e movimentação das pessoas. Neste mesmo

sentido, são explicitadas as tensões que aparecem em torno da idéia de bar GLS e

de bar de família.

Em um segundo momento, são os processos de socialização desenvolvidos no

lugar entre as freguesas, e também com os fregueses, os que ganham centralidade.

A composição dos grupos de amizade – às vezes com caráter de família – as

estéticas, [auto]denominações e modos de constituição de um olhar entendido são

as variáveis para elucidar tais processos.


RESUMEN

La presente disertación tiene la finalidad de abordar diferentes maneras en

que las masculinidades femeninas se manifiestan en el contexto de un bar de

“entendidas” ubicado en el centro de la ciudad de Rio de Janeiro. La misma se basa

en el trabajo de campo realizado durante el período comprendido por los mes de

mayo y agosto de 2004.

Para tal fin analiza, en una primera instancia, los modos en que se estructura

el lugar en relación a los posibles significados de los términos bar y boteco en lo que

respecta a la constitución de la clientela, el tipo de bebidas consumidas, los horarios

de atención al público y el flujo y movimiento de las personas. En este mismo

sentido, son explicitadas las tensiones que se presentan en torno a la idea de bar

GLS o bar de familia.

En un segundo momento, ganan centralidad los procesos de socialización

desarrollados en el lugar entre las clientas, pero también en relación a los clientes.

La composição de los grupos de amistad –que adquiere a veces carácter de familia–

las estéticas, las [auto] denominaciones y los modos de constitución de una mirada

entendida, serán las variables a tener en cuenta para dilucidar tales procesos.
ABSTRACT

This thesis examines the different ways in which female masculinities manifest

themselves, having as context a bar of entendidas, in downtown Rio de Janeiro. It is

based on field work done between may and august, 2004.

It will firstly analyze the ways in which the place is structured with respect to

the possible meanings of the terms bar or boteco with respect to the constitution of

the clientele, the types of drinks which are consumed, the opening hours and the

manner and frequency with which the bar is visited. In this sense, the tensions

between the idea of a bar GLS and a family bar are made explicit.

In a second instance, the process of socialization which develops in that place

within the female clients, but also with respect to the male clinets, is focused upon.

The constitution of friendship groups, which are sometimes family-like, the

aesthetics, [self]denominations and the different ways in which a olhar entendido

(the way of looking at things by an entendida/o) is established, are the variables

with which to elucidate such processes.


ZUSAMMENFASSUNG

Die vorliegende Diplomarbeit behandelt die unterschiedlichen Arten, in

welchen sich weibliche Männlichkeiten im Kontext einer Bar von “entendidas” (ugs.

für Lesben) im Zentrum der Stadt Rio de Janeiro manifestieren. Die Arbeit basiert

auf einer Feldarbeit, die von Mai bis August 2004 realisiert wurde.

Das erste Kapitel konzentriert sich auf die Analyse des Ortes. Es werden die

Bar an sich, die KundInnenschaft, die Konsumationen, die Öffnungszeiten und das

Kommen und Gehen der Personen beschrieben. Ausserdem werden die Spannungen

thematisiert, die eine Bar mit einem homosexuellen Publikum und zugleich familiären

Strukturen aufweist.

Das zweite Kapitel behandelt die Prozesse der Sozialisierung, die sich

zwischen den Kundinnen, aber auch zwischen Kundinnen und Kunden der Bar

entwickeln. Dabei wird analysiert, wie FreundInnenschaftsgruppen mit familiärer

Charakteristik in der Bar entstehen. Ausserdem werden die Ästhetik, die

Eigenbezeichnungen der Kundinnen, sowie die Konstitution eines “olhar entendido”,

eines sogenannten lesbischen Blicks untersucht, die Variablen Sozialisierungsprozess

darstellen.
Agradecimentos

Esta dissertação faz parte de um caminho que começou por uma paixão: a minha
pelo Rio de Janeiro. Muita gente colaborou para que este “relacionamento” fosse
possível. É a todas elas que vai meu muitíssimo obrigada:

A Silvina Bustos Argañaraz e Pablo Rey, mais do que amigos, família. Sem eles Rio
seria só mais um destino turístico dos jornais de Córdoba. A eles mais do que
ninguém devo meu amor pela cidade maravilhosa.

Através do CNPq, entidade financiadora dos meus estudos, ao estado brasileiro que
continua outorgando bolsas de pós-graduação contribuindo assim à manutenção da
gratuidade da educação pública e possibilitando a liberdade temática na pesquisa
acadêmica.

A meu orientador, Otávio Velho, quem com habilidade e (sobretudo) paciência de


mestre soube me guiar pelas névoas dos cinzas.

Ao pessoal do PPGAS, pelo suporte administrativo e afetivo nas horas de desvario.

As freguesas do Flôr do André. Elas conseguiram uma e outra vez me mostrar os


meandros das posições intermediárias.

Ypuan, Déborah, María Elvira, Luciana, Paulinha e Renata, tod@s el@s colegas de
turma, fizeram do Museu um espaço bom de ser vivido e do Rio meu lar.

Maria Elvira Díaz Benítez não pôde ser melhor interlocutora e amiga. A ela todo meu
carinho.

A Luciana Costa França, pelo esforço endemoniado de correção para lograr evitar
que meu “portunhol” fluísse livremente nas seguintes páginas (porque esta, eu fiz
questão de não revisar). Lhe agradeço também todos os bons momentos que temos
vivido juntas.

A Natacha Nicaise quem me acolheu na “hora agá” que significa chegar no Rio e
continuo depois a me brindar sua amizade e confiança.

A meus pais, e irmã@s, pelo apoio familiar e individual constante em qualquer idéia
maluca que cruza pela minha cabeça.

A Caroline, María Elvira, Rafael, Fernando e Daniela, minha família carioca.

Especialmente a Caroline Ausserer. Como ninguém conseguiu me conter e dar o


apoio afetivo e teórico necessário para superar as barreiras do meu intelecto. Para
ela, todo meu amor e carinho.

A Mauro Cabral, Carlos Fígari e Silvia Delfino pelo diálogo tanto teórico quanto
amistoso.

A tod@s aqueles que desde longe, fazem, e sempre farão, parte do meu coração.
Lacombe, Andrea
“Pra homem já tô eu”: Masculinidades e socialização lésbica em um bar no
centro do Rio de Janeiro
XI, 95f.
Orientador: Otávio Cardoso Alves Velho
Dissertação -UFRJ/ Museu Nacional /Programa de Pós-Graduação em
Antropologia Social, 2005.
Referências Bibliográficas: f. 90-95.
1. Lesbianismo 2. Masculinidade 3. Teoria Queer 4.Socialização e álcool
5. Natureza e Cultura. I. Velho, Otávio. II. Universidade Federal do Rio de
Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social. III. Título.
INDICE

Considerações Iniciais 1

Capítulo 1

DESCOBRINDO O FLÔR DO ANDRÉ: CONSTRUÇÃO DE UM ESPAÇO DIFERENCIADO 9

O “outro” centro da cidade maravilhosa : cenários de homoerotismo 9

Conhecer o terreno: por dentro do Flôr do André 12

Dentro e fora: espacialidades e níveis de inclusão 16

Bar ou boteco? - Definições do espaço 19

O copo nosso de cada dia: o papel do álcool 27

Bigode ou florzinha: “fazer gênero” nos banheiros 36

Capítulo 2

SER DO BABADO: RELACIONAMENTOS NO FLÔR DO ANDRÉ 41

O olho “entendido”: como reconhecer à igual 42

Entendida? sapatona? do babado? lésbica? - Denominações e autorreferencialidades 47

Pochete é crachá de sapatão: masculinidades femininas 51

Aqui é tudo demônio: Os critérios estéticos 58

O peixinho dourado: a troca sexual interna 62

Aqui e tudo família: relacionamentos no bar, pertencia e exterioridade 69

De homem pra homem: o espaço dos homens no bar 77

Considerações finais 84

Bibliografia 90
Considerações preliminares

Quando cheguei no Rio de Janeiro em março de 2002 para começar as aulas no

mestrado do PPGAS, poucas certezas tinha sobre meu futuro acadêmico. Três delas

eram a intenção de fazer uma pesquisa etnográfica, na cidade de Rio de Janeiro

e trabalhar sobre temáticas de gênero. A equação era simples: estava entrando para

uma instituição de excelência no ensino da antropologia e moraria na cidade

maravilhosa. Para que desperdiçar essas duas oportunidades que apareciam na minha

frente? O assunto das temáticas de gênero, eu o trazia de Córdoba – minha cidade

natal na Argentina – e vinha pelas mãos da amizade com Mauro Isaac Cabral que,

com infinita paciência, tentava me levar pelo caminho do conhecimento dos estudos

queer (ajudado depois pela brilhante professora e especialista em estudos culturais,

Silvia Delfino) para me mostrar diferentes vias de aceso às temáticas sobre

sexualidade e gênero.

Com esses backgrounds e expectativas, iniciei minha vida acadêmica carioca, com

os olhos bem abertos de curiosidade e na procura de alguma pergunta, algum espaço

de pesquisa que, como diz meu orientador, me causassem prazer e tesão intelectuais.

Meu interesse pelas questões de gênero, contemporâneo à aproximação da

antropologia, ajudou a cogitar as visões críticas das dicotomias sexo/gênero,

masculino/feminino, heterossexualidade/homossexualidade, em paralelo com

concepções antropológicas em relação a divisão entre natureza/cultura, humanos/

não-humanos e ciências naturais ou sociais. Deste modo, a presente dissertação

começou em parte pela curiosidade de saber como operavam no campo estas

1
dicotomias. Mas, como escolher o campo? Esta pergunta parecia mais complicada à

medida que o tempo passava e os “prazos CAPES” se acercavam ameaçantes.

Em uma primeira instância, as trabalhadoras das barracas de praia apareceram

como uma opção bem interessante, porém, um pouco difusas. Fazer um recorte que

tivesse sentido em ser pesquisado e me permitisse tomá-lo no tempo de campo que

uma dissertação de mestrado supõe, parecia complicado demais: que praia, que

pontos da praia, quais barracas... Pensei em me limitar à faixa da praia de Ipanema

na altura da rua Farme de Amoedo conhecida com ponto gay, mas o plano ainda não

me entusiasmava. Foi nesse contexto que surgiu a idéia de pesquisar as mulheres que

iam a essa praia e me deparei com o fato de que o meu sujeito de estudo era quase

inexistente ou pelo menos invisível.1 – Cadê as lésbicas desta cidade?, me perguntava

e perguntava com insistência. Por que, em uma cidade de oito milhões de habitantes,

elas estavam ausentes da socialização? Até aqueles espaços tradicionalmente lésbicos,

como a boate La Girl em Copacabana ou Dama do Ferro em Ipanema, estavam

tomados pelos gays porque “se não abrirmos as portas aos gays não conseguimos

pagar as contas” explicaram @s2 gerentes das duas boates. “As meninas não

freqüentam o lugar, elas não saem com a mesma freqüência. Bem no inicio quando a

gente abriu [em meados de 2002], elas vinham sim porque era um lugar só para

mulheres, mas, agora que acabou a novidade, a gente começou com um dia em que

podiam entrar homens, depois outro e agora quase não tem mulheres” comentou a

gerente do Dama do Ferro.

1 Esta invisibilidade parece refletir-se também no âmbito acadêmico onde a produção de trabalhos sobre lésbicas é
praticamente nula. Entre as exceções, veja-se Munis (1992), Heilborn (1992), Mott (1987), Barbero (1997).
2 O uso da arroba, quando a palavra se refere a sujeitos tanto masculinos quanto femininos, é uma estratégia utilizada

nas línguas que têm o masculino como neutro ou coletivo para dar voz ao feminino.

2
Esta foi a ponta do iceberg que despertou minha curiosidade para tentar explicar

qual era o circuito das lésbicas cariocas. Claro que não conseguiria mapear o circuito

para uma dissertação de mestrado, mas pelo menos queria saber um pouco quais

eram os lugares para, a partir desse dado, começar a perguntar sobre os modos de

socialização que elas tinham.

Assim comecei a mapear as boates da zona sul e os shows de cantoras como Ana

Carolina, Zélia Duncan ou Lan-Lan3, que se apresentam muito no Rio de Janeiro,

porque tinha observado no público uma presença muito forte de lésbicas (às vezes

quase majoritária) que seguiam as turnês das músicas pela cidade. Esta era a única

maneira que enxergava como válida para conseguir prender um mundo que parecia

tão invisível, que me fazia duvidar de sua existência.

Conheci o Flôr do André por acaso.

Durante o sábado de carnaval do ano de 2004 e depois de uma longa jornada que

começou com o Bola Preta e finalizou com o Céu na Terra, fui, já passadas as duas

hora da manhã, junto com meu incansável amigo Fernando Rabossi, em busca da

“saideira” em algum boteco que fosse perto de sua casa.

– Esse parece legal – me disse Fernando, e nos sentamos em uma das mesas na

calçada. Enquanto aguardávamos a cerveja, comecei a observar com certo assombro

algumas características do lugar que não encaixavam na minha noção de boteco.

Acostumada a pensar esse tipo de estabelecimento como reservatório da pura gema

da masculinidade popular carioca, onde já é pouco factível ver mulheres sentadas

nas mesas da rua e uma raridade maior ainda vê-las dentro do recinto, as quatro

3 Nenhuma das três oculta seu gosto por mulheres e acho que, por este motivo, além da música que interpretam, são

seguidas pelas lésbicas,. Mesmo assim, as faixas etárias do público se diferenciam bastante, especialmente Lan-Lan
com um público adolescente ou bem jovem.

3
mulheres dançando juntas no interior do lugar envoltas no som de Cássia Éller

ressoando estrondosamente do aparelho de som era uma miragem que me custava

acreditar.

– Boteco com mulheres dançando juntas? – pensei – e sem homens por perto?!

Coisa esquisita... Comentei minha impressão com Fernando que levantou a cabeça e

olhando para dentro do bar soltou um “ahh sim... estranho, né?”

A partir daquele dia, comecei a freqüentar o lugar cada vez que visitava Fernando

até que finalmente tomei a decisão de jogar pela borda meu investimento de pesquisa

na zona sul e me concentrar neste recinto que pouco a pouco ia ganhando toda

minha atenção e curiosidade.

À medida em que adentrava-me na pesquisa, ia descobrindo que aquele lugar não

era exatamente um boteco, segundo a idéia que eu tinha em mente. Embora fosse

sim um reservatório de masculinidade, o corpo no qual ela se mostrava não era

aquele que pelo senso comum eu pensava: a masculinidade no Flôr do André é

manifesta principalmente nas mulheres, donas do espaço, da fala e da moralidade do

lugar. É em torno delas que se constroem as caraterísticas que lhe outorgam uma

significação diferenciada com respeito aos outros estabelecimentos similares na área.

Decidi finalmente centrar minha análise na configuração do Flôr do André como

um âmbito particular onde se sucedem relações sociais centradas em mulheres

lésbicas masculinas que tem como atores secundários, porém importantes para

compreender o desenvolvimento do lugar, os homens.

Uma base teórica fundamental para meu trabalho foi a dos estudos queer. Este

termo (queer), que em inglês significa torcido ou oblíquo (que em português poderia

ter a tradução mais contextual de esquisit@), era usado nos Estados Unidos e na

4
Inglaterra em tom de rejeição e degradação para se referir às pessoas gays, lésbicas

e transgêneros. Entretanto, no final dos anos oitenta foi tomado para si por

pesquisadores que trabalhavam as temáticas gays e lésbicas e pelas pessoas que

eram alvo da estigmatização, ressignificando-o e reapropriando-se dele de modo

afirmativo para se referir a todos aqueles indivíduos cuja sexualidade (e não só

orientação sexual) extrapolasse os limites da heterossexualidade binária. Como uma

ave fênix, este termo se constitui em um espaço de significação aberta e volúvel que

incorpora lésbicas, transgêneros, transexuais, gays, sadomasoquistas, swingers, e

todos aqueles seres que não alcançam o status de sujeitos; seres “abjetos”, em

termos de Butler (2002,19-20), devido à sua condição degradada e excluída, que

habitam zonas invisíveis ou inabitáveis da vida social, conformando o “exterior

constitutivo” da esfera dos sujeitos.

Ao quê me refiro quando falo em masculinidades de mulheres?

Existe uma certa bibliografia encaixada dentro dos estudos queer que analisa

aquelas mulheres que, sem deixar de sê-lo, incorporam comportamentos tidos como

exclusivos dos homens.4 Judith Halberstam é a principal teórica sobre a matéria. No

seu livro “Female Masculinity”, desenvolve seu argumento com relação ao que ela

chama de masculinidades sem homens, numa tentativa de desobrigar a masculinidade

de habitar só o corpo do homem, historiando-a, desconstruindo-a e levantado a

questão de ser uma categoria teórica mais que uma concepção da natureza. Assim,

estrutura a masculinidade de mulheres como uma alternativa àquela considerada

hegemônica (a dos homens brancos, heterossexuais, de classe média, de países

4 Sem sentir-se um homem dentro do corpo de uma mulher. Isto já corresponderia ao âmbito da transgeneridade em
que a procura é por mudar de gênero performatizando um homem (a versão masculina de um travesti) ou, mais
radicalmente, a transexualidade, onde a mudança também é do corpo através da incorporação de hormônios
masculinos (testosterona) e operações.

5
centrais). Nesta mesma linha crítica, podemos mencionar “Dislocating masculinity”, a

coletânea organizada por Andrea Cornwall e Nancy Lindisfarne, que revê o sentido

unívoco da masculinidade, lançando uma luz sobre os diferentes modos em que ela se

apresenta na socialização. Esta coletânea está integrada por artigos que analisam a

masculinidade em diferentes sociedades tanto em homens como em mulheres.

Este tipo de pesquisas tem como pano de fundo os trabalhos pioneiros das

teóricas feministas, como Gayle Rubin, Adrienne Rich, Marilyn Strathern, Donna

Haraway, Monique Wittig, Henrietta Moore, só para nomear algumas, que

contribuíram para desnaturalizar as concepções de gênero e sexo, heterossexualidade

e homossexualidade, colocando no centro da discussão o caráter histórico e

construído destas noções5. Os estudos queer nutrem-se dos frutos deste caminho

para levar a um patamar acadêmico as discussões que começaram entre @s ativistas

gays e lésbicas sobre o status ontológico da homossexualidade e os diferentes modos

de apropriação que os sujeitos fazem de sua sexualidade.

Voltando para o campo de trabalho, foi esta linha de pesquisa a que me ajudou a

visualizar o modo como estas mulheres lésbicas, autodenominadas “entendidas”,

construíam o Flôr do André como seu lugar de encontro e socialização. Acompanhada

pelas inovadoras percepções de Tim Ingold em matéria de mundo contínuo como

contrapartida da diluição do grande divisor entre natureza e cultura, tentei

compreender como se constitui um “olhar entendido” que consegue diferenciar as

sujeitas do desejo.6 Finalmente, munida das ferramentas que Bruno Latour vai

5 Sem esquecer nem desmerecer, claro está o aporte fundamental de Michel Foucault nos três volumes da “História da

Sexualidade” que colaboraram para estabelecer uma agenda sobre temáticas da sexualidade em âmbitos das Ciências
Sociais e fora do esquema da medicina e da psiquiatria.
6 Sou consciente das diferenças epistemológicas existentes entre as linhas de pesquisa d@s autor@s supracitad@s.

Entretanto, o fato de trabalhar com um objeto de pesquisa quase inexistente no campo acadêmico, como podem ser
as masculinidades femininas, exige às vezes o uso de autor@s com posições epistemológicas diferentes para a

6
construindo junto com o devir de seu pensamento, me propus a desvendar as redes

que se vislumbram no universo do Flôr do André.

Deste modo, na presente dissertação, @ leit@r não encontrará discursos de

estigmatização nem de redenção. Também não lerá depoimentos sobre a vergonha ou

o orgulho de ser homossexual ou o abúlico caminho de ser ou estar. Esta dissertação

só tem a intenção de mostrar, com uma impressionista pincelada, a vida social de um

grupo de entendidas adultas em um bar do centro da cidade maravilhosa.

Para este propósito, estruturei a dissertação em dois capítulos. No primeiro, o

centro de atenção está colocado sobre o Flôr do André como um espaço diferenciado,

intermediário entre os botecos e os bares que podem ser denominados GLS, o que lhe

outorga um caráter particular com relação a estes. Assim, analisarei como variáveis de

estudo sua localização, a freguesia, os horários e dias de freqüência, os usos do

espaço e o tipo e papel das bebidas consumidas para tentar levantar aqueles traços

que constroem o bar.

No segundo capítulo, o foco estará nas relações sociais que se sucedem no

local principalmente entre as mulheres, mas também com os homens. Deste modo,

tentarei deixar em evidência os modos de ser lésbica (ou entendida) que circulam, as

autodenominações presentes nas falas, as estéticas presentes e a construção dos

diferentes grupos internos.

Através desta pesquisa, desejaria jogar alguma luz sobre esse pouco visível e

explorado mundo das socializações lésbicas com a esperança de conseguir visibilidade

acadêmica. Aliás, com as perspectivas teóricas utilizadas espero contribuir para uma

construção do dito objeto. Talvez a idéia seja ter uma “leitura periférica” para analisar “sujeitos periféricos”, ou uma
leitura queer para pensar sujeitos além da mainstream social.

7
análise não essencialista das diferentes formas de constituição e vivência das

subjetividades humanas assim como para o desmonte do caráter “natural” das

categorias que constituem e constroem as ciências.

8
CAPITULO I

DESCOBRINDO O FlÔR DO ANDRÉ: CONSTRUÇÃO DE UM ESPAÇO

DIFERENCIADO

O presente capítulo tenta mostrar o "Flôr do André" como um espaço

diferenciado que se instala em um caminho intermediário entre aquilo que a literatura

sociológica brasileira tem nomeado como botequim ou boteco e os autodenominados

bares GLS. Nas distintas variáveis de análise, tornam-se visíveis os fatores que

outorgam ao "Flôr do André" um caráter original, motivo de minha escolha para

pesquisá-lo entre outros pontos de encontro e socialização lésbica.

A localização da casa de bebidas7, o tipo de freguesia, os horários e dias de

freqüência, os usos do espaço dentro e fora do lugar, o tipo e papel das bebidas

consumidas serão as variáveis cerzidas para desvendar o tipo de originalidade a que

estou me referindo.

O "outro" centro da cidade maravilhosa: cenários de homoerotismo

O centro da cidade do Rio de Janeiro, além de albergar um importante

movimento comercial e turístico, é um cenário conhecido por resguardar certos

espaços de encontro, paquera e pegação8 do público homossexual masculino.

"Caraterizado por seu grande movimento e sua relativa mistura de classes sociais, o

7 Uso, junto com Machado da Silva (1969), casa de bebidas como um genérico que inclui todos aqueles estabelecimentos

que vendem bebidas alcoólicas.


8 Paquera e pegação são termos usados na gíria carioca para se referir à aproximação de uma pessoa de outra com

intenções amorosas ou sexuais. A paquera está mais aparentada com o flerte, enquanto a pegação faz alusão direta à
procura de um/a parceir@ sexual.

9
Centro tem sido o local tradicional de grande parte da vida gay no Rio de Janeiro (...)

o espaço simbólico de desejo homoerótico é talvez mais intenso do que em qualquer

outra parte da cidade, ligando parques e praças conhecidos pela pegação intensa com

áreas onde pode ser encontrada a prostituição de michês e travestis, conhecidos

salões de chá, hotéis para sexo entre homens e uma série de clubes noturnos e bares

gays" (Parker, 2002:182-5). Esses lugares, dependo da hora do dia, podem mudar de

centro comercial ativo a espaço de socialização, paquera ou pegação gay. Segundo

James Green (1996), o Largo do Rossio9 primeiro e o Passeio Público e as cafeterias

da Cinelândia mais tarde proporcionavam, no fim do século XIX e começos do XX, um

foco para a interação homoerótica na cidade. Poucos são os espaços do centro que

aparecem nos textos como freqüentados por lésbicas. Mott (1987) fala só em um

hotel “São Jorge” na rua Monte Alegre (que ainda existe embora não tenha essa

marca de distinção) e os bailes de carnaval da “Gafieira Elite” e do Teatro “São José”.

Pelo que eu pude saber através das freguesas do Flôr do André, existiram alguns

bares na rua Mem de Sá (em frente do hotel “Bragança”, onde hoje funciona uma

churrascaria) e na rua dos Inválidos. Talvez este seja um sintoma da invisibilidade

pública da qual me referi na introdução.

Atualmente, mesmo sem ser um lugar exclusivo do chamado público GLS, a

"Cinelândia aparece como uma espécie de coração gay da cidade, com redes

sobrepostas de lugares e estabelecimentos gays se estendendo em todas as direções"

(Parker, 2002:184). Seus bares como o "Amarelinho" ou o "Verdinho", o tradicional e

requintado "Odeon" ou o antigo e sempre presente "Teatro Rival", seus cinemas

pornôs, os arredores como a Lapa com seus tentadores arcos, a boate "Casa Nova", a

9 Antigo nome da atual Praça Tiradentes.

10
rua Gomes Freire e seus "hotéis para cavalheiros", e até a rua André Cavalcanti10

fazem parte do roteiro recriado por Richard Parker em "Abaixo do Equador", Carlos

Fígari em "L@s otr@s cariocas" ou Hélio Silva em "A invenção do Feminino”, para citar

alguns exemplos.

Sem precisar recorrer aos livros, basta caminhar pelas ruas da Lapa para

encontrar, na rua Mem de Sá, a primeira sede da "Igreja da Comunidade

Metropolitana" (ICM)11 no Brasil e o conhecido bar "Das Quengas", freqüentado por

prostitutas e travestis assenhoradas acompanhadas de seus maridos. Ao lado da pela

Catedral da cidade, está a comportada12 "Turma OK", onde os transformistas

espalham suas lantejoulas para um familiar público formado por veneráveis senhoras

e senhores com seus filhos e netos. Já na rua André Cavalcanti, a boate "Star Club",

mais conhecida como "Buraco da Lacraia", faz parte da paisagem desde 1992.13 Com

estes antecedentes, não deveria parecer estranha a localização do "Flôr do André: na

rua André Cavalcanti, no mesmo quarteirão do "Star Club". Porém, existe uma

diferença substancial: é o único de todos os lugares citados que tem um público de

mulheres homossexuais e não de homens. Como veremos nas páginas seguintes,

existe uma certa reticência por parte das freguesas do Flôr do André em freqüentar o

“Star Club” por considerarem-no um lugar de homens [gays] onde elas não se

encaixam e não têm nem motivo para estar.

10 Rua onde se localiza o Flôr do André e também o “Star Club”, mais conhecido como “Buraco da Lacraia”, do qual
falarei mais adiante.
11 Esta igreja chegou ao Rio de Janeiro em maio de 2004 em meio a polêmicas por parte das Igrejas evangélicas da
cidade (ver “Jornal da Palavra” ano 9 Nº 102 e “O Dia” 28-04-2004) que não aceitavam com muito agrado a abertura
da primeira sede no Brasil de uma igreja “com alcance especial a comunidade GLBT” (filipeta de apresentação da
ICM). A mesma foi criada nos Estados Unidos em 1968 pelo reverendo Troy Perry.
12Apelo utilizado por Figari (2003) para se referir ao modo recatado em que os gays se manifestavam durante os
shows organizados nos clubes onde “la presencia de señoras, de familias, imponía respeto” (...) como un apelo a
mostrarse dignos y comportados, aceptados por las senhoras/mães en un intento de reconocimiento e inclusión”
(301).
13 O Star Club funcionou no centro, na rua Álvaro Alvim, desde 1987 até sua mudança para o atual endereço, segundo

me informou María Elvira Díaz Benítez que faz trabalho de campo no Star Club.

11
Nos outros espaços nomeados, a clientela14 é basicamente varonil (homens

homossexuais) assim como nos bares ou boates da Zona Sul da cidade15. A letra "ele"

da sigla GLS é engolida por uma onipresente "gê" que ocupa e invade todos os

espaços freqüentados supostamente também por mulheres homossexuais. Mesmo na

literatura supracitada, o interesse está focado no mapeamento das zonas de encontro

de gays e travestis, deixando fora da análise a espacialidade dos roteiros das

lésbicas16.

Vamos então entrar no universo de um estabelecimento de bebidas do centro

da cidade freqüentado majoritariamente por lésbicas, para tentar conhecer um pouco

mais de perto o dia a dia deste espaço e da socialização que nele se mantém.

Conhecer o terreno: por dentro do Flôr do André

“C.B Flôr do André”, reza a faixa branca com letras negras da placa luminosa –

publicidade da cerveja Antártica – sobre a entrada do local, situado à rua André

Cavalcanti N.º 51 “B” perto da interseção com a rua Riachuelo. “Centro”, dizem

algumas pessoas, “Bairro de Fátima”, garantem outras, “Santa Teresa”, segundo os

impostos que o dono do bar me mostra17.

14 A utilização dos termos cliente e clientela serão usados como sinonímia de freguês e freguesia para referirem-se ao
"conjunto ou a totalidade de pessoas que freqüentam habitualmente um determinado lugar" (Houaiss, 1.0). Não
responde à acepção política utilizada no Brasil de "conjunto de indivíduos socioeconomicamente dependentes que
oferecem apoio a uma pessoa de maiores posses e prestígio (freq. um político ou alguém politicamente poderoso), em
troca de proteção, benesses, apadrinhamento, reais ou fictícios" (Houaiss, 1.0).
15 Refiro-me aos bares e boates de Copacabana e Ipanema tais como “Le Boy”, “Bunker”, “Dama do Ferro”,

“Bofetada”, “Galeria Café”, “Incontrus”, “The Copa’’ e “Blue Angel”. Também é preciso incluir nesta lista, o
quiosque “Raimbow” e os pontos GLS das praias de Copacabana e Ipanema. As exceções são o bar “Casa da Lua”,
em Ipanema, e a boate “La Girl”, em Copacabana, que possuem um público majoritariamente lésbico, mesmo que
“La Girl” permita hoje a entrada de homens, apesar de no início ter sido exclusivamente para mulheres.
16 Só Carlos Fígari (2003) inclui as lésbicas como objeto de estudo da sua pesquisa, explicitando uma genealogia de

lugares, nomeações e modos de relacionamentos entre mulheres.


17 O fato de não desenvolver mais conteúdos sobre a Lapa tem uma explicação contextual. Em nenhum momento do

campo essa área onde está localizado o Flôr do André foi mencionada como Lapa. Também não aparece como um

12
Se olhado de frente, está contornado, do lado esquerdo, por uma sucursal da

cadeia de hambúrgueres “Bob´s” e, do lado direito, pelo salão de beleza “Carlos

Hedilson – Hair Center”. Em frente, o casarão do “Hotel Cavalcante” prevalece no

visual abrigando no canto direito, sobre a esquina com Riachuelo uma lanchonete.

Durante o dia, a rua é bastante movimentada: caminhões de distribuição de

0bebidas, mototaxis, carros particulares e vans sobem e descem o dia todo com o

fluxo controlado por um sinal, elemento de controle pouco comum nas ruas da região.

Quando a noite chega, o trânsito diminui de maneira considerável, chegando a

permitir a colocação de mesas na rua ao lado da calçada.

A entrada do local - apenas protegida, quando fechada, por uma cortina de

metal - é separada ao meio por uma coluna de concreto com canaletes aos lados

pelos quais desce a persiana na hora de fechar, porém, com a função, quando aberta,

de conter a pilha de mesas que serão espalhadas na calçada e na rua na hora do sol

cair. O recinto é retangular, de uns vinte metros quadrados, paredes de azulejos

brancos e pisos de baldosa também branca. Cartazes colados ou pendurados nas

paredes assinalam alguns traços do caráter de Gervácio como proprietário: “Se a sua

estrela não brilha, não tente apagar a minha”, “Fiado, só no bar do lado”, “Deus,

muito obrigado por guardar este local de trabalho e pedimos harmonia, paz e muita

serenidade”; “Deus ilumine, oriente e proteja todos aqueles que aqui entrarem”; mas

também como pessoa: um tímido “100% fogão” com uma estrela preta e branca é a

única indicação da paixão do dono pelo Botafogo num espaço onde a grande maioria

lugar que seja freqüentado pelas freguesas. A Lapa atual está ocupada por adolescentes e jovens e devo lembrar @
leit@r que a faixa etária da maioria das freguesas do Flôr do André é outra (entre trinta e cinqüenta anos).Assim é
sintomático que eu não fale em Lapa porque, na socialização do bar, ela aparece como um buraco negro entre o
Centro, onde elas reconhecem que moram e se movimentam, e a praia de Flamengo, onde elas se dirigem para curtir a
praia.

13
é “menguista”18. Um ventilador de teto e outro colocado na coluna da entrada ajudam

a minguar o forte calor das tardes cariocas.

O balcão domina a cena se estendendo pelo recanto direito desde os fundos

até cobrir três quartas partes do comprimento do salão. Na frente dele há uma

prateleira de vidro divida horizontalmente em dois mostrando na parte inferior

refrigerantes, sucos, e cervejas em lata e na parte superior balas, chicletes, isqueiros

e pacotes de batatas fritas.

Em cima do balcão, na esquina contra a parede, a televisão – só ligada durante

o dia – exibe imagens mudas que só adquirem fala na hora dos jornais ou da

apuração de algum jogo de azar como a Telesena, Megasena, ou Tô rico. Geralmente

uma planta de aproximadamente 70 cm de altura obstrui grande parte da tela por ser

na frente do aparelho sua localização habitual, indicando a função “ornamental” que a

televisão tem no lugar.

O balcão – também de brancas paredes azulejadas – estende-se quase até o

final do salão, deixando espaço para entrar detrás dele e na cozinha. Do lado de fora

há vários tamboretes altos cujo número varia dependendo da quantidade de público.

Dentro do local há quatro mesas: três em frente ao balcão contra a parede

esquerda e uma entre a entrada e o balcão, contra a parede direita. Três freezers

garantem a quantidade de bebida gelada necessária no bar: um horizontal está ao

lado da última mesa –contando desde a entrada – outro, vertical, acha-se localizado

em frente dele, mas do lado interno do balcão. Embaixo do balcão, do lado interno, o

terceiro freezer armazena as bebidas não alcóolicas. Mesmo que nos dias de muita

18Autodenominação dos torcedores do Clube de Regatas do Flamengo cuja equipe de futebol é uma das mais
veneradas na cidade, assegurando (os torcedores) ter a “maior torcida do brasileiro” em referência ao campeonato
nacional de primeira divisão.

14
movimentação qualquer freguês possa pegar bebidas do freezer que está do lado de

fora do balcão, sem ser visto pelo dono, ninguém parece ter essa intenção, pelo

menos durante o período em que eu freqüentei o lugar19.

Sobre as paredes estão penduradas várias prateleiras de vidro a diferentes

alturas, mas sempre fora do alcance da mão. Cada uma alberga três garrafas de

bebidas alcoólicas diversas: cachaça, fogo paulista, catuaba, conhaque whisky, vinho.

Estas ficam como reservas das garrafas que estão do lado interno do balcão, sobre

uma das geladeiras à mão do dono e dos garçons e à vista do público para serem

consumidas.

No fundo, contra a parede oposta à entrada, parada como um soldado vigilante

do lugar, encontramos a máquina de som. Desligada durante o dia, ganha vida e

força quando o sol cai. Ao lado esquerdo aparecem os banheiros: um para "ela" e

outro para "ele", segundo avisam com setas indicativas os cartazes azuis pintados na

parede na frente de cada recinto. Uma pia de dimensões muito reduzidas, ao lado da

porta do banheiro de homens, é o último canto do bar.

O local – atendido por uma garçonete desde sua abertura até as 18 hs. e pelo

dono e um garçom durante o resto da jornada – abre as portas de terça a domingo às

8.30 hs. da manhã sem horário certo para fechar, dependendo da quantidade e

empolgação d@s fregues@s do momento. Segunda feira só abre a partir das 18 hs.

para dar tempo de descanso à funcionária que trabalha durante o dia.

19Parece que a idéia de “ser uma família” também tem alcance neste nível. Poderia conjeturar que @s fregues@s
cuidam zelosamente do bar como se se tratasse da sua própria casa.

15
Dentro e fora: espacialidade e níveis de inclusão

A organização espacial do bar tem caraterísticas específicas de acordo com o

horário, em primeiro lugar, e com o dia da semana, em segundo. Porém, os diferentes

graus de intimidade ou as intrigas e questões20 entre a clientela, também modificam o

desenho da malha relacional.

Durante as horas do dia, a atividade se reduz ao interior: as pessoas ficam nos

tamboretes do balcão ou nas quatro mesas que o contornam. Geralmente, cada mesa

é ocupada por duas pessoas: uma de cada lado, apoiando a cadeira contra a parede e

de frente para o balcão, como se este fosse um palco e Nilda – a atendente – a atriz

da peça. A mesma coisa acontece com os tamboretes; primeiro, ocupa-se o que está

do lado da entrada e, só depois, os localizados em frente das mesas, nesse último

caso tomando a precaução de ficar de lado para não dar as costas à garçonete ou

àqueles que ficam nas mesas. A distribuição parece estar sempre preparada para dar

lugar ao diálogo, mesmo que a conversa não aconteça.

A manhã é o tempo de menor movimentação. Nilda está geralmente sozinha

desde o horário de abertura (8:30 hs.) quase até o meio dia ou onze horas, momento

em que as pessoas começam a chegar. Ela explica que esse é o horário de arrumar o

bar, receber os pedidos (de bebidas, basicamente) ou o service da máquina de

música. “É chato, não há nada a fazer, fico aqui sozinha, com sono...” me conta,

“acordo muito cedo pra chegar, cinco da manhã todos os dias porque tem muito

20 Quando falo de intrigas e questões, estou me referindo às categorias elaboradas por Ana Cláudia Marques (Marques

2001). A questão é definida como “fase da relação de conflito em que as vinganças se sucedem, o antagonismo
recrudesce, as ameaças são ativas” (ibid,153). Por sua parte a intriga “é um momento que projeta aquela questão do
passado até o presente, em direção ao futuro” (ibid, 12); é uma “relação nascida de um conflito, intrinsecamente
infinita, estabelecida entre partes tendencialmente iguais nos planos de hierarquia social e moral, que expressa-se
fundamentalmente através de códigos territoriais e verbais” (ibid 87).

16
engarrafamento na Avenida Brasil. Se eu não pegar o ônibus que chega às sete

[horas] na central, tô ferrada. Depois é pior pra sair de lá do município de Caxias]”.

Perto do meio dia, lentamente, aparecem @s primeir@s clientes. Geralmente

seus lugares já estão pré-marcados. Assim que vão aparecendo ocupam um espaço

fixo, se estiver livre, caso contrário, ficam um pouco em pé à espera e, só depois de

se certificar que não o obterão, acomodam-se em outra posição. O tempo de

permanência não é fixo e varia de acordo com a movimentação do dia. No período

das Olimpíadas de Atenas21, por exemplo, as pessoas se reuniam para assistir na

televisão aos jogos em que participava o Brasil22, ficando às vezes a tarde inteira

comemorando ou “afogando as mágoas”23.

A sua vez, pelo que pude observar, as condições climáticas não são muito

decisivas: estando o dia frio e chuvoso ou quente e ensolarado, as pessoas continuam

freqüentando o lugar. Entretanto, a diferença se estabelece à noite já que, nas mais

amenas, as pessoas ficam mais nas mesas da calçada do que dentro do bar e a

estada se prolonga já entrada a noite também nos dias úteis.24 Durante a noite, o Flôr

do André se expande na calçada e aquele que parece um diminuto bar durante as

horas de sol, amplia seus horizontes na cumplicidade da lua.

Mesmo assim, a distinção entre "dentro" e "fora" não é marcada só pelo clima.

Ela responde por um diferencial de antigüidade no lugar. Poder-se-ia pensar também

a partir da distinção concebida por Norbert Elias (2000) entre "estabelecidos e

21 Agosto de 2004.
22 Devo confessar que explicitamente evitei assistir aos jogos entre Brasil e Argentina; mesmo assim não me foi
possível ficar por fora dos resultados adversos porque as freguesas com quem eu mantinha um diálogo mais próximo,
ligavam para minha casa fazendo piadas sobre o desempenho das equipes do meu país de origem.
23 É interessante observar que, como comentei na página 14 o televisor não tem muita importância no lugar. Ninguém

vê novelas, por exemplo, mas pode permanecer ligado quando transmitido um jogo do Flamengo, Botafogo ou da
seleção brasileira de futebol. Deste modo, não parece estranho que gostassem de assistir aos jogos olímpicos.
24 Devo lembrar @ leit@r? que minha pesquisa se estendeu entre os meses de maio e setembro, época do ano de
trabalho e não no período do verão, quando as pessoas costumam tirar férias.

17
outsiders" como diferentes níveis de inclusão-exclusão nas relações visibilizadas no

estabelecimento, tendo como estabelecidas aquelas freguesas mais antigas, mas não

necessariamente só elas.

Seria factível grafar a estrutura como círculos concêntricos com um núcleo duro

no centro. Esse centro tem uma aparência inquebrantável, pelo menos com relação à

permanência dentro do lugar e à espacialidade, no qual possui autoridade para se

espalhar. Os aros respondem a diferentes grupos cuja estabilidade é diretamente

proporcional à distância em que se acham do centro. Ambas, estabilidade e distância,

variam de acordo com determinadas características: antigüidade, freqüência, lugar de

procedência e tipo ou grau de relação (nível de intimidade) com as integrantes do

núcleo duro25. Assim, se parto da base de que qualquer pessoa é bem-vinda ao lugar,

sem distinção (como explicam o dono e as antigas freguesas), poder-se-ia conjeturar

que qualquer um/a que tenha a bem freqüentar o bar, é dizer um/a fregues@, seria

um/a estabelecid@ potencial precisando só tomá-lo como ponto de encontro com

uma alta assiduidade. Porém, na prática não é tão simples assim. Estabelecer-se

(virar fregues@), implica ser mulher, gostar de mulher e respeitar certas regras como

não olhar (nem sequer conversar) a mulher/ex-mulher/ficante/assunto ou

simplesmente já observada por outra antes, sobretudo se aquela "outra" é mais

antiga no lugar.

Por outro lado, existem também outsiders potenciais: travestis e gays muito

afetados denominados usualmente como "bichas"26. Esta regra é tácita e não deriva

25A conformação deste “núcleo duro” ou grupo fundador será desenvolvida no capítulo seguinte.
26 A denominação "bicha" é utilizada em grande parte do Brasil para se referir ao homem homossexual cujo
comportamento é muito efeminado. Já é uma categoria analítica explicitada por Guimarães (2004), Fry (1982) e Fígari
(2003), entre outr@s.

18
do dono, mas dos olhares e manifestações de algumas freguesas, os olhares diretos,

as manifestações entre elas, veladas por trás da fofoca, nunca através de uma

interjeição verbal direta à pessoa alvo, ou simplesmente pelo fato de ignorar a

presença d@ sujeit@ no lugar. "Esse lugar é nosso, eles tem lá o Buraco da Lacraia

onde a gente não vai porque não tem meninas, só homem que olha pra homem".

Tampouco é bem recebido o homem que desrespeita outra regra já não tão tácita:

homem é só amigo, não paquera nem tenta tocar em nenhuma mulher.

Bar ou boteco ? – Definições do espaço

- “Martinha, eu te vejo no boteco.”

- “boteco?, qual boteco?”

- “no boteco... lá na André Cavalcanti.”

- “aaaah! boteco, (rindo) tá bom, se pra você é boteco a gente se encontra

no boteco (com um tom irônico e fazendo as aspas com os dedos sobre a

palavra boteco).

Esta conversa aconteceu na barraca de batidas que uma das freqüentadoras do

local pesquisado tinha na Praça da Cruz Vermelha. Eu estava de passagem

conversando com ela e Magnata, que trabalhava esses dias lá. Como eu tinha que

fazer algumas outras coisas por perto, marquei com Marta de nos encontrarmos mais

tarde no Flôr do André para continuarmos a conversa depois que ela fechasse a

barraca. Quando ela me respondeu desse jeito não consegui compreender direto o

porquê do tom e das aspas. Até fiquei um pouco constrangida achando que alguma

19
bobagem eu devia ter falado para ela zombar de mim daquele jeito. Sem perguntar

nada, limitei-me a escutar a maneira pela qual as diferentes pessoas que

freqüentavam o lugar o nomeavam. Essa conversa conduziu-me a refletir mais

detidamente sobre as diferentes formas de nomear o mesmo espaço social que

existem no lugar.

Desde que comecei a freqüentar o Flôr do André, pensei nele como um

botequim ou boteco e não como um bar. No início, guiada pelo senso comum e,

depois, pelas características de freguesia, localização, tipo de consumo e organização

social do lugar que a literatura sociológica explicita para particularizar um botequim,

continuei a trabalhar pensando nesses mesmos termos. Entretanto, a palavra boteco

não aparecia nas conversas quando o local pesquisado era mencionado.

Foi assim que, ao perguntar às freguesas sobre que tipo de lugar era esse que

freqüentavam, a maioria não hesitou em chamá-lo de “bar”.

- Este lugar onde a gente está, é um boteco?

- Não. É um bar.

- eu achava que era um boteco...

- não, é um bar porque o boteco não tem mesas, é mais estreito.

- é um bar porque no boteco se bebe mais cachaça.

- boteco é lugar de pinguço, aqui se bebe mais cerveja.

Porém, quando a pergunta foi feita aos homens freqüentadores, todos

nomearam o local como um boteco ou botequim. Qual seria a causa dessa

diferenciação?

- isso aqui?... boteco, é... um boteco, dá pra sentar e beber numa boa.

- boteco, bar, birosca, é tudo a mesma coisa...

20
Revisando a literatura sobre botequins na cidade de Rio de Janeiro, algumas

luzes se me apresentaram. Segundo Luiz Antônio Machado da Silva, o botequim é

uma instituição freqüentada por homens trabalhadores de camadas baixas localizados

geralmente perto da entrada das favelas ou em regiões de baixa renda da cidade.

Por outro lado, a duração e intensidade da permanência no local é marcante para

distingui-lo: tem uma freguesia fixa. “A assiduidade dos fregueses é de tal ordem, que

em muitos casos o botequim depende dele para sobreviver” (Machado da Silva, 1969

:163). Esta impressão também aparece na análise que Sidney Chalhoub faz dos

trabalhadores cariocas no início do século XX onde coloca o botequim como “a

principal opção de lazer dos pobres urbanos do sexo masculino” (Chalhoub 1986:

173).

Contudo, é preciso considerar não apenas as repetidas vezes que as pessoas

freqüentam o lugar como também a quantidade de tempo que nele permanecem.

No Flôr do André existe uma freguesia bastante estável durante as horas da

tarde (entre 13 e 17 ou 18 hs.) que às vezes fica durante a noite e outras, abandona

o lugar quando o público começa a aumentar. Chegam depois do almoço e

permanecem bebendo cerveja, vinho tinto ou cachaça, sentad@s contra a parede,

cada um/a numa mesa olhando o balcão, conversando com a garçonete ou entre

el@s, assistindo à televisão ou simplesmente bebendo sem nada para falar ou fazer. A

maioria d@s freqüentadoras mora nas imediações do lugar, na mesma rua ou em

outras adjacentes, e reconhecem esta casa de bebidas como uma referência da

região: “eu sou veterana, há 30 anos que venho pra cá; aqui era uma pensão

(assinalando o hotel Finisterre), aqui do lado era una loja de ferragem (esquina), do

21
outro lado era um açougue e aqui era um ponto de bicho (na rua, ao lado do bar),

mas este bar sempre existiu. Isso aqui é patrimônio!” (Mara).

Ainda que a clientela se diversifique e aumente quando o sol cai, as pessoas

que costumam ir assiduamente ao lugar são mais ou menos as mesmas,

estabelecendo-se deste modo uma rotina. Durante o tempo que passei no lugar, um

grupo de 5 a 10 pessoas, na maioria mulheres, costumava passar as sestas à tarde

bebendo principalmente cerveja e às vezes caipirinha ou vinho tinto gelado de

garrafão. Dessas pessoas, duas trabalhavam cozinhando e vendendo quentinhas na

redondeza ou nos camelôs perto da Estação Central, outra era garçonete do Flôr do

André às sextas-feiras, sábados e domingos e as outras estavam desempregadas,

razão pela qual o tempo de permanência no bar não estava marcado pelo horário do

trabalho, quer dizer, os espaços de lazer e trabalho não existiam de forma

diferenciada; entravam e saíam constantemente indo até o mercado ou mesmo até a

casa às vezes, como se o bar, a meu ver, fosse uma extensão da morada. Por outro

lado, estão também as que passam e cumprimentam as que já estão dentro e

continuam o caminho para o trabalho ou de volta para a casa. Neste último caso,

geralmente no fim da tarde, costumam voltar depois de tomar banho e trocar de

roupa e ficam várias horas bebendo apesar de ser dia da semana.

Quanto ao nível de instrução d@s fregues@s, o segundo grau finalizado é o

que prevalece. São raras as pessoas com nível universitário completo ou que baseiem

sua fonte de renda em um trabalho relacionado a uma carreira universitária. As

atividades de enfermagem, manicure, funcionári@ na administração pública ou

privada, secretariado, atendente de lojas comerciais predominam entre as pessoas

que trabalham ou foram os últimos trabalhos daquelas atualmente desempregadas. A

22
fonte de renda destas últimas provém da indenização ou das poupanças feitas ao

longo do período de trabalho quando o desemprego é recente. Entretanto, quando o

dinheiro acaba e ainda não se arranjou trabalho, a maioria recebe ajuda econômica

da família e mora no mesmo lar deles: “eu trabalhava numa loja de importações em

Copacabana. Ganhava muito bem, mas há quatro anos que deixei... há quatro anos

que estou desempregada, moro com meu irmão, a mulher e as filhas aqui perto, em

frente da praça [de Fátima]. Ele não quer que eu trabalhe em qualquer coisa, então

me dá aí um dinheiro. Agora me emprestou o karaokê27 para eu alugar nos

restaurantes... aí, eu pego uma grana extra pra meus gastos...” (Maisa)

Guiada pelas categorias apresentadas na literatura e as caraterísticas que

acabei de mostrar, pensar no Flôr do André como um boteco não parecia uma idéia

descabelada: tem freguesia fixa com alta freqüência e prolongado tempo de

permanência, a venda de bebidas alcoólicas é a principal atividade do lugar, a

clientela é composta de pessoas que moram nas proximidades do local, a renda é

baixa, o nível de instrução não ultrapassa em sua maioria o segundo grau...

Mesmo assim, o discurso do bar continuava a me contradizer.

O que mais me chamava a atenção era a diferença na nomeação existente

entre os homens – a maioria antigos freqüentadores do lugar – e as mulheres –

majoritariamente pertencentes à freguesia desde que o novo dono comprou o lugar

há mais de quatro anos. Por que os homens continuavam a denominar o lugar como

27O karaokê é um modo de diversão bastante difundido no Rio de Janeiro. A idéia é que as pessoas possam cantar em
público através de um microfone e acompanhadas de uma base instrumental, independentemente da aptidão que
possuam na sua voz. Geralmente se utiliza um aparelho de DVD com saída para microfone, conectado a um televisor
– para que se possa ler as letras das músicas interpretadas – e a alto-falantes que amplificam o som. Essa
infraestrutura é a emprestada pelo irmão de Maisa.

23
boteco e as mulheres falavam dele como bar? Quais seriam as razões por trás dessa

diferenciação?

Pensando em um boteco como espaço de homossocialização28 de homens,

poder-se-ia cogitar o Flôr do André como uma inversão na qual são as mulheres as

que ocupam a posição de predominância na apropriação do espaço no lugar. São elas

que marcam as rotinas, a música a ser escutada, a utilização física do contexto e

sobretudo o regime de enunciação: aquilo que pode ou não ser dito e os momentos

de fala ou silêncio. Os homens que circulam, mesmo mais antigos no lugar, não se

colocam numa posição de poder ou dominância, mas de sossego e silêncio falando

baixo entre eles – quando falam – ou participando das conversas com as mulheres só

quando por elas são convidados. O que procuro explicitar é a assunção de um

diferencial estabelecido pelas freguesas a partir do qual seria possível mudar o ethos

do lugar para um mais apropriado à socialização que elas mantêm no mesmo:

continuar chamando-o de boteco ou botequim fixa características relacionadas à

dominância masculina; denominá-lo bar desmancha as margens dessa significação

específica abrindo as portas para a normalização (habituação?) da presença delas

neste âmbito29.

- O tempo vai passando, aqui era de pinguço, cearense, entendeu?

28 Seguindo Blázquez (2004) e Vale de Almeida (1995), utilizo a denominação "homossocialização",


"homossociabilidade" ou "homossocial" para me referir àqueles tipos de relacionamento social que se estabelecem
entre indivíduos do mesmo sexo.
29 Acho necessário lembrar que o texto de Machado da Silva foi escrito no ano 1968. Na atualidade a noção de

botequim tem mudado bastante até gerar espaços que mesmo levando o nome de botequim criam uma atmosfera
requintada , com amplo cardápio de petiscos e bebidas que nada têm a ver com aqueles descritos pelo autor. Por
outro lado, o uso do vocábulo “boteco” ou “botequim” aparece mais na boca de pessoas de camadas médias que
freqüentam às vezes bares mais populares do que no léxico das pessoas que fazem desse tipo de estabelecimentos seu
dia a dia. Eu, como estrangeira, por exemplo, conheci a palavra boteco a través de meus colegas de aula e não no
discurso dos habitués do Flôr do André. Aliás, a existência de uma guia dos melhores botequins do Rio – já em sua
sexta edição – que é possível comprar nas livrarias da zona sul, também como indicador da mudança no sentido da
palavra.

24
- Pinguço?

- É, cachaceiro. Vinha mais era homem, entendeu? Até que hoje chegou o

pessoal que formou um grupo... que vem e freqüenta mais são as meninas

(Marta).

Em diálogo com o dono do estabelecimento, pude enxergar que embora ele

prefira chamá-lo de bar não vê diferença entre as duas denominações: “acho que a

diferença é quase nenhuma, o objetivo continua sendo o mesmo. Eu acredito que seja

a mesma coisa, vendem o mesmo tipo de coisas, é uma diferença de denominação”.

Entretanto, a denominação parece ser mais do que uma nominalidade. Em

conversa posterior com os três atendentes, explicitaram-se algumas diferenças em

relação à opinião do dono. Mesmo todos concordando em colocar o lugar como um

bar, as argumentações diferiam. O dono diz que vendem o mesmo tipo de coisas, mas

Nilda é taxativa no que se refere a esse item:

- Num boteco não podem vender comida, só coisas doces porque eles não

têm a permissão de vender, é só um bar que pode.

- A permissão de quem?

- Da prefeitura, pra vender comida tem que ser bar.

- Mas vocês não vendem comida...

- É, mas podemos...

- Já quase não tem boteco, estão desaparecendo agora é tudo bar

(Aldairton).

- Mas como eram então os botecos?

- Eram menores, de bunda pra fora (Neia).

- É, e de pé sujo também, um lugar escuro, sujo, só pra homem (Aldairton).

25
O que eu achava mais estranho era que as diferenciações por todos explicadas

não apareciam perante meus olhos como “verdadeiras”. Os parâmetros com que lia o

lugar diferiam bastante: baratas caminhando pelas paredes do salão e da cozinha, o

cheiro forte de urina no banheiro durante as horas da tarde que se multiplicava

exponencialmente no horário noturno, principalmente às sextas-feiras e sábados,

acompanhado de papel higiênico sujo aos montes que não conseguia ficar dentro da

lixeira, a cor do chão mudando com o passar das horas, os cotovelos grudados nas

mesas graças ao líquido (geralmente cerveja) derramado... Nada disso parecia diferir

de um autêntico “pé sujo”30 como o que estava a duas casas do Flôr do André

assinalado por Nilda como um verdadeiro boteco.

Por outro lado, o tamanho do lugar também referenciava a diferença: quatro

mesas dentro do salão já demonstrava, nas palavras de Vera, que aquilo “não tinha

nada a ver com um boteco”. Contudo, os locais por mim visitados na redondeza,

considerados pela freguesia como botecos, tinham mais ou menos a mesma

quantidade de mesas e um tamanho similar ou até maior do que aquele analisado.

É em torno destes dados apresentados que comecei a considerar o Flôr do

André como uma hibridação entre bar e boteco fruto da freguesia – mulheres em sua

maioria lésbicas – e das relações que a partir dela se estabelecem. A mistura

resultante das particularidades sociológicas características de um botequim e um

público que, além de relações homossociais, evidenciam relações homoeróticas, criam

uma maneira diversa de pensar um local de bebidas freqüentado por pessoas de

baixa renda no centro do Rio de Janeiro e que singulariza a sua análise. Note-se,

30 Denominação antiga utilizada no Rio de Janeiro para se referir a este tipo de estabelecimento por causa da ação que
a sujeira faz nos pés ao caminhar, deixando-os grudados ao chão. Esta versão se estendeu em nossos dias para aqueles
bares onde a limpeza, tão aclamada desde Gilberto Freire como característica dos brasileiros, parece coisa de outro
mundo.

26
porém, que não utilizo em lugar nenhum a expressão GLS31 que poderia ser pensada

como específica para um espaço com este tipo de características de socialização. Essa

forma de nomeação apareceu uma vez só no campo todo e foi utilizada por Greg, um

jovem holandês, respondendo à minha pergunta sobre as razões pelas quais gostava

de freqüentar o lugar. Entretanto, as freguesas recusaram explicitamente a utilização

desta locução para definir o bar estabelecendo uma diferenciação entre "boite gls" e

"bar familiar" qualificando o Flôr do André com a segunda expressão. Por que esse

empenho em se diferenciar de um espaço GLS?

Como as tabernas de Pardais pesquisadas por Miguel Valle de Almeida32 que

dão lugar ao café como novo centro de socialização, mas dando continuidade às

interações e funções que ligam taberna e tradição, pode-se pensar na mudança do

Flôr do André de boteco para bar. Mesmo conservando o papel homossocializante que

caracteriza o boteco na literatura sociológica brasileira, são as mulheres e não os

homens as que interpretam esse papel. Como o interpretam, será o eixo da segunda

parte da presente dissertação.

O copo nosso de cada dia: o papel do álcool

Quando comecei a freqüentar o Flôr do André, já “convertido” em meu campo

de pesquisa, decidi beber refrigerante ou água, pelo menos no início da jornada, para

31Siglautilizada no Brasil para identificar lugares específicos de socialização de Gays e Lésbicas; a letra S corresponde
a "Simpatizantes", como um modo de expressar a abertura à pessoas que não praticando atividades homoeróticas
freqüentam aqueles espaços. Esta sigla também é utilizadas pelos gays e lésbicas como modo de autodefinição. Em
relação aos grupos de ativismo, a sigla tem começado a mudar para GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e travestis) por
considerá-la politicamente correta incluindo outras minorias além dos gays e lésbicas. Mesmo assim, ainda deixa fora
transexuais, transgêneros e intersexes reconhecidos pelo ativismo internacional como parte da causa pela defesa do
reconhecimento dos direitos das diferenças sexuais.
32 Estou me referindo à pesquisa sobre masculinidade feita por Miguel Vale de Almeida (1995) na aldeia portuguesa de

Pardais.

27
moderar a ingestão de álcool que, tinha quase certeza, continuaria no decorrer das

horas e, para não faltar com a verdade, porque não estava dentro do meu imaginário

pedir uma garrafa de cerveja às três da tarde, por exemplo. Eu, sentada com minha

garrafinha de coca-cola ou água mineral, observava os movimentos entre as mesas,

escutava uma ou outra conversa, mas me parecia difícil estabelecer uma conversa

com as pessoas além da participação que, como “intrusa” ou “nova” no lugar, podia

conseguir. Preocupada pela inexistência de diálogo, tomei a determinação de mudar a

inofensiva garrafinha por uma cerveja gelada dentro do correspondente isopor que

garantisse a permanência da baixa temperatura.

A decisão pareceu ser a correta. Sem modificar nada além do tipo de bebida

que consumia, as mesmas clientes que em dias anteriores (ou mesmo naquele dia da

mudança de bebida) se limitavam a me observar, mudaram a atitude.

- E aí!!! então a coca-cola era só pra disfarçar!!!

- você não parece muito dada com refrigerantes, aquela antártica é a sua

cara!!

Qual o motivo para me dirigir a palavra com aquela familiaridade senão por

causa do copo com cerveja em minha mão? Por que o refrigerante não teve o mesmo

efeito?

Consumir alguma bebida alcoólica é um diferenciador entre mundos dentro do

Flôr do André. É a entrada para uma outra dimensão de contato com aqueles que

efetuam o mesmo ato. Se trata-se de mudar a bebida – da água mineral à cerveja,

por exemplo –, o copo também deve ser trocado: começar de novo, a partir de outro

plano. Mesa, cadeira, localização espacial, continuam as mesmas, mas o lugar a partir

do qual a relação é estabelecida transmuda. Em termos de Bruno Latour, a rede não é

28
a mesma embora a proximidade física demonstre o contrário. Eu com a coca-cola na

mão fico fora da rede, com a cerveja, faço parte. Além de outras caraterísticas que

possam me afastar (nacionalidade, clube de futebol pelo qual torço, jeito de falar,

para citar alguns exemplos que apareceram durante o trabalho de campo) nesse

momento, as grandes diferenças se diluem dando lugar às semelhanças que nos

aproximam. Visto assim, cada fregu@s não é uma unidade independente do atuado,

mas uma entidade relacional que tem permissão de desancorar de uma identidade

fixa e pular de uma a outra em relação aos seus atos33. E são justamente estas

relações [mediações?] as que ganham valor e visibilidade como atores e não meras

passividades permitindo as mudanças anteriormente citadas.

Continuando com a terminologia de Bruno Latour, o copo poderia ser pensado

como um “attachement” (Latour,2000) que faz-fazer uma relação que adquire validez

e significação no contexto da casa de bebidas e transforma relacionamentos,

espacialidades e tempos. Transparentes, de vidro, da altura certa para caber na mão,

os copos americanos colocados de boca para baixo no interior do balcão parecem uma

seriação da mesma espécie. Porém, a espécie se define em relação ao conteúdo que

neles é colocado. Por um lado, a bebida escolhida pel@ fregu@s faz o copo adquirir

determinada categoria; por outro, aquela identidade que adquire o copo faz à pessoa

que o possui, pertencer a uma rede em particular. Deste modo, a articulação copo-

bebida-pessoa adquire significações particulares de acordo com as combinações que a

tríade forme.

33 É a concepção de pessoa melanésica que me faz pensar em sujeitos desancorados de uma individualidade,
“divíduos”, em termos de Marilyn Sthratern, que constroem a noção de pessoa através das relações sociais que
estabelecem. De um modo análogo, o álcool, como ator social, permitiria construir um relacionamento diferenciado
entre as pessoas que o estejam consumindo ou transformar uma pessoa em outra durante o ato de consumo.

29
A ingestão do álcool não é nem uma desculpa, nem uma obrigação; é a chave

para a mudança da qualidade não só do relacionamento que se estabelece entre os

que participam do lugar, mas do tempo em que se vive: o sujeito não é o mesmo,

razão pela qual está possibilitado ou convidado a participar do mesmo mundo que

aqueles que estão com um copo na mão na hora em que estiver na mesma condição.

Talvez poder-se-ia aplicar esta percepção dos fatos na deferência que se faz para o

comportamento de uma pessoa bêbada. Sem ser tratada de um modo pejorativo,

também não é considerada do mesmo jeito se estiver sóbria: é permitido a ela

quebrar alguns limites das regras de cordialidade tais como tratar mal a pessoa com

quem está falando, provocar ou inventar cenas de ciúmes e levantar o tom da voz

mais do acostumado. Este trato condescendente tem um limite claro marcado pelas

pautas do dono do bar: "eu não me importo com quem elas estão, se se beijam ou

não, só não quero rixa dentro do meu estabelecimento". O fato de o dono falar em

feminino não é um acaso: as brigas fazem parte do universo das mulheres e muito

raramente há homens envolvidos34. Dentro do lugar não são aceitas aquelas brigas

que implicam contato físico; pode até haver gritos, mas nunca chegam a se bater,

antes são separadas pelo garçom e repreendidas pelo dono. Se alguma das partes

continua brigando será expulsa do recinto, pelo menos até se acalmar. Esse ato não

impede que no dia seguinte a mesma pessoa esteja novamente bebendo como se

nada tivesse acontecido.

Este tipo de comportamento é observado também por Chalhoub (1986) e

Machado da Silva (1969) como habitual em um espaço onde o álcool faz parte do

cotidiano das pessoas. Em seus respectivos trabalhos, estes dois autores explicitam o

34 Este assunto será desenvolvido no segundo capítulo desta dissertação.

30
papel do dono como controlador da ordem e da moral do lugar, daquilo que pode ou

não ser feito dentro do seu recinto. Mesmo assim, sua intervenção será utilizada como

último recurso, depois que as barreiras de contenção internalizadas pel@s própri@s

fregues@s ou a advertência do garçom tenham sido ultrapassadas.

Exemplo deste comportamento foi a disputa entre duas freguesas durante a

comemoração do aniversário de Rubi – uma das mais antigas freguesas do lugar35.

Era uma noite chuvosa de julho e mesmo assim o interior do bar e suas imediações

estavam repletos de gente devido à popularidade da aniversariante. Para fugir da

chuva, as pessoas que ficavam do lado de fora tinham espalhado as mesas na calçada

contra a parede das casas contíguas, embaixo da cornija. Outras preferiam o abrigo

de um plástico amarelo que cruzava desde a porta do bar até a metade da rua

possibilitando colocar mais mesas sem medo de serem empapadas com tanta água

caindo insistentemente do céu. Contudo, as pessoas se empenhavam em permanecer

dentro do boteco, perto da aniversariante, lugar para onde tentei me dirigir

lentamente para ver se conseguia falar com a dona da noite. Mais de quarenta

pessoas permaneciam apinhadas naquele reduzido espaço, tentando dançar ao som

dos discos que uma das amigas trouxera para "uma ocasião tão especial", mesmo que

não tenham se diferenciado muito daqueles escutados assiduamente através do

aparelho de música do lugar. Eu nunca tinha visto nem vi o Flôr do André tão cheio

como nessa noite, nem para o aniversário de Nilda – a garçonete – sumamente

querida e popular no lugar36.

35 Infelizmente, as fotos que tirei aquela noite sumiram da minha bolsa junto com a câmara fotográfica quase ao final
da festa. Desprevenida e confiante deixei, como sempre fazia, a bolsa envolvida no casaco, sobre a mesa na qual
estava. Parece que, com a confusão e em algum momento que eu estava sentada no balcão com Neia tentando
convencê-la do meu desinteresse em Raquel, alguém tomou a bolsa, tirou a câmara e deixou o resto no banheiro.
36 Ambas, Nilda e Rubí, fazem parte do mesmo grupo de amigas, do "núcleo duro" da freguesia do bar.

31
Logo ao cumprimentar as pessoas conhecidas e conversar um pouco com Rubi,

comecei a dialogar com Raquel, uma jovem de 24 anos que eu já conhecia, mas mal

lembrava, de uma ocasião em que fui convidada para dançar forró num

estabelecimento perto do bar. Era meia noite e Raquel, parada do lado interno do

balcão, bebia cerveja e pedia a qualquer um que enchesse seu copo de plástico cada

vez que este começava a esvaziar. Em um momento, o olhar dela mudou e saiu

aborrecida do canto onde estava entrincheirada colocando-se ao lado de Adão, um

homem taciturno, tranqüilo, calado, principal fornecedor da cerveja que Raquel

engolia aquela noite. Eu continuei meu caminho entre outras mesas e deixei a menina

conversar com seu amigo. Pouco tempo depois, senti uma gritaria e vi Raquel sendo

conduzida para fora pelo garçom que lhe advertia para não voltar antes de se

acalmar. Logo Neia saiu furiosa, mostrando como tinha ficado sua camisa depois de

tentar parar Raquel que queria bater nela. O mesmo garçom que levara Raquel para

fora minutos antes, disse a Neia que não se irasse porque Raquel, estando bêbada,

não agia como das outras vezes. A questão era que Neia tampouco estava sóbria e

continuou sussurrando no ouvido de Raquel, controlando-a, seguindo seus

movimentos com um olhar assustador.37 Aquela cena foi uma constante durante

quase toda a noite, porém, cerca das cinco horas da manhã, um pico de tensão

apareceu quando Raquel levantou a voz e tentou brigar novamente com Neia. Nesse

momento, o dono do lugar interveio: abaixou o som da música e gritando, deu um

ultimátum explicitando novamente a norma de não brigar dentro do seu

estabelecimento e mandando Raquel continuar a rinha em um outro lugar. Os ânimos

37 Eu fiquei envolvida na situação porque Neia pensou que eu estava cortejando Raquel, razão pela qual ameaçou me
bater duas vezes durante a noite. Essas ameaças foram feitas no meu ouvido ou com senhas à distancia. Esta situação
será desenvolvida na segunda parte da dissertação devido à sua importância como diferencial da minha relação com as
freqüentadoras e o modo em que comecei a ser considerada no lugar.

32
se acalmaram um pouco mas, meia hora mais tarde, uma nova discussão fez com que

Raquel fosse levada para fora. Neia continuou no lugar sem problemas já que, mesmo

tendo sido ela a instigadora, nunca perdeu a compostura nem mostrou abertamente a

situação que estava sendo gerada. Mesmo assim, na próxima vez em que nos

encontramos, ela não quis falar do assunto levando o dedo índice à boca em sinal de

guardar silêncio. Entretanto, o jeito dela me tratar mudou de modo considerável:

antes do episódio nem falava comigo, apenas me cumprimentava; depois daquela

noite passou a me contar seus assuntos com Raquel como quem faz confidências.

Contudo, uma coisa que não deve ficar fora de questionamento é o gênero das

pessoas que bebem. Mesmo não sendo exaustiva, a consulta feita à bibliografia com

relação a ingestão pública de álcool38 tem sempre como alvo de pesquisa o homem,

seja qual for a sociedade. É simplesmente uma escolha dos pesquisadores ou algo

que emerge do campo com relação à permissão cultural de beber álcool? "One such

regularity [in the use of alcohol across cultures] is that drinking is usually considered

more suitable for men than for women" (Mandelbaum, 1965: 282). Esta frase pode

lançar uma luz sobre o porquê dos homens serem o objeto de estudo, se pensamos a

procura das regularidades e generalizações como uma característica de boa parte das

pesquisas científicas. Mesmo assim, o fato contrário – a impropriedade da ingestão de

álcool por parte das mulheres e o correlativo porquê – também é uma regularidade. A

silogística conclusão que se desprende das anteriores premissas parece ser a escolha

dos pesquisadores e não só a emergência de uma regularidade que salta perante seus

olhos para ser estudada. Entretanto, a ingestão de álcool por parte de um grupo de

38 Mandelbaum (1965), Hunt & Satterlee (1986), Gusfield (1987). É interessante que o que é citado a partir das
etnografias e citações bibliográficas por eles usadas respondem à mesma lógica; concernem todas à ingestão de álcool
entre homens.

33
mulheres sem que seja considerado impróprio, como é o caso das freguesas do Flôr

do André, continua afastado do universo de pesquisa.

A marca que Marta faz na entrevista de uma mudança do lugar de "pinguços" a

cervejeiros, poderia também ser relacionada ao modo com que as freguesas

catalogam determinados tipos de bebidas a um gênero particular: a cachaça está

diretamente aparentada com os homens; a cerveja, no entanto, é consumida por

qualquer um. De fato é a bebida mais consumida no lugar: entre doze e quatorze

engradados diários, contendo cada um vinte e quatro garrafas de 600 ml de cerveja,

segundo dados fornecidos pelo dono. Durante o período do trabalho de campo, pude

observar que a maioria d@s freqüentador@s preferiam beber cerveja; às vezes

mudavam para refrigerante, vinho tinto gelado ou caipirinha, mas, nesses casos,

justificavam sua escolha, sobretudo se a opção não era alcoólica39. O fato de ter

bebido a mais nos dias anteriores parecia ser um lugar comum, igual que a proibição

médica por ingestão de algum medicamento ou, nas proximidades do verão, a

necessidade de fazer dieta “para baixar a barriga do inverno”40. Esta última

argumentação “de peso” foi exposta só por algumas mulheres, mas por nenhum

homem.

As pessoas se encontram e se reconhecem através da ingestão de uma bebida

alcoólica?

Beber álcool, mesmo que seja na solidão dos pensamentos, é um fato

consumado socialmente dentro do bar, considerado uma extensão da casa mas não a

casa mesma. Mesmo que estejam sentadas sozinhas, praticamente sem falar durante

39 Este comportamento justificativo é observado também por Machado da Silva (1969).


40 Escutei esta desculpa em setembro, quando o tempo começou a esquentar.

34
o período de tempo em que estão dentro do Flôr do André, o fato de ir para lá coloca

o lugar como um espaço liberado onde o álcool obtém uma positividade em lugar de

ter uma punição social. O Rio de Janeiro é uma cidade onde as bebidas alcóolicas –

basicamente cerveja – fazem parte do cotidiano41. É possível ver na rua pessoas

bebendo a qualquer hora do dia e em qualquer dia do ano, ajudadas pelo horário

amplo de atenção deste tipo de estabelecimentos comerciais e o preço não tão

elevado das bebidas42em relação à media da região. Assim, os períodos de trabalho e

lazer não parecem marcadamente diferenciados – embora existam como espaços

separados – em contraste, por exemplo, com as argüições que Gusfield (1987) faz da

sociedade norte-americana43. Tanto no Flôr do André como em outros bares ou

botequins, as pessoas param para beber independentemente da hora do dia. Aliás,

seria necessário distinguir diversos modos de comportamento frente a bebida que

convivem no mesmo lugar. Existem pessoas que entram, bebem uma cerveja no

balcão e vão embora, aquelas que aparecem regularmente em determinada hora do

dia e ficam bebendo e conversando com um grupo de amig@s ou as que bebem a sós

sem controle e logo acabam sendo escoltadas pelo garçom ou algum/a amig@ até a

41 Não é só durante o carnaval que o carioca se permite beber a qualquer hora. Caminhando pelas praias (seja da zona
sul, oeste ou Flamengo) é comum achar pessoas bebendo cerveja antes do meio-dia. Mesmo nas publicidades
televisivas de cerveja este fato de não existir dia ou horário para beber é realçado e utilizado como slogan. Igualmente
sucede nos bares e botequins onde parece não existir barreiras de horário para as bebidas alcoólicas. Sem ânimo de
generalizar, mais de uma vez pude observar motoristas do transporte público bebendo cachaça à espera do turno de
saída do ônibus que dirigiam.
42 No Flôr do André, o preço da cerveja varia entre R$ 1.80 (Nova Schin) e R$ 2,50 (Skol); o copo de vinho tinto de

garrafão e a dose de cachaça estão a um Real. Existem na área outros bares um pouco mais baratos, mas os preços
gerais são mais ou menos esses.
43 Gusfield (1987) incorpora a análise dos ritos de beber na sociedade norte-americana a um contexto mais amplo

como o da sociedade moderna. Ele estipula a segmentação e o contraste dos tempos de trabalho e de lazer como
características centrais da organização desta sociedade. Acho que, na verdade, essa segmentação corresponde mais às
características do sistema capitalista industrial (do qual Estados Unidos é exemplo paradigmático) que a uma difusa
noção de sociedade moderna que – nestes tempos em que a dissolução do Estado como foi pensado há quase três
séculos atrás deixa lugar para as atomizações ou, pelo contrário, à criação de grandes blocos socioeconômicos – já não
pode ser pensada em termos monolíticos e absolutos.

35
casa. Tod@s convivem aprazivelmente conformando a “fauna” do Flôr do André ou de

outros bares e botequins cariocas.

Bigode ou florzinha: “fazer gênero” nos banheiros

Sábado 5 de junho:

“Hoje é a final do 'BBG'44 e o boteco está cheio. Parece-me interessante o uso

indiscriminado que as mulheres fazem do banheiro. Se o que está indicado como

'ela'45 está ocupado, dirigem-se sem problemas ao indicado como 'ele'. Pergunto para

Joana que então me responde: ‘é um banheiro, qual é o problema... eu tenho

preferência pelo outro [de damas] porque este [de cavalheiros] não tem descarga e

cheira mal, mas se está ocupado... tanto faz’. Magnata tem outra resposta similar:

‘somos mais meninas aqui e precisamos mais do banheiro, os homens que esperem’

(em alusão à fila de homens esperando calados que o banheiro seja liberado).”

Este estrato do caderno de campo corresponde à primeira vez que enxerguei o

modo em que as mulheres se comportavam no que diz respeito à utilização dos

banheiros, prática repetida cada vez que a clientela era suficiente para precisar de

mais de um cubículo para descarregar tanta cerveja acumulada no corpo. Mais uma

vez as fronteiras genéricas eram subvertidas pelo uso indiscriminado dos espaços que

44 BBG é a sigla para Big Brother bar do Gê, denominação dada a um concurso de popularidade realizado no local
durante o mês de maio. No jogo, @s participantes, pagando 5 reais para se inscrever, eram colocad@s em uma lista
logo sujeita a votação para saber quais eram @s que ficariam fora de combate e @s que chegariam até a final a ser
decidida entre @s quatro últim@s participantes. Assim, cada sábado se realizava uma apuração onde eram excluíd@s
dois participantes até ficarem só quatro. O prêmio consistia em um engradado de cerveja. O que parece estar em jogo
é a legitimidade de uma popularidade implícita; as que ficaram como finalistas eram quatro integrantes do grupo mais
antigo do lugar.
45 “Ela” e “ele” são as palavras com as quais estão identificados os banheiros, ver pag.15 da presente dissertação.

36
foram concebidos como um modo de “fazer gênero”46 ou, em termos de Beatriz

Preciado, “cabinas de vigilância de gênero”: “No século XX, os retretes tornam-se

autênticas células públicas de inspeção nas quais se avalia a adequação de cada corpo

com os códigos vigentes da masculinidade e feminidade. Na porta de cada retrete,

com signo único, uma interpelação do gênero: masculino ou feminino, M ou F, damas

ou cavalheiros, mocassim ou salto alto, bigode ou florzinha como se entrar no

banheiro fosse para refazer o gênero em vez de se desfazer da urina ou da merda. Os

signos de interpelação na porta [do banheiro] não se importam se queremos urinar ou

cagar, não se interessam na cor ou tamanho da merda. Só o gênero importa”47

(Preciado, 2004:67) A autocensura inconsciente exercida por todos nós ao entrar nos

banheiros públicos explicita o ordenamento treinado dos corpos. Nem sequer nos

detemos para pensar, simplesmente entramos no cubículo socialmente

correspondente ao gênero consignado em relação àquilo que temos entre as pernas.

Porém, a vigilância do gênero não está restrita ao próprio corpo: é exercida sobre os

d@s ocasionais colegas de banheiro48, colaborando assim para a reprodução da

diferença entre os gêneros imposta por uma diferenciação obrigatoriamente visível

nos corpos que transitam os espaços públicos.

De modo inverso, o uso indiferenciado dos banheiros praticado pelas freguesas

do Flôr do André, desconstrói a divisão de gêneros diluindo essa ordem tácita no ato

46 Independentemente das freguesas do Flôr do André serem ou não lésbicas, o fato de desrespeitar a separação social
do gênero que supõem os banheiros é o que outorga o caráter transgressor a esta “invasão” por elas praticadas. A
expressão “fazer” ou “desfazer” gênero implica, nas palavras de Blázquez (2004), o fato de atuar dentro de uma
performance que se coloca dentro ou fora da norma social imperante. Usar o banheiro de homens vai a contrapelo da
norma, razão pela qual indico esta ação como um modo de desfazer o gênero. Nos termos de Foucault (1975),
poderíamos pensar esta conduta como uma estratégia dos corpos para iludir a vigilância.
47 A tradução é minha.
48 Com isto, refiro-me aos olhares ou direcionamentos verbais usados para indicar qual é o banheiro que lhes

corresponde àqueles que não tem marcas claras de gênero como mulheres com cabelo curto e vestimenta masculina,
homens de cabelo comprido ou aqueles que diretamente manifestam uma inversão entre sexo e gênero como travestis,
transgêneros e transexuais.

37
de apropriação daquele cubículo assinalado como pertencente aos homens. Assim – e

igualmente de maneira inconsciente – a vigilância é transformada em cumplicidade e

a divisão em mistura. Também é necessário assinalar uma outra justificativa, tanto

das mulheres para invadir, como dos homens para permiti-lo, que é o fato da mulher

precisar ir mais seguidamente ao banheiro que os homens. É verdade que as

mulheres precisam ir ao banheiro mais vezes que os homens. Trata-se de uma

diferença fisiológica que resulta da bexiga da mulher ter menos espaço por causa do

lugar ocupado pelo útero, mais ainda quando ela está grávida. Esta noção é muito

difundida e também usada no bar. É interessante pensar como esta idéia que parte do

discurso médico e é reapropriada pelo senso comum aparece como uma forma válida

de desestruturar as divisões que o mesmo discurso médico criou como invioláveis49;

como se esse corpo por este desenhado se voltasse contra eles para justificar a

falsidade das divisões.

Entretanto, acho que é preciso assinalar também o poder que essa “invasão”

pressupõe. Os homens relevam a espera por causa da quantidade de mulheres e da

urgência de suas necessidades corporais, denotando certo cavalheirismo e gentileza

para com as colegas. Porém, a devolução daquele gesto não parece ser o esperado

pelos rituais homem-mulher: elas simplesmente nem reparam na situação. A cortesia,

como gesto de cavalheiro, não é espaço exclusivo dos homens, nem é um ato

esperado pelas mulheres no bar; em vez disso, a cortesia das mulheres entre elas

adquire importância e prestígio no contexto e a dos homens não é tomada como

49 Estoume referindo ao paradigma moderno dos corpos que se remonta aos fins do século XVIII e começos do XIX,
onde a medicina corporiza o gênero como uma dualidade visível em duas formas diferentes: a masculina,
correspondendo ao macho, e a feminina, correspondendo à fêmea. Para mais dados sobre esta temática, consultar
Laqueur (2002) e Rodhem (2003).

38
modo de flerte, mas como signo de amizade de um igual. Sobre este assunto

avançarei no próximo capítulo da dissertação.

É interessante pensar como os conceitos operam relacionalmente entre

diferentes planos. Tomado o Flôr do André como um universo, existe uma divisão

entre estabelecidos (fregues@s, diríamos) e outsiders que se apresenta entre facções

que em um nível mais amplo, em cada uma das divisões (gênero, classe social,

ocupação, orientação sexual, exteriorização da orientação), as freguesas são todas

tidas como outsiders: mulheres, de camadas baixas, sub-empregadas ou

desempregadas, lésbicas e masculinas. Entre elas há inclusão e exclusão embora o

lugar pareça aberto a todas. Por sua vez, os homens másculos que procuram parceira

no lugar são rejeitados quase sem possibilidades de retornar.

Assim dentro do bar, as abjeções50 funcionam de forma diferente, porém nem

sempre inversa com relação à sociabilidade hegemônica. Aquelas pessoas que estão

fora da norma [anormais] são as que estabelecem os critérios de normalidade no

lugar, colocando à margem o que, com base em critérios de normalidade social,

deveria funcionar como centro: por um lado, os homens que se comportam como a

dita masculinidade central e, por outro, as mulheres que não respondem aos cânones

estéticos e comportamentais estipulados pelo grupo mais antigo do lugar51.

Assim, podemos pensar este lugar em particular como um nó de interconexões

onde confluem e convivem diferentes redes, quer dizer, diferentes universos de

sentido. Por sua vez, determinados attachements atuam na mediação entre os pontos

50 O conceito de abjecção supõe, para Butler, a produção de um terreno a partir do qual a diferença se estabelece,
designando assim uma condição degradada e excluída dentro dos temos da sociabilidade (Butler, 2002: nota 2).
51 A respeito da relação entre fregueses e freguesas do Flôr do André ampliarei o argumento no próximo capítulo.

Aqui, só queria deixar explicitada a estrutura de poder que se vislumbra no bar.

39
nodais de cada rede fazendo fazer às pessoas os papeis que desempenham no lugar.

Estas mediações talvez sejam o álcool, o gênero (ou mais corretamente o modo de

fazer gênero), os níveis de inclusão-exclusão e a relação com o objeto de desejo que

funcionam aproximando e afastando ao mesmo tempo diferentes atores numa

situação igual. Entretanto, estas particularidades mesmo estabelecendo parâmetros

dissímeis de se colocar no bar, não se comportam como abismos de sentido, mas

como singularidades para habitar o mundo que se acotovelam pacificamente e

conformam as peculiaridades do lugar. Se o Flôr do André se constrói como espaço

diferenciado, isso se deve tanto a essas características de modo individual quanto à

convivência das mesmas que se observa no seu interior.

40
CAPITULO II

SER DO BABADO: RELACIONAMENTOS NO FLÔR DO ANDRÉ

Como considerar uma imagem de mulher que, sem se pensar homem,

extrapola os limites estabelecidos para “ser mulher”? Mulheres que usam cueca,

tocam a virilha para acomodar uma imaginária mala52, utilizam espaços socialmente

reservados aos homens; entretanto, se maquiam, levam a sério a combinação de

cores, fazem dieta para não ter barriga no verão e mantêm axilas, pernas e buço

prolixamente depilados durante o ano inteiro.

Pensar em mulheres masculinas não implica necessariamente aplicar uma

“inversão” dos papéis genéricos; significa uma nova volta do parafuso: estabelecer

modos alternativos de masculinidade que não estejam necessariamente inscritos em

um corpo social e biológico de homem ou, do outro lado, modos de ser mulher que

não correspondam àqueles estipulados como papeis femininos.

Não posso, nem pretendo, estabelecer uma categoria fixa para falar das freguesas

do Flôr do André. Pelo contrário, tento mostrar as diferentes formas em que elas

vivenciam sua sexualidade, desde aquelas mais masculinas até as mais femininas em

um amplo leque de possibilidades e nuanças a despeito das categorizações

essencialistas de “cultura GLS” ou “classe trabalhadora”53.

52 Em diálogo com meu amigo e sociólogo Carlos Fígari, conheci esta palavra como modo popular carioca (muito
difundido na fala dos gays) de se referir à saliência que se entrevê através da calça ou da sunga dos homens em que
justamente só é possível distinguir o contorno formado pelo pênis e os testículos. Do mesmo modo, em uma mala só
é possível considerar o tamanho externo do conjunto; um vulto que não permite enxergar as singularidades que tem
dentro. Na definição de “mala” do Dicionário Aurélio Eletrónico, versão 3.0, aparece também como uma acepção:
“Bras. Chulo Os órgãos genitais masculinos”.
53 Estes conceitos serão retomados mais adiante nas páginas 50 e 67, respectivamente

41
Se no primeiro capítulo minha pretensão foi esmiuçar os fatores que constituem

o Flôr do André como espaço diferenciado, no presente, são os modos de

relacionamento que nele se produzem os que serão expostos. Relacionamentos que

se constroem a partir de vivências comuns ou completamente diferenciadas que,

embora juntas, conformam as particularidades desse lugar como um boteco de

mulheres, entendidas, sapatonas, em convívio com homens heterossexuais onde as

performances de masculinidade e feminidade se misturam e se confundem.

O olho “entendido” : como reconhecer à igual

- Detinha, como faz pra reconhecer uma entendida na rua?

- (Seu olhar cravado nos meus olhos com um ar de “você gosta de perguntar

idiotices?!”): mas que pergunta é essa?

- Isso... quando você gosta de alguém, como sabe se ela gosta de mulher ou não?

- Ehh menina! você não se dá conta não???

- Às vezes sim, às vezes não, depende, talvez seja porque sou estrangeira...

- Que estrangeira nem que nada!!! dá pra ver em qualquer lado!!!

- Pra ver o quê?

- Ehhh!! que a mulher pra quem tu tá olhando gosta é de mulher!!! não sei o quê que

é, mas eu sempre sei...

Como reproduzir com palavras aquilo que o corpo sabe? Como conseguir

descrever as certezas construídas através do olhar que entende, além da consciência

que suscita a explicação? Uma e mil vezes perguntei às freguesas do Flôr do André as

42
características que uma mulher tinha que reunir para ser considerada “entendida” e

uma e mil vezes me deparei com a mesma resposta: “dá para saber”, “você vê nos

olhos da outra e já sabe”, “uma cobra sente o cheiro da outra”, todas estas

expressões não denotam rasgos específicos da vestimenta ou movimentos corporais,

mas um reconhecimento colocado no terreno do olhar.

Desconstruir a percepção que temos do outro como igual não é tarefa simples.

Por isso aparece nas entendidas do Flôr do André a dificuldade de responder à minha

pergunta: a operação de reconstruir com palavras aquilo adquirido experiencialmente

leva ao discurso atos que nunca passaram por esse plano. Nas palavras de Tim

Ingold, “Learning to perceive is a matter not of acquiring conventional schemata for

ordering sensory data, but of learning to attend to the world in certain ways through

involvement with others in everyday contexts of practical action” (Ingold,1993: 222).

O fato é que gostar de mulher não é uma particularidade que se distingue como uma

fração separada no discurso delas. Faz parte de um mundo contínuo no qual a família,

@s amig@s e o bar ocupam espaços similares, porém existe uma necessidade delas

de se encontrarem em um lugar que lhes seja próprio. Poderia atrever-me a

conjeturar que o universo do Flôr do André se constrói como tal a partir de um

entrecruzamento de tramados. Dentro do lugar convivem compassadamente

diferentes lógicas relacionais onde o termo “entender” adquire diferentes estádios de

significação: as “entendidas”54 se reconhecem dentro de um experiencial compartido;

o resto da freguesia (em sua maioria homens heterossexuais antigos freqüentadores

54 A definição que Jacqueline de Oliveira Muniz faz sobre o fato de entender em detrimento daquele explicitado por

Fry e Mc Rae (1985) lança uma luz sobre este assunto. Para o mundo gay, explica, “parece mais relevante se um virtual
parceiro pode ‘entender’ , ‘pegar’, ‘sair’, ‘topar’, ou ‘fazer’ com alguém do mesmo sexo do que se ele é ‘realmente’
homossexual”. Esta forma de pensar a palavra entendid@ desconstrói a idéia de uma substância ou um estrato
predeterminado que dê origem e sustento à homossexualidade. Desconstrói também a idéia de uma possível cultura
ou sub-cultura homossexual. Mais tarde voltarei a este assunto.

43
do lugar) reconhece aquela diferença que os separa, experiencialmente falando, a

partir da cumplicidade que os une no ato de compartilhar o espaço e a amizade com

as “entendidas”. Assim, o fato de entender adquire diferentes facetas, mas sempre

implica um conhecimento que ocorre através da vivência. Entretanto, o termo

“entendida”, ou a expressão “essa aí entende”, tem neste contexto um significado

unívoco: lésbica.

Mas como se constrói o entendimento? Porque a dificuldade em explicá-lo?

Qual é a importância do olhar nessa construção? Se seguimos o pensamento acima

delineado em relação ao aprendizado da percepção e o fato de conseguir através dele

diferenciar as possíveis parceiras, é possível vislumbrar uma perícia desenvolvida no

contexto social no qual as pessoas se desenvolvem. Reconhecer uma lésbica, não será

para outra tão diferente quanto o reconhecimento entre concidadãos, mas talvez para

uma pessoa que não pertença a esse mundo seja tão difícil como para um inglês que

nunca veio para América diferenciar um maranhense de um alagoano ou um

guatemalteco de um nicaragüense, simplesmente porque não precisa desenvolver

essa diferenciação porque não é relevante para seu habitar no mundo. “Learning to

perceive depends less on the acquisition of schemata for constructing the

environment, as on the acquisition of skills for direct perceptual engagement with its

various constituents, both human and non-human. (...) the perceptual system of the

skilled practitioner may be said to resonate with significant features of the

environmental context of action”. (Ingold, 1993:221)

Elas não conseguem explicar como reconhecem uma entendida, porque o

entendimento está em habitar a prática e esse habitar não é igual para todo mundo,

mesmo que haja rasgos compartilhados. Entretanto, o olhar parece ocupar um espaço

44
essencial no treinamento da percepção. A arte de olhar55 se apresenta como perícia

fundamental no ato de reconhecer e ser reconhecido: “ahh você sabe [reconhecer

uma entendida] porque fica olhando pra menina e não pro menino, então aí sabe (...)

tem sempre alguma coisa: o olhar dela, sentada na mesa ali a pose... alguma coisa

diferente que nos diz que seja né? e a gente percebe entendeu?” Assim, o

treinamento do olho parece surgir primeiro do simples fato de dirigir o olhar para o

objeto do desejo (a mulher e não, o homem), depois do refinamento de diferenciar

entre aquela mulher que seja ou não entendida56 ou passível de entender57. “Eu já

tenho um olho treinado... lógico!!! são quinhentos anos de praia né? (rindo) são...

vinte e quatro anos de praia ... tem que conhecer né? vinte e quatro anos que eu sou

entendida...”

Neste depoimento de Martinha, a vivência experiencial de vinte e quatro anos

de sexualidade lésbica aparece como uma autoridade irrefutável: quem melhor para

descobrir uma entendida que outra? A perícia em reconhecer uma entendida deriva da

perícia em ser entendida colocando, seguindo a Joan Scott (2000), a experiência

como prova de conhecimento. Nas palavras de Magnata, “uma cobra sente o cheiro

da outra”. A expressão “x anos de praia”, comparável com as horas de vôo de um

piloto de aviação, faz referência ao tempo de pertencimento a um determinado campo

de ação ou a um gosto particular, neste caso, os anos que ela acredita ter vivido

como lésbica. São esses anos que conseguem treinar o olho para perceber de um

55 A esse respeito, ver Guimarães (2004). A autora apresenta o olhar como instrumento de reconhecimento e avaliação
entre homossexuais masculinos nos locais de encontro, basicamente naqueles em que não há uma clientela
especificamente homossexual.
56 A palavra “entendida” desmancha as margens que os termos homossexual ou lésbica parecem redesenhar. Entender

pode significar também o fato de “estar afim de”, como explica Muniz (1992).
57 “Se ela não é, já vai ser”, respondeu Magnata à minha pergunta de por quê considerava que uma jovem que passava

caminhando era, a seu ver, entendida. Com essa resposta ela tentava legitimar frente à minha desconfiança os sinais
que sua percepção estavam lhe transmitindo.

45
modo diferenciado e conseguir vislumbrar quais dentre todas as mulheres que

caminham por aí também “entendem”. Martinha se ufana de achar mulheres que em

sua feminidade não deixam perceber “à simples vista” sua orientação sexual: “meus

irmãos não sabem como é que eu consigo meninas que nem parecem (ri), eles ficam

putos quando eu apareço com mulherzinha bonitinha que nem bola dá pra eles” .

Aprendemos a ver, educamos a atenção58 e treinamos nossos sentidos para

perceber, compreender e processar o mundo em que habitamos, para adaptar nosso

corpo à procura dos nossos interesses nesse mundo. Supõe-se comumente, diz Tim

Ingold (2000), que nascemos com a faculdade de caminhar, entretanto, o ato de

andar de bicicleta é um produto da enculturação; deste modo, o primeiro aparece

como natural e o segundo como adquirido. O fato, continua, é que o recém nascido

não pode caminhar, tem que aprender a caminhar ajudado pelos maiores já

competentes na arte de andar. Mas que aconteceria, pergunta, se aquela criança se

desenvolvesse em um mundo onde andar de bicicleta é anterior a caminhar?

Assim como através deste exemplo Ingold mostra que caminhar ou andar de

bicicleta são perícias (skills) desenvolvidas com relação às necessidades do contexto

no qual os indivíduos vivem, o percebido mediante os sentidos sofre o mesmo

processo. Não é natural distinguir um homem de uma mulher, aprendemos a fazê-lo

porque somos treinados para naturalizar – tornar natural e desse modo irrefutável – a

existência de homens e mulheres como duas incomensurabilidades. Mas esse

treinamento não é consciente, se enraíza nos corpos, se embodifica59 de forma tal que

58 Gibson (1979) em Ingold (1993).


59 Utilizo este neologismo derivado do termo inglês “embodiment” – em contrapartida a palavra equivalente em
português “encarnar” – pela carga de significação que possui em relação à importância do corpo como o lugar a
través do qual habitamos o mundo. Devo também esclarecer que reconhecendo a autoridade de Thomas Csordas
(2002) sobre o paradigma do embodiment, minha interpretação do termo fica mais próxima a visão de Tim Ingold
(notas de aula TA2) que não prioriza uma noção cultural sobre outra natural do corpo mas reconhece o caráter

46
desentranhar o processo se torna tarefa impossível. “perception involves the whole

person, in an active engagement with his or her environment (...) perception is a

mode of engagement with the world, not a mode of construction of it.” (Ingold, 1996:

105)

Habitar o mundo implica, nas palavras de Ingold, um compromisso, um

engajamento que tem o corpo como principal instrumento se pensamos no modo em

que, nesta linha de pensamento, a percepção se embodifica.

Quais seriam então os termos em que as freguesas do Flôr do André

verbalizam esse modo de habitar o mundo ? Quais as senhas de referencialidade?

Entendida? do babado? sapatona? lésbica? – denominações e

autorreferencialidades

- O Martinha, me explica porque vocês usam a palavra “entendida”.

- Olha, de onde vem eu não sei, só o que eu não gosto é a palavra sapatão; que

sapatão é quem tem sapato grande, não é? foi o Chacrinha que começou a usá-la

acho... mas a palavra entendida ficou mas suave.. de onde é que vem eu não sei,

entendida é quem entende, quem entende o outro, pra mim a explicação é essa.

- Entender o quê?

- Que eu te entendo, que eu entendo você.

- Eu acho que entendida seria que entende os héteros [sexuais] e entende a própria

mulher que ela gosta, entendeu? Eu acho que isso é a palavra entendida, porque não

biológico que ele possui. Assim, e seguindo a Bateson, Ingold supõe o embodiment como um modo relacional de
pensar o corpo onde o sujeito adquire (embodifica) as perícias que utilizará para socializar (habitar o mundo). A partir
deste ponto de vista, o embodiment permite continuar uma lógica de pensamento que perpassa o grande divisor entre
Natureza e Cultura, se comportando como uma ponte entre ambos.

47
desrespeita a opinião dos heterossexuais e então entende as meninas entendeu?,

acrescenta Magnata

No Flôr do André, a palavra lésbica não faz parte do contexto discursivo. Os

modos de [auto]denominação dispensam esse vocábulo que aparece distante e sem

força semântica. Entendida, como auto-referencial, ou simplesmente mulher, quando

dos outros fregueses se trata são os termos mais utilizados no lugar, entretanto, a

expressão ser do babado e a palavra sapatona ou sapatão também aparecem, porém,

com menos freqüência.

Entender se transforma em um modo de cumplicidade, de compartir um segredo

que, apesar de público, não implica a ausência de intimidade. Ser do babado, por sua

vez, estabelece um sentido de pertença a um universo particular, neste caso, um

universo de homoerotismo. Por outro lado, o termo sapatona ou sapatão, denotando

caraterísticas de masculinidade extrema, é usado geralmente pelas mais velhas e

masculinas como auto-referência ou pelas mais jovens quando tentam se

menosprezar umas às outras em uma conversa (não necessariamente por motivo de

briga).

Entretanto, existe na teoria queer um termo específico para denominar as lésbicas

masculinas: butch. Este é usado por Judith Halberstam (seguindo Gayle Rubin) para

definir “women who are more comfortable whith masculine gender codes, styles or

identities than with feminine ones” (1998:120). Também a expressão lesbian

masculinity é a escolhida pela autora para se referir a “women who perform their

masculinity whithin what are recognizably lesbian relations”. Eu não utilizarei

exatamente esta terminologia por considerá-la discurso nativo norte-americano,

mesmo que esteja espalhada como categoria entre os queer studies, nem a

48
desconhecerei por que possibilitam explicitar através da discursividade a explosão das

categorias de sexo e gênero. Acho melhor falar em masculinidades de mulheres já

que as freguesas do Flôr do André continuam a se identificar como mulheres

entendidas desusando a palavra lésbica e desconhecendo o termo butch por mais que

com essas práticas colaborem a quebrar a binariedade compulsória que implica a

utilização dos termos homem e mulher.

Considero importante destacar a diferença de terminologia que existe com o

discurso ativista local onde o politicamente correto parece ser o uso das palavras

lésbica ou homossexual feminina, justamente aqueles termos que perdem carga

semântica nas falas do Flôr do André60. A meu ver, esta ação denota um afastamento

dos usos do cotidiano ou uma desagregação do discurso d@s representad@s nos

modos de construir a imagem do sujeito político. Acho politicamente necessária a

inclusão desse tipo de falas porque é através deles que os sujeitos se reconhecem e

se auto-identificam. Mesmo assim é preciso lembrar o caráter histórico e contingente

das palavras, razão pela qual seus usos também devem ser revistados

permanentemente para não deixar de fora aqueles que esperam ser representados.

Falar em categorias fixas para representar minorias resulta num oximorom se temos

em conta que as minorias são contingentes, mutáveis, instáveis, sempre concebidas

em relação ao centro. Talvez o uso das nonce taxonomies61, de Eve K. Sedgwick, seja

uma saída, sempre temporária, para pensar a política no mundo de hoje; e a

60Este ponto já foi observado por Jaqueline Muniz e comentado na nota 54 da presente dissertação.
61Trata-se de “taxonomias ad hoc”, que não organizam seres ou práticas preexistentes em função de rasgos “naturais”,
porque os elementos a classificar e seus traços constitutivos são estabelecidos a partir de categorias orientadas para tal
fim. Por exemplo, pela heterossexualidade normativa e suas necessidades classificatórias. A distinção entre práticas
“normais” e “perversas” se edifica no contexto de uma taxonomia construída com o propósito mesmo da distinção.
A partir desta lógica, pode-se pensar em categorias criadas conjuntural e contingentemente com um propósito
determinado, mas que possam ser desmontadas e assim percam sua utilidade desvendando a suposta universalidade de
categorias como heterossexualidade, gênero ou sexo. Esta operação discursiva é a usada por Judith Halberstam
quando fala em “masculinidades femininas” (female masculinity, no original, 1998:9).

49
substituição da idéia de minoria pela de multidão62, no discurso político, seja mais

acertada para falar de grupos nos quais a desidentificação com um mundo

heteronormado parece ser a única similitude.

Pensada a partir desta perspectiva, me parece difícil acreditar na existência de

uma “cultura GLS” ou alguma coisa similar. O fato de compartir uma orientação sexual

não traz como correlato direto compartir visões de mundo. Talvez seja factível

argumentar a partir de pontos de referência similares daqueles que estão às margens

de sociedades heteronormadas que pressupõem comportamentos heterossexuais.

Entretanto, os entrecruzamentos que formam um sujeito se configuram e

reconfiguram, em uma escala espaço-temporal que parece diluir a possibilidade de

criar compartimentos estanques para situar os indivíduos, em um mundo onde as

grandes classificações modernas de raça, classe, sexo e gênero parecem não achar

mais espaço. “The anthropological fabrication of cultural systems is a product of the

representation of difference in the discourse of homogeneity” (Ingold, 1993:218).

Vejamos agora como esses entrecruzamentos conspiram configurando novas

percepções da masculinidade nos corpos que pareceriam os “errados”.

62 Beatriz Preciado propõe a utilização da noção ou categoria de multidões (multitudes, no original), como modo de
substituir a idéia de minorias sexuais para conseguir estruturar um sujeito politicamente plausível. “Il y n´a pas de
différence sexuelle, mais une multitude de différences, une transversale des rapports de pouvoir, une diversité de
puissances de vie. Ces différences ne sont pas ‘représentables’ car elles sont ‘monstrueses’ et remettent en question par
là même les régimes de representation politique, mais aussis les systèmes de production de savoir scientifique des
‘normeaux’”( 2003: 25).

50
Pochete é crachá de sapatão: masculinidades femininas

Em uma viagem de férias que realizei no ano de 2001 ao Rio de Janeiro, escutei

da boca de uma irônica amiga uma expressão que só consegui compreender em toda

sua dimensão num baile de forró ao qual fui convidada pelas freguesas do Flôr do

André.

Naquela ocasião da minha viagem, eu acostumava usar pochete porque não

gostava de levar bolsa que me incomodasse na mão ou me atrapalhasse para tirar

fotos e essas coisas que fazemos na performance do turismo. Um dia, antes de sair

da casa de minha amiga Silvina, ela, olhando-me da cabeça aos pés, deteve a mirada

na pochete que estava pendurada na minha cintura e, sem mais, me espetou com

aquela frase: “pochete é crachá de sapatão”. Várias foram as explicações que

apareceram logo na mesa do bar para aquela expressão, todas elas em referência a

uma induvidosa masculinidade atribuída às lésbicas: é um acessório mais usado pelos

homens do que pelas mulheres, é mais cômoda do que elegante, não dá para guardar

muita coisa (com relação ao estereótipo criado sobre a quantidade e qualidade dos

objetos que podem ser encontrados numa bolsa de mulher), não fica legal com saia

ou vestido... Mesmo assim, havia naquela expressão algum aditamento que ainda

estava fora do nosso alcance.

No mês de junho, durante o trabalho de campo que resultou na presente

dissertação, fui convidada para um baile de forró onde costumam ir algumas

freguesas do Flôr do André, localizado na rua Riachuelo, a três quadras do bar. Elas

gostam desse lugar porque “mulher não paga entrada”, “a cerveja é baratinha” e

51
“ninguém enche o saco”63, além de ficar na área onde elas moram. Perto da uma hora

da manhã, saímos do Flôr do André, Joana, Magnata, Luciana, Bety, Edna, Raquel,

Maisa, Jô e eu rumo ao forró. Aceitei não só para ver como atuavam fora do bar, mas

para continuar a conversar com Edna, uma mulher de uns 50 anos, antiga

freqüentadora do bar que só vai durante os fins de semana, quando deixa sua mulher

em casa e sai sozinha64. Sua estética, sem se afastar muito da de várias outras

freguesas do lugar, embodificava o aspecto estereotipicamente masculino: cabelo

bem curto, quase raspado dos lados, ao estilo militar, camiseta ampla com mangas

curtas e de cores escuras (azul marinho e cinza) que invisibilizava as linhas do seu

torso, bermudas largas de algodão, de uma cor verde azeitonada, cuidadosamente

passada e sapatos náuticos de couro marrom. O perfume de homem e uma pochete

preta acompanhavam a indumentária que se completava com a ausência de

maquiagem, movimentos endurecidos do corpo, dos braços.

Já no lugar, Raquel e Edna, ambas sozinhas essa noite, se ofereceram para me

ensinar a dançar forró.

Foi Raquel quem tomou a iniciativa. Dancei com ela umas pouca músicas até que

Edna, se aproximou de nós. – “Vem cá argentina, vamos dançar”, falou e tomando-

me cortesmente pela mão, levou-me até a pista. Começamos a dançar, Edna

ocupando o lugar do homem e eu, da mulher. Com isto quero dizer que, com relação

ao resto das duplas de baile do lugar, ela me tomava do mesmo jeito que os homens

tomavam as mulheres: uma mão dela detrás da minha cintura e a minha, em cima do

63 Quanto à tranqüilidade de dançar entre elas sem que os homens sejam muito insistentes em tentar dançar com
alguma do grupo. Isto não implica que não aceitem às vezes dançar com homens.
64 Segundo ela me contou, “tem mulher” há quinze anos. Moram no mesmo prédio mas em apartamentos separados

porque “não vou agüentar o filho dela o tempo todo. Quando a gente quer estar junta, ela vem pra casa; depois, que
ela volte com o filhote. Eu não quero crianças por perto.”

52
seu ombro, as outras entrelaçadas e os corpos quase pregados. Porém, o quase não

se cumpria no nosso caso: com a mão que abraçava minha cintura, Edna apertava

meu corpo contra o seu para que eu aprendesse os movimentos. Isso não me

incomodava tanto porque ela continuava a ser a correção personificada; entretanto, a

posição da sua pochete começou a me parecer esquisita. Quando duas mulheres

dançam coladas, como era o caso, não existe uma protuberância sobressaindo de

nenhum dos dois corpos; mesmo com as pernas entrelaçadas, não existe uma

exterioridade volumosa, onipresente salientando da calça. Mas neste caso, a pochete

colocada no lugar certo ocupava o espaço dessa protuberância de modo tal que

roçava contra minha virilha apesar dos quinze centímetros a mais de altura que me

diferenciam de Edna. O que eu estava sentindo não parecia tanto uma pochete

quanto uma mala65. Incômoda como me sentia, pedi para ela mudar para um dos

lados do quadril a localização do artefacto. Ela me olhou e, me respondendo “esse é o

lugar certo”, apertou-me mais ainda e continuou dançando e me ensinando a dançar

forró. Vulto, perfume de homem, postura rígida, seriedade, cortesia e a

impossibilidade de mudar os planos de “quem leva” e “quem é levad@” emolduravam

o quadro que tinha a pochete como ponto de luz e centro da perspectiva.

Foi nesse momento que aquela enunciação que eu conhecera anos atrás voltou.

Mesmo sendo a minha mente quem lembrara, foi o meu corpo quem compreendeu

empaticamente o significado profundo da expressão. Visto deste modo, a pochete

exterioriza a genitália colocando-a numa situação corporal similar àquela dos homens.

Aquilo que fazia-me sentir incomodada era o fato de reviver na dança com uma

mulher, uma sensação corporal que só reconhecia (e evitava) na hora de dançar com

65 Ver nota 52

53
os homens. A suposta “igualdade” espelhada entre corpos que recria a mais romântica

e ativista66 das formas do amor lésbico, caía por terra empurrada por uma pochete

colocada no lugar certo.

Sem reificar os espaços em que se desenvolvem os gêneros, este exemplo me

permitiu pensar na idéia de uma masculinidade que não se ate a um só corpo, mas

salte de um a outro. Uma masculinidade sem pau mas com dispositivos performáticos

que o substituem e ressignificam para além de sua função reprodutiva ou

penetradora. De que outra forma poderia nomear estas atuações em que o corpo

extrapola os limites dados pela pele e recorre a outros elementos para redefinir a

identificação socialmente atribuída? Nas palavras de Dona Haraway (1995: 305), por

que deveriam nossos corpos finalizar na pele?

A definição platônica do simulacro67 é: a copia da qual não existe original. Pensada

deste modo, a masculinidade das entendidas do Flôr do André bem poderia ser

formulada como simulacro: o homem não é o original, também não, a mulher; o que

resulta não é um mistura invertida de ambos, mas uma disposição diferente não

remissível a moldes. Do mesmo modo, um simulacro de desastre aéreo praticado em

um hospital de emergência de uma cidade onde nunca houve um acidente de tais

magnitudes não pode ser pensado como remissível a um molde, mesmo que seja feito

com orientação de um manual de desastres, porque a atuação do corpo sanitário do

lugar se limita a uma performance do nada, fora da experiência. Simular uma

66 Existe em certos discursos do ativismo lesbo-feminista a idéia de que o amor lésbico está regido pelos signos da
simetria e da igualdade manifestos na suposta ausência de papéis ativos e passivos nos relacionamentos erótico-
afetivos. Este fato é utilizado para marcar a diferença com o sexo heterossexual ou gay no qual alguém penetra ou
alguém é penetrado. Acho necessário assinalar que estes discursos excluem deste ideal outras formas de
relacionamentos entre mulheres onde a igualdade não é o objetivo, como por exemplo nas relações butch-femme
(hipermasculinas com hiperfemininas) consideradas, por esse mesmo ativismo, como politicamente incorretas.
67Frederic Jameson in Haraway 1995: 264.

54
experiência se diferencia de copiá-la na medida em que a cópia se faz sobre um

evento já realizado e o simulacro responde a fatos os quais não existem antecedentes

para aqueles que o efetuam.

Paragonando a argumentação que Butler (2000) produz para explicar o porquê da

falsidade de pensar a homossexualidade como cópia da heterossexualidade68,

podemos alegar quanto à invalidez da remissão das díades homem-masculinidade e

mulher-feminidade a moldes apriori para logo visualizar como cópias misturadas de

ambos a masculinidade de mulheres, a feminidade dos homens, as

hipermasculinidades gays (dos ursos)69 e as hiperfeminidades lésbicas (das femmes)70

ou em um patamar extremo, os transgêneros (tanto de mulher a homem como de

homem a mulher). Se a sexualidade se imprime na matéria (nos corpos) através da

atuação que sua vivência implica, se sexo e gênero não aparecem como naturais, mas

como categorias historicamente construídas, a explosão das categorias e modos de

performatizar e vivenciar a sexualidade perde-se no infinito da imaginação.

Deste modo, uma performance corporal masculina não tem como correlato direto

a sexualidade masculina. Assim, a performance constitui o sujeito que se expressa

68 O termo homossexualidade, explica, é concebido anteriormente que o de heterossexualidade que só aparece como
contrapartida do primeiro termo (já que a heterossexualidade é pensada como natural, nem precisa ser nomeada).
Assim “sin la homosexualidad como copia, no habría una construcción de la hetersexualidad como origen. Esta
presupone en este caso a aquella. Si el homosexual como copia precede al heterosexual como origen, parece razonable
conceder que la copia viene antes que el origen, que la homosexualidad es el origen y la heterosexualidad , la copia.
Pero estas simples inversiones no son realmente posibles (...) toda la estructura de la copia y el origen se revela como
extremadamente inestable ya que cada posición se invierte en la otra y confunde la posibilidad de una forma estable
que localice la prioridad lógica o temporal de cada término. (...) Si la heterosexualidad es una imposible imitación de sí
misma, que se constituye de un modo performativo como el original, entonces su parodia imitativa –cuando y donde
existen en las culturas gays– es solamente una imitación de una imitación, una copia de una copia pues no hay
original.” (Butler, 2000:100-101)
69 Os autodenominados “ursos” são aqueles homens gays de aspecto rude e aparentemente descuidado, de contextura

física forte e muito pêlo no corpo que não respondem aos cânones estéticos do corpo malhado e definido “El modelo
urso es un hombre no muy arreglado, por lo menos no afectado ni muy preocupado com su apariencia física ni
visual.” (Figari, 2003: 362)
70 As “femme”, por sua vez, são as lésbicas cuja estética é hiperfeminina: minissaias, salto alto, lábios pintados, muita

maquiagem e modos suaves. Mesmo que sejam historicamente associadas às parceiras das butchs, não necessariamente
se interessam só por elas.

55
através da repetição dela. O fato de ter um aspecto masculino não implica o uso de

instrumentos penetrantes na hora dos relacionamentos sexuais. Na cama, o pênis fica

pendurado numa cadeira junto com a calça e a pochete: “butchs switch between

being masculine on the streets and female in the sheets” (Halberstam, 1998:125).

O termo butch é usado por Judith Halberstam (seguindo Gayle Rubin) para definir

“women who are more comfortable whith masculine gender codes, styles or identities

than with feminine ones” e a expressão lesbian masculinity, para se referir a “women

who perform their masculinity whithin what are recognizably lesbian relations”

(1998:120). Eu não utilizarei exatamente esta terminologia por considerá-la, como já

disse, discurso nativo norte-americano (usada também pelo ativismo), mesmo que

esteja espalhada como categoria entre os estudos queer, nem a desconhecerei

porque possibilita explicitar através da discursividade a explosão das categorias de

sexo e gênero. Acho melhor falar em masculinidades de mulheres, já que as

freguesas do Flôr do André continuam a se identificar como mulheres entendidas

desusando a palavra lésbica e desconhecendo o termo butch, por mais que pelas

práticas colaborem para quebrar a binariedade compulsória que implica a utilização

dos termos homem e mulher.

Nas conversas sobre sexo com as freguesas do Flôr do André, apareceu uma vez e

por parte de uma pessoa só o uso de consolos71 durante o ato sexual. O resto delas

se manifestou contra brinquedos que tivessem aparência de genitália masculina ou a

genitália masculina propriamente dita: “eu, pra minha mulher, só tenho dedos e

língua”, “aqui (assinalando a vagina) nunca entrou pau nem coisa parecida! eu só

71 Nome dado a um tipo de brinquedo sexual em forma de pênis (ou similar) conhecido também pela palavra inglesa
dildo.

56
gosto de corpo de mulher se esfregando contra o meu”, “o segredo tá mesmo é no

toque, nas mãos”, foram algumas das expressões que escutei no lugar vindas às

vezes daquelas mulheres mais masculinas que até se orgulhavam de usar cueca. Nas

palavras de Cornwall & Lindisfarne, “The lesbian butch´s sexual identity represents

not just a superimposed masculine identity or merely a decontextualized female body

but the destabilization of both terms as they come into erotic interplay” (1996:38).

O que as freguesas do Flôr do André deixam a descoberto é a fragilidade das

assertóricas categorias de masculino-feminino e homem-mulher, desestabilizando a

sua pretendida universalidade: “female gender (feminity) and male gender

(masculinity) are not ultimately regarded as the exclusive province of female and male

sexed bodies, respect. Sex, gender and sexuality may be populary perceived as

irreducibly joinend but this remanins asimetrical and not a permanently fixed

condition” (Robertson, 1999:8). O fato não é a desaparição das categorias, mas a

reinvenção do significado que se consegue simplesmente habitando-as, negociando os

espaços através das práticas e diluindo as fronteiras que separam feminino de

masculino, mulher de homem ou, em termos mais abrangentes, natureza de cultura.

57
Aqui é tudo demônio! – Os critérios estéticos

- “Eu não sei porque você vem pra cá. Você é tão bonita e aqui é tudo bicho feio,

tudo demônio!”72

Os critérios estéticos presentes no Flôr do André ficam longe daqueles

estabelecidos pela mainstream lésbica73. Corpos andróginos esculpidos nas

academias, super bronzeados o ano todo, regatas que deixam ver tribais tatuagens e

tênis com linhas modernas visíveis na Bofetada ou na Casa da Lua74 dão lugar, no

Flôr do André, por um lado, a corpos esculpidos pelos anos, havaianas, shorts ou

bermudas de homem e camisetas de algodão sem manga nas mulheres mais

masculinas ou, por outro, a saias curtas e apertadas, camisetas de lycra coladas no

corpo, unhas e lábios pintados e sandálias ou igualmente havaianas – às vezes com

enfeites de strass brilhante – nas mais femininas. Também existe uma faixa

intermediária entre os dois pólos onde a roupa de jeans ou os tecidos de algodão de

cores neutras (azul marinho, bordô, preto, marrom) e tênis para correr imperam.

Mesmo assim, não há uma linha, mas várias que parecem ser seguidas no lugar.

Existe também uma diferenciação dada pelo parâmetro da idade: as mais velhas (as

que rondam os cinqüenta anos) parecem mais assenhoradas, com saias e blusas mais

72 Esta foi uma das primeiras interpelações que me fizeram quanto à razão da minha presença no lugar. Para muitas
das freqüentadoras, minha pessoa desentoava com a estética do lugar. Elas não entendiam porque eu insistia em
aparecer por lá. Mesmo com a explicação da pesquisa, minha presença era desconcertante.
73 Com esta expressão, refiro-me aos critérios estéticos que imperam nos pontos de encontro GLS da Zona Sul da

cidade, principalmente na chamada baixa gay em Ipanema que compreende o ponto GLS da praia, à altura da rua
Farme de Amoedo e a extensão da mesma que se configura em um grupo de bares situados na mesma Farme de
Amoedo, na rua Teixeira de Melo ou na rua Barão da Torre. Este setor se constitui como uma “passarela” da estética
GLS tornando-se hegemônica e de avant-garde. A comparação da estética das lésbicas que freqüentam esse setor da
zona sul com aquelas das freguesas do Flôr do André é feita como espelho de posicionamentos centrais e periféricos
dado que as primeiras rejeitam como “bregas” e “machonas” o tipo de estética e comportamentos vivenciados pelas
segundas.
74 A Bofetada é um dos mais antigos bares considerados GLS em Ipanema, a Casa da Lua, por sua vez, funciona há

dois anos e tem um público formado majoritariamente por lésbicas que respondem ao padrão estético descrito.

58
largas, sandálias de salto alto (não muito alto), unhas pintadas, porém sempre

curtas75, e freqüentemente, maquiagem. Também é comum ver um estilo

assenhorado de roupas masculinas formais como no caso de Edna76. Por outro lado,

as mais jovens (entre trinta e quarenta) têm um estilo mais descontraído e às vezes,

mais unissex: calça jeans azul ou preta, tênis esportivo, agasalho de algodão com

capucha ou suéter de algodão de cores neutras (branco, preto, azul, bordô) para

quando o frio aparece; bermudas largas tipo surfista, short, camisetas de manga curta

ou sem manga e a onipresente havaiana o resto do tempo. Com esta descrição, tento

explicitar as diferenças estéticas que separam as freguesas do Flôr do André daquelas

dos bares da zona sul da cidade, diferenças que explicitam uma barreira dificilmente

transponível que não responde somente a uma questão de orientação sexual mais de

espaços geográficos e socioeconômicos contrastantes no Rio de Janeiro.

Como já descrevi antes, o estilo de Monique, que denota um tipo de feminidade

específica similar àquela das lésbicas da zona sul, não é o lugar comum, ainda que

represente um ideal de desejo. Deste modo, as linhas estéticas parecem estilhar no

lugar quebrando alguns estereótipos e reforçando outros sobre como deve ver uma

lésbica. Assim, a imagem histórica da lésbica hipermáscula, que na literatura queer

carateriza a butch, convive em um mesmo lugar com aquela hiperfeminina da femme

e com outras que contribuem para conformar o leque. Entretanto, certos critérios de

normalidade se mobilizam entre elas, rejeitando, não de forma definitiva, mas sim

75 Manter as unhas curtas é uma característica diferenciadora das mulheres lésbicas geralmente associada às práticas
sexuais. Penetrar com os dedos na vagina da parceira pode ocasionar ferimentos se as unhas não estiverem
devidamente curtas e limadas, por este motivo tenta-se mantê-las limpas e lisas. Com isto, não quero dizer que não
existam lésbicas com unhas compridas, só que é um efeito de distinção.
76 Ver página 52 da presente dissertação.

59
como “feias ou de mal gosto”77: vestimentas consideradas demasiado masculinas –

como o fato de usar cueca ou o cabelo extremadamente curto78 – ou demasiado

femininas – como o excesso de maquiagem. A norma então balança entre os pontos

intermediários do leque que aparecem como ideal regulador ordenando

hierarquicamente e objetivando uma série de atos que se considera desviados com

relação à figura de mulher normal (Blázquez, 2003: 229). Não é curioso que as figuras

de normalidade estejam embodificadas pelas freguesas mais antigas. Assim, elas

continuam a “formar o barzinho”79 com base em seus critérios de normalidade e

moralidade levando à abjeção as formas comportamentais que diferem. Assim, o fato

de vestir-se de um modo mais feminino às vezes vem acompanhado de desculpas e

explicações. Por exemplo, pude observar este tipo de comportamento durante uma

festa em que Magnata, fingindo sono, anunciou que iria dormir, mas que sua irmã

gêmea Carla voltaria no seu lugar. Magnata, com seus vinte e dois anos é muito

jovem para a media etária. Esta paulista que chegou no Rio de Janeiro em março de

2004, foi rapidamente aceita no lugar graças ao namoro que tinha com Joana, uma

das antigas e mais queridas freguesas80. Alta, atlética, com cabelo liso e castanho,

nem curto nem comprido, de caráter forte e poucas palavras, costumava permanecer

quase o dia todo no bar. Usualmente trajava bermudas largas de microfibra, estilo

surfer, camisetas de algodão sem mangas, havaianas e boné e era esse o jeito como

estava naquela noite. Um tempo depois dela se despedir, apareceu a suposta irmã

77 O gosto está regido pela norma, portanto o mal gosto também é tido como anormal.
78 Meus dreads, por exemplo, foram objeto de discussão por serem vistos como anormais. Várias insistiram que seria
melhor cortá-los para adquirir um visual mais natural, assim como elas tem. Porém os critérios de naturalidade
parecem diretamente relacionados com os de usual porque muitas tem o cabelo pintado e mesmo assim o consideram
“natural”.
79 Ver página 70 da presente dissertação
80 Mesmo assim, foi rejeitada com a mesma presteza logo depois de acabar violentamente o namoro com Joana.

60
gêmea, Carla (que é o primeiro nome de Magnata), vestida de um modo

completamente diferente do usual: salto alto preto, calça jeans escura com faixas

horizontais mais claras, estilo boca de sino, uma blusa de lycra também preta que

deixava as costas à vista, colar, olhos maquiados com rímel e delineador pretos, a

boca com batom vermelho e o cabelo jogado para trás com gel. Ela sentou-se à mesa

ao lado de Joana e continuou com a charada. As piadas se construíam em torno do

travestismo do qual Magnata era objeto, dando lugar a comentários tais como os que

diziam que assim, “vestida de mulher”, ela ficava mais bonita ou que Carla era mais

charmosa do que Magnata. Este desdobramento parece ser o modo de explicitar um

espaço interno de feminidade que convive solapado atrás da masculinidade cotidiana

de muitas freguesas do Flôr do André que não permitem exprimir esse lado o tempo

todo, mas apenas em ocasiões especiais ou conjunturais, talvez por não ser esse o

modo em que elas preferem ver a si mesmas.

Outra coisa que chamou muito minha atenção foi o modo com que as freguesas se

vêem a si mesmas em relação aos critérios estéticos do lugar. Existe um discurso

duplo com respeito à estética: parece paradoxal, mas nenhuma das assistentes do

lugar declarou gostar das outras freguesas. É interessante destacar o fato de que o

objeto do desejo verbalizado está fora do universo observável no lugar. Em geral,

quando eu pedia que me mostrassem alguma mulher que elas achassem bonita ou

atraente, era difícil conseguir uma resposta direta. A falta de mulher bonita era a

resposta mais rápida; perante minha insistência sobre seus gostos estéticos, algumas

replicavam com expressões tais como “pra homem já tô eu”, “eu gosto de mulher,

aqui é tudo macho”, “aqui não tem mulher bonita, é tudo bicho feio”, outras optavam

por me dizer que lá não havia nenhuma de seu interesse. Deste modo, elas se auto-

61
excluem no discurso criando uma fantasmática outra ausente na qual depositar o

desejo. Entretanto, mesmo aquelas que haviam se expressado desse jeito, tinham

incursões sexuais e até namoros com as freguesas do lugar.

O peixinho dourado: a troca sexual interna

"A memória do peixinho dourado dura três segundos,


portanto é só dar uma volta no aquário e
tudo que há nele aparece como novo"

Estas, as primeiras palavras do filme “Goldfish memory”81, servem de parábola

para retratar um aspecto dos relacionamentos amorosos que acontecem dentro do

Flôr do André: a endogamia.

Grosso modo, endogamia é entendida na literatura antropológica como o fato de

manter relacionamentos sexuais dentro do próprio grupo, o que diminui a

possibilidade de troca com os outros grupos. Porém, na literatura sociológica brasileira

que analisa a genealogia da família brasileira, esta prática é exposta como uma

prática comum entre famílias detentoras de poder econômico (e mais tarde político)

para conservar e alargar este poder dentro do próprio grupo.82

Entretanto, poderia fazer um uso diferenciado deste conceito pensando no

universo do Flôr do André como grupo no qual, além de novas e ocasionais

integrantes (a maioria trazida à tona como casos ou namoradas de alguma que já

81 Traduzido em português como “Todas as cores do amor”, este filme irlandês esteve em cartaz na cidade de Rio de
Janeiro no ano 2004. Relata diferentes modos que os relacionamentos amorosos podem se encaminhar.
82 Ver entre outros: Wagley (1968), Canêdo (1998), Duarte (1966), Azevedo (1948), Cándido (1951)

62
pertence ao lugar), a troca sexual é muitas vezes interna. Aliás, uma particularidade

com relação à frase do filme supracitado modela a cena: a memória é curta,

possibilitando a busca de novas experiências entre velhas conhecidas, às vezes

revitalizando, às vezes enrarecendo o ar do bar.

As freguesas, em geral, já tiveram algum tipo de relacionamento amoroso entre si

(ficante, namorada, caso), o que não significa necessariamente um distanciamento

posterior mas, muito pelo contrário, uma mudança de namoradas a amigas ou, muitas

vezes, a família83. Entretanto, este comportamento implica uma tensão

(sarcasticamente poder-se-ia falar também de tesão) permanente devido ao fato de

todas serem potencial objeto de desejo. As fronteiras entre amizade e erotismo são

opacas: ultrapassadas por olhares, desmanchadas na dança e desfiguradas na fofoca.

“Você está com sua namorada, vai ao banheiro, demora-se e as amigas já começam a

falar pra ela que você está beijando outra. Aí começa a briga e os ciúmes da

namorada”84. A fofoca funciona também quando duas entendidas ficam muito tempo

falando juntas, significando este comportamento (no contexto do bar) a ante-sala da

cama, a paquera, mas raramente o simples fato da vontade de conversar com a

outra.

Embora estivesse explicitada minha intenção de pesquisar no lugar e de não me

relacionar sexualmente com nenhuma delas, estas salvaguardas não me isentaram de

fazer parte do papo oculto. “Você estará trabalhando, mas você está sozinha aqui,

ninguém tá vendo namorada alguma do seu lado. Aqui você é solteira, então por que

83 Emrelação ao uso do termo família, ver a seção “Aqui tudo é família”.


84
Esta foi a explicação que Magnata me deu, argumentando o motivo da desconfiança em ter amigas “sapatonas”.
Apesar desse depoimento, ela não possui amigas heterossexuais no Rio.

63
não pensar que saiu com a Vera aquela vez?”85 é a resposta de Magnata e Martinha.

Logo fiquei sabendo através de conversas com Magnata que supostamente eu já tinha

transado com duas freguesas do bar e que estava paquerando outras, entre elas a

própria Magnata, motivo pelo qual Joana, sua namorada, não queria ir para o boteco

quando eu estava lá. Obviamente nenhum resguardo era válido para rebater a força

da percepção: mulher sozinha, falando horas com outras, naquele contexto leva a

uma equação simples: paquera, namoro, sexo. Embora nenhuma das partes falasse

nada a respeito depois, o ato já tinha sido consumado no imaginário do lugar. O Flôr

do André funciona como espaço de encontros, reconhecimentos, mas raramente

pode-se ver carícias explícitas: – “nós estamos acostumadas ao sistema daqui, que

nós temos que respeitar ao próximo. Eu acredito que seja assim, entendeu? Eu pelos

menos não vou me agarrar com mulher no meio da rua não. Se eu quiser eu a levo

pra um motel ou minha casa”, me explicam Martinha e Neia.

Assim, a invisibilidade faz a imaginação reinar estabelecendo códigos do não dito.

Nas palavras de Muniz: “a positivação da clandestinidade, a administração do segredo

na construção da carreira homossexual e a maximização do uso da linguagem não-

verbal, tanto no ato de paquera como em todo o processo de identificação,

emprestam ao amor entre mulheres uma configuração pouco direta e mais implícita.

(...) É portanto, através daquilo que parece emudecê-lo que o lesbianismo torna

audível sua fala.” (Muniz, 1992:66). O álcool, por sua vez, colabora no esquecimento

e redesenho dos fatos, construindo-se assim uma épica particular dos acontecimentos

que irá forjando o curriculum das freqüentadoras e tecendo uma rede de

85 Comentário ao respeito de uma das vezes que, segundo elas, eu tinha saído junto com Vera rumo a seu apartamento,
apesar de Vera ter ido embora sozinha e eu ter ficado mais uma ou duas horas no bar.

64
relacionamentos que aparecerão como verdadeiros e reais aos olhos de todas86. A

épica do desejo se constrói usando o rumor como via, a imaginação como fonte e a

invisibilidade como matéria prima. Deste modo, não é de surpreender a desconfiança

de Magnata, o ciúme de Joana ou os boatos sobre minhas conquistas. Em um

estabelecimento onde as próprias freguesas instituem um pacto moral de não se

expor “por respeito aos outros, as crianças que passam pela rua” que “não têm

porque ver mulher se beijando, se agarrando”87, as carícias e beijos permanecem no

espaço privado e o espaço público reserva-se para a amizade e a paquera. – “Aqui

você olha pra alguém, rola um papo, passa um bilhetinho com o telefone ou sai pra

algum hotel, mas esse não é lugar de transa, não senhor! esse aqui não é uma boate,

é aberto, pode entrar todo mundo”.

Entretanto, o fato de censurar os atos de carinho explícito poderia ser lido como

uma persistência em colocar o erotismo dentro do universo do privado. Isto não

significa uma adesão ao que Maria Luiza Heilborng define como um universo feminino

reservado ao âmbito do privado, da casa, e um masculino correspondente ao domínio

do público, da rua, como incomensuráveis abismos de sentido e socialização que têm

como correlato a divisão binária dos sexos. Pelo contrário, o que tento mostrar é a

impossibilidade de separar taxonomicamente os dois universos. Masculino e feminino

fazem parte da vida das entendidas que embodificam as nuanças comuns entre estes.

86 Com relação às distorções ocasionadas pela mistura de ciúmes e consumo de álcool, ver os acontecimentos
ocorridos no aniversário de Rubi expostos no primeiro capítulo da presente dissertação.
87 Este pacto não é imposto pelo dono nem respeitado por todas as freguesas; porém são muito poucas as ocasiões

nas quais é possível ver alguma mulher beijando desenfreadamente uma outra e, menos ainda, numa situação mais
explícita como a de agarrar-se Já entrada a noite, a situação se descontrai ajudada pelos níveis de álcool no sangue das
pessoas que ainda permanecem no recinto.

65
Não obstante, o Flôr do André é reconhecido na área e pelos homens que o

freqüentam como um bar de mulheres88. Não é um lugar que mantenha em segredo o

seu tipo de público, embora o fato de ser um espaço de socialização de entendidas

não implique, como condição sine qua non, a pegação, caso dos bares e boates

freqüentadas por gays89. Mesmo assim, a socialização das freguesas do Flôr do André

se coloca em uma posição diferente que flexibiliza e faz uma ponte entre o masculino

e o feminino. Embora essa socialização coloque um manto de intimidade para o sexo

e o erotismo, estrutura a paquera e os relacionamentos além do espaço de procura

sexual em um espaço público, explícito e masculino como é o boteco.

“É dessa maneira que a homossexualidade feminina se põe no mundo. Como uma

região incógnita, uma espécie de caixa de surpresas que suspeita da significação que

divulga, o amor entre mulheres é capaz de disseminar perplexidade seja quando

parece optar pelo seu ruidoso silêncio, seja quando autoriza alguma tradução” (Muniz,

1992: 59). A tradução particular neste caso é a possibilidade de percorrer os

universos masculinos e femininos embodificados em uma pessoa só.

Igualmente, me parece difícil “encaixotar” os valores morais das freguesas

(Heilborn, 1999:179) que carateriza as mulheres das camadas baixas. Para as

freguesas do Flôr do André, o casamento não é uma meta, mesmo a conjugalidade

homossexual está fora dos seus anelos. Escuta-se as expressões “sou solteira, graças

a deus” ou “xoxolteira”90 repetidas vezes entre as habituées dando um valor positivo à

poligamia. Se levarmos em conta que a faixa etária vai, em média, de trinta anos para

88 Conversando com as pessoas que freqüentam outros bares, perguntei se conheciam o Flôr do André. Aquelas que
responderam afirmativamente, não demoraram em me explicar que era um bar de mulheres (sapatonas ou entendidas
foram os termos que usaram para esclarecer minha “dúvida” frente à palavra mulher).
89 A esse respeito, sobre o modo de apropriação dos bares e boates por parte do público gay, pode-se consultar, Figari

(2003), Green (1999), Parker (1999). As salas conhecidas como “dark room”, típicas das boates gays, onde é possível
fazer sexo, não existem nos lugares freqüentados por lésbicas.

66
cima91, o fato de não ter a conjugalidade como meta parece mais estranho ainda, se

pensado pela lógica de uma ideologia não-moderna ou holística em que alguns

autores92 colocam as pessoas que habitam as chamadas “classes trabalhadoras”.

Mesmo assim, a idéia da reprodução como expectativa da sexualidade colocada por

esta linha de trabalho, sendo outra das características do ethos sexual feminino nas

classes trabalhadoras, fica fora da economia do prazer das freguesas do boteco. Com

isto não tento jogar fora a existência do desejo materno em alguma delas. O que

quero deixar claro é que o modo de viver e socializar o jogo sexual das entendida do

Flôr do André não corresponde ao modo que esta concepção relacional espera que

opere a sexualidade feminina nas classes trabalhadoras, simplesmente porque este

quadro de análise deixa fora uma variável que se torna fundamental no meu universo

de pesquisa: a orientação sexual e o modo particular em que elas a vivenciam. O

prazer não está colado à “reprodução e a obrigação social” (Duarte, 1987: 223), não

existe vergonha em falar sobre o prazer que produz a parceira ou produzido nela, pelo

contrário, é fonte de longas conversas no lugar. Assim, o sexo é vivenciado no plano

do prazer sem outra conseqüência por trás93. Isto talvez possa ser exemplificado com

um diálogo mantido com uma das freguesas do grupo mais antigo. Há mais de dois

anos, Detinha decidiu fazer, pela primeira vez, uma incursão nas práticas

heterossexuais para saber “se estava perdendo alguma coisa boa”. Valendo-se do

momento decidiu ter um filho porque “já que estava com um homem e tinha vontade

90 Jogo de palavras tomado dos homens que inclui o termo xoxota (vagina) na palavra solteira implicando a poligamia
ou procura de parceira sexual ocasional que traz consigo a não conjugalidade.
91 Há três menores de trinta, a maioria têm entre trinta e quarenta e cinco e existe um grupo, não tão fixo, mas que

sempre aparece, de mais de cinqüenta anos de idade.


92 A esse respeito, ver Luiz Fernando Dias Duarte (1986 e 1987) e Maria Luiza Heilborn e Patrícia Fernanda Gouveia

(1999).
93 Tampouco pretendo supor esta liberdade como exclusiva das mulheres lésbicas, simplesmente estou colocando as

impressões tomadas no bar para exemplificar a diversidade possível como contrapartida das cristalizações às que
conduzem fechar os sujeitos em categorias fixas.

67
de ser mãe, aproveitei o cara como pai. Mas depois de ficar grávida não quis estar

mais com ele e me dediquei a meu filho. Agora que já não o amamento mais e como

vi que não tinha nada a perder (ri) voltei pra as mulheres... é mais gostoso! a pele

suave, o cheiro, hummmm! nada a ver com um homem; uma mulher na cama é

sempre melhor (risadas da mesa toda que comparte de sua opinião).

Qual é o diferencial que estabelece o ethos de classe ou de sexo? Existem estas

classificações como categorias fechadas ou só contribuem para a explicação de uma

colocação dos sujeitos na qual o entrecruzamento de redes que comportam vivências

de classe, gênero, família, orientação sexual, raça, nacionalidade, idade nos permita

especificar as coordenadas onde traçar o “xis” que localiza metaforicamente uma

identidade social dos indivíduos? Pensar as identidades como espaços fechados a

serem recrutados no campo de pesquisa congela as margens sempre móveis e

relacionais dos sujeitos.

Se o Flôr do André se constrói como um lugar diferenciado, os relacionamentos

que nele se sucedem moldam e permitem essas mobilidades.

68
Aqui é tudo família: relacionamentos no bar, pertencia e exterioridade

Mesmo que as freguesas se refiram ao lugar como um espaço familiar e aos

relacionamentos como “de família”, pertencer implica entrar na arena com um duplo

e oposto significado: ser objeto de desejo e possível rival (concorrente) na luta por

alguma nova (ou velha) presa na área.

Como se configuram as relações dentro do lugar? Quais são as marcas de

pertença ou exterioridade?

A maioria das freguesas do bar se conhecem desde a juventude. São moradoras

do bairro e constituem um grupo bastante unido apesar e graças às discussões que

aparecem continuamente. Digo isto porque, em parte, são essas brigas as que vão

configurando o mapa relacional criando alianças e inimizades que podem ou não

permanecer no tempo, dependendo do nível que a discussão tenha alcançado. As

brigas são quase exclusivas do universo das mulheres e muito raramente há homens

envolvidos94. Não era estranho para mim chegar em campo e me encontrar em um

ambiente esquisito, onde mulheres que formavam um grupo estavam divididas em

duas facções por causa de alguma briga recente. Tampouco era incomum que na

seguinte vez o grupo já estivesse coeso novamente. Entretanto, existem diferenças

que não podem ser resolvidas resultando em limites às interações dentro e fora do

lugar.

Existe um grupo inicial que funciona como núcleo duro do bar formado por aquelas

freguesas que começaram a se apropriar do espaço há mais de quatro anos: “eu

94 Nestes últimos casos, o eixo do problema geralmente coloca-se quando algum homem tem o mal tino de querer
flertar com a namorada/caso/assunto de alguma freguesa, o que se eleva à categoria de erro imperdoável.

69
acredito que quem começou a freqüentar aqui... fui eu [Martinha], a Rubi. Veio a

Neia... entendeu? E daí, veio gente, um foi passando para outro e outro... Aldairton...

e aí vai né. (...) nós nos conhecemos há muitos anos, entendeu? Só que às vezes,

tem um barzinho aqui de uma colega que também é do babado, na Rezende, e tem

outro na Mem de Sá, então a gente tava com o grupo todo dividido. Aí hoje em dia

formou esse barzinho, aonde tudo mundo se reúne. É aqui.”

A expressão que utiliza Martinha de “formar o barzinho” reforça mais uma vez a

especificidade do lugar. Como vimos no capítulo anterior, a presença delas reformula

e especifica o lugar, outorgando-lhe um cariz próprio moldurado através dos usos do

espaço, da freguesia e da conjunção de ambos explicitada nos tipos de

relacionamentos entre elas e com os homens que também freqüentam o

estabelecimento.

Este “núcleo duro” funciona como dissimulado controlador das permissões e

proibições diretamente relacionadas à possibilidade de permanência no lugar. Existe

por parte das outras freqüentadoras (aquelas mais novas no lugar), um trato

diferencial para com as mais antigas freguesas explicitado no uso – entre irônico e

respeitoso da autoridade investida – de termos como “a nobreza”, “a aristocracia”, “as

locais”, que estabelece um critério de prestígio colocando a antigüidade como valor

simbólico. Nesta lógica, se alguma entendida tem problemas com uma das integrantes

deste grupo fundador, com certeza o resto virará as costas para ela, o que terá como

conseqüência imediata não ser bem-vinda nas mesas nem participada das conversas.

Em termos de Maria Isaura de Queiroz, a freguesia do Flôr do André poderia ser

pensada metaforicamente com uma estrutura e movimentação similar à lógica da

70
parentela95: os setores subalternos da pirâmide respondem aos pareceres e preceitos

dos setores superiores de modo que os elementos opositores ao núcleo também o

serão ao resto do grupo. A socialização clânica permite, por um lado, a coesão e

proteção dos integrantes, entretanto, do outro lado, leva à exclusão e desamparo dos

forâneos.

Exemplo deste tipo de comportamento é o sucedido com Daiana, namorada de

Monique. Monique, com trinta e dois anos, é uma das mais jovens do grupo; ex-

namorada de Martinha e “bichinho de estimação” do lugar. Loira, alta, robusta,

sempre com a “pele quente” – motivo aduzido para estar a maior parte do tempo com

camisetas coladas ao corpo, saias curtas ou shorts mínimos –, sempre bronzeada, de

bom humor, olhar direto, voz grave e forte, sorriso perene nos lábios, alegre e

despreocupada, protegida por várias pessoas do lugar (até pelo dono) por

considerarem-na ingênua, confiante e bondosa com todo mundo. É a única que se

permite um contato físico intenso: senta no colo das amigas, beija-as no pescoço,

esfrega a bunda na virilha das outras. Por outro lado, é a única que admite a

reciprocidade desse trato. Ela não faz escândalo se alguma das amigas passa a mão

nela (na bunda e até mesmo na virilha à vista de qualquer um que esteja por perto)

ou toca seus peitos brincando. Mesmo assim, este tipo de comportamento não passa

do jogo que se explicita no lugar; ela não mantém – pelo menos até onde eu pude

indagar – relações sexuais com nenhuma delas96. Oriunda da cidade de Cabo Frio,

95 A parentela era formada por um conjunto de indivíduos reunidos entre si por laços de parentesco carnal, ou
espiritual (compadrio) ou de aliança (uniões matrimoniais). Grande parte dos indivíduos de uma parentela se originava
de um mesmo tronco, fosse legalmente, fosse bastarda. (Queiroz, 1976: 179)
96 Monique embodifica uma feminidade ausente na maioria das outras freguesas. Tem um modo de vestir e agir diferente

da média do lugar. Mais tarde voltaremos a este assunto na análise sobre os comportamentos masculinos como forma
específica de expressão das freguesas do bar.

71
passa boa parte do seu tempo no Rio sem endereço fixo, dormindo na casa de

amig@s que lhe dão abrigo e comida, já que tampouco possui trabalho fixo. A

namorada dela, Daiane, tem vinte e um anos e é brasiliense, fugiu de casa há quase

um ano porque, segundo conta, seu pai a mataria se soubesse que estava namorando

com uma mulher. Assim, chegou ao Rio de Janeiro já sem namorada e decidiu ficar.

Atualmente mora na casa da tia de uma outra ex-namorada perto da André Cavalcanti

e trabalha em um boteco a duas casas do Flôr do André.

O relacionamento que existe entre elas mudou bastante durante o tempo da

minha pesquisa e foi acompanhado com mudanças no modo de tratamento que

Daiane recebeu por parte das amigas de Monique. Daiane abandonou Monique duas

vezes por causa da chegada de uma jovem brasileira que mora nos Estados Unidos

com quem “está casada” até com “anel de noivado”. As vezes em que conversei com

Daiane, ela mostrou pouca intenção de compromisso com Monique tentando sempre

deixar claro que só estavam “ficando” durante o tempo em que sua “verdadeira”

namorada estivesse fora do país. Contudo, a versão de Monique é bem diferente se

considerando a namorada traída que suporta, sem pedir mais, os desvarios e

desaparecimentos da amada. Claro está que esta versão torna-se oficial no lugar,

motivando as condutas de respaldo e paparicos com relação a uma e de confronto e

rejeição à outra.

No início do trabalho de campo, Daiane costumava passar várias horas bebendo e

conversando com o pessoal, mesmo sem Monique. Entretanto, à medida em que

foram brigando, o trato para com ela mudou substancialmente até o extremo de nem

sequer lhe dirigirem a palavra ou cumprimentarem-na quando passava pela porta do

local.

72
Durante a comemoração de um aniversário no qual Martinha se encarregava do

churrasco97, eu estava conversando com ela para fazer-lhe companhia naquele

solitário papel no momento em que passou Daiana por nosso lado. Ela, quase sem

parar, aproximou-se de nós, cumprimentou-me com um beijo perguntando como ia

minha vida e, sem sequer dirigir o olhar para Martinha, continuou seu caminho.

Observei nesse momento que Martinha havia acompanhado a caminhada de Daiane,

enquanto ela se acercava de nós, com um olhar duro e forte, como se pudesse formar

um campo de força a seu redor que a ajudasse a estabelecer a distância física da

outra repelindo sua pessoa. Perguntei o que estava acontecendo e, franzindo o cenho

e o nariz como se de repente o ar contivesse um cheiro desagradabilíssimo, que lhe

desse nojo, limitou-se a me responder “essa aí não presta, não é gente” e mudou de

assunto. A partir desse dia pude observar que Daiana não entrava mais no bar e que,

se queria falar com Monique, ia até a porta e a chamava ou mandava outra pessoa

buscá-la. Pousou sobre a pessoa de Daiana um sino de maldade que funcionou de

modo expulsivo e estigmático impedindo-lhe de se acercar de novo do lugar, mesmo

que, como neste caso, ela restabelecesse os laços com Monique. Este comportamento

se espalhou e chegou ao resto d@s fregues@s através da fofoca desprezativa98, como

forma de explicitar e impor a opinião do núcleo ao grupo total que não pode (nem

tem muitas vezes a intenção) rejeitar ou se opor à sentença emitida.

97Nas festas organizadas geralmente por motivo de algum aniversário, o dono do bar empresta uma churrasqueira (que
permanece guardada na cozinha do bar prestes a ser utilizada em algum evento do tipo) que é colocada na rua ao lado
da calçada. O esquema consiste na aniversariante levar uma boa quantidade de carne (geralmente de boi ou
frango) e o resto dos convidados levarem mais. Alguma pessoa próxima à festejada toma conta da grelha. Martinha
várias vezes esteve nesse lugar, reconhecido socialmente como uma função dos homens.
98 Nos termos de Elias (2000), a fofoca funciona como meio de controle social se transformando em um elemento de

rejeição e humilhação (no caso da fofoca desprezativa ) ou de admissão e reconhecimento (no caso da fofoca
elogiosa). Segundo Elias, o primeiro tipo é usado por um grupo para se referir aos externos e o segundo para se referir
a membros do mesmo grupo como modo de distinção e pertença.

73
Por outro lado, a solidariedade se manifesta não só de modo negativo (rejeitando

os elementos desprezados) como de modo positivo (reforçando a pertença ao grupo e

a amizade como bens valiosos). No dia da missa de sétimo dia celebrada para a mãe

de Vitória99 em uma igreja perto da Praça da Cruz Vermelha, várias pessoas decidiram

se reunir no Flôr do André para irem juntas até o local. A missa começava às 17 horas

e às 16.30 havia um grupo de umas seis ou sete pessoas esperando. Partimos

caminhando rumo à igreja que fica a três quadras do bar. Ao chegar lá, outr@s dez

fregues@s já estavam esperando na porta. Entramos tod@s junt@s e nos sentamos

nos bancos do meio da capela, quase ao final, deixando um vão entre nós e os

familiares de Vitória que mais parecia um abismo inquebrantável que com simples

fileiras de bancos vazios. Vitória esteve conversando conosco até o começo da

cerimônia quando foi se sentar em cadeiras colocadas ao lado do altar exclusivamente

para os familiares diretos da falecida.

Mesmo sem ser freqüentador@s de alguma igreja ou praticantes de alguma

religião, o grupo de amig@s do Flôr do André foi à missa para acompanhar Vitória

porque “nestes momentos tão tristes a gente tem que segurar a barra, mesmo

correndo risco da igreja cair100”.

Quando a cerimônia finalizou nos dirigimos tod@s novamente ao Flôr do André

para continuar acompanhando Vitória, mas desta vez foi oferecido um jantar para ela

e, como sempre, muita cerveja. Fizemos uma coleta de dinheiro (uma “vaquinha”) e,

depois de chegar a um consenso sobre peixe ou carne, partimos, Martinha e eu, ao

99 Vitória tem cinqüenta e seis anos, mora “desde sempre” no bairro, trabalha como enfermeira em um Hospital da

ilha do Fundão e namora com Nilda, a garçonete do Flôr do André, há vários anos. Ela faz parte do grupo das antigas
freguesas do local..
100 Depois da cerimônia, escutei piadas das freguesas a respeito da sua presença na igreja e de sua condição de lésbicas,

como se a construção fosse desabar no momento em que entrassem, por causa da rejeição das práticas homossexuais
por parte da doutrina católica.

74
supermercado Mundial a meia quadra do bar. Arroz, feijão, coentro, peixe, alface,

tomate, batatas, farinha de rosca e o trocado para as primeiras cervejas e voltamos

para cozinhar. – “É melhor manter a cabeça da Vitória ocupada para ela não lembrar

da mãe”, me diz Martinha no caminho de volta. – “A gente tem que alegrar os amigos

nestas ocasiões, não acha? Se você não pode fazer feliz um amigo para quê é amigo

né? Vem cá argentina, me ajuda na cozinha assim você também colabora na alegria

da Vitória, coitada...” O jantar preparado na cozinha do Flôr do André foi servido para

tod@s @s presentes, mesmo aquel@s que não houvessem colaborado

monetariamente, porque “se a comida dá pra todo mundo tem que ser compartilhada,

aqui tudo mundo cuida do outro, somos uma grande família”.

Por que desconsiderar o apelo de família às amizades que vão além dos tempos

nos quais a intimidade, solidariedade e afeto constroem laços tão fortes e duradouros

como os consangüíneos? Se esta dissertação está montada sobre a reformulação e

crítica permanente à naturalização das categorias no ofício de fazer ciência,

permeando constantemente a preocupação de quebrar, em termos do Ingold, o

primado dos grandes divisores, por que não resgatar a expressão que aparece

vivamente nas falas das entendidas de estender a noção de família além dos parentes

de sangue? O parentesco, argumentam Franklin e McKinnon, não é mais concebido

como tendo por base uma idéia singular e fixa da relação “natural”, mas parece ser

montado autoconscientemente a partir de uma multiplicidade de fragmentos possíveis

(In Butler 2003:254).

Talvez as novas famílias, além da consangüinidade, ou as alianças tradicionais

estejam mostrando o caminho para uma nova forma de parentalidade que se afasta

das tradicionais. Talvez seja o momento de lembrar que em algumas relações

75
heterossexuais a procriação tampouco ocupa o lugar de outrora e a monogamia está,

lentamente, deixando uma luz para os “casais abertos”, os quais não necessariamente

convivem embaixo do mesmo teto nem conservam a idéia de fidelidade corporal, ou

os relacionamentos à distância de pessoas que moram em diferentes cidades ou

países, têm duas moradias, diferentes redes de relação, diferentes línguas ou culturas

e mesmo assim conservam a palavra “casal” para se referir ao tipo de

relacionamentos que levam. Contudo, a regra da binariedade conjugal ainda é

dominante no mundo e esse ponto não é o que está em discussão aqui, mas aquelas

outras possibilidades que se afastam dessa dominância101. À luz de novas formas de

relacionamentos que, segundo as visões das freguesas, escapam às definições de

amizade e se aproximam mais às de família, as formulações de Judith Butler com

respeito ao parentesco tornam-se susceptíveis de ser utilizadas para nomear mais

uma vez as margens da norma e a ruptura de uma ordem simbólica dado que os

novos laços de parentesco assim formulado “podem ser nada mais nada menos que a

intensificação de laços comunitários, que podem, ou não, ser baseados em relações

sexuais exclusivas ou duradouras, e bem podem consistir em relações de ex-amantes,

não-amantes, amigos, membros da comunidade102. Nesse sentido, as relações de

parentesco atingem fronteiras que põem em questão a distinção entre parentesco e

comunidade, ou clamam por uma concepção diferente de amizade. Isso se constitui

numa “ruptura” do parentesco tradicional que não somente desloca o lugar central

das relações biológicas e sexuais da sua definição, mas confere à sexualidade um

101 Como pensar a figura do ti@ se não existe a de irmã/o? como será a estrutura familiar para as novas gerações de

chineses se o estado continua com a férrea política do controle da natalidade permitindo só um/a filh@ por casal
102 Eu não acho que todas as amizades sejam consideradas laços de família, simplesmente estou expondo,

acompanhada por Butler, a possibilidade dessa noção. Não tento novamente cristalizar, mas, pelo contrário, deixar
aberta a porta para o debate.

76
domínio separado daquele do parentesco, permitindo também que um laço durável

seja pensado fora da moldura conjugal e abrindo o parentesco a um conjunto de laços

comunitários que são irredutíveis à família” (Butler...:255-256). O que Butler deixa

entrever é a mudança, lenta em verdade, das concepções de parentalidade dadas

pelas modificações e aberturas no leque da idéia de família, sem querer expor com

sua argüição novas regras. Pelo contrário, é um análise da explosão de categorias que

se sucedem em matéria de sexualidade que traspassam as fronteiras e alcançam os

critérios do parentesco, por exemplo. Talvez um exercício de historiar as categorias

teóricas e jurídicas expondo sua volubilidade e dando mais ouvidos à voz dos

discursos nativos.

Por último e periféricos às tramas de relacionamento que tenho trabalhado até

agora, aparecem os homens que ocupam um papel secundário no devir do bar.

De homem pra homem: o lugar dos homens no bar

Os homens que freqüentam o Flôr do André são minoria com relação às

mulheres. Quase todos são heterossexuais, com exceção de um ou dois amigos do

garçom103 e um holandês que partiu para seu país na metade do meu trabalho de

campo. No total pude contar dez que aparecem regularmente, mas nunca todos

103 O garçom também é gay e faz parte do grupo mais antigo. Ele começou a freqüentar o lugar como freguês naquele
grupo e, pouco tempo depois, a trabalhar como garçom. Nilda, a garçonete que trabalha durante o dia fez a mesma
trajetória, mas só começou há um ano e meio.

77
juntos. Só nas festas é possível contar com essa quantidade junta que, com relação à

quantidade de mulheres104, é um número marcadamente menor.

Geralmente permanecem calados, solitários, bebendo cerveja e participam pouco

das conversas que se sucedem no lugar. O horário em que se concentram é perto do

meio dia ou depois do almoço, mas sempre existe algum espécimen de amostra no

lugar. Nos momentos em que a clientela é basicamente formada por mulheres, é

comum vê-los recolhidos em um recanto nos fundos, entre a máquina de som e o

final do balcão. “Eu venho aqui há anos” – me conta Francisco105- “antes não tinha

mulher mas agora começaram a vir. Uma trouxe a outra e assim o bar mudou. Agora

é bar de mulheres. Eu não tenho problema nenhum, mas muitos [antigos fregueses]

não querem aparecer, foram pra outros botequins”.

Talvez seja importante lembrar o leitor que o Flôr do André existe há mais de

vinte anos (trinta segundo alguns antigos fregueses) com o mesmo nome e no

mesmo lugar. Entretanto, a clientela que antes era formada basicamente por homens

mudou a partir da entrada da nova direção há quase cinco anos. As palavras do dono

atual deixam entrever o motivo da mudança “o que mudou foi uma coisa simpática

que não sei se é a minha pessoa ou o rapaz que trabalha comigo, que é o Aldairton,

que conhece muitas pessoas, que anda muito por aí... talvez ele seja um objetivo que

atrai, ehhh... Também, como eu não tenho preconceito com nada”. Aquelas pessoas

às quais Gervácio se refere são as primeiras mulheres que começaram a freqüentar o

104 Elas eram aproximadamente oitenta no aniversário de Rubi, entre quarenta e cinqüenta em outras festas e
aniversários, vinte num dia de semana à noite e em torno de trinta (dependendo das condições climáticas) nos finais
de semana.
105 Francisco tem uns quarenta anos e mora em um hotel na rua Riachuelo. Trabalhava como guarda-costas mas

atualmente está desempregado. Segundo conta, passa grande parte do seu tempo bebendo cachaça no Flôr do André
porque não tem vontade de fazer outra coisa. Ele fica bastante isolado até do resto dos homens do lugar. Pelo que
pude observar e com base em comentários sobre sua pessoa, não goza da confiança da freguesia.

78
lugar como já contara Martinha106. Embora esta incorporação de mulheres entendidas

na freguesia do local tenha feito com que muitos dos antigos clientes optassem por

escolher outro lugar para beber, alguns deles não se importaram com a presença –

aliás majoritária – delas e continuaram a freqüentar o Flôr do André.

Como foi exposto no primeiro capítulo da presente dissertação, até o uso dos

banheiros incorpora esta mudança da apropriação do espaço. Mesmo existindo dois

banheiros, a fila é uma só, dada a quantidade de mulheres que decidem diante do

aperto fisiológico que produz a acumulação de líquido no corpo (sobretudo se for

cerveja), invadir o espaço sanitário reservado aos homens com o cartaz “eles”. Frente

a esta situação, os homens tomam a mesma atitude que frente as outras: nenhuma.

Não discutem, não exigem, não se queixam, só esperam parcimoniosamente: “Fazer o

que – me respondem – é bar de mulheres, a gente tem que respeitar”.

Carneirinho trabalha em um hotel do centro da cidade. Ele acostuma passar pelo

bar à noite e nos finais de semana quando tem folga do trabalho. É um dos mais

próximos das freguesas que conformam o grupo mais antigo e um dos poucos

homens com quem as mulheres aceitam dançar durante as festas. ”Eu gosto delas,

somos amigos há muito tempo, a Martinha, a Neia, a Rubí. Eu passo mulheres pra

elas e elas passam pra mim” (ri da sua própria piada). Várias delas admitiram ver

nele um bom amigo, uma pessoa que escuta, com quem podem falar “de homem pra

homem”. Mesmo assim quando a noite avança e os fados do álcool começam a

dominar seus ímpetos, ele é rejeitado porque “fica grudento de mais”107.

106
Página 70 da presente dissertação
107Em referência à mudança dele quando está bêbado, tentando beijar algumas mulheres ou oferecendo-lhes
companhia na cama.

79
Porque uma coisa não aceitada por elas é algum resquício de comportamento de

paquera por parte dos homens. As freguesas do Flôr do André fazem questão de

deixar claro para os homens a perda de tempo que implica paquerá-las. – “Eles

sabem que a gente não está nem aí para eles, mas têm a esperança de conseguir

alguma coisa pagando cerveja”, me explica Joana. – “Bebe numa boa o que te

oferecem porque é pra isso que estão aqui, pra encher nossos copos, se querem

mulher pra cama que se danem”, acrescenta Magnata. Essa atitude de desdém em

relação aos homens se repete cada vez que algum tenta conquistar alguma

entendida. Elas não vacilam em rejeitá-los e até desprezá-los mediante olhares,

gestos ou expressões tais como “você acha que eu gosto da lingüiça que tem entre as

pernas?!”, “eu gosto é de xoxota, não de pau”, “vai! leva teu pau pra tua mulher que

tá lá na tua casa te esperando e deixa a gente em paz!”, “cai fora mané!, tu não sabe

onde que tu tá?, aqui a gente gosta é de mulher”. Ante tais interjeições os homens

não conseguem fazer outra coisa que não continuar enchendo o copo das mulheres

que, além de insultá-los e menosprezá-los, continuam exigindo cerveja.

Eu me atreveria a conjeturar que mesmo no que se refere aos homens, a

masculinidade sem pau continua a ser uma condição para se relacionar dentro do bar.

Não existe espaço para a sedução de uma mulher por um homem. Aqueles que

insistem com a paquera são excluídos dos grupos e às vezes levados para fora do

lugar pelo garçom que impede que voltem a entrar se continuam com essa conduta.

Eles são vistos como amigos ou simples provedores de álcool; seu desejo sexual não

faz parte dos relacionamentos que parecem ser pautados pelas mulheres de um modo

homossocial108 mais do que heterossocial, se pensamos no jeito em que, por elas, eles

108 Ver nota 28 do primeiro capítulo

80
são receptados como iguais, de homem para homem. A genitália biológica dos

homens perde seu poder simbólico dentro do Flôr do André. Apesar da afirmação da

suposta igualdade, o que na verdade parece operar é uma inversão na desigualdade

entre gêneros ou pelo menos entre masculinidades hegemônicas e alternativas. Se,

como explicam Cornwall & Lindsfarne (1994), as identidades genéricas são

necessariamente construídas em referência aos outros que aparecem como diferentes

e ou dominados109, falar em masculinidad(es) implica pensar em uma lógica de

poderes onde umas se definem em relação de alteridade com aquelas vistas como

hegemônicas110. Assim, a masculinidade das mulheres do Flôr do André subverte a

ordem colocando-se como dominância em relação àquela dos homens que ficam

deslocados para as margens. Perdem a centralidade espacial e são relegados a um

canto do bar. Perdem para as mulheres o lugar de flerte e conquista, não porque

sejam agora eles o objeto de conquista, mas justamente por não participar da

economia do desejo imperante.

Porque eles permanecem no lugar? Talvez pela mesma razão que continuam com

os flertes: em matéria de sedução a rede a partir da qual operam não é a mesma. São

amig@s, bebem junt@s, falam de mulheres, compartem o gosto pelas mulheres;

entretanto, o lugar a partir do qual amb@s habitam o mundo faz a diferença. Eles

sabem que não fazem parte da concorrência amorosa através de irrefutáveis sinais

como a rejeição, a autodenominação das entendidas, onde pousar os olhares nas

paqueras que se sucedem no lugar, os beijos “proibidos” que sempre se deixam ver.

109O grifo é meu.


110Na literatura feminista, de gênero ou, mais atualmente, na chamada queer ou de estudos gays e lésbicos, a
masculinidade hegemônica se coloca sobre o homem branco, heterossexual de classe média, de países centrais. O fato
de abrir a possibilidade da existência de outras masculinidades colabora com a desnaturalização e desempoderamento
da hegemônica como única possível ou visível. Para mais dados consultar Halberstam (1998), Butler (1993), Rosaldo
(1974), Rich (1980), Moore (1988), entre outr@s.

81
Mesmo assim, esses homens parecem guardar uma secreta esperança de alcançar

seu êxito na conquista. É aqui o espaço de incompreensão que, entretanto, não

impede a permanência no lugar nem a amizade desde que se respeite a negociação.

Aquelas pequenas distinções em um mundo que se configura como contínuo

estabelecem percepções diferenciadas a serem negociadas perante uma socialização

conjunta. “Um mundo contínuo de pequenas diferenças ao invés de grandes

oposições, de semelhanças em cadeia no lugar de igualdades ou oposições binárias”

(Velho 2003) ecoa com a idéia ingoldiana da diferença como parte do habitar nesse

mundo em que necessariamente devemos envolver-nos com @s outr@s, semelhantes

mas não iguais, diferentes mas não inabordáveis, simplesmente outr@s elos na cadeia

de relacionamentos chamada socialização.

Como foi exposto ao longo deste capítulo, as entendidas que freqüentam este bar

explicitam comportamentos que respondem à chamada lógica do masculino.

Entretanto, elas se reconhecem como mulheres que gostam de mulher e não como

homens capturados em um corpo de mulher o que implicaria uma transgenereidade

de mulher a varão e com isto uma lógica diferente daquela que estou tentando

demostrar. Elas, através de seus comportamentos para com os homens ou entre elas,

deixam transluzir as possíveis nuanças entre o branco e preto das categorias de

homem-mulher ou de masculino-feminino, em termos de Judith Butler(2003:230),

lugares de ontologia incerta: mesmo pensadas como lésbicas, o tipo de práticas além

da dominância as coloca fora do campo de legitimidade como mulheres e do mapa

lésbico da cidade. Uma dupla abjeção que levanta a questão sobre quais são os

82
significados que enchem as categorias de mulher, homem ou lésbica, termos em que

as entendidas do Flôr do André parecem habitar somente nas fronteiras.

83
Considerações finais

Comecei meu trabalho de campo em branco e preto tentando saber como se

estruturavam as relações sociais entre lésbicas em um boteco do Bairro de Fátima. O

mesmo campo não demorou muito em destruir minhas certezas e transformá-las em

perguntas que se dirigiam às posições intermediárias das categorias que no início eu

pensava estar enxergando. Um boteco que não é, um bairro que pode ser outro,

amizades coladas ao parentesco, uma mulher que sem deixar de sê-lo consegue com

uma pochete me lembrar da sensação do contato na dança com o corpo de um

homem, a inexistência da palavra lésbica substituída pela cumplicidade de entendida.

Assim, o Flôr do André me levou pelos meandros das meias tintas, os lugares onde

as significações se desmancham e esfumam na névoa das ontologias incertas. Mesmo

aquelas singularidades que o conformam, estabelecendo parâmetros dissimilares das

pessoas se colocarem no lugar, não se comportam como abismos de sentido mas se

acotovelam pacificamente no recinto. Por exemplo, o modo em que se estruturam as

relações respondem a laços de amizade que implicam fidelidade com os grupos dos

quais as pessoas fazem parte. Estabelecem-se alianças e inimizades que parecem

similares aos da parentela ampliada que conforma a sociedade brasileira num patamar

político. Esta similitude me fez entrar em terrenos de difícil definição e repensar os

limites entre amizade e parentesco, ponto que poderia dar lugar a pesquisas no

campo da sociologia da família, por exemplo, tão cara à pesquisa social no Brasil.

Difícil definição também traz a compreensão do modo em que a masculinidade se

desenvolve no bar. Paradoxalmente, não é no corpo dos homens onde ela aparece

com mais nitidez e sim, no das mulheres. Isto, pode-se observar na forma em que se

84
apropriam do espaço, na estética e na gestualidade que elas apresentam. Assim como

se assume a impossibilidade de fixar o gênero em um corpo determinado, também se

torna necessário estender os limites do corpo para fora da pele, pensá-lo como uma

construção performática onde a gestualidade e a estética fazem parte dele. Em

termos de Haraway conceber a idéia dos ciborgs nos quais o corpo biológico e só uma

parte da configuração total. Esta configuração tem por sua vez uma mobilidade que

permite sair de posicionamentos fixos: “masculine on the streets and female in the
111
sheets” (Halberstam, 1998:125)

Acho que seria interessante continuar com pesquisas sobre masculinidades de

mulheres, espaço esquecido na academia (à diferença das feminidades masculinas,

como poderíamos definir os travestis sobre os quais existe uma literatura maior112),

quiçá como espelho da invisibilidade que as mulheres lésbicas têm na própria vida

social, ao contrário do que acontece com os gays por exemplo (dos quais também

existe farta pesquisa no Brasil), ou, num patamar mais amplo, numa dupla

invisibilidade de mulheres primeiro e lésbicas depois. Este pensamento remete a uma

das minhas perguntas iniciais: cadê as lésbicas? qual é o motivo da aparente113

invisibilidade? Se a socialização não se desenvolve basicamente em lugares públicos

específicos como bares boates ou praias GLS, se conformará um circuito privado

formado por correntes de conhecidas que se movimentam em casas, festa privadas,

sítios afastados conformando grupos fechados de amizade onde os rostos são quase

sempre os mesmos?

111 Página 56 desta dissertação.


112 Lembro aqui só os trabalhos de Hélio Silva (1993) e Dom Kulick (1998). Mesmo assim na literatura sobre gays
sempre está presente a referência aos travestis.
113 Digo aparente, porque tal vez seja só uma invisibilidade para o olho não entendido.

85
Será este o motivo da endogamia que aparece no Flôr do André? Por esta razão as

freguesas falam em ter “construindo” o Flôr do André?

Poderia elaborar a hipótese de uma negativa das lésbicas em conformar uma

ilusória “cultura GLS” preferindo uma subjetividade mais livre em comparação aos

gays que rapidamente se apropriam dos espaços públicos já conformados

colaborando (acho que inconscientemente) na construção de um ideário gay na

coletivo social. Ou pode ocorrer que o sumiço das lésbicas dos bares e boates

simplesmente responda a questões arquitetônicas: lugares com música muito alta que

não permitem uma conversa amena, pouco espaço para sentar-se pouco conforto e

gente demais... enfim, lugares que diferem demasiado do aconchego da casa (o que

não quer dizer que elas tenham que ficar em casa, simplesmente que poderiam ser

pensados lugares mais relaxados e aconchegantes; mas esta é só uma hipótese).

Seria interessante realizar pesquisas que conjuguem as visões da arquitetura e a

sociologia para pensar os modos em que as pessoas ocupam os espaços destinados,

supostamente a determinado alvo com o qual deveriam reconhecer-se.

Voltando à pesquisa, o que as freguesas do Flôr do André representam é uma

reconfiguração dos limites que separam feminino de masculino, mulher de homem ou,

em termos mais abrangentes, natureza de cultura, permitindo pensá-los como pontes

mais do que como fronteiras. Dizer que uma mulher pode adquirir traços de um

homem talvez seja uma metáfora de uma mudança que permita falar de uma

natureza com traços culturais. As metáforas do gênero permitem jogar com

construções maiores, pô-las em tela de juízo, revê-las, dessacralizá-las, tirando-as dos

axiomáticos pedestais onde muitas vezes são colocadas.

86
Por este motivo a presente dissertação tem cariz de rascunho. Numa tentativa de

demonstrar o caráter volúvel das categorias sexuais, seria um desrespeito a essa linha

de pensamento que busco explicitar, uma intenção teleológica e definitiva deste

trabalho. Tal como fui costurando ao longo da escrita, os cinzas parecem ser os fios

condutores que dão luz às nuanças, às pequenas diferenças ou similitudes no lugar de

oposições incomensuráveis ou semelhanças calcadas. É neste contexto que o Flôr do

André aparece situado com um caráter híbrido ou liminar: entre bairros, entre

mulheres e homens, entre bar de família ou bar GLS, em fim, entre categorias

analíticas.

O que fica é a possibilidade de pensar esta liminaridade como modo de ser, além

da necessidade de passar de um estado para outro. Em vez disso, ficar no meio;

assim como as travestis que comportam uma feminidade com pau, seja um modo de

personificar os cinzas sem a obrigação de ser um passo entre uma ontologia e outra,

mas uma ontologia diferente. “Podría decirse que la sexualidad excede cualquier

narrativa definitiva y que nunca es ‘expresada’ completamente en una actuación o en

uma práctica; habrá femmes machonas y passivas, butches agresivas y femeninas, y

muchas más, que serán descritas como ‘varones’ y ‘mujeres’ com una autonomía más

o menos estable. No hay líneas directas, expresivas o causales entre el sexo, el

género, la presentación de género, la práctica sexual, la fantasía y la sexualidad.

Ninguno de estos términos captura o determina al resto.” (Butler, 2000:104)

Por outra parte, se as categorias se manifestam volúveis no mundo, acho que

seria necessário repensar os significados que as enchem. De que estamos falando

quando usamos palavras como homem, mulher ou lésbica? Quais são os atributos que

devemos ressaltar para não excluir da semiosis aquel@s sujeit@s que reclamam fazer

87
parte delas, mas parecem só habitá-las nas fronteiras? Como evitar que, nas palavras

de Adrienne Rich, ao mirarmos no espelho não consigamos ver nada?

Quem sabe se o exercício de amolecimento categorial necessário para entender os

relacionamentos do Flôr do André possa ser tido como um exemplo do amolecimento

geral em que o pensamento se encontra voltando para as misturas a despeito das

estruturas monolíticas e concludentes tais como ciência, classe social, sexo, corpo,

natureza, sociedade, cultura ou biologia? Ou bem, seja embaixo do Equador onde a

modernidade parece não passar de uma assombração ou uma miragem intelectual, o

lugar para repensar as incomensurabilidades fechadas das crenças da ciência. Em

palavras de Otávio Velho: “quem sabe se nos trópicos, onde sempre cultivamos as

misturas, muito mais do que as purificações, podemos imaginar uma modernidade

que, paradoxalmente, não realize uma ruptura em relação ao passado. Uma

imaginação da modernidade mais próxima do que ela realmente foi e é; ou seja, mais

próxima das suas práticas. Ao invés de reduzir-se o oficioso ao oficial em nome da

transparência, tratar-se-ia, então, do oposto;(...) mas nessa era de ‘segundos

pensamentos’ em relação à modernidade, quem sabe se não será esse um privilégio

do subdesenvolvimento: a exploração de modernidades alternativas em relação aos

discursos; bem diferente – mas talvez mais difícil – da tentação oposta (e sempre

presente) de querer ser mais realista do que o rei, ‘congelando’ a modernidade por

meio de um Ocidentalismo, justamente na era do seu paradoxal desencantamento, o

desencantamento do desencantamento.” (Velho, no prelo:4)

Esse desencantamento do desencantamento das confortáveis e seguras divisões

pode ajudar a pensar este como um mundo contínuo que se constrói costurando as

pequenas diferenças junto com as pequenas semelhanças em uma malha relacional

88
que considera, na sua trama, as habitações daqueles espaços opacos onde a luz não

chega com a mesma intensidade que nos pontos nodais. Ou, com a colaboração de

Donna Haraway, tomar em conta os conhecimentos parciais, que embora limitados,

em conexão com outros saberes permitem construir uma rede epistemológica além

das fronteiras das ciências quebrando as grandiloqüentes dicotomias de

natureza/cultura, ciência/política, masculino/feminino. Deste modo se permite

conceber um modo de articular o conhecimentos que não esteja baseado em

binarismos, mas em entrecruzamentos de saberes parciais.

89
BIBLIOGRAFIA:

AZEVEDO, Fernando de. 1948 Canaviais e engenhos na vida política do Brasil. Ensaio
sociológico sobre o elemento político na civilização do açúcar. São Paulo:
Melhoramentos.

BARBERO, Graciela Haydée. 1997. Outras mulheres. Dissertação de Mestrado em


Psicologia Clínica, PUC-SP.
Bibliografia:

BLÁZQUEZ, Gustavo. 2004. Coreografias do gênero: Uma etnografia dos bailes de


cuarteto. (Córdoba, Argentina). Tese de doutorado em Antropologia Social. PPGAS-
MN- UFRJ, Rio de Janeiro

BUTLER, Judith. 2000. “Imitación e insubordinación de género” In: Grafías de Eros.


Historia, género e identidades sexuales. Bs. As.. Edelp. pag 87-113

_______ 2002 Cuerpos que importan – Sobre los límites materiales y discursivos del
“sexo, Buenos Aires, Paidós Editores, (orig. es Bodies that Matter del 1993)

_______ 2003. “O parentesco è sempre tido como heterossexual?” In: Cadernos Pagu
(21), Revista semestral do Núcleo de Estudos de Gênero, Universidade Estadual de
Campinas, , pag.: 219-260

CÂNDIDO, Antonio. 1951. “The brazilian family” In Brazil:Portrait of half a Continent


T. Lynn Smith & Alexander Marchant (eds.).. New York: The dyden Press. pag 291-
312

CANÊDO, Letícia. 1998 “La production généalogique et les modes de transmission


d´un capital politique familial dans le Minas Gerais Brésilien” Genéses Juin pag 4- 28.

90
CHALHOUB, Sidney. 1986: Trabalho, lar e botequim: o cotidiano dos trabalhadores no
Rio de Janeiro da Belle Époque. São Paulo. Ed. Brasiliense

CORNWALL, Andrea & LINDISFARNE Nancy 1994. “Introduction” e “Gender Power


and anthropology” In Dislocating masculinity Cornwall, Andrea & Lindisfarne, Nancy
(eds) Londres. Routledge. pag 1-47.

CSORDAS, Thomas J. 2002. “Somatic modes of attention”. In boty/Meanning/Healing


NY. Palgrave Macmillan.

DIAS DUARTE, Luiz Fernando. 1987. “Pouca vergonha, muita vergonha: Sexo e
moralidade entre as classes trabalhadoras urbanas”. In: Cultura e identidade operária
– Aspectos da Cultura da Classe Trabalhadora. Leite Lopes, José Sérgio (ed). São
Paulo, Editora Marco Zero. pag. 203-225

Dicionário AURÉLIO Eletrónico, versão 3.0

Dicionário HOUAISS, Eletrônico, versão 1.0

DUARTE, Nestor. 1966. A ordem privada e a organização política nacional. São Paulo:
Companhia Editora Nacional.

ELIAS, Norbert & SCOTSON, John. 2000. Os estabelecidos e os outsiders. Rio de


Janeiro. Zahar Editora.

FIGARI, Carlos Eduardo.2003. L@s otr@s cariocas: interpelaciones, experiencias e


identidades homoeróticas en Rio de Janeiro (Siglos XVII al XX), Tese de doutorado em
Sociologia. IUPERJ Rio de Janeiro.

FOUCAULT, Michel.1975. Surveiller et punir. Naissance de la prison. Paris, Gallimard.

91
FRY, Peter. 1982. “Da hierarquia à igualdade: a construção da homossexualidade no
Brasil”. In Para inglês ver. Rio de Janeiro. Ed. Zahar.

FRY Peter e MAcRAE, Edward.1985. O que é homossexualidade. Abril Cultural e


Editora Brasiliense. São Paulo,

GREEN, James N. 1999. Além do carnaval – A homossexualidade masculina no Brasil


do século XX. São Paulo, Editora Unesp.

GUIMARÃES, Carmen Dora. 2004. O homossexual visto por entendidos. Rio de


Janeiro, Editora Garamond.

GUSFIELD, Joseph R. 1987. “Passage to play: rituals of drinking time in American


society”. In: Constructive Drinking – Perspectives on drink from Anthropology.
Douglas, Mary (ed.) Maison des Sciences de l’homme & Cambridge University Press.
pag. 73-90

HALBERSTAM, Judith. 1998. Female masculinity. Duke University Press. Durham and
London.

HARAWAY, Donna J. 1995. Ciencia, cyborgs y mujeres – La reinvención de la


naturaleza, Madrid ,Ediciones Cátedra.

HEILBORN, Maria Luiza. 1992. Dois é Par: Conjugalidade, gênero e identidade sexual

em contexto igualitário. Tese de doutorado em Antropologia Social, PPGAS-MN-UFRJ.

Rio de Janeiro..

________1996.: “Ser ou estar homossexual: dilemas de construção de identidade


social”. In: Sexualidades Brasileiras, Parker, Richard e Barbosa, Regina Maria (eds.)
Rio de Janeiro, Relume-Dumará Editores.

92
HEILBORN, Maria Luiza e GOUVEIA, Patricia Fernanda. 1999. “Marido è tudo igual’:
Mulheres populares e sexualidade no contexto da Aids” In: Sexualidades pelo avesso
– Direitos, Identidades e Poder. Barbosa, Regina Maria e Parker, Richard (eds):. Rio
de Janeiro/ São Paulo, Editora 34.

HUNT, Geoffrey & SATTERLEE, Saundra. 1986 “Cohesion and division. drinking in an
English village” In: Man New Series. vol 21 nº 3 Royal Anthropological Institute of
Great Britain and Ireland pag 521-537.

INGOLD, Tim 1993 “The art of translation in a continuous world”. In Beyond


boundaries: undestanding, translation and anthropological discourse. Gísli Pálson
(ed.). Oxford/Providence: Berg, pag. 210-230.

______1996. “Human worlds are culturally constructed.” In Key Debates in


Anthropology. Tim Ingold (ed). London. Routledge.

______ 2000. “People like us’. The concept of the anatomically modern human”. In
The perception of the environment. Essays on livelihood, dwelling and skill. London.
Routledge. pag 373-435.

LATOUR, Bruno. 2000. “Factures/fractures: de la notion de réseau à celle


d’attachement” In : Ce qui nous relie. Micoud, André e Peroni, Michel (eds.), La Tour
d’Argues : Editions de l’Aube, , pag. 189-207

MACHADO DA SILVA, Luiz António.1969. “O Significado do Botequim”. In: Revista


América Latina nº 12 (3) jul-set, pag. 160-182

MANDELBAUM, David G. 1965. Alcohol and Culture. In “Current Anthropology” vol 6


nº 3.Jun. The University of Chicago Press. pag 281-288

MARQUES, Ana Claudia. 2001. Intrigas e Questões. Vingança de família e tramas


sociais no sertão de Pernambuco. Tese de doutorado PPGAS/MN/UFRJ. Rio de Janeiro.

93
MOTT, Luiz. 1987. O lesbianismo no Brasil. Porto Alegre. Mercado Aberto Editora.

MUNIZ DE OLIVEIRA, Jacqueline . 1992. Mulher com mulher dá jacaré, uma


abordagem antropológica da homossexualidade femenina Dissertação de mestrado
em Antropologia Social. PPGAS-MN-UFRJ, Rio de Janeiro

PARKER, Richard.2002. Abaixo do equador – Culturas do desejo, homossexualidade


masculina e comunidade gay no Brasil, Rio de Janeiro/ São Paulo, Editora Record.

PRECIADO, Beatriz. 2003. “Multitudes queer: notes pour un politique des ‘anormeaux’.
In: Multitudes nº 12, printempts. pag. 17-25.

________2004. “Trashgender. Ordure et genre: Une critique queer de l’architecture


de la merde” In Trouble(s) – sexualité/politiques/cultures, n. 2, julho, pag. 64-69

QUEIROZ, Maria Isaura P. de. 1976. O madonismo local na vida privada e outros
ensaios. São Paulo: Alfa-Ômega.

RICH, Adrianne. 1999. “La heterosexualidad obligatoria y la existencia lesbiana” In


Sexualidad , género y roles sexuales. Navarro, Marysa y Stimpson, Catharine,
compiladoras. Bs. A.s, Fondo de Cultura Económica de Argentina.

ROBERTSON, Jenifer 1999. “Dying to tell: sexuality and suicide in Imperial Japan”. In
Signs. Journal of women in cultre and society. The University of Chicago Press, vol 25
nº 1, pag 1-37.

SCOTT, Joan W. 2000. “La experiencia como prueba” In Feminismos Literarios. Neus
Carbonell y Meri Torras, compiladores. Edelp. pag 77-112
SILVA, Hélio R. S.1993. Travesti – A invenção do feminino, Rio de Janeiro, Relume-
Dumará,

94
VALE DE ALMEIDA, Miguel. 1995. Senhores de si. Uma interpretação antropológica da
masculinidade. Lisboa. Fim de Século Editora.

VELHO, Otávio 2003. “A persistência do cristianismo e dos antropólogos”. Versão


revista de texto apresentado em 1 de dezembro de 2003 na mesa-redonda “As
Missões Religiosas entre Índios, Antropologia e o Estado” durante a V Reunião de
Antropologia do Mercosul (RAM) realizada em Florianópolis (Sta. Catarina).

_____ Comentários a um texto de Bruno Latour (no prelo)

WAGLEY , Charles. 1968. “Kinship patterns in Brazil: the persistence of a cultural


tradition” In: The latin american tradition. Essays on the unity and the diversity of
latin american culture. NY. Columbia University Press.

95