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Não Existe Música Santa.

Música é
Música!
Escrevi algumas linhas abaixo e esta é mais uma contribuição minha, espero que
este assunto fique claro e muito obrigado a todos que tem procurado de uma forma
honesta e sincera tentado resolver esta questão. Este texto não pretende ser a
verdade ou a norma para a música da igreja. O texto abaixo são considerações e
reflexões de um compositor Adventista. Se você tiver contribuições ou correções
não hesite em me enviar um e-mail. Meu endereço é fs@flaviosantos.com.br.

01. O que é música?


A música ocidental é composta de 12 notas, uma dúzia ou mais de acordes, consonantes e
dissonantes, e uma variedade de instrumentos musicais que somados a vozes humanas formam a
paleta musical com o qual o compositor trabalha. Tudo que se fez de música até hoje foi e é uma
combinação de timbres, notas, acordes, distribuídos em um período de tempo que é o ritmo.

O compositor atua como um pintor que utiliza as tintas de diversas cores e as pincela numa tela.
Diferentemente da pintura em que a combinação de cores e riscos resulta numa imagem de algo já
existente ou numa imagem nova sem significado.

Uma nova composição original em seu nascimento não tem significado algum. Estou falando que a
música ao sair da imaginação do compositor não tem significado espiritual, moral, mundano, etc. Já
a pintura muitas vezes simboliza significados concretos e questionáveis. A música é como uma
mesa, cujo tamanho, as cores e os elementos podem diferir, mas não se pode dizer que colocar um
certo tipo de mesa na igreja é pecado. Somos nós que atribuímos significados a mesma, e este
significado é resultado da nossa vivência.
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02. Ah! Essa é a tal da Associação?


Sim! A música passa a ter um significado através da associação que fazemos ao ouvi-la em
determinada situação, lugar e emoção sentida no momento. Vou explicar melhor: em São Paulo os
caminhões de gás tocam uma música de Beethoven chamada "Pour Elise", Cada vez que as pessoas
de São Paulo escutam a musiquinha o que vem a mente é o butijão de gás. Mas para as pessoas da
época de Beethoven e para as pessoas de outras cidades esta música tinha e tem outro significado.

Acontece que o mundo é muito grande e as pessoas percebem o mundo de forma diferente devido a
cultura, educação, vivência, família, etc. sendo assim uma nota, um instrumento ou ritmo tem um
significado diferente para cada pessoa, de acordo com a sua experiência de vida.
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03. Como é o processo de composição musical


Se um compositor tentar fazer um manual de composição onde se relacionem todas as combinações
sonoras permitidas ou proibidas de acordo com o pensamento de sua época, ele descobrirá que é
impossível fazer música usando este manual. A razão é que todo e qualquer som ou combinação dos
elementos musicais tem associado a ele uma série de emoções, sentimentos e lembranças, que
diferem de pessoa para pessoa, de povo para povo, etc. Por esta razão dificilmente um compositor
escreve livros de composição dizendo o que é certo ou errado, pois ele seria o primeiro a quebrar
estas regras.

Boa parte dos livros sobre composição musical foi escrita por pessoas que não são compositores, e
estes livros são na verdade compilações de exemplos de coisas em comum entre as obras
conhecidas e mais apreciadas. Mas a cada dia que passa o livro fica mais desatualizado porque a
cada dia novas coisas são criadas ou combinadas.

Os compositores mais marcantes e reconhecidos como inovadores ou gênios da música, são aqueles
que romperam com o tradicional ou comum em sua época e criaram algo diferente, sempre é bom
destacar que em música o novo é a mistura de uma corrente ou estilo musical com outra.

Bach, o famoso Bach, que é o grande exemplo de um compositor consagrado a Deus pela ala
tradicional religiosa de hoje. Foi considerado revolucionário em seu tempo. Já li artigos em que
musicólogos revelam que alguns elementos formais da música de Bach foram os pilares de alguns

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estilos atuais tais como o jazz e a música erudita. Vila-Lobos inspirou-se em Bach e fez as famosas
Bachianas que por sua vez influenciou Tom Jobim, um dos precursores da Bossa Nova, que pode até
ter influenciado alguns músicos conhecidos da nossa igreja que por sua vez influenciaram tantos
outros compositores, e assim vai...

Não dá para separar a influência que uma corrente musical exerce sobre a outra e vice-versa. Não
existem também fronteiras religiosas dentro da música e é por isso que o nosso hinário é o maior
documento ecumênico da igreja, pois diversos segmentos religiosos estão representados e inseridos
dentro dele. O famoso Padre Marcelo gravou diversas músicas evangélicas em seus cds, até
corinhos que são cantados em igrejas Adventistas. Existem também cds Adventistas que contém
melodias de compositores católicos. Todos aqueles que gravaram músicas da cantora Kathy
Troccolli não se iludam, pois ela é uma cantora católica americana e uma parte de seus
colaboradores, são companheiros de fé.

Um dos compositores mais inovadores da música erudita quando criança morou numa casa em que
se ouvia no lado de dentro música religiosa por seus pais, missionário americanos. Já na parede ao
lado a música tocada era no estilo da região local. Pois bem este compositor foi o precursor de uma
corrente musical em que duas tonalidades são sobrepostas criando o mesmo efeito que ele ouviu
quando criança.
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04. É possível uma música santa desassociada do mundo?


Um dos maiores mitos que existem é o da música santa. Música é música. Assim como Inglês é
Inglês e Grego é Grego. Música é uma forma de linguagem através dos sons. As palavras em uma
língua falada possuem um mesmo significado para o povo que fala e escreve a mesma. Porém todos
os lingüistas e estudiosos concordam que o vocabulário de uma língua muda com o tempo, pois é
um processo dinâmico em que palavras caem no desuso e outras são agregadas pelas pessoas.

Já na música esta universalidade de interpretação ou significado não existe. É preciso veículos


formadores de opinião para que este significado passe a ser associado a uma determinada música.

O Cinema, a Rádio e a TV são atualmente os maiores formadores de opinião e gosto musical, como
também são as forças mais influentes, em dar significados universais a música. Mas há paradoxos.
Existe, por exemplo, uma música gospel chamada "Oh! Happy Day" que no Brasil é sinônimo de
margarina e a mesma música nos Estados Unidos lembra uma freira rebelde do filme "Mudança de
Hábito". Já para outros a música lembra o dia de sua conversão que é o tema da letra.

Se a Rede Globo resolver usar uma música qualquer ou até mesmo um hino para ilustrar uma cena
de novela, pode ter certeza que milhões de Brasileiros ao ouvir aquela melodia vão lembrar da cena.
Já as pessoas que não assistiram o tal programa terão outra reação para o mesmo estímulo.

O hino "Mais Perto Quero Estar" para os milhões de cinéfilos que foram assistir o filme "Titanic"
lembra apenas e tão somente a cena de desespero e despedida dos músicos daquela tragédia. Este
hino somente tem um significado espiritual e especial para aqueles cristãos que conheceram o hino
em sua experiência religiosa.

Dá para mudar o significado de uma música ou estilo musical? Sim, mas é preciso executar a música
num outro contexto diversas vezes até se criar um novo vínculo. É um processo de
recondicionamento musical. Uma pessoa que passou por circunstâncias difíceis na vida geralmente
associa lugares e coisas aos fatos, este significado só irá desaparecer na medida que estes
elementos comecem a ser associados a circunstâncias diferentes das vividas.
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05. E o compositor cristão, o que ele faz?


Na prática um compositor, cristão, sensato, polido e equilibrado procura fazer é utilizar
combinações sonoras que não estejam tão associadas ou vinculadas a coisas mundanas de seu
tempo. Muitas vezes ele guarda na gaveta suas criações, e muitos deles só são reconhecidos na
posteridade, como é o caso de Bach, cujas partituras foram usadas para enrolar mercadorias, até
que um músico descobriu novamente a obra de Bach.

Por outro lado se a música é destinada para a conversão de pessoas o meio mais eficaz de
comunicação é falar na linguagem conhecida e apreciada.
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06. E a Igreja como se posiciona em relação a associação de significados?


Algumas denominações religiosas fazem o que Lutero fez, santificam ou procuram mudar o
significado mundano associado à música. Outras esperam 20 anos aproximadamente ou o tempo
necessário para a associação deixar de existir e então passam a utilizar o determinado estilo em sua
liturgia.

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O pensamento de Lutero é seguinte, só porque o inimigo usou primeiro, não quer dizer que ele é o
dono desta combinação. O compositor Lineu Soares em suas músicas "A Minha Esperança" que é
semelhante a um reggae ou no Semi-Baião cujo título não me lembro aparece no último disco do
Tom de Vida. Dá margem para algumas pessoas sentirem-se afrontados e incomodados, enquanto
que para outros estas músicas são uma homenagem carinhosa aos cristãos do Caribe ou do Sertão
Brasileiro.

O Professor Irineu, diretor do IASP me relatou que este Reggae do Lineu já converteu e trouxe de
volta muita gente para igreja e sei uma pessoa originária do Nordeste se sente prestigiada com uma
música num estilo familiar que é o Baião e se abre para a mensagem de salvação.

Vou dar outro exemplo: na década de 1960 surgiu no cenário Adventista um grupo chamado The
Wedgwood Trio e o tipo de música deles era muito parecido com os Beatles, Até no visual eles se
pareciam, Os jovens e adolescentes apreciaram imensamente aquele grupo, mas a liderança da
igreja baniu o grupo e os proibiu de atuarem na igreja e nas reuniões evangelísticas, somente trinta
anos depois que eles foram aceitos pela comunidade Adventista, o som continua o mesmo, mas as
pessoas se acostumaram com o som. O retorno e reabilitação do Wegdwood Trio foi um fato
marcante na história da música Adventista, tanto é que cantaram na última conferência geral em
Toronto as mesmas músicas que foram proibidas 30 anos atrás.

Eu mesmo fui proibido de tocar na igreja do IAE por um certo período de tempo, pelo Pr. Manuel
Xavier, diretor interno do IAE na época, por ter interpretado uma música secular do compositor
Milton Nascimento: "Amigo É Coisa Pra Se Guardar" em uma festa de Amizade do IAE que aconteceu
no refeitório. Uma década depois pra minha surpresa o IAE passou um vídeo promocional de seus
cursos e instalações e adivinhe qual era a música de fundo? "Amigo é Coisa Pra Se Guardar."

Um outro fato interessante foi o processo de "santificação" da música Amizade de minha autoria em
parceria com o poeta Valdecir S. Lima. Esta música foi composta para uma festa de amizade
ocorrida em nosso colégio, no entanto com o tempo os líderes de jovens passaram a utilizar esta
música em seus programas para jovens. Uma vez fui convidado para um aniversário de uma igreja e
a música cantada neste evento especial que ocorreu num sábado de manhã foi Amizade.

Se esta música fosse gravada pelo Roberto Carlos ou Padre Marcelo jamais teria sido aceita como
digna de ser entoada em nossos átrios, por ser originária de nossos colégios ela é aceita e
executada em todo o Brasil.
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07. E o gosto musical, como é formado?


As pessoas desenvolvem o gosto musical ou o seu paradigma musical (conjunto de sons associados
a experiências e sentimentos) no período que compreende os primeiros 20 anos. Depois deste
período tudo que é novo ou diferente é de difícil assimilação ou compreensão. Aquela musiquinha do
caminhão de gás vai lhe acompanhar para sempre na sua memória.

Só terão significado espiritual todos os estilos musicais que foram associados à igreja, e que foram
utilizados e absorvidos como parte da experiência religiosa neste período da vida. É possível uma
mudança neste condicionamento, sim, como disse antes, mas são poucas as pessoas que estão
abertas para mudanças radicais.

Acontece que se um compositor limitar a sua criatividade ao que pode ou não pode ditado pelo
gosto das pessoas ao seu redor, não fará música. Por causa de seu espírito curioso o compositor
está sempre a frente de seu contemporâneos. O gosto musical dele é sempre diferente dos outros
porque o contato com o novo é sempre mais constante para aquele que experimenta e cria novas
combinações.
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08. Pode o compositor usar o livre-arbítrio num processo de criação?


Em determinado momento o compositor rompe com tudo e todos e escreve suas músicas usando o
livre arbítrio que Deus lhe deu. Ele combina os sons com a mesma liberdade que Deus teve ao criar
os animais, plantas e tudo que há na terra, sem se preocupar se a cobra é ou se tornará símbolo
disto ou daquilo, ou o Arco-Íris é ou será usado pela nova era ou outros movimentos, e assim por
diante. É claro que com pecado tudo se modificou e alguns animais já não são mais mansinhos e
bonzinhos, mas são design do Senhor. (Made by Lord) Da formiga ao elefante não dá pra dizer esta
ou aquela espécie não foram criadas pelo Senhor, o maior e único criador de todos os tempos.

Só que existe uma situação complicada para o compositor religioso: muitas vezes em suas
experiências criativas o compositor mistura elementos musicais e chega a um resultado que é
semelhante a algum estilo que já existe e já esta vinculado a algum significado mundano. Este
compositor pelo fato de procurar ser um cristão consagrado e viver distante do mundo desconhece
qual o significado que aquele estilo ou combinação de elementos tem para as pessoas e ao

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apresentar a sua música para a sua geração o choque é inevitável.
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09. Este choque incomoda a quem?


As pessoas mais atingidas ou incomodadas por esta nova música, são justamente aqueles cuja
música/significado exerceu ou ainda exerce fascínio, aquilo que nos incomoda nos outros pode ser
o nosso ponto fraco.

Geralmente boa parte das pessoas que mais se "preocupam" com a música na igreja são aquelas
cuja vida foi marcada com experiências questionáveis associadas a música. Vou dar outro exemplo:
sabe aquele jovem que se desviou da igreja e foi a todo tipo de ambiente ruim e em todos os lugares
ele viu e ouviu música tocada em um piano de cauda branco, no dia que ele voltar para a igreja, se
os irmãos resolverem comprar um piano novo para a igreja, pode ter certeza de que o jovem fará de
tudo para influenciar na escolha da cor evitando o branco, pois esta cor lhe remete a recordações
que não condizem com sua nova vida.

Muitas vezes a pessoa não viveu e nem teve experiências no mundo, mas as presenciou através de
filmes, propagandas e outros programas de televisão e associação ou vínculo foi feito, e uma vez
ocorrido é para sempre a não ser que se faça uma auto-desprogramação mental.

Ainda está entre nós um famoso e influente Pastor da Igreja Adventista, que apreciava fazer
sermões sobre a música na igreja na década de 70-80. Este pastor era o maior combatente dos
Heritage Singers no púlpito, mas seus sermões eram só fachada pois na intimidade ele era o maior
colecionador de discos dos Heritage e até suas filhas só ouviam e cantavam no colégio as músicas
dos Heritage Singers.
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10. E o gosto de Deus?


Existem aqueles que ao ouvir uma música num estilo que não gostam devido ao significado evocado
(convém lembrar que é algo puramente pessoal), invocam a volta da presença do Senhor, como que
o seu gosto pessoal também é o de Deus. Será que o Senhor realmente se retirou da sua igreja? Ou
o pensamento daquele ouvinte que se desviou das coisas do Senhor? É correto achar que o nosso
gosto é similar ao de Deus?

Nós só saberemos o gosto musical de Deus quando estivermos na nova terra, tudo que existe de
música até hoje foi copiado, modificado ou misturado. O nosso cérebro é um liquidificador que
mistura tudo aquilo que ouve e transforma numa coisa nova fruto da combinação daquilo que é
conhecido. Na literatura e artes em geral acontece o mesmo, Até a Irmã White foi influenciada pelos
escritos de sua época. Com os profetas da Bíblia aconteceu o mesmo, um profeta educado como
Paulo produziu um texto muito mais refinado do que um pescador.
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11. Se existisse uma música santa quais seriam as consequências?


Não é possível estabelecer uma nova música diferente do mundo ou música santa, para isso
acontecer os compositores precisariam esquecer tudo que ouviram e ao mesmo tempo ouvir uma
amostra da música santa e com esta referência criar suas novas composições. Seria preciso também
que os ouvintes se acostumassem com esta forma musical e se condicionassem a ela. Uma nova
música realmente diferente só seria possível com novas escalas musicais, 20 ou 30 notas ou quem
sabe 7 notas perfeitas, 2300 novos instrumentos, 666 ritmos, e assim por diante. Será que é
possível?

O que estou dizendo é que tentar fazer uma nova linguagem para a comunicação entre os santos
produziria muitos problemas. Em primeiro lugar os ímpios não compreenderiam o que estaríamos
comunicando e não teríamos como usar a música e ou a linguagem santa para levar as boas novas
da salvação. Em segundo, é só Deus que pode criar esta música ou linguagem santa, pois qualquer
homem que ousasse fazer isto seria criticado por tentar ser ou tomar o lugar de Deus.

Será que a música, velha, desgastada, em desuso pelo mundo é a melhor para comunicar a salvação
por meio de Jesus? Ou será que podemos usar o novo as novas tendências musicais para comunicar
Jesus?
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12. Qual a solução para esta Torre de Babel musical?


Se encararmos a música como uma linguagem é muito mais fácil entender a torre da babel que é o
nosso mundo de hoje. Como aconteceu no tempo dos apóstolos no dia de Petencostes em que os
discípulos pregaram na língua que sabiam as boas novas aos povos de todas as partes do mundo e
através do Espírito Santo todos entenderam a mensagem. É só através do Espírito Santo que
pessoas com cultura, formação e gosto musical diferentes conseguem compreender, sentir e
apreciar a mensagem que é conduzida através da música. Música (notas, timbres, ritmos, harmonia,
melodia) são produtos humanos.

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Se Jesus tivesse deixado composições escritas seria tão fácil resolver este problema. Mas Jesus
tinha outras prioridades e deixou esta missão para o Consolador. Por que não pedimos a cada
momento da vida que o Espírito Santos nos ilumine e ajude a escolher com sabedoria a melhor
música para aquela ocasião?
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13. O ritmo, África e racismo


Existe também um preconceito velado de que a música do céu é a música WASP (White Anglo-Saxon
Protestant) Branco, Inglês ou Alemão e Protestante. Estas pessoas que pensam desta forma tem o
mesmo raciocínio que inspirou os movimentos radicais racistas, tais como Hitler, Ku-Klux-Klan, etc.

Dizer que o produto cultural proveniente da Africa é do inimigo é também uma forma velada de
racismo. Nas igrejas Adventistas Brasileiras se aceita hinos folclóricos Escoceses, Irlandeses,
Americanos, Franceses, Alemães, etc., mas o folclore indígena Brasileiro ou Africano é considerado
elemento estranho. Qual a diferença? Por acaso os Europeus ou Americanos são mais santos que os
Africanos ou Nativos Brasileiros? Quem foram os maiores destruidores e exploradores da África e da
América do Sul?

Como a música africana é predominantemente rítmica e o ritmo para alguns pertence ao inimigo, a
conclusão que se chega por comparação é de que a África é a terra do inimigo. Será que está certo?
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14. A Bíblia e o ritmo


Foi Deus quem fez o pulsar do coração, quando estamos alegres e entusiasmados o nosso coração
bate mais rápido, já quando estamos calmos e reflexivos o coração bate mais devagar. Alguém já
tentou escrever o ritmo das folhas caindo no chão, ou do trote de um cavalo, ou das ondas do mar.
O ritmo é parte da vida.

Penso que a igreja deveria rever a questão da percussão na igreja. Um exército não marcha direito
se não tiver um tarol, um prato e um bumbo, uma orquestra não toca junto se não tiver um Maestro
e uma boa seção de percussão.

A música da igreja teria outra vida se tivesse percussão. O Salmo 150 não deixa dúvida: Louvai a
Deus com instrumentos de percussão, mas parece que hoje em dia a Bíblia se tornou uma luz menor
para nossos líderes e por isso é difícil colocá-la em prática. E o nosso louvor sem percussão é uma
coisa morta sem vida, arrastada bem no espírito da igreja de Laodicéia.
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15. Conclusão
Como compositor, eu, Flávio Santos, juntamente com os meus colegas Adventistas: Ariney de
Oliveira, Alexandre Reichert Filho, Clayton Nunes, Dino Nolasco, Enoque Júnior, Evaldo Vicente, Enio
Monteiro, Frederico Gerling Júnior, Henoch Thomas, Jader Santos,Jane Leitzke, José Geraldo de
Lima, Lineu Soares, Lucas Pimentel, Kleber Augusto, Mário Jorge Lima, Pablo Sanches, Pedro
Marques, Valdecir S. Lima, Williams Costa Júnior,Raimundo Martins, Ronnye Dias, Silmar Correa,
Wanderson Paiva, Wiliam Gomes, (e vários outros compositores e músicos cujo nome não lembro
agora, mas que têm dado a sua contribuição para a música adventista) temos enfrentado críticas,
julgamentos e incompreensão da parte de alguns membros da igreja.

Infelizmente, alguns dos nossos companheiros até já desanimaram da fé. Outros são humanos e por
isso erraram e poderão errar. Mas o legado que eles tem deixado para a igreja Adventista Brasileira
é inestimável...

Nenhum outro país Adventista no mundo tem a música e os músicos que temos e o crescimento da
nossa igreja não teria acontecido sem a música.

As notas que escrevemos, nossas composições, são produtos humanos. Ficam velhas, caem em
desuso também. O que vale é a mensagem que tentamos comunicar, pois a música como todas as
coisas são passageiras, mas o evangelho é eterno.

Cada vez que estudamos a evolução ou degeneração da música percebemos que o ouvido humano
está degradando da mesma forma que a nossa visão. Os nossos óculos auditivos são os sistemas de
som Yamaha ou Mackie. Os acordes estão cada vez mais complexos pois o acorde simples já não nos
agrada.

Na verdade, em nossa degradação auditiva não ouvimos mais os harmônicos contidos em uma nota
musical de um acorde e por isso compensamos acrescentando mais sons aos acordes. Todos aqueles
que estudam a matéria física sabem do que se trata a série harmônica. Da mesma forma que cores
combinadas formam outra cor. Dentro de uma nota Lá 440, várias outras freqüencias estão soando
simultaneamente.

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Quando se olha o verde não se vê o azul nem o amarelo, mas eles estão lá. Já não ouvimos mais a
série harmônica, mas ela está lá e é infinita.

Quem já mexeu em um Orgão Hammond sabe que uma nota musical muda totalmente de cor,
quando o seus registros são alterados. Quando acrescentamos ou tiramos o registro de oitava,
quinta, terça, etc, estamos simplesmente modificando a quantidade de amplitude ou volume
freqüências contidas no som original.

Cada vez mais estou convencido que não estamos prontos para a música do Céu. Nossos ouvidos
são muito limitados. O Rap é um estilo que demonstra o quanto nossos jovens não ouvem e não
distinguem mais as notas ou tons musicais e por isso não faz diferença ter ou não melodia. Para
aqueles que não percebem a diferença entre um dó e um ré a melhor música para pregar as boas
novas é um Rap que é toda falada.

Por isso, convoco todos aqueles que criticam os "Reis do Gospel", ao invés de falar, proibir,
intimidar, distorcer, tirar textos do contexto só para defender seu gosto musical: estudem música,
façam e componham novas músicas, formem grupos musicais, publiquem e coloquem a disposição
da igreja o seu trabalho.

Coloquem em prática suas teorias. E não percam tempo tentando adivinhar o gosto de Deus ou
tentando criar a música santa ou separada do mundo, pois mais cedo ou tarde vocês vão descobrir
que é impossível fazer música sem emprestar elementos de outros estilos musicais sejam eles
ligados à elite ou ao povão.

E mais procurem um veículo de comunicação eficiente, pois se o receptor não compreende a


mensagem enviada, a comunicação será sem efeito. Vocês descobrirão que, em alguns casos, a
única música que alcança alguns tipos de pessoas são o Rap, o Samba, o Funk, o Erudito, o Gospel, a
Bossa Nova, o Coral Alemão, o New Age, o Jazz, o Pagode, ou qualquer nome que se venha a
designar os estilos musicais.

H.M.S Richards ao fundar o programa da A Voz da Profecia escolheu um meio de comunicação que
pra muitos era o próprio demônio falando através de uma caixa. E o estilo musical era o das
Barbearias, (Barbershops), um estilo extremamente popular e mundano para o início do século.
Hoje aquela música é lembrada como um modelo de espiritualidade e de boa música religiosa. Será
que no início do século ela era vista da mesma forma???

O dia que a música santa ou a música do Céu for instituída por homens aqui na terra, almejo estar
descansando e aguardando a volta de Jesus, quando seremos realmente um só povo, uma só língua
e uma só música.

Você que está lendo esta mensagem e concorda com o que digo não se cale, escreva, cante, fale,
ilumine ao seu redor e ajude a mudar esta igreja que está impregnada do espírito farisaico que até
mesmo Jesus rejeitou nos dias em que esteve aqui na terra.

Muitas vezes queremos dedicar a Deus o fruto de nossas mãos tal como a oferta de Caim, e
esquecemos que a oferta de Abel foi a que Deus pediu. Muitas vezes usamos a música, a técnica, a
retórica, a crítica para mostrar o quanto somos superiores ao mundo enquanto Deus no pede para
sermos uma influência positiva para o mundo através do amor e através da missão de comunicar as
boas novas (o amor de Deus, que enviou o seu filho amado...) ao mundo todo.

Enquanto limitarmos a linguagem usada a um estilo musical ultrapassado: estaremos andando para
trás... Já na Adoração penso que o contato diário com o Senhor nos dará discernimento para
escolher músicas apropriadas para o Louvor e Adoração. E se ainda não possuímos sabedoria e
discernimento, é de joelhos que os alcançaremos.

Um abraço.

Mais uma coisa: por gentileza não distorçam minhas palavras, não tirem frases do contexto e nem
mesmo concluam fatos, pois este texto não foi feito para gerar especulações e adivinhações.

Flávio Santos