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Fabricador
de instrumentos de trabalho,
de habitações,
de culturas e sociedades,
o homem é também
agente transformador
da história.
Mas qual será o lugar
do homem na história
e o da história na vida
do homem ?

à
LUGARDAHISTÓRIA
1. A NOVA HISTÓRIA, Jacques Le Goff, Le Roy Ladurie, Georges Duby e outros
2. PARA UMA HISTÓRIA ANTROPOL0GICA,W. G I., Randles, Nathan Wachtel e outros
3. A CONCEPÇÃO MARXISTA DA HISTÓRIA, Helmut Fleischer
4. SENHORIO E FEUDALIDADE NA IDADE MÉDIA, Guy Fourquin
5. EXPLICAR O FASCISMO,Renzo de Felice
6. A SOCIEDADE FEUDAL, Marc Bloch
7. O FIM DO MUNDO ANTIGO E O PRINCÍPIO DA IDADE MÉDIA, Ferdinand Lot
8. O ANO MIL,Georges Duby
9. ZAPATA E A REVOLUÇÃO MEXICANA, John Womarck Jr.
10. HISTÓRIA DO CRISTIANISMO, Ambrogio Donini
11. A IGREJA EAEXPANSÃO IBÉRICA, C. R. Boxer
12. HISTÓRIA ECONÓMICA DO OCIDENTE MEDIEVAL, Guy Fouquin
13. GUIA DE HISTÓRIA UNIVERSAL, Jacques Herman
15. INTRODUÇÃO À ARQUEOLOGIA, Carl-Axel Moberg
16. A DECADÊNCIA DO IMPÉRIO DA PIMENTA, A. R. Disney
17. O FEUDALISMO, UM HORIZONTE TEÓRICO, Alain Guerreau
18. A ÍNDIA PORTUGUESA EM MEADOS DO SÉC. XVII, C. R. Boxer
19. REFLEXÕES SOBRE A HISTÓRIA, Jacques Le Goff
20. COMO SE ESCREVE A HISTÓRIA, Paul Veyne
21. HISTÓRIA ECONÓMICA DA EUROPA PRÉ-INDUSTRIAL, Carlo Cipolla
22. MONTAILLOU, CÁTAROS E CATÓLICOS NUM A ALDEIA FRANCES A( 1294-1324), E. Le Roy Ladurie
23. OS GREGOS ANTIGOS, M. I. Finley
24. O MARAVILHOSO E O QUOTIDIANO NO OCIDENTE MEDIEVAL, Jacques Le Goff
25. INSTITUIÇÕES GREGAS, Claude Mossé
26. A REFORMA NA IDADE MÉDIA , Brenda Bolton
27. ECONOMIA E SOCIEDADE NA GRÉCIA ANTIGA, Michel Austin e Pierre Vidal Naquet
28. O TEATRO ANTIGO, Pierre Grimai
29. A REVOLUÇÃO INDUSTRIAL NA EUROPA DO SÉCULO XIX, Tom Kemp
30. O MUNDO HELENÍSTICO, Pierre Lévêque
31. ACREDITARAM OS GREGOS NOS SEUS MITOS?, Paul Veyne
32. ECONOMIA RURAL E VIDA NO CAMPO NO OCIDENTE MEDIEVAL, (Vol. I), Geoges Duby
33. OUTONO DA IDADE MÉDIA, OU PRIMAVERA DOS NOVOS TEMPOS?, Phillippe Wolff
34. A CIVILIZAÇÃO ROMANA, Pierre Grimai
35. ECONOMIA RURAL E VIDA NO CAMPO NO OCIDENTE MEDIEVAL (Vol. II), Geoges Duby
36. PENSAR A REVOLUÇÃO FRANCESA, François Furet
37. A GRÉCIA ARCAICA DE HOMERO A ÉSQUILO (Séculos VIII-VI a. c.), Claude Mossé
38. ENSAIOS DE EGO-HISTÓRIA,Pierre Nora, Maurice Agulhon, Pierre Chaunu, Georges Duby, Raoul
Girardet, Jacques Le Goff, Michelle Perrot, René Rémond
39. ASPECTOS DA ANTIGUIDADE, Moses I. Finley
40. A CRISTANDADE NO OCIDENTE 1400-1700, John Bossy
41. AS PRIMEIRAS CIVILIZAÇÕES - 1OS IMPÉRIOS DO BRONZE, Pierre Lévêque
42. AS PRIMEIRAS CIVILIZAÇÕES - IIA MESOPOTÂNIA/ OS HITITAS, Pierre Lévêque
43. AS PRIMEIRAS CIVILIZAÇÕES - III OS INDO-EUROPEUS E OS SEMITAS, Pierre Lévêque
44. O FRUTO PROIBIDO, Marcel Bemos, Charles de la Roncière, Jean Guyon, Philipe Lécrivain
45. AS MÁQUINAS DO TEMPO, Carlo M. Cipolla
46. HISTÓRIA DA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL 1914-1918, Marc Ferro
47. A GRÉCIA ANTIGA, José Ribeiro Ferreira
48. A SOCIEDADE ROMANA, Paul Veyne
49. O TEMPO DAS REFORMAS (1250-1550) - Vol. I, Pierre Chaunu
50. O TEMPO DAS REFORMAS (1250-1550) - Vol. II, Pierre Chaunu
51. INTRODUÇÃO AO ESTUDO DA HISTÓRIA ECONÓMICA, Cario M. Cipolla
52. POLÍTICA NO MUNDO ANTIGO, M. 1. Finley
53. O SÉCULO DE AUGUSTO, Pierre Grimai
54. O CIDADÃO NA GRÉCIA ANTIGA, Claude Mossé
55. O IMPÉRIO ROMANO, Pierre Grimai
56. A TRAGÉDIA GREGA, Jacqueline de Romilly
57. HISTÓRIA E MEMÓRIA-Vol. I, Jacques Le Goff
58. HISTÓRIAEMEMÓRIA-Vol.Il,JacquesLeGoff
59. HOMERO, Jacqueline de Romilly
60. A IGREJA NO OCIDENTE, Mireille Baumgartner
61. AS CIDADES ROMANAS, Pierre Grimai
62. A CIVILIZAÇÃO GREGA, François Chamoux
63. A CIVILIZAÇÃO DO RENASCIMENTO, Jean Delumeau
64. A GRÉCIA ANTIGA, José Ribeiro Ferreira
AGRÉCIA
ANTIGA

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José Ribeiro Ferreira e Edições 70, 2004

Capa de José Manuel Reis

Depósito Legal n.° 216465/04

ISBN; 972-44-1219-9
ISBN da 1“ edição: 972-44-0869-8
Era 0 número 47 da mesma colecção

Paginação, impressão e acabamento: CASAGRAF


para
EDIÇÕES 70, LDA.
em Setembro de 2004

EDIÇÕES 70, Lda.


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Esta obra está protegida pela lei. Não pode ser reproduzida
no todo ou em parte, qualquer que seja o modo utilizado,
incluindo fotocópia e xerocópia, sem prévia autorização do Editor.
Qualquer transgressão à Lei dos Direitos do Autor será passível de
procedimento judicial.
José Ribeiro Ferreira

AG R E C IA
A N T IG A
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PREFACIO

Endereçou-me o Museu Calouste Gulbenkian o convite para participar


num ciclo de lições sobre A Grécia Antiga. Em torno da pólis: socie­
dade e moeda. De colaboração com o Dr. Mário de Castro Hipólito,
com uma periodicidade semanal, as lições prolongaram-se de Outubro
de 1991 a Janeiro de 1992: «A pólis grega: sistema de vida e mestra do
homem» (24. 10. 1991); «A época arcaica: crises de crescimento» (31.
10. 1991); «A questão da origem da moeda: dados e problemas» (7. 11.
1991); «Amoeda na época arcaica: características gerais» (14.11.1991);
«A democracia grega: a procura da igualdade» (21.10.1991); «A Simaquia
de Delos e a hegemonia ateniense» (28.11.1991); «As moedas do século
V: 0 triunfo do classicismo» (5. 12.1992); «Atenas durante a Guerra do
Peloponeso» (12. 12. 1991); «A guerra e a paz na pólis grega» (19. 12.
1991); «As moedas dos finais da época clássica: tradição e inovação»
(9.1.1992) ; «O período helenístico: uma época de refinamento, fusão e
difusão cultural» (16. 1. 1992); «As moedas da época helenística» (23.
1.1992); «A influência da Grécia na Revolução Francesa: alguns aspectos»
(30.1.1992) . Por amável anuência e colaboração da Fundação Calouste
Gulbenkian, este ciclo foi depois repetido, em parte, no Instituto de Estudos
Clássicos da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de 9 de
Março a 18 de Maio.
Possui o Museu dessa instituição, como é sabido, uma numerosa e rica
colecção de moedas gregas, de cujo catálogo saíra dois anos antes o II
volume A Catalogue o f the Calouste Gulbenkian Collection o f Greek
Coins (Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 1989), distinguido com
um prémio anual da Associação Internacional dosNumismatas Profissionais
para o ano de 1990 - prémio que foi entregue no decurso dos trabalhos
do XI Congresso Internacional de Numismática, reunido em Bruxelas,
em Setembro de 1991. Pretendeu por isso o Museu realçar o facto e
chamar ao mesmo tempo a atenção para o seu rico espólio numismático.
Felicito-o pela iniciativa e agradeço o honroso convite para nela participar.
A Grécia Antiga. Sociedade e Política tem por base as lições que
então proferi, com excepção da última «A influência da Grécia na Revo-
A GRÉCIA ANTIGA

lução Francesa: alguns aspectos». Cada uma delas - com alterações


ligeiras ou substanciais - passou a formar um capítulo do presente vo­
lume. Alguns deles já se encontram de momento publicados - caso de
«A hegemonia de Atenas» {Conimbriga 28,1989, pp. 33-51), «O fascínio
do poder: o paradigma de Atenas durante a guerra do Peloponeso» {Biblos
65,1989, pp. 267-292) e «A guerra e a paz na pólis grega» {Máthesis 1,
1992, pp. 69-87) - e outros aproveitam dados ou partes de trabalhos já
editados. «A pólis grega: um sistema de vida e mestra do homem» retoma
dados de Hélade e Helenos. 1 - Génese e evolução de um conceito
(Coimbra, 1983); «A' época arcaica: crises de crescimento» aproveita
parte de Da Atenas do século VII a. C. às reformas de Sólon (Coimbra,
1988), «A democracia ateniense: a busca da igualdade» baseia-se em
«As reformas de Clístenes» {Biblos 63,1987, pp. \19-\99),Participação
e poder na democracia grega (Coimbra, 1990), A Democracia na
Grécia Antiga (Minerva, Coimbra, 1990).
Nos tennos técnicos gregos optei pelo seguinte critério: os que se
encontram já registados nos dicionários - como demo (de dêmos), no
sentido de “circunscrição autárquica” de Atenas, heteria (de hetairia),
“espécie de sociedade política secreta”,/»r/towe - usei-os em caracteres
normais, sem qualquer distinção. Os restantes, transcrevi-os em itálico:
caso de dêmos, no sentido de “povo”, Ecclesia (Assembleia), phyle
(tribo), genos (estirpe), nomos (lei), entre outros. Daí o diferente trata­
mento que foi dado ao tenuo grego Sqpos,
Para designar a magistratura mais importante da Atenas do século V
a. C., usei a fonna estratégia, com a acentuação grega, por o tenuo
estratégia designar hoje uma realidade bem distinta.
A génese do livro - fruto da reunião de um conjunto de palestras -
explica algumas das suas características, em especial a retoma em cada
capítulo de assuntos e elementos já focados nos anteriores.

Além do agradecimento à Fundação Calouste Gulbenkian que teve


papel de relevo na gênese deste trabalho e às Edições 70 que o acolheram
na sua colecção “Lugar da História”, desejo expressar a minha gratidão
aos amigos que, por diversas vias, me ajudaram na construção do livro.
De modo especial, à Professora Doutora M. H. Rocha Pereira agradeço
as sugestões e observações que me ajudaram a aclarar questões e factos;
ao Dr. Mário de Castro Hipólito, a colaboração prestada, as sugestões e
sobretudo a nota sobre a origem da moeda, que vai em apêndice ao
capítulo II.
Coimbra, 14 de Setembro de 1992
10
PREFACIO à 2." Edição

Esta segunda edição de A Grécia Antiga. Sociedade e Política


mantém o fundamental da primeira. Apenas houve actualização relativa­
mente aos dados de novas descobertas arqueológicas ou às doutrinas
entretanto surgidas, em relação à pólis e à democracia ateniense. O texto
foi aclarado em um ou outro passo e teve-se em conta vária da abundante
bibliografia que saiu desde 1992 até 2004. Procedeu-se também à
correcção das gralhas e lapsos detectados na edição anterior.

Coimbra, Julho de 2004

11
A POLIS GREGA

Sistema de Vida e Mestra do Homem

A Grécia antiga estava dividida num número considerável de pequenos


Estados independentes, alguns de reduzido espaço territorial e de escasso
volume populacional. Se Esparta e Atenas constituíam excepções - a
primeira, caso único e especial, com cerca de 8400 km^ depois da
conquista da Messénia, e a segunda a rondar os 2650 km^ -, todos os
outros Estados não atingiam o milhar de quilômetros quadrados e alguns
nem sequer a centena. Destaco Delos - constituído pelas ilhas de Delos
e de Reneia - que rondava os vinte e dois quilômetros quadrados (‘).
Quanto à população, apesar de serem falíveis e oscilantes as cifras e
estatísticas para essa época, o seu número era sempre relativamente
reduzido.
A esse Estado autônomo e autárcico davam os Helenos o nome de
pôlis, que de modo geral aparece traduzido nas várias línguas ora por
“cidade-estado”, ora por “cidade” apenas 0 . Nenhuma destas desig­
nações corresponde, no entanto, exactamente ao sentido do tenno grego
e, tanto uma como outra, pode gerar, além disso, confusão. A pôlis não se
refere apenas ao Estado e, quase sempre uma povoação de reduzidas
dimensões, de modo algum entra no nosso conceito moderno de cidade
como grande aglomerado urbano. Como veremos, a pôlis não se reduz à
urbe apenas, mas implica algo mais amplo que, num todo homogêneo.

(') Alguns exemplos elucidativos quanto à reduzida extensão da maioria dos Estados
gregos (os números dados indicam quilômetros quadrados); a Beócia, com 2 580, comportava
dez pólels e mais tarde vinte; a Fócida, com uma superfície de 1 575, tinha 22 cidades,
cada uma a rondar os cerca de 70; Corinto, uma grande pôlis, com cerca de 880; Sícion com
360; Fliunte com cerca de 175; Egina com 85; Meios com 152; a Eubeia possuía oito
cidades, o que dava uma média de 460 para cada uma; em Lesbos, uma ilha com 1750,
havia 6 pôleis; Ceos, com 24 km de comprimento e 13 de largura, esteve dividida em três
pôleis independentes, durante grande parte da sua história. Vide V. Ehrenberg, L ’état
grec, Paris, Maspero, 1976), pp. 59-66.
(^) City-state, em inglês; Stadt-staat, em alemão; cité, em francês; città, em italiano. O
português oscila entre cidade-estado e cidade apenas.

13
A GRÉCIA ANTIGA

além da parte urbana, abrange também terras de cultivo e bosques ou


zonas de pastoreio: a chamada terra cívica. Segundo Snodgrass, a pólis
constituía uma unidade política autônoma que incorporava um aglomerado
urbano e seu território como partes inseparáveis dessa unidade (^). Em
face do que acabo de expor, vou servir-me por sistema do termo grego.
Os exemplos que vou dar são, intencionalmente, de épocas diferentes, já
que as póleis (plural de pólis), apesar de uma transformação considerável
sobretudo ao longo da época arcaica, apresentam traços comuns até que
desaparecem nos fins do século IV a. C. com a formação dos reinos
helenísticos.

A pólis era o concreto dos cidadãos, todos, e não o Estado como


entidade jurídica abstracta - noção que, como se sabe, não estava ainda
formada. Os Gregos não a designavam, como actualmente, pelo nome
do país - por exemplo Esparta, Atenas, Corinto - , mas pelo concreto dos
que nele viviam e o formavam: os Espartanos ou Lacedemónios, os
Atenienses, os Coríntios. É o etnónimo que aparece consignado nos textos
e nos tratados e não o topónimo. Para o Grego, os cidadãos é que
interessavam; eram eles que constituíam o cerne da pólis e não o
aglomerado urbano. Alceu, um poeta da segunda metade do século VII
e primeira do VI a. C., afmna claramente que não são as muralhas e as
casas que constituem a pólis, mas os homens (Fr. 426 Lobel-Page). Não
menos significativo é um passo de Tucídides (7.77.7). Atenas decretara
a conhecida expedição à Sicília (415-413 a. C.), de trágicas consequências.
Passados cerca de dois anos de confrontos, as operações não corriam
de feição para a cidade e seus aliados. As forças encontravam-se
desmoralizadas e a expedição caminhava para o fracasso. É nessa
circunstância que Nícias, chefe das forças atenienses, se dirige aos
soldados antes da batalha decisiva, lembrando-lhes a necessidade de
serem valentes, porque não encontram na vizinhança lugar onde possam
escapar, se fraquejarem, e porque se lhes oferece a possibilidade, se
vencerem, de restaurar o poderio da pólis, por enfraquecida que esteja.
E conclui o discurso nestes termos elucidativos:

E que a pólis são os cidadãos e não as muralhas nem os barcos viúvos de


homens.

(b Archaeology and the rise o f the Greek State (Cambridge University Press,
1977), p. 7.

14
A POLIS GREGA

O aglomerado urbano e o território apareciam apenas como o local


em que os homens construíam uma comunidade de hábitos, normas e
crenças. Daí admitir-se que a pólis seja transferível para outro sítio.
Heródoto conta um episódio esclarecedor a tal respeito. Decorria a
segunda invasão persa, comandada por Xerxes, - que, como é sabido, se
verificou de 480 a 479 a. C. Os Estados gregos, não na sua totalidade,
mas na maioria, perante tal ameaça haviam constituído uma aliança,
para enfrentarem em conjunto o invasor. Discutia-se, no momento, qual
a melhor táctica a seguir. Pretendiam os Espartanos que as forças aliadas
se retirassem para o Peloponeso, construíssem uma muralha no Istmo
de Corinto e, desse modo, tentassem impedir a progressão do poderoso
exército persa. Alegavam que só assim conseguiriam evitar a derrota e a
consequente perda da liberdade. Mas uma decisão dessas equivaleria a
entregar a maior parte da Hélade aos Persas, incluindo a Ática. Temís-
tocles, dirigente de Atenas na altura e comandante das suas forças,
discordava dessa estratégia e queria que se enfrentasse Xerxes na parte
continental e no mar, por entender que os Gregos tinham mais possibilidades
num confronto naval ('*). Para fazer valer a sua táctica, ameaça abandonar
a causa grega e transferir a pólis ateniense para outro lugar. Nestes ter­
mos se dirige ao rei espartano que comandava as forças gregas (6. 82):
Se tu permaneces aqui, serás um homem de bem, mas se não o fizeres
arruinarás a Hélade, já que todas as nossas possibilidades nesta guerra
se encontram nos navios. Vá, segue o meu conselho. Se não atendes ao
que te digo, nós recolheremos as nossas famílias e nos transferiremos
para Siris, na Itália.
Daqui se deduz que a pólis tinha também o sentido de povo, com ou
sem associação política. Dos numerosos exemplos {e. g. Tucídides 2.
39. 1 e 4), vejamos dois tirados á-àAntígona e do Rei Èdipo de Sófocles.
Na primeira das referidas tragédias, Creonte vem expor o seu programa
de governo e anuncia o édito que proibia as honras fúnebres a Polinices
e condenava à morte quem, contra tal determinação, lhas prestasse. O
rei expressa-se deste modo (vv. 203-205):
Foi proclamado à pólis que ele as honras fúnebres
não recebería nem pessoa alguma o lamentaria,
mas seria deixado insepulto...

f ) Sobre Temístocles vide os capítulos “A democracia ateniense: a busca da igualdade”


e “A Simaquia de Delos e a hegemonia ateniense”.

15
A GRÉCIA ANTIGA

Ou seja “foi feita uma proclamação pública, a todo o povo”, a toda a


população.
No Rei Éáipo, o protagonista, ao tentar descobrir o assassino de
Laio, sabe por Jocasta que este foi morto por ladrões num cruzamento
de três caminhos, segundo contara um escravo que acompanhava na
altura o rei (vv. 715-716). Edipo então, como também matara mas
sozinho — um homem na mesma encruzilhada, enche-se de receio e
pede que lhe tragam o escravo, para que este confirme se Laio fora
morto por uma ou mais pessoas. Ao que Jocasta responde (w . 848-850):

F ica sabendo que d esse m odo fo i feito o relato


e não lhe é p o ssív el agora desdizê-lo:
toda a p ó lis o ouviu, não apenas eu.

Ou seja: Jocasta pretende dizer que não foi ela sozinha a escutá-lo,
mas “toda a população”.
Se nestes dois exemplos o termo designa povo, como entidade que
se distingue do Estado, em outros passos surge com o sentido de entidade
política. Dou um exemplo de Tucídides e outro de Demóstenes. Na
“Oração fúnebre” em honra dos Atenienses mortos nos primeiros anos
da Guerra do Peloponeso que o historiador coloca na boca de Péricles,
este estadista faz o elogio da constituição ateniense e refere que o poder
da pólis, em virtude das suas qualidades, corresponde à verdade dos
factos: é a única que, posta à prova, se mostra superior à fama que
possui e não provoca irritação ao inimigo, quando invadida, nem censura
aos que submete. (2. 41. 2-3).
Demóstenes, no discurso Contra Mídias 45, elucida que todo o acto
de violência ou insolência é passível de uma acusação pública apresentada
por alguém que o queira, visto a lei considerar que quem recorre à violência
comete uma injustiça contra a pólis e não apenas contra a vítima.
E assim temos que a pólis aparece primordialmente como os cidadãos
concretos e pode apresentar o sentido de povo, entendido simplesmente
como o conjunto das pessoas que a habitam ou como entidade política.
Mas a pólis englobava ainda a vida econômica e não se concebia desligada
da religião. Segundo Péricles, no discurso acima referido, que lhe atribui
Tucídides, devido à grandeza da pólis - ou seja à sua riqueza e prospe­
ridade - , afluern a Atenas produtos da terra inteira, o que permite que os
habitantes desfrutem tanto dos bens locais como dos de outros países.
Hoje tende-se a aceitar o princípio de que o Estado deve estar separado
da religião, matéria que pertencería ao foro íntimo e à consciência de
cada um. Tal ideia era impensável para os Gregos, que consideravam a
16
A POLIS GREGA

religião - embora não em todas as suas formas (^) - parte integrante e


nuclear na pólis e as cerimónias e actos do culto funções da alçada dos
governantes. Se os deuses olímpicos eram adorados por todos os Gregos
e tinham carácter pan-helénico, cada pólis prestava com frequência cultos
privados a esses deuses, distintos dos das restantes; tinha os seus heróis
que eram objecto de culto e possuía uma divindade políade ou protectora:
caso da deusa Atena para Atenas e de Hera para Argos. Como não havia
sacerdotes, no sentido que hoje damos ao termo, os rituais do culto e os
sacrifícios eram executados pelos governantes. A ligação da religião à
pólis era tão íntima que os Gregos pensavam que as divindades protectoras
a abandonavam no momento em que ela era conquistada. A partir de
então deixava de ser um Estado autónomo e ficaria subjugado a uma
pólis com outra divindade protectora.
Se os aspectos até agora enumerados constituíam traços importantes
da pólis, esta dava primazia à lei e era o meio pelo qual esta se realizava
e satisfazia, quer se tratasse do thesmos, quer do nomos - dois tenuos
que significavam lei, mas que, embora com sentidos idênticos, designavam
realidades diferentes, pelo menos quanto à origem e autoridade (®).
A pólis estava baseada na aceitação absoluta das leis no sentido lato
- incluindo nelas o que nós chamamos a constituição, o conjunto de
regulamentações e normas que enformam a vida da cidade - e de uma
administração despersonalizada.

Para o Grego, o agir de forma emocional, violenta, excessiva e pela


força é próprio de um Bárbaro e está em desacordo com o modo de
actuar de um Heleno que sabe dominar-se e molda o seu comportamento

P) Além da religião oficial da pólis, havia uma religião pessoal e os Mistérios em que
a intervenção do Estado não existia ou era menor. Sobre o assunto vide A. J. Festugière,
Personal religion among the Greeks (Sather Classical Lectures, University o f California
Press, 1954); M. H. Rocha Pereira, Estudos de História da Cultura Clássica. I - Cultura
Grega (Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2003), pp. 306-320.
(®) Vide J. Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos. I - Gênese e Evolução de um Conceito
(Coimbra, 1992), pp. 155 sqq. Segundo M. Ostwald, Nomos and the beginnings o f the
Athenian democracy (Oxford, 1969), p. 19 (citado a partir de agora: M. Ostwald,
Nomos ), thesmos era “a thing imposed by a higher power upon those for whom the
authority o f the imposing agency makes the deagcx; an obligation”. Nomos, por sua vez,
significava “decreto”, “lei escrita” da pólis, produto da votação da vontade da maioria
dos cidadãos, ou seja, não é uma doação de uma entidade superior, mas uma criação da
própria pólis.

17
A GRÉCIA ANTIGA

pela medida e moderação, quer no domínio político quer na actividade


privada C). No primeiro caso, essa razão ou medida, pela qual os Helenos
pautavam o seu procedimento, estava simbolizada na lei que sentiam
como um privilégio que os opunha aos Bárbaros. Para o Grego, deve
apenas obedecer-se à lei e por ela deve a pólis reger-se e cada um mo­
delar 0 seu comportamento, quer seja governante ou simples cidadão. É
o que nos mostra um diálogo de Tíndaro com Menelau no Orestes de
Eurípides. Quando o segundo procura ajudar o protagonista mesmo contra
a lei e a vontade do povo reunido em assembleia, sob a alegação de que
é filho do seu próprio irmão, o primeiro manifesta a sua estranheza (vv.
485-489):

Tíndaro:
Barbarizou-te o tempo passado entre os Bárbaros.
Menelau:
É de um Grego honrar sempre os do seu sangue.
Tíndaro:
Também o é não querer nunca estar acima das leis.
Menelau:
Tudo 0 que vem da obrigação é uma servidão para os sábios.
Tíndaro:
Age tu então desse modo; eu não o farei.

Para Tíndaro, ajudar alguém que se serve da violência e, sem recorrer


às leis, se vinga e faz justiça por suas próprias mãos não é próprio de um
Grego. Por isso, considera que o tempo passado por Menelau entre os
não Gregos - os Bárbaros que não têm por soberano a lei, mas obedecem
a um homem e são por isso seres inferiores - o transformou num deles,
visto que pretende ajudar um criminoso contra a justiça e a vontade da
pólis. À justificação deste de que é um traço do Grego honrar sempre os
do seu sangue, mesmo contra as decisões da justiça e da pólis, replica
que também o é não querer estar acima das leis. A resposta de Menelau
de que a obrigatoriedade {ananké) imposta pelas leis é uma escravidão,
considera-a Tíndaro um juízo que não merece a sua aprovação f ). Está

(9 Sobre a noção de Bárbaro entre os Gregos vide J. Ribeiro Ferreira, Hélade e


Helenos I, pp. 191 sqq.
Q) Este passo tem recebido várias interpretações. Vide Grube, The drama o f Euripides
(London, 1941), pp. 382-383; M. ?oh\enz, Die griechische Tragoi/Ze I (Göttingen, ^ 1954),
p.415;F . Chapoutier e L. Mérlákr, Euripides VI. I-Oreste, (Paris, 1959), p. 52, nota 1;
D. Lanza, “Unità e significato delF OrestQ euripideo”, Dionisio 35 (1961) 60-62; V. di
Benedetto, Euripidis Orestes (Firenze, 1965), ad 485-488 e 489; W. Biehl. Euripides:

18
A POLIS GREGA

aqui subjacente o conhecido tópico da oposição entre physis “natureza”


e nomos “lei”, muito do agrado dos sofistas (^).
O Grego era cioso de ter por único soberano a lei e isso o distingue
proflindamente dos Bárbaros. Daí a estranheza do rei persa, ao saber
que os Lacedemónios não tinham senão a lei por senhor (Heródoto 7.
107) e a de Atossa, nos Persas de Ésquilo, por os Atenienses não obedece­
rem a um chefe. A rainha pretende saber quem mandava nos Atenienses,
contra os quais o filho se propõe combater, e quem era seu chefe; quando
o Coro lhe responde que

De nenhum homem são escravos nem súbditos

a soberana então estranha e duvida que sejam capazes de enfrentar os


Persas (w . 241-243). Por outro lado, não obedecer à lei e derrogá-la era
um acto bárbaro e condenado pelos Gregos. Por isso, responde Demarato
a Xerxes que os Lacedemónios estão sujeitos à lei que temem mais do
que os Persas ao seu soberano (Heródoto 7. 104).
Péricles, na “Oração fúnebre” que lhe atribui Tucídides, põe em realce
a obediência dos Atenienses em relação às leis, especialmente as que
protegiam o oprimido (2.37.3). Uma actividade criadora inspirada pela
liberdade e assegurada pela lei constituía precisamente, como mostra
Bowra, o ideal que esse dirigente pretendia para Atenas ('“). Boa parte
da força da cidade radicava no facto de os seus cidadãos, apesar de
gozarem de grande liberdade, permanecerem observantes da lei, por terem
a consciência de que a desordem ou anarquia favorecia os que odiavam
0 regime ateniense e o queriam destruir. Daí a afirmação de Atena nas
Eiunénides de Ésquilo (w . 696-699):

Uma forma de governo intermédia entre a anarquia e o despotismo, eis o


que eu recomendo aos cidadãos que pratiquem e venerem, e ainda que
não expulsem completamente o temor da sua cidade. Quem observará a
justiça, se nada tiver a recear? (")

Orestes (Berlin, 1965), ad 485,4 8 6 ,4 8 7 e 488; Augusta F. de Oliveira e Silva, Euripides:


Orestes (Coimbra, Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Univ. de Coimbra,
1982), pp. 20-23.
(®) Sobre a oposição nomos/physis vide F. Heinimann, Nomos und Physis (Basel,
1945); W. K. C. Guthrie, History o f Greek philosophy. Ill - Thefifth-century enlighten­
ment (Cambridge University Press, 1969), pp. 55-134; J. de Romilly, La loi dans la
pensée grecque (Paris, Les Belles Lettres, 1971), pp. 73-114.
('“) Vide C. M. Periclean Athens (London, 1970; trad. esp. 1974), pp. 121-128.
(") Ésquilo, Oresteia, tradução de Manuel O. Pulquério, (Lisboa, Edições 70,1990),
p. 220.

19
A GRÉCIA ANTIGA

e a sua longa e persistente tentativa de persuadir as Erínias - divindades


que castigam os crimes de sangue e haviam ficado derrotadas no julga­
mento de Orestes - a não castigarem a cidade e a ficarem em Atenas,
transformadas em Euménides, como protectoras da justiça e guardiãs
das leis e do seu cumprimento (w . 778 sqq.). Sem nada recear, qual
dos mortais seria justo? - proclama Atena.
Mesmo os governantes tinham de obedecer à lei e por ela conformar
a sua actuação - sobretudo eles, porque, como observa e bem Creonte
na Antígona de Sófocles, não se conhece o temperamento e carácter de
um homem antes de se exercitar no poder e na legislação (vv. 175-177).
Esse poder e lei vêm da participação dos cidadãos, sendo nestes que
reside a pólis. Expressamente o declara Nícias no discurso, já referido,
que dirige aos soldados durante a campanha na Sicília: a pólis são os
cidadãos e não as muralhas e os barcos viúvos de homens (Tucídides 7.
77.7). Afirma-o também não menos poderosamente o jovem Hémon na
mQsm^. Antígona, num diálogo significativo com o pai, em que lhe anuncia
que Tebas o não aprova na decisão de condenar Antígona (vv. 733-739):

Hémon:
Não o afirma o povo todo de Tebas.
Creonte:
E é a pólis que me vai dizer o que devo ordenar?
Hémon:
Vês que respondes como se foras uma criança?
Creonte:
É pois outro, e não eu, que deve governar este país?
Hémon:
Nenhuma pólis é pertença de um só homem.
Creonte:
Não se considera que a pólis é de quem manda?
Hémon:
Sozinho, numa terra deserta, é que governarias bem.

De estruturas mentais diferentes, pai e filho têm concepções antagó­


nicas de governação e autoridade, pelo que reagem, em conformidade,
de modo distinto. Naturalmente despótico, Creonte não aceita que algo
ou alguém se lhe oponha ou se sobreponha à sua vontade nem que a
pólis lhe vá ditar o que deve fazer: para ele, esta é de quem manda. No
pensar de Hémon, pelo contrário, nenhuma pólis é pertença de um só
homem: por isso, se o pai não quer ter em conta a opinião dos cidadãos e
deseja proceder de modo ditatorial, devia governar numa terra deserta.
Para Hémon, o poder autocrático é o destruir da pólis. Constitui, de facto.

20
A POLIS GREGA

a negação de tal estrutura aquele que actua como tyrannos, de forma


irresponsável, e baseia o seu agir na própria vontade, sem ter em conta
os costumes tradicionais ou a opinião dos outros, quer de um conselho,
quer de todos os cidadãos (’^).
Ora a tirania era o regime em que os Bárbaros viviam. Por isso se
forma a já referida oposição entre o sistema de pólis dos Helenos, que
tinha por único soberano a lei, e o dos não Gregos. Povos subjugados a
um soberano que tinha sobre eles poder absoluto, constituíam grandes
dynasteiai (Heródoto 7. 135), um regime que, segundo Platão, procura
evitar nos súbditos pensamentos de ousadia ou amizade e uniões dura­
doiras (Symp. 182b) (‘^). Como, por outro lado, os Persas nas suas cam­
panhas contra a Grécia pretenderam restaurar as tiranias (Heródoto 6.
102; 7. 6), não admira que os Helenos associem sistematicamente esse
regime aos Bárbaros e que os Atenienses, à proposta do rei macedónico
Alexandre, aliado dos Persas, de pactuar com Xerxes, respondam que
anseiam pela liberdade e se defenderão até que possam C^^). Os Gregos,
nota-o Aristóteles, eram feitos para viverem em póleis, enquanto os
Bárbaros viviam em ethne {Política 5, 1303a 20-25; 7, 1324a 23-25 e
1326a 2-5 e 22-24).
É natural, por isso, que na literatura grega apareça amiúde a oposição
entre o regime político grego e o dos Bárbaros, mesmo à custa de anacro­
nismos vários. Nas Suplicantes de Ésquilo, em passo citado no capítulo
“A democracia ateniense: a busca da igualdade” (p. 91), Pelasgo refere
não poder socorrer as Danaides sem consultar o povo, já que as conse­
quências recairão sobre toda a cidade. Considera ele que se a pólis inteira
se contamina, deve ser o povo em comum a procurar a solução, pelo que
tem de ser consultado (’^).

Cf. H. D. F. Kitto, The Greeks (London, 1951, repr. 1957), pp. 71-72.
('^) Demócrito, fr. 251 Diels, à apregoada felicidade nas dynasteiai considera preferível
a pobreza na democracia, como a liberdade à escravidão. C f ainda fr. 30 Diels.
Oh C f Heródoto 8. 143.
Aliás a obra de Heródoto narra o confronto entre Gregos e Bárbaros a que se associa
a antítese liberdade/tirania — tirania que incorre em hybris e é castigada pelos deuses.
Ch Vv. 366-369.
Sobre aposição constitucional do rei e possíveis implicações políticas do passo, vide
P. Podlecki, The political background o f Aeschylean tragedy (Michigan, 1966), p. 46;
P. Burian, “Pelasgus and Politics in Aeschylus’ Danaid Trilogy”, Wiener Studien, N. F. 8
(1974) 7; A. S. Garvie, Aeschylus’ Supplices: play and trilogy (Cambridge, 1969),
pp. 150-154; H. F. Johansen and E. W. Aeschylus: The Suppliants II (Copenhagen,
1980), ad 365-369.

21
A GRÉCIA ANTIGA

Pelo contrário, as filhas de Dânao, que não são gregas, supõem que o
rei tem poderes de senhor absoluto:
Tu és a pólis, tu és o povo.
Prítane que ninguém controla,
és senhor do altar, lar comum do país.
O aceno da tua fronte por único sufrágio,
ceptro único em teu trono,
tudo decides. (‘^)

Nestes dois passos, procura-se um contraste entre o sistema de pólis e


0 governo de um senhor despótico, de um soberano absoluto. Essa dico­
tomia é poderosamente acentuada pela linguagem: Pelasgo, que se revela
um rei “democrático”, a “meu lar” (v. 366) e a “eu” (v. 368) contrapõe
“pólis inteira” (v. 366), “povo em comum” (v. 367) e “todos os cidadãos”
(v. 369). Em contraste, as Danaides, com palavras semanticamente ade­
quadas, insistem no poder soberano de Pelasgo, procurando identificá-lo
com o próprio corpo político e repetindo os compostos em que entra o
elemento mono (*’).
No mesmo sentido vai a afirmação de Demofonte, nos Heraclidas
de Eurípides, que, por mais explícita, se toma mais significativa. O rei de
Atenas quer ajudar os filhos de Héracles, mas diz-lhes não o poder fazer
contra a vontade da pólis e de modo a expor-se às suas censuras e
acusações (vv. 423-424):

Não governo em tirania como fazem os Bárbaros.


Por isso, se agir com justiça, com justiça serei tratado.

E, pois, comum a constatação de que se não deve governar de modo


tirânico, mas de acordo com a vontade dos cidadãos, ou seja, com justiça.
Ciosos da sua liberdade e de não obedecerem senão à lei da pólis, os
Gregos viam nesta a garantia e o símbolo daquela. Participar na vida e
no governo da pólis constituía para eles o penhor máximo de liberdade e
nisso residia o viver de acordo com a razão. Em contraste com isso, os
Bárbaros estavam sujeitos à vontade de um homem e eram súbditos de
um soberano (cf Heródoto 7. 103). Viver desse modo era para o Grego
uma vida de escravo. O poder absoluto dos soberanos dos Bárbaros
consideravam-no eles tirania, escravidão a sujeição dos súbditos.

('^) Vv. 370-375.


Para a insistência, visível no passo, na ideia de monocracia a nível linguístico, prosódico
e semântico, vide Johansen-Whittle, Aeschylus: The Suppliants II, pp. 295-297.
CO Vide Johansen-Whittle, The Suppliants II, ad 368-369 e 370-375.

22
A POLIS GREGA

Num passo da Helena de Euripides, encontramos explicitamente


expressa a noção de que a tirania é um regime que transforma em escravos
quantos nele vivem. Aí, a dada altura, a esposa de Menelau, exilada entre
os Egípcios, ela que era livre, lamenta a sua vida actual de escrava longe da
Hélade, já que os Bárbaros são todos escravos com excepção de um ("®).

Em oposição aos Bárbaros o Grego vivia, pois, no sistema de pólis


que tinha por único soberano a lei. A liberdade significava o reinado da
lei e a participação no processo de tomada de decisões; não residia na
posse de direitos inalienáveis. Como observa Finley, não havia o reconhe­
cimento da existência de direitos e de um domínio privado intangíveis
para o Estado (‘®).
A esse propósito são significativas as afinuações de Sócrates no Críton
de Platão, no episódio da “Prosopopeia das Leis” (50a sqq): quando Críton,
na noite anterior à execução do mestre, lhe propõe fugir, Sócrates recusa
como argumento de que as Leis o acusariam de, com tal acção, as deitar
a perder, a elas e a toda a pólis, porque nenhum Estado pode subsistir
quando as sentenças proferidas não têm poder. Não se pode alegar que
a pólis foi injusta, porque ela não é outra coisa senão o conjunto dos cida­
dãos e, por isso, é senhora plena de cada um: graças às suas leis, normas
e costumes ele nasce, é educado e cresce. Por isso as Leis insistem:
E depois de teres nascido e teres sido criado e instruído, poderás afirmar
que não és nosso, nosso filho e nosso escravo, tu e os teus antepassados?
E, se isto é assim, pensas acaso que são iguais os nossos direitos e que
te é lícito fazer-nos, a nós, aquilo que tivermos empreendido contra ti?

Ninguém deve recuar, fiigir ou abandonar o seu posto (51b-c):

mas, no combate, no tribunal, em toda a parte, tem obrigação de executar


o que ordena a pólis e a pátria ou então convencê-la por processos que
sejam justos.

Do que aqui fica exposto, conclui-se que a pólis é uma entidade


multiforme que não se reduz ao Estado, nação ou povo, mas é mais

('*) V. 276. Vide R. Kannicht, Euripides: Helena (Heidelberg, 1969), II, ad 275-276.
C’) Democracy, ancient and modern (London, ^1973), p. 78.
Q^) 50e. Tradução de Manuel O. Pulquério, Platão: Apologia de Sócrates - Críton
(Lisboa, Edições 70, 1997) p. 77. Sobre o passo vide J. Burnet, P lato’s Euthyphro,
Apology o f Socrates and Crito (Oxford, 1924, repr. 1967), pp. 199 sqq.

23
A GRÉCIA ANTIGA

ampla. Péricles, na “Oração fúnebre” que lhe atribui Tucídides e a que já


aludi por mais de uma vez, ao louvar a pólis, como nota Kitto, mais do
que exaltar um povo ou um Estado, faz o elogio de um sistema de vida
que considera a “escola da Hélade” (Tucídides 2. 41. 1) (^'). Atenas,
uma pólis democrática, evoluíra consideravelmente no domínio cultural,
económico e político: criara uma constituição avançada que privilegiava
a igualdade entre os cidadãos, tinha uma vida cultural pujante e intensa,
gozava de grande prosperidade. As suas realizações culturais, as suas
festas religiosas, a sua prosperidade e poder atraíam cidadãos de outras
póleis. Daí que Péricles considere que Atenas possa servir de paradigma
aos outros Helenos.
Desde que nasce, o habitante habitua-se ao modo de vida da pólis, às
suas leis e costumes, às normas que regulam os actos mais comezinhos,
às cerimónias religiosas e crenças. Comunidade viva, nela o convívio
com os outros, a actividade nas diversas instituições, a participação nos
actos públicos e cerimónias religiosas aos poucos conformavam o jovem
a uma maneira de ser e de viver. Desse modo, a pólis educa o cidadão e
modela-o, a ponto de ser um produto e escravo seu, como demonstra
Sócrates no passo do Críton acima referido. Daí compreender-se a
afirmação de Simónides (fr. 15 West) de que

A pólis é mestra do homem.

A pólis era, portanto, uma entidade activa, formativa, que exercitava


o espírito e formava o carácter dos cidadãos. Constituía uma preparação
para a aretê— excelência ou virtude — , Einção de que o Estado moderno
se desliga quase por completo. Daí que se compreenda a afimiação de
W. Jaeger de que descrever a pólis é descrever a vida total dos Gregos.
Como diz Aristóteles, a pólis é a comunidade perfeita, nascida de
várias aldeias, que atinge então o nível de autarcia completa: a pólis
forma-se por necessidades da vida e existe para se ter uma vida digna
(Política 1. 2. 8, 1252b 27-33).
A sanção divina dava autoridade às leis da pólis que desse modo
representavam como que a vontade dos deuses. No entanto, as leis da
cidade-estado não podiam contrariar os ditames dos deuses, sob pena de
graves consequências. Segundo Heraclito, os cidadãos devem combater
pela lei (o nomos) da pólis tanto quanto pelas muralhas (fr. 44 Diels-
-Kranz) e a pólis deve apoiar-se no nomos, já que as leis dos homens
tiram a sua força da divina (fr. 114 Diels-Kranz). É uma insistência no

(-') H. D. F. Kitto, The Greeks, p. 75 (trad. port. Coimbra, 1960, p. 120).

24
A POLIS GREGA

respeito do nomos, e fundamenta-se no facto de as leis humanas serem


sustentadas pela lei divina universal, fonte e origem de todas as nornias,
a ordem do universo e lei fundamental da hamonia invisível de que fala o
fr. 54 Diels-Kranz; a lei está em consonância com o Logos, constituinte
e regulador do cosmos (^^). Por seu lado, a Antígona de Sófocles, onde
se verifica uma oposição entre leis humanas e leis divinas, proclama que
as leis positivas, decretadas pelos homens, devem hannonizar-se com as
leis dos deuses. Creonte, rei de Tebas, por não o fazer é duramente casti­
gado. Publicara um édito que, sem ter em conta as normas divinas que
determinavam a obrigatoriedade de serem prestadas honras fúnebres
aos mortos (^^), estipulara que Polinices fosse deixado insepulto e estabe­
lecia a pena de morte para quem não cumprisse tal detemiinação. Antígona,
surpreendida a lançar uma fina camada de pó sobre o corpo do irmão e
interrogada por Creonte por que, conhecedora das suas leis, as ousou
transgredir, responde com estas palavras célebres (w . 450-455):
E que essas não foi Zeus que as promulgou,
nem a Justiça, que coabita com os deuses infernais,
estabeleceu tais leis para os homens.
E eu entendi que os teus éditos não tinham
tal poder, que um mortal pudesse sobrelevar
os preceitos, não escritos, mas imutáveis dos deuses.
No estásimo primeiro o Coro, depois de cantar o progresso da humani­
dade, conclui que o engenho do homem tanto o pode levar ao bem como
ao mal e que uma pólis só subsiste e prospera, se as suas leis estiverem
de haraionia com os ditames dos deuses (vv. 367-371):
Se da terra preza as leis e dos deuses
na justiça faz fé, grande é a cidade;
mas logo a perde
quem por audácia incorre no erro. C'*)

6^) Cf. G. S. Kirk, J. E. Raven e M. Schofield, The presocratic philosophers. A


criticai history with a selection o f texts (Cambridge University Press, ^1983), pp. 211-
-212; T. A. Sinclair, A history o f Greek political thought (London, ^1967), pp. 29-31.
K. Reinhardt, Parmenides (Frankfurt am Main, 31977), pp. 215-216 integra o fr. 114 na
oposição nomos/physis. M. Ostwald, Nomos, pp. 26-28 e 30 considera que, no fr. 44,
nomos tern mais o sentido de eunomia “boa ordem” e “defines the value to this condi­
tion”, e que, no fr. 114, os anthropoi nomoi “as leis humanas” se referem a um “way o f
life or mores o f city as whole” (citações das pp. 30 e 27, respectivamente).
(^h Os cadáveres insepultos podem originar pestes. Como os Gregos não as sabiam
explicar, atribuíam-nas a um castigo dos deuses.
(^h A tradução dos dois passos áa Antígona é de M. H. Rocha Pereira, in Sófocles,
Tragédias (Coimbra, 2003), p. 324.

25
A GRÉCIA ANTIGA

À mesma conclusão de origem divina do nomos nos conduz um passo


do Contra Aristogíton I. 15-16 de Demóstenes. Considera o orador que
a vida dos homens, quer habitem numa pólis grande, quer pequena, é
regulada pela natureza e pelas leis - a physis e os nomoi. Em sua opinião
a natureza, irregular e particular a cada pessoa, se é vil, deseja com
frequência o que é inferior e pode conduzir as pessoas a cometer erros;
as leis, pelo contrário, são algo de comum, fixo e o mesmo para todos,
uma dádiva dos deuses e uma descoberta dos homens sábios. Passo a
ler a tradução do passo:

As leis desejam o que é justo, belo e útil, e procuram-no; logo que o


encontram, proclamam-no ordem comum, igual e a mesma para todos. Eis
o que é o nomos. A ele devem todos obedecer, por numerosos motivos e
sobretudo porque toda a lei é uma criação e um dom dos deuses, uma
decisão dos homens sábios, um correctivo para os erros, voluntários ou
involuntários, um contrato comum da pólis, segundo o qual todos devem
viver nessa sociedade.

Embora a pólis apresente um tipo estrutural genérico, no seu interior


há variações mais ou menos substanciais, em extensão territorial, em
número de habitantes, em instituições constitucionais e governamentais,
em grau de duração e estabilidade, em costumes e modos de vida. Nela
encontramos um grupo de cidadãos, ora restrito, ora mais alargado, que,
como veremos, se bate com as realidades materiais e sociais da época e
as transforma. Essa luta com os condicionalismos de cada pólis origina
sociedades diferentes, com constituições e modos de vida diferentes,
criando instituições novas e alterando mais ou menos substancialmente
as existentes. O caso de Atenas, como veremos nos próximos capítulos,
é um exemplo típico de tais alterações. No entanto, apesar dessas trans­
formações, todas as póleis surgem com um núcleo comum de instituições,
com funções idênticas de início em todas elas, que se manterão ao longo
dos tempos mais ou menos modificadas até ao declínio do sistema na
segunda metade do século IV a. C. Estou a referir-me à Assembleia do
povo, ao Conselho e aos Magistrados. Estes vários órgãos institucionais
podem tomar nomes diferentes conforme a pólis. Assim, para dar o exem­
plo das duas mais poderosas cidades gregas do século V a. C., Atenas e
Esparta, temos respectivamente Ecclesia (Assembleia) e Apela, para a
Assembleia; Areópago e Gerúsia, para o Conselho; e Arcontes e Éforos,
para os Magistrados.

26
A POLIS GREGA

Aos órgãos institucionais tinham acesso e neles participavam activa-


mente apenas os cidadãos, sempre uma parcela reduzida da totalidade
dos seus habitantes que, não obstante, incluía indistintamente pobres e
ricos, num leque que se estendia dos abastados aos que nada tinham e
viviam do salário do seu trabalho do dia-a-dia, como veremos em próximo
capítulo. A população de uma pólis era constituída por pessoas livres e
não livres. Eram livres os cidadãos e os estrangeiros com autorização de
residência, cujo nome mais usual é o de metecos. Entre as não livres
incluem-se os habitantes que estão submetidos a qualquer grau de depen­
dência e não podem dispor da sua pessoa: desde os considerados animais
ou coisas - os escravos-mercadoria, algo que se compra e se vende -
até aos que, obrigados a trabalhar a terra de outrem, os servos, tinham
de entregar uma parte do produto e, de acordo com o estatuto, estavam
numa situação melhor do que a dos anteriores (^^).
Numericamente, a soberania dos cidadãos era a de uma minoria, tanto
nas oligarquias como nas democracias. Apesar da falibilidade e insegu­
rança das cifras e estatísticas para essa época, tudo indica que o seu
número não teria ultrapassado os quinze por cento da totalidade da popu­
lação, mesmo nas democracias mais evoluídas e abertas, como é o caso
de Atenas (^^).
Portanto, a obtenção da cidadania (politeia) é essencial. É ela que
concede ao seu possuidor a qualidade de polites que lhe permite intervir
activamente na pólis, ou seja na sua constituição {politeia) que, para um
grego, abrangia as leis, as instituições e seu funcionamento, os costumes,
crenças e hábitos, enfim toda a vida económica, política, social e religiosa.

Como teria surgido esse sistema social e político entre os Gregos?


Nos textos literários mais antigos que possuímos, os Poemas Homéricos
- a Ilíada e a Odisséia, que geralmente se julga assentarem em poesia
de improvisação oral e terem atingido, no essencial, a forma em que

f Note-se que uma coisa é o estatuto e outra a situação real. Pode acontecer que
numa pólis os não livres possuam um estatuto mais benéfico do que os de outra, mas se
encontrem numa situação real inversa. É o que se passa com Atenas e Esparta: na primeira,
os escravos, embora estatutariamente considerados uma mercadoria, têm uma situação
real incomparavelmente melhor do que os hilotas de Esparta que, pelo estatuto, são
servos.
(“ ) Em Atenas, de autor para autor, a variabilidade no número de habitantes ultrapassa
com frequência os cinquenta por cento, como se verá no capítulo “A democracia ateniense:
a busca da igualdade” (p. 104).

27
A GRÉCIA ANTIGA

chegaram até nós no decurso do século VIII a. C. e que devem transmitir


elementos e instituições de tempos anteriores nos textos mais antigos,
dizia, a referência à pólis ainda não existe ou não aparece com clareza.
Já neles encontramos a presença de um conselho de anciãos - um
conselho regular, formado pelos reis ou por nobres, que havia a obrigação
de consultar, por direito ou por tradição, nos assuntos de interesse comum
(cf Ilíada 19. 303; Odisséia 6. 53-55 e 8. 387-395) e que, ao tomarem
a palavra nos debates, detinham o ceptro, símbolo da autoridade (cf Ilíada
18. 505-506); encontramos indícios da Assembléia do povo, convocada
por qualquer dos reis e consultada - sempre na companhia do Conselho
- em alturas importantes (cf Ilíada 1. 54 sqq.; 18. 497-503). Mas o que
predomina nos Poemas Homéricos é o palácio - o oikos - que é gover­
nado por um rei, apesar de apresentar características que o aproximam
da pólis: ser uma célula social organizada, uma unidade humana e econô­
mica que tem por ideal a independência e a autarcia.
Não há unanimidade quanto ao facto de os Poemas Homéricos reflec-
tirem ou não já o aparecimento da pólis. Nesta matéria são diversas as
posições dos estudiosos (^’).
Recorde-se, no entanto, o passo das duas cidades - uma em paz e
outra em guerra (vv. 490 sqq.) - do célebre episódio da descrição do
escudo de Aquiles {Ilíada 18. 478-608). Aí, na cidade em paz, faz-se
alusão a um julgamento - ou melhor, um esboço de julgamento -, onde,
além da Assembléia do povo e do Conselho dos anciãos, aparece também
um ‘magistrado’. Portanto - sem nunca esquecer que se trata apenas de
um esboço de julgamento - já estão presentes os três órgãos caracterís­
ticos da pólis. Teríamos, pois, um indício dos começos do sistema. Estes
e outros aspectos levam os comentadores a considerar a descrição do
escudo de Aquiles como um episódio de composição mais recente da
Ilíada (^^).

(-9 Para uns encontramos já póleis do tipo clássico na Ilíada e na Odisséia e os


Poemas implicam uma nova concepção da vida cívica em que cada cidadão tem a sua
missão: por exemplo, J. M. Cook, The Greeks in Ionia and the East (London, 1962),
pp. 37-38. Para outros, a Ilíada não mostra traços da existência da pólis, mas esta já
aparecería na Odisséia: e. g. V. Ehrenberg, “When did the polis úsq7”,Journal o f Hellenic
Studies 57 (1937) 155 e The Greek state (Oxford, 1960), p. 242. Para outros ainda,
nenhum dos Poemas apresenta traços da pólis no sentido político clássico; Finley, The
world o f Odysseus (London, Chatto & Windus, 1956), p. 35 (trad, port., Lisboa, Presença,
pp. 43-44).
(^*) É certo que ístor do v. 501, como pretendem alguns comentadores, pode ser
apenas um árbitro; outros dizem que se trata de um dos gérontes do v. 508. De qualquer
modo exerce aqui as funções que mais tarde estarão a cargo dos magistrados. Sobre o

28
A POLIS GREGA

Em Hesíodo - um poeta cuja datação oferece dificuldades, mas se


tende a colocar nos finais do século VIII, embora continue a haver quem
a situe na primeira metade do VII a. C. - o sistema ainda não está total­
mente definido. A leitura dos Trabalhos e Dias deixa perceber que, na
Beócia, por volta de 700 a. C., a união do campo e da cidade, característica
essencial da pólis arcaica e clássica, não se havia ainda processado ple­
namente. Para Hesíodo, que vive em Ascra, uma aldeia do território de
Téspies, na Beócia, aquele aglomerado urbano é um mundo distante onde
vivem os nobres - ou os reis, como diz o poeta - “devoradores de presen­
tes” (w. 38-39). Parece dar-nos então um indício de que a pólis começava
a ganhar forma.
Aos dados literários juntam-se os testemunhos arqueológicos. A.
Snodgrass, num curto mas sugestivo estudo, analisou as descobertas das
eseavações de algumas das cidades gregas e chama a atenção para o
aparecimento - primeiro nas cidades da Ásia Menor e ilhas adjacentes -
de fortificações a defenderem as povoações e de um templo: as muralhas
construídas na segunda metade do século IX e ao longo do VIII a. C., e
o templo de data ligeiramente mais tardia. Conclui que, se o aparecimento
de muralhas não é a garantia de se ter atingido uma pólis independente,
a existência de templo, ao reconhecer e eleger uma divindade protectora,
será uma prova físiea de que a emergência da pólis se verificou ou está
em curso (^®).
O processo de cristalização da cidade-estado escapa-nos, mas a colo­
nização grega - um fenómeno que, como veremos no próximo capítulo,
se inicia ainda na primeira metade do século VIII a. C. e espalha os
Helenos pelas margens do Mediterrâneo - funda cidades que são todas
(com excepção dos emporia) póleis independentes que imitam as institui­
ções da metrópole. O aparecimento do sistema era, portanto, anterior ao
iníeio da colonização.
Hoje a tendência é para aceitar que a pólis teria surgido no século
VIII a. C. - primeiro na Ásia Menor, mas em breve espalhada por toda

assunto vide H. Hommel, “Die Gerichtsszene auf dem Schilde des Achilleus”, in Politeia
und Respublica (Wiesbaden, 1969) pp. 11-38. Outras obras mais recentes encaram o
escudo de Aquiles sobre o ponto de vista literário ou arqueológico: W. Marg, Homer über
die Dichtung. Der Schild des Achileus (Münster, ^ 1971); K. Fittschen, “Der Schild des
Achlleus” in Archaeologia homerica II (Göttingen, 1973); R. S. Shannon, The arms o f
Achilles and Homeric compositional technique (Suppl. 36 Mnemosyne, Leyden, Brill,
1975).
Archaeology and the rise ofthe Greek state (Cambridge University Press, 1977),
p. 24.

29
A GRÉCIA ANTIGA

a Hélade - , se bem que H. Berve apenas considere a sua existência no


século V a. C.
Ultrapassado o período conhecido como Época Obscura grega (do
século XI à primeira metade do VIII a. C.), já não encontramos os reinos
relativamente extensos dos tempos micénicos e dos Poemas Homéricos;
os reis tinham desaparecido e, no seu lugar, deparamos com oligarquias
aristocráticas.
Explica-se, por vezes, a origem da pólis pelas características físicas
do solo grego, muito compartimentado por montanhas e vales e penetrado
pelo mar em enseadas e golfos. A pólis apareceria assim, a bem dizer,
como uma consequência dos traços geográficos. A teoria, embora pareça
atraente, motiva objecções várias: o sistema de pólis não se desenvolveu
em outras regiões tão ou mais acidentadas; mesmo na Grécia, apareceu
tardiamente, se tivermos em conta que os Micénios já eram gregos, e é
lícito perguntar por que não actuou mais cedo a causa geográfica; a pólis
desenvolveu-se primeiro na Ásia Menor e floresceu em zonas onde as
comunicações eram relativamente fáceis - Ásia Menor, Peloponeso,
costa oriental da Grécia continental: havia cidades vizinhas, sem barreiras
entre elas, que permaneciam independentes, enquanto outras regiões
montanhosas e muito fraccionadas geograficamente - Arcádia, Etólia,
zona ocidental da Grécia central e a do noroeste - nunca ou só em época
tardia atingiram ou adoptaram o sistema (^'). Estes dados parecem
permitir deduzir que a teoria, embora atraente, não deve ser verdadeira e
que as razões geográficas não foram as determinantes.
É evidente que o surgir de tal sistema se pode perfeitamente explicar
por razões históricas, com a ajuda das condições geográficas do solo e
de factores económicos. Com o declínio micénico no século XII a. C.,
verifica-se uma acentuada e longa movimentação populacional que pro­
voca um grande fraccionamento e uma busca afanosa dos locais mais

(30) “Fürstliche Herren zur Zeit der Perserkriege”, in Gestaltende Kräfte der Antike
(München, 1966), pp. 232-267, limita a pólis ao século V a. C.: embora aceite a sua
existência desde Sólon, reconhece que, até às Guerras Pérsicas, luta desesperadamente
por se afirmar.
(^') A Ática, muito dividida geograficamente, só formava uma pólis - Atenas - , em
consequência de um sinecismo que se deve ter verificado nos fins do século IX ou inícios
do VIII a. C. Vide A. Snodgrass, Archaeology and the rise o f the Greek state {CsmhvxàgQ
University Press, 1977), pp. 16-21; J. Ribeiro Ferreira, X democracia na Grécia antiga
(Coimbra, Minerva Coimbra, 1990), pp. 20-21. A Beócia, mais unificada geograficamente,
tinha várias, de que se destacam Tebas e Platéias. Pequenas ilhas, como Céos e Amorgos,
dividiam-se em várias póleis, enquanto outras substancialmente maiores - caso de Quios
e Samos - constituíam apenas uma pólis.

30
A POLIS GREGA

propícios e férteis. As lutas são intensas e os habitantes, dadas as con­


dições pouco favoráveis e a ameaça constante a que estavam sujeitos e
visto não terem um poder centralizado forte que os protegesse, tentam
defender-se em pequenas comunidades, acolhendo-se à protecção de
antigas cidadelas micénicas ou refugiando-se nas regiões menos aces­
síveis, de modo geral no alto de colinas que rodeavam de muralhas, locais
a que davam o nome de acrópole. A partir de deteraiinada altura, para
melhor resistirem aos ataques constantes, essas pequenas comunidades
agrupam-se em unidades mais amplas, através de sinecismo. Contribuem,
desse modo, para a formação das póleis que se fecharam sempre num
individualismo orgulhoso, sem nunca atingirem uma unidade política;
apesar de várias tentativas e passos nesse sentido, o particularismo foi
sempre mais forte. Ora isso é que já se toma mais difícil de perceber -
a manutenção de tal sistema por vários séculos até que, anêmico, se vai
diluir aos poucos ao longo do século IV a. C. p ) .

A pólis era a unidade natural e justa da sociedade humana, que


constituía o desenvolvimento normal da família e da aldeia; e de uma e
de outra possuía as vantagens, sem as limitações. Era um sistema de
vida e existia para que se vivesse melhor. Ainda no século IV a. C.,
procurando talvez argamassar uma realidade que ele sentia já a derruir,
Aristóteles {Política 1,1252 b 27-32) assim a considera. Justifíca-a por
ser a comunidade perfeita que existe por natureza.
É uma célula política que concede direitos a todos os cidadãos e deles
exige deveres. O Grego queria exercitar pessoalmente esses seus direitos:
como observa Finley, na pólis os cidadãos, através dos votos - como um
todo ou, nas oligarquias, como um sector do todo - , participavam direc-
tamente e não por representação como num parlamento moderno Q^). A
participação directa de todos no governo condiciona a extensão do
território e, em especial, o número de cidadãos Esta foi sempre uma
preocupação dos políticos, quer governantes, quer teorizadores. Segundo
a maioria deles, dez mil seria o número ideal - a polis myriandros de
Hipodamo (Aristóteles, Po//fíca 2 , 1269b 30-31; 3 , 1280b 21-22). Para

(^9 Sobre a pólis e significado de tal sistema, vide Ehrenberg, The Greek state,
pp. 88-192.
6 ^) Authority and legitimacy in the classical city-state (A. J. C. Jacobson Memorial
Lecture, Kobenhavn, 1982), p. 7. Sobre o assunto vide também J. Ribeiro Ferreira,
Participação e poder na democracia grega (Coimbra, Faculdade de Letras, 1990),
pp. 69-76.
(^h Sobre o território e sua extensão, vide Ehrenberg, The Greek state, pp. 28-32.

31
A GRÉCIA ANTIGA

Platão a cidade ideal deve possuir cerca de 5 000 cidadãos {Leis 5,


737e-738ae6,771a-772d). Segundo Aristóteles, não deve ter um número
demasiadamente diminuto, porque não lhe permitiría ser auto-suficiente,
nem elevado em excesso, porque se tornaria ingovernável {Ética a
Nicómaco 9 , 1170b 31-32):
Nem dez homens constituem uma pólis, nem com cem mil existe já pólis.
e num outro passo, este agora da Política {Política 7, 1326a 34-35,
1326b 2-5 e 22-24):
A pólis que combina com uma adequada extensão o justo limite de
que falámos é necessariamente a mais perfeita... A pólis que se compõe
de demasiadamente poucos habitantes não é autárcica, e uma cidade tem
de ser autárcica: por sua vez, a que se compõe de uma quantidade
excessiva, se bem que capaz de se bastar nas suas necessidades, será
como que um ethnos e não uma pólis, já que dificilmente tem uma
constituição... É manifesto, por conseguinte, que o limite ideal da
população para uma pólis é o número mais elevado compatível com a
autarcia da vida e susceptível de ser abarcado na totalidade.
O Estagirita, portanto, considera a pólis como uma exigência natural
e rema em sentido contrário ao que se designa por nacionalidade grega,
para ele inexistente.
O govemo.directo exige o limite de cidadãos e leva, por consequência,
ao particularismo. Só o sistema representativo o perfnitiria abandonar e
ultrapassar, mas os Gregos não concebiam tal tipo de governo que se lhes
afigurava coarctador da liberdade e da autonomia. A pólis era por natureza
particularista e cada uma velava zelosamente pela sua liberdade e autono­
mia. A participação directa dos cidadãos no governo da pólis só é possível
em Estados de reduzida dimensão, quer quanto ao número de cidadãos,
quer quanto ao território - alguns eram mesmo estranhamente minúsculos,
como acontecia com Delos, Egina, Meios, com os da Beócia (à excepção
de Tebas), os da Fócida, os de Creta, de Ceos, de Amorgos (^^). No seu
âmbito de contacto, por outro lado, os Estados extensos eram monarquias.

Cf. Ehrenberg, The Greek state, pp. 28-30.


Segundo Finley, in The Legacy o f Greece (Oxford, 1981), p. 12, o número da população
total (incluindo livres e escravos, homens, mulheres e crianças) no começo da guerra do
Peloponeso, se paraAtenas rondava os 250-275 mil, para Corinto os 90 mil e para Tebas,
Argos, Corcira e Agrigento os 40-60 mil, já na maioria das outras cidades-estado não devia
ir muito além dos 5 mil e em algumas até nem chegaria a esse número.
Vide também Kitto, The Greeks, pp., 65-67; R. J. Littman, The Greek Experiment.
Imperialism and Social Conflict 800-400 BC (London, 1974). pp. 31-33.

32
A POLIS GREGA

como acontecia no caso da Macedónia e da Pérsia, que, para os Gregos,


como já dissemos, constituía uma tirania, em que os súbditos viviam em
servidão. Na sua perspectiva, o sistema de pólis era o único que pemiitia
a liberdade e a autonomia. Assim se compreende que a lónia nunca
tenha feito uma tentativa para se constituir em Estado. A dificuldade não
teria sido grande, já que os alicerces os tinha no Paniónion, em que as
doze cidades celebravam anualmente as festas comuns em honra de
Posídon Em vez disso, vemos que, segundo tudo indica, nem quando
a sua salvação esteve em perigo - ao serem atacados e conquistados
pelos Persas - actuaram em conjunto. Pelo contrário, rejeitaram mesmo
uma proposta de Tales de Mileto para que as cidades se unissem e
constituíssem um Buleutérion único, com sede em Teos (cf Heródoto 1.
148 e 170). Do mesmo modo se compreende que também a Beócia
nunca tivesse chegado a constituir uma verdadeira unidade política, apesar
de ela possuir igualmente o suporte dos laços de uma anfictionia (^’).
Todos os débeis ensaios nesse entido esbarraram contra tal sentimento e
esboroaram-se. Quando começaram a ganhar uma certa consistência,
já a Grécia caminha para o ocaso político, em adiantado século IV a.C.,
ao longo do qual se verifica, como acentua Kitto, uma mudança no tem­
peramento do povo e a emergência de uma atitude diferente para com a
vida (^^). O fulgor de que ainda vai gozar ficará a devê-lo íundamentalmente
à acção dos Macedónios de Filipe e Alexandre, que nunca foram aceites
como Gregos, pelo menos por uma boa parte. A unidade política nunca
foi uma coisa desejada e construída por eles e adveio-lhes sempre como
algo imposto do exterior: pelos Macedónios primeiro e depois pelos
Romanos.
Em vez de passos no sentido da união, as cidades-estado gregas agiam
de modo inverso: passaram o tempo da sua história, quase na totalidade,
desavindas; combatiam-se amiúde com empenho feroz. Pretendiam dessa
forma afinuar a sua independência, uma caraterística dos Gregos bem
vincada. Como observa Pohlenz, a sensibilidade política dos Helenos
constituía o mais grave obstáculo à concreta unificação, já que exigia o
exercício imediato dos direitos políticos e a existência do sistema de pólis.
Cada uma destas velava zelosamente pela sua autonomia - era por natu­
reza particularista (^^). Constituía um traço muito forte, a ponto de, como
acabámos de ver, nem a ameaça persa ter levado a que os lónios aceitas-

Vide J. Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos, pp. 140-141.


(” ) Vide J. Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos, p. 142.
The Greeks, pp. 158-169.
f L ’ iiomo greco, pp. 196 e 248-249.

33
A G R ÉCIA A N T IG A

sem a proposta de Tales para se unirem e formarem um Estado único.


A independência é quase objecto de culto por parte dos Gregos; foi esse sen­
timento que sempre se opôs a qualquer tentativa de ultrapassar o sistema
de pólis em que gostavam de viver e que amavam profundamente
Consideravam a pólis a única base possível de uma existência civilizada,
como foi acentuado com vigor por Platão e Aristóteles: o primeiro toma
a pólis como modelo do seu Estado ideal, o segundo ocupa-se em especial
do assunto no livro I da Política. No Críton 50a sqq. e Leis 625e de
Platão vemos quanto a pólis era apaixonadamente sentida. No primeiro
passo, já atrás citado, ocorre a célebre prosopopeia das Leis: segundo
estas, 0 cidadão recebe tudo da pólis, pelo que esta, que é ainda mais
santa do que a família, tem também o direito de lhe exigir tudo, e ele não
deve esquivar-se, mas tem a obrigação de fazer o que ela lhe ordenar C“).
Nas Leis (1 ,625e), a propósito das instituições de Creta e da Lacede-
mónia, Clínias justifica a imposição das refeições em comunidade, susten­
tando que, desse modo, o legislador condena a insensatez da maioria que
ignora

que a todos, enquanto durar a existência, toca uma guerra contínua contra
todas as outras cidades.

Para o Grego, ser livre era exercer ele próprio, pessoalmente, os seus
direitos civis, sem os delegar em outros. Foi esse desejo o maior óbice a
uma unidade política. Seria impossível reunir toda a Hélade numa única
pólis.
Ser agente activo na governação era realmente fundamental para os
Helenos. Não concebiam um cidadão que, alheado, não vivesse e partici­
passe interessadamente no governo e na condução dos destinos da sua
pólis. Nessa atitude encontraram mesmo um dos fundamentos que os
fazia sentirem-se diferentes dos Bárbaros e em que cimentavam a sua
superioridade em relação a eles
Era do temperamento do Grego viver em pequenos Estados indepen­
dentes, em cuja vida e organização fazia questão de participar. Só assim
se considerava em plena liberdade. O estudo da pólis grega põe-nos pe­
rante uma tendência para a regionalização e o gosto de viver em pequenos
espaços, em oposição às actuais centralização e formação de Estados

P“) Mesmo a formação de simaquias, que parece contradizê-lo, é, no fundo, motivada


por esse apego à independência. Cf. V. Martin, La vie internationale dans la Grèce des
cités (VI-IVs. av. J. Ch.) (Paris, 1940), pp. 98-101.
(‘") Vide supra p. 23-24.
Vide J. Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos, pp. 232 sqq.

34
A POLIS GREGA

cada vez mais vastos. A pólis constitui desse modo uma experiência his­
tórica cuja meditação tem importância e interesse para o mundo de hoje
a balancear entre tendências contraditórias: por um lado, paradoxalmente,
apontam-se as vantagens da regionalização e debate-se a necessidade
de uma maior centralização; por outro, buscam-se uniões políticas mais
amplas, mas assiste-se a um surto de fraccionamentos nacionalistas.

35
EPOCA ARCAICA

Crises de Crescimento

Aparecida a pólis por meados do século VIII a. C., nela um grupo de


cidadãos, ora restrito, ora mais alargado, bate-se com as realidades mate­
riais e sociais que vai encontrando e transfonna-as. As diversas cidades-
-estado evolucionam mais ou menos significativamente, cada uma com
as dificuldades, os condicionalismos e as oposições que encontra, até
nos oferecerem o quadro característico da época clássica. E à evolução
da época arcaica que vou dedicar a minha análise, que se vai basear
com mais insistência em Atenas, por ser dela que possuímos mais dados
e infomiações. Terei de ser sucinto e deixar na sombra alguns factos,
dada a extensão temporal que me proponho tratar e a quantidade de
fenómenos e acontecimentos significativos que marcaram o período.

A época arcaica - cujas datas de início e final é costume situar entre


776 e em 480 a. C., respectivamente a data tradicional dos primeiros
Jogos Olímpicos e o ano da batalha de Salamina - é um período de
grande vitalidade, de inovações, crises e transfonnações. A pólis modi-
fica-se sensivelmente, a ponto de, nos começos do século V a. C., se
apresentar em muitos aspectos diferente da que encontramos nos seus
inícios.
Vamos tentar surpreender algumas dessas transformações através
das obras de três poetas, distanciados entre si um século: Hesíodo, dos
fins do século VIII e inícios do VII; Sólon que viveu no trânsito do VII
para o VI; e Teógnis na segunda metade do VI e primeira do V a. C.
Embora pertençam a regiões diferentes - Hesíodo à Beócia, Sólon à
Ática e Teógnis a Mégara - os dados que nos fornecem podem ser apli­
cados a outros locais, sem grande receio de erro, já que todas as póleis,
com pequena variabilidade temporal de umas para outras, passaram por
fenómenos semelhantes.
Hesíodo, nos Trabalhos e Dias, fala da labuta dura e difícil do lavrador
numa terra pouco fértil e muito dividida que quase não dá para alimentar
uma família. Aconselha, por isso, o camponês a não ter mais do que um
filho para, de acordo com as normas de então relativas à herança, se não

37
A GRÉCIA ANTIGA

verificar um fraccionamento maior da terra. É que, para agravar a situação,


esse camponês estava na dependência total da vontade dos nobres. O
poeta fala dos nobres que se deixam peitar e praticam a justiça que lhes
convém (vv. 30-41):
Nós dividimos o nosso património, e tu de muitos dos bens,
por roubo, te apoderaste, peitando bem os reis,
devoradores de presentes, que praticam uma tal justiça.

Dirige-se ao innão Perses que, na divisão da herança, já lhe tirara a


melhor parte, por corrupção dos juízes, os nobres, e agora ainda se quer
apoderar da parte que lhe coube.
Mais elucidativo é o apólogo do gavião e do rouxinol (vv. 202-218),
em que Hesíodo põe na boca do primeiro, que representa os poderosos,
este modo de discorrer insolente (vv. 207-211):
Insensato, por que gritas? Nas garras de quem é muito mais forte,
irás para onde eu te levar, por bom cantor que sejas;
se me apetecer, refeição farei de ti ou te deixarei ir em liberdade.
Louco 0 que pretende medir-se com os mais poderosos:
vê-se privado da vitória e à vergonha associa sofrimentos (').

Enfim, 0 pequeno está completamente à mercê do poderoso e de


nada lhe vale protestar e falar de justiça. O nobre talha por onde quer e
decide como entende.
Sólon, um século mais tarde, acusa os que enriquecem por processos
injustos - o roubo e o saque. Na Eimomia (fr. 4 West), Sólon mostra
uma profunda relação com a sua cidade. Manifesta preocupação pelo
destino de Atenas, faz um diagnóstico da sua situação nos fins do século
VII e inícios do VI a. C. e aponta as respectivas causas: eram os próprios
cidadãos que punham em perigo a pólis, em especial os excessos e acções
injustas dos dirigentes e dos ricos que nem os bens dos templos e dos
santuários poupavam (vv. 5-12). Sem respeitar os veneráveis alicerces
da Justiça, tudo roubam a saque e a sua rapina desperta a revolta, as
lutas civis e a guerra. Sólon fala da servidão, que se pode abater sobre a
cidade, e dos pobres lançados na escravatura. Pressagia que a ambição
dos homens, a guerra civil e as conspirações em breve provocarão a
ruína da pólis que ninguém conseguirá evitar (w . 13-25). Quer mostrar

(') Sobre o sentido de basileiis no primeiro passo vide West, Hesiod: Works and
Days (Oxford University Press, 1978, repr. 1982) ad 38; J. Ribeiro Ferreira, Hélade e
Helenos I, p. 56. Para uma análise do apólogo vide A. Bonnafé, “Le rossignol et la justice
en pleurs (Hésiode, Traveaux 203-212)”, Bulletin de V Association Guillaume Biidé,
1983, pp. 260-264.

38
EPOCA ARCAICA

(vv. 30-39) como a “Desordem” {dysnomia) causa a desgraça à pólis e


como a “Boa-ordem” {eimomid) a salva da ruína e torna tudo bem orde­
nado e disposto; “endireita a justiça tortuosa”, “abaixa a insolência” e
“tenuina com a discórdia” e com os ódios; como, sob o seu influxo, todas
as acções são justas e os actos humanos são sensatos e prudentes (^).
No fr. 34 West Sólon recusa a partilha das terras que então os campo­
neses reclamavam, pois considera que não lhe agrada usar da violência
nem que da terra fértil da pátria possuam igual porção os bons e os maus
(vv. 13-21) (3).
No fr. 36 West, ao fazer uma resenha da sua obra de legislador e
governante, fala da libertação da “terra escrava”, pela surpressão dos
horoi (Q, e dos que no país estavam reduzidos a uma humilhante escrava­
tura; da repatriação, trazendo-os do exílio, de três categorias de Atenienses
- os que tinham sido vendidos legalmente, os que tinham sido vendidos
ilegalmente e os que tinham fugido por medo (vv. 5-15).
Portanto, Sólon fala de nobres que se apoderaram de muitas terras,
roubando a saque, fala de pequenas propriedades hipotecadas e de cam­
poneses que, além de perderem as terras, se tornaram escravos e foram
vendidos. Veriflcara-se uma transferência das terras para a posse dos

(-) A bibliografia respeitante à “Eunomia” é vasta. Cito, entre outros, W. Jaeger,


Paideia (trad, port., Lisboa, Aster, s. d.), pp. 165-169; V. Ehrenberg, Aspects o f the
ancient world (Oxford, 1946, repr. New York, 1973), pp. 81 -86; H. Frankel, Early Greek
poetiy and philosophy (trad, ingl., Oxford, Blackwell, 1975), pp. 220-222; A. W. H.
Adkins, Moral values and political behaviour in ancient Greece (London, Chatto and
Windus, 1972 (de futuro: Adkins, Moral values), pp. 47-51.
(b Era um preconceito aristocrata que já se encontra nos Poemas Homéricos e informa
toda a época arcaica, deixando marcas na linguagem e na literatura, a ideia de que os nobres
eram os agathoi “os nobres”, os aristoi “os melhores”, enquanto os das classes baixas
eram os kakoi, “os maus” ou “vilãos”. Vide Adkins, Moral values, pp. 10-57.
(b Os horoi que Sólon diz ter removido são comummente interpretados como “marcos
de hipoteca”. Como, no entanto, não foi encontrado na Ática nenhum destes marcos que
fosse anterior ao século IV a.C., têm-se levantado dúvidas quanto ao verdadeiro significado
da palavra no fr. citado. Para certos autores, os marcos a que se refere Sólon certificariam
os direitos de um senhor sobre os trabalhadores da terra e sobre as colheitas dessa terra.
Vide L. Beauchet, Histoire du droit privé de la république athénienne III (Paris, 1897,
repr. N ew York, 1976), pp. 193-194; L. Gernet, Anthropologie de la Grèce antique (Paris,
Maspero, 1976), pp. 363-364; J.V.A. Fine, Horoi. Studies in Mortgage, Real Security,
and Land Tenure in Ancient Athens {Hesperia, Suppl. 9, Athens, 1951 (citado a partir de
agora: Fine, Horoi)-, F. Cassola, “Solone, la terra, e gli ectemori”, Parola del Passato 19
( 1964) 30-32 e 42-46; M. Manfredini e L. Piccirilli, Plutarco: La vita di Solone (Fondazione
L. Valla, 1977), pp. 194-197 (de futuro: Manfredini-Piccirilli, Solone).
Tenha-se, contudo, em atenção a falibilidade do argumento exsilentio, que depende
afinal das contingências das recuperações arqueológicas.

39
A GRÉCIA ANTIGA

nobres e ricos e a pequena propriedade quase tinha desaparecido. Aris­


tóteles {Constituição de Atenas 2.1-2) corrobora esta situação: para a
época em questão, menciona o longo conflito que opunha os nobres à
maioria (plêthos) e alude à “terra nas mãos de poucos”; refere que os
pobres, com seus filhos e mulheres, “eram escravos” dos ricos e traba­
lhavam nos campos destes, mediante o pagamento de uma determinada
renda (misthosis). O Estagirita especifica que, devido a essa misthosis,
recebiam o nome de pelatas e hectêmoros e que, se a renda não fosse
paga, os insolventes poderíam ser vendidos como escravos (^).
Mas Sólon também nos infonna de nobres que tinham empobrecido e
de elementos das classes inferiores enriquecidos: no fr. 15 West, w . 9-16
refere que os vilões {kakoi) estão ricos e os nobres {agathoí) indigentes.
Portanto temos já nesta altura um divórcio entre as noções de riqueza e
nobreza (^).
Esta alteração social acentuara-se consideravelmente, cerca de um
século depois, no tempo de Teógnis, e muitos nobres casavam-se com
quem não era da sua raça. Daí estas palavras, um tanto amargas, em que
0 poeta acusa os nobres de prestarem culto ao dinheiro (vv. 189-192):

Prestam culto ao dinheiro: o nobre desposa a filha do vilão,


e 0 vilão a do nobre; a riqueza mistura a raça.
Não te admires, Polipaides, de que feneça a linhagem
dos nossos concidadãos: o bom está a unir-se ao mau Ç ) .

Verificara-se afinal o que é frequente em épocas de crise: empobreci­


mento de umas famílias - por acomodação, negligência, falta de dinamismo
ou dissipação - e enriquecimento de outras.

(b Embora o texto de Aristóteles fale em pobres que eram escravos {douleuo) dos
ricos, não devemos tomar esse verbo à letra, já que os escritores dos fms do séc V e do
século IV empregavam doidos e douleuo não apenas com o significado estrito de “escravos”,
mas com sentido mais lato - para indicar qualquer forma de sujeição. Vide Beauchet,
Histoire du droit II, p. 540; M.I. Finley, “The servile statuses o f ancient Greece”, RIDA,
3 ser. 7 (1960) 165-189 = Economy and society in ancient Greece (London, 1984), pp.
133.149.
Podem levantar-se dúvidas quanto à verdadeira forma do termo que aportuguesei
como hectêmoros, já que as fontes antigas nos oferecem duas: Aristóteles, Constituição
de Atenas 2 .2 , dá-nos hektêmoroi e Plutarco, Sol. 13.4 hektemorioi. Embora seja difícil
dizer qual a melhor, parece preferível a forma aristotélica, aliás, analógica do termo
geomoroi.
(®) Ora Aristóteles, Constituição de Atenas 3. 1 e 6, elucida que, antes de Drácon, os
arcontes - de que depois saíam os membros do Areópago - e outros magistrados eram
recrutados nas famílias nobres e ricas.
Ç) Tradução de M. H. Rocha Pereira, Hélade (Porto, ^2003), p. 171.

40
EPOCA ARCAICA

Mas a alteração, nessa época, era mais profunda. Teógnis refere que
a cidade vive na insolência, que os chefes corrompem o povo e absolvem
os injustos, na busca de proveito próprio e de poderio (w . 45-46). Consi­
dera que os nobres - “os bons” agathoi - nunca arruinam uma pólis, mas
agora governam elementos das classes inferiores - “os maus” kakoi -,
a quem agrada serem insolentes e procurarem o proveito próprio e o
poder com público prejuízo (vv. 43-44 e 49-50). É esse tipo de actuação
e de ambições que acabará por causar a destmição da pólis: embora pa­
reça repousar numa calma profunda, não pennanecerá tranquila por muito
tempo. Em breve nascem a guerra civil, os massacres dos cidadãos; não
tardará muito que não surja a tirania (vv. 51-52). E a concluir, Teógnis -
dirigindo-se ao seu amigo Cimo, a que em outros passos chama Polipaides
- lamenta as alterações sociais verificadas e que já não seja a nobreza a
governar a cidade, mas os que outrora não conheciam as leis e andavam
vestidos como escravos (vv. 53-57):

Cimo, esta pólis é ainda uma pólis, mas os habitantes são outros:
outrora não conheciam nem regras nem leis,
mas em tomo dos flancos cingiam peles de cabra
e, como veados, andavam fora da cidade;
agora são eles as pessoas de bem, Polipaides, e os bons de outrora
são agora os vilões.

Os versos de Teógnis deixam bem claro que, nos fms do século VI a. C.,
a situação social e política da pólis se havia alterado substancialmente.
Os que antes não tinham acesso às leis e viviam nos campos vestidos de
peles de animais - portanto a eles equiparados - são agora os governantes
da pólis (®). É esta a situação que Teógnis considera intolerável.
Quais os vectores das profundas transformações desses cerca de
dois séculos e meio - segunda metade do VIII, VII e VI a. C.?

Desaparecida a monarquia, os inícios da pólis apresentam-nos o domí­


nio da aristocracia que detém todos os poderes: político, judicial, militar,
religioso e econômico (^). Os aristocratas haviam conquistado essa auto-

f ) Andar vestido de peles de animais caracterizava os pobres camponeses e os


escravos. Os testemunhos dos autores antigos são vários e vêm citados em B. A. van
Groningen, Theognis (Amsterdam, 1966), p. 52 ad 55.
(’) N o século V lll a, C., ultrapassada a Época Obscura, dos reis apenas encontramos
vestígios: por exempo, em Atenas um dos arcontes, os principais magistrados da pólis,
tinha 0 nome de rei e detinha funções religiosas; em Esparta perduraram dois reis com
considerável poder no campo de batalha, mas reduzido no tempo de paz e nos assuntos
internos.

41
A G R ÉCIA A N T IG A

ridade, naturalmente, ao longo da Época Obscura, época de insegurança


e violência, de isolamento e pobreza, em que apareciam como a única
possibilidade de defesa para os dependentes que trabalhavam as suas
terras e para os pequenos camponeses que, frequentes vezes, de livre
vontade, se colocavam sob a sua protecção. Os nobres exerciam esses
poderes através de um Conselho onde apenas tomavam assento, a título
vitalício, os chefes das famílias aristocráticas que pretendiam descender
de um herói local ou de um dos antigos reis. Era esse conselho que
definia a política da pólis depois executada pelos Magistrados - um único
com amplos poderes e longo mandato, ou, mais frequentemente, um
colégio com mandato por um ano - escolhidos também eles apenas entre
os nobres ('°).
Como eram os magistrados que realizavam os sacrifícios e tinham a
seu cargo as cerimónias do culto oficial da pólis, também o poder religioso
estava nas mãos das famílias de onde eles saíam.
Nos inícios havia um predomínio da cavalaria, na qual se baseavam
as tácticas de guerra (cf Aristóteles, Política 6. 13. 10-12, 1297b 16-28).
Como era o cidadão a prover-se do equipamento necessário ao combate,
só os possuidores de grandes propriedades - portanto os nobres - podiam
fazer parte da cavalaria e detinham o poder militar. Ora no quadro da
cidade-estado tendia-se a estabelecer uma proporcionalidade das funções
militar e política.
A justiça nos tempos iniciais da pólis baseava-se na tradição - na
themis - uma série de práticas transmitidas pelas grandes famílias de
pais para filhos. As leis não passavam de um conjunto de costumes mais
próprios do direito de guerra do que da justiça de uma pólis e limitavam-
-se a regulamentar a vingança com base na solidariedade familiar, dege­
nerando frequentes vezes em lutas sangrentas que tenninavam com um
tratado de paz ou com o desaparecimento de uma das facções. A lenda
da casa dos Atridas, poderosamente tratada por Ésquilo na Oresteia, é
um exemplo bem conhecido que me dispensa referi-lo mais em pormenor.
Os abusos que este sistema pennite estão à vista e deles são vítimas
os que não pertencem à nobreza, sobretudo os pequenos e médios campo­
neses, quando estão em causa reivindicações materiais de terras e quando

('“) Estou a usar indistintamente ora o termo aristocratas ora nobres que, como é
sabido, são respectivamente de origem grega e latina. O primeiro tem na sua formação o
superlativo aristos “o melhor” e o étimo do segundo talvez seja o adjectivo *gnobilis
(derivado de gnoscó) “que se pode conhecer, conhecido”. Os autores gregos da época
arcaica, comojá vimos {supra, p. 39 nota 3), chamavam às famílias que detinham o poder
aristoi “os melhores”, em oposição aos das classes inferiores, os kakoi “os maus”.

42
EPOCA ARCAICA

as necessidades dos aristocratas aumentam (**). Os testemunhos de


Hesíodo e de Sólon dão-nos uma ideia perfeita do seu modo de actuar.
Como vimos, Hesíodo alude aos “reis comedores de presentes” que pra­
ticam a justiça que lhes convém (vv. 30-41) e ao poderoso que agia
como entendia (vv. 202-218). Daí que Hesíodo insista no valor da justiça
e nela e no trabalho coloque a excelência do homem. Era um pequeno
camponês - se são verdadeiras, como de modo geral se pensa, as infor­
mações biográficas dos Trabalhos e Dias, em especial a questão que
teve com o innão por motivos de herança - e sabia, por experiência, a
dependência em que estes se encontravam da vontade dos nobres.
Sólon, por sua vez, no fr. 4 West atrás analisado, fala em injustiça de
nobres e governantes e em rapina e saque dos bens dos templos e do
povo (vv. 4-20). O poeta insiste na tecla da injustiça: justiça tortuosa,
actos insolentes, corrupção da lei existente (‘^).
Portanto, nos inícios da época arcaica, nada controlava a actuação e
ambições dos nobres.

Em meados do século VIII a. C., quase em paralelo temporal com os


começos da pólis, inicia-se um dos fenômenos característicos da época
arcaica grega - a colonização - que se prolonga até ao período helenístico
e vai espalhar os Gregos pelas margens do Mediterrâneo (‘^). Topónimos
como Sebastopol, Apolónia (cidades da Palestina, Ilíria, Líbia, Trácia),
Nápoles (de aea +polis “nova pólis”), Mônaco, Marselha, Nice (de nike
“vitória”), Antibes (de Antipolis “a cidade em frente”), Agde (de agathê,
feminino de agathos, “a boa terra”), Ampúrias, Cirene são vestígios
desse fenômeno.
Muitas vezes, em consequência do excesso de população, de secas,
de chuvas tempestuosas - mas a cada passo os motivos eram outros -,
a pólis via-se em dificuldades para alimentar a população e optava por
enviar uma parte dos seus habitantes para outro lugar com a missão de
fundar uma colônia - a que os Gregos chamavam apoikia, “residência
distante”. Tomada a decisão, defmiam-se os objectivos da expedição e

(") L. Gernet, “ Droit et prédroit en Grèce ancienne”, Année sociologique, 1951,


pp. 21-119 = Anthropologie de la Grèce antique (Paris, 1968), pp. 175-260.
('^) Vide J. J. Hopper, “The Solonian ‘Crisis’”, in Ancient Society and Institutions.
Studies presented to Victor Ehrenberg on his 75^^'* birthday (Oxford, 1966), p. 139.
Ch Convém distinguir colonização de migrações. Enquanto estas constituíam uma
movimentação de populações não organizada-, devida ora ao nomadismo, ora a desaloja-
mento por outros povos, ora a fuga de locais de guerra, na colonização havia planeamento,
com a escolha do sítio a colonizar, com a nomeação do comandante (o oicista), com a
definição dos integrantes da expedição.

43
A GRÉCIA ANTIGA

os princípios que presidiriam à selecção dos seus componentes, procedia-


-se à escolha do local - de modo geral zonas de férteis terras agrícolas e
boas para o cultivo dos cereais, pelo menos nos primeiros tempos - , com
sondagens prévias sobre os sítios que melhor se adaptavam aos objectivos
propostos. Consultava-se o oráculo de Apoio em Delfos que superintendia
em tal matéria e aprovava a escolha feita ou indicava outro local (''*). Só
com esse assentimento a expedição colonizadora podia partir, comandada
pelo oikistes que, uma vez chegado ao local de destino, procede à instala­
ção e distribuição de terras e receberá as honras e culto de fundador. Da
cidade de origem - a metrópole “cidade-mãe” - os colonizadores transpor­
tam 0 fogo sagrado, os cultos, o alfabeto, o dialecto, o calendário; natural­
mente também o regime político e as instituições. Mas entre a metrópole
e a colónia não havia qualquer grau de dependência política e económica:
os membros da expedição colonizadora perdiam a cidadania anterior no
momento da partida; era-lhes cortado o cordão umbilical que os ligava à
primitiva pátria e tornavam-se cidadãos de outra pólis. Nasciam para um
novo sistema de vida que construiríam de acordo com os novos condiciona­
lismos locais que vão encontrar, com os seus gostos e possibilidades (‘^.
Entre colónia e metrópole apenas existiam laços de ordem moral - pelo
que era aberrante uma declarar guerra à outra. De modo geral o regime
e instituições da apoikia sofriam uma evolução própria, com transfor­
mações e inovações que os tomavam sensivelmente diferentes dos da
metrópole. Daí que este fenómeno grego se não enquadre no nosso
conceito actual de colonização que implica a colónia como uma extensão
territorial da metrópole e a sua dependência política e económica ('^).
Se nos primeiros tempos a colonização busca os melhores locais para
a agricultura e os mais propícios para a produção de cereais, a penúria
do solo helénico e a abundância de muitas das colónias originam relações
comerciais entre estas e o continente grego - não necessariamente com
a metrópole - e gera-se um sistema de trocas cada vez mais activo entre
a bacia oriental do Mediterrâneo e a ocidental.
Nos Poemas Homéricos, o comércio era olhado sob uma perspectiva
negativa - está entregue a Táfios e Fenícios que têm uma reputação
pouco lisongeira e, portanto, não contribuem para a valorização da activi-

Ch o caso de Cirene é elucidativo quanto à influência de Delfos, em tal domínio: cf.


Heródoto 4. 151-159.
Ch Vide R. J. Littmann, The Greek experiment. Imperialism and social conflict
800-400 B C (London, Thames and Hudson, 1974), pp. 59-60.
C®) No século V a. C. começam, no entanto, a aparecer as cleruquias que já corres­
pondiam à nossa colonização; os seus habitantes, os clerucos, continuavam cidadãos da
metrópole, ao contrário do apoikos que perdia a cidadania da pólis de origem.

44
EPOCA ARCAICA

dade (cf. Ilíada 6. 288-291 e 23. 740-745; Odisséia 14. 287-309 e 15.
403-484). Os Trabalhos e Dias de Hesíodo (vv, 618-694) - portanto
por volta de 700 a. C. - conhecem ainda apenas a venda sazonal dos
produtos agrícolas excedentes à alimentação do camponês. Ao estimu­
larem grandemente o comércio e, na esteira deste, a indústria, as colônias
originaram uma troca de mercadorias activa, não só porque transaccio-
navam directamente os seus produtos com os do continente grego, mas
também porque puseram os Helenos em contacto com os Bárbaros e
pennitiram que algumas das velhas rotas comerciais pudessem ser agora
exploradas mais perto da fonte. O comércio sofre um grande incremento
com a colonização e toma-se uma actividade em si: o termo emporos,
que tinha nos Poemas Homéricos o significado de passageiro de um
navio, recebe o sentido técnico de “comerciante marítimo”. Em meados
do século VII a. C., o comércio estava espalhado; já não era um recurso
subsidiário e sazonal, mas uma actividade autônoma, próspera e com
grande relevo. Por isso, nessa altura começa a aparecer já também a
fundação de colônias comerciais ao lado das agrícolas ('’).

Esse incremento vai, por sua vez, estimular a indústria, sobretudo a


produção de cerâmica. São famosos, desde a época arcaica, os vasos de
Corinto e de Atenas. As escavações arqueológicas mostram que nessas
duas cidades se verificou um grande surto de oficinas nos séculos VII e
VI a. C.
O comércio desenvonve o luxo e faz afluir novos produtos - objectos
de arte, tecidos, pedras e metais preciosos - que criam na aristocracia a
apetência da sua posse, para não desmerecer em sociedade a sua posição.
Daí a exigência também de cada vez maior riqueza para os poder adquirir.
Mas 0 comércio e os contactos que originou vão trazer ainda novas
idéias e novas técnicas. Uns e outras vão provocar alterações de ordem
econômica, social e agrícola de graves consequências para a pólis e
motivar, a longo prazo, uma transformação política.
Como a terra grega era pobre e os cereais afluíam em grande quan­
tidade das colônias, situadas muitas delas em boas zonas agrícolas, a
situação tomava-se crítica. A solução passava pela substituição do cultivo
dos cereais, sobretudo o trigo - que, além de mais trabalhoso, não era
rentável - pelo da vinha e da oliveira que se desenvolvem muito com o
comércio: o vinho e o azeite são dois produtos muito procurados para

A arqueologia tem descoberto alguns entrepostos comerciais - os emporia, “em­


pórios” - j á no século VIII, como é o caso de AI-Mina. Mas trata-se de feitorias comerciais
sem estatuto político.

45
A GRÉCIA ANTIGA

exportação. Mas só podia fazer a transformação - já que essas duas


espécies vegetais levavam certo tempo a oferecer resultados - quem
possuísse bens que lhe permitisse esperar uns anos até que as novas
plantações produzissem. E os camponeses, além de impossibilitados por
essa razão de beneficiar das novas culturas, viam-se ainda duplamente
atingidos por tal alteração; culturas de menor exigência de mão-de-obra,
alguns dos dependentes até aí utilizados no amanho das terras tomavam-
-se excedentários e eram vendidos como escravos; por outro lado, a pro­
cura leva os nobres a desejarem aumentar o plantio da vinha e da oliveira,
para o que necessitavam de mais terras, obtidas por quaisquer processos.
Como vimos, detinham todos os poderes nas mãos e podiam cortar por
onde desejassem.
Por outro lado, a época arcaica assiste à formação de uma nova classe
de enriquecidos - a que se costuma dar o nome de plutocratas - , produto
do comércio e do consequente incremento da indústria. Teve origem no
dinamismo de pessoas das classes inferiores, já que a nobreza - com a
rara excepção de alguns elementos mais abertos - não se dedicava ao
comércio, por o considerar uma profissão degradante. Por exemplo, em
Tebas os que haviam exercido essa actividade estavam impedidos de
ocupar cargos de governo, na pólis, e só podiam de novo ter acesso a
eles dez anos após terem abandonado essa actividade ('^). Para a aristo­
cracia, a única fonte de riqueza digna era a terra.
Assim, eram os artesãos e os pequenos e médios camponeses que se
abalançavam à aquisição e equipamento de barcos, para tentar a aventura
do comércio. A cada passo, sem possibilidades para o fazer, recorriam
mesmo ao empréstimo dos nobres. Não raras vezes se saíam bem, mas
outras as coisas corriam-lhes mal, por naufrágio ou má fortuna ('^). De
qualquer modo, muitos singraram e enriqueceram consideravelmente.
Proveniente, na sua maioria, de sectores estranhos à aristocracia, essa
nova classe alimenta ambições e, detentora de poder econômico, aspira
a obter também o político. Ora a posse da terra constituía condição para
se ascender a esse poder político e continuava, como vimos, a única fonte
de riqueza para os nobres. Daí deriva que a nova classe de enriquecidos
que aspira ao poder político procure adquirir terras a qualquer preço. Por

O Cf. Aristóteles, Política 3 , 1278a 25-27.


Sólon é um dos raros exemplos de nobres que consideravam o comércio uma actividade
digna e a ele se dedicaram.
Hesíodo, ao aconselhar o irmão a buscar a riqueza sobretudo na agricultura, dá o
exemplo do pai que perdeu tudo no mar e teve que se fixar numa pobre aldeia da Beócia,
Ascra, e dedicar-se à agricultura (vv. 633-640).

46
EPOCA ARCAICA

sua vez, os nobres, para ombrearem com a riqueza e ostentação dos pluto­
cratas e terem possibilidade de adquirir os produtos de luxo que o comércio
trazia, precisavam de aumentar as terras para delas tirar mais rendimento;
tudo afinal à custa dos pequenos camponeses e dos dependentes.
Daqui se conclui que o desenvolvimento do comércio e da indústria e
0 concomitante incremento das culturas ricas, se constituíram um meio
de promoção para alguns elementos das classes mais baixas e motivaram
0 aparecimento dos plutocratas que vão adquirir grande importância na
evolução e desfecho da crise, contribuíram também para extremar as
classes e piorar as condições de vida dos pequenos e médios campo­
neses. A situação tornara-se insustentável na segunda metade do século
VII a. C., como se deduz dos poemas de Sólon, a que me referi no início.
A evolução até agora esboçada mostra que discordo da teoria - muito
em voga na segunda metade do século XIX, mas hoje em desuso - que
explica a colonização como uma necessidade de procura de mercados
para escoar a produção excedentária: a partir do século VIII a. C. ter-
-se-ia verificado um considerável desenvolvimento econômico, com um
surto de produção artesanal e do comércio. O excesso de produtos gera
crises e dissensões sociais. A solução seria procurar mercados onde
colocar essa produção excedentária. Assim nasceríam as colônias e entre
elas e o continente surgiria um comércio cada vez mais florescente.
Essa transacção motivaria a formação de uma classe rica de comerciantes
e industriais - os plutocratas - que reclamariam igualdade de direitos
políticos em relação à antiga aristocracia proprietária. Um sinal do desen­
volvimento da produção e de trocas comerciais seria a introdução da
moeda que veio agravar a situação do pequeno campesinato.
Embora esta teoria tenha algo de válido, como chamar a atenção para
0 desenvolvimento artesanal - como referi acima, as escavações revelam
o incremento de oficinas de cerâmica, nos séculos VII e VI a. C., em
Corinto, Atenas e Ásia Menor - e para o desenvolvimento do comércio,
as informações que possuimos mostram que os conflitos, na medida em
que apresentam um aspecto econômico, se ligam a questões agrárias. O
caso de Atenas e o testemunho de Sólon são bem elucidativos.
Pelas infomiações que conhecemos, sobretudo relativas à Ática, os
camponeses perderam grande parte das suas parcelas, enquanto os nobres
aumentaram as terras, embora se discuta se em Atenas existia, nessas
épocas recuadas, a propriedade privada e a possibilidade de a alienar p°).

(-°) Para mais pormenores e bibliografia sobre o assunto vide J. Ribeiro Ferreira, Da
Atenas do século VII a. C. às reformas de Sólon (Coimbra, 1988), pp. 6-10.

47
A GRÉCIA ANTIGA

Uma coisa parece não oferecer dúvidas; os ricos aumentaram conside­


ravelmente as suas propriedades e verificou-se uma acumulação de terras,
pelo menos de facto. Como vimos, Aristóteles, Constituição de Atenas
2.2, diz expressamente que a terra estava nessa altura na mão de poucos
e Sólon (fr. 4 West, w . 11-13) alude ao enriquecimento injusto dos nobres,
apelidando-o contundentemente de roubo e de saque. Portanto será difícil
não aceitar que os pobres perderam pelo menos alguma terra p ’). O
problema reside em saber como a perderam e quais os meios de que se
serviram os nobres e ricos.
Aristóteles e os escritores antigos posteriores estão de acordo em
considerar que a dívida desempenhou um papel decisivo (^^).
Os Trabalhos e Dias de Hesíodo talvez nos possam remeter para o
início do processo, já que aludem a dívidas que trazem a fome amarga
(w. 401-404) e falam em empréstimos (w . 349-350 e 396) (^^). A questão
adquire ainda maior premência quando os elementos pertencem a classes
diferentes. Ninguém empresta dinheiro, sementes ou o que quer que seja
sem uma garantia de ser devidamente reembolsado
Ora é bem conhecida a extrema dureza da lei a respeito das dívidas,
nas sociedades arcaicas e primitivas, sobretudo quando o devedor e o
credor pertencem a classes diferentes (^0- O mal é entrar no jogo do
empréstimo e do endividamento. E é evidente que os nobres desejariam
juntar um campo ao outro e desse modo aumentar os seus domínios
fundiários.

(-') Os exemplos referidos por Hesíodo e por Arquíloco apontam nessa direcção: o
primeiro, nos Trabalhos eD ias (sobretudo no v. 341), admite a compra e venda de terras
e 0 segundo (fr. 293 West) alude a um colono de Siracusa que vendeu o seu clêros por uma
soma ridícula.
(- 9 Além do passo acima citado (p. 40), Aristóteles refere ainda que Sólon, uma vez
arconte, aboliu as dívidas públicas e privadas e proibiu que se desse o corpo como caução
{Constituição de Atenas 6.1). Sabemos, pelas leis da cidade encontradas em inscrições,
que em Gortina havia servidão que tinha a sua origem em dívidas (qpwífBeauchet, Histoire
du droit privé II, p. 414; G de Sanctis, Atthis , p. 248, n. 4; M. I. Finley, “La servitude
par dettes”, RIDFE 43 (1965) 163 = Economy and society in ancient Greece, p. 154:
citado a partir de agora Finley, “La servitude par dettes”).
(- 9 Os empréstimos aí realizados fazem-se, contudo, entre membros da mesma
classe e, sobretudo nos versos 349-350, a noção de interesse é ainda uma noção funda-
mentahnente moral e não legal: Hesíodo aconselha Perses a devolver exactamente o que
recebeu emprestado, ou mais ainda se puder, para ter a certeza da ajuda do vizinho no
futuro, se dela vier a necessitar de novo. Note-se que se trata de um empréstimo entre
vizinhos que era comum na Antiguidade e ainda hoje não está em desuso. Cf. West,
Hesiod: Works and Days ad 349.
(- 9 Cf. Finley, “La servitude par dettes”, p. 176.
(-^) Cf. Finley, “La servitude par dettes”, p. 176.

48
EPOCA ARCAICA

A necessidade dos pobres é por vezes forte e a lei e o poder, nesses


tempos recuados, estavam na mão dos nobres que, como vimos, os admi­
nistravam a seu bel-prazer, modo de actuar de que Hesíodo e Sólon nos
dão uma ideia perfeita (^®).
No entanto, Aristóteles e os escritores posteriores apontam a liberdade
pessoal, e não as propriedades, como garantia dos empréstimos e das dí­
vidas contraídas (^’). No centro da crise, no tempo de Sólon, estava uma
espécie de “servidão” pessoal. “Os pobres, com seus filhos e mulheres,
eram escravos dos ricos” - refere o Estagirita.
Nesses tempos recuados, como observa Finley, o direito do credor
sobre os bens do devedor era uma consequência do direito que exercia
sobre a sua pessoa (^®). Ao homem rieo que empresta - quer esse emprés­
timo seja em gêneros, alfaias ou reses, quer na entrega de terras - não
importa tanto encontrar o seu lucro no juro retirado na altura do reembolso
como utilizar uma garantia; pessoa, coisa, ou mais frequentemente uma
terra.
Deste modo Aristóteles, bem como outras fontes antigas, teria toda a
legitimidade em pôr a tônica na caução pessoal e não na ftmdiária (^®).
Observe-se, por outro lado, que, para esses primeiros tempos da época
arcaica, se nomeiam ainda, como elementos dependentes, os pelatas e
os tetas, frequentes vezes associados aos hectêmoros. Aristóteles, por
exemplo, não diferencia os hectêmeros dos pelatas e Plutarco equipara-
-os aos tetas f °).
Os hectêmoros, embora não seja fácil dizer com segurança o que eram,
não há discordância nas fontes de que seriam pessoas pobres que, subme­
tidas a certo grau de dependência, se viam constrangidas a servirem os
ricos proprietários e a pagarem-lhes determinada quantia da produção (^').
Ora 0 tenno pelata é usado por diversos autores para traduzir o cliens

O ) Vide supra pp. 37-40.


(-’) Aristóteles, Constituição de Atenas 2.2 e 4.4; Plutarco, Sólon 13.4. Cf. também
Hecateu úq kháQva, F Gr Hist. 264 F 25 (=Diodoro 1.79.4); Diógenes Laércio 1.45.
Para comentário aos passos de Aristóteles vide Sandys, Aristotle’s Constitution o f
Athens , ad 4.5; ao texto de Plutarco, vide Manfredini-Piccirilli, Solone, pp. 173-174.
f*) “La servitude par dettes”, pp. 164-168 e 175-176.
f Para mais pormenores vide J. Ribeiro Ferreira, Da Atenas do século VII a. C. às
reformas de Sólon (Coimbra, 1988), pp. 11-12.
(“ ) Aristóteles, Constituição de Atenas 2.2. Cf. também Fócio, s. v.pelatai ; Plutarco,
Sol, 13.4.
(^‘) Sobre a discussão relativa à situação dos hectêmoros vide J. Ribeiro Ferreira, “Os
hectêmoros e sua situação social”, in Esclavos y semilibres en la Antigüedad clásica
(Facultad de Geografia e Historia, Universidad Complutense, Madrid, 1989), pp. 37-53.

49
A GRÉCIA ANTIGA

do latim (v. g. Plutarco, Rómiilo 13.7; Publícola 5; Catão o Moço 34.3;


Tibério Graco 13.2; Coriolano 13 e 21.4), o que nos dá uma aproximação
ao cliente romano. Por outro lado, a associação que faz Plutarco entre
hectêmoros e tetas leva a pensar nos tetas dos Poemas Homéricos Q'^)\
elementos livres, em sentido estrito, mas sem posses, viviam de um salário
{misthos), recebido de alguém que os contratava para seu serviço, perante
0 qual se encontravam numa relação de certa dependência e em situação
nada segura. Deste modo, os tetas, embora livres pelo estatuto social,
não se distinguiam na realidade dos servos pela sua situação económica.
Pode estar aqui um indício de como as coisas se teriam iniciado quando
as necessidades ou circunstâncias graves empurraram pobres sem posses
e pequenos camponeses a procurar a protecção ou ajuda dos nobres.
Não é difícil imaginar que, nos séculos que precederam Sólon, muitas
famílias não possuíam terras e tinham de trabalhar para outrem. Como é
que os ricos e os nobres, proprietários de grandes domínios fundiários, con­
seguiam ou aumentavam, nesses tempos recuados, a força de trabalho?
É bem possível, portanto, que nuitos dos tetas e não poucos dos pe­
quenos proprietários, arruinados por sucessivas divisões das propriedades
ou por outras quaisquer circunstâncias, não querendo resolver a situação
pelo recurso aos empréstimos que os poderiam lançar a muito curto prazo
na escravatura, se pusessem directamente na dependência dos ricos,
uns trabalhando as suas terras, os outros deles recebendo ajuda em grão
e em material agrícola, com a obrigação de entregar uma parte da colheita.
Podemos recuar o início dessa dependência voluntária até aos séculos
difíceis e violentos que se seguiram ao declínio micénico, tempos em que
a segurança da população era precária e problemática. Era uma época
em que não estavam ainda constituídos os Estados fortes com relativa
centralização. Os membros das pequenas comunidades regionais, desam­
parados e expostos às rapinas e assaltos de outros grupos belicosos, sen­
tir-se-iam débeis e necessitados de protecção. Em face dessa debilidade
ter-se-iam submetido a um vizinho poderoso que os protegia em troca de
serviços e da entrega de parte das colheitas (^^).

Cf. Ilíada 21.441 -460; Odisseia 11.484-491; 18.356-364. Deduz-se da afirmação


de Aquiles do passo de Odisseia 11. 484-491 - preferir ser teta a rei dos mortos - que,
nos Poemas Homéricos, o teta estava no grau mais baixo da escala social. Vide M. I.
Finley, The world o f Odysseus (London, 1956), pp. 56-62.
Na Odisseia 4 .644 parece estabelecer-se uma aproximação entre “servos” {dmôes) e
tetas. Vide os comentários das edições da Odisseia por Stanford (London, '^1961) e por
A. H eubeck- S. West (I, Fondazione Lorenzo Valla, 1981).
(^h ^ iée Forrest, La naissance de la démocratie grecque (Paris, 1966), pp. 149-150;
Finley, “La servitude par dettes”, p. 169.

50
EPOCA ARCAICA

A necessidade de protecção teria desaparecido com o tempo, mas os


senhores continuam a exigir a esses dependentes o pagamento. Procurada
e aceite de início como vantajosa para as duas partes, essa dependência
transforma-se com os anos em obrigação efectiva e odiosa.

Analisada a evolução do comércio e suas consequências sociais e


políticas, vamos agora ver o papel desempenhado por duas inovações da
época arcaica: a criação da hoplitia e a introdução da moeda.
Nos fins do século VIII e inícios do VII a. C. verifica-se uma transfor­
mação da táctica militar, inovação que parece ter surgido na Lacónia (^'*).
Deixa de ter por base a cavalaria e passa a apoiar-se no hoplita - soldado
grego de infantaria que combatia equipado com o hoplon, ternio que de­
signava 0 conjunto do armamento (anuadura, grevas ou cnémides, escudo,
elmo). Os hoplitas actuavam em grupos dispostos de tal maneira que, em
combate, o escudo de um protegia metade do corpo do companheiro do
lado esquerdo e as pontas das lanças das primeiras cinco filas projectavam-
-se para a frente. Assim se constituía uma autêntica muralha, cujo rompi­
mento arrastava de modo geral graves consequências. Desse modo, o
combatente não depende só de si, mas também dos companheiros. Pre­
cisava de actuar em grupo, no qual, ao contrário da cavalaria, o indivíduo
pouco conta e é indispensável uma acção conjunta. A hoplitia exige enfim
espírito de disciplina e de solidariedade e contribui, portanto, poderosa­
mente para solidificar a pólis, incrementando o sentimento de comunidade.
A juntar ao aumento do sentimento de comunidade e ao espírito de
corpo, a nova táctica militar permitiu ainda o acesso ao poder militar de
um maior número de cidadãos. Apesar de o soldado ter de se equipar a
expensas suas e de não receber qualquer soldo, o custo das annas do ho­
plita sempre era sensivelmente menos oneroso do que o de um cavalo (^^).
Desse modo, os cidadãos de recursos médios ascendem ao poder militar
e passam a ter papel decisivo na defesa da pólis.

Ph Sobre o aparecimento da hoplitia na Grécia vide A. Andrewes, The Greek tyrants


(London, 1956, repr. 1974), pp. 31-33; T. B. L. Webster, From Mycenae to Homer
(London, 1958), pp. 214-215; A. M. Snodgrass, “The hoplite reform and history”, J/7S
85 (1965) 110; M. Detienne, “La phalange: problèmes et controverses”, in J.-P. Vernant
(ed.). Problèmes de la guerre en Grèce ancienne (Paris, 1968), pp. 119-142.
O W. K. Pritchett, Ancient Greek military practices Part I (California University
Press, 1971), caps. 1-2 considera que o hoplita tinha de se equipar e não recebia soldo, a
não ser uma modesta indemnização diária durante o serviço. Por seu lado Adkins, Moral
values and political behaviour, pp. 60-62 estabelece ainda uma relação entre os hoplitas
e a riqueza. Sobre a obrigatoriedade de o hoplita ter de custear o seu armamento vide ainda
J. K. Anderson, Military theory and practice in the age o f Xenophon (Berkeley, 1970),
pp. 13-40 e 45-46.

51
A GRÉCIA ANTIGA

A consciência dessa sua importância e o facto de, nessa altura, o


poder político se encontrar estreitamente ligado ao poder militar levam
ao desejo, senão à exigência, de ter acesso aos cargos e de participar
também no governo da pólis. Acentua-o Aristóteles {Política 4. 13. 10-
-13, 1297b 16-28), ao referir que, com o crescimento das cidades e com
o fortalecimento da infantaria pesada, maior número de cidadãos participa
na politeia (^^).
Qual a causa impulsionadora de tal evolução? As opiniões diferem.
Segundo uns, o progresso técnico, ao impor uma nova fonnação de com­
bate, constrange a aristocracia a associar pelo menos os cidadãos da
classe média na defesa da pólis e, em consequência, a partilhar o poder
político. Para outros, o processo seria inverso: verificar-se-ia a modificação
de forças sociais que retira à aristocracia o privilégio do poder político e
leva à constituição de uma formação de combate que engloba a massa
dos cidadãos e origina a invenção do anuamento adequado. Quanto a
mim, tem razão Y. Garlan ao considerar que a hoplitia “teria começado
por ser um instrumento puramente técnico ao serviço da aristocacia antes
de contribuir para a ascenção política das novas classes sociais” Q’’). Desse
modo a aristocracia, ao tomar a iniciativa desta reforma militar, contribui
inconscientemente para a destruição da sua hegemonia social e política.
De qualquer modo, por uma razão ou por outra, verifica-se a alteração
da táctica militar que implica a participação dos cidadãos das classes
não nobres. Tal facto faz surgir neles a ideia de que a pólis é uma comuni­
dade de cuja defesa e manutenção são parte activa imprescindível. Assim
ganham consciência do seu valor e passam a exigir ter também voz na
definição da política da pólis. A introdução da hoplitia faz perder à aristo­
cracia a hegemonia do poder militar e acaba por constituir mais um afluente
da caudalosa corrente da crise social da segunda metade do século VII a. C.

Outro veio do caudal da crise chega com a introdução da moeda, que


teria aparecido na lónia/Lídia no último quartel do século VII a. C. e
logo fora importada pelos Gregos. Até aí as avaliações e os pagamentos
eram feitos em bois e em medidas de cereais - portanto profundamente
relacionados com a terra. Quem se não recorda do famoso episódio de
Glauco e Diomedes do canto VI àãilíada? Os dois guerreiros, um troiano

Não há acordo quanto ao sentido em que Aristóteles usa aqui a palavra politeia
(“constituição”, “república”). No seu sentido lato? Ou num sentido mais restrito e preciso?
De facto, em Aristóteles,/?o//Ye/a pode significar “constituição”, mas também um certo
tipo de “governo”, ou ainda “política”, no sentido de orientação, acção política.
(D La guerre dans V Antiquité (Paris, Fernand Nathan, 1972), p. 96.

52
EPOCA ARCAICA

e outro aqueu, estão frente a frente, prontos para o combate. Mas, antes
de o iniciarem, perguntam pela linhagem um do outro - é de timbre esse
procedimento numa sociedade cavalheiresca como é a homérica - e vêm
a saber que estão ligados pelos laços da hospitalidade. Então deixam de
combater e trocam de annas. E o poeta termina o episódio desta fonna
um tanto irônica (vv. 234-236):

Decerto que então Zeus Crónida tirou o senso a Glauco,


ele que trocou as armas com Diomedes,
dando o ouro pelo bronze, o valor de cem bois por nove
apenas (^^).

A introdução da moeda, embora demore certo tempo a impor-se, acaba


por reduzir pouco a pouco esse tipo de avaliação e por limitar a troca
directa.
E corrente pensar-se - e parece natural que assim fosse - que a
moeda teve desde o início a função de padrão de valor para facilitar o
comércio. Daí considerar-se também que oferecia um testemunho deci­
sivo do incremento das trocas e dos inícios da economia monetária. Mas
os dados de que hoje dispomos, fornecidos pelas escavações arqueoló­
gicas, contradizem essa ideia. Verifica-se a quase ausência de espécimes
de pequeno valor: houve, é certo, emissão de ffacções de 1/96 da unidade,
mas estas eram, por um lado, de manipulação pouco prática, devido à
sua pequenez; por outro, apresentavam mesmo assim ainda um valor
excessivo para a aquisição dos bens do dia-a-dia. Afinal, indício de que a
referida introdução não visava facilitar o comércio, já que se não consegue
comerciar só com moedas de grande valor intrínseco (^^). Vide nota em
apêndice a este capítulo.
Hoje os numismatas tendem para a hipótese de que aos inícios da
cunhagem presidiriam aspectos não comerciais. Apontam, por isso, como
factores que teriam contribuído para a sua introdução, a nonnalização da
vida social; o desenvolvimento do papel fiscal do Estado (multas, impostos,
taxas); o financiamento de exércitos de mercenários, muito em voga a
partir da criação da hoplitia - há com frequência, mais tarde, ligação
entre a emissão de moeda e o pagamento a mercenários -; o pagamento
de salários a outros empregados públicos; o desenvolvimento da cons­
ciência cívica. Um dos aspectos mais curiosos e elucidativos da vida da

f *) Tradução de M. H. Rocha Pereira, Hélade (Porto, ^2003), p. 40.


(^®) G K. Jenkins, Monnaies grecques (trad, fr.: Fribourg, Office du Livre, 1972),
p. 32 tem opinião diferente.

53
A GRÉCIA ANTIGA

amoedação na Grécia reside no facto de - já pelos finais do século VI e


com os espécimes em prata - cada pólis, por mais pequena que fosse,
desejar ter a sua moeda que cunhava com os símbolos da cidade. Essa
proliferação de espécimes diferentes, apesar de haver a tendência de a
cidade usar o tipo base, não era de molde a uma facilitação do comércio.
Por outro lado, quando a sua difusão se verifica, a moeda aparece antes
de mais como um emblema cívico a proclamar orgulhosamente a inde­
pendência política e econômica da pólis que a cunhava O . Portanto,
havería uma ligação da sua rápida expansão, no século VI a. C., com o
desenvolvimento das póleis e o sentimento cívico e comunitário. Ora
Aristóteles (Ética a Nicómaco 5. 5 ,1 132b31-1133b35) chama a atenção
para a importância ética da moeda. A sua expansão deve enquadrar-se
assim no desenvolvimento das relações sociais e na definição de valores,
que é uma característica da época arcaica (‘“). Mas, fruto de uma evo­
lução morosa - mais ou menos, confonne as cidades - , o Grego acaba
por habituar-se a utilizar a moeda nas transacções comerciais
A introdução da moeda, se não teve por causa decisiva facilitar o co­
mércio e está ligada a aspectos éticos, acaba afinal por ter graves conse­
quências. Até então, como vimos, as avaliações e pagamentos faziam-se
em cereais e cabeças de gado. Isso não permitia a acumulação de riqueza:
os cereais estragavam-se e os animais necessitavam de extensas proprie­
dades. A inovação veio eliminar esse inconveniente e permitir a acumu­
lação de riquezas. Para tal era necessário vender produtos que os nobres
só obtinham das terras. Daí a ânsia da posse de maior quantidade de
terras - à custa naturalmente dos pequenos camponeses ('*^). A introdução
da moeda, uma inovação que afinal acabou por constituir mais uma acha
no vulcão da crise.

O comércio e a indústria, o cultivo da vinha e da oliveira possibilitam


a aquisição de riqueza que a moeda permite acumular. Desse modo nos
surge uma riqueza que não tem por base a posse da terra. Os textos de

C'“) Vide M. Austin et P. Vidal-Naquet, Économies et sociétés en grèce ancienne


(Paris, Armand Colin, 1972), pp. 71-74.
Ed. Will, “De P aspect éthique des origines grecques de la monnaie”. Revue
historique 212 (1954) 209-231 faz uma análise do texto de Aristóteles e põe em realce os
aspectos cívicos e éticos das primeiras moedas gregas.
C’b Ao Dr. Mário de Castro Hipólito agradeço as várias sugestões e observações
sobre a origem da moeda e seus primeiros tempos na Grécia; grato também pela nota que
acedeu em redigir sobre a origem da moeda e que vai no final deste capítulo, em apêndice.
(D Vide M. I. ¥m\Qy, Ancient economy (London, 1973), pp. 166-167.

54
EPOCA ARCAICA

Sólon e de Teógnis oferecem um testemunho da importância que essa


riqueza havia adquirido. Como vimos, Sólon refere que muitos vilões
estão ricos e os nobres indigentes (fr. 15 West, v. 9) e Teógnis acentua
que se presta culto ao dinheiro e que o nobre desposa a filha do vilão e
este a do nobre (w . 189-190) C*'*).
A aristocracia perdera o poder econômico, com o aparecimento da
nova classe dos plutocratas; perdera também o poder militar, com a nova
táctica de combate; mas continuava a única detentora do poder político e
dele se fazia valer. O desenvolvimento da pólis fizera aparecer a noção
de cidadão e nascer o sentimento comunitário; a nova táctica militar
dera aos cidadãos de médios e parcos recursos a consciência da sua im­
portância e dos seus direitos. Mas, apesar disso, continuavam à completa
mercê dos nobres e, em última análise, eram eles que acabavam por
sofrer as consequências da competição econômica entre os aristocratas
e os novos ricos.
Vários aspectos que convergem todos para uma agudização na se­
gunda metade do século VII a. C. É então que a situação se toma insus­
tentável, com duras lutas sociais que, não raro, temiinam em guerra civil.
Demonstram-no os textos de Sólon e a informação de Aristóteles, a que
fiz referência no início: a ganância e a busca desmedida da riqueza, sem
olhar a meios para a obter; os pequenos camponeses empobrecidos,
hipotecados, vendidos como escravos; o descontentamento generalizado
e a revolta; a exigência crescente e cada vez mais insistente de uma
redistribuição de terras.
As póleis, de modo geral, procuram numa primeira fase resolver o
conflito pacificamente. As facções em confronto aceitam de mútuo acordo
a escolha de homens íntegros que merecem a sua confiança, com a fina­
lidade de tomar as medidas necessárias para resolverem a crise. São os
legisladores que vão dotar as póleis de códigos de leis e proceder a
reformas mais ou menos profundas.

A pólis desenvolvera-se e o cidadão ganhara consciência do papel


que nela desempenhava e dos seus direitos. A justiça familiar deixa de
ter razão. As regras tradicionais e religiosas têm apenas a existência que
lhes dá a aceitação tácita dos que as seguem (cf Platão, Leis 3, 681bc).
Como observa J. de Romilly, é possível que o nascimento da pólis fosse
acompanhado de uma primeira colocação em comum desses usos e
tradições e de um primeiro entendimento sobre as funções reservadas a

f b Vide supra pp. 40-41.

55
A GRÉCIA ANTIGA

cada um deles Para a boa ordem da pólis e para obstar às guerras


sangrentas entre famílias, era necessária uma justiça exercida pela comu­
nidade como um todo, pela pólis. As classes inferiores, que se viam espo­
liadas dos seus bens e vítimas de sentenças injustas, exigem um direito
escrito que pudesse ser conhecido por todos, a que pudessem recorrer e
pelo qual guiassem o seu modo de agir. Sentiram necessidade de verem
as nomias e costumes passados a escrito e poderem modificá-los, se ne­
cessário, a fim de estipular os direitos de cada um e de estabelecer uma
lei comum que servisse de lema à sua conduta. A codificação das leis
vem satisfazer essa aspiração: põe a lei ao alcance de todos, oferecendo-
-Ihes a possibilidade de a conhecerem, sem estarem sujeitos ao segredo
e à arbitrariedade das interpretações. Retira dessa fonna aos aristocratas
o monopólio da justiça.
Foi essa a flinção dos legisladores - um fenômeno por que passaram
praticamente todas as póleis gregas -, que coligiram a tradição e os
costumes, modificaram-nos e ofereceram uma estrutura legal à vida
cívica. Esses códigos de leis recebiam designações diversas conforme
as cidades - por exemplo, rhêtra em Esparta e outras cidades, thesmos
em Atenas -, mas não tinham ainda o nome de nomos, o tenno usual para
designar a lei positiva no período clássico. Na época arcaica, nomos surge
com vários sentidos, mas não ainda o de lei que só adquire no final desse
período
Os legisladores aparecem primeiro nas cidades mais desenvolvidas
econômica e comercialmente, portanto naquelas em que a evolução atrás
descrita se processou mais cedo. Os primeiros surgem por meados do
século VII a. C. na Magna Grécia. Zaleuco de Locros (talvez por volta
de 650 a. C.) é o mais antigo de que temos conhecimento. Trata-se de
um legislador lendário que parece ter sido o autor do primeiro código
escrito de leis que muitas outras cidades da Itália e da Sicília aceitaram.
Segundo Éforo {FGrHist 566 F 130. C f ainda Diodoro 12.19b), Zaleuco
teria sido o primeiro a fixar penas determinadas para cada tipo de crimes.
Carondas, legislador de Catânia (cerca de 630 a. C.), teria dotado essa
pólis de leis de carácter aristocrático, adoptadas também por outras cidades,
comoNaxos, Leontinos, Hímera. Segundo Aristóteles, a sua originalidade
teria consistido em considerar a queixa como falso testemunho ('*’).

(‘'0 La loi dans la pensée grecque (Paris, Les Belles Lettres, 1971), p. 10.
(‘*0 Sobre a evolução do sentido de nomos e primeiras ocorrências com o sentido de
lei vide J. Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos I, pp. 155-163.
(‘’9 Aristóteles, Política 2. 12. 11, 1274b5-8. Cf. também Diodoro 12. 11-19.

56
EPOCA ARCAICA

Os legisladores mais conhecidos e que mais influência vieram a exer­


cer na sociedade grega foram, no entanto, os de Esparta e os de Atenas.
Esparta imputava a sua característica constituição da época clássica ao
lendário Licurgo. A atribuição a esse legislador do cosmos espartano -
para utilizar o tenno de Heródoto 1. 64. 5 - suscita alguma dificuldade.
Em primeiro lugar, não sabemos se o legislador teve existência real ou se
é uma criação lendária. Mencionado pela primeira vez por Simónides de
Ceos (fr. 123 Page = Plutarco, Licurgo 1. 4), nunca os fragmentos de
Tirteu se lhe referem. Os dados de Heródoto e de outros autores gregos
a seu respeito são contraditórios. Foi objecto de culto em Esparta (cf Hdt.
1. 66.1; Plutarco, Lic. 31.4; Pausânias 3.16. 6) e é contrário ao espírito
religioso grego deificar homens. Tudo isto aponta para a conclusão de
que a biografia de Licurgo é fundamentalmente um produto lendário.
Uma corrente tende a considerar até que não teve existência real
Penso que se não deve ir tão longe, a ponto de negar a existência do
legislador. De qualquer modo, a ter existido, seria uma figura não posterior
ao século IX a.C., portanto de uma época muito anterior às transfor­
mações que progressivamente deram a Esparta o cariz da época clássica
e a tomaram uma pólis fechada e militarizada. A formação do Estado
espartano foi fmto de uma longa evolução, com vários momentos e está­
dios, mais determinantes uns do que outros. Não é de excluir por completo
a participação de Licurgo nessa longa caminhada. Não terá sido porém
0 autor das reformas dos fins do século VII e primeira metade do VI a.C.,
a parte mais significativa da transformação. Essas talvez se devam atribuir
a Quílon, que a tradição incluiu no grupo dos Sete Sábios e foi sem dúvida
um legislador de grande importância na afirmação de Esparta (‘*^).

f *) Heródoto 1. 64. 4 e 7. 204 dá-o como tio e tutor do rei Leobotes, doze gerações
anterior a Leónidas que morreu em 480 a. C., o que nos leva para uma datação nos inícios
do século X; Simónides, fr. citado, considera-o tio de Carilau, um euripontida que reinou
até 885; as outras datações antigas oscilam por um espaço de cinco séculos, entre a época
dos Heraclidas e o século VII. Estas divergências motivaram já as dúvidas de Plutarco,
Licurgo 1. Acresce, além disso, que as suas reformas são atribuídas por Helânico (FGrHist.
4 F 116 = Estrabão 8. 5. 5, 366a) a Eurístenes e Procles; que o estudo da etimologia do
nome a nada tem conduzido e que são também suspeitos os nomes do pai (Êunomo ou
Prítane: Plutarco, Lic. 1) e o do irmão (Eucosmo: Pausânias 3 .16.6); que a tradição grega
tende a atribuir a um só legislador todas as instituições. Sobre o assunto vide How-Wells
I, pp. 85-87; A. Toynbee, Some Problems o f Greek History (Oxford University Press,
1969), pp. 274-283.
(■’’) Quílon, um dos chamados Sete Sábios gregos ( c f Heródoto 1. 27. 2; Plutarco,
Tratados Morais 35f), era conhecido pela sua piedade (c f Plutarco, Tratados Morais
35f) e pela sua sabedoria prática ( c f Heródoto 7. 235. 2) e teve culto como herói em
Esparta. Exerceu o cargo de éforo por meados do século VI e, com base em Diógenes

57
A GRÉCIA ANTIGA

Até aos fins do século VII ou inícios do VI a. C., Esparta era uma
sociedade aberta e hospitaleira, que tinha uma cultura florescente e era
visitada e escolhida para local de residência por poetas e artistas estran­
geiros. A arqueologia mostra que, como qualquer outra cidade aristocrática
da época arcaica, importava e exportava objectos de arte, cerâmica e
produtos de luxo (^°). Dada pelo contrário à arte, poesia, música, era
uma pólis aristocrática que não se distinguia das demais. O isolamento
só começou a verificar-se a partir do século VI a.C., devido a transfonna-
ções ocomdas nos fins do século VII e primeira metade do VI e motivadas
possivelmente pelas lutas sociais subsequentes à Segunda Guerra Mes-
sénica (c. 650-620 a. C.). Essas reformas, lentas e progressivas, deram
a Esparta a feição característica de cidade-quartel, fechada e imobilista,
que apresenta na época clássica.
Hoje admite-se que duas foram as etapas decisivas: uma anterior a
Tirteu em que se teria verificado a criação e implantação das instituições
ou órgãos políticos - a “grande rhêtra - e uma segunda, iniciada por
volta de 600 a. C., que transformou Esparta na cidade fechada e mili­
tarizada (^‘).
Em Atenas, ficaram conhecidos dois legisladores: Drácon e Sólon.
No terceiro quartel do século VII a. C., os nobres e o povo encontravam-
-se em conflito aberto, como infonna Aristóteles, Constituição de Atenas
2. 1. 1 .0 povo começava a tomar consciência de si e a definir os seus
contornos; os hoplitas, o povo em armas, tinham-se tomado uma ameaça
e um perigo para os Eupátridas. Foi possivelmente a noção desse perigo
que levou os nobres a fazerem concessões ao dêmos e a encarregarem
Drácon (cerca de 620 a. C.) de dotar Atenas com o primeiro código de

Laércio 1.68, há quem o considere o criador do eforato, mas é mais provável que o tenha
reformado, contribuindo para cimentar consideravelmente a influência dessa magistratura
na sociedade espartana. É uma figura ligada à consolidação da Simaquia do Peloponeso, à
grande transformação social e institucional sofrida por Esparta na primeira metade do
século VI e à propaganda e luta de Esparta contra os regimes tirânicos: com a sua ajuda
foram alguns desses regimes afastados de cidades-estado gregas (cf. Plutarco, DeMalig.
Her. 21).
Sobre o problema da cronologia das transformações vide Gomme, A Historical
Commentary on Thucydides I, pp. 128 sqq.
Vide C. M. Bowra, Greek Lyric Poetry (Oxford, 1961, repr. 1967), sobretudo
pp. 16-20 e 66-73; P. Janni, La cultura de Sparta arcaica (2 vols, Roma, 1965-1970); A.
J. Podlecki, The Early Greek Poets and Their Times (Vancouver, University o f British
Columbia Press, 1984), pp.89-116.
(^‘) Vide W. G. Forrest, A History o f Sparta 950-192 B. C. (London, 1968), pp. 40-
-68; P. Cartledge, Sparta and Lakonia. A Regional History 1300-362 B. C. (London,
1979), pp. 102-159.

58
EPOCA ARCAICA

leis, que garantisse ao povo alguma protecção contra as arbitrariedades.


A parte mais significativa da sua legislação residia nas leis respeitantes
ao homicídio - a única parte do seu código que sobreviveu à legislação de
Sólon -, depois reavivadas no século V a. C. e preservadas em pedra (^-).
Sólon dota a cidade de um novo código de leis, que altera profunda­
mente 0 de Drácon, e procede a um conjunto de refonnas e inovações
institucionais, sociais e económicas que terão profunda influência na
evolução futura e abrirão a lenta caminhada para a democracia f ^).
As leis e reformas de Sólon, que abrangem os domínios social, econó­
mico, político e institucional, alteram consideravelmente a constituição
ateniense (^'^).
No campo social - talvez a primeira tarefa a que lança mãos - toma
medidas que ficaram conhecidas pelo nome de seisachíheia “o alijar do
fardo” ou “supressão das obrigações infamantes”, de cujo conteúdo não
temos um conhecimento satisfatório. Talvez por essas leis Sólon abolisse
0 estatuto do hectêmoro, anulasse os marcos de sujeição das terras - os
horoi a que se refere o legislador no verso 6 do fr. 36 West - , suprimisse
as dividas existentes, interditasse no futuro a hipoteca pessoal. A proibição
dessa hipoteca, como observa Ehrenberg, com os seus efeitos a repercutir-
-se no futuro, era uma espécie de acto de habeas corpus, raro ou mesmo
único no mundo grego f ^).
Esse acto de libertação foi com certeza muito mais fácil do que a
repatriação dos Atenienses pobres que haviam sido vendidos e serviam
no estrangeiro como escravos. Não sabemos como Sólon conseguiu
libertá-los dos seus possuidores e quais os fundos utilizados. De qualquer
modo, fossem quais fossem, Sólon tomou essas medidas, como o próprio
explicitamente reclama nos versos 5-15 do fr. 36 West, ao invocar em
testemunho da sua actuação

f IGC- 115; Meiggs-Lewis, A selection o f Greek historical inscriptions (Oxford


University Press, 1969), n° 86; R. S. Stroud, Drakon’ s law on homicide (University o f
California Press, 1968); D. M. Macdowell, Athenian homicide law in the age o f orators
(University o f Manchester, 1964).
O J. Ribeiro Ferreira, Da Atenas do Século Vila. C. às Reformas de Sólon (Coimbra,
1988), pp. 20-21 (para Drácon) e 31-58 (para as reformas de Sólon).
(^h O que se segue sobre a acção e reformas de Sólon é uma síntese do estudo mais
amplo Da Atenas do Século VII a.C. às Reformas de Sólon (Coimbra, 1988); Delfim F.
Leão, Sólon. Ética e Política (Lisboa, 2001), pp. 281-399. Aí se dão mais pormenores e é
indicada a bibliografia principal sobre o assunto.
(55) P j-qjyi Solon to Socrates, p. 64. Para as principais fontes sobre a seisachtheia vide
A. Martina, iSo/on. Testimonia Veterum, Roma, 1968, pp. 141-146.

59
A GRÉCIA ANTIGA

...........a Terra negra, de que outrora arranquei


os horoi enterrados por toda a parte.
A que era antes eserava é livre agora.
Reconduzí a Atenas, pátria fundada pelos deuses,
muitos que haviam sido vendidos, com justiça
ou sem ela, e outros que tinham fugido
forçados pela penúria, que já nem falavam ático,
de tanto andarem errantes por todo o lado.
A outros que aqui mesmo suportavam ignóbil escravidão,
tomei-os livres (^^).

Nestes versos está o essencial das medidas sociais tomadas por Sólon,
para tentar resolver a situação dura e degradante em que se encontravam
os hectêmoros e outros dependentes.
Sólon reorganiza a agricultura em bases novas, dando preferência e
incentivando a cultura da oliveira e da vinha. Promove a exportação do
azeite, mas proíbe por outro lado a saída dos produtos naturais que fizes­
sem falta à cidade (Plutarco, Sólon 24. 1), sobretudo a dos cereais que
os grandes proprietários tinham praticado.
Desenvolve, por meio de medidas adequadas, a indústria e o comércio,
de modo a tomar essas actividades mais atractivas. Obriga os pais a
ensinarem um ofício aos filhos, sob pena de estes ficarem dispensados
de os tratarem na velhice, e incentiva a fixação de artífices estrangeiros
em Atenas, com a promessa de concessão de cidadania. Essa oferta
deve ter atraído muitos habitantes de outras cidades que terão contribuído,
em larga medida, para o incremento rápido da arte e da técnica.
O comércio desenvolvera-se em Atenas e a agricultura começa a trans-
fonuar-se lentamente, de exploração de mera subsistência, em exploração
para comércio - a trabalhar para exportar (” ).
Ao introduzir os novos padrões, ao fomentar a indústria e a agricultura,
ao encorajar o comércio marítimo e ao combater a competição comercial

f®) Tradução de M.H. da Rocha Pereira, Hélade (Porto, ^2003), p. 139.


(D Os vasos atenienses de figuras negras do século VI a.C. têm sido encontrados no
Oriente, no Mar Negro, no Ocidente e ultimamente na própria Andaluzia, confirmando o
florescimento do comércio ateniense. Sólon, que foi comerciante por algum tempo, sabia
a importância que tinha, para um país pobre como a Àtica, o comércio e, por consequência,
a manufactura e a boa qualidade do trabalho.
Outras medidas suas teriam contribuído para o fomento do comércio: a criação de um
novo local para o mercado, na Ágora, e a reforma e aumento de medidas, pesos e moeda
a que - segundo Aristóteles, Constituição de Atenas 10 - teria procedido. A afirmação do
Estagirita é controversa e coloca algumas dificuldades, sobretudo no que respeita a moeda.
Para uma discussão pormenorizada da questão vide Delfim Leão, Sólon. Ética e Política
(Lisboa, 2001), pp. 290-296.

60
EPOCA ARCAICA

de lugares como Corinto, Egina, Mégara, talvez Cálcis, Sólon abre Atenas
à conquista do mundo meditarrâneo e prepara o caminho para a sua pros­
peridade dos séculos VI e V a. C.
No sentido de privar os Eupátridas do monopólio constitucional, que
até aí exerciam, e para satisfazer os enriquecidos pelo comércio e pela
indústria que não pertenciam aos Eupátridas e que, portanto, apesar da
sua riqueza, não tinham acesso aos cargos directivos da pólis, Sólon vai
basear o acesso a esses cargos na riqueza. Assim, ignorando as pretensões
de nascimento, divide os Atenienses em quatro classes sociais, com base
- segundo Aristóteles, Constituição de Atenas 1 e Plutarco, Sólon 18.
1-2 - nos rendimentos das terras que possuíam: os pentacosiomedimnos
ou os cidadãos das quinhentas medidas, os cavaleiros (hippeis), os
zeugitas e os tetas, se colhiam, em moios ou dracmas, pelo menos o
equivalente a quinhentos, trezentos, duzentos ou abaixo desse número,
respectivamente (^^).
No domínio das instituições, Sólon manteve os Arcontes, o Areópago
e a Assembleia - os antigos órgãos da pólis - , mas sujeita-os a novas
regras de recrutamento (^^). Os Arcontes, até aí eleitos de determinadas
famílias nobres pela Assembleia de todos os cidadãos possuidores de
terras, passam a sê-lo de acordo com a riqueza, possivelmente de entre
os elementos das duas mais elevadas classes, ou somente dos pentacosio­
medimnos, como pretendem alguns. Também só eles, por consequência,
tinham possibilidades de pertencer ao Areópago, já que este era constituído
por ex-arcontes - um método de recrutamento talvez instituído por Sólon.
O legislador definiu com mais clareza os direitos e a jurisdição desse
conselho e o seu papel de supervisão geral sobre as leis e os magistrados
(Aristóteles, Constituição de Atenas 3.6 e 4.4), de modo a obter possivel­
mente uma diminuição do seu poder e um acréscimo do dos magistrados,
em especial do arconte epónimo. Mas parece ter-lhe concedido, por outro

As fontes antigas respeitantes às classes de Sólon estão coligidas em Martina,


Solon, pp. 170-173.
O texto de Aristóteles sugere a existência das classes já antes de Sólon {AP. 7.3).
Plutarco, por seu lado, atribui a criação das quatro classes ao legislador ateniense {Sólon
18.1-2). Em face da disparidade, alguns helenistas consideram a remissão de Aristóteles
para a época precedente um acrescento posterior.
(^’) Já desde a Antiguidade (Plutarco, Solon 19.3) tem sido posta em causa a existência
do Aerópago em época anterior a Sólon, atribuindo-se portanto a sua criação ao legislador.
Aversão não era contudo conhecida de Aristóteles, já que este não lhe faz referência, e vai,
além disso, contra a tradição que dava o Aerópago como procedente da antiga Gerusia
régia e sua continuação. Sobre o assunto vide M. Manfredini e L. Piccirilli, Plutarco:
Solone, Fondazione Lorenzo Valla, pp. 216-217.

61
A GRÉCIA ANTIGA

lado, 0 poder de julgar e punir todo o que atentasse contra a constituição


(Aristóteles, Constituição de Atenas 8.4) (®°).
À Assembléia alterou-lhe a composição e modificou-lhe as compe­
tências: estipula que todos os Atenienses, sem distinção de riqueza ou
classe, tinham o direito de nela participar e estabelece que as suas reuniões
passem a realizar-se em datas determinadas. Em consequência da
legislação de Sólon ou do resultado fortuito da importância crescente, a
Assembléia passa a desempenhar papel bastante eficaz na designação
dos magistrados - todos eles eram eleitos por ela - e a ser considerada
como 0 lugar adequado em que deviam ser tomadas as decisões definitivas
de um número cada vez maior de problemas. Desse modo, a Assembléia
vai-se tomando mais consciente do seu peso na vida política ateniense;
através dela, como sublinha Forrest, as pessoas comuns, quer Sólon o
quisesse quer não, ganharam aos poucos confiança em si mesmas (^').
Sólon teria ainda instituído a Boulê dos Quatrocentos, um conselho
paralelo ao Areópago, e criado para contrabalançar a autoridade deste,
aberto a elementos de classes censitárias mais baixas, escolhidos por
tiragem à sorte das três classes mais elevadas, cem por cada uma das
quatro tribos iónias (Aristóteles, Constituição de Atenas 8.4; Plutarco,
Sólon 19.1) (^^). Com objectivo idêntico teria instituído os novos tribunais
da Helieia dos quais qualquer elemento do dêmos, com mais de trinta
anos, podia ser membro. A esses tribunais qualquer pessoa - livre ou

(“ ) Se assim é, trata-se de uma medida contra a tirania, que estava aliás perfeitamente
adequada ao temperamento de Sólon e à sua oposição firme à autocracia, de que a tradição
se fez eco em vários testemunhos.
O próprio Sólon recusa a tirania no fr. 34 West vv. 19-20 e refere, no 36 West, vv. 20-
-25, que, se outro mais malvado tivesse tomado o aguilhão e usado da violência, a cidade
estaria viúva de muitos homens.
Os testemunhos dos autores antigos relativos à oposição de Sólon à tirania e às suas
relações com Pisístrato vêm citadas em Martina, Solon, pp. 271-276.
La naissance,'Ç)'Ç). 169-171 (especialmente p. 171). O próprio Sólon acentua que
ao povo deu poder suficiente para ter uma posição condigna (fr. 5 West, vv. 1-2).
Sobre o acréscimo de poder e importância da Assembleia vide Linforth, Solon the
Athenian, pp. 134-135; Ehrenberg, From Solon to Socrates, pp. 69-70. VagneXi, Athenian
constitution, pp. 92 e 96-97, pelo contrário, considera que as reformas de Sólon quase
nada acrescentaram ao poder político do dêmos.
Era uma espécie de comissão executiva da Assembleia, com a missão de preparar
os seus trabalhos. Tratar-se-ia sem dúvida de uma das principais inovações atribuídas a
Sólon.
Estou a usar o condicional, porque nem todos aceitam a criação do novo Conselho
pelo legislador de Atenas. No entanto, Aristóteles {Constituição de Atenas 8.4) e Plutarco
{Sólon 19.1) atribuem-na ao estadista e a tradição de fins de século V e do IV a.C.
acreditava que ele fora o seu autor.

62
EPOCA ARCAICA

escravo, mulher ou criança - podia apelar das decisões dos magistrados


que considerasse injustas, ou quando fosse vítima de qualquer violência
ou ultraje (Lísias, Contra Teomnesto 1.16; Demóstenes, Contra Tímócrates
105; Plutarco, Sólon 18.3) Q^). Dessa forma oferece uma protecção
contra as arbitrariedades, ou pelo menos o autoritarismo, dos magistrados.
Na base da criação desses tribunais estava pois a ideia de que a lei se
encontrava acima do magistrado que tinha a cargo a sua aplicação.
É conveniente, contudo, colocar alguma moderação no epíteto de
democrata que a Sólon davam os Gregos do século IV a. C., a ponto de
chegarem a apelidá-lo de pai da democracia, e que ainda hoje se lhe
atribui. Ele não era um democrata no pleno sentido da palavra: mostram-
-no muitas das afinnações dos seus poemas e a sua constituição que,
estabelecida em bases econômicas, não estava longe da aristocracia.
Por confissão do próprio (fr. 4 West), Sólon visava a “boa ordem”, a
eiinomia. Esta implicava a norma da justiça e as suas leis conseguiram
criar uma atmosfera de legalidade. Praticante do direito constitucional,
sujeitou a comunidade, como um todo, às leis, ou seja, flindoii o Estado
na justiça. Para ele, o magistrado era o servidor da lei e não o seu senhor.
Procurou incutir nos Atenienses esse espírito e convertê-los ao seu ponto
de vista, como se nota através da sua obra e se deduz da sua actuação.
Embora não tivesse usado a expressão, foi o primeiro, como nota Ehrenberg,
a proclamar a “liberdade sob a lei” (^). Não implicava porém a igualdade
entre os cidadãos, quer econômica quer politicamente. Essa virá mais tarde.

Tomada pública pela codificação, a lei é às vezes gravada em pedra


na praça pública, a ágora, com vantagens que já vimos e que diminuem a
possibilidade de injustiça (^^).
Os códigos consistiam, sob vários aspectos, em instruções avulsas
aos magistrados a respeito de regras que deveríam dirigir-lhes as decisões,
relativas a direito constitucional e a direito privado: como devia ser gover­
nada a pólis; penas a aplicar aos crimes contra uma pessoa; posse de
escravos; assuntos relacionados com o parentesco (^Q.

(“ ) Apesar das opiniões em contrário, constituía possivelmente desde o início um


órgão distinto da Assembléia.
(64) pfQjyi Solon to Socrates, p. 74.
(65) pqj. exemplo, em Atenas, as leis de Drácon e de Sólon estavam escritas em prismas
de madeira rotativos {axones ou kyrbeis ) expostos possivelmente primeiro na Acrópole
e depois na Ágora, no Pórtico Real e no Pritaneu, para poderem ser lidas por todos.
(66) Yjfje Andrewes, “O desenvolvimento da cidade-estado”, in H. Lloyd-Jones, O
mundo grego (trad, port.: Zahar, Rio de Janeiro, 1965), p. 36; Bowra, A experiência
grega (trad, port.: Arcádia, Lisboa, 1967), p. 106.

63
A GRÉCIA ANTIGA

Apesar dos códigos escritos, a administração da justiça continuou, de


modo geral, nas mãos dos magistrados ou conselhos aristocráticos.
A obra dos legisladores, na maioria dos casos, não foi suficiente para
acalmar as lutas e perturbações sociais em muitas das cidades (cf Sólon,
fr. 36 West, vv. 18-27). Os conflitos sociais e as lutas pelo poder entre
sectores diferentes da população tinham atingido um ponto de ruptura
tão acentuado e eram o reflexo de desacordos tão profundos que a auto­
cracia apareceu aos descontentes como o único remédio viável.
Então indivíduos ambiciosos - geralmente originários da aristocracia
- aproveitam o descontentamento, ou promovem mesmo as lutas, para
atingir o poder. Fazem-no geralmente por métodos não constitucionais,
através da violência e da força. São os tiranos - um fenómeno também
característico da época arcaica grega, que atingiu quase todas as póleis,
como desenlace mais usual para as lutas sociais.
O tenrio tirano e o do regime a que dava origem, a tirania, não tinham
0 sentido negativo que encontramos nos fins do século V e no IV a. C. e
que hoje apresentam. Na primeira ocorrência, o fr. 10 West de Arquíloco,
a tirania é apelidada de poderosa e, na segunda metade do século V a. C.,
ainda os termos tyrannos e tyrannis aparecem utilizados com o sentido
apenas de “rei”, “soberano” e “realeza”, “poder”, embora a cor semântica
negativa também ocorra; a conotação pejorativa impõe-se definitivamente
a partir do governo dos Trinta Tiranos, em 404 a. C., e da sua actuação
violenta e sangrenta
Embora quase todas as póleis gregas acabassem por cair sob o domínio
dos tiranos, estes - tal como os legisladores - apareceram em primeiro
Em Sófocles, por exemplo, os termos ainda aparecem com o sentido predominante
de “rei” e “realeza” ou “poder”; cf. Édipo em Colono 419, %S\\Electra 661; R e/ Èdipo
514,58 8 ,7 9 9 ,9 2 5 ,9 3 9 ,1 0 4 3 ,1 0 9 5 (para tyrannos) e 380,535,541,592, (para tyrannis).
Se bem que o termo tyrannis pareça ter adquirido mais cedo uma conotação negativa,
como se pode ver no fr. 32 West de Sólon, também tyrannos apresenta essa cor semântica
já na primeira metade do séc. V, como se deduz da sua ocorrência, por exemplo, no
Prometeu Agrilhoado de Ésquilo (vv. 222, 310, 736, 761, 942) e nas Suplicantes de
Eurípides (vv. 399; 404). Vide M. Griffith, Aeschylus: Prometeus Bound (Cambridge,
1983), pp. 7-20, 84, 117, 220. Mas só a partir do governo dos Trinta Tiranos, em 404
a.C., e da sua actuação violenta é que o termo verdadeiramente ganha conotação pejorativa.
No entanto, a oposição rei/bom e tirano/mau só aparece formada no século IV a.C.
Até então os termos são utilizados um pouco indiferentemente, se bem que tyrannos
apresente significado mais negativo e seja a palavra apropriada para designar o autocrata
mais recente, enquanto basileus, “rei”, seria o vocábulo usual para designar os governantes
constitucionais das monarquias arcaicas. Vide Andrewes, The Greek Tyrants, pp. 20-30;
Cl. Mossé, La tyrannie dans la Grèce antique, pp. 133 sqq. Para a questão do aparecimento
da noção de tirania entre os Gregos vide J. Labarbe, “La apparition de la notion de
tyrannie dans la Grèce archaïque”, AC 40 (1971) 471-504.

64
EPOCA ARCAICA

lugar nas cidades marítimas e comerciais, que atingiram portanto mais


cedo a evolução atrás esboçada. Tinham geralmente um carácter anti-
aristocrático e protegeram as classes inferiores em que se apoiavam.
Desse modo contribuíram para o ruir dos privilégios da aristocracia e
para um maior nivelamento social. Sobretudo procuraram centralizar os
vários poderes: religiosos, institucionais, políticos, jurídicos. São medidas
de grande alcance, no âmbito da centralização, a cunhagem de moeda a
que muitos procederam e a centralização de determinados cultos, de
grande importância na vida das cidades. Os tiranos tudo fizeram para
conseguir a submissão dos interesses locais ao interesse central - ou
seja, os dos aristocratas ao do próprio tirano.
As tiranias desenvolvem uma política activa de contactos externos e
ligações familiares que, além de constituírem fortes pontos de apoio para
0 regime, trazem também uma época de paz e de prosperidade, cimentada
numa série de medidas de apoio aos camponeses e de incentivo à agri­
cultura, ao comércio e à indústria. Não é raro procederem à isenção de
impostos e à redistribuição pelos pequenos camponeses de terras confis­
cadas aos nobres.
Numa actuação política de longo alcance, os tiranos lançam-se num
programa de desenvolvimento cultural, de engrandecimento e de embele­
zamento da pólis. De um vasto leque de iniciativas realço a promoção da
cultura e da literatura, chamando à sua corte artistas e poetas: Píndaro
trabalhou para vários tiranos e com vários deles conviveu; Simónides e
Anacreonte estanciaram nos palácios de Polícrates e dos Pisístratos,
tiranos de Samos e de Atenas, respectivamente (®^). Os tiranos são déspo­
tas esclarecidos que muito contribuíram para o incremento cultural. Em
Atenas, os Pisístratos lançaram as bases do futuro florescimento das artes
e das letras. Vamos dar o seu caso como exemplo de actuação dos tiranos.
As refomias de Sólon, que analisámos acima, não foram suficientes
para apaziguar de todo os conflitos sociais, porque, moderadas, não
contentaram nem os nobres nem os pobres: para uns fora-se demasiado
longe, para outros ficara-se aquém do desejado.
A agitação social rebenta de novo e as lutas são aproveitadas pelos
Pisístratos que, após duas tentativas falhadas, a primeira em 561, instau­
ram a tirania defmitivamente em 546 e depois a mantêm até 510 a. C.
Numa actuação política, que aliás é comum a outros tiranos, procuram
desenvolver, engrandecer e embelezar a pólis: constroem um aqueduto,
para abastecer a cidade de água, erigem templos, como parece ser o

0 0 Hiparco, segundo refere o Pseudo-Platão, Hiparco 228c, mandou uma pentecontera


buscar Anacreonte de Teos e tinha sempre junto de si Simónides de Ceos.

65
A GRÉCIA ANTIGA

caso do de Atena na Acrópole e do de Zeus Olímpico, que eles teriam


iniciado; incrementam a escultura; reorganizam determinados festivais,
concedendo-lhes âmbito nacional, com destaque para as Grandes Dionísias,
as Panateneias e os Mistérios de Elêusis f ^).
A tirania em Atenas contribuiu para o aumento da prosperidade da
pólis, por uma série de medidas de incentivo à agricultura, ao comércio e
à indústria. Isenta, por exemplo, os mais pobres de impostos; estabelece
novas relações e contactos externos; desenvolve a cerâmica, na conti­
nuação da política de Sólon, a ponto de Atenas se tomar o seu principal
produtor (’°).
Pisístrato procurou a centralização de poderes em vários campos -
religioso, judicial e político - e o incremento do interesse nacional, que
ele, como os demais tiranos, identifica com o interesse pessoal. Tal
objectivo não é conseguido apenas, ou mesmo fundamentalmente, pela
intervenção contra os nobres. Esse encorajamento é feito sobretudo com
medidas positivas. Está nesse caso a comissão de juizes itinerantes, no­
meados pelo tirano, que percorriam as diversas regiões da Atica e deviam

(®) Pisístrato teria iniciado o Olimpieu (cf. Aristóteles, Pol. 5.11.9,1313b 23; Vitrúvio
7, praef. 15. Contra Pausânias 1.18.8), mas este só seria concluído já no século II d.C.
Vide A.W. Lawrence, Greek Architecture {The Pelican History o f Art, ^1983), pp. 146 e
275-276.
É complexa e controversa a história dos edifícios da Acrópole, mas parece mais ou
menos certo que os Pisistratos engrandeceram e embelezaram esse local (cf. Tucidides
6.54.5), embora se discuta se foi obra sua o templo aí dedicado a Atena e depois destruído
na altura da invasão dos Persas. Vide R.J. Hopper, Parthenos and Parthenon (London,
1971), p. 14; M. KohtAson, A Shorter History o f Greek Art (London, 1981), pp. 27 e 30;
G.M.A. Richter, A Handbook o f Greek Art (London, ^1983), pp. 29 e 88; Robin
Fr. Rhodes, Architecture and Meaning on the Athenian Acropolis (Cambridge, 1995),
pp. 30-32.
Para a escultura vide GM.A. Richter, The Sculpture and Sculptors o f the Greeks
(Yale University, ^1970), p. 95; J. Boardman, Greek Sculpture. The Archaic Peridod
(London, 1978), pp. 63, 82-83 e 153-155.
No que respeita aos festivais, embora não haja unanimidade quanto ao papel dos
Pisistratos, se não foram eles os criadores, promoveram-nos pelo menos. Sobre as reformas
religiosas e a centralização de certos cultos vide H. Berve, Die Tyrannis bei den Griechen
I (München, 1967), pp. 59-61; H.W. Parke, Festivals o f the Athenians (London, 1977),
pp. 34,125-126 e 128-129; GD. W\\coy,on, Athens Ascendant {Arnos, 1979), pp. 41-43.
Para as obras e reformas em Elêusis vide GE. Mylonas, Eleusis and the Eleusinian
Mysteries (Princeton, 1961), pp. 77-105. Para a relação dos Pisistratos com o culto de
Dioniso, sobretudo as Dionísias Urbanas vide A. Pickard-Cambridge, The Dramatic
Festivals o f Athens (Oxford University Press, ^1968), pp. 58 e 200.
(70) Yj(je Ehrenberg, From Solon to Socrates, p. 83; A. Andrewes, The Greek Tyrants,
p. I l l ; Cl. Mossé, La tyrannie dans la Grèce antique (Paris, 1969), pp. 69-70; GD.
^Wcoxon, Athens Ascendant {Amos, 1979), pp. 38-39.

66
EPOCA ARCAICA

tomar em mãos o que nas províncias permanecia sob o controlo das


fratrias eupátridas
Medidas de maior alcance ainda, no âmbito da centralização, são a
cunhagem de uma moeda verdadeiramente nacional de Atenas - as bem
conhecidas moedas de prata com a imagem da coruja, símbolo da deusa
protectora da cidade - e a centralização de detenninados cultos de que
há pouco falamos.
Em outro aspecto a acção do tirano se mostrou fecunda no futuro.
Embora tenha reservado os postos-chave para os seus partidários, con­
servou as formas moderadas da constituição de Sólon e manteve as leis
existentes (cf Heródoto 1.56; Tucídides 6.54). Os órgãos a que o dêmos
fundamentalmente tinha acesso - a Assembleia, a Boidê e os Tribunais
da Helieia - continuaram a funcionar como no passado e receberam até
um considerável incremento como consequência das referidas centrali­
zações e da anulação da nobreza, pelo que só esta sentiu razão para se
queixar da perda de liberdades políticas.
Nesses organismos, em que as pessoas comuns tinham voz, o dêmos
habituou-se, durante cerca de uma geração, a dirigir os seus próprios
assuntos sob a tutela do tirano, mas sem a interferência dos nobres. Len­
tamente os Atenienses tomam-se conscientes do seu ser nacional e neles
ganha consistência a ideia de cidadania (politeia). Sentem-se cidadãos
de um todo e adquirem, pouco a pouco, consciência de interesses supe­
riores que se impõem aos regionais.
Governo inconstitucional imposto pela violência, a tirania de Pisístrato
contém aspectos positivos. De modo algum é o regime negativo de que a
literatura dos séculos V e IV a. C. depois se fará eco. Subsiste inclusiva­
mente a tradição de que Pisístrato foi um homem hábil que deu à cidade
uma época de paz, de prosperidade e de estabilidade - uma nova “idade
de ouro”
Dirigente que imprimiu ao seu governo uma vigorosa política marítima
e comercial, foi ao mesmo tempo um homem de amplos interesses
intelectuais e de profundos sentimentos religiosos. Por caminhos bem
diferentes, ele continuou afinal a obra de Sólon de lançar os fundamentos
da grandeza de Atenas. Ao contribuir para a centralização de poderes
em vários campos - religioso, judicial e político - , ao aumentar a
prosperidade da pólis por uma série de medidas de incentivo à agricultura.

f ‘) Cf. Aristóteles, Constituição de Atenas 14. 5. Sobre o assunto vide Forrest, La


Naissance, p. 186.
Cf. Aristóteles, Constituição de Atenas 16.7. Sobre o assunto vide Forrest, La
Naissance, pp. 181-182; A. Andrewes, The Greek Tyrants, pp. 109 sqq. e 113-115.

67
A GRÉCIA ANTIGA

ao comércio e à indústria, originou um maior nivelamento social e con­


correu para desenvolver a consciência política do dêmos, pelo que se
pode dizer que, de certo modo, preparou também o advento da democraeia.
Foi essa consciência que, após a queda da tirania em 510, penuitiu
evitar a reacção aristocrática ainda tentada por Iságoras com o apoio de
Esparta. O dêmos, no entanto, impôs-se, elegeu Clístenes, um Alcmeónida,
e a tentativa falhou.

Esparta - a cidade rival de Atenas, política, ideológica e militannente


- constitui um caso especial, já que escapa à tirania. A arqueologia mostra
que, na época arcaica, fora uma pólis aristocrática sujeita aos mesmos
problemas sociais e a idênticas crises de crescimento, como vimos. Re­
solve-as, no entanto, de fornia diferente: conquista terras, a fértil planície
da Messénia, que depois divide em lotes, e procede a um conjunto de
reformas que lhe dão uma estrutura social e política, de modo a ficar no
futuro a salvo de lutas sociais durante longo tempo. É estabelecido um
novo corpo cívico, cujo número, embora controverso, deve rondar os dez
mil - os cidadãos ou Espartanos, os Homoioi, “os Pares” (’^). A população
aparece fortemente estratificada em três classes, sem qualquer mobilidade
e sem possibilidade de passar de uma a outra: os espartanos, os perieeos
e os hilotas Ç‘^). Divididas as terras em lotes, tantos quantos os cidadãos,
a cada um era distribuído um lote a que estava anexado determinado
número de hilotas - não podiam ser alienados, nem um nem outros.
O cidadão, o Espartano, só podia dedicar-se à guerra e à preparação
para ela. Com uma vida familiar reduzida, viviam em grupos, como
combatiam, e em grupos tomavam as refeições. A alimentação era-lhes
fornecida pelos hilotas que trabalhavam no seu lote de terra. Esparta era
uma pólis toda virada para a guerra - uma cidade-quartel Ç^).
Os poderes das diversas instituições foram estabelecidos pelas
reformas dos fins do século VII e inícios do VI a. C. de tal modo que se
contrabalançassem umas às outras e o regime se tomasse na medida do
possível imutável Ç^).

(O Vide J. T. Hooker, The ancient Spartans (London, Dent, 1980), pp. 116-119.
Sobre as três classes e sua possível origem vide J. T. Hooker, The ancient Spartans,
pp. 115-120 e 133-143.
Esta característica de Esparta, como pólis toda virada para a giierra, será analisada
mais em pormenor no capítulo “A guerra e a paz na pólis grega”.
E exemplar o caso da Gerúsia, o órgão com mais poderes, a que tinham acesso,
vitaliciamente, apenas os cidadãos com mais de sessenta anos. Com tal idade e com o
sistema bem arreigado com dificuldade se muda.

68
EPOCA ARCAICA

Desse modo, a posse de terras extensas e férteis, graças à conquista


da Messénia, a abundante força de trabalho servil, os hilotas, que liber­
tavam os cidadãos para as lides políticas e para a defesa da pólis e, por
fim, uma organização militar rígida evitaram que Esparta caísse na tirania.

As tiranias conseguem manter-se durante duas ou três gerações, no


máximo, depois desaparecem, todas antes de 500 a. C., com excepção
das das cidades da Sicília e poucas mais. Os descendentes dos instaura-
dores do regime, de modo geral, não mantiveram a política de apoio às
classes mais baixas, tomaram-se a cada passo violentos e cruéis e aliena­
ram as simpatias dos que tinham estado na base do seu acesso ao poder.
Os tiranos acabaram por ser expulsos por revoltas de nobres ou devido à
intervenção de Esparta. Com o seu desaparecimento, instauram-se ora
oligarquias - tenham elas por base o nascimento, a riqueza ou os dois -,
ora democracias, mais ou menos evoluídas. Mas, ao desaparecerem as
tiranias, qualquer que seja o regime instaurado, as póleis que elas deixam
já não são as mesmas. Os poderes não estavam nas mãos dos aristocratas,
mas centralizados nas diversas instituições que passam daí em diante,
quer se trate de uma oligarquia, quer de uma democracia, a dirigir a pólis.
Vamos ver como desapareceu a tirania em Atenas. Ao ascenderem
naturalmente ao poder, após a morte de Pisístrato em 528 a. C., os seus
filhos, Hípias e Hiparco, não o exercem com tanta finueza, moderação e
bom senso; transfomiaram um regime favorável num absolutismo cada
vez mais detestado (cf Heródoto 5.62; Pseudo-Platão, Hiparco 229b;
Aristóteles, Constituição de Atenas 19.1). Assim, apesar de conseguir
mantê-lo por mais cerca de 14 anos, aos poucos foram alheando cada
vez mais o dêmos, sem se aproximarem da velha aristocracia ou pelo
menos de certas famílias poderosas C^).
Por outro lado, no Egeu a situação alterara-se. Os Persas começavam
a estender o seu império para esses lados e a submeter entrepostos de
atenienses e muitas das cidades gregas, algumas delas governadas por
tiranos aliados dos Pisístratos. Sigeu e o Quersoneso, um após outro,
caem. Polícrates morre cerca de 520, vítima das suas ambições, e Samos
cai nas mãos dos Persas; Lígdamis e Naxos sofrem o mesmo destino.
No continente a situação piorara também consideravelmente: Esparta
reforçara muito a sua posição na Grécia como líder da Simaquia do

O Diodoro 10.17. Sobre o absolutismo despótico dos filhos de Pisístrato e o alhea­


mento do dêmos vide G de Sanctis, Atthís, p. 408; J. Day e M. Chambers, Aristotle’s
History o f Athenian Democracy (Amsterdam, 1967), pp. 19-20,92 e 99-100; P. J. Rhodes,
A comm, on theArist. Ath. Pol, pp. 218 e 227-228.

69
A GRÉCIA ANTIGA

Peloponeso; Argos, muito ligada aos Pisístratos, encontrava-se debilitada


pelo poder dessa Simaquia; Tebas, que desejava unir a Beócia (cf.
Heródoto 6.108; Tucídides 3.55-68.4), entrava constantemente em hos­
tilidades contra Atenas que tinha sob a sua protecção Platéias (’^). Atenas
perde terras e apoios. Todos estes factos e acontecimentos levam a um
deteriorar das condições econômicas e revigoram a oposição à tirania.
O governo de Hípias toma-se progressivamente menos popular, endurece
a sua actuação e os derramamentos de sangue são mais frequentes.
A morte de Hiparco em 514 numa querela, talvez por motivos à mar­
gem do domínio político, leva o irmão, Hípias, a endurecer a sua actuação
e a tentar desarmar o povo (cf Heródoto 5.55; Tucídides 6.56 sqq.;
Aristóteles, Constituição de Atenas 18-19) (’®). Para pagar aos merce­
nários que 0 defendessem de qualquer revolta, Hípias necessitava de
dinheiro e introduz por isso um número considerável de impostos, como o
lançado sobre o nascimento e a morte, que atingia praticamente todas as
famílias (cf Aristóteles, Econômico 1347al6). O inconfonnismo, tanto
do dêmos como dos nobres, dá origem a três ou quatro anos de lutas, de
repressões e de intrigas até que, em 510, uma conjura derruba a tirania e
expulsa Hípias. Os Alcmeónidas, regressados do exílio, tomam parte activa
nesse acontecimento e, em 509 a. C., o povo entrega o governo a um dos
seus membros, Clístenes. Será ele que, num conjunto de reformas, fará
de Atenas uma democracia.

O M. Amit, “La date de l’alliance entre Athènes et Platées”, ^ C 3 9 (1970) 414-426


dá para a aliança de Atenas com Platéias uma data posterior ao governo de Hípias - 509.
O Díspares se apresentam as versões que nos transmitem Heródoto 5. 55 e 6.123;
Tucídides 1. 20 e 6. 53-59; Platão, Symp. 182c; Pseudo-Platão, Hiparco 228b-229d;
Aristóteles, Constituição de Atenas 17-18.
Não temos bases para negar de todo a possibilidade de o assassínio ter visado a tirania
como regime, embora seja pouco provável. Parece ter-se tratado mais de uma questão
pessoal.
Sobre o acto de Harmódio e Aristogíton e suas motivações vide G. de Sanctis,
pp. 404-409; F. Jacoby, ^ZZ/7/5 . The Local Chronicles o f Ancient Athens (Oxford, 1949,
repr. N ew York, 1973), pp. 159-165, 335-336 n. 33, 342-343 n. 73; Ehrenberg, From
Solon to Socrates, p. 88; K. J. Dover, in A. W. Gomme et alii, A Historical Commentary
on Thucydides IV (Oxford, 1970), pp. 320-323; P. J. K\\oúqs, A Commentary on theArist.
/I//7. Ro/., pp. 189-190.

70
APENDICE

Nota sumária sobre a origem da moeda

Mário C. Hipólito

A questão do aparecimento da moeda - moeda na acepção de peça


metálica de peso e de liga estandardizados, com uma marca identificadora
- é tema que envolve ainda muitos problemas, digamos mesmo mais
interrogações do que certezas. Não sendo possível encontrar respostas
satisfatórias por via literária, dado que as fontes desta natureza são muito
deficientes e conflituantes com outros dados, há o recurso a dados arque­
ológicos, às próprias peças metálicas que chegaram até nós e aos dados
de contexto arqueológico. Mas a interpretação destas fontes arqueológico-
-numismáticas não tem sido até aqui capaz de pôr os estudiosos dos
materiais de pleno acordo, mesmo em aspectos essenciais, como o da
cronologia da invenção.
Continua a ser peça fundamental para o estudo das mais primitivas
moedas o conjunto da centena de peças metálicas encontradas durante
as escavações levadas a efeito pelo Bristish Museum em 1904/5 nas
fundações do tempo arcaico de Ártemis, em Éfeso, cuja construção se
consumou pelos meados do século VI a. C., durante o reinado de Creso
da Lídia. Os materiais foram publicados pouco depois, mas só foram
devidamente valorizados no seu significado nos começos dos anos 50,
quando se publicaram dois estudos monográficos de materiais, moedas e
peças monetiformes, por um lado, e outros pequenos objectos de dimen­
sões artísticas, por outro. Relacionando os dados cronológicos deduzidos
dos objectos com o material numismático, o autor do estudo deste último
material (cf Robinson) propôs a data de c. 640 a. C. para as mais antigas.
Aceite tal cronologia por um momento, surgiram posterionuente propostas
de alteração, com alargamento da discussão dos problemas envolvidos a
outros materiais numismáticos, uns de similar ou imediata cronologia,
outros já mais tardios, mas que devem ser considerados em conjunto
para ajustada valorização crítica dos primeiros (para síntese sobre este
enquadramento cf. Hackens).

71
A GRÉCIA ANTIGA

0 conjunto dos materiais numismáticos proporcionados pelas citadas


escavações de Éfeso pode ser considerado metodologicamente como
“um tesouro”, cujo conteúdo engloba moedas propriamente ditas e peças
metálicas monetifonues. Sendo todos estes materiais contemporâneos,
pela sua ocorrência no mesmo tesouro, as últimas serão pré ou proto-
moedas, no duplo sentido cronológico e tipológico, se efectivamente tais
formas correspondem a etapas de um verdadeiro processo evolutivo,
ainda que relativamente rápido. Estes materiais do tesouro do templo de
Artemis e de outras proveniências definem como área geográfica de
invenção a zona lónia-Lídia, sem que seja possível, em termos decisivos,
chegar a uma conclusão quanto a uma prioridade propriamente grega ou
lídia. No conjunto dos tipos do achado de Éfeso - 13 tipos diferentes
identificáveis - o grupo mais numeroso tem sido atribuído, com concordân­
cia geral, ao reino de Lídia. Outras séries ligam-se a um pequeno número
de centros emissores gregos da lónia, cuja identificação precisa depara,
por várias razões, com muitas dificuldades. O tipo de cabeça de foca,
atribuível a Foceia, é o único cuja identificação parece segura. Entre as
atribuições prováveis para outros grupos admite-se, com fundamento,
que Éfeso estará representada. Na sequência da revisão da já citada
cronologia proposta por Robinson existem actualmente duas posições
com tendências opostas. Uma destas correntes professa uma cronologia
alta, colocando nos começos do século VII a. C. os inícios da moeda.
Trata-se de uma corrente minoritária, cuja posição se baseia, essencial­
mente, em razões de estilo, por comparação das cabeças de certos tipos
monetários com figuras em vasos cerâmicos, em joalharia e figurinhas
esculpidas (cf. Weidauer). A outra corrente critica esta metodogia de
abordagem e apoia-se sobretudo no achado de tesouros ainda que estes
não sejam muito abundantes, não só com moedas de electro, mas também
de moedas de prata, metal cujos inícios ela coloca por meados de séc.
VI a. C. A data para as mais antigas moedas de electro, de que o tesouro
de Éfeso nos dá testemunho, é assim colocada no último quartel do séc.
VII (cf. Price 1976 e 1983). Esta conclusão afigura-se-nos, nos seus
fundamentos e nas suas consequências, como claramente preferível.
Além de obviar a fragilidade congénita de argumentos que repousam em
noção pouco objectiva de estilo, a opção pelos finais do século resolve o
problema de uma natural relação entre a fase da moeda em que só electro
foi produzido e o período seguinte que começa com o aparecimento da
moeda de prata, o metal que vai caracterizar a moeda grega.
Um outro interessantíssimo problema que as primitivas moedas de
electro suscitam é o que consiste em saber qual o verdadeiro significado
dos seus tipos. Para a discussão de tal problema é da maior importância
72
APENDICE

0 facto de no electro primitivo se verificar a ocorrência de alguns poucos


casos de peças com legendas. Por se ter verificado duas destas legendas
em moedas do núcleo que se atribui à Lídia, pôde concluir-se, com segu­
rança, que nesse caso tais legendas de carácter pessoal não podem corres­
ponder a qualquer soberano. Numa outra série, em que o tipo é um veado,
há uma interessantíssima legenda, similar à de um selo, que explicita “eu
sou 0 sinal de Phanes”, individualidade que, entretanto, se não conseguiu
também identificar. Sendo tais legendas nomes de indivíduos, o problema
consiste em saber em que capacidade tais nomes aparecem nas moedas.
Tratar-se-á de nomes de magistrados oficiais encarregados e responsáveis
pelas emissões que nessa qualidade as assinam? Ou estaremos, em con­
traste com o carácter estatal das posteriores moedas de prata, na presença
de nomes de indivíduos sem qualquer estatuto oficial, postulando assim
uma origem extra-oficial para tais moedas?
Relacionada com este problema da autoria das emissões está uma outra
não menos relevante questão: quais as finalidades ou objectivos que terão
concorrido para a “invenção” da moeda? Que funções ou necessidades
específicas se procuraram satisfazer com a introdução deste novo instru­
mento no último quartel do século VII? Que papel desempenharam no
processo razões estritamente comerciais? Estiveram elas presentes? E,
se presentes, foram motivos decisivos ou perfeitamente marginais? Que
razões ligadas ao comércio não terão sido razões relevantes é uma opinião
mais ou menos generalizada entre especialistas numismatas. Salienta-
-se, por um lado, que a moeda de electro, mesmo considerando a emissão
de fracções que atingem 1/96 da unidade, pesando cerca de um décimo
e meio de grama, representam um excessivo valor intrínseco, impróprio
para as transacções do dia-a-dia do comum das pessoas nas suas deslo­
cações ao mercado, para além de que a manipulação de peças de tão
pequenos diâmetros e pesos seria extremamente incómoda. Por outro
lado, a geografia de circulação conhecida também não abona a tese de
comércio internacional, à distância, para fora da área original de produção
das moedas. Não é fácil entretanto também aqui postular solução. Várias
soluções têm sido propostas (cf Price 1983). Verifica-se, assim, que as
primitivas moedas de electro não só se apresentam com aspectos muito
peculiares, quando comparadas com as posteriores moedas de prata,
como põem problemas específicos em relação com a própria sociedade
na qual nasceram.

73
BIBLIOGRAFIA

Hackens, T. - «Chronique numismatique», L ’Antiquité Classique, 46

(1977)205-218.

Price, M.: 1976 - Recensão sobre Weidauer, Numismatic Chronicle,

(1976)273-275.

Price, M.: 1983 - “Thoughts on the beginnings of coinage”, in C. N. L.

Brooke e outros (orgs.). Studies in numismatic method presented

to Philip Grierson, Cambridge, 1983, 1-10.

Robinson, E. S. G. - “Coins from the Artemision reconsidered”. Journal

o f Hellenic Studies, 71 (1951) 156-167.

Weidauer, L. - Problème der frühen Elektronprâgung, Typos I,

Fribourg, 1975.

74
A DEMOCRACIA ATENIENSE

A Busca da Igualdade

Analisada a evolução da cidade-estado ao longo da época arcaica


até que o desaparecimento das tiranias deixou os poderes centralizados
nas instituições e possibilitou a instauração ora de oligarquias, ora de go­
vernos mais ou menos democráticos, embora em menor número, é altura
de vermos agora como apareceu e se solidificou na Grécia a democracia,
que tinha na busca da igualdade o seu traço mais saliente.
O termo democracia, como é sabido, teve a certidão de nascimento na
Grécia, como o regime a que se aplica. Segundo Forrest e Ehrenberg, teria
surgido numa data imprecisa do segundo quartel do século V a. C. (') e.

(') W. G. Forrest, La naissance, p. 220; V. Ehrenberg, “Origins o f Democracy”,


Historia 1 (1950) 524.
Embora a palavra democracia não apareça nas Suplicantes de Ésquilo (c. 463 a. C.),
ocorrem aí os seus componentes (v. g. vv. 398-399, 604). Com base nesse facto e na
constituição que se pode deduzir da tragédia, Ehrenberg, “Origins o f Democracy”,
pp. 521-525 conclui que o termo democracia é anterior a essa tragédia ou pelo menos
contemporâneo. Vlastos, “Isonomia Politikê” in J. Mau e E. G Schmidt (orgs.), Isonomia
(Berlim, 1971), pp. 3-4 considera que do uso apenas do vocábulo isonomia por Heródoto
3. 80-83, com ausência do termo democracia, se pode inferir que a palavra ainda não
estava em uso, quando o texto - ou a sua fonte - foi escrito. A primeira ocorrência
epigráfica do termo aparecia no decreto ateniense respeitante a Cólofon de cerca de 460
(/G 1 2 15, linha 37), se é correcta a restauração feita. Vide B. D. Merit, H. T. Wade-Gery
and F. Mcgregor, The Athenian Tribute Lists II (Princeton, 1938-1953), p. 69; M. Ostwald,
“Athenian Legislation against Tyranny”, 7MP/Í4 86(1955) 103 sqq. (isonomia nap. 113
n 51); G Vlastos, “Isonomia Politikê” in Mau e Schmidt (orgs.), p. 3 n 5.
Nos termos técnicos gregos optei pelo seguite critério: os que se encontram já registados
nos dicionários - como demo (de dêm os ), no sentido de “circunscrição autárquica” de
Atenas, heteria (de hetairia ), “espécie de sociedade política secreta”, pnto/re - usei-os
em caracteres normais, sem qualquer distinção. Os restantes transcrevi-os em itálico:
caso de dêmos, no sentido de “povo”, Ecclesia ( A s s e m b l e i a ) , (tribo), genos (estirpe),
nomos (lei), entre outros. Daí o diferente tratamento que foi dado ao termo grego Sqpos.
Para designar a magistratura mais importante da Atenas do século V a. C., usei a
forma estratégia, com a acentuação grega, por o termo estratégia designar hoje uma
realidade bem distinta.

75
A GRÉCIA ANTIGA

além de dêmos, entra na sua fomiação, como segundo elemento de com­


posição, krat- (de beatos que significa “força” ou “soberania”). Trata-
-se de um composto do mesmo tipo de aristocracia - regime em que
dominam os aristoi, “os melhores” no sentido social - e de plutocracia
- o sistema político em que o acesso ao poder se baseia na riqueza (-).
Democracia é assim o “governo pelo dêmos'\ o povo. Mas o que era o
dêmos no apogeu da democracia ateniense, no século V a. C. (^)?
Um passo dos Memoráveis de Xenofonte procura definir o seu con­
teúdo social para o comum das pessoas. Sócrates dialoga com Eutidemo
e pergunta-lhe se considera possível saber o que é a democracia sem ter
a noção do que é o dêmos. O interlocutor responde negativamente e, ao
ser interrogado sobre o sentido que atribui a tal termo, responde que “são
os pobres, dentre os cidadãos” (4. 2. 37). Elucidativa, esta definição de­
monstra com toda a evidência que, no pensar comum, os pobres constituem
a base e a força de tal regime; deixa perceber, por outro lado, uma
oposição surda e certos laivos de desprezo por esse povo. Ora o conflito
entre o dêmos e osplousioi constitui uma das características que marcam
a história da democracia ("*).
Ao falar de democracia grega, pensamos de modo geral no regime
ateniense, se bem que em outros Estados o povo tenha atingido o poder,
em alguns possivelmente até primeiro do que em Atenas, como aconteceu
em Mileto, Mégara, Samos, Quios, onde é provável terem existido insti-

(^) Oligwqitia e monarquia têm uma outra filiação: segundo elemento relacionado
com archê, que significa “começo” (o sentido mais antigo) e “poder”, “soberania”, e com
o nome de agente archos “chefe”. Deste último formou-se elevado número de compostos
-com o démarchas,polemarchos, taxiarchos,phylarchos-que deram origem aos derivados
nominais em -archia. Como a palavra démarchas, formada por esta via, já se encontrava
em uso para designar o demarco ou “chefe do demo” e o derivado demarchia para a sua
função, a última não podia ser usada para, em oposição a oligarquia, referir a democracia,
quando esta surgiu. Daí que o grego fosse buscar a kratos o segundo elemento, para
formar o composto demokratia e um grupo importante que se impôs no vocabulário
político da Europa. Vide Chantraine, Dictionaire étymologique de la langue grecque, s.v.
“archo” e “dêmos”. Segundo Debrünner (apudJ. de Romilly, “Le classement des consti­
tutions d’Hérodote à Aristote”, REG 72 (1959) 85), a palavra aristocracia teria uma
formação recente, criada pela força antidemocrática segundo o modelo de democracia,
para evitar a impopularidade do termo oligarquia.
(h Trata-se de um termo proteico - observa Finley, Democracy, Ancient and Modern
(London, ^ 1 9 7 3 ), pp. 12-13 (a partir de agora: Finley, Democracy) - que tanto pode
significar “os cidadãos no seu conjunto” como o “povo” em sentido restrito - no de
classes inferiores. Dessa ambiguidade lançam mão frequentes vezes, na Grécia, os
debates teóricos e as discussões (c f Aristóteles, Pol. 3, 1279b 3 4 -1280a 4).
(h Sobre a oposição entre o dêmos e os plousioi vide J. Ribeiro Ferreira, Participação
e Poder na Democracia Grega (Coimbra, 1990), pp. 49-68.

76
A DEMOCRACIA ATENIENSE

tuições democráticas desde inícios ou meados do século VI (^). Atenas é,


no entanto, a mais conhecida, a que nos fornece mais fontes e dados para
0 estudo, a que levou o regime a maior perfeição, a que nos legou princípios
ainda hoje fundamentais. Atenas, além disso, inspirou muitos outros Esta­
dos gregos a seguir o seu exemplo. À sua volta fomiou-se uma simaquia
- a de Delos, ou Primeira Confederação Ateniense, como também se lhe
chama -, que esteve na base de um império, cujas cidades, como veremos,
ao tratar da “Simaquia de Delos e a hegemonia ateniense”, adoptaram
de modo geral o regime democrático f ). Esta simaquia, no século V a. C.,
formava um bloco que se opunha a um outro liderado por Esparta, a
Simaquia do Peloponeso, em cujos Estados dominava a oligarquia (’).
Não é portanto de estranhar que seja a democracia ateniense a servir
de ponto de referência na análise que vou fazer.
As reformas de Sólon - que já analisei em outro trabalho e a que me
referi no capítulo anterior f ) - não resolveram a situação crítica em que
se encontrava Atenas nos fins do século VII inícios do VI a. C. Menos
de uma década volvida, as lutas entre facções tinham-se acentuado de
novo. Pisístrato aproveita-se dessa situação conturbada e instaura a tirania
- regime que, após uma primeira tentativa em 561, impõe definitiva-
mente em 546 e se mantém até 510 a. C. A actuação dos Pisístratos, já
analisada O , foi mais um passo no desenvolvimento da democracia em
Atenas: contribui para a centralização dos poderes, para o nivelamento
social e para cimentar a consciência cívica do dêmos\ ao manter as leis
e instituições de Sólon acostumou os Atenienses ao seu funcionamento e
uma vez os Pisístratos expulsos em 510 umas e outras estavam arreigadas
nos hábitos dos cidadãos. Tal facto foi decisivo na evolução futura.

f ) Uma inscrição de 575-550, respeitante a Quios, muito fragmentada, fala de leis do


dêmos e de ‘Conselho popular’ que seria composto por cinquenta membros de cada tribo
e cuja jurisdição, possivelmente, se limitava a ser um tribunal de recurso. Havia ainda
magistraturas ‘democráticas’. Estas informações, escassas e desgarradas, parecem indicar
uma constituição mais democrática do que a de Sólon. Vide V. Ehrenberg, “Origins o f
Democracy”, p. 538; R. Meiggs e D. Lewis, A Selection ofGreek Historical Inscriptions to
the end o f the fifth centiiiy B. C. (Oxford 1969, repr. 1980), pp. 14-17.
(Q Vide e. g. V. Ehrenberg, From Solon to Socrates (London, ^1973, repr. 1976),
pp. 192-258; R. Meiggs, TheAtenian Empire (Oxford, 1972, repr. 1975); Éd. Will, Le
monde grec et l ’Orient. 1 -L e siècle: 510-403 (Paris, 1972), pp. 125-218.
Ç) As diferenças étnicas inclinavam as cidades a escolher uma ou outra simaquia -
tendência frequentes vezes complicada pelas simpatias políticas. Sobre o assunto vide J.
Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos. I, pp. 105-107.
(Q Da Atenas do Século VII a. C. às reformas de Sólon (Coimbra, 1988).
(’) “A tirania dos Pisístratos”, Revista da Universidade 37 (1992), pp. 129-142 e
supra pp. 75-78.
A GRÉCIA ANTIGA

Afastada a tirania, os aristocratas preparam-se para retomar, como


sugestivamente refere Forrest, o jogo das facções no momento em que o
haviam deixado em 546 - e para o jogar com os velhos argumentos e as
velhas regras
Sem demora se formam dois grupos aristocráticos liderados por
Clístenes e por Iságoras. Do primeiro - um Alcmeónida filho de Mégacles
e da filha do tirano de Sícion também chamado Clístenes-pouco sabemos
antes da queda de Hípias ("). Iságoras, filho de Tisandro, pertencia a
uma antiga família eupátrida que havia pennanecido na Ática e colaborara
com os Pisístratos ('^); tinha por si a vantagem da confiança e amizade
do rei espartano Cleómenes que colaborara no afastamento da tirania e
cujo exército ainda acampava por perto.
Eleito Iságoras arconte em 508 a. C., o rei de Esparta força os Ate­
nienses a expulsar Clístenes e com ele setecentas outras famílias: uma
drástica operação de limpeza que visava estabelecer uma apertada
oligarquia que tivesse em conta os interesses de Esparta (‘^). Estes planos
depararam com a resistência do dêmos e do Conselho (cf Heródoto 5.
72. 2; Aristóteles, Constituição de Atenas 20. 3). O povo compreendera
0 perigo e naturalmente temia a reacção aristocrática de Iságoras e da
sua facção, com a consequente perda de algumas regalias
Em face da resistência, os Espartanos retiram e Iságoras fica sem
apoio. Chamado pelo dêmos, Clístenes regressa e com ele as setecentas
famílias exiladas. O Alcmeónida tinha o caminho aberto.

C®) Za naissance, p.l91.


(") Vide T. J. Cadoux, “The Athenian Archons from Kreon to Hypsichides”, JHS
68 (1948) 109-110; V. Ehrenberg, From Solon to Socrates (London, ^1973, repr. 1976),
pp. 87 e 90.
('-) Cf. Heródoto 5. 66 e 74; Aristóteles, Constituição de Atenas 20. 1.
Já me parece pouco provável que, como refere Aristóteles no passo citado, Iságoras
fosse “amigo dos tiranos”. A ser verdade o que afirma o Estagirita, deveria ter sido um dos
nobres que haviam sofrido o endurecimento dos últimos anos da tirania. Vide H. T. Wade-
-Gery, “The Laws o f Kleisthenes”, CQ 27 (1933) 19 nota 4 {=Essays in Greek History,
Oxford, 1958, pp.136-139); Ehrenberg, From Solon to Socrates, p. 410 nota 32 e p. 414
nota49; C. Hignett, A Histoiy o f the Athenian Constitution to the End o f the Fifth Century
B.C. (Oxford, 1952, repr. 1975), p. 125 (de futuro: Wxgntti, Athenian Constitution).
Ch Trata-se de um ponto de vista controverso que muitos não aceitam. No entanto,
o facto de Cleómenes ter enviado para Atenas reféns de Egina (cf. Heródoto 6.73) dá-lhe
alguma plausibilidade. Vide Ehrenberg, From Solon to Socrates, pp.90 e 411 nota 33.
Ch Vide Cl. Mossé, Les institutions grecques (Paris, 1967), p. 17; WigntiX, Athenian
Constitution, pp. 125-126.
Para uma discussão das informações de Heródoto e Aristóteles vide Wade-Gery,
Essays in Greek History, pp. 136-139.

78
A DEMOCRACIA ATENIENSE

Foi portanto a consciência do povo que, após a queda da tirania em


510 a. C., permitiu evitar a reacção aristocrática ainda tentada por Iságoras
com o apoio de Esparta e foi o dêmos que elegeu Clístenes e o apoiou
para proceder a uma refonua completa da constituição de que Heródoto
(5. 66 e 69) e Aristóteles {Constituição de Atenas 21-22) apontam as
linhas gerais, embora atribuam às reformas objectivos diferentes (‘^).
Tais refomias apresentam um duplo plano: por um lado, reorganização
do corpo cívico e criação de quadros políticos novos; por outro, modifi­
cação profunda das instituições políticas existentes. Para evitar que o
chefe do grupo de estirpes das famílias nobres - ou seja de cada uma
das quatro tribos iónicas em que até então se dividia a pólis - tivesse a
sua eleição garantida para o arcontado, Clístenes resolve proceder a
uma completa revisão do país e instaura uma nova constituição. Dou a
seguir os pontos fundamentais, de acordo com a narração de Aristóteles
{Constituição de Atenas 21-22): concede a cidadania a não Atenienses,
aumentando assim o número de cidadãos, e cria o demo como nova
divisão administrativa e autárquica que exercerá papel de relevo na futura
democracia ateniense; divide a Ática em três zonas - a urbana ou cidade
e arredores, a costeira ou parália e a interior ou mesogeia - e reparte os
demos por trinta grupos (as trítias), dez por cada uma das três zonas
acima referidas; com essas trítias, agrupando uma de cada zona, forma
dez tribos {phylai) que substituem as quatro iónicas anteriores; de acordo
com essas tribos aumenta para quinhentos - 50 por cada — os membros
do Conselho ('^).
É ainda atribuído ao legislador, embora não de fonna unânime e segura,
um conjunto de instrumentos legais e instituições que, nos anos imediatos
e ao longo da primeira metade do século V a.C., exercem papel de relevo
na luta pelo poder e ponteiam o confronto, sempre vivo e intenso, entre o
dêmos e os nobres: leis sobre o ostracismo e sobre o juramento dos bu-
leutas e a criação da estratégia. Se bem que alguns autores modernos,
de que destaco Hignett, datem essas leis das primeiras décadas do século
V a. C., já que até 488/487 não temos qualquer indício da sua aplicação.

('^) Sobre o passo de Heródoto vide W.W. How and J. Wells, A Comentary on
Herodotus II (Oxford, 1928, repr. 1968), p. 33.
O termo hetairia, a que Heródoto faz referência explícita pela forma verbal
prosetairizetai, designa um feudo nitidamente aristocrático onde o dêmos, como entidade
política, não tinha entrada. Em última análise teremos aqui, portanto, como observa
Ehrenberg, From Solon to Socrates, p. 410 nota 32, um conflito entre o povo e os nobres.
C®) Sobre o demo e sua importância vide J. Ribeiro Ferreira, A Democracia na Grécia
Antiga, pp. 79-82. Sobre o conselho dos Quinhentos pp. 98 sqq.

79
A GRÉCIA ANTIGA

a ideia de um Clístenes reformador desinteressado, sugerida a seguir,


adquire mais verosimilhança, se forem da sua autoria tais refonnas,
sobretudo a lei do ostracismo, já que seria desrazoável dotar o dêmos de
um instmmento que este podia usar contra ele, se visasse a sua influência
ou a glória da família
Embora nem todos estejam de acordo com a análise de Aristóteles,
ela não deve distanciar-se muito da realidade e possivelmente transmite-
-nos as linhas gerais da actuação de Clístenes. De facto, as reformas
foram feitas e, no dizer de R Lévêque e P. Vidal-Naquet, originaram
“uma mutação completa das instituições e a integração do dêmos nos
quadros políticos novos” ('®). Dão origem a um novo Estado, criam as
condições para uma verdadeira democracia e alargam, no plano eleitoral,
a isonomia de que tratarei adiante.
Articulada intimamente com os órgãos institucionais e governativos e
com as estruturas de poder, a reorganização do corpo cívico implica
consequências administrativas e arrasta, até certo ponto, as reformas
propriamente políticas: alteração do quantitativo dos elementos do Conselho
e sua escolha por tiragem à sorte de e pelos demos, a que me referirei
adiante mais em poraienor; verosímil aumento dos poderes do Conselho,
provável diminuição dos do Areópago e ampliação da força e importância
da Assembleia, a que todos os cidadãos tinham acesso e que se transforma
no órgão máximo dapólis.
O passo decisivo tinha sido dado e, a partir de então, já se pode falar
verdadeiramente em democracia, regime que de início não teria contudo
esse nome. É possível que a revolução política que começa com a expul­
são de Hípias e culmina com a refonna de Clístenes tenha sido designada
pela palavra isonomia e que esta constituísse uma ideia-força utilizada
na luta política, em palavras de ordem e mesmo canções de mesa (’®).
Característica mais destacada da democracia grega, em especial da de
Atenas, a noção de isonomia deve ter surgido, se não antes, pelo menos
nos inícios do século V a. C., já que parecem ter sido divulgadas por essa
época as Canções de Mesa respeitantes aos Tiranicidas, nas quais são

(D Hignett, Athenian Constitution, pp. 159 sqq. No que respeita a tais reformas a
controvérsia começa já na Antiguidade. Por exemplo, quanto à lei do ostracismo, Aristóteles,
Constituição de Atenas 22 atribui-a a Clístenes, mas Andrótion {FGrHist 324 F 6) colocava-
-a nas primeiras décadas do século V a. C. Para mais pormenores sobre estas leis vide o
meu trabalho “As reformas de Clístenes”, Biblos 63 (1987) 193-199.
('^) Clisthène VAthénien (Paris, 1973), p. 49.
C®) Sobre a possível utilização do termo isonomia na luta política do tempo de
Clístenes e anos subsequentes vide Ehrenberg, Aspects o f the ancient world (Oxford,
1946, repr. N ew York, 1973), pp. 88-93 e “Origins o f Democracy”, pp. 533-535.

80
A DEMOCRACIA ATENIENSE

exaltados Harmódio e Aristogíton, por terem tomado “Atenas isónoma”


{Scol. 893. 4 e 896. 4 Page) com o acto que praticaram - ou seja o
assassínio de Hiparco, um dos tiranos (^°). Cedo, no entanto, o termo
passa a significar “governo do povo” ou “governo da maioria”.
Embora seja controversa a questão de se saber se Clístenes agiu por
ser um defensor da democracia ou se, empurrado pelas circunstâncias, a
sua abertura ao dêmos não passava de um mero instmmento para servir
0 desejo de poder, as refomias de 508/507 a. C. constituíram um passo
definitivo na instauração e solidificação da democracia (^'). Os Atenien­
ses, que, como os outros Gregos, se sentiam orgulhosos em mostrar a
sua excelência frente aos outros Estados, encontravam agora mais um
motivo para se considerarem superiores e lutarem por isso. Tinham um
novo modo de viver que os demais Gregos não compartilhavam nem
entendiam; sentiam orgulho em defender essa nova situação de liberdade.
Atenas mostra uma estranha força moral e não devemos andar longe da
verdade se, além da liderança de Clístenes, concordannos com Ehrenberg
em atribuir esse efeito também à introdução da liberdade e da demo­
cracia P ). A democracia trouxe um aumento de cidadãos e, a par dele,
verifica-se também o acréscimo do exército de hoplitas (cf Heródoto
5.78) - reflexo seguro de uma melhoria do nível de vida.
Não era porém ainda a liberdade e a democracia que se viveria no
tempo de Péricles, com uma constituição que - acentua-o Forrest -

(-“) Sobre as Canções a Harmódio e sua datação vide C. M. Bowra, Greek Lyric
Poetiy from Aleman to Simonides (Oxford, ^ 1962, repr. 1967), pp. 391-396. Harmódio
e Aristogíton em 514 assassinaram Hiparco, um dos filhos de Pisistrato, por motivos
hoje ainda não totalmente esclarecidos. De qualquer modo, depois da queda da tirania em
510, passaram a ser exaltados como libertadores da cidade do jugo da opressão. Ficaram
conhecidos para a posteridade como os Tiranicidas e na Ágora foram-lhes erguidas estátuas.
Segundo Pausânias 1. 8. 5, as primeiras, da autoria de Antenor, foram levadas para a
Pérsia por Xerxes em 480 e substituídas por outras, esculpidas por Crítios. Sobre o
assunto vide G. M. A. Richter, The Sculpture and Sculptors o f the Greeks (New Haven,
1970), pp. 154-156.
Em 499, segundo refere Heródoto 5.37, Aristágoras proclama a isonomia em Mileto.
(-') Vide V. Ehrenberg, “Origins o f Athenian Democracy”, pp. 540 e 542. Vide também
From Solon to Socrates, p. 91.
As opiniões dividem-se desde o tempo de Heródoto. As reservas levantadas quanto
à sinceridade de Clístenes não me parecem correctas e a esse respeito partilho a opinião
de Ehrenberg: ninguém seria capaz de fazer o que o legislador realizou, sem ter antecipa­
damente fortes convicções sobre a forma como o Estado ou a sociedade deviam ser refor­
mados, sem previamente ter tornado público o seu programa, pelo menos em linhas gerais.
No meu trabalho citado na nota 17 da página 80 faço uma análise mais desenvolvida
das reformas de Clístenes (pp. 179 sqq.).
(22) p ,‘om Solon to Socrates, p. 102.

81
A GRÉCIA ANTIGA

concedeu, como nenhuma outra, peso efectivo às decisões do povo


Para essa contribuiu uma evolução lenta, ao longo da primeira metade
do século V a. C., com alguns factos e momentos mais significativos que
muito concorreram para o progresso e a solidificação da democracia em
Atenas: uma evolução sem violência, com aperfeiçoamentos de ponuenor
ou com transformações mais profundas, leva ao apogeu de meados do
século.
As Guerras Pérsicas (490 e 480-479 a.C.), pelo papel nelas desem­
penhado, como veremos, concederam prestígio e influência aos elementos
mais pobres do dêmos que aí actuaram como remadores e estiveram na
base da vitória grega, sobretudo na batalha de Salamina. Constituíram
assim um poderoso incentivo ao avanço da democracia.
Por volta de 488/487 a. C., operam-se reformas constitucionais de
grande alcance que aparecem correlacionadas - pelo menos temporal­
mente - com uma série de processos de ostracismo a que não deve ser
alheia a figura de Temístocles: os arcontes, os magistrados mais influentes
da época arcaica, cujo recrutamento estava ligado às famílias nobres e a
partir de Sólon aos ricos, passam a ser tirados à sorte, um por tribo; o
polemarco perde o comando do exército em favor dos estrategos que
alcançam o primeiro plano da cena política em Atenas.
Essa alteração da competência do polemarco e dos estrategos está
relacionada com a batalha de Maratona em 490 a. C., cuja vitória, como
é sabido, se deve predominantemente aos Atenienses. No estabelecimento
da táctica a adoptar, os estrategos, de que faziam parte Milcíades e
Temístocles, tiveram papel decisivo. Enquanto comandantes das tribos,
fomiavam uma espécie de conselho, cuja influência deve ter aumentado
desde que foi criado por Clístenes. Da sua opinião dependia em grande
parte o polemarco, comandante do exército.
A personalidade e a reputação pessoal faziam naturalmente de
Milcíades o líder, que terá conseguido persuadir o colégio dos estrategos
e depois o polemarco a aceitar a táctica que ele propunha. Fosse essa ou
outra a explicação, a táctica seguida foi a de Milcíades e a ele ficaram
atribuídos os louros da vitória.
Possivelmente em consequência dessa liderança e da ascendência
que daí retiraram os estrategos. Maratona foi a última vez que se ouviu
falar em polemarco como líder militar. A partir daí, o comando, quer dos
efectivos terrestres quer dos navais, pertencerá aos estrategos

La naissance, p. 14.
(-h Vide Ehrenberg, “Origins o f democracy”, pp. 545-546.

82
A DEMOCRACIA ATENIENSE

Esta transferência de competência, possivelmente, não estará disso­


ciada da luta política e social que se seguiu à batalha de Maratona, de um
conjunto de processos de ostracismo e de significativas mudanças consti­
tucionais operadas por volta de 488/487 a. C. É possível que a batalha de
Maratona tenha feito diluir um pouco as controvérsias políticas, mas não
as dissolve. Após ela, logo os líderes das facções tentam de novo a busca
do poder. Nessa luta. Maratona - uma vitória atribuída a um elemento de
uma das mais poderosas e influentes famílias atenienses, a Milcíades -
será ampliada e mitificada, como bandeira, pelos oligarcas e pelos nobres,
para se oporem abertamente à causa democrática. Maratona fora uma
vitória nacional, mas dado ser Milcíades um rico aristocrata, a batalha
era celebrada com a satisfação de algo próprio nos círculos dos nobres
que viam o avanço da democracia com olhos de suspeição (^^).
Um ano após Maratona, Milcíades solicita à Assembléia uma annada
de 70 barcos, sem explicar as suas intenções nem o país que desejava
atacar (cf Heródoto 6. 132). Apesar da oposição de outros dirigentes
atenienses, o povo acede ao seu pedido e assim demonstra mais uma vez
a sua confiança nesse governante. O herói de Maratona dirige a expedi­
ção contra Paros que, na altura, constituía ainda uma ilha insignificante,
política e economicamente (^^). De qualquer modo a operação falha e a
frota regressa a Atenas com Milcíades gravemente ferido.
Apesar de ter a confiança do povo por si, esse dirigente tinha
adversários fortes que sabem aproveitar o desaire. A expedição custara
muito, quer em vidas quer em dinheiro, e Milcíades não cumprira o
prometido. Xantipo acusa-o de enganar o povo e propõe a pena de morte.
O tribunal, embora rejeite castigo tão duro, pune-o com a elevada multa
de 50 talentos (^’).
Mas a morte atinge-o entretanto, em consequência do ferimento rece­
bido, e quem paga a soma é o filho Címon que, como veremos, terá papel
de relevo em Atenas nas décadas de setenta e sessenta.
(25) Yjjg Bowra, Periclean Athens, pp. 17-18.
f ®) Os objectives do ataque permanecem obscuros e não é provável que Milcíades
tivesse a intenção de conquistar todas as Cidades como refere Éforo (FGrHist. 70 F 63).
Paros era metrópole de Tasos, uma ilha que ficava mesmo defronte da Trácia. Ora
Milcíades, que fora governante do Quersoneso, conhecia bem a importância das minas de
ouro de uma e outra dessas zonas. O ataque, como sugere Ehrenberg, From Solon to
Socrates, pp. 142-143, talvez encontrasse aí a sua razão.
f h Não podemos considerar essa pena como um acto de ingratidão da parte do povo,
como por vezes se aponta. O dêmos concede aos líderes o poder e dá-lhes a sua confiança,
mas exige que esses governantes correspondam, responsabilizando-os pelos actos prati­
cados ou deixados de executar no exercício desse poder. Vide Ehrenberg, From Solon to
Socrates, pp. 143-144.

83
A GRÉCIA ANTIGA

Pouco depois da morte de Milcíades, em 488/487, inicia-se uma série


de processos de ostracismo que, até 482 a. C., afastam de Atenas cinco
homens políticos influentes, condenados um após outro ao exílio de dez
anos: em 488/487, Hiparco da família dos Pisístratos; em 487/486,
Mégacles que era alcmeónida; em 485/484, Xantipo da mesma família e
pai de Péricles; Aristides, apelidado o justo; um outro que não conhecemos
mas bem pode ter sido o também alcmeónida Calíxeno, cujo nome aparece
em muitos ostraka e num deles com o epíteto de “traidor” (^*).
Em consonância com esses processos, verificam-se também signifi­
cativas mudanças constitucionais. Refere Aristóteles {Constituição de
Atenas 22. 5) que, no ano de 488/487 a. C., no arcontado de Telesino, os
Arcontes foram pela primeira vez tirados à sorte, um por tribo, de uma
lista de 500 nomes eleitos previamente pelo dêmos. O uso da tiragem à
sorte, em lugar das eleições directas que se realizavam desde 510, além
de constituir um sinal de declínio do arcontado, veio retirar qualquer pos­
sibilidade de influência pessoal e social nessa escolha. Foi um meio de
subtrair aos ricos a sua influência.
Ao mesmo tempo, desse novo processo de eleição decorre também
uma alteração significativa na constituição do Areópago, visto que anual­
mente os dez novos Arcontes se tomavam membros vitalícios desse
Conselho.
Ainda era uma honra ser arconte, mas a partir de então nenhum
político ambicioso poderia aspirar a ser o primeiro arconte ou polemarco.
Não demorará muito que ser arconte constitua um simples cargo - o
mais antigo dos que ocupam uma destacada e poderosa posição. O arcon­
tado passará a ser preenchido por homens respeitáveis, mas sem projecção
política (^^).
A alteração no processo de eleição dos arcontes parece corresponder
também ao momento em que o polemarco perdeu o comando supremo
do exército em favor dos estrategos; ficava apenas com funções religiosas
e com o direito de presidir, no tribunal do Paládio, aos processos que
implicassem estrangeiros.
Enquanto os arcontes perdiam a sua importância, os estrategos ganha­
vam um aumento significativo de influência. Possivelmente a projecção
dessa magistratura já se vinha afirmando antes de Maratona, mas é sobre­
tudo a partir de então que se impõe e se toma a magistratura suprema.
Eleitos generais, podiam ser reeleitos por ilimitado número de vezes e

(-®) Vide Ehrenberg, From Solon to Socrates, p. 147; Forrest, La naissance, pp.
219-220.
(29) Yjjg Ehrenberg, From Solon to Socrates, p. 146.

84
A DEMOCRACIA ATENIENSE

tomavam-se comandantes plenos do exército e da armada, já que não


existia distinção entre general e almirante. Esta nova posição de coman­
dantes supremos, associada ao facto de continuarem a ser eleitos, con­
cedeu aos estrategos - os que eram capazes e ambiciosos - também a
liderança no domínio político. A partir de então passam para primeiro
plano, quer no domínio militar quer no civil, e são, ao mesmo tempo, os
comandantes do exército e os chefes do poder executivo, o que sucede
a partir de meados do século V a. C. Assim o dêmos podia eleger os seus
dirigentes políticos e os seus estadistas pelo número de vezes que dese­
jasse ou considerasse necessário, enquanto outro se não sobrepusesse e
demonstrasse que a política por ele proposta era mais útil à cidade.
Não devemos andar longe da verdade se virmos a influência de Temís-
tocles nas alterações efectuadas e nas decisões dos Atenienses. Parece
claro que, por trás das reformas de 488/487, se encontrava um único
espírito e, a não ser Temístocles, nenhum líder das outras facções estaria
interessado em tais medidas.
Concordo com Ehrenberg em que tais reformas, tomadas no seu todo,
podem ser consideradas uma verdadeira revolução constitucional que
continuou e aperfeiçoou a obra de Clístenes (^°).
Nas lutas políticas que se seguem às Guerras Pérsicas, emerge a
figura de Címon, filho do vencedor de Maratona, Milcíades. Consegue o
apoio popular, graças a um conjunto de vitórias, de mãos dadas com a
propaganda, bem presente no episódio dos restos mortais de Teseu e no
mito gerado à volta de Maratona (cf Plutarco, Teseu 36). Apesar de ser
o principal representante das famílias nobres, Címon conquistara Atenas
pelos seus êxitos militares e navais. Oferecia-lhe vitórias e glória, e as
suas campanhas apareciam como a continuação das Guerras Pérsicas e,
aos olhos dos Atenienses, inspiradas por um mesmo espírito. Se perdessem
a vida em combate, não duvidavam de que cumpriam o seu dever e
atingiam a aretê ou a excelência: seriam heróis, a quem eram erguidas
lápides comemorativas com epitáfios (^’).
Címon era um conservador a quem desagradava o caminho que
tomava a democracia em Atenas. Por isso tentou travar um pouco, senão
mesmo fazer regredir, a tendência evolutiva que a caracterizava. Cons­
tatara que os tetas, graças ao prestígio acumulado nas Guerras Pérsicas
e em consequência de constituírem peças-chave na frota que era funda­
mental à defesa da cidade e à manutenção do seu império, detinham na

(30) pyom Solon to Socrates, p. 146.


C ) Vide Bowra, Periclean Athens, p. 32. H. Von Gaertingen, Historische griech.
Epigramme, n° 42 traz um desses epitáfios.

85
A GRÉCIA ANTIGA

vida da pólis um papel de certo relevo como esteios da democracia. Pro­


cura, por isso, desviá-los da vida política, afastando-os de Atenas pela
criação de cleruquias - colónias dependentes da metrópole - , onde lhes
distribuía terras. Desse modo satisfazia também concomitantemente as
reivindicações dos pobres.
Esta actuação recebeu duros golpes com o massacre (465/464) dos
colonos de uma cleruquia, infligido pelos Trácios em Trabescos, e com a
revolta de Tasos em 465 a. C. que Címon só consegue reconquistar após
dois anos de cerco (^^).
Tais revezes são aproveitados pelos seus adversários, entre os quais
pontificam Efialtes, que é eleito estratego em 465/464 ou 464/463, e o
jovem Péricles. No regresso de Tasos Címon parece ter sido acusado de
corrupção por este (^^).
Em 462 o filho de Milcíades, com um contingente de 4 000 hoplitas,
parte em ajuda de Esparta que se encontrava a braços com uma revolta
de hilotas, apesar da oposição da facção democrática, encabeçada por
Efialtes. Este, na Assembleia que discutiu o problema, justifica a recusa,
alegando que “os Atenienses não deveriam tentar libertar e restaurar uma
cidade que é sua rival e, pelo contrário, deveriam deixar que se afundasse
0 orgulho espartano” (cf Plutarco, Címon 16. 9). Era o ressurgir da
política abandonada e que ficara em segundo plano após o exílio de
Temístocles. Címon, de feição conservadora, sentia-se atraído por Esparta,
ou pelo seu regime, e propunha um entendimento com ela; Efialtes e
Péricles, da facção democrática, pelo contrário erguiam a Lacedemónia
à qualidade de inimigo principal.
A força ateniense, ao chegar a Esparta, é porém acolhida com des­
confiança pelos Lacedemónios, que a devolvem à procedência, sem chegar
sequer a ser utilizada Q‘^). Era a desgraça de Címon. Ficara eliminado o
argumento do sucesso. A política por ele defendida, de confronto com os
Persas e entendimento com Esparta, fora declinada e pelos próprios Lace­
demónios. Tenninara o período em que Esparta e Atenas se proclamavam
em boas relações e dispostas a dividir a hegemonia da Grécia. Com o

(^9 Vide G de Sanctis, Atthís, Storia delia Repubblica ateniese dalle origini alia
età di Pericle (Torino, La Nuove Italia, 31975), pp. 508-509; Ehrenberg, From Solon to
Socrates, p. 201.
A revolta talvez tenha sido motivada pela tentativa por parte de Atenas de se apoderar das
minas de ouro existentes na ilha. Vide Bowra, Periclean Athens, pp. 34-35.
(” ) Cf. Aristóteles, Constituição de Atenas 27. 1; Plutarco, Címon 14. 5, Per. 10. 6.
Sobre o assunto vide Ehrenberg, From Solon to Socrates, pp. 201 e 440 nota 29.
O Sobre a revolta dos hilotas em 462 a. C. e a expedição de Címon vide G de Sanctis,
Atthís, pp. 509-513.

86
A DEMOCRACIA ATENIENSE

episódio de Címon - observa-o Bowra Esparta tomava evidente que


temia Atenas e se alegrava em humilhá-la perante os outros Gregos (^^).
Desse modo desacreditava a confiança que nela depositavam os elemen­
tos oligárquicos e recusava a política exterior que dela fazia uma aliada.
A afronta revoltaria os Atenienses, em especial os que discordavam da
orientação política de Címon. A influência e credibilidade deste, já belis­
cadas com os acontecimentos de 465 e 463, não resistem a este revés.
Com a política externa alterar-se-á também a orientação da política
interna. Dessa mudança é personagem saliente Efialtes. Filho de Sofóni-
des, embora não fosse rico pertencia a uma família conceituada e começa
por sobressair no comando de uma armada à costa sul da Ásia Menor.
Assume a política de Temístocles, mas no período de apogeu de Címon
não conseguiu qualquer posto de destaque. O conhecimento que temos
de Efialtes é muito reduzido, mas pennite-nos supor que era um homem
bastante inteligente, à altura dos movimentos intelectuais do tempo.
Escrupulosamente honrado, encontrava-se em boa posição para atacar
os membros do Areópago, que se serviam da sua posição para enriquecer.
Em 462 Efialtes aproveita a ausência de Címon para encabeçar um
movimento que preconizava significativas refonnas internas. Consegue
a aprovação da lei com as medidas legais que retiravam ao Areópago a
maioria dos poderes e afastavam da constituição ateniense os derradeiros
traços de privilégios aristocráticos. A democracia vai dar mais um passo
decisivo.
Efialtes e os seus partidários consideravam que Atenas se encontrava
em demasia nas mãos das famílias ricas e que o dêmos carecia de pos­
sibilidades para desenvolver a sua participação no governo da pólis.
Constataram que o baluarte dessas famílias, contrárias a uma autêntica
democracia, se situava no conselho do Areópago que sobrevivera às re­
formas de Clístenes. Era um órgão que nessa altura, embora não os
conheçamos em pormenor, detinha poderes extensos, capazes de certa
forma de inviabilizar as medidas populares - poderes esses que os êxitos
e a actuação de Címon haviam solidificado (^^).
Os autores antigos atribuem ao Areópago até 462 a. C., a missão de
ser o “guardião das leis”. Embora se possa argumentar que tal tarefa
constituísse uma transposição, por autores do século IV a.C., de poderes
que lhe queriam ver atribuídos, parece ter sido da sua alçada até aí praticar
uma espécie de vigilância geral sobre as leis, talvez verificando a sua

p5) Periclean Athens, p. 44.


O As informações são escassas e tardias. C f Aristóteles, Constituição de Atenas
23 e2 5 .

87
A G R ÉCIA A N T IG A

lógica interna e possíveis contradições; exercer certo controlo sobre os


magistrados, castigando os que violavam a lei e verificar a sua elegibilidade
- 0 que os Gregos chamavam a docimasia; poderes judiciários extensos
que ele exercia em reuniões próprias ou em conselho dos arcontes; im­
portante autoridade, indefinível, que resulta de ser um órgão aristocrático
e do facto de cada um dos seus membros ser um antigo magistrado e
figura conhecida (^’).
Efialtes e Péricles consideravam contrário ao espírito democrático
que tão importantes funções estivessem nas mãos do Areópago, formado
por membros vitalícios, por inerência, e viam nesse Conselho o principal
obstáculo ao alargamento da democracia. Procuram, por isso, demonstrar
que os privilégios e os poderes que ele detinha eram o resultado de uma
usurpação, já que - argumentavam - não se podia afirmar que, antes de
Sólon, esse conselho possuísse este ou aquele poder f ^).
Este corpo doutrinário subjaz à actuação dos dois políticos que, segundo
Aristóteles {Constituição de Atenas 5.1-2), começam os ataques ao Areó­
pago por processos intentados a alguns dos membros, individualmente,
acusando-os de corrupção. Em seguida Efialtes apresenta à aprovação
da Assembleia as medidas que reduzem drasticamente os poderes daquele
órgão: priva-o das Einções legislativas e judiciais e deixa-lhe apenas o
direito de superintender nos casos de homicídio e nos delitos de carácter
religioso. Todos os outros poderes são transferidos para os órgãos demo­
cráticos por excelência - a Assembleia, o Conselho dos Quinhentos e os
Tribunais da Helieia. Das atribuições judiciais, a principal herdeira foi a
Boulê: docimasia dos magistrados; exame da prestação de contas dos
magistrados à saída dos seus cargos; processos de eisangelia ou atentado
à segurança da pólis durante o exercício de uma magistratura (^^).
Não é contudo nessa transferência de competências do Areópago
para a Assembleia, Boulê e Helieia que reside a importância da obra de
Efialtes, mas no aplanar do terreno para outras refonnas, ao eliminar ou
enfraquecer uma autoridade que as impedia.
No regresso de Esparta, Címon tenta opor-se às reformas, mas sem
êxito. O revés acabado de sofrer foi bem aproveitado. Mostrara que a
advertência de Efialtes de não ajudar a rival estava correcta. A reacção
violenta provocada nos Atenienses pelo comportamento de Esparta
redundou no descrédito de Címon e num considerável acréscimo da

(” ) Vide Bowra, Periclean Athens, p. 45; Forrest, La naissance, pp. 209-210.


C^) Vide Forrest, La naissance, pp. 209-210; Cl. Mossé, Les institutions grecques.
31.
O Vide G. de Sanctis, Atthís, pp. 513-517 e 534 sqq.
A DEMOCRACIA ATENIENSE

influência e prestígio de Efialtes e seus apoiantes; e disso souberam estes


tirar partido. Alvo de um processo de ostracismo em 461 a. C., o filho de
Milcíades é condenado a dez anos de exílio. As reformas estavam con­
firmadas e a soberania do dêmos tomava-se mais real. Para se tomar
completa faltava apenas remunerar o tempo passado no serviço da pólis.
Desse passo se encarregará Péricles.
O Areópago, além da maioria dos poderes, parece ter perdido também
grande parte da sua autoridade: sobretudo a vigilância sobre os magistrados
e consequentemente a salvaguarda da constituição e o cuidado em fazer
respeitar as leis. E perde-a, o que é bastante elucidativo, sem luta.
Uma explicação possível para isso, na opinião de Forrest, talvez resida
no facto de essa autoridade - em resultado de os Arcontes, de eleitos,
terem passado a ser escolhidos à sorte a partir de 487 a. C. - ser na
altura já pequena e de o Areópago ser sentido pela massa dos Atenienses,
mais ou menos inconscientemente, como uma anomalia na constituição
da época e como algo de absurdo em 462 a. C. - e a tal ponto que
desapareceu, sem grande resistência, como força política até ao fim do
século Q”).
E natural que uma refonria da envergadura da realizada em 462 tenha
subjacente um pensamento político teórico e um corpo doutrinário que
não se encontravam em revoluções anteriores como a de Sólon. A acu­
sação de usurpação só pode ser formulada numa sociedade em que a
constituição é algo de fixo, sancionada pela sua simples existência ('*’).
Na literatura encontramos repercussões dessas idéias e doutrinas, em
especial no teatro.
Esquilo na Oresteia, uma trilogia apresentada nas Grandes Dionísias
de 458 a. C., parece apoiar as medidas de Efialtes. E digo parece porque
nem todos os estudiosos são unânimes quanto a este ponto. Orestes
cometera o matricídio para vingar a morte do pai e é perseguido pelas
Erínias. Nas Euménides, a última tragédia da trilogia, aconselhado por
Apoio, 0 jovem vai solicitar ajuda a Atena que, para solucionar o problema,
cria 0 Areópago. O poeta dá-lhe, portanto, uma origem divina e os versos
690 sqq., em que a deusa o considera uma instituição veneranda e guardiã
da justiça e lhe atribui a função de ser para todo o sempre um refúgio da
justiça em Atenas, podem ser interpretados como uma resposta de Ésquilo
às reformas de Efialtes, realizadas quatro anos antes, que despojaram o
Areópago de todos os direitos, com excepção da jurisdição nos crimes
de sangue. No entanto o Areópago é criado por Atena precisamente e

(40) Porrest, La naissance, p. 210.


f ') Vide Forrest, La naissance, pp. 212-213.

89
A GRÉCIA ANTIGA

apenas com a função de julgar os casos de sangue (w . 482 sqq.). É


como se Ésquilo estivesse a dizer que o tribunal foi criado pela deusa
apenas com essa função e que depois usurpara os restantes poderes
Efialtes e Péricles nada mais haviam feito do que retirar-lhe os poderes
que indevidamente detinha. Portanto um autor que apresenta a origem
do Areópago como a criação de um tribunal com esse objectivo apoiaria
com certeza o argumento da usurpação e acolheria com agrado as refor­
mas de 462 a. C. Aliás, como observa Forrest, as Erínias, que representa­
vam a justiça primitiva (isto é a justiça aristocrática), são bem acolhidas
na nova sociedade para constituírem o garante da lei, a única que os
homens devem respeitar - e tanto os tribunais da Helieia como o Areópago
a servem elas não são um corpo privilegiado que assegura a sua gestão.
É pois a afinuação do princípio de que a politeia, ou a lei, é independente
e mais importante do que qualquer homem ou gnipo de homens encar­
regados da sua aplicação
Os historiadores modernos explicam as refonnas de 462 a. C. ou
como uma consequência do aparecimento de uma nova classe política -
os tetas que, utilizados na marinha, surgiam como os vencedores de
Salamina e desempenhavam papel de relevo na frota da Simaquia de
Delos; ou como um salto no desconhecido para uma constituição que
apelidam de “democracia total ou radical”. Forrest discorda de tais expli­
cações, pois, em sua opinião, não há razões para imaginar os tetas como
uma classe distinta do dêmos ateniense; em segundo lugar, os hoplitas e
tetas que votaram por Efialtes não consideravam estar a saltar para o
desconhecido. As reformas de 462 foram um passo capital na história de
Atenas, mas os homens políticos de então consideravam as mudanças
como um reforço da democracia e do sistema legislativo de Clístenes e
não como a criação de algo de utópico ('’'*).
De 508, altura das reformas de Clístenes, a 462 a. C. o Ateniense
médio evoluira consideravelmente e acabava de assumir a sua responsa­
bilidade política como algo que lhe era próprio. Em 508, a Helieia não
passava de um tribunal de apelação destinado a rever as injustiças; em
462 toma-se um tribunal de grande importância que supervisiona a admi­
nistração judiciária. Em 508, o dêmos elegia os chefes aristocráticos

0 0 Vide E. R. Dodds, “Morals and politics in the Oresteia in The ancient concept
o f progress (Oxford University Press, 1973), pp.45-63; K. Dover, “The political aspect
of Aeschylus' Eumenides Journal o f Hellenic S tiid iesll (1957) 230-237; M. Gagarin,
Aeschylean drama (Brekeley, 1976), pp. 87-118.
(D La naissance, pp. 213-215.
(‘’O La naissance, p. 216.

90
A DEMOCRACIA ATENIENSE

que, a respeito de todas as questões importantes, decidiam da política


que deviam seguir; em 462 elegia ainda os nobres para postos elevados,
mas estes eram agora os servidores do dêmos Assim o proclamam
as Suplicantes de Ésquilo (vv.365-401). Nesses versos, enquanto as
Danaides pressionam Pelasgo a dar-lhes acolhimento na cidade como
suplicantes, o rei refere não as poder socorrer sem consultar o povo, já
que esse acto é passível de arrastar consigo uma guerra e tais conse­
quências recairão sobre toda a cidade (w . 365-369):
Não vos senteis junto do meu lar.
Se a cidade inteira se contamina,
que 0 povo em comum procure descobrir remédio.
Eu não vou cumprir promessas
antes de, sobre isso, consultar todos os cidadãos.

Pelasgo defende a soberania do povo e põe a tónica no colectivo: “a


cidade inteira”; “o povo em comum”; “todos os cidadãos”.
Em face das súplicas contínuas das filhas de Dânao - que supõem
Pelasgo um senhor absoluto e insistem, como vimos, com palavras seman­
ticamente adequadas (vv. 370-375), no seu poder soberano, procurando
identificá-lo com o próprio corpo político e repetindo os compostos em
que entra o elemento monos - “único” ('*^) - , o rei reafirma a soberania
do povo (w. 398-399):
Eu já disse antes que, sem o consentimento do povo,
não farei tal coisa, qualquer que seja o meu poder.

De qualquer modo muitos nobres sentiram-se atingidos. Com as suas


reformas, Efialtes desafiava as classes dirigentes e, apesar de ter o dêmos
por si, levantou violentas hostilidades. Prova-o o corpo constituído para o
assassinar pouco tempo depois das refonuas: morto em 461, o assassino
nunca foi identificado, naturalmente porque outros conspiradores o ocul­
taram. O crime não era usual como arma política em Atenas, uma vez
que podiam utilizar o ostracismo, muito mais clemente e humano. Efialtes
porém gozava de um apoio demasiado forte da parte do dêmos para
esse meio ser eficaz. Os conservadores, constatando essa impossibilidade,
decidiram pela eliminação. Morto em defesa da democracia, a sua morte
constitui um evidente assassínio político, praticado pelos oligarcas. Efialtes
deixava porém um continuador - Péricles.

O Vide Forrest, La naissance, pp. 216-218.


f O passo vem citado no capítulo “A pólis: sistema de vida e mestra do homem”
(p. 22).

91
A GRÉCIA ANTIGA

A liderança de Péricles não foi uma época marcada por refomias


espectaculares. Verificaram-se, no entanto, aperfeiçoamentos que fizeram
da democracia ateniense uma construção harmoniosa, em que a satisfação
dos interesses do dêmos estava salvaguardada. Para isso muito contribuiu
a acção moderadora, avisada, de verdadeiro dirigente que foi a desse
estadista. Personalidade forte e conciliadora, manifestava aspirações cul­
turais, fortes princípios democráticos, oposição à política pró-espartana
seguida pela facção conservadora de Atenas, integridade moral. Era
exemplar a sua famosa incorruptibilidade em assuntos de dinheiro
A refonua mais significativa do tempo de Péricles foi a da criação de
um salário - que os Gregos chamavam mistoforia - para quem exercesse
funções nos diversos cargos. A partir de meados do século V, em Atenas,
os cidadãos que ocupavam cargos, os membros do Conselho dos Qui­
nhentos, os juízes dos tribunais da Helieia recebiam uma pequena remu­
neração diária - o misthos. Finley apelida-a, a par da tiragem à sorte, de
cavilha mestra do sistema ateniense QQ. A existência de salários para
remunerar o exercício dos cargos públicos é, contudo, uma instituição
menos antiga e também menos essencial à democracia, embora o seu
objectivo fosse tomar mais completa a igualdade do cidadão - uma das
mais fortes aspirações do regime ateniense, como veremos Com
essa medida - já que penuitia a qualquer cidadão, mesmo sem recursos,
ter acesso aos cargos - pretendeu o estadista privilegiar a igualdade. A
democracia ateniense procurava dar assim a todos os cidadãos iguais
possibilidades de acesso aos cargos. A mistoforia constituiu, pois, um
passo significativo no caminho da democracia.
A mistoforia não era uma medida universalmente aplicada. Os cargos
mais elevados, que absorviam quase todo o tempo, não eram retribuídos:
os arcontes só passaram a receber remuneração por meados do século
V a. C. e os Estrategos nunca a auferiram. A estratégia era, por isso,
uma magistratura que começou por ser ocupada por nobres e em seguida
passa também às mãos dos ricos Q°).
Na sua maioria as actividades públicas eram, no entanto, remuneradas.
Se bem que não absorvessem tanto tempo como as anteriores, a elas não
poderia dedicar-se boa parte dos Atenienses, sem esse salário, já que

(“b Cf. Plutarco, Per. 15 e 16.


f *) Democracy, p. 19.
(‘'^) Vide infra pp. 95-100.
(^°) Essa constitui uma sequência lógica da abertura do sistema, sobretudo a partir das
reformas de 462 a.C. A sua concretização verifica-se após a morte de Péricles, com o que
comummente se designa por “aparecimento dos demagogos”.

92
A DEMOCRACIA ATENIENSE

para isso teriam de abandonar o trabalho dias inteiros seguidos, e não


tinham recursos que lhes possibilitassem fazê-lo.
Se bem que não fosse aplicado ao mesmo tempo a todos os cargos e
variasse consoante as funções e as épocas, o salário de participação, ou
mistoforia, visava em teoria assegurar a todos os Atenienses, fossem
quais fossem os seus meios de fortuna, iguais possibilidades no acesso
efectivo a esses cargos e funções administrativas e evitar que alguém
ficasse afastado da vida política pela sua pobreza. Em que proporção é
que participava, não é fácil dizê-lo. Temos apenas conhecimento de que
0 Conselho dos Quinhentos era normalmente constituído por pessoas
remediadas, ou abastadas mesmo, e de que os tribunais da Helieia tinham
um carácter mais popular, que se acentua com o decorrer do tempo.
Para os oligarcas, secundados por muitos historiadores modernos, a
instituição do salário para os cargos públicos - sobretudo pela presença
no executivo, o Conselho dos Quinhentos, e nos tribunais - atraía por um
lado os mais pobres, não competentes, irresponsáveis mesmo, por outro
afugentaria os mais capazes Q').
Não é seguro que a existência do salário só atraísse os pobres, como
pretendem os críticos; mas, mesmo que tal acontecesse, subscrevo o
protesto de Forrest de que não é correcto nem admissível o conceito de
que estes sejam maus, preguiçosos e irresponsáveis, em busca apenas
do ganho e do interesse próprio (^^). Esse é um preconceito oligárquico
que encontramos já nos Poemas Homéricos e enformou sobretudo o
pensamento da época arcaica, deixando marca na própria linguagem:
como já vimos, os nobres eram os agathoi, “os bons”, os aristoi “os
melhores”, enquanto os das classes baixas eram os kakoi “os maus” ou
“vilãos” f ^). Não é correcta a ideia de que o ganho pessoal constituía a
única atracção que o regime ateniense oferecia ao cidadão, médio ou
pobre, como deixa entender Aristófanes nas Vespas e nas Mulheres na
Assembléia, nem está provado também que o cidadão médio não tinha
interesse em participar na vida política: as informações que possuímos
indicam-nos até um sentido diferente, pelo menos até ao último quartel
do século V a. C QQ.

f ) Por exemplo, Platão, nas Leis 3, 694a-701b, incitava a multidão da plebe a


intrometer-se em questões que deviam estar reservadas aos melhores,
f - ) La naissance, pp. 30-33.
f h Sobre o assunto vide A.W.H. Adkins, Moral Values and Political Behaviour in
Ancient Greece i f onáon, 1972), pp. 10-57.
f h Sobre Aristófanes vide. K. Dover, Aristophanic Comedy, pp. 125-131 (para as
Vespas) e 195 sqq. (para as Midh. em Assembleia).

93
A GRÉCIA ANTIGA

Os adversários da democracia total não se cansaram de entenebrecer


as intenções da sua criação: segundo uma tradição favorável à democracia
moderada, Péricles teria concedido o salário aos tribunais para suplantar
a popularidade de que Címon gozava devido à sua riqueza (cf. Aristóteles,
Constituição de Atenas 23.4 e 5; Plutarco, Per. 9.3). Por permitir uma
maior igualdade na participação do governo da pólis, a remuneração dos
cargos ficou estreitamente ligada ao regime democrático de Atenas, como
uma das suas mais destacadas características. Por isso os oligarcas,
quando por momentos ascendem ao poder em 411 e 404, decretam, como
uma das primeiras medidas, a abolição dessa remuneração, ou pelo menos
tentam fazê-lo (cf Tucídides 8.67.3 e 97. 1-2; Aristóteles, Constituição
de Atenas 29.5, 30.2 e 33. 1-2).
Em meados do século V a. C., Atenas tinha atingido um considerável
desenvolvimento, tanto no campo econômico e político como no domínio
cultural, a ponto de dar a ideia de quase perfeição e de Péricles poder
afirmar que Atenas era a “escola da Hélade” (cf Tucídides 2.41.1).
Verifica-se uma espécie de equilíbrio entre as diversas instituições; uma
certa harmonização de classes e a concessão de iguais possibilidades a
todos os cidadãos. Constituía então um exemplo válido, que continuou a
fornecer durante longo tempo, de coexistência conseguida entre direcção
política e participação popular, sem a apatia que hoje se verifica - e
começará a ferir Atenas a partir do segundo quartel do século IV a. C. -
e sem aquelas marcas de ignorância que, a respeito dos Estados actuais,
apontam historiadores, sociólogos e analistas de opinião pública
A participação dos cidadãos nas actividades públicas da pólis fazia-
-se sobretudo através de três grandes instituições: a Assembléia (Ecclesia)
que agrupava todos os Atenienses os quais nela tinham o direito e o dever
de tomar parte; o Conselho dos Quinhentos (a Boulê) e os Tribunais Po­
pulares (a Helieia), dois órgãos para os quais eram escolhidos, por tiragem
, à sorte, de cada uma das dez tribos, cinquenta e seiscentos cidadãos,
respectivamente.
Atenas possuía ainda, além de outros órgãos, os dez Arcontes, um
por tribo, o Areópago, constituído por ex-arcontes, e os Estrategos. Os
Arcontes e o Areópago, como vimos, embora muito inflientes na época
arcaica, haviam perdido grande parte da sua importância ao longo da
primeira metade do século V a. C., em consequência da evolução demo­
crática: os Arcontes a partir de 487, data em que começaram a ser tirados
à sorte, e o Areópago a partir de 462, altura em que perde todas as suas

(55) YitJe M. I. Finley, Democracy, pp. 33-37.

94
A DEMOCRACIA ATENIENSE

competências, salvo a jurisdição nos crimes de homicídio. Os Estrategos,


em número de dez, um por tribo, constituíam, no século V a.C., a magis­
tratura de maior importância na democracia ateniense. Suplantaram os
Arcontes no primeiro quartel desse século, sobretudo a partir de 487, e,
escolhidos por eleição, podiam ser reeleitos em anos sucessivos e, por
consequência, imprimir à pólis as suas ideias no que respeita à política
interna e externa. Assim aconteceu com Temístocles, Péricles e outros f ^).
Era uma democracia directa e plebiscitária e não concebia o sistema
representativo. A totalidade do corpo de cidadãos, ou seja a pólis, reunia
sempre em pleno e não confiava a outrem a sua representação e a
resolução dos seus problemas. Era pois assim que a Assembleia constituía
0 coração do sistema democrático e possuía o direito e o poder de tomar
todas as decisões políticas.
Marcado pela oposição entre “ricos” e “pobres” - ou como também
lhe chamaram as fontes, entre plousioi e dêmos - , o regime ateniense
tinha na busca da igualdade um traço fundamental, talvez mesmo o mais
saliente: dar aos cidadãos as mesmas possibilidades, sem olhar à categoria
social, aos meios de fortuna ou à cultura. Atenas considerava este aspecto
tão importante que se gabava de possuir a isonomia, a isegoria e a iso-
cracia, ou seja “a igualdade de direitos” perante a lei, a “igualdade no
falar” - ou liberdade de expressão, como diríamos hoje - e a “igualdade
no poder”, respectivamente (^’). Para os Atenienses, a liberdade de
expressão era de tal modo importante que até aos escravos a concediam,
segundo infonnação de Demóstenes (cf Filípicas 3. 3). Nas reuniões
da Assembleia e do Conselho dos Quinhentos, o arauto perguntava: Tis
agoreiiein bouletai? (“Quem deseja tomar a palavra?”) - a fórmula
ritual com que ainda hoje qualquer moderador dá início a um debate, seja
ele político, cultural ou de outra natureza.
Mesmo em tempos de crise, de angústia e de guerra mantiveram os
Atenienses essa liberdade e com ela se divertiam - facto que constitui
uma prova de extraordinária confiança na pólis e nas suas potenciali­
dades (^^). E - observa-o Norberto Bobbio - , como as técnicas argumen-
tativas se desenvolvem apenas nos locais em que a discussão é livre, a
sociedade ideal que toma possíveis verdadeiras escolhas, isto é, escolhas

f ®) Sobre as instituições de Atenas e sua evolução vide C. VÙgnQ\X, Athenian Consti­


tution-, J. Ribeiro Ferreira, A Democracia na Grécia Antiga (Coimbra, MinervaCoimbra,
1990), pp. 89-130.
(” ) Para a isonomia, isegoria e isocracia vide M. Ostwald, Nomos and the Begin­
nings o f the Athenian Democracy {Oxioxà, 1969), pp. 96-136, 137, 146-147, 153-158 e
180-182; C. Hignett,^/’/7e/7za/7 Constitution, p. 157 e nota 6.
(5^) Vide C. M. Bowra, The Greek Experience (London, ^1958), p. 76.

95
A GRÉCIA ANTIGA

que não sejam constrangidas nem arbitrárias, é unicamente aquela que


garante a liberdade de discussão (^^).
Se uma vez por outra lhe são postas algumas limitações, sobretudo no
campo religioso, já no domínio político, tomado no sentido restrito, que
inclui a esfera militar, a margem da liberdade de expressão era muito
extensa, mesmo nos últimos anos da Guerra do Peloponeso. Orgulhosos
da sua franqueza no falar, os Atenienses mantinham na Assembléia
debates vivos, directos e confrontos políticos sem peias, de que Tucídides
dá exemplos elucidativos e, ocasionalmente os trágicos também. A comé­
dia utiliza uma liberdade ilimitada e Aristófanes tanto apresenta episódios
de uma sensualidade sem reservas - de que refiro os da Lisístrata, entre
outros - , como dirige ataques violentos contra a guerra decretada pelo
dêmos ou traz à cena figuras famosas e de destaque na cidade - como
os políticos Péricles e Cléon, o general Lâmaco, o poeta Eurípides, o filó­
sofo Sócrates, entre outros não olhando a meios para os pôr a ridículo.
Nenhuma democracia moderna, por mais aberta e avançada que seja,
concede uma liberdade de expressão tão ampla como a que se vivia em
Atenas.
A democracia ateniense pode por vezes ter sofrido as consequências
da liberdade excessiva, mas esta teve também a vantagem de fornecer
uma válvula de escape para emoções e paixões que, impossibilitadas de
se manifestarem dessa forma, poderíam ter assumido aspectos mais vio­
lentos. Atenas estava convencida de que a isegoria era indispensável a
uma comunidade civilizada e isso constituiu, antes de mais, uma fonte de
energias, já que - observa Bowra - um povo que sabe rir de si próprio tem
nas mãos a arma que o pode libertar de muitas crises e desgraças (®°).
Os excessos da liberdade de expressão eram atenuados por um dis­
positivo - a graphêparanomon - pelo qual um cidadão podia ser acusado
por outro, julgado, condenado e obrigado a pagar uma pesada multa,
por ter feito uma “proposta ilegal” à Assembléia. Instrumento legal
bastante utilizado no século IV a. C. - mas a que não é possível atribuir
uma data mais precisa do que o decurso do século V, talvez a segunda
metade (®‘) - , a sua função era, claramente, moderar a isegoria pela

(59) “Prefácio” à segunda edição italiana de Ch. Perelman - L. Olbrechts-Tyteca,


Trattato deli’argomentazione. La miova retórica (Torino, ^1976), vol. 1, p. XIX (trad,
de Traité de l ’argumentation. La nouvelle rhétorique, Paris, 1958).
(®°) The Greek Experience, pp. 76-77.
(®‘) Há quem a atribua a Efialtes (462/461), mas essa atribuição é duvidosa e não há
exemplos da sua utilização, antes dos finais do século V. Vide C. Mossé, Les inst. grecques
(Paris, 1967), p. 32.

96
A DEMOCRACIA ATENIENSE

disciplina, responsabilizar o dêmos e oferecer-lhe a oportunidade de


reconsiderar uma decisão injusta ou menos correcta, tomada por ele.
Não tem espírito diverso a disposição que, se possibilita a qualquer
cidadão intentar uma acusação pública contra quem comete um acto de
insolência - de hybris, como dizem os Gregos - , exige que a acusação
seja prosseguida depois e obtenha pelo menos um quinto dos votos, sob
pena de o seu autor se sujeitar a uma multa de mil dracmas (cf Demós-
tenes. Contra Mídias 46-48).
Atenas caminhou em sentido inverso ao que é seguido nos dias de
hoje. As democracias actuais atribuem imunidade parlamentar que, ao
fornecer segurança, protege também a irresponsabilidade dos represen­
tantes; a democracia grega concedia aos cidadãos plena liberdade de
expressão, mas responsabilizava-os. O orador aceitava o jogo e assumia
os riscos que comportava o seu discurso. Havia, em conclusão, responsa­
bilidade (^^).
Se os Atenienses se orgulhavam de possuírem a isegoria, conside­
ravam também essencial a igualdade no acesso ao poder - a isocracia.
A busca dessa igualdade era para eles de tal modo importante que, além
da já referida criação da mistoforia, para permitir que os cidadãos sem
recursos pudessem ter acesso aos cargos, lançaram mãos de um processo
que tantas críticas concitou da facção não democrata e hoje, motivados
como estamos para valorizar a competência, nos deixa perplexos - ou
pelo menos causa surpresa. Refiro-me ao sistema de eleição por tiragem
à sorte para a maioria dos órgãos e magistraturas.
Os inícios do processo parecem estar relacionados com uma origem
religiosa: possivelmente pensar-se-ia que, desse moso, a escolha ficaria
entregue nas mãos da divindade. Anterior à democracia, a tiragem à
sorte é utilizada nos mitos e na Ilíada para a designação dos elementos
que vão travar um combate individual ou para a divisão de uma herança.
Aparece às vezes também nas oligarquias (“ ).
Aplicado à democracia - segundo Aristóteles por Sólon {Constituição
de Atenas 8.1), mas mais provavelmente por Clístenes - , o princípio tem
um sentido diferente: procurava, por um lado, limitar a luta e as manobras
a que toda a eleição se presta e, por outro, impedir o desenvolvimento de
grandes autoridades individuais. Neste aspecto a tiragem à sorte conjuga-

Vide Finley, Democracy, pp. 26-27 e 75-76.


f h Vide J. de Romilly, Problèmes de la démocratie grecque (Paris, 1975), p. 9.
Platão é totalmente avesso à utilização do princípio na vida política. Conserva-o, no
entanto, para certas funções religiosas e para as distribuições de terras (cf. Leg. 741b;
759b).

97
A GRÉCIA ANTIGA

-se com a proibição da escolha do mesmo cidadão, em anos seguidos,


para os mesmos cargos ou órgãos (^‘*). Assim se anulava a intromissão
das influências pessoais e se repartia de fornia mais extensa e equitativa
a soberania popular, Todos, fossem eles ricos ou pobres, cultos ou menos
cultos, se encontravam em igualdade de condições. Em vez de funcio­
nários de carreira, eram os próprios cidadãos que geriam o Estado (^^).
Nos primórdios da democracia a tiragem à sorte combinava-se com
a eleição. Em Atenas, para certos cargos e órgãos, começou por realizar-
-se a partir de um determinado número, estabelecido previamente - a
prokrisis que nos inícios era feita nas tribos e mais tarde nos demos.
Tanto um como outro são métodos que, embora possivelmente introduzidos
por Sólon para a escolha dos jurados da Helieia, Clístenes estende a
outros cargos e, a partir dele, muito utilizados (“ ). Em meados do século
V a. C., a tiragem à sorte passou a aplicar-se desde o início.
Trata-se de um princípio essencial da democracia, a ponto de Heródoto
(3. 80) o apresentar como seu símbolo, pondo-o em pé de igualdade com
o facto de os eleitos terem de prestar contas da sua actuação no final do
mandato e de todas as decisões se basearem na vontade da maioria
Platão, República 8, 557a, embora apresente esse processo de escolha
de uma forma crítica e negativa, refere que a democracia surge quando
se verifica a vitória dos pobres, se partilham em pé de igualdade o governo
e as magistraturas e se utiliza a tiragem à sorte como método de escolha
para a maioria dos cargos.
De tal modo a tiragem à sorte era um princípio associado à democracia
que a sua abolição era uma das medidas imediatas, sempre que o sistema
era substituído por regimes oligárquicos. Assim aconteceu em Atenas na

Sobre a tiragem à sorte e data da sua aplicação à democracia vide J. W. Headlam,


Election by Lot at Athens (2“ edição corrigida por D. C. Macgregor, Cambridge, 1933).
Vide J. de Romilly, Problèmes, p. 10.
Aristóteles, Constituição de Atenas 8. 1 e 22. 5 atribui a Sólon a introdução da
tiragem à sorte na escolha para os cargos (cf. também Isócrates, Areopagítico 22-23 e
Panatenaico 145; Demóstenes, Neera 75; Plutarco, Per. 9. 4; Pausânias 4. 5. 10). No
primeiro passo refere o Estagirita que os magistrados, a partir de então, passaram a ser
tirados à sorte de uma lista proposta pelas tribos; no segundo que a escolha à sorte era
feita a partir de quinhentos cidadãos eleitos previamente pelos demos. Mas em Política
2 , 1273b35-1274a3,1274a 16-17e3,1281b 25-34 afirma que Sólon manteve o princípio
e processo aristocrático de eleição. Sobre o assunto e as possíveis inovações feitas,
quanto à eleição dos magistrados, por Sólon e Clístenes vide E. S. Staveley, Greek and
Roman Voting and Elections (London, Aspects o f Greek and Roman Life”, Thames and
Hudson, 1972), pp. 33 sqq.; P. J. Rhodes, Comm, on Aristotelian Athenaion PoUteia,
pp. 146-148.
Vide infra p. 107.

98
A DEMOCRACIA ATENIENSE

tentativa de 411 e no chamado “Governo dos Trinta Tiranos” de 404 a. C.


No século IV a. C., os defensores da democracia moderada reclamam
um processo em que a eleição se combine com a tiragem à sorte
Constatando possivelmente o insucesso das tentativas oligárquicas de 411
e 404, têm um certo cuidado em não atacar de frente o princípio em causa.
Se bem que Tucídides na “Oração fímebre” que atribui a Péricles lhe
não faça referência, Aristóteles classifica a democracia como o regime
em que se partilham as magistraturas pela tiragem à sorte e julga esse
processo democrático enquanto a eleição a considera oligárquica O .
Na eleição por tiragem à sorte se fundamentava uma das principais
críticas dos oligarcas à democracia: que esta promovia a incompetência
(cf Tucídides 6. 1. 1, 24, 34 e 35), já que, ao adoptar a tiragem à sorte,
não se preocupava em escolher os mais capazes e os mais apretechados
para os diversos cargos (’°).

Mais saliente do que a isegoria e a isocracia, no conceito dos Gregos,


era a isonomia que afinal englobava as duas anteriores. A tal ponto era
considerada um traço significativo da democracia que a cada passo as
duas noções aparecem equiparadas, embora sem existir uma identidade
total entre uma e outra. Heródoto, pela boca de Otanes (3. 80), refere
que o governo do povo tem o mais formoso de todos os nomes - o de
isonomia (’'). As Suplicantes de Eurípides apontam também a igualdade
como elemento característico da democracia, numa discussão entre Teseu,
rei de Atenas e defensor da soberania do dêmos, e um Arauto de Tebas,
que considera melhor o governo de um só, de um tyrannos (’^). No
debate, a determinada altura (w . 429-432), Teseu critica na tirania a
inexistência de leis comuns e válidas para todos {nomoi koinoí) e a falta
de igualdade {ison) e sublinha (nos versos 403-408) ser um erro procurar
um tyrannos em Atenas, uma “cidade livre” {eleuthera pólis: v. 405),
em que o dêmos governa e gozam de iguais direitos o pobre e o rico.
Será, no entanto, um erro considerar que isonomia se identifica plena­
mente com democracia como um outro nome da mesma realidade. Como

f *) Cf. Isócrates, Areopagítico. 22-23.


O ^ e / ó n c a 1 . 8 , 1365b; Po/. 4 , 1294b; 6, 1317b. Vide ainda Platão, Pe/?. 8 , 5 5 7 a;
Xenofonte, Mem. 1. 2. 9.
(™) Vide os nomes dados aos cidadãos de plenos direitos nos regimes oligárquicos de
411 e 404 a.C.
C ) Vide Ehrenberg, “Origins o f Democracy”, pp. 525-528; Vlastos, “Isonomia
Politikê”, p. 7.
f 9 Para uma análise deste debate vide J. Ribeiro Ferreira. “Aspectos políticos nas
Suplicantes de Eurípides”, Humanitas 37-38 (1985-1986) 93 sqq.

99
A GRÉCIA ANTIGA

observa Ehrenberg, a natureza das duas palavras sugere que não signi­
ficam 0 mesmo: a democracia era uma forma de governo, uma constitui­
ção; a isonomia, pelo contrário, não era uma constituição ou um Estado
com leis iguais para todos, mas aparecia como o ideal de uma comunidade
em que os cidadãos têm igual quinhão
Transformada em símbolo e ideal da democracia, a isonomia, além de
aparecer como uma resposta ao governo de um só - do tyrannos -,
surge depois, em certo sentido, também em oposição à eunomia que
preponderava nas oligarquias e constituía o ideal procurado por esses
Estados gregos.
A partir de fins do século VI a. C., a eunomia - formada a partir do
prefixo eii- ‘bem’ e nomos que, com o significado inicial de ‘ordem’,
‘tradição’, ‘costume’, recebe nos finais do século VI a. C. também o de
‘lei’ - passa a indicar o Estado com boas leis - isto é com uma boa
constituição - , sem nunca perder todavia o sentido que anteriormente
possuía: o de boa ordem derivada dos costumes e hábitos há longo tempo
estabelecidos, ou seja da tradição C"*). As oligarquias partiam do princípio
de que a constituição que enformava a vida da pólis, fruto de longa
tradição ou obtida por doação de um legislador, era algo de perfeito e
acabado que, por conseguinte, exigia obediência. Doadas ou sancionadas
por uma autoridade superior, essas leis recebiam o nome de rhêtrai -
como acontecia em Esparta, Olímpia, Chipre - e de thesmoi - como
parece ter sido corrente até fins do século VI em Atenas, onde o termo
surge nos fragmentos de Sólon e aparece aplicado às leis deste legislador
e às de Drácon (’^). Segundo M. Ostwald, o thesmos era algo imposto
por um poder superior, cuja autoridade o toma uma obrigação para aqueles
em favor de quem esse agente actua O não cumprimento de tais
leis seria fonte de desordem e provocaria a ruína da cidade.
Esta concepção está na origem da tradição que atribuía a Licurgo a
constituição espartana, a sua perfeição e o seu carácter imutável. Conta
ela (Plutarco, Licurgo 29) que o legislador, certificado pelo Oráculo de
Apoio em Delfos de que estabelecia em Esparta o melhor governo, dota
a cidade de um código de leis - a rhêtra - e em seguida, com o pretexto
de necessidade de consultar mais uma vez o Oráculo de Delfos, faz os
Espartanos jurar que não alterarão esse código enquanto estiver ausente.

O “Origins o f Democracy”, p. 535. Para as diferenças entre isonomia e democracia


vide Vlastos, “Isonomia”, pp. 7-10.
f ‘‘) Vide Ehrenberg, Aspects o f ancient world, p. 91.
Ç^) Vide J. Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos, pp. 158-159.
f®) Nomos, p. 19.

100
A DEMOCRACIA ATENIENSE

Então, depois de reconfimiar junto do deus a perfeição das leis por ele
estabelecidas, envia a resposta recebida a Esparta e deixa-se morrer de
fome. Daí - refere Plutarco - a razão de os Espartanos não terem nunca
alterado a sua constituição.
Esta tradição não é evidentemente verdadeira e hoje nem sequer se
sabe se, como vimos, Licurgo teve existência real Ç'^). A sua formação
visou sem dúvida incutir nos cidadãos a ideia de que a constituição da
cidade era uma obra perfeita e não devia ser modificada; pelo contrário,
exigia obediência sob pena de desmoronamento do edifício e de perjúrio,
por não cumprimemto do juramento feito a Licurgo.

Vimos já que se acusava a democracia grega de favorecer os menos


apetrechados e de promover a incompetência, ao criar e manter a mistofo-
ria e ao utilizar a tiragem à sorte como processo de escolha para a maioria
dos cargos. Mas a condenação não ficava confinada a essa crítica. Além
de incompetência para tomar determinadas decisões, com frequência se
acusa a democracia grega de crueldade e de cegueira, de se deixar
arrastar pelo oportunismo e ambição de poder dos dirigentes. Insiste-se
nos baixos instintos do dêmos e na sua impreparação para governar,
apontam-se a execução dos generais de Arginusas e a condenação de
Sócrates. A acusação, encontramo-la com frequência nos autores gregos
e continua a repetir-se ao longo dos tempos (’^).
Essa visão menos clara e mais sombria da Atenas democrática baseia-
-se sobretudo nas descrições deturpadas ou na imagem desfocada trans­
mitida por autores como Tucídides, Xenofonte, Platão.
Observe-se, contudo, que a ignorância e a incompetência não parecem
apresentar aspectos assim tão graves e danosos, como se tem apregoado.
Não esqueçamos, por exemplo, que, ao longo da Guerra do Peloponeso,
as decisões foram debatidas, emendadas, aceites ou rejeitadas pelo dêmos.
As informações que possuímos vão de modo geral até no sentido inverso:
os Atenienses sabiam escutar e eram sensíveis a um discurso de Péricles,
encarregavam Ictinos de construir templos e Fídias de esculpir estátuas;
por tiragem à sorte, elegiam o júri que depois votava os vencedores nos
concursos dramáticos das Grandes Dionísias - e a escolha das obras
premiadas, tanto quanto podemos aperceber-nos, não oferece indícios

f h Mesmo que Licurgo tenha existido realmente, de modo algum pode ser considerado
o autor principal da constituição espartana. Esta, no essencial, forma-se ao longo da
segunda metade do século V ll e primeira do VI a. C., e Licurgo seria anterior cerca de dois
séculos. Vide capítulo “Época arcaica: crises de crescimento” (p. 57-58).
Cf. Tucídides 6.1.1,24.3-4 e 31, a propósito da expedição à Sicilia.

101
A GRÉCIA ANTIGA

de incompetência C^). Quem nos dera que, nas sociedades actuais, a


classe média tivesse um mesmo tipo de actuação e fosse capaz da mesma
sagacidade na escolha.
Não é de crer que fossem menos perspicazes no concernente a deci­
sões que respeitassem ao governo ou destino da pólis. Do convívio na
Ágora, que o Grego - e o Ateniense em particular - tanto apreciava, e
do contacto com os mais velhos nos ginásios e outros locais públicos,
colhiam os cidadãos um fecundo capital humano, no domínio ético, social,
científico, político-administrativo ou mesmo artístico. Do exercício das
actividades no Conselho dos Quinhentos, onde era tratada uma vasta gama
de assuntos, e da participação nos tribunais da Helieia, onde participa e
tem de votar em inúmeros julgamentos sobre os mais variados assuntos,
retirava o Ateniense rica experiência em matéria governativa e adquiria
consideráveis conhecimentos em variados assuntos da pólis: os cidadãos,
em mandato anual, apenas podiam ser escolhidos como buleutas duas
vezes na vida e em anos não seguidos, pelo que, no período de uma ge­
ração, a grande maioria exerceria esse cargo e, em qualquer década, um
quarto ou um terço da sua totalidade passaria por esse órgão ou poderia
até presidir às suas sessões e às da Assembleia, se nesse dia desempe­
nhasse as funções de epístata dos prítanes. Acrescem as centenas que
todos os anos desempenham magistraturas várias; muitos outros que
tinham servido, fora das fronteiras da pólis, no exército ou na marinha.
Ora todos eles podiam participar na Assembleia, sempre que o quisessem,
e deviam mesmo fazê-lo. Não é, pois, muito natural, como frequentemente
se afimia, que a maioria dos cidadãos atenienses tomasse as decisões na
ignorância dos negócios da pólis.
Não esqueço que a tiragem à sorte não era de molde a pemiitir es­
colher os mais competentes. A democracia criou, no entanto, um conjunto
de medidas e mecanismos que lhe permitissem manter o princípio da
tiragem à sorte que considerava essencial, mas lhe minorassem os riscos
daí derivados: a colegialidade que atenuava a gravidade de um possível
erro e precavia contra a incompetência ou pior qualificação de alguns
elementos; a sujeição dos futuros magistrados ajuramento e à verificação,
antes da posse, dos seus títulos e comportamento cívico; não aplicação

C^) Naissance, p.34.


São um caso típico as Rãs de Aristófanes, uma obra de 405 a. C. Baseada, em toda a
segunda parte, na crítica literária e paródia dos prólogos e partes líricas das tragédias de
Ésquilo e de Eurípides, a comédia obteve o primeiro prêmio. Era preciso entender e
conhecer as peças dos referidos autores e estar dentro das características de estilo de cada
um e das técnicas de composição para entender a crítica, as alusões e a paródia.

102
A DEMOCRACIA ATENIENSE

da tiragem à sorte em campos - como é o caso dos cargos militares ou


financeiros em que a colegialidade não era possível ou em que uma
determinada qualificação era requerida (^°).
Quanto à crueldade, observe-se que, como acentua Finley, se a Atenas
democrática se viu isenta quase por completo das formas extremas de
stasis tão comuns em outras cidades, não escapará às suas manifestações
menores (®‘). De admirar fora que se verificasse o contrário. Por outro
lado, fala-se do processo de Arginusas - numa época de descontrolo e
desequilíbrio emocional e numa altura em que a propaganda oligárquica
já deixara as suas marcas - e da condenação de Sócrates. Curiosamente,
deixam-se contudo na sombra, ou esquecem-se mesmo, assassínios polí­
ticos como 0 de Efialtes em 462 ou 461, o de Ândrocles em 411 e tantas
condenações arbitrárias verificadas em 404-403. Se o dêmos ateniense
foi por vezes cruel, nada na democracia - observa-o Forrest - igualou a
crueldade, a cega e estúpida chacina dos poucos meses de 411 e de 404-
-403 a.C., em que os oligarcas estiveram no poder Q^). A democracia,
pelo contrário, usou até a cada passo de considerável tolerância, de que
colheu depois funestas consequências. Muitos dos que ela perdoou, após
o golpe oligárquico de 411, foram mais tarde, consumada a derrota em
404, membros activos do movimento que levou ao poder os Trinta Tiranos,
cuja brutalidade é bem evidente e deixou marca imperecível na cono­
tação da palavra tirania (^Q, a ponto de Stuart Mill considerar que o
povo ateniense (os polloí), em vez de ser apelidado de cruel, irritável e
desconfiado, deve antes ser acusado de confiança demasiado complacente
e acomodatícia, ao conservar vivos no seu seio os homens que na primeira
ocasião estavam prontos a intentar uma acção subversiva contra a demo­
cracia Restaurada esta em 403 a.C., de novo os democratas deram

0°) Cf. Demóstenes, Contra Timócrates 112.


Para certas reservas e moderação, quanto às acusações de ignorância e incompetência
do dêmos, sobretudo em Atenas, vide Finley, Democracy, pp. 20-23.
f ) “Athenian Demagogues”, in Studies in ancient society (London, 1974),p. 23.
La naissance, p. 34.
Uma das primeiras medidas desse grupo consistiu em condenar à morte sem
julgamento cerca de 1500 ou 2500 Atenienses (as fontes divergem quanto ao número das
vítimas). Cf. Xenofonte, Helénicas, 2.3.13-14; Isocrates, Areopagitico 67, Panegirico
113; Ésquines, Contra Ctesifonte 235; Aristóteles, AP. 35.4; Diodoro 14.4.3-4; schol.
Aesch., in Timarch. 39. Sobre o assunto vide Rhodes, Comm, on theAristot. Ath. P ol,
pp. 446-447.
Sobre a conotação negativa recebida pelo termo tirano e tirania a partir do regime de
404 vide supra capítulo “A época arcaica: crises de crescimento” (p. 64 e nota 67).
(^b Stuart M\\\, Dissertation andDiscution II (London, 1859), p. 540 {apud ¥\n\ey.
Democracy, p. 90).

103
A GRÉCIA ANTIGA

mostras de grande tolerância, ao proclamarem uma amnistia geral - “a


primeira da história”, nas palavras de Lord Acton (®^). Só não foram
abrangidos os sobreviventes dos Trinta, os dez que governavam o Pireu
e o Colégio dos Onze - os magistrados encarregados das prisões e das
execuções capitais (cf Xen., Hell. 2.4.38).
Outra crítica muito comum reside na acusação de Atenas ser uma
democracia esclavagista, que não se diferenciava muito das oligarquias,
portanto em contradição com o orgulho dos Atenienses em possuírem a
isonomia, a isegoria e a isocracia. Estamos perante o controverso problema
do âmbito dos conceitos “maioria” e “igualdade perante a lei”.
A população total de Atenas - se bem que as cifras variem de autor
para autor, como se pode ver no quadro dado a seguir, e necessitemos
portanto de usar de certa prudência no manuseio de estatísticas para
esta época - rondaria, por volta de 430, ao iniciar-se a Guerra do Pelo-
poneso, os trezentos mil. Desses apenas cerca de trinta a quarenta mil
seriam cidadãos

Quadro
Gomme Ehrenberg Lauffer Glotz
cidadãos 43 35a45 30 C.42
cidadãos e
familiares 172 llOalSO 150 135 a 140

metecos 28,5 25 a 40 50 C.70


escravos 115 SOallO 100 200a210

População total 316 215a300 300 c. 405 a 420

“The History o f Freedom in Antiquity”, in G Himmelfarb (ed.), Essays on


Freedom and Power (London, 1956), p. 64 {apiid Finley, Democracy, p. 90 e “Athenian
Demadogues”, p. 24). Para urn estudo mais pormenorizado deste tempo conturbado vide
P. Cloché, La restauration démocratique à Athènes en 403 av. J. Ch. (Paris, 1915).
(^®) Sobre a necessidade de prudência no manuseio das estatísticas vide Finley, The
Ancient Economy (London, 1973), pp. 71 -72. Vide ainda V. Ehrenberg, The Greek State,
pp. 32-34; J. K. Davis, Democracy and Classical Greece (Fontana, 1978), pp. 99-100;
M. H. da Rocha Pereira, Estudos de História da Cultura Clássica I - Cultura Grega
(Lisboa, ^2003), pp. 181-182.
Os números do quadro são dados em milhares e foram colhidos nas obras seguintes:
A. W. Gomme, The Population o f Athens in the Fifth and Fourth Centuries B. C., Oxford,
1933 (em especial p. 26); V. Ehrenberg, The Greek State, pp. 32 sqq.; S. Lauffer, “Antike
und moderne Demokratie” in F. Hörmann (ed.). Die alten Sprachen im Gymnasium
(München, 1968), pp. 33-34; G Glotz, Histoire Grecque II (Paris, 1931), pp. 222-228.

104
A DEMOCRACIA ATENIENSE

Como apenas os cidadãos tinham direitos políticos, esse dêmos seria


afinal somente de cerca de dez a quinze por cento da totalidade da popu­
lação. Daí que pareça justificar-se a afirmação de Ehrenberg de que a
democracia ateniense não passava de uma “aristocracia alargada” ou a
recusa de K. Reinhardt em ver qualquer parentesco entre as antigas e
as modernas democracias (^^). Atenas, como pólis que era e como já
vimos, tinha um sistema directo e plebiscitário, o que condicionava o
número dos cidadãos. No entanto, apesar dessa condicionante, além de
estender a cidadania até onde lhe foi possível, deu peso político efectivo
aos mais pobres.
No que respeita aos escravos, juridicamente estes eram coisas sem
quaisquer direitos ou garantias: não podiam possuir bens, nem constituir
família legal, nem conservar os filhos junto de si. Equiparados a animais
ou a ferramentas semoventes e sujeitos à compra e venda, faziam parte
do tipo a que se costuma dar o nome de “escravo-mercadoria” (*®). Uma
coisa, no entanto, é o estatuto jurídico do escravo em Atenas e outra a
sua situação real e a vida que efectivamente levava.
Em Atenas existiam os escravos particulares e os escravos públicos,
pertença da própria pólis. Estes exerciam diversas funções e desem­
penharam um papel de certa relevância. Além de utilizados em diversos
trabalhos manuais, uns - o corpo dos archeiros citas - tinham a seu cargo
o policiamento da cidade, com todo o peso que tal facto implica, inclusive
autoridade sobre os cidadãos (®^); outros, em número considerável mesmo,
trabalhavam como funcionários nos diversos órgãos e edifícios da pólis e
constituíam a garantia de continuidade governativa. Sem eles, a consti­
tuição de Atenas, tal como era, possivelmente não teria podido funcionar.
O escravo particular, a cada passo, não vivia nem trabalhava na casa
dos donos. Mediante o pagamento de determinada renda poderia exercer
a profissão que lhe conviesse, viver onde quisesse ou pudesse e com
quem lhe apetecesse, não sendo distinguido no salário em relação aos

f ’) Ehrenberg, The Greek State, p. 50; Reinhardt, Tradition und Geist (Gottingen,
1960), p, 257.
(««) Vide L. Gernet, “Aspects du droit athénien de l’esclavage”, in Droit et société
dans la Grèce ancienne (Paris, 1964), pp. 151 - 172; A. R. W. Harrison, The Law o f Athens
(London, 1968), pp. 163-180; M. Austin et P. Vidal-Naquet, Économies et sociétés en
Grèce ancienne (Paris, 1972), pp. 118-120 (trad, port., Lisboa, Edições 70, 1986, pp.
104-105); Yvon Garlan, Les esclaves en Grèce ancienne (Paris, 1984), pp. 54-67.
(^T Este corpo de archeiros citas estava acampado na colina do Areópago de onde
dominava toda a Ágora e uma boa parte da cidade. Vide A. Plassart, “Les archers
d’Athènes”, REG 26 ( 1913) 151 -213 ; O. Jacob, Les esclaves publics à Athènes (Liège,
1928), cap. 2; M. I. V'mlcy, Ancient Slavery and Modem Ideology (London, 1980), p. 85.

105
A GRÉCIA ANTIGA

cidadãos da mesma profissão (^°). A cidade, por meio de leis, garantia ao


escravo o direito à vida e protegia-o das violências de qualquer cidadão
ou homem livre e até dos maus tratos dos patrões: caso das determinações
que lhe permitiam o refugio em certos locais, da lei relativa à “insolência”
(hybris) de que falam Demóstenes, Contra Mídias 45-48 e Ésquines,
Contra Timarco 15-17 - que não distingue entre livres e escravos. Diz
a lei:

quem for insolente e cometer injustiça contra outrem, seja ele criança,
mulher ou homem, de condição livre ou escrava, será citado em acção
pública.

Não se estabelece pois distinção entre livres e escravos, sexo ou idade.


Na filosofia dessa lei, como acentua Demóstenes, todo o acto de insolência
atentava contra a sociedade e atingia mesmo os que não estavam impli­
cados objectivamente em tal acto. Quem recorria à insolência cometia
uma injustiça contra a pólis em geral e não apenas contra a vítima. Daí
que estivesse sujeito, perante a Helieia, a uma acção pública que podia
ser apresentada por qualquer cidadão, e não a uma acção privada.
Com isto não estou a apresentar uma defesa ou uma desculpa para o
regime de escravatura. Coloco-me simplesmente no tempo em que os
Atenienses criaram e, pouco e pouco, aperfeiçoaram a sua constituição.
Perante a escravatura que era universalmente aceite - e continuou a sê-lo
por largos séculos, Atenas teve uma atitude que a distinguiu e isso pareceu-
-me de sublinhar. Em todas as épocas se geram processos de dependência
e de subjugação e, para os combater, se levantam vozes e as sociedades
buscam meios ou instrumentos legais. Foi afinal o que aconteceu em Atenas.
Além disso, se se fizer um estudo, como sugere M. I. Finley, sobre o nú­
mero de cidadãos que possuíam escravos, sobre a função destes dentro
da sociedade e sobre se era nas suas mãos que de facto se encontrava a

O O escravo gozava de certa liberdade, e o “Velho Oligarca” queixava-se de que em


Atenas um escravo se não distinguia do homem livre. A mais alta escala de artesãos nas
oficinas de escultores era frequentemente constituída por escravos. Embora ignoremos
qual foi a sua participação real em trabalhos habilidosos e difíceis, como as esculturas do
Pártenon, não é custoso nem audacioso pensar que ao menos algumas dessas tarefas
estiveram a seu cargo. Muitos deles, como os cidadãos atenienses sem posses, que não
tinham outros meios de subsistência a não ser o aluguer do seu trabalho, colocavam-se
diariamente na Agora para serem contratados por quem necessitasse. Eram-no do mesmo
modo que os cidadãos e o salário recebido não se distinguia do destes. É o que se observa
numa inscrição relativa aos acabamentos da construção do Erectéion. Por aí se vê que
trabalhavam lado a lado cidadãos, metecos e escravos — portanto as três ordens da pólis
— e que não se estabelecia qualquer diferença de salário entre uns e outros (IG. 374;
L. D. Caskey, in The Erechtheum XVII, col. 1).

106
A DEMOCRACIA ATENIENSE

totalidade da produção, ou mesmo a sua maior parte concluir-se-á


que em muitas cidades gregas, em especial em Atenas, não só muitos
cidadãos não possuíam escravos como grande parte da produção dependia
do trabalho dos homens livres - pequenos comerciantes, camponeses,
artesãos, marinheiros ou mesmo simples assalariados. Eram esses afinal
quem constituía a maioria dos cidadãos - o dêmos.
Talvez seja permitido concluir com um trecho do célebre passo de
Heródoto 3. 80-83 em que três nobres persas discutem sobre a melhor
forma de governo: Otanes manifesta preferência pela democracia, Me-
gabizo defende a oligarquia e Dario exalta a monarquia. A fala de Otanes
(3. 80), de onde é retirado o texto, principia por criticar a monarquia acu­
sando-a de arbitrariedade, de excessos, de insolência {hybris), de inveja
(phthonos), desconfiança, não observância das leis, condenação à morte
sem julgamento. Em contraposição, carateriza deste modo a democracia:
O governo do povo, em primeiro lugar, tem o mais formoso dos nomes,
a isonomia. Em seguida, o monarca não faz nada disto: é pela tiragem à
sorte que se alcançam as magistraturas; detém-se o poder, estando
sujeito a prestar contas; todas as decisões são postas em comum. Por
conseguinte, proponho que abandonemos a monarquia e que demos
incremento ao povo. Pois é no número que tudo reside (^^).
Heródoto refere, portanto, como traços salientes do regime democrático
a isonomia ou “igualdade perante a lei”; a obtenção dos cargos por tiragem
à sorte; a soberania do povo (o plêthos archon) que detém o poder deli­
berativo, visto que, como diz o historiador, tomava todas as decisões em
comunidade, ou seja, em Assembleia; a responsabilidade dos magistrados
que tinham de prestar contas no fim do mandato; princípio da maioria (^^).
E nestes traços reconhecemos afinal vários princípios que ainda hoje vigo­
ram e são pedra de toque de qualquer democracia. Mas na grega a noção
moderna de “altos funcionários” ou de “elite governativa” estava excluída.

(91) “Was Greek civilisation based on Slave Labour?”, in Slavery in Classical An­
tiquity, Cambridge, ^1968, pp 69-70.
Tradução de M. H. Rocha Pereira, Hélade, p. 255 (a tradução do livro 3 das
Histórias de Heródoto foi publicada pelas Edições 70). Para um comentário ao texto e
sobre os problemas levantados pela veracidade do debate vide T. A. Sinclair, A History o f
Greek Political Thought (London, 1967), pp. 36-42; M. H. Rocha Pereira, “O mais
antigo texto europeu de teoria política”, in Nova Renascença 4, (Verão de 1981), pp. 364-
-367 e Estudos de História da Cultura Clássica I - Cultura Grega (Lisboa, Gulbenkian,
2003), pp. 513-517.
(^b o passo acabado de referir aponta assim as características mais significativas da
democracia grega. Essas características são enumeradas e comentadas na Política de
Aristóteles (6 .2 . 1-9, 1317a 40-1318a 10).

107
A GRÉCIA ANTIGA

0 dêmos possuía a elegibilidade necessária para ocupar os cargos e o


direito de eleger magistrados, mas tinha também o direito de decidir em
todos os domínios da política dapólis e de, constituído em tribunal, julgar
todas as causas importantes, civis ou criminais, públicas ou privadas.
A Assembleia, definida por natureza como a totalidade dos cidadãos
reunidos, constituía o coroamento do sistema, com o poder de tomar todas
as decisões políticas. A democracia grega era assim directa e plebiscitária
e desse modo o dêmos, em vez de eleger homens encarregados de o
governar, governava. A escolha por tiragem à sorte para a maioria das
magistraturas, o princípio da colegialidade e a obrigação de prestar contas
regularmente perante o dêmos atenuavam a importância que os magis­
trados poderiam adquirir com o exercício do seu mandato em detrimento
da colectividade soberana.
Estas características agravaram os problemas que se põem à demo­
cracia: sujeita ao comportamento da multidão, sempre instável, via-se
frequentemente envolvida em conflitos, e despontavam as paixões parti­
dárias; a inconstância nas decisões tomadas tomava a cegueira popular
mais visível e mais pesada de consequências.
Em contrapartida, a democracia grega escapava, mais do que qualquer
outra, ao perigo de ver constituir-se uma classe política desejosa de honras,
de sucessos imediatos e de ganhos pessoais - a única informada e actu-
ante, perante a massa infonne de não iniciados e de impreparados (^'*). A
concentração da autoridade na Assembleia, a fragmentação e o carácter
rotativo dos postos administrativos, a escolha por tiragem à sorte, a
ausência de burocracia retribuída, os júris populares são factores que
contribuíram para impedir a criação de um aparelho de partido e, por
consequência, a fonnação de uma elite política institucionalizada (^^).
Sempre os sistemas políticos viveram o dilema irresolúvel de privilegiar
a competência, - com escolha dos melhores para os cargos e redução
de toda a grande maioria a uma situação de inferioridade ou ao papel de
esporádica manifestação pelo voto -, ou de caminhar no sentido da igual­
dade, pela concessão de possibilidades e meios de efectiva intervenção
nos destinos e negócios do Estado. O Estado ideal será o que conseguir
conciliar as duas, ou se aproximar de o fazer. Mas impossível foi até hoje
atingir o desiderato, e talvez continue uma busca que jamais consiga
atingir o ideal proposto, ou sequer dele se avizinhar. Talvez, e esse é o
drama. Somos homens e não deuses. Ora a Grécia.preferiu privilegiar a
via da igualdade.

f h Vide M. I. Finley, Democracy, pp. 34-36.


(95) Yijg Finley, Democracy, p. 25.

108
A SIMAQUIA DE DELOS
E A HEGEMONIA DE ATENAS

No período que se segue à invasão de Xerxes em 480 e vai até aos


inícios da Guerra do Peloponeso, em 431 a. C., Atenas toma-se uma
cidade poderosa e cada vez mais interveniente no contexto do mundo
grego, um pouco em consequência da sua acção nas Guerras Pérsicas e
sobretudo com base na Simaquia de Delos - designação que prefiro à
mais usual de Liga de Delos - , criada em 477 a.C.. Esta começa por ser
uma aliança voluntária das cidades do Egeu e da Ásia Menor com Atenas,
para se precaverem contra possíveis arremetidas persas futuras (').
Heródoto apresenta-a mesmo como uma consequência dessas guerras
e a hegemonia de Atenas como conclusão natural e lógica do papel desem­
penhado pela cidade nesse conflito 0 .
As reformas de 508/507 a. C. constituíram um passo definitivo na
instauração e solidificação da democracia. Os Atenienses, como os demais
Gregos, sentiam-se orgulhosos em mostrar a sua excelência frente aos
outros Estados: consideravam o seu modo de viver superior ao dos demais
e ansiavam por defender essa nova liberdade. Atenas mostra uma estranha

(') Sobre a Simaquia de Delos é extensa a bibliografia. Vide entre outros, N. G. L.


Hammond, “The origins and the nature o f the Athenian Alliance o f 478/477 B. C.”, JHS
87 (1967) 41-61 = Studies in Greek history (Oxford, 1973), pp. 311-345, onde tem o
título “The organization o f the Athenian Alliance against Persia”; D. Blackman, “The
Athenian navy and allied naval contributions in the Pentekontaetia”, GRBS 10 (1969)
179 sqq; C. M. Bowra, Periclean Athens (London, 1971), pp. 26-36; M. I. Finley, Demo­
cracy, ancient and modern (London, 1973), pp.43-50; Russel Meiggs, The Athenian
Empire (Oxford, 1972, repr. \ ’^ lS)\Pê.W \\\,LemondeGrec etV Orient. I- L e siècle
(Paris, 1972), pp. 130-218; M.I. Finley, “The fifth-century Athenian Empire; a balance-
sheet”, in P.D.A. Garsey and C.R: Whittaker (orgs.). Imperialism in Ancient World
(Cambridge, 1978), pp. 103 sqq. = Economy and society in Ancient Greece (London,
1981), pp. 41-61; S. Hornblower, The Greek world 479-323 B.C. (London 1983),
pp. 15-47; Mark Munn, The School o f History. The Athens in the Age o f Socrates
(Berkeley, 2002), pp. 95-217.
(^) C f 8.3 e 9.90-122. Sobre o assunto e para um comentário aos passos vide H.R.
ImmerwahGF’orw and thoiigth in Herodotus (Cleveland, 1966), pp. 216-223; J. Ribeiro
Ferreira, Hélade e Helenos I, pp. 354-356.

109
A GRÉCIA ANTIGA

força moral e não devemos andar longe da verdade se, com Ehrenberg,
por isso responsabilizarmos o facto de a cidade ter introduzido a liberdade
e a democracia, além da liderança de Clístenes evidentemente O .
Esparta, Tebas, Cálcis e Egina, em 508, opõem-se vigorosamente à
consolidação desse novo regime em Atenas. Mas pouco depois os Espar­
tanos - por divergência de Cleómenes, que os comandava, com o outro
rei espartano, Demarato, e com os Coríntios (cf. Heródoto 5. 74 sqq.) -
afastam-se e os outros contendores são vencidos pelos Atenienses em
duas batalhas no mesmo dia. Um epigrama inscrito numa quadriga de
bronze, erguida na Acrópole em memória dessas vitórias, revela bem o
orgulho dos Atenienses por esses feitos:

Ao subjugar os povos da Beócia e de Cálcis,


os Atenienses, através de feitos guerreiros,
com sombrios grilhões de ferro a insolência abateram.
Em dízimo dos despojos a Palas ofereceram estes cavalos ('’).

Atenas derrotara uma frente que contra ela se fonnara e, ao fazê-lo,


perdeu o temor que lhes tinha. Comprovou, por outro lado, que infundia
receio e compreendeu que só podia contar com os seus próprios esforços
e não repetir a experiência de Iságoras de tristes resultados: colocara a
sua confiança em Esparta e saíra humilhado Q).
Essa força moral dos Atenienses foi posta à prova alguns anos depois
nas Guerras Pérsicas.
Em consequência do apoio de Atenas e Erétria à revolta dos lónios
da Ásia Menor contra os Persas, uma vez essa revolta dominada e des­
truída Mileto, a ameaça de uma invasão de retaliação impunha-se como
uma realidade que, mais ano menos ano, se verificaria. Ante essa evidência
duas personalidades sobressaem na luta pela liderança: Temístocles e
Milcíades.
Filho de Néocles, Temístocles procedia de uma família conceituada,
mas que não era rica (^). Não se impôs, por isso, devido a uma influência

(h From Solon to Socrates, p. 102.


(h Simonides, Epigrama III Campbell: IG = L. H. Jeffery, The local scripts o f
archaic Greece (Oxford, 1961) 78 (43). Sobre o assunto vide R. Meiggs e D. Lewis, A
selection o f Greek historical inscriptions to the end o f the fifth century B. C. (Oxford
University Press, 1969, repr. 1980), n°15.
(h Vide Bowra, La Atenas de Pericles, p. 24.
(®) Sobre Temístocles, carácter, ideias, actuação vide, entre outros, A. J. Podlecki,
The life o f Themistocles. A criticai survey o f the literary and archaeological evidence
(Montreal, Mcgill-Queen’s University Press, 1975); R. J. Lenardon, The saga o f Themis­
tocles (London, Aspects o f Greek and Roman Life, Thames and Hudson, 1978).

110
A SIMAQUIA DE DELOS

familiar, mas graças ao engenho, ao domínio das situações, à visão nas


resoluções políticas e à compreensão clara de onde vinham os perigos e
vantagens para Atenas. Determinado e de espírito previdente, era também
um homem vaidoso, que primava pela astúcia. Dominava-o um excessivo
desejo de poder e demonstrava ao mesmo tempo grande habilidade em
impor a sua vontade aos outros (’).
Em 492 obtém um cargo - possivelmente o de arconte (^) - e é um
dos estrategos em Maratona.
Pensava que o fiituro de Atenas se encontrava no mar e desde cedo
procura encaminhar a cidade nesse sentido e motivá-la para a criação
de uma poderosa frota de guerra e para a construção de um porto seguro.
Nos anos que antecedem Maratona não são, no entanto, as propostas
de Temístocles que o dêmos escolhe. Esse dirigente tinha os seus apoiantes
sobretudo entre o povo comum da cidade, mas esse apoio não é suficiente.
A liderança é entregue a Milcíades.
Este, membro de uma das mais poderosas famílias atenienses, em
face da ameaça persa após a queda de Mileto, regressara a Atenas em
493 a.C. vindo do Quersoneso, para onde havia partido durante o governo
de Hípias. Ao chegar, é acusado de se ter comportado no governo dessa
região como um tirano, mas é absolvido e pouco depois eleito estratego
(cf Heródoto 6.104). Os apoios vinham-lhe sobretudo das famílias nobres
que cerravam fileiras contra a força crescente e cada vez mais palpável
do dêmos, mas provavelmente também da população rural e da classe
hoplítica (^).
Em 490 a Atica é invadida por forças persas, navais e terrestres,
comandadas por Dátis e Artafemes - possivelmente cerca de cem navios
que transportariam um contingente aproximado de cerca de vinte mil
homens. No exército vinha integrado Hípias e a ideia de Dario seria
naturalmente estabelecer em Atenas, com base na figura desse antigo
tirano, uma cidade submissa que lhe podería servir de ponto de apoio
para a conquista da Hélade. Além disso, de passagem anteriormente por
Erétria, haviam os Persas reduzido a cidade a escombros. Atenas sabia,
portanto, o que a esperava.
E enviado um mensageiro a Esparta - o corredor Fidípides - , mas os
Lacedemónios estavam a celebrar as festas Cameias e só podiam enviar*()

f ) Vide G. Richter, Greek portraits I (Bruxelles, 1951), fig. 173, pp. 210-211; V.
Ehrenberg, From Solon to Socrates, p. 143.
(*) Ehrenberg, From Solon to Socrates, p. 131 considera que esse cargo não era ainda
o de primeiro arconte. Bowra, La Atenas dePéricles, p. 26 dá-o esse ano como arconte.
(’) Vide Ehrenberg, From Solon to Socrates, pp. 132-133.

I ll
A GRÉCIA ANTIGA

os socorros solicitados depois da lua cheia. O contingente espartano


chegará, possivelmente, só dois dias depois de o combate se ter travado.
Desse modo Atenas viu-se obrigada a enfrentar o inimigo sem outros
apoios que um escasso número de Plateenses C*^).
A batalha travou-se em Maratona, entre a montanha e o mar, e os
Atenienses, graças à união de uma táctica hábil, de um moral elevado e
de apuro físico, contiveram os Persas e obrigaram-nos a retroceder até
aos barcos (“ ).
O efeito mais significativo da vitória de Maratona não esteve em ter
resultado num sério dano para o inimigo, mas em ter contribuído para um
manifesto aumento da autoconfiança dos Gregos em geral - e sobretudo
dos Atenienses.
Nos anos que se seguem à batalha de Maratona, como já vimos ao
tratar de “A democracia ateniense: a busca da igualdade”, trava-se árdua
luta política a que se encontram associadas uma série de processos de
ostracismo e uma alteração no modo de eleição dos arcontes e da sua
influência na pólis. A tais condenações e alterações não deve ser alheio
Temístocles. A vitória de Maratona dera a Milcíades o apoio e a confiança
do povo. Mas, em consequência do fracasso da expedição contra Paros,
em que é ferido gravemente, esse governante é condenado e Temístocles
suplanta todos os dirigentes de Atenas e obtém a liderança.
Como é do conhecimento geral, afastado o perigo do ataque persa de
490, com a vitória de Maratona, receava-se uma segunda invasão, temor
que se agrava com as informações alarmantes que, por volta de 483,
começam a chegar: na Pérsia realizavam-se então preparativos militares
e não seria difícil prever a sua finalidade.
Temístocles terá reconhecido que só uma frota poderosa conseguiría
conter o ataque persa iminente, além de constituir ainda um meio para
enfraquecer as classes elevadas e um instrumento para resolver o eterno
conflito com Egina. Era um homem a quem o mar atraía e que se dedicou
ao comércio. Desde cedo manifesta a ideia de fazer de Atenas uma
potência naval, procurando dotá-la de um porto seguro e bem protegido.
Pensava ele que a cidade, com um bom abrigo natural no Pireu e aberta
para o mar, só podia aproveitar-se verdadeiramente da sua situação geo­
gráfica se possuísse uma frota de guerra. Em sua opinião, esse era o

C°) Vide Ehrenberg, From Solon to Socrates, p. 141.


(") Para pormenores e outros dados relativos à batalha vide W. K. Pritchett, “Ma­
rathon”, University o f California Publications Classical Archaeology 4(1960) 137-190;
N. G. L. Hammond, Studies in Greek History (Oxford University Press, 1973), pp.
170-250.

112
A SIMAQUIA DE DELOS

caminho que havia de trazer a Atenas poder e riqueza; apenas o domínio


do mar a tomaria uma grande potência no mundo grego. O Egeu, caminho
de comércio e de outras trocas consideráveis e vitais, vivia sob a ameaça
constante da pirataria, sem nenhum poder que tomasse as suas rotas
sem perigo. Só uma frota forte podería fazer dele um mar seguro e trazer
o proveito ao país que realizasse tal tarefa.
Temístocles conseguiu progressivamente convencer os concidadãos
das suas razões e das vantagens da política que propunha. Por essa altura
0 porto do Pireu foi preparado para receber uma frota de trirremes. Os
meios para as construir surgiram-lhe com a descoberta em 483 a.C., nas
minas do Láurion, próximas do cabo Súnion, de um novo filão de prata de
grande riqueza que produzia para o Estado não menos de cem talentos -
a jazida de Maroneia C^). A pólis concede a exploração dessas minas a
particulares mediante o pagamento de um quinto do minério extraído.
Em vez de distribuir pelos cidadãos esses recursos, como até aí se fazia,
Temístocles submete à Assembléia uma proposta - e consegue a sua
aprovação, graças ao seu prestígio - , para empregar esses rendimentos
na construção de barcos de guerra - as trirremes ('^). O estadista utiliza
o forte argumento do poder naval de Egina, cujos barcos impunham na
altura a sua presença no Pireu. Situada no Golfo Sarónico, apenas a
algumas milhas das costas da Atica, Atenas vivia em constantes lutas
com ela, sem resultados positivos, já que a inexistência de uma frota
eficaz tomava impossível subjugá-laC'*). Embora o argumento utilizado
fosse esse, Temístocles, como acentua Ehrenberg, pensava naturalmente
nos Persas (‘^).
Constmídos os barcos, era necessário tripulá-los e conseguir homens
e remadores que os manobrassem, e o fizessem com um alto grau de efi­
cácia. Tal desiderato só se atingia mediante treino conjunto e prolongado.
Dessa missão ficam incumbidos os tetas, sobretudo os que não tinham
quaisquer meios de fortuna, que por isso nunca haviam participado no
('-) Vide J.A. Labarbe, La loi navale de Thémistocle (Paris, 1957); V. Ehrenberg,
From Solon to Socrates (L o n d o n , ^ 1973, repr. 1976), p. 148; A. J. Podlecki, The Life o f
Themistocles (Montreal, 1975), pp. 201-204.
Cf. Heródoto 7.144; Tucidides 1.14.3. Bowra. Periclean Athens, p.20 fala em
100 trirremes; Ehrenberg, From Solon to Socrates, p .l48 sugere 200, embora dubi-
tativamente.
CÚ Por volta de 488 a. C., Atenas entra mais uma vez em guerra com Egina, para
apoiar um levantamento democrático naquela ilha. Precisou contudo de alugar barcos a
Corinto, por um preço nominal. A continuação da guerra ofereceu um pretexto e um
argumento forte à política naval de Temístocles. Vide A. J. Podlecki, The life o f
Themistocles, pp. 58 e 69.
('^) From Solon to Socrates, p.l48.

113
A GRÉCIA ANTIGA

exército - recordo que na Grécia era o próprio cidadão-soldado quem


fornecia o seu armamento ('^). Era mais fácil recrutar os homens nos
sectores mais pobres que não estavam ligados à terra ou à oficina de
algum mester.
A criação da frota implica assim o aparecimento de um sector estreita­
mente dependente do Estado no soldo e na subsistência.
Deste modo se forma uma força naval eficiente e treinada que vai
dominar no Egeu até ao fim do século V a. C. e que, quando da segunda
invasão persa em 480, estava pronta a actuar.
Ante a perspectiva de novo ataque persa, os Gregos procuram uma
frente unida. Realiza-se um congresso de Helenos que se decide por um
estabelecimento de tréguas entre eles e por uma aliança para enfrentarem
em conjunto os Persas; pelo envio de espiões ao oriente e de mensageiros
a Gélon de Siracusa (cf Hdt. 7.145 sqq.).
Temístocles, para que a cidade se apresentasse unida, propõe a amnis­
tia dos elementos ostracizados. Soluciona sagazmente a terrível situação
terrestre, transportando a população para Salamina e outros lugares, e
coloca a esperança de vitória na frota que preparara. Teve, no entanto,
dificuldade em convencer os outros Gregos da eficácia da táctica que
propunha e em vencer o seu medo em ficarem à espera no mar fechado
entre Salamina e o continente; preferiam recolher-se no Peloponeso
erguendo um muro no istmo de Corinto (” ).
De qualquer modo, um pouco sob pressão, os outros Gregos acabam
por aceitar a sua estratégia, desde que comandados por Esparta. Atenas
acede e Temístocles, como é sabido, por meio de um engano levou os
Persas a atacar em lugar desfavorável e consegue uma vitória retumbante,
confirmada cerca de um ano depois, em 479, na batalha terrestre de Pla­
teias. Os barcos persas fogem para o Egeu, onde também um ano mais
tarde são novamente vencidos em Mícale. Os barcos haviam ficado pron­
tos e preparados a tempo de enfrentarem a invasão de 480 a.C. A sua
actuação mudou a história de Atenas, a da Grécia e até a da Europa ('^).

( ‘^) Vide A.M. Snodgrass, “The Hoplite Reform and History”, 85 (1965) 114-
-115; W.K. Pritchett, Ancient Greek Military Pratices. Part I (California Univ. Press,
1971), caps 1 e 2.
( ‘0 Vide A.R. Burn, Persia and the Greeks. Defense o f the West. 546-478 B. C.
(London, 1962), pp.432-433; C. Hignett, Xerxes’ invasion o f Greece (Oxford, 1963),
pp.l92 e 201; P. Green, TheyearofSalamis: 480-479B.C. (London, 1970), pp. 157-158
e 168-172; J. Ribeiro Ferreira, Helade e Helenos I, pp. 352-353.
('*) Sobre as batalhas de Salamina, de Plateias e de Micale, vide N.G. L. Hammond,
“The Battle o f Salamis, JHS 76 (1965) 32-54 = Studies in Greek History (Oxford, 1973),
pp. 251-310; A.R. Burn, Persia and the Greeks, pp. 400-402, 427-475, 508-551; C.

114
A SIMAQUIA DE DELOS

A frota, dirigida por Temístocles, um comandante hábil e dotado de


grande visão, ao oferecer a vitória aos Gregos, libertando-os da ameaça
dos Persas, ditara o futuro de Atenas; o domínio do mar. Constituía também
mais uma etapa do crescimento democrático, a que temos de ligar o no­
me desse dirigente, como possivelmente estivera associado - vimo-lo já
- às refonnas verificadas em 488/487 a. C. A via para uma mais avançada
democracia caminha em Atenas a par da política naval (‘^).
Homens do mar, esses vencedores do Artemísio, de Salamina e de
Mícale diferiam social e economicamente dos hoplitas e dos cavaleiros,
uns e outros ligados à terra e com a obrigação de custearem os seus
equipamentos e montadas. Os marinheiros, pelo contrário, eram assala­
riados da pólis e, de modo geral, não tinham outro meio de subsistência
que não fosse o soldo recebido pela função exercida na frota. Os cidadãos
mais pobres, como é lógico em consequência de constituírem peças neces­
sárias na frota, têm nessas vitórias papel de primeiro plano e saem delas
prestigiados e na qualidade de heróis. As guerras cimentaram o regime
em Atenas e criaram ainda as condições para novo e maior desenvolvi­
mento da democracia. Desse modo as classes não hoplíticas ficam com
papel decisivo na pólis.
A defesa dos interesses do Estado e a salvação da cidade passam
cada vez mais por esses tetas sem recursos que até aí estavam excluídos
de todo 0 poder que não fosse a participação na Assembleia e na Helieia
- mais de duas décadas nos separam ainda da criação da mistoforia por
Péricles, a que me referi no capítulo anterior. Esses homens sem recursos
ganham consciência de si mesmos, do que representavam na pólis e à
medida que tal acontecia passavam a exercer uma maior influência na
Assembleia (^°).
E curioso observar que a marinha foi sempre acérrima defensora
da democracia em Atenas e que, na ocasião do golpe oligárguico em
411 a. C., foi ela que repôs a legalidade democrática (^‘).

WxgmW., Xerxes’invasion o f Greece, pp. 149-344; P. Green, The year o f Salamis. 480-479
B.C. (London, 1970).
Estávamos no início do século V a. C. e a Grécia ainda não havia chegado ao apogeu
do período clássico nem produzira as suas mais importantes realizações culturais. Dado
que a cultura ocidental é profunda devedora da grega, não será difícil imaginar que a nossa
cultura seria hoje bem diferente caso a vitória em Salamina tivesse pendido para o lado
dos Persas.
C®) Vide Ehrenberg, From Solon to Socrates, pp. 145-146.
(^°) Sobre a importância da marinha em Atenas vide N.G. L Hammond, A history o f
Greece to 322 B. C. (Oxford 31986, repr. 1987), pp.324-332; F. Adcock and D.J. Mosley,
Diplomacy in Ancient Greece (London, 1975), pp.23-29.

115
A GRÉCIA ANTIGA

Na sequência da retirada dos Persas, após as batalhas de Salamina e


de Platéias, os aliados gregos, muitos deles com posições vulneráveis no
caso de nova investida, temiam uma terceira invasão. Decidiram, por isso,
aproveitar as vitórias para libertar o resto da Hélade e obrigar os Persas
a confmarem-se às suas fronteiras. O rei espartano Pausânias, que coman­
dava as forças aliadas, defraudou contudo estas esperanças e, acampado
em Bizâncio, manifestava deferência pelos principais chefes persas e
arrogância com os Gregos. A desconfiança que tal actuação causou foi
de graves consequências para Esparta. Os aliados retiram-lhe o comando
das forças e, no Inverno de 478/477, com surpreendente unanimidade,
pedem a Atenas que o assuma. Esta, como é evidente, aceita-o de ime­
diato. Os Lacedemónios abandonam as operações e com eles boa parte
dos seus antigos aliados na Simaquia do Peloponeso. Os Estados marítimos
do Egeu reuniram-se à volta de Atenas para defenderem e libertarem
esse mar da influência persa (^^). Assim surge, em 477 a.C., a Simaquia
de Delos como se fora a continuação da aliança de 480, criada pelos
Helenos para fazerem frente aos Persas.
Constituía de início uma aliança naval e, dos membros que a
integravam, Atenas era a única potência terrestre. Os restantes eram
Estados marítimos que bordejavam ou pertenciam ao Egeu. Além de
Atenas, dela faziam parte, portanto, as cidades gregas da costa oeste da
Ásia Menor; considerável número de cidades da Propôntida, de grande
importância estratégica; a Eubeia, com a única excepção da cidade de
Caristo, e todas as ilhas do Egeu, salvo Meios, Tera e Creta. Dominava
assim esse mar e controlava ainda a ampla e rica ilha de Chipre e a
entrada para a costa sul da Ásia Menor. A Simaquia visava manter o
ofensiva contra a Pérsia e, através do domínio do Egeu, superintender
na política externa grega. Até certo ponto conseguiu esse objectivo. Da
sua organização fora encarregado Aristides, membro de uma família
nobre e general experimentado, irreconciliável inimigo da Pérsia e so­
bretudo um homem que tinha a fama de justo; portanto perfeitamente
talhado para a tarefa de construir uma aliança, em bases equitativas.
Para centro administrativo foi escolhida a pequena ilha de Delos, tradi­
cional santuário de Apoio e lugar em que os lónios, desde recuados tempos.

P ‘) Vide Éd. Will, Le siècle, pp.372 ssq.; Cl. Mossé, “Le rôle de l’ armée dans la
révolution de 411 à Athènes” RH 231 (1964) 1 sqq.; R. Sealey, “The revolution o f 411
B.C., in Essays in Greek Politics (New York, 1967), pp. I l l sqq.
(^-) Sobre a origem da Simaquia de Delos vide R. Sealey, “The origin o f Delian
League”, in Ancient society and institutions. Studies presented to Victor Ehrenberg
(Oxford, 1966), pp.233-255; R. Meiggs, The Athenian Empire, pp.459-464.

116
A SIMAQUIA DE DELOS

se reuniam (^Q. No meio do Egeu, oferecia uma posição neutral e, devido


à sua pequenez, não oferecia perigo pela sua política e interesses.
Para atingir os seus objectivos, a Simaquia necessitava de constituir e
manter uma frota aliada, para a qual os membros deviam contribuir com
barcos e com dinheiro, ou apenas com numerário. Alguns dos Estados
membros eram pequenos e pobres e preferiram contribuir apenas com
dinheiro. Aristides fixou a soma total de 460 talentos (cf Tucídides 1.96),
metade em dinheiro e a outra em barcos; fez um cálculo meticuloso das
possibilidades de cada pólis e repartiu essa soma proporcionalmente pelos
vários membros. Os que contribuíram em dinheiro formavam de longe o
grupo mais numeroso. Mesmo póleis grandes e poderosas, algumas delas,
preferiam este sistema que evitava aos seus cidadãos a prestação do
serviço militar fora do seu território (^'*). Os pagamentos deviam efectuar-
-se uma vez por ano no tesouro comum, em Delos. Recebiam os contribu­
tos dez funcionários, chamados Helenotamias, “tesoureiros dos Helenos”,
que, apesar do nome, eram todos Atenienses (^Q.
A Simaquia vai ser um instmmento do imperialismo ateniense, mas
vem assentar também a democracia em pilares mais sólidos. Segundo
Vidal-Naquet, um aspecto da história de Atenas é o avanço, de mãos
dadas, da democracia e do império marítimo (^Q. Era ela que ditava as
leis na organização. No conselho da aliança, que se reunia em Delos,
controlava os votos, não só por ser a pólis mais poderosa, mas porque os
pequenos Estados, que detinham apenas um voto, se uniam a ela para se
precaverem contra os outros membros poderosos que tentavam intimidá-
-los e de quem tinham receio.
Sob a hegemonia ateniense, essa Simaquia em menos de dez anos
atingiu os seus objectivos. Os Persas tinham desaparecido do Egeu e

f h Os versos 146-155 do Hino Homérico a Apoio referem-se a um festival iónico


que aí se realizava. Como a parte do hino que integra os versos deve datar do século
VIII a. C., pelo menos já nessa data a ilha era centro de uma reunião dos lónios. Vide H.W.
Parke, Greek Oracles (London, 1967), pp. 34 sqq. (sobretudo 38).
(^h Sobre os quantitativos dos impostos da simaquia, quer em barcos quer em dinheiro,
vide R. Meiggs, The Athenian Empire, pp. 50-67.
Para a dificuldade levantada pelo passo de Tucídides, devido à cifra relativamente
volumosa aí referida que, de certo modo, contrasta com os números mais baixos fornecidos
pelas listas de Tributos mais recentes, vide A. W. Gomme, A historical commentary on
Thucydides I (Oxford, 1945), pp. 273-280, ad. /oc.; R. Meiggs, op. cit., pp. 44 sqq.; P.J.
Rhodes, The Atheniam Empire (Oxford, 1985), pp. 5-8.
(^^) Sobre os Helenotamias vide A .G Woodhead, “The institution o f the Helleno-
tamiae”, JHS 79 (1959) 149-152; R. Meiggs, The Athenian Empire, pp. 44 e 234-238.
(26) “Tradition de la démocratie grecque”, in M.I. Finley, Démocratie antique et
démocratie moderne (trad, franc., Paris, 1976), p. 39.

117
A GRÉCIA ANTIGA

recolhido ao interior dos suas fronteiras. As ilhas dessa parte do Mediter­


râneo e a Grécia Asiática sentiam-se de novo livres; o que isso represen­
tava está bem explícito num estásimo (w .584-594) dos Persas de Ésquilo,
levado à cena pouco depois de afastada a invasão de Xerxes:

Doravante, em toda a terra da Ásia, ninguém mais obedecerá aos ditames


persas, ninguém mais pagará tributo imposto pelos senhores, ninguém mais
receberá ordens de joelhos: o poder do Rei acabou.
A língua dos súbditos não estará mais dominada pelo freio. O povo liberto
poderá falar livremente, uma vez solto do jugo da força (^’).

Sentindo-se livres da ameaça persa, alguns dos membros da Simaquia


não viam necessidade de continuarem a sua aliança com Atenas, na qual
consideravam existir uma hipoteca da sua liberdade. Começaram, por
isso, a surgir no meio da confederação, tendências centrífugas, a que os
Atenienses respondiam pela força, obrigando-os a manter a aliança (^^).
Nenhuma pólis tinha o direito de fazer secessão. A Simaquia era fonte
da força de Atenas no Egeu e, enquanto a controlasse, estaria livre de
problemas no mar.
Em 454 a.C., o tesouro e a sede da Simaquia são transferidos de
Delos para Atenas, sob o pretexto da ameaça dos Bárbaros Qualquer
caso ou delito relacionado com a aliança passa a ser tratado na Assembléia
ou julgado nos tribunais atenienses. Cada vez mais se reforça e agrava o
sentimento de falta de liberdade e de sujeição. Aos poucos a Simaquia
perdera o seu carácter espontâneo e a intervenção de Atenas na vida
dos outros Estados tomara-se progressivamente crescente, tanto a nível
de relações externas como nas questões internas, sempre que considerasse
afectarem os seus interesses. Estava aberta a porta para a constante
interferência na vida das póleis aliadas, e estas não se encontravam em

E 9 Tradução de Manuel O. Pulquério, Ésquilo, Persas (Lisboa, Edições 70, 1998),


p. 42. Os Persas foram apresentados em 472 a.C. e Atenas vivia um momento de euforia.
Vide José Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos I, p. 341. Para um comentário aos versos,
pp. 335-336.
(-*) Naxos foi o primeiro, logo em 471 (vide Bowra, Periclean Athens, p.33); em 465
Tasos revolta-se, talvez em consequência da cobiça de Atenas pelas suas minas de ouro,
e só dois anos depois é dominada por Címon. Vide N.G. L. Hammond, History o f Greece
to 322 B.C., pp. 289-292; J. Pouilloux, Recherches sur l'histoire et les cults de Thasos
(Paris, 1954), pp. 60-61, 93 e 106 sqq.
(^^) Vide W. K. Pritchett, “The transfer o f the Delian Treasuiy”, Historia 18 (1969)
17-21; G.D. Wilcoxon, Athens ascendant (Ames, 1979), pp. 184-185. H.B. Mattingly,
“The growth o f Athenian imperialism”. Historia 12 (1963) 257-273 aponta uma data
mais tardia para essa transferência.

118
A SIMAQUIA DE DELOS

condições de resistir. Ao aceitar contribuir em dinheiro, em vez de o


fazer em barcos, haviam perdido a sua possibilidade de defesa.
O desejo de poder leva os Atenienses a endurecer o seu domínio sobre
os aliados e a actuar com severidade no caso de pagamentos atrasados,
incompletos ou outras negligências de contribuição. Este procedimento
retira-lhes a anterior popularidade. A Simaquia de Delos transfomiara-
-se num império e a maioria das cidades sentia-se nela em servidão, sem
liberdade. As revoltas são assíduas, sempre reprimidas com dureza Q°).
Atenas considerava a secessão um acto de traição e de quebra do jura­
mento da aliança. Objectava que uma série de secessões poria em perigo
a organização e deixaria a Hélade sem defesa ante um possível ataque
persa.
A Simaquia passa então a possuir três tipos de membros: os que, em
número reduzido, contribuíam com barcos - como Quios, Samos, Lesbos
- e eram os aliados propriamente ditos; os que pagavam tributos, em vez
de contribuir com barcos, mas que conservavam a autonomia política e
mantinham o estatuto fixado pelo tratado geral inicial; os que, sublevados
e depois de novo submetidos, eram governados por tratados particulares
que a cada passo lhes impunham determinadas obrigações, como um
governo democrático por exemplo (^‘).
Num contexto destes, o desejo de libertação será um sentimento com
campo propício e dele se aproveitará a propaganda de Esparta, que lide­
rava uma outra Simaquia. Essa propaganda manifestou-se sobretudo
durante a Guerra do Peloponeso que se estende de 431 a 404 a. C. (^^).
Então cada uma das alianças procurava chamar à sua zona de influência
as cidades ligadas à outra, incentivando e apoiando as facções que difen-
diam regimes condizentes com os seus: Atenas promovia as democracias
e Esparta as oligarquias.
De início Atenas não havia imposto sistemas democráticos a todos os
seus aliados. Como vimos, Címon, o dirigente com mais influência na

E“) Sobre o imperialismo ateniense vide bibliografia na nota 1 e ainda J. de Romilly,


Thucydide et l ’ impérialisme athénien (Paris, 1951).
(^') Vide J.B. Bury, History o f Greece to the death o f Alexander the Great (4“ edição
revista por R. Meiggs, London, 1975), p. 210; P.J. Rhodes, The Athenian Empire (Ox­
ford, Greece and Rome 17, 1985), p. 27.
(*-) Esparta, na altura da criação da Simaquia de Delos, já se encontrava bem implantada
no Peloponeso e liderava aí uma simaquia há quase um século. Vide Bowra, Periclean
Athens, pp. 36 sqq.; D.H. Leahy, “The Spartan defeat at Orchomenus”, Phoenix 12
(1958) 163-165; L.H. iefíevy. Archaic Greece (Cambridge, 1976), pp. 121-123 e 252-
-253. J.A.O. Larsen, “The constitution o f the Peloponnesian League”, C Ph. 28 (1933)
257-276 coloca o aparecimento da Simaquia do Peloponeso como tal em cerca de 505 a.C.

119
A GRÉCIA ANTIGA

polis entre meados da década de 470 e 462 e filho de Milcíades, o general


vencedor de Maratona, defendia um entendimento com Esparta e não era
entusiasta da democracia; por isso, enquanto liderou Atenas, possivelmente
penuitiu que a maioria dos Estados aliados conservassem as constituições
existentes. Durante a sua liderança, as oligarquias quase que eram bem
recebidas.
Depois das transfonuações de 462/461 a.C., as coisas mudam sensivel­
mente. Nessa data, dá-se o ostracismo de Címon e surgem no primeiro
plano da cena política Efialtes e Péricles. Os dois dirigentes consideravam,
como vimos no capítulo anterior, que o Areópago, detentor de extensos e
efectivos poderes, constituía um obstáculo ao alargamento da democracia
e que, além disso, era contrário ao espírito democrático estarem tão impor­
tantes funções nas mãos de um orgão formado por membros vitalícios,
por inerência. Daí as reformas, da autoria de Efialtes, que retiram ao
Areópago grande parte desses poderes e prerrogativas e os transferem
para a Assembléia, o Conselho dos Quinhentos e os Tribunais da Helieia.
A partir de então tanto a orientação da política externa como da política
interna sofrem em Atenas uma alteração significativa. A cidade envereda
para uma acção mais activa de apoio ao estabelecimento de governos
democráticos QQ. A maioria das pequenas cidades não manifestava
grande oposição e, possivelmente, muitas delas até teriam recebido com
alegria a ajuda ateniense para implantar a democracia (^'^). Os Estados
mais poderosos, como Quios, Samos, Mitilene, oferecem contudo resistên­
cia e mantêm até tarde os seus governos oligárquicos (^^).
Atenas era uma cidade de acção, imbuída das idéias de progresso e
orgulhosa do seu sistema político que considerava o melhor e desejava
doar aos outros Estados. Daí um dinamismo insaciável e um constante
esforço por espalhar a democracia. Diziam os Coríntios (Tuc. 1.70. 8-9),
no congresso da Simaquia do Peloponeso que precede a declaração da

(” ) Vide Hammond, A history o f Greece cit., pp. 303 sqq.; G.D. Wilcoxon, Athens ’
ascendent, pp.l69 sqq.; P.J. Rhodes, The Athenian Empire, pp. 22-27.
Cf. Píndaro, 01. 1. Vide B.L. Gildersleeve, Pindar: The Olympian and Pythian
<9c/e5 (New York, 1890, repr. 1979), pp. 182-183;D.W .Bradeen, “The popularity o f the
Athenian Empire”, Historia 9 (1960) 257-269; Rhodes, The Athenian Empire, pp. 36-42.
(D Quios mantém esse governo até 412. Samos e M itilene-oligarquias até 440/439
e 428, respectivamente - perdem nessa altura tal regime, porque, revoltosas, são dominadas,
drasticamente castigadas e obrigadas a adoptar um regime democrático (c f Aristóteles,
AP 24.2). Sobre o assunto vide Meiggs, The Athenian Empire, pp. 188-192, 311 -317 e
358-363; T.J. Quinn, Athens and Samos, Lesbos and Chios. 478-404 b.C. (Manchester,
1981). Para Samos vide G. Shipley, A history o f Samos 800-188 B. C. (Oxford, 1987),
pp.l 13 sqq.

120
A SIMAQUIA DE DELOS

Guerra do Poleponeso, que os Atenienses não deixavam ninguém quieto,


que para eles descansar era realizar o que tinham a fazer (^^). O império
foi uma saída para essas energias e um chamamento a redobrar esforços.
Para 0 Ateniense, a vida activa era tão louvável por si mesma que com­
pensava qualquer objecção que pudesse levantar-se contra a dureza e a
severidade implícitas nesse domínio. Péricles soube interpretar esse dina­
mismo e incitou os seus concidadãos a servirem de paradigma e exemplo
para os outros - um ideal que cativou as imaginações. “Escola da Hélade”,
Atenas era além disso uma forte potência militar. Em consequência, na
opinião de Péricles, estava apta a governar outras cidades, e tinha essa
legitimidade (Tucícides 2.41.3), já que realiza pelos outros o que mais
nenhuma potência pode fazer: oferecia-lhes uma vida mais gloriosa e
ampla, de maior liberdade, em troca de um pouco de diminuição da inde­
pendência. Ao acreditar na superioridade do seu sistema de vida, Atenas
sentia desejo de o legar também aos outros. Fazia-o por generosidade e
só assim considerava ter cumprido plenamente a sua missão. Vejamos
um trecho do discurso que, a tal propósito, Tucídides coloca na boca de
Péricles:

Também na generosidade de conduta somos o oposto da maioria.


Não é por recebermos benefícios dos amigos, mas por lhes fazennos bem
que os conservamos. O benfeitor é um amigo mais firme, porque está
mais empenhado em conservar o favor em débito, pela sua benevolência
com aquele a quem o concedeu. O agraciado, por sua vez, mostra-se mais
cordato, sabendo que pagará o favor, não por gentileza, mas para satisfazer
uma dívida. E somos os únicos que ajudam alguém, não tanto com a mira
nas vantagens, como com a confiança própria de homens livres

Na opinião de Péricles, é por tais razões e em virtude das suas qualida­


des que a pólis não causa revolta e censura nos que submete, por estes
se sentirem governados por homens dignos e benfeitores generosos. Se
nem todos os aliados aceitaram de bom grado tais doutrinas, muitos fize-
ram-no e demonstraram-no com actos, combatendo ao lado de Atenas,
mesmo em circunstâncias e alturas em que poderiam facilmente e sem
perigo abandonar a Simaquia.
Esta interpretação dos factos pode deduzir-se de passos como os
versos 576-577 das Suplicantes de Eurípides: num diálogo vivo entre Teseu
e 0 arauto de Tebas - um estado oligárquico e conservador - este acusa

f®) Sobre o passo de Tucídides, vide Gomme, HCT I, pp.231-232 ad loc.


(” ) 2.40.4-5. Tradução de M.H. Rocha Pereira, Hélade, p. 327.

121
A GRÉCIA ANTIGA

0 rei de Atenas de, tanto ele como a sua cidade, apenas se interessarem
pela acção e de em tudo se intrometerem. Teseu concorda, mas acrescenta
que, se muitos são os esforços, também são muitas as alegrias (^^).
Temos aqui bem explícito o contraste entre um Estado dinâmico,
aberto, que busca a transformação e o progresso, e outro que considerava
toda a mudança negativa e preferia o statiis qiio.
É natural que o espírito dinâmico de Atenas e a política agressiva que
Péricles lhe inspirou tenham criado inimigos e suscitado a oposição dos
conservadores, que olhavam a mudança política com maus olhos e a
consideravam desnecessária e negativa (^®).
A estas críticas que, a tal respeito, tanto no interior da cidade como
do exterior se faziam, parece responder Péricles no discurso que, pouco
antes da sua morte, Tucídides lhe atribui (2.64.4-5):

Ora os referidos títulos talvez os critique quem ama a tranquilidade,


mas quem deseja agir, também ele, procura-os; se alguém não os possui,
sente-se invejoso. Ser odiado e detestado cabe de imediato a quantos
pretendem dominar outros. Contudo, se é por um grande objectivo que

p®) Exemplo colhido em Bowra, Periclean Athens, p. 107. Sobre o passo vide Ch.
Collard, Euripides: Supplices (Groningen, 1975), p. 259 ad 577.
(” ) Pindaro critica Atenas, de forma indirecta e um pouco velada, na Istmica VII, de
454, e nas Piticas XI e VII, de 453 e de 446, respectivamente. Para a análise das três odes
de Pindaro no referido contexto de crítica a Atenas vide Bowra, Periclean Athens, pp.
I33-I36.
A República dos Atenienses - erradamente atribuída a Xenofonte, tem por autor um
anónimo que é comum designar por “Velho Oligarca” - constitui uma crítica à democracia
ateniense e manifesta inclinação pela oligarquia. Com data que deve oscilar entre 445 e
412, a obra surgiu no seio dos grupos políticos oligárquicos, possivelmente exilados de
Atenas, que se dedicavam a observar o evoluir da democracia. Nela se defendiam as
normas aceites pela “eunomia” do antigo regime e só admitia que interviessem na
governação da pólis os cidadãos da classe mais elevada (1.3). Refere que o alicerce da
democracia se encontra na força naval e especifica que a situação de Atenas seria perfeita,
se fosse uma ilha (2.13-16). Discorda da política seguida com os aliados da Simaquia de
Delos (2.15-20 e 3.10). Sobre A República dos Atenienses e seu autor existe numerosa
bibliografia, de que saliento A.W. Gomme, «The Old Oligarch», in Athenian studies
presented W S. Ferguson (Supl. 1 de HSCP, Cambridge, 1940), pp. 211-245 = More
essays in Greek literature and history (Oxford, 1962), pp. 38-69; W. G Forrest, «The
date o f the Pseudo-Xenophontic Athenaion Politeia», Klio 52 (1970) 107-116;
B. Hemmerdinger, «L’Emigré (Pseudo Xénop\\on, Athenaion Politeia))-), REG (1975)
71-80; C. Leduc, La constitution d ’Athènes attribuée à Xénophon (Paris, 1976), pp. 29
sqq. e «En marge de VAthenaion Politeia attribuée à Xenophon», Q S l (1980) 281-334;
L. Canfora, «L’ ipotesis s\x\VAthenaion Politeia anonima», QS 10 (1979) 315-318;
D. Whitehaed, «Two notes on the Old Oligarch», L C M l (1982) 119-120.

122
A SIMAQUIA DE DELOS

se colhe esse descontentamento invejoso, procede-se com acerto. O


ódio, de facto, não persiste por muito tempo, enquanto o esplendor actual
e a fama futura pennanecem para sempre na memória dos homens

Naturalmente que o império oferecia aos Atenienses também vanta­


gens práticas e comerciais que não seriam de somenos nem das de menor
impacto na sua motivação. Péricles, no entanto, no seu discurso, fala
delas indirectamente, como se não fossem de importância primordial (cf
Tucídides 2.62.2).
Considerado por Tucídides uma “tirania” (2.63.2), o império de Atenas
sobre as outras cidades de Simaquia de Delos teve esse carácter, sem
dúvida, se se entender por tal apenas o domínio de um Estado por outro.
De modo geral não se tratou, porém, de um poder excessivo. É mesmo
curioso observar, como nota Forrest, que esse domínio, considerado tão
duro e impopular por Tucídides, a muitos dos subjugados pareceu prefe­
rível à “liberdade” oferecida por Esparta ou por outros adversários de
Atenas ('“). No decurso da expedição à Sicília, quando se adivinha a der­
rota iminente da frota ateniense, a maior parte dos contingentes das cidades
aliadas preferiu uma morte quase certa e ficar a seu lado à oferta de Sira-
cusa que lhes prometia a libertação e a salvação, se desertassem {^^).
Que esse domínio tenha sido bem aceite - ou pelo menos tolerado -
mostra que, no seu conjunto, era benéfico, eficaz e mesmo proveitoso.
Atenas deu às massas populares a noção dos seus direitos e da sua
dignidade, pelos quais estavam dispostas a lutar, não só contra os inimigos
imediatos no interior, mas também contra Esparta ou outros opositores
que extemamente encarnassem os sentimentos que rejeitavam. As classes
inferiores, nas póleis pequenas, não possuíam força suficiente para afastar
as oligarquias locais ou, depois, impedir que elas se refizessem. Preferiam
por isso, a cada passo, entrar como súbditos no Império de Atenas, para
beneficiar do apoio dela à democracia, a continuar com independência
política, mas sem democracia interna C*^).
A Guerra do Peloponeso, ao lançar uma simaquia contra a outra - ou
seja, a democrática Atenas contra a Esparta oligárquica -, contribui para
agravar as oposições; em luta pela hegemonia, as duas potências encora­

O Sobre o passo vide A.W. Gomme, HCTW, pp. 179-180.


f ) La naissance, p.39.
Cf. Tucídides 7.67 e, sobretudo, 82.1. Vide Meiggs, The Athenian Empire,
pp. 347-348.
f h Vide GE.M. Ste Croix, “The character o f the Athenian Empire”, Historia 3
(1954) 1-41 e Origins o f Peloponnesian War, pp. 34-42; Finley, Democracy, p.54;
Bowra, Periclean Athens, pp.97-98.

123
A GRÉCIA ANTIGA

javam as actividades dos seus partidários nas cidades do campo opositor,


prometendo-lhes apoio, e promoviam em todo o lado o conflito entre as
duas formas de regime. Os Atenienses favoreciam - e por vezes impunham
- regimes democráticos nos Estados que lhes estavam submetidos ou
que aderiam à sua simaquia. Os Espartanos procediam de modo idêntico:
apoiavam ou instauravam oligarquias. Como em todos os conflitos entre
grandes potências, as cidades mais pequenas recebiam pressões e apoios
para se colocarem de um lado ou de outro com repercussões nas estru­
turas internas e nas tensões políticas
É estranho, pois, que Tucídides declare ser o império ateniense na
Simaquia de Delos motivo de ódio e constituir para Atenas um constante
perigo possível. E tais afmnações tanto as encontramos na boca dos
membros da Simaquia do Peleponeso - o rei Arquidamo, por exemplo,
fala do ódio de toda a Grécia contra Atenas (2. 1 1 .2 )- como na de Ate­
nienses e até na de Péricles. Este, ao discursar perante o povo descontente
nos primeiros anos de guerra, aponta-lhes o perigo do ódio que haviam
concitado com a consolidação do império (2. 63. 2). Em 427 a.C., na
altura da revolta de Militene, na Assembleia que decide sobre os destinos
da cidade, Cléon lembra aos Atenienses que o império é uma tirania e
que os súbditos a sofrem de mau grado; que a submissão só resulta do
ascendente obtido pela força (3. 37.2). A insistência de Tucídides parece
mais uma posição de facção do que realidade objectiva É esclarecedora
a opinião do próprio historiador (2.8.5), de que no começo da Guerra do
Peloponeso, em 431, toda a Grécia estava a favor de Esparta:

Grande era a cólera da maioria contra os Atenienses, tanto dos que


desejavam escapar ao seu domínio, como dos que receavam ver-se por
ela submetidos (‘*‘^).

Havia, é certo, entre os aliados uma importante oposição, mas ela


vinha de modo geral dos aristocratas dessas cidades que viam em Atenas
- que apoiava as democracias e incentivava a participação dos cidadãos
mais pobres no governo local - um inimigo real ou possível e preferiam
quem favorecesse as oligarquias locais. Por isso, sempre que agarravam
uma oportunidade, sublevavam-se e, de modo geral, abandonavam a
Simaquia de Delos, para aderir à do Peloponeso. Assim acontece na

(‘’h Vide Finley, Democracy, pp. 53 sqq.


(‘’h Vide P. J. Rhodes, The Athenian Empire, pp. 36-37; Meiggs, The Athenian
Empire, pp. 375 sqq.
(‘’®) Sobre o passo vide Gomme, HCT II, p. 9 ad loc.

124
A SIMAQUIA DE DELOS

Eubeia, em 447; em Samos em 440/439; em Mitilene, em 428 a.C. Em


nenhum dos casos, porém, encontramos levantamentos à escala de toda
a pólis. De modo geral, eram os nobres descontentes que lhes davam
fonua e os lideravam
Manter um império em tais circunstâncias, com secessões e revoltas
constantes, implica gastos substanciais e uma frota permanente, na qual
eram peças-chave, como vimos, os tetas - ou seja, os de nulos e parcos
recursos.
O império foi, no entanto, também uma peça importante para o funcio­
namento e institucionalização do sistema democrático, e trouxe - observa
Finley - vantagens e ganhos materiais que superavam os gastos. Além
de um considerável número de outras vantagens secundárias, atraía, prove­
nientes dos impostos das cidades aliadas, um rendimento anual um pouco
superior ao total das receitas públicas derivadas dos recursos internos;
proporcionava uma frota influente e forte, a mais poderosa do Egeu e tal­
vez do Mediterrâneo; facultava segurança para as importações de trigo
que eram vitais a Atenas QQ. Foi uma fonte de fundos que possibilitaram
a reconstrução de templos e outros edifícios públicos - caso do santuário
de Elêusis, destruído durante a invasão de Xerxes, e a reconstrução dos
esplêndidos monumentos da Acropole. Essas obras, além de se tomarem
uma fonte de emprego para muitos assalariados que, de outro modo, po­
deríam ter constituído um foco de agitação e de revolta, aparecem também
- e teriam sido assim concebidas - como símbolo da grandeza de Atenas
e do papel que os seus dirigentes e artistas consideravam ser o da cidade
na Hélade Q^). Por trás dessas obras estava a ideia de que Atenas tinha
que inspirar à Grécia uma unidade espiritual mais forte.
Em temios de interesses materiais, se as vantagens e benefícios dos
ricos não eram significativos nem mensuráveis, os cidadãos pobres, ou o
dêmos, lucravam com o império - para me servir dos termos de Finley -
«de fonua directa, tangível e substancial»: os remadores da frota tinham
a sua subsistência assegurada e sentiam-se governantes do mundo grego;
permitia conceder salários a quem participasse em cargos públicos e,
desse modo, possibilitava que todos os cidadãos ascendessem a esses
cargos, fossem quais fossem os seus recursos econômicos; trazia ganhos
a certos grupos, como os construtores de barcos e os carpinteiros da
marinha; o controlo dos mares ajudava a garantir a afluência regular dos
cereais e a consequente manutenção dos preços baixos; permitiu conceder

f h Vide Bowra, Periclean Athens, pp. 96-97.


f*) Finley, Democracy, pp. 43-44.
f ’) Vide Bowra, Periclean Athens, pp. 114-118

125
A GRÉCIA ANTIGA

a certo número de cidadãos pobres, talvez uns 20 000, parcelas das terras
confiscadas nas cidades revoltosas e depois dominadas - as cleruquias f °).
Isto permitia minorar as carências e evitar o agravamento excessivo
dos eonflitos sociais. Desse modo, até aos finais do século V, praticamente
não assistimos em Atenas a guerras civis (^0-
O império que a cidade exerce no mar Egeu parece ser elemento
decisivo 110 seu equilíbrio social. Deu um grande desenvolvimento ao
Pireu e fez crescer o número de metecos (^^). Aristóteles afirma mesmo
que ele fazia viver vinte mil homens {Constituição de Atenas 24.3) e o
“Velho Oligarca”, na República dos Atenienses, põe em realce os laços
estreitos que uniam a política imperialista ateniense e a sua força naval
ao próprio regime (1. 1-2 e 11).
Sem esse império e sem os reeursos que dele provinham, o sistema
plenamente democrático da segunda metade do século V não teria sido
introduzido ou pelo menos não se teria mantido. Sem tais fundos, os
rendimentos de Atenas não seriam muitos.
Ora, se os eneargos fmaneeiros e militares - observa-o Finley-pesas­
sem sobre os ricos não surpreenderia que estes - como acontecia em
outras democracias que, desde meados do século VI a. C., começaram
a surgir em outras cidades gregas (” ) - reivindicassem o direito de
governar por meio de uma qualquer constituição mais ou menos oligár-
quica (^‘*). Se mais tarde, nos finais do século V a. C., o império foi des­
truído, nessa altura já o sistema estava fortemente consolidado e ninguém
0 conseguiu modificar, apesar de várias tentativas nesse sentido e apesar
das difieuldades financeiras ao longo do século IV a. C.

(^°) Democracy, pp.44-48.


Atenas, como era prática geral de outras cidades, se conseguia dominar as cidades
revoltosas, de modo geral matava a população do sexo masculino em idade de combater e
escravizava as mulheres e crianças {e.g. Tuc. 5.116.2-3). A região colonizava-a com
cidadãos atenienses pobres. São as cleruquias, colônias do tipo extensão territorial da
metrópole que se podem aproximar das modernas, mas que não correspondem ao tipo de
colonização grega mais usual. Vide Cl. Mossé, La colonisation dans L ’Antiquité (Paris,
1970), pp.72-81; Ph. Gauthier, «Les clérouques de Lesbos et la colonization athénienne
au V® siècle», REG 79 (1966) 64-88; A.J. Graham, Colony and mother city in ancient
Greece (Manchester, 1964), pp. 166-210.
(^‘) Vide Finley, Democracy, pp. 48-49.
(^-) Vide Cl. Mossé, Histoire d ’une démocratie: Athènes, pp.52-53.
(^h É O caso, por exemplo, de Quios. Vide V. Ehrenberg, «Origins o f democracy».
Historia 1 (1950) 538; R. Meiggs and D. L qW xs, A Selection o f Greek Historical Inscrip­
tions to the end o f the Fifth Century B. C. (Oxford, 1969, repr. 1980), pp. 14-17. Também
supra p. 77, nota 5.
(^h Vide Finley, Democracy, p.50.

126
A SIMAQUIA DE DELOS

Deste modo se verifica que, subjacente aos conhecidos acontecimentos


históricos das Guerras Pérsicas, da criação da Simaquia de Delos e da
consequente sistematização do império ateniense, se detectam inter-
relações entre sistema político e situação económica e social, determi­
nantes para o estabelecimento definitivo de uma forma de governo - o
da democracia ateniense - que era também, ao mesmo tempo, um estilo
de vida.

127
o f a s c í n io d o p o d e r
o Paradigma de Atenas
durante a Guerra do Peloponeso

Em meados do século V a. C., Atenas tinha atingido um considerável


desenvolvimento, tanto no campo econômico e político como no domínio
cultural, a ponto de dar a ideia de quase perfeição e de Péricles poder
afinnar que Atenas era a “escola da Hélade” (cf. Tuc. 2.41.1). Verifica-
-se uma espécie de equilíbrio entre as diversas instituições; uma certa
hannonização de classes e a concessão de iguais possibilidades a todos
os cidadãos.
Mas 0 equilíbrio da época de Péricles vai ser profundamente abalado
pela Guerra do Peloponeso - um conflito que se prolonga por cerca de
trinta anos (de 431 a 404 a.C.) e envolve a grande maioria dos Estados
gregos.
A Grécia, como já foi referido, dividia-se então em dois grandes blocos;
um, a Simaquia de Delos, dirigida por Atenas, reunia de modo geral cidades
em que vigoravam democracias; o outro, a Simaquia do Peloponeso,
liderada por Esparta, agrupava cidades de regimes oligárquicos. Em todas
as cidades, no entanto, os partidários de uma e de outra opunham-se de
modo constante.
Costuma apontar-se como causas da Guerra do Peloponeso, por um
lado, o duplo conflito que opôs Atenienses e Coríntios, centrado a ocidente
em Corcira e a oriente em Potideia; por outro, o decreto que fechava aos
Megarenses os portos da Simaquia de Delos (').
Os Lacedemónios exigiram a Atenas o levantamento do cerco de
Potideia, o respeito pela autonomia das cidades e a abolição do decreto
contra Mégara. Mas Péricles considerava tais exigências incompatíveis
com o poder, o prestígio e os interesses da pólis e conseguiu que a
Assembléia as rejeitasse (Tuc. 1.140 sqq.). Seria errado, no entanto, ver

(') É vasta a bibliografia sobre as causas da Guerra do Peloponeso. Cito, entre outras,
GE.M. de S.‘®Croix, The origins o f the Peloponnesian War (London, 1972); D. Kagan,
The outbreak o f the Peloponnesian War (Ithaca, 1969) e The Archidamian War (Ithaca,
1974); R. Sealey, «The causes o f the Peloponnesian war», CPh 70 (1975) 103-105.

129
A GRÉCIA ANTIGA

nos seus argumentos uma manifestação de desejos belicistas. A estratégia


por ele proposta, a que adiante me referirei, aponta até para conclusão
diferente. Pressentira apenas os intuitos escondidos dos Espartanos: que,
por trás das razões alegadas e das peripécias imediatas, ocultavam motivos
mais profundos - e, em primeiro lugar, o receio que neles infundia o po­
derio de Atenas e da simaquia que liderava (^). Os Lacedemónios nunca
viram com bons olhos o desenvolvimento da hegemonia ateniense, na
sequência das Guen*as Pérsicas. E essa constituiu, na opinião deTucídides,
a verdadeira causa que tomou o conflito inevitável (1.67 sqq., sobretudo
71.4 e 88). As outras razões, alegadas abertamente, foram apenas pre­
textos para justificar o rompimento do tratado e a declaração da guerra.
Antes de começar a narração desses alegados motivos (1. 23 sqq.), o
historiador mostra-o com toda a clareza (1. 23. 6):

Entendo eu que os Atenienses se engrandeceram e, com isso, inflindiram


aos Lacedemónios receio, que os forçou a entrar em guerra (^).

Talvez Tucídides esteja dentro da razão, mas não sabemos até que
ponto os incidentes apontados, e sobretudo a situação interna da Lacede-
mónia e da Simaquia do Peloponeso - Esparta receava uma influência
cada vez maior de Corinto nessa coligação -, não desempenharam tam­
bém um peso significativo na decisão final. De todo alheia não deve ter
sido também a oposição ideológica que, ao longo do século V a.C., cada
vez se foi cavando mais entre as duas coligações; tanto mais que Esparta,
para os adversários da democracia ateniense, se toma o modelo de socie­
dade que desejam transpor para a sua pólis.
Declarada a guen-a, os Atenienses seguiram, numa primeira fase,
embora com relutância, a estratégia proposta por Péricles de se recolhe­
rem às muralhas, de onde assistiam, revoltados e impacientes, à invasão
da Ática pelos exércitos da Simaquia do Peloponeso que lhes destruía as
culturas e os bens (Tucídides 1.143).
Péricles, em face do poderio da frota ateniense, de a cidade se en­
contrar ligada ao Pireu por muralhas e, portanto, pemiitir o acesso dos
alimentos e recursos necessários por via marítima, preconiza que todos

(-) Para a situação interna de Esparta e para a sua posição na Simaquia do Peloponeso
vide F.E. Adcock, «The breakdown o f the Thirty Years Peace, 445-431 B.C.», in CAHV,
p. 187; D. Kagan, The outbreak o f the Peloponnesian War, pp. 306-310.
O receio dos Lacedemónios é sublinhado por Tucídides (e. g. 1 .2 3 .6 ,6 9 .5 ,8 8 ,1 1 8 ;
6. 36). Vide J. Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos I, pp. 447-451.
(h Tradução de M. H. Rocha Pereira, Hélade, p. 324.

130
o f a s c ín io d o p o d e r

os Atenienses abandonem os campos e se refugiem no interior dessas


muralhas, já que, como refere Plutarco {Per. 33.5), considerava mais im­
portante a vida das pessoas do que a defesa dos bens materiais: as árvores
cortadas podiam crescer depressa, mas não as vidas destruídas. Em sua
opinião - informa Aristóteles, Retórica 1365a 32 - , devido à guerra, a
cidade perdeu a juventude, como se o ano tivesse perdido a primavera.
Os Atenienses aprovaram essa estratégia, mas custou-lhes muito
deixarem os campos. Tucídides (2. 13-14 e 16) faz uma descrição dessa
retirada em que expressa com clareza, quer os hábitos rurais da população,
quer a tristeza com que foi feito o êxodo (2. 14):

Os Atenienses, ao escutarem-no, deixaram-se convencer e começaram a


transportar dos campos para a cidade mulheres e crianças, bem como
todo 0 mobiliário de uso doméstico e o material de madeira que retiravam
das próprias casas: os rebanhos e os animais de carga, enviaram-nos
para Eubeia e para as ilhas próximas. Difícil contudo se lhes tomou o
êxodo, já que a maioria teve sempre o costume de viver nos campos (‘*).

Bem concebida e baseada em profundo humanitarismo e em alto


conceito da pessoa humana, a estratégia não correspondeu, quanto aos
resultados. Ao entregar de mão beijada os campos ao inimigo que perio­
dicamente os invadia e destruía, provocava nos Atenienses o ódio e a
revolta. Para o seu orgulho de homens que se sentiam poderosos, era
difícil ver as culturas devastadas vezes sucessivas pelos exércitos inimigos
e continuarem passivos, recolhidos nas muralhas, sem os enfrentarem
abertamente nem lhes infligirem o devido correctivo. Se em alguns lavra­
dores o espectáculo desolador das terras fazia nascer o desejo de paz,
na maioria essas destruições periódicas exasperavam o ódio contra os
Lacedemónios. E nasce o desânimo, o desespero, a indignação (^).
Esses sentimentos contraditórios estão bem explícitos em Tucídides e
nos Acarnenses de Aristófanes. Nesta comédia, Diceópolis, um camponês
que se sente lesado com a guerra, tenta fazer aprovar na Assembleia
uma proposta de paz. Não o conseguindo, assina uma paz pessoal e
particular com os Lacedemónios, tirando daí riqueza e prosperidade. Tem,
no entanto, que se haver com os camponeses que o acusam de traição e
o querem apedrejar. Não concebem que alguém pactue com o inimigo. A

D Sobre o passo vide A. W. Gomme, A hist. comm, on Thucydides II (Oxford


University Press, 1956, repr. 1969), pp. 47-48.
(^) É possível que os Acarnenses de Aristófanes se façam eco desse desejo de paz.
Vide Maria de Fátima Aristófanes: Os Acarnenses (Coimbra, ^ 1988), pp. 12-21.

131
A GRÉCIA ANTIGA

custo consegue Diceópolis demovê-los de tais intentos e fazer com que


o escutem. Tenta mostrar-lhes que a guerra teve origem num motivo
ridículo e futil e é defendida por políticos ambiciosos, corruptos e sem
escrúpulos (^). Desse modo, numa comédia cheia de movimento e de
graça, Aristófanes procura, por um lado, aplacar a cólera dos camponeses,
a quem o conflito de tudo privara, e desviar o seu ódio para os partidários
da guerra e responsáveis pela situação, aos quais cobre de ridículo; por
outro, dar da paz um quadro edênico de abundância e prosperidade (’).
Tucídides acentua a revolta que a situação provocava nos Atenienses
e a dificuldade de Péricles em conservá-los recolhidos no interior das
muralhas. Quando os exércitos peloponésicos atingiram Acames, ali
mesmo à vista deles, os Atenienses, sobretudo os mais jovens, conside­
ravam a afronta intolerável e inadmissível e ansiavam por sair e lutar. As
discussões eram vivas e as opiniões desencontradas: uns, em particular
os Acamenses que viam o seu demo ocupado, queriam dar combate, outros
opunham-se-lhes; adivinhos emitiam oráculos que cada um interpretava
como lhe convinha. “Por todo o lado - conclui Tucídides (2. 21. 3) - a
cidade estava em efervescência e irritada contra Péricles”. Os Atenienses,
sujeitos ao espectáculo sem precedentes da pilhagem das suas terras,
foram tomados de cólera - de orgê - e, como aliás previra o rei Arqui-
damo (Tuc. 2.11.7-8), reclamavam o combate. O filho de Xantipo resiste
e considera a reacção dos seus concidadãos despropositada. Consciente
da gravidade da situação - continua Tucídides (2. 22) - e seguro da
rectidão da recusa em dar combate, não os convoca à Assembleia nem
a qualquer outra reunião, para evitar os excessos e a falta de discernimento
que um momento de desnorte e desespero sempre provoca. Só com
muito tacto e cuidada vigilância Péricles conseguiu manter alguma calma
e evitar que os Atenienses seguissem as suas inclinações (Q.
A essas destruições periódicas outro grave acontecimento se junta.
Refugiados dentro das muralhas, a ocupar os recintos dos templos e
outros locais públicos, em aglomeração e com certa promiscuidade (Tuc.
2. 17. 1-3), as condições higiénicas não eram satisfatórias, e a peste
abateu-se sobre a cidade (Tucídides 2. 47-54). Consigo arrasta graves
consequências, quer no domínio das crenças, quer no dos valores, quer

f ) Sobre os motivos fúteis da Guerra do Peloponeso sugeridos nos Acamenses vide


J. Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos I, p. 419.
O Vide J. Ribeiro Ferreira, Hélade eHelenos I, pp. 418-422; Maria de Fátima Silva,
Aristófanes: Os Acamenses (Coimbra, ^1988), pp. 20-21.
(^) Sobre os passos de Tucídides vide A. W. Gomme,/I comm. on Thucydides II
(Oxford University Press, 1956, repr. 1969), pp. 75-77.

132
o f a s c ín io d o p o d e r

no da força moral para enfrentar o inimigo e o futuro. A descrição de


Tucídides, resumida a seguir, é bem elucidativa.
Os Atenienses viam os concidadãos morrerem a seu lado, de um mo­
mento para o outro, sem que a morte poupasse ninguém, fossem eles
ricos ou pobres, honestos ou desonestos O . Não encontravam remédio
nem em médicos nem em qualquer outro meio humano. Também o não
acharam nos santuários pela súplica ou através dos oráculos. Por isso -
conclui Tucídides 2. 47.4 - “renunciaram vencidos pelo mal”. Instala-se
um clima de desespero. Muitos morriam ao abandono, porque a maioria,
por receio de contaminação, não se aproximava deles. Os que o faziam
sentiam-se impotentes, tal era a amplidão da doença (Tuc. 2. 51. 4-5).
Os cadáveres amontoavam-se por todo o lado, mesmo nos locais sagrados
(Tuc. 2. 52-3).
A peste origina na cidade uma desordem moral crescente. Os homens,
sem saber quantos dias lhes restavam, passaram a nada respeitar. Todos
os costumes, mesmo os mais sagrados, se encontravam subvertidos (Tuc.
2. 52. 3). Como em bruscas mudanças da sorte, de repente, os mais
abastados morriam e os pobres se viam enriquecidos pelo que herdavam,
havia maior audácia em praticar abertamente o que até então só era
feito às escondidas. As pessoas não tinham esperança no amanhã e pro­
curavam as satisfações e prazeres imediatos. Nada as detinha, nem os
preceitos religiosos nem as leis dos homens: à sua volta, quer fossem
tementes aos deuses quer não, todos morriam e, quanto ao julgamento
dos tribunais, pensavam que já não estariam vivos no momento da conde­
nação. Nada inspirava zelo, nem o mais belo objectivo, já que ninguém
tinha a certeza de não ser colhido pela morte antes de o realizar. Tal era
a ameaça da peste, a que se sentiam condenados, que procuravam avida­
mente gozar um pouco da vida (Tuc. 2. 53).
Desanimados e desesperados, os Atenienses desejam agora renunciar
à guerra e concluir a paz. Culpam Péricles pelo desencadear do conflito
e chegam mesmo a condená-lo. Mais uma vez o dirigente tem dificuldade
em conter a cólera dos seus concidadãos, mas também de novo sobressai
a sua autoridade moral, a sua qualidade de condutor de homens e a sua
sabedoria, perante a mobilidade das paixões do povo. A descrição de

f ) Sobre a natureza da epidemia vide H.N. Couch, “Some political implications o f


the Athenian plague”, TAPhA 66 (1935) 92-103; D.L. Page, “Thucydides’ description o f
the great plague at Athens”, CQ 3 (1953) 97-119; W.P. MacArthur, “The Athenian
plague: A medical note”, CQ4 (1954) 171-174; D. L. Page, “The plague; A lay comment
on a medical note”, CQ 4 (1954) 174; A.J. Holladay e J. Poole, “Thucydides and the
plague at Athens”, CQ 29 (1979) 282-300.

133
A GRÉCIA ANTIGA

Tucídides (2. 59-64) e o modo como articula e simplifica os episódios


procuram pôr esse contraste em realce (*°).
Vendo os Atenienses deprimidos e predispostos a ceder, Péricles agora
convoca-os e procura reanimá-los, mostrar-lhes que o desalento é infiin-
dado (Tuc. 2. 60-64). Começa por lhes apontar, com alguns ressaibos de
censura, o erro em que incorrem, ao colocar o interesse imediato e indivi­
dual acima do da pólis, e por lhes fazer ver que ele continua o mesmo e
que foram eles que mudaram. Realça o poder de Atenas e as virtualidades
da talassocracia e do império que exercem, acentua as obrigações que
esse domínio implica e exalta a glória eterna que dele deriva. Incita os
Atenienses a não se deixarem abater perante a peste e a enfrentarem o
flagelo, pois os que na sua conduta, Estados ou particulares, mostram
maior resistência, esses alcançam a vitória. É o último discurso que Tucí­
dides coloca na boca de Péricles, antes de o estadista morrer em 429
a. C., vítima da própria epidemia. Dele nos fica a imagem de um homem
seguro, lúcido, inteligente e atento aos interesses da cidade.
O momento não podia deixar de ser aproveitado pelos ambiciosos.
Se estes encontraram campo propício para actuarem no desespero, no
desânimo e na situação de incerteza, de inquietação e de dúvida provo­
cados pela Guerra do Peloponeso, colheram as armas para esgrimirem
no relativismo de valores e na ideologia da força que vinha ganhando
adeptos, graças a uma evolução que se processa ao longo do século V,
devida em especial ao ensino dos sofistas.
O alargamento dos conhecimentos relativos ao homem e ao mundo
originava o pôr em causa as antigas concepções míticas e levara a uma
tomada de consciência, por um lado, da infinita diversidade do gênero
humano e dos seus costumes e, por outro, da homogeneidade dessa mesma
humanidade ("). Daí que comece a aparecer uma concepção relativista
da verdade e a ideia de que só há opiniões, mas que surja também a noção
da existência de uma natureza humana que se sobrepõe à diversidade de
costumes, de leis e de convenções.

('“) Sobre o assunto vide J. de Romilly, Thucydide: La guerre du Péloponnèse II


(Paris, Les Belles Lettres, ^1973), pp. XIX-XXV.
Tucídides terá simplificado a narração e reduzido os episódios a traços muito gerais,
com o objectivo de não alienar a atenção da acção de Péricles. Omitiu mesmo os nomes e
silenciou os seus argumentos bem como os da embaixada então enviada por Esparta, o
que lhe valeu a indignação de Dionísio de Halicarnasso, De Time. 14. Desse modo, na
narração do historiador, a envergadura do homem de Estado e a sua qualidade de chefe
apareceu com outro realce, a uma luz mais forte. Vide J. de Romilly, Thucydide et T
impérialisme athénien (Paris, Les Belles Lettres, 1951), pp. 107-116 e 130-134.
(") Vide C. H. Baldry, The unity o f mankind in Greek thought {CmibnágQ University
Press, 1965), pp. 8-51.
134
o f a s c ín io d o p o d e r

Uma antropologia optimista de progresso substitui o pessimismo


anterior que concebia a História da Humanidade como um declínio desde
uma idade do ouro primordial - de que o mito das Cinco Idades de Hesíodo
é um eco. Segundo essa concepção - que tem antecedentes em Xenó-
fanes (fr. 18 Diels-Kranz) o homem passa do estado animal, ao estado
social, mais precisamente à vida da pólis que realiza a justiça por meio
da lei. A doutrina era defendida por Protágoras - se admitinnos que o
expendido no mito e no discurso subsequente do diálogo de Platão que
tem 0 seu nome (319c-328d) corresponde ao seu pensamento, como é
geralmente aceite (’-). Refere Protágoras que Prometeu, para remediar
a imprevidência e o erro de cálculo de seu irmão Epimeteu - que deixara
a raça humana desprovida de qualidades -, consegue dotá-la da habili­
dade artística e do fogo, roubados a Atena e a Hefestos, mas não teve
possibilidade de lhe conseguir a ciência política {sophía politikê) que
se encontrava junto de Zeus. Possuidores de parte divina, os homens
eram os únicos dentre os animais que honravam os deuses e lhes cons­
truíam altares e imagens; que adquiriram a arte de falar e de articular
palavras; que aprenderam a construir habitações, a fazer o vestuário e a
obter os alimentos da terra. Apesar disso, a princípio (322b-324a), viviam
separados e eram impotentes para lutar contra os animais, pelo que se
associaram e fundaram cidades para se defenderem. Contudo, uma vez
agrupados, lesaram-se uns aos outros, por não terem a techne politikê,
e dispersaram-se de novo, começando a perecer ('^). Zeus então, inquieto
com a ameaça do desaparecimento da raça humana, envia-lhes a aidôs
e a dike que penuitem nas cidades a hamionia e os laços que geram a
amizade. Estas qualidades não devem ser pertença apenas de uns tantos,
como as outras technai, mas de todos, pois quem não tem parte na aidôs
e na dike é um flagelo para a pólis.
Tal perspectiva genética leva a conceber a lei e a justiça como conven­
ções humanas destinadas a aperfeiçoar a natureza e não como princípios

C9 Parece-me excessivo querer ver no mito a transcrição das palavras de Protágoras,


como excessivo será também negar que possa reflectir algo da sua doutrina. Correcta,
quanto a mim, é a opinião de W. K. C. Guthrie, A history o f Greekphilosophy III, pp. 63-
-68, e de E. R. Dodds, The ancient concept o f progress and other essays on Greek
literatury and belief (Oxford University Press, 1973), pp. 9-10, de que as posições
espressas no mito correspondem, em substância, ao pensamento do sofista. Escreve o
segundo na p. 9: “The passage surely reflects not what Protagoras actually said but what
Plato thought he might have said in a given situation”. Cf. ainda, do mesmo autor. The
Greeks and the irrational (Berkeley, 1959), cap. 6, nota 31.
Em 319a, Protágoras dá à finalidade do seu ensino o nome de techne politikê.
Como observa W. Jaeger, Paideia I, pp. 378-379, a sua teoria e arte de educação não
receberam o nome de ciência, mas sim o de techne.

135
A GRÉCIA ANTIGA

transcendentes. Apropria experiência política de Atenas, desde Clístenes


a Péricles, pennitia ver nas leis o fruto de um contrato social, portanto
relativas a um detenninado contexto sócio-político e passíveis de serem
modificadas sempre que necessário. A prática política de Atenas continha
assim em genne um conflito entre a antiga concepção de Nomos trans­
cendente e a ideia de lei positiva, entre as vetustas leis não escritas e as
leis elaboradas pela cidade (’'*).
Na primeira metade do século V a. C., a pólis, objecto e sujeito da
prática e do pensamento políticos, não é ainda uma sociedade secularizada.
Reflexo de uma ordem superior desejada pela divindade, englobava os
homens e os deuses. Tomada no seu sentido lato - que inclui a totalidade
da ordem sócio-política, as instituições, as concepções religiosas, as
normas morais - , a lei {nomos), embora profundamente modificada, era
entendida como a expressão de princípios metafísicos e cósmicos. Toda
essa ordem complexa de princípios estabelecidos é posta em causa pelo
movimento dos sofistas. Pela primeira vez alguns homens, baseando-se
nas suas técnicas intelectuais, se afastam abertamente da tradição em
que estava fundada toda a sociedade. Interessados nos problemas con­
cretos do homem e nas relações entre as pessoas, dominam as técnicas
que permitem intervir nessas relações pela discussão - ou seja, pela
dialéctica - e pela arte de persuadir, a retórica, e fazem-se mestres no
ensino dessas técnicas. Partidários da concepção filosófica da impos­
sibilidade de aceder a outra verdade que não seja a da opinião, válida
apenas para aquele que a professa e comunicável por persuasão, os
sofistas defendiam que era possível persuadir do que quer que fosse e do
seu contrário. Afirmam assim a inexistência de qualquer valor absoluto,
cognoscitivo ou moral, e a omnipotência do fim a atingir. Não significa
isso que fossem necessariamente amoralistas ou niilistas; apenas prag­
máticos (’^). São disso exemplo os debates respeitantes à questão da
relatividade das leis, a oposição entre a natureza e a lei, entre o justo e o
útil, entre a razão e a religião. A questão da relatividade da lei conduz à
oposição entre lei e natureza {nomos e physis ). A lei é artificial, já que
é 0 reflexo de factores históricos contigentes, é exterior e imposta de

Ch Essa oposição era premente na altura e são frequentes as obras que procuram pôr
em destaque as leis não escritas ou as leis comuns como outros preferem chamar-lhes.
Vide J. Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos I, pp. 155-190.
Ch Da vasta bibliografia sobre os Sofistas vide, entre outros, W.K.C. Guthrie, The
Sophists, (Cambridge University Press, 1971); G.B. Kerferd, The Sophistic movement
(Cambridge, 1981); GB. Kerferd (ed.), The Sophists and their legacy {Wieshsiden, 1981);
M.H. Rocha Pereira, Cidtiira Grega, pp. 446-455. Para a tradução dos fragmentos vide
J.-P. Dumont, Les sophistes. Fragments et témoignages (Paris, 1969).

136
o f a s c ín io do poder

fora. A “necessidade da natureza” era assim limitada pela lei, que é


entendida como um controlo imposto aos instintos da natureza humana.
A oposição entre o justo e o útil não é mais do que outra maneira de
equacionar a mesma questão: com efeito, o homem é por natureza levado
a procurar o que lhe dá prazer e lhe parece um bem - embora possa ser
para outros um mal. A lei tenta evitar esse desiderato, impondo a justiça
e a virtude. Estes princípios transcendentes, e não apenas a lei que os
exprime, não são mais, segundo os sofistas, do que convenções sociais
que limitam a satisfação das necessidades da natureza humana.
Postulando embora a convencionalidade das leis, alguns dos sofistas
defendem, contudo, a sua utilidade com base na conveniência política e
social, como expressão dos valores que fundamentam a cidade. E o caso
de Protágoras, por exemplo. Por outro lado, o “Anônimo Jâmblico” afirma
que

é necessário defender as leis e a justiça, pois é nelas que reside o laço


comunitário das cidades e dos homens.

Apesar de haver quem fizesse a defesa da lei como um mal menor, a


maioria era sobretudo apologista da natureza e concebia a lei como uma
intolerável repressão daquela. Estava aberto o caminho à convicção de
que à artificialidade da lei se deviam sobrepor os intereses individuais, e
também à justificação do direito do mais forte ('^).
Segundo Protágoras (fr. 1 Diels-Kranz),

o homem é a medida de todas as coisas, das que são, enquanto são, e das
que não são enquanto não existem.

Esta tese significa que o homem - ou melhor, o cidadão - tem em si


a capacidade de julgar todos os valores, sejam eles morais, sociais, políticos
ou religiosos. Renunciando a atingir a verdade, o homem político deve
preocupar-se em persuadir os outros do valor da sua opinião. Esta preo­
cupação essencialmente antropológica levava, por um lado, a pôr em
dúvida as opiniões tradicionais em matéria de religião e, por outro, a
fazer da razão humana o fundamento de toda a acção e crença. O ateísmo,
0 agnosticismo, a indiferença religiosa ou á recusa dos mitos gregos como
visão correcta da divindade não podiam deixar de resultar da diftisão do

C®) Sobre a oposição nomos/physis no pensamento dos sofistas vide W.K.C. Guthrie,
The Sophists (Cambridge University Press, 1971), cap. 4; GB. Kerferd, The Sophistic
w ovew en/(Cambridge, 1981), cap. 10.

137
A GRÉCIA ANTIGA

ensino dos sofistas. Se pensarmos que toda a vida grega estava impreg­
nada de uma enornie variedade de rituais, práticas e crenças religiosas,
não é difícil concluir que o pôr em causa da religião era uma ameaça a
toda a sociedade e à própria segurança do Estado. É revelador que
Protágoras tenha sido condenado, segundo a tradição, por impiedade ou
desrespeito dos deuses - ele que exprimiu assim a sua posição de
agnosticismo (fr. 4 Diels-Kranz):
Sobre os deuses, não tenho possibilidades de saber se existem ou não,
nem qual é a sua fonna. Muitas são as razões que me impedem tal
conhecimento: a obscuridade da questão e a brevidade da vida (’’).
Esse ensino dos sofistas - que despertava considerável entusiasmo
entre os jovens, como se depreende do Protágoras de Platão (310a-
-311e, 314b-315d) - vinha responder a uma necessidade profunda de
Atenas que exigia um novo tipo de educação. A antiga educação aristo­
crática, baseada no conhecimento dos poetas antigos não correspondia
às necessidades de uma pólis democrática. Pelo contrário, os sofistas
estabeleceram um currículo de estudos e diziam-se detentores de um
saber que eram capazes de comunicar aos ouvintes: um saber que lhes
pemiitiria afrontar todas as questões e realizar, por conseguinte, uma
brilhante carreira política. O seu ensino, essencialmente pragmático,
fornecia aos jovens discípulos as técnicas de argumentação e persuasão
indispensáveis para se poderem impor na vida quotidiana, nos tribunais e
na Assembleia. Mas, devido ao alto custo das lições, o acesso a esse
ensino ficava restringido às classes sociais mais elevadas, em especial à
aristocracia. Curioso paradoxo; os sofistas trazem a Atenas o tipo de
educação necessária a um Estado democrático, mas a sua clientela reduz-
-se aos jovens provenientes dos meios mais abastados. Contribuem assim
para acentuar o desequilíbrio social, já que colocavam nas mãos dos que
possuíam mais recursos económicos uma técnica que lhes penuitia per­
suadir e consequentemente dominar o dêmos ('^).
O ensino dos Sofistas terá um papel fundamental no conflito de
gerações durante a Guerra do Peloponeso: há um enonue fosso entre a

Ch A tradução dos frs. 1 e 4 Diels-Kranz é de M. H. Rocha Pereira, Hélade, p. 289.


Platão contesta a opinião de Protágoras, afirmando que deus é que deve ser a medida
de tudo (cf. Crátilo 385e-386d; Teefó/o 152a e 178b-179d;Z,ew4,716c. Sobre o fr. 1 esua
interpretação vide W.K.C. Guthrie, The Sophists (Cambridge University Press, 1971),
pp. 183-184 e 188-189; M. H. Rocha Pereira, Cultura grega, pp. 447-448.
('*) Temos informações várias de que os sofistas se pagavam bem pelas suas lições:
e. g. Platão, Apologia 20a; Laqiies 186c; Hípias Maior 282b-e; Górgias 519d; Ménon
91 d; República 1 ,337d; Isocrates, Contra os sofistas 3.

138
o f a s c ín io do poder

geração educada na época de Péricles e a mais jovem, de que nos dão


conta as comédias de Aristófanes. Os jovens servem-se das técnicas
ensinadas pelos Sofistas para rejeitar a religião, desprezar a lei e contestar
a étiea dos antigos. Criticam a falta de capacidade de pensar por si pró­
prios que os mais velhos manifestam, ao manterem-se apegados a esque­
mas puramente tradicionais e limitativos. Estes, por sua vez, consideram
os jovens imorais e irreventes, atribuindo à nova educação a responsabili­
dade pela desagregação social que se vivia em Atenas.
A divulgação das doutrinas dos Sofistas - a que dão consistência e
oferecem campo propício a incerteza causada pela guerra e sobretudo a
insegurança que a todos trazia a peste dos inícios da década de vinte
que, como vimos, vitimou boa parte da população ateniense - começa a
transmitir a ideia de que nada tem valor, senão a vida do dia-a-dia, a
vitória momentânea e imediata, o luero, o interesse de cada um. Os acon­
tecimentos parecem dirigidos pelo acaso e não terem outras leis senão a
ocasião oportuna - o kairos (’^). Os chefes políticos e os ambiciosos
orientam o seu modo de proceder e tudo aferem - o justo, o belo, o
honesto - pelo útil {sympheron) e pelo vantajoso {chrêsimon).
São muitos os exemplos que, a esse respeito, dessa época nos chegam,
e tanto os podemos ir buscar a figuras históricas como a personagens de
obras literárias.
Um testemunho oferecem-no as Nuvens de Aristófanes, onde o Ra­
ciocínio Injusto proclama, por um lado, que a justiça não existe (vv. 901-
-902) e que ser sensato {sophron) e justo não tem utilidade (vv. 1060-
-1074); e, por outro, utiliza, como pedras basilares do seu sistema educativo,
0 método dos dois argumentos opostos e da transformação do mais fraco
em mais forte: um tal método educativo produz Fidípides, que considera
as leis como opostas à natureza e se reclama o direito de fazer leis para
si próprio, de ser um nomóteta (w . 1420-1429); que, depois de bater no
pai, justifica esse acto como um procedimento justo (vv. 1331-1450) (^°).
Propõe-lhe um debate em que provará ter-lhe batido com justiça (v. 1332)
e concede-lhe a escolha do raciocínio que quiser (v. 1336), o mais forte
ou o mais fraco (v. 1337), porque, de uma maneira ou de outra,’sairá

('^) Por exemplo, em Eurípides o acaso - a tyche - aos poucos adquire o estatuto de
divindade. Assim, na que é talvez a última tragédia que nos deixou - a Ifigênia em
Aulide-, as circunstâncias, o acaso dos acontecimentos têm papel determinante sobre o
agir dos homens.
(20) Perante a afirmação de Estrepsíades, no verso 1420, de que em nenhum lado a lei
positiva estabelece que se possa bater no pai, pergunta Fidípides se não foi um homem
como eles o primeiro que estabeleceu essa lei (v. 1421). Portanto, também ele deve poder
fazer uma lei (v. 1424) que permita aos filhos bater no pai.

139
A GRÉCIA ANTIGA

vencedor. Estrepsíades acaba por reconhecer, no fim do debate, que o


filho tem razão (w . 1437-1439). Só reage e vai deitar fogo à escola,
perante a perspectiva de ser convencido também de que é justo um filho
bater na mãe (w . 1440 sqq.).
Não faltam também exemplos históricos entre os quais podemos incluir
os do Trasímaco e do Cálicles que nos aparecem, respectivamente, na
República e no Górgias de Platão, embora se duvide de que expenda
doutrina pessoal o primeiro e de que corresponda a uma figura histórica
0 segundo. Para Trasímaco, a justiça é a conveniência do mais forte, de­
finida a partir do interesse do poder estabelecido, isto é, do mais forte: o
indivíduo numa tirania, o pequeno número na oligarquia, ou o povo numa
democracia. A injustiça apresenta-se não só como uma coisa útil e vanta­
josa (344c), mas ainda como virtude e sabedoria {aretè e sophia 348e),
pelo que, na opinião de Trasímaco, se pode concluir (348d) que os injustos
são sensatos e bons (^‘).
Não são muito diferentes as idéias do controverso Cálicles do Górgias:
devem os mais fortes governar os mais fracos, não sendo as leis e a
igualdade senão expedientes inventados pelos últimos para obstar a que
os naturalmente mais fortes mandem neles. Afirmada a existência de
fortes e fracos, tanto entre os homens como entre os animais, se a lei na­
tural assegura o sucesso dos fortes entre os animais, entre os homens os
fracos organizaram-se inventando a justiça e a lei para impedir o triunfo
dos mais fortes. Submeter-se ao contrato social e reprimir os seus desejos
é moral de fraco; a do forte consiste na libertação dos instintos e no des­
respeito da lei. Devem, por isso, deixar-se crescer à vontade as paixões
e ser-se capaz de as satisfazer, graças à coragem e à inteligência; nisso
reside afinal a excelência

(-') Cf. Platão, República 1, 336b-354c, sobretudo 343b-344c.


Sobre a concepção de justiça de Trasímaco na República vide E. Barker, «Thrasy-
machus’ conception o f justice», in A. Sesonske (ed.), P lato's “Republie Interpretation
and criticism (Belmont, California, 1966), pp. 17-20.
Observa J. de Romilly, La loi dans la pensée grecque (Paris, Les Belles Lettres,
1971), pp. 91-92 que a doutrina atribuída na República a Trasímaco não é fruto de uma
reflexão pessoal, mas antes o que ele ouvia e via à sua volta. Posição semelhante é a de
Guthrie, History o f Greek philosophy III (Cambridge University Press), p. 92, ao afirmar
que Trasímaco não expende uma doutrina sua, mas teve sobretudo a intenção de desmas­
carar a hipocrisia do tempo e mostrar a que ponto o sentido da palavra justiça estava
pervertido.
(*9 Platão, Górgias 482 sqq., sobretudo 483a-494c e 491b-492e.
Parece-me correcta a opinião de J. de Romilly, La loi dans la pensée grecque (Paris,
Les Belles Lettres, 1971), pp. 93-95 (c f ainda pp. 104-106 e 112-113) de que Platão, ao
criar Cálicles, tinha a finalidade de discutir e criticar o amoralismo do seu tempo.

140
o f a s c ín io do poder

Maior clareza apresenta a oposição entre a lei e a natureza - nomos


e physis - no fr. 44 A Diels de Antifonte. Começa o sofista por manifestar
uma posição prática em relação à lei e ao seu cumprimento, mas parte
dai para a afinnação da superioridade da natureza:

A justiça consiste pois em não exceder as leis da pólis de que se é cidadão.


O homem terá a maior vantagem em usar de legalidade, se é perante
testemunhas que tem em conta a soberania das leis; mas, se está sozinho,
sem testemunhas, em respeitar os ditames da natureza. O que é da lei é
acidente, o que é da natureza é necessidade; o que é da lei é estabelecido
por convenção e não se produz por si mesmo; o que é da natureza produz-
-se por si e não resulta de uma convenção.
col. 1.6-33
A maior parte do que é justo segundo a lei encontra-se em conflito com a
natureza.
col. 2.26-30

Desse modo. Antifonte faz uma apologia da natureza e considera a


lei um mal menor (^^).
Em Tucídides, os exemplos abundam - caso, entre outros, do debate
sobre o destino a dar aos habitantes de Mitilene, depois da sublevação e
rendição dessa pólis em 427 (Tucídides 3.35-50) (^'*); do relato da conquista
e destruição de Platéias, aliada de Atenas, pelos Peloponésios, também
em 427, e subsequente debate sobre a sorte dos vencidos (Tucídides 3.
52-68); o episódio do bem conhecido “Diálogo dos Mélios” (Tucídides 5.
85-111). Merecem realce os elucidativos capítulos 82 e 83 do livro III,
que lapidarmente nos mostram a mudança radical operada na mentalidade
grega durante a segunda metade do século V. Embora o historiador des­
creva neles a transformação que a guerra civil teria provocado em Corcira
por volta de 427, as suas afirmações têm uma ressonância mais vasta Q^)\

(f) Para um comentário ao fr. de Antifonte e à sua doutrina da oposição nomos/physis


vide C. Moulton «Antiphon the sophist, on Truth», TAPhA 103 (1972) 331 sqq.; E.
Lévy, Athènes devant la défaite de 404. Histoire d ’une crise idéologique (Athènes, École
Française d’ Athènes, 1976), pp. 96-105.
A apologia da natureza conduziu também a uma concepção unitária da humanidade:
se os homens são iguais do ponto de vista fisiológico e dos instintos, será convencional a
oposição entre Gregos e Bárbaros. Vide J. Ribeiro Ferreira, Hélade eHelenos 1, pp. 247-
-252.
(^h Vide J. de Romilly, Thucydide et T impérialisme athénien (Paris, Les Belles
Lettres, 1951), pp. 140-143.
A data tardia que se atribui à composição deste passo permite pensar que Tucídides
quisesse dar aqui uma visão mais ampla. Vide R. Weil, Thucydide III (Paris, Les Belles
Lettres, ^1969), pp. XXVI-XXVII.

141
A GRÉCIA ANTIGA

a ambição a comandar tudo, cada um a lançar mão de todos os meios, sem


desdenhar nenhum, para triunfar sobre os seus opositores, e sem ter na
mínima conta os limites da justiça e os interesses da cidade (Tuc. 3.82.7).
Estavam sempre dispostos, para satisfazerem as rivalidades imediatas, a
condenarem os contrários, mesmo que pela injustiça e pela força. Os jura­
mentos serviam apenas para mais facilmente enganar os outros; campea­
vam a fraude e a mentira, pelo que a maioria preferia ser apelidada de
esperta, sendo canalha, a ser considerada estúpida, sendo pessoa de bem.
Como se vê, estamos perante doutrinas muito difundidas; Platão tem
até o cuidado de as apresentar como idéias que andavam no ar e eram
moda (cf Rep. 6 .493a), que todos pensam, mas que ninguém ousa dizer
{Górgias 492d) (^^). Veiculadas pelos sofistas, essas idéias e doutrinas
ganham de pronto adeptos e passam a infonnar o dia-a-dia da cidade.
Inoculadas nos jovens e ingeridas avidamente pelos ambiciosos, provocam
a dissolução dos costumes, o desmoronar dos valores tradicionais e levam
a pôr tudo em causa. Encontravam eco, em especial, as doutrinas do poder
do mais forte - observa-o J. de Romilly - , sobretudo nos meios hostis à
democracia (^’).
Para julgar uma sociedade anterior à nossa, temos sempre de nos
colocar no contexto, resistindo à tentação de transferir, sem mais, práticas
hodiemas para uma situação muito diferente. E contudo há pontos em
que voltamos a aproximar-nos. Assim, se o que hoje se chama os media
não existia na antiga Atenas, onde primava a palavra e não a escrita, a

(25) Vide J. de Romilly, Thucydide et V impérialisme athénien (Paris, Les Belles


Lettres, 1951), p. 253.
Sobre a ideologia do mais forte, a sua evolução e premência com que se pôs na
segunda metade do século V, sobretudo nos últimos anos da Guerra do Peloponeso, vide
Ed. Lévy, Athènes devant la défaite de 404. Histoire d ’une crise idéologique, (Athènes,
École Française d’ Athènes, 1976), pp. 105-145.
Sintomática da mudança de mentalidade é a evolução do sentido de timê que se
verifica na segunda metade do século V a. C.. Observa Ed. Lévy que, a partir de cerca de
430, começa a aparecer cada vez mais intimamente ligada ao poder (dynamis) e a sua
procura a confundir-se mais com a conquista deste. Se, de início, ainda o poder não é
procurado por si mesmo, mas como meio de ascender à timê e à glória (kleos), com o
decorrer da Guerra do Peloponeso a timê desvaloriza-se e passa a surgir como um pretexto:
adquire um sentido quase pejorativo em face de dynamis, de que já não constitui a
justificação, mas, ao contrário, dela a recebe. Daí deriva a exigência do ódio do dominado:
o poder deve procurar inspirar ódio e medo em quem for dominado, pois desse modo é
que ressalta a força e a timê. Vide Ed. Lévy, Athènes devant la défaite de 404. Histoire d ’
une crise idéologique, pp. 111-119.
(*9 Vide J. de Romilly, Thucydide et V impérialisme athénien (Paris, Les Belles
Lettres, 1951), p. 254.

142
o f a s c í n io d o p o d e r

oralidade recomeça a adquirir nos nossos dias importância cada vez mais
significativa através da rádio e da televisão. Mas, se hoje se pensa que
os partidos políticos são essenciais à democracia e se tende a considerar
que devem ser os dirigentes desses partidos a decidir e não o povo, em
Atenas a situação era consideravelmente diversa. Estava-se, como já
referi, perante uma democracia directa e plebiscitária na qual o povo, o
dêmos, tinha o direito de decidir soberanamente em todos os domínios e
de, constituído em tribunal, julgar toda e qualquer causa - civil ou política,
pública ou privada - , por mais importante que fosse (^^).
Em face disso, o dirigente político estava muito mais dependente da
vontade do dêmos reunido em Assembleia - sempre volúvel e pronto a
responsabilizar os seus governantes. Daí que estes vivessem em constante
tensão e precisassem de convencer a pólis, dia a dia, da superioridade
das medidas que propunham. Ou seja, precisava de ser, por excelência,
um demagogo - no sentido neutro da palavra de “condutor do povo” e
não com a carga negativa que começa a adquirir no último quartel do
século V, que acumulou ao longo dos tempos e que hoje a acompanha.
Os demagogos - no sentido neutro da palavra, acentue-se mais uma
vez - tendem a exercer um papel tanto mais significativo quanto maior for
o peso atribuído à intervenção efectiva dos cidadãos nos destinos da so­
ciedade e nas decisões do Estado. Para Finley, na democracia ateniense,
os demagogos constituíam elementos estruturais. Em sua opinião, sem
eles, o sistema não funcionaria em pleno e o temio deve ser aplicado a
todos os líderes políticos de Atenas, sem olhar à classe ou pontos de
vista. Conclui, por isso, que os demagogos devem ser julgados, individual­
mente, pelas suas realizações e não pelos seus modos ou origem Q^).
O malogro relativo da estratégia de Péricles foi aproveitado pelos
seus adversários e deu ânimo aos inimigos da democracia. O filho de
Xantipo era, havia muito tempo, o símbolo e o guia do regime de Atenas.
Pela primeira vez o povo experimentava descontentamento, ou mesmo
revolta, e parecia não estar com ele. Com isso concorria a sensação de
cólera dos deuses contra a cidade, manifestada na peste. Uma série de
condições que os adversários do regime não deixaram de aproveitar.
Começaram por instaurar processos contra Péricles ou contra os seus
amigos (casos de Anaxágoras, Protágoras), acusando-os de corrupção e
impiedade. Sujeitam mesmo o estadista à prestação de contas, condenam-
-no a uma pesada multa e destituem-no (cf Tuc. 2. 65. 3). Desse modo,
no segundo ano da Guerra do Peloponeso, esse governante sofre as con-(*)

(**) Vide M. I. Finley, Democracy, ancient and modern (London, ^ 1973), pp. 73-75.
tf ) «The Athenian demagogues», \n Studies in ancient society (London, 1974), p. 21.

143
A GRÉCIA ANTIGA

sequências do descontentamento e desespero populares (^°). No entanto,


voltam a reelegê-lo como primeiro estratego e reconduzem-no na liderança
de Atenas. E nesse posto que moiTC em 429 a.C., vitimado pela peste.
Ora a partir dessa data parece ter-se verificado uma evolução conside­
rável: então, pela primeira vez o povo escolheu um chefe que não vinha
da classe aristocrática - Cléon, um comerciante de armas. A essas perso­
nalidades que, originárias de meios não nobres, atingem o primeiro plano
político os autores antigos e adversários, de modo geral os aristocratas
ou os círculos aristocráticos partidários da oligarquia, passam a chamar
“demagogos”, em tom depreciativo.
O aparecimento de tais homens nas primeiras linhas foi evidentemente
aproveitado pelos oligarcas, como motivo de propaganda e de protesto.
Acendem-se as críticas à democracia, por permitir e facilitar o acesso
de incompetentes à chefia da pólis.
Na opinião de Forrest, três factores se conjugaram para dar origem à
reacção contra os demagogos: o facto de a geração que entrava na car­
reira política na década de 420 se não lembrar já da crise e reformas de
462 que haviam tirado ao Areópago boa parte das suas prerrogativas; a
circunstância de a aristocracia dessa geração se considerar a primeira
que teve de fazer face às pretensões de acesso a todos os órgãos do
poder por pessoas como Cléon; o facto de ter sido ela a primeira a sentir
os efeitos globais de uma nova revolução intelectual devida ao impulso
do ensino dos sofistas (^').
Cheios de ambições políticas e conscientes da sua preparação para
intervir na pólis e serem seus dirigentes, esses jovens oligarcas da geração
de 420 não podiam aceitar que elementos vindos de meios que não o seu
tivessem ascendido à direcção da pólis. Transfonnaram, por isso, os seus
preconceitos contra tais personalidades em crítica à própria democracia.
Sentindo-se injustamente preteridos, lançaram mãos das mesmas annas
de que se servia Cléon, mas enquanto este procurava influir directamente
sobre o dêmos na Assembleia, esses jovens aristocratas ambiciosos -
por não acreditarem nas virtudes da democracia, umas vezes, e por não
terem a audiência a que se julgavam com direito, outras - actuavam
clandestinamente em clubes oligárquicos conspirativos

f °) Cf. Tucídides 2 .6 5 .3 -4 . Embora Plutarco, Per. 32 situe o decreto de Dracontides


na altura da alegada acusação contra Fídias, A. W. Gomme coloca nesta ocasião tanto o
referido decreto como a quase totalidade dos processos contra os amigos de Pericles.
(^') Vide Forrest, La naissance, p. 224.
6 9 C f Tucídides 3.82.5-6, 8.54.4 e 65.2; Lísias, ContraEratóstenes A3', A.nstò\.e\QS,
AP. 34.3. Sobre essas associações vide GM. Calhoux, Athenian Clubs in Politics and

144
o f a s c ín io d o p o d e r

Tomemos como exemplo o comportamento de Alcibíades, tal como


vem descrito em Tucídides: um retrato bem modelado da actuação de
um aristocrata demagogo, arrastado pela ambição.

Jovem, belo, de grande inteligência e lucidez política, Alcibíades


acalentava o sonho de ter na pólis uma influência análoga à de Péricles
com quem tinha vivido e de quem era sobrinho por parte da mãe. Cheio
de vaidade e soberba, tinha-se por um ser superior e, segundo Tucídides
6.16, costumava afirmar que um homem rico e afortunado como ele não
se pode considerar igual aos outros. Sem escrúpulos de qualquer espécie,
vê na religião, na moral, na tradição e nas leis meras convenções que
apenas se cumprem quando nos convém ou se daí tiramos vantagem;
liga-se ora aos oligarcas ora aos democratas, de acordo com as circunstân­
cias do momento e as suas conveniências políticas; procura somente a
glória pessoal e por ela não hesita em recorrer à traição, mesmo contra a
sua cidade. A ambição coloca-o contra a paz assinada por Esparta e Atenas
em 421, que recebeu o nome de Paz de Nícias, por este governante -
originário também de uma das mais conceituadas famílias atenienses -
ser o seu principal promotor e negociador. Homem conservador e de
mais idade do que Alcibíades, o confronto entre os dois, um a defender a
guerra outro a paz, é acima de tudo um conflito de temperamentos, de
interesses, de gerações. Isso não impediu que, nos inícios de 417 talvez,
os dois se aliassem, para se oporem a um adversário comum, Hipérbolo,
0 condenarem ao ostracismo (cf Plutarco, Alc. 13; Nícias 11) e, de se­
guida, se gabarem, um e outro, de terem merecido a confiança do povo.
Alcibíades manobra com habilidade entre os antigos aliados de Esparta
e consegue que os Argivos e os Mantineenses abandonem a Simaquia
^do Peloponeso, se liguem a Atenas e declarem a guerra aos aliados de
outrora: uma política que desemboca no revés da batalha de Mantineia,
em 418 a. C. (” ).

Litigation (Austin, 1913, repr. Roma, 1964); F. Sartori, Le eíerie nella vita política ateniese
dei VIe Vsecolo a.C. (Roma, 1967), sobretudo pp. 67 sqq.; R.K. Sinclair, Democracy
and Participation in Athens, pp. 141-142.
(” ) Cf. Tucídides 5. 65-75. Da numerosa bibliografia sobre a batalha de Mantineia
vide A. W. Gomme, Essays in Greek history and literature (Oxford, Basil Blackwell,
1937), cap. 8; V. Ehrenberg, From Solon to Socrates (London, Methuen, ^1973), pp.
292-293; D. Kagan, The Peace ofNicias and the Sicilian Expedition (Ithaca, Cornell
University Press, 1981), pp. 107-137; J. F. Lazenby, The Spartan army (Warminster,
Aris& Phillips, 1985), pp. 41-45 e 125-134; W. M. EW\s, Alcibíades {London, Routledge,
1989), pp. 43-45.

145
A GRÉCIA ANTIGA

Em 415, com o pretexto de ir ajudar cidades democráticas da Sicília


atacadas por Siracusa, Alcibiades defende com calor uma expedição a
essa ilha, com a finalidade de estender o domínio ateniense para ocidente,
e, apesar da oposição de Nícias e do trabalho se sapa de elementos oli-
gárquicos, consegue que a Assembleia aprove a sua proposta (cf Tucídides
6. 1. 1, 6. 1 e 8-26). Preparada a empresa e pronta para partir, verifica-
-se a mutilação dos Hermes, que muitos consideram um sinal de mau
presságio para a expedição - objectivo que os seus verdadeiros autores
possivelmente pretenderiam atingir-, e são espalhadas notícias de paródias
aos Mistérios de Elêusis. Os dois actos - tanto um como o outro, sacrílegos
- são atribuídos a Alcibiades pelos seus opositores (cf Tucídides 6.27-
-29). Este defende-se e pede que o julguem e o condenem à morte, no
caso de ser considerado culpado. Os adversários contrariam essa pre­
tensão, alegando que a expedição não podia sofrer retardos e que o caso
seria apreciado no regresso. O objectivo era chamá-lo depois da partida
da expedição, para evitar que o julgamento decorresse na presença das
forças que lhe eram maioritariamente favoráveis (Tucídides 6. 27-29;
Plutarco, Alcibiades 18. 4-19). Assim acontece, de facto, pouco depois
de a expedição ter ehegado à Sicília. Na sua ausência os adversários
haviam orquestrado a ideia de um golpe antidemocrático sob a chefia de
Alcibiades, lançando mão da inveja, da superstição, da mentira. A partir
de círculos secretos - as heterias - os oligarcas faziam trabalho de sapa
e lançavam mão do clássico método da divulgação de boatos, propaganda
e ameaça Q‘^). Atenas vivia dominada pela suspeita e pelo medo (cf
Tucídides 6. 53. 1-2 e 60-61).
Entregue o comando das forças a Nícias que, além de não acreditar
no sucesso da empresa, era supersticioso e um homem sem rasgo e
iniciativa, a expedição tenuina por um rotundo fracasso em 413 a. C..
Entretanto Alcibiades consegue iludir a escolta que o reconduzia a
Atenas e foge para Esparta. Mas, apesar de ausente, a Assembleia faz-
-Ihe 0 julgamento e condena-o (cf Tucídides 6. 88.9-12). Recebido pelos
Lacedemónios, esse controverso dirigente, já que não tinha podido satis­
fazer as suas ambições ao serviço do sua pólis, não hesita em voltar-se
eontra ela, revelar aos Espartanos, Coríntios e Siracusanos, reunidos, os
intentos dos Atenienses e sobretudo aconselhar a que incitem os aliados
destes na lónia a sublevarem-se e a que invadam a Ática e fortifiquem

p “*) Esses clubes secretos reuniam muitos dos jovens que, educados pelos sofistas, se
julgavam os mais competentes e preparados para governar a pólis e, num regime democrático
que tinha a tiragem à sorte como método privilegiado de eleição, se consideravam coarctados
nas sua pretensões.

146
o f a s c ín io do poder

Decelia, a cerca de vinte e quatro quilómetros de Atenas (cf. Tucídides


6.91): desse modo, além de constituírem uma ameaça constante de ataque
à cidade, impediam a obtenção fácil de recursos e mantimentos, tinham
à sua mercê os campos atenienses e estavam em condições de paralisar
a exploração das minas do Láurion. Era um rude golpe - quase mortal -
na economia de Atenas.
Objecto de suspeição entre os Espartanos, Alcibiades refugia-se em
412 na corte persa do sátrapaTissafemes. Aí, desejoso de voltar a Atenas,
uma vez que a democracia o havia condenado, estabelece contactos com
os oligarcas e outros decontentes com o regime, promete-lhes o apoio e
a ajuda monetária de Tissafemes e colabora no golpe oligárquico de 411
que instituiu o chamado Governo dos Quatrocentos. Estes não lhe pos­
sibilitam, contudo, 0 regresso, como esperava, pelo que se alia aos seus
adversários. Ora na altura da instauração do regime de 411, os marinhei­
ros, ancorados na altura em Samos, não aceitam o regime, constituem-se
eles próprios em verdadeira Assembleia, elegem os seus dirigentes e
apressam a queda do Governo dos Quatrocentos. Alcibiades vai então a
Samos e, pela sua eloquência, leva a frota a elegê-lo estratego e a confiar-
-Ihe o comando das operações. A frota quer dirigir-se a Atenas para
repor a ordem, mas Alcibiades, a quem a pólis ainda não levantara a
atímla e a condenação à morte, opõe-se. Envia, contudo, emissários a
exigir a dissolução dos Quatrocentos e a reposição daBoiilê legal. Assim
acontece em Setembro de 411, numa Assembleia que não repõe de imediato
a democracia. Tal só se verificará no Verão de 410. Regressa então a
Atenas, depois de lhe ser levantada a condenação, mas em 406 tem um
insucesso frente à frota espartana. Temendo pelo seu futuro, não retoma
à cidade e recolhe-se aos seus domínios do Quersoneso, onde a morte
acaba por o colher (cf Xenofonte, Helénicas 1. 5; Plutarco, Alc. 35).
Alcibiades não era caso único e, naturalmente, actuações deste tipo
provocam o alheamento, o desencanto e o desinteresse das pessoas,
sobretudo das honestas que, a cada passo, se sentem ludibriadas e não
estão dispostas a entrar no jogo da necessidade da mentira; no jogo da
distorção dos factos, dos valores, dos conceitos e do sentido usual das
palavras. Temos notícias várias de que tal alheamento feria já Atenas
nos últimos anos do século V a. C.. Os Acarnenses de Aristófanes - co­
média apresentada nas Leneias de 425, portanto já no sexto ano da Guema
do Peloponeso - fomecem-nos um exemplo dessa atitude. Diceópolis,
um camponês - e os camponeses eram os que mais sofriam com a
guerra - vem à cidade para, na Assembleia, votar a favor da paz. Chega
cedo e encontra vazio o local onde normalmente se efectuavam as reu­

147
A GRÉCIA ANTIGA

niões, a Pnix (w. 17 sqq.). É dia de Assembléia regular e amargura-o


verificar a indiferença existente: os cidadãos preferem ficar na Agora a
conversar. Ora, se tal se passava na década de vinte, o desinteresse pelos
assuntos da pólis generaliza-se com o decorrer da Guerra do Peloponeso.
Depois da morte de Péricles, embora, no conjunto, as grandes linhas
da política por ele traçada se tivessem mantido, os dirigentes que se lhe
seguiram não tinham a personalidade e o carisma desse grande estadista;
também não tinham os princípios e valores que manifestava e subjaziam
ao seu agir. Em vez de serem verdadeiros condutores do povo, acon­
selhando-o e indicando o caminho da prudência, do bom senso e da razão,
deixaram-se arrastar pela sua vontade - sempre volúvel e a cada passo
dada a extremos - , quando não incitavam mesmo as suas inclinações e
caprichos. Sem a estatura e as qualidades do seu antecessor, com eles a
cidade perdeu o equilíbrio e a moderação e envereda por uma política de
guerra total, sem quaisquer contemplações nem entraves de justiça, e de
domínio mais severo dos aliados; de democracia mais radical e controlo
do dêmos mais absoluto f ^).
Não interessa ao meu objective expor o suceder das operações, re­
contros e peripécias várias ao longo da Guerra (^^). Sublinho apenas que,
alterada a táctica por Cléon - que, pouco tempo depois da morte de
Péricles, se toma primeiro estratego e por consequência ascende à chefia
da pólis - e arrastada Atenas para uma guerra ofensiva e total, as ope­
rações se desenrolam com sucessos e fracassos para uma e outra parte.
Os beligerantes assinam uma paz em 421 - a Paz de Nícias - que nunca
foi plenamente respeitada por todos. Em 415 as hostilidades estavam de
novo abertas e Atenas empreende uma expedição de grande envergadura
à Sicília. A empresa termina em 413 por um fracasso que destrói quase
por completo a frota ateniense e vitima muitos homens. A partir daí,
lentamente, Atenas caminha para a derrota que se verifica em 404.
Por pressão da Guerra do Peloponeso e sob a acção nociva da ambição
dos seus dirigentes, Atenas caminhara para um radicalismo cada vez
mais violento e intolerante que agravou a sua situação, quer interna, quer
externa: avolumou o coro de protestos contra o seu domínio e ofereceu

f b 'Vide Cl. Mossé, Les institutions grecques, p. 36; R.K. Sinclair, Democracy and
Participation in Athens, pp. 204-207.
Para informações sobre a Guerra do Peloponeso vide, entre outros, Cl. Mossé,
Histoire d ’une démocratie: Athènes, pp. 67-96; G.E.M. S.‘®Croix, The origins o f the
Peloponnesian War, pp. 50-88 e 205-292; Éd. Will, Le V"siècle (510-403), pp. 315-400;
D. Kagan, The Archidamian War (Ithaca, 1974) e The Peace ofNicias and the Sicilian
expedition (Ithaca, 1981); A. Vov^&W, Athens and Sparta (London, Routledge, 1988), pp.
136-213.

148
o f a s c ín io do poder

campo fecundo às críticas dos antidemocratas, cada vez mais insistentes


nas duas últimas décadas do século V. Esses dirigentes não souberam ou
não foram capazes de continuar a política de Péricles nem de manter o
equilíbrio por ele conseguido. E assim, se Atenas, nos anos anteriores à
Guerra do Peloponeso, não manifestava grandes fissuras entre as classes
sociais, o conflito veio destruir o equilíbrio alcançado e exerceu papel
preponderante na ruptura do sentimento de comunidade: transforma
profiindamente as estruturas político-sociais, provoca dissensões internas,
afeeta duramente a vida e a economia. A um período de estabilidade, de
certezas e de relativa serenidade sucede-se uma época de convulsões,
de inquietação e de dúvida que se reflecte em todos os sectores da vida
da cidade: desde a vida quotidiana às convicções religiosas, ao teatro, à
cerâmica e à escultura, pondo em causa todo o equilíbrio político, social
e económico da pólis.

Em conclusão, as três últimas décadas do século V, em que decorreu


a Guerra do Peloponeso, constituíram um período conturbado com graves
incidências nos diversos domínios da pólis grega: económico, político, so­
cial e dos valores. Em tais situações de crise, os grandes homens, como
Péricles, podem marcar poderosamente a vida da sociedade. Mas, se
não há uma personalidade que sobressaia e se imponha, os confrontos e
a luta pelo poder tomam-se a cada passo demolidores, a ponto de todos
os meios serem utilizados para satisfazer a ambição. Atenas, como cidade
democrática que dava primazia à liberdade de expressão (a isegoriá),
viu-se mais do que qualquer outra pólis grega sujeita a essas disputas. O
triste espectáculo que, após a morte de Péricles, ela tão dramaticamente ■
viveu e aos poucos a depauperou e a levou à derrota na Guerra do Pelo­
poneso, continuou a repetir-se ao longo dos tempos até aos nossos dias.
O paradigma da cidade de Péricles - como sistema de vida social, cultural
e política - é que se perdeu para sempre.

149
A GUERRA E A PAZ NA PÓLIS GREGA

A guerra e a paz constituíram dois vectores com papel de relevo na


sociedade e na cultura gregas, mas a importância de uma e de outra não
se manifesta ao mesmo tempo; também se não pode afinnar categorica­
mente que a paz precedeu a guerra ou vice-versa.
Logo nos primórdios da cultura grega nos aparece a afimiação da
guerra como um ideal nobre, mas nela se imiscui também a nostalgia da
paz. Estou a referir-me aos Poemas Homéricos - a Ilíada e a Odisseia
que, como é geralmente aceite, são fmto de uma improvisação oral e, por
conseguinte, transmitem possivelmente concepções e dados anteriores à
data provável da sua composição, o século VIII a.C. (')■
A Ilíada é um poema de guerra e o ideal aí proposto, simbolizado no
seu herói principal, Aquiles, reside na coragem e superioridade em com­
bate. É 0 que vem explícito num passo do canto VI, em que se encontram
frente a frente um príncipe aliado dos Troianos e um aqueu. Glauco e
Diomedes respectivamente, e, como é de bom tom entre os heróis homé­
ricos, perguntam-se pela linhagem um do outro. Ao falar dos antepassados
refere Glauco a respeito do pai:

Mandou-me para Tróia, recomendando-me com insistência


que fosse sempre valente e superior aos outros,
a fim de não envergonhar a linhagem paterna,
a mais conceituada em Éfira e na vasta Lícia.
(w. 207-210)

(') Não recuo além dos Poemas Homéricos, até aos Micénios que, como se sabe desde
a decifração do Linear B, já eram Helenos e falavam grego, porque os dados que possuímos
são escassos e os textos omissos, por serem constituídos, na sua quase totalidade, por
listas e enumerações. Apesar disso, os testemunhos arqueológicos e a lenda permitem
afirmar que a guerra não era um fenómeno desconhecido entre as cidadelas micénicas.
Sobre o assunto vide J. Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos I, pp. 34-36.
Poderíamos lançar mão dos Poemas Homéricos que se referem a acontecimentos dos
tempos micénicos e nos fornecem dados sobre essa época. No entanto não sabemos em
que medida a sociedade neles descrita é histórica e as suas características correspondem
às micénicas. Encontramo-nos perante a chamada Questão homérica e a debatida
historicidade dos Poemas Homéricos. Sobre o assunto vide M. H. Rocha Pereira, Cultura
Grega, pp. 49-68; J. Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos I, pp. 40-62.

151
A GRÉCIA ANTIGA

Ser sempre valente no combate e superior aos outros, para não enver­
gonhar a linhagem paterna, é afinal a excelência ou superioridade - a
aretê, como diziam os Gregos - que visa este herói para a sua vida (^).
Este ideal é indirectamente completado por outros dois passos que se
referem a Aquiles ou com ele estão relacionados. Um situa-se no canto
primeiro, quando o poeta infomia que o herói, após a ofensa recebida de
Agamémnon, irado, se retirou do combate:

Nem frequentava a assembléia, que dá glória aos homens,


nem o eombate, mas ali pennaneeia eonsiimindo
o seu precioso tempo, com saudades do alarido e da luta.
(w. 490-492)

O outro passo vem integrado no célebre episódio da Embaixada a


Aquiles, no canto IX. Ao dirigir-se ao seu antigo pupilo. Fênix diz-lhe que
Peleu lhe dera por missão ensinar o filho
a saber fazer discursos e a praticar nobres feitos.(^)
(v.443)

Aquiles, o herói máximo do poema, fora portanto preparado para praticar


nobres feitos em combate, mas também para conseguir impor-se na
assembléia, através da arte de persuadir. O ideal da Ilíada não é pois
apenas a coragem no combate, mas inclui já uma componente intelectual.
Na Odisséia a aretê continua a incluir a força, a coragem e a elo­
quência, mas 0 ideal amplia-se: passa a associar, como está bem patente
no herói do poema, Ulisses, a astúcia e a habilidade em desenvencilhar-
-se, em todos os momentos, das situações mais difíceis. A Odisséia
constitui um poema de regresso - de nostos. E afinal, como anuncia
logo o seu primeiro verso, o poema do “homem dos mil expedientes que
muito sofreu”, nos longos anos que, após a Guerra de Tróia, andou errante
pelo Mediterrâneo, sempre a ansiar pelo regresso a casa. Nele predomina
e desejo de retomo ao lar, de repouso e de paz. Ainda aponta, como

f ) A aretê, como é conhecido, indica de início apenas a excelência ou mérito, que pode
abranger vários sentidos: a coragem em combate m Ilíada, em Calino e Tirteu; a justiça e
o trabalho em Hesíodo; a justiça em Sólon e Teógnis de Mégara, para referir apenas
alguns. Só a partir de Sócrates passa a ter o significado preponderante de virtude. Sobre
a aretê e sua importância na Hélade vide W. Jaeger, Paideia (trad, port., Lisboa Aster, s.
d.), pp. 21-33; A. W. H. Adkins, Merit and responsibility. A study in greek values (The
University o f Chicago Press, 1960), caps. 3 e 4 e Moral values and political behaviour in
ancient Greece (London, Chatto and Windus, \912),passim.
(h A tradução dos passos da Ilíada é de M.H. da Rocha Pereira, Hélade, pp. 40, 32
e 45, respectivamente.

152
A GUERRA E A PAZ NA POLIS GREGA

tónica principal do homem, a coragem e a excelência em combate, mas


sente-se nele como que uma nostalgia da paz: a história do homem que
sente curiosidade de tudo e tudo quer experimemtar, do homem de espírito
aberto que, através de variadas aventuras e dificuldades que ultrapassa
graças ao seu engenho e astúcia, recupera a paz e a hanrionia do lar e da
família ('*).

Estes dois vectores continuaram presentes, naturalmente, ao longo


da história da Grécia, embora com predominância significativa para o
tema da guerra, sobretudo até ao dealbar do século IV a. C.
Um relance pela história da Hélade deixa aos homens de hoje, sensi­
bilizados para o espírito e os problemas da paz, a confrangedora impressão
de que as cidades gregas apenas pensavam na guerra e para ela viviam.
A educação nos primeiros tempos tinha por finalidade a preparação
do cidadão para a defesa do seu país. Era por isso, de início, um ensino
apenas militar, que incluía evidentemente os exercícios físicos. Pretendia
adestrar no manejo das anuas os futuros defensores da pólis. Só aos
poucos 0 treino militar exclusivo foi sendo substituído por um sistema
educativo que visava o desenvolvimento harmónico das faculdades. O
lugar onde isso se verifica primeiro é em Atenas, no século VI a. C.(^).
O Grego tinha um espírito particularista e apenas se sentia realizado
e livre em pequenas células independentes e autónomas - o sistema de
pólis em que gostava de viver e que amava profundamente. Considerava
a pólis a única base possível de uma existência civilizada e livre, como foi
acentuado com vigor por Platão e Aristóteles. O primeiro toma a pólis
como modelo do seu Estado ideal, o segundo ocupa-se do assunto no
livro I da Política (^).

(h Para uma análise da Odisséia vide, entre outros, W. Jaeger, Paideia (trad, port.),
pp. 34-55; M. H. Rocha Pereira, Cultura grega, pp. 87-100; J. Griffin, Homer: the
Odyssey (Cambridge University Press, 1987); J. Latacz, Omero, il primo poeta dell’
accidente (trad, ital., Roma, Laterza, 1990), cap. 4.
(h Para a educação na época arcaica e sua evolução vide H.-I. Marrou, Histoire de
l ’éducation dans l ’Antiquité (Paris, Éditions du Seuil, ^1965), pp. 74-86; M. H. Rocha
Pereira, Cultura Crega, pp. 367-380.
(®) Por dois elucidativos passos de Platão, já atrás citados {Críton 50a sqq. e Leis I,
625e), vemos quanto a pólis era apaixonadamente sentida. No primeiro passo citado,
ocorre a célebre prosopopeia das Leis; segundo estas, o cidadão recebe tudo da pólis, pelo
que esta, que é ainda mais santa do que a família, tem também o direito de exigir tudo dele.
A dada altura as Leis referem que {Críton 51 b, que cito na tradução de Manuel Pulquério,
Lisboa, Edições 70,1997, p. 78)
«Tudo isto se deve fazer porque é justo, sem jamais ceder terreno, nem recuar nem
abandonar o seu posto, executando, pelo contrário, aquilo que o Estado e a Pátria ordenam».

153
A GRÉCIA ANTIGA

É estranho que a Grécia, em mais de quatro centúrias - dos inícios do


século VIII à conquista pela Macedónia em 338 a. C. apesar de várias
tentativas nesse sentido, nunca tenha conseguido atingir a unidade. Mesmo
quando faziam alianças, como é o caso das simaquias, os seus membros
eram considerados Estados soberanos. Em vez de darem passos no ca­
minho da união, as cidades-estado gregas pareciam remar em sentido
oposto: passaram o tempo da sua história, quase na totalidade, desavindas;
combatiam-se amiúde com empenho feroz. Uma vez declarada a guerra,
tudo o que podia aproximar os Gregos era esquecido, os ditames da justi­
ça são abolidos e contra o inimigo todos os meios se utilizam C^). Suspensos
com a guerra leis e costumes, cometem-se violências de toda a espécie
e as mais bárbaras atrocidades. Por ser uma das características mais evi­
dentes e conhecidas da história grega, não interessa aqui repisar o assunto.
Basta acentuar, sem medo de fugir muito à verdade, que sempre na
Grécia, aqui ou mais além, se encontrariam focos de lutas entre as cidades,
apesar de certas nonnas humanitárias lhes minorarem a crueza (*). Em
vez de a guerra ser uma interrupção da paz, é esta que o é daquela. Com
razão observa J. de Romilly que, entre os Gregos, a guerra é “um estado
nonual” e que a paz é “um intervalo, um parêntesis... uma trégua”.
As dissensões começaram cedo, pois desde os primórdios da época
arcaica nos chegam notícias da chamada Guerra de Lelanto, que pode
ter envolvido a maior parte das cidades gregas dessa altura. Nascida da
disputa entre Cálcis e Erétria pela posse da planície de Lelanto, em breve
viu a maior parte das demais cidades colocarem-se ao lado de uma ou de
outra (cf. Tucídides 1.15. 3). Embora para a sua datação se hesite entre
os fins do século VIII e a primeira metade do século VI a. C., é provável
que haja ocorrido pouco antes de 700 (^).

Nas Leis, a propósito das instituições de Creta e da Lacedemónia, Clínias justifica a


imposição das refeições em comunidade, sustentando que, desse modo, o legislador
condena a insensatez da maioria por ignorar {Leis 1 ,625e) «que a todos, enquanto durar
a existência, toca uma guerra contínua contra todas as outras cidades».
Sobre o particularismo grego e o seu amor à autonomia vide supra capítulo “A pólis
grega: sistema de vida e mestra do homem”.
Ç) Cf. Plutarco, Moralia 233b. Tal facto encontra-se bem patente na afirmação de
Agesilau de que, se uma acção é útil ao país, é belo realizá-la (Plutarco, Moralia 21 Oe) e
nas palavras dos Atenienses aos Mélios, nas quais postulam que a justiça reside na força
(Tucídides 5. 84-116, sobretudo 89, 91, 105).
(*) Vide J. Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos 1, pp. 176 sqq.
(®) Vide J. P. Barron e RE. Easterling, “Hesiod”, in RE. Easterling and B. M. W. Knox
(orgs.). The Cambridge History o f Classical Literature I- Greek Literature (Cambridge,
Cambridge University Press, 1985) p. 93. Vide ainda M. Sordi, La lega tessala fmo ad
Alessandro Magno (Roma, 1958) pp. 42-51.

154
A GUERRA E A PAZ NA POLIS GREGA

Esparta é um caso paradigmático deste empenho dos Gregos pela


guerra. Essa pólis era uma máquina de combate: vivia para ele e em
função dele. Verdadeira cidade-quartel, as suas instituições haviam sido
pensadas e dispostas para que os cidadãos estivessem sempre preparados
e prontos a entrarem em combate.
Como é sobejamente conhecido, na Lacedemónia as crianças perten­
cem ao Estado desde que nascem e a partir dos sete anos são educadas
pela pólis que lhes dava uma preparação flmdamentalmente de índole
física, ao ar livre, e toda ela virada para a intervenção na guerra. Proibidos
de se dedicarem a trabalhos manuais, os jovens espartanos, sujeitos a
uma vida parca e austera, viviam em comum, divididos em grupos, dirigidos
pelo mais avisado de cada um desses corpos, e aprendiam a obedecer e
a suportar a fadiga e a dor, a falar de forma concisa e sentenciosa, ou
seja a serem lacónicos ('°). Também as jovens tinham uma educação ao
ar livre, em que o exercício físico predominava. Esparta queria fazer delas
mães robustas que pudessem dar à pólis futuros cidadãos robustos (“ )•
Atingida a idade adulta, com uma vida familiar muito limitada, conti­
nuavam a viver em grupos, tal como combatiam, obrigados a tomarem
uma refeição diária em comum nos chamados syssitia, e eram sujeitos a
preparação física e a treino militar constantes, de modo a encontrarem-
-se sempre prontos a entrarem em combate.
Esparta considerava todas as outras actividades - agrícolas, comer­
ciais, industriais ou artesanais - indignas de homens livres; para essa
pólis apenas a guerra, e a sua consequente preparação, prestigiava e
dignificava os cidadãos. Por isso proibia estes, os “Pares” {Homoioi),
de se dedicarem a qualquer outra ocupação ('-).

A literatura da época arcaica, em especial a poesia que vive em ligação


estreita com a pólis, veicula a cada passo a ideia - na sequência aliás do
que já encontrámos em Homero - de que a guerra é a actividade nobre.

C°) Xenofonte, República dos Lacedemónios 2. 1-11 e 6. 1-2; Plutarco, Liciirgo 16-
-20. Sobre a proibição de se dedicaram a outra actividade que não a guerra cf. Xenofonte,
República dos Lacedemónios 7.
O laconismo era uma característica tão cultivada pelos Espartanos - os habitantes da
Lacónia- que passou à posteridade como um substantivo comum para designar a qualidade
ou defeito do que é parco em palavras. Plutarco, Liciirgo 19-20 dá numerosos exemplos
dessas sentenças concisas dos Lacedemónios.
(") Cf. Xenofonte, República dos Lacedemónios 1. 3 sqq.; Platão, Leis 7, 804d e
813e; Plutarco, I/a/z-go 14-15.
('-) Para a proibição de os cidadãos espartanos se dedicarem a actividades económicas
cf. Xenofonte, República dos Lacedemónios 7; Plutarco, Liciirgo 23. 2-3.

155
A GRÉCIA ANTIGA

de que é nos campos de batalha que o cidadão alcança a glória e de que


a sua aretê reside na coragem em combate. São exemplos elucidativos
os de Calino, um poeta de Éfeso, do século VII a. C., de Tirteu, poeta
espartano do mesmo século, e de Alceu, poeta de Lesbos, da segunda
metade do século VII e primeira do VI a. C.
Calino, no fr. 1 West, dirige-se aos seus concidadãos, em guerra com
os Cimérios, e exorta-os a pegarem em annas e a manterem-se firmes
na frente de batalha, já que a cobardia traz desonra e (w . 6-7)

....é honra e glória para um homem combater


pela pátria, pelos filhos e pela legítima esposa.('^)

Tirteu, poeta espartano do mesmo século, afina por igual diapasão.


Na altura Esparta estava envolvida numa guerra contra a Messénia e o
poeta compunha poemas de incitamento dos concidadãos ao combate,
que os soldados, segundo informação de Ateneu 14. 630e, entoavam
quando se dirigiam para a batalha. Neles proclamava;

É belo para um homem valente morrer, caindo


nas primeiras filas, a combater pela pátria.
(fr. 10 West, vv 1-2)

Ó jovens, pennanecei no combate ao lado uns dos outros,


não comeceis com a fliga vergonhosa ou com o medo,
mas criai no vosso espírito um ânimo excelso e valente,
deixai o amor à vida ao combater com os homens.
(fr. 10 West, w 15-18)

Considera que aos jovens compete defender a cidade, já que será


grande a sua glória, quer morram, quer conservem a vida:

Quando vivo, admiram-no os homens, amam-no


as mulheres; e é belo, se cai nas primeiras filas.
Fique cada um em seu posto, de pernas bem abertas,
os pés ambos fincados no solo, mordendo o lábio com os
[dentes. ('Q
(fr. 10 West, w 29-32)

Cb Tradução de M.H. Rocha Pereira, Hélade, p. 119.


Ch Tradução dos passos de Tirteu é de M.H. Rocha Pereira, Hélade, pp. 120 e 121,
respectivamente.

156
A GUERRA E A PAZ NA POLIS GREGA

Tirteu volta a pôr em relevo o heroísmo e a valentia guerreira no fr.


12 West, onde exorta de novo os cidadãos a manterem-se firmes nas
primeiras filas, pois essa é a verdadeira superioridade. Pare ele, não tem
valor a excelência nos jogos, na estatura, na força, na beleza, na riqueza,
no poder, na eloquência ou na glória, se lhe faltar a coragem valorosa em
combate (vv. 1-9).
Alceu não só toma parte activa na vida política da sua ilha, mas deleita-
-se também em descrever o equipamento usado pelo cidadão na guerra
(fr. 357 Lobel-Page):
A enorme casa resplandece de bronze. O tecto está todo adornado
com elmos brilhantes, ondeiam os brancos penachos de crinas de
[eavalo,
adorno das cabeças dos guerreiros. As cnémides resplandecentes,
defesa contra o dardo potente, ocultam os cabides donde pendem.
As eouraças de linho novo e os escudos côncavos amontoam-se
[no chão.
Ao lado jazem espadas da Calcídia, cinturões inúmeros e túnicas.
Disto tudo não nos esqueçamos, desde que empreendemos esta
[tarefa.C^)

É certo que outros autores não colocavam o seu ideal de superioridade


na coragem em combate ('®). No entanto, mesmo um poeta como Arquí-
loco, natural de Paros, que renega o ideal heróico nos seguintes versos,
(fr. 5 West) (>’):
Algum Saio se ufana agora com o meu escudo, araia excelente,
que deixei ficar, bem contra a vontade, num matagal.
Mas salvei a vida. Que me importa aquele escudo?
Deixá-lo! Hei-de comprar outro que não seja pior.

mesmo ele reconhece a importância e o carácter absorvente da guerra


nas afimiações que se seguem:
Eu sou o servidor do Senhor dos combates
fr. 1 West
Na minha lança está o meu pão amassado, na lança
0 vinho ismárico; bebo apoiado na lança.
fr. 2 West

('^) Tradução de M.H. Rocha Pereira, Hélade, p. 130.


C®) Por exemplo, Hesíodo coloca-o no trabalho e na justiça, Sólon e Teógnis de
Mégara na justiça.
('T Tradução deste fr., bem como dos dois seguintes de Arquíloco, é de M.H. Rocha
Pereira, Hélade, p.l23.

157
A GRÉCIA ANTIGA

A guerra não envolvia apenas Gregos contra Gregos. A cada passo


era feita entre estes e os que eles chamavam os Bárbaros (’^). Neste domínio
destacam-se as Guerras Pérsicas, com duas invasões da Grécia, uma
em 490 e outra em 480-479 a. C. A primeira tenninou com a vitória grega
em Maratona, na segunda os Helenos saíram vencedores em Salamina,
Platéias e Mícale. Estas Guerras, e as vitórias nelas alcançadas, como já
se referiu, foram capitais para a Grécia, e até para o mundo ocidental (‘®).
Dando aos Gregos confiança no futuro e na missão que lhes estava
reservada, sobretudo aos Atenienses, como vimos no capítulo “Asimaquia
de Delos e a hegemonia ateniense” (pp. 129 sqq.), o acontecimento pro­
vocou uma onda de euforia. A liberdade havia sido ameaçada, mas à
custa de coragem e valor fora conservada; e esse foi um feito que ficou
na memória dos Helenos como um dos maiores marcos de glória e como
um ponto de referência no futuro. Se muitos homens morreram por essa
liberdade, a sua coragem não mais deixou de ser lembrada e a sua glória
de ser cantada.
Em seu louvor compôs Simónides, o poeta da gesta heróica das GueiTas
Pérsicas, vários poemas, sobretudo epigramas. Dois exemplos apenas.
Aos valentes espartanos das Termópilas dedicou um canto coral (26
Page) que, na opinião de Lesky, constitui um precioso testemunho da
participação poética de Simónides na luta pela liberdade (-°). Aí, considera
ele que, para os mortos aí caídos, o destino é glorioso e bela a morte, o
pranto anda unido ao elogio e é seu túmulo um altar a que nem o bolor
nem o tempo destruirá. É que (vv. 6-7)

esta sepultura de homens corajosos escolheu para a guardar


a fama excelsa da Hélade.

E assim a morte física transformou-se em vida moral: os que agora


jazem não são mortos, mas “a glória da Hélade”.
Um epitáfio dos Megarenses (96 Diehl = Page, EG . XVI) refere-se
aos que nas Guerras Pérsicas receberam o destino da morte para que
prosperasse, na Hélade e entre os Megarenses, o dia da liberdade:

('*) Para o conceito de Bárbaros entre os Helenos vide J. Ribeiro Ferreira, Hélade e
Helenos I, pp. 19i sqq.
(‘^) Tenha-se em conta apenas que as mais significativas realizações culturais helénicas
ainda se não tinham verificado e não esqueçamos a influência profunda que tais realizações
exerceram na posteridade.
(-°) História da Literatura Grega (trad. port., Lisboa, Fund. C. Gulbenkian, 1995),
p. 218.

158
A GUERRA E A PAZ NA PÓLIS GREGA

Q ue prosperasse na H élad e e entre os M egaren ses o dia da liberdade


procurám os com afa. Por isso esco lh em o s o destino da morte.

Aos Espartanos caídos em Platéias dedicou um epitáfio (121 Diehl =


Page, EG. IX), no qual se refere que eles, ao morrerem,

coroaram a pátria amada de glória inextinguível.


M ortos, não desapareceram : a aretê que aqui os ex o m a v a
os fará regressar da m ansão do H ades.

Algo de semelhante encontramos no epitáfio (118 Diehl = Page, EG.


Vlll) que Simónides compôs para os Atenienses mortos na batalha de
Platéias: exaltação da coragem dos que ali jazem e do contributo que
deram à liberdade da Hélade:

S e um a b ela m orte é da aretê o m elhor galardão,


essa sorte a n ós coube entre todos.
Lutám os por coroar a G récia com a liberdade;
agora jazem o s aqui, com louvor im arcescível.(^‘)

O heroísmo dos Gregos nas Guerras Pérsicas, também Ésquilo o exalta,


ele que tomou parte activa no conflito como combatente. Nos Persas, o
poeta expressa a alegria que o afastamento do perigo provocara. A tragé­
dia foi representada em 472, numa altura em que se vivia um momento
de euforia: a vitória incutira confiança, a criação da Simaquia de Delos e
o seu subsequente dinamismo tinham começado a dar os seus frutos. A
Trácia fora libertada e com ela se fechava o ciclo de recuperação das
cidades do mundo helénico que um dia se encontraram sob o domínio da
Pérsia. Essa ideia de libertação está patente num canto do Coro (w. 585-
-594), já citado em capítulo anterior (p. 118). Constituído por anciãos
persas pertencentes ao conselho do rei, o Coro lamenta o desastre que
deixou viúvas muitas persas e muitas outras sem filhos. Este canto, um
lamento para os Persas, repercutia de modo acariciador aos ouvidos dos
Gregos. Para estes - dizem os anciãos, se bem que os não nomeiem -
não haverá mais sujeição aos Persas.
Fundamentalmente uma exaltação da vitória de Salamina, os Persas
não são uma peça tedenciosa nem louvam estritamente Atenas, como já

(-') Atradução dofr. 26 Pageedos epitáfios 118e 121 Diehl é de M.H. Rocha Pereira,
Hélade, pp. 177 e 181, respectivamente. Sobre Simónides como cantor da luta dos Gregos
pela liberdade durante as Guerras Pérsicas vide J. Ribeiro fevreira, Hélade e Helenos 1,
pp. 301-313.

159
A GRÉCIA ANTIGA

se pretendeu (^-). Decorrendo a acção em Susa e sendo o Coro constituído


por anciãos persas, os acontecimentos são vistos, evidentemente, pela
perspectiva dos Persas. Ao longo da peça. Esquilo inclui, no entanto, muitos
elementos que visam no fundo estimular os sentimentos patriótieos da
audiência e recordar os feitos e vitórias dos Gregos. Repereute-se também
uma visão dos acontecimentos pela perspectiva destes. Essa dupla visão
dos factos manifesta-se com evidência em alguns passos. Cito apenas a
enumeração - dolorosa para os anciãos persas, mas gloriosa para os Gregos,
e em especial para os espectadores atenienses - dos lugares da Trácia,
as cidades da lónia e as ilhas do Egeu, em tempos eonquistadas por
Dario e agora perdidas por Xerxes (vv. 852-907)
Para obviar a uma futura invasão persa, as cidades gregas do Egeu
resolvem unir-se em redor de Atenas e formam a Simaquia de Delos que
estará na base da hegemonia e do imperialismo atenienses - assunto a
que já me referi no capítulo “A Simaquia de Delos e a hegemonia de
Atenas” (pp. 109 sqq.). Essa aliança formava no século V a. C. um
bloco, a que se opunha um outro liderado por Esparta, a Simaquia do
Peloponeso, existente aliás desde o século VI. O primeiro compunha-se
de cidades que, à imagem de Atenas, optaram de modo geral por um
regime democrático, quer o fizessem de livre vontade, quer por coacção.
Nos Estados da Simaquia do Peloponeso, por oposição ao bloco anterior,
dominava a oligarquia.
O confronto entre os dois blocos e o receio que um sentia do outro
foram-se acentuando ao longo dos tempos até deflagrar na dolorosa
Guerra do Peloponeso, de graves consequências para os Helenos, que,
durante cerca de trinta anos - de 431 a 404 a. C. -, assolou a Grécia e a
foi depauperando. Guerra longa, assentava, como era táctica da época,
na invasão e destruição das culturas do lado inimigo e era feita, além
disso, pelos cidadãos, numa boa parte camponeses, que tinham de deixar
as terras ao abandono, anos a fio sem cultivo Tudo isto afectou
profundamente a economia, sobretudo começou a minar a confiança e a
alterar o posicionamento do Grego quanto à guerra.

(^9 G Murray, Aeschylus the creator o f tragedy (Oxford, 1940), p. 121 ; M. Gagarin,
Aeschylean drama (Berkeley, 1976), pp. 33-36. Sobre estas posições vide H. D. Broadhead,
The Persae o f Aeschylus (Cambridge University Press, 1960), pp. XV-XVI.
(D Sobre a análise dos Persas como peça de exaltação pan-helénica vide J. Ribeiro
Ferreira, Hélade e Helenos I, pp. 329-342.
(^9 Esparta, como vimos, está numa situação diferente de quase todas as outras
cidades. Aí aos cidadãos eram proibidas todas as actividades que não a guerra e a preparação
para ela.

160
A GUERRA E A PAZ NA POLIS GREGA

0 conflito da Guerra do Peloponeso assolava as cidades gregas, mar­


cado por actos de oportunismo, de injustiça, de ambição e de vingança-
às vezes momentos até de atrocidade e de selvajaria, de que destaco a
chacina e escravização dos habitantes de Cione em 421 (Tucídides 5.
32. 2) e de Meios em 416/415. A guerra ia deixando atrás de si um
cortejo de sofrimento e de dor, um descontentamento crescente. Como
consequência, começa a gerar-se uma nova concepção de guerra e de
paz. A primeira deixa de ser, como até aí, a situação nonual das relações
entre os Estados, perdendo essa condição em favor da paz (“9-
E natural que os autores gregos veiculem esse descontentamento e
se façam eco das novas concepções que começam a aparecer. São disso
exemplo Eurípides, Tucídides, Aristófanes, entre outros.
Eurípides é um autor que, a cada passo, nos desconcerta pelas posições
diametralmente opostas, ou pelo menos muito díspares que por vezes
encontramos nas suas peças. O poeta oferece-nos a cada passo tragédias
que defendem o que poderíamos chamar a “guerra santa” dos Gregos
contra os Bárbaros. Esta posição aparece, por exemplo, na Ifigênia em
Aitlide, significativamente, a última peça que dele nos chegou. Trata-se
de um apelo à união dos Helenos contra os Bárbaros - apelo que será
frequentes vezes repetido ao longo do século IV a. C. -, para que os
primeiros fossem livres e não viessem a ser dominados pelos segundos.
Ifigênia, a protagonista da tragédia, oferece-se por esse ideal P )-
Se não é raro depararmos com essa temática, um grupo significativo
de peças do autor aborda de fonna crítica o tema da guerra. Estão neste
caso 0 Cresfionte, a Andrómaca, a Hécuba, as Suplicantes, as Troianas
e a Helena.
No Cresfionte, peça perdida que não pode ser posterior a 425 e de
que apenas restam escassos fragmentos (frs. 449-459 N9, havia uma
apaixonada invocação da paz

dispenseira de riquezas e a mais bela dentre os imortais f 9-


(fr.453hf)

6 9 Cf. S. Payrau, «Guerre et paix dans la Grèce ancienne», BAGB (1985) 132; J. de
Romilly, «Guerre et paix entre cités», in J.-R Vernant (org.). Problèmes de la guerre en
Grèce ancienne (Paris, 1968), pp. 207-211.
(“ ) Para o pan-helenismo na Ifigénia em Âiilide vide J. Ribeiro Ferreira, Hélade e
Helenos I, pp. 406-415.
(fi) Este fr. de Eurípides, de imediato, traz à memória os elogios dos benefícios da paz
nas comédias de Aristófanes Acarnenses, Paz e Lisísírata.

161
A GRÉCIA ANTIGA

A Andrómaca, peça que se situa na mesma época, tem como pano


de fundo, se bem que no passado longínquo, o conflito de Tróia que atingiu
tanto vencidos como vencedores: todos sofrem os seus efeitos. Nas cida­
des gregas - refere o Coro nos versos 1037-1044 - as esposas perderam
os maridos e muitas mães entoam lamentos pelos filhos AHéciiba,
datável de 424/423, é percorrida por um profundo horror à guerra. A
acção incide sobre o sofrimento que o conflito trouxe à rainha e às cativas
de Tróia, mas não esquece que os seus efeitos atingem também os vence­
dores: os versos 650 sqq., proferidos pelo Coro, lembram as mães da
Lacónia que, junto do Eurotas, choram os filhos mortos.
Nas Suplicantes estabelece-se na parte inicial da peça uma distinção
entre a guerra justa e a guerra injusta e a primeira é admitida no campo
dos princípios; postula-se mesmo a sua necessidade em determinadas
circunstâncias. Composta a peça provavelmente em finais de 424, a acção
decorre em Elêusis, diante do templo de Deméter É bem conhecida
a lenda dos Sete contra Tebas, os sete heróis que se aliam para exigir de
Etéocles, um dos filhos de Édipo, a entrega do governo da cidade ao
innão Polinices, como ficara combinado. O exército, comandado pelo rei
de Argos, Adrasto, marchara contra Tebas, mas a expedição salda-se num
fracasso, e os sete guerreiros perecem em combate. Insensível aos rogos
dos familiares dos atacantes e contra os ditames do uso e da religião, a
cidade, por decreto público, deixa os corpos dos vencidos insepultos, à
mercê das feras e das aves de rapina. As mães e os órfãos dos mortos
recorrem então a Atenas e, em atitude de súplica, imploram de Teseu
ajuda na recuperação dos filhos e pais mortos. É nesta atitude que os
encontramos, quando a tragédia começa.
Depois de algumas hesitações iniciais e apesar das ameaças de Tebas,
0 rei concede a ajuda solicitada e, numa expedição vitoriosa, alcança o
objectivo que visava. A peça tennina com o ritual fúnebre da cremação
dos corpos dos sete guerreiros e com a entrega das suas cinzas aos
filhos, que juram não mais pegar em annas contra a cidade de Palas.
Apesar de se admitir a guerra justa no campo dos princípios, a impres­
são derradeira remanescente parece ser a evidência amarga das trágicas

(-*) Vide J. Ribeiro Ferreira, Euripides: Andrómaca. Introdução, tradução e notas,


Coimbra, 1971, pp. 79-85.
(-’) Não há unanimidade quanto ao momento em que teria sido composta a tragédia.
Os especialistas têm optado por datas que oscilam desde 424 (Zuntz, The political plays
o f Euripides, Manchester, 1955, repr. 1963, pp. 53-94; Webster, The tragedies o f
Euripides, London, 1967, pp. 116-117) até 417-416 ( Schmid-Stählin, Geschichte der
griechische Literatur I. 3, pp. 454-455). A tendência actual é para admitir a data mais
remota. Vide C. Collard, Euripides: Supplices (Groningen, 1975) pp. 8-14.

162
A GUERRA E A PAZ NA PÓLIS GREGA

consequências de tal flagelo. A acção da tragédia ordena-se pelo menos


no sentido de sublinhar, na parte final, a dor e a ruína sem remédio que
daí resultam. A peça tennina com a visão dolorosa da morte e do sofrimento
que enchem toda a segunda parte. Lutou-se para manter a justiça humana
e divina - a razão mais ponderosa e gloriosa possível -, mas não é de
glória a imagem que se patenteia a nossos olhos, quando a peça acaba.
Como visão final, as Suplicantes deixam-nos a desgraça e o sofrimento
do povo que foi vítima da guerra.
A solidão e o desespero tomam-se por vezes insustentáveis. Evadne,
viúva de Capaneu, um dos guerreiros mortos, evoca as núpcias - dia lon­
gínquo de felicidade que contrapõe à cmel realidade presente - e prefere
0 suicídio na pira do marido a suportar a existência sem a presença deste
(vv. 990-1071). ífis, seu pai, vê-se confrontado com uma vida impossível
de solidão (w. 1095-1096). No palácio, diz ele,
........................................encontrarei a solidão
dos enonnes aposentos e uma vida impossível para mim.

A guerra levara-lhe o filho, Etéocles, o genro, Capaneu, e a filha, Evadne.


Só lhe resta chorar, recordar a ternura da filha perdida e mergulhar na
renúncia absoluta que conduzirá à morte (vv. 1080-1113). A cena de
Evadne e de ífis visa assim condenar as expedições militares, quantas
vezes evitáveis, mostrando o mal que elas provocam Q°).
Deixando atrás de si um rasto de destruição e de dor, a guerra é um
flagelo que não poupa ninguém, tanto a nível colectivo como a nível
individual. A empresa insensata de Adrasto tanto trouxe dor e desgraça
a Argos, enquanto gmpo social, como devastou a existência individual de
Evadne e, por meio dela, a de ífis. Sem escolher as vítimas, as trágicas
consequências desse flagelo atingem sobretudo os inocentes e os indefesos
que em nada contribuíram para o seu desencadear.
Com a guerra - mostra-o Mcdonald (^‘) -, a felicidade pode sorrir
por um momento com a vitória, mas quase sempre acaba por ser destruída
pela guerra, tudo parecendo depender do facto de esta ser evitada ou
não. Se alguém a inicia é inevitável o consequente ciclo de dor e sofrimento.
As Troianas põem mais uma vez em cena as vítimas inocentes apa­
nhadas pelas malhas da violência cega da guerra. A peça foi apresentada

Sobre as interpretações da cena de Evadne e de ífis vide H.D.F. Kitto, Greek


tragedy (London, Methuen, ^1961) pp. 224-225; Strohm, Euripides, pp. 59-60;
C. Collard, Euripides: Supplices (Groningen, 1975) pp. 353-356 ad 980-1113; J. de
Romilly, L ’évolution du pathétique d ’Eschyle a Euripide (Paris, 1980) pp. 37-39.
(^') Terms for happiness in Euripides (Gottingen, 1978) pp. 99-111.

163
A GRÉCIA ANTIGA

nas Dionísias de 415, pouco tempo passado do cerco e conquista de


Meios em que Atenas chacina os homens válidos e reduz à escravatura
as mulheres e crianças (Tucídides 5. 85-116) e no momento em que
acabava de ser votada a expedição longínqua e onerosa à Sicília que se
vai saldar por um revés.
Decorre a acção nos dias imediatos à tomada de Tróia e no centro da
peça coloca o poeta, como fizera na Héciiba, as mulheres e crianças da
cidade conquistada, prisioneiras dos Gregos. A cena passa-se frente às
tendas das cativas, tendo por fundo a cidade, silenciosa e sem vida, que
em breve se desmoronará destruída pelas chamas. Taltíbio, arauto dos
Aqueus, em cumprimento das decisões do exército, transmite aos cativos
0 seu cruel destino: Políxena, sacrificada no túmulo de Aquiles; Cassandra
e Andrómaca, concubinas de Agamémnon e de Neoptólemo, respectiva­
mente; Astíanax, uma criança inocente, precipitado das muralhas da cidade
apenas por ser filho de Heitor; Helena, a principal culpada, parte para
Esparta sem qualquer punição. Perante este doloroso desfile, Hécuba,
sem esperança, tenta lançar-se nas chamas que consomem Tróia e ficar
sepultada sob os escombros, mas sem êxito; é obrigada a viver para ser
escrava de Ulisses.
Três anos mais tarde, ao que parece em 412, Eurípides apresenta a
Helena, composta sob o efeito do desastre da Sicília em 413 que, como
vimos, trouxe o desespero e foi de graves consequências para Atenas
(Tucídides 8. 1). É bem conhecida a versão do mito relativa ao rapto de
Helena por Páris, com a consequente Guerra de Tróia e destruição da
cidade pelos Gregos - um feito que ficará ao longo dos tempos como
uma das mais ilustres glórias da Hélade. Ora Eurípides não segue nesta
peça tal versão da lenda, mas uma outra - já conhecida de Heródoto 2.
112-120 e provavelmente de Estesícoro Q'^) - em que a verdadeira Helena,
em vez de partir para Tróia, é levada por Hermes para o Egipto, por
ordem da deusa Hera, para defraudar os intentos de Páris e de Afrodite.
Em substituição vai para ílion um eidolon seu - um fantasma sem
consistência nem realidade - , pelo qual Aqueus e Troianos combatem
durante dez anos. Desse modo a expedição contra Tróia, de empresa
nobre e louvada pelos Gregos, transforma-se numa guerra louca que
tem um motivo fútil e ridículo - a posse de um fantasma. Ganham assim
sentido as palavras indignadas do mensageiro, quando vem noticiar o
desaparecimento do eidolon, no momento em que, chegados ao Egipto,

f - ) Fr. 192 Page. Sobre o assunto vide M. O. Pulquério, “O problema das duas
palinódias de Estesícoro”, Humanitas 25-26 (1973-1974) 265-273.

164
A GUERRA E A PAZ NA POLIS GREGA

se dá o reencontro com a verdadeira Helena: os Gregos pereceram por


uma nuvem e Tróia foi destruída por nada (w. 749-751). Mais tarde,
depois do reconhecimento de Helena por Menelau e de haverem os dois
planeado a fuga, é o Coro que, em termos bem explícitos, condena a in­
sensatez dos que procuram a glória nos combates e buscam nas annas o
remédio para os males da humanidade:

Insensatos de vós quantos na guerra buscais


glória, e nas lanças robustas,

nelas julgando encontrar, em vossa ignorância,


0 remédio para os males dos mortais.
Se é o combate sangrento
a decidir, nunca a discórdia
se ausentará das cidades dos homens.
(w. 1151-1157)

Estas afirmações pacifistas e de condenação da guerra, centradas


em volta dos acontecimentos de 425, da conquista de Meios e da expedi­
ção à Sicília, são bem elucidativas da posição de Eurípides no que respeita
ao conflito entre Atenas e Esparta. No entanto, face a tal flagelo, não se
confina a isso a sua atitude: é mais ampla. No tratamento do tema, o
poeta foca os acontecimentos de modo geral pela perspectiva dos ven­
cidos. Atraem-no sobretudo as vítimas sem culpa ou que a têm em mínimo
grau: as mulheres e as crianças, seres inocentes e indefesos sobre os
quais recaem as consequências mais gravosas. São sempre elas as princi­
pais vítimas de todas as guerras.
Tucídides, ao longo da sua obra, põe em realce o individualismo dos
Gregos que os lança numa luta sem tréguas e conduz à mútua destruição.
Daí que insista na importância da união para o desenvolvimento e pro­
gresso da Hélade. Daí possivelmente que se sinta também da sua parte
uma aceitação do domínio de Atenas: por ver nele um factor de progresso
e de poder para a Grécia (^^). No entanto, do modo como Tucídides
estrutura a narrativa e realça os factos e opiniões, parece poder deduzir-
-se que defende a teoria de que as relações entre Gregos devem assentar
numa base de igualdade. Daí decorre um outro princípio: uma aliança
para ser duradoura deve ter por base a adesão voluntária e ser fundada
no respeito pela autonomia de cada um. Só uma união deste tipo seria
desejável.

f h J- H. Finley Jr., Thucydides (Cambridge, 1942), p. 89.

165
A GRÉCIA ANTIGA

Idêntica, em variados aspectos, é a proposta de Aristófanes. Para ele,


a giien'a origina a destruição da Hélade. Esta só se salvará pela concórdia
e pela união. Daí que defenda em algumas das suas peças a paz entre os
Gregos que, em sua opinião, trará prosperidade, alegria, abundância e
felicidade. Em contraste, a guerra provoca a penúria, a fome, a dor.
Esta problemática surge logo na peça mais antiga que do autor nos
chegou, os Acarnenses, representada nas Leneias de 425. A guerra do
Peloponeso durava há seis anos e deixara já profundas marcas: a peste,
proveniente da aglomeração populacional em deficientes condições
higiênicas (cf Aristófanes, Cavaleiros 793; Tucídides 2. 52. 2), e a
devastação dos campos pelos exércitos contrários. Surge, como vimos,
0 desânimo, o desespero e a revolta, quer contra os dirigentes que pro­
puseram essa guerra defensiva, entregando de mão beijada os campos
ao inimigo, quer contra quem lhes devastava os haveres e as culturas.
Aristófanes, numa comédia cheia de movimento e de graça, vai tentar
aplacar a cólera destes camponeses a quem a guerra de tudo privara,
procurando voltar o descontentamento contra os partidários e responsáveis
pela situação e dando da paz um quadro edênico de abundância e pros­
peridade. Diceópolis, um dos camponeses que tanto sofreram com o
conflito, vem à Assembléia para defender a causa da paz, mas encontra
a Pnix vazia. Só pelo meio-dia chegam os prítanes que se empurram na
disputa dos primeiros lugares. Ao tentarem tomar a palavra, os partidários
da paz são impedidos de falar e expulsos. Em contrapartida, escutados
com atenção e recompensados, são os embaixadores que, pela corrupção
e pelo embuste, enganam o povo. Diceópolis, desiludido, abandona a
Pnix e conclui com Esparta um trégua particular. Das várias modalidades,
escolhe logo a mais prolongada - a de trinta anos, como acontece nos
Cavaleiros (vv. 1388 sqq.).
De início a braços com a oposição dos habitantes do demo de Acamas
que 0 querem apedrejar, por se aliar ao inimigo, Diceópolis acaba por os
apaziguar e conseguir que o escutem. Procura mostrar-lhes que a guerra
serve apenas os ambiciosos, corruptos e sem escriipulos, verdadeiros
oportunistas que buscam o seu próprio interesse e não o bem da pólis: os
demagogos que adulam os cidadãos para conseguirem cargos; os sico-
fantas que ganham a vida pela denúncia; os militares que esperam da
guerra honras e proventos; os fabricantes e comerciantes de annas; os
jovens corruptos que pugnam pela continuação da guerra, mas, covardes,
procuram eximir-se às suas agruras, solicitando nomeações para embai­
xadas no estrangeiro que lhes permitiam uma vida de largueza à custa da
cidade. A pólis e a todos os outros, sobretudo os camponeses, a guerra

166
A GUERRA E A PAZ NA PÓLIS GREGA

origina privações, sofrimento e devastação. A paz, pelo contrário, traz


prosperidade e uma vida de felicidade e bem-estar. É o que a peça vai
desenvolver na segunda parte. Estabelecida a trégua, enquanto os outros
Atenienses levam uma vida de privações e de penúria, a abundância, as
iguarias, os produtos vários afluem à casa do camponês Diceópolis. A
peça termina com o regresso deste da festa, como vencedor das apostas
entre bebedores, ébrio e abraçado a duas cortesãs, enquanto o general
Lâmaco chega amparado por soldados, entre queixumes, ferido por ter
saltado de fonna desajeitada um fosso.
A guerra é assim a privação de tudo e causa de penas e dor; a paz, o
retomo à normalidade, o voltar aos campos que produzirão o que é preciso,
0 fim da necessidade de tudo comprar, a abundância de frutos e o regresso
das festas.
Se nos Acarnenses se estabelece uma trégua de trinta anos que bene­
ficia unicamente o protagonista e sua família - portanto um recurso ao
absurdo para melhor convencer os espectadores - na comédia que tem
0 seu nome, a paz adquire outra dimensão. Apresentada nas Dionísias de
421 a. C., portanto pouco tempo antes de se firmar a chamada Paz de
Nícias precisamente nesse ano, a peça é dominada pela defesa da conci­
liação entre os Gregos, como já acontecera nos Acarnenses', põe em
permanente realce o contraste dos horrores da guerra com a felicidade e
abundância da paz. Composta dez anos depois do início da Guerra do
Peloponeso, numa altura em que havia condições para se pôr fim ao
conflito e decorriam negociações nesse sentido, toda a peça é um cântico
de louvor em honra da paz. O vinhateiro ateniense Trigeu vai à morada
dos deuses implorar a Zeus a tranquilidade para todos os Gregos, onde,
em vez dos deuses, encontra Pólemos, a Guerra, que encerrara a Paz
(Eirene) numa caverna e se prepara para destruir os Helenos. Trigeu
então apela aos Gregos de todas as profissões e das variadas cidades -
e com 0 empenho diversificado de cada uma delas -, consegue libertar a
deusa e trazê-la de regresso à terra na companhia de outras duas divin­
dades - Opora, deusa dos frutos, e Teoria, o Espectáculo ou a Festa, que
tem a seu cargo as festividades. A segunda é entregue ao Conselho dos
Quinhentos - que daí por diante, em vez de ter de se preocupar com
questões de guerra, organizará para os cidadãos festas e banquetes. A
deusa dos frutos casará com Trigeu, verdadeiro herói da abundância
que, com a sua missão bem sucedida, trouxe a prosperidade e a possibi­
lidade do regresso ao cultivo das terras, ofereceu aos Gregos o momento
- como antegozara o Coro na altura da libertação da Paz (vv. 566 sqq.)
-d e reverem os campos, figueiras, vinhedos, mirtos, o canteiro das violetas

167
A GRÉCIA ANTIGA

junto ao poço e de sentirem o gosto dos figos, das passas, do vinho doce.
A paz proporciona, portanto, abundância e alegria. Só os que vivem da
guen*a estão desolados e vêm lamentar-se.
APr/z temiina em alegria, com o casamento de Trigeu, e o coro, que
lhe deve a felicidade e a riqueza, leva-o em triunfo e em cortejo para os cam­
pos, as alfaias agrícolas como ornamento. E este o fecho adequado para
uma comédia dominada pela defesa da paz que proporciona felicidade e
abundância, de que os principais beneficiados são os lavradores da Atica.
Só cerca de dez anos mais tarde compôs Aristófanes a Lisístrata -
apresentada talvez nas Dionísias de 411 a. C. - , o seu derradeiro esforço
para pôr termo a uma guerra que debilitava Atenas e Esparta e era
causa da ruína da Hélade. Os sentimentos que animam a protagonista
Lisístrata são próximos dos que motivaram a actuação de Trigeu na Paz.
Aristófanes via que os Helenos, no seu individualismo exacerbado,
I I estavam a destruir a Grécia e preparavam a servidão aos Bárbaros - em
sua opinião, os verdadeiros inimigos. Numa última tentativa dirige-se aos
Atenienses, aos Espartanos, a todos os Gregos, para que renunciem à
luta fratricida e se reconciliem. Perdera, no entanto, a esperança de que
0 escutassem os militares e os dirigentes - os homens. Socorre-se então
das mulheres das cidades beligerantes, que não são ouvidas na declaração
da guerra, mas, como em Eurípides, são das que mais sofrem as conse­
quências: lutos, longos abandonos, escravidão. Estas, para atingirem o
seu objectivo, vão recorrer a um processo que, pelo inusitado, causará
profunda impressão.
Ao romper da manhã, convocadas pela ateniense Lisístrata, reúnem
as mulheres da Atica e as representantes de outras partes da Grécia -
Esparta, Beócia, Corinto - , cansadas da guerra que lhes afasta de casa os
maridos por longos meses. Para forçarem os homens a concluírem a paz,
deliberam abster-se de relações sexuais com os maridos e amantes e
ocuparem a Acrópole, para, impedindo o acesso ao tesouro, cortarem o
financiamento da guerra. Depois de diversas cenas bem brejeiras, os ho­
mens não têm outra solução senão fazer a paz. De Esparta é enviado um
arauto (vv. 980 sqq.) e de seguida embaixadores com plenos poderes
para negociarem (w. 1072 sqq.). Solenemente concluída a paz, um festim,
acompanhado de danças e cantos, sela a reconciliação de todos os Helenos.
Lisístrata com a sua actuação visa a unidade da Hélade. Não lhe
interessa saber de quem é a culpa ou quem tem razão. Basta-lhe a cons­
ciência de que os Helenos são irmãos, têm a mesma religião e frequentam
santuários comuns: devem por isso reconciliar-se mesmo à custa de
concessões mútuas. E absurdo que homens ligados entre si pelo sangue.

168
A GUERRA E A PAZ NA POLIS GREGA

pela religião, pelos costumes se combatam até ao aniquilamento. Aristó­


fanes pressentia que a Hélade podería não sobreviver às lutas contínuas
dos Gregos. Por isso defende na Lisístrata, como fizera já em outras
peças, a dupla hegemonia - o poder de Atenas mais virado para o domínio
naval e o de Esparta com incidência maior em terra.
O comediógrafo considerava as lutas entre Gregos uma guerra fratri­
cida e intestina e via que, além de causarem a ruína, eram aproveitadas
pelos Persas. Comprende-se, por isso, que defenda a conciliação e pregue
a paz com tanto empenho: nos Acarnenses, nos Cavaleiros, na Paz e na
Lisístrata. O poeta não apresenta, no entanto, uma evolução no conceito
e proposição da paz: é nos Acarnenses (w . 175-202, 988-992) ainda
tréguas e reconciliação {dialagê), tréguas de novo nos Cavaleiros (vv.
1388-1391); aparece r\2i Paz elevada a imagem de cu\io-Eirene (^'*); a
Lisístrata apresenta a revelação final da divina Reconciliação {Dialagê),
como presença activa e benéfica. Estas diferentes manifestações explicam-
-se por diversos circunstancialismos, entre os quais avultam os políticos.

Ultrapassada a Guerra do Peloponeso, o tema da guerra e da paz


continua presente no pensamento grego e move-se dentro de determi­
nados vectores, já indiciados no último quartel do século V, que, quais
estereótipos, aparecem repetidos ao longo do século IV a. C.. A Guerra
do Peloponeso é seguida de uma série de lutas: caso da Guerra de Corinto
(395-386), originada nos descontentamentos de Tebas e Corinto pela
política imperialista de Esparta, após a derrota de Atenas em 404 a. C.
(cf Xenofonte, Helénicas 3. 5. 7-15); a guerra de Atenas e de Tebas
contra Esparta (378-371); a invasão do Peloponeso por Tebas (371-361);
a guerra entre Filipe e Atenas (357/356); a Guerra Social entre Atenas e
os Aliados (357-355); a Terceira Guerra Sagrada (355-346); o ciclo
culmina na conquista da Grécia pela Macedónia em 338 a. C. Esse suceder
de conflitos fora deixando marcas profundas na mentalidade do Grego e
no seu modo de vida, a ponto de o século IV apresentar características
bem diferentes do antecedente. Dado que as guerras na Antiguidade
eram por sistema operações de razia, como repetidas vezes já foi referido,
os mais afectados eram sempre os camponeses que viam as suas culturas
e haveres destruídos. Daí o abandono dos campos, o refugio na cidade.
Aumenta consideravelmente a classe dos tetas e a pauperização é cada

C ) Em Atenas a Eirene, como veremos mais adiante, passa a ser objecto de culto
público desde a “Paz de Cálias” em 371 a. C..
Para uma análise mais pormenorizada destas comédias como peças empenhadas na
promoção da paz vide J. Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos I, pp. 416-442.

169
A GRÉCIA ANTIGA

vez maior - uma situação que, por sua vez, dá origem a lutas sociais e a
dissensões internas (a stasis) f ^). É o que proclama a sabedoria popular,

“Em casa onde não há pão


todos ralham e ninguém tem razão” .

Ora nós encontramos nos escritores e filósofos do século IV a. C.


uma preocupação crescente com esses conflitos (cf Platão, República
8 e 9; Aristóteles, Política 5) (^^). As cidades para evitar os distúrbios
lançam a cada passo mão da distribuição de trigo e de subsídios - por
exemplo, em Atenas esses subsídios saíam de um fundo público chamado
theoricon (cf Demóstenes, Filípicas 4. 35-45).
Os problemas económicos e financeiros assumem assim cada vez
maior importância e é natural que os governantes busquem meios e estu­
dem a melhor maneira de ultrapassar as dificuldades. Os próprios escrito­
res fazem-se eco dessas preocupações e no século IV a.C., surgem obras
e tratados sobre temas económicos que buscam dar conselhos sobre a
melhor maneira de gerir uma casa ou de obter rendimentos à pólis. É o
caso da comédia de Aristófanes, chamada Ploutos, “Riqueza”, do Eco­
nómico de Aristóteles, do tratado do mesmo nome de Xenofonte e dos
Rendimentos do mesmo autor. Verificam-se certas inovações no âmbito
do direito comercial, como acontece em Atenas - que, cidade comercial
e industrial, foi das que menos sentiu a recessão e pauperização do século
IV: dá-se importância ao acto escrito (até aí só as testemunhas contavam)
e personalidade jurídica ao meteco e ao escravo; desenvolve-se o emprés­
timo marítimo (o devedor oferecia como garantia o barco e a mercadoria)
e aparece algo que se assemelha aos bancos actuais (^’); surgem as
fortunas móveis que se tomam uma característica do século IV a. C.

f 9 Sobre as principais características do século IV a. C. vide W. Jaeger, Paideia II,


pp. 1 sqq.; M. Austin e P. Vidal-Naquet, Économies et sociétés en Grèce ancienne (Paris,
1972), pp. 150-177 (trad, port., Lisboa, Edições 70, pp. 131-152); F. Vannier, Le IV^
i/èc/e grec (Paris, 1967).
(36) Yj(je fyl. Austin et P. Vidal-Naquet, Economia e Sociedade na Grécia Antiga
(trad, port., Lisboa, Edições 70), pp. 138-141.
(^9 Sobre as diferenças entre os bancos da Atenas do século IV a. C. e os modernos
vide M. Austin e P. Vidal-Naquet, Economia e Sociedade na Grécia Antiga (trad. Port.,
Lisboa, Edições 70), pp. 149-150, que acentua ser o banco moderno, acima de tudo, um
instrumento de crédito destinado a favorecer o empreendimento econômico, enquanto os
bancos atenienses trabalhavam em pequena escala e eram sobretudo estabelecimentos de
câmbio e de empréstimos sobre penhores. Não eram instituições de crédito destinadas a
encorajar os investimentos produtivos, pelo que aquilo que constitui o carácter essencial
de um banco moderno estava deles ausente.

170
A GUERRA E A PAZ NA PÓLIS GREGA

As transacções comerciais e operações financeiras complicam-se e


as preocupações econômicas fazem cada vez mais parte das preocu­
pações diárias do habitante da pólis. A “crematística” como lhe chama
Aristóteles toma-se uma especialização e não é de estranhar também
que, como acontece em Atenas, peritos em matérias financeiras atinjam
a chefia da pólis (^^).
Mas, se a guerra era causa de mina e pauperização, sobretudo para
os camponeses, começa a aparecer, para boa parte da população urbana
sem recursos, como um meio de subsistência e como uma profissão. As
lutas constantes em que viviam os Helenos e as solicitações dos impérios
que os rodeavam vão fazer da guerra uma especialização e provocar o
desenvolvimento de novas técnicas militares. A infantaria ligeira - os
peltastas - , negligenciada até à Guerra do Peloponeso, mas mais adaptada
ao solo montanhoso da Grécia, começa a obter importância cada vez
maior. Também se desenvolve a técnica do cerco às cidades. Um indício
da importância de tais questões é o aparecimento de literatura sobre
táctica: Xenofonte, Eneias, o Táctico Q'^).
Os estrategos, de chefes políticos que predominantemente eram - em
Atenas, por exemplo - , tomam-se cada vez mais especialistas militares.
As novas técnicas, para serem eficazes, exigiam treino e uma actuação
concertada. Daí que deparemos, no século IV a. C., com o desenvolvi­
mento rápido do mercenariato. Para isso contribuem várias razões: a
pauperização gerada pela guerra, as pertubações sociais, as lutas políticas
e revoluções internas que geram exílios, a falta da vávula de escape da
colonização que agora funciona menos, o chamamento e o aliciamento
pecuniário de impérios como a Pérsia e o Egipto.
O mercenário encontra-se ligado por uma relação pessoal, profissional
- e de feitos guerreiros até - ao general sob cujas ordens serve e de
quem recebe o soldo. Desse modo perde lentamente a ligação à pólis
onde nasceu. Daí que não seja raro um cidadão encontrar-se em guerra
contra o próprio país. O mercenariato faz com que o antigo cidadão-
-soldado deixe de existir O .

f 9 Para mais pormenores sobre a importância das questões económicas no séc. IV a.


C. vide M. Austin e P. Vidal-Naquet, Economia e Sociedade na Grécia Antiga (trad.
Port., Lisboa, Edições 70), pp. 146-150.
(^9 Sobre essa literatura e sua importância para a história social da Grécia, sobretudo
da Poliorcética de Eneias, vide H. Bengtson, “Die griechische Polis bei Aineias”, Historia
11 (1962) 458-468; Y. Garlan, Recherches de poliorcétique grecque (Athènes, Ecole
Française d’Athènes, 1974).
(“'9 Vide F. Vannier, Le / U siècle grec (Paris, Armand Colin, 1967), pp. 46-52.

171
A GRÉCIA ANTIGA

O interesse do cidadão pela participação nos assuntos e governo da


pólis deixa de se verificar no século IV a. C. Cada vez mais se toma uma
questão de profissionais, de oradores. A política perde importância para
0 comum da população e passa a constituir uma especialização, como
acontece no domínio das questões financeiras e nas actividades militares.
Não raro deparamos em Atenas, na chefia da pólis, com a associação
destes três peritos: o orador, o general e o financeiro. O primeiro sabia
como convencer a Assembleia, o segundo tinha o poder militar e o terceiro
dominava os conhecimentos que permitiam minorar as dificuldades eco­
nómicas. Um indício do desinteresse pelos assuntos da pólis encontramo-
-lo na comédia, que deixa de equacionar a vida política e passa a pôr em
cena a vida privada do cidadão. Os valores familiares e privados aparecem
agora em primeiro plano.
Um outro ideal baqueia também ao longo do século IV a. C. Se a
guerra traz com frequência benefícios à massa da população urbana
sem recursos, é nociva e causa de ruína para os camponeses, como
vimos. Muitos deles acabam por vender as suas terras e vão engrossar o
dêmos urbano. Lentamente começa a ganhar relevo a oposição entre o
camponês e o citadino: o primeiro a desejar paz para poder cultivar as
suas terras e colher os frutos que elas produzem - afinal um tema que é
central nas comédias de Aristófanes que analisámos acima - , o segundo
a preferir a guerra que é um meio de obter fundos para possibilitar a
distribuição de subsídios e pode também funcionar como uma ocupação
em que ganham a vida. As obras literárias oferecem-nos vários teste­
munhos desta oposição crescente. Afinal um indício de que o ideal do
camponês-cidadão desaparecera
O desencanto surge pouco a pouco e acentua-se a noção de que os
Helenos estavam unidos por laços de sangue. Condena-se, por conse­
guinte, a luta entre Gregos e começa a aparecer a noção de que essa
guerra é uma luta fratricida. Platão, na sua cidade ideal {República 5,
469b-471b), proíbe que se faça guerra a outros Estados helénicos ou
se escravizem Gregos, já que são da mesma raça. Os Elidenses, em
400 a. C., impedem o rei espartano Ágis de oferecer um sacrifício a
Zeus, em Olímpia, a pedir ao deus uma guerra vitoriosa, sob pretexto de
que, desde os tempos mais recuados, o uso proibia consultar a divindade
por ocasião de guerra de Gregos contra Gregos (cf Xenofonte, Helénicas
3. 2. 22). Em 375 a. C., Timóteo, comandante da frota ateniense em

f ) Vide M. Austin e P. Vidal-Naquet, Economia e Sociedade na Grécia Antiga (trad.


Port., Lisboa, Edições 70), pp. 151-152.

172
A GUERRA E A PAZ NA PÓLIS GREGA

périplo ao Peloponeso, depois de dominar Corcira, evita submeter a


população à escravatura, banir os cidadãos ou mudar a constituição, como
a cada passo acontecia (cf. Xenofonte, Helénicas 5. 4. 60). Pelópidas e
Epaminondas, dois famosos generais tebanos do século IV a. C., hon­
ravam-se de nunca terem mandado vender os habitantes das cidades
gregas conquistadas, nem ter ordenado a chacina depois da vitória (cf.
Plutarco, Marc. 31).
A ideia de que a guerra entre Gregos é fratricida anda de modo geral
associada a noção de que é conveniente a união de toda a Hélade para
criar uma frente comum contra os Bárbaros. Já encontrámos esse apelo
à reconciliação dos Gregos e à sua luta comum em Eurípides e em Aristó­
fanes, mas a ideia toma-se um tópico corrente no século IV a. C. Górgias
prega-a no Discurso Olímpico, dado a conhecer talvez nos Jogos Olím­
picos de 392, e ao que parece também na Oração fúnebre, um pouco
posterior, em memória dos Atenienses mortos na Guerra de Corinto. No
primeiro, convida todos os Gregos à concórdia (fr. 8a Diels) e, segundo
Baldry, estende à relação entre as póleis o uso do termo homonoia
“confomiidade de sentimentos, unidade de pontos de vista” que, até aí,
era normalmente aplicada à hamionia no interior de cada uma delas ('*0-
Com sentido idêntico foi composta a Oração fúnebre, que parece
recordar aos Atenienses os feitos gloriosos praticados durante as Guerras
Pérsicas e incentivá-los a unirem à sua volta todos os Gregos para os
conduzirem numa luta contra os Medos. Górgias via a Grécia dividida
pela guerra e, por isso, apela à união.
Não muito diferente é o conteúdo de vm Discurso Olímpico de Lísias
e de uma Oração fúnebre - transmitida entre as suas obras, mas cuja
autenticidade já tem sido contestada-, os dois proferidos durante a Guerra
de Corinto - o primeiro em 386 e a segunda possivelmente em 393 a. C.
Esta encontra-se inspirada pelo sentimento de unidade grega e o Discurso
Olímpico, pronunciado em Olímpia, constitui um apelo veemente à recon­
ciliação e unidade dos Helenos que, com as suas rivalidades, estavam a
debilitar-se e a dar campo livre à actuação do rei persa e dos tiranos ('*0-
Os Helenos, no entanto, nunca escutaram os conselhos que historia­
dores, poetas e oradores lhes dirigiam. 0 ’particularismo foi sempre mais
forte e nunca permitiu que se unissem, apesar dos insistentes apelos
nesse sentido, sobretudo a partir dos inícios do século IV a. C. Continuaram

f - ) H. C. Baldry, The unity o f mankind in greek thought (Cambridge University


Press, 1965), p. 43.
(‘‘9 Sobre o tópico da luta comum dos Gregos contra os Bárbaros no século IV a. C.
vide J. Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos I, pp. 466-477.

173
A GRÉCIA ANTIGA

divididos e em lutas constantes e esse estado de guerra que se prolongou,


quase sem interrupção, por cerca de um século, traz graves consequências
para a vida dos Gregos, como vimos.
Não é de estranhar, portanto, que se veja crescer o desejo de uma
paz geral que englobasse todos os Gregos, ou que fosse mesmo mais
além Apossa-se dos Helenos o desejo de uma paz permanente que
os envolva e os abranja a todos - a chamada koinê eirene As ocor­
rências de tal expressão na literatura grega e nas inscrições subsistentes
não são numerosas, umas nove no máximo. Na literatura, a expressão
aparece no discurso do Andócides Sobre a Paz, proferido em Atenas
em 391 durante a GueiTa de Corinto (III. 11,17 e 34), e em discursos de
Ésquines (III. 254) e do Pseudo-Demóstenes (XVII. 2 ,4 e 17), aplicada
à paz de 338/337, que se seguiu à batalha de Queroneia e confirmou o
domínio da Macedónia sobre a Grécia. Vejamos com mais pormenor o
discurso de Andócides, que é elucidadtivo. Proferido em Atenas em
391 a. C. - portanto também em pleno ardor da Guerra de Corinto que,
como vimos, decorreu entre 395 e 386 -, o discurso procura uma con­
ciliação entre os Gregos. Partindo do pressuposto de que as póleis,
além de autônomas - isto é, de obedecerem apenas às leis que lhes são
próprias - , devem aderir a uma ordem jurídica que ultrapasse esse
individualismo e seja definida por um tratado que dará nascença a essa
autonomia no direito público inter-helénico Andócides estabelece a
distinção entre a eirene, que os negociadores querem firmar, e as spondai.
Até ao século IV a guerra aparecia-vimo-lo já - , como a situação normal
e a paz constituía apenas uma interrupção desse estado. Os tratados
mostram que nunca concluíam uma paz definitiva, mas limitada (cf Tucí-
dides 1.112.1; 3.114.3; 5.18.3 e 9) ('*’). Temporários, não eram designados
pelo termo eirene, que se aplicava apenas ao estado de paz, ou seja o
oposto de polemos, guerra. De modo geral bilaterais, esses tratados
recebiam o nome de tréguas e pactos {spondai e synthêkaí) ou
interrupções da guerra. Assim se designavam o tratado de 446/445 (cf
Tucídides 1.35. l)eo d e4 2 1 (cf Tucídides5.18.1e3el9.1),concluídos

f h Sobre estas questões vide J. Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos I, pp. 460-481.
(‘’^) Vide T. T. B. Ryder, Koine Eirene. General peace and local independence in
Ancient Greece (Oxford, 1965).
(‘‘®) Cf. S. Payrau, “Eirenika. Considérations sur F échec de quelques tentatives pan-
helléniques au IV siècle avant Jésus-Christ”, Revue des Etudes Latines 73 (1971) 33-39.
(‘*9 Para o facto de os Gregos viverem em estado de guerra permanente e de a paz ser
apenas uma interrupção daquela vide F. Adcock, “The Development o f ancient Greek
Diplomacy”,.lC 17(1948) 1-12.

174
A GUERRA E A PAZ NA POLIS GREGA

entre Atenienses e Espartanos, Pretendeu o primeiro apenas suspender


a guerra entre as duas eidades e fixou como prazo de interrupção das
hostilidades os trinta anos, pelo que também fieou conhecida por “Paz dos
Trinta Anos”. As tréguas de 421, designadas por Paz de Níeias, estipula­
vam um período de cessação das hostilidades de cinquenta anos.
Ora Andócides, no seu apelo à paz e à conciliação entre os Gregos,
para fundamentar a sua posição, considera que, enquanto as spondai,
de modo geral, são impostas pelos mais fortes aos mais fracos, a eirene
assenta num plano de igualdade, após ter posto temio aos diferendos por
um acordo mútuo ( III. 11). Em sua opinião, só com base na aceitação da
igualdade dos vários intervenientes se poderá obter uma paz duradoira.
Propõe, por isso, que fosse substituída a ideia de um tratado que se funda­
mentasse na desigualdade entre os contratantes e no qual o mais forte
impunha as suas condições, como acontecia de modo geral nas simaquias,
pela de outro que tenha por base a igualdade dos vários intervenientes.
Ao fim a ao cabo, esta posição vinha na continuidade do que Aristófanes
e Tucídides já haviam sugerido e defendido.
Andócides, no seu discurso, pretende uma paz que agrupe todos os
Helenos e insiste em que todos eles sejam convidados a aderir. Designa-
-a por eirene koinê, a que junta sempre o complemento “para os Helenos”
(III. 34) ou “para todos os Helenos” (III. 17). Um desiderato que, em
sua opinião, só pode ser conseguido pela aceitação e proclamação da
autonomia das cidades.
No tocante às inscrições, a expressão parece já aparecer aplicada à
“Paz do Rei” de 387/386, num decreto ateniense de 377. Em 362/361 já
0 sintagma koinê eirene surge utilizado nos documentos oficiais, pelo
que talvez seja razoável supor-se que a generalização do seu uso se
tivesse verificado pouco tempo antes (^^).
Se 0 primeiro tratado a receber o nome de eirene, de paz propriamente
dita, na liguagem oficial foi a chamada “Paz do Rei” (387/386) que estipu­
lava a autonomia de todas as cidades gregas e não fixava qualquer limite
de tempo (cf Xenofonte, Helénicas 5.1.29-31), já vimos que Aristófanes,
em 421, dava esse nome como título a uma das suas comédias, que Tucí­
dides utiliza 0 termo algumas vezes (e. g. 5. 17. 1) e o mesmo acontece
com Lísias (XIII, 5). O vocábulo surge num decreto de 405 da Assembleia
ateniense. Cefisódoto, escultor da primeira metade do século IV, esculpiu

0 9 Dittenberger, Sylloge 182; IG. IV. 556.


Sobre estes dois tratados de paz vide Ryder, Koinê Eirene, pp. XV, 34-36, 79-86 e
140-144.

175
A GRÉCIA ANTIGA

uma Eirene que detém numa das mãos Plutos ainda criança A deusa
foi mesmo objecto de culto público, pelo menos a partir da Paz de Cálias,
em 371 (cf. Pausânias 1. 8. 2).
Estes dados são significativos e talvez constituíssem o afloramento
de um pensar comum que se afmnava cada vez com mais insistência e
de fonna mais vasta; a ideia de que a paz era a razão do Estado e de que
os acordos que a estabeleciam e asseguravam a sua manutenção deviam
possuir um carácter de pennanência. Parece-me por isso ter razão Ryder,
ao considerar a hipótese de a terminologia e a linguagem oficial andarem
um pouco atrasadas em relação ao pensamento geral e ao falar do dia-a-
-dia (^°).
Não é de estranhar também que, face ao continuado empenho dos
Gregos nas lutas entre si e à incapacidade de se unirem e apresentarem
uma frente comum contra os Bárbaros, começasse a surgir a descrença
nas possibilidades do regime republicano das póleis e a progredir a ideia
da necessidade de alguém que, dotado de poder, impusesse a autoridade
e a ordem e acabasse com as dissensões e as lutas. Assim se implanta
aos poucos, mas progressivamente, a ideologia monárquica, de nada valen­
do a veemente e dramática cruzada de Demóstenes (^‘)- As lutas entre
os Gregos, o antagonismo entre ricos e pobres dentro da própria pólis, a
mudança nas técnicas de guerra e o aparecimento do mercenariato, o
perigo externo haviam predisposto os Gregos a aceitar o aparecimento
de um poder autocrático, um salvador que os libertasse da desordem e
do caos. Nos autores do século IV a. C., sobretudo nos pensadores polí­
ticos, é frequente essa tendência monárquica.
Tomemos como exemplo Isócrates. O orador considera impossível
que os Gregos não sintam uns pelos outros verdadeiro afecto (eimoia),
não gozem de harmonia nem constituam um todo unido. Mas, em sua
opinião, era necessário alguém com poder e autoridade que pudesse ser
0 elo solidificador dessa união e concórdia, a fím de os Gregos apresen­
tarem com êxito uma frente comum contra os Bárbaros - o tema nodal

f ’) Cf. Pausânias 9. 16. 1. D. Haynes, Greek art and the idea offreedom (London,
Thames and Hudson, 1981) considera que teria sido provavelmente em 371 - data da Paz
de Cálias que mais uma vez pôs termo às lutas entre Atenas e Esparta, tantas vezes
renovadas - que os Atenienses encarregaram o escultor Cefisódoto de executar uma
estátua de Eirene com Plutos nos braços. Para o decreto da Assembléia, de 405, IG II^. 1.
21 (= Meiggs-Lewis, SGHI, pp. 283-287, n° 94).
(^®) Koine Eirene, p. 6.
(^') Sobre a actuação de Demóstenes e a sua frontal oposição a Filipe da Macedónia
vide J. Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos, pp. 490-500.

176
A GUERRA E A PAZ NA PÓLIS GREGA

da sua obra (^^). Começa por propor, no Panegírico 15 sqq., divulgado


em Olímpia em 380 a. C., a hegemonia dupla de Atenienses e Lacede-
mónios. A criação da Simaquia ateniense em 377 a. C., também chamada
Segunda Confederação Ateniense, dá-lhe algumas esperanças de que
Atenas consiga fazer essa união, mas a cidade não mostrava capacidade
para dirigir os Gregos. Os membros da Simaquia começaram a abandoná-
-la, 0 divisionismo e as lutas continuavam. Isócrates procura então fora
de Atenas o dirigente - um rei ou um tirano, portanto um projecto monár­
quico - que, em união com Atenas, pudesse levar à realização as suas
idéias e organizar a expedição contra os Bárbaros. Pensa sucessivamente
em Jasão de Feras, Dionísio de Siracusa, Nícocles de Chipre e Arquidamo
de Esparta, aos quais dirige cartas ou destina discursos (^^).
Tudo sem êxito. O desânimo parece assaltá-lo, apesar de ainda propor
aos Atenienses, no discurso Sobre a Paz, divulgado talvez em 356 a. C.,
que estabeleçam a justiça no mundo grego (136-144), pois, se mostrarem
uma atitude pacífica e em nada contrária à justiça, trarão a felicidade à
própria cidade e aos demais Helenos. Mas a força de Filipe da Macedónia
crescera e das regiões do Norte começara aos poucos a fazer sentir-se na
Grécia. Isócrates que, em 380 a. C., considerara um rei desse país, Amin-
tas, inimigo da liberdade grega, agora, em 346, passa a ver em Filipe a
grande esperança de salvação para a Hélade e o único capaz, graças ao
seu poder e força, de unir os Gregos. Por isso lhe dirige um discurso,
precisamente chamado Filipe e datado de 346, e duas cartas - a II e a
III, datadas de 344 e 338 a. C., respectivamente -, uma atitude que o
coloca em oposição frontal a Demóstenes (^'*). O rei macedónico, como
é conhecido, acaba por fazer a vontade de Isócrates e vencer os Gregos
em 338 a. C. na batalha de Queroneia (^^). Alexandre levará a guerra à
Ásia e dará realização à segunda parte do programa do orador.

Isócrates considera os Bárbaros inferiores (c f Panegírico 82 sqq., 121, 137 e


179; Antídosis 239; Filipe 124 e 137), porque, embora possuidores de logos, não são
capazes de o usar (c f Nícocles 5-9; Antídosis 253-257). No entanto, torna-se evidente
que, para o orador, já não é a natureza que estabelece a distinção entre Gregos e Bárbaros,
mas o grau de cultura.
(^h Sobre o assunto vide P. Cloché, Isocrate et son temps (Paris, s. d.), pp. 57-69; G.
Mathieu, Les idées politiques d ’Isocrate (Paris, Les belles Lettres, ^ 1966), pp. 95-112;
J. Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos, pp. 512-513.
f b Vide W. Jaeger, Demosthenes. The origin and growth o f the policy (The California
University Press, 1938, repr. N ew York, 1963), pp. 165-166. Sobre Demóstenes e sua
oposição a Filipe vide J. Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos, pp. 490-500.
(^b Pa*'a mais pormenores sobre a evolução do pensamento de Isócrates vide J.
Ribeiro Ferreira, Hélade e Helenos, pp. 500-530.

177
A GRÉCIA ANTIGA

Em conclusão, o ideal bélico, de início o estado normal para os Gregos


e a única ocupação digna de um homem livre, sofre uma evolução, sobre­
tudo no último quartel do século V e no IV a. C. A Guerra do Peloponeso
e as outras que se lhe sucedem ao longo do século IV a. C., com a razia
dos campos e a destruição das culturas que as acompanham, originam a
pauperização e fazem afluir aos centros urbanos uma população sem
ocupação e sem recursos. Tomam-se mais frequentes as lutas sociais e
as dissensões internas. A guerra faz nascer novas técnicas e tácticas
militares que exigem treino. O vasto grupo dos desocupados vê nessa
actividade uma saída: daí derivam os mercenários que aos poucos ganham
importância e prestígio. Dependiam do general que os conduzia e lhes
pagava e não da cidade em que haviam nascido, contra a qual a cada
passo acabavam por combater. E natural que o dêmos urbano manifes­
tasse certa simpatia pela guerra, de que dependia, e que os camponeses
a detestassem, pois lhes destruía os campos e as culturas, e considerassem
a população urbana inútil, parasita e nociva. Assim se perde a caracterís­
tica ligação de campo e zona citadina, essencial na pólis. O desinteresse
cresce e os órgãos têm cada vez mais dificuldade em funcionar por falta
de presenças. Os lavradores, além da dificuldade em abandonar as suas
terras, vêem que a população urbana tem interesses antagônicos dos
seus. Esta, por seu lado, ou se sente mais ligada ao general que lhe dá
ocupação ou aliena a sua vontade aos ricos e poderosos de quem recebe
subsídios e fica dependente. Perdera-se a noção do cidadão-soldado.
Tudo isto traduz afinal cansaço da guerra e suas consequências. Daí
que apareça e se imponha cada vez com maior persistência a ideia de
uma paz que se estendesse a todos os Helenos e, mais do que isso, ao
contrário do que se pensava até aos fins do século V a. C., a ideia de que
0 estado nonual da humanidade não é a guerra mas a paz.
Como as póleis não mostravam capacidade de se entenderem e conti­
nuavam em lutas constantes e a destruírem-se umas às outras, forma-se
a ideia de que a solução se encontra no poder autocrático de alguém que,
com a sua autoridade, prestígio e força, estabeleça a ordem, a paz e
consiga a união dos Helenos. É o progresso da ideologia monárquica.
Isto quer dizer afinal que a pólis, como sistema de vida, desaparecera,
ou pelo menos se encontrava na agonia, e que já se indiciam os traços da
nova época, cujo início se costuma datar da morte de Alexandre em 323
a. C. - a época helenística.

178
p e r ío d o h e l e n i s t i c o

Uma Época de Refinamento, Fusão e


Difusão Cultural (*)

Alexandre alterara por completo a geografia política do mundo conhe­


cido de então - zonas que bordejavam o Mediterrâneo oriental e parte
considerável da Ásia. Sucedendo a Filipe em 336 a. C., em 334 atravessa
o Helesponto, da Europa para a Ásia, e quando morre em 323, uma parte
da Europa, a zona do nordeste da África e extensas regiões da Ásia, do
Mediterrâneo às margens do Indo e do Mar Arai ao Índico, estavam sob
o seu domínio. Foi uma gesta prodigiosa sem par na História que de
imediato motivou o interesse dos biógrafos e historiadores C).

(’) Para este capítulo baseei-me sobretudo em W. Tarn and G. T. Griffith, Hellenistic
civilisation (London, Methuen, ^1952, repr. 1974); M. Hadas, Hellenistic culture. Fu­
sion and diffusion (New York, Columbia University Press, 1959); E. Badian, “O mundo
helenistico”, in H. Lloyd-Jones (ovg.), O mundo grego (trad. port. Rio de Janeiro, Zahar,
1965), cap. 10; V. Ehrenberg, The Greek state (London, ^ 1969), part II - “The hellenistic
state”; P. Lévêque, Le monde hellénistique (Paris, Armand Colin, 1969: trad, port., O
Mundo Helenistico, Lisboa, Edições 70); A. Tovar y M. S. Ruipérez, Historia de Grecia
(Barcelona, Montaner y Simon, ^ 1970); J. Ferguson, The heritage o f hellenism (London,
Thames and Hudson, 1973) (trad, port., Lisboa, Verbo); A. Momigliano, Alien wisdom.
The limits ofhellenization (Cambridge University Press, 1975); A.-J. Festugière, La vie
spirituelle en Grèce à l 'époque hellénistique ou Les besoins de l ’esprit dans un monde
raffiné (Paris, coll. Empreinte, A. et J. Picard, 1977); Cl. Préaux, Le monde hellénistique.
La Grèce et l ’orient, 323-146av. J.-C. (Paris, PUF, 1978); F. W. Walbank, The hellenistic
world (Glasgow, Fontana Press, 1981); S. Price, “The History o f the Hellenistic Period”,
in J. Boardman, J. Griffin e O. Murray (orgs.), The Oxford history o f the classical world
(Oxford University Press, 1986), cap. 13; R. L. Fox, “Hellenistic culture and literature”,
in J. Boardman, J. Griffin e O. Murray (orgs.), op. cit., cap. 14; J. Barnes, “The hellenistic
philosophy and science”, in J. Boardman, J. Griffin e O. Murray (orgs.), op. cit., cap. 15;
A. B. Bosworth, Conquest and Empire: the Reign o f Alexander the Great (Cambridge,
1988); A. BQvnanâ, Alexandrie la Grande (Paris, Hachette, 1996); Chr. Habicht, Athènes
Hellénistique. Histoire de la cité d ’Alexandre le Grand à Marc Antoine (trad, franc. Paris,
Les Belles Lettres, 2000).
(-) Da literatura histórica, quer sobre Alexandre, quer sobre os reinos do período
helenistico - alguma dela aliás de carácter lendário - , hoje pouco mais resta do que nomes
e alguns escassos fragmentos. Quase tudo se perdeu e foi pena, porque nos seria de

179
A GRÉCIA ANTIGA

As notícias da sua morte espantaram o mundo, mas não provocaram


significativas revoltas entre os povos dominados, com excepção de tenta­
tivas de cidades gregas - cito o caso de Atenas - , que estiveram na origem
da Guerra Lamíaca, e de outras esporádicas (^). O desaparecimento
prematuro do jovem imperador não deixou solucionado o problema da
sucessão. Em breve os membros da sua família são eliminados: um meio-
-irmão mentalmente deficiente e um filho que nasce depois de ele morrer
sucumbem às ambições dos seus generais. Os mais importantes deles
eram Perdicas, o oficial da cavalaria de maior antiguidade; Meleagro, o
comandante da hoplitia de maior antiguidade; Ptolomeu e Leonato, um e
outro com vínculo à casa real; Peucestes, governador de Pérsis e Susiana;
Antípatro, que Alexandre, ao partir em campanha, encarregara da regência
da Macedonia, e seu filho Cassandro; Seleuco, que chefiava o regimento
de guardas de choque, os hupaspistas', Êumenes de Cardia, o secretário
de Alexandre e o único que era grego; Antígono, na altura governador da
Frigia; Lisímaco e Aristónoo. Apesar de um compromisso inicial entre
eles e de terem sorteado a atribuição das províncias (cf. Arriano,
FGrHist. 156 F 1. 3), esses generais de imediato entram em luta pela
conquista do poder que, sob diversas formas, iria durar até cerca de 270
a. C. Tiveram a sorte de não haver na altura nenhuma potência estrangeira
com força suficiente para intervir. Os povos conquistados, por sua vez,
habituados que estavam à monarquia, não se importavam que fosse este
ou aquele o monarca e submeteram-se aos sucessores que lhes foram
aparecendo ('*). Desse modo os generais de Alexandre - os Diádocos -

grande utilidade para reconstituir esses agitados tempos. Ptolomeu é autor de umas
memórias das campanhas de Alexandre e Nearco das suas navegações; Calístenes e Clitarco
escreveram histórias panegíricas do jovem imperador que estão na base das versões
fabulosas a seu respeito; compuseram ainda obras sobre Alexandre Onesícrito (autor
talvez de um livro sobre a educação do imperador) e Aristobulo (autor possivelmente de
uma História, segundo Ateneu 10, 434d). Vide P. Pédech, Historiens compagnons de
Alexandre. Callisthène, Onésicrite, Néarque, Ptolomée, Aristobide (Paris, Les Belles
Lettres, 1984). A bibliografia sobre Alexandre é vasta: cito apenas W. W. Tarn, Alexander
the Great (2 vols. Cambridge University Press, 1948); Alexandre le Grand. Image et
réalité (Genève, Fondation Hardt, 1976); J. R. Hamilton, Alexander the Great (London,
1973). Timeu, que era um siciliano, fez a história do mundo ocidental; Jerónimo de
Candia, companheiro de Êumenes, de Antígono e seus sucessores, foi o grande historiador
dos Diádocos.
(^) Há notícias da revolta de Atenas e de outras cidades gregas e da rebelião dos gregos
colonizadores do Afeganistão que queriam regressar ao país. Diodoro 18. 7. 1 fala do
levantamento dos colonos do reino da Báctria. Vide Badian, “O mundo helenístico”,
p. 229; F. W. Walbank, The hellenistic world, pp. 43-45.
(h Vide Badian, “O mundo helenístico”, in Lloyd-Jones, O Mundo Grego (trad,
port., Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1965), p. 228.

180
PERÍODO HELENÍSTICO

puderam intrigar e disputar entre si, em luta aberta pela sucessão. Gover­
nadores de consideráveis territórios ou generais acantonados em zonas
mais ou menos extensas, não se sentiam contudo satisfeitos com isso.
Os ambiciosos não se contentam durante muito tempo com pequenos
dominios. Mas, peões de Alexandre, ao converterem-se depois da sua
morte em monarcas de direito, nenhum deles, sozinho, podia conservar o
império unido. Talvez o próprio Alexandre não fosse capaz de manter
essa unidade por muito mais tempo.
As lutas pelo poder ocupam os cinquenta anos subsequentes à morte
do imperador, com raras concessões ao direito e à moral. Podemos dividir
esses anos em três periodos: de 323 a 320 a. C., Perdicas esforça-se por
conseguir um compromisso que pusesse a salvo a legitimidade e a unidade
do Império, esforço que baqueia com a sua morte violenta. Os anos de
320 a 301 são dominados - com os acontecimentos a ter por cenário a
Europa e a Ásia, altemadamente - pela tentativa de Antigono em colocar
sob o seu poder todo o império, ou pelo menos a maior parte dele, e
assim manter a unidade, projecto que também se gora pela sua derrota
e morte em Ipso (301 a. C.), ante uma coligação dos seus adversários.
Acabam por restar três generais que dividem o império de acordo com
as limitações geográficas: Lisimaco fica com as províncias europeias da
Trácia e a parte norte da Ásia Menor; Seleuco obtém a maioria das regiões
asiáticas; Ptolomeu consegue o domínio do Egipto, da Líbia e do mar; o
destino da Macedónia e da Grécia continuava incerto. Esta divisão consti­
tuirá, grosso modo, o embrião dos futuros reinos helenísticos que emergem
como uma consequência da conquista pelo poder. Não sem que antes a
ambição renove a luta. Nos vinte anos seguintes - portanto de 301 a 281
a. C. - a luta tranfere-se mais para a Europa, uma vez que Ptolomeu I já
se impusera no Egipto e que Seleuco se firmara na Ásia: numa primeira
fase, Demétrio Poliorcetes, filho de Antígono, tenta reavivar o império, a
partir de uma base na Grécia e Macedónia, mas esbarra nas ambições
de Lisímaco e de um novo pretendente, Pirro do Epiro, que estabelecem
uma aliança, o derrotam em 288 a. C e o lançam na prisão, onde morre;
uma segunda fase caracteriza-se pelo esforço de Lisímaco em anexar a
Macedónia e a Grécia ao seu reino e pelo recomeço da luta pela unificação
do império, mas agora apenas entre este e Seleuco, já que Ptolomeu
cedo se apercebe da impossibilidade de unificar o império é vai tentar
fortalecer o seu domínio sobre o que será o reino do Egipto ou dos Lági-
das: 0 primeiro invade a Ásia, onde em 281 a. C. é vencido e morto em
Curupédio (Ásia Menor) pelo segundo que é assassinado por Ptolomeu
Cerauno, quando, após a vitória, se dirigia para a parte europeia do império.
Assim morre o último dos Diádocos. No momento verifica-se também a
181
A GRÉCIA ANTIGA

invasão dos Gauleses que vem acentuar o caos e a insegurança. Na luta


contra essa ameaça distinguem-se Antígono Gónatas - neto de um dos
maiores generais de Alexandre, também chamado Antígono - e Antíoco,
filho de Seleuco, Por volta de 270 a. C., perdida a esperança de reunir
todo o império de Alexandre sob o governo de um só homem, a tríplice
divisão é defmitivamente aceite: os Ptolomeus estavam já estabelecidos
no Egipto; Antíoco fica com a Ásia e abandona todas as pretensões às
outras partes; Antígono Gónatas, por sua vez, declina as ambições de
domínio sobre a Ásia e passa a reinar nas regiões da Europa. Assim se
implantam os três principais reinos helenísticos, de que dou a seguir alguns
tópicos.
No Egipto, um astuto oficial chamado Ptolomeu (323-283 a. C.), depois
conhecido por Soter, ou seja Salvador, - se não foi o maior, foi pelo menos
0 mais pmdente dos generais de Alexandre e talvez o primeiro a descobrir
as possibilidades da situação emergente - funda uma nova dinastia. Os
seus vastos recursos dão-lhe oportunidade de se assenhorear do Egipto
e pennitiram à sua frota estender o domínio a Cirene e à Fenícia. Conven­
cido da impossibilidade de reunificar o império, dedicou a sua atenção e
astúcia à organização do reino. Proclamado rei em 305 a. C., esse acto
significa a divisão do império de Alexandre. Levou consigo o corpo deste
para Alexandria e dessa fonna aumentou o seu prestígio. As qualidades
de administrador demonstradas consolidaram o poder e deram ao reino
consistentes bases econômicas. Conseguiu no Egipto uma ligação entre
vencedores e dominados e constitui uma casta militar baseada na coloni­
zação e hereditariedade da terra.
O seu sucessor, Ptolomeu Filadelfo (283-246 a. C.), continuou esta
política de preferir proteger a cultura e o desenvolvimento econômico à
expansão militar.
Consolidada pela acção destes dois reis, a dinastia manteve-se até ao
advento de Roma, perturbada apenas por crises esporádicas.
A organização social do Egipto estava dividida em duas classes: a
privilegiada, constituída pela administração greco-macedónia, pelos gregos,
pelos proprietários de terras e pelos sacerdotes egípcios; a massa do povo,
agrupada em aldeias, distritos e províncias e com condições de trabalho
pesadas e duras, servia de suporte à anterior, dependia do Estado e tinha
um salário muito baixo. Havia numerosos nativos nos postos inferiores
do serviço público, mas tinham reduzidas possibilidades de ascensão, já
que 0 uso do grego como língua oficial lhes dificultava a melhoria da si­
tuação. No exército não se lhes permitia servirem em condições de igual­
dade com os Gregos ou helenizados. Isto acaba por provocar descontenta­

182
p e r ío d o h e l e n ís t ic o

mentos e há notícias de revoltas no Alto Egipto (^). Não existiam escravos,


a não ser nas minas e nas cidades gregas como servidores domésticos.
O comércio desenvolve-se muito, a partir de Alexandria, e provoca a
atracção de Gregos e de outros povos estrangeiros. Bem planeada e tendo
por centro o túmulo de Alexandre, toma-se rapidamente na grande capital
do mundo helenístico. Desenhada por Deinócrates de Rodes, era uma
cidade em tabuleiros, com sete mas paralelas à principal - a Canopus,
de trinta metros de largura e bem pavimentada - , cortadas por outras
onze também paralelas entre si. Cada um dos sucessivos reis quis engran-
decê-la, pelo que os monumentos e os edifícios públicos se multiplicaram,
a ponto de chegarem a ocupar cerca de um terço da sua área: palácio
real, túmulo de Alexandre, Biblioteca, Museu ejardins botânico e zoológico.
Templo de Serápis e Santuário de Pã, ginásio, estádio, hipódromo e teatro.
Dotada de um porto activo e bem apetrechado, em parte natural e em
parte artificial pela construção de um molhe que unia a terra à ilha de
Faros, adquiriu grande importância no domínio econômico -- era o maior
centro de negócios da época helenística- e no domínio cultural. Perante
o Egipto indígena era uma cidade grega, se bem que pela sua composição
e tamanho fosse mais uma reunião de bairros autônomos, cada um deles
com população e funções diferenciadas (®). Transferida de Mênfis para
lá a capital, Alexandria transforma-se em cidade cosmopolita, habitada
por um número considerável de raças: os membros das classes superiores
que, embora de sangue misto, se orgulhavam de serem gregos (cf Políbio
24.14. 5); os egípcios sem direitos de cidadania; uma numerosa comuni­
dade judaica; várias outras raças em menor quantidade. Era ela mesma,
como observa Ferguson, uma cosmópolis em miniatura (’).
Tomado um entreposto cosmopolita, a economia do Egipto beneficia
muito com isso. A política comercial da monarquia, além de contribuir
para acrescentar os rendimentos do Estado, incrementou também o pro­
gresso econômico do país. Foram instaladas bases no Mar Vennelho e

f ) Vide Badian, “O mundo helenístico”, p. 237.


f ) Alexandria era constituída por cinco bairros designados pelas cinco primeiras
letras do alfabeto grego: o bairro régio, situado no lado oriental do porto, onde se encon­
travam 0 palácio real, o Museu, a Biblioteca e as casas dos mais abastados; a oeste ficava
o bairro indígena com o grande templo de Serápis; na zona central encontravam-se os
edifícios da administração e os armazéns. As casas foram sendo cada vez mais altas até
atingirem vários andares. A água do Nilo, levada por um canal para a cidade, era distribuída
por um sistema de cisternas, de onde podia ser colhida pelos habitantes. Vide Ferguson,
The heritage ofhellenism, pp. 22-21.
O The heritage ofhelenism, p. 27. Sobre a cidade de Alexandria vide P. M. Fraser,
Ptolemaic Alexandria (3 vols., Oxford University Press, 1972).

183
A GRÉCIA ANTIGA

organizado entre o Nilo e esse mar o transporte por canal e por caminho
para as caravanas; o porto de Alexandria foi apetrechado com as mais
modernas técnicas e, para servir de aviso a quem o demandava, construiu-
-se o conhecido farol. Este desenvolvimento dos transportes, bem como
o aperfeiçoamento e a modernização dos meios de cultivo, aumentou
consideravelmente a produção. O sistema apoiava-se numa burocracia
bem planificada. Uma organização tributária perfeita trazia ao rei volumo­
sos recursos. O desenvolvimento da economia monetária, com o sequente
florescimento bancário, favoreceu o incremento comercial e a política
tributária.
Estes consideráveis recursos permitiram aos Ptolomeus organizar,
formado em grande parte por mercenários gregos, um poderoso exército
que lhes facilitou a manutenção da estabilidade interna e do respeito a
nível internacional (®).

AMacedónia tem uma história mais agitada do que o Egipto. Alexandre


deixara o governo confiado a Antípatro, homem habilidoso e leal que
manteve o reino unido até morrer em 319 a. C. Depois a Macedónia
passou fugazmente por várias mãos - como Cassandro, filho de Antípatro,
Olímpia, mãe de Alexandre, Lisímaco, governador da Trácia, Pirro, rei
do Epiro - até que Antígono, que fora governador da Frigia Central, lhe
dá alguma estabilidade. Enérgico, general de visão e competente, com
algumas das qualidades de Alexandre, durante os vinte anos em que do­
minou a cena política (320-301 a. C.) esforça-se por assegurar a sucessão
única, mas as suas tentativas vão ruir ante a coligação dos rivais na
batalha de Ipso, em 301 a. C., que sela a divisão do Império de Alexandre.
O reino da Macedónia passa depois sucessivamente, em lutas uns com
os outros, pelas mãos de Cassandro - um verdadeiro homem de Estado,
mas que morre cedo por doença, em 293 a. C. - , pelas de Demétrio,
filho de Antígono, e pelas de Lisímaco, rei da Trácia. Os dois últimos, no
desejo de reconstituírem o Império de Alexandre, entram em lutas com
Seleuco, mas Demétrio é vencido por este e retido prisioneiro até que
morre em 283. As ambições de Lisímaco acabam com a sua derrota e
morte em Curupédio, junto de Sardes, em luta com Seleuco. Será o filho
de Demétrio, Antígono Gónatas (276-239 a. C.), a estabelecer e cimentar
a monarquia macedónica e o seu domínio sobre a Hélade. Vencera os

O Por exemplo, num desfile realizado em 270 a. C., concentraram-se cerca de oitenta
mil mercenários.
A poderosa frota naval dos Ptolomeus permitiu-lhes intervir no Egeu, onde Chipre
esteve sob o domínio egípcio até 58 a. C.

184
p e r ío d o h e l e n is t ic o

Gauleses em Lisimaquia, em 277 a. C., e esse feito dera-lhe prestígio e


abrira-lhe o acesso ao trono. Invadida a Hélade em 280 a. C. por esses
bárbaros, os Gregos unem-se para os enfrentarem, sob a chefia dos Etólios,
e conseguem repeli-los. Os Gauleses retiram para norte, onde se fixam,
mas continuam a impor o pagamento de tributo. Antígono Gónatas afasta
0 perigo com a referida vitória e esses povos encaminham-se para a
Ásia Menor, onde se tomam um elemento perturbador e destruidor.
Pmdente e moderado, Antígono Gónatas era um entusiasta do helenis-
mo. Durante os cerca de quarenta anos que ocupou o trono da Macedónia
(morre em 239 a. C.), muito contribuiu para a helenização das regiões
sob o seu domínio. Rei-filósofo, que contava entre os amigos Menedemo
e Zenão, viu na cultura helénica o meio de exaltação, quer pessoal, quer
do reino. Por isso, procurou reunir na sua corte poetas (Arato e Antágoras),
tragediógrafos (Alexandre de Etólia), filósofos (endereça o convite a
Zenão que, embora o não aceite, envia o seu discípulo, Perseu, que passa
a ser o conselheiro do rei).
Parece não ter pretendido nunca subjugar a Grécia; limitou-se a
considerá-la zona de influência, mantendo guarnições em Corinto, que
dominava o istmo, e no Pireu. Apesar disso viu-se a braços com a revolta
de algumas das cidades gregas fomentada por Ptolomeu II do Egipto
que desejava o trono da Macedónia para o filho - revolta que Antígono
domina sem dificuldade, em 265 a. C. - e mais tarde com as lutas que
lhe movem as confederações da Etólia e da Acaia.
A política de Antígono Gónatas foi seguida, embora em proporções
mais reduzidas, por seu filho, Demétrio II (239-229 a. C.), e por seu
sobrinho, Antígono Dóson (229-221 a. C.).
Monarquia simples, sem as complexidades do Egipto, mas eficiente,
viu-se cedo perturbada pela intervenção de Roma. Provocada essa inter­
ferência pela obstinação de Filipe V (221-179 a. C.), as forças macedó-
nicas, chefiadas pelo seu sucessor, Perseu (179-168 a. C.), após vários
recontros com sucessos alternados, são aniquiladas na batalha de Pidna
em 168 a. C. e a Macedónia é dividida em quatro regiões e depois, em
146, incorporada no domínio romano como província.

O governo da Ásia coube a Seleuco (313-280 a, C.). Embora não


fosse um dos grandes generais de Alexandre nem um extraordinário
condutor militar, era contudo, segundo informa Pausânias (1. 16. 3), um
administrador invulgar e gozava de grande reputação devido à sua
integridade. Quando o jovem imperador morreu, assumiu o governo da
Babilónia. Em seguida, sem assassínios nem aventuras, passou a senhor
da Síria, da Mesopotâmia, do Irão e da Ásia Menor.
185
A GRÉCIA ANTIGA

Em luta pelo poder com Antígono, Demétrio e Lisímaco e após os


haver vencido, Seleuco acaba por ser assassinado por Ptolomeu Cerauno,
como já foi dito acima, quando se dirigia para a Europa. Antíoco, seu filho
e sucessor, dedica os vinte anos de governo (280-261 a. C.) a consolidar
0 reino, cuja unidade era difícil de manter.
Apesar de o Estado se ter helenizado, Seleuco e os seus sucessores
seguiram o princípio do governo indirecto e dessa forma conseguiram
que algumas regiões orientais se mantivessem integradas no reino por
mais tempo do que se tivessem optado pela administração directa. Nunca
repudiou a vida persa, ao contrário de alguns dos generais de Alexandre,
e flmdou, junto do Orontes, Antioquia, segunda cidade do mundo helenístico
a seguir a Alexandria, a capital do reino e sede do poder dos sucessivos
monarcas. Enquanto Alexandria e Antioquia eram centros cosmopolitas.
Pela, capital da Macedónia, continuou a ser, no norte, uma cidade de
província.
A defesa do reino constituía o principal problema. Teoricamente todos
podiam ser recrutados, mas, além de os generais que governavam as
províncias terem amplos poderes que haviam herdado dos antigos
sátrapas, cada uma delas era um mosaico de várias formas de organização
local, o que na prática dificultava, ou impedia mesmo, a fonnação de um
exército homogéneo. O rei preferia contratar mercenários que, apesar
de saírem mais caros, eram também mais eficientes; mantinha por isso
apenas um pequeno exército pennanente, com guarnições em pontos
estratégicos, e uma pequena força de reserva (®).
O solo era na sua maior parte propriedade do rei, a chamada terra
régia - que o monarca podia administrar directamente ou ceder aos con­
quistadores e mercenários que assim se convertiam em grandes extensões
de terras. Os templos e santuários possuíam também grandes propriedades,
com milhares de escravos. Daí que não fossem pouco frequentes os
conflitos destes com os príncipes. Os camponeses, chamados laoi,
estavam ligados ao solo e não podiam deixar a terra. Se, no entanto, pas­
savam a depender de uma cidade grega - o que era incentivado pelo
próprio rei, às vezes em conflito com os santuários - isso signifícava a
Il elevação do seu estatuto à condição de colono.
De grande extensão e sem unidade, enfraquecido por constantes
conflitos sucessórios, o reino selêucida viu-se sucessivamente amputado
pela perda das províncias fronteiriças. Os reis deram preferência às pro­
víncias ocidentais em detrimento das orientais, cuja desintegração começa

O Vide Badian, “O mundo helenístico”, p. 241.

186
p e r ío d o h e l e n ís t ic o

desde cedo: caso do reino parto de Arsaces e do reino grego de Diódoto


em Bactriana. Antíoco III (223-187 a. C.), em cerca de 200 a. C.,
consegue sustar o constante declínio, mas por volta de 160 a. C. o reino
já deixara de ser uma peça importante no xadrez político da época (‘°).

O equilíbrio da tríplice divisão, em consequência das duras lutas e


ambições que continuavam a lavrar, foi sempre pouco estável. Verificava-
-se um crítico estado de tensão nas áreas de fronteira. Por outro lado, o
reino dos Selêucidas apresentava certa fraqueza, dada a sua extensão e
a variedade de raças; as intrigas eram constantes. A situação agrava-se
muito com a fixação dos Gauleses na Ásia Menor, após a derrota de
Lisimaquia (277 a. C.), a que atrás me referi.
Pérgamo, como Estado independente, nasce destes condicionalismos.
Começou por ser uma cidade integrada no reino dos Selêucidas, mas em
262 a. C. Ptolomeu II convence Êumenes (263-241 a. C.), o governador,
a separar-se, independência que Antíoco I se vê obrigado a reconhecer,
após a derrota desse ano em Sardes. O sucessor, Átalo I (241-197 a. C),
aparece como campeão do helenismo contra os bárbaros, ao vencer os
Gauleses do interior em 230 a. C. - vitória que foi muito celebrada e
ocupa lugar de relevo na arte helenística através das representações es­
cultóricas de Gauleses vencidos - , ganha dessa forma prestígio e dá-se
a si próprio o título de rei; aproveita um momento de lutas e consequente
fraqueza dos Selêucidas, cimenta o reino e estende o seu domínio até à
Ásia Menor.
Pérgamo transforma-se num centro cultural de primeira ordem, a ponto
de se tomar rival de Alexandria. O pergaminho, como o nome sugere,
será invenção sua, para fazer face - segundo uma tradição narrada por
Plínio, o Antigo (NatHist. 13. 70), talvez não fidedigna - à proibição, por
parte dos reis egípcios, da exportação do papiro para o reino, por razões
de rivalidade, para que a sua biblioteca não superasse a de Alexandria (”).
Graças às empresas públicas de têxteis e de pergaminho e a um hábil
sistema de impostos, adquire prosperidade financeira. Com uma vida

('“) Para uma análise mais pormenorizada do reino selêucida vide E. Bickerman,
Institutions des Séleiicides (Paris, 1938); D. Musti, “Lo stato dei Seleucidi. Dinastia,
popoli, città de Seleuco I ad Antioco IIP’, Studi classici ed orientali 15 (1966) 61-197;
G M. Cohen, The Seleucid colonies: Studies in thefounding, administration and organi­
sation {VIiQshaden, 1978).
(") Sobre o assunto vide E. G. Turner, Greek papyri. An introduction (Oxford Uni­
versity Press, 1968), pp. 9-10; R. Pfeiffer, History o f classical scholarship (Oxford
University Press, 1968), p. 236.

187
A GRÉCIA ANTIGA

marcada pela simplicidade, os governantes mostravam a magnificência


nas obras de interesse geral.
Ao contrário dos outros três grandes reinos helenísticos, onde o ele­
mento bárbaro, além de influenciar e complicar a evolução política, acaba
também por ter alguma repercussão na expressão cultural, com a fusão
de elementos não gregos, Pérgamo desenvolve o espírito helénico de
uma forma mais pura, apoiado na antiga tradição iónica.
O reino de Pérgamo torna-se, cerca de 200 a. C., o primeiro aliado
dos Romanos na Ásia e é integrado no império destes em 133 a. C., por
testamento do seu rei Átalo III (159-133 a. C.) (‘^). É a partir de então
que Roma cria a província da Ásia, uma vez que - vimo-lo já - o reino
dos Selêucidas deixara de ter importância desde cerca de 160 a. C.
As cidades gregas continuaram a existir e continuou a chamar-se-
-Ihes póleis. Pode afmnar-se que, em determinado sentido, até floresceram
com a conquista de Filipe, as campanhas de Alexandre e o mesmo se
diga ao longo do período helenístico. Filipe funda na região da Trácia
Filipos, Heracleia Síntice, Filipópolis, entre outras. Alexandre, além de
dar a liberdade às cidades que até então estavam sob o domínio persa
(cf. Arriano, Anábase 1.18. 2), fundou muitas outras nos locais por
onde ia passando: as Alexandrias espalharam-se por todo o lado (‘^). Os
generais que disputaram a sucessão, os Diádocos, seguiram-lhe as pisadas
e os reis helenísticos não procederam de outro modo
O contexto em que as cidades passaram a mover-se é que se alterou
significativamente. Embora em relação a elas os reis se encontrassem
numa situação ambígua, limitados que estavam por vezes pelas suas leis,
a discussão sobre se as cidades faziam ou não parte do império parece-
-me uma falsa questão. Desde a conquista por Filipe da Macedónia,
tinham deixado de ser verdadeiramente autónomas e, desde a morte de
Alexandre, viram-se à mercê das ambições e lutas dos generais e reis
helenísticos. Embora os príncipes lhes deixassem certa vida de autonomia
interna e os Selêucidas se tivessem distinguido pela liberdade que lhes
concediam, na prática ela não existia: as suas relações com os dinastas,
além de difíceis e delicadas, dependiam do momento e das pessoas (‘^).

Sobre o reino de Pérgamo vide R. B. Mcshane, Theforeignpolicy o f theAttalids


(Urbana, Illinois, 1964); E. V. Hansen, TheAttalids ofPergamum (New York, ^1971).
(‘^) Plutarco, Sobre a fortuna de Alexandre 5 {Moralia 328E) fala em setenta. Embora
haja certo exagero, o número devia ser elevado.
Ch Seleuco, por exemplo, ligou o seu nome a 16 Antioquias, 9 Selêucias, 6 Laodiceias,
3 Apameias, uma Estratoniceia.
C9 Por exemplo, Filipe, Alexandre e Antígono Gónatas mantiveram sempre uma
posição de respeito por elas. Mas não se pode de modo algum falar em cidades com um

188
p e r ío d o h e l e n ís t ic o

Se formalmente elas agiam com soberania e independência e conduziam


os seus negócios internos e diplomáticos - enviavam e recebiam embaixa­
dores, celebravam tratados sobre questões rotineiras, tinham liberdade
de cunhar moeda se os reis evitavam dar ordens e se limitavam a su­
gerir, a pedir ou apenas a notificar, isso era suficiente para se fazer obe­
decer; tratava-se de uma ilusão e de um fingimento político mantido pelas
duas partes. As cidades gregas sabiam quem era na realidade o senhor.
O rei tinha de modo geral uma força militar nas cidades - estava lá,
alegava o governo, para a defender dos inimigos - e favorecia uma das
facções na tradicional luta partidária em que, como vimos, a cada passo
se envolviam; desse modo obtinha o seu apoio político e financeiro ('®).
Não prescindia ainda do tributo, embora permitisse à cidade recolhê-lo
sem a interferência das autoridades reais.
Desse modo, o eufemismo da linguagem diplomática encobre uma
política de supervisão e de verdadeiro controlo. Nominalmente autónomas,
as cidades eram parcelas de um domínio mais vasto e tinham uma
limitação de liberdade, efectiva, no que respeita às relações internacionais.
A insegurança de vida na Grécia do século III a. C. teve como
consequência o acentuar do empobrecimento que, segundo Rostovtzeff,
atingiu de um modo especial a classe média, já que pouco a pouco se foi
proletarizando. Ora o número de escravos aumentara muito, como sequela
das guerras, e provoca o abaixamento dos salários. Deste modo, além de
crescer o contingente dos pobres, acentua-se também a diferença entre
eles e os ricos. Tudo razões que estão na origem de dissensões internas
frequentes que a cada passo desembocam no aparecimento de tiranos
demagogos (*’^). Ora é bem elucidativo que a alteração de aliança com
os príncipes reinantes, ou com os diversos pretendentes, arraste consigo,
de modo geral, a mudança de magistrados nas cidades. Será portanto
lógico pensar que, se estas não puderam eximir-se a entrar nas lutas dos
ambiciosos pelo poder, talvez o não tivessem também de todo desejado;
possivelmente terão mesmo aproveitado a circunstância para dar expres­
são às dissensões internas. As cidades não conseguiram nunca superar

mínimo de independência, sobretudo no que se refere a relações externas. Na renovação


da Simaquia de Corinto a que procedeu, Alexandre apelidou-se “rei dos Gregos”. Vide W.
W. Tarn, Alexander the Great. II — Sources and studies (Cambridge University Press,
1948), pp. 228-232, App. 7. 2; J. Ferguson, The heritage ofhelenism, p. 38 (trad. port.
Lisboa, Editorial Verbo, 1973, p. 45).
('«) Por exemplo, havia guarnições macedónicas em pontos estratégicos, como Corinto,
Pireu, Cálcis. Sobre este assunto vide Badian, “O mundo helenístico”, p. 242-245.
C’) Caso de Aristómaco de Argos, de Aristótimo de Élide, de Apolodoro de Cassandreia,
de Aristódemo de Megalopolis.

189
A GRÉCIA ANTIGA

as lutas de classes que já as dividiam em épocas anteriores e desse


modo continuaram o hábito de se guerrearem e destruírem mutuamente.
Na época helenística, como meio de superar o antagonismo das cidades,
desenvolve-se um novo tipo de organização política, o koinon ou comu­
nidade, a que os textos chamam também simpoliteia - ou que possuem
constituição comum-, verdadeira federação supra-estatal. Embora alguns
exemplos já nos surjam no século V a. C, como a Federação da Beócia
e a da Tessália, as Simaquias de Delos e do Peloponeso - estas últimas,
a que já me referi em capítulos anteriores, alianças de carácter militar
hegemônico que tenderam para domínios imperialistas -, e no IV (caso
da Confederação Ateniense de 378 e da Liga de Corinto de 338), o fede­
ralismo ganha sobretudo expressão na época helenística ('®). Muitas vezes
essas associações eram incentivadas pelos monarcas, por uma questão
de estratégia política: pemiitiam-lhes impor os seus desejos e autoridade
de uma maneira firnie, mas por um processo que aparentava respeitar a
liberdade dos membros (‘^). Entre as federações desse período destacam-
-se a dos Etólios e a da Acaia.
A Etólia foi um ethnos - ou estado tribal - até ao século V a. C., mas
uma inscrição de cerca de 367 (Tod 137) já fala em koinon dos Etólios.
Tinha uma assembléia, formada por todos os homens em idade militar,
que reunia duas vezes por ano, na Primavera e no Outono; um conselho
- boulê ou synedrion - , constituído por representantes das cidades, em
número de algumas centenas, eleitos em proporção com a população de
cada uma; e um estratego, o magistrado principal, eleito anualmente.
Tratava dos assuntos quotidianos um conselho de pouco mais de trinta
elementos no total - os apokletoi - que se reuniam sob a presidência do
general. Aproveitando o prestígio conseguido em 279 a. C., por libertar
Delfos dos Gauleses, os Etólios conseguiram estender a sua federação
pela Grécia Central e tomaram-se uma potência de certo peso na Hélade.
Mais tarde aliaram-se a Roma contra Filipe V da Macedónia, com as
consequências já apontadas.

C®) É significativo que, em 224 a. C., Antígono Dóson, ao organizar urna confederação,
já não pense em cidades, mas em federações: uma federação de federações.
C’) São bons exemplos a Confederação de Delos com cidadania comum a todos os
componentes e o centro religioso em Delos, mas na dependência política do monarca que
dominava no Egeu ou do seu representante; a Confederação lónia que era dirigida por um
estratego nomeado pelo rei. Sobre as federações vide V. Ehrenberg, The Greek state
(Oxford, 1960), pp. 103-131; J. A. O. Larsen, The Greekfederal states. Their institutions
and history {Oxíová, 1968).
Para mais informações sobre as cidades e federações no período helenístico vide C.
Preaux, Le monde hellénistique (Paris, PUF, 1978), vol. 1, parte 11.

190
p e r ío d o h e l e n ís t ic o

A Federação Acaia, embora com antecedentes associativos, surge


em 280 a. C. E nesse ano que cidades da costa norte do Peloponeso -
Dime, Patras, Triteia, Paras - fomiaram uma federação, à qual aderiram
depois Égion, Bura, Cireneia, Leôntio, Egira, Palene, entre outras. Embora
possa estar ferido de algum exagero, o seguinte texto de Políbio (2. 37.
9-11) expressa os ideais que levaram à sua constituição:

No passado muitos tentaram unificar o Peloponeso numa política de


interesse comum, mas ninguém foi capaz de o conseguir, porque cada um
lutava não pela causa da liberdade geral, mas pelo seu poder próprio. No
meu tempo porém esse objective foi superado e concretizado, a ponto de
o Peloponeso não só constituir uma comunidade aliada e amiga, mas ter
além disso as mesmas leis, pesos, medidas e moeda, e também os mesmos
magistrados, membros do conselho e juizes, e de quase todo ele não
poder constituir uma pólis só apenas pelo facto de os seus habitantes
não possuírem unicamente um refugio amuralhado.

Em 251 a. C. Arato, após expulsar o tirano de Sícion, integra essa


cidade na Federação e, entre 243 e 228 a. C., graças à acção desse
dirigente, a maioria dos Estados do Istmo de Corinto, da Arcádia e de
Argos é incluída nela. Associada à Mecedónia desde 224, em cerca de
200 a. C. alia-se a Roma. Tinha por instituições mais significativas uma
assembléia - cujo papel e composição têm gerado controvérsia - que se
reunia quatro vezes por ano, os sínodos; o conselho, ao qual tinham acesso
os cidadãos de mais de trinta anos; e os magistrados (um estratego, dez
demiurgos e vários outros, como o chefe da cavalaria e um almirante).
Durante mais de cem anos, a Federação Acaia exerceu um papel activo
na política da Grécia, mas um conflito com Esparta origina um ultimato
de Roma em 147-146 a. C., uma guerra minosa e a sua dissolução.
No período helenístico a pólis, como entidade política com força de-
cisória efectiva, fora ultrapassada. Prevaleciam reinos extensos, de grande
desproporção quer em espaço, quer em população, se comparados com
ela (^°). Estamos perante vastos agregados de povos ligados pelo helenismo,
cultura comum da classe dominante. As vias comerciais ligavam as diver­
sas partes do mundo helenístico: chegavam até à índia, à Rússia, à África,
e à Europa ocidental. Os governantes haviam aberto o mundo e todos
podiam viajar livremente.

As campanhas de Alexandre haviam apagado os limites entre Ocidente


e Oriente. Deixara de se poder afirmar, como faziam os anciãos do coro

f° ) Vide Ferguson, The héritage ofhelenism, pp. 16-17.

191
A GRÉCIA ANTIGA

dos Persas de Ésquilo, que, enquanto a Europa era o habitat dos Helenos,
o continente asiático era o lugar que os deuses haviam destinado aos
bárbaros (vv. 102-113). Segundo G. Tam, Alexandre teria visionado a
humanidade não de uma maneira dicotômica como até aí se fazia, mas
como um todo - a primeira vez que tal acontecia - , e procurara, de acordo
com esse pensamento realizar uma política de ílisão (^‘). Acreditava -
a ser exacta a afirmação de Plutarco {Alex. 27 e de Alexandri fortuna
9 = Moralia 331A-B) -- que tinha recebido dos deuses a missão de re­
conciliar 0 mundo e hamionizar os homens. Pensava, segundo infonnação
de Eratóstenes (cf Estrabão 1 .4 .9 , 66), que os homens se não deviam
dividir em Helenos e Bárbaros, mas em bons e maus, cultos e incultos.
Favorecia, por isso, todos os homens honestos, fossem gregos ou de
outra raça, e não seguia o conselho de tratar os deuses gregos como
amigos e os não gregos como inimigos Q^).
Os seus sucessores e, mais tarde, os reis helenísticos seguem de
modo geral política idêntica e, para defesa dos seus domínios, vão utilizar
mercenários que provinham de pontos diversos. Além de macedónios e
gregos das mais variadas partes, encontramos judeus, árabes, medos,
persas; elementos oriundos da Península Itálica e da Hispânia; naturais
das regiões balcânicas, da Peónia, da Trácia e das que ladeiam o Danúbio;
gauleses da Europa e da Ásia; povos de África, Líbia, Egipto e regiões
mais a sul. Este universalismo - acentua-o Ferguson - origina um duplo
efeito; por um lado tende a anular as culturas de cada povo e à aceitação
de uma cultura helénica comum pelas forças militares; por outro, essa
cultura levada pelos que regressavam às suas terras, tende a ser aí
seguida. Desse modo o helenismo irradia e ganha alicerces cada vez
mais sólidos f ^). Muitos acabavam por não voltar aos locais de origem,
mas, fixando-se, fundavam novos lares e contribuíam desse modo para a
fusão de raças e para a formação de comunidades cosmopolitas, como
Alexandria, Selêucia e Antioquia.

(-') Alexander the Great. I- Narrative (Cambridge University Press, 1948), pp. 121
sqq. e II- Sources and studies (1948), App. 25, VI; E. Badian, “Alexander the Great and
the unity o f mankind”. Historia (1958) 425 sqq. contesta esta opinião de Tarn.
( 22) Teve, por exemplo, em grande conta o oráculo do deus Amon em Siwah no
deserto líbio. Segundo Calístenes teria sido aí que Alexandre ouviu do sacerdote que era
filho de Zeus (cf. Estrabão 17. 1.43), ou seja filho de Amon.
("9 Vide Ferguson, The heritage ofhelenism, p. 20.
Sobre a importância dos mercenários no período helenístico vide G. T. Griffith,
Mercenaries o f the hellenistic world (Cambridge University Press, 1935); M. Launey,
Recherches sur les armées hellénistiques (2 vols., Paris, 1949-1950). Sobre os locais de
proveniência dos mercenários vide esta última obra, pp. 1111-1271.

192
p e r ío d o h e l e n ís t ic o

Os povos da Ásia e do Egipto sob o domínio dos militares greco-


-macedónios recebem o influxo da cultura helénica. Dominavam os Gregos
da classe dirigente que industriavam a população livre indígena nas activi-
dades práticas da produção econômica. Os soldados, administradores e
eomerciantes gregos surgiram no Egipto e Líbia, na Pérsia, Afeganistão
e até no Paquistão. Criou-se um reino grego no Afeganistão que, com
fortuna variada, se manteve durante séculos. Havia numerosos gregos e
macedónios na Mesopotâmia e na sua eapital - Selêueia-sobre-o-Tigre
que substituira Babilônia nessa função e que ehegou a ter meio milhão
de habitantes. Vêem-se magistrados gregos nas mais remotas regiões.
O helenismo irradiou para eidades que não tinham origem grega. Desse
modo, uma consequência das conquistas será um considerável nivela­
mento cultural.
Na época helenística atingiu-se certa estabilização na vida social e
econômica dos países do Mediterrâneo oriental, mas foi sempre um equi­
líbrio instável, com as contínuas lutas a terem efeito prejudicial sobre a
economia e com a desamionia social - lutas entre Gregos e não Gregos,
ricos e pobres - a provocar alguma instabilidade. O grande problema
era conseguir a harmonização entre os elementos constitutivos da socie­
dade: o invasor greco-macedónico e a população indígena. Em boa parte
parece que foi alcançado, por exemplo no Egipto e na Síria, um congraça-
mento e um trabalho eficaz. Verificava-se uma melhoria na navegação e
no comércio; alargamento geográfico, mais segurança nas rotas, unidade
de língua e moeda de tipo quase uniforme facilitavam o tráfego. Podemos
assim dizer que o período helenístico - olhado no vasto espaço dos reinos
formados e não no restrito da Grécia - se caracterizou por certo equilíbrio,
estabilidade e desenvolvimento econômico
O rei helenístico era o centro do sistema, detentor de um poder pessoal
absoluto que o autorizava a tomar todas as grandes decisões; era a “lei
viva”, segundo alguns filósofos da época. A corte exigia de modo geral
gastos consideráveis, dispendidos com a generosidade e as despesas,
públicas e privadas, politicamente necessárias para ganhar amigos e im­
pressionar os súbditos. Perante os súbditos, esses monarcas apoiam-se
sobretudo nos elementos gregos e macedónicos das populações que, por
sua vez, procuram preservar e incutir a sua cultura; daí que as cortes
helenísticas sejam helénicas na organização, religião, cultura e costumes.
Os príncipes helenísticos faziam o possível por estimular as instituições
gregas; novas formas de vida com essa matriz estendem-se de um ao

p h Sobre o alargamento da segurança e das rotas vide Ferguson, The heritage o f


helenism, cap. 3.

193
A GRÉCIA ANTIGA

outro extremo. Cunham-se moedas de modelo grego com legendas em


grego. Fundam-se povoações, à imagem das cidades gregas, a que davam
nomes que a cada passo terminavam em polis - muitas delas simples
reconstituição de comunidades nativas (^^). Se todos eles se notabilizaram
nessa tarefa, talvez nenhuma outra dinastia se equiparasse ao papel dos
Selêucidas. Deram a categoria de cidades gregas a todos os centros
urbanos de importância, desde que a cultura helénica o permitisse, e as
antigas capitais do Oriente - Babilónia, Ecbátana, Susa - receberam o
selo do helenismo. Em Babilónia, por exemplo, havia um teatro grego,
um ginásio, uma organização municipal de aspecto helénico. Os Selêucidas
foram incansáveis e contam-se numerosas dessas fundações que osten­
tam nomes de membros da família real: Antioquia, Selêucia, Apameia,
Laodiceia.
As novas cidades adoptavam as fonnas clássicas gregas de adminis­
tração, religião e educação e ajudaram a resolver alguns dos problemas
com que os reinos se debateram, em especial o selêucida. Dada a extensão
territorial deste e a sua população variada, não havia um princípio e um
elo unificadores, a não ser a figura do rei (^®). Ora com tal política os
príncipes selêucidas, além de contribuírem para a resolução dos problemas
económicos, administrativos e de defesa do seu território, congregaram
em si o grande prestígio que a religião grega atribuía aos fundadores (^’).
A fundação de cidades gregas - apesar das possíveis diferenças de reino
para reino - constituirá o sinal visível do afa em estender a todo o império
o paradigma grego como cultura de tipo unifomie.

(-^) As novas fundações eram, de modo geral, cientificamente planeadas, de acordo


com os princípios de Hipodamo: ruas orientadas nos sentidos oriente-ocidente e norte-
-sul, cruzando-se na perpendicular, de modo a formarem quadrados, onde eram construídos
os edifícios públicos e as casas, segundo um modelo base que se repetia; a ágora-centro
social e mercado - comunicava com a rua principal que se orientava de oriente para
ocidente. Vide Ferguson, The heritage ofhelenism, pp. 33-34.
(-®) O reino dos Selêucidas, além da enorme extensão do território, caracterizava-se
por variedade populacional e carecia de unidade. Além dos Greco-Macedónios conquis­
tadores, Iranianos e Semitas constituíam o elemento predominante, com tradições e
culturas dificilmente assimiláveis às dos anteriores. Numerosos e antigos povos da Ásia
Menor aumentavam a heterogeneidade do reino. Nesse vasto domínio e centão de raças,
o rei constituía um laço de unidade. Daí que os Selêucidas procurem — à imagem do que
acontecia no império Persa — acentuar o carácter sagrado da realeza, exigindo culto e
pretendendo que Seleuco era filho de Apoio. Essa preocupação é visível nos títulos que
os príncipes a si próprios se dão: Antíoco I toma o de Sotêr (Salvador) e Antíoco II o de
Theos (deus). Vide Ehrenberg, The Greek state, pp. 159-178; F. W. Walbank, The hellenistic
world, pp. 215-218.
(D Vide Badian, “O mundo helenístico”, p. 240.

194
p e r ío d o h e l e n ís t ic o

o estímulo à imigração de Gregos e Macedónios era portanto política


comum dos príncipes helenísticos. Embora a população da Grécia se
encontrasse dizimada pelas guerras, o fluxo foi considerável. Esses novos
imigrantes, especialmente os soldados, instalavam-se nas colónias. No
Egipto, por exemplo, havia grande número de estrangeiros - com pre­
dominância para o elemento grego - a exercer actividades várias: comer­
ciantes, soldados, técnicos, professores. Engenheiros gregos planificam
a irrigação a partir do Nilo e introduzem novas plantas. Todos eles ajuda­
ram a construir a nova prosperidade e dela se aproveitaram.
A maioria dos imigrantes era constituída por homens, pelo que as novas
fundações procuravam as mulheres entre as populações nativas, dando
origem a frequentes casamentos mistos - prática que era incentivada
desde Alexandre e que contribuiu para diluir a já frouxa dicotomia grego/
/bárbaro e ajudou a estabilizar a sociedade (“^). A cada passo temos
elementos bárbaros helenizados mais ou menos proflindamente: os nomes
de pessoas eram gregos ou helenizavam-se. Isso vai provocar a lenta
infiltração de costumes e práticas locais, sobretudo em matéria de religião.
Esta toma-se mais individual e menos oficial e estatal, o que constitui um
progresso. Novas inquietações levam à convivência das divindades gregas
com as orientais, convertidas em algo de supranacional. As divindades
semíticas eram identificadas com as do panteão grego. No Egipto, ao
lado dos deuses helénicos e egípcios tradicionais, Ptolomeu I Soter
favorece a afirmação de uma divindade nova, Serápis, com traços mistos,
destinada a ser cultuada por gregos e indígenas. O caso dos Judeus e da
sua diáspora é também significativo. Embora ela tenha começado com
as grandes deportações do século VI e apesar de, no começo da época
helenística, haver comunidades judaicas no interior da Ásia e da África,
é no decorrer do período que a expansão se consolida: Estrabão acentua
não ser «fácil encontrar um lugar habitável da terra que não tenha recebido
gente desse nação e não tenha sentido o seu poder»; o livro dos Actos
dos Apóstolos, ao narrar o Pentecostes (2. 1-11), refere que se encon­
travam em Jemsalém judeus piedosos de todas as nações que há debaixo
do céu: “Partos, Medos, Elamitas, os que hatitam a Mesopotâmia, a Judeia,
a Capadócia, o Ponto, a Ásia, a Frigia, a Panfília, o Egipto e a regiões da
Líbia próximas de Cirene; peregrinos romanos, judeus ou prosélitos,
cretenses e árabes». Os Judeus, de modo geral, não se sentiam deslocados
na vasta cosmópolis dos reinos helenísticos e consideravam também como

f Alexandre e oitenta dos seus oficiais casaram com donzelas persas; dez mil dos
seus soldados ligaram-se a mulheres asiáticas. C f Tarn, Alexander the Great I, p. 137; F.
W. Walbank, The hellenistic world, p. 36.

195
A GRÉCIA ANTIGA

sua a cultura grega que neles vigorava. Deparamos com um judaísmo


helenizado, de que são indícios a nomeação dos Setenta para traduzirem
os textos sagrados para grego, o facto de o dirigente hasmoneu Jónatas
considerar os Espartanos innãos e de Fílon de Alexandria, pensador de
origem judia, ver e exprimir as tradições judaicas à luz do pensamento
helénico P ).
Deste modo, a difusão do helenismo e a ftisão de culturas são traços
desta época (^°).
O nacionalismo helénico, nesta época, já era mais cultural do que
racial. Dissera Isócrates, ainda no primeiro quartel do século IV a. C.,
que 0 nome de Helenos já não designava uma raça, mas uma cultura
{Panegírico 50);
.....0 nome de Gregos já não parece ser usado para designar uma raça,
mas uma mentalidade, e chamam-se Helenos mais os que participam da
nossa cultura do que os que ascendem a uma origem comum.(^')
Esta visão acentua-se, e os Gregos estavam preparados para recebe­
rem os novos helenizados e considerá-los como dos seus, integrados na
sua cultura e maneira de viver. O Evangelho segundo S. Marcos (7.
26) fala de uma “mulher grega de origem (genei) sírio-fenícia”. As pessoas
cultivadas, mas não apenas elas, tomam-se gregas e os Gregos, sobretudo
os filósofos, tomam-se cosmopolitas.
No período helenístico a cultura grega espalhara-se consideravel­
mente. As conquistas de Alexandre, se bem que não houvesse uma política
definida de helenização, tinham aberto mundos novos aos Gregos. A difusão
já se iniciara em épocas anteriores, graças ao longo domínio grego na
área litoral da Ásia Menor e relações com os países limítrofes e graças
ao papel dos mercenários ao serviço dos reis da Pérsia e seus governadores
- os sátrapas. Mas, como uma consequência da marcha triunfal do jovem
imperador, a Ásia e o Egipto vão receber durante séculos, como acabámos
de ver, a influência grega permanente e efectiva. Os reis helenísticos
utilizam, como vimos, mercenários que, apesar de provirem de pontos

p ’) Vide Ferguson, The heritage ofhelenism, pp. 18-20.


p “) Sobre Serápis vide P. M. Fraser, “Two studies o f the cult o f Sarapis in the
hellenistic world”, in Opiiscula atheniensia (1960) 1-54, C. B. Welles, “The discovery o f
Sarapis and the foundation o f Alexandria”, Historia {\961) 271-298.
(^') Tradução de M. H. Rocha Pereira, Hélade, pp. 331-332.
Divulgado em Olimpia em 380, o Panegírico é um discurso composto sob a influência
dos acontecimentos que vão de 395 a 380 a. C., em especial a Guerra de Corinto e a Paz
de Antálcidas que lhe põe termo, e tinha como objectivos principais conseguir a concórdia
e união entre os Helenos e motivá-los a empreender uma luta contra os Bárbaros.

196
p e r ío d o h e l e n ís t ic o

diversos, acabam por aceitar uma cultura helénica comum; os que regres­
sam depois às suas terras levam-na consigo. Muitos porém resolvem
não o fazer, fixam-se e fundam novos lares. Desse modo o helenismo
irradia e ganha alicerces cada vez mais sólidos.
A cultura grega aparecia com o prestígio de uma cultura vitoriosa e a
reacção nacional dos povos nativos vai tardar a despertar ou surge apenas
esporadicamente, como aconteceu - observa-o Badian - com a reacção
judaica relatada nos Livros dos Macabeiis (e. g. 1. 15. 5-6; 2. 3. 1-28
e 4. 9) (^^). A maioria dos reis seguira a inteligente política de estimular a
helenização sem forçar. Começaram a aparecer cidades e pessoas nativas
helenizadas, que procuravam imitar a classe dominante e assemelharem-
-se-lhe; que adoptam nomes e inventam parentescos helénicos. Os deuses
e heróis locais eram assimilados aos gregos ou com eles colocados em
pé de igualdade f ^).
Considera-se o período helenístico como tempo de decadência. Essa
visão é correcta, se a época for olhada do ponto de vista da Grécia -
ruína econômica, despovoamento e pobreza, perda da liberdade política,
emigração da cultura (exceptuadas a escultura e filosofia). O quadro
negativo adoça-se consideravelmente se estendermos a apreciação aos
reinos da Ásia Menor e do Egipto: aí, graças à protecção de alguns
dinastas, verifícam-se progressos significativos em detenninadas áreas.
No período helenístico a cultura ou paideia é mesmo algo de central,
que se obtém ou se realiza pela educação (^'^). Esta adquire portanto
grande importância e toma-se oficial. Aparece uma legislação escolar,
cuja aplicação o Estado garantia, e cria-se algo que grosso modo pode­
remos comparar aos actuais estudos secundários, já com uma ordenação
definitiva de matérias: as ílituras sete artes liberais, com parte científica
(aritmética, geometria, astronomia e música) e literária (gramática, retórica
e dialéctica). No período helenístico já encontramos algo que se asse­
melha aos hodiemos três graus de ensino (^^).

p-) Badian, “O mundo helenístico”, p. 239. A helenização dos Judeus da classe


superior era já considerável e processava-se de uma forma espontânea. Mas Antíoco IV
quis apressá-la, recorrendo à força e coacção, e provocou um desastre que os dois primeiros
Livros dos Macabeus relatam.
(” ) Por exemplo, Josué e o Deus dos Judeus tornaram-se, para muitos, Jasão e Zeus
Olímpico, respectivamente.
Pb Essa é a opinião de H.-I. Marrou, Histoire d e i’ éducation dans V Antiquité (Paris,
Éditions du Seuil, 61965), p. 157 que considera ter-se passado nesse período da civilização
da pólis à da paideia.
(^b Para maior pormenorização vide H.-I. Marrou, Histoire de V éducation dans
V Antiquité, pp. 151-336, M. H. Rocha Pereira, Cultura Grega, pp. 534-537.

197
A GRÉCIA ANTIGA

Espalhada a ciiltxira grega por vastos territórios, o grego estende-se


como única língua de cultura, hasteada pela administração, pelo comércio
e pela vida das cidades. As línguas nativas sobreviviam apenas em uso
local. O ático, devido ao império de Atenas e ao seu prestígio cultural,
impõe-se e espalha-se; é adoptado como língua oficial por Filipe, por
Alexandre e pelos Diádocos. Será ele, mas sensivelmente alterado no
sentido da simplificação, que se estende a todos os reinos helenísticos
como língua comum - a chamada koinê, cujas características mais salien­
tes se apontam a seguir: tendência para a simplificação e desaparecimento
da variedade; assimilação de vogais e de consoantes e desaparecimento
da diferença entre longas e breves; tendência para eliminar os ditongos e
a aspiração; conílisão das formas dos gêneros e simplificação das verbais,
com 0 indicativo a aumentar de importância em detrimento do conjuntivo.
É esta língua que vai servir de base ao cristianismo, uma religião de
sentido cosmopolita, e será utilizado nos textos do Novo Testamento (^®).
A cultura helenística é algo de complexo; por um lado, recolhe a herança
grega, ordena-a e cataloga-a; por outro, avança muito na ciência e na
técnica, domínios em que atinge o apogeu e se eleva a alturas que não
volta a conseguir no mundo antigo, em grande parte devido ao papel de
Alexandria e das suas instituições culturais. É que tratar da cultura
helenística equivale a ter de falar dessa cidade, já que ela - embora não
fosse a única - se salientou a qualquer outra nesse domínio. Grega na
sua tradição, Alexandria toma-se no principal centro cultural do mundo
helenístico, graças à sábia política de protecção e incentivo dos seus
príncipes, sobretudo de Ptolomeu I Soter e Ptolomeu II Filadelfo. Aí
criou 0 primeiro duas instituições famosas que muito contribuíram para o
desenvolvimento da cultura da época: a Biblioteca e o Museu. Para as
dirigirem e nelas trabalharem foram convidados alguns dos espíritos mais
salientes da altura. Relacionado com a Biblioteca está o desenvolvimento
dos estudos literários e com o Museu o dos científicos. A uns e outros
farei de seguida breve referência.
Os estudos literários recebem nesta época um surto considerável que
está ligado a três locais: Alexandria, Pérgamo e Rodes. As duas primeiras
possuíam ricas bibliotecas que rivalizavam uma com a outra. Rodes tomou-
-se célebre pelos estudos de retórica (^^).

Sobre a koinê vide Sven-Tage Teodorsson, The Phonology o f Ptolemaic Koine


(Acta Universitatis Gothoburgensis, 1977); O. Hoffmann, A. Delbrünner e A. Scherer,
Historia de la lengua griega (trad. esp. Madrid Gredos, 1969), pp. 218-273.
(O Pérgamo desenvolveu-se culturalmente devido também ao patrocínio dos seus
reis, os Atálidas. Aí floresceu um grupo de artistas e estudiosos: Antígono de Caristo,

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A Biblioteca de Alexandria, a mais famosa da Antiguidade, foi centro


da cultura helenística e ali se reuniam, sob a protecção real, eruditos e
artistas de todo o mundo f ^). Contou entre os seus bibliotecários homens
ilustres como Zenódoto de Éfeso, Apolónio de Rodes, Eratóstenes, Aris-
tófanes de Bizâncio, Aristarco de Samotrácia e talvez Calímaco. Nela se
recolheu a maior colecção de livros da Antiguidade: mais de quinhentos
mil rolos. Procurados por toda a parte, os livros eram cuidadosamente
copiados, ordenados e classificados por autores, com breve resumo, análise
e tábua das matérias de cada um. Por exemplo, a catálogo escrito por
Calímaco - as Pínakes em 120 livros - apresenta os autores agrupados
por ordem alfabética dentro de cada gênero, com uma curta biografia, e
para cada livro transcreve as primeiras palavras, indica o número de
linhas e discute a cada passo problemas de autenticidade. Foi na Biblioteca
que se afinaram os instrumentos que permitissem compreender as obras-
-primas da grande criação literária das épocas anteriores e assegurar a
sua,difusão: dividem-se as obras em livros; procura-se reconstituir o
original, pela comparação dos vários manuscritos; estabelecem-se os
cânones de cada gênero; inventam-se os sinais de acentuação (Aristófanes
de Bizâncio) (^®). Desse modo dava os primeiros passos a história da
literatura e se originava a crítica textual. Os trabalhos executados na Bi­
blioteca levaram ao desenvolvimento de outras disciplinas como a filologia
-u m a criação da escola peripatética-e da gramática, que já fora objecto
dos estudos dos sofistas e de Aristóteles; agora publica-se a primeira
gramática da autoria de Dionísio Trácio (130 a. C.).
A ciência alcançou o máximo desenvolvimento no período helenístico
que pode ser considerado a sua idade de ouro. Para tal contribuíram o
incremento do método da observação, do gosto do pormenor, do espírito

escultor e biógrafo; Lisímaco, tutor do jovem Átalo e autor de tratados de educação;


Pólemon de ílion, que recolheu vastíssima informação sobre obras de arte; Crates de
Maios, estóico, estudioso dos Poemas Homéricos, que procurou explicar de uma forma
alegórica; Neantes de Cízico, historiador; Sudines, astrônomo e astrólogo; Bíton, que
escreveu uma obra sobre a construção de máquinas de cerco.
Sobre Rodes vide P. M. Fraser and G. E. Bean, The Rhodian Peraea and islands
(Oxford, 1954).
(^®) Em atenção a ela construiu-se na actual Alexandria uma outra grande biblioteca,
patrocinada pela Unesco.
(^®) AIlíada e a Odisséia são divididos em 24 cantos cada um, tantos quantas as letras
do alfabeto; as Histórias de Heródoto em 9 livros, cada um deles designado pelo nome de
uma musa.
Sobre a questão da frequente e indevida atribuição dos sinais de pontuação também a
Aristófanes de Bizâncio vide R. Pfeiffer, History o f classical scholarship (Oxford Univ.
Press, 1968), pp. 179-181.

199
A GRÉCIA ANTIGA

crítico e de sistematização, do aparecimento de condições favoráveis


devido ao apoio e protecção de alguns dinastas, com saliência para os
Ptolomeus no Egipto, em especial a criação do Museu de Alexandria por
Ptolomeu I, Soter. Essa instituição - cujo nome, como é sabido, significa
templo das Musas - está de facto em grande parte associada ao desen­
volvimento da ciência nesta época. Para o dirigirem e nele trabalharem
convidou Ptolomeu I discípulos de Aristóteles - Demétrio Faléron e
Estratão - que para lá levaram os métodos que receberam do mestre.
Dotado de observatório, salas de dissecação, de laboratórios, de jardins
botânico e zoológico, o Museu era um verdadeiro centro de investigação
e muito contribuiu para que a ciência do século III a. C. progredisse e
atingisse então o ponto mais elevado na Antiguidade. A ele estão ligados
os principais cientistas do período helenístico O .
A medicina - que, como ciência, é uma criação do século V a. C. O
- apresenta-nos médicos notáveis de que saliento Herófilo e o seu discípulo
Erasístrato, que viveram em Alexandria na primeira metade do século
III a. C. O primeiro, natural de Calcedónia, não aceita o dogma da auto­
ridade e atribui maior importância à experiência do que à teoria; é
considerado o fundador da anatomia e faz descobertas de grande alcance
científico no domínio da frenologia- distinção entre cérebro e cerebelo,
separação entre tendões e nervos, descrição do calamus scriptorhis e
do torciilar Herophili descobriu o ritmo do pulso e apresenta lei
matemática para a sístole e a diástole; descreve o duodeno e o pâncreas
e, em oposição à afimiação de Aristóteles de que o centro das sensações
se encontrava na região à volta do coração, retoma a teoria de Alcméon
de Crotona que o colocava no cérebro. Erasístrato, considerado o iniciador
da fisiologia, faz a distinção entre nervos sensitivos e motores e salienta-
-se no estudo dos vasos sanguínios e da circulação do sangue; descreveu
bem os pulmões e estudou o rejuvenescimento dos tecidos do corpo
mediante a alimentação
Na matemática e na física deparamos com nomes famosos: Euclides
de Alexandria (séc. IV-III a. C.), autor áos Elementos em 13 livros, cuja
geometria - que considerava dever aceitar-se apenas um pequeno número

Para mais informação sobre a ciência no período helenístico vide B. Farrington,


Greekscience (Harmondsworth, 1961); Ferguson, The heritage o f helenism, cap. 7; G. E.
R. Lloyd, Greek science after Aristotle (London, Chatto and Windus, 1973); M. H.
Rocha Pereira, Cultura Grega, pp. 543-550.
(‘” ) Vide M. H. Rocha Pereira, Cultura Grega, pp. 476-480.
('’*) Destacam-se ainda como médicos Filino de Cós - que estudou com Herófilo - ,
Serapião.

200
p e r ío d o h e l e n ís t ic o

de difmições e postulados e dever tudo o mais ser demonstrado - foi a


base dessa ciência até à actualidade; Apolónio de Perga (séc. III a. C.)
que se distinguiu pelos estudos sobre secções cónicas; Arquimedes de
Siracusa (c. 287-212 a. C.), o maior matemático da Antiguidade, que in­
ventou 0 cálculo integral, fez estudos de mecânica, descobre a lei da im­
pulsão - que motiva o seu famoso eiireka e a detenninação da densidade
específica - , que se dintingue na mecânica aplicada e por uma série de
invenções práticas (construção de planetário, de uma bomba aspirante,
entre outros engenhos) ('^^). Heron de Alexandria, entre outras realiza­
ções, inventou uma máquina a vapor, olhada como brinquedo, pelo que
não se tiraram dela resultados práticos.
Na astronomia sobressai Aristarco de Samos (c. 310-230 a. C.) que
escreve uma obra sobre os Tamanhos e distâncias do Sol e da Lua,
observa o solstício do Verão e defende - proposta feita possivelmente
pela primeira vez - que o Sol é o centro do sistema planetário, teoria que
causa grande indignação na época e que é refutada por Arquimedes e
por Hiparco de Niceia. Este, outro grande astrónomo do período helenístico
(séc. II a. C.), aperfeiçoa a técnica de observação mediante alguns inven­
tos práticos; dá ao ano solar a duração de 365 dias, 5 horas, 55 minutos
e 12 segundos (erro por excesso de 6 minutos e 26 segundos); descobre
0 fenómeno da precessão dos equinócios e o movimento de oscilação da
Terra ou de nutação sobre o seu eixo ('*'*).
Embora também astrónomo - descreve a Via Láctea e alude à harmo­
nia das esferas - , Eratóstenes de Cirene (c 275-194 a. C.), sábio universal
que aproveitou os resultados das campanhas de Alexandre e das viagens
de Píteas pelo Ocidente, distinguiu-se na geografia, organizou-a como
ciência, calculou as dimensões da Terra com o erro de uma centésima
menos do que as reais, estabeleceu uma cronologia e resolveu o problema
de duplicar o cubo.

f h Em geometria, a sua obra mais saliente é Da Esfera e do Cilindro-, no domínio da


mecânica salientam-se Equilíbrio de Planos e Corpos Flutuantes.
f h A teoria heliocêntrica - de que podemos encontrar antecedentes em Heraclides
Pôntico que descobre o movimento de rotação da Terra e defende que, se Mercúrio e
Vénus giram em volta dela, todos os outros planetas o fazem em volta do Sol - provocou
acalorada discussão: Cleantes considerou-a um acto de impiedade (c f Plutarco, Moralia
922f-923a) e Arquimedes (Arenário 1.4-7) e Hiparco de Niceia atacam-na. Nesta refutação
se apoia Ptolomeu (séc. II d. C.) para fundamentar a teoria geocêntrica (Tetrabiblos 1.2 )
que vigorou até que, em meados do século XVI, Copérnico voltou a propor a teoria
heliocêntrica, com as conhecidas incidências ligadas ao processo e condenação de Galileu.
Sobre Aristarco de Samos vide T. L. Heath, Aristarchus o f Samos, the ancient
Copernicus (Oxford University Press, ^1959, repr. 1966).

201
A GRÉCIA ANTIGA

No domínio da engenharia, a mais famosa obra da Antiguidade vem-


-nos do período helenístico: o farol de Alexandria. Construído na primeira
metade do século III a. C. numa ilha que ficava frente ao porto - a ilha
de Faros, de onde tira o nome - era muito admirado e contava-se entre
as sete maravilhas do mundo. Serviu de modelo e deu o nome aos actuals.

A dispersão da língua e da cultura gregas tem reflexo na produção


artística, na literatura - gêneros e gostos literários - , na filosofia.
A filosofia do período helenístico é bem o símbolo de que se ultra­
passara 0 espaço restrito da pólis e se caminhara para o universalismo e
para a unidade da raça humana. As especulações passaram a concentrar-
-se no problema da liberdade individual. Atenas continuou o centro principal
da filosofia, com a Academia de Platão e o Liceu de Aristóteles - escolas
que vinham da época anterior - e com a afirmação de outras novas: a de
Epicuro, fundada em 306 a. C., e a de Zenão ou estóica. Mas, apesar de
as escolas se sediarem em Atenas, a filosofia grega estende-se a povos
das mais diversas proveniências. Filósofos de nome grego são oriundos
de zonas não helénicas e pessoas cultas de diversa origem encontraram
consolo na mesma serena e melancólica concepção da vida e do mundo.
Aliás os estóicos, com uma filosofia de domínio universal, pugnaram pelo
princípio da igualdade de todos os homens, se bem que isso não implicasse
a exigência da libertação dos escravos, e consideravam de importância
insignificante as diferenças nacionais (cf Plutarco, Moralia 329A-D).
Para eles, a pátria não era a pólis, mas o mundo. Os primeiros cínicos,
com 0 seu ideal de homem sábio, parecem não apresentar o preconceito
contra os Bárbaros e os escravos e colocam de lado as afinidades políticas:
Diógenes considera-se cidadão do universo e Crates proclama que a sua
cidadela e fortaleza é a terra inteira (cf Diógenes Laércio 6. 96):

Não tenho por pátria apenas uma torre nem um só telhado.


A terra inteira me serve de cidade e de casa,
disponível a todos que queiram nela viver.('’^)
Crates, n° 90 Snell

B. Snell, TragGrFrag. 1, p. 259, n° 90, dá-o sob interrogação.


Para maior aprofundamento da filosofia do período helenístico vide A. A. Long,
Hellenistic philosophy: stoics, epicureans, sceptics (London, Duckworth, 1974). Sobre
os Cínicos vide Baldry, The unity o f mankind in Greek thought, pp. 101-112; M. Hadas,
Hellenistic culture, pp. 15-16.
Sobre os Estóicos vide M. Pohlenz, Die Stoa (Gottingen, 1959), pp. 131-141; M.
Hadas, Hellenistic culture, pp. 16-17; E. Elorduy e J. Pérez Alonso, El estoicismo 11
(Madrid, Credos, 1972), pp. 267-274; F. H. Sandbach, The stoics (London, Chatto and
Windus, 1979).

202
p e r ío d o h e l e n ís t ic o

Se Aristóteles considerava o bárbaro escravo por natureza - o filósofo


morre em 322 a. C., portanto no dealbar da época helenística-, Teoffasto,
seu discípulo e continuador na escola, afirma ser a terra “a morada comum
dos deuses e dos homens” e mostra a existência de um parentesco a unir
todos os homens e até os seres vivos; primeiro os laços de membros da
família, depois os de cidadão na pólis, de parte integrante do etimos ou ra­
ça e da humanidade; por fim parentesco de todos os seres que vivem
A literatura - que se perdeu em grande parte, para não dizer quase
por inteiro - cria novos tipos e gostos C’); a poesia toma-se um tanto
hermética, preocupada com a emdição; manifestava-se predilecção pelas
composições curtas, caracterizadas pelo refinamento no ponnenor, bem
trabalhadas, de tema e léxico pouco comuns; buscava-se a novidade e a
originalidade em relação aos antecessores (''^). Calímaco (c. 305-c. 240
a. C.), natural de Cirene, trabalhou na Biblioteca de Alexandria durante
vários anos e é autor de hinos, epigramas e de dois poemas épicos -
Hécale QAitia ou Causas, de que só fragmentos nos chegaram. Grande
teorizador da poesia em voga na época helenística-já iniciada por Filetas
e Asclepíades - , proclama num fragmento (612 Pfeiffer)

Não canto nada que não esteja documentado.(‘*^)

e é sua a máxima méga biblíon, méga kakón (“grande livro, grande


mal”), proferida numa discussão famosa com Apolónio de Rodes (séc.
III a. C.), a propósito dos Argonautas da autoria deste, um longo poema
épico à maneira dos Poemas Homéricos. Obra extensa, em quatro cantos,
e composta numa pesada imitação do estilo homérico, o seu tema en­
controu-o Apolónio na erudição dos tempos lendários: os amores de Jasão
e de Medeia (^°). Teócrito (c. 300-c. 260 a. C.?), o mais universal dos
poetas helenísticos, é o criador do gênero pastoril, os idílios. Douto e
desejoso de novidades, as suas composições caracterizam-se por refinada
naturalidade, perfeição fonnal e arte dramática (^').

f®) Informação colhida em Ferguson, The heritage ofhelenism, p. 29.


f 0 Conservam-se os Idílios de Teócrito, os Argonautas de Apolónio de Rodes, uma
pequena parte da obra de Calímaco, alguns poetas didácticos e muito pouco em prosa,
f*) Esta tendência será seguida em Roma pelos poetae noui e por Propércio.
f®) Tradução de M. H. Rocha Pereira, Hélade, p. 483.
(50) pqj. pausânias 4. 6. 1-3, sabemos ainda de um poema épico sobre as guerras da
Messénia, da autoria de Riano de Creta (séc. III a. C.).
O Para uma análise mais aprofundada da literatura no período helenístico vide T. B.
L. Webster, Hellenistic poetry and art (London, Methuen, 1964); M. H. Rocha Pereira,
Cidtura Grega, pp. 551-553.

203
A GRÉCIA ANTIGA

Mas, além desta literatura de doutos, de especialistas e de eruditos,


aparece a literatura para o grande público, mais popular. Herondas compõe
os Mimos, curtas peças dramáticas repletas de cenas burlescas e picantes.
O teatro degenera para fonnas musicais breves. Surgem as paródias
dramáticas, a poesia burlesca, a novela de aventuras.
A arte, com traços colossais, ao serviço dos príncipes, apresenta algu­
mas inovações. Na arquitectura não deparamos com novidades funda­
mentais, mas nota-se a influência oriental no aparecimento do arco e da
abóbada - no entanto pouco usados -, verifica-se a extensão do uso do
capitel coríntio e o aparecimento do compósito. Na escultura encontramos
um alargamento dos temas e a complexidade de fonnas. Embora nos
apareçam ainda obras em que vigora o idealismo, a serenidade, como
Vémis de Milo e Vitória de Samotrácia, predomina agora o patético e
o teatral bem visíveis no Laocoonte e no Altar de Pérgamo. Começam
a aparecer as cenas riisticas e alegóricas; como consequência do incremen­
to do culto da personalidade, desenvolve-se o retrato e já não se representa
apenas a idade ideal da juventude e maturidade, mas surgem imagens da
infância e da velhice. A pintura, embora se tenha perdido na totalidade e
dela apenas nos chegassem infonnações escassas, começa no período
helenístico a representar paisagens.
Os príncipes e as cidades competem na encomenda de obras e surgem
os primeiros coleccionadores (^^).
A helenística não é uma cultura tão criativa como a das épocas ante­
riores, mas verifica-se nesses séculos uma maior diflisão, não apenas no
espaço geográfico, mas também em novos estratos sociais. O livro toma-
-se um instrumento de cultura de primeira grandeza, devido à sua mer-
cantilização e ao uso do papiro e do pergaminho. Surgem, por isso, as
bibliotecas, algumas delas com magnificência, como é o caso das de
Alexandria e de Pérgamo. Desenvolve-se o espírito crítico e procede-
-se, com esmero e empenho, ao trabalho de compilação e classificação
I das obras das várias ciências, já iniciadas na escola de Aristóteles.
Estendendo-se do Atlântico ao Punjabe e do Cáucaso às fronteiras
da Etiópia, a cultura do período helenístico caracterizava-se por uma
uniformidade fundamental, talvez o seu factor mais notável. Existiam
evidentemente diversidades devidas a influências locais, perceptíveis na
arte, religião e vida diária, mas essas variações regionais, como observa

Para mais informações sobre a arte helenística vide T. B. L. Webster, The art o f
Greece: The age o f hellenism (New York, 1966); J. J. Pollitt, Art in the hellenistic age
(Cambridge University Press, 1986); R. R. R. Smith, Hellenistic Sculpture (London,
Thames and Hudson, 1991).

204
p e r ío d o h e l e n ís t ic o

Badian, podem ser consideradas menores do que as do mundo ocidental


de hoje: a língua e a tradição básica eram as mesmas (^^). As ideias
difundiam-se com considerável rapidez. Os elementos da classe superior,
fossem eles gregos ou helenizados, tinham amigos e correspondentes
em qualquer parte dos reinos helenísticos. Os atletas e os actores possuíam
associações internacionais - a Associação Internacional dos Lutadores
e a Associação dos Artistas Dionisíacos, respectivamente - com dele­
gações locais.

Em conclusão, no período helenístico a dicotomia grego/bárbaro


esmorece consideravelmente ou até quase desaparece. Como vimos, a
inferioridade natural dos não Gregos era um tópico corrente e Aristóteles
justificara-a mesmo filosoficamente. Mas, na época helenística, a actuação
dos governantes e a doutrinação, de modo geral, remam contra esse pre­
conceito. Alexandre, como observa Pohlenz, realizou uma política em
oposição à teoria de Aristóteles, seu mestre, e às correntes da mentalidade
grega, com a equiparação dos Persas e outros Bárbaros aos Gregos e
Macedónios, os casamentos mistos e a fusão de povos, embora se não
possa dizer com Tam e Griffith que o homem como zoon politikon, uma
força da pólis, tenha acabado com Aristóteles e que com Alexandre
começa o homem como indivíduo f ‘^). Como nota Baldry, embora a acção
de Alexandre tenha aberto o caminho à mudança de mentalidade, a litera­
tura do seu tempo e dos anos imediatamente posteriores deixa-nos «mais
a impressão de um complexo desenvolvimento do que de uma súbita
mudança» (^^).
Estamos numa época em que o homem é considerado cada vez mais
como um elemento, não da pólis, mas da cosmópolis, um kosmopolites.

Ph “O mundo helenístico”, pp. 245-246.


O W. W. Tam and G. F. Griffith, Hellenistic civilization (London, ^1952, repr.
1974), p. 79. M. Pohlenz, L ’liomo greco (trad. ital. ), pp. 256-257. Vide ainda M. Hadas,
Hellenistic culture. Fusion and diffusion (New York, Columbia University Press, 1959),
pp. 20-24; P. Cloché, Alexandre le Grand et les essais de fusion entre V occident gréco-
-macedonien et l ’orient (Neuchâtel, 1953).
(^b The unity o f mankind in Greek thought (Cambridge University Press, 1965),
p. 134.
Eratóstenes, como vimos, revolta-se contra a concepção de Aristóteles de que a
humanidade se divide em Gregos e Bárbaros: em sua opinião (cf. Estrabão 1.4.7-9, 66),
é entre bons e maus que essa divisão deve ser feita. Vide Pohlenz, L ’uomo greco, pp.
259-260; M. Hadas, Hellenistic culture, p. 15. Emite opinião contrária e não vê uma
crítica a Aristóteles na posição de Eratóstenes R. Andreotti, “Per una critica delP ideologia
di Alessandro Magno”, Historia 5 (1956) 257-302.

205
A GRÉCIA ANTIGA

Esta concepção, embora tenha vindo a deixar vestígios em datas ante­


riores, é sobretudo agora que lança raízes (^®).
Com o domínio dos Macedónios o quadro tradicional da pólis altera-
-se. As decisões já não provêm fundamentalmente dos cidadãos de cada
uma delas, mas passam a depender em última análise de um soberano
que não pertence à pólis. Os filósofos e pensadores deixam de considerar
a política e confmam-se à pura teoria ou à predicação puramente moral.
Perdida a independência, a liberdade já não se confunde como até então
com 0 exercício dos direitos cívicos, mas muda-se em liberdade interior,
e os ideais de autarcia e autonomia, que visavam a pólis, confmam-se
agora aos recursos espirituais de cada um. A comédia desta época - a
comédia nova, em que se distinguiram Menandro e Filémon - já não tem
por tema a vida da pólis, como acontecia com a comédia antiga no século
V a. C., mas privilegia o estudo e a análise da alma humana f ’). O ho­
mem sábio dos Cínicos e dos Estóicos, dos Epicuristas, dos Cépticos não
está especificamente ligado a um povo ou uma raça. Qualquer elemento,
fosse qual fosse a região de onde viesse ou a raça a que pertencesse,
podia ter acesso a esse ideal (^®). Assim se elimina a distinção entre Gregos,
não Gregos ou escravos.
O que interessa, como se depreende do passo de Isócrates {Panegí­
rico 50) já citado e, ao que parece, também de Menandro, não é pertencer
a um povo ou a uma raça, mas estar integrado em determinada cultura,
ter um determinado ideal ou concepção da existência. Desde que assim
aconteça, não importa que seja grego, persa, trácio, judeu ou romano (^®).
A diflisão fora feita, a flisão em grande parte conseguida. A oikoiimene
estava formada.

f Vide M. Hadas, Hellenistic culture, pp. 38-44; J. B. Bury, “The Hellenistic Age
and the history o f civilization”, in Hellenistic Age (Cambridge, 1925, repr. N ew York,
1968), pp. 26-30.
Será esta nova concepção que passará ao teatro latino e, através dele, estenderá a
sua influência à Europa renascentista.
Vide A. A. Long, Hellenistic philosophy (London, 1974); W. Capelle, Historia
de la filosofia griega (trad. esp. Madrid, 1972), pp. 411-486, em especial 435-444 e
464-476;A .L ozanoeA .Pinero, “Filosoflahelenisticayesclavitud”,//w/?.y4/7/.4(1974)
25-48.
(^®) Vide J. Ferguson, The heritage ofhellenism (London, 1963), pp. 7-30.

206
BIBLIOGRAFIA

Não se pretendeu dar uma bibliografia exaustiva, mas as obras mais


representativas para cada capítulo ou assunto.
Para as revistas usei as siglas áq L ’Année philologique. Mencionam-
-se a seguir as mais utilizadas:

AC = L ’Antiquité classique
AJAH =
AJPh = American Journal o f Philology
BCH = Bulletin de Correspondence Héllenique
BICS = Bulletin o f the Institute o f Classical Studies, London University
CJ = The Classical Journal
C&M = Classica et Mediaevalia
CPh = Classical Philology
CQ = Classical Quarterly
CSCA = Classical
G&R = Greece and Rome
GRBS = Greek, Roman and Byzantine Studies
HSCP = Harvard Studies in Classical Philology
JHS = Journal o f Hellenic Studies
MH = Museum Helveticum
PP = La Parola del Passato
REA = Revue des Etudes Anciennes
REG - Revue des Etudes Grecques
SO = Symbolae Osloenses
TAPhA = Transactions o f the American Philological Association
YCJS =
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218
INDICE DE NOMES E COISAS

Acaia, Federação da; 185; 190; 191. Biblioteca de; 199 e nota 38; 203; 204.
Acames: 132. Farol de; 202.
Acropole; 31. Vide Atenas, Acropole. Museu de; 200.
Adcock, F. E.; 11 nota 20; 130 nota 2. Amit, M.; 70 nota 78.
Adkins, A. W. H.; 39; 51 ; 93; 152. Amintas; 177.
Adrasto; 162-163. Amon; 192 nota 22.
Afeganistão; 180; 193. Amorgos; 30 nota 31 ; 32.
África; 179; 191; 192; 195. Anacreonte; 65 e nota 68.
Afrodite; 154. ananke'. 18.
Agamémnon; 152; 164. Anderson, J. K.; 51 nota 35.
agathoi: 39 nota 3; 40; 41 ; 93. Andócides; 174-175.
Agesilau; 154 nota 7. Discurso sobre apaz: 174-175.
Âgis; 172. 11; 174; 175.
Àgora; 63; 102; 194 nota 25.Vide Atenas, 17;174; 175.
Ágora. 34; 174; 175.
Agrigento; 32 nota 35. Andreotti, R.; 205 nota 55.
aidôs: 135. Andrewes, A.; 51 nota 34; 63 nota 66; 64
Alceu; 14; 156; 157. nota 67; 66 nota 70; 67 nota 72.
fr.357 Lobel-Page; 157. Ândrocles; 103.
Alcibiades; 145-147. Andrômaca; 164.
Alcméon de Crotona; 200. Anônimo Jâmblico: 137.
Alcmeônidas; 70. Antágoras; 185.
Alexandre (rei da Macedonia, séc. V a.C.);Antálcidas, Paz de; 196 nota 31.
21. Antifonte; 141 e nota 23.
Alexandre; 33; 177; 178; 179-186; 188 e fr.44ADiels;141.
nota 15; 191-192; 195 e nota 28; 196; Antigono; 180; 181-182;184; 186.
198; 201; 205. Antigono de Caristo; 198 nota 37.
Alexandre de Etôlia; 185. Antigono Dóson; 185; 190 nota 18.
Alexandre Onesicrito; 179-180 nota 2. Antigono Gônatas; 182; 184-185; 188
Alexandria; 182; 183; 184; 186; 187; 188; nota 15.
192; 196; 198; 200. Antioco; 182; 186.

221
Antíocol: 187; 194 nota 26. Nuvens:
Antíoco II: 194 nota 26. w. 901-902:139.
AntíocoIII: 187. w. 1060-1074:139.
Antíoco IV: 197 nota 32. w. 1331-1450:139.
Antioquia:186; 188 nota 14; 192; 194. V. 1332:139.
Antípatro: 180; 184, V. 1336:139.
Apameia: 188 nota 14; 194. V. 1337:139.
Apela: 26. w. 1420-1429:139.
apoikia e apoikos: 44. w. 1437-1439:140.
apokietoi: 190. w, 1440 sqq.: 140.
Apolo:44; 100; 116; 117 nota 23; 194 Lisístrata: 96; 162; 169.
nota 26. w. 980 sqq.: 168.
Apolodoro de Cassandreia: 189 nota 17. w. 1072 sqq.: 168.
Apolónio de Rodes: 199; 203 e nota 47. Paz: 169; 175.
Os Argonautas: 203. Ploutos: 170.
Apolónio de Perga: 20, Vespas: 93.
Aqueus: 164. Aristófanes de Bizâncio: 199 e nota 39.
Aquiles: 28; 28-29 nota 28; 50 nota 32; Aristogíton: 70 nota 79; 80-81; 81 nota 20.
151; 152; 164. aristoi: 39 nota 3; 42 nota 10; 76; 93.
Arato: 185; 191. Aristómaco deArgos: 189 nota 17.
Arcádia: 30; 191. Aristónoo: 180.
archê: 76 nota 2. Aristóteles: 21; 24; 31-32; 48-49; 52 e nota
archia: 16 nota 2. 36; 54; 55; 56; 59; 78-80; 99; 153; 170-
Arcontes: 61; 82; 84; 88; 89; 92; 94-95; 171;199;200;203;204;205.
112. Liceu: 202.
Areópago: 26; 40 nota 6; 61; 62; 80; 84; Constituição de Atenas:
87-90;94;105nota89;120;144. 2.1.1:58.
aretê:24; 85; 140; 152; 155-156; 159. 2.1.2:40 enota 5.
Arginusas: 101; 103. 2.2:40 e nota 5; 48; 49 notas 27 e 30.
Argivos: 145. 3.1:40 nota 6.
Argos. 17;32nota35;70; 162-163; 189 3.6:40 nota 6; 61.
nota 17; 191. 4.4:49 nota27;61.
Aristarco de Samos: 201 e nota 44, 5.1-2:88.
Aristarco de Samotrácia: 199. 7:61
Aristides: 84; 116; 117. 7.3:61 nota 58.
Aristobulo: 180 nota 2. 8.1:97; 98 nota 66.
aristocracia: 41; 45; 46; 47; 52; 55; 63; 8.4:61-62.
64; 65; 69; 76 enota 2; 105; 138; 244. 10:60 nota 57.
Aristódemo de Megalópolis: 189 nota 17. 14.5:67 nota 71.
Aristófanes: 93; 96; 102 nota 79; 13; 139; 16.7:67 nota 72.
147; 161; 166; 168; 172; 173; 175. 17- 18:70 nota 79.
Acarmnses: 131-132; 147; 161 nota 27. 18- 19:70.
w. 165-202:169. 19.1:69.
w. 988-992:169. 20.1:78 nota 12.
Cavaleiros: 169. 20.3:78.
V. 793:166. 21-22:79-80.
w. 1388-1391:169. 22.5:84.

222
23:87 nota 26. Arsaces: 187.
23.4-5:94. Artafemes: 111.
24.2:120 nota 34. Ártemis:71;72.
24.3:126. Artemísio, cabo: 115.
25:87 nota 36. Asclepíades: 203.
27.1:86 nota 33. Ascra: 29; 46 nota 19.
29.5:94. Ásia: 118; 177; 179; 181; 182; 185; 188;
30.2:94. ^ 192; 193; 195; 196.
33.1-2:94. Ásia Menor: 29; 30; 47; 87; 109; 110; 116;
34.3:145 nota 32. 181; 185; 187; 194 nota26; 196;
35.4:103 nota 83. Assembleia: 10; 18; 26; 28; 75 nota 1; 152;
Económico: 190; 191. Vide Atenas, Assembleia.
^ 1347A16-.70. Astíanax: 164.
Ética a Nicómaco: 170. Atálidas: 198 nota 37.
1132b 31-1133b 35:54. Átalol: 187.
1170b 31-32:32. ÁtaloIII: 188.
Política: 34. Atena: 17; 19-20; 66 e nota 69; 89; 135.
1252b 27-33:24;31. Atenas: 13; 14; 15; 16; 17; 19; 20; 22; 24;
1269b 30-31:31. 26; 27; 30 nota 31 ; 32 nota 35; 37; 38;
1273b 35-1274a 16-17:98 nota 66. 40; 41 nota 9; 45; 47; 56; 57; 58; 60; 61 ;
1274b 5-8:56 nota 47. 63 nota 65; 65; 66; 67; 68; 69; 70; 75
1278a25-27:46notal8. nota 1; 76-77; 78 nota 13; 80-108; 109-
1279b 34-1280a4:76 nota3. 127; 129-149; 153; 159; 160; 162; 164;
1280b 21-22:31. 165; 168; 169; 170; 171; 172; 174; 177;
1281b 25-34:98 nota 66. 180; 198; 202.
1297b 16-28:42; 52. Acrópole: 63 nota 65; 66 e nota 69;
1303a20-25:21. ^ 110; 125; 168.
1313b 23:66 nota 69. Ágora: 60 nota 57; 63 nota 65; 81 nota
1317a40-1318al0:107nota93. 20; 102; 105 nota 89; 106 nota 90; 148.
1324a23-25:21. Assembleia (Æ'cc/ej'zu'): 61-62; 67; 80;
1326a34-35:32. 83; 86; 88; 94-95; 96; 102; 107; 108;
1326b2-5e22-24:21;32. 113; 115; 118; 120; 124; 129; 131; 132;
Retórica: 131. 138; 143; 144; 146; 147; 148; 166; 172;
1365a32:131. 175.
Aristótimo de Élide: 189 nota 17. Colégio dos Onze: 104.
Arquidamo: 124; 132; 177. Gerusia (possível antiga instituição):
Arquíloco: 48 nota 21. 61 nota 59.
fr.l West: 157. Quatrocentos, Conselho (Boiilê) dos:
fr.2West: 157. 62 enota 62; 78.
fr.5 West: 157. Quatrocentos, governo dos: 147.
ff. 10 West: 64. Quinhentos, Conselho {Boule) dos: 61 ;
Fr. 293 West: 48 nota 21. 79; 80; 88; 92; 93; 94; 95; 102; 120;
Arqmmedes:201. 167.
Arenário 1.4-7:201 nota 44. Ateneu: 156.
Arriano: 10.434d:179-180nota2.
Anábasel. 18.2:188. 14.630e:156.
FGrHist\56V\.2:m. Atenienses: 14; 16; 19; 21; 39; 59; 61-

223
63; 61\ 69;77-108; 109-127; 129-149; 87; 88 nota 37; 95 nota 58; 96; 109 nota
157; 158; 159; 160; 167; 168; 170nota 1; 110nota5; 111 nota8; 113 nota 13;
^ 37; 173; 174; 176 nota 49; 177. 118 nota 28; 119 nota 32; 122 notas 38
Ática: 15; 30 nota 31; 37; 39 nota 4; 47; e 39; 123 nota 43; 125 notas 47 e 49.
66; 78; 79; 111; 113; 130; 146; 168. Broadhead, H. D.: 160 nota 22.
atimia: 147. Buleutériom 33.
Atossa: 19. Bura:191.
Atridas: 42. Burian,P.:21notal5.
Austin, M: 54 nota 40; 105 nota 88; 170 Bum, A. R.:114notasl7el8.
notas 35, 36 e 37; 171 nota 38; 172 Bumet, J.: 23 nota 20.
nota 41. Bury, J. B.: 119 nota 31; 206 nota 56.
Babilônia: 185; 193; 194. Cadoux, T. J.: 78 nota 11.
Bactriana: 187. Calcedônia: 200.
Badian, E. : 179 nota 1; 180 notas 3 e 4; 183 Càlcis:61;110;154;189notal6.
nota 5; 186 nota 9; 189 nota 16; 192 Calhoux, G. M.: 145 nota 32.
nota 21 ; 194 nota 27; 197 e nota 32; 204- Câlias, Paz de: 169 nota 34; 176 e nota 49.
205. Câlicles: 140 e nota 22.
Baldly, C. H.: 134 nota 11; 173 e nota 42; Calimaco: 199; 203 e nota 47.
202 nota 45; 205. Aitia ou Causas: 203.
Bárbaros: 17-19; 21-22; 23; 34; 45; 118; Hécale: 203.
141 nota 23; 158; 161; 168; 173; 176- Pirtakes: 199.
177; 185; 187; 192; 195; 196nota31; Fr.612Pfeififër:203.
202-203; 205. Calino: 152 nota 2; 156.
Barker, E. : 140 nota 21. fr.l West, w. 6-7:156.
Bames, J.: 179 nota 1. Calistenes: 179.180 nota2; 192 nota 22.
Barron, J. P.: 154 nota 9. Calixeno: 84.
Bean, GE.: 198-199 nota 37. Capadócia: 195.
Beauchet, L.: 39 nota 4; 40 nota 5; 48 Capaneu: 163.
nota 22. Capelle, W.: 206 nota 58.
Benedetto, V. di: 18 nota 8. Caristo: 116.
Bengtson, H.: 171 nota 39. Cameias: 111.
Beócia: 13nota l;29;30nota31;32;33; Carondas: 56.
37; 46 nota 19; 70; 110; 168; 190. Cartledge, P.: 58 nota 1.
Federação da: 190. Caskey, L. D.: 106 nota 90.
Berve, H.: 30; 66 nota 69. Cassandra: 164.
Bickerman, E.: 187nota 10. Cassandro: 180; 184.
Biehl, W.: 18 nota 8. Cassola, F.: 39 nota 4.
Bíton (cientista da época helenística): 199 Catânia: 56.
Bizâncio: 116; 199. Càucaso: 204.
í: Blackman,D.: 109 notai. Cefisôdoto: 175-176; 176 nota 49.
Boardman, J.: 66 nota 69; 179 nota 1. Ceos: 13 nota 1;32; 57.
Bobbio,Norberto: 95. Chambers, M.: 69 nota 77.
Bonnafé, A.: 39 nota 1. Chantraine: 76 nota 2.
Boulê: vide Atenas - Quinhentos, Chapoutier, F.: 18 nota 8.
Conselho dos. Chipre: 100; 116 ; 184 nota 8.
Bowra,C.M.: 19; 58 nota 50; 63 nota 66; chrêsimon: 139.
81 nota 20; 83 nota 25; 85 nota31; 86- Cidades: 83 nota 26.

224
Ciméríos: 156. Debriinner, A.: 76 nota 2.
Címon: 83; 85-88; 94; 118 nota28; 119-120. Decelia: 146-147.
Clone: 161. Deinócrates de Rodes: 183.
Cirene:43;44notal4; 182; 195; 201; 203. Delfos:44enota 14;100; 190.
Cireneia: 191. Oráculo de: 44; 100.
Cleantes: 201 nota 44. Delos: 13; 32; 116; 117;118; 190 nota 19.
Cleómenes: 78 e nota 13; 110. Sünaquiade:77;90; 109-127; 129; 158-
Cléon: 96; 124; 144; 148. 160; 190.
Clínias: 34; 153-154 nota 6. Demagogos: 92 nota 50; 143-144; 166; 189.
Clístenes: 68; 70; 78-82; 85; 87; 90; 97- Demarato: 19; 110.
98; 110; 135. demarchiœ. 76 nota 2.
Clitarco: 179-180 nota 2. démarchas: 76 nota 2.
Cloché,?.: 104 nota 85; 177 nota 53; 205 Deméter: 162.
nota 54. DemétrioII: 185.
Cohen, G M.: 187 nota 10. Demétrio Faléron: 200.
Collard, C.: 122 nota 38; 162 nota 29; 163 Demétrio Poliorcetes: 181; 184; 186.
nota 30. democracia: 27; 59; 68; 69; 70; 75-108;
Conselho (instituição da pólis): 26; 28; 109; 110; 115; 117; 119-120; 122 nota
42; 64; 77; 117; 190. Vide Atenas - 39;123;124;126;127;129-149.
Quinhen-tos, Conselho dos. Demócrito: 21 nota 13.
Cook, J. K.: 28 nota 27. fr.30Diels:21notal3.
Copémico: 201 nota 44. ir.251 Diels: 21 nota 13.
Corcira:32nota35; 129; 141; 173. Demofonte: 22.
Coríntios:14;110;120;129;146. dêmos: 58; 62 e nota 60; 67-68; 69 e nota
Corinto: 13 nota 1; 14; 15; 32 nota 35; 45; 77; 70; 75 nota 1; 76 e notas 1 e 4; 77 e
47; 61; 113 nota 14; 114; 130; 168-169; nota 5; 78; 79-82; 83 nota 27; 84-85;
185; 189. 87; 89-92; 95-97; 99; 101; 103; 105; 107-
Guerra de: 169; 173; 174; 196 nota 31. 108; 111; 125; 138; 143; 144; 148; 172;
Istmo de: 15; 191. 178.
Simaquiade: 188-189 nota 15; 190. Demóstenes: 16; 26; 106; 176 e nota 51;
Cós: 177 e nota 54.
Couch, H.N.: 133. Contra Arisîogiton 115-16:26.
Crates: 199; 202. Contra Mídias 45:16.
Fr. 90 Snell: 202. Contra Mídias A5-A%: 97; 106.
Creonte: 15; 20; 25. Contra Timócrates 105:63.
Creso da Lidia: 71. Contra Timócrates 112:103 nota 80.
Creta: 32; 34; 116; 153-154 nota 6; Filipicas33:95.
Croix, G. E. M. de Ste: 123 nota 43; 129 Filipicas 435-45:170.
nota 1; 148 nota 36. Neera 75:98 nota 66.
Curupédio: 181; 184. Pseudo-Demóstenes XVQ. 2,4 e 17:174.
Danaides: 21-22; 91. Detienne, M.: 51 nota 34.
Dânao: 21-22; 91. Diàdocos: 179-180 nota2; 180-181; 188;
Danúbio: 192. 198.
Dario: 107; 111; 160. Dialagê: 169.
Dátis: 111. Diceôpolis: 131-132; 147; 166-167.
Davis, J. K.: 104 nota 86. Dike: 135.
Day, J.: 69 nota 77. Demiurgos: 191.

225
^1
1 1
i' ! Dime: 190. Egipto: 164; 171; 181-185; 192-194; 196;
li
Diodoro: 197; 200.
1
liT1r ■ 1. 79.4:49. Egira: 191.
10.17:69 nota 77. Ehrenberg, V.: 13 nota 1; 28 nota 27; 31
12.11-19:56 nota 47. notas 32 e 34; 32 nota 35; 39 nota 2; 43
il! 1 12.19b: 56. nota 12; 59 e nota 61; 63; 66 nota 70;
14.4.3-4:103 nota 83. 70 nota 79; 75 e nota 1; 77 notas 5 e 6;
111! 18.7.1:180 nota3. 78 notas 11, 12 e 13; 79 nota 15; 80
Diôdoto (rei de Bactriana): 187. nota 19; 81 e nota 21; 82 nota 24; 83
Diogenes: 202. notas 26 e 27; 84 notas 28 e 29; 85; 86
I1 Diogenes Laércio: notas 32 e 33; 99 nota 71; 100 e nota
1.45:49 nota 27. 74; 104 e nota 86; 105 e nota 87; 110;
2.68:57-58 nota 49. 111 notas 7, 8 e 9; 112 nota 10; 113 e
3.96:202. notas 12 e 13; 115 nota 19; 116 nota
y•Ifl1: Diomedes: 52-53; 151. 22; 126 nota 53; 145 nota 33; 179 nota
Dionisias: 66. 1; 190 nota 19; 194 nota 26.
lil Grandes Dionisias: 66 e nota 69; 69; Eirene: 167; 169 e nota 34; 174-176. Vide
II ; 89; 101; 163-164; 167; 168. Paz.
il Diom'sio de Halicamasso: 134 nota 10. eirene koinê: 174-175.
Dionisio de Siracusa: 177. Elamitas: 195.
Ijl : Dionisio Trâcio: 199. Eleusis: 66 e nota 69; 125; 146; 162.
]Hn Dodds, E. R. : 90 nota 42; 135 nota 12. Elidenses: 172.
1lU: Dover, K. J.: 70 nota 79; 90 nota 42; 93 Ellis,W.M.:145nota43.
nota 54. Elorduy, E.: 202 nota 45.
Drâcon: 40 nota 6; 58; 59 e nota 53; 63 emporos: 45.
^m fiI ■
ir nota 65; 100. Eneias oTáctico: 171 e nota 39.
l• ir Dracontides: 144 nota 3. Epaminondas: 173.
4i 1j r ; Dumont; J.- R: 136 nota 15. Epimeteu: 135.
1 Ir dynamis: 142 nota 26. Epicuro: 202.
11
Dynasteiai: 21 e nota 13. Época Obscura: 30; 41 nota 9; 42.
ij 11 dysnomia: 38-39. Erasistrato: 200.
Easterling, R E.: 154 nota 9. Eratóstenes: 192; 199; 201; 205 nota 55.
i| ii Ecbâtana: 194. Erétria:110;lll;154.
Édipo: 15-16; 162. Erinias: 20; 89-90.
Éfeso:71;72;156. Esparta: 13; 14; 26; 27 nota 25; 41 nota 9;
!' Efialtes: 86-87; 88; 89; 90; 91 ; 96 nota 61 ; 56-58; 68-69; 77-79; 86; 87; 88; 100; 101;
i1 ^ 103; 120. 110;lll;114;116;119enota32; 120;
Élira: 151. 123; 124; 129; 130 3 nota 2; 134 nota
I''
! 'j Éforos: 26; 57 nota 49. 10; 145; 146; 155; 156; 160nota24; 164;
Éforo:56. 165; 166; 168; 169; 176nota49; 177; 191.
lii FG rH ist.lO V 63:^3 nota26. Espartanos: 14; 15; 68; 78; 100; 101; 110;
íiji Egeu, Mar: 69; 113; 114; 116-117; 118; 124; 130;146; 147; 155 notas 10 e 12;
1 125; 126; 160; 184 nota 8; 190 nota 19. 158; 159; 160; 168; 175; 196.
111 Egina: 13 nota 1; 32; 61; 78 nota 13; 110; Ésquilo: 19-20; 42; 89-90; 102; 159.
iií 112; 113 e nota 14. Oresteia: 42; 89.
ill Égion: 191. Euménides’. 19-20; 89.
Ij Egipcios:23;182;183;187;195. w. 696-699:19-20.

226
w. 778 sqq.: 20. frs.449-459]sP: 161.
Perlas: 118 enota27; 159-160; 191-192. fr.453N2:161e nota 27.
w. 241-243:19. Hécuba: 161; 162; 164
w. 585-594:118. w. 650 sqq.: 162.
Prometeu'. 7/e/enn: 23; 161; 164-165
V. 222:64 nota 67. V. 276:23 e nota 18.
V. 310:64 nota 67. w. 749-751:164-165.
V. 736:64 nota 67. w. 1151-1157:165.
V. 761:64 nota 67. Heraclidas: 22.
V. 942:64 nota 67. w. 422-424:22.
Suplicantes'. 21 ; 75 nota 1; 90-91. Ifigénia em Aulide: 139; 161.
w. 365-401:91. Orestes'. 18 e nota 8.
^ w. 366-369:91. w. 485-489:18.
Ésquines: 174. Suplicantes: 64 nota 67; 161 ; 162-163 ;
Contra Ctesifonte 23 5:103. V. 399:64 nota 67.
Contra Timarco 15-17:106. w. 403-408:99.
Estesicoro: 164. V. 404:64 nota 67.
Fr. 192 Page: 164 e nota 32. w. 429-432:99 e nota 72.
Estoicos: 202 e nota 45; 206. Troianas'. 161; 163-164
Estrabão: 195. Europa: 76 nota 2; 114; 179; 181; 182;
1.4.7-9,66:205 nota 55. 186; 191-192; 206 nota 57.
1.4.9,66:192. Eurotas: 162.
8.5.5,366a: 57 nota 48. Eutidemo: 16.
17.1.43:192 nota 22. Evadne: 163 e nota 30.
Estratão: 200. Paras: 191.
Estrategos: 82; 84-85; 86; 92; 94-95; 111 ; Faros, Ilha de: 183; 202.
144; 147; 148; 171; 190enota 19; 191. Farrington, B.: 200 nota 40.
Estrepsiades: 138-139. Fenicia: 182.
Etéocles (filho de Édipo): 162. Fénix: 152.
Etéocles (filho de Îfis): 163. Ferguson, J.: 179 nota 1; 183 e notas 6 e
etlmos:32; 190; 203. 7; 188-189nota 15; 191 nota20; 192 e
Etiópia: 204. nota 23; 193 nota 24; 194 nota 25; 196
Etólia:30;185;190. nota 29; 200 nota 40; 203 nota 46; 206
Etólios:185;190. nota 59.
Eubeia:13;116;125;131. Festugière,A.J.: 17nota5; 179 notai.
Euclides de Alexandria: 200. Fidias: 101; 144 nota 30.
Êumenes de Cardia: 179-180 nota 2; 180. Fidipides: 111 ; 139 e nota 20.
Êumenes (rei de Pérgamo): 187. Filémon: 206.
eunoia: 176. Filetas: 203.
eunomia: 25 nota 22; 38; 39 e nota 2; 63; Filino de Cós: 200.
100; 122 nota 39. Filipe: 33; 169; 176 nota 51; 177; 179; 188;
Eupâtridas: 58; 61; 67; 78. 198.
Euripides: 18; 22; 96; 102 nota 79; 139; Filipe V: 185 ; 190.
161;168;173. Filipópolis: 188.
Andrômaca: 161; 162. Filipos: 188.
w. 1037-1044:162 e nota 28. Filon de Alexandria: 196.
Cresfonte: 161. Fine, J. V. A.: 39 nota 4.

227
Finley, M. L: 23; 28 nota 27; 31e nota 33; Gregos:passim. Vide Helenos.
32 nota 35; 40 nota 5; 48 notas 22 e 24; Griffin,!.: 153 nota 4; 179 notai.
49 e nota 28; 50 notas 32 e 33; 54 nota Griffith, G.T.: 64 nota 67; 179 nota 1; 192
43; 76 nota 3; 92; 94 nota 55; 97 nota nota 23; 205 e nota 54.
62; 103 e nota 80; 104 notas 85 e 86; Groningen, B. A.: 41 nota 8; 122 nota 38;
105 nota 89; 106; 108 notas 94 e 95; 162 nota 29; 163 nota 30.
109 nota 1; 117 nota 26; 123 nota 43 ; Grube, G.M.A.: 18 nota 8.
124 nota 44; 125 e nota 48; 126; 143 e guerra: 151-178.
notas 28 e 29; 165 nota 33. Guerra Lamiaca: 180.
Fliunte: 13 nota 1. Guerras Pérsicas: 30; 82; 85; 109-115;
Foceia: 72. 127; 130; 158-160; 173.
Fôeida: 13 nota 1; 32. Guthrie, W. K. C.: 19 nota 9; 135 nota 12;
Forrest, W. G: 50 nota 33; 58 nota 51 ; 62; 135 nota 15; 137 nota 16; 138 nota 17;
67 notas 71 e72;75enotal;78;81-82; 140 nota21.
84 nota 28; 88 notas 37 e 38; 89 e nota Hackens,T.:71;74.
41; 90; 91 e nota 45; 93; 103; 122 nota Hadas, M.: 179 nota 1; 202 nota 45; 205
39; 123; 144enota31. notas 54 e 55; 206 nota 56.
Fox, R. L.: 179 notai. Hades: 159.
Frankel, H.: 39 nota 2. Hamilton, J. R.: 179-180 nota 2.
Fraser, RM.: 183 nota 7; 196 nota 30; 198- Hammond, N. G L.: 109 nota 1; 112 nota
-199 nota31. 11; 114nota 18; 115nota20; llSnota
Frigia: 180; 184; 195. 28; 120 nota 33.
Gaertingen, H. von: 85 nota 31. Hansen, E. V: 188 nota 12.
Gagarin, M.: 90 nota 42; 160 nota 22. Harmódio: 70 nota 79; 79-80; 81 nota 20.
Galileu:201 nota 44. Harrison, A. R. W.: 105 nota 88.
ï
Garlan,Y.: 52; 105 nota 88; 171 nota 39. Headlam, J. W.: 98 nota 64.
Garvie,A. S.:21. Heath, T. L.: 201 nota 44.
Gauleses: 182; 185; 187; 190; 192. Hecateu de Abdera:
Gauthier, Ph.: 126 nota 50. FgrHIst 264 F 25:49 nota 27.
Gélon: 114. Hectêmoros: 40 e nota 5; 49 e nota 31 ; 50;
Gemet, L.: 39 nota 4; 43 nota 1; 105 60.
nota 88. Hefestos: 135.
Gerúsia: 26; 61 nota 59; 68 nota 76. Heinimann,F.: 19 nota 9.
Gildersleeve,B.L.: 120 nota 34. Heitor: 164.
Glaueo:52-53; 151. Hélade: 15; 23; 24; 30; 34; 94; 111; 116;
Goinme, A. W.: 57-58 nota 49; 70 nota 79; 119;121;125;129;152;153;158-159;
104 e nota 86; 117 nota 24; 121 nota 164; 165; 166; 168; 169; 173; 177; 184;
36; 122 nota 39; 123 nota 40; 124 nota 185; 190. Vide Grécia.
46; 131nota4; 132 nota 8; 144 nota 30; Hlânico:
145 nota 33. Fgr//AMF116:57nota48.
Górgias: 173. Helenos: 13; 18; 21; 24; 29; 33; 34; 45;
Discurso olímpico'. 113. 114; 116; 151 nota 1; 158-159; 160; 161;
fr, 8adiels: 173. 167; 168; 171; 172; 173; 174; 175; 177;
Oraçãofúnebre'. 173. 178; 192; 196. Vide Gregos.
Graham, A. J.: 126 nota 50. Helieia: 62; 88; 90; 92; 93; 94; 98; 102;
Grécia: passim. Vide Hélade. 106; 115; 120.
Green,R: 114nota 17; 114-115 notais. Helesponto: 179.

228
Hemon: 20-21. 7.235:57 nota 49
Hera: 17; 164. 8.3:109 nota 2.
Heracleia Sintice: 188. 8.143:21 nota 14.
Heraelidas: 57 nota48. 9.90-122:109 nota 2.
Heraclides Pontieo: 201 nota44. Herófilo: 200 e nota 42.
Heraclito: 24-25. Heron de Alexandria: 201.
if. 44 Diels: 24; 25 nota 22. Herondas: 204.
if.54 Diels: 25 e nota 22. Mimos: 204.
if. 114 Diels: 24; 25 nota 22. Hesíodo: 29; 37-38; 43; 46 nota 19; 49;
Hermes: 146; 164. 135; 152; 157 nota 16.
Herodoto: 15; 78 nota 14; 81 e nota 2; Trabalhos e Dias: 29; 37-38; 45; 48 e
107; 109; 199 nota 39. nota 21.
1.27.2:57 nota 49. w. 30-41:38; 43.
1.56:67. w. 38-39:29.
1.64.4:57 nota 48. w. 202-218:38; 43.
1.64.5:57. w. 207-211:38 e nota 1.
1.66.1:57. V. 341:48 nota 21.
1.148:33. w. 349-350:48 e nota 23.
1.170:33. V. 396:48.
2.112-120:164. w. 401-404:48.
3.80:98; 99; 107 e nota 92. w. 618-619:45.
3.80-83:75 nota 1; 107. Hetairia (ou heteria): 10; 75 nota 1; 79;
4.151-159:44 nota 14. 146.
5.37:81 nota 20. Hignett, C.: 62 nota 61; 78 notas 12 e 13;
5.55:70 e nota 79. 79; 80 nota 17; 95 notas 56 e 57; 114
5.62:69 e nota 15. notas 17 e 18.
5.66:78 nota 12; 79. Hilotas: 27 nota 25; 68-69; 86 e nota 34.
5.69:79. Himera: 56.
5.72.2:78. Himmelfarb, G: 104 nota 85.
5.74:78 nota 2. Hiparco: 65 nota 68; 69; 70; 81 e nota 20;
5.74sqq.:110. 84.
5.78:81. Hiparco de Niceia: 201 e nota 44.
6.73:78 nota 13. Hipérbolo: 145.
6.82:15. Hipias: 69; 70 e nota 78; 78; 80; 111.
6. 102: 21. Hipodamo:31;194nota25.
6.104:111. Hippeis: 61
6.108:70. Hispânia: 192.
6.123:70 nota 79. Hoffmaim, O.: 198 nota 36.
6.132:83. Holladay, A. J.: 133 nota 9.
7.6:21. Homero: 28; 45; 52; 155.
7.103:22. Ilíada: 27; 28 e nota 27; 97; 151-152;
7.104:19. 199 nota 39.
7.107:19. 1.54 sqq.:28.
7.135:21. 1.490492:152.
7.144:113 nota 13. 6.207-210:151-152
7.145 sqq.:114., 6.288-291:45.
7.204:57 nota 48. 9.443:152

229
18.478-608:28. Areopagitico 22-23: 98 nota 66; 99
18.490sqq.:28. nota 68.
18.497-503:28. 67:103 nota 83.
18.501:28 nota 28. Contra os Sofistas 3:138 nota 18.
18.505-506:28. Filipe: 111.
18.508:28 nota 28. 124:177 nota 52.
19.303:28. 137:177 nota 52.
21.441-460:50 nota 32. Panegírico:
23.740-745:45. 15sqq.:177.
Oí/me/í7:27;28nota27; 151; 152; 153 50:196; 206.
nota 4; 199 nota 39. 82sqq.: 177 nota 2.
4.644:50 nota 32. 113:103 nota 83.
6.53-55:28. 121:177 nota 52.
8.387-395:28. 137:177 nota 52.
11.484-491:50 nota 32. 179:177nota52.
14.287-309:45. Panatenaico 145:98 nota 66.
15.403-484:45. SobreaPaz\36-\AA:\ll.
i 18.356-364:50 nota 32. Itália: 15; 56.
Hommel. H.: 28 nota 28. Jaeger, W.: 24; 39 nota 2; 135 nota 13;
homonoiœ. 173 152 nota 2; 153 nota 4; 170 nota 35; 177
:î : nota 54.
I; Homoiov, 68; 155.
■I Hooker, J. T.: 68 notas 73 e 74.
hoplitia: 51-52; 53; 180.
Jacob, O.: 105 nota 89.
Jacoby, K: 70 nota 79.
Janni,R; 58 nota 50.
Hopper, J. J.: 43 nota 12.
Jasao: 197 nota 33; 203.
Hopper, R J.: 66 nota 69.
Jasâo de Feras: 177.
Homblower, S.: 109 nota 1.
Jeffery, L. H.: 110 nota 4; 119 nota 32.
How, W. W.: 57 nota48; 79 nota 15. Jenkins, G K.: 53 nota 39.
hybris-. 21 nota 14; 97; 106; 107. Jerônimo de Candia: 179-180 nota 2.
Ictinos: 101. Jerusalém: 195.
Îfis: 163 e nota 30. Jocasta: 16.
Îlion: 164. Vide Tróia. Jogos Olímpicos. Vide Olímpia.
Immerwahr, H. R. : 109 nota 2. Johansen, H. F.: 21 nota 15; 22 notas 16 e
india: 191. 17.
Indo: 179. Josué: 197 nota 33.
lônia: 33; 52; 72; 146; 160. Judeus: 192; 195; 197 nota 32.
Confederação da: 190. Judeia: 195.
Iônios:33;110;116;117nota23. Kagan, D.: 129 nota 1; 130 nota 2; 145
Ipso: 181, nota 33; 148 nota 36.
Batalha de: 184. kairos: 139.
Iranianos: 194 nota 26. kakoi: 39 nota 3; 40-41 ; 42 nota 10; 93.
Mo: 185. Kannicht, R.: 23 nota 18.
Isàgoras: 68; 78-79; 110. Kerferd, GB.: 136nota 15; 137nota 16.
isegoriœ. 95-97; 99; 104; 149. Kirk,GS.:25nota22.
Isôcrates: 176-177. Kitto, H. D. F.: 21 nota 12; 24 e nota 21 ;
Antidosis 239:177 nota 52. 32 nota 35; 33; 163 nota 30.
253-257:177 nota 52. kleos: 142 nota 26.

230
koinê: 198 e nota 36. Lísias: 173.
koinon: 190. Contra Agorato 5:175.
kosmopoliíes: 205. Contra Eratóstenes 43:145 nota 32.
hiatos: 76 e nota 2. Contra Teomnestol. 16:63.
Labarbe, J. A.: 64 nota 67; 113 nota 12. Discurso Olímpico: 173.
Lacedemónia: 34; 86; 130; 153-154 nota Oraçãofúnebre: 173.
6; 155. Vide também Esparta. Lisímaco: 180; 181; 184; 186.
Lacedemónios: 14; 19; 86; 111; 116; 129- Lisimaquia: 185; 187.
-130; 131; 146; 155 nota 10; 177. Vide Littmann, R. J.: 44 nota 15.
também Espartanos. Lloyd, G.E.R.: 200 nota 40.
Lacónia; 51; 155 nota 10; 162. Lloyd-Jones, H.; 63 nota 66; 179 nota 1;
Laio: 16. 180 nota 4.
Lâmaco:96;167. Long, A. A.: 202 nota 45; 206 nota 58.
Lanza., D.; 18 nota 8. Lord Acton: 104.
Laocoonte: 204. Lozano, A.: 206 nota 58.
Laodiceia: 188 nota 14; 194. Macabeiis, Livro dos: 197 nota 32.
laoi\ 186. 1.15.5-6:197.
Larsen, J.A.O.: 119 nota 32; 190 nota 2.3.1-28:197.
19. 2.4.9:197.
Latacz, J.: 153 nota 4. MacArthur, W. P.: 133 nota 9.
Launey, M.: 192 nota 23. Macdowell, D. M.: 59 nota 52.
Laúrion; 113; 147. Macedonia: 33; 153; 169; 174; 180-182;
Lazenby, J. F.: 145 nota 33. 184-185; 186; 188; 190.
Lawrence, A. W.: 66 nota 69. Macedónios: 33; 192-193; 194 nota 26;
Leahy, D. H.; 119 nota 32. 195; 205.
Leão, Delfim F.: 59 nota 54; 60 nota 57. Magistrados: 26; 28 nota 28; 40 nota 6;
Legisladores: 55-57; 58; 64. 42; 61; 62; 63; 64; 73; 88; 89; 98 nota
Lelanto: 154. 66; 102; 107; 108.
Guerra de: 154. Magna Grécia: 56.
Leneias: 147; 166. Manfredini, M.: 39 nota 4; 49 nota 27; 61
Leonato: 180. nota 59.
Leónidas: 57 nota 48. Mantineenses: 145.
Leôntio: 191. Mantineia: 145 e nota 33.
Leontinos: 56. Mar Vermelho: 183.
Lesbos: 13 notai; 119; 126 nota 50; 156. Maratona, Batalha de: 82-83; 84; 85; 110-
Lesky,A.: 158. 111; 112; 119; 157.
Lévêque, P.: 80 ; 179 nota 1. Marg,W.: 28-29 nota 28.
Lévy,E.; 141 nota 23; 142 nota 26. Maroneia: 113.
Lewis, D.; 59 nota 52; 77 nota 5; 110 nota Marrou, H.-L: 153 nota 5; 197 notas 34
4; 126 nota 53; 176 nota 49. e35.
Líbia:43;181;192;193;195. Martin, V: 34 nota 40.
Lícia: 151. Martina, A.: 59 nota 55; 61 nota 58; 62
Licurgo: 57; 100-101. nota 60.
Lídia: 52; 71-73. Mathieu, G: 177 nota 53.
Lígdamis: 69. Mattingly, H. B.: 118 nota 29.
Linear B: 151 nota 1. Mau, J.; 75 nota 1.
Linforth, J. M.: 62 nota 61. Mcdonald,M.:163.

231
Mcgregor, F.: 75 nota 1. Nearco: 179-180 nota 2.
Mcshane, R. B.: 188 nota 12, Néocles: 110.
Medeia: 203. Neoptôlemo: 164.
Mediterrâneo: 29; 43; 44; 118; 125; 152; Nicias: 14; 20; 146.
179;193. Paz de: 145; 148; 167; 175.
Medos: 173; 195. Nicocles de Chipre: 177.
Megabizo: 107. Nilo, rio: 183 nota 6; 184; 195,
Mégacles: 78; 84. Nomos: 17-18; 19nota9; 24-26; 56 nota
Mégara:61;76; 129. 46; 75 nota 1; 99-100; 136-137; 141 e
Megarenses: 129; 158-159. nota 23.
Meiggs, R.: 59 nota 52; 77 notas 5 e 6; nostos: 152,
109 nota 1; 110 nota 4; 116 nota 22; Novo Testamento: 198.
117 notas 24 e 25; 119nota31; 120 nota Oicista:43 nota 13.
35; 123 nota 42; 124 nota 45; 126 nota oikos: 28,
53; 176 nota 49. oikoiimene: 206.
Meleagro: 180. Oligarquia: 27; 30; 31 ; 69; 75; 76 nota 2;
Mélios:141; 154 nota 2. 77; 78; 97; 100; 104; 107; 119; 120; 122
Melos: 13 notai; 32; 116; 161; 164; 165. nota 39; 123-124; 140; 144; 160.
Menelau: 18; 23; 165. Olímpia: 100; 172; 173; 177; 177; 196
Menandro: 206. nota 30
Menedemo:185. Jogos Olimpieos: 37; 173.
Mênfis: 183. Olímpia (mãe de Alexandre): 184.
Méridien L.: 18 nota 8. orgê: 132,
Merit, B. D.: 75 notai. Orontes: 186.
Mesopotâmia: 185; 193; 195. Ostracismo: 79-80; 82; 83; 84; 89; 91; 112;
Messénia: 13; 68-69; 156; 203 nota 50. 120; 145.
Guerra da: 58; 203 nota 50. Ostwald, M.: 17 nota 6; 25 nota 22; 75
Micale: IHenota 18; 115; 158. nota 1; 95 nota 57; 100.
Micénios: 30; 151 nota 1. Otanes:99; 107.
Milciades: 82-84; 85; 86; 89; 110-112; 120. Pâ: 183.
Mileto:76;81nota20;110;lll. Page,D, L.: 133 nota 9..
misthos: 40; 50; 92. paideiœ. 197 e nota 34,
Mitilene: 120enota35; 125; 141. Palene:191.
Momigliano,A.: 179 nota 1. Panateneias: 66.
Mossé, Cl.: 64 nota 67; 66 nota 70; 78 Paniilia: 195.
nota 14; 88 nota 38; 96 nota 61; 116 Paquistão: 193.
nota 21; 126 notas 50 e 52; 148 notas Paris: 164.
35e36. Parke, H. W.:66nota69; 117 nota 23.
Mosley, D. J.: 115 nota 20. Paros: 83 e nota 26; 122; 157.
Moulton, C.: 141 nota 23. Partos: 195,
Murray, G.: 160 nota 22. Patras: 191.
Murray, O.: 179 nota 1. Pausânias (rei de Esparta): 116.
Musti,D,: 187 nota 10, Pausânias: 185.
Mylonas, G. E.: 66 nota 69. 1.8.2:176.
Nápoles: 43. 1.8.5:81 nota 20.
Naxos: 56; 69; 118 nota 28. 1.16.3:185.
Neantes de Cizico: 198-199 nota 37. 1,18.2:66 nota 69.

232
3.16.6:57 e nota 48. Píndaro: 65; 120 nota 34; 122 nota 39.
4.5.10:98 nota 66. Pinero, A.: 206 nota 58.
4.6.1-3:203 nota 50. Pireu: 104; 112; 113; 126; 130; 185; 189
9.16.1:176 nota 49. nota 16.
Paz: 42; 65; 67; 131-132; 133; 145; 147; Pirro do Epiro: 181; 184.
148; 151-178. Vide ainda Antálcidas, Pisístrato: 62 nota 60; 66 e nota 69; 67;
Paz de; Cálias, Paz de; Meias, Paz de. 69 e nota 77; 77; 81 nota 20.
Paz do Rei: 175. Pisístratos: 65; 66 nota 69; 69-70; 77 e
Paz dos Trinta Anos: 175. nota 9; 78; 84.
Payrau, S.: 161 nota 25; 174 nota 46. Píteas:201.
Pédech,R: 179-180 nota2. Plassart,A.: 105 nota 89.
Pelasgo: 21-22; 91. PIatão:21;32;101;153.
pelatas:40;49. Academia de: 202.
Peleu: 152. Apologia 20a: 138 nota 18.
Pelópidas: 172. Cra///o 385e-386d: 138 nota 17.
Peloponeso: 15-16; 30; 114; 172-173; 190; Críton 50a sqq.: 23; 34; 153 nota 6.
191. 50e:
Guerra do: 16; 32 nota 35; 96; 101; 104; 51b: 23; 153 nota 6.
109; 119; 120-121; 123-124; 129-149; 51c: 23.
160-161; 169; 171; 178. Górgias: 140.
Simaquiado: 57-58 nota 49; 69-70; 77; 482 sqq.: 140 e nota 22.
116; 119 nota 32; 120; 124; 129; 130; 492d: 142 e nota 26.
145; 160; 190. 519d: 138enota 18.
Peónia: 192. Hípias Maior 2S2h: 138 nota 18.
Perdicas: 180; 181. Laqiies 186c: 128 nota 18.
Pérez Alonso, J.: 202 nota 45. Leis:
Péricles: 16; 19; 24; 81; 84; 86; 88-92; 94- 625e:34 ; 153 nota 6.
-96; 99; 101; 115; 120-124; 129-130; 132; 681b-c:55.
134; 136; 139; 143-145; 147-149. 694a-701b:93nota51.
Pérgamo: 187-188; 198enota37. 716c : 138 nota 17.
Altar de: 204. 737e-738a:32.
Biblioteca de: 204. 741b: 97 nota 63.
Periecos: 68. 759b: 97 nota 63.
Persas: 15; 19; 21; 33; 66 nota 69; 69; 86; 771a-772d:32.
107; 109-118; 159-160; 169; 192; 195 804d : 155 nota 11.
nota 28; 205. 813e: 155 nota 11.
Perseu (filósofo estóico); 185. Ménon9lá: 138 nota 18.
Pérsia: 33; 81 nota20; 112; 116; 159; 171; Protágoras: 135; 138.
193; 196. 310a-311e:138.
Pérsis: 180. 314b-315d:
Peucestes: 180. 319a:
Pfeifeer, R.: 187 nota 11; 199 nota39. 319c-328d:135.
physis: 19 e nota 9; 25 nota 22; 26; 136; 322b-324a:
137 nota 16; 141 e nota 23. República: 140; 170.
Piccirilli, L.: 39 nota 4; 49 nota 27; 61 336b-354c:
nota 59. 337d:138notal8.
Pidna, Batalha de: 185. 344c: 140.

233
348d: 140. 9.4:98 nota 66.
348e: 140 10.6:86 nota 33.
469b-471b; 172. 32:144 nota 30.
493a: 142. 33.5:131.
557a: 98 ; 99 nota 69. PiiblícolaS: 50.
Symposion: Rómulo 11.1:50.
182b: 21. Sólon 13.4:40 nota 5; 49 notas 27 e 30.
182c: 70 nota 79. 18.1-2:61 cnota58.
Teeteto 152a: 138 nota 17. 18.3:63.
178b-179d:138notal7. 19. l:62enota62.
Pseudo-Platão, Hiparco: 19.3:61 nota59.
228b-229d:70nota79. 24.1:20.
228c: 65 nota 68. Teseu36:85.
229b: 69. Tibério Graco 13.2:50.
Plateenses: 112. plutocracia: 76.
Platéias: 30 nota 31 ; 70 e nota 78; 114 e Plutos:175;176nota49.
nota 18; 116; 141; 158; 159. Pnix: 148; 166.
Plínio 0 Antigo: 187. Podlecki, A.J.: 58 nota 50; 110 nota 6;
ploiisioi: 16 Qnota 4; 95. 113 notas 12 e 14.
Plutarco: 49; 50; 100-101. Podlecki, R: 21 nota 15.
Alcibiades 13:145. Pohlenz,M.: 18nota8; 33; 202 nota 45;
18-19:146. 205 e notas 54 e 55.
35:147. Pólemon de ílion: 198-199 nota 37.
Alex. 27:192. pólemos: 174.
CntoMmor 34.3:50. Políbio: 183; 191.
Címon 14.5: 86 nota 33. 2.37.9-11:191.
16.9:86. Polícrates: 65; 69.
Coriolano 13:50. Polinices:15;25;162.
21.4:50. pólis: passim
DeAlexandríFortuna 5:188 nota 3. polis myriandros: 31.
9:192. politeia: 27; 52 e nota 36; 67; 90.
De Mal Her. 21:57-58 nota 49. Políxena: 164.
Liciirgo: Pollitt, J. J.: 204 nota 52.
1.4:57 e nota 48. Ponto: 195.
14-15:155 nota 11. Poséidon: 33.
16-20:155 nota 10. Potideia:129
23.2-3:155 nota 12. Pouilloux, J.: 118 nota 28.
29:100-101. Powell,A.: 148 nota 36.
31.4:57. Preaux, C.: 190 nota 19.
M7/r31:173. Price, S.: 72; 179notal.
Moralia 35F: 57 nota 49. Price, M.: 72; 74.
2 lOE: 154 nota 7. Pritaneu: 63 nota 65.
233B:154nota7. Pritchett, W. K.: 51 nota 35; 112 nota 11;
329A-D:202. 114nota 16; 118nota29.
922F-923A:201nota44. Prometeu: 64 nota 67; 135.
Nícias 11:145. Propércio: 203 nota 48.
Per. 9.3:94. Propôntida: 116.

234
Protágoras: 137; 138 e nota 17; 143. Rússia: 191.
fr. 1Diels : 137. Ryder, T. T. B.: 174 nota 45; 175 nota 48-
fr. 4 Diels: 138. 16.
Ptolomeul: 180 e nota 2; 181; 195; 198; Salamina, Batalha de: 115-116; 158-159.
200; 201 nota 44. Samos: 30 nota 31 ; 65; 69; 76; 119-120 e
PtolomeuII: 185; 187; 198. nota35; 125; 147; 201 enota44.
PtolomeuCerauno: 181; 186. Sanctis, G. de: 48 nota 22; 69 nota 77; 70
Pulquério,M. O.: 19 nota 11; 23 nota 20; nota 79; 86 notas 32 e 33; 88 nota 39.
118nota27; 153 nota 6; 164 nota 32. Sandbach, F. H.: 202 nota 45.
Punjabe: 204. Sandys: 49 nota 27.
Queroneia, Batalha de: 174; 177. Sardes: 184; 187.
Quersoneso: 69; 83 nota 26; 111 ; 147. Sartori, F.: 145 nota 32.
Quilon: 57 e nota 49. Sátrapas: 186; 196.
Quinn, T. J.: 120 nota 35. Scherer, A.: 198 nota 36.
Quios:30nota31;76;77nota5; 119; 120 Schmid, H.: 162 nota 29.
e nota 35; 126 nota 53. Schmidt, E. G: 75 nota 1.
Raven, J. E.: 25 nota 22. Schofield, M.: 25 nota 22.
Reneia: 13. Sealey, R.: 116 notas 21 e 22; 129 nota 1.
Reinhardt, K.: 25 nota 22; 105 e nota 87. Selêucia: 192-194.
rhétrœ. 56; 58; 100. Selêucidas: 187-188; 194enota26.
Rhodes, P. J.: 66 nota 69; 69 nota 11-, 10 Seleuco: 180-182; 184-186; 187 nota 10;
nota 79; 98 nota 66; 103 nota 83; 117 188 nota 14; 194 nota 26.
nota 24; 119 nota 31 ; 120 notas 33 e Semitas: 194 nota 26.
34; 124 nota 45. Serapião: 200 nota 42.
Riano de Creta: 203 nota 50. Serâpis: 183 e nota 6; 195; 196 nota 30.
Richter, G. M. A. : 66 nota 69; 81 nota 20; Sesonske, A.: 140 nota 21.
111 nota 7. Shannon, R. S.: 29 nota 28.
Robertson, M.: 66 nota 69. Shippley,G: 120 nota 35.
Robinson, E. S. G: 71 ; 72 ; 74. Sicília: 14; 20; 56; 69; 101; 123; 146; 164-
Rocha-Pereira, M. H.: 10; 17 nota 5; 25 -165.
nota 24; 40 nota 7; 53 nota 38; 60 nota Sicion: 13 nota 1; 78; 191.
56; 104 nota 86; 107 nota 92; 121 nota Sicofantas: 166.
37; 130 nota 3; 136 nota 15; 138 nota Silva, Augusta F. de Oliveira: 19 nota 8.
17; 151 nota 1; 152nota3; 153 notas4 Silva, M. F. Sousa e: 131 nota 5; 132
e 5; 156 notas 13 e 14; 157 notas 15 e nota 7.
17; 159nota21; 196nota31; 197 nota Simaquia: 9; 15 nota 4; 34 nota 40; 69;
35; 200 notas 40 e 41 ; 203 notas 49 e 51. 70; 77 e nota 7; 177; 190. Vide Corinto,
Rodes: 198; 199 e nota 37; 203 nota 48. Simaquia de; Delos, Simaquia de;
Roma:33; 188; 195. Peloponeso, Simaquia de.
Romanos: 33; 188; 195. Simonides: 24; 65 e nota 68; 110; 158-
Romilly, J. de: 19 nota 9; 55; 76 nota2; 97 fr. 26 Page: 158; 159 nota 21.
nota 63; 98 nota 65; 119 nota 30; 134 fr. 123 Page: 57 e nota 48.
nota 10; 140 notas 21 e 22; 141 nota fr. 15 West: 24.
24; 142 e notas 26e27;154;161 nota Bpig. III Campbell: 110e nota 4.
25; 163 e nota 30. Epzg. VIII Page: 159.
RostovtzefF: 189. Fpig. IX Page: 159.
Ruipérez, M. S.: 179 nota 1. Epzg. XVI Page: 158-159.

235
Il
simpoliteia: 190. Stroud, R. S.: 59 nota 52.
Sinclair, R. K.: 145 nota 32; 148 nota 35. Stuart Mill: 103 enota 84.
Sinclair, T. A. : 25 nota 22; 107 nota 92. Sudines: 199 nota 37.
Sinédrio: 190. Susa: 160 ; 194.
Siracusa: 48 nota 21; 114; 123; 146; 177. Susiana: 180.
Siracusanos: 146. Sûnion: 113.
Síria: 185; 193. sympheron: 139.
Siris: 15. synthêkav. 174.
Snell,B.:200enota45. syssitioir. 155.
Snodgrass, A. M. : 14; 29:3 0 nota 31 ; 51 Taies de Mileto: 33 - 34.
nota 34; 114 nota 16. Taltibio: 164.
Socrates: 23; 24; 76; 96; 101; 103; 152 Tarn, G: 192enota21;205.
nota 2. Tarn, W: 179 nota 1; 180 nota 2; 189
Sofistas: 19; 134; 135 nota 12; 136 e nota nota 15; 195 nota 28; 205 nota 54.
15; 137 enota 16; 138 enota 18; 139; Tebas: 20; 25; 30 nota 31 ; 32 e nota 35;
141; 142; 144; 146 nota 34; 199. 46;70;99;110;121;162;169.
III Sôfocles: 15; 20; 25 e nota 24; 64 e nota 67. techne\ 135.
Antigona: 15; 20; 25 e nota 24. technepolitikê’. 135 enota 13.
w. 175-177:20. Temistocles: 15enota4;82;85-87;95; 110
w. 367-371:25. enota6; 111-113 enota 14; 114-115.
w. 450-455:25. Teôcrito: 203 e nota 47.
w. 733-739:20. Teodorsson, Sven-Tage: 198 nota 36.
Rei Édipo: 15 -16; 64 nota 67. Teofrasto: 203.
Sofónides: 87. Teógnis de Mégara: 37; 55; 152 nota 2;
Solon: 30 nota 30; 37-40; 43; 46 nota 18; 157 nota 16.
47 e nota 20; 48; 49; 50; 55; 58-65; 66; w. 43-44:41.
67; 77e nota 5; 82; 88; 89; 97; 98 e nota w. 45-46:41.
66; 100; 152 nota 2; 157 nota 16. w. 49-50:41.
fr. 4 West: 38-39; 39 nota 2; 63. w. 51-52:41.
w. 4-20:43 e nota 12. w. 53-57:41.
w. 11-13:48. w. 189-190:55.
w. 30-39:38-39. w. 189-192:40.
fr. 5 West, vv. 1-2:62 nota 61. Teos: 33; 65 nota 68.
fr. 15 West, V. 9:55. Tera:116.
w. 9-16:40. Termópilas: 158.
fr. 32 West: 64 nota 67. Teseu: 85; 99; 121; 122; 162.
fr. 34 West, w. 13-21:39. Téspies: 29.
w. 19-20:62 nota 60. Tessália, Federação da: 190.
fr. 36 West, w. 5-15:39 e nota 4; 59-60. Tetas: 49 - 50 e nota 32; 61 ; 85; 90; 113;
w. 18-27:64. 115; 125; 169.
w. 20-25:62 nota 60. theoricom 170.
Sordi,M.: 154 nota 9. thesmos: 17 e nota 6; 56; 100.
spondai: 174; 175. tirnè". 142 nota 26.
Stahlin,0.: 162 nota 29. Timeu (hist. do per. Helenistico): 180
Stasis: 103; 170. nota 2.
Staveley, E. S.: 98 nota 66. Timóteo: 172.
Strohm, H.: 163 nota 30. tirania: 21 e nota 14; 22; 23 ; 33; 33; 41 ; 62

236
nota 60; 64 e nota 67; 65; 66; 67; 68; 2.17.1- 3:132.
69; 70 e nota 79; 75; 77 e nota 9; 78 e 2.21.3:132.
nota 12; 79; 81 e nota 20; 99; 103 e 2.22:132.
nota 83; 123; 124; 140. 2.37.3:19.
Tirteu: 57-58; 152 nota 2; 156. 2.39.1:15.
fr. 10 West, w. 1-2:156. 2.39.4:15.
w. 15-18:156. 2.40.4- 5:121.
w. 29-32:156. 2.41.1:24; 94.
fr. 12 West, w. 1-9:157. 2.41.2- 3:16; 121.
Tíndaro: 18. 2.47.4:133.
Tiranicidas: 80; 81 nota 20. 2.47-54:132.
Tisandro: 78. 2.51.4- 5:133.
Tissafemes: 147. 2.52.2:166.
Tovar,A.: 179 nota 1. 2.52.3:133.
Toynbee: 57 nota 48. 2.53:133.
Trácia: 43; 83 nota 26; 159- 160; 181; 2.59-64:134.
184; 188; 192. 2.62.2:123.
Trácios: 86. 2.63.2:123; 124.
Trasímaco: 140 enota 21. 2.64.4- 5:122-123.
Trigeu: 167-168. 2.65.3:144 nota 30.
Tríteia: 191. 3.35-50:141.
Tróia: 151; 152; 162; 165. 3.37.2:124.
Guerra de: 152; 164. 3.52-68:141.
Tucídides: 14; 16; 24; 96; 99; 101; 120- 3.55-68.4:70.
121; 122-123; 124; 130-134; 141; 145- 3.82-83:141 enota 25; 145 nota 32.
146; 161; 165; 175. 3.82.7:142.
1.14.3:113 nota 13. 3.114.3:174.
1.15.3:154. 5.17.1:175.
1.20:70 nota 79. 5.18.1:174.
1.23 sqq.: 130. 5.18.3:174.
1.23.6:130 enota 2. 5.18.9:174.
1.35.1:174. 5.19.1:174.
1.67 sqq.: 130. 5.32.2:161.
1.69.5: nOnota2. 5.56 sqq.: 70.
1.708-9:120-121. 5.65-75:145nota33.
1.71.4:130. 5.84- 116:154 nota 7; 164.
1.88:130 nota 2. 5.85- 111:141.
1.96:117 enota 17. 6.1.1:99; 101 nota 78; 146.
1.112.1:174. 6.6.1:146.
1.118:130nota2. 6.8-26:146.
1.140 sqq.: 129. 6.16:145.
1.143:130. 6.24:99; 101 nota 78.
2.8.5:124. 6.27-29:146.
2.11.2:124. 6.31:101 nota 78.
2.11.7-8:132. 6.34:99.
2.13-14:131. 6.35:99.
2.16:131. 6.36:130 nota 2.

237
6.53.1- 2:146. Welles, C. B.: 196 nota 30.
6.53-59:70 nota 79. West, M.L.: 24; 38 e nota 1; 39; 40; 48 e
6.54:67. notas 21 e23; 50 nota32; 55; 59; 62 e
6.54.5:66 nota 69. notas 60-61 ; 63 ; 64 e nota 67.
6.56sqq:70. Whittle, E. W: 21 nota 15; 22 notas 16
6.60-61:146. el7.
6.88.9-12:146. Wilcoxon, G. D.: 66 notas 69 e 70; 118
6.91:147. nota 29; 120 nota 33.
7.67:123 nota 42. Will, Éd.: 54 nota 41; 77 nota 6; 109
7.77.7:14; 20. nota 1; 116nota21; 148nota36.
7.82.1:123 nota 42. Woodhead, A. G: 117 nota 25.
8.1:164. Xantipo: 83-84; 132; 143.
8.54.4:145 nota 32. Xenófanes: 135.
8.65.2:145 nota 32. fr. 18 Diels: 135.
8.67.3:94. Xenofonte: 76; 99 nota 69; 101; 103
8.97.1- 2:94. nota 83; 122 nota 39; 147; 170; 171.
Turner, E. G: 187 nota 11. Helé/ncas:3.5J-l5:\69.
tyche : 139 nota 19. 3.2.22:172.
tymrmos'. Vide tirania. 5.4.60:173.
tyramis: Vide tirania. 5.1.29-31:175.
Ulisses: 152; 164. República dos Atenienses: 122 nota
Vannier,F.: 170nota35; 171 nota 40. 39; 126.
Vemant, J.-P.: 51 nota 34; 161 nota 25. 1.1-2:122 nota 39.
Vidal-Naquet, R: 54 nota 40; 80; 105 nota 1.11:122 nota39.
88; 117; 170 notas 35-37; 171 nota 38; Pseudo-Xenofonte, Rep. dos Laced. :
172 nota41. 155 notas 10-12.
Vlastos: 75 nota 1; 99 nota 71; 100 nota 73. Xerxes: 15; 19; 21; 81 nota 20; 109; 118;
Wade-Gery, H. T.: 75 nota 1; 78 notas 12 125; 160.
e 14. Zenâo: 185; 202.
Walbank, F. W.; 179 nota 1; 180 nota 3; Zaleuco de Locros: 56.
194 nota 26; 195 nota 28. Zenôdoto de Éfeso: 199.
Webster, T. B. L.: 51 nota 34; 162 nota Zeiigitas: 6 1.
29; 203 nota 51 ; 204 nota 52. Zeus:25;53;66; 135; 167; 172; 192 nota
Weidauer,L.:72;74. 22; 197 nota 33.
Weil,R.: 141 nota 25. Zuntz, G: 162 nota 29.
INDICE GERAL

P refácio ................................................................................................................... 9

A PóLis G rega : Sistema de Vida e Mestra do H om em .................. 13


É poca A rcaica : Crises de Crescimento........................................... 37
A pêndice : Nota Sumária sobre a Origem da M oeda................. 71
A D emocracia A teniense : A Busca da Igualdade........................... 75
A SiMAQuiA DED elos e a H egemonia de A t e n a s ......................................... 109
O F ascínio do P oder : o Paradigma de Atenas durante a Guerra do
Peloponeso................................................................................... 129
A G uerra e a P az na P ólis G r e g a ................................................................ 151
P eríodo H elenístico : uma Época de Refinamento, Fusão e Difusão
Cultural ......................................................................................... 179

B ib l io g r a f ia ........................................................................................................... 207

Índices ................................................................................................ 219


Í ndice de N omes e C o i s a s ......................................................................... 221
Índice G eral