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Eletrotécnica

Material Teórico
Análise de Circuitos

Responsável pelo Conteúdo:


Prof. Dr. Paulo Jorge Brazão Marcos

Revisão Textual:
Profª. Esp. Kelciane da Rocha Campos
Análise de Circuitos

• Os Circuitos
• Técnicas de Análise de Circuitos

· Nesta unidade, abordaremos os aspectos necessários para desenvolver a


análise de circuitos por meio de técnicas específicas, tendo como base os
conhecimentos prévios.
· Nossa discussão tem como ponto de partida a compreensão do que vem a
ser um circuito elétrico, os elementos que nele estão contidos e suas funções.
Também abordaremos os diferentes tipos de representações utilizadas e que
são úteis na identificação do funcionamento de um circuito. Por último,
apresentaremos técnicas de análise para a identificação das características
elétricas dos diferentes circuitos possíveis.

Leia atentamente o conteúdo desta unidade, que lhe possibilitará conhecer os circuitos
elétricos, seus tipos de elementos, compreender a sua representação e desenvolver a sua
análise por meio de técnicas específicas.
Você também encontrará nesta unidade uma atividade composta por questões de múltipla
escolha, relacionadas com o conteúdo estudado. Além disso, terá a oportunidade de trocar
conhecimentos e debater questões no fórum de discussão.
É extremante importante que você consulte os materiais complementares, pois são ricos em
informações, possibilitando-lhe o aprofundamento de seus estudos e o enriquecimento de
informações sobre este assunto.
Bons estudos!

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Unidade: Análise de Circuitos

Contextualização

De modo a iniciarmos os nossos estudos nesta unidade, convido você a refletir a respeito
da situação ilustrada a seguir. Trata-se de uma representação de um circuito elétrico. A figura
envolve, de maneira simplificada, uma das formas de representar os circuitos elétricos. Ela
também identifica o sentido de circulação da corrente elétrica no circuito, a partir da fonte de
tensão, além dos elementos resistivos utilizados.

Oriente sua reflexão pelas seguintes questões:


• Qual o tipo de representação que está sendo utilizado?
• Quais os tipos de elementos que esse circuito apresenta?
• Qual(is) técnica(s) de análise pode(m) ser empregada(s) para identificar as características
desse circuito?

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Os Circuitos

Nesta unidade introduzimos o mais simples dos componentes eletroeletrônicos: o RESISTOR.


Além de tratarmos da sua natureza, nos preocupamos em entender, também, como podemos
integrar (associar) resistores para controlar as características de CORRENTE e TENSÃO. Essas
grandezas são fundamentais para a compreensão do funcionamento, assim como para o controle
dos diferentes circuitos elétricos presentes em componentes, dispositivos e máquinas.
Pois muito bem, o que são CIRCUITOS ELÉTRICOS?
Para desenvolvermos nosso raciocínio inicial, façamos uma análise da imagem a seguir.

Fig. 1. Imagem computadorizada de um autódromo ou CIRCUITO de corrida automobilística.

Na imagem, é apresentado um circuito de Fórmula 1, famosa competição automobilística


realizada anualmente em diversos países. Em cada país, há um TRAÇADO ou CAMINHO
específico, no qual os carros de competição devem percorrer um determinado número de
voltas. Nesse circuito, então, há um trajeto definido, pelo qual os carros devem seguir. Também
podemos observar áreas adjacentes ao circuito para o escape dos carros na eventualidade
de algum problema, boxes das equipes (equivalentes a oficinas, onde são realizadas as
manutenções, abastecimento e alocação dos carros), heliporto para o transporte de pessoal
técnico, administrativo e médico, estacionamento para o público, arquibancadas, entre outros.
Comparativamente, num circuito elétrico, também temos direções, pontos e áreas definidas. No
caso, precisamos ter direções definidas para o estabelecimento de diferenças de potencial e fluxo
de corrente elétrica, essenciais para o funcionamento dos diferentes componentes e dispositivos
elétricos. Esses caminhos são desenvolvidos pela utilização de materiais CONDUTORES, cujas
principais características são descritas pelas Leis de Ohm, já anteriormente descritas. Então, é por
esses caminhos que as cargas elétricas circulam e se dirigem aos componentes e dispositivos elétricos.
Com relação aos elementos que podem estar presentes num circuito elétrico, além dos
condutores, temos os diferentes tipos de COMPONENTES e DISPOSITIVOS (ALBUQUERQUE,
2006, p. 33). Estes diferem, essencialmente, na maneira como funcionam e nas ações que
podem executar em relação às grandezas elétricas do circuito, como a tensão e a corrente.
Nesse sentido, algo importante a ser citado é que tudo que compõe um circuito elétrico pode
ser representado por um diagrama. Os diagramas, portanto, são utilizados para representar os
diferentes circuitos em documentos, tal como este que você está utilizando para estudar. Os
diagramas podem ser representados de modo pictorial, em blocos e esquemático (ROBBINS &
MILLER, 2010, p. 14-15).

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Unidade: Análise de Circuitos

Os diagramas pictoriais auxiliam na visualização dos circuitos e do seu funcionamento,


apresentando a disposição e o aspecto dos componentes como eles realmente são.
Vejamos o caso da Fig. 2.
Nela, podemos visualizar que o circuito é formado por uma bateria, uma chave e uma lâmpada.
De modo a completar o circuito, é necessário que todos esses elementos estejam interligados
por fios condutores. Perceba que não há um único condutor interligando, de maneira contínua,
todos os elementos.

Fig. 2. Diagrama pictorial de um circuito alimentado por bateria.

Ao observarmos essa imagem, temos, ainda que de maneira simplória, uma noção de como
deve funcionar o circuito. Vejamos: quando a chave é fechada, se estabelece o contato físico
que permite a passagem de corrente elétrica por todos os fios condutores, de modo a permitir o
acendimento da lâmpada. A corrente surge devido à diferença de potencial elétrico estabelecido
pela bateria, em conformidade com as Leis de Ohm.
É esse o propósito dessa representação, tornar intuitivo e claro o funcionamento do circuito.
Contudo, verifica-se que os diagramas pictoriais dependem fortemente de uma representação
elaborada dos seus elementos, não sendo fácil, na maioria das situações, realizar desenhos com
tamanho nível de detalhes.
Já na representação por diagramas em bloco, o foco está na descrição do funcionamento do
circuito de uma maneira simplificada. O funcionamento ou a função do circuito é dividido em
BLOCOS, sendo cada um representado por uma parte do circuito.
Cada bloco é classificado de modo a indicar o que fazem e o que contêm e apresentam uma
interligação para mostrar a relação entre eles. Vejamos na Fig. 3 como fica a representação do
mesmo tipo de circuito que apresentamos anteriormente na Fig. 2.

Fig. 3. Diagrama em blocos de circuito elétrico para acionamento de uma lâmpada.

Nesse tipo de representação, por convenção, o fluxo de sinal geral é da direita para a esquerda
e de cima para baixo. Nesse exemplo, a fonte de alimentação nada mais é do que a própria
bateria que alimenta o circuito com energia elétrica. A carga, nesse caso, é o elemento que irá
consumir a energia do circuito, ou seja, a lâmpada. Intuitivamente, do mesmo modo, fica claro
que o acendimento da lâmpada só é possível se a chave estiver numa posição tal que permita a
circulação de corrente elétrica pelo circuito.
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Nosso último tipo de diagrama apresenta um circuito utilizando símbolos padronizados para
representar os diferentes componentes possíveis.

Fig. 4. Diagrama esquemático de um circuito para o acionamento de uma lâmpada.

Na Fig. 4, temos o mesmo circuito das figuras 2 e 3. Cada componente foi substituído pelos
símbolos de circuito correspondentes. Apresentamos dois circuitos com simbologias diferentes
para o mesmo elemento. A lâmpada, originalmente é simbolizada pelo X dentro do círculo, mas
como ela exibe características resistivas (efetivamente é uma resistência dentro de um bulbo
de vidro que, quando percorrida por uma corrente, dissipa potência na forma de calor e luz),
também pode ser representada pelo símbolo de uma resistência.
As duas barras paralelas na parte esquerda de cada circuito apresentado com os sinais
positivo (+) e negativo (-) são utilizadas para simbolizar uma fonte de alimentação contínua,
como uma bateria.
Na teoria geral dos circuitos elétricos, o tipo de componente mais comum que existe é
denominado por BIPOLO, que é todo dispositivo elétrico que possui dois terminais acessíveis
(ALBUQUERQUE, 2006, p. 39).

Fig. 5. Representação padronizada de um bipolo elétrico.

Os bipolos, por sua vez, são classificados como GERADORES ou RECEPTORES.


Um bipolo gerador ou bipolo ativo é um dispositivo elétrico que transforma algum tipo de
energia em elétrica (BOYLESTAD, 2012, p. 100). Dentre os exemplos, temos pilhas, baterias e
geradores de tensão e de corrente (contínua ou alternada).
Os geradores, em particular, são elementos importantes nos circuitos, uma vez que são eles
os dispositivos responsáveis pelo fornecimento de energia para o conjunto de componentes
presentes no circuito em questão. Assim, para que se entenda o comportamento de um gerador
num circuito e sabermos os seus limites de operação, fazemos uma comparação do dispositivo
REAL com o modelo do gerador IDEAL.
Tome-se como exemplo um gerador de tensão, como uma bateria, já que estes são mais
comuns no nosso cotidiano do que os geradores de corrente.
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Unidade: Análise de Circuitos

Tecnicamente, um dispositivo IDEAL é aquele que mantém a tensão entre seus pólos
(terminais) constante, independentemente da corrente que é fornecida. Tal comportamento
só é possível porque o dispositivo não apresenta resistência interna; logo, não há perdas
(BOYLESTAD, 2012, p. 110). A seguir, apresentamos o símbolo e a curva característica desse
tipo de dispositivo:

Fig. 6. Simbologia e curva característica de um gerador de tensão IDEAL.

A variável E é a força eletromotriz (f.e.m.) desenvolvida pelo gerador e é um parâmetro


construtivo do dispositivo. Considerando que o dispositivo não apresenta perdas internas, o seu
rendimento (η), então, é de 100 %.
Num gerador de tensão REAL, existem perdas, e tal situação implica em pelo menos duas
consequências diretas:
1) O rendimento nunca é máximo, ele sempre é menor do que 100 % (η<1);
2) O desenvolvimento de uma resistência interna (ri) relacionada aos elementos
constitutivos do gerador. Por exemplo, numa pilha a resistência interna é devida
à somatória da resistência desenvolvida pelo eletrodo de carvão com a da pasta
eletrolítica existente em seu interior.
Assim, a tensão entre os terminais desse gerador irá depender da intensidade de corrente
desenvolvida. A seguir, apresentamos a simbologia e a curva característica desse tipo de dispositivo:

Fig. 7. Simbologia e curva característica de um gerador de tensão REAL.

A equação característica de um gerador REAL pode ser obtida a partir do circuito apresentado
na figura acima, onde verificamos que, se o gerador estiver ligado a uma carga RL, a tensão entre
seus terminais é igual à diferença entre a força eletromotriz e a queda de tensão dentro do gerador:
V=E-ri.I (Eq. 1)
Numa análise mais técnica, a equação é de 1.º grau, fazendo com que a representação
gráfica seja na forma de uma reta. Logo, são suficientes dois pontos para desenhá-la:

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1) Quando temos I = 0, o resultado da equação torna-se V = E, pois o termo ri . 0 = 0;
2) Por outro lado, quando temos os terminais do gerador curto-circuitados (V = 0), temos
como resultado uma corrente de curto-circuito (ICC) igual à razão entre E e ri. Essa é
a máxima corrente que o gerador, em tais condições, pode fornecer. O trabalho do
gerador nessa condição é crítico, pois ele dissipa muita potência na forma de calor e
pode, inclusive, colapsar.
Já um bipolo receptor ou bipolo passivo pode ser definido como um dispositivo elétrico que
transforma energia elétrica em qualquer outro tipo de energia. (BOYLESTAD, 2012, p. 100).
Dentre os exemplos, temos lâmpadas, chuveiros, motores, etc.
Portanto, diante de tudo que acabamos de expor, podemos definir um CIRCUITO ELÉTRICO
como sendo um caminho fechado, constituído por materiais condutores (pelos quais passam as
cargas elétricas) e por dispositivos ou componentes (com funções específicas) interligados.
Há, ainda, de se considerar as configurações de um circuito, já que nem sempre seus
componentes e ou dispositivos se encontram distribuídos na mesma direção. Por exemplo,
chamamos de RAMO qualquer parte de um circuito composta por um ou mais dispositivos
ligados em série (CAPUANO, 1997, p. 60). Na Fig. 8, os círculos vermelhos tracejados identificam
os vários ramos presentes num circuito hipotético.

Fig. 8. Representação esquemática de ramos de um circuito elétrico.

De maneira complementar, também pode existir o que se denomina por NÓ, que é qualquer
ponto de um circuito no qual há a conexão de três ou mais ramos (CAPUANO, 1997, p. 60). Na
Fig. 9, mostramos uma situação representativa para que sejam visualizados os nós de um circuito.

Fig. 9. Representação esquemática de nós em um circuito elétrico.

Num circuito, ainda é possível termos partes cujos ramos formam caminhos fechados para
a circulação de corrente. Cada uma dessas partes é denominada de MALHA (CAPUANO,
1997, p. 61).

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Unidade: Análise de Circuitos

Fig. 10. Representação esquemática das possíveis malhas num circuito elétrico.

É importante ressaltar que esses detalhes construtivos são fundamentais tanto para o ponto
de vista do funcionamento do circuito quanto para o ponto de vista da sua ANÁLISE, tema que
passaremos a abordar na sequência do nosso conteúdo teórico.

Técnicas de Análise de Circuitos


No que diz respeito à análise de um circuito elétrico, podemos dizer que existem várias
técnicas, sendo algumas apropriadas para situações específicas, enquanto outras podem ser
consideradas como universais, podendo, então, ser utilizadas em qualquer situação.
Neste documento não temos espaço para tratarmos de todas as técnicas de análise possíveis,
mas iremos ater nossa atenção naquelas mais adequadas à prática da eletrotécnica.

Análise Pelas Leis de Kirchhoff


Gustav Robert Kirchhoff (1824-1887) foi um físico alemão cujas contribuições científicas
ocorreram principalmente no campo dos circuitos elétricos, espectroscopia, emissão de radiação
e teoria da elasticidade.
Com relação aos circuitos elétricos, foi o autor de duas leis fundamentais que envolvem
conceitos essenciais para a análise e resolução de circuitos elétricos tanto em regime de corrente
contínua como em alternada (BOYLESTAD, 2012, p. 100).
Para Kirchhoff, um circuito admite um único sentido de corrente com um único valor para
cada ramo. Uma vez conhecidos os sentidos e as intensidades das correntes em todos os ramos
de um circuito, todas as tensões também poderiam ser determinadas.
Com esse fundamento podemos, então, enunciar suas leis. A 1.ª lei de Kirchhoff ou lei das
correntes ou ainda lei dos nós afirma que em um nó a soma algébrica das correntes totaliza zero.

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Fig. 11. Representação esquemática do nó de um circuito elétrico e as diferentes contribuições de corrente que entram e saem dele.

Para que isso ocorra, significa que a soma das correntes que entram no nó tem que ser igual à
soma das correntes que saem dele, ou seja, num nó não ocorre acúmulo de carga. Essa observação
decorre do Princípio de Conservação da carga elétrica, que determina que num ponto qualquer
a quantidade de carga elétrica que o aborda deve ser exatamente igual à quantidade que nele
desponta. Então, podemos descrever tal situação, matematicamente, como sendo:
N

∑i
k −1
k =0 (Eq. 2)

O símbolo ∑ é utilizado para representar uma somatória, ou seja, a soma de vários elementos.
Para que se proceda à análise, deve-se convencionar o sentido das correntes. Vamos utilizar
como exemplo a Fig. 11. Se definirmos arbitrariamente que as correntes que chegam ao nó são
positivas e as correntes que saem são negativas, podemos escrever a seguinte equação:
-i1+i2-i3+i4=0 (Eq. 3)
Se pensarmos no Princípio da Conservação da carga elétrica, então a equação 3 pode ser
reescrita como:
i2+i4=i1+i3 (Eq. 4)
cujo significado matemático é exatamente o mesmo.
Considere que i1 = 1A, i2 = 3A e i4 = 2A e que queremos determinar o valor da corrente i3. Então,
ao se escrever a equação do nó chegaremos na mesma expressão da Eq. 4. Resolvendo, temos:
i 2 + i4 = i1 + i3 → 3 + 2 = 1 + i3
5 = 1 + i3 → i3 = 4A
Isso significa, então, que a corrente i3 tem uma intensidade de 4A e tem o sentido igual ao
indicado. Por ter um valor positivo, significa que, de fato, a corrente i3 sai do nó analisado.
Caso tivéssemos obtido um valor NEGATIVO, o sentido real da corrente seria CONTRÁRIO ao
indicado, ou seja, a corrente i3 chegaria ao nó.

Diálogo com o Autor

Lembre-se que a unidade de corrente elétrica no sistema internacional de unidades é o Ampère,


simbolizado pela letra A.

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Unidade: Análise de Circuitos

Já a 2.ª lei de Kirchhoff ou lei das tensões ou ainda lei das malhas enuncia que numa malha
a soma algébrica das tensões também totaliza zero.

Fig. 12. Representação esquemática da distribuição de tensões num circuito elétrico constituído por duas malhas.

Para que isso ocorra, significa que deve haver uma diferença entre as tensões conforme a
sua orientação. Tal observação decorre do fato de que o potencial elétrico volta a ter o seu
valor original após qualquer percurso numa trajetória fechada (desde que o sistema não seja
dissipativo, ou seja, perca energia). Então, podemos descrever tal situação, matematicamente,
como sendo:
N

∑V
k =1
k =0 (Eq. 5)

Da mesma forma que no caso da 1.ª lei de Kirchhoff, para que se proceda à análise, deve-se
convencionar o sentido das correntes para a análise das malhas. Além disso, por convenção,
considera-se que as tensões que aumentam o potencial de um circuito são positivas e as tensões
que provocam a diminuição de potencial são negativas. Tal consideração é plausível porque
fisicamente bipolos ativos ou geradores, como uma pilha, aumentam o potencial elétrico num
circuito, uma vez que convertem alguma forma de energia em energia elétrica. Pelo mesmo
raciocínio, os bipolos passivos ou receptores, como uma resistência, acabam por diminuir um
potencial elétrico, visto que convertem energia elétrica em alguma outra forma de energia
(mecânica, térmica, luminosa, sonora, etc.).
Dessa forma, podemos pensar num equilíbrio onde, por definição, a soma das tensões que
aumentam o potencial de um circuito é igual à soma das tensões que diminuem o potencial.
Vamos utilizar como exemplo a Fig. 12. Se definirmos arbitrariamente que a corrente que
circula por ela tem sentido horário (flecha curvada no centro da malha) e que o único elemento
que aumenta o potencial dessa malha, em particular, é o gerador (já que os outros elementos são
resistências que, por definição, se comportam como receptores, ou seja, diminuem o potencial
elétrico), então podemos escrever que:
E2+E3-V2-V3-E1-V1=0 (Eq. 6)
Vamos à explicação. Como consideramos que a corrente na malha circula no sentido horário,
temos que comparar o sentido da queda de tensão em cada elemento presente na malha com
ela. Iniciemos nossa análise pelo gerador 2, que desenvolve a tensão E2. A tensão no gerador
se desenvolve do pólo negativo (-) para o positivo (+). Logo, a tensão desse gerador está no
mesmo sentido da circulação da corrente. O gerador 3, que gera a tensão E3, também tem a sua
tensão orientada no mesmo sentido de circulação da corrente pelo mesmo motivo. Podemos
raciocinar, também, em função dos potenciais desenvolvidos. Ou seja, como temos 2 geradores,
eles elevam o potencial do circuito, fazendo com que suas tensões E2 e E3 sejam positivas.

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No caso dos elementos R1, R2 e R3, que desenvolvem respectivamente as tensões V1, V2 e V3,
por serem resistências, naturalmente oferecem oposição à passagem da corrente elétrica. Sendo
assim, por serem dispositivos que não têm polaridade (como é o caso dos geradores), a queda de
tensão sobre eles é no sentido contrário à da circulação da corrente. Outro modo de raciocinar é
que as resistências são elementos receptores, logo elas diminuem o potencial do circuito.
O último elemento a considerarmos é o gerador 1, o qual desenvolve a tensão E1. Perceba
que a disposição dos seus pólos faz com que a tensão se oriente no sentido contrário à circulação
da corrente na malha, embora seja um elemento que aumente o potencial do circuito. Se não
tomarmos cuidado com esse detalhe, poderíamos ter simplesmente assumido que a tensão E1
tivesse valor positivo, o que comprometeria nossa análise.
Se pensarmos na questão do equilíbrio entre as tensões que se elevam e as que sofrem
diminuição na malha do circuito, a Eq. 6 pode ser reescrita como:
E2+E3=V2+V3+E1+V1 (Eq. 7)
cujo significado matemático é o mesmo que o da Eq. 6.
Ainda utilizando a malha de circuito da Fig. 12 como exemplo, vamos considerar que
E 1 = 10 V, E2 = 5 V, R1 = 15 Ω, R2 = 5 Ω e R3 = 20 Ω e que queremos determinar o valor
da tensão do gerador 3, E 3, considerando uma corrente no sentido horário de 1,5 A.
O primeiro passo, então, é montar a equação da malha, da maneira como descrevemos
anteriormente. Para ganharmos tempo, tomemos a Eq. 7 como nosso ponto de partida, já
que ela é equivalente à Eq. 6:
E 2 + E 3 = V2 + V3 + E 1 + V1 → E3 = V2 + V3 + E1 + V1 – E2
Como temos os valores das resistências e da corrente que circula pela malha, podemos aplicar
a 1.ª Lei de Ohm, onde V = R . I, para encontrar as tensões:
E3 = (R2 . I) + (R3 . I) + 10V + (R1 . I) – 5 V
E3 = (5 Ω . 1,5 A) + (20 Ω . 1,5 A) + 10 V + (15 Ω . 1,5) – 5 V
E3 = 7,5 V + 30 V + 10 V + 22,5 V – 5 V
E3 = 65 V
Para confirmarmos o resultado de 65 V para a tensão E3, devemos retornar à equação da
malha (Eq. 6) e substituirmos todos os valores das tensões:
E2 + E3 - V2 - V3 - E1 - V1 = 0
5 V + 65 V – 7,5 V – 30 V – 10 V – 22,5 V = 0
0=0
Ou seja, de fato, o resultado de 65 V para a tensão E3 está correto, pois ele consegue equilibrar
as tensões da malha.

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Unidade: Análise de Circuitos

Análise pelo Método da Superposição


Esse método de análise se baseia no chamado Teorema da Superposição de efeitos e é
muito utilizado quando temos circuitos com mais de uma fonte (ALBUQUERQUE, 2006,
p. 185). Outro aspecto a se considerar é que por meio desse método, podemos analisar o
comportamento elétrico num único componente ou dispositivo ou até mesmo o ramo de um
circuito, independentemente das tensões e correntes nos demais elementos.
De modo geral, o chamado Teorema da Superposição de efeitos diz:
“A resposta de um circuito linear a várias excitações simultâneas é igual à soma
das respostas individuais a cada uma das excitações.” Ou seja, esse postulado
se refere a um circuito elétrico formado por vários bipolos lineares, sendo que
o efeito causado pelas fontes de excitação ou geradores num determinado
ramo ou bipolo é equivalente à soma algébrica dos efeitos causados por cada
gerador individualmente.

Para que o método seja efetivo, os efeitos dos demais bipolos ou geradores devem ser
eliminados de maneira criteriosa. Para tanto, deve-se desenvolver uma solução para a condição
inicial, anulando-se as entradas de energia no circuito, ou seja, as fontes de alimentação (tensão
ou corrente). No caso, deve-se curto-circuitar as fontes de tensão (V = 0) e abrir as fontes de
corrente (I = 0). Por último, somam-se as soluções encontradas individualmente.
Tome-se, como exemplo, o circuito apresentado na Fig. 13.

Fig. 13. Circuito constituído por duas malhas para análise do método da superposição.

Nesse circuito, vamos determinar a tensão e a corrente no resistor RX, considerando E1 = 10 V,


E2 = 20 V, R1 = 100 Ω, R2 = 220 Ω e RX = 100 Ω.
Então, para aplicarmos o método da superposição, precisamos eliminar o efeito provocado
pelo gerador de tensão E2 sobre RX substituindo-o por um curto-circuito e determinamos a
tensão VX1 e a corrente IX1, por efeito de E1. Dessa forma, obtemos o seguinte circuito:

Fig. 14. Circuito simplificado para análise do método da superposição considerando somente o efeito da fonte E1.

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Perceba na Fig. 14 que os resistores RX e R2 estão conectados ao mesmo nó, na parte
superior do ramo central. Isso significa que eles estão em paralelo. Logo, podemos calcular a
resistência equivalente:
Req1 = RA = RX . R2 / RX + R2 = 100 . 220 / 100 + 220 = 68,75 Ω
Agora temos duas resistências em série com o gerador E1 dividindo a tensão fornecida por
ele. Essa divisão não é igual para as duas resistências, mas sim proporcional aos seus valores.
Assim, podemos calcular o valor VX1, como sendo a queda de tensão sobre o resistor RX da
seguinte forma:
VX1 = (RA / (R1 + RA)) . E1
VX1 = (68,75 Ω / (100 Ω + 68,75 Ω)) . 10 V
VX1 = 4,07 V
Como temos o valor de RX e VX1, podemos calcular IX1:
V=R.I → VX1 = RX . IX1
IX1 = VX1 / RX → IX1 = 40,7 mA
Agora, eliminaremos o efeito provocado pelo gerador E1 substituindo-o por um curto-circuito
e calculamos a tensão VX2 e a corrente IX2 em RX, por efeito de E2.

Fig. 15. Circuito simplificado para análise do método da superposição considerando somente o efeito da fonte E2

Se olharmos atentamente a Fig. 15, perceberemos que os resistores RX e R1 estão conectados


ao mesmo nó, na parte superior do ramo central. Isso significa que eles estão em paralelo. Logo,
podemos calcular a resistência equivalente:
Req2 = RB = RX . R1 / RX + R1 = 100 . 100 / 100 + 100 = 50 Ω
Agora temos duas resistências em série com o gerador E2 dividindo a tensão fornecida por ele.
Tal como no caso anterior (efeito da fonte E1), essa divisão não é igual para as duas resistências,
mas sim proporcional aos seus valores. Assim, podemos calcular o valor VX2, como sendo a
queda de tensão sobre o resistor RX da seguinte forma:
VX2 = (RB / (R1 + RB)) . E2
VX2 = (50 Ω / (220 Ω + 50 Ω)) . 20 V
VX2 = 3,7 V

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Unidade: Análise de Circuitos

Como temos o valor de RX e VX2, podemos calcular IX2:


V=R.I → VX2 = RX . IX2
IX2 = VX2 / RX → IX2 = 37 mA
Agora podemos determinar tanto a tensão VX e a corrente IX pela soma algébrica dos efeitos
de E1 e E2. Ao visualizarmos os circuitos simplificados das Fig. 14 e 15, podemos notar que
tanto as correntes (IX1 e IX2) quanto as quedas de tensão (VX1 e VX2) têm sentidos opostos, devido
à polaridade das fontes de tensão E1 e E2. Isso significa, portanto, que a soma algébrica dos
efeitos será, na verdade, a diferença entre eles, já que têm sentidos de circulação de corrente e
de queda de tensão opostos (BOYLESTAD, 2012, p. 231):
VX = VX1 – VX2 = 4,07 – 3,70 → VX = 0,37 V
IX = IX1 – IX2 = 40,70 – 37,00 → IX = 3,70 mA

Análise pelo Método de Thévenin


Esse método de análise se baseia no chamado Teorema de Thévenin e é muito utilizado para
simplificação e análise de circuitos (BOYLESTAD, 2012, p. 236). De modo geral, o chamado
Teorema de Thévenin diz:
“Num circuito constituído por diversos bipolos lineares (resistências, geradores
de tensão e de corrente), todos os geradores e receptores do circuito que
envolvem um determinado bipolo ou ramo de interesse em determinados
pontos do circuito podem ser substituídos por um gerador de tensão Thévenin,
o qual é formado por uma fonte de tensão equivalente Thévenin (ETh) em série
com uma resistência interna equivalente Thévenin (RTh).”

Para tanto, precisamos determinar os valores de ETh e RTh. A tensão equivalente Thévenin
(ETh) é igual à tensão em aberto (chamada de tensão “em vazio”) entre os pontos em
que está localizado o bipolo ou ramo de interesse, provocada por todos os geradores e
receptores do circuito.
Já a resistência interna equivalente de Thévenin (RTh) é a resistência equivalente “vista” pelo
bipolo ou ramo de interesse, quando todos os geradores de tensão são substituídos por curto-
circuitos (V = 0) e todos os geradores de corrente são substituídos por circuitos abertos (I = 0).
Tomemos como exemplo o circuito apresentado na Fig. 16:

Fig. 16. Circuito utilizado para análise do método de Thévenin.

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O primeiro passo é retirar a carga RX e determinarmos a tensão ETh entre os pontos A e B
identificados no circuito, conforme indicado na Fig. 17.
Agora, podemos aplicar a Lei de Kirchhoff para as tensões no intuito de analisar a malha
criada, adotando o sentido horário para a corrente da malha. Para tanto, vamos considerar
E1 = 15 V, E2 = 10 V, R1 = 150 Ω, R2 = 100 Ω e RX = 1 kΩ. Sendo assim, temos:
E 1 – V2 – E 2 – V 1 = 0 → E1 – (R2 . I) – E2 – (R1 . I)
15 – 100 . I – 10 – 150 . I = 0 → 250 . I = 5
I = 5 / 250 → I = 20 mA

Fig. 17. Circuito simplificado para análise do método de Thévenin.

Tendo calculado o valor da corrente que circula pela malha, temos condições de determinar o
valor da tensão equivalente de Thévenin (ETh). Ao observarmos o circuito resultante da Fig. 17,
verificamos que os pontos A e B constituem um ramo que está em paralelo com o ramo central,
onde se encontram R2 e o gerador E2. Logo, como verificamos na UNIDADE II (Associações
resistivas), elementos que estão em paralelo compartilham da mesma tensão. Ou seja, a queda
de tensão no ramo central do circuito é equivalente à tensão existente entre os pontos A e B
(ETh). Logo, podemos expressar:
ETh = E2 + V2 → ETh = E2 + (R2 . I)
ETh = 10 + (100 . 20x10-3) → ETh = 12 V
Nosso próximo passo, na metodologia proposta, é a substituição dos geradores E1 e E2 por
curto-circuitos, de modo a calcular a resistência equivalente Thévenin (RTh):

Fig. 18. Circuito simplificado após eliminação dos geradores.

Podemos observar na Fig. 18 que os ramos onde se encontram os resistores R1 (esquerda) e


R2 (central) estão em paralelo entre si. Logo, o cálculo da resistência equivalente Thévenin (RTh)
será feito da mesma forma que se calcula a resistência equivalente numa rede resistiva qualquer:
RTh = R1 . R2 / R1 + R2 → RTh = 150 . 100 / 150 + 100
RTh = 60 Ω

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Unidade: Análise de Circuitos

Com os parâmetros ETh e RTh determinados, temos especificado o gerador Thévenin:

Fig. 19. Circuito do gerador equivalente Thévenin.

Com o gerador Thévenin determinado, recolocamos a carga RX entre os pontos A e B e


calculamos a tensão VX e a corrente IX (CAPUANO, 1997, p. 66):
VX = (RX / (RTh + RX)). ETh → VX = (1000 / (60 + 1000)) . 12
VX = 11,32 V

VX = RX . IX → IX = VX / RX
IX = 11,32 / 1000 → IX = 11,32 mA

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Material Complementar

Para complementar os conhecimentos adquiridos nesta unidade, leia as seguintes obras:

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Curso de Circuitos Elétricos – Vol. 1 – Editora Edgar Blücher Ltda., de Luiz de Queiroz Orsini;
Circuitos Elétricos: corrente contínua e corrente alternada – Editora Érica Ltda., de Otávio Markus.

Ambos enriquecerão sua compreensão sobre os aspectos envolvidos na análise de


circuitos elétricos.
Bom estudo!

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Unidade: Análise de Circuitos

Referências

ALBUQUERQUE, R. O. Elementos de circuito elétrico. In: Análise de circuitos em corrente


contínua, 21ª ed. São Paulo, Brasil: Editora Érica Ltda., 2006. 192 p.

ROBBINS, A. H.; MILLER, W. C. Conceitos fundamentais de DC. In: Análise de circuitos


elétricos. Vol I: teoria e prática. 4ª ed. São Paulo, Brasil: Cengage learning, 2010. 611 p.

BOYLESTAD, R. L. Teoremas da análise de circuitos. In: Introdução à análise de circuitos


elétricos. 3ª impressão da 12ª ed. São Paulo, Brasil: Pearson-Prentice Hall, 2012. 959 p.

CAPUANO, F. G; MARINO, M. A. M., E. Teorema de Thévenin. In: Laboratório de eletricidade


e eletrônica. 10ª ed. São Paulo, Brasil: Editora Érica Ltda., 1997. 304 p.

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Anotações

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