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Mariana Arndt, Corpo-Resistência, 2019

Eluiza Bortolotto Ghizzi, Docente do Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens


da UFMS

Iniciei a leitura do texto de Judith Butler - Problemas de gênero: feminismo e subversão da


identidade - por indicação de Mariana Arndt, e lá me deparei com uma reflexão sobre a
valoração negativa atribuída a problemas, responsável por expressões como... “não crie
problemas, não seja rebelde”... que fizeram parte da infância de muitas(os) de nós, com uma
carga amenizadora de conflitos e repressiva de possíveis insurgências. Butler afirma ter
aprendido depois que problemas são inevitáveis na nossa vida, cabendo-nos escolher a melhor
maneira de criá-los, de tê-los. A arte, que no campo da referência e dos significados estende-
se e aprofunda-se ao longo da história de modo variado, ainda que irredutível a qualquer
procedimento, não se abstém de um diálogo íntimo com fenômenos que são dados a princípio
– e muitas vezes involuntariamente - como problemas, que nos afetam e em relação aos quais
instintivamente criamos afeto, algumas vezes duradouro, movedor das idas e vindas entre arte
e vida. Refletir sobre essas questões é essencial para entender a arte de Mariana e a de muitos
artistas a quem não é dado acomodar-se em crenças que sentem dissociadas das suas
vivências. A nossa cultura submetida ao modelo do heterossexual masculino, que inclui o
feminino como subalterno e tende a excluir a diversidade de sexos e de gêneros, envolve
muitos conflitos. Um lugar onde inevitavelmente eles ocorrem é certamente o corpo; é nele
que as imposições agem, tentando controlar seu discurso, reprimir a expressão, o livre, o
novo, que acaba por aparecer como enfrentamento... o corpo torna-se um “campo de batalha”,
parafraseando Bárbara Kruger. A arte de Mariana detecta o fenômeno ... é afetada por e
afeiçoa-se a ele... vive-o... opta pelo corpo-resistência e assume posicionamento crítico.
Encontra na arte performática a expressão inicial, alia-se a outros artistas que fotografa, faz
conversar sua arte com a deles. A fotografia, além de se oferecer como registro e revelar outro
domínio da artista nas linguagens da arte, medeia esse processo com uma grande potência!
Une-se à performance para emprestar dramaticidade e concretude à expressão do corpo que se
impõe, que fala conosco, convida o olho, os sentimentos, as ideias...
Mariana Arndt, Body-Resistance, 2019

Eluiza Bortolotto Ghizzi, Professor in the Graduate Program of Language Studies at the
Federal University of Mato Grosso do Sul (UFMS)

I started reading Judith Butler’s Gender Trouble - Feminism and the Subversion of Identity as
a recommendation of Mariana Arndt. The book presented a reflection about the negative
appreciation of problems, often responsible for expressions such as “do not create problems,
do not be a rebel...” that, with a lightening burden of conflicts and repressive of possible
insurgencies, populated the childhood of many of us. Butler affirms she later learned that
problems are inevitable in life, being up to us how to choose the best way of creating, of
having them. Though irreducible to any procedure, art, that in the realm of references and
meanings changeably extends and entrenches itself throughout history, does not abstain itself
from having an intimate dialog with the phenomena initially – and not rarely involuntarily –
given as problems. These phenomena affect us: affection, sometimes long-lasting,
instinctively emerges, pushing the comings and goings between art and life. To think over
such questions is imperative to understand the art of Mariana and many other artists unwilling
to accommodate themselves over beliefs disconnected to their experiences. The male
heteronormativity (to which our culture is subdued) includes the female as a subordinate and
tends to neglect the diversity of sexes and genders, thus involving many conflicts. A place
where these conflicts inevitably occur is certainly the body. It is upon the body that
impositions act, attempting to control one’s discourse, to repress the expression, the free, the
new – in sum, the elements that end up seeming confrontations. Paraphrasing Bárbara Kruger,
the body becomes a “battlefield.” Mariana’s art detects this phenomenon, is affected by it,
experiences it, opts for the body-resistance and assumes a critical stance. Mariana finds in the
performing arts the initial expression and allies herself with the artists she photographs,
dialoguing her art with theirs. Besides recording and revealing another of the photographer’s
mastery in the languages of art, photography powerfully mediates this process here! It joins
performance in conferring drama and concreteness to the expression of the body, which
imposes itself, talks to us, evokes our sight, feelings, ideas…