Você está na página 1de 28

Ditadura Militar na Argentina (1976-1982),

por Osvaldo Coggiola


Reuni, nesse breve artigo, dois capítulos do livro de Osvaldo
Coggiola sobre a Guerra das Malvinas, A outra guerra do fim do
mundo: a batalha pelas Malvinas e a América do Sul (Ateliê
Editorial, 2014). Nesses artigos, autor consegue fazer uma síntese
contundente sobre a ditadura militar na Argentina. Devido à falta
de artigos de síntese e trabalhos marxistas sobre o tema no Brasil,
acredito que esse artigo pode ajudar muito a elucidar o
desenvolvimento da luta de classes na Argentina durante o
período.
Guilherme Giotti Sichelero.
https://medium.com/estudosmarxistas

A ORIGEM POLÍTICA DA DITADURA MILITAR DE 1976


A ditadura militar instaurada em 24 de março de 1976 na
Argentina teve sua origem na débâcle do terceiro governo
peronista (1973-1976), no meio de uma degringolada política
geral, que criou uma situação revolucionária (ou seja, uma crise
política total das instituições governamentais, combinada com
uma excepcional iniciativa histórica da classe operária e das
massas exploradas) que o golpe militar veio a debelar. O pano de
fundo do processo foi a crise econômica mundial escancarada
com o “choque do petróleo” de 1973, que afetou as exportações
e toda a economia argentina. Em julho de 1974, Juan Domingo
Perón faleceu em exercício da presidência da Argentina, sendo
sucedido no governo pela sua viúva Isabel, vicepresidente.
A volta de Perón ao governo argentino pelo voto popular (1973),
dezoito anos depois de sua derrubada em 1955 por um golpe
militar, foi resultado de um acordo político de fundo do
peronismo com as classes, instituições e partidos que o tinham
derrubado em 1955, para impor um desvio político a um recente
“terceiro em disputa” no cenário político-social, o
desenvolvimento revolucionário da classe operária e da
juventude, que ainda não contava com uma expressão política
clara. Esse desenvolvimento tinha tido seu ponto alto com as
mobilizações iniciadas em maio de 1969, o “cordobaço”, a
insurreição operária e popular da cidade de Córdoba contra a
ditadura militar de Juan Carlos Onganía (1966-1971).

morando extraoficial britânico propondo à Argentina negociações para uma


soberania compartilhada sobre as Malvinas (1974)

Três semanas antes da morte de Perón, em 1974, segundo o


diplomata argentino Carlos Ortiz de Rosas, à época em exercício
de funções, um documento entregue por James Hutton,
embaixador britânico em Buenos Aires, a Perón e ao seu ministro
de Relações Externas, Alberto Vignes, em uma reunião
confidencial, propunha uma espécie de “soberania
compartilhada” sobre as Malvinas, em que as bandeiras da
GrãBretanha e Argentina coexistissem nas ilhas, o inglês e
espanhol fossem línguas oficiais do arquipélago, e seu
governador fosse "designado de maneira alternada pela Rainha e
o presidente argentino".
O governo inglês que fazia a proposta era exercido pelo Partido
Trabalhista (Harold Wilson era o primeiro-ministro, com James
Callaghan como encarregado de Assuntos Externos), último
governo do Labour Party antes da “era Thatcher”. "Si ponemos
un pie sobre las islas, no nos sacan más", teria dito Perón na
ocasião a Ortiz de Rosas. Essas negociações foram, porém,
desfeitas durante o governo da viúva de Perón, Isabel Martínez
de Perón (“Isabelita”), pois o governo da Inglaterra desconfiava
da validade de qualquer acordo assinado com o instável governo
da viúva, segundo o mesmo diplomata.

Juan Domingo Perón, durante seu terceiro mandato (1973-1974), tentativa de


A crise
recuperar sua liderança sobre o país, que foi cortada pela sua morte
dos sucessores de Perón se escancarou em junho de 1975, por
ocasião dos dissídios coletivos salariais (chamados na Argentina
de “comissões paritárias”, ou simplesmente “paritárias”). Estes
eram uma questão explosiva, pois haviam sido suspensos ao
longo de todo o precedente governo militar (1966-1973),
exercido sucessivamente pelos generais Juan Carlos Onganía,
Roberto Marcelo Levingston e Alejandro Agustín Lanusse. Em
1974, foram novamente adiados em virtude do “pacto social”
celebrado entre a central operária (CGT) e o governo peronista.
Perón, empossado em julho de 1973, mantivera no cargo de
ministro da Economia seu histórico operador econômico,
nomeado por Héctor J. Cámpora (presidente durante 45 dias, a
partir de 25 de maio de 1973): o industrial, e filiado secreto do
Partido Comunista argentino, José Ber Gelbard, de origem judia
(o que, obviamente, não satisfazia em absoluto à ala fascista do
peronismo, vinculada a loja P2 da Itália). Gelbard tinha exercido
o cargo durante o segundo governo peronista (1952-1955) e,
nomeado novamente no cargo em 1973, tinha definido como
objetivo que os salários atingissem 50% do PIB (um aumento de
20% em relação à situação precedente), vetando, no entanto, a
livre negociação salarial, através do “pacto social”.
As greves de 1974 acabaram com o “pacto social” e com o próprio
Gelbard, que foi substituído pelo economista “ortodoxo” Gómez
Morales. No seu último discurso, na sacada da Casa Rosada, a 12
de junho de 1974, Perón conclamou os trabalhadores a parar
com as greves, sob ameaça de renúncia ao cargo, morrendo três
semanas depois. Morto Perón, as greves recobraram seu ritmo
precedente. Diante da crise social e das lutas cada vez mais
radicais do operariado, as negociações salariais foram celebradas
finalmente em maio de 1975, depois de suspensas por uma
década, durante a qual tinha se acumulado uma forte
deterioração dos salários em todos os setores econômicos, seus
resultados (em quase todos os casos prevendo reajustes salariais
superiores a 100%) foram anulados, sob pretexto de combate à
inflação, pelo governo de Isabel Perón, que decretou um reajuste
linear único de 45%, no meio de um brutal ajuste que duplicou os
preços, depois de abolido o “controle de preços” vigente desde
1973, ajuste decretado a 4 de junho pelo novo ministro da
Economia, Celestino Rodrigo.
Rodrigo fora empossado a 2 de junho com base num “plano de
ajuste”, que previa uma desvalorização de mais de 150% do peso
em relação ao dólar comercial; o aumento médio de 100% de
todos os serviços públicos e do transporte; uma suba de 180%
dos combustíveis; o congelamento salarial depois do reajuste de
45%. Um plano de fome para os trabalhadores. Um processo
hiperinflacionário se deflagrou, com taxas de inflação atingindo
os três dígitos.
A anulação das “paritárias” foi uma espécie de va tout da clique
de Isabel – López Rega, que aspirava a uma espécie de ditadura
civil bonapartista, com apoio da direita peronista, que já tinha
deflagrado uma miniguerra civil contra a esquerda (inclusive a
esquerda peronista), assassinando a torto e a direito. Diante da
notícia da anulação dos convênios já assinados por sindicatos e
patrões, recomeçaram espontaneamente greves nos mais
diversos setores. Uma delegação da direção sindical peronista
(no comando da CGT) comunicou, na Casa Rosada, a recusa da
CGT diante da medida, pela boca do dirigente eletricitário Oscar
Smith (gesto que lhe custou a vida, poucos meses depois). No
meio do caos político, continuou o episódio hiperinflacionário
(atingindo a casa dos quatro dígitos anuais), que ficou conhecido
como “rodrigazo”, devido ao sobrenome do ministro da
economia, Rodrigo, que os sucessores de Perón tinham posto no
lugar de Gómez Morales.
sua mulher Isabel na sacada da Casa Rosada, em 1973. À
direita deles, o “bruxo” López Rega, ministro e chefe da Triple
A

Nesse contexto explosivo, foram deflagradas formidáveis greves


contra o governo, justamente por parte dos setores operários
que estiveram à margem das lutas precedentes (1969-1974),
tradicionalmente controlados pela burocracia sindical peronista
— a fábrica Ford, os metalúrgicos de Santa Fé, os metalúrgico -
mecânicos da Fiat tratores — em uma nova prova da
profundidade do processo iniciado em 1969, para além do desvio
político momentâneo que lhe impusera o retorno do peronismo
ao governo do país. Em crise, a burocracia sindical peronista
tentou ainda manobras para salvar o governo peronista da
oposição militante da classe social que, historicamente, fora sua
base social de sustentação, a classe operária.
Durante a greve geral contra o governo Isabel - Lopez Rega,1 em
junho-julho de 1975, quando a totalidade do operariado já lutava

1 José López Rega foi ministro do Bem-Estar Social da Argentina durante o governo peronista iniciado em 1973 por Héctor J.
Cámpora, depois continuado por Perón e sua vice-presidente e terceira esposa, Isabel Martínez de Perón. Fundador do grupo
parapolicial de extermínio Aliança Anticomunista Argentina ("Triple A"), responsável por dezenas de assassinatos de líderes políticos,
estudantis e sindicais de esquerda, López Rega foi também membro da loja maçônica P2 (Propaganda Due), comandada pelo italiano
Licio Gelli, e com vínculos estreitos com o Vaticano, conforme descoberta efetuada pela polícia italiana em 1981. López Rega foi
Comissário Geral da Polícia Federal Argentina no governo de Isabel Perón, e ficou conhecido pelo apelido El Brujo ("O Bruxo") devido
às suas inclinações astrológicas, que seduziram Isabel Perón, antiga dançarina de cabarê. Que estes personagens de ópera bufa, mas
mortal, tenham ficado à cabeça do outrora poderoso, e continentalmente influente, movimento nacional peronista, foi o índice mais
claro da decadência histórica do nacionalismo que Perón encabeçou a partir de 1945. A Loja P2, fundada por Gelli, teve entre seus
integrantes altos funcionários dos governos de Juan Perón, Raúl Lastiri e Isabel Martínez, e vários altos chefes da ditadura militar que
os tirou do poder, como os generais Carlos Suárez Mason e Luis Alberto Betti, os almirantes Emilio Eduardo Massera e Juan Questa e
contra o governo, os dirigentes sindicais peronistas convocaram
uma paralisação isolada, contra a anulação dos dissídios coletivos
e... em apoio a Isabel Perón (que acabava de anulá-los!). Na
primeira semana de julho, com 90% da indústria argentina em
greve, não convocada pela burocracia sindical, a central sindical
(CGT) finalmente se rendeu ao fato consumado, e decretou uma
paralisação de 48 horas (a 7 e 8 de julho). Foi então a vez do
governo se render, “anulando a anulação” dos dissídios, que
passaram a ter vigência tal como assinados no mês de junho.

Isabel Perón, presidente da Argentina (1974-1976), terceira mulher de Perón, e


caricatura patética de Evita

Na etapa política aberta com a vitória da greve geral de


junhojulho de 1975, a maior da história do país, o operariado foi
quebrando uma a uma todas as reacomodações do governo,
aprofundando sua crise e somando novos setores à luta.

o capitão de navio Carlos Alberto Corti. Em 1973, um colaborador de Gelli na P-2, o italiano Giancarlo Elia Valori, colocou Massera em
contato com Juan Perón, que lhe ofereceu ser comandante geral da Marinha, sem saber que assim o designava membro da Junta
Destituído Lopez Rega (o “bruxo”, Ministro de Bem-Estar Social e

Milçitar que derrubaria sua mulher. López Rega morreu em 1989, quando o peronismo voltou novamente ao governo, com Carlos
Saúl Menem (entre julho de 1989 e dezembro de 1999) transformado em uma variante folclórica e corrupta do neoliberalismo.

homem forte do governo Isabel), o governo selou uma trégua


social com a burocracia sindical. Horas depois, mais setores de
trabalhadores entraram em greve. A burocracia sindical já não
garantia a “paz social”, o peronismo no governo já não mais
servia para conter a radicalização e as lutas dos trabalhadores, a
função histórica graças à qual a burguesia argentina o tolerava. A
conta regressiva do golpe militar iniciou-se.
Nas fábricas e nos bairros operários, corpos de delegados fabris
e comissões internas de fábrica formaram “coordenações zonais
interfabris” para organizar a luta: em certos casos (como em
Córdoba, segundo centro industrial do país, com a “Mesa de
Grêmios em Luta”), elas dirigiam o operariado de toda a região.
Um novo patamar de organização operária pela base estava
sendo atingido, nacionalmente. Em novembro de 1975, o
ministro do Trabalho (o sindicalista securitário peronista Carlos
Ruckauf) tentou um golpe contra os setores mais combativos,
decretando a absorção do convênio salarial metal - mecânico (o
mais vantajoso) pelo metalúrgico, cujo sindicato era controlado
pelo principal e mais governista dirigente sindical, Lorenzo
Miguel, convênio que previa um reajuste salarial bem inferior ao
mecânico (cujo sindicato agrupava os operários de todas as
fábricas de automóveis do país).
Nesse momento, todos os metalúrgicos - mecânicos do país
entraram então em greve, 10 mil desfilaram em Buenos Aires. A
crise política era total, o governo parecia esvaziado. A partir de
dezembro de 1975, quando houve uma primeira tentativa de
golpe militar por setores da Força Aérea comandados pelo
brigadeiro Orlando Cappellini (chefe da força em Córdoba, sede
da tentativa golpista), a burocracia apelou ao último recurso para
desorganizar o operariado: os sindicatos foram literalmente
esvaziados, tão esvaziados quanto já o estava o governo
“isabeliano”.
No meio de sua débâcle, porém, o governo peronista tomou uma
decisão que teria alcance histórico: ordenou ao Estado Maior das
Forças Armadas o uso de “todos os meios” (sic) para “aniquilar a
subversão”, esta definida de modo propositalmente vago, de
modo tal a permitir operações repressivas em todos os níveis e
meios possíveis. A guerrilha, peronista – “montonera”, ou
“marxista” (do ERP, Exército Revolucionário do Povo), muito
infiltrada por agentes policiais ou militares, já estava
praticamente inoperante. O ERP mantinha a enfraquecida
“companhia do monte” no interior da província de Tucumã
(“companhia” que seria fisicamente aniquilada nos meses
posteriores) e tentou uma última, e desastrada, operação de
grande envergadura com o assalto ao quartel militar de Monte
Chingolo (na província de Buenos Aires), tentativa conhecida de
antemão pelos militares, que concluiu em uma derrota
catastrófica do ERP, com a morte (fuzilamento, em boa parte dos
casos) de centenas de guerrilheiros. Na posterior repressão
dantesca orquestrada pelo regime militar instaurado em 1976, as
“ordens” oficiais dadas pelo governo peronista (nesse momento
exercido pelo presidente do Senado, Ítalo Argentino Luder)
foram usadas para defender a “legalidade” de sua empresa de
morte de toda oposição militante, e foram inclusive esgrimidas
pelos advogados das Juntas Militares quando estas vieram a ser
julgadas por crimes de lesa humanidade, em 1985.
Mas, na virada de 1975 para 1976, a situação do operariado
argentino era outra. O aumento dos preços nominais tinha
atingido 200% em relação ao momento em que foram assinados
os dissídios coletivos, cinco meses antes. Nas prateleiras do
comércio faltavam os gêneros de primeira necessidade,
lembrando o cenário de boicote empresarial que precedera a
derrubada de Salvador Allende no Chile, em setembro de 1973.
O empresariado argentino, descrente na capacidade do governo
de Isabel Perón (já exonerado o seu mentor principal, o “bruxo”
López
Rega, que tinha fugido do país) para dominar a situação social, já
apostava no golpe militar. O Estado Maior das Forças Armadas
era ovacionado em uma gala no Teatro Colón, com a presença da
elite empresarial e social argentina, a oligarquia da terra e a
burguesia industrial/financeira, que nele passava a depositar
suas esperanças. Dois terços das reservas argentinas em divisas
tinham desaparecido (fuga de capitais). Os salvadores fardados
ou a fuga do país: tais eram as alternativas da burguesia
argentina.
Em março de 1976, ainda sob governo peronista, a luta contra o
novo plano econômico (Plano Mondelli, do nome do novo
ministro da Fazenda) foi organizada pelas diversas coordenações
zonais dos trabalhadores. Elas se pronunciavam pelas
reivindicações salariais e pelo controle operário da produção (a
inflação atingia 1000% anual, o golpismo burguês - empresarial
esvaziava as prateleiras e criava um enorme mercado negro) e
também pela queda do governo e, em certos casos, por um
“governo operário”. O Partido Comunista propunha uma
convergência cívico-militar (ou seja, golpe militar com apoio
civil). As coordenações interfabris careciam de estrutura
organizativa nacional; assim, não conseguiram evitar o golpe
militar de 24 de março de 1976, que levou o general Jorge Rafael
Videla ao poder.
Ninguém se mobilizou em defesa do governo peronista, que caiu
em meio à maior indiferença popular, nessa manhã chuvosa e
cinza. O operariado, porque já não o considerava “seu” governo,
em qualquer sentido da palavra. A burocracia sindical, porque já
não era capaz de defender nada (Lorenzo Miguel, dirigente
metalúrgico, o “homem forte” do sindicalismo peronista, na sua
apressada fuga, esqueceu até o casaco numa sala do Congresso
Nacional). O movimento operário não conseguiu varrer o
governo de Isabel Perón antes dos militares, por ausência de
unidade política, e pela deserção completa da luta da burocracia
sindical peronista. Iniciavam-se os anos de chumbo (1976-1983),
os anos da ditadura militar genocida.
Um ano depois, em fevereiro de 1977, já sob governo militar na
Argentina, mas ainda sob governo trabalhista na Inglaterra, o
chanceler britânico (Anthony Crossland), em mensagem
parlamentar, evocou a necessária cooperação com a Argentina,
e até a participação desta, no desenvolvimento econômico das
“Falkland”, mas sem abrir mão em absoluto da soberania inglesa
sobre o arquipélago. Neste ponto, não havia (e não há) diferenças
entre “direita” e “esquerda”, na Inglaterra. Crossland,
certamente, nem sonhava o que aconteceria cinco anos depois.
A DITADURA MILITAR E SUA CRISE
A Junta Militar de Jorge Rafael Videla, Héctor Orlando Agosti e
Emilio Eduardo Massera, batizou seu regime de “Processo de
Reorganização Nacional”. A “reorganização” consistiu, em
primeiro lugar, na eliminação física da vanguarda militante da
classe operária e da juventude estudantil: “Primeiro, matar todos
os subversivos; depois, os colaboradores; a seguir, os
simpatizantes; depois, os indiferentes, e por último, os
indecisos”, foi a definição dada por um de seus expoentes. Além
de milhares de pessoas “legalmente” assassinadas, os
“desaparecidos” (sequestrados ilegalmente, torturados e
mortos) somaram, pelo menos, 30 mil pessoas. Milhares de
argentinos optaram pelo exílio, fugindo das diversas formas de
repressão e até da miséria. O Centro de Estudos Legais e Sociais
calculou, em 1983, em 2,5 milhões o número de argentinos
vivendo no exterior (quase 10% da população de 1976). A
contrarrevolução militar-imperialista (pois o golpe foi preparado,
apadrinhado e publicamente apoiado pelos EUA) resolveu
temporariamente a crise política revolucionária deflagrando uma
repressão feroz.
O “processo” militar se autojustificou na eliminação da
“corrupção” (peronista) e da “subversão” (armada), ou seja, a
guerrilha. O conceito desta última foi ampliado até atingir toda
atividade político-social: expor opiniões, reivindicar, escrever,
falar, ler, até pensar (sic). Semelhante noção não poderia se
apoiar em nenhum “direito”: inventou-se então uma “guerra
(nacional) anti-subversiva”. Os ideólogos extremos da ditadura
chegaram a afirmar que a Terceira Guerra Mundial (contra o
comunismo) começara na Argentina, nesses anos. A
consequência desta mistificação (não havia guerra civil na
Argentina, a guerrilha de esquerda era localizada, e já estava
militarmente derrotada em 1976) foi a forma ilegal e horrorosa
que tomou a repressão: as “desaparições forçadas de pessoas”.
Numa guerra real, a questão dos direitos dos prisioneiros teria
estado na agenda política.
As “desaparições”, que eram parte de um plano de total
extermínio físico, atingiram guerrilheiros, políticos, estudantes,
escritores, dirigentes sindicais, e até membros do próprio
governo militar, como o seu embaixador na Venezuela (o político
do partido radical, UCR, Hidalgo Solá) ou empresários como
Fernando Branca, assassinado pelo seu sócio Emílio Eduardo
Massera (membro da Junta Militar), pois o “método” engoliu
seus executantes, que passaram a usá-lo entre eles. Massera
comandou o centro de detenção clandestino da Marinha em
Buenos Aires, situado na ESMA (Escola Superior de Mecânica da
Armada). Por esse local passaram mais de cinco mil detidos -
desaparecidos, dos quais menos de uma centena sobreviveu.
Massera foi julgado e condenado à prisão perpétua em 1985,
sendo depois indultado pelo governo de Carlos Saul Menem, na
década de 1990.
Em depoimento feito a um jornalista (Ceferino Reato) em 2011,
Jorge Rafael Videla foi explícito quanto ao método e objetivo das
“desaparições”. Estas visavam: 1. A detenção ou o sequestro de
milhares de “líderes sociais” e “subversivos” seguindo listas
elaboradas entre janeiro e fevereiro de 1976, antes do golpe,
com a colaboração de empresários, sindicalistas, professores e
dirigentes políticos e estudantis; 2. Os “interrogatórios”
(eufemismo que encobre torturas indescritíveis) em lugares
secretos ou centros clandestinos; 3. A morte dos detidos
considerados “irrecuperáveis”, geralmente decidida em reuniões
específicas encabeçadas pelo chefe de cada uma das cinco zonas
nas quais foi dividido o país; 4. A desaparição dos corpos, que
eram jogados no mar, em rios, arroios ou canais; ou ainda
enterrados em lugares secretos, ou queimados em um forno ou
em uma pilha de pneus de automóveis.
Disse Videla: “Eram sete ou oito mil as pessoas que deviam
morrer para ganhar a guerra contra a subversão; não podíamos
fuzilá-las. Também não podíamos levá-las à Justiça”, admitindo
sua condição de carrasco de uma geração. Como admitir,
justificar, abertamente esse papel, perante si próprio e o mundo?
É exatamente ai que entrava um componente essencial da
ideologia da ditadura: a suposta “missão de Deus” que estavam
cumprindo (“Os assassinos de Deus”, chamou-os a pesquisadora
canadense Patricia Marchak), com aprovação de seu
representante oficial na Argentina: a Igreja Católica.
Diante da pergunta de por que os chefes militares haviam
chegado à conclusão de que não podiam levar os detidos diante
da Justiça, Videla respondeu: “Também não podíamos fuzilá-los
[legalmente]. Como íamos fuzilar toda essa gente? A justiça
espanhola condenou à morte três integrantes do ETA, uma
decisão que Franco avalizou apesar dos protestos de boa parte
do mundo: só pôde executar o primeiro, a pesar de ser Franco.
Também existia o temor pela reação mundial que a repressão de
Pinochet no Chile havia provocado”. Para Videla, “não havia
outra solução. Estávamos de acordo em que era o preço a pagar
para ganhar a guerra e necessitávamos que não fosse evidente
para que a sociedade não percebesse. Por isso, para não provocar
protestos dentro e fora do país, durante o transcurso dos fatos
se chegou à decisão de que essas pessoas desapareceriam; cada
desaparição pode ser entendida, certamente, como a
maquiagem ou a dissimulação de uma morte”. Com base nesse
“raciocínio” (de algum modo é preciso chamá-lo), boa parte de
juventude e da classe trabalhadora militante argentina foi
fisicamente eliminada, ou condenada a uma fuga que para
muitos nunca teve fim.2
Mas a tortura e a morte tinham alvo certo: os primeiros
levantamentos da Anistia Internacional, realizados já em fins de
1976, comprovaram que a porcentagem maior de vítimas
achava-se no movimento operário, em especial seus setores de
vanguarda (delegados de base, ativistas classistas). Esse foi o
modo de eliminar a chamada “guerrilha fabril” (o ativismo
operário classista) denunciada pouco antes do golpe militar pelo
“democrata” Ricardo Balbín (líder da União Cívica Radical, UCR).
Era um movimento de extrema reação política do conjunto da

burguesia argentina, por intermédio dos militares, contra a


perspectiva da revolução social.

2 Juan Gelman, poeta e pai de desaparecidos, comentou: “Essa entrevista com Videla, na qual ele confessa que matou oito mil,
permite-me descobrir nele uma qualidade que desconhecia: a modéstia. Porque, na verdade, foram mais de 30 mil. Videla se expressa
como quem encabeçou o golpe, mas para analisar os golpes necessitamos levar em conta primeiro que eles sempre tiveram respaldo
civil, segundo, que houve partidos políticos que os incitaram e, terceiro, que os golpes foram movidos por interesses muito concretos
e importantes. Faltou dizer, por exemplo, quantos campos de concentração existiram, o que ocorreu dentro deles e qual foi o destino
dos desaparecidos. Certa vez Videla disse (na condição de chefe de Estado) algo assim como: os desaparecidos não existem, mas os
militares não são mágicos, eles sabem onde fizeram com que desaparecessem. Videla tampouco disse onde estão os arquivos. Enfim,
há uma quantidade de perguntas que os familiares dos desaparecidos se fazem e sobre as quais ele não falou” (Carta Maior, 22 de
abril de 2012). Em 1984, a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep) informou ao governo do presidente
Raúl Alfonsín que, durante a ditadura militar argentina (1976-1983), haviam desaparecido 8.961 cidadãos, daí talvez a cifra dada por
Videla. Videla justificou o uso da tortura (“Deus sabe o que faz, porque o faz e para quê. Aceito a vontade de Deus e acredito que
Deus nunca soltou a minha mão”: os ditadores achavam mesmo que estavam cumprindo uma missão divina, no que era visível a mão
da Igreja Católica argentina) e destacou o papel da “doutrina francesa na luta contra guerrilhas” em seu governo.
O terrorismo antioperário peronista (a célebre AAA, ou Tríplice A,
Aliança Anticomunista Argentina, organizada pessoalmente por
Perón e López Rega, e atuante desde finais de 1973) foi
integrado, incrementado, no terrorismo militar, estabelecendose
uma continuidade essencial entre os dois regimes. Os militares
chamaram de “guerra suja” os seus procedimentos,

reconhecendo a natureza do seu comportamento. O termo


“terrorismo de Estado”, adotado depois, ocultou o essencial: um
massacre metodicamente planejado e executado pelas Forças
Armadas (tal como o reconheceu a “Comissão Sábato”, criada
pelo governo Alfonsín em 1984).
Seu cúmplice na tarefa mortífera foi, como dito, a Igreja Católica.
Encarregada do ministério da educação, com Ricardo Bruera,
nomeado em março de 1976, ela promoveu o pior processo
obscurantista já conhecido (a teoria dos conjuntos, por exemplo,
foi banida do ensino escolar da matemática, por partir de um
“princípio comunista”). Monsenhor Plaza (arcebispo de La Plata)
distribuía crucifixos nos campos de extermínio (onde os detidos
sofriam as piores torturas antes de serem mortos), enquanto
Monsenhor Bonamin (capelão do Exército) benzia os “grupos de
tarefa” encarregados de sequestrar, torturar e matar; não
faltando os que, como o padre e capelão militar Von Wernich,
montaram um lucrativo comércio de venda de informações
(falsas) aos desesperados parentes dos desaparecidos.
É claro que houve exceções dentro da Igreja (também as houve
nas Forças Armadas), mas a instituição clerical como tal foi parte
ativa do genocídio, como foi depois denunciado pelas Mães da
Praça de Maio ou, correndo risco de vida, pelo artista plástico
León Ferrari, pai de desaparecidos. Não raro as exceções clericais,
como o bispo da província de La Rioja, Monsenhor Angelelli, ou
os padres da ordem palotina foram vítimas dos assassinos
benzidos pelos seus superiores. A “corrupção” foi eliminada
hegelianamente, pois foi conservada e elevada a níveis
estratosféricos. Negociatas, mas também roubo e venda dos
bens das pessoas desaparecidas, sem falar no orçamento
astronômico militar, responsável por mais de um quarto da dívida
externa, que atingiu 45 bilhões de dólares. Em 1979, um
empréstimo de70 milhões de dólares para compra de
armamento foi concedido ao governo Videla... por Inglaterra. O
Estado capitalista assumiu, na Argentina da ditadura militar, sua
forma extrema, mas essencial, de máfia armada dedicada ao
saque das finanças públicas e, quando possível, da própria
população.
Toda a burguesia argentina e seus partidos apoiaram o
“processo” militar, só criticando — e tardiamente — seus
“excessos” (que foram, por outro lado, a regra, não a exceção). A
recompensa obtida pelos partidos: suas atividades partidárias só
foram “suspensas” (os partidos operários e de esquerda foram
oficialmente dissolvidos); muitos dirigentes políticos receberam
cargos oficiais (prefeituras, embaixadas). O golpe mais repressivo
da história argentina criava também as bases para um grande
acordo nacional posterior. Fato essencial, o “processo” militar
também tentou, e em parte conseguiu, integrar a burocracia
sindical peronista.
A ditadura se propôs reduzir qualitativamente o peso dos
sindicatos: o Estado lhes tirou as “obras sociais” e pôs sob
intervenção militar os principais sindicatos; os setores em que
houve conflitos sindicais (eletricidade, ferrovias) foram
militarizados; vários dirigentes sindicais peronistas foram
assassinados (Oscar Smith, eletricitário, por exemplo) ou presos
(o próprio Lorenzo Miguel, por vários anos). Apesar disso, os
burocratas entraram nas comissões assessoras dos interventores
militares dos sindicatos e praticaram outras formas de
colaboracionismo: foi uma forma extrema de integração sindical
ao Estado.

Jorge Rafael Videla

A unidade burguesa em torno do golpe explica-se por ser este o


último recurso contra o desenvolvimento revolucionário do
operariado. Os militares foram muito além, tentando
reestruturar a vida política, através de diversos planos (desde um
“movimento único” favorável ao regime até uma “democracia
gradual” de base corporativa, passando pela manipulação dos
cargos internos dos partidos). O PC (único partido de esquerda
que foi só suspenso) foi o mais consequente naquela linha,
chegando a defender o “democrata” general Jorge Rafael Videla
contra um suposto “Plano Fênix” da CIA para derrubá-lo (isto, em
meados de 1976). E, no entanto, dezenas de militantes do PC
foram mortos pelo governo... O adido militar da URSS na
Argentina chegou a saudar, em discurso oficial, a “guerra suja”
dos militares argentinos, comparando-a com a guerra soviética
contra o nazismo.
A burguesia se dividiu progressivamente, no entanto, em torno
do plano econômico do regime militar. O programa do ministro
da Economia, Martinez de Hoz, se propunha: a) a impor um
retrocesso histórico das condições sociais das massas
trabalhadoras; b) a liquidação de uma parte do ativo industrial
obsoleto e dos capitais que não podiam sustentar a concorrência
internacional; a reativação por meio do reequipamento dos
setores capazes de inserir-se mais profundamente nas correntes
do comércio mundial; c) a criação de um fundo de acumulação
mediante um endividamento geral, com concessões
(remuneração) enormes ao capital financeiro internacional; d) a
liquidação da participação do Estado na indústria privada,
determinada no passado para salvar as empresas em crise; a
desnacionalização da indústria estatizada (700 empresas), para
promover um maciço ingresso de capitais capaz de sustentar um
novo ciclo de reativação; e) a reestruturação da burguesia
nacional, promovendo a formação de trustes diversificados na
exploração do petróleo, na celulose, na exportação de
manufaturas agrárias e matérias primas, na petroquímica, no aço
e nos bancos.
O plano visava dar uma resposta estrutural ao estancamento
crônico da economia argentina. Em 1976, o PIB caiu 6%: os
rendimentos dos não assalariados subiram 20%, o dos
assalariados caiu 30%. Em junho de 1977 uma reforma financeira
libertou o mercado de capitais do controle do Banco Central.
Outras medidas (restrição monetária, tabela fixa de câmbio,
eliminação de tarifas aduaneiras) levaram à pequena indústria à
falência. O Estado interveio no processo de concentração,
através da “promoção industrial”. Um terço das cem maiores
empresas argentinas desapareceu do mercado (via fusão com
outras empresas, venda ou falência).
Os beneficiados pelo processo de concentração econômica foram
setores do grande capital nacional (Pérez Companc, Sasetru,
Capozzolo) não raro de origem latifundiária, setor que também
se beneficiou de uma grande transferência de renda. Tudo
baseado numa brutal queda das condições de vida dos
assalariados (o salário real caiu 40% em um ano). Mas a
concentração foi paralela a uma queda da produção industrial
(17% no período 1975-81). Várias fábricas do estagnado ramo
dos automóveis fecharam (Citroën, General Motors, Peugeot,
Chrysler) redimensionando o mercado das que restaram. Em
toda a indústria, 400 mil operários ficaram desempregados. O
negócio bancário cresceu espetacularmente, a atividade
financeira explodiu: cada empresa importante criou sua própria
companhia financeira.
Muitos dólares chegaram ao país (as taxas de juros exorbitantes
transformaram Buenos Aires na melhor praça financeira do
mundo), mas era “capital fictício”, especulativo, à procura de
lucros de curto prazo. As multinacionais não investiram na
indústria, devido à recessão e aos juros incompatíveis com
qualquer reativação econômica. As grandes empresas tomavam
empréstimos no estrangeiro a taxas menores (a dívida externa foi
às nuvens) sem expandir a inversão, mas especulando na
“ciranda financeira”, e girando os lucros para fora do país. Os
custos financeiros das empresas que tomavam dinheiro no
mercado argentino atingiam 80% das vendas totais, pois
pagavam 60% de juros reais.
Até o golpe militar de 1976, a tendência para a baixa das taxas de
juros refletia a crise e a falência da indústria, sobretudo em 1975.
Não existia demanda de investimentos, e a contrapartida era o
aumento de capitais ociosos. Daí originou-se a tendência para a
fuga de capitais ao estrangeiro, nesse último ano do governo
peronista, como expressão da queda dos lucros “produtivos” e
da queda geral da indústria. A política financeira de Martínez de
Hoz estruturou-se como alternativa à fuga de capitais, criando
uma elevada remuneração para o capital ocioso, inclusive para o
capital internacional. O governo organizou o resgate e a salvação
do capital em crise às custas dos trabalhadores argentinos e das
finanças públicas do país.
O novo plano econômico declarava e confiava em que o livre jogo
do mercado levaria à racionalidade do capital a “normalizar” a
economia, desenvolvendo os setores competitivos no mercado
mundial. Mas a lógica do capital não é a racionalidade
econômica, mas a procura de lucro (de qualquer origem). O
“plano” era uma mistificação em sua própria denominação: não
havia plano, mas uma guerra de monopólios, com soluções
empíricas e temporárias dispostas pelo governo, que tornavam
ainda mais agudas as contradições capitalistas e a anarquia da
produção, no contexto da crise mundial iniciada em meados da
década de 1970.
Emilio Eduardo Massera

No início dos anos 1980, o “modelo econômico” da Junta Militar


se esgotou, com 90% de inflação anual, recessão profunda,
interrupção de boa parte das atividades econômicas, banalização
da evasão do IVA (imposto ao valor agregado), empobrecimento
da classe média, grande aumento do endividamento externo das
empresas e do Estado, salário real cada vez mais baixo. A
substituição do chefe da Junta Militar, Jorge Rafael Videla, pelo
general Roberto Viola, e posteriormente pelo general Leopoldo
Fortunato Galtieri, foram o indicativo da crise econômica, social
e política. O fôlego político ilusório da questionada vitória
argentina na Copa do Mundo de futebol de 1978 não atingiu
sequer a Copa seguinte.
A cerimônia de posse de Viola se realizou em 29 de março de
1981. Deveria governar até o mesmo dia de 1984. Porém, seu
mandato durou muito menos: em 11 de dezembro foi removido
pelo alto comando da Junta Militar e substituído pelo titular do
Exército, Leopoldo Fortunato Galtieri, para completar o que
restava do mandato conferido a Viola a partir do dia 22 desse
mês. Em março de 1981, a crise econômica era geral, com a
falência de um dos maiores bancos argentinos (o BIR), de
propriedade de uma das empresas favorecidas pela política do
governo militar.
A intervenção do Estado para salvar o banco semioficial,
mediante emissão monetária desenfreada, relançou o processo
inflacionário: a especulação tornou-se espetacular. O grupo
Sasetru, crescido sob a ditadura, foi à falência. Ao fracasso em
atrair investimentos estrangeiros, Martinez de Hoz somava agora
a quebra das empresas privilegiadas pela sua própria política. Os
setores empresariais em crise reagruparam-se na nova central
patronal Conae (Confederação nacional de Empresários), para
derrubar o ministro dos militares e do FMI, que já não passava de
um simples agente dos grupos financeiros internacionais.
A Junta Militar do general Viola havia tentado reunificar o
empresariado, tirando Martinez de Hoz do gabinete e
incorporando os representantes diretos do grande capital ao
governo. Mas estes careciam de qualquer unidade (sem falar
num “plano”). Enquanto as renúncias se sucediam no gabinete, o
PIB e a indústria (esta, com uma queda de 10% em 1982)
continuavam em queda livre. O único “avanço” foi a liquidação
das dívidas dos grupos em falência através da inflação e do
endividamento público, beneficiando grupos cujos investimentos
tinham sido em 90% financiados ou avalizados pelo Estado: o
“liberalismo” militar consistiu na passagem para o Estado das
dívidas privadas, destruindo o crédito e a moeda.
Em 1981, finalmente, e depois de cinco anos de ditadura
sangrenta, os partidos políticos conformaram uma frente
opositora, a “Multipartidária”, com vistas a capitalizar a divisão
burguesa. Com o país em falência e os planos políticos em
bancarrota, não surpreendeu que Viola fosse derrubado pelo
general Leopoldo Galtieri, quando mal tinha completado um ano
de mandato. Viola fora afetado por algo mais que um problema
de saúde, como se informara vagamente. Segundo Moniz
Bandeira, a diplomacia dos EUA interveio diretamente na sua
derrubada e, ironicamente (pelo que aconteceria depois), na
nomeação de Galtieri.
O golpe militar, porém, impusera um sério retrocesso e a perda
de conquistas históricas do movimento operário: convênios
coletivos, obras sociais, central sindical única (a CGT foi posta na
ilegalidade). Ao contrário, porém, do que acontecera no Chile de
Allende, o operariado já tinha perdido toda confiança no “seu”
governo peronista. Sua rápida resposta à política antioperária
indica que não tinha sofrido uma derrota histórica, uma
desmoralização política que lhe impedisse reagir. Já em março de
1976 os mecânicos de Córdoba pararam repudiando o golpe. Nos
meses seguintes, apesar da repressão selvagem, greves de
eletricitários e metalúrgicos tentaram pôr um limite à ofensiva
militar. As empresas de energia foram militarizadas, mas
aumentos salariais “por baixo do pano” violaram o congelamento
salarial.
Em junho de 1977, toda a região operária de San Lorenzo (na
província de Santa Fé) parou. Em novembro desse ano, houve
greves dos ferroviários e dos operadores do metrô. O setor não
foi militarizado, como acontecera em conflitos precedentes: a
política de divisão sindical começava a ser derrotada. A tendência
para mobilizações nacionais (e não por empresas) não parou. Os
ferroviários protagonizariam greves nacionais em 1978, 1979 e
1980. Nesses anos, portuários e metalúrgicos também obtiveram
vitórias significativas. Sem essa resistência operária ininterrupta,
a crise da ditadura e da burguesia teria, provavelmente, sido
resolvida “internamente”.
Orlando Ramón Agosti

Somente em abril 1979 um dos setores da direção sindical


peronista remanescente decretou uma greve nacional
(fracassada por falta de preparação). A burocracia sindical
adaptou-se profundamente à ditadura, aceitando intervenções
dos sindicatos, elogiando a repressão selvagem contra a
esquerda, chegando a defendê-la das críticas internacionais na
OIT (Organização Internacional do Trabalho). Com os tradicionais
organismos de base (as “comissões internas”, os corpos de
delegados) na ilegalidade, as frações majoritárias da burocracia
sindical tentaram participar privilegiadamente da “normalização
sindical” promovida pela ditadura. Só os setores fora do controle
dessa burocracia (ferroviários, Mercedes Benz) organizaram
verdadeiras lutas salariais.
A divisão da burocracia sindical peronista (em
“participacionistas” e “verticalistas”) foi arbitrada pelos militares,
com o intuito de formar uma direção dócil, não vinculada ao
peronismo. As “obras sociais”, hospitais e redes de atendimento
médico, antigamente sob controle sindical, passaram ao Estado
e ao setor privado. Em 1979, a nova “lei sindical” (Lei de
Associações Profissionais) proibiu a existência da CGT ou de
qualquer central sindical, de sindicatos nacionais e de delegados
de base para estabelecimentos de menos de 100 operários
(situação de 40% do operariado). A reestruturação industrial
deixou milhares na rua (47 mil operários foram demitidos apenas
nas ferrovias). Foi uma tentativa de reduzir o movimento
operário argentino a uma função secundária e decorativa.
Reconstituindo ilegalmente comissões internas (de fábrica) e
corpos de delegados, a luta operária impediu um retrocesso
histórico de sua classe. Em 1981, greves longas e duras (nos
frigoríficos e ferroviários) acompanharam a crise econômica. A
virada da situação da classe operária veio em junho de 1981: na
greve geral dos metalúrgicos - mecânicos (do sindicato SMATA),
cinco mil operários manifestaram nas ruas na capital. Só um mês
depois, já finda a greve, a burocracia convocou uma greve
nacional. A iniciativa política tinha mudado de campo. As lutas
operárias e a dos familiares de desaparecidos e presos se
apoiavam mutuamente. A “classe média” urbana deixava atrás a
confusão e o medo (vastos setores dela apoiaram a ditadura)
para passar à oposição ativa.
A direção sindical peronista só se fez opositora junto com a
própria burguesia argentina: ofereceu seu apoio à nova central
patronal, a Confederação Nacional Empresarial (Conae) que o
rejeitou. Uma tentativa de unificação sindical (na CUTA,
Condução Única dos Trabalhadores Argentinos) fracassou por
conflitos interburocráticos: não houve acordo sobre a
representação sindical argentina na CIOSL (Confederação
Internacional de Organizações Sindicais Livres). A pressão da base
operária, porém, crescia junto com a fome e o desemprego. A 7
de novembro de 1981 convocou-se uma “marcha do trabalho”,
definida pela já oficiosamente relegalizada CGT como “jornada
de oração”. Os 10 mil trabalhadores que foram às ruas não
rezaram, mas gritaram publicamente pela derrubada da ditadura
militar. A 10 de dezembro, o limiar repressivo decisivo foi
quebrado: ao chamado das “Mães de Praça de Maio”, 2000
pessoas manifestaram durante 24 horas na praça em frente à
Casa do Governo reclamando “aparição com vida” dos
desaparecidos (lembremos que os partidos políticos majoritários
se limitavam, nessa altura, a pedir um “informe do governo”
sobre os desaparecidos).
A crise política aprofundou-se: o governo militar dependia cada
vez mais da capacidade de controle dos partidos políticos e da
direção sindical. A burocracia suspendeu uma greve nacional, em
março de 1982, devido a um chamado do governo militar à
“união nacional” por causa do atrito com a Inglaterra nas Ilhas
Georgias (ver adiante), situadas no Atlântico Sul. Mas em 30 de
março a pressão popular era novamente um caldeirão: a
convocação de uma jornada nacional de luta não pôde ser
evitada. 50 mil trabalhadores comparaceram à Praça de Maio
atendendo à convocação da CGT. Com a paralisação de 30 de
março de 1982, a luta contra a ditadura entrou em uma fase
decisiva. As manifestações dos bairros operários de Buenos Aires
convergiram na Praça de Maio, exigindo a queda do governo
militar. Nas violentas lutas contra a polícia, receberam a
solidariedade até dos funcionários dos ministérios.

Saul Ubaldini, secretário da “CGT-Brasil”, dissidência da CGT oficial (ou “CGT-


Azopardo”), no ato na Praça de Maio de 30 de março de 1982
Até meia noite se sucederam os combates entre os
manifestantes, a polícia e o exército, nas imediações da praça
histórica, sede do governo, e no centro de Buenos Aires. Foi uma
jornada histórica, a classe operária e o povo levantavam cabeça
novamente, depois de oito anos de uma repressão sem
precedentes nem paralelos. A classe operária liderava a luta
antiditatorial: um novo “cordobaço” se desenhava no horizonte,
desta vez no coração industrial e político do país (Buenos Aires).
A CGT tinha tentado pressionar o governo a mudar a política
econômica (removendo o ministro de Economia, Juan Alemann),
seus dirigentes se reuniam com assessores de Galtieri num
apartamento “na rua Carlos Pellegrini” (centro de Buenos Aires).
Para atingir esse objetivo, convocara a manifestação de 30 de
março de 1982, que lhes escapou de seu controle, evoluindo para
uma batalha campal entre operários e forças repressivas.
Nessa data, o plano de ocupação militar argentina das Malvinas
já estva em andamento, e levava em conta a situação de crise
geral do governo tanto quanto os objetivos estratégicos do
Estado militar. A jornada de 30 de março quase adiou a operação
militar; no entanto, já era tarde para fazê-la abortar. Ela, por
outro lado, apresentava a vantagem de forçar uma “união
nacional” através de uma crise externa, propiciada por uma
histórica reivindicação nacional. Mas era um regime
politicamente falido o que lançava mão desse recurso extremo e
perigoso. E não o fazia no cenário político e social em que o
recurso fora originalmente concebido.