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NEIL McDONALD

GIGANTES
DO
XADREZ
AGRESSIVO

A P R E N D A C O M

TOPALOV
GELLER
BRONSTEIN
ALEKHINE
MORPHY
M135g McDonald, Neil.
Gigantes do xadrez agressivo [recurso eletrônico] / Neil
McDonald ; tradução: Patrícia Helena Freitag ; revisão
técnica: Ronald Otto Hillbrecht. – Dados eletrônicos. –
Porto Alegre : Penso, 2012.

Editado também como livro impresso em 2012.


ISBN 978-85-63899-73-6

1. Xadrez. I. Título.

CDU 794.1

Catalogação na publicação: Ana Paula M. Magnus – CRB 10/2052


NEIL McDONALD

GIGANTES
DO
XADREZ
AGRESSIVO

Tradução:
Patrícia Helena Freitag

Consultoria, supervisão e revisão técnica desta edição:


Ronald Otto Hillbrecht
Vice-presidente da Federação
Gaúcha de Xadrez (2002-2003)

Versão impressa
desta obra: 2012

2012
Obra originalmente publicada sob o título
Chess Secrets: The Giants of Power Play, 1st Edition
ISBN 9781857445978

©2009 Neil McDonald

First published in 2009 by Gloucester Publishers plc, London.


All rights reserved.
This edition is published by arrangement with Gloucester Publishers plc, Northburgh
House, 10 Northburgh Street, London EC1V 0AT.

Capa: Tatiana Sperhacke – TAT studio

Ilustrações da capa: ©istockphoto.com/somamix1 (Tabuleiro)


©istockphoto.com/urbancow (Mão movendo peça de xadrez)

Preparação de original: Lucila Abreu

Leitura final: Jonas Stocker

Coordenadora editorial: Mônica Ballejo Canto

Editora responsável por esta obra: Lívia Allgayer Freitag

Projeto e editoração: Techbooks

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IMPRESSO NO BRASIL
PRINTED IN BRAZIL
Sumário

Introdução ........................................................................................................................7
1 O Elemento Dinâmico................................................................................................ 13
2 Perseguindo o Rei no Centro................................................................................... 47
3 Abrindo Feridas Antigas (e Novas) ........................................................................ 79
4 A História de Vida de um Cavalo ..........................................................................119
5 A Dama dos Cachinhos Dourados .......................................................................155
6 Energizando os Peões ..............................................................................................189
7 Um Aríete na Coluna f ..............................................................................................223
8 Peões Atrasados e Bispos Indianos .....................................................................251
9 A Psicologia da Preparação ....................................................................................277
10 A Arte da Surpresa ....................................................................................................309
Índice de Aberturas ..................................................................................................335
Índice de Enxadristas ...............................................................................................336
Introdução

Os enxadristas podem ser divididos entre os estrategistas e os agressivos. A ba-


talha pela supremacia entre estes dois estilos de jogo levou a combates criativos
como Capablanca-Alekhine, Botvinnik-Bronstein e Kramnik-Topalov.
O objetivo deste livro é examinar e celebrar as ideias de cinco enxadristas
famosos que contribuíram para o desenvolvimento do estilo agressivo. Espero
que o leitor ache as partidas emocionantes e agradáveis. Com um pouco de sorte,
uma pequena parte do talento e da mágica destes cinco gigantes pode acabar
reaparecendo no nosso próprio xadrez.
Mas antes vejamos um exemplo do estilo estratégico em ação:

Partida 1
V.Kramnik – M.Carlsen
Dortmund, 2007
Abertura Catalã

1 f3 f6 2 c4 e6 3 g3 d5 4 d4 e7 5 g2 0-0 6 0-0 dxc4 7 c2 a6 8 xc4 b5


9 c2 b7 10 d2 c6 11 e3 b4 12 xb4 xb4 13 a3 e7 14 bd2 c8 15
b4 a5 16 e5 d5 17 b3!
8 Neil McDonald

17...axb4 18 a5 a8 19 ac6 xc6 20 xc6 d7 21 xd5 exd5 22 axb4


fe8 23 a5 f8 24 e5 e6 25 xb5 b8 26 xb8 xb8 27 xc7 d6 28
a5 xb4 29 b1 d6 30 a4 1-0

Kramnik jogou uma abertura sólida, reduzindo ao mínimo o risco de qual-


quer surpresa desagradável. A batalha se deu unicamente na ala da dama, dessa
forma a segurança do rei nunca foi ameaçada.
O Grande Mestre russo focou na fraqueza de c6 e passou a partida inteira
trabalhando em cima disto. Com a ajuda de um inteligente sacrifício temporá-
rio de peão, ele finalmente conseguiu posicionar um cavalo nessa casa, e, depois
disso, o peão preto em b5 ficou indefeso. Kramnik foi cuidadoso em não deixar
fraquezas na sua própria estrutura de peões para que a tentativa de contrajogo
das Pretas no final pudesse ser facilmente impedida.
Sempre adorei a aparente falta de esforço em tais jogos, os quais são
exemplos perfeitos de “arte que esconde a arte”. No alto de suas performances,
Capablanca, Karpov, Kramnik (e todos os outros grande estrategistas) fazem o
xadrez parecer fácil. Na verdade, é extremamente difícil manter-se no controle
em tais partidas, pois um adversário de primeira classe estará sempre procurando
maneiras de escapar da pressão.
O estilo agressivo não faz o xadrez parecer fácil, mas é repleto de ideias ela-
boradas e inesperadas, além de salientar o lado humano do jogo. Devemos nos
lembrar de que o xadrez é uma batalha entre duas mentes criativas e não uma
busca por solução para um teorema lógico.

Características do xadrez agressivo


O xadrez agressivo pode ser resumido como uma mistura de preparação, psicolo-
gia e dinamismo. As características específicas dessa modalidade são:
Gigantes do xadrez agressivo 9

1) Jogo agressivo, tanto com as Pretas quanto com as Brancas. Isso exige a
aceitação do risco.
2) Grande esforço para ganhar a batalha teórica, surpreendendo o adversá-
rio com um lance novo ou uma nova maneira de lidar com uma abertura aguda.
3) Apostas altas, com o rei adversário como alvo ao invés de uma casa ou
um peão fraco. O sacrifício de um peão é usado com frequência para acelerar o
processo de ataque.
4) Ameaças ao rei combinadas a ameaças a outra peça (ou peças) a fim de
sobrecarregar a defesa.
5) Ao invés de um avanço para a clareza, há uma busca incansável por táticas
escondidas no final das variantes.
Enquanto o estilo estratégico pode ser dividido em um processo passo a
passo, o estilo agressivo pode ser dividido em duas partes distintas:
6) A primeira é uma estratégia dinâmica que, se for melhor que a do adversá-
rio, cria situações em que é provável que apareçam combinações;
7) A segunda é o uso de táticas para explorar a pequena vantagem que foi
ganha.
8) Lida-se tanto com a posição quanto com o adversário. Por exemplo, forçar
um adversário que não gosta do uso não sistemático de táticas a participar de
uma luta incerta e obscura, mesmo que as táticas possam ser vantagem para ele.
9) Apuros de tempo não são tidos como um incômodo, mas como uma
chance de confrontar o adversário com problemas que ele terá que resolver.
10) Acima de tudo, a palavra que descreve o estilo é desequilíbrio. Uma posi-
ção com fraquezas mútuas e uma estrutura de peões desorganizada dá espaço à
criatividade e a erros crassos por parte do adversário.
É claro que um enxadrista forte é capaz de lidar com qualquer situação que
apareça com um alto nível de competência. Kramnik é ótimo no estilo de ataque,
enquanto Topalov é capaz de ganhar partidas posicionais tranquilas.
O fato é que cada enxadrista tem sua preferência por um ou outro destes
estilos de jogo. Por exemplo, quando confrontado com a chance de inserir com-
plicações que parecem promissoras para si ou de conseguir uma pequena vanta-
gem sem riscos, um enxadrista terá o hábito de escolher um caminho com mais
frequência que o outro. O repertório de abertura de um enxadrista também diz
muito sobre seus objetivos quando ele senta-se ao tabuleiro.
Está na hora de apresentar-lhe os heróis deste livro. Divirta-se examinando
suas partidas e expandindo o seu próprio intelecto enxadrístico.
Aqui estão as biografias resumidas de nossos heróis.
10 Neil McDonald

Paul Morphy (1837-1884)


O gênio americano do xadrez nasceu em Nova Orleans em 1837. Ainda quando
criança, mostrou um espantoso dom natural para o jogo. Após formar-se pela Uni-
versidade de Louisiana, dedicou-se ao xadrez por alguns anos. Participou do 1º
Congresso Norte-Americano de Xadrez, que ocorreu em Nova Iorque em 1857.
Venceu os três primeiros matches eliminatórios, concedendo apenas um empate,
antes de derrotar Louis Paulsen na final com um placar de +5=2-1.
Após estabelecer-se como o melhor enxadrista dos Estados Unidos, Mor-
phy foi para Londres e Paris em 1858, com o objetivo de provar ser o melhor do
mundo. Além de ter obtido uma grande vantagem na pontuação em partidas não
oficiais, ele venceu um conjunto de matches contra três das mentes mais brilhan-
tes do xadrez: Löwenthal (+9=2–3), Harrwitz (+5=1–2) e Anderssen (+7=2–2). No
entanto, não conseguiu persuadir Staunton, considerado por muitos seu principal
rival, a entrar para sua lista.
Após suas grandes proezas em 1858 e 1859, Morphy aposentou-se efetiva-
mente do xadrez competitivo. Depois de uma vida com complicações, faleceu
em 1884.

Alexander Alekhine (1892-1946)


Nasceu em Moscou em 1892, filho de um rico proprietário de terras. Venceu o pri-
meiro Campeonato Soviético em 1920, mas durante esta década mudou-se para
o exterior. Todos os laços com sua terra natal foram cortados em 1928, quando fez
um discurso contra os governantes comunistas de seu país.
Ao lado de José Raúl Capablanca e Emanuel Lasker, Alekhine dominou a
primeira metade do século XX no mundo do xadrez. Para a surpresa de muitos,
derrotou Capablanca em um match em Buenos Aires em 1927 (+6=25-3), tor-
nando-se o quarto Campeão Mundial. Posteriormente, defendeu com sucesso
seu título contra Bogoljubow em 1929 (+11=9-5) e em 1934 (+8=15-3), antes de
uma derrota inesperada em 1935 contra Euwe (=8=13-9). Alekhine reconquistou
o título jogando contra o holandês em 1937 (+10=11-4) e o reteve até sua morte,
em 1946.
Como Campeão Mundial, os dois melhores resultados de Alekhine em tor-
neios foram em San Remo em 1930, onde pontuou surpreendentes 14/15, com
Nimzowitsch em segundo lugar com 10; e em Bled em 1931, onde conseguiu
abrir vantagem de 5 pontos contra os outros jogadores com 20/26. Nimzowitsch,
que ficou em terceiro lugar desta vez, queixou-se amargamente: “Ele está jogan-
do conosco como se jogasse com crianças”.
Alekhine costumava anotar e comentar partidas de xadrez. Seus escritos in-
cluem duas coleções sobre suas próprias partidas e um estudo sobre o torneio de
Nova Iorque, de 1924. Ele também foi um excelente teórico que ajudou a populari-
zar 1... f6 em resposta a 1 e4, uma abertura que hoje leva seu nome.
Gigantes do xadrez agressivo 11

David Bronstein (1924-2006)


Bronstein nasceu em Bila Tserkva, na Ucrânia, em 1924, e aprendeu xadrez em Kiev.
Foi campeão da União Soviética duas vezes, compartilhando o título com Kotov
em 1948 e com Smyslov em 1949. Terminou igualmente em primeiro lugar no Tor-
neio de Candidatos em Budapeste em 1950, vencendo o match da disputa contra
Boleslavsky com +3=9-2, o que lhe deu o direito de disputar o Campeonato Mun-
dial com Botvinnik. Seu match “melhor de 24 partidas” terminou com um empate
em +5=14-5, o que significa que Bronstein chegou muito próximo de conquistar o
título. Foi uma derrota extremamente irritante, pois ele estava na liderança, tendo
ainda duas partidas pela frente, quando perdeu a fatídica 23a partida.
Bronstein continuou sendo um dos melhores enxadristas durante a década
de 1950, mas jamais conseguiu disputar o título novamente. No Torneio de Can-
didatos, Bronstein ficou empatado na segunda à quarta posição em Zurique em
1953, (Smyslov, o vencedor, empatou com Botvinnik em um match pelo Campeo-
nato Mundial) e empatado em terceiro em Amsterdã em 1956.
Em seu auge, Bronstein foi um ótimo analista de aberturas. Sua notável pes-
quisa realizada junto com seu amigo e rival de torneios, Isaac Boleslavsky, provou
para um mundo cético que a Defesa Índia do Rei era possível. Bronstein também
era um ótimo escritor; seu relato do Torneio de Candidatos de 1953 em Zurique é
considerado um dos melhores livros de xadrez já escritos, quiçá o melhor.

Efim Geller (1925-1998)


Geller nasceu em Odessa, na Ucrânia, em 1925. Venceu o Campeonato da URSS em
1955, após derrotar Smyslov em um match. Venceu-o novamente 24 anos depois,
em 1979. Também obteve o segundo e o terceiro lugar várias vezes.
Geller foi um dos melhores enxadristas do mundo por mais de 20 anos sem
nunca ter tido o curto período de dois ou três anos de puro esplendor e boa sorte
que é necessário para ganhar um Campeonato Mundial. O mais perto que ele che-
gou nos Torneios de Candidatos foi em segundo lugar compartilhado com Keres
em Curaçao em 1962. Na ocasião, esteve meio ponto atrás de Petrosian, que desa-
fiou e derrotou o veterano Botvinnik na disputa pelo título mundial. Como Geller
tinha obtido +4=7-1 contra Botvinnik (um placar glorioso), um ponto a mais em
Curaçao teria lhe proporcionado uma ótima chance de alcançar a mais alta honra.
Em 1965, quando o Torneio de Candidatos fora substituído por matches,
Geller derrotou Smyslov, mas perdeu para Spassky na semifinal. Na primeira ro-
dada das séries de 1968 e de 1971, seu progresso foi interrompido por Spassky
(novamente) e por Korchnoi, respectivamente.
Geller era conhecido como um flagelo para os Campeões Mundiais do pas-
sado, presente e futuro (de sua época). Por exemplo, além de seu placar contra
Botvinnik, ele tinha (excluindo-se os empates) um placar de 11-9 contra Smyslov,
5-3 contra Fischer e contra Petrosian e estava nivelado em 6-6 com Tal.
12 Neil McDonald

Devido às suas excelentes qualidades como analista de aberturas, Geller


atuou como treinador de Boris Spassky em 1972 e de Anatoly Karpov durante o
ciclo de qualificação de 1975.
Geller escreveu uma bela coleção de seus próprios jogos intitulada The
Application of Chess Theory.

Veselin Topalov (1975-)


Topalov nasceu em Ruse, na Bulgária, em 1975. Tornou-se Grande Mestre em 1992
e conseguiu entrar para a elite mundial em 1996. Chegou às finais nos matches de
Candidatos em 2002, na decisão de um adversário para Vladimir Kramnik na dis-
puta pelo título de Campeão Mundial de Xadrez Clássico (ou seja, não organizado
pela FIDE), mas perdeu para Peter Leko.
Foi apenas em 2005 que Topalov começou a mostrar o estilo agressivo que
iria dominar os eventos a nível mundial. Um indício das coisas que estavam por vir
foi sua vitória sobre Kasparov na última rodada de Linares no início daquele ano,
que permitiu a ele dividir o primeiro lugar com o gênio russo do xadrez. Esse era o
último jogo de Kasparov antes de se aposentar das competições. Foi como se ele
tivesse entregado o bastão do xadrez dinâmico para seu oponente.
Mais tarde, naquele ano, Topalov participou do Campeonato Mundial da
FIDE em San Luis, na Argentina. Ele jogou furiosamente na primeira metade do
evento de dois turnos e obteve 6½/7, chegando ao primeiro lugar com empates
no segundo ciclo. Isso fez dele Campeão Mundial pela FIDE. O mundo do xadrez,
no entanto, estava divido com um Campeão da FIDE e outro do “Xadrez Clássico”.
Então, em 2006, Topalov jogou um match de reunificação contra Kramnik para
solucionar a questão. O Grande Mestre russo venceu (nas partidas rápidas de de-
sempate) um match arruinado por incidentes fora do tabuleiro.
Em 2009, Topalov derrotou Gata Kamsky em um match na decisão por um
adversário para Viswanathan Anand, que neste meio-tempo havia tirado o título
mundial de Kramnik.
Até o presente momento, Topalov atingiu a segunda maior pontuação ELO
já existente depois daquela de Kasparov, chegando a 2813. Ele é extremamente
respeitado e temido. Um competidor intransigente com um conhecimento fan-
tástico de abertura.

Neil McDonald,
Gravesend
Junho de 2009
1
O Elemento
Dinâmico

Como descrito na introdução, considero o estilo agressivo como uma união de


dinamismo, psicologia e preparação para aberturas agudas. De certa forma, isso é
o ideal, mas em hipótese alguma todas as partidas neste livro contêm o segundo
e o terceiro elementos em um grau acentuado. No entanto, quase sem exceções,
essas partidas são testemunhas de uma disputa dinâmica.

Então o que é o dinamismo?


Arturo Pomar foi um famoso prodígio do xadrez (e mais tarde campeão da Es-
panha) que atingiu uma posição ganhadora contra Alekhine em seu confronta-
mento em Gijon, em 1944. Aquele jogo acabou empatado, um ótimo resultado
para um garoto de 12 anos enfrentando o Campeão Mundial da época. Na partida
seguinte, que ocorreu um ano depois, Alekhine sentiu-se obrigado a correr alguns
riscos para criar possibilidades de vitória para as Pretas com a Defesa Francesa,
Variante das Trocas.

Partida 2
A.Pomar Salamanca – A.Alekhine
Madri, 1945
Defesa Francesa

1 e4 e6 2 d4 d5 3 exd5 exd5 4 d3 c6 5 c3 d6 6 f3 ge7 7 0-0 g4 8 e1


d7 9 g5 f6 10 h4 0-0-0 11 bd2 h5 12 g3 h4 13 xd6 xd6 14 h3 h5
15 e2 f7 16 b3 de8 17 c5 d8 18 c2 b6
14 Neil McDonald

Aqui, Pomar recuou seu cavalo com...


19 b3
...que levou Alekhine a dar-lhe um ótimo conselho em suas anotações:
Há posições em que uma combinação é obrigatória. A fim de evitar o esforço mental
necessário, o enxadrista perde suas chances e, pouco a pouco, encontra-se reduzi-
do à defesa e acaba sofrendo uma derrota que, logicamente, é merecida (107 Great
Chess Battles, Edward Winter, 1980).
O Campeão Mundial recomendou 19 b4!, quando 19...bxc5 20 bxc5 c6 21
ab1 visando a 22 b5 etc. daria às Brancas um ataque muito perigoso. Alekhine
disse que iria recusar a oferta do cavalo com 19... b8, já que, depois de 20 eb1
a8 21 a6 c6, as Pretas poderiam se defender, mas não achariam tão fácil con-
duzir seu ataque pela ala do rei.
Nós poderíamos dizer que 19 b4 é a única maneira de preservar a energia da
posição das Brancas. Uma vez que a oportunidade não tenha sido usada, Pomar
pode continuar efetuando lances, alguns muito bons, mas não há dinamismo, ne-
nhuma faísca de vida nesta configuração. É uma defesa lenta e entediante.
Na verdade, a partida seguiu desta maneira:
19...g5 20 h2 e6 21 c4
Pomar se preocupa com o avanço das Pretas na ala do rei e, portanto, tenta
agir no centro, mas agora ele está carregando o fardo de um peão na coluna d
permanentemente fraco.
21...dxc4 22 xc4 b8 23 ac1 d8 24 xf7 xf7 25 c4 d5
Gigantes do xadrez agressivo 15

E, agora, o Campeão Mundial gradualmente supera seu jovem adversário:


26 b5 xe1+ 27 xe1 c6 28 e2 h6 29 d2 f4 30 e4 d5 31 hf3 f5
32 h1 d8 33 c1 b7 34 b3 xe4 35 xe4 d5 36 e1 c7 37 ed2 b4
38 e6 d6 39 e8 xa2 40 e4 d8 41 xd8 xd8 42 xf6 c1 43 b4 d3
44 d5 e7 45 h7 cxd5 46 b5 g4 47 hxg4 xf2+ 48 g1 xg4 0-1
Saber jogar dinamicamente não é um luxo. É essencial, já que situações
como aquela após 18...b6 ocorrem a toda hora em partidas de xadrez. Se você
pensa que entende estratégia e vê táticas, muito bem, mas ainda parece faltar
algo no seu xadrez, talvez seja o elemento dinâmico.

Dinamismo genuíno versus ameaças de um só lance

Partida 3
P.Morphy – A.Anderssen
7ª Partida do Match
Paris, 1858
Defesa Escandinava

1 e4 d5 2 exd5 xd5 3 c3 a5 4 d4 e5 5 dxe5 xe5+ 6 e2 b4 7 f3


xc3+ 8 bxc3 xc3+ 9 d2 c5 10 b1 c6 11 0-0 f6 12 f4 0-0 13 xc7
d4 14 xd4 xc7 15 d3
16 Neil McDonald

Aqui, 15...b6 seguido por 16... b7 colocaria o bispo na sua grande diagonal
e, ao mesmo tempo, resolveria o problemas do peão solto em b7. Neste caso, as
Pretas ficariam em vantagem, devido à desfiguração da estrutura dos peões bran-
cos na ala da dama.
Em vez disso, eis como seguiu-se:
15... g4
Adolf Anderssen não conseguiu escapar da ideia que diz que desenvolvi-
mento com ganho de tempo é algo bom. O célebre mestre alemão era capaz de
realizar estratagemas encantadores com as peças, calcular até 15 lances, criar a
Partida Sempreviva e a Partida Imortal, mas não de jogar 15...b6 e 16... b7, coisa
que qualquer mestre mediano consegue fazer nos dias de hoje.
16 g5!
Em vez de colocar-se confortavelmente em b7, controlando a grande diago-
nal de uma distância segura, o bispo encontra-se deficientemente colocado em
g4 e está sujeito a uma ameaça tática, isto é, 17 xh7! xh7 18 xg4.
16... fd8?
Aqui, temos mais um lance de ataque sem finalidade. A torre entra na parti-
da com ganho de tempo ao ameaçar a dama branca. Mas, e daí? A dama refugia-
-se em uma casa melhor que d4 e, então, o que fará a torre em d8? Não há nada
para atacar. E, enquanto isso, abandonou a defesa de f7, a casa mais vulnerável no
campo das Pretas.
Uma alternativa interessante seria 16... d7, que tem como objetivo colocar
o bispo na grande diagonal com 17... c6. Isso protegeria tanto o bispo quanto o
peão em b7 de ataques.
17 b4!
Nesse momento a dama branca ataca b7, sustenta a ameaça de 18 xh7! xh7
19 xg4, e controla uma casa para uma possível invasão para uma torre em e7.
17... c8
Quando pensamos nas belas combinações feitas por Anderssen, esse é um
recuo lamentável.
Gigantes do xadrez agressivo 17

18 fe1

Apesar da perda de tempo das Pretas com o bispo, se nada ocorrer rapi-
damente, elas desenvolverão suas peças e emergirão com o melhor jogo no
fim das contas, já que as Brancas têm peões isolados na ala da dama. Por esse
motivo, Morphy deve assegurar-se de que pressionará a defesa das Pretas e ga-
nhará pelo menos um peão antes que seu adversário possa organizar-se. Isto
significa que é essencial que as Brancas ataquem imediatamente, sem perda
de tempo.
Tenho certeza de que você pode perceber a razão pela qual a iniciativa imi-
nente de Morphy é de uma magnitude muitas vezes maior do que as ameaças
de um lance de Anderssen como 15... g4 e 16... fd8. O americano tem todas as
peças desenvolvidas e bem coordenadas, enquanto que seu adversário tem se
contentado com ataques isolados.
18...a5
Insuficiente, mas ele não pode simplesmente permitir 19 e7. Se, em vez
disso, 18... d7, é mate em três, tanto com 19 e8+! xe8 20 xh7+ h8 21 f8
mate, ou com 19 xh7+ xh7 20 e8+ etc.
19 e7!
Morphy, apesar de ser reconhecido como mestre do ataque de mate, não
pensa duas vezes antes de trocar as damas, já que percebe que o peão em f7
ficará sem defesa.
19... xe7
É claro que se 19... d7, 20 e8+ resultaria em mate.
20 xe7 d5
É uma maneira inteligente de criar o contrajogo, como é de se esperar de
Anderssen. Sem esperança é 20... f8 21 c4, quando o peão em f7 é atacado três
vezes e deve acabar sendo capturado.
21 xh7+ h8 22 xf7 c3 23 e1 xa2
18 Neil McDonald

Esta é a ideia de Anderssen: um peão passado na ala da dama que, caso


nada ocorra na ala do rei, poderia muito bem vencer a partida.
Portanto, Morphy precisa agir rapidamente para concluir seu ataque. As
chances são boas: ele tem duas torres, um bispo e um cavalo atacando o rei pre-
to, enquanto há apenas duas peças pretas vagamente interessadas na defesa –
que são o bispo em c8, que está protegendo algumas casas brancas, e a torre
em d8, que está tentando impedir 24 ee7?? ou 24 e4??, tendo em vista 24...
d1+ mate. Isso não será suficiente para salvar as Pretas, mesmo com a troca das
damas.
24 f4!
A torre está bem posicionada na sétima fileira, mas seria ainda melhor se
conseguisse chegar à coluna h. Assim, se 24...a4 25 g6 contém a ameaça ganha-
dora de 26 h4+ g8 27 f7+ f8 28 h8 mate.
Mesmo que se possua uma peça bem colocada, pergunte a si mesmo: ela
estaria melhor coordenada com as outras peças se fosse transferida para outra
casa? No xadrez não existe o culto do individual, o importante é como todas as
peças funcionam melhor em conjunto.
Gigantes do xadrez agressivo 19

24... a6
Mais uma vez, podemos ver que Anderssen é um jogador que consegue tirar
o máximo de cada peça. Ele traz a torre para o combate de uma maneira não tra-
dicional esperando induzir seu adversário a 25 f7+ xh7 26 xd8. Assim, pode
continuar na disputa, embora as Brancas ganhem de qualquer forma neste caso.
Mas Morphy sabia instintivamente uma das regras de ouro do xadrez: se você en-
xergar um bom lance, procure um ainda melhor!
25 d3! 1-0

Agora, o problema mais letal das Pretas é que a torre em d8 tem que man-
ter-se defendendo a oitava fileira, mas não há nenhuma casa segura. Com o bispo
branco removido de h7, 26 f7+ e 27 xd8 ameaça ganhar uma torre inteira. Se
25... xd3, que lida com a ameaça de 26 f7+ (ou 26 xa6) da maneira mais eco-
nômica, as Brancas poderiam dar mate com 26 e8 ou com 26 f8. Então, a única
casa segura é g8, mas 25... g8 26 f7 também é xeque-mate.
Dica: quando os seus melhores lances permitirem xeque-mate pelo adversá-
rio em um lance, é hora de abandonar a partida.

Será que Anderssen calculou mal aqui? Será que Morphy o destruiu comple-
tamente com um sacrifício brilhante? Não. A superioridade do americano estava
em coordenar suas peças e escolher o momento certo para começar um ataque
com todas as suas forças. Anderssen conseguia calcular tão bem ou ainda melhor
que seu adversário e também conseguia encontrar coisas criativas para se fazer
com qualquer peça individualmente. A grandiosidade de Morphy estava em sa-
ber como combinar todas suas peças em uma força extremamente poderosa e,
então, liberá-la no momento certo. Sua compreensão sobre as ideias de força e
ritmo de uma batalha estavam muito à frente de seu tempo.
20 Neil McDonald

O que é uma combinação?


A pista é a palavra em si, envolve combinar a ação de nossas peças para mudar ra-
dicalmente o equilíbrio de energia entre os dois exércitos. Também podemos falar
de combinação como a exposição de maneira dramática da falta de coordenação
entre as peças do adversário.
Ambas as definições ajudarão na tarefa de desvendar as combinações. É
preciso que percebamos quando há falta de harmonia no campo inimigo e onde
o nível de energia de nossas próprias peças está concentrado e, então, nos per-
guntarmos: existe algum lance ou ideia louca que possa exagerar esses dois fato-
res, nossa própria energia e a falta dela no adversário?
Combinações são uma parte essencial do xadrez agressivo, uma maneira rá-
pida de utilizar o dinamismo, por assim dizer.

Partida 4
D.Bronstein – V.Korchnoi
Match Moscou contra Leningrado, 1962
Abertura Ruy Lopez

1 e4 e5 2 f3 c6 3 b5 a6 4 a4 f6 5 0-0 xe4 6 d4 b5 7 b3 d5 8 dxe5


e6 9 c3 e7 10 c2 0-0 11 e2 f5 12 exf6 xf6 13 bd2 f5 14 xe4 xe4
15 xe4 dxe4 16 xe4 d7 17 f4 ae8 18 c2 h4 19 g3 xg3 20 hxg3
e5 21 xe5 xe5 22 fe1 d5 23 ad1 c5 24 a4 d8 25 xd5 xd5 26 axb5
axb5 27 e2 b4 28 cxb4 cxb4 29 g4 b3 30 h2 f7 31 g5 d7 32 f3 h6 33
e3 d8 34 g4 h8

Korchnoi ficou sob pressão por muito tempo, não só por estar com um peão
a menos, mas, também, por ter que lidar com a fraqueza de b3. E, devido à pressão
de tempo, ele pensou ter visto sua salvação quando Bronstein jogou:
Gigantes do xadrez agressivo 21

35 b6
A resposta foi rápida:
35... d2
De repente, há uma ameaça dupla com 36... xb2 ou 36... xf3. Será que nos-
so herói cometeu um erro tolo?
36 b8+ h7 37 e8!
Deixando as Pretas conduzirem sua ameaça.
37... xf3
Voltaremos à 37... xb2 adiante neste capítulo.
38 h8+ g6
Com mate em g2 e com o peão b2 exposto, parece que Bronstein terá que
encontrar um xeque de dama para conseguir o empate. Em vez disso, seguiu:

39 xh6+!! 1-0
As Pretas perdem sua dama depois de 39...gxh6 40 g8+ f6 41 f8+ g6
42 xf3, ou 39... xh6 40 h8+ g5 (ou 40... g6 41 h5+ f6 42 g5+ seguido
por 43 xf3) 41 h5+ f4 (ou 41... f6 42 g5+) 42 f5+ e3 43 xf3+.

A combinação das Pretas teve que ser planejada antes de mover 35 b6,
caso contrário teriam perdido sua vantagem e colocado em risco o empate. A
questão é: como podemos nos treinar para enxergarmos ideias como 39 xh6+?
Essa é uma regra geral que pode ser útil: ao atacar o rei inimigo com uma dama
e uma torre, não havendo defensores à vista, apenas uma pequena proteção de
peões, não se deve acreditar que eles conseguirão salvar o rei. Deve-se procurar
lances “loucos” para ultrapassar a barreira!
Podemos aperfeiçoar a regra acrescentando que o rei odeia ser posto em
xeque pela dama inimiga bem de perto. Então, ao atacar o rei adversário com uma
dama e uma torre, é necessário tentar encontrar uma maneira de dar um xeque
com a própria dama bem de perto, não importa quão louco isso possa parecer. E,
22 Neil McDonald

quando encontrar uma maneira de efetuar este xeque, procure um segundo xeque
que possa sucedê-lo. Então, 39 xh6+ é um lance maluco, mas nos dá 40 g8+ e 1
f8+: dois xeques à curta distância, um seguido do outro; ou 40 h8+ e 41 h5+,
outros dois xeques feitos de perto. Uma vez que percebamos que os dois primei-
ros xeques ganham a dama adversária, nos animamos e vemos a força de 42 g5+
depois do segundo xeque, o que também ganha a dama adversária. Bingo! Aqui, a
chave da posição é o peão em g4. As Brancas ganham porque conseguem coorde-
nar a ação de sua dama e de seu peão, que é uma peça vital para ela.
Como dissemos acima, Bronstein precisou enxergar 39 xh6+ antes de
35 b6. Isso pode parecer muito adiante, mas não se esqueça de que a posição
tem relativamente poucas peças. As Brancas só tinham que focar em lances com
a dama e a torre que pressionassem o adversário, nada mais. A verdadeira dificul-
dade está em perceber que 39 xh6+ existe como uma opção.

Lances promissores merecem ser calculados

Partida 5
V.Topalov – V.Kramnik
Linares, 1994
Defesa Siciliana

1 e4 c5 2 f3 c6 3 d4 cxd4 4 xd4 f6 5 c3 d6 6 f3 e5 7 b3 e7 8 e3
e6 9 d5 xd5 10 exd5 b4 11 c4 a5 12 d2 d7 13 e4 f5 14 c3 0-0 15
e2 g5 16 f2 f6 17 0-0 a6 18 d3 h6 19 e2 ae8 20 c2 ac5 21 g3
e4 22 f4 d8 23 a3 f6 24 g2 b6 25 g1 cd7 26 b5 xg1 27 xg1 g6

No diagrama da posição, as Brancas gostariam muito de ocupar a casa d6,


mas 28 xd6? enfrenta o contragolpe 28... xd5!, que ameaça 29... xf4+ ganhan-
do a dama, quando, depois de 29 cxd5 xd6, as Pretas obtêm uma boa posição
Gigantes do xadrez agressivo 23

graças à fraqueza do peão em d5 e à força de seu próprio peão passado protegido


em e4.
Então Topalov teve que contentar-se temporariamente em ganhar espaço
na ala da dama.
28 b4 c8
Novamente oferecendo o peão em d6. Agora um tema tático aparece, por-
que, depois de 29 xd6, não só a torre em c8 estaria desprotegida, como também
seria possível ocorrer o garfo da dama preta e do seu rei por e7, isto é: xd6, xc8
e e7+ e xg6. As Brancas ganhariam uma boa quantia de material!
Por outro lado, as Pretas ainda podem retaliar com 29... xd5 e, se as Brancas
persistirem com xc8, elas têm ... xf4+ e ... xe2, ganhando a dama branca.
Até agora, para as Brancas: xd6, xc8, e7+ e xg6; para as Pretas: ...
xd5, ... xf4+ e ... xe2.
Certamente um bom negócio para as Brancas, não é mesmo? Elas capturam
em sequência um peão, uma torre e a dama, enquanto as Pretas ganham dois
peões e a dama. Se nós olharmos mais longe ainda, veremos que o cavalo branco,
que vai para g6, depois de xg6, estará atacando a torre preta em f8, enquanto o
cavalo preto em e2 estará atacando a torre branca em g1. Isso mais ou menos anu-
la a situação: ambos os lados terão um cavalo exposto e ambos os cavalos estarão
atacando uma torre. Poderíamos acrescentar que ... xf4+ deveria ser enfrentado
com f1, para que o cavalo preto estivesse de fato exposto em e2 para xe2.
Portanto, depois de uma série de golpes de retaliação, as Brancas emergi-
rão com praticamente uma torre extra por alguns peões. Vamos imaginar esta
sequência: 29 xd6 xd5 30 xc8 xf4+ 31 f1 xe2 32 e7+ f7 33 xg6.

Facilmente percebe-se que, depois de 33... xg6 34 xe2 ou 33... xg1 34 xf8
xf8 35 xg1, as Brancas têm uma torre extra. Portanto, as Pretas têm que criar
uma pequena sutileza nesta sequência, ou irão perder.
Tendo visto isso, Topalov sabe que 29 xd6 tem a capacidade para ser um
lance muito bom. Vale a pena, portanto, que dedique energia considerável para
24 Neil McDonald

descobrir se este é realmente um bom lance. Afinal, a recompensa é evidente: se


as Pretas perderem o importante peão d6 sem compensação suficiente, seu jogo
estará arruinado. O búlgaro conseguirá, assim, vencer um dos jovens enxadristas
mais promissores do mundo.
Então, vejamos o que aconteceu na partida. Para alguns lances, segue a se-
guinte análise:

29 xd6! xd5! 30 xc8 xf4+ 31 f1 f6


Percebendo que perderá, como discutido acima, depois de 31... xe2 32
e7+ f7 33 xg6, Kramnik evita esta sequência ao contra-atacar a1.
32 e7+!
O cavalo salva-se da captura com um ganho de tempo importante. Se, ago-
ra, 32... xe7 33 gxf4, deixa as Brancas com uma torre extra.
32... h8 33 d1!
Gigantes do xadrez agressivo 25

A dama vai para um local seguro e protege a1, deixando ambos os cavalos
pendurados.
33... h3
Apesar disso, a posição continua tensa, já que e7 e g1 estão ambos en prise.
34 d5!
O cavalo branco completa sua fuga do território inimigo. Agora, as Pretas
não têm tempo para captura em g1, já que sua a dama está pendurada.
34... b2 35 g2 f4
Tendo uma torre a menos, a última cartada de Kramnik é um ataque direto
ao rei branco, relativamente exposto.
36 gxf4 e5!? 37 a2!
Como podemos ver, isso prepara uma ideia de defesa bem engenhosa.
37... b6
As Pretas conseguiriam o ataque desejado depois de 38 xb6? xf4+, mas
a resposta das Brancas destrói sua iniciativa.
38 a1!
A possibilidade de mate com xg7 significa que as Pretas não têm uma boa
maneira de evitar a troca de damas, depois da qual toda a esperança estará perdida.

38... xf4+ 39 e1! 1-0

Há posições em que uma combinação é obrigatória


Aqui está um exemplo de Alekhine seguindo seu próprio conselho em um jogo
no final de sua carreira. A propósito, isso mostra que o quarto Campeão Mundial
ainda estava jogando com talento e imaginação poucos anos antes de seu faleci-
mento. Se Alekhine tivesse continuado vivo e com boa saúde no ano de 1946, ele
poderia ter posto Botvinnik num sufoco no match pelo Campeonato Mundial que
estava marcado para ocorrer entre os dois.
26 Neil McDonald

Partida 6
A.Alekhine – J.Podgorny
Praga, 1943
Defesa Siciliana

1 e4 c5 2 c3 d5 3 exd5 xd5 4 d4 c6 5 f3 g4 6 e2 cxd4 7 cxd4 e6 8 c3


b4 9 0-0 a5

Se, neste momento, as Brancas se satisfizessem em defender c3 com a joga-


da calma 10 d2, as Pretas as alcançariam em termos de desenvolvimento com
10... f6 e 11...0-0. Dessa forma, as Brancas não só teriam falhado em ganhar qual-
quer vantagem na abertura, como também estariam pior devido ao peão isolado
em d4.
Então Alekhine fez o “esforço mental necessário” e, depois de uma análise
minuciosa da posição, realizou uma das melhores combinações de sua vida.
10 a3!!
De início pareceu estranho atacar o bispo, já que o peão em a3 está cravado.
Mas os olhos de Alekhine, afiados para a tática, visualizaram uma chance de pro-
duzir uma cilada para a dama preta.
10... f6
Depois de 10... xc3 11 bxc3 xc3 12 b1 0-0-0, tanto 13 a4 quanto 13
e3 dão às Brancas um ataque muito perigoso ao rei preto. Como uma alterna-
tiva, se, em vez de rocar, as Pretas devolvessem o peão com 12... ge7, então 13
xb7 0-0 14 a4! ainda as deixaria com um grande problema. Uma das diver-
sas ameaças é 15 b2 a5 (não há nenhuma outra casa segura para a dama) 16
xa5 xa5 17 xe7 e as Brancas ganham uma peça.
Gigantes do xadrez agressivo 27

11 d5!

No campo de batalhas, o gênio militar Alexandre, o Grande, frequentemente


escolhia atacar um exército hostil no seu ponto mais forte ao invés de no mais fra-
co. Ele pensava que o general inimigo e seus conselheiros mais próximos prova-
velmente se posicionariam atrás das defesas mais seguras. Portanto, uma rápida
invasão nesse setor, mesmo com um custo muito alto, poderia resolver rapida-
mente questões com a decapitação do chefe do exército inimigo.
Nós, enxadristas, temos menos sede de sangue do que os reis guerreiros da
Macedônia, mas ainda podemos aprender com suas técnicas. Aqui, Alexander, o
Enxadrista, escolheu atacar seu adversário na casa mais protegida do seu centro.
As Pretas têm três unidades – a dama, o cavalo em f6 e o peão em e6 – todas fa-
zendo resistência direta a esta ruptura, junto às possibilidades latentes de ... d8
(ou ...0-0-0), e ... xc3, retirando o defensor do peão, para depois detê-lo. Ainda
assim, tão explosivo é o poder da combinação de Alekhine, que o peão prossegue
o ataque. Ele planeja causar o máximo de transtorno para o monarca inimigo, que
está posicionado desconfortavelmente em e8 e, também, para seu “conselheiro
particular”, a dama, que será obrigada a fazer uma jornada perigosa para a1.
Vamos observar minuciosamente algumas variantes que o Campeão Mun-
dial deve ter analisado. Se 11... d8 ou 11...0-0-0, 12 b3! é muito forte, pois
12... xc3 13 dxc6! deixa tanto c3 quanto b7 pendurados. Nada muito difícil de se
imaginar até agora.
Mais complicado para calcular é 11... xd5, quando descobrimos um dos
pontos principais da combinação de Alekhine, isto é, o aprisionamento da dama
preta em a1: 12 xd5 exd5
28 Neil McDonald

13 axb4! xa1 14 b3! (tirando sua própria dama do caminho para que o
bispo se mova, digamos que com 15 d2, ganharia a dama oposta) 14... xf3 15
g5! xf1+ 16 xf1 e4 17 f3, então, o rei preto estará sob ataque no centro e
suas peças não poderão lhe proporcionar uma defesa adequada.
Durante o jogo, Podgorny conseguiu manter sua dama e também rocar, mas
perdeu muito material neste processo.
11...exd5 12 axb4! xa1 13 d2!

Ameaçando tanto 14 xg4 quanto 14 b3!, deixando a dama preta sem


nenhuma casa segura.
13... xe2 14 xe2+ e7
Se, em vez disso, 14... f8, as Brancas continuariam com 15 b3 a6 16 b5
e ganhariam o cavalo, levando a um equilíbrio de material no jogo, mas com o rei
preto preso no centro.
15 e1! 0-0
Gigantes do xadrez agressivo 29

Acontece que as Pretas não tinham uma boa maneira para defender e7; se,
agora, 16 xe7?? fe8, as Pretas estariam de repente ganhando. Então a combi-
nação das Brancas falhou? Não, Alekhine tinha enxergado um pouco além:
16 b3! a6
O único lance, mas agora as Brancas podem capturar o cavalo com segurança.
17 xa6 bxa6 18 xe7
A poeira assentou. Alekhine tem duas peças por uma torre e um peão, o que
não soa como uma vantagem esmagadora. Entretanto, suas peças menores estão
a salvo e unidas. Alem disso, têm algumas casas centrais boas, especialmente d4,
ao passo que as torres pretas não possuem nenhuma coluna aberta interessante,
nem um peão passado forte para auxiliá-las.

18... ab8 19 b5!


Não deixando o cavalo em b3 ser perturbado pela torre preta.
19...axb5 20 xa7 b4 21 e2 fc8 22 f3 a8 23 xa8 xa8 24 f2 d7 25 f4
b6 26 e3 c8 27 d3 g5 28 h5 1-0
30 Neil McDonald

As Pretas perdem as esperanças de conseguir defender seus peões fracos.


Uma mostra espetacular de dinamismo dada por Alekhine.

Mesmo sem damas, você não pode depender de lances


naturais
A próxima partida parece, à primeira vista, ser de natureza mais posicional do
que dinâmica. Mas, com uma pequena análise, logo vemos que Geller não teria
chegado a lugar algum se tivesse contado com lances “naturais” ou “estratégicos”.
Pelo contrário, ele teve que se preparar para descobrir e analisar nuances táticas
importantes, caso contrário, seu adversário altamente engenhoso teria escapado
de seu alcance.

Partida 7
E.Geller – P.Keres
Campeonato da URSS
Moscou, 1952
Defesa Nimzo-Índia

1 d4 f6 2 c4 e6 3 c3 b4 4 e3 b6 5 d3 0-0 6 f3 d5 7 0-0 b7 8 d2 dxc4


9 xc4 c5 10 a3 cxd4 11 axb4 dxc3 12 xc3 e4 13 xd8 xd8 14 fd1 c8

As Brancas têm três pequenas vantagens na posição mostrada neste diagrama:


1) O par de bispos.
2) A pressão sobre o peão a7.
3) O controle da coluna d, que impede ... c6, tendo em vista d7.
Todas essas vantagens estavam a ponto de sumir com os próximos lances,
mas vejamos como Geller as preservou.
15 e1!
Gigantes do xadrez agressivo 31

Bom, pode parecer uma maneira estranha de começar um ataque! Na ver-


dade, Geller está poupando energia com sua posição ao evitar a troca 15... xc3,
que também abriria caminho para uma segunda troca com 16... xf3. Manter o
cavalo preto em e4 e o bispo em b7 é bom para as Brancas, pois elas podem ga-
nhar tempo ameaçando-os. De maneira parecida, Geller precisa preservar suas
próprias peças para o futuro ataque.
15... f8
É claro que, se as Pretas jogarem 15... xc4??, elas levarão mate. Então Keres
leva seu rei rapidamente para o centro e torna a ameaça ao bispo branco real.
16 d4
O Grande Mestre ucraniano defende seu bispo, ataca o cavalo em e4 e pre-
para-se para dobrar as torres na coluna d.
16... e7
Em princípio, manter o rei reforçando suas defesas ao longo da coluna d é
algo útil para as Pretas, mas elas têm que sempre estar atentas para um repentino
b4-b5 e b4+. No momento, isso não representa um perigo, já que as Pretas po-
dem responder com ... c5, bloqueando o bispo; no entanto, caso o cavalo saia de
e4 ou seja eliminado, o xeque pode ser bem doloroso.
17 ad1
A entrada do rei preto não resolveu o problema do desenvolvimento da ala
da dama, pois 17... c6 permitiria tanto 18 xe4 quanto 18 d7+.
17... c7

Agora, no entanto, as Pretas estão prestes a jogar 18... d7 com igualdade.


Parece que as Brancas não têm como evitar isso com 18 e5??, porque 18...f6
19 f3 e5 resulta no ganho de material (afasta a torre branca de d4, perdendo o
bispo em c4). Mas Geller criou o hábito de jogar lances “impossíveis” ao longo de
sua carreira.
18 e5!
32 Neil McDonald

A única maneira de manter sua vantagem. Se as Brancas tivessem sido pre-


guiçosas e não tivessem enxergado além de 18...f6 antes de rejeitar este lance
por parecer uma burrada, Keres teria escapado. Em vez disso, ele foi impedido de
jogar 18... d7 e permaneceu bloqueado. Mas a pergunta persiste: o que acon-
teceria se as Pretas jogassem com o objetivo de ganho material? A resposta veio
durante o jogo:
18...f6 19 d3!
Se fosse jogado 19...fxe5, Geller pretendia explorar a falta de desenvolvi-
mento das Pretas com algumas cravadas (diagonal e frontal): 20 xe4 xe4 (não
é forçado, mas, caso contrário, ele fica apenas com alguns peões feios na coluna e)
21 xe4 c6 22 b5 d8 23 c1! e as Brancas acabarão com duas peças por uma
torre.
19... d6

Keres está pronto para responder a 20 xh7? fxe5 21 xd6 com 21... d5!,
trancando a torre branca em d6 e ganhando vantagem com a troca. Então Geller
teria que recuar com 20 c4 xc4 21 xc4, momento em que as Pretas con-
seguiriam a igualdade com 21... c6. Isso seria uma pena, mas teria sido uma
excelente defesa do Grande Mestre estoniano. Ambos aceitariam um empate
neste momento.
Mas não, não foi assim que o jogo acabou. Geller mais uma vez realizou um
lance “impossível”:
20 xh7! fxe5 21 xd6 d5
A torre está, de fato, presa em d6, mas Geller já havia previsto que ela pode-
ria ser sacrificada a fim de alcançar um final em que as Brancas tivessem chances
promissoras.
22 6xd5! exd5 23 xd5 c1 24 f1 c6 25 e2 d8 26 xd8 xd8 27 c3
e6
Gigantes do xadrez agressivo 33

As Pretas completaram seu desenvolvimento e, apesar de tudo, os jogado-


res estão com a mesma quantia de pontos: as Brancas têm dois peões pela qua-
lidade. No entanto, não há muito o que a torre preta possa atacar, já que b2 e b4
estão bem defendidos. Enquanto isso, o par de bispos brancos pode exercer uma
pressão enorme sobre os peões pretos da ala do rei. Em apenas alguns lances, o
peão em g7 é retirado do tabuleiro, ao passo que as Brancas têm três peões pas-
sados um ao lado do outro.
Com a posição diante de nós, não é muito difícil perceber que as Brancas
têm chances excelentes. Mas não nos esqueçamos de que, antes de agir, Geller
teve que se convencer de que este final simplificado seria bom para ele. Ele teve
que usar tanto seu poder de cálculo quanto de julgamento.
Eis a conclusão da partida:
28 g8+ d6 29 f4 exf4 30 exf4 e6 31 e5+ d5 32 xg7 c8 33 xe6+
xe6 34 f3 c4 35 c3 d5 36 h4 a5 37 bxa5 xc3+ 38 bxc3 bxa5 39 h5
e6 40 e3 1-0
Depois de suas façanhas analíticas que ocorreram no início jogo, não é ne-
nhuma surpresa o fato de Geller ter conseguido fazer com que seu rei chegasse
em tempo de parar o peão passado preto. Um empenho esplêndido.

Dinamismo e psicologia
Na próxima partida, Alekhine consegue incluir um elemento dinâmico que é alta-
mente desagradável para seu adversário.
Richard Réti era, no mínimo, equiparado a Alekhine no campo da estratégia
quando jogava com as Brancas e tinha a chance de adotar uma de suas amadas
aberturas de flanco. É preciso lembrar que ele utilizou a abertura que hoje leva
seu nome para derrotar Capablanca em Nova Iorque, em 1924, que foi a primeira
derrota do cubano em oito anos. Se o Grande Mestre nascido húngaro tinha uma
fraqueza, ela era na área da tática. Ele parecia subestimar a importância do dina-
34 Neil McDonald

mismo e do cálculo e se deu tão bem com as Aberturas Réti e Inglesa porque elas
não somente davam-lhe a oportunidade de demonstrar sua maestria em estraté-
gia, mas também ajudavam a mascarar suas deficiências táticas.
Foi dito com frequência que Alekhine apreciava o “raciocínio pós-jogo”. Ou
seja, depois de vencer uma partida com um ataque complexo, que envolvia julga-
mento, intuição e cálculo, ele resolvia todas as variantes no sossego de seu quarto
de estudos e depois afirmava ter visto tudo claramente durante o próprio jogo. Na
partida contra Réti, é possível se perguntar: o que as Pretas realmente precisavam
ver em vários pontos de seu ataque?

Partida 8
R.Réti – A.Alekhine
Baden-Baden, 1925
Abertura Réti

1 g3 e5 2 f3 e4 3 d4 d5 4 d3 exd3 5 xd3 f6 6 g2 b4+ 7 d2 xd2+


8 xd2 0-0 9 c4 a6 10 cxd5 b4 11 c4 bxd5 12 2b3 c6 13 0-0 e8 14
fd1 g4 15 d2 c8 16 c5 h3 17 f3 g4 18 g2 h3 19 f3 g4

Aqui Alekhine reclamou um empate por repetição erroneamente. Pensa-se


que foi um estratagema para persuadir o adversário a colocar seu bispo em uma
casa inferior. Depois de tudo, tendo protestado seu direito a continuar o jogo, foi
um pouco embaraçoso para Réti concordar com um empate com 20 g2.
20 h1 h5!
Alekhine impede o avanço das Brancas na ala da dama com um avanço de
seu próprio peão na ala do rei. Como vemos, o recuo do bispo branco para h1 e o
enfraquecimento do peão em g3 aumentam a energia latente das peças pretas.
21 b4 a6 22 c1 h4 23 a4 hxg3 24 hxg3 c7 25 b5
Gigantes do xadrez agressivo 35

Réti começa um ataque imediato na ala da dama. Em vez disso, o preliminar


25 e4 tiraria o cavalo preto do centro e evitaria todas as táticas indesejáveis que
seguiram. Por outro lado, Réti adorava segurar seus peões centrais e não queria
atrapalhar a vista que o bispo tinha da casa c6.
25...axb5 26 axb5 e3!

Psicologia e dinamismo! Alekhine não dá uma segunda chance a seu adver-


sário de desalojar o cavalo em d5 com 27 e4. Portanto, é negado a Réti um jogo
calmo e organizado, no qual poderia demonstrar seu talento em estratégia.
Como Alekhine encontrou esta ideia? Bem, lembre-se do que falamos no
trecho de Bronstein anteriormente:
Se você estiver atacando o rei adversário com uma dama e uma torre, tente en-
contrar uma maneira de dar um xeque com sua dama bem de perto, não importa
quão louca a ideia pareça.
Aqui a dama preta está olhando fixamente para a casa g3, que foi enfraque-
cida por 20 h1 e 23...hxg3. Um lance louco de ataque com a torre seria 26... e3,
que abre caminho para um xeque depois de 27 fxe3 xg3+. Uma vez que come-
çamos a olhar isso, não precisamos ver além de 28 g2 xe3 para perceber que
as Brancas levam mate em g2. O fato de a dama branca ficar desprotegida depois
de 28... xe3 não é de relevância objetiva, mas é um ótimo amplificador de con-
fiança: “Se eu estiver sonhando e não for mate forçado em g2, isso não importa, já
que as Brancas não terão tempo de salvar sua dama!”
27 f3?
Réti perde a compostura e imediatamente comete uma tolice. Ao apressar
os defensores em direção a um rei em perigo, é comum acabar causando mais
transtorno do que a ameaça original. Este cavalo tinha um papel importante em
d4, protegendo os peões em b5 e e2. Pior ainda, recuar para f3 confina o bispo em
h1, fazendo-o perder sua influência no centro. Esta redução de energia das peças
brancas permite que Alekhine comece uma série de operações táticas.
O lance lógico seria 27 f3!, que desafia o bispo preto e, em vez de diminuir,
aumenta a força do domínio das Brancas sobre a casa e2.
36 Neil McDonald

27...cxb5
As Brancas perderam o controle e são atingidas cada vez mais por ondas de
ataques, sem nenhum momento para recuperar o fôlego.
28 xb5
Se Réti tivesse mantido seu cavalo em d4, ele poderia ter respondido com 28
xb5, e então evitado todo o sofrimento que segue.
28... c3!

O primeiro objetivo de Alekhine é conquistar o peão em e2. É um alvo per-


feito devido às seguintes razões:
1) Está em uma casa sensivelmente tática, sendo a distância até um garfo de
cavalo que ataque a torre em c1 e o rei em g1.
2) Está executando um papel vital de defesa ao proteger f3 contra o ataque
da torre e bispo pretos.
3) Pode ser atacado com ganho de tempo ao atingir a dama branca.
As Pretas ainda têm uma torre desprotegida em e3, mas sabem que, depois
que as Brancas salvarem a dama, as pretas sairão na frente com ... xe2+ atacando
a torre branca em c1. Portanto, nenhuma variação precisava ser calculada aqui. Só
era necessário perceber que, depois de 29 c4 b5!, a dama branca teria que de-
sistir de sua defesa de e2.
29 xb7 xb7 30 xb7 xe2+ 31 h2
Até aqui, Alekhine não precisou calcular muito. Ele sempre teve o luxo de
saber que 31... xc1 estaria pelo menos bom para ele. Na verdade, isso daria a ele
uma pequena mas insignificante vantagem depois de 32 fxe3.
Portanto, nesse ponto as Pretas precisam começar a pensar mais nos seus
lances. Elas não chegam a nenhum lugar especial com 31... xf3 32 xf3 xc1
(ou 32... xf3 33 xe2) 33 fxe3 etc. Como alternativa, 31... xf3 32 xe2 xg3 33
xg3 xe2 as deixaria com um peão extra. Melhor assim, mas ainda é praticamente
impossível vencer. Então, quais outros lances são possíveis? Examinando bem a
posição, você deve encontrar o lance de Alekhine.
Gigantes do xadrez agressivo 37

31... e4!
As Pretas atacam tanto a torre em d2 quanto o peão em f2. Vale repetir que
Alekhine não está arriscando absolutamente nada ao deixar sua torre desprote-
gida em e3. Depois de 32 fxe3 xd2, o material está equivalente, mas com a torre
branca em c1 e o cavalo em f3 pendurados. Portanto, as Pretas provavelmente
ganharão com a captura de material. E isso é comprovado depois de 33 xd2
xc1, quando elas ganham qualidade, ou 33 c2 xf3+ 34 xf3 xf3 ganhando
uma peça.
Como alternativa, 32 d8+ xd8 33 fxe3 foi indicado como a melhor chance
para as Brancas, mas perde-se totalmente as esperanças após 33... d5! 34 c4
2xg3. As Brancas não perderão apenas esse peão, perderão mais material por-
que seu rei está muito mal posicionado, por exemplo: 35 g2 f1+! 36 xf1 (se
36 g1 d1 37 xf1 xf3 e vence com 38... d2 devido à cravada em f1) 36...
xf3 e não existe uma boa resposta para a ameaça de 37... h5+ 38 h3 g5 que
ganha uma peça, já que 38 g1 h1 é mate. Alekhine não precisava enxergar
tudo isso, já era suficiente ver 34... 2xg3 e concluir que as Pretas teriam um peão
a mais com uma forte iniciativa.
32 c4!
38 Neil McDonald

Réti tenta confundir o adversário com seu lance inteligente de torre. Se


32... xf3 33 xe4!! é um lance digno de um dos seus estudos de finais. Na sequên-
cia, 33... xe4 (depois de 33... xe4 34 xf3 iguala) 34 fxe3 xh1 35 xh1 xg3+ 36
g2 dá às Brancas um final no qual possam sobreviver.
32... xf2
A torre de Alekhine está pendurada em e3 desde o lance 26! Mas agora ele
retira a ameaça, ganhando um peão e deixando g3 mais fraca.
33 g2
Esperando por 33... xf3 34 xf3 xf3 35 xe2 com grandes chances de em-
pate. Infelizmente para Réti, ele não apenas está com um peão a menos, como seu
adversário também pode atacar seu rei.
33... e6!
Começando um reagrupamento de suas peças. Ele ataca a torre em c4 e ga-
nha tempo para seu próximo lance, que obriga o rei branco a ir em direção de um
ataque descoberto.
34 cc2
Réti ataca e2. Se ele tentar 34 c5, então 34... aa3! será esmagador.
34... g4+ 35 h3 e5+
Suspeito que foi neste ponto que Alekhine criou sua combinação final. Tudo
podia ser imaginado devido ao pequeno número de peças no tabuleiro e à na-
tureza forçada do lance. Como você verá, as Brancas não têm quase nenhuma
escolha com estes lances.
36 h2

36... xf3! 37 xe2 g4+ 38 h3 e3+!


38... f6!? era uma alternativa interessante, ameaçando mate em h6. Então,
depois de 39 xe6 fxe6 40 xg4 a4+, as Brancas levam mate com 41 h3 h6,
ou 41 g5 f5+ 42 g6 g4 e mate! No entanto, as Brancas conseguiriam conti-
nuar lutando em uma posição perdida com 39 h4!.
39 h2 xc2 40 xf3 d4 41 f2 xf3+ 42 xf3 d5! 0-1
Gigantes do xadrez agressivo 39

O cavalo branco está perdido.


Uma grande mostra de xadrez agressivo por Alekhine. Logo que ganhou
uma chance com 26... e3!!, manteve Réti sob pressão implacável.

William Hartston faz um comentário interessante sobre essa partida em The


Kings of Chess:
A partir do 26º lance […] uma sequência de combinações extraordinárias domina o
tabuleiro, eventualmente envolvendo todas as peças. Esse tipo de xadrez, mesmo para
alguém do nível mais alto, não é calculável; é intuição apoiada pelo cálculo das varian-
tes essenciais em cada estágio. A capacidade da mente humana não passa disso. Ainda
assim, as notas de Alekhine não deixam rastros da natureza insondável do estilo de tal
partida, da dúvida que deve ter existido em sua mente enquanto a jogava.
Eu modificaria esse comentário ligeiramente adicionando que, apesar de
Alekhine poder ter duvidado de que sua vantagem seria o suficiente para ganhar,
ele sempre teve a possibilidade de pular fora com uma vantagem pequena, se
não imperceptível. Nunca houve um momento de complicações em que ele não
tivesse uma maneira óbvia de retirar a tensão e, por consequência, todo perigo. O
que eu acho de mais cativante nesse jogo é como ele chegou perto de reduzir-se
a um empate, mas Alekhine sempre encontrou uma maneira de manter o elemen-
to dinâmico. Assim como o próprio Hartston observa, “como um triunfo da ima-
ginação e do julgamento, em condições de visibilidade obscura, isso é realmente
grandioso”. Alekhine acreditava que esta fora uma das duas partidas mais brilhan-
tes que jogou em torneios, a outra foi contra Bogoljubow (ver Capítulo Quatro).

Às vezes você tem que confiar na intuição


Aqui eu gostaria de retomar a partida entre Bronstein e Korchnoi, vista anterior-
mente neste capítulo. Vejamos o que teria acontecido no lance 37 se Korchnoi
tivesse evitado a isca em f3 e, em vez de tê-la mordido, tivesse capturado em b2.
Depois de 37... xb2 poderia agora seguir 38 h8+ g6 39 d6+.
40 Neil McDonald

Se, agora, 39... g5?, um bom computador diria que é mate em oito lances,
começando com 40 f8!. (se as Pretas fizerem a coisa sensata e salvarem sua dama
com 40... c4, é um mate muito mais rápido: 41 f5+ e 42 h5, ou 41 e5+ e
mate em f5 ou h4, como as Pretas preferirem.) Mas Bronstein não teve que ver isso
com antecedência, era mais que suficiente perceber que 40 e5+ e 41 xb2 cap-
turaria a torre. Então, isso significa que as Pretas têm que jogar 39... f6!, quando
40 d3+ é a resposta com xeque.

Em seus cálculos anteriores, suspeito que Bronstein tenha parado por aqui,
bem no momento em que sua intuição lhe falou que quase certamente haveria
uma maneira de explorar o rei preto exposto. Em contraste com o jogo, no qual as
Pretas estiveram sempre ameaçando mate com ... xg2, as Brancas podem se dar
ao luxo de efetuar um ou outro lance tranquilo para capturar ou a torre preta, ou a
dama, ou o rei. E, como uma “válvula de segurança”, as Brancas sempre teriam um
empate na manga, caso continuassem pondo o rei preto em xeque.
Análises confirmam que a intuição de Bronstein estava correta. As Pretas
perdem sua dama depois de 40... f7 41 d5+ e7 (se 41... g6 42 h5 mate,
ou 41... e6 42 f8+! e7 43 e8+ etc) 42 d8+ e6 43 e8+ f7 44 f8+ e
vencem.
Como alternativa, 40... g5 seria um osso mais duro de roer. As Brancas gos-
tariam de jogar 41 d5+?! f4 (se 41... g6, é mate em h5) 42 e8(??), quando
a ameaça de 43 e4 significa que é xeque-mate ao rei preto em nove lances, a
menos que as Pretas joguem 42... h4+!, o que resultaria em xeque-mate ao rei
branco em três lances.
Como alternativa, o calmo 41 h3!!,
Gigantes do xadrez agressivo 41

impedindo ... h4, deixa as Pretas sem uma boa resposta para a ameaça de 42
d5+ f4 43 e8. Por exemplo, depois de 41... e5 42 f8 g6 (para impedir o
xeque mortal em f5), as Brancas têm 43 f4+ ganhando a dama ou, melhor ainda,
43 d8+ forçando um mate.
Eu duvido muito, aliás é impossível, que Bronstein tenha visto 41 h3!!
quando jogou 35 b6. Na partida, depois de 37... xf3, era essencial ter nota-
do 39 xh6+!! com antecedência, já que as Pretas ameaçavam mate em um. Mas
Bronstein teve que confiar em sua intuição de que um lance como 41 h3!! exis-
tiria na posição depois de 37... xb2. Seja como for, ele não estava correndo um
risco já que podia forçar um empate quando bem entendesse.
Logo, vimos que, quando se fizer uma combinação, algumas táticas devem
ser visualizadas com antecedência (39 xh6+!!), enquanto em outros casos te-
mos que acreditar na nossa intuição e lidar com o problema quando ele aconte-
cer (41 h3!!).

Um jogo salvo pelo poder combinativo


No jogo que segue, Alekhine está posicionalmente encrencado depois de 18 lan-
ces. Mas, ao invés de aceitar passivamente a perda do peão, ele faz um sacrifício
de cavalo incorreto, porém engenhoso. Sobrecarregou de pressão psicológica o
adversário, que, claro, não soube dizer se o Campeão Mundial estava blefando
ou não.
O resultado foi uma proverbial vitória famosa do espírito sobre a matéria,
onde a força da personalidade de Alekhine impregou suas peças com um poder
avassalador.
42 Neil McDonald

Partida 9
K.Opocensky – A.Alekhine
Praga, 1942
Defesa Índia Antiga

1 d4 f6 2 c4 d6 3 c3 bd7 4 f3 e5 5 g3 c6 6 g2 e7
Aqui, vemos a antipatia de Alekhine pelo bispo do fianchetto na ala do rei.
Tendo jogado 5...c6, ele não quer enfraquecer mais o peão em d6 e, então, man-
tém o bispo defendendo-o. Sem dúvidas, Bronstein teria jogado 6...g6, quando 7
0-0 g7 8 e4 0-0 é parecido com seus jogos contra Zita e contra Reshevsky (ver
Capítulo Oito).
7 0-0 0-0 8 c2 exd4?
Um jogador moderno confiaria nos peões centrais c6/d6/e5 e ofereceria re-
sistência com, digamos, 8... c7 ou 8... e8 (nós também discutiremos este tópico
no Capítulo Oito).
Em vez disso, Alekhine julga: “O peão em d6 é fraco, devo livrar-me dele com
...d6-d5, no estilo de Grünfeld. Logo, capturar em d4, seguido por ... b6 e ...d6-d5,
é a maneira de proceder.” Lógica tão equivocada o levará para perto da derrota.
9 xd4 b6 10 b3 d5 11 d1!
Agora, as Pretas estariam encrencadas depois de 11...dxc4 12 xc6 e8 13
b5!, com a ameaça de 14 c7 aprisionando a dama.
11... d7?
Mesmo assim, Alekhine deve conseguir se virar com 11... d7, apesar de que
permanece em uma posição desconfortável depois de 12 cxd5 fxd5 13 xd5
xd5 14 b2.
12 cxd5 bxd5 13 xd5 cxd5 14 b2 e8 15 ac1
Gigantes do xadrez agressivo 43

As Brancas têm um desenvolvimento perfeito, um jogo livre de fraquezas,


e a chance de atacar d5. Enquanto isso, a dama preta em d7 e o bispo em c8 dão
uma impressão terrível.
15... d8
O bispo impede uma invasão em c7 e procura atividade em b6. É claro que
teria sido muito mais fácil colocar o bispo em g7 na abertura…
16 e3!

Se as Pretas não fizerem nada, o simples plano de 17 e2 e 18 f4 ganhará


o peão em d5, ao mesmo tempo em que manterá uma superioridade posicional
esmagadora. Portanto, Alekhine tem que empregar todo seu talento tático para
criar problemas para seu adversário.
16... e4! 17 e2 b6 18 f4 xf2!

Podemos imaginar como Karel Opocensky deve ter se sentido nesse mo-
mento. Ele tem todas suas peças em casas excelentes, enquanto a torre branca em
a8 e o bispo em c8 estão fora de jogo. Então, as complicações devem funcionar a
favor das Brancas. Como deve ser irritante quando o maior gênio tático da época,
quiçá de todos os tempos, sacrifica uma peça para atacar seu rei!
44 Neil McDonald

19 xf2?
A vitória seria obtida com 19 xd5!.

a) Depois de 19... g4?, o cavalo pode ser capturado com a dama: 20 xf2
xe3; 21 xe3 xe3 22 d8+ e mate.
b) Se 19... e7, o ponto e3 pode ser protegido com 20 e5, seguido no-
vamente por tomada de f2, a menos que as Pretas desistam de sua dama com
20... xe5, que falha devido a 21 xe5 xe5 22 xc8+! e8 (a captura da dama
permite outro xeque na primeira fileira) 23 xa8 (mais simples) 23... xa8 24 xf2
e as Pretas têm que abandonar a partida.
c) Talvez Alekhine estivesse planejando desistir de sua dama de uma vez
com 19... xe3 20 xd7. Se, agora, 20... xd7 21 xb7 é melhor, mas pessoal-
mente, no lugar de Alekhine eu simplesmente simplificaria com 21 xf2 xf2+
22 xf2 com um final facilmente ganho com (22... ac8 23 xb7!). Como alter-
nativa, as Pretas poderiam tentar 20... g4+ 21 h1 xd7 (se 21... f2+ 22 xf2
simplifica e mantém uma peça a mais) 22 f1 b5 23 f5 xf1 (ou 23... f2+ 24
xf2) 24 xg4 e vence.
Como se pode ver, Opocensky teve que encontrar a manobra incomum
xd5 e e5 na variante “b” e também perceber o artifício na primeira fileira com
xc8+. Se Alekhine tivesse escolhido a variante “c”, o mestre tcheco teria que
convencer-se de que as Pretas não poderiam alcançar nada depois do xeque des-
coberto a seu rei com 20... g4+. Em hipótese alguma isso é fácil com o tempo
correndo e o Campeão Mundial sentado à sua frente.
Mesmo que, objetivamente, Alekhine estivesse perdido, ainda estava com-
pletamente certo ao arriscar tudo dessa maneira. Caso ele tivesse aceitado pas-
sivamente a perda de um peão, provavelmente teria sido esmagado no final do
jogo, isso se sobrevivesse até lá. Certamente, não teria tido nenhuma chance de
ganhar. Ao passo que, depois do sacrifício, todos os três resultados são possíveis:
vitória, derrota ou empate.
Gigantes do xadrez agressivo 45

Opocensky sente que tem uma oportunidade única de vitória a seu alcance,
e crê que pode alcançá-la com um sacrifício posicional de dama.
19... xe3 20 xe3 xe3 21 xd5

As torres brancas controlam as colunas abertas e o cavalo ameaça captu-


rar uma torre inimiga em um lance (22 xe3) ou em dois (22 c7 e 23 xa8).
Alekhine percebe que a segunda ameaça pode ser ignorada.
21... e2!
Como podemos ver, esse é um contra-ataque aos dois bispos brancos, não
apenas a um deles. As Brancas são obrigadas a proceder com sua combinação, já
que 22 f6+ gxf6 23 xd7 xd7 só as leva a perda de material.

22 c7 e7 23 xa8
Opocensky tem uma torre, bispo e cavalo pela dama, e uma ameaça em um
lance com 24 xc8+. Mas ele perdeu o controle, pois as Brancas podem empatar
com 23... xg2+ 24 xg2 e2+, quando o rei branco não pode escapar dos xe-
ques. Alekhine encontra algo ainda mais forte.
23... h3!!
46 Neil McDonald

O Campeão Mundial alcançou uma bela coordenação entre suas três peças
restantes. O mísero bispo, que passou quase metade do jogo bloqueado pela
dama, realiza o golpe mortal. Se as Brancas responderem com 24 xh3, receberão
mate em quatro lances, começando por 24... e3+ 25 h1 f3+. Se 24 e4 (uma
tentativa desesperada de bloquear a coluna e), ao invés de 24... xe4 25 a3!?
g5, meu programa de computador quer responder com o bastante surreal
24...h5!. Deixarei isso para o leitor resolver!
24 d8+ xd8 25 xh3 xa8 0-1
As Brancas ganham a dama, mas perdem a batalha depois de 26 c8+ xc8
27 xc8 xb2.
Na próxima vez em que se arruinar na abertura, vale lembrar dessa partida
e começar a guerrear!
2
Perseguindo o Rei
no Centro

Deixar o rei no centro por muito tempo é um risco ocupacional para os enxadris-
tas. Há muitas razões para arriscarmos a segurança de nossa peça mais impor-
tante, incluindo incompetência, falta de senso de perigo e um sutil erro de cálcu-
lo. Apesar de parecer um erro cometido por culpa própria, enxadristas do estilo
agressivo empregam várias técnicas para persuadir seus adversários a correr ris-
cos desnecessários com seu rei.
Então, imaginemos que tenhamos motivado o adversário a manter o seu rei
centralizado. Qual é a melhor maneira de puni-lo? Um método clássico do xadrez
agressivo é trazer as torres rapidamente para o ataque. É improvável que o adver-
sário responda trazendo as próprias torres para a defesa, mesmo porque seu rei
estará no meio do caminho. Portanto, mesmo que se faça um sacrifício de mate-
rial muito grande para envolver suas torres na investida, provavelmente ainda se
terá muito poder de fogo ao qual a defesa terá que resistir.
Nas primeiras partidas deste capítulo, Paul Morphy já começa com vanta-
gem ao ativar suas torres, já que não há nenhum cavalo em b1 para ficar no cami-
nho da torre em a1!

Desenvolvimento rápido esmaga uma defesa inferior


Em meados do século XIX, os enxadristas ficavam animadíssimos com a captura
de peões e outras peças, mesmo quando o desenvolvimento ajuizado e a nega-
ção sensata de abrir linhas eram necessários.
Morphy, pelo contrário, tinha como primeiro e principal objetivo um desen-
volvimento rápido e harmonioso de suas peças. Ele não se interessava pelo tama-
nho total de seu exército, mas por quão bem ele funcionava como uma unidade
48 Neil McDonald

de ataque. Sua disposição para realizar sacrifícios – a fim de aumentar a força e


o raio de ação de suas peças – frequentemente surpreendia os adversários inex-
perientes, que se deparavam com seu rei derrotado antes mesmo de terem se
preparado para a batalha.
Começaremos observando algumas das partidas em que o americano ini-
ciou em desvantagem previamente combinada. Nesses exemplos, uma pequena
mas bem organizada força vence pela astúcia uma multidão desorganizada. Cer-
tamente a oposição era fraca, mas ninguém punia uma má abertura com tanta
elegância e estilo quanto Morphy.

Partida 10
P.Morphy – C.Maurian
Nova Orleans, 1857
Partida com desvantagem previamente
definida

Lembre-se de que esta é uma partida com desvantagem previamente defi-


nida, então por favor retire o cavalo branco de b1.

1 e4 e5
Com um cavalo extra contra Morphy, a prioridade é sobreviver o tempo sufi-
ciente para colocar todas as peças em ação. Portanto, 1...e6! seria uma boa manei-
ra de começar, protegendo a casa f7.
2 f4 exf4 3 f3 g5 4 c4 g4?
Evidentemente, Maurian vê a situação de maneira diferente: “É bom ter um
cavalo a mais, mas é ainda melhor ter dois a mais!”
5 d4!
Gigantes do xadrez agressivo 49

Apesar de seu exército estar um pouco menos numeroso, Morphy não hesi-
ta em sacrificar uma peça menor. Ele percebe que terá superioridade numérica no
único lugar que importa: nas proximidades do rei preto.
5...gxf3 6 xf3 d5 7 xd5 c6?
Tanta mesquinhez já tendo duas peças a mais! Ele deveria desenvolver com
7... f6!.
8 xf7+!
O rei preto é forçado para a linha de tiro da dama e das torres pretas.
8... xf7 9 h5+ g7 10 xf4 e7 11 0-0 xd4+ 12 h1 xe4
Parece que as Pretas estão fazendo de tudo para ajudar o ataque das Bran-
cas ao desperdiçar lances com a dama e ao abrir a coluna e.
13 ae1
Reforços chegam pela ala da dama para completar a coordenação das pe-
ças brancas. Imagine se as Brancas não tivessem dado a vantagem de um cavalo.
Neste caso, elas ainda teriam um cavalo posicionado em b1. Isto teria bloqueado
a torre em a1 e, com isso, evitado o lance efetuado, que prepara um sacrifício
decisivo em e7.
50 Neil McDonald

Portanto, Morphy teria que desenvolver a peça, digamos com 12 c3, dan-
do, assim, uma importante pausa para a defesa respirar. Em outras palavras: o fato
de ter um cavalo a menos em b1 provou ser vantajoso para as Brancas, não para
as Pretas! Isso deu a seu ataque um dinamismo que pesa mais que o valor material
do cavalo.
13... g6 14 xe7+! f8
Se 14... xe7 15 h6+! e mate.
15 d6+ f6 16 xf6+ xf6 17 e8 mate
Uma destruição extremamente atraente de um jogo escandalosamente ga-
nancioso.

O fato de Morphy jogar de acordo com um sistema pré-concebido contra o


receptor da vantagem é mostrado na partida seguinte, que é ganha de maneira
quase idêntica.

Partida 11
P.Morphy – T.Worrall
Nova Orleans, 1857
Partida com desvantagem previamente
definida

(retire o cavalo branco de b1)

1 e4 e5 2 f4 exf4 3 f3 g5 4 c4 g4 5 d4 gxf3 6 0-0! h6 7 xf3 c6


As Pretas começaram a perceber a necessidade de desenvolver suas peças,
então Morphy tem que agir rapidamente.
8 xf7+! xf7 9 h5+ g7 10 xf4 xf4 11 xf4 h6
Impedindo o mate em f7 e também guardando a casa g4.
12 af1!
Gigantes do xadrez agressivo 51

Mais uma vez Morphy pode regozijar-se: não há um cavalo branco em b1


para ficar no caminho do deslocamento de sua torre ao campo de batalha. A
ameaça imediata é 13 g4+ xg4 14 xg4+ h6 15 f5! e as Brancas não têm
uma boa estratégia para impedir o mate em h5, já que 15... e8 16 g5 mate.
12... e8 13 h4 d6 14 f6+ g8 15 xh6
Morphy está contente! Não por recuperar uma peça, mas por remover uma
obstrução ao seu ataque.
15... d7 16 1f3 e7
O outro cavalo preto corre para g6, a fim de reforçar a defesa.
17 h4!
Mesmo no meio de um ataque com peças pesadas, Morphy não esquece
que precisa da ajuda dos peões para remover os obstáculos.
17... g6 18 h5!

Expulsando imediatamente o cavalo preto.


18... g4?
Pela primeira vez no jogo, Worrall se recusa a capturar material, e isto é um
erro fatal. Se 18... xf4 19 g3+ g6 20 hxg6 hxg6 21 xg6+ xg6 22 xg6+ e
Morphy tem xeque perpétuo se desejar, mas, tendo capturado a dama, ele deve
conseguir encontrar uma maneira de vencer um advesário que recebeu uma van-
tagem inicial.
19 hxg6 hxg6
Depois de 19... xf3 20 g7! e2 21 f6!!, há um mate irrefreável ao promo-
ver o peão à dama em h8. Alguma vez já se viu uma torre presa num canto como
esta? Durante o jogo, surge outro bonito mate:
20 f8+! xf8 21 xf8+ xf8 22 xg6 mate
52 Neil McDonald

O rei derrotado é cercado por duas peças defensoras na sua ala, resultando
em um mate epaulette.

A seguir, vemos um esquema de ataque do Gambito Evans em sua forma mais


pura. Mais uma vez, Morphy usa a ausência do cavalo de forma eficaz.

Partida 12
P.Morphy – T.Lichtenhein
Nova Iorque, 1859
Partida com desvantagem previamente
definida

(retire o cavalo branco de b1)

1 e4 e5 2 f3 c6 3 c4 c5 4 b4 xb4 5 c3
A propósito, um dos inconvenientes do Gambito Evans é que este lance de
peão retira a casa c3 do cavalo em b1. Bem, não há nenhum problema aqui já que
não há um cavalo em b1!
Gigantes do xadrez agressivo 53

5... c5 6 0-0 f6 7 d4 exd4 8 cxd4 b6 9 a3


Primeiro estágio do esquema vencedor: um bispo vai para c4 para atacar f7,
o outro vai para a3 para interromper a fuga do rei preto.
9...d6 10 e5
Segundo estágio: as Brancas abrem o centro imediatamente, ganhando
tempo ao atacar o cavalo em f6.
10...dxe5 11 b3!

Terceiro estágio: a dama branca se junta ao combate. Já há ameaça de mate


por 12 xf7+ e 13 e6.
11... e6 12 xe6 fxe6 13 xe6+ e7 14 xe5 f8
Quarto estágio: pressão ao longo da coluna e, culminando no ataque de e7
quatro vezes.
15 fe1 fd5 16 g4 g6 17 h4 a5 18 xh7 xd4 19 xg6 c5 20 xf8 xf8
Quinto estágio: as Pretas sobreviveram a um desastre em e7 com a manobra
18... xd4 e 19...c5, mas ao custo de abrir a coluna d para a outra torre.
21 ad1!
54 Neil McDonald

Mais uma vez Morphy pode alegrar-se por não ter um cavalo em b1 para im-
pedir o movimento da sua torre da dama. O que ocorre a seguir é uma demolição
tática.
21... e8 22 xc5! xc5 23 g8+ d7 24 xd5+ xd5 25 xd5+ d6 26
xb7+ c7 27 xa8 1-0

Segue agora a partida mais famosa de Morphy, jogada em um camarote real


da ópera de Paris durante a apresentação de O Barbeiro de Sevilha. A característica
mais deleitante do jogo é a maneira como Morphy mistura os requisitos formais
de desenvolvimento a um ataque vigoroso. É claro que para atingir esta façanha
ele precisou de uma ajuda considerável de seus adversários, que possuíam título
de nobreza mas não nobreza enxadrística, o duque e o conde.

Partida 13
P.Morphy – Duque de Brunswick e Conde
Isouard
Paris, 1858
Defesa Philidor

1 e4 e5 2 f3 d6 3 d4 g4?!
O desenvolvimento direto de Morphy provocou uma reação não muito no-
bre em seus ilustres adversários, que planejam entregar o par de bispos e deixar a
dama branca atingir um posto ativo.
4 dxe5 xf3
É claro que 4...dxe5 5 xd8+ xd8 6 xe5 é inaceitável para as Pretas.
5 xf3 dxe5 6 c4
O bispo é desenvolvido e ao mesmo tempo ameaça f7.
6... f6 7 b3!
Atacando tanto b7 quanto f7. Vemos que Morphy estava bem preparado
para quebrar as regras do desenvolvimento rápido caso visse uma chance tática
de causar problemas para seus adversários.
7... e7
Gigantes do xadrez agressivo 55

8 c3!
A alternativa era capturar o peão com 8 xb7 e, então, trabalhar árdua e
vagarosamente para conseguir uma vitória depois de 8... b4+ 9 xb4 xb4+ 10
c3 etc. Essa seria a maneira clássica de lidar com a posição. Em vez disso, Morphy
percebe que mantendo a tensão ele deixa seus adversários com sérias dificulda-
des em desenvolver o jogo. Essa é a abordagem típica do xadrez agressivo para
uma posição.
Essas duas abordagens de maneira nenhuma são excludentes entre si:
Morphy poderia decidir em alguns lances à frente que comer peões é o úni-
co caminho correto. Ele simplesmente acredita que por enquanto consegue
tirar mais proveito através da mobilização paciente de suas peças, deixando
o Conde e o Duque refletirem sobre sua situação. Ou talvez Morphy, um fã
de ópera, quisesse acabar logo com o jogo para poder aproveitar o resto da
apresentação!?
Também é digno de nota o fato de que Morphy tinha uma oportunidade tá-
tica imediata com 8 xf7+, desviando a dama preta para que, depois de 8... xf7
9 xb7, a torre em a8 fosse eliminada, já que não há possibilidade de defesa para
9... b4+. No entanto, as Pretas poderiam, neste momento, aumentar a pressão na
ala do rei com 9... c5 10 xa8 0-0, quando o peão f2 se encontraria muito vulne-
rável. Morphy sempre preferiu ser o jogador que oferece material para a iniciativa.
8...c6 9 g5 b5?
Este lance foi ridicularizado por mais de 150 anos. De fato, as peças do ame-
ricano estão todas arrumadas e prontas para a ação, então a possibilidade de sa-
crificar, com o objetivo de abrir linhas de avanço, cai do céu. Por outro lado, não
há uma maneira óbvia para as Pretas mobilizarem suas peças. Se elas jogarem
9... c7, então depois de 10 0-0-0 elas ainda não poderão se desenvolver com
10... bd7 porque f7 cairia.
De todos os lances possíveis para as Pretas, 9...b6 parece o mais sólido, por
exemplo, 10 0-0-0 bd7. Agora 11 b5 erra o alvo: depois de 11...cxb5 12 xb5,
56 Neil McDonald

as Pretas têm o importante recurso de defesa 12...0-0-0!, movendo o rei para lon-
ge da cravada em d7 e envolvendo a torre da dama na batalha no centro. Morphy
teria de se contentar com 11 xf6!. Se, então, 11... xf6? 12 b5! irrompe no estilo
da partida, por exemplo 12... xe4 13 f3! e o rei preto não sobreviverá por muito
tempo. Enquanto isso, as Pretas perderiam um peão depois de 11... xf6 12 xf7+
xf7 13 xf7+ xf7 14 xd7+ ou de maneira parecida com 11...gxf6 12 xf7+
xf7 13 xf7+ xf7 14 xd7+.

10 xb5!
A fase de forçar a partida começa agora. Até o final as Pretas serão atingidas
por uma ameaça depois da outra. Elas perderam a liberdade de decisão e podem
apenas reagir aos lances das Brancas.
10...cxb5 11 xb5+ bd7 12 0-0-0!!

Desenvolvimento com ameaças concretas contra f7. Se agora 12...0-0-0 13


a6+ e mate na jogada seguinte.
12... d8 13 xd7! xd7 14 d1
Gigantes do xadrez agressivo 57

Morphy completa a coordenação de suas peças. Não importa que ele esteja
com uma torre a menos, já que as Pretas estão fadadas a sofrer uma catástrofe na
coluna d.
14... e6 15 xd7+
Em vez disso, 15 xf6 xb3 16 xd7 mate seria um tanto exótico, mas
Morphy encontra uma maneira ainda mais elegante de terminar o jogo.
15... xd7

16 b8+! xb8 17 d8 mate!


Uma partida sensacional!

Agora, entraremos em nossa máquina do tempo e viajaremos 80 anos


adiante para ver como Alekhine realiza um tipo de ataque parecido, porém de
uma maneira bem mais sofisticada.

Uma proposta prematura de contrajogo refutada


Nas partidas apresentadas até agora, vimos uma defesa extremamente inferior
ser esmagada por lances de desenvolvimento diretos e vigorosos. Na próxima, o
perdedor é um forte jogador que recebeu o título de Mestre Internacional, quan-
do este foi conferido pela primeira vez pela FIDE, em 1950. Seus erros são de na-
tureza tão sutil que é necessário que o adversário, o Campeão Mundial, esforce-se
ao máximo. Poucos enxadristas estariam preparados para manter-se com uma
torre a menos por uma longa sequência de lances!

Partida 14
A.Alekhine – E.Böök
Margate, 1938
Gambito da Dama
58 Neil McDonald

1 d4 d5 2 c4 dxc4 3 f3 f6 4 e3 e6 5 xc4 c5 6 0-0 c6


A razão pela qual estudamos a teoria da abertura é porque os lances natu-
rais nem sempre funcionam. É de se imaginar que não possa haver objeção a um
lance que desenvolva e centralize o cavalo em sua melhor casa. Ou, pelo menos,
caso esse lance falhe, supõe-se que seja por uma razão tática e não estratégica.

Aqui as Pretas deveriam jogar 6...a6, objetivando ganhar espaço com 7...b5
e, então, colocar seu bispo em b7. Depois de 7 a4 ou 7 b3, mostrando respeito
pelo avanço …b7-b5, as Pretas podem se desenvolver com 7... c6 e 8... e7, já
que as Brancas abriram mão de sua ideia inicial de ação rápida no centro. Em con-
trapartida, se as Brancas tentassem romper no centro com e2 e d1, o cavalo
preto estaria melhor posicionado em d7, onde conseguiria bloquear a coluna d e
proporcionar apoio ao peão em c5. Por exemplo: 7 e2 b5 8 b3 b7 9 d1
bd7 etc.
7 e2! a6
Seria mais seguro esquecer de uma vez a expansão na ala da dama e apenas
desenvolver a ala do rei com 7...cxd4 8 d1 e7 9 exd4 0-0, ocasião em que as
Brancas teriam apenas uma pequena vantagem.
8 c3 b5
O segundo avanço dos peões da ala da dama foi definitivamente arriscado.
As Pretas deveriam ter tomado providências contra a pressão das Brancas na co-
luna d com 8...cxd4 ou 8... c7!?. Por exemplo: depois de 8...cxd4 9 d1 e7 10
exd4 b4 11 e5 0-0, as Brancas têm uma pressão promissora, mas a posição das
Pretas ainda está intacta.
9 b3 b4?
Gigantes do xadrez agressivo 59

O terceiro avanço de peão na ala da dama, e desta vez foi fatal. As Brancas
podem ainda romper no centro antes de as Pretas conseguirem evacuar seu rei.
10 d5! a5
As Brancas recuperam sua peça com um grande ataque depois de 10...exd5
11 xd5! xd5 12 d1 e então 13 e4, se necessário.
11 a4+ d7 12 dxe6!
Ganhando um tempo essencial para abrir a coluna d.
12...fxe6 13 d1!
Se as Brancas perdessem a cabeça com 13 xd7+?, então depois de
13... xd7 14 d1 c6 não lhes restaria nada melhor do que o lamentável recuo
15 b1. Neste caso, as Pretas teriam alcançado um jogo decente apesar de todos
seus pecados enxadrísticos na abertura. Tal resultado seria totalmente ilógico.
Assim, tendo examinado a posição com cuidado, Alekhine começa a punir seu
adversário.
13...bxc3
Em tais situações você só pode pegar o material e esperar pelo melhor.
14 xd7! xd7 15 e5 a7 16 bxc3!!
60 Neil McDonald

Jogando com admirável despreocupação. Com uma torre a menos, Alekhine


calmamente recaptura o peão e pergunta a seu adversário: “Como você sairá disto?”.
Deve ser observado que não estamos testemunhando nenhuma façanha
suprema do raciocínio de Alekhine, com a posição sendo solucionada como um
teorema matemático. Era impossível para ele resolver todas as variantes até o fi-
nal. Ele teve que examinar um certo número de tentativas de defesa possíveis às
Pretas para ter certeza de que não havia refutação óbvia do sacrifício e, só então,
deixar a cargo de seu julgamento posicional o resto da ação.
Não que seja necessário um excelente senso estratégico para notar a falta
de harmonia entre as peças Pretas. Levará um bom tempo para que a torre em
h8 entre no jogo, e, enquanto isso, um dos cavalos pretos está literalmente para-
lisado pela cravada, ao mesmo tempo em que o outro está parado inutilmente na
borda do tabuleiro sem nenhum lance seguro. A grandiosidade da realização de
Alekhine não está em ter visto que as Pretas estariam posicionadas de maneira
inadequada, mas em ter percebido que valia a pena investir uma torre inteira para
lhes causar este desconforto.
Como vimos acima, quando Morphy dava a vantagem do cavalo em b1, ele
frequentemente obtinha sucesso em virar esta ausência a seu favor, ao trazer rapida-
mente sua torre em a1 para o ataque. Aqui, Alekhine poderia muito bem desejar que
o bispo em c1 acidentalmente sumisse do tabuleiro. Assim ele poderia fortalecer de
maneira decisiva o ataque em d7 com d1! Mas tem um bispo em c1, e a necessi-
dade de tirá-lo do caminho dá às Pretas um pouco de tempo antes que o desastre
ocorra (na forma de d1). Além da cravada em d7, as Brancas têm uma segunda car-
ta na manga: a possibilidade da dama dar xeque ao rei em h5, o que enfraqueceria as
defesas ao redor do rei preto e ganharia pelo menos algum material de volta.
16... e7
Böök impede o xeque em h5 e termina com a cravada do cavalo, mas é terrí-
vel para o rei preto estar bloqueando seu bispo.
Uma tentativa melhor seria 16... e7, mas então 17 h5+ g6 18 xg6 hxg6
19 xh8+ f8 20 e4 daria às Brancas dois peões e um ataque contínuo pela peça.
Depois da partida, o Mestre Internacional finlandês mencionou a importante va-
riante 16...g6 (para evitar um xeque em h5) 17 d3! e7 (se 17... e7 18 a3 d6
19 e4 d5 20 f4 com a intenção de que 21 f7+ continue o massacre) 18 e4
f6 19 f3 g7 20 g5 f8 21 d1 a8 (melhor que o lance de Böök: 21 ... c7?
22 d7! e as Brancas vencem) 22 d7 e as Pretas permanecem sob forte pressão.
Se você der a posição depois de 16 bxc3 para um computador, ele ficará
oferecendo defesas brilhantes para as Pretas. Mas, durante uma partida, o jogador
humano tem que confiar em julgamentos e avaliações, já que é impossível ver
tudo em termos precisos. Isso significa que lances-chave e ideias de defesa certa-
mente não serão vistos. Böök nunca seria capaz de resistir ao talento e à energia
de ataque de seu adversário. O xadrez continua sendo uma batalha entre duas
mentes, mesmo nessa era computadorizada.
Gigantes do xadrez agressivo 61

17 e4! f6 18 g5 c7

19 f4
Bom o suficiente para vencer, mas 19 h5!! seria mais espetacular:
19... xe5 20 e8+ d6 21 d1+ c7 22 d8+ b7 23 b1+ e mate, ou 19...
g6 20 xg6+ hxg6 21 xh8 e5 (caso contrário f6 cai) 22 h7+ d6 23 xa7
e vence.
19... b6 20 d1
As Brancas atingiram um desenvolvimento harmonioso que faz um contras-
te impressionante com o estado incapaz das Pretas da ala do rei.

20...g6
Böök está afoito por libertar seu bispo, mas é inevitável que enfraqueça o
cavalo em f6. Na verdade, ele não tem nenhum bom lance, devido à ameaça de
21 g5 e 22 h5 etc.
21 g5 g7 22 d7!
Agora as Pretas não têm uma boa maneira para impedir 23 e5.
22... xd7 23 xd7+ f8 24 xf6 xf6 25 e5 1-0
62 Neil McDonald

Pois, se 25... e7 26 f3+ g8 27 xe7 vence.


Uma brilhante exibição de Alekhine, que aperfeiçoou e refinou a concepção
de ataque de Morphy.

Um sacrifício transforma uma posição fechada em aberta


As Pretas começaram a partida seguinte com seis lances de peão consecutivos.
Com que frequência isso ocorre? Ninguém podia jogar assim contra Morphy de-
pois de 1 e4 e5 e viver mais 15 lances. No entanto, tais liberdades com o desen-
volvimento são possíveis no jogo fechado. Naturalmente, Efim Geller quer abrir
colunas, sonhando com um massacre rápido no estilo Morphy versus o conhecido
“Amador” mais uma vez. E, como veremos, tais jogos ainda são possíveis entre
Grandes Mestres fortes, mesmo na atualidade.

Partida 15
E.Geller – A.Dreev
Aberto de Nova Iorque, 1990
Defesa Francesa

1 e4 e6 2 d4 d5 3 d2 a6 4 gf3 c5 5 exd5 exd5 6 e2 c4 7 0-0 d6 8 b3 b5 9


a4 b7?
Se as Pretas tivessem mostrado coragem com 9...c3! (outro lance de peão),
a posição continuaria incerta. É irônico como Dreev, assim que se rende ao peso
a consciência por ter sido lento no seu desenvolvimento, se vê sob um grande
ataque.
10 bxc4 bxc4

11 xc4!!
Gigantes do xadrez agressivo 63

Frequentemente é difícil julgar qual peça deveria ser sacrificada em cenários


como esse. Aqui, Geller “lidera com o bispo”, já que enxergou a possibilidade de
um garfo de cavalo que dará impulso ao ataque das Brancas.
11...dxc4 12 xc4 e7
Depois de 12... e7, as peças brancas aderem ao ataque no estilo de Morphy,
criando ameaças a cada jogada: 13 xd6+ xd6 14 a3 c7 15 e1 bc6 16 d5!.
13 e1 c7
Ainda assim, a situção não parece estar tão ruim para as Pretas. O peão bran-
co em d está parado e o cavalo em c4 está desprotegido. Tendo tempo, Dreev está
pronto para jogar 14... c6 e então responder a 15 d5 com 15...0-0-0, cravando o
peão da coluna d. Parece um pouco arriscado para o rei preto ficar na ala da dama,
mas uma peça extra serve de grande consolo em dificuldades como essa. O próxi-
mo lance de Geller destrói este devaneio.
14 b1!

Aqui conseguimos ver porque 9... b7 foi uma jogada fraca: se seguir
14... c6 ou qualquer outro lance de desenvolvimento, as Brancas serão atingidas
pela linha tática 15 xb7! xb7 16 d6+ ganhando a dama. Portanto, o melhor
para Dreev é tomar o cavalo branco. No entanto, isso acaba convidando a torre
branca para a sétima fileira.
14... xc4 15 xb7
Muitas vezes, vale a pena investir material para trazer suas torres para o jogo,
enquanto as do seu adversário ainda estão profundamente adormecidas nos can-
tos do tabuleiro. Vimos nas partida com desvantagem previamente definida aci-
ma como Morphy destruía a defesa inimiga simplesmente trazendo rapidamente
a torre em a1 para o ataque.
15... c6
A chave para finalizar o ataque é energizar os peões centrais. Infelizmente,
se seguir 16 d5?, então 16...0-0-0! atacará tanto b7 quanto d5. Geller, no entanto,
encontra uma alternativa magnífica.
64 Neil McDonald

16 d2!

De forma que se 16... d5 17 c4 e os peões conquistam a casa d5, enquanto


que, depois de 16... xa4 17 d5, o peão avança e, importantíssimo, não há cravada
na coluna d para justificar o roque grande das Pretas.
16... xd4
Dreev decide eliminar o peão enfadonho, e com isso sua dama é submetida
a uma série de ataques para ganho de tempo.
17 b2 xa4 18 e4 a2 19 xg7 0-0-0 20 b3!

Um recuo calmo que traz ameaças como 21 c4 seguido por 22 f3.


20... f6 21 g4+
Geller recupera sua peça ao mesmo tempo em que mantém um ataque
decisivo.
21... c7 22 f4+ c8 23 xf6 xf6 24 xf6 xc2
Isso revela o estado da posição das Pretas, quando um programa de compu-
tador diz que mover a dama desta maneira é, de longe, a melhor jogada.
25 f5+! 1-0
Gigantes do xadrez agressivo 65

Um xeque de torre em e8 ou e7 irá ganhar a dama preta no próximo lance.


Aos 65 anos, Geller revelava uma grande energia para vencer um enxadrista
jovem e brilhante em uma variante como essa. Moral da história: mesmo que seja
perfeitamente aceitável deixar seu rei no centro (se a posição tiver bloqueio sufi-
ciente), caso você cometa um erro, pagará um preço alto.

Recorrendo à boa e velha ganância


No caso de tudo isso estar ficando muito complexo, permita-me lembrar-lhe de
que balançar um peão bem de baixo do nariz do adversário ainda faz maravilhas.

Partida 16
E.Geller – M.Stean
Teesside, 1975
Defesa Siciliana
(por transposição)

1 f3 c5 2 c4 g6 3 d4 cxd4 4 xd4 c6 5 e4 f6 6 c3 d6 7 e2 xd4 8 xd4


g7 9 g5 e6 10 c1 a5 11 d2 c8 12 f3
66 Neil McDonald

Aqui as Pretas poderiam ter simplesmente rocado, mas decidiram capturar


o peão:
13... xc4?
Um enxadrista sempre deve acreditar em suas ideias e confiar em sua capa-
cidade de raciocínio. Se ele acha que um lance é bom, deve realizá-lo sem hesitar,
segundo o conselho de Capablanca (e não é que, seguindo seu próprio conselho,
o cubano tomou o peão do Gambito Marshall quando foi oferecido pela primeira
vez e venceu de maneira brilhante?).
Mas, mesmo assim, tomar um peão de um dos maiores analistas do mundo,
que é um Super Grande Mestre* soviético e treinador de Spassky e Karpov... Será
que este tipo de jogador realmente comete erros com seus peões depois de 12
lances?
13 d5! xa2
A cravada na coluna c custa uma peça às Pretas depois de 13... xd2+ 14
xd2 b5 15 b3.
14 0-0!
Raramente o roque resulta em força tão temível. As Pretas não possuem
nenhuma alternativa boa à disposição, já que não há esperança com 4...0-0 15
xe7+ ou 14... c6 15 b4.
14... xd5

Este é o lance com o qual Stean contou, vendo que 15 exd5 0-0! 16 xe7 fe8
é excelente para as Pretas. Mas, como já era de se esperar, Geller possui uma carta
na manga.
15 xc4!! xc4

* N. de T.: Do inglês Super Grand-master. Termo não oficial para denominar os melhores Grandes Mestres da
atualidade.
Gigantes do xadrez agressivo 67

A melhor possibilidade era 15... b6, apesar de que as Brancas teriam uma
grande iniciativa para seu peão depois de 16 xc8+ xc8 17 b5+ d8 18 c1 etc.
16 xd5 a4 17 b5+ f8
As Pretas receberiam mate depois de 17... d8 18 xd6+ c8 19 d7+ d8
20 xe7...isso faz lembrar a Partida Sempreviva de Anderssen e Dufresne.
18 c1! 1-0

Não há como evitar um desastre na oitava fileira. É uma pena que Stean não
tenha deixado acontecer o belo final 18... d4+ 19 xd4! xd4 20 h6+ g8 21
c8 mate.

A força da ameaça de um ataque


Outra maneira de fazer com que o adversário mantenha seu rei centralizado é
fazer com que o roque pareça uma opção mais perigosa.

Partida 17
V.Topalov – E.Rozentalis
Campeonato Europeu por Equipes
Batumi, 1999
Abertura Inglesa

1 c4 e6 2 c3 f6 3 e4 d5 4 e5 e4 5 f3 e7 6 h4!
68 Neil McDonald

Topalov convence as Pretas a desistirem de rocar, já que, depois de 6...0-0?


7 d3! xc3? (o cavalo tem de manter-se firme com 7...f5!, apesar de as Brancas
ainda poderem atacar com 8 exf6 xf6 9 g5!?) 8 xh7+! xh7 9 g5+, temos
o famoso “Presente de Grego”. Trata-se de um mate rápido com 9... g8 e 10 h5
xg5 11 hxg5 f6 12 g6 etc. Se 9... h6 10 dxc3 ameaça um xeque descoberto mor-
tal, enquanto 9... g6 10 dxc3 xg5 (as Pretas perdem a dama após 10...f5 11 h5+
h6 12 xe6+) 11 hxg5 deixa as Pretas sem resposta para a ameaça dupla de 12
h5+ e 12 d3+, em ambos os casos, com um ataque decisivo.
Você verá, através destas variantes, quanta energia de ataque surgiu com 6
h4. Assim, Rozentalis decide deixar seu rei centralizado e eliminar o Presente de
Grego, o cavalo em f3, o mais rápido possível.
6... xc3 7 dxc3 dxc4 8 a4+!
Naturalmente, Topalov põe sua dama em ação em vez de permitir a troca.
8... d7 9 xc4 c6 10 g4 xf3 11 gxf3!
Gigantes do xadrez agressivo 69

Muito mais dinâmico que 11 xf3, mantendo seus peões organizados, por-
que 11... d5! oferece uma indesejável troca de damas (e, infelizmente, o ainda
mais dinâmico 11 xg7? permite mate em d1).
Depois deste lance, o cavalo de ataque desapareceu, mas, em troca, as Bran-
cas têm a coluna g aberta. Portanto, as Pretas não podem pensar em fazer o roque
pequeno: 11...0-0? 12 h6 g6 e as Brancas nem precisariam aceitar a qualidade
– elas poderiam ficar mais fortes com 13 d1 c8 14 h5!; por exemplo, 14... d8
15 xd8+ xd8 16 hxg6 hxg6 (ou 16...fxg6 17 xe6+) 17 h3 e as Pretas logo
levariam mate na coluna h.
Rozentalis está hipnotizado com esses possíveis ataques na ala do rei e acha
que eles são os únicos perigos que ele enfrenta. Como consequência, ele nota a
coluna g aberta, mas não vê o peão branco em f3. Ele subestima esta peça, enten-
de-a como parte da estrutura quebrada de peões das Brancas e não percebe que
ela se tornará o maior inimigo de seu rei.
Rozentalis é um Grande Mestre muito forte, apenas isto pode explicar o pró-
ximo lance.
11... f8?
Não é uma boa ideia “des-desenvolver” uma peça quando se está enfrentan-
do Topalov!
Ele deveria jogar 11...g6, objetivando responder a 12 h5 com 12... d5!,
contra-atacando e5, quando “as Pretas ficariam bem”, segundo as próprias ano-
tações que Rozentalis fez da partida. Na verdade, as Pretas certamente ainda
não estão totalmente fora de perigo neste momento, já que as Brancas podem
sacrificar o peão e5 com 13 hxg6 fxg6 14 e3!? ou 14 c4, com a pressão típica
que Topalov faz com os dois bispos. Ainda assim, isso poderia ser considerado
uma luta propriamente dita, se comparada ao massacre que realmente acon-
teceu.
12 f4!
O peão “fraco” em f3 começa a revelar que é, na verdade, forte. Como vere-
mos, os peões brancos ganharam dinamismo ao dobrar. Não se trata de quão bela
pareça uma estrutura de peões, mas sim de que resultados ela propicia.
12... d7
Não há tempo para 12...g6 protegendo a casa f5 por causa de 13 h5 com a
inteção de 14 hxg6, quando não há maneira segura para as Pretas recapturarem
o peão.
13 e3 c6 14 0-0-0 a5
70 Neil McDonald

Apesar de nossa crítica às decisões das Pretas, elas estão a apenas um lan-
ce de 15...0-0-0, com um jogo perfeitamente seguro. Parece que seu ataque de
dama sobre o peão a2 lhes dará o tempo necessário para isto. Na realidade, o
jogo chegou ao ponto mais crítico. Ou as Pretas ficarão bem, ou estarão envolvi-
das em um grande ataque, dependendo da energia presente no próximo lance
das Brancas.
15 f5!!
Não há um segundo sequer a perder!
15... xa2
Se 15...0-0-0 16 fxe6 xe5 (ou 16...fxe6 17 c4!, planejando uma cravada em
d7 com 18 xe6) 17 xd8+ xd8 18 f5 e as Brancas ganham um peão e ainda
mantêm seu ataque. Ou 15... xe5 16 fxe6 xe6 (se 16...fxe6 17 c4) 17 f4! pla-
nejando h3 ou c4 no estilo da partida.
16 fxe6 xe6 17 f4!
Com delicadeza. A dama branca move-se uma casa para criar algumas
ameaças mortais. A chave para o ataque das Brancas é o bispo em f1, esperando
pela hora certa de agir. Isso prova que às vezes uma peça no xadrez está melhor
desenvolvida quando mantida em sua casa inicial. Deste modo, sem mover-se, o
bispo atingiu sua mobilidade máxima, cobrindo duas diagonais importantes. Ele
pode ir para h3 (e aterrorizar a dama e o rei pretos) ou pode escolher juntar-se à
dama no ataque a f7, como de fato ocorre na partida depois de 18 c4. A defesa
para Rozentalis é dificultada pelo fato de ele não saber por qual direção o terrível
bispo irá atingi-lo.
Gigantes do xadrez agressivo 71

17... d8
Se 17... xe5, o bispo branco escolhe 18 h3!, quando 18... xf4 19 xd7+ ga-
nha uma peça. Mais resistente é 17... xe5 18 h3 e7, no entanto 19 g3! abre
caminho para 20 f4, quando o cavalo preto é expulso de e5, e d7+ etc. torna-se
decisivo. A partida poderia continuar com 19... d8 20 xd8+ xd8 21 d1+ e8 (se
21... c7 22 d7+!) 22 xa7 e as Pretas ficam sem defesa contra 22 f4 ou 22 b6 etc.
Essa variante nos mostra que, às vezes, a dama tem que ficar em segundo plano em
relação ao peão. Aqui, por exemplo, ela tem que deixar o caminho livre para o peão f.
18 c4
Já que o rei preto ficará centralizado por enquanto, o bispo volta sua aten-
ção para um ataque na casa f7.
18... e7
O bispo imobilizado em f8 é um contraste lamentável se comparado ao seu
adversário em c4.
19 he1
As Brancas completam a mobilização de suas peças, fazendo com que a
dama preta enfrente a ameaça de ser esmagada contra seu rei pelo aríete e5-e6.
19...h5 20 g3!
72 Neil McDonald

Simples e totalmente decisivo, Topalov abre caminho para 21 g5. O ime-


diato 20 e6 também era uma possibilidade; por exemplo: 20...fxe6 21 e4! amea-
çando jogar 22 g5 f6 (o que mais?) 23 g6+ f7 24 xe6+.
20... xe5 21 xd8+ xd8 22 f4 xc4
Ou 22...f6 23 xe5 fxe5 24 g5 e perde-se a dama preta por ainda menos.
23 xe7 xe7 24 d3 1-0
Levando em consideração o material, as Pretas não estão tão mal assim: têm
uma torre, um cavalo e dois peões pela dama. Infelizmente, duas de suas peças
estão fora do jogo. Depois de 24... b6 (ou 24...b5 25 b3) 25 d6+ e8 26 b8+,
as Brancas podem começar massacrando os peões pretos da ala da dama.

Uma cilada digna de Tal


Até aqui, vimos várias maneiras “explosivas” de prender o rei adversário no centro.
Mas agora David Bronstein arma uma cilada em uma posição que parece pacífica,
onde até mesmo o mais astuto tático, Mikhail Tal, cai (embora parcialmente).

Partida 18
D.Bronstein – M.Tal
Campeonato da URSS
por Equipes, 1968
Gambito do Rei

1 e4 e5 2 f4
Quando Bronstein jogava o Gambito do Rei, não era apenas uma questão de
homenagem aos seus antecessores Anderssen e Spielmann. Era, também, uma
arma cuidadosamente aperfeiçoada e minuciosamente estudada que ele usava
para ganhar pontos em torneios.
Gigantes do xadrez agressivo 73

No entanto, é difícil não se emocionar ao ver Bronstein jogar o aventureiro Gam-


bito do Rei contra Tal.
2...d5
Já é uma pequena vitória para as Brancas. A resposta crítica é 2...exf4, mas
é visível que Tal não havia gasto muito tempo estudando teorias do século XIX.
Sendo assim, ele optou por uma alternativa mais “segura”.
3 exd5 e4 4 d3 f6 5 dxe4 xe4 6 f3 c5 7 e2 f5 8 c3 e7 9 e3!

Todos esses lances são conhecidos pela teoria. As Pretas sacrificaram um


peão para ganhar iniciativa temporária, a qual as Brancas reprimem com este lan-
ce preciso de bispo.
9... xc3
Uma alternativa sólida é 9... xe3 10 xe3 xc3 11 xe7+ xe7 12 bxc3
xc2, o que deixa as Pretas apenas um pouco pior.
10 xc5 xe2 11 xe7 xf4 12 a3! d7?
Depois de chegar tão longe, ele deveria ter oferecido mais resistência com
12... xd5 13 0-0-0 e6 14 c4 c6.
13 0-0-0
74 Neil McDonald

Aqui, Tal estava prestes a realizar o roque grande, quando, de repente, ele
viu o brilho malicioso no olhar de Bronstein: 13...0-0-0?? 14 d4! e as Pretas per-
dem uma peça tanto depois de 14... h5 15 g4 quanto depois de 14... g6 15 g4.
Nos últimos trinta e cinco anos, pelo menos nove enxadristas caíram nessa arma-
dilha traiçoeira. Desses, apenas um sobreviveu, pois seu adversário não viu a força
de 14 d4. É necessário o radar tático de Tal para não cair na armadilha, apesar de
que ele começou a bipar um pouco tarde demais. Se as Pretas não conseguirem
realizar o roque grande aqui, estarão em apuros, já que as Brancas estão prestes a
jogar 14 e1+, mantendo o rei centralizado e, ao mesmo tempo, garantindo que
a torre em a8 permaneça fora do jogo.
13... e4
Segundo Paul Keres, uma testemunha ocular, Tal ficou agitado e gastou uma
hora tentando encontrar uma saída para a “emboscada”. A jogada que ele esco-
lheu propicia boas chances de continuar na partida, pois tira o bispo da armadilha
e impede o xeque na coluna e.
Aqui, podemos dizer que o elemento preparação do xadrez agressivo de-
sempenhou sua função. Bronstein coseguiu manter o rei do adversário centrali-
zado e precisa encontrar uma sequência dinâmica vigorosa para fazer bom uso
dessa vantagem.
14 g5!?
Oferecendo o peão em d5. Em vez disso, 14 e1! f5 15 g5 parece uma ma-
neira bem mais fácil de punir as Pretas.
14... xd5
Gigantes do xadrez agressivo 75

15 g3!?
Um lance incrível. As Brancas simplesmente convidam o bispo preto a tomar
sua torre!
Na verdade, um xeque intermediário de torre em e1 parece muito mais for-
te, por exemplo: 15 e1+ d8 (também é ruim para as Pretas 15... e6 16 g3 ou
15... e6 16 c4 já que as Brancas irromperão em e6) 16 g3! e as Pretas não se atre-
vem a capturar em h1 já que 16... xh1 17 xf7+ c8 18 xh8 é mortal. Se, em
vez disso, 16...f6 17 gxf4 fxg5 18 g1 gxf4 19 xg7 dará às Brancas uma iniciativa
decisiva com lances como ee7 e h3 iminentes. É claro que essa variante 16 g3
não tem nada do encanto artístico de 15 g3, já que as Brancas recuperariam sua
torre imediatamente, caso as Pretas tivessem capturado em h1.
Depois da partida, Keres perguntou ao nosso herói a razão pela qual não
jogou 15 e1+ primeiro; vejamos a resposta: “Bronstein olhou para mim como se
eu não conseguisse entender nada da posição, e disse: ‘eu não poderia perder a
oportunidade de realizar um lance como 15 g3 contra Tal, talvez eu nunca voltas-
se a ter esta oportunidade na vida’”.
15... xh1 16 gxf4

Em compensação pelo sacrifício, as Brancas possuem dois bispos atacantes,


um cavalo forte, uma torre ativa e a possibilidade de mirar seu ataque no rei preto
e no bispo em h1. Bronstein tinha esperanças de que a coordenação eficiente de
suas peças fosse o suficiente para finalizar o jogo dentro de aproximadamente
cinco lances, já que, se 16...0-0-0, então 17 h3 c6 18 xf7 e as Brancas recupe-
ram seu material, deixando as Pretas sob forte pressão.
76 Neil McDonald

Apesar disso, a vantagem das Brancas não é tão grande quanto a de Morphy
contra Brunswick e Isouard por um motivo simples: as damas não se encontram
mais no tabuleiro. Como Tal demonstra neste momento, as Pretas possuem mui-
tos recursos de defesa.
16...c5!
Um lance excelente de bloqueio. O nível de energia da posição das Brancas
cai drasticamente com o bispo em a3 fora de jogo. Foi preciso muito sangue frio,
assim como bom julgamento, para permitir que o outro bispo conquistasse a
casa f7.
17 c4 c6 18 xf7

Parece que o ataque das Brancas irá triunfar rapidamente, já que 18... f8
perde para 19 e1+. Mas, mais uma vez, Tal aproveita uma oportunidade.
18...b5!
A ofensiva contra os bispos continua: um está diretamente ameaçado, o ou-
tro está sob a latente possibilidade de cair em uma armadilha com ...b5-b4. Se,
agora, 19 xh8 bxc4, o cavalo em h8 estará preso no canto do tabuleiro.
Note como Bronstein está empenhado em preservar o poder de ataque de
suas peças e, em contrapartida, Tal está dando o máximo de si para destruir esta
coordenação. Ele está disposto a devolver sua vantagem material em vista deste
propósito.
19 d6+ e7 20 xb5 hf8?
Sem ter visto o próximo lance das Brancas, as Pretas estão perdendo nova-
mente. Tal deveria jogar o trio 20... xb5! 21 xb5 hd8 com boas chances de
sobrevivência.
21 d4!
Gigantes do xadrez agressivo 77

O cavalo branco, que havia sido desviado de seu curso para b5, retorna ao
centro com ganho de tempo tanto neste lance quanto no seguinte. A pressão
logo se torna irresistível.
21... g2 22 e6 f5 23 g1 e4 24 c7?
Uma pena, já que, provavelmente, Tal teria abandonado a partida depois de
24 e1 f6 25 xc5, exatamente em tempo de finalizar como uma partida em
miniatura.
24 c7 d8 25 xg7+ f6 26 f7+
Depois da partida, Bronstein foi sincero em admitir que nos cálculos que
fizera mais cedo ele não somente havia pensado que isso resultaria em xeque,
como também em mate, já que negligenciou as respostas das Pretas.
26... g6
78 Neil McDonald

A batalha continuou com ambos os jogadores estando sob uma forte


pressão quanto ao tempo. Como observou Keres, nós não deveríamos examinar
minuciosamente lances que eram produzidos com velocidade mas sem qualida-
de. É suficiente perceber que as Pretas ainda estão sob forte pressão e que, quan-
do a poeira assentou, Bronstein já havia feito o suficiente para finalizar a partida
com o ganho de um ponto.
27 e7 f6 28 e6 c8 29 b3 h5 30 g5 d5 31 d3+ h6 32 b2 c4 33
f5 c3 34 xc8 cxb2+ 35 xb2 xh2 36 xa7 f2 37 a4 g6 38 d4 h5 39
a4 h4 40 a5 g2 41 a6 h5 42 b7 xf4 43 xf4 1-0
Uma disputa inspiradora entre dois enxadristas que trouxeram tanto vigor
tático para o mundo do xadrez.
3
Abrindo Feridas
Antigas (e Novas)

A questão das posições “aberta” e “fechada” é uma das mais complicadas em se


tratando de estratégia de xadrez. É muito fácil para um jogador imaginar que está
desobstruindo seu jogo ao avançar um peão, quando, na verdade, está abrindo
linhas que as peças do adversário poderão aproveitar. Neste capítulo, iremos ana-
lisar como a energia que está em equilíbrio entre os dois exércitos é afetada por
um desbloqueio repentino na formação dos peões.

Dois exemplos deslumbrantes de liberação de linhas


Às vezes, pode valer a pena sacrificar a dama a fim de desbloquear uma linha
de ataque crucial. Aqui está um exemplo impressionante de uma das partidas de
Geller em seus últimos anos de enxadrista.
No jogo entre Bronstein e Korchnoi (ver Capítulo Um), uma torre se sacrificou
para abrir espaço para a dama dar o golpe mortal. Aqui, a gentileza é retribuída:

Partida 19
P.Delekta – E.Geller
Cappelle la Grande, 1992
Abertura Vienense

1 e4 e5 2 c3 f6 3 c4 c6 4 d3 a5 5 ge2 xc4 6 dxc4 c5 7 0-0 d6 8


g5 e6 9 d5 xd5 10 xf6 xf6 11 xd5 0-0 12 ab1 c6 13 d3 a5 14
h1 fe8 15 f3 e6 16 g3 g5 17 f5
80 Neil McDonald

Como o final da partida mostra, o tempo não havia esmaecido a percepção


tática de Geller:
17...g6! 18 g3 xg3!! 0-1
As Brancas recebem mate depois de 19 hxg3 g5, seguido por 20... h6. O
avanço duplo do peão g é um tema bastante encantador.
Alekhine acreditava que o conceito de xeque-mate elevava o xadrez acima
de todos os outros jogos de tabuleiro, no qual a vitória pertencia ao jogador que
capturasse o maior contingente de homens ou conquistasse o maior território. No
xadrez, o jogador pode ter mais tempo, espaço, material, mas tudo isto não quer
dizer nada se o adversário tiver o controle de apenas uma casa e puder usá-la para
concretizar um xeque-mate. Para Alekhine, a busca pelo xeque-mate era repleta
de nobreza, visto que leva um espírito de autossacrifício para o exército atacante.

Partida 20
V.Topalov – R.Ponomariov
Sófia, 2006
Abertura Ruy Lopez

1 e4 e5 2 f3 c6 3 b5 a6 4 a4 f6 5 0-0 e7 6 e1 b5 7 b3 0-0 8 h3 b7
9 d3 d6 10 a4 a5 11 a2 c5 12 bd2 d7 13 f1 b6 14 d2 b4 15 c3 bxc3
16 xc3 c6 17 a5 c8 18 e3 8a7 19 f5 c8 20 d2 b8 21 f4 xf5 22
exf5 exf4 23 g4 d4 24 e4 ab5 25 d2 c2 26 xf4 h8 27 h5 xe1
28 xe1 xa5 29 a1 bd8 30 f6 gxf6 31 h2 d5
Gigantes do xadrez agressivo 81

A situação retratada no diagrama acima deixa transparecer que não há


esperanças para as Brancas: perderam qualidade e dois peões, seu cavalo está
desprotegido e seu bispo em a2 está cravado contra sua torre. No entanto, Topa-
lov renegou as considerações sobre o material de maneira que teria deleitado os
olhos de Alekhine.
32 xf6!! xf6 33 d4!!

Às vezes é preciso ter apenas o controle de uma casa para ganhar uma par-
tida de xadrez, e aqui esta casa é h7. As Brancas ameaçam jogar 34 b1 com um
mate irrefreável. As Pretas podem se defender com 33... g8 34 b1 g7, mas en-
tão 35 xa5 captura a dama. O fato de haver um xeque descoberto sobre a dama
preta com 34 b1 é parte integrante e essencial da combinação.
Tanto espírito de autossacrifício por nada, pois a dama acaba sendo cap-
turada. Na verdade, o conflito entre material e sacrifício faz do xadrez um jogo
interessante e emocionante, mesmo quando a questão material triunfa!
33... xa2
82 Neil McDonald

A dama preta termina por se sacrificar para salvar seu cônjuge distante. O
equilíbrio de material agora muda bruscamente a favor das Brancas e Ponomariov
não conseguiu se salvar, apesar de uma defesa longa e árdua:
34 xa2 xd4 35 b4 e6 36 e5 g7 37 bxc5 c8 38 d6 fd8 39 a5 g8
40 xa6 d7 41 xd5 f8 42 f3 xd6+ 43 cxd6 cd8 44 d5 g7 45 a8
e6 46 xd8+ xd8 47 g4 h6 48 h4 b8 49 g3 e8 50 f3 f8 51 d2 g7
52 d4+ g8 53 f6 e6 54 e7 g7 55 c7 g8 56 d7 xd7 57 xd7 g7
58 d4+ g8 59 f4 g6 60 f5 e6 61 d7 g6 62 h5

Se as Brancas não tivessem o peão em h, a partida terminaria empatada, já


que a torre preta poderia transitar entre e6 e g6, mantendo o rei branco afastado.
Ao passo que, se agora 62... e6 63 xe6 fxe6+ 64 xe6, será um final de peão
ganho para as Brancas.
62... g5+ 63 f6 h8 64 e8+ g8 65 xf7 1-0

De maneira insensata, o adversário abre linhas


Às vezes é divertido ser um gênio trinta anos à frente de seu tempo: você permite
que o adversário cometa uma tolice posicional e então assiste suas mãos realiza-
rem os lances certos para executar o xeque-mate.

Partida 21
P.Morphy – Amador
Nova Orleans, 1858
Gambito Evans
Gigantes do xadrez agressivo 83

1 e4 e5 2 f3 c6 3 c4 c5 4 b4 xb4 5 c3 a5 6 d4 exd4 7 0-0 dxc3 8 a3


d6 9 b3 h6 10 xc3 xc3 11 xc3 0-0 12 ad1 g4 13 h3 ge5 14 xe5
xe5 15 e2
Morphy jogou de maneira tipicamente beligerante. Em compensação a seus
peões sacrificados, ele possui dois bispos e vantagem no desenvolvimento – a
dama branca e a torre em d1 impõem uma pose agressiva, enquanto o bispo pre-
to em c8 tem ainda que entrar no jogo.
Ainda assim, quando se trata de triunfar por meio do xadrez agressivo, intro-
duzir suas peças no jogo antes do adversário é apenas meio caminho andado. A
outra metade é ter linhas abertas das quais se possa fazer bom proveito.

Aqui Morphy está pronto para abrir linhas de ataque promissoras, com ga-
nho de tempo através de 16 f4, atacando o cavalo, e, então, 17 e5. Se d6 sucumbir,
então a torre branca em d1 e o bispo em a3 ganham energia considerável ao pres-
sionar a dama e a torre preta em f8.
Provavelmente, um enxadrista moderno jogaria 15...f6, a fim de aumentar
seu controle de e5. Então, a partida poderia prosseguir com 16 f4 f7 17 e5 fxe5
18 fxe5, e, como resultado, o adversário de Morphy provavelmente cairia na ar-
madilha da bela combinação 18... xe5? 19 xf8+ xf8 20 xe5! dxe5 21 c4+
h8 (não 21... f7 22 d8 mate) 22 xf7 e as Brancas teriam uma peça a mais. No
entanto, 18... e6!, um lance sensato de desenvolvimento, daria às Pretas boas
chances de escapar com pelo menos um peão extra.
Mas pode-se ter certeza de que um bom enxadrista moderno não teria feito
o lance que realmente ocorreu:
15...f5?
84 Neil McDonald

Uma decisão típica de meados do século XIX. As Pretas esperam que ao desa-
fiar o peão e4 consigam ativar sua torre em f8 e aumentar o raio de ação do bispo em
c8. Na verdade, elas estão abrindo a posição justamente quando as peças adversá-
rias estão completamente desdobradas e necessitam de algumas linhas de ataque.
Em outras palavras, as Pretas estão prestando um favor a Morphy. Atualmente, todos
os bons enxadristas concordam com o princípio básico de que abrir linhas favorece
quem estiver melhor desenvolvido. Em sua coleção de partidas, Geller menciona um
preceito mais refinado: “Não abra a posição quando o adversário tiver os dois bispos!”
Contudo, Morphy tem que ser preciso em sua resposta. Se as Pretas tiverem
a oportunidade de um lance livre, irão fixar o cavalo em e5 com 16...f4!, impedin-
do f2-f4 para sempre, e, então, elas terão um ataque vencedor depois do subse-
quente 17...f3 ou 17... g5.
16 f4!
Agora Morphy começa a vitalizar as peças com sua habilidade tática:
16... c6 17 c4+
O bispo retorna a um posto que se tornou ainda mais poderoso depois do
enfraquecimento com 15...f5. Ao mesmo tempo, impede as Pretas de desenvolve-
rem com ... e6.
17... h8 18 b2!
Gigantes do xadrez agressivo 85

Aqui, 18 e5 parece tremendamente forte, mas Morphy percebeu que pode ir


atrás de uma presa maior, o rei preto.
18... e7
A dama é obrigada a defender g7. Quantos problemas a menos teriam as
Pretas se tivessem jogado 15...f6!.
19 de1!
A pressão se torna esmagadora, já que com o 19...fxe4 20 xe4 a dama preta
fica atacada e não pode desistir da defesa de g7.
Observe que Morphy escolhe jogar a torre da dama para a coluna aberta em
vez de 19 fe1. A partida será decidida na ala do rei e pode ser útil ter uma torre
em f1 para apoiar o peão em f4.
19... f6 20 exf5 f8
Se, agora, 21 g3, esperando por 21... xf5? 22 xg7+! xg7 23 e8+ e
mate no próximo lance, as Pretas poderiam responder com 21... xf5!, entregando
a qualidade a fim de ganhar uma posição segura depois de 22 xf6 xf6.
Morphy pensou em algo muito mais espetacular:

21 e8!!
O xadrez agressivo exige um perspicaz olhar tático para saber explorar o
juízo errado que o adversário fez de uma posição.
21... xe8 22 xf6 e7 23 xg7+!
Mais elegante que o rotineiro 23 xe7 xe7 24 f6 f5 25 e1.
23... xg7 24 f6
86 Neil McDonald

As Pretas possuem uma dama de vantagem, mas nenhuma de suas outras


peças está contribuindo para a luta na ala do rei. Se sua dama for para uma casa
segura, então o avanço do peão f6 será letal; por exemplo: 24... f8 25 f7+ e5 26
fxe5 g7 27 e6+ h6 28 e7 é uma carnificina.
24... xg2+ 25 xg2 xh3+ 26 xh3 h5 27 g1 1-0
E as Brancas venceram depois de alguns lances desnecessários que não fo-
ram registrados.
Uma demonstração fantástica dada por Morphy. Espero que seja possível
enxergar a razão pela qual 15...f5? vai tão contra o espírito do jogo posicional.

Parece que o princípio de que abrir linhas favorece o jogador mais bem de-
senvolvido não era muito difundido nos anos de ouro de Morphy. Às vezes, alguns
enxadristas atuais também agem contra esse princípio esperando atingir alguma
outra vantagem. Em outras palavras, eles acreditam ter achado uma exceção à re-
gra. Em alguns casos acertam e, consequentemente, vencem. Mas, nas partidas do
século XIX, tem-se a impressão de que a maioria dos jogadores não tinham nem
ideia de que havia uma regra e de que a estavam quebrando. Eles queriam ata-
car, pôr suas peças em ação. Aparentemente não lhes passava pela cabeça que as
peças do adversário poderiam ter ganho às custas de suas destemidas aventuras.

Um sacrifício de peão abre o centro

Partida 22
J.Schulten – P.Morphy
Nova Iorque, 1857
Gambito do Rei
Gigantes do xadrez agressivo 87

1 e4 e5 2 f4 d5 3 exd5 e4 4 c3
No Capítulo Dois, vimos o tratamento superior que Bronstein deu à abertura
em sua partida contra Tal. Com 4 d3!, as Brancas evitariam a cravada de seu cavalo
pelo bispo preto.
4... f6 5 d3 b4 6 d2 e3!

Clássico de Morphy: um segundo peão é oferecido para abrir a coluna e res-


taurar a cravada em c3. Em termos de xadrez agressivo, as peças pretas ganham
energia (... e8 virá com ganho de tempo), enquanto as peças brancas perdem
energia (o cavalo em c3 é paralisado novamente, o que significa que ... xd5 é
uma possibilidade).
7 xe3 0-0 8 d2
Retirando o bispo da zona de perigo e trazendo o cavalo de volta para o
combate. Se, agora, 8... e8+, as Brancas poderiam tentar 9 ce2!?, usando o cava-
lo para aliviar a pressão na coluna e. Nesse cenário, 9... xd2+ 10 xd2 iria aliviar
o jogo das Brancas, já que poderiam até realizar um roque grande. Morphy, no
entanto, surge com uma decisão mais astuta: trocar imediatamente o bispo pelo
cavalo em c3.
8... xc3! 9 bxc3 e8+ 10 e2 g4
Não apenas aumentando a pressão em e2, mas também desencorajando
o lance natural de desenvolvimento das Brancas 11 f3, já que 11... xf3 12 gxf3
as deixariam com peões deploráveis. Ainda assim, falando de forma objetiva, o
imediato 10... xd5 parece mais forte.
11 c4!
É certo que Schulten realizou este lance por ganância, pois não queria se
desfazer de seu peão extra. Na verdade, esse lance também tem um valor dinâ-
mico, já que impede ao cavalo e à dama pretos o uso da casa d5 como uma base
de ataque.
88 Neil McDonald

Como alternativa, o heroico 11 f2!? levaria a um combate interessante, por


exemplo: depois de 11... xe2 12 xe2 g4+ 13 g3. Parece que o rei está sob
um perigo terrível na terceira fileira, mas não se esqueça de que as Pretas ainda
não tiveram tempo de pôr o cavalo ou a torre da dama em ação, assim seu poder
de fogo ainda não está tão esmagador.
11...c6!

12 dxc6?
Aqui temos a prova de que as Brancas estavam simplesmente somando
peões, e não pensando sobre o poder relativo dos dois exércitos. Em vez de dar
mais velocidade ao desenvolvimento do cavalo preto, Schulten deveria ter tenta-
do 12 h3!. Dessa forma, depois de 12... xe2 13 xe2 cxd5 14 cxd5 xd5 15 0-0, as
Brancas conseguiriam escapar da pressão da coluna e e estariam completamente
desenvolvidas, ainda que com as peças menores mal posicionadas. As Pretas te-
riam um jogo ativo depois de 15... c6, com completa compensação pelo peão
perdido. No entanto, isso não é o mesmo que esmagar o adversário no centro.
Naturalmente, Schulten era um jogador amador da era romântica. Ele jogou
11 c4 por razões de material e não de dinamismo, o que significa que em qualquer
oportunidade iria capturar o peão em c6 e perder de maneira terrível. Mesmo que
ele tivesse considerado o lance 12 h3, ele o teria instantaneamente rejeitado de-
vido ao argumento: “Não posso enfraquecer a ala do rei desta maneira enquanto
estou sendo atacado!”
No século XIX, o poder defensivo da posição das Brancas depois de 12 h3
seria inevitavelmente subestimado. A arte de uma defesa calma e simples entre-
gando um peão a fim de mitigar a iniciativa do adversário era pouco praticada.
Steinitz foi o primeiro grande enxadrista a enfatizar a defesa. Hoje em dia, espe-
cialmente a partir do advento de bons programas de computador, os jogadores
têm consciência das possibilidades de defesa latentes, mesmo em posições que
parecem duvidosas.
Gigantes do xadrez agressivo 89

12... xc6
Agora a ameaça de 13... d4 vence a partida. Se o rei branco correr para a
terceira fileira, poderemos ter este final deleitante: 13 f2 b6+ 14 g3 xe2! 15
xe2 d4 16 e1 f5 mate!
13 f1
Igualmente desprovidos de esperança são 13 c3 xd3 ou 13 c3 d4 14
xd4 xd4 visando a 15... xe2+! 16 xe2 e8. Podemos ver como a chegada
das duas peças pretas da ala da dama arruinou a defesa das Brancas.
13... xe2! 14 xe2 d4

Ganhando material enquanto mantém um ataque decisivo.


15 b1 xe2+ 16 f2 g4+ 17 g1 f3+!
Simples, ainda assim elegante.
18 gxf3 d4+ 19 g2 f2+ 20 h3 xf3+ 0-1

Depois de 21 h4 é mate em três, por exemplo: 21... e3 22 g1 (para impe-


dir mate em g4) 22... f5+ 23 g5 h5 mate.
90 Neil McDonald

Um sacrifício de peão impede que o centro seja bloqueado


Em sua grande obra Grandmaster Preparation, Polugaevsky oferece uma avaliação
do estilo do Campeão Mundial Tigran Petrosian, incluindo o seguinte comentário:
Nos raros casos em que ele de fato perdia ou obtinha uma posição inferior, era quan-
do seus adversários jogavam de maneira direta e violenta, porque Petrosian, por ve-
zes temendo algo no tabuleiro, evitava uma disputa perigosa na abertura.
No jogo que segue, Geller encontrou justamente a linha de abertura que
perturbaria o grande estrategista.

Partida 23
E.Geller – T.Petrosian
Moscou, 1963
Defesa Francesa

1 e4 e6 2 d4 d5 3 c3
Geller evita seu rotineiro 3 d2. Ele nota que Petrosian se sente bastante
confortável em posições com o peão da dama isolado depois de 3 d2 c5 4 exd5
exd5, e, por isso, decidiu escolher uma variação mais aguda.
3... b4 4 e5 b6 5 f3 d7 6 d2 f8 7 a4!?
Geller percebe que seu adversário, o Campeão Mundial, pretende desen-
volver com ... c6, ... b7 e ...0-0-0 e então, citando suas próprias palavras no
Application of Chess Theory, “as Brancas decidem intimidá-lo com um possível
ataque ao rei”.
Gigantes do xadrez agressivo 91

7... c6 8 e2 ge7 9 0-0 f6?


Achando pouco atraente a ideia de realizar roque grande imediatamente
com 9... b7 e 10...0-0-0, Petrosian muda de plano: atacará o centro das Brancas
de imediato e só irá realizar o roque grande depois de obter contrajogo no centro,
desviando assim as ameaças do ataque direto ao seu rei.
O problema é que as Pretas não conseguem estabilizar o centro, como Geller
logo demonstra.
10 e1 fxe5?
Petrosian deveria ter bloqueado o centro com 10...f5, mas, mesmo que tives-
se farejado o perigo, teria sido psicologicamente difícil para ele realizar tal lance.
Isso significaria admitir ao seu adversário e, pior, a si mesmo, que seu último lance
havia sido um erro, vendo que 9...f5 era possível de imediato.
Por falar nisso, esta recusa em admitir que escolhemos o plano errado fre-
quentemente cega nossa capacidade de senso comum. Ela nos faz seguir uma má
ideia, mesmo quando nossos instintos nos dizem para parar, ou quando nosso
radar tático está detectando avisos de perigo nítidos. Os russos têm inclusive um
provérbio sobre isso: “Uma vez que você tenha dito ‘A’, você deve dizer ‘B’”. O xa-
drez pode ser definido como a tragédia da energia mal gasta.
11 b5!

Com esse lance alerta, Geller aniquila as esperanças que seu adversário ti-
nha de jogar num estilo fechado e lento depois de 11 xe5 xe5 12 dxe5. Em vez
disso, uma batalha enérgica e agressiva começa no centro, na qual a vantagem no
desenvolvimento das Brancas e a situação arriscada do rei preto em e8 tornam-se
fatores decisivos.
11... g6
92 Neil McDonald

Depois de 11...exd4 12 xd4, todas as linhas estão sendo abertas para as pe-
ças brancas, ao passo que a tentativa de mantê-las fechadas com 11...e4 torna-se
macabra depois de 12 e5 d6 13 f4!, quando haverá um ataque descoberto
mortal à dama preta.
12 xe5 gxe5 13 xe5 a6
Não há como escapar da pressão, já que 13... d6 14 xe6+! xe6 15 xc6+
e 16 xa8 vence.
14 xc6 xc6 15 xd5
Agora Geller tem tanto um peão extra como a iniciativa.

15... d7 16 g5!
Uma vez que os jogadores ganham material, tendem a parar um momento
para admirar o lucro. Geller nunca foi um desses jogadores, embora o estágio ini-
cial do seu plano de jogo envolveu exercer pressão sobre os peões do adversário.
Ele estava sempre pronto para devolver material caso a manutenção da iniciativa
exigisse.
Aqui um lance negligente como 16 c3 permitiria a volta das Pretas ao jogo
com 16...0-0-0. Superar um Campeão Mundial uma vez já é difícil, mas duas vezes
na mesma partida é quase impossível. Por isso, Geller não pode se dar ao luxo de
perder um tempo sequer no seu ataque.
16... d6 17 h5+ f8 18 f3+ g8 19 xe6!
Um segundo peão cai, pois 19... xe6 20 e7+ ganha a dama preta.
19... f8 20 e7+ xe7 21 xc6 xc6 22 xe7 f7 23 ae1 xa4 24 b3 c6
Petrosian fez uma defesa brilhante e chega ao final com apenas um peão a
menos. No entanto, Geller julgou de maneira correta que a torre passiva em h8
Gigantes do xadrez agressivo 93

significa que as Pretas não conseguirão defender c7, quando então o déficit de
peão aumentará para dois novamente. É uma situação desesperançosa para as
Pretas, apesar dos bispos opostos de cores diferentes.

25 1e6 d5 26 e8+ f8 27 6e7 h6 28 xf8+ xf8 29 xc7 g8 30 f4 g5


31 e5 h7 32 c8+ f7 33 c4 b7 34 d8 e6 35 d6+ f5 36 f3 g4 37 f6+
g5 38 f4+ h5 39 xb6 e4 40 f2 b7 41 xb7 xb7 42 d5 1-0

Quebrar um bloqueio com sacrifício de qualidade


Na próxima partida, Topalov está disposto a investir a qualidade e um peão para
impedir que seu par de bispos seja excluído do jogo. Ele não tem um ganho ime-
diato, mas consegue exercer pressão contínua sobre a débil ala do rei de Kamsky.

Partida 24
V.Topalov – G.Kamsky
Sófia, 2006
Defesa Eslava

1 d4 d5 2 c4 c6 3 f3 f6 4 c3 a6 5 c5 bd7 6 f4 h5 7 d2 hf6 8 c1
g6 9 h3 c7 10 g3 g7 11 f4 d8 12 g2 h5 13 g5 h6 14 d2 0-0 15 e4
dxe4 16 xe4 hf6 17 c3 e8 18 0-0 f8 19 b3 e6 20 e3 c7 21 e5
fd5 22 xd5 xd5 23 d2
94 Neil McDonald

O cavalo branco está excelentemente posicionado, portanto Kamsky deu o


passo drástico de trocar seu bispo de casa preta.
23... xe5?
É de se admirar a abordagem original que o Grande Mestre americano dá
à estratégia no xadrez, mesmo que nesse caso o leve à derrota. Quantos outros
enxadristas teriam ponderado sobre esta captura por um segundo sequer?
Mesmo assim, deveria ter dado preferência a uma defesa cuidadosa com
23... c7!.
24 dxe5 h5
Esta é a ideia: as Pretas pretendem estabelecer um bloqueio nas casas bran-
cas, o que fica muito próximo de acontecer.
25 fe1
Topalov percebe o plano de seu adversário e então realiza um lance de pre-
paração importante.
25... c7
Gigantes do xadrez agressivo 95

Tendo defendido o peão em b7, Kamsky está pronto para completar a co-
nexão final de seu bloqueio com 26... e6, quando depois de 27... ad8 ele estará
centralizado de maneira excelente. Nesse cenário, é difícil enxergar qualquer ma-
neira de as Brancas criarem uma atividade para o par de bispos. Na verdade, atin-
gimos o momento crítico da partida. Se as Brancas não encontrarem uma maneira
de impedir o plano das Pretas, a energia de sua posição irá se dissipar.
26 e6!
Topalov aproveita a oportunidade. Esse sacrifício de qualidade não se trata
de um luxo que as Brancas podem ou não se dar (de acordo com seu estilo ou
estado de espírito); é, na verdade, de primordial importância para salvaguardar
sua posição.
26... xe6 27 xe6 fxe6 28 e1 d7 29 d3 h7 30 e5!
Ameaçando jogar 30 xh5+.
30... f6 31 e3!!
Colocando a torre em e5 e a dama em e3, as Brancas estão seguindo duas
regras importantes do xadrez dinâmico.
Primeiramente, ao atacar com dama e torre, geralmente é melhor ter a torre
à frente da dama. Dessa forma, a torre pode funcionar como aríete para romper
barreiras com o auxílio da dama. Caso a dama estivesse à frente, provavelmente
seria importante demais para lançar-se em qualquer ponto defendido e estaria
sempre sujeita a um ataque.

Em segundo lugar, ao atacar com dama e bispo, geralmente é melhor ter a


dama à frente do bispo. Isso se deve ao fato de que uma invasão com dama, espe-
cialmente com xeque, afeta todas as casas ao redor do rei inimigo, ao passo que
um xeque de bispo é dotado de muito menos poder.
Neste caso específico, vemos que as Brancas têm a ameaça devastadora de
32 h6+ seguida por 33 xg6+ arrasando a ala do rei das Pretas. Se a posição do
bispo e da dama fosse a outra, não haveria qualquer ameaça. De modo parecido,
96 Neil McDonald

a torre branca pode capturar em e6 em um momento apropriado, mantendo a


pressão. No entanto, caso a dama branca estivesse à frente, a captura do peão
levaria a uma troca de damas indesejável.
31... g7 32 e4!!
Topalov mostra seu talento tático. Em vez de tomar em e6, o que daria às
Pretas margem de manobra para buscarem a centralização com 32... ad8!, ele
mira no peão em g6, que é muito mais importante. Ele não prende-se ao par de
bispos, já que o cavalo preto é uma peça vital de defesa e depois de 32... xe4 33
xe4 as ameaças de 34 h6+ e 34 c3+ são arrasadoras.
32... f7
As Pretas não têm tempo para 32... ad8 por causa de 33 h6+, quando g6
cai com um mate rápido.
33 c2
O bispo, que observava passivamente o peão em c6, tornou-se uma temí-
vel peça de ataque. É bem conhecido que dois bispos são especialmente fortes
quando controlam diagonais vizinhas, abrindo fogo contra toda a extensão das
defesas inimigas.
33... ad8 34 h6!
Se, agora, 34... xd2 35 xg6+ g8 36 g5!, quando as Pretas não tem nada
melhor a fazer do que entregar sua dama com 36... xg5.
34... g8 35 a5!

Ataques simultâneos a peças inimigas acompanhados de uma investida


contra o rei são facetas importantes do xadrez agressivo. Topalov salva seu bispo
da captura e força o adversário a lidar com duas ameaças: o óbvio 36 xd8 e o
quieto, mas mortal, 36 g5.
Gigantes do xadrez agressivo 97

35... d4
Kamsky tenta dificultar, mas agora o bispo branco chega em c3 com ganho
de tempo.
36 c3 c4
As Pretas conseguiram repelir o maldoso 37 g5, que pode ser respondido
com 37... e4. No entanto, a desgraça agora vem por uma direção diferente.
37 b3!
O bispo ataca e6 através da dama preta.
Quando estiver convencido de que você tem uma iniciativa forte mas o ad-
versário bloqueia a linha escolhida para ataque, não se desiluda. Ao invés disso,
procure em volta alguma outra rota na posição dele. O xadrez é um jogo lógico,
e, se seu raciocínio estiver correto, então, certamente, haverá uma bem debaixo
de seu nariz.
37... d3 38 xe6+ e8 39 g2

As Brancas não precisam se apressar. Elas salvaguardam seu rei e, ao evitar


o xeque de dama em b1, introduzem a ameaça de 40 e3 seguida por 41 xf6.
Por isso, Kamsky defende f6 novamente com a torre, mas isso permite que a dama
branca invada g7.
39... f8 40 g7
Agora não há como as Pretas se defenderem do próximo lance das Brancas.
40... d5 41 f5!
Uma forma extrema de um conhecido artifício do xadrez agressivo: a
ameaça de mate em e7, combinada com um ataque à dama preta.
41... f7 42 xe7+! 1-0
98 Neil McDonald

O poder dos bispos brancos é tanto que, depois de 42... xe7 43 h8+ f7,
as Brancas nem precisam capturar a dama preta, pois é mate com 44 xf6+ e8
(o mesmo lance responde a 44... g8) 45 h8+ f7 46 g7+ e8 47 g8.
Um excelente exemplo de xadrez agressivo.

Prendendo uma torre em uma cravada terrível


Na partida seguinte, Geller, ao custo de uma torre, abre linhas para sua dama e
bispo exercerem completo controle na ala do rei preto. Uma concepção impres-
sionante.

Partida 25
E.Geller – D.Velimirovic
Havana, 1971
Defesa Índia do Rei

1 f3 f6 2 d4 g6 3 c4 g7 4 g3 0-0 5 g2 d6 6 0-0 c5 7 c3 c6 8 d5 a5 9
d2 e5 10 e4 g4 11 b3 f5 12 exf5
Gigantes do xadrez agressivo 99

As Pretas poderiam reaver o peão com 12...gxf5, mas, Velimirovic decide an-
tes de tudo ativar seu bispo com...
12...e4?
Agora, 13 xg4 xc3 favorece as Pretas, ao passo que 13 dxe4 gxf5 deixa
o cavalo branco em apuros. Se Geller realizar um lance passivo, digamos que 13
b2, o jogo retoma o curso natural com 13...gxf5, e seu adversário tem um jogo
ativo. Mas o Grande Mestre ucraniano está sempre à espreita de oportunidades
táticas e trata de causar problemas ao adversário com o peão f.
13 f6!
O primeiro objetivo deste lance é óbvio: as Brancas desejam capturar e4
com o cavalo, impedindo 13...gxf5 como resposta. O segundo objetivo é muito
mais oculto e brilhante: Geller teve que calcular e avaliar os variados resultados
de um sacrifício de torre.
13... xf6 14 dxe4!!

14... xe4 15 xe4 xa1 16 g5 f6


O único lance possível, caso contrário 17 xa1 daria às Brancas um ata-
que decisivo, tendo em vista o enfraquecimento das casas pretas na ala do rei
adversário.
17 xf6+ xf6 18 a1!
Fortalecendo a cravada da torre. Um ponto tático importante é que 18... g7,
esperando jogar 19...h6, pode ser enfrentado com 19 e1 h6 20 xf6+ xf6 21
e7+!, ganhando a dama preta.
18... f7
Os lances forçados chegam ao fim. Foi sobre esta posição que Geller teve
que ponderar antes de 13 f6. As Brancas estão com uma torre a menos por um
peão e sem possibilidade de mate à vista. Normalmente, isso significaria que está
na hora de abandonar, mas, aqui, a pressão sobre f6 é muito incômoda para as
Pretas. Além disso, o cavalo em a5 está paralisado, é difícil visualizar o momento
100 Neil McDonald

em que ele poderá unir-se à defesa. As outras peças pretas na ala da dama tam-
bém levarão algum tempo para se mobilizarem. Ainda assim, se as Brancas não
fizerem algo com relativa rapidez, Velimirovic irá coordenar suas forças dispersas
e, neste caso, não há dúvidas de que irá vencer.

19 e1!
Meu lance favorito desta partida. Geller desenvolve calmamente sua torre,
planejando 20 e3 e 21 f3, para atacar f6 uma terceira vez. Parece terrivelmen-
te lento mas, na verdade, as Pretas não conseguem organizar uma boa defesa
contra isso.
19... b8
Velimirovic parece conformado em devolver seu material extra. Em vez dis-
so, 19...h6 não ajuda muito, já que depois de 20 xh6 as Brancas podem reestabe-
lecer a cravada com o próximo lance 21 g5, percebendo que 20... f5? permite
o mate em g7.
20 e3 b6
Um dos temas recorrentes deste livro é que um ataque sempre precisa do
auxílio de peões em algum momento. Se 20... f5, protegendo f6, Geller dá a va-
riante 21 h3! (planejando afastar o bispo com 22 g4) 21...h5 22 g4! (de qualquer
forma) 22...hxg4 23 hxg4 xg4 24 e4! e o bispo não consegue realizar duas tare-
fas: se 24... h5 25 e6 ou 24... f5 25 h4, quando a torre branca dará um xeque
mortal em h7.
21 f3 f5
Gigantes do xadrez agressivo 101

Aqui, também, o ataque das peças brancas precisa ser completado com um
golpe de peão:
22 g4! h8 23 xf6 xf6 24 xf6+ xf6 25 gxf5 gxf5
É verdade que as Pretas evitaram um desastre em f6, mas não conseguiram
manter nada do que haviam lucrado. No final que segue, suas peças não têm força
para competir com a atividade da torre e dos bispo brancos.
26 e3!

Não 26 h3, que possibilita 26... g8+ e 27... g5. O lance pretende prender
o cavalo preto à defesa do peão em d6 e, então, com o bispo branco, fazer o rei
preto recuar. Velimirovic se esforça, mas não consegue salvar o jogo. Os lances
restantes foram:
26... b7 27 e6+ f7 28 f3 g8+ 29 f1 f8 30 h5 g5 31 e8+ g7 32
e7+ h6 33 xb7 xh5 34 xa7 xh2 35 d7 g5 36 xd6 f4 37 e2 b5
38 cxb5 e5 39 d7 h4 40 a3 h3 41 f3 d4 42 b6 h2+ 43 e1 h1+ 44
f2 h2+ 45 e1 h1+ 46 f2 h2+ 47 g3 b2 48 b7 xb3 49 a4 c4 50 a5
c3 51 a6 b6 52 c7 1-0
102 Neil McDonald

O ataque sem fim em h7


O roque tem uma história surpreendentemente longa, tendo recebido sua forma
moderna em um livro de Ruy Lopez, em 1561. Portanto, os enxadristas tiveram em
torno de 500 anos para refutá-lo. Eles chegaram a duas conclusões: se as Pretas
realizarem o roque pequeno, sua casa mais fraca é h7; já se as Brancas o fizerem,
sua casa mais fraca é h2. A maneira óbvia de provar essa teoria é colocando um
bispo branco em c2 e a dama em d3; logo h7 dá mate no rei preto.
Após aproximadamente 200 anos, as Pretas perceberam o que estava acon-
tecendo com elas e começaram a colocar um cavalo em f6. Tente dar mate em
h7 depois disto! As Brancas então responderam com a eliminação do cavalo por
meio de g5 e xf6. De qualquer forma, depois disso as Pretas recebiam o mate
com h7. Então as Pretas tentaram jogar ...h7-h6 para impedir g5. Por sua vez,
as Brancas tentaram abrir a coluna f e então jogar xf6 e h7 mate. Depois disso,
as Pretas certificaram-se de mover seu outro cavalo para f8 através de d7, a fim de
proteger h7, antes de as Brancas terem tempo de abrir a coluna f. Em resposta, as
Brancas começaram com manobras diversivas na ala da dama, desviando a aten-
ção das Pretas e impedindo seu cavalo de chegar em f8. Neste momento, as Bran-
cas acharam tão maravilhoso o peão passado adquirido nesta ala, que deixaram
de lado seu plano de atacar h7 ...e assim o xadrez posicional nasceu.
Ainda não conseguimos responder à pergunta: devem as Pretas levar o
mate em h7? O que se pode dizer é que se elas deixarem Topalov tentar alcançar
aquela casa com a dama e o bispo impunemente, é bem provável que isso ocorra.
Após a partida a seguir, Ruslan Ponomariov, um ex-Campeão Mundial da
FIDE, que mantém seu rating ELO acima de 2700, comentou: “Eu pensei que havia
usado lances de acordo com o que se espera, mas me deparei com uma posição
ruim”. Sim, até mesmo os melhores enxadristas do mundo podem se equivocar
quanto às necessidades de uma posição. Como veremos, Ponomariov realizou vá-
rios lances que estavam em perfeita harmonia com as ideias gerais de como se
deve jogar na abertura que ele havia escolhido. Infelizmente, estava enfrentando
um adversário que conhecia a casa h7...

Partida 26
V.Topalov – R.Ponomariov
Sófia, 2005
Defesa Índia da Dama

1 d4 f6 2 c4 e6 3 f3 b6 4 g3 a6 5 b3 b4+ 6 d2 e7 7 c3 0-0 8 c1 c6
Gigantes do xadrez agressivo 103

Isso deixa as Brancas ganharem espaço no centro. Alternativamente, o de-


senvolvimento sensato na ala da dama com 8... b7 9 g2 d5 10 e5 a6 provou
ser seguro o suficiente para as Pretas em uma partida entre Topalov e Kramnik.
9 e4 d5 10 e5! e4 11 d3 xc3?
A retrospectiva é uma coisa maravilhosa: posso beber meu chá e mostrar
calmamente que as Pretas deveriam eliminar a peça branca mais perigosa com
11... xd2!.
12 xc3! c5

Ponomariov joga o lance libertador padrão. E por que não? As peças brancas
estão mal posicionadas para administrar seu próprio centro de peões, que dirá
para causar aflição aos peões pretos que avançam.
De fato, parece haver uma nítida desordem no exército branco. A dama per-
deu o domínio que tinha sobre a casa d4, devido aos dois bispos que bloqueiam
sua visão. Uma torre está colocada de maneira desajeitada em c3, as Pretas po-
dem ganhar tempo atacando-a com …c5xd4. E, finalmente, por uma “burrada”, o
bispo branco foi colocado em d3 ao invés de g2, onde poderia atacar d5, colocan-
do tensão na grande diagonal.
104 Neil McDonald

Consequentemente, vemos que os três inimigos principais do centro de


peões pretos estão ou mal posicionados (o bispo em d3), ou bloqueados (a dama),
ou já estão fora do tabuleiro (o cavalo que estava em c3).
Não é de estranhar que Ponomariov estivesse otimista dadas as circunstân-
cias. Seu plano é claro: um rápido ... c6 seria combinado com a troca de peões
nas colunas c e d, quando ele finalizará seu desenvolvimento e terá a oportunida-
de de atacar o peão isolado em e5. Parece que ele irá obter um jogo fácil e seguro.
A avaliação da posição dada acima é totalmente lógica; na maioria das par-
tidas deste tipo, as Pretas igualam ou ficam melhores, se tiverem evitado as com-
plicações na coluna c e na diagonal h1-a8. Mas, antes de tirarmos conclusões pre-
cipitadas, vejamos o que realmente aconteceu:
13 dxc5 bxc5 14 h4!!
Exatamente. O que Ponomariov não percebeu é que as peças brancas, agru-
padas de maneira tão ineficaz no centro, estão esplendidamente posicionadas
para um ataque ao rei preto.

Sim, todas as peças brancas podem participar direta ou indiretamente da


investida. Isso inclui a torre em h1. Portanto, se 14... c6, as Pretas serão atingi-
das pelo famoso sacrifício “Presente de Grego”: 15 xh7+! xh7 16 g5+ g8
(16... xg5 17 hxg5+ g8 18 h5 tem o mesmo resultado) 17 h5 xg5 18 hxg5
f5 19 g6 e não há como impedir o mate em h8.
Tal é o dinamismo na configuração das peças brancas, que as Pretas não
encontram um momento sequer para desenvolver com ... c6, um fato bastante
singular. Outra reviravolta na posição é que o bispo preto em a6, que parecia
estar fazendo um ótimo trabalho pressionando c4, é repentinamente excluído
da batalha principal.
Gigantes do xadrez agressivo 105

A lógica do Grande Mestre ucraniano foi impecável, mas ele estava, por as-
sim dizer, lutando a batalha errada. Em uma partida de xadrez, frequentemente é
necessário prestar atenção aos fatores posicionais, pois aqueles que determinam
uma situação específica, muitas vezes, só podem ser deduzidos a partir de uma
atitude cética com relação aos “lances naturais”.
14...h6
Solucionando a ameaça do Presente de Grego, mas criando uma fraqueza
na ala do rei que Topalov imediatamente percebe e ataca.
15 b1!
Jogando de acordo com a regra de ouro descrita no lance 31 entre Topalov e
Kamsky, citado acima. O Grande Mestre búlgaro não perde tempo e eleva ao má-
ximo a pressão sobre a ala do rei das Pretas. A ameaça de 16 c2 e, então, mate
em h7 significa que Ponomariov tem que comprometer ainda mais a integridade
estrutural de sua ala do rei, já que 16...g6 possibilita 17 xh6.
15...f5 16 exf6 xf6 17 c2!

Topalov não deve recuar nem por um momento, visto que mover a torre de
c3 significaria permitir o lance vital de desenvolvimento 17... c6.
17...d4
Mantendo o bispo em f6 para defesa, já que 17... xc3 18 xc3 com a in-
tenção de 19 h7+ é aniquilador. Um final possível é 18... xf3 19 h7+ f8 20
xg7+ e8 21 g6+ e mate no próximo lance.
Ponomariov espera que seu lance de peão elimine a torre em c3, impedin-
do-a de se unir ao ataque ou, ainda melhor, persuadindo seu adversário a perder
um tempo precioso para salvá-la da captura.
18 g5!
O estilo agressivo envolve ser mais astuto que o adversário em uma batalha
intensa, o que requer proeza tática e coragem. Aqui, as Brancas poderiam ficar
106 Neil McDonald

receosas e salvarem a torre, através de 18 h7+ f7 19 c1, por exemplo; como


resultado, 19... b7! crava o cavalo branco e gera contrajogo. Topalov percebe que
deve atacar imediatamente, privando o adversário do tempo de que precisa para
acionar suas peças na ala da dama. Com o lance efetuado, ele impede o desloca-
mento rápido do rei preto para f7 e ameaça dar mate em um em h7, forçando seu
adversário a tomar o cavalo.

18...hxg5
A torre em c3 mostra que não serve apenas de isca para o peão preto depois
de 18... xg5 19 h7+ f7 20 xg5! hxg5 21 f3+, quando as Brancas pegam a
torre em f8 e ganham material, por exemplo 21... e8 22 g6+ d7 23 xg7+
e7 24 xf8.
19 hxg5 dxc3
Como demonstrado na variante acima, isso não é a captura injustificável de
material irrelevante, enquanto a residência de seu rei está pegando fogo: as Pretas
eliminam a torre antes que ela possa se unir ao ataque e esperam que a ameaça à
d2 irá diminuir a iniciativa das Brancas.
20 f4!
Gigantes do xadrez agressivo 107

Calmo e sereno. O imediato 20 h8+ levaria a um ataque no estilo da par-


tida depois de 20... f7 (não 20... xh8? 21 h7 mate) 21 g6+, mas, como logo
percebemos, é melhor deixar o xeque de torre pairando sobre as Pretas.
20... f7
Não há tempo para as Pretas salvarem o bispo em f6, já que 20... d4 21
g6! impede o rei de ir para f7, quando 22 h8+ é a ameaça vencedora.
21 g6+ e7 22 gxf6+
O rei preto perde a única peça menor que tentou protegê-lo. Agora o ataque
da dama branca, dos dois bispos e da torre é claramente letal.
22... xf6 23 xg7+ f7 24 g5+ d6 25 xf7 xg5
Ponomariov luta até o amargo final. Ele possui uma peça a mais e alguns
xeques à vista, então as Brancas têm que ser firmes.
26 h7!

Ameaçando dar mate em c7.


26... e5+
Não há escapatória para o rei preto. Em contrapartida, para o rei adversário
surge um refúgio seguro ao qual ele se dirige depois de 26... c1+ 27 e2 d2+
28 f3 d1+ 29 g2.
27 f1 c6 28 e8+ b6 29 d8+ c6 30 e4+! 1-0
É mate com 30... xe4 31 c7.
As Pretas foram derrotadas sem mexer nem sua torre nem seu cavalo da
ala da dama! Devido à ausência dessas suas peças na disputa, Topalov conseguiu
conduzir um ataque no estilo de Morphy.

Um lance libertador que falha


Os adversários de Alekhine muitas vezes pensavam estar desobstruindo o próprio
jogo ao abrir o centro, quando, na verdade, estavam sendo vítimas de uma arma-
dilha posicional. Eles estavam dando às peças do Campeão Mundial exatamente a
108 Neil McDonald

liberdade e o dinamismo necessários para dar um de seus famosos golpes táticos


contra seus reis.
O estilo de Akiba Rubinstein (1882-1961) tem sido descrito como a concreti-
zação perfeita das teorias de Steinitz. Ele sabia tudo sobre a acumulação contínua
de vantagens posicionais; por exemplo, sobre os benefícios de adquirir dois bis-
pos, de controlar uma coluna aberta ou uma estrutura de peão mais compacta, e
assim por diante. Partida após partida, o vemos fazer seu adversário sofrer com
uma fraqueza estrutural para, então, aumentar gradualmente a pressão através
de um plano metódico, passo a passo. Rubinstein sempre empenhava-se em ob-
ter um domínio posicional sólido. Ele se contentava em ter uma pequena vanta-
gem com as Brancas desde a abertura e com as Pretas um pouco de desvantagem
posicional, a qual ele conseguia, progressivamente, eliminar com alguns lances
defensivos bem apurados. Por essa razão, Rubinstein era um gênio do Gambito
da Dama Recusado: jogando com as Brancas ele causava uma pequena fraqueza
na ala da dama do adversário e, gradualmente, o desgastava, sempre mantendo-
-o longe; já com as Pretas, mesmo ligeiramente inferior, ele enfraquecia gradual-
mente seu adversário.
Foi esse enxadrista formidável que Alekhine teve que enfrentar jogando
com as Brancas em Carlsbad, em 1923. Ele tinha certeza de que Rubinstein iria
responder a 1 d4 com o Gambito da Dama tentando a igualdade através de uma
série de trocas precisas e, finalmente, o lance libertador padrão ...c7-c5. O Grande
Mestre polonês também aproveitaria todas as oportunidades de acumular pe-
quenas vantagens, tais como as recém mencionadas: enfraquecimento do centro
das Brancas e captura do par de bispos.
Então como Alekhine poderia usar o estilo agressivo contra tal adversário?
Bem, a partida ocorreu em 1923, um bom tempo após os resultados exce-
lentes de Rubinstein nas vésperas da Primeira Guerra Mundial (em 1912 ele ven-
ceu cinco torneios internacionais!). Ele ainda era muito forte posicionalmente fa-
lando, mas, talvez, seu olhar tático já estivesse um tanto embotado. De qualquer
forma, em 1923 poucos adversários conseguiam competir com Alekhine em uma
troca de golpes táticos.
Então, a “outra metade” do método agressivo é bem simples: uma vez que
Rubinstein tenha sido forçado a entrar em uma posição tática, é provável que nos-
so herói o vença. Mas como esta situação pode ser alcançada? Rubinstein não iria
permitir nenhuma posição obscura ou confusa!
Alekhine encontrou uma solução engenhosa para seu problema: uma posi-
ção na qual poderia utilizar a suposta acumulação de vantagens como uma “isca”
para atrair Rubinstein para uma batalha aguda.
Gigantes do xadrez agressivo 109

Partida 27
A.Alekhine – A.Rubinstein
Carlsbad, 1923
Gambito da Dama

1 d4 d5 2 c4 e6 3 f3 f6 4 c3 e7 5 g5 bd7 6 e3 0-0 7 c1 c6 8 c2 a6
9 a4 e8
Uma batalha teórica dos anos de 1920: as Pretas querem jogar uma mano-
bra libertadora com ...d5xc4 e ... d5, no entanto querem esperar até que as Bran-
cas joguem d3, para ganhar tempo. Por isso, as Pretas fazem lances de espera
como 8...a6 e 9... e8 e, de maneira parecida, as Brancas colocam dama e torre na
coluna c e jogam 9 a4. Nesse momento Alekhine decide que precisa desenvolver
seu bispo.

10 d3 dxc4 11 xc4 d5
Rubinstein continuou o que estava fazendo. Agora, depois de 12 xe7
xe7, seguido pela troca de cavalos em c3, ele estaria pronto para atacar o centro
das Brancas com ...e6-e5. Depois desta simplificação ele estaria bem próximo de
conseguir a igualdade.
12 f4!!
110 Neil McDonald

Nesse momento, vale lembrar do que falamos sobre acumular pequenas


vantagens como o par de bispos e a criação de uma fraqueza no centro do ad-
versário. Bem, com apenas um lance Alekhine entrega o par de bispos e permite
que seus peões sejam dobrados. Certamente, ele está reagindo exatamente como
Rubinstein esperava, certo? Vejamos o que acontece:
12... xf4 13 exf4
Alekhine tem “regras-padrão” de como desafiar o Gambito da Dama. Ainda
assim, nós devemos lembrar de que tais regras muitas vezes não passam de pal-
pites resultantes de algum conhecimento sobre o que é bom ou ruim em uma
posição.
Assim, devemos considerar a situação com um olhar tolerante. Se os peões
brancos não forem desafiados em d4 e f4, então o peão que serve de aríete em
f4-f5 será uma ameaça permanente à ala do rei das Pretas. Além disso, os peões
auxiliam o lance e5, colocando o cavalo em uma casa central estupenda, de
onde não poderá ser expulso com ...f7–f6 sem criar uma fraqueza em e6. O ataque
de cavalo em f7 seria complementado pela enorme pressão que as Brancas pode-
riam exercer em e6, sobre o peão que a guarda.
Por outro lado, se as Pretas removerem o cavalo com ... xe5, as Brancas
poderiam recapturar d4xe5, reagrupando seus peões com uma vantagem de
espaço.
Há um método na loucura de Alekhine. Será que Rubinstein consegue dis-
solver os peões centrais com um bom jogo?
13...c5
Os dois bispos, o centro branco dividido e, agora, um lance libertador sem
oposição ...c6-c5; Rubinstein deve ter se deleitado com todos estes “presentes”. No
entanto, Alekhine percebe que as próprias Pretas estão violando uma regra posi-
cional ao atacar imediatamente d4. Vejamos o comentário do quarto Campeão
Mundial sobre o diagrama da posição:
Gigantes do xadrez agressivo 111

Este lance (13...c5), que vai contra o princípio geral de não abrir novas linhas para um
adversário com um desenvolvimento melhor, é ditado pelo desejo de eliminar o peão
problemático das Brancas em f4. As Brancas, que ainda não realizaram o roque, difi-
cilmente conseguirão resistir a este plano e o jogo assume rapidamente uma aparên-
cia mais vigorosa (grifo de Alekhine).
Em outras palavras, Rubinstein se sente obrigado a punir o “erro” posicional
de Alekhine 12 f4 por meio de um “erro” posicional cometido por ele mesmo.
Quem ganha mais com essa situação? Falando de forma objetiva, nenhum dos
dois: o jogo passou da igualdade sólida para a igualdade dinâmica, com as Bran-
cas mantendo a pequeníssima vantagem que tinham no primeiro lance.
Ainda assim, pegando emprestadas as palavras de Alekhine, o jogo tornou-
-se “mais vigoroso”. Esta mudança na natureza da partida favorece, sem dúvidas, o
jogador do estilo agressivo, Alekhine, em relação ao jogador clássico, Rubinstein.
Como era de se esperar, ele ganha o controle na batalha tática.
14 dxc5 c7 15 0-0 xf4
As Pretas retiram o peão mais perigoso, aquele que poderia acertá-las com
f4-f5 ou auxiliar e5. Elas também esperam ganhar tempo atacando o bispo em c4.
16 e4!
112 Neil McDonald

Com esse sacrifício temporário de peão, as Brancas enfrentam a ameaça ao


bispo e mantêm a iniciativa. Como alternativa, o tímido 16 e2? deixa as Brancas
sem energia suficiente para combater a fraqueza de seus peões na ala da dama
depois de 16... c7 17 b4 a5!.
16... xc5
Aqui Kotov recomenda 16... xc5 17 eg5 f8!, “com uma posição comple-
tamente defensável”, mas não é tão fácil assim para as Pretas depois de 18 d3,
com pressão parecida com a da partida.
17 xc5 xc5 18 d3
O ataque descoberto em c5 assegura que o rei preto será perturbado.
18...b6 19 xh7+ h8?
Um lance habitual: o rei preto está em xeque e se esconde no canto do ta-
buleiro, já que o centro mostrou ser um mundo cruel. Na verdade, sua majestade
estaria bem mais segura depois de 19... f8!. As razões para isso serão discutidas
após o próximo lance.
20 e4 a7?

Outro erro grave. Em vez disso, 20... b8 teria feito Alekhine se esforçar mui-
to mais pela vitória. Em suas próprias anotações, ele afirma que ela poderia ter
sido atingida com a variante 20... b8 21 g3 f6 22 b4! d6 (senão 23 c7 encur-
rala a torre em b8, ganhando pelo menos uma peça) 23 fd1 e7 24 c6 d8 25
d4, mas aqui Kotov diz que as Pretas ainda conseguiriam resistir com 25... g8!.
Neste momento, podemos falar sobre o começo do “xadrez agressivo, par-
te dois”. Esta é a fase da partida em que Alekhine tem a chance de exibir seu
Gigantes do xadrez agressivo 113

controle brilhante da iniciativa e seu olhar tático. Para isso, ele pode se basear
em quatro fatos:
1) O rei preto pode ser atacado ao longo da coluna aberta h.
2) O peão f7 não está protegido pelo rei preto.
3) A torre preta em e8 está desprotegida.
4) Mates na oitava fileira são possíveis com xc8! se o bispo preto for força-
do a sair de c5.
É possível perceber que nenhum destes quatro temas funcionaria se as Pre-
tas tivessem jogado 19... f8! em vez do “óbvio” 19... h8. O hábito é o inimigo de
todos os enxadristas, não importa quão fortes eles sejam.
21 b4!
O bispo é forçado a recuar, possibilitando à dama infiltrar-se pela coluna c.
21... f8
O único lance, já que se 21... xb4 22 xc8! xc8 23 xc8+ e mate no pró-
ximo lance.

22 c6!
E agora as Brancas ganham mais tempo ameaçando b6 e a torre em e8.
22... d7
Não há nenhum prazer em 22... d7 23 xb6.
23 g3!
Claro que não 23 xb6? xe4. A dama preta é forçada a recuar, quando
então seu poder de defesa vital é retirado da ala do rei.
23... b8
114 Neil McDonald

Se 23... d6, Alekhine pretendia combinar ameaças ao rei e às peças pretas


com 24 c4!, planejando 25 c6 c7 26 h4+ e seguido de 27 xe8. As Pretas
estão perdidas, por exemplo 24... g8 25 c6 c7 26 fd1 e7 27 d3! e a torre
em e8 será encurralada.
24 g5!
Com todas as peças pretas mal posicionadas na ala da dama, Alekhine muda
repentinamente para um ataque direto na ala do rei.
24... ed8 25 g6!
Explorando a fraqueza de f7 para levar a dama branca à coluna h com ganho
de tempo.
25... e5
A dama preta retorna ao centro, ao custo de uma qualidade e um peão.
Se, em vez disso, 25...fxg6 26 e4 ameaça dar mate em dois com 27 h4+, quan-
do 26... d4 27 xg6 não ajudaria as Pretas.
Ou se 25... g8 26 c4 d4 27 xf7+ h8 28 c2 d3 29 e2 e a ameaça
de mate em h7 decide o jogo.
26 xf7+ xf7 27 xf7 f5 28 fd1!
Gigantes do xadrez agressivo 115

Acabando com qualquer esperança que as Pretas tivessem de ganhar o bis-


po em f7.
28... xd1+ 29 xd1 xf7 30 xc8 h7 31 xa6 f3 32 d3+ 1-0

Coordenando as peças em toda a extensão do tabuleiro


Na partida seguinte, as torres brancas, na ala da dama, estão coordenadas de
forma inesperada com suas outras peças no centro e na ala do rei, planejando
um ataque final. Isso mostra que até mesmo os melhores enxadristas de todos
os tempos podem se dar mal se seu entendimento de uma posição estiver muito
diferente da realidade.

Partida 28
D.Bronstein – M.Botvinnik
22ª Partida do Match
Moscou, 1951
Defesa Holandesa

1 d4 e6 2 c4 f5 3 g3 f6 4 g2 e7 5 c3 0-0 6 e3 d5 7 ge2 c6 8 b3 e4 9
0-0 d7 10 b2 df6 11 d3 g5 12 cxd5 exd5 13 f3 xc3 14 xc3 g4 15 fxg4
xg4 16 h3 h6 17 f4 d6 18 b4 a6 19 a4 e7 20 ab1 b5 21 g2 g4
22 d2 f6 23 b2

Com seu último lance, Bronstein mostrou sua intenção de dobrar as torres
na coluna a com a sequência de lances a1, b3, para adicionar um defensor
para b4 e, então, ba2.
Botvinnik poderia responder com 23... e4!, já que depois de 24 e1 o
plano de a1 seria impedido. Ou, se as Brancas pressionarem com 24 a1, ele
pode trocar peças com 24... xd2 25 xd2, seguido por 25... d7. Na ausência
116 Neil McDonald

do guardião branco das casas pretas, as Pretas podem pressionar b4 e e3 para


obter contrajogo.
A partida, na verdade, continuou:
23... d7? 24 a1 e4 25 e1!
Parece que o Campeão Mundial calculou o valor relativo de seu cavalo em
e4 e do bispo adversário em e1 de maneira totalmente equivocada. É compreen-
sível que tenha feito esta avaliação errônea devido ao cavalo preto estar sentado
em um impressionante posto avançado no centro, enquanto o bispo branco não
está fazendo nada de mais no momento além de defender b4. De fato, parece que
foi colocado em e1 unicamente para evitar atrapalhar o trabalho das peças “mais
importantes” na coluna a.
É provável que a maioria de nós caísse na armadilha posicional de Bronstein.
Só mais tarde veremos o papel que o “inofensivo” bispo em e1 irá desempenhar
no mate ao rei preto.
25... fe8 26 b3 h8 27 ba2 f8?

Botvinnik adiciona um defensor para a8, pois que ele precisa ser capaz de
responder 28 axb5 com 28...axb5. Entretanto, mais uma vez ele comete um equí-
voco ao evitar uma troca de peças. Ele deveria jogar 27... xf4!. Então, depois de
28 exf4, ele teria como recursos para o contrajogo a coluna e e a possibilidade
de atacar d4. Em vez disso, 28 gxf4 parece a melhor recaptura, mas 28... e6!?,
pretendendo 29 axb5 cxb5 e depois 30... g8, parece mais ou menos satisfatório
para as Pretas.
Botvinnik falhou em ver o estrago que o cavalo branco irá causar-lhe, uma
vez que sua vida foi poupada. Ele está pensando nos seguintes termos: “Meu bis-
po em d6 é mais valioso que o cavalo branco, já que guarda as casas pretas e ataca
Gigantes do xadrez agressivo 117

b4. E, além disso, depois de ... xf4 e da recaptura g3xf4, seu bispo pode tornar-
-se ativo com h4. Por que eu deveria permitir isto? De qualquer maneira, posso
jogar ... xf4 a qualquer hora que eu desejar.”
28 d3!
Em contrapartida, Bronstein acredita que não deve dar uma segunda chan-
ce de troca em f4 para seu adversário. Agora ele está preparado para uma ruptura
com 29 axb5 axb5 30 a7. Dessa forma, Botvinnik renuncia voluntariamente a
briga pela coluna a.
28... ab8 29 axb5 axb5 30 a7
Coisas horríveis costumam acontecer ao adversário quando a torre de
Bronstein alcança a sétima fileira.
30... e7 31 e5!

Podemos ver claramente porque 31... xe5 32 dxe5 deixaria as Pretas em


uma situação muito pior do que se elas tivessem trocado em f4 com 27... xf4
28 gxf4. O peão passado que as Brancas adquirem em e5 é um perigo por si só,
ou poderia ser sacrificado para possibilitar um ataque ao rei preto com uma se-
quência como d3, d4, xe4, c3 e e5-e6, quando a dama e bispo brancos são
mortais nas casas pretas.
31... e8 32 g4!
Um segundo ótimo lance, depois do qual a posição das Pretas começa a se
desintegrar. O peão em g debilita e4, rompe e abre a coluna f para a torre e abre
caminho para o bispo em e1 participar do ataque. Note que, se as Pretas tivessem
jogado 27... xf4, então, depois de 28 gxf4, não existiria um peão branco em g no
tabuleiro para causar devastação.
32...fxg4 33 xe4 dxe4 34 h4!
118 Neil McDonald

O bispo das casas pretas se junta ao ataque para completar a coordenação


das peças.
34... xe5
Eis um possível final depois de 34... xa7: 35 xa7 h6 36 c3! xh4 (ou, de
maneira similar, 36... xe5 37 dxe5 xh4 38 e6+) 37 g6+! xg6 38 d5+ g8 39
g7 mate.
35 dxe5 xe5 36 f1 g8 37 g3!

Se, agora, 37... xg3 38 c3+ e mate, ou 37... xb3 38 f8+ g8 39 xe5,
quando o bispo de que Botvinnik zombou no lance 23 dá xeque-mate ao seu rei.
37... g7 38 xg8+ 1-0
A torre em b8 cai. Este talvez seja o melhor do estilo de Bronstein: ele de-
monstra uma visão estratégica enorme ao combinar a pressão na ala da dama
com a ação no centro e na ala do rei. Não são muitos os enxadristas que conse-
guem vencer Botvinnik pela astúcia em um combate posicional. Os pecados do
Campeão Mundial, ou seja, a recusa de trocas importantes, foram tratados com
um estilo impiedoso.
4
A História de Vida
de um Cavalo

Neste capítulo, veremos as vicissitudes da fortuna pelas quais um cavalo pode


passar em um tabuleiro de xadrez. Começaremos por seus momentos mais fe-
lizes, quando ele pode combinar o seu poder único com o da dama. A seguir, o
veremos avaliando todo o campo de batalha, a partir de um posto avançado,
encantado e não temeroso de estar na linha de frente do ataque. Depois disso,
o clima fica obscuro, quando o cavalo é apanhado em um ataque que fracas-
sou. E, finalmente, para sua vergonha completa, ele é paralisado pela ação de
meros peões.

Combinações com o cavalo


Como será demonstrado neste livro, Morphy possuía um domínio de estraté-
gia maior que qualquer outro de seus contemporâneos. Mesmo assim, ele en-
trou para a crença popular como um tático brilhante e aventureiro, não muito
diferente de Anderssen. Certamente, quando o americano enfrentava adversários
relativamente fracos, em partidas não oficiais, manifestava completamente seus
poderes táticos surpreendentes. Eis o meu exemplo favorito de seu talento para
uma combinação.

Partida 29
T.Barnes – P.Morphy
Londres, 1858
Defesa Philidor
120 Neil McDonald

1 e4 e5 2 f3 d6 3 d4 f5 4 dxe5 fxe4 5 g5 d5 6 e6 c5 7 f7 f6 8 e3 d4 9
g5 f5 10 xh8 xg5 11 c4 xg2 12 f1 c6 13 f7 f6 14 f3 b4 15
a3
Essa posição foi atingida após uma disputa tática difícil. Ambos os reis es-
tão encurralados no centro. É de se imaginar que Morphy possua compensação
suficiente pela qualidade, embora uma batalha árdua, obscura e incerta pareça
estar se aproximando. Entretanto, a visão tática de Morphy encontrou uma saída
em meio às complicações e conseguiu uma vantagem decisiva para as Pretas em
apenas dois lances:

15... xe6! 16 xe6 d3+!!

Está tudo acabado, já que as Brancas receberão mate com 17 cxd3 b4+. Ina-
creditável, mas é verdade. As Brancas perdem devido à fraqueza da casa b4, apesar
de as Pretas terem apenas duas peças envolvidas no ataque (a dama e o bispo).
Barnes entrega sua dama, mas não há nenhuma esperança de vencer Morphy.
Gigantes do xadrez agressivo 121

17 xd3 exd3 18 0-0-0


A ameaça dupla de mate em e2 e o xeque de bispo em b4 obrigam as Bran-
cas a abrir mão de um cavalo também.
18... xa3 19 b3
Para impedir o mate em b3.
19...d2+!
Não deixando nem mesmo as torres brancas utilizarem a coluna e.
20 b1 c5 21 e5 f8 22 d3 e8!

Morphy serve-se de inteligência tática até o final do jogo.


23 xc5 xf1 24 e6+
As Brancas receberão o mate na primeira fileira caso tomem a dama.
24... xe6 0-1

Partida 30
D.Bronstein – E.Geller
Campeonato da URSS
Moscou, 1961
Defesa Nimzo-Índia

1 d4 f6 2 c4 e6 3 c3 b4 4 a3 xc3+ 5 bxc3 0-0 6 f3 d5 7 cxd5 exd5 8 e3 f5


9 e2 bd7 10 f4 c5 11 d3 xd3 12 xd3 e8 13 0-0 c8 14 b1 a5 15
xb7 b6 16 g4 h6 17 h4 cxd4 18 g5 dxe3 19 gxf6 xc3
122 Neil McDonald

Nossos dois gigantes avaliaram a posição do diagrama de maneiras contras-


tantes. Vejamos as reflexões de cada jogador:
Geller: “Eu simplesmente não entendo por que Bronstein deixa sua torre em
b7 fora de jogo. Ele praticamente me convidou a trocar uma peça por dois peões
passados centrais. A situação me parece promissora, já que nenhuma das peças
brancas estão interligadas: suas torres estão separadas por uma longa distância, o
bispo em c1 está passivo, o cavalo em f4 não está fazendo muita coisa, e, o melhor
de tudo, estou atacando a dama branca.”
Bronstein: “Concordo com a avaliação do meu adversário. Mas possuo a
arma mais poderosa no xadrez: o próximo lance!”
20 g6!! 1-0
As Pretas tiveram que desistir, pois, depois de 20...fxg6, a resposta 21 xg7+
e 22 xg6 resulta em mate.
No fim das contas verifica-se que a dama branca e a torre em b7, que pare-
cem estar desconectadas entre si, podem juntar suas forças para dar mate ao rei
preto, juntamente com o peão em f6 e nosso herói, o cavalo em f4.
Gigantes do xadrez agressivo 123

O poder de um posto avançado


Os cavalos adoram ficar em casas centrais, onde são apoiados por um peão amigo
e não podem ser expulsos por um peão inimigo. Se um cavalo estiver colocado
de forma segura em um posto avançado dentro do território inimigo, então, ge-
ralmente, pode-se dizer que a partida está estrategicamente ganha. Paul Morphy
compreendia isto muito antes de tais ideias serem sistematizadas nas leis do xa-
drez posicional pelos ensinamentos de Steinitz e pelos de outros grandes pensa-
dores. Morphy sabia intuitivamente o que outros tiveram que descobrir através
de trabalho árduo e de análise intensa.

Partida 31
P.Morphy – L.Paulsen
Nova Iorque, 1857
Defesa Siciliana

1 e4 c5 2 d4 cxd4 3 f3
Morphy joga um protótipo do Gambito Morra. Depois de 3...e5 4 c3! (mas
não de 4 xe5? a5+), as Brancas ganharão uma iniciativa pelo peão, então
Paulsen leva a partida para a linha principal.
3...e6 4 xd4 c5
Uma interpretação moderna desta ideia seria 4...a6 5 d3 c5 6 b3 a7.
Com o bispo branco em d3 bloqueando a visão que a dama tem de d6, f4 po-
deria ser enfrentado conquistando-se território no centro com ...d7-d6 e...e6-e5,
presumindo que as Pretas não tivessem uma resposta tática ainda melhor.
5 b3 b6 6 c3 e7 7 f4 0-0?
Era fundamental libertar seu jogo com 7...d5!, mesmo que isso significasse
ficar com um peão isolado.
8 d6!
124 Neil McDonald

Um exemplo extremamente simples de remoção de energia da posição do


adversário. Ao impedir o adversário de movimentar seu peão em d, você também
o impede de desenvolver o bispo em c8, o que, por sua vez, o impede de desen-
volver a torre em a8. Enquanto as Pretas estão preocupadas em desenvolver estas
peças, elas perderão a disputa pelo controle do centro. Morphy pode usar seu po-
der extra tanto para começar um ataque direto ao rei preto quanto para assaltar
o peão atrasado em d7.
Na partida, no entanto, as coisas aconteceram de maneira um tanto diferen-
te. Paulsen não faz qualquer esforço para liberar suas peças da ala da dama, em
vez disso, inicia um ataque pela ala do rei. Isto está fadado ao fracasso contra um
adversário engenhoso.
8...f5 9 e5 a6 10 e2 bc6 11 0-0 f7 12 h1 f4?
Um gesto agressivo que, de maneira bastante gentil, entrega a casa e4 ao
cavalo branco.
13 e4 f5 14 h5!

Motivando a resposta das Pretas, e depois um posto em f6, ainda melhor


que o anterior, surge para o cavalo branco.
14...g6 15 g4 g7 16 f3 h5
O “ataque” continua. Pode não haver nenhuma razão posicional enquanto
as Pretas tiverem uma torre e um bispo petrificados na ala da dama; ainda assim,
Morphy precisa ficar alerta.
17 h3 h4 18 f6+ h8 19 e4!
Quando se alcança o domínio das casas pretas, sempre se deve procurar uma
ruptura vencedora em uma casa branca. Aqui, as Brancas têm d6, e5 e f6 sob seu
controle, então Morphy tenta conquistar g6. Se ele conseguir jogar 20 xg6, o
jogo terminaria imediatamente devido à ameaça de mate na coluna h e ao ataque
à torre preta.
Gigantes do xadrez agressivo 125

19... g5
Estar presa à defesa de um peão fraco raramente é um bom papel para uma
dama que se preze.
20 g3!
Um lance excelente! Morphy planeja abrir a coluna f para sua torre com
20...fxg3 21 fxg3!. É possível perceber que a lógica da posição está contra
Paulsen. São as Brancas, e não as Pretas, que estão predestinadas a prosperar
com o plano mal concebido do Grande Mestre alemão, que era de avançar rapi-
damente seus peões na ala do rei. Como poderia ser diferente quando as Pretas
estão desprovidas dos serviços de uma torre e de um bispo?
20...f3
Paulsen tenta manter a ala do rei fechada. Ele pretende desviar a dama bran-
ca para que 21 xf3 xe5 permita-lhe diminuir um pouco a limitação de suas
peças (embora ainda aqui 22 c3! seja excelente para as Brancas).
21 d2!!
Brilhante! Ao invés de capturar o peão em f3 com sua dama, o que causaria
a perda de energia, Morphy pretende tomar f3 com o cavalo, acrescentando um
novo poder ao ataque na ala do rei.
126 Neil McDonald

Um exemplo perfeito do princípio de que a tática deve apoiar a estratégia.


Apenas uma peça menor não estava contribuindo na harmonia da posição das
Brancas, o cavalo em b3. Então Morphy coloca-o em ação através da casa “proibi-
da”, d2, já que, depois de 21... xd2 22 xg6 xf6 (o que mais?) 23 exf6, as Pretas
têm que abandonar.
21... d8 22 xf3 h6 23 g1
Planejando 24 g4, quando, caso 24...h4 25 g5, deixaria a dama encurralada.
Faz sentido para as Pretas deixar a coluna g bloqueada, mas 24...h4 é um exemplo
de quando a estratégia não é auxiliada pela tática!
23... xf6
Paulsen logra eliminar o cavalo preto, mas as linhas abertas logo revelam-se
fatais.
24 exf6 e8?
Ele deveria lutar até o fim com 24... xf6, mesmo que 25 e5 pareça total-
mente macabro: ele logo levaria mate por af1 etc. caso tomasse o peão em f2.
25 f4 xf6
25... h7 26 g5 etc. não é melhor.
26 xc6!
Atualmente, o desperado é um tema tático conhecido, mas Paulsen parece
tê-lo negligenciado.
26... xf4 27 xc8+
Um Zwischenzug essencial.
27... xc8 28 gxf4 xc2 29 ac1

As Pretas têm uma peça a menos e, ao tentar conseguir uns peões a mais
como compensação, deixam Morphy finalizar a partida com um ataque de mate.
29... xf2 30 c8+ g8 31 e5 g7 32 xg6+ h7 33 f8+ h6 34 xd7!
Tudo isso é jogado com muita elegância. É impossível não amar a energia
de Morphy, mesmo que às vezes seja desagradável perceber a fraqueza de seus
adversários.
Gigantes do xadrez agressivo 127

34... xd7 35 cxg8 xf4 36 xe6 e7 37 8g6+ h7 38 g8+ h8 39 h6+


h7
Se esta partida tivesse ocorrido no século XX, eu ficaria tentado a dizer que
Paulsen deve ter estado em uma pressão de tempo tão grande que não teve tem-
po de abandonar.
40 xh7 mate

O poder de um cavalo em f5
Em certa ocasião, Bronstein disse que o que o induziu a começar seus estudos
sobre a Defesa Índia do Rei foi o forte desejo de negar a casa f5 ao cavalo branco
com um rápido ...g7-g6. Os próximos dois jogos nos mostram a razão disso por
meio de um cavalo que não é desafiado e sobrevoa o campo de batalha, assim
como faziam as valquírias.

Partida 32
E.Geller – A.Kotov
Campeonato da URSS
Moscou, 1955
Abertura Ruy Lopez

1 e4 e5 2 f3 c6 3 b5 a6 4 a4 f6 5 0-0 e7 6 e1 b5 7 b3 0-0 8 d3
A abordagem comedida de Geller em relação à abertura foi utilizada com
sucesso tanto por Fischer quanto por Kasparov. A teoria do Gambito Marshall, em
especial, depois de 8 c3 d5 é evitada.
8...d6 9 c3 a5 10 c2 c5 11 bd2 c7?!

Este é um lance-padrão caso as Brancas tenham decidido jogar d2-d4, quan-


do as Pretas conseguem exercer pressão ao longo da coluna c depois de ...c5xd4
etc. Aqui, no entanto, Geller pode manobrar tranquilamente, objetivando atacar
128 Neil McDonald

a dama com um futuro d5. Já na partida entre G.Kasparov e P.Svidler, em 1999


em Linares, foi diferente: as Pretas conseguiram manter-se firmes após 11... c6 12
f1 e8 13 h3 h6 14 d4 cxd4 15 cxd4 exd4 16 xd4 xd4 17 xd4 b7.
12 f1 c6 13 e3 e8?!
O imediato 13... e6 para controlar a casa d5 parece mais sensato, embora as
Brancas possam conseguir uma pequena vantagem com 14 g5!?, pretendendo
15 f3 e, então, se possível, 16 xe6 fxe6 17 h3!, exercendo alguma pressão
sobre o peão em e6.
14 d4
14 d5!? parece muito forte.
14...exd4 15 cxd4 f8?!

Kotov joga para ganhar um peão. Ele deveria ter dado preferência para
15...cxd4 16 xd4 xd4 17 xd4, adquirindo uma pequena vantagem para as
Brancas.
16 b3! b4
Um lance preliminar necessário para a captura do peão, já que, se 16... xe4??
17 d5, as Pretas perdem uma peça.
17 b1 xe4
Coerente com seus lances anteriores, mas leva a muitas complicações.
18 b2
Gosto da indiferença que passam os lances 16 b3 e 18 b2: as Brancas de-
senvolvem seu bispo calmamente e deixam as Pretas imaginando um jeito de en-
frentar a ameaça de 19 a3 c6 20 d5.
Gigantes do xadrez agressivo 129

18... b7
Kotov desenvolve e se prepara para responder a 19 a3 com 19... d5.
19 d5!!

Para um ataque ser bem-sucedido, é preciso impedir a ação das peças defen-
soras do adversário e abrir linhas para as próprias peças. O lance de Geller fecha a
diagonal do bispo preto em b7 e impede seu cavalo de retornar ao centro com
19... d5. As consequências de 19 d5 serão sofridas até o final da partida. O cava-
lo em b4 nunca estará envolvido na defesa do rei preto, nem direta nem indire-
tamente, e o bispo em b7, quando tentar ajudar a defesa, acabará impedindo a
ação essencial de sua própria torre.
O lance de Geller também resulta na ameaça de 20 a3, encurralando o cava-
lo preto, o que significa que Kotov não terá a oportunidade de reforçar as defesas
na ala do rei antes de a tempestade começar.
19...c4
Então 20 a3 c3! (melhor que 20... d3) 21 c1 c2! é irritante para as Brancas.
20 bxc4 bxc4 21 xe4!
As Brancas tiveram que superar uma barreira psicológica para realizar este
lance, já que o bispo de casa branca é uma ótima peça de ataque. Por outro lado,
a troca em e4 fornece o tempo essencial para colocar sua dama e seus cavalos no
ataque.
Aqui o “xadrez agressivo, parte dois” começou: exploração tática e inteligen-
te da vantagem que foi ganha na fase de preparação. De agora em diante, Kotov
será atingido por uma ameaça após a outra.
130 Neil McDonald

21... xe4 22 g5

Se as Pretas tivessem deixado sua dama em d8 no lance 11, esse lance de


cavalo não ocorreria.
22... e7 23 h5 h6 24 f5!!
As peças pretas não conseguem um momento de alívio.
24... xe1+ 25 xe1 hxg5
Se 25... xd5, as Brancas ainda conseguem explorar a fraqueza da casa f7: 26
xg7! xg7 27 e7 c8 28 xf7! com ameaças decisivas, tais como 29 7xh6+ ou
o calmo 29 g6! visando dar mate em g7.
26 e3!

A torre branca prepara-se para se dirigir para h3 e finalizar o assunto.


26... c8
Se 26... xd5 27 h3 f6 28 g6, com a ameaça de vitória 29 h6+ h8 30 f7+
g8 31 h8 mate. Em vez disso, depois de 26...f6 27 g6 c8 28 h6+ h8, as Bran-
cas mantiveram a torre longe de h3, mas ela pode dar o bote fatal por outra direção:
29 xf6! xd5 30 e8 e as Brancas vencem novamente.
Gigantes do xadrez agressivo 131

27 xg7!
Uma das técnicas favoritas de Geller é combinar um ataque frontal em uma
coluna aberta com a pressão ao longo da grande diagonal. Aqui o sacrifício em g7
desvia a atenção do adversário e ganha tempo para uma invasão em e8.
27... xg7 28 e8+ f8 29 xf8+! 1-0
É mate em h8 no lance seguinte.
A próxima partida é entre duas das maiores forças da história do xadrez.
Emanuel Lasker tornou-se Campeão Mundial em 1894, e o reinado de Alekhine
terminou em 1946. Mais uma vez o cavalo em f5 mostra-se uma força essencial
para o ataque.

Partida 33
A.Alekhine – E.Lasker
Zurique, 1934
Gambito da Dama

1 d4 d5 2 c4 e6 3 c3 f6 4 f3 e7 5 g5 bd7 6 e3 0-0 7 c1 c6 8 d3
dxc4 9 xc4 d5
Lasker utiliza o lance libertador de Capablanca.
10 xe7 xe7 11 e4

As Brancas mantêm o cavalo, que é geralmente trocado depois de 11 0-0


xc3 12 xc3 e5.
Em certa medida, esse lance era uma especialidade de Alekhine. Ele utilizou-
-a oito vezes em seu match contra Capablanca em 1927. No entanto, o placar de
oito empates não foi totalmente satisfatório. Por outro lado, ele conseguiu quatro
vitórias e dois empates com este lance em partidas de torneios.
11... 5f6
132 Neil McDonald

A forma correta de desafiar o cavalo branco, pois, depois de 11... 7f6 12 g3,
as Pretas não podem jogar 12...e5.
12 g3 e5 13 0-0 exd4 14 f5
As Brancas atacam a dama preta imediatamente, já que, depois de 14 xd4
e5 15 gf5, ela tem a casa c7 disponível para si. É uma casa melhor que d8,
como veremos.
14... d8 15 3xd4 e5 16 b3 xf5 17 xf5
No fim das contas, a troca de peças menores que Alekhine evitou com 11
e4 acabou acontecendo, com a diferença de que o cavalo branco foi trocado
pelo bispo preto e não por um cavalo. Em situações como essa, o bispo bran-
co em b3 será sempre ligeiramente superior a um cavalo preto. Por isso, Lasker
não considera o final com 17... xd1 18 fxd1 muito interessante, especialmente
porque d6 é iminente.
17... b6?
Ao evitar um final levemente pior, Lasker é pego inesperadamente em um
ataque direto. Daqui para frente, o jogo de Alekhine é esplêndido. Ele sabe que,
se for lento em um lance sequer, seu adversário, talvez o defensor mais engenho-
so na história do xadrez, irá escapar. Por exemplo, se deixadas em paz, as Pretas
atingem igualdade total com 18... ad8. Portanto, as Brancas têm que continuar
atingindo a posição das Pretas com ameaças diretas.
18 d6!
Como discutiremos no próximo capítulo, Alekhine era incomparável na arte
de encontrar casas de ataque para sua dama. Não é uma habilidade fácil de se
aprender: se a dama for mantida muito longe da batalha, o ataque geralmente
falha por falta de energia; se ela for colocada muito próxima ao alvoroço, pode
acabar sendo trocada pela dama inimiga ou perseguida pelas outras peças adver-
sárias. Alekhine normalmente visava colocar sua dama em alguma casa em torno
da terceira fileira, onde ela poderia participar das batalhas e, no entanto, manter-
-se fora do alcance das investidas do inimigo. Aqui, ele percebeu que a casa g3
ficará disponível depois da resposta das Pretas.
Gigantes do xadrez agressivo 133

18... ed7
Se 18... fe8? 19 e7+ ou 18... fd7? 19 f4, as Pretas perdem material. Em
uma situação ideal, elas gostariam de utilizar seu cavalo para fechar a coluna g,
mas 18... g6 permite 19 h6+ gxh6 (a pressão sobre f7 feita pelo bispo branco
impede 19... h8?) 20 xf6 etc., quando seus peões terão sido destruídos.
19 fd1 ad8?
Um lance de rotina que leva à derrota. A última chance que as Pretas tinham
de se salvar era corrigindo o lance 17 com 19... a5! ou 19... b5!, quando sua
dama voltaria à luta. Além de atacar o cavalo branco, ela estaria em condições de
ir para e5, desafiando o domínio da dama branca.
20 g3 g6

As Pretas ainda estão a apenas um lance de ficarem perfeitamente bem, já


que 21... c5 trocaria o forte bispo branco e iniciaria a simplificação na coluna d
com ... xd1 e ... d8 etc. Neste caso, a dama de Lasker estaria envolvida na parte
mais movimentada da ação, enquanto a dama adversária estaria um tanto iso-
lada em g3.
Com o próximo lance, Alekhine assegura que o foco dos eventos será na ala
do rei. Assim, será a sua dama, e não a de Lasker, que ficará cheia de energia.
21 g5!
O cavalo preto em d7 é paralisado pela necessidade de manter f6 defendida,
e então o lance de libertação essencial 21... c5 é evitado.
21... h8 22 d6 g7
As Brancas possuem todas as suas peças em casas excelentes para realizar
ataques, mas ainda precisam encontrar energia extra para vencer a defesa. Ener-
gia essa muitas vezes proporcionada por um humilde soldado de infantaria.
23 e4!
134 Neil McDonald

Há duas ideias por trás deste lance. A primeira é avançar 24 e5, o que afasta-
rá o cavalo preto de f6 e abrirá espaço para a tática, por exemplo, com um sacrifí-
cio de peça em f7 seguido por um garfo com e5-e6. A outra é abrir caminho para
uma torre branca juntar-se à dama em um ataque direto na ala do rei.
Lasker está tão preocupado em tomar medidas quanto ao primeiro plano
que não percebe a força do segundo.
23... g8 24 d3
Alekhine não está com pressa de jogar 24 e5. Ele se prepara para dobrar as
torres na coluna d, ao mesmo tempo em que cria a possibilidade de seu adversá-
rio cair em uma armadilha.
24...f6?
O cavalo preto recuou para g8 a fim de evitar ser atingido por e4-e5, e agora
a barreira é colocada contra o avanço do peão branco. Lasker claramente pensou
que havia sobrevivido ao pior, e que seria capaz até de utilizar o ponto e5 como
base para seu cavalo com 25... e5. Infelizmente, ele deveria estar olhando para a
direita do tabuleiro e não para o centro. De qualquer forma, depois de, digamos,
24... c7 25 cd1, as Pretas se encontrariam sob forte pressão e teriam poucas
chances de opor-se a alguém como Alekhine.
25 f5+ h8 26 xg6!! 1-0
Gigantes do xadrez agressivo 135

Um belo final para a partida, pois, caso 26...hxg6 27 h3+ h6 28 xh6, é


mate. É justo que as boas manobras de Alekhine com sua dama fossem finalizadas
com o sacrifício da mesma.

Às vezes você deve dar um passo para trás para


conseguir avançar

Partida 34
E.Geller – S.Gligoric
Match URSS contra o
Resto do Mundo
Belgrado, 1970
Abertura Ruy Lopez

1 e4 e5 2 f3 c6 3 b5 a6 4 a4 f6 5 0-0 e7 6 e1 b5 7 b3 d6 8 c3 0-0
9 h3 h6 10 d4 e8 11 bd2 f8 12 f1 b7 13 g3 a5 14 c2 c4 15 b3
b6 16 b2 bd7 17 d2 c5 18 ad1 a5 19 dxc5 dxc5 20 c4 b4 21 a4 c7
22 f5

Aqui, Gligoric jogou:


22... b8
Ele pretendia a manobra ... c6 e ... d4. Este é um ótimo plano posicional,
mas deixa o cavalo fora do jogo por um lance e compromete a defesa das Pretas
no centro.
No xadrez, assim como na vida, deve-se utilizar imediatamente as oportu-
nidades que surgem. Geller tem um breve instante para executar seu ataque ou
será tarde demais. Ele aproveitou sua chance com:
23 xe5! xe5 24 xe5 xe5 25 f4 e6 26 e5 e8
136 Neil McDonald

Em troca de duas peças menores, Geller possui uma torre e um centro de


peões móvel. Ele conseguiu empurrar para trás o cavalo preto que estava em f6,
mas como prosseguirá com sua iniciativa? Se nada ocorrer rapidamente, Gligoric
conseguirá organizar suas peças e sairá vitorioso. Mais uma vez Geller encontrou
uma maneira de injetar energia vital em suas peças.
27 h4!!
Nós todos admiramos lances “barulhentos” como 23 xe5!, mas geralmente
é um lance calmo e discreto como este último que vence uma partida. Sua natu-
reza paradoxal significa que consegue surpreender o adversário, que estava espe-
rando por algum golpe óbvio.
No fim das contas, parece que Philidor estava correto quando afirmou que
as peças eram os servos dos peões. O cavalo recebe instruções para retirar-se de
seu tão sonhado posto avançado em f5, já que o peão em f deseja usar esta casa.
27... c6
Se Geller tivesse demonstrado qualquer indecisão no lance anterior, o Gran-
de Mestre sérvio estaria em condições de completar seu desenvolvimento com
28... d8. Em vez disso, ele é esmagado por uma série de lances forçados.
28 d3!
A ameaça de mate em h7 obriga as Pretas a fazerem um “gancho” em g6
para que as Brancas avancem com f4-f5. Certa vez, Bronstein disse o seguinte so-
bre uma situação parecida: “Juntamente com os estratagemas graciosos e sutis
que visam provocar fraquezas na proteção de peões do rei, não devemos esque-
cer-nos de coisas como as ameaças de mate em um lance.”
28...g6 29 f5! gxf5 30 xf5
Ameaçando 31 e7+! xe7 32 h7+ e mate no lance seguinte.
30... g6 31 e2!
Gigantes do xadrez agressivo 137

Agora é a vez de a dama preta ser ameaçada pelo xeque do cavalo em e7. Ao
fugir, ela cai em uma armadilha ainda mais traiçoeira.
31... g5?
O necessário era 31... e6. Então, Geller utiliza uma variante que é caracte-
rística de seu estilo agressivo: 32 e4! (note a maneira como ele leva sua dama
de d3 para e4 com ganho de tempo para que sua torre possa usar a coluna d,
que está aberta) 32... g6 33 d7! (um dos artifícios táticos favoritos do Grande
Mestre ucraniano é a combinação de pressão em uma diagonal sobre o rei ini-
migo e a utilização de uma coluna aberta no centro) 33... c8 34 e6! (e eis aqui
outro traço de seu estilo: o peão como aríete! – tanto c6 quanto f7 são atacadas
agora, de modo que as Pretas não têm outra escolha senão dar às Brancas um
peão passado) 34... xd7 35 exd7 g7 36 xg7 xg7 37 xg6+ fxg6 38 e4! e
as Brancas recuperam sua peça com 39 xc6, quando o peão na coluna d vence
o jogo para elas.
32 h4 f4 33 g3!
138 Neil McDonald

Os peões brancos conseguiram capturar a dama preta.


33... xe5 34 g4+ g7 35 xg7 f6 36 f4 xg7 37 c7!
Como já enfatizado em outros momentos, os enxadristas tendem a relaxar
uma vez que tenham ganho material. Porém, não Geller: ele continua perturban-
do as peças pretas e finaliza o jogo da maneira mais rápida.
37... b8 38 d6 g4 39 xc6 d4+ 40 f1 1-0

Uma batalha entre postos avançados promissores

Partida 35
D.Bronstein – S.Gligoric
Moscou, 1967
Abertura Ruy Lopez

1 e4 e5 2 f3 c6 3 b5 a6 4 a4 f6 5 0-0 e7 6 xc6 dxc6 7 d3 d7 8


bd2 0-0 9 c4 f6 10 h4 c5 11 f5 xf5 12 exf5 e8 13 b3 d5 14 b2
e4 15 e3 f7 16 d4 d7 17 g4 c5 18 xe4 cxd4 19 xd4 c6 20 ad1
c5 21 g4 f8 22 c4 ad8 23 e3 b5 24 d2 d5 25 c4 dd8 26 cxb5
cxb5 27 f3 d5 28 d4 ee5 29 d2 d7 30 c1 b4

Aqui, Bronstein poderia ter recuado seu cavalo com 31 f3, obtendo uma
pequena vantagem depois de 31... e4 32 h3. Note que sua dama estaria um
pouco fora de ação, mas ele teria a expectativa de pressionar a ala da dama das
Pretas (que está um tanto solta) enquanto seu adversário se preocuparia em re-
cuperar seu peão. No entanto, Bronstein enxergou uma armadilha tática que lhe
permite buscar uma estratégia muito mais poderosa.
31 h3!
Gigantes do xadrez agressivo 139

Abrindo um buraco em h2 a fim de escapar às ameaças na primeira fileira,


mas também dando ao adversário a chance de errar. Se agora 31... e4 32 d1!,
desta vez a dama branca participa da ação.
31... e4
Ambos os lados possuem peões avançados que fornecem postos avançados
no território inimigo para seus cavalos. O peão branco em f5 sustenta e6; e o
peão preto em b4 sustenta ... c3. Gligoric pretende assegurar uma base para si
depois de 32 d3? c3, quando a cravada na coluna d significa que Bronstein não
poderá responder com e6. Na verdade, a pressão em d4 seria tão grande que ele
teria que tentar se salvar através do sacrifício de qualidade 33 dxc3.
32 dc2! xd4

Gligoric está radiante por ter eliminado a ameaça de e6 e espera ganhar


duas peças pela torre. Em vez disso, ele deveria ter tomado o controle de seu pos-
to avançado modestamente, por meio de 32... c3, quando as torres brancas es-
tariam fora de jogo.
Não que isso fosse lhe proporcionar uma vida fácil, já que as Brancas pode-
riam, então, saltar para e6. Depois de 33 e6!, as Pretas não têm tempo para des-
truir o posto avançado com 33... xf5?, pois as Brancas podem retribuir na mesma
moeda, mas de maneira mais cruel, com 34 xf8 xf8 35 xb4+, não apenas
destruindo o posto avançado, mas, também, ganhando o cavalo! Se as Pretas sus-
tentassem seu posto avançado com 33... d6 (ou de maneira parecida com 33...a5
34 a3!), as Brancas poderiam abrir uma nova linha para suas torres com 34 a3! a5
35 axb4 axb4 36 a2!!. Se, agora, 36... xa2 37 c8+! e, graças à força do cavalo em
e6, as Pretas levam mate com 37... f8 38 xf8 ou 37... f7 38 xg7 mate.
Essas variantes revelam uma regra importante da estratégia dinâmica: mais
vale um posto avançado próximo à ala do rei inimigo do que um posto avançado na
outra ala. Ou como um grande jogador falou uma vez: “Quando você coloca um
cavalo em e6, pode ir dormir, pois o jogo já está ganho!”
140 Neil McDonald

33 c7!
As Pretas evitaram o perigo do cavalo branco, mas ao custo de as torres ad-
versárias se infiltrarem em sua posição.
33... d5
O posto avançado em c3 não manteria as Pretas a salvo por mais tempo que
isso, já que, depois de 33... c3 34 xd7 xd7, lhes falta o lance específico para
consolidação de sua posição com ...a6-a5, o que dá às Brancas a chance de cria-
rem um peão passado com 35 c4+ f7 36 xa6 xf5 37 a4!.
34 xd4 xd4 35 xg7+!!

Bronstein teve que enxergar este lance de mate antes de jogar 31 h3.
35... xg7 36 c8+ f7 37 h5+ e7 38 e8+ d6 39 c6+
É evidente que as Brancas estavam se deleitando demais com a situação
para jogar de imediato 39 d8 mate.
39... d5 40 d7+ 1-0
É mate em dois lances.

Um ataque com cavalos nem sempre é bem-sucedido!


Se um defensor tiver evitado qualquer erro de xadrez, como, por exemplo, deixar
uma peça fora de jogo ou deixar suas defesas enfraquecerem desnecessariamente,
não há qualquer razão para ele ser vítima de um par de cavalos saqueadores. Aqui,
com o objetivo de isenção, vemos um belo esforço de defesa e contra-ataque que
Veselin Topalov realizou ao enfrentar um ataque demasiadamente ambicioso.

Partida 36
A.Morozevich – V.Topalov
Dortmund, 2001
Defesa Petrov
Gigantes do xadrez agressivo 141

1 e4 e5 2 f3 f6
Dentre os melhores enxadristas atuais, Alexander Morozevich é o que possui
o estilo mais parecido com o de Adolf Anderssen. Ele tenta criar posições agudas
que se adequam a seu dom e a seu olhar afiado quando se trata de oportunidades
táticas. A maioria dos enxadristas força seus adversários até a beira do precipício
ao mesmo tempo em que evitam a própria queda. Já Morozevich está disposto
a mergulhar no turbulento mar das táticas enquanto se engalfinha com seu ad-
versário, e sente-se confiante de que irá encontrar um galho para se segurar no
último minuto.
Diante de um rival tão perigoso, Topalov decide centralizar suas peças cal-
mamente. Ele quer estar pisando em chão firme quando as complicações come-
çarem. A lenta Defesa Petrov é a maneira perfeita de fazer seu adversário inquieto
agir prematuramente.
3 xe5 d6 4 f3 xe4 5 d3

Aha! O bispo já está sonhando em dar mate ao rei preto em h7...


5... f6 6 h3 e7 7 0-0 0-0 8 c3 c5 9 c2 c6 10 d4 e6 11 e1 h6 12 e3 e8
13 bd2 f8 14 e4 d5
Topalov vê a chance de conquistar a vantagem do par de bispos. Morozevich
não está muito preocupado, já que isto permite que suas peças fortes assumam
uma postura agressiva ao longo da coluna e.
15 dxc5 xe3 16 xe3 dxc5 17 e2 c7 18 e1 ad8 19 eg5!?
142 Neil McDonald

A primeira situação crítica. As Pretas recebem a chance de errar de duas for-


mas:
a) Se 19... d7? 20 d3!, quando as agressões da dama e do bispo contra
h7 triunfam. Morozevich precisou calcular 20...g6 21 xf7! f5 (é mate em um
se o cavalo for capturado) 22 xd8! xd3 23 xe8 xc2? (ele está perdendo
muito material, de qualquer maneira) 24 xf8+! xf8 25 e6+ e a dama preta
está perdida.
b) 19...hxg5? 20 xg5 g6 (o rei preto não sobreviverá muito depois de
20... d6 21 h5) 21 xg6! fxg6 22 xe6 f7 23 xd8 xd8 e as Brancas pos-
suem uma torre, dois peões e ainda possibilidades de ataque por duas peças.
19... d6!
Repelindo o ataque das Brancas utilizando o poder da centralização.
20 e4
De volta à estaca zero, mas não houve mal nenhum em checar se as Pretas
iriam errar.
20... dd8 21 fg5!
Gigantes do xadrez agressivo 143

As Brancas tentam novamente com seu outro cavalo. Agora, 21...hxg5


22 xg5 mudaria para a variante “b”, na nota ao lance 19 eg5.
Pode-se perceber que as Pretas não podem se defender com ... d6 como no
lance 19, pois a torre ficaria exposta ao cavalo que está em e4. Mas, olhando pelo
lado positivo, ao contrário da situação após 19 eg5, não há cravada na coluna e,
então Topalov pode ativar seu bispo.
21... d5! 22 h5?
As Brancas estão ambiciosas demais. Elas deveriam contentar-se com o es-
tranho 22 h7!. Então o cavalo é um tabu, porque, se 22... xh7? 23 f6+ h8 24
xe8! (ainda melhor que 24 xe8, ganhando qualidade) 24...gxf6? 25 d3 e o
ataque a h7 triunfa. Em vez disso, depois de 22... e7 23 xc5!, a tática é vantajosa
para as Brancas. A maneira mais simples é 23... xc5?? 24 xe8+ e mate, enquanto
que o ataque a h7 vence novamente após 23... h8 24 f6! gxf6 25 d3 etc.
Então as Pretas teriam que responder com o simplificador 22... xe4! 23
xe4 e7! (impedindo as Brancas de montarem uma bateria com dama e bispo com
23... xe4? 24 xe4) 24 xf8 (agora, depois de 24 f6+? gxf6, as Brancas não pos-
suem uma boa continuação para seu ataque, já que as Pretas podem defender-se
com ... g7 se necessário) 24... xf8 com aproximadamente o mesmo número de
possibilidades.
22... e5!!

Um exemplo clássico do poder da centralização derrotando um ataque pre-


maturo. Topalov crava o cavalo e ameaça jogar o simples 23... xe4 24 xe4 xg5.
Portanto, a resposta das Brancas é forçada.
23 f4 f5!
Pretendendo conseguir o máximo de benefícios por possuir sua torre em
sua quarta fileira. A posição das Brancas começaria a desmoronar se elas deixas-
sem que o peão em f4 caísse por causa da dama preta.
144 Neil McDonald

24 g3 g6 25 h4 c4!!

A importância deste avanço de peão torna-se clara no lance 29. As Pretas


já poderiam ir em busca da linha 25...hxg5 26 xg5 xg5 27 xg5, mas, com o
emaranhado de peças brancas, não há razão para se apressarem.
26 h2
Morozevich não consegue recuar seu cavalo com 26 f3, pois, depois de
26... e7! 27 xh6 xe4! (mas não 27... h5?? 28 f6+!, quando as Pretas recebem
mate em dois lances – todo cuidado é pouco!) 28 xe4 h5, a aventura impruden-
te da dama na coluna h levou-a ao aprisionamento.
26... g7 27 g4 hxg5
Finalmente é o momento certo de tomar material.
28 xg5 xg5 29 xg5 b6!
A defesa de Topalov contra o ataque das Brancas torna-se mais fácil devido
ao seu 25º lance, que possibilitou à dama participar do contra-ataque.
30 f5
Gigantes do xadrez agressivo 145

Neste livro, as Brancas obtêm muitos feitos como resultado da infiltração de


seu peão f nas defesas das Pretas. De fato, ele parece bem ameaçador aqui, já que
tanto 31 f6+ seguido por xg6! e 31 fxg6 estão iminentes. Mas Topalov preparou-
-se bem para este lance com 25...c4! e 29... b6!.
30... e7!
Uma resposta completa para a ameaça das Brancas, pois, se 31 xe7, as Pre-
tas dão o mate em um lance!
31 f4 xb2
Topalov ataca antes que Morozevich, pois ao último falta tempo para jogar
32 xe7 e 33 f6+.
32 xe7 xc2+ 33 1e2 xf5
O desaparecimento do peão f impede as Brancas de causarem problemas ao
rei preto. Sua resistência ininterrupta levou a apuros de tempo.
34 xf5 gxf5 35 e8 d7 36 d2 f6 37 g1 e5 38 f2 d3+ 39 e3 c6
40 b8 e7+ 0-1
A desonra final das Brancas é que seu rei recebe mate depois de 41 d4
e4.

A fraqueza de um cavalo sem acesso a casas centrais


Tendo exaltado o cavalo na maior parte deste capítulo, tentaremos sepultá-lo
agora. Sua principal fraqueza, comparando-o ao bispo, é não poder controlar ca-
sas distantes. Portanto, pode se tornar uma peça fraca caso lhe seja negado um
posto seguro ou perto do centro.
Topalov havia estudado a Variante do Peão Envenenado nos jogos de Gata
Kamsky e encontrou uma oportunidade de desfazer a harmonia entre as peças e
os peões do americano.

Partida 37
G.Kamsky – V.Topalov
Sófia, 2006
Defesa Siciliana

1 e4 c5 2 f3 d6 3 d4 cxd4 4 xd4 f6 5 c3 a6 6 g5 e6 7 f4 b6 8 b3
As Brancas querem uma disputa mais posicional e, então, recusam-se a ofe-
recer o peão.
8... e7 9 f3 bd7 10 0-0-0 c7 11 d3 b5 12 he1 b7 13 h3?
Um lance ruim que acaba deixando fora do jogo seu cavalo em c3. Mais pru-
dente seria 13 b1, quando, se 13...b4 14 e2 manteria o cavalo centralizado.
Mas Kamsky continuava guiando-se por suas partidas anteriores.
146 Neil McDonald

13...b4! 14 b1
Depois de 14 e2, a dama branca não está mais defendendo e4. Então
as Pretas podem tomar um peão rapidamente e, com relativa segurança, jogar
14... xe4 15 xe7 xe7. Sem dúvida, se Kamsky quisesse utilizar um sacrifício
duvidoso de peão, ele teria entregado o peão envenenado no lance 8.
14...e5!

Com seus dois últimos lances de peão, Topalov vence a batalha da abertura.
Em um jogo anterior (G.Kamsky – I.Smirin, Copa do Mundo FIDE, Khanty Mansiysk,
2005), as Pretas haviam jogado o imediato 14...a5?!, o que havia dado a oportuni-
dade de o cavalo branco entrar em ação com 15 d4!. A partir desta casa central,
ele introduziu tanto a ideia de b5 quanto a do sacrifício xe6. Além disso, as
Pretas não podiam mais jogar ...e5-e6 sem abrir caminho para o perigoso f5, o
que faria do aríete e4-e5 uma ameaça sempre latente. Isso fez com que o jogo das
Brancas fosse dinâmico.
Examinemos, agora, a situação depois de 14...e5. Primeiro, um posto central
em d4 foi negado ao cavalo branco. Depois, as Brancas acabaram com o aríete
e4-e5 do peão, excluindo a possibilidade de qualquer ataque com f5. E, por
último, com o desaparecimento de ideias como e4-e5, b5 ou xe6, a dama
branca em h3 parece estar um tanto fora de jogo.
Esta análise breve mostra-nos como 14...e5! esgotou a maior parte da ener-
gia da posição das Brancas. Os peões de Topalov na ala da dama estão móveis e
seu avanço pode ser apoiado pelas outras peças pretas, enquanto que as peças e
peões de Kamsky já não estão cooperando entre si para gerar um jogo ativo. Em
outras palavras, o jogo das Brancas está passivo.
15 1d2 a5!
Este avanço de peão está ainda melhor por ter sido adiado em um lance.
Bons lances devem ser jogados no momento certo!
Gigantes do xadrez agressivo 147

16 b1 a4 17 c1

17...0-0!
É interessante como Topalov não tem pressa para 17...a3, forçando 18 b3.
Se, em seguida, 18... c3? 19 c4, quem ri por último são os cavalos brancos por
meio da ameaça de cerco à dama com 20 e2.
O avanço do peão branco com 17...a3 parece extremamente forte à primeira
vista, mas deve ser contido até que haja um bom lance que o siga. Afinal de contas,
se as Pretas não conseguirem explorar a abertura em c3, tudo o que elas terão feito
será renunciar a um plano potencialmente mais útil de abrir linhas com ...b4-b3.
18 e2 fc8 19 g3
O cavalo branco levou três lances para alcançar a casa f5, enquanto podia
tê-lo feito com apenas um lance depois de 14...a5?! 15 d4. E, o que é pior, sua
jornada se revela uma perda de tempo, já que ele é, mais uma vez, impedido de
agir por um lance de peão.
19...g6!
148 Neil McDonald

A dama branca é agora uma visão deplorável. Está trancada no canto do


tabuleiro, bloqueada por seu cavalo. Ela não tem como causar nenhum problema
ao rei preto, pois seus peões na ala do rei estão parados. Ao contrário, os peões
pretos estão trabalhando bastante ao lado de suas peças para atacar o rei branco.
20 c4 a6 21 b3
Se 21 e3 a3, as Brancas não poderiam mais jogar 22 b3 porque 22... c3
vence de imediato. Também seria em vão permitir uma ruptura com 22...axb2.
Portanto, Kamsky é obrigado a defender seu cavalo em c4, com o lance da parti-
da, o que abre a coluna a, facilitando o trabalho das Pretas.
Aqui, vemos a excelência da decisão de Topalov de postergar o avanço
...a4-a3 do peão no lance 17.
21...axb3 22 cxb3 c5
Agora, 23 f1 a7 etc. será logo esmagador. Por isso, Kamsky tenta confun-
dir o adversário com a oferta do peão e4.
23 e2 fxe4!

Topalov vê que entregará a qualidade, mas ganhará um ataque irresistível.


24 xe7 xe7 25 xe4 xe4 26 b6 a7! 27 xa8
Se 27 xc8 d3+! 28 xd3 xa2+ 29 c1 a1+! 30 b1 xc8+ e as Pretas
dão o mate.
27... xa8 28 a4 xe2 29 c1
Ou 29 xe2 c3+, quando as Pretas terão uma peça a mais.
29... f2! 0-1
Com duas peças e um peão a menos pela torre e enfrentando um ataque
decisivo, Kamsky desiste da luta.
Gigantes do xadrez agressivo 149

As fraquezas de um cavalo enfrentando um peão passado


Sabe-se que, comparado ao bispo, o cavalo não se sai tão bem ao lidar com um
peão passado que continua avançando. Veremos como Alekhine utilizou isso para
obter uma vitória famosa.

Partida 38
E.Bogoljubow – A.Alekhine
Hastings, 1922
Defesa Holandesa

1 d4 f5
Assim como Morphy e Topalov quando jovem, Alekhine achava que a Defe-
sa Holandesa era uma maneira útil de gerar posições agudas com as peças pretas.
2 c4 f6 3 g3 e6 4 g2 b4+ 5 d2 xd2+ 6 xd2?!
Um erro já no início: as Brancas deveriam recapturar 6 xd2 e então jogar
7 c3. O cavalo está inativo em d2 e ainda diminui a influência da dama branca
sobre o centro.
6... c6 7 gf3 0-0 8 0-0 d6
150 Neil McDonald

As Pretas já estão preparadas para tomar vantagem em espaço com ...e6-e5.


9 b3 h8 10 c3 e5!
Um exemplo simples de tática auxiliando a estratégia: as Brancas não con-
seguiram deter a expansão de seu adversário no centro, uma vez que, se 11 dxe5
dxe5 12 xe5? xe5 13 xe5 xd2, as Pretas ganhariam uma peça.
11 e3 a5!
Não apenas impedindo qualquer contrajogo com b2-b4, mas também pre-
parando-se para tomar a iniciativa na ala da dama.
12 b3 e8!

Geralmente Alekhine utiliza manobras na ala da dama como prelúdio de um


ataque direto ao rei inimigo. Aqui a situação é inversa: as Pretas desejam arrumar
a situação na ala do rei da maneira mais favorável antes de voltarem-se para a
ação no centro.
Gigantes do xadrez agressivo 151

13 a3 h5
Mais uma vez, recursos táticos são usados para preservar o peão em e5, pois,
caso 14 dxe5 dxe5 15 xe5? xe5 16 xe5 g4, a ameaça em h2 custa a dama
às Brancas.
14 h4
Não há dúvidas de que as Brancas estavam com medo de um possível avan-
ço com ...f5-f4 seguido por ... h3 e ... g4.
14... g4 15 g5 d7 16 f3 f6 17 f4 e4 18 fd1 h6 19 h3

Bogoljubow respondeu às ameaças do adversário com o bloqueio da ala do


rei. Se esse fosse um dos jogos de Morphy, com certeza as Pretas visariam a uma
ruptura envolvendo ... g8 e ...g7-g5. Muita energia de criação seria gasta inutil-
mente ao tentar fazer essa ideia funcionar. Na verdade, utilizar o estilo de Morphy
é sempre um prazer até você se deparar com um centro bloqueado. Depois disso,
é triste ver como a totalidade da estratégia parece ser reduzida a um mantra: “Se
eu estiver jogando com as Brancas, usarei g1 e g2-g4; se eu estiver jogando com
as Pretas, usarei g8 e ...g7-g5.”
Por exemplo, o próprio Morphy perdeu a décima partida de seu match con-
tra Anderssen por jogar um lance ...g7-g5, o qual Steinitz julgou corretamente
como sendo “um grande erro estratégico”.
Diferentemente de Morphy, Alekhine teve a vantagem de aprender com as
partidas e os ensinamentos de Steinitz sobre como jogar em posições fechadas.
Portanto, ele aparece com uma estratégia de maior qualidade, que inclui tomar
controle de uma estrutura de peões em casas brancas. Não se vê uma abordagem
tão sofisticada nos jogos de Morphy – as partidas em que ele utiliza as Pretas con-
tra Harrwitz são o mais próximo que chegamos disso (ver o Capítulo Nove).
152 Neil McDonald

Você pode estar imaginando por que Alekhine fez questão de 13... h5 etc.
quando, na verdade, ele pretende mover o foco da luta para a outra ala. O ponto
é que as Brancas foram levadas ao avanço duplo com h2-h4 e f2-f4, o que sugou
toda a energia dos peões de sua ala do rei. Isso impediu o cavalo em h3 e o bispo
em g2 de desempenharem um papel ativo. Em contraste com eles, estão as peças
pretas equivalentes a essas em f6 e d7, que possuem muito mais mobilidade para
uma batalha na ala da dama e no centro.
Eu sugeriria que 13... h5! fez Bogoljubow fechar linhas na ala do rei, em
parte por receio da reputação que seu adversário tinha de ser um atacante por
excelência. É irônico como são exatamente estas linhas que as peças brancas
poderiam ter utilizado em seu contrajogo uma vez que o verdadeiro ataque de
Alekhine começa na ala da dama.
19...d5!

20 f1
Não tenho ideia do porquê deste cavalo ter esgueirado-se da disputa na ala
da dama. Com três peças menores posicionadas passivamente na ala do rei, não é
de se espantar que surja uma crise para as Brancas na outra ala.
20... e7
Com a ameaça posicional de 21...a4!, quando se 22 b4 dxc4 e a casa d5 tor-
na-se uma ótima base para os cavalos pretos.
21 a4
As Brancas não desejam jogar 21 c5, já que 21... b5 traz o bispo preto à vida.
21... c6!
Pensamento flexível: o cavalo volta para c6, já que a casa b4 torna-se dispo-
nível.
22 d2 b4 23 h1 e8!
A dama preta retorna ao centro e aumenta a pressão sobre a4.
Gigantes do xadrez agressivo 153

24 g2 dxc4 25 bxc4
As Brancas passaram pela situação altamente desagradável de ter que esco-
lher entre desistir do peão em a4 e render as casas brancas com 25 xc4, quando
25... fd5 seguido por 26...b5! é terrível para elas.
25... xa4 26 f2 d7 27 d2 b5!
Alekhine deseja a casa d5 para seu cavalo. Bogoljubow o impede, mas a um
custo muito alto.
28 d1 d3! 29 xa5 b4! 30 xa8

Agora, o direto 30... xa8 31 b3 a1, ameaçando o 32... a4, provavel-


mente terminaria a partida em alguns lances. O bispo branco em h1 e a torre em
g2 são uma visão que gera aflição. Mas Alekhine era um artista, não apenas um
colecionador de pontos, e não poderia resistir a uma chance única de sacrificar
duas torres e uma dama por um peão:
30...bxc3!! 31 xe8 c2
O valente peão esgueira-se através dos defensores. Este é um dos casos ex-
tremamente raros em que um tema para estudo aparece em um torneio.
154 Neil McDonald

32 xf8+ h7 33 f2 c1 + 34 f1 e1 35 h2 xc4
Ele poderia ter ido atrás de e3 imediatamente com 35... c2!?, a fim de criar
outro peão passado.
36 b8 b5

As peças brancas estão tão mal posicionadas que as Brancas devem perder a
qualidade, e isso significa que estão perdendo em material e também na posição.
37 xb5 xb5 38 g4 f3+ 39 xf3 exf3 40 gxf5 e2!
Paralisando as peças brancas, já que, se 41 h3 g4! 42 xe3 fxe2, as Bran-
cas conseguirão uma nova dama.
41 d5 g8 42 h5 h7 43 e4 xe4 44 xe4 xe4 45 d6 cxd6 46 f6 gxf6 47
d2 e2

48 xe2 fxe2 49 f2 exf1 + 50 xf1 g7 51 f2 f7 52 e3 e6 53 e4


d5+ 0-1
Uma partida muitíssimo original e criativa.
5
A Dama dos
Cachinhos Dourados

A dama é de longe a peça mais forte no tabuleiro e, portanto, um cuidado extre-


mo deve ser dado ao seu desenvolvimento. Na grande maioria das partidas de
xadrez agressivo, a presença ou a ausência da dama é o fator decisivo para saber
se um ataque romperá a posição ou se a defesa triunfará.
Isso cria um dilema posicional, pois, se ela ficar muito longe da ação, as
chances de êxito são reduzidas. Por outro lado, se ela se aproximar muito da li-
nha de frente, os defensores ganharão tempo importunando-a com ameaças das
quais ela deve esquivar-se constantemente (as únicas exceções são os momentos
gloriosos em que a mente supera a matéria, os chamados “sacrifícios da dama”).
A solução é encontrar-lhe um local na partida que não seja nem muito
quente nem muito frio, como o mingau escolhido pela Cachinhos Dourados na
literatura infantil. Em hipótese alguma isso é uma tarefa fácil. A habilidade no uso
da dama permanece como uma das marcas de maestria no xadrez.

A dama irradia energia na terceira fileira


Alexander Alekhine era particularmente adepto de encontrar um posto seguro,
porém poderoso, para sua dama na terceira coluna. A partir deste ponto estratégi-
co, ela poderia avaliar o tabuleiro por completo e conduzir um ataque sem passar
por grandes riscos. Sempre me impressionei com sua manipulação sutil da dama
nos dois jogos a seguir. Em ambos os exemplos, uma simples manobra levou a um
grande deslocamento do equilíbrio de energia entre os dois exércitos.
156 Neil McDonald

Partida 39
A.Alekhine – F.Marshall
Baden-Baden, 1925
Gambito da Dama

1 d4 d5 2 c4 f6 3 cxd5 xd5 4 e4 f6 5 d3 e5 6 dxe5 g4 7 f3 c6 8 g5


e7 9 xe7 xe7 10 c3 cxe5 11 xe5 xe5
Uma recaptura interessante, que Alekhine irá punir muito severamente. Em
vez disso, 11... xe5 12 0-0 0-0 com igualdade.
12 h3 f6

Aqui o lance óbvio é 13 0-0, que desenvolve visando a 14 f4, quando a dama
preta é expulsa de seu agradável posto central e o centro das Brancas torna-se mó-
vel. No entanto, as Pretas têm uma reação excelente, 13...g5!, fixando a dama na
casa e5. Os peões brancos seriam privados de energia expansiva, o que lançaria as
peças brancas para as trevas. E, como se tudo isso não bastasse, as Pretas poderiam
realizar o roque grande e, então, usar o peão da coluna g como um aríete contra a
posição do rei branco, que foi enfraquecido por h2-h3.
Neste momento vale lembrar do famoso comentário do Grande Mestre
Rudolf Spielmann de que ele poderia ter feito qualquer uma das combinações
de Alekhine, mas que não conseguia chegar às posições em que as combinações
começavam. Estamos prestes a testemunhar algumas das partidas dinâmicas que
criaram o solo fértil onde as combinações de Alekhine puderam florescer.
13 d2! d7
Gigantes do xadrez agressivo 157

Depois de 13...g5, a resposta 14 h4 parece bastante forte. Por exemplo, 14...g4


15 g5! expulsa a dama de e5, já que 15... xg5 16 hxg5 d7 17 e2 e5 18 d5
é terrível para as Pretas.
14 e3!
É melhor negar à dama preta qualquer casa preta no centro antes de empur-
rá-la para trás. Consequentemente, o segundo lance da dama branca gera mais
energia de uma só vez que 14 f4, o que permitiria 14... c5.
Outro ponto, de igual importância na manobra de Alekhine, é que as Pretas
não conseguem realizar o roque grande devido ao ataque na casa a7. Isso induz
Marshall a mandar seu rei para ala do rei, onde estará ao alcance dos peões cen-
trais móveis das Brancas.
14... c6
Se, em vez disso, 14...g5, a resposta 15 h4 ainda parece bastante forte. Ou,
então, as Brancas poderiam simplesmente realizar um roque grande e pergun-
tar ao seu adversário: onde colocará o seu rei? As Pretas não têm estômago para
15...0-0-0? 16 xa7, enquanto 15...0-0 16 h4 não é o tipo de posição desejável
contra alguém chamado A.Alekhine.
15 0-0-0 0-0 16 f4 e6 17 e5
Os peões centrais brancos estão explodindo de energia. Marshall tenta lutar
contra eles usando suas peças, mas, sem a influência restritiva de seus peões, não
há maneira de conter os peões adversários.
17... fe8 18 he1 ad8 19 f5
É quase fácil demais. Os peões vão avançando sem deparar-se com nenhu-
ma resistência.
19... e7 20 g5 d5 21 f6
158 Neil McDonald

Note como os peões brancos avançaram em harmonia. A cada passo eles es-
tão lado a lado; a cada passo de um peão, outro o acompanha. No início, estavam
todos um ao lado do outro na quarta fileira. Então avançaram rapidamente para
a quinta fileira e, agora, um dos peões alcançou a sexta fileira. Considerando-se o
aspecto posicional, o próximo passo é, portanto, organizar e5-e6. Alekhine arqui-
teta isto com seu próximo lance.
21... f8 22 c4!
Tente retirar o peão preto de c7 e colocá-lo em e6 e verá que temos uma
verdadeira batalha diante de nós. Coloque o peão de volta em c7 e não há nada
que impeça as Brancas a moverem-se rapidamente com e5-e6 no momento certo.
22... xc3 23 xd8 xd8 24 fxg7!
Em vez disso, 24 e6 ameaça 25 exf7+ g8 26 fxg7+ xg7 27 xd8 e mate.
Alekhine disse que evitou esta linha por causa de 24... d5, mas 25 xd5 xd5 26
e7 xe7 (se a dama mover, 27 xg7 é mate) 27 fxe7 vence com grande facilidade
com o peão passado. Essa seria a maneira de vencer o jogo sem dar ao adversário
a mais vaga ideia de contra-ataque, mesmo que ainda levasse alguns lances para
expulsar a dama preta de e8.
Por outro lado, o lance de fato escolhido é a maneira mais rápida e eficiente
para um enxadrista com completo domínio de tática terminar o jogo: Alekhine
não tem medo de deixar Marshall tentar um de seus famosos ataques, pois perce-
be que tal tentativa pode ser facilmente derrotada.

24... xa2+ 25 b1!


As Pretas estão ativas e avançando depois de 25 xa2 c5+ 26 b1 d7! (e
se 27 e6?? xg5!).
25... e8 26 e6 e4+
Astuto, para dizer o mínimo. Mas imagino quais seriam as probabilidades de
Alekhine ser enganado por 27 xa2?? a4 mate.
a1!
Gigantes do xadrez agressivo 159

27 xe4 também é bom o suficiente, mas é mais fácil evitar um xeque de


torre em d1.
27...f5 28 e7+ d5 29 f6
Ameaçando dar um xeque decisivo em f8
29... f7 30 e8 + 1-0
Depois de 30... xe8 31 xd5+ é mate no lance seguinte.
Após sua excelente manobra com a dama, Alekhine conseguiu energizar
seus peões, o que, por sua vez, deu força extra à suas peças. Uma das regras do xa-
drez posicional é que as peças que são continuamente auxiliadas por seus peões
irão quase sempre triunfar sobre as peças que agem sozinhas.

Intimidando o adversário

Partida 40
A.Alekhine – K.Junge
Polônia, 1942
Abertura Ruy Lopez

1 e4 e5 2 f3 c6 3 b5 a6 4 a4 f6 5 0-0 e7 6 e2 b5 7 b3 0-0 8 c3 d5
9 d3 dxe4 10 dxe4 g4 11 h3 h5 12 g5 e8 13 xe7 xf3 14 xf3 xe7
15 d1 d6 16 d2 c6 17 f1 c7 18 a4 ad8 19 g3 ec8 20 axb5 axb5 21
f5 b6
Todas as peças de Alekhine estão posicionadas para ataque, mas ele está
sendo afetado por o centro estar fixo, impedindo-lhe de fazer uma ruptura de
peões. Como sabemos, praticamente qualquer ataque necessita do uso de peões
em algum momento. Alekhine encontrou uma maneira inteligente de pressionar
seu adversário.
160 Neil McDonald

22 e3!!
Um lance calmo, mas que faz as Pretas terem muito no que pensar. A dama
manifesta seu poder ao longo de duas diagonais importantes. Na ala da dama
há a ameaça imediata de 23 xd6 xd6 24 xd6 xd6 25 xb6, ganhando uma
peça; na ala do rei as Pretas têm que se preocupar com sacrifícios como 23 xg7
xg7 24 g5+ ou 23 xd6 xd6 24 g5. Junge está intimidado e decide eliminar
o cavalo que lhe atormenta.
22... xf5?
Ele deveria ter jogado 22... bc4!, com chances de uma defesa bem-sucedida.
23 exf5

Agora podemos ver o que Alekhine alcançou com seu lance de dama: a rup-
tura de peão necessária para sua posição apareceu no tabuleiro.
23...c5
As Pretas não podem impedir o avanço do peão branco, pois 23... e7 dei-
xaria seu cavalo en prise, enquanto que, após 23... d7, esperando bloquear com
24... f6, a torre branca pode invadir a ala da dama com 24 a7!. Por meio dessa
variante vemos como foi importante as Brancas terem encontrado tempo para
18 a4, abrindo a coluna a. Elas precisavam usar até a última gota de dinamismo
que conseguissem retirar de suas peças, caso contrário, não haveria impedimento
para as Pretas jogarem 23... d7.
24 f6!
Um peão movendo-se rapidamente em direção à defesa do adversário será
uma visão recorrente para os leitores deste livro.
24...gxf6 25 h6
Outra vantagem de 22 e3 é a dama entrar pela casa fraca da estrutura de pe-
ões do adversário. Agora as Brancas ameaçam jogar tanto 26 xf6 quanto 26 c2.
25...f5 26 xf7+!
Gigantes do xadrez agressivo 161

A atenção tática de um Alekhine! Ele se interessa imediatamente pelo fato


de o último lance das Pretas ter deixado a casa g5 sem defesa.
26... xf7
Se 26... h8 27 f6 mate, ou 26... xf7 27 xh7+ ganha a dama, ou, final-
mente, 26... xf7 27 g5+ e 28 xd8+ vence.
27 xd8 a4
É claro que se 27... xd8 28 g5+ etc.
28 b3 1-0

A dama comanda o show em ambas as alas


A próxima partida ilustra a tremenda força que tem uma dama desimpedida.
Para começar, ela impede que as peças da ala da dama inimigas desenvolvam-
-se apropriadamente. Em seguida, ela move-se rapidamente para a ala do rei
para orquestrar um ataque. E, por fim, ela se sacrifica no centro para forçar um
xeque-mate.

Partida 41
V. Topalov – A.Naiditsch
Dortmund, 2005
Gambito da Dama

1 f3 f6 2 c4 e6 3 c3 d5 4 d4 dxc4 5 e4 b4 6 g5 c5 7 e5 cxd4 8 xd4


xc3+ 9 bxc3 a5 10 exf6 xg5 11 fxg7 xg7 12 d2 0-0 13 xc4 a6 14
0-0 d8?
162 Neil McDonald

O imediato 14...b5 estava correto, uma vez que 15 e2 b7 16 f3 xf3 17


xf3 levou a um empate rápido entre O.Almeida Quintana e A.Kolev, em 2008 em
La Roda. É claro que Topalov teria encontrado uma maneira de manter a tensão,
provavelmente com o mais agudo 15 b3.
Qualquer que fosse o caso, Naiditsch deveria ter escolhido este caminho. A
tentativa de tirar vantagem com a cravada na coluna d deixa-o instantaneamente
em apuros.
15 f4!

O Grande Mestre búlgaro pretende explorar o estado indefeso da torre em


d8 para impedir o desenvolvimento das peças pretas.
15...b5
Em vez disso, 16...e5 enfraquece as casas centrais das Pretas sem ter ganho
material nenhum depois de 17 h4!. Por exemplo, 17... f8 18 c2, quando o pla-
no de 19 ae1 e 20 e3 se torna difícil de enfrentar.
16 c7!
Impedindo as Pretas de jogarem 16... b7, quando a ameaça de mate em g2
daria tempo para ... c6, com igualdade.
16... f8
O recuo da dama é uma concessão significativa, já que ... b7 não será acom-
panhado de uma ameaça de mate em g2, e ...e6-e5 não mais expulsa o cavalo de
d4. No entanto, 16... f8 dá lugar para 17 f5! exf5 (se 17... xc3 18 ac1 e então
19 e7+ ganha o bispo em c8) 18 d5, encurralando a torre em a8 e ganhando
a qualidade.
17 d3
Agora a ameaça terrível de jogar 18 e4 força as Pretas a jogarem ... b7 a
qualquer custo.
17... d7 18 f4 b7
Gigantes do xadrez agressivo 163

Parece que o plano das Brancas falhou, pois sua dama foi expulsa de c7 e as
Pretas estão prestes a jogar 19... c6. Na verdade, Topalov está usando a pressão
na sua ala da dama para fazer com que as peças pretas abandonem os seus papéis
defensivos na ala do rei. Desse modo, em primeiro lugar, a dama preta está em f8
e não em g7, onde protegia h7 e evitava qualquer xeque de dama na coluna g. Em
segundo lugar, o bispo preto foi para b7, que parece ser uma diagonal valiosa, mas
deixou de defender o peão em e6 contra um possível sacrifício. E, em terceiro lugar,
a torre preta em d7 já não protege mais a primeira fileira. Também está impedindo
que o cavalo seja levado rapidamente para reforçar a defesa da ala do rei via d7.
Como veremos, sem suas ações prévias na ala da dama, o ataque final de
Topalov não teria êxito, já que culminaria em um sacrifício em e6 e na exploração
da fraca primeira fileira das Pretas.
19 ae1
A torre ameaça finalizar a questão com 20 e3 e 21 g3+.
19... g7 20 e4
Reagindo à ameaça de mate em g2. Se, agora, 20...e5 21 xb7 exf4 22 e8+
g8 23 xg8+ xg8 24 xa8 e as Brancas ganhariam uma torre.
20... h8 21 e3 xe4 22 xe4 d5
164 Neil McDonald

Ou 22... a7 23 f4 (atacando b8) 23... ac7 24 g3 e5 25 f5 h6 26 xe5+


e as Brancas dão mate.
23 xe6!
Começando um final que é digno de uma partida de Morphy. As Brancas
podem arcar com um sacrifício, já que ainda terão maior poder de fogo onde mais
importa, na ala do rei.
23...fxe6 24 xe6 d7
Se 24... g5 25 c8+ g8 26 e8 ganha a dama.
25 g3 f8 26 e1 aa7 27 f6+!! 1-0
É mate depois de 27... xf6 28 e8+.

Esse espetáculo magnífico me faz lembrar de um esforço parecido feito pela


dama de Morphy, a qual também criou empecilhos para as peças inimigas antes
de se sacrificar para decidir a batalha.

A dama como um bloqueador

Partida 42
L.Paulsen – P.Morphy
Nova Iorque, 1857
Abertura dos Quatro Cavalos

1 e4 e5 2 f3 c6 3 c3 f6 4 b5 c5 5 0-0 0-0 6 xe5 e8 7 xc6 dxc6 8


c4 b5 9 e2 xe4 10 xe4 xe4 11 f3 e6 12 c3?
Gigantes do xadrez agressivo 165

As Brancas poderiam ter jogado 12 d3, mas, em vez disso, pretendem desen-
volver-se no centro com 12 d4. Morphy bloqueia essa ação com:
12... d3!
A dama preta não é apenas poderosa por si, ela também afeta o nível de
energia de outras peças. Por conseguinte, prende o bispo em c1 e evita d2-d4,
que iria restringir o raio de ação do bispo preto em c5. Como será mostrado, de
modo geral todas as peças pretas são vitalizadas quando ela está em uma casa
onde possa comandar o exército.

Uma batalha posicional intrigante começa agora. Paulsen esforça-se para


tirar a dama preta de sua posição dominante e espera que, com isso, possa obter
vantagem graças à sua superior estrutura de peões. Morphy, por sua vez, quer
utilizar a energia de sua dama para gerar ameaças táticas decisivas contra o rei
branco antes que ela seja retirada de sua posição.
13 b4 b6 14 a4
Ameaçando encurralar o bispo com 15 a5 e, como resultado, forçar as Pretas
a enfraquecerem seus peões.
14...bxa4 15 xa4 d7?
Um erro inesperado – ainda mais vindo do tático extraordinário que era
Morphy. Ele deveria ter jogado 15... b7!, mantendo a dama branca longe de a6.
Se, então, 16 a2, planejando desafiar a dama com 17 c2, seguiria 16... ae8!.
Esse lance de desenvolvimento contém uma ameaça tática importante, pois, se
17 c2?, as Pretas vencem imediatamente com 17... xf1+! 18 xf1 e1 mate.
Dessa forma o plano das Brancas é derrotado, já que deverão submeter-se a 17
d1, e então 17... a6! ganha a qualidade.
166 Neil McDonald

16 a2?
As Brancas perdem a chance de jogar 16 a6!. Depois de 16... xa6 17
xa6 ae8 18 a1! (evitando qualquer armadilha baseada em ...c6–c5 e ... b5), as
Brancas adquirem uma pequena vantagem. Então Morphy poderia ter respon-
dido com 16... g6 17 d4 ae8, mantendo a tensão, embora seu bispo em b6
esteja encaixotado.
16... ae8
Presumo que Paulsen estivesse planejando 17 c2, mas enxergou 17... xf1+!
no último segundo. Por isso ele coloca sua dama em a6, onde ela defende f1 “atra-
vés” da dama preta.
17 a6
Certa vez, Tartakower descreveu o xadrez como “a tragédia de apenas um
lance”. A dama atrasou-se um lance para ir para a6, e, como consequência, o vere-
dito muda de “depois de 16 a6 as Brancas estão com um pouco de vantagem”
para “depois de 17 a6 as Brancas serão esmagadas da maneira mais graciosa”.
Contanto que Morphy enxergue o lance vencedor, é claro...
17... xf3!!
Gigantes do xadrez agressivo 167

De acordo com William Hartston, em The Kings of Chess, “Mr. Stanley, um dos
espectadores, comentou que Morphy deveria ser confinado em um manicômio
por ter realizado este lance aparentemente descuidado”.
Tenho certeza de que Morphy conseguiu enxergar o sacrifício da dama sem
problemas. Na verdade, é provável que tenha enxergado a possibilidade alguns
lances antes. A dificuldade do lance é que as variantes resultantes não podem ser
calculadas até uma vitória forçada, pois simplesmente existem muitas variantes.
Portanto, tendo examinado um certo número de possibilidades e ficado satisfeito
por elas proporcionarem chances de vitória, Morphy teve que parar sua análise e
partir para a ação. Ele teve que seguir sua intuição de que as Pretas provavelmen-
te teriam uma boa resposta para todas as tentativas de defesa das Brancas.
Hoje, como muitas combinações já foram padronizadas e classificadas em
livros, vários enxadristas teriam a coragem de realizar o sacrifício mesmo não con-
seguindo enxergar os lances até um final vitorioso. Mas, em 1857, o sacrifício de
dama parecia mágica, ou, pelo menos, algo criado por um gênio (ou por um lou-
co, segundo o sarcasmo de Stanley).
O próprio Morphy refletiu por 12 minutos antes de tomar uma decisão. Não
parece muito, mas, na verdade, foi o maior tempo que gastou em apenas um lan-
ce durante o torneio de Nova Iorque. Paulsen refletiu por ainda mais tempo antes
de capturar a dama (ora, em que diabos ele deveria estar pensando?).
18 gxf3 g6+ 19 h1 h3

Ameaçando 20... g2+ 21 g1 xf3 mate.


20 d1
Se 20 g1 xg1+ 21 xg1 e1+ e mate. Uma defesa mais resistente é 20 d3,
visando sacrificar a dama em g6, como se mostra necessário. Mas 20...f5! exclui esta
possibilidade e dá às Pretas a iniciativa. Por exemplo: 21 d1 g2+ 22 g1 xf3+ 23
f1 xd1 24 a1 (ou 24 c4+ f8 25 d4 f3, quando 26... g2+ é mortal) 24... ge6
(ameaçando 25... e2+) 25 g2 e2 26 h3 g6+ 27 h1 f3+ 28 xf3 e1 mate.
168 Neil McDonald

20... g2+ 21 g1 xf3+ 22 f1 g2+ 23 g1 h3+


Bom o suficiente para sair-se vitorioso, mas Morphy poderia ter finalizado
seu ataque de maneira solene com mate em quatro lances: 23... e4+! 24 f1 f5!
(este lance calmo, que ameça mate em h3, foi muito difícil de ser visto com antece-
dência) 25 e2 h3+ 26 e1 g1 mate.
24 h1 xf2

Agora Paulsen tem que devolver a dama para evitar o mate em g2, o que o
deixa com três peões de desvantagem para enfrentar um ataque maciço.
25 f1 xf1 26 xf1 e2 27 a1 h6 28 d4 e3 0-1
Se 29 xe3 hxh2+ é mate no lance seguinte.

A arte do lance calmo da dama


Depois de ficarmos surpresos com alguns sacrifícios de dama, talvez seja uma boa
ideia observarmos algo um pouco mais sereno. Tenho que confessar ao leitor que
acho o 18º lance de Morphy no jogo a seguir mais atraente que qualquer um dos
lances violentos de dama mostrados acima.

Partida 43
P.Morphy – A.Anderssen
3ª Partida do Match
Paris, 1858
Abertura Ruy Lopez

1 e4 e5 2 f3 c6 3 b5 f6 4 d4 xd4 5 xd4 exd4 6 e5 c6 7 0-0 cxb5 8 g5


e7 9 exf6 xf6 10 e1+ f8 11 xf6 xf6
Gigantes do xadrez agressivo 169

Seguiu-se um lance típico de Morphy:


12 c3!

Um aprimoramento da teoria da abertura no lance 12. Em vez de tentar ata-


car imediatamente com o direto 12 e2 ou visar recuperar o peão com uma ma-
nobra trabalhosa com 12 d2, 13 b3 e 14 xd4, o mestre americano encontra
um meio termo: nem muito rápido, nem muito devagar. Se, agora, 12...dxc3 13
xc3, as Brancas possuem uma iniciativa bastante perigosa, e, então, Anderssen
devolve o peão imediatamente.
Em suas próprias notas da partida, Morphy menciona uma partida anterior
do mestre alemão Max Lange, que incluía 12 a3, quando 12...a6 deixava o cava-
lo fora de jogo. O americano com certeza conhecia essa teoria e, depois do fracas-
so nesta partida, Anderssen não ousou 1...e5 contra ele novamente.
12...d5 13 cxd4 e6 14 c3 a6 15 e5 d8
170 Neil McDonald

Morphy ainda está com um peão a menos e não há nenhum ataque de


mate ou golpe tático forte à vista. Por outro lado, ele possui várias vantagens
posicionais: superioridade nas casas pretas, uma torre ativa na coluna e, além
de o rei preto estar mal posicionado em f8, onde atrapalha a conexão das torres
pretas. Agora Morphy melhora a coordenação entre suas peças ao colocar a torre
em a1 em ação:
16 b3 e7
Para que 17 xd5 possa ser enfrentado com 17... d6, ganhando o cavalo.
17 ae1 g5
Anderssen pretende pôr sua torre em h8 em ação via g8. Uma abordagem
mais segura seria 17...g6 e 18... g7, quando a torre poderia ser centralizada.
18 d1!!

Adoro a falta de preconceito mostrada com esse recuo da dama. Ela abriu
caminho para a torre ir a e1 e não hesitou em retornar para sua casa inicial. Em
uma época em que a maioria de seus adversários buscavam lances abertamente
agressivos e “barulhentos”, o talento de Morphy sussurrou em seu ouvido que às
vezes o lance mais calmo em todo o tabuleiro é o que contém o maior poder.
18... f6 19 1e3 g8??
Anderssen não consegue mais suportar esta tortura vagarosa. Ele espera
colocar sua torre na terceira fileira com o próximo lance para começar seu jogo
combinativo, mas cometeu um equívoco terrível.
O lance coerente era 19...g4, que evitava o desastre que se seguiu. Nesse
caso poderíamos imaginar que Morphy poderia ter respondido 20 g3!, com a in-
tenção de 21 e2 e 22 f4 para aumentar a pressão sobre e6.
20 xe6 1-0
Gigantes do xadrez agressivo 171

A partida acaba de maneira abrupta, pois 20...fxe6 21 f3 ganha a dama.


Anderssen ficou imobilizado durante a partida inteira e não teve a mínima chance
de mostrar sua habilidade tática.

Uma dama medrosa


O nível de energia da nossa posição aumenta rapidamente ao se conseguir fazer
a dama inimiga abandonar a batalha. No enfrentamento a seguir, ela se apavora
com o primeiro sinal de problema.

Partida 44
N.Spiridonov – E.Geller
Novi Sad, 1978
Abertura Catalã

1 f3 f6 2 c4 e6 3 g3 d5 4 g2 e7 5 0-0 0-0 6 d4 dxc4 7 e5 c6


É uma boa psicologia contra o tipo de enxadrista que prefere essa abertura
supersólida. As Pretas estão dispostas a sofrerem uma ruptura em sua estrutura
de peões em troca de jogo ativo:
8 xc6
Spiridonov vê que pode ganhar um peão, então desiste completamente de
seu bispo catalão. A alternativa 8 xc6 bxc6 9 xc6 b8 não era clara.
8...bxc6 9 xc6 e8 10 xe7+ xe7 11 a4 e5!?
172 Neil McDonald

As Pretas estão fadadas a perder o peão c4 e, portanto, precisam gerar con-


trajogo por meio da abertura de linhas no centro. A alternativa era 11...c5, visando
colocar o bispo de casa branca em b7. Geller prefere ativá-lo ao longo de outra
diagonal.
12 dxe5 xe5 13 xc4 e6

14 a6?
A dama branca foge da briga. Em vez disso, ela poderia ter recuado para
c2 para ajudar a defender a segunda fileira. Outra abordagem seria 14 d3!?
ad8 15 e3 h5 16 f3. Então ela teria expulsado a dama inimiga do centro,
embora ela mesma continuasse sendo um alvo atingível. Aquele que gosta da
iniciativa preferiria estar na pele das Pretas, enquanto aquele que prefere ter
um peão de vantagem, mesmo enfrentando algumas agressões, preferiria estar
na pele das Brancas.
A propósito, Georgiev utilizou esta linha jogando com as Brancas para ven-
cer Karpov no torneio de xadrez rápido em Dubai, em 2002. O Grande Mestre búl-
garo presumiu corretamente que o antigo Campeão Mundial, que não é célebre
por ataques devastadores com as peças pretas, não ficaria totalmente feliz em
receber de maneira forçada o papel de agressor. Certamente, Karpov permitiu a
simplificação em troca da retomada de seu peão, mas foi destruído no final devi-
do à fraqueza do peão c7.
14... h3
O bispo ataca g2 por um lado...
15 e1 d5
...e a dama ataca pelo outro. As Brancas são obrigadas a enfraquecer a co-
bertura de peões em volta de seu rei.
16 f3 g4!
Gigantes do xadrez agressivo 173

O próximo estágio na estratégia das Pretas é forçar e2-e3 para que o peão
branco em f3 torne-se fraco. As Brancas precisam utilizar a dama e o cavalo para
realizar a tarefa.
17 c3 c5+ 18 e3
O único lance, mas as Brancas não podem se alegrar, pois, ao mesmo tempo,
d3 e f3 perdem a proteção de peões.
18... e5 19 e2 ad8
Impedindo que as Brancas desenvolvam sua ala da dama, pois, do contrário, a
partida acabaria de maneira abrupta depois de 20 d2 xd2! com um garfo em f3.
20 d1 h6 21 d2 f5!
Como temos visto com bastante frequência neste livro, peças que agem so-
zinhas não conseguem destruir uma defesa. A ajuda de um peão é sempre neces-
sária em algum momento.
22 e1 c6 23 xd8 xd8 24 f2
174 Neil McDonald

Parece que Spiridonov fortaleceu sua linha de defesa e precisa apenas de


um lance livre para trazer reforços com 25 d1. O melhor que um lance de peça
pode dar a Geller é um empate com 24... d3+ 25 g1 e5 etc. Mas e quanto a
um lance de peão?
24...f4!!
Uma ameaça terrível. Vejamos algumas variantes:
a) 25 gxf4 g6 e as Brancas ficam sem uma boa resposta para a ameaça de
26... g2 mate, pois se 27 e4 d3 (mais simples) 28 d2 g2+ 29 e1 g1+ e
mate no próximo lance.
b) 25 exf4 c5+ 26 e3 d3+ 27 e2 f1+! 28 xf1 (ou 28 d2 xe1+)
28... xe3 e vence.
c) 25 e4 c5+ e é mate no próximo lance.
d) 25 d1 fxe3+ 26 xe3 (não há nenhuma alegria com 26 xe3 b6+)
26... g4+! 27 fxg4 g2 mate.
25 d2 xf3! 26 d1
Se 26 xf3 xd2+ 27 e2 fxe3+ 28 xe3 (ou 28 xe3 d3+!) 28... g2+ 29
e1 xb2 30 e8+ h7 e vence.
26... d4! 0-1

Spiridonov abandonou a partida, já que é xeque-mate depois de 27 exd4


g2+ 28 e1 g1+.

Uma dama audaciosa


Às vezes o problema é que a dama é muito imprudente em vez de muito medrosa.

Partida 45
A.Strikovic – V.Topalov
Forli, 1988
Defesa Siciliana
Gigantes do xadrez agressivo 175

1 e4 c5 2 c3 f6 3 e5 d5 4 d4 cxd4 5 f3 b6 6 xd4 e6 7 c4 c7 8 f3 c5 9
e3 0-0 10 d3 d5 11 exd6 xd6

Depois de uma luta acirrada na abertura, Strikovic achou que poderia ga-
nhar a qualidade de maneira segura com:
12 b5 xb5 13 xc5 xc5 14 xa8
Parece que as Pretas não têm tempo de fechar a armadilha com a dama
branca dentro com ... c6, já que seu outro cavalo em b5 está desprotegido. Con-
tudo, Topalov jogou:
14... c6!

Se, agora, 15 cxb5?, é mate em dois: 15... c1+ 16 e2 d4 mate! (Quem


sabe, no cálculo que fizera mais cedo, Strikovic tenha visualizado somente 16...
xh1? 17 xc6, quando as Brancas estão vencendo.) Isso significa que o cavalo
em b5 é inviolável, e, para piorar ainda mais para as Brancas, ele ameaça 15... c7,
encurralando a dama.
176 Neil McDonald

Deste modo, ou o cavalo preto dá mate ao rei branco ou bloqueia a dama. Se


houvesse apenas uma ameaça ao rei branco, ele poderia ser defendido, enquanto
a dama branca poderia ser salva, já que seria o único alvo. Mas a combinação das
duas ameaças é fatal.
Durante a partida, Strikovic não conseguiu evitar uma perda maciça de ma-
terial:
15 e4 bd4 16 xc6 xc6 17 0-0 a6 18 b4 xc4 19 a3

É uma situação desesperadora quando o melhor que se pode esperar é


19... xf1+ 20 xf1 xa8 21 b5 b7 22 bxc6 xc6, com dois peões de desvan-
tagem em um final contra Topalov. O jovem búlgaro escolhe um caminho ainda
mais seguro para alcançar a vitória.
19... xa8 20 xc4 xc4 21 fc1 d5 22 a3 f8 23 f3 e8 24 f2 d7 25
e3 a5 26 b5 e7 27 c2 c8 28 ac1 xc2 29 xc2 f5+ 30 d3 d6 31
a4 b7 0-1

Utilizando a psicologia para fazer com que a dama inimiga


deserte seu posto
“Perder a objetividade em uma posição quase sempre significa arruinar seu jogo”,
constatou David Bronstein. Seguindo os passos de Emanuel Lasker, Bronstein era
um psicólogo sagaz que frequentemente fazia seus adversários escolherem pla-
nos demasiadamente ambiciosos. Aqui, por exemplo, Stahlberg é persuadido de
que se encontra em uma posição melhor, o que o leva à perda de objetividade e
a uma derrota inesperada.

Partida 46
G.Stahlberg – D.Bronstein
Torneio de Candidatos
Budapeste, 1950
Defesa Holandesa
Gigantes do xadrez agressivo 177

1 c4 f5 2 f3 f6 3 g3 e6 4 g2 e7 5 0-0 0-0 6 c3 c6 7 d3 d6 8 e4 fxe4 9


dxe4 e5 10 c5 a6 11 cxd6 xd6 12 e3 h8 13 e2 g4 14 h3 h5 15 fd1
e7 16 g4 f7 17 h4 c5 18 f5 c7 19 f1 g6 20 g3 e6 21 ac1 e7
22 xc5 xc5 23 b4 cd7 24 d2 f7 25 c2 a6 26 g5 ae8 27 cd2 e7
28 e3

As Brancas têm sua dama muito bem centralizada na casa “Alekhine“ (e3).
Ela não apenas ajuda a fortalecer os peões levemente comprometidos na ala do
rei, como também coloca pressão sobre a ala da dama preta.
O próximo lance de Bronstein mostra que ele está extremamente preocu-
pado com a ameaça de uma invasão com 29 a7, ou que, pelo menos, ele deseja
fazer com que seu adversário acredite nisso.
28... a8 29 a4
O lance passivo das Pretas fez Stahlberg se sentir otimista quanto às suas
chances na ala da dama e, então, ele inicia um ataque imediato. Ele percebeu que,
depois de 29... xa2, é possível simplificar para atingir um final favorável com 30
g5; por exemplo: 30... h5 (ou 30... e8 31 xd7 xd7 32 xd7 xd7 33 b6 d8
34 xa8 xa8 35 c5, quando a ameaça de mate em f8 significa que as Brancas
recuperam seu peão) 31 xd7 xd7 32 xd7 xd7 33 b6 e8 34 xh5 gxh5 35
xa8 xa8 36 c3 e8 37 f4 e7 38 h4 e os peões móveis das Brancas prevale-
cem sobre a passiva maioria material das Pretas na ala da dama.
29... f8!
Voltando à mesma casa. Se 30 a7, a captura de peão 30... xa2! é, agora,
forte, já que, com o cavalo em a4, 31 xb7? vai ao encontro de 31... b3 32
a1 xa4 33 xa4 c5, quando as Brancas perdem material. Mais uma vez,
Stahlberg tem a chance de repetir um lance com 30 c3, mas escolhe dar con-
tinuidade a seu ataque.
30 c5 xc5 31 xc5 d7!
178 Neil McDonald

Defendendo o peão em e5 e expulsando a dama branca de c5. Caso ela


recue para e3, as Pretas conseguirão capturar um peão de forma segura com
32... xa2, ao passo que, caso ela contra-ataque b7 com 32 a7, então 32... f6!
contém ameaças como 33... xa2 e 33...h5!. Isso significa que o melhor que as
Brancas têm a fazer é repetir lances com 33 c5 d7 etc.
Mas, agora, a psicologia entra em campo: tendo recebido três chances de
concordar com um empate através da repetição, Stahlberg ficou desatento a
qualquer perigo que a posição possa conter.

32 c2?
Este lance corresponde a uma perda enorme de energia da posição das
Brancas, pois a dama perde o contato com as casas pretas no centro e na ala do
rei. Nunca é um bom sinal quando a peça mais poderosa tem que se deslocar para
uma casa passiva simplesmente para enfrentar uma ameaça como 32... xa2.
Como dito acima, as Brancas deveriam repetir lances para empatar com 32
a7 f6 33 c5 d7 34 a7 etc. É claro que Bronstein poderia ter evitado esta
sequência, mas, neste caso, seria ele que estaria se arriscando e não Stahlberg.
32...h5!
Se a dama branca ainda estivesse em e3, este avanço de peão poderia ser
enfrentado com uma invasão com h6+. Em vez disso, seu exílio autoinflingido
significa que a fraca cobertura de peões brancos na coluna g se desmanchará as-
sim que sofrer o primeiro golpe.
33 gxh5 gxh5 34 f5
O cavalo pula antes de ser cravado com 34... g8, quando 35...h4 viria em
seguida.
34... xf5 35 exf5 g8+ 36 g2 g7
Gigantes do xadrez agressivo 179

A dama preta tira vantagem de seu domínio incontestado da coluna g para


forçar as Brancas a bloquearem seu próprio bispo e, assim, enfraquecerem suas
próprias casas pretas.
37 f3 f6!
As Brancas não têm como evitar que o cavalo chegue no posto avançado de
seus sonhos em f4.
38 d8 d5 39 xg8+ xg8 40 d2
A dama finalmente retorna às casas escuras que ela havia abandonado de
maneira tão imperdoável com 32 c2.
40... f4 41 h2?! 0-1

Aqui Stahlberg rendeu-se à força de 41... d7!, quando tomar a torre é um


problema devido ao mate em g2, ao passo que, se a dama se mover, 42... xd1
vence.
180 Neil McDonald

Se as Brancas tivessem jogado 41 d8, elas chegariam a um final perdido de


peões depois de 41... g7 42 xg8+ xg8 43 d2 xg2+ 44 xg2 xg2 45 xg2
g7 46 g3 f6 47 h4 xf5 48 xh5 b6! 49 h4 c5 etc.
As Brancas também foram atraídas para uma aventura inadequada com sua
dama na próxima partida.

Saber o momento de passar da defesa para o contra-ataque


Bronstein era um contra-atacante versátil e perigoso, adepto da prática de es-
colher o momento certo de abandonar um ponto fraco e conduzir a luta para
outra parte do tabuleiro. Tal estratégia, ou série de operações táticas, é especial-
mente eficiente contra um adversário com um estilo cauteloso e bastante lógico.
No exemplo dado aqui, Bronstein enfrentava o Grande Mestre húngaro Barcza,
conhecido por ser um enxadrista sólido, sem apetite por complicações táticas.
Barcza empatou um grande número de vezes, mas, quando recebia a chance de
melhorar sua posição de maneira estritamente lógica, ele era formidável. Um bom
exemplo disso é sua vitória jogando com as Brancas contra Smyslov na Olimpíada
de Moscou em 1956, em que ele derrotou o Campeão Mundial utilizando a maio-
ria de seus peões na ala da dama.
Jogar com as Pretas e tentar vencer tal adversário requer uma mistura de pa-
ciência e alerta tático. Mísseis lançados muito cedo irão ricochetear em sua cou-
raça resistente. Em vez disso, Bronstein oferece uma “isca” na ala da dama, o que
atrai seu adversário para fora de seu abrigo protetor.

Partida 47
G.Barcza – D.Bronstein
Match Budapeste contra Moscou, 1949
Abertura Inglesa

1 c4 e5 2 a3 f6 3 d3 a5 4 c3 d6 5 f3 bd7 6 e3 g6 7 d2 g7 8 b4 axb4 9
axb4 xa1 10 xa1 0-0 11 a7 e7 12 e4 c6 13 e2 d5 14 cxd5 cxd5 15 a4 b6
16 0-0 b7 17 exd5 xd5 18 xd5 xd5 19 b5 d6 20 c1 h6 21 e1 d8 22
f3 f6 23 xd5 xd5 24 c6 d7 25 c4 a8 26 c1 b5 27 h3
Gigantes do xadrez agressivo 181

Aqui as Pretas poderiam mirar no peão em b4 com 27... f8, mas, depois de
28 f3 f6, a situação ficaria bem ruim em torno do seu rei. Então Bronstein jogou
o simples...
27... h7!
...e desafiou seu adversário a ir atrás do peão em b5. O objetivo principal da
Abertura Réti é capturar um peão fraco na ala da dama, então, do ponto de vista
moral, Barcza não pode recusar.
28 c5
De fato, esse lance parece bastante poderoso, já que as Pretas têm que to-
mar cuidado não somente com 29 xb5, mas também com 29 d6, ganhando
uma peça.
28... f4!
Lidando com ambas as ameaças, já que 29 xb5? é pego pelo garfo
29... e2+ 30 f1 d4. E 29 xf4? seria tolo, pois ativa o bispo em g7: 29...exf4
30 xb5? a1 31 f1 e7 e a cravada em e1 é fatal.
29 c7 f5!
182 Neil McDonald

Muito melhor que o passivo 29... e8. Bronstein decidiu que é o momento
certo de desistir da defesa de b5 e tentar o contra-ataque. Nesta tarefa, sua dama
está totalmente auxiliada pelo cavalo bem posicionado e também pela torre, o
que pode causar problemas para o bispo ou cavalo brancos ao atacar a2 ou a1,
respectivamente. Enquanto isso, o bispo em g7 está desempenhando a “função
de brigada de incêndio” ao proteger o rei, além de estar impedindo as Brancas de
removerem o cavalo enfadonho com xf4, como vimos no comentário anterior.
30 c6?
A partida poderia ter acabado em empate depois de 30 xb5! e2+ 31 f1
g3+ 32 g1 e2+ com uma repetição. Talvez Barcza estivesse com receio do
30... a2, mas ele tem a excelente resposta 31 b7!, quando as Pretas deveriam
forçar um empate novamente com 31... e2+ 32 f1 g3+ etc., já que 31... xd2?
permite 32 xf7, atacando tanto f5 quanto g7. Então o sacrifício da dama 32...
xf7 falha depois de 33 xf7 d1 34 f1 xd3 35 e2!, quando as Pretas não
conseguirão mais que uma torre e um bispo pela dama.
Como discutimos acima, Barcza não era o tipo de enxadrista que gostava de
ser atraído para complicações. Talvez ele tenha enxergado 31 b7!, mas calculou
apenas até 33... d1 e concluiu que as Pretas conseguiriam muito material pela
dama. No entanto, é bastante provável que o Grande Mestre húngaro tenha esco-
lhido o lance baseado meramente em intuição. Seu plano é colocar a dama em e4 e
acalmar os ânimos da posição para, então, tentar capturar o peão preto em b5 ou f7.
30... a1 31 e4
Barcza esperava por 31... xe4 32 dxe4 d3 33 f1 com uma pequena van-
tagem para as Brancas. Infelizmente, Bronstein tem outros planos.
Gigantes do xadrez agressivo 183

31... xd3! 32 xf5


Para que, caso 32...gxf5 33 f1, quando as Brancas irão recuperar seu peão
ou em f7 ou atacando b5 com b7.
32... xe1!!

Agora Barcza não tem tempo para salvar sua dama, já que 33 xf7 f3 é
xeque-mate descoberto!
33 f1
Parece que nem tudo está perdido para as Brancas, pois 33...gxf5 34 xe1
deixa as forças mais ou menos equilibradas. Mas a combinação de Bronstein ainda
não terminou.
33... c2+! 34 c1
Se 34 e2, há um Zwischenzug final para salvar o cavalo preto antes da cap-
tura da dama branca: 34... d4+! 35 d3 gxf5 e as Pretas mantêm sua peça extra.
34... xc1+ 35 e2
Como Alekhine disse, às vezes um jogador está tão apertado de tempo que
não consegue abandonar a partida.
35... d4+
É claro que 35...gxf5 é um lance vencedor, apesar de as Brancas poderem
recuperar uma peça com 36 d2. No entanto, Bronstein prefere ter duas peças de
vantagem em vez de apenas uma.
36 d2 b3+ 0-1
184 Neil McDonald

Tirar vantagem de uma dama mal posicionada


através de ameaças diretas
Até agora vimos exemplos em que a dama inimiga abandonou a principal cena
de ação ora voluntariamente, ora levemente incitada. Geller a trata de uma ma-
neira bem mais cruel.

Partida 48
E.Geller – L.Portisch
Moscou, 1967
Abertura Ruy Lopez

1 e4 e5 2 f3 c6 3 b5 a6 4 a4 f6 5 0-0 e7 6 e1 b5 7 b3 d6 8 c3 0-0 9
h3 h6 10 d4 e8 11 bd2 f8 12 f1 b7 13 g3
É incrível a encrenca em que Portisch se envolveu depois de um lance que
parecia tão inocente...
13... d7?
Agora Geller conseguiu se aproveitar da fraca posição da dama preta para
gerar um ataque violento ao rei e, com isso, terminar a partida em apenas 23 lan-
ces. Vejamos como aconteceu:
14 dxe5 dxe5?
Menos mal seria 14... xe5, apesar de as Brancas terem o necessário para
realizar um ataque na ala do rei depois de 15 xe5 dxe5 16 f3, pois ameaças
como 17 xh6 já estão se tornando iminentes.
15 h5!
Gigantes do xadrez agressivo 185

Perturbando o defensor da dama preta. Uma das regras menos conhecidas


de estratégia no xadrez é: se deseja vencer em 25 lances, aja como se estivesse dis-
posto a jogar uma partida de 100 lances. Aqui as Pretas poderiam tomar as rédeas
da partida para atingir um final com 15... xd1 16 xf6+ gxf6 17 xd1. Mas isso
não ocorre, pois Portisch não deseja aguentar um processo fatigante de defesa
com peões débeis. Ele prefere apostar suas fichas no meio-jogo.
A propósito, isso explica a razão pela qual alguns enxadristas de nível mun-
dial perdem rapidamente nos raros casos em que algo dá errado na abertura. Eles
percebem que, em vez de levar a um final que é apenas um procedimento téc-
nico para seu adversário, o melhor é arriscar a segurança de seu rei. Isso força o
adversário a se esforçar mais, o que significa que há mais chances de ele cometer
um erro. O problema de Portisch é que, neste caso, seu adversário é um mestre
sublime do xadrez agressivo.
15... e7 16 h4! xh5
Portisch não tem tempo para 16... ad8, pois 17 f5! é uma resposta es-
magadora. Se, então, as Pretas tomarem d1, elas perdem a qualidade, e, se mo-
verem sua dama para uma casa segura, 18 xf6+ começa a colheita. Portanto,
não há nada melhor a fazer do que seguir o esquema, o que leva a dama branca
para o ataque.
17 xh5 a5
É compreensível que o Grande Mestre húngaro esteja desesperado para ali-
viar a pressão sobre f7 com 18... xb3, já que mesmo o lance natural 17... f6 leva
ao desastre depois de 18 g5! hxg5 (ou 18... xg5 19 xf7+ e mate no próximo
lance) 19 g6!, quando ele deve entregar sua dama para evitar o mate em h8.
18 g5!
186 Neil McDonald

Para que, se 18... xg5 19 xf7+ ou 18...hxg5 19 g6 e as Brancas ganham


como na nota anterior.
18... d7 19 ad1!
Agora o bispo preto deve ir a d6 para bloquear o ataque à dama, e, depois
disso, sua ala do rei perde um defensor essencial.
19... d6 20 xh6! gxh6 21 g6+ f8 22 f6
Ameaçando 23 g6+ g8 24 h8 mate.
22... g8 23 e3 1-0
O rei preto está prestes a ser massacrado; por exemplo, 23... h7 (para evitar
o xeque em g3) 24 xf7 g8 25 g6+ xg6 26 xg6+ h8 27 g3 etc.

O castigo impiedoso que Geller dá a 13... d7 pode parecer totalmente des-


proporcional ao crime. Será que Portisch realmente merecia ser massacrado ape-
nas por ter posicionado mal sua dama? Por outro lado, a refutação tinha que ser
severa e rápida, ou não haveria refutação nenhuma. Uma pequena oportunidade
permitiria às Pretas evitar o perigo com ... a5 e ... xb3. E será que a “justiça en-
xadrística” seria feita caso Portisch tivesse escapado ileso após uma mancada, em
vez de ser derrotado em 23 lances?

Uma bela perda para Alekhine


Quando David Bronstein visitou a Inglaterra nos anos de 1990, perguntei-lhe qual
era sua partida favorita. Depois de uma breve pausa, ele respondeu que amou
as manobras de Euwe com a dama no final da partida que veremos a seguir do
match do Campeonato Mundial de 1935. Aparentemente, sua hesitação em re-
comendar tal perdida foi pelo fato de Euwe ter se dado ao luxo de encontrar a
manobra vencedora durante o adiamento da partida, enquanto Bronstein sempre
apoiava a criatividade espontânea no tabuleiro.
Minhas desculpas aos fãs de Alekhine, mas qualquer combinação boa o su-
ficiente para impressionar Bronstein não pode ser ignorada!

Partida 49
M.Euwe – A.Alekhine
2ª Partida do Match
Países Baixos, 1935
Defesa Grünfeld
Gigantes do xadrez agressivo 187

1 d4 f6 2 c4 g6 3 c3 d5 4 b3 dxc4 5 xc4 e6 6 b5+ c6 7 f3 b8 8


e5 d7 9 xd7 xd7 10 d5 d4 11 d3 e5 12 e3 f5 13 e4 d6 14 f4 e7
15 e3 g4 16 xa7 a8 17 h3 xa7 18 hxg4 g7 19 e3 a5 20 f5 f6 21
a4 h4+ 22 g3 g5 23 f3 0-0 24 b4 aa8 25 a2 e8 26 b2 f6 27 e2 c6
28 dxc6 bxc6 29 0-0 ad8 30 g2 d4 31 b5 cxb5 32 axb5 b8 33 fxg6 fxg6
34 b6 b7 35 h3 d6 36 d5 g7 37 c2 xd5 38 exd5 xb6 39 c6 xc6
40 dxc6 e7

O lance fechado era:


41 c4!
Planejando dar xeque em f7 e então avançar o peão passado com c6-c7 e
e6.
41... h6
O rei parece bastante seguro aqui, mas Euwe encontrou uma maneira inte-
ligente de recuar:
42 h1!
Ameaçando um xeque descoberto e, então, f7+.
42... b2
Alekhine afoga o rei branco para evitar que a ameaça se consolide, mas ago-
ra sua torre já não está mais enfrentando o peão passado.
43 f7 e8 44 c7
A intenção é 45 d5 e 46 e6, apoiando a coroação do peão.
45... c2 45 b7!! 1-0
188 Neil McDonald

As Brancas vencem depois de 45... xc4 46 xh7+! (mas não 46 c8 , amea-


çando mate em h7, já que as Pretas escapam com 46... xf7! 47 xf7 xc8) 46...
xh7 47 c8 + e7 48 xe7+ xe7 49 xc4.
A retirada paradoxal 42 h1!, seguida pela “emboscada” 45 b7!, teria en-
cantado a mentalidade enxadrística “empreendedora” de Bronstein.
6
Energizando
os Peões

Uma maneira certeira de medir o nível de energia de uma posição é perguntar:


quão bem estão cooperando as peças e os peões? Neste capítulo, nossos gigantes
demonstram como um peão, ou um grupo de peões, pode ter um efeito total-
mente desproporcional ao valor que geralmente recebem.

Criando um peão passado no centro


A próxima partida mostra a marca registrada de Geller: uma ameaça posicional
envolvendo peões (neste caso o desejo do peão passado de avançar) é combina-
da com ameaças táticas ao rei inimigo.

Partida 50
E.Geller – J.Pribyl
Sóchi, 1984
Defesa Pirc

1 e4 d6 2 d4 f6 3 c3 g6 4 f3 g7 5 e2 0-0 6 0-0 g4 7 e3
Um sistema de abertura comedido que tornou-se popular no início dos anos
de 1980, depois de ser utilizado muitas vezes pelo então Campeão Mundial Kar-
pov. Ainda assim, não podemos dizer que Geller estava seguindo a moda, pois foi
provavelmente ele quem ensinou esta abertura para Karpov.
7... c6 8 d2 e8 9 fe1 a6 10 ad1 e5 11 dxe5 dxe5 12 c1 e7?
190 Neil McDonald

O curso calmo da partida parece ter posto as Pretas para dormir. Elas deve-
riam ter jogado 12... c8, com boas chances de atingir igualdade, pois, se 13 d5?,
elas poderiam capturar em e4 em resposta.
13 d5!
Finalmente, Geller decide que é hora de parar com os lances estilo “Karpov”
e partir para uma agressão direta. Um dos pontos fortes de nosso gigante era sua
habilidade de transformar rapidamente um jogo de estratagemas silenciosos em
uma luta dinâmica. Aqui ele percebe que pode fazer uso da posição deplorável da
dama preta para ganhar tempo e utilizar um peão central como aríete.
13... xd5 14 exd5 d8 15 c4 f5 16 c5 f7 17 d6!

O Grande Mestre ucraniano sempre visava tirar o máximo de proveito de


qualquer erro que ele pensasse que seu adversário tivesse perpetrado durante a
abertura. Às vezes isso o levava a pressionar excessivamente, mas, na maioria das
vezes, seu julgamento estava certo, como é o caso aqui. As Pretas erraram com
12... e7 e devem ser punidas!
17...cxd6 18 cxd6 d7
Gigantes do xadrez agressivo 191

Se 18... xd6 19 c5 ad8 20 c4+ h8 21 xd6! xd6 22 g5 parece bas-


tante incômodo para as Pretas.
19 c7!
Bem a tempo antes de 19... ac8.
19... ad8
Depois de 19... xc7 20 dxc7, as Pretas não estão em condições de disputar o
controle da coluna d, enquanto as Brancas podem aumentar sua força com lances
como d7 ou c4 ou b6 etc.
20 c4 h6
Pribyl acha que está a salvo, já que impediu tanto 21 g5 (atacando f7)
quanto 21 g5, que, ao ameaçar d8, teria causado a destruição do bloqueio do
peão passado. Mas Geller reservou-lhe uma surpresa.
21 g5!!

De qualquer forma!
21... xc7
A oferta do bispo não pode ser aceita, pois, se 21...hxg5 22 xg5 f8 (tam-
bém desanimadores são 22... xd1 23 xf7+ h8 24 xd7 xd7 25 xe8 xd6
26 f7+ h7 27 xd6 e 22... xc7 23 dxc7 xd1 24 xf7+ f8 25 xd1 xd1 26
xe8) 23 f3! h5 24 e6! xc7 25 dxc7 c8 26 d7 e as Brancas vencem.
22 dxc7 xd1 23 xd1 f4
23...hxg5 24 d8! resultará na promoção do peão passado.
24 h3
Mais preciso que 24 d8 f8 25 h4, quando as Pretas podem protelar um
pouco com 25... h8. Geller quer manter a cravada em f7 um pouco mais para
evitar qualquer defesa com ... h8; por isso, ele se organiza para jogar h4 antes
de d8.
24... c8 25 h4! 1-0
192 Neil McDonald

Geller vence uma miniatura, já que 25...hxg5 26 d8 f8 27 xg6+ é de-


cisivo.

Botando os peões centrais para funcionar


Eis a evidência de que um centro móvel de peões, apoiado pelas peças, pode ser
digno de um grande investimento material, mesmo que o rei inimigo não seja um
alvo direto.

Partida 51
V.Topalov – L.Aronian
Wijk aan Zee, 2006
Defesa Índia da Dama

1 d4 f6 2 c4 e6 3 f3 b6 4 g3 a6 5 b3 b4+ 6 d2 e7 7 g2 c6 8 c3 d5
9 e5 fd7 10 xd7 xd7 11 d2 0-0 12 0-0 f6
No ano anterior, Anand havia jogado 12... c8 contra Topalov durante o tor-
neio do Campeonato Mundial em San Luis, o que levou a uma disputa acirrada
depois de 13 e4 c5 etc. Lev Aronian escolheu uma outra maneira de desafiar a
vantagem em espaço das Brancas.
13 e4 b5 14 exd5
Com 14 e1, as Pretas podem alcançar igualdade dinâmica com o sacrifício
posicional de uma peça bem colocada: 14...dxe4 15 c2 c8 16 ad1 d5!!. A
partir daqui, o jogo entre A.Karpov e J.Polgar, em Buenos Aires em 2000, seguiu
com 17 b2 (tirando o bispo do caminho para não ser cravado, como ocorre de-
pois de 17 cxd5 cxd5) 17...f5 18 cxd5 cxd5 19 b1 b4.
Gigantes do xadrez agressivo 193

Judit Polgar transformou sua estrutura concentrada de peões em uma mas-


sa central sólida. A partida continuou de maneira arrojada com 20 f1 b6 21
f3 f6 22 e3 c3! (desistindo de mais material a fim de fazer os peões centrais
avançarem) 23 xc3 bxc3 24 c2 e5 25 e3 exd4 26 xd5 c5 27 xf6+ xf6
28 b4 c4 29 b3 d3 30 xc4+ xc4 (apesar de sua torre extra, o antigo Cam-
peão Mundial tem que lutar para conter a enxurrada de peões pretos) 31 f1 c6
32 fxe4 d2 33 b5 c5 34 xc4+ xc4 35 exf5 dxe1 + 36 xe1 f7 37 c1 f6 38
f2 a4 39 c2 a5 40 e3 xf5 ½-½.
Voltemos à partida entre Topalov e Aronian. Como logo veremos, o Grande
Mestre búlgaro pretende pegar emprestada a ideia de um sacrifício para criar um
centro invencível e aplicá-lo ao lado branco da posição. Vejamos como isso foi feito:
13...b5 14 exd5 exd5 15 e1 b8 16 c5 c8 17 f3 e4

Confiante, Aronian ataca o bispo branco, planejando o próximo lance para


completar a manobra de seu bispo de a6 para a ala do rei. Em vez disso, leva um
choque:
18 xe4!! dxe4 19 e5
Topalov havia preparado este sacrifício para sua partida contra Anand no
torneio de San Luis, mas o Grande Mestre indiano desviou-se em tempo com
194 Neil McDonald

12... c8 (veja a nota para 12... f6). Às vezes, é preciso esperar anos – ou até mes-
mo décadas – para utilizar um aperfeiçoamento de abertura, mas, como Geller
escreveu, “mais cedo ou mais tarde as minas sempre explodem, e, quanto mais
um enxadrista as tiver em seu arsenal, melhor”.
O primeiro estágio do plano das Brancas envolve sugar a energia dos peões
pretos e torná-los alvos que têm de ser defendidos pelas peças. Depois disso, uma
vez que as tentativas de Aronian de tomar a iniciativa tiverem sido reprimidas, os
peões brancos marcharão avante no mesmo estilo dos peões de Polgar. Parece sim-
ples, mas nada é fácil quando se está enfrentando um Grande Mestre da elite atual.
19... d5!
Uma dama que se preze nunca aprecia a função de cuidar de peões débeis.
Mesmo assim, as Pretas não devem desistir do peão em e4 sem brigar por ele, já
que, depois de 19... c7 20 xe4, elas passam por um processo de defesa intermi-
nável de c6 sem nenhum contra-ataque.
20 e1!
Na verdade, os peões centrais brancos estão um tanto frágeis. Portanto, é ne-
cessário cuidado para impedir que as Pretas escapem por meio de um contrassa-
crifício em c5. Por exemplo, o plausível 20 c2 f5 21 f3? permite 21... xc5! 22 dxc5
xc5+ 23 h1 b4 e as Brancas perdem seu bispo devido à cravada sobre a dama.
Depois do lance da partida, 20...f5 pode ser respondido de forma segura com
21 f3, quando a defesa de c6 se tornará uma tarefa terrível para as peças pretas.
20... f5 21 g4!
O bispo preto é forçado a recuar para g6. Depois disso, as Brancas podem
realizar uma troca por meio de xg6 em um momento apropriado, o que é uma
opção útil caso a base do cavalo em e5 esteja enfraquecida.
21... g6 22 f3

Topalov e seus treinadores haviam analisado cuidadosamente todos esses


lances com a ajuda de computadores. Por exemplo, o Grande Mestre búlgaro diz
que 21 g4 foi descoberto por Cheparinov. Enquanto isso, Aronian esteve sozi-
Gigantes do xadrez agressivo 195

nho, tendo que descobrir todos os lances e planos importantes sob a pressão do
relógio. Se a isso adicionarmos o fardo psicológico de saber que caiu na armadi-
lha de uma variante preparada, não é de surpreender que o armênio finalmente
seja derrotado.
22...b4?
Se o peão em c6 for tomado, haverá uma catástrofe posicional para as
Pretas, pois seu adversário terá conseguido conectar peões passados. Portanto,
Aronian decide que sua melhor chance é deixar um peão branco ocupar e4, pois
isso bloqueará o ataque do bispo em g2 ao peão c6. Porém, como logo veremos,
isso não salva a vida do peão em c6, o que significa que o centro branco foi ape-
nas ampliado e fortalecido.
Em vez disso, ele deveria ter separado os peões brancos com 22... xc5! 23
dxc5 xc5+ 24 h1 b4. Depois disso, ele poderia visar ativar sua torre ao longo
das colunas abertas no centro e tentar tirar vantagem da proteção um tanto fraca
do peão em volta do rei branco. As peças brancas teriam uma pequena vantagem
sobre uma torre e alguns peões, mas, ainda assim, seria uma disputa acirrada.
23 fxe4 e6 24 b2 f6
Uma surpresa espera por Aronian, se ele pensa que estabilizou o centro.
25 xc6!

Lá se vai o peão vital.


25... xc6 26 e5 a6 27 exf6
Agora os peões passados brancos irão, sem dúvida nenhuma, vencer a par-
tida, a menos que algo drástico ocorra na ala do rei.
27... fe8
As Brancas ainda têm que jogar cuidadosamente para impedir o contrajo-
go das Pretas. Lembre-se de que uma das regras do estilo dinâmico é: se estiver
atacando com uma dama e uma torre, é melhor ter a torre à frente, apoiada pela
dama. Com uma manobra ágil, Topalov certifica-se de que as peças adversárias
terminem no lugar errado!
196 Neil McDonald

28 f1! e2
Não 28... e2? 29 f3 com uma cravada fatal.
29 f2!

Jogada magistral. Se Topalov tivesse colocado sua dama em f2, logo no iní-
cio com 28 f2, a torre preta teria invadido com 28... e2. Portanto, ele esperou
até que a dama preta estivesse bloqueando a casa e2.
29... xg4 30 h3 g5 31 c1!
O bispo irá alcançar a casa f4 com ganho de tempo ao atingir a dama preta e
a torre em b8; depois disso, poderá ajudar a guiar os peões passados até suas casas.
31... h5 32 f4 bd8 33 c6
Finalmente os peões começam a avançar.
33... e4 34 c7 c8 35 e1 g6 36 xe4!
Provavelmente, Topalov não precisou calcular muito para fazer este sacrifí-
cio. Se nada de dramático acontecer, os peões passados irão dizimar tudo o que
ficar em seu caminho. Seria de fato muito estranho se as torres pretas causassem
qualquer problema para o rei branco, já que uma delas têm que tomar cuidado
com o peão em c7 que está prestes a ser promovido.
Gigantes do xadrez agressivo 197

36... xe4 37 d5 ce8 38 d6 e1+ 39 h2 f5


É claro que 40 d7 tinha que ser evitado.
40 g3!
A ameaça de mate em g7 ganha tempo para forçar a troca de damas.
40...g6 41 g5

41... xg5
Se 41... e6 42 d7! xd7 43 h6 e dá mate em g7.
42 xg5 d1 43 c6 e2+ 44 g3 1-0
Os xeques acabarão e então o peão será promovido.

Trazendo uma massa de peões de volta à vida


Na partida acima, o centro de peões de Topalov era um gigante adormecido que
acordou com um sacrifício. No próximo exemplo, os peões da ala da dama de
Bronstein são um gigante cortado em dois, os quais ele junta novamente pelo
preço de um cavalo.

Partida 52
D.Bronstein – V.Smyslov
Torneio de Candidatos Budapeste, 1950
Defesa Nimzo-Índia

1 d4 f6 2 c4 e6 3 c3 b4 4 a3 xc3+ 5 bxc3 c5 6 e3 c6 7 d3 e5 8 e2 d6
Aqui o lance normal para as Brancas é 9 0-0 e se 9...0-0 10 e4, mas Bronstein
jogou primeiro...
9 e4
...depois do qual Smyslov tirou vantagem de sua negligente transposição
de lances:
198 Neil McDonald

9... h5!? 10 0-0 g5!!

As Brancas tiveram seu avanço natural f2-f4 negado, já que o lance prepa-
ratório 11 g3? deixa muitas frestas em sua ala do rei depois de 11... h3. Natural-
mente, as Pretas não pretendem realizar o roque pequeno.
O resultado é que Bronstein não consegue encontrar uma maneira de ener-
gizar seu jogo e é gradualmente superado por seu formidável adversário. Voltare-
mos à ação 24 lances mais tarde:
11 c2 f4 12 a4 d7 13 g3 f6 14 d5 e7 15 xd7+ xd7 16 b1 hb8
17 a4+ d8 18 c2 h5 19 f5 fg6 20 e3 h8 21 a4 f6 22 a5 e8 23 d1
f8 24 f3 g6 25 c2 d7 26 a3 a6 27 e3 c7 28 d2 b6 29 axb6+ xb6
30 d3 d7 31 a1 b6 32 c2 f5 33 f3 f4 34 a5 g4

Os peões móveis na ala do rei de Smyslov avançaram continuamente, en-


quanto isso, Bronstein não possui nada parecido para atirar na direção do rei pre-
to. A condição do nosso heroi é ainda mais desagradável, pois, mesmo que ele
Gigantes do xadrez agressivo 199

consiga sobreviver a um ataque direto a seu rei, um final de jogo não lhe traria
esperanças devido ao peão preto passado em a6, que é praticamente um peão
extra, considerando-se os peões dobrados brancos na coluna c.
As apostas estavam altas nesse ponto, já que, se Bronstein perdesse, estaria,
para todos os efeitos, fora da disputa pelo primeiro lugar no torneio, o que signifi-
caria não disputar um match com Botvinnik pelo Campeonato Mundial. Portanto,
ele utilizou toda sua criatividade e encontrou uma ideia engenhosa:
35 b4!!
Este lance de cavalo não contém nenhuma ameaça, mas prejudica Smyslov.
Ele o ignora por alguns lances, mas, no fim, não consegue resistir à tentação de
estar com uma peça de vantagem.
35...gxf3 36 xf3 g4 37 f2 cxb4??
Morphy teria aprovado a oferta de peça que Bronstein fez, ainda assim, é
estranho ver como Smyslov reage com ganância parecida com a dos adversários
de Morphy. Não havia necessidade de capturar a peça rapidamente. Mas, no calor
da batalha, decisões estranhas são tomadas.
38 cxb4

Os peões brancos moribundos se enchem de vida de repente. Com a ajuda


de suas peças, eles conseguem abrir caminho pela defesa inimiga e chegar ao
alvo mais importante de todos: o rei preto. E tudo isso pelo preço de um reles
cavalo.
Em resumo, as peças e peões brancos se apaixonaram uns pelos outros no-
vamente. A força destruidora dos peões brancos logo força Smyslov a devolver a
peça, depois do que ele não consegue sobreviver com todas as linhas abertas na
ala da dama. A dama preta, em especial, foi abandonada pela ação na outra ala.
38 cxb4 bb8 39 c5 c8 40 c1 d8 41 c6 b5 42 h3 g6 43 cxd7 xd7 44
e2 xa5 45 bxa5 e7 46 e1 g5 47 c3 b8
200 Neil McDonald

As Pretas não conseguem o contrajogo adequado, mas, se elas ficassem


apenas esperando, as Brancas poderiam tomar-lhes o peão em a6 com 48 b3 e
49 b6.
48 xa6 b1 49 e2 g6 50 f2 e8 51 a6 f3 52 g3 a1 53 a7 d7 54 h2
h4 55 xf3 hxg3+ 56 xg3 f4 57 xf4 xf4 58 g8 1-0
Podemos tirar dessa partida que, quando se trata de uma maioria de peões
ativos ou passivos, até mesmo os melhores enxadristas do mundo podem come-
ter erros. Bronstein deixou que seus peões fossem mutilados por 10...g5, e, depois,
Smyslov permitiu que recuperassem toda sua saúde com 37...cxb4.

A mágica de Bronstein
Bronstein está disposto a desistir não só de um cavalo para o bem de seus peões.
Na próxima partida ele sacrifica uma torre para mantê-los intactos.
“Bronstein e Ljubojevic são representantes de gerações diferentes, mas seus
estilos têm elementos em comum: ágeis, ricos em ideias e com uma tendência ao
bizarro” (Jan Timman, The Art of Chess Analysis).

Partida 53
D.Bronstein – L.Ljubojevic
Interzonal de Petrópolis, 1973
Defesa Alekhine

1 e4 f6
A Defesa Alekhine. Veremos como o quarto Campeão Mundial lida com
sua abertura de estimação adiante neste capítulo. Bronstein responde com o
Gigantes do xadrez agressivo 201

Ataque dos Quatro Peões, o que indica que ele está em busca de uma disputa
sanguinolenta.
2 e5 d5 3 d4 d6 4 c4 b6 5 f4 dxe5 6 fxe5 c5
Levando a filosofia de Alekhine ao extremo: é permitido às Brancas terem
um centro móvel imponente, o qual as Pretas visam demolir com golpes de am-
bas as alas.
7 d5 e6 8 c3 exd5 9 cxd5 c4 10 f3 g4

A pergunta é se os peões avançados conseguirão se manter juntos após a


pressão que está prestes a ser exercida sobre eles. A resposta é “sim”, contanto que
as Brancas estejam preparadas para entregar uma torre!
11 d4!
Atacando um bispo preto e impedindo que o outro vá para c5.
11... xf3 12 gxf3 b4 13 xc4
A única maneira apropriada de enfrentar a ameaça a d5.
13...0-0
As Brancas têm um peão a mais, mas seu centro parece vulnerável e seu rei
está preso no centro. Mas não faz mal: Bronstein irá atacar o rei preto.
14 g1!
Ameaçando tanto 15 e6 quanto 15 h6.
14...g6
Agora Ljubojevic está pronto para jogar tanto 15... c6! 16 e4 xe5, fa-
zendo o centro branco desmoronar, quanto 15... c7, com a ameaça dupla de
16... xc4 ou 16... c5, espetando a torre em g1. Portanto, as Brancas não podem
perder tempo, têm que fazer o que é necessário ou morrerão devido a uma in-
vestida na ala do rei.
202 Neil McDonald

15 g5!!
Não era possível calcular as consequências no tabuleiro do seguinte sacrifí-
cio. Em vez disso, Bronstein seguiu sua intuição que lhe dizia que o efeito restriti-
vo de seus peões centrais lhe daria a chance de explorar as casas pretas em volta
do rei preto.
De onde surge a habilidade de fazer julgamentos tão bons? Podemos men-
cionar que nosso herói era um grande fã de Morphy e de outros enxadristas do
século XIX, e que um estudo aprofundado de suas partidas aumentou sua aptidão
para atacar. Sua percepção também foi aperfeiçoada por mais de três décadas
de pesquisas intensas e de violentas batalhas táticas, até o momento em que se
sentou para enfrentar Ljubojevic.
Mas há uma qualidade inexplicável sobre o talento de Bronstein que só
pode ser descrita em duas palavras, nem mais, nem menos: gênio enxadrístico.
15... c7 16 b3 c5 17 f4!
17 g4? xe5+ é terrível para as Brancas. Manter o centro de peões vivo é
muito mais importante que a torre em g1.
17... xg1
Gigantes do xadrez agressivo 203

Agora as Brancas poderiam fechar com chave de ouro o seu ataque com 18
f6, seguido por 19 h6 e mate inevitável em h6, não fosse pela única defesa
possível das Pretas: 18... c5!, quando a ameaça de trocar as damas com 19... e3+
destrói a iniciativa das Brancas.
18 d6 c8?
Tanto Jan Timman em The Art of Chess Analysis quanto Jon Speelman em Best
Chess Games 1970-1980 comentam essa partida até o final. Baseando-se na análise
do holandês, Speelman acredita que o melhor seja 18... c5 19 e4 d4 20 d1
xb2 21 d2. Depois disso há um empate por repetição com 21... a1+ 22 d1
b2 etc. ou uma possível conclusão com um empate por xeque perpétuo caso as
Pretas joguem para ganhar, por exemplo 21... c1+ 22 e2 8d7 23 f6 xf6 24
xf6+ g7 25 h5+ gxh5 26 g5+ h8 27 f6+ etc.
19 e2?
O plano de Bronstein é utilizar a coluna c, assim ele evita fazer o roque gran-
de. Na verdade, 19 0-0-0!, visando a irromper pelo centro com e5-e6, seria o lance
vencedor. Por exemplo, 19... c5 (se 19... c5 20 e6! fxe6 21 e5 e8 22 h6 d7
23 e4 e vence – Bronstein) 20 e6 8d7 21 exf7+ g7 22 b1! e não há nenhuma
resposta adequada para 23 h6+.
19... c5?
As Pretas teriam vantagem depois de 19... c5!, por exemplo 20 e6 8d7!,
com o objetivo de devolver um pouco de material para impedir o ataque, ou 20
e4 b5+ 21 d2 c4+ 22 e1 e3! – Speelman.
20 e4 8d7 21 c1 c6

22 xc5!
Um sacrifício reminiscente da estratégia de Alekhine de mover para longe
os defensores do rei adversário, como prelúdio de um ataque com força total.
Foi introduzido com 19 e2, persuadindo as Pretas a recuarem o bispo para c5
(como vimos acima, elas deveriam ter recusado com 19... c5!); então a coluna c
204 Neil McDonald

foi aberta com 20 e4, tornando 21 c1 possível; e, finalmente, o golpe foi dado
com 22 xc5.
É uma pena que os três pontos de interrogação consecutivos (18... c8? 19
e2? e 19... c5?) tendem a obscurecer o esplendor da criação de Bronstein. Não
é com frequência que o rei tem um papel importante na preparação de um ata-
que. Geralmente ele é visto como um estorvo, uma peça que fica no meio do ca-
minho e utiliza recursos defensivos que poderiam ser gastos no ataque. Falando
artisticamente, o lance 19 e2 é muito melhor que o “certo” 19 0-0-0. Também
mostrou-se bom o suficiente para derrotar Ljubojevic, que estava liderando o tor-
neio até esta partida.
22... xc5 23 f6+ h8 24 h4 b5+ 25 e3!!

Impedindo que o cavalo em c5 se junte ao contra-ataque. Colocar o rei na


terceira fileira é muito mais correto que 25 f2, quando as Pretas podem conti-
nuar lutando depois de 25... d3+ 26 g2! h5 27 xh5 b4!.
25...h5 26 xh5 xb3+
As Pretas levam mate depois de 26...gxh5 27 f6+! g8 28 g5+ etc., en-
quanto os xeques decentes se esgotam depois de 26... d3+ 27 f2 e4+ 28 fxe4
d4+ 29 g2 xb2+ 30 h3, já que se 30... c3+ 31 g3+ g8 32 f6 e mate
em h8.
Ljubojevic poderia abandonar a partida aqui, mas seu adversário estava com
o tempo apertadíssimo e, então, ele joga até o controle de tempo no lance 40.
27 axb3 d5+ 28 d4 e6+ 29 xd5 xg5 30 f6+ g7 31 xg5 fd8 32 e6
fxe6+ 33 xe6 f8 34 d7 a5 35 g4 a6+ 36 e5 f5+ 37 xf5 gxf5 38 d8
fxg4 39 d7+ h6 40 xb7 g6 41 f4 1-0

Fortalecimento dinâmico versus ataque antiposicional


Na próxima partida, Morphy e Anderssen avançam na ala do rei como se houves-
se um espelho os separando, mas apenas um deles estava melhorando a harmo-
nia entre suas peças e peões.
Gigantes do xadrez agressivo 205

Partida 54
P.Morphy – A.Anderssen
5ª Partida do Match
Paris, 1858
Defesa Escandinava

1 e4 d5
Anderssen estava tão impressionado com o conhecimento que Morphy
tinha de teoria que decidiu utilizar aberturas não convencionais. No geral, ele
alcançou posições razoáveis no início do meio-jogo, no entanto, foi superado
subsequentemente. Esse é o problema de enfrentar um gênio em território des-
conhecido para os dois adversários: sua inspiração lhe fará passar com segurança
por todas as armadilhas e perigos imprevistos, deixando seu inimigo, que não
possui profundidade estratégica, sem saber o que fazer.
2 exd5 f6 3 d4 xd5 4 c4 f6 5 c3 f5 6 f3 e6 7 e3 b4 8 b3 xc3+ 9
bxc3 e4 10 d2 c6 11 d3 bd7 12 c2 h6 13 0-0 0-0 14 ae1 b6
Um lance bom, apesar de Anderssen não o ter utilizado com o plano correto
em mente.
15 h3

15... c8?
Aqui o simples 15... b7! abriria caminho para um ataque posicional no centro
das Brancas; por exemplo 16 h2 (não é um bom lance, mas é o que Morphy esco-
lheu na partida) 16...c5 e as Pretas estariam prontas para 17... c8 etc. Nesse caso, a
pressão das Pretas ao longo da coluna c impediria qualquer tentativa das Brancas
de desenvolverem uma iniciativa na ala do rei. Deixar a dama em d8 também sig-
nifica armar uma armadilha (apesar de que Morphy nunca teria caído nela!): 15...
b7 16 h2 c5 17 g4? xg4+! quando se 18 hxg4? h4+ e mate no próximo lance.
206 Neil McDonald

É bastante difícil criticar Anderssen por não conseguir compreender a ne-


cessidade de preparar ...c7-c5. Um plano posicional para enfraquecer um par de
peões dobrados não faz parte da Escola Romântica de xadrez. Tal ideia pertence às
partidas jogadas mais tarde por mestres como Steinitz, Rubinstein e Capablanca.
Em vez disso, o que surge é um confronto tático na ala do rei, típico do estilo
de xadrez que reinava no meio do século XIX. Morphy se fortalece com h2, g1,
g2-g4 etc. – e Anderssen responde na mesma moeda com ... h8, ... g8 e ...g7-g5.
Ambos os jogadores tentam atacar e dar um golpe fulminante no rei inimigo.
Se é dessa maneira que os dois decidem disputar a partida, haverá apenas
um vencedor, as Brancas. Morphy tem um bispo em e3, que irá se tornar bastante
ameaçador uma vez que as Pretas comprometam sua ala do rei com ...g7-g5.
Enxadristas como Steinitz, com seu amplo conhecimento sobre xadrez posi-
cional, teriam causado muitos problemas para Morphy com ... b7 e ...c7-c5. Mas
Anderssen, o tático brilhante, não tem outra escolha senão crer em suas próprias
ideias estratégicas limitadas, mesmo que elas o levem à derrota.
Note que eu não pude deixar de descrever 15... b7, o lance que iludiu
Anderssen por ele achá-lo “simples”! Acho que por simples eu quero dizer “calmo
e posicional”, o contrário de “tentando forçar a situação”. Só se torna fácil encon-
trar tais lances quando já se observou partidas de Petrosian e de outros artistas do
xadrez, que nasceram muitos anos após o falecimento de Anderssen.
Agora voltemos à partida e vejamos como foi o desenrolar da batalha.
16 h2
Morphy prepara um ataque direto à coluna g como descrito acima...
16... h8
...e Anderssen o copia. Depois de 16... b7, as Pretas ficariam sem ideias, já
que não conseguem ...c7-c5, atacando d4. No entanto, ainda era possível jogar
16... b7! e depois 17 g1 c5.
17 g1 g8 18 g4 g5
O único lance consistente, que, porém, causa um profundo arrependimento.
19 f4
Gigantes do xadrez agressivo 207

Ambos os jogadores realizaram avanços agressivos de peões na ala do rei,


mas Morphy tem um trunfo tremendo com o bispo de casa preta, que pode ser
usado para enfraquecer os peões pretos em g5 e h6. Além disso, as Brancas já con-
seguiram coordenar suas torres na primeira fileira, enquanto as Pretas precisam
tirar sua dama do meio do caminho.
19... f8
Anderssen encontra um posto bom para a dama em d6. Caso ele perca
esta partida, não será pela falta de imaginação, mas, simplesmente, pelo fato de
que a lógica principal da posição está contra ele. Ele desmanchou sua estrutura
de peões na ala do rei, quebrando regras conhecidas como “não abra a posição
quando o seu adversário tiver dois bispos” e “não mova peões nos flancos em que
o seu adversário tiver a iniciativa”. E, acima de tudo, ele negligenciou o importante
ataque em d4 com ...c7-c5.
20 g3 d8 21 f3 xf3
Fortalecendo o ponto g5; e, além disso, não se deve permitir que o cavalo vá
para e5. No entanto, as torres brancas ganham um passe de liberdade na coluna f,
e, a menos que algo drástico ocorra, a fraqueza de f6 ou f7 será uma desvantagem
para as Pretas.
22 xf3 d6 23 g2 h5

Mais uma vez não podemos deixar de admirar a energia e a criatividade de


Anderssen, ainda que elas estejam condenadas a dar errado. Ele não pode espe-
rar, já que as Brancas irão invadir pela coluna f com 24 ef1 e então 25 f2, se
necessário for, quando f4xg5 irá capturar o cavalo em f6, ou, caso este escape, o
peão em f7. Note que jogar ...g5xf4 não trará nada de bom para as Pretas nesta se-
quência, já que a fraqueza na coluna f continuará existindo e uma nova fraqueza
surgirá em h6.
Então, Anderssen procura conseguir contrajogo com um sacrifício de cavalo.
24 fxg5
É claro que não 24 gxh5? gxf4+, quando as Pretas recuperam sua peça.
208 Neil McDonald

24...hxg5 25 gxh5 g4 26 hxg4 xg4+ 27 f1 f5 28 f2

Não há explicação lógica para as Brancas perderem para uma combinação,


não importa quão engenhosa ela seja, pois elas têm todas as peças, inclusive a
dama, apoiando seu rei. Anderssen faz mais uma tentativa de perturbar seu ad-
versário ilustre.
28... e5 29 dxe5
Talvez a maneira mais precisa de as Brancas vencerem seja 29 f4!, quando,
se 29... xf4 30 xe5! ou 29... xd3 30 xd6 xf2 31 e5+ h7 32 xf2 etc.
29... xd3+ 30 e2 e4 31 f2 c6 32 d1 xd1+ 33 xd1 xc4+ 34 d3
xa2 35 g3 c4
Com o coração apertado, o mestre tático é forçado a trocar as damas, já que,
caso contrário, seu rei estaria sob um ataque mortal.
36 xc4 xc4 37 g6 c6 38 c4!
Morphy toma as medidas necessárias contra o avanço do peão passado pre-
to em a, que pode ser enfrentado com d4, se necessário.
Gigantes do xadrez agressivo 209

38...a5 39 e2 xc4
Em vez de esperar por 40 d3, quando sua torre não teria nenhum lance
seguro, Anderssen cede o peão em e6 e faz uma última tentativa de salvar-se na
ala da dama.
40 xe6 c2+ 41 f3 a4 42 g6
Morphy faz do final da partida uma tempestade num copo d’água. A ma-
neira mais simples de vencer era utilizando o peão passado em e com 42 e8+
g7 43 e6. Por exemplo, se 43...a3 44 d4+ h6 45 e7, ou 43... c4 44 e7, quando
44... f7 permite o final elegante 45 h6! xe8 46 h7 e o peão em h é promovido à
dama, enquanto que 44... e4 45 h4 a3 46 f8 a2?! 47 f6+ h6 48 h8 é mate.
42... c4 43 g1 a3 44 e6 a2 45 a1 e4 46 xa2 xe6 47 f4 d6 48 xf5 d5+
49 g4 b5 50 a8+ h7 51 a7 d7 52 g3 g7+ 53 h3 1-0 (Diagrama)
Pelo fato de seu bispo controlar a casa da promoção do peão h, as Bran-
cas podem trocar as torres tranquilamente, bloquear os peões passados da ala da
dama e, então, avançar com o rei, colocando as Pretas em Zugzwang. Por exem-
plo, 53...c5 54 xg7+ xg7 55 d6 c4 56 b4 h6 57 g4 h7 58 g5 g7 59
h6+ h7 60 h5 g8 61 g6 h8 62 c3+ e vence.

Um peão lateral aumenta a energia de um ataque

Partida 55
T.Radjabov – V.Topalov
Wijk aan Zee, 2003
Abertura Catalã
210 Neil McDonald

1 d4 f6 2 c4 e6 3 f3 d5 4 g3 b4+ 5 d2 e7 6 g2 0-0 7 0-0 c6 8 c2 b6 9


f4 a6 10 bd2 bd7 11 fd1 c8 12 ac1 h5 13 e4 xf4 14 gxf4 f6 15
e5 h5 16 a4 xc4 17 xc6 b5 18 a6 xc6 19 xc6 xf4 20 xc4 bxc4
21 exd5 exd5 22 c3 h4 23 g3 e8 24 g4 e6 25 c5 xg2 26 xg2 a6
27 a3 g6 28 c3 e7 29 b3 a3 30 c2 e7 31 f1 cxb3 32 xb3 d6 33
d3 f4 34 d2 f5 35 d3 e4 36 b3 g7 37 d3

Na posição do diagrama, o Grande Mestre búlgaro sacrificou a qualidade


por um peão. Ele conseguiu amarrar as peças brancas aos peões em d4 e f2, mas
não está claro como ele irá aumentar sua iniciativa. Por exemplo, se ele jogar ... f6
em algum momento, para pressionar d4, as Brancas poderão responder com g3!,
seguido por f3 se necessário, para ativar sua torre. Além disso, o peão em a6 está
pendurado.
Topalov percebeu que manobras realizadas por peças sozinhas não o leva-
riam a lugar algum. Portanto, ele precisou utilizar uma fonte de energia que não
havia sido usada na posição das Pretas: seus peões.
37...h5! 38 b3
Verifica-se que 38 xa6? permite 38... xf2! 39 xf2 h3+ 40 g1 (40 g2
f3+ 41 g1 xd1+ é ainda pior para as Brancas) 40... g4+ 41 h1 xd1+
42 f1 xd4 e as Pretas vencem.
38... f6 39 g3 f4!
Melhor que 39... xd4 40 f3. As Pretas querem manter a torre branca en-
clausurada em g2, sem liberdade para utilizar a coluna f. Mais tarde haverá tempo
para capturar o peão em d4.
40 e3 h4 41 g2
Gigantes do xadrez agressivo 211

O peão preto em h, com a ajuda de dama e torre pretas na coluna f, teve êxi-
to em empurrar a torre branca de volta para sua casa passiva. Em outras palavras,
tirou a função de protetor que o bispo preto possuía e, agora, ele está livre para
atacar d4 sem se preocupar com a possibilidade de a torre branca escapulir atra-
vés de g3. Isso corresponde a uma mudança significativa no equilíbrio de energia
entre os dois exércitos: basicamente, o bispo preto acumulou poder de movimen-
tação impedindo que a torre branca em g2 ganhe qualquer poder similar.
41... f3 42 e2 a5! 43 g1 f4 44 h1 e4 45 f1 a4
O peão preto em a avançou. Quanto mais ele avança, mais perigoso se torna
por ser um candidato a peão passado, caso o peão branco em a2 seja capturado.
A partida nunca chegou a esse ponto, pois a posição das Brancas se fragmentou
rapidamente no centro e na ala do rei. Mesmo assim, deve-se sempre procurar
maneiras de melhorar a posição, “sem motivo nenhum”, por meio de algum lance
com peão como 42...a5 e 45...a4. Eles não fazem mal nenhum e podem acabar
fazendo uma grande diferença.
46 d2 xd4
Finalmente Topalov decide capturar o peão em d4.
47 d1 e5
212 Neil McDonald

48 f3
O peão preto em h é visto em uma função mais agressiva depois de 48 xd5
h3 49 g1 (ou 49 g3? xf2) 49... f4, quando a melhor maneira para as Brancas
impedirem mate em h2 é com 50 xe5, deixando-as com um peão a menos e,
ainda, ameaçadas pelo peão em h3, depois de 50... xe5. Com o lance da partida,
Radjabov finalmente consegue trazer sua torre de g2 para o centro.
48... b4
Ameaçando a dama com 49... b1.
49 d3 h3 50 e2 d4
Os peões pretos em a4, d4 e h3 têm as peças brancas sob seu domínio.
51 f2 f4 52 e2 b1+ 53 d1
Tem que ser permitido ao peão passado em d avançar, já que, graças a seu
camarada em h3, a primeira fileira das Brancas desmorona depois de 53 f1 e6!
54 f2 xa2!.
53...d3 54 f1 xd1 55 xd1 d2 56 e2 d3 57 f2 e3 58 f1 d4 59 a3
g8!

Zugzwang é a maneira mais rápida de finalizar a partida, tendo em vista que


60 b1 e2 ameaça mate em g2.
60 f4 e4+ 61 f3 f2! 0-1
Um desastre segue em e1.
Como você pode ver, os peões são parte essencial do xadrez agressivo.

O peão frenético
De vez em quando, um dos peões de Alekhine fica louco o suficiente para desa-
fiar o exército inimigo inteiro. O ousado peão obteve um sucesso sensacional na
partida contra Bogoljubow, no Capítulo Quatro. No próximo exemplo, ele teve sua
carreira tristemente encurtada, mas não sem antes aterrorizar as peças inimigas.
Gigantes do xadrez agressivo 213

Partida 56
E.Znosko-Borovsky – A.Alekhine
Paris, 1925
Defesa Alekhine

1 e4 f6
Um pouco mais de cem anos depois de ter sido rejeitada por Allgaier (em
1819), por ser considerada inferior, a abertura hoje conhecida como Defesa
Alekhine ressurgiu no torneio de Budapeste, em 1921. Ela foi utilizada em quatro
partidas, inclusive em uma vitória e em um empate do próprio Alekhine jogando
com as Pretas contra Steiner e Sämisch, respectivamente. Depois disso, foi vista
em notáveis partidas de xadrez, como a de Réti e Emanuel Lasker. Outro grande fã
era o famoso artista e fanático por xadrez, Marcel Duchamp.
Hoje em dia, as Brancas normalmente respondem com 2 e5 d5 3 d4 d6
4 f3 g4 5 e2, mantendo uma pequena, mas sólida vantagem. De maneira
diferente, Alekhine geralmente conseguia vantagem na abertura, porque ou seus
adversários recusavam a chance de construir um centro de peões, ou, ao fazê-lo,
falhavam em consolidar de maneira apropriada sua vantagem em espaço. Certa-
mente Znosko-Borovsky não se impressionou com 1... f6 nesta partida.
2 e5 d5 3 c4 b6 4 d4 d6 5 f4 dxe5 6 fxe5 c6 7 e3 f5 8 f3 e6 9 c3

9... b4?!
Alekhine quer atacar o centro das Brancas imediatamente. No entanto, de-
veria ter dado preferência ao lance de desenvolvimento 9... e7, e, se 9 d5, então
9... b4 com um jogo agudo.
10 c1 c5 11 a3?
214 Neil McDonald

Um lance lento que justifica a aventura do 9° lance das Pretas. Em vez disto,
o calmo 11 e2! seria inadequado para as Pretas, já que depois de 11...cxd4 12
xd4 o centro começaria a se abrir, deixando o cavalo mal posicionado em b4.
11...cxd4
Agora as chances depois de 12 xd4 c6 são praticamente iguais. As Bran-
cas tentam conseguir mais e são atingidas por uma combinação de Alekhine:
12 g5? dxc3!

13 xd8 xd8?
Alekhine deveria ter se lembrado de sua obra-prima contra Bogoljubow, quan-
do o peão furioso derrotou sozinho as peças brancas. Depois de 13...cxb2! 14 xb6
bxc1 15 xc1 c2+ 16 f2 axb6, visando a 17... c5+ etc., as Pretas têm uma van-
tagem posicional decisiva. Alekhine acredita que 14 g5 (em vez de 14 xb6) tem
mais chances, mas, mesmo assim, depois de 14...bxc1 15 xc1 c2+ 16 f2 d8
17 e2 c5+ 18 g3 0-0, as Brancas estão sendo esmagadas: as ameaças incluem
19... d3 ou 19... a4 seguidas por 20... c3, ameaçando a dama branca.
Apesar de sua vantagem material, Znosko-Borovsky está sendo pressionado,
já que toda a ação está ocorrendo sem qualquer participação de sua torre em h1.
14 b3 cxb2 15 xb2 a4 16 a1!
Gigantes do xadrez agressivo 215

Alekhine admitiu após a partida que não havia percebido este recuo enge-
nhoso. Ele estaria vencendo após outros lances, por exemplo: 16 b3? c5! 17
xb4 d3+ 18 xd3 xb4+ 19 axb4 xd3 e as Pretas estariam com um peão a
mais, ou 16 f2 c5 17 g3 c2+ 18 xc2 xc2 com uma torre e o bispo pela
dama e continuando a atacar.
16... c2+?
Outro escorregão. Aqui 16... d3+! 17 xd3 xd3, ameaçando encurralar a
dama branca com 18... xa3, é muito mais forte – Alekhine.
17 xc2 xc2 18 d4!
O começo de um intenso contra-ataque. O mestre russo tira proveito do bis-
po preto desprotegido para melhorar a coordenação de suas peças.
18... g6 19 c5!
Um lance mais lento teria sido respondido com 19... c5 e 20...0-0. Sacrifi-
cando um peão, as Brancas liberam seu bispo e conseguem arruinar o desenvolvi-
mento do adversário, pois, 19... xc5? 20 b5+ f8 21 b3! atrapalharia o cavalo
preto e o bispo em c5.
19... xc5 20 b5+ d7 21 c3!

Impedindo 21... c5. Agora o futuro Campeão Mundial estava ansioso por
22 c7, aumentando a pressão sob d7, mas, como ele mostrou após a partida, era
um lance inofensivo. 21... e7! 22 c7 a6 23 a4 e4! (é importante impedir que
as Brancas joguem c6 antes de fazer seu próximo lance) 24 0-0 b5 25 c2 c5 “e
as Pretas conseguem sair facilmente de seu emaranhado” – Alekhine.
Dois lances mais tarde, depois de 26 xe4 xd4+ 27 h1 0-0, as Pretas ain-
da têm apenas uma torre e um cavalo pela dama, mas recuperarão um terceiro
peão em e5, o que lhes dará uma vantagem material significativa. Enquanto isso,
falta algo para a salvação das Brancas quando seu adversário faz um sacrifício po-
sicional da dama, que pode ser ou um peão passado ou um ataque a um rei des-
protegido. Mesmo que as Brancas capturem os dois peões pretos da ala da dama
em troca de seus próprios peões em e5 e a3, provavelmente, ainda perderão o
final devido ao peão preto passado na coluna e.
216 Neil McDonald

21...a6? 22 xd7+ xd7 23 c8+ d8 24 xb7!


O sacrifício de peça garante pelo menos um empate para as Brancas.
24... xd4 25 c6+ d7 26 0-0!
Ameaçando vencer imediatamente com 27 d1, portanto Alekhine deve
agir com cautela.
26... d3
As Pretas criariam apenas possibilidades de perda para si mesmas, caso mo-
vessem seu rei, já que as Brancas, na pior das hipóteses, poderiam forçar um em-
pate por xeque perpétuo ou por repetição depois de 26... e7 27 c5+ etc.
27 xf7 c5+ 28 h1 b5!

O único lance, pois as Pretas perdem uma peça após 28... xf7? 29 xd7+ e
30 xd3.
29 xe6+ e7
Alekhine tem que aceitar um empate, pois, após 29... d8 30 xd7+ xd7 31
d5, a ameaça dupla de 32 xc5 e 32 e6 levam à vitória das Brancas.
30 xe7+ xe7 31 c8+ d8 32 e6+ e7 33 c8+ d8 34 e6+ ½-½
Eugene Znosko-Borovsky (1884-1954) deve ter sido um enxadrista bastante
popular. Apesar de estar chateado por não ter conseguido vencer, Alekhine foi
generoso o suficiente para dizer que seu adversário havia “aproveitado impeca-
velmente todas as possibilidades para salvar a partida e demonstrou uma acui-
dade tática admirável”. De maneira parecida, Capablanca, ao perder para Znosko-
-Borovsky – quando estavam em posição de igualdade e, por isso, não recebeu a
taça de ouro –, escreveu que ele merecia “um grande crédito pela maneira como
conduziu sua defesa extremamente difícil”.
Znosko-Borovsky era apenas um mestre de xadrez de nível para mais baixo,
porém, ele possuía qualidades que impressionaram dois dos gigantes deste jogo.
Enquanto a maioria dos enxadristas de sua época cediam à pressão, Znosko sabia
Gigantes do xadrez agressivo 217

como passar da defesa ao contra-ataque. Isso dá à partida acima um ar bem “moder-


no”, em que ambos os jogadores empenham-se ao máximo para ganhar a iniciativa.

Destruindo a coordenação entre peões e peças

Partida 57
L.Polugaevsky – D.Bronstein
Campeonato da URSS
Leningrado, 1971
Abertura Inglesa

1 c4 c5 2 f3 f6 3 c3 d5 4 cxd5 xd5 5 g3 g6 6 b3 b4 7 e4
Lev Polugaevsky relata como havia obtido sucesso com esta variante em
uma partida anterior contra Furman, que prosseguiu com 7...b6 8 g2 e6 9 c3
f6 10 a3 etc. Bronstein havia estudado aquela partida e aguardava para emboscar
Polu com uma ótima inovação:
7... g7!?

As Pretas ignoram o ataque a c5. Elas tomam a casa c3 da dama branca e


ameaçam 8... e6, ganhando mais tempo, então as Brancas não têm outra escolha
senão aceitar a oferta.
8 xc5 a5 9 a3 4c6
Se 9... 8c6 10 c4! ameaça 11 b3 e depois 12 axb4. A réplica 10...b5 fra-
cassaria por causa de 11 e4 f5 12 axb4! – Polugaevsky. Portanto, Bronstein
sente-se obrigado a recuar seu cavalo.
10 c4 b5!
218 Neil McDonald

Forçando a dama branca a fugir pela quarta fileira, já que após 11 c2 é pos-
sível que ela torne-se um alvo para uma das três ideias: ... c8; ou ... g4 e ... xf3
seguido por ... d4; ou ... f5, quando as Brancas não desejam mais se liberar com
e2-e4 em resposta.
11 h4

Agora as Pretas estão com um peão central a menos, sem nenhuma vanta-
gem no desenvolvimento e sem nenhum ataque em vista. Parece que Bronstein
estava louco para tentar esmagar a sólida armadura da Abertura Inglesa.
Mas há um paradoxo: a armadura branca é tão sólida que, exceto ao longo
da coluna c (que logo cairá nas mãos das Pretas), não há muitas maneiras para as
Brancas por trás da armadura. Assim, a dama branca, que está trancada do lado
de fora desta armadura, não consegue encontrar um jeito de voltar para o lado
de dentro!
Em outras palavras, temos um exemplo extremo de peões e peças deixando
de trabalhar em conjunto. O peão preto em b4 terá mais energia dinâmica que a
estrutura de peões brancos inteira. Podemos ainda dizer que a coluna c é valiosa
para as peças pretas porque a bela estrutura de peões brancos não possui nenhu-
ma saída para suas próprias peças.
A habilidade incomparável de Bronstein foi necessária para que compreen-
desse que, após 7... g7, a impermeabilidade dos peões brancos não é uma ale-
gria, mas sim um obstáculo para as peças brancas.
11...b4 12 d3 a6 13 g2 d7 14 0-0 c8 15 de1 c5!
O cavalo preto descobriu uma ótima casa em b3.
16 c2 b3 17 b1 c5 18 e3
As Brancas têm tão pouco espaço que perdem a torre em b1 depois de 18
xb4 xb4 19 axb4 c2.
18... cd4
Gigantes do xadrez agressivo 219

Uma estrutura de peões que perde sua mobilidade acaba por sufocar suas
próprias peças, que, por sua vez, perdem a capacidade de defendê-la de ataques.
Aqui Bronstein enfoca seu ataque à casa e2.
19 xd4 xd4 20 e1 b5 21 axb4 d6
As Pretas não têm pressa de recuperar b4, pois, se 22 d3, então 22... xb4
vem com muito mais força, já que ataca e1.
22 f1 0-0 23 e4 e6 24 b3 f5 25 f4 e5 26 g5
A dama branca tornou-se um joguete, sem qualquer meio de escapar de
sua prisão na ala do rei. Enquanto isso, o bispo ainda está imobilizado em c1, que-
brando uma das regras de ouro do desenvolvimento: as peças menores devem
retirar-se da primeira fileira o quanto antes, para que as torres possam coordenar-se
uma à outra e se defender.

Dada esta desarmonia, não é de surpreender que uma combinação apareça


de repente:
26... xe2! 27 g2
220 Neil McDonald

Se 27 xe2 f3+ ganha a dama, enquanto 27 xe2 xe2+ 28 xe2 d3 dá


um garfo nas duas torres.
27... d3

A perda de e2 destruiu o centro das Brancas, deixando-as com grandes pon-


tos débeis em d3 e f3. Polugaevsky faz uma tentativa corajosa de liberar seu jogo ao
sacrificar a qualidade, mas isto foi em vão. Os lances restantes foram:
28 a1 e4 29 c4 d7 30 b2 xc4 31 xd4 xd4 32 bxc4 xa1 33 xa1 xc4
34 f1 d4 35 a6 g7 36 b5 xd2 37 xa7 xa7 38 xd2 b6 39 c3+ f6
40 c5 d8 41 b6 d6 42 c3+ d4 43 c6 d6 44 c7+ d7 45 c6 d6 46
c3+ f6 47 c5 b7 48 b5 xb6 49 e5+ f6 0-1.

Impedindo um lance libertador de peão

Partida 58
V.Topalov – C.Lutz
Torneio de Candidatos
Dortmund, 2002
Defesa Siciliana

1 e4 c5 2 f3 e6 3 d4 cxd4 4 xd4 c6 5 c3 c7 6 e3 a6 7 d2 f6 8 0-0-0


b4 9 f3 e5 10 b3 b5 11 b1 c4 12 xc4 bxc4 13 c1 b7
É compreensível que as Pretas estejam interessadas em atacar pela coluna
b, mas teria sido melhor tentar 13... b8, quando a continuação 14 f4 e5 15 g5
leva a um jogo interessante. Deslocar a dama para b7 enfraquece seu domínio das
casas pretas no centro, do que Topalov logo se aproveita.
14 1e2 b8 15 b3 0-0 16 f4!
Levando a torre preta de volta ao canto do tabuleiro.
16... a8 17 d6
Gigantes do xadrez agressivo 221

Uma técnica de bloqueio utilizada também por Morphy em sua partida con-
tra Schulten no Capítulo Dez. O bispo vai para a casa d6 antes que as Pretas pos-
sam liberar seu jogo com ...d7-d5.

17... xd6 18 xd6


E agora, no estilo de Paulsen-Morphy mostrado no Capítulo Cinco, a dama
toma para si a função de bloqueio.
18...cxb3 19 axb3 a5 20 d4!
Desarmando o aríete de peão 20...a4.
20... a6 21 a3 d5

Então, Lutz conseguiu acabar com o domínio em d6, mas esse episódio lhe
deixou com um peão mortalmente fraco em d5.
22 exd5 exd5 23 f4 e6 24 hd1 h6
As Pretas decidem entregar o peão, já que 24... d8 25 e4! xe4 36 fxe4 é
altamente desagradável.
25 cxd5 xd5 26 xd5 b8?
222 Neil McDonald

A simplificação 26... xd5 27 xd5 a4 era a última chance. Depois do lance


da partida, parece que as Pretas possuem o necessário para realizar um ataque
forte com 26...a4. No entanto, Topalov é mais rápido e surge com uma combina-
ção inesperada:

27 f6+!! gxf6 28 d8+ xd8 29 xd8+ h7 30 f8 g6


Demora mais tempo, mas as Pretas também levam mate após 30...h5, ou
seja, 31 g4! hxg4 32 fxg4 g6 (ou 32... xg4 33 g8+ h6 34 xg4 a8 35 d3
visando a 36 h3 mate) 33 g8+ h6 34 h8+ g5 35 g7+ f4 36 xf6+ e4
37 d4+ e3 38 f4+ e2 39 d2+ e1 40 f2 mate.
31 g8+ h5 32 g7!

Este lance calmo é uma maneira muito elegante de finalizar a partida. Se,
agora, 32... a8 33 g4+ h4 34 xh6 mate.
32...f5 33 d4!
Com a intenção de 34 h4+! xh4 35 xh6 mate.
33... c8 34 g3! 1-0
A única maneira de impedir o mate em h4 é entregando a dama, nesse caso
as Pretas preferiram abandonar.
Topalov jogou como Morphy, tanto de maneira posicional quanto tática!
7
Um Aríete
na Coluna f

A caminho de seu match no Campeonato Mundial de 1951, Bronstein superou


seus adversários nos três componentes do xadrez agressivo: psicologia, prepara-
ção de abertura e conhecimento de dinâmica. Como resultado, ele venceu parti-
das importantes contra Najdorf e Keres ao introduzir energia de ataque em seu
peão na coluna f. Neste capítulo, analisaremos essas partidas e observaremos
como os nossos outros quatro gigantes utilizaram o peão da coluna f como uma
“varinha mágica”.

A maestria de Bronstein no xadrez agressivo


Na partida seguinte, Miguel Najdorf, um dos melhores enxadristas fora da URSS
naquela época, será arrasado em 21 lances. Aqui estão os elementos do xadrez
agressivo que tornam isso inevitável:

1) Preparação de abertura em variantes forçadas: Bronstein havia chegado


ao Torneio de Candidatos de 1950 tendo estudado detalhadamente as variantes
agudas da Defesa Nimzo-Índia com 4 a3.
2) Conhecimento de dinâmica: Najdorf é arruinado pelo poder do peão f4-f5
que serve de aríete. Parece que demorou muito tempo para que o mundo do xa-
drez tomasse conhecimento do poder deste avanço.
3) Psicologia: Najdorf estivera observando a partida entre Bronstein e Szabo,
com a Nimzo-Índia, num momento anterior ao torneio, e havia dito para o treina-
dor e mentor de Bronstein, Boris Weinstein: “Seu David está blefando”. Não é de
surpreender que Weinstein não tenha tentado fazê-lo mudar de opinião. Após a
partida contra Szabo, que Bronstein vencera, Najdorf começou a sugerir melho-
rias para as Pretas. Evidentemente, o Grande Mestre argentino considerava-se um
especialista em Defesa Nimzo-Índia.
224 Neil McDonald

Sentir-se excessivamente confiante e enfrentar uma nova ideia de abertura


de Bronstein não é a combinação mais saudável!

Partida 59
D.Bronstein – M.Najdorf
Torneio de Candidatos
Budapeste, 1950
Defesa Nimzo-Índia

1 d4 f6 2 c4 e6 3 c3 b4 4 a3 xc3+ 5 bxc3 c5
Szabo havia jogado 5...0-0 na partida mencionada.
6 e3 c6 7 d3 0-0 8 e2 d6 9 e4 e8
Como alternativa, ele poderia obter espaço no centro com 9...e5!?.
10 0-0 b6 11 f4 a6??

O lance perdedor. As Pretas estão convencidas de que o avanço adversário


na ala do rei é apenas um blefe e perseguem imediatamente o peão em c4. O úni-
co lance era 11...f5!, bloqueando o peão branco da coluna f.
12 f5!
Talvez Najdorf tivesse levado em consideração apenas 12 e5, abrindo a dia-
gonal para o bispo em d3, o que é relativamente inofensivo. De qualquer forma,
neste momento o Grande Mestre argentino percebeu o perigo que corria, mas já
era um lance tarde demais.
Ele pensou por uma hora e não encontrou uma maneira de escapar. E não é
de se admirar: a ameaça é 13 f6 e a tentativa de bloqueá-la com ...f7-f6 leva a uma
catástrofe após 12...exf5 13 exf5 f6 14 e4! d7 15 d5+ h8 16 f4, quando as
Brancas terão a agradável escolha entre o posicional 17 e6 e 17 h5 ameaçan-
do 18 g6 mate, ou mesmo 17 g6+!.
12...e5 13 f6! h8
Gigantes do xadrez agressivo 225

Se 13... xf6 14 g5 e as Pretas sofreriam uma cravada terrível, com 15 g3


e 16 h5 iminentes. Como alternativa, após 13...g6 14 h6, elas perdem a quali-
dade e mantêm uma posição em decomposição.
14 d5 a5 15 g3 gxf6 16 f5

Então, o que as Brancas ganharam com o aríete do peão na coluna f? Bom,


seu bispo de casas pretas possui uma diagonal aberta, o cavalo tem a casa f5, e
sua dama e a torre em f1 podem ser ativadas rapidamente para um ataque. Quan-
to às Pretas, a impossibilidade de jogar ...f7-f6 significa que a dama e as torres não
têm como defender o rei ao longo de sua segunda fileira. Além disso, o peão em
h7 é um possível alvo para as peças brancas.
As Pretas estão completamente perdidas. Por que razão, então, Najdorf, um dos
melhores enxadristas do mundo, não percebeu como 12 f5 seria tão mortal? Como
discutimos acima, excesso de confiança, falta de pesquisa sobre abertura e nenhuma
percepção quanto à força do aríete com o peão em f tiveram sua parcela de culpa.
16... c8 17 h5
Tão simples: a dama branca pretende dar mate em h7.
17... xf5 18 exf5 g8 19 f3 g7 20 h6 g8 21 h3 1-0
226 Neil McDonald

Se 21... g7 22 h4 e8 (caso contrário 23 g5 vence) 23 f8 e vence.


O fiel peão de Bronstein da coluna f desempenhou o mesmo papel na últi-
ma rodada do torneio contra Keres. Bronstein precisava vencer esta partida para
alcançar Boleslavsky e forçar um match para decidir quem enfrentaria Botvinnik.
Não é uma tarefa fácil quando se está enfrentando um dos maiores enxadristas de
todos os tempos. Mais uma vez, o xadrez agressivo veio a seu socorro:
1) Preparação de abertura em variantes forçadas: Bronstein estava armado
com um sacrifício de peão interessante contra a costumeira Ruy Lopez de Keres.
2) Conhecimento de dinâmica: Assim como Najdorf, Keres hesita antes do
avanço do peão branco da coluna f. Parece que ele simplesmente não compre-
endeu a força da ameaça que encarava. Caso contrário, não importa quão pouco
tempo ou quão distraído, seu instinto enxadrístico não teria lhe permitido o inex-
plicável lance 26 que decidiu a partida.
3) Psicologia: Keres não era o tipo de enxadrista que sucumbiria após um
sacrifício duvidoso de peão. Mesmo assim, poder-se-ia esperar que a surpresa
na abertura lhe deixaria com pouco tempo, exatamente o que aconteceu. Além
disso, era o último turno do torneio, e o Grande Mestre estoniano não tinha
chances de se classificar para enfrentar Botvinnik. Portanto, em uma disputa
difícil ele não teria a mesma motivação que Bronstein, para quem esta partida
era a mais importante de sua vida. Se for pressionado o suficiente, Keres pode
simplesmente falhar...

Partida 60
D.Bronstein – P.Keres
Torneio de Candidatos
Budapeste, 1950
Abertura Ruy Lopez

1 e4 e5 2 f3 c6 3 b5 a6 4 a4 f6 5 0-0 e7 6 e1 b5 7 b3 0-0 8 d4 d6
9 c3 g4
A princípio, Keres teve que cravar o cavalo, caso contrário as Brancas con-
seguiriam d2-d4 sem gastar o lance h2-h3. Mas, agora, Bronstein pode exibir sua
preparação.
Gigantes do xadrez agressivo 227

10 h3!? xf3 11 xf3 exd4 12 d1!


Um lance paradoxal típico da arte enxadrística de Bronstein. A dama branca
recua para sua casa inicial, a fim de colaborar para o ataque das Brancas. Ou talvez
nosso herói tenha lembrado da partida entre Morphy e Anderssen com d1! no
Capítulo Cinco...
12...dxc3 13 xc3

Em razão da troca de peão, as Brancas possuem mais liberdade de ação


que seus adversários, ou seja, os dois bispos e a chance de ganhar espaço com
um f2-f4. Por outro lado, as Pretas têm todas as peças desenvolvidas, um rei a
salvo e nenhuma fraqueza estrutural séria com a qual se preocupar. De forma
objetiva, devemos afirmar que as Brancas não possuem compensação suficiente
pelo peão.
Mas, quando levamos em consideração as circunstâncias psicológicas, as
chances das Brancas são muito maiores. Há um antigo ditado que diz que não
importa quão dúbios pareçam no laboratório ou no post mortem, “todos os gam-
bitos são saudáveis durante a partida”.
Além disso, Keres fracassou quanto a seu objetivo no torneio: é o último tur-
no, ele está cansado e saturado e quer ir para casa! E Bronstein sacrifica um peão
contra ele... não há nenhuma possibilidade de descanso, nem mesmo na abertura!
Na sequência, as Brancas não fazem qualquer tentativa de iniciar um ataque
rápido ao rei preto. Em vez disso, elas mantêm a tensão para que Keres tenha pro-
blemas para solucionar a cada lance e seja levado, cada vez mais, para um apuro
de tempo. Passemos para o lance 20:
228 Neil McDonald

13... a5 14 c2 e8 15 f4 b4 16 d5 xd5 17 xd5 c6 18 d3 g6 19 h1


f8 20 f1 g7
O primeiro sinal de incerteza vindo das Pretas. Aqui, o centralizador 20...d5!?
21 e5 c4 seria uma maneira melhor de lidar com a posição.
21 d2 c5

Mesmo assim, as coisas começam a ficar funestas para Bronstein, já que seu
adversário está começando a utilizar sua maioria de peões na ala da dama. No en-
tanto, ele recusa-se a entrar em pânico e acaba por encontrar uma manobra para
reduzir a eficiência das peças pretas em prevenir o avanço f4-f5.
22 a4
A fim de impedir que o cavalo preto retorne ao centro via c6. Ao mesmo
tempo a torre em e8 é levada para uma casa mais passiva.
22... f8 23 ab1
Um lance calmo de defesa do tipo que leva o adversário mais perto do apu-
ro de tempo.
23... b6
A dama de Keres junta-se ao ataque na ala da dama, mas deixa de combater
o avanço do peão branco da coluna f. Nosso gigante decide que não deve mais
aguardar:
24 f5 d4
Ele certamente não quer que o bispo seja encarceirado com 25 f6.
25 g3 c4
Aqui, Pachman sugere 25...c4 26 h6 b7! como uma maneira eficiente de
oferecer qualidade para arruinar o ataque das Brancas.
26 h6
Gigantes do xadrez agressivo 229

Para fins práticos, seria melhor manter a tensão com 26 c1!, preparando 27
b3 etc., para aumentar a pressão sobre f7. Mas será que Bronstein percebeu que
seu adversário começava a sentir-se confuso?
26... g7??
O colapso “inexplicável” ocorre. Na verdade, Keres ficou atordoado devido à
mistura mortal de dinamismo, psicologia e preparação de seu adversário. Sob a
pressão do tempo, o Grande Mestre estoniano vê um fantasma, entra em pânico
e comete um erro desastroso.
O único lance coerente com o desenvolvimento de sua ala da dama era o sa-
crifício de qualidade 26... xb2!, quando, após 27 xf8 xf8, é improvável que as
Pretas recebam mate e, enquanto isso, podem avançar com ...c5-c4 etc. Tenho cer-
teza de que Bronstein teria encontrado várias maneiras de irritar seu adversário
em relação ao problema de tempo. Ainda assim, não posso deixar de pensar que,
após 26... xb2!, não teria havido nenhuma partida entre Bronstein e Boleslavsky
ou entre Bronstein e Botvinnik. Como é tênue a diferença entre o sucesso e o fra-
casso no xadrez!
Podemos falar sobre o desgosto de perder a partida 23 no match contra
Botvinnik. No entanto, em vários pontos do Torneio de Candidatos de 1950, po-
deria ter sido negada a Bronstein a glória de jogar um match do Campeonato
Mundial, embora ele tenha conseguido “apenas” um empate.
Por outro lado, nosso herói fez sua própria sorte ao preparar o criativo sacrifício
de peão antes da partida e, então, ter a coragem de realmente utilizá-lo. Bronstein
merecia mais do que ninguém no mundo a chance de derrotar Botvinnik em 1951.
27 xg7 xg7 28 f6+ h8 29 g5
Às vezes, é dito que a imaginação tática não pode ser ensinada, que ela é
“um presente dos deuses”. Pelo contrário, seus efeitos podem ser estudados e sis-
tematizados da mesma maneira que os planos posicionais.
Portanto, o padrão de xeque-mate a seguir é familiar para todos os bons
enxadristas. A “fórmula” é: peão em f6 + dama em h6 + torre que possa ir para a
coluna h = xh7+! e mate.
230 Neil McDonald

29...b3 30 axb3 b4 31 bxc4 xa4 32 f4 c2 33 h6 1-0


Se 33... xb1+ 34 h2 g8 35 xh7+! e mate no lance seguinte.

Um ataque lento e gradual supera uma iniciativa temporária


É uma marca dos jogos de Topalov que suas peças, frequentemente, pareçam ter
menos energia que as do adversário no início do meio-jogo, mas, lance a lance,
elas vão aumentando seu poder de forma contínua. Enquanto isso, o adversário
não pode fazer nada “real” com sua posição tão impressionante visualmente e,
mais cedo ou mais tarde, depara-se com o esmagamento de um rolo compressor
destruidor. O mesmo pode ser dito quanto aos jogos de Morphy. O gênio ameri-
cano costumava desenvolver suas peças de maneira calma e paciente para, então,
punir seus adversários por realizarem excursões que não têm nenhuma coorde-
nação e que são uma perda de tempo.
Na partida a seguir, veremos que Geller também é um mestre desta estra-
tégia. Ele está disposto a jogar lances lentos e despretensiosos ao mesmo tempo
em que deixa seu adversário obter alguma atividade temporária, pois está certo
de que a Verdade e a Retidão (um jogador que possui um adversário com um ca-
valo em a5 fora do jogo) triunfarão no final.

Partida 61
E.Geller – V.Smyslov
5ª Partida do Match
Moscou, 1965
Defesa Grünfeld
Gigantes do xadrez agressivo 231

1 d4 f6 2 c4 g6 3 c3 d5 4 cxd5 xd5 5 e4 xc3 6 bxc3 g7 7 c4 c5 8 e2


0-0 9 0-0 c6 10 e3 c7 11 c1 d8 12 f4 e6 13 h1 b6?
Uma maneira segura de manejar a posição seria 13... a5 14 d3 f5!, blo-
queando o peão branco da coluna f. Em vez disso, Smyslov estimula o avanço do
peão inimigo, esperando beneficiar suas peças com as linhas que serão abertas.
14 f5!

Geller nunca espera um segundo convite para atacar a ala do rei inimiga!
14... a5
Smyslov expulsa o bispo branco de seu posto em c4 para que possa colocar
seu próprio bispo na atraente casa b7, sem preocupar-se quanto à captura dos
peões e6 ou f7.
É óbvio que o antigo Campeão Mundial está pensando de maneira otimista:
“O que posso fazer para aumentar a energia de minhas peças?”, e não “O que pos-
so fazer para coibir a energia das peças brancas?”. De acordo com a lógica pensa-
da por ele de estar controlando a posição, está jogando corretamente; mas, como
veremos, a lógica em si está incorreta. É por isso que 13... a5, visando a ...f7-f5
como parte de uma estratégia preventiva, seria bom, enquanto o mesmo lance de
cavalo um lance depois visando a ... b7 seria um erro posicional.
15 d3 exf5 16 exf5 b7 17 d2 e8 18 g3 c6
As Pretas surgem primeiro com uma ameaça tática: 19... xe3! 20 xe3 xg2
mate.
19 f2 ad8
232 Neil McDonald

À primeira vista, parece que Smyslov conseguiu coordenar suas peças de


maneira exemplar. Suas duas torres estão posicionadas em colunas centrais, en-
quanto ambos os bispos desfrutam de diagonais abertas, um apoiando a dama
em um ataque à casa frágil das Brancas (g2) e o outro observando os restos do
centro das Brancas em d4. Enquanto isso, Geller jogou alguns lances que parecem
lentos, isso é, d3 recuando um bispo, d2 protegendo o outro bispo, e f2 para
reforçar a vulnerável casa g2.
Apesar disso, se pensarmos em termos de energia potencial, começam a
surgir algumas dúvidas sérias quanto à configuração de Smyslov. O cavalo em
a5 conseguirá voltar para o centro? E, caso não consiga, o exército das Pretas não
estará com menos soldados quando a batalha tática começar?
Em contraste com as Pretas, a posição das Brancas possui várias oportunida-
des de melhoria. Passo a passo, Geller conseguirá posicionar suas forças contra a
ala do rei das Pretas. A longo prazo, ele sempre terá poder de fogo superior, pelo
simples fato de que seu cavalo em g3 poderá unir-se à batalha, enquanto o cavalo
preto em a5 não possui o apoio de ninguém.
Estamos adentrando a segunda fase do xadrez agressivo em que as ameaças
diretas substituem a estratégia dinâmica.
20 h6!
O primeiro sinal do aumento de energia é que o bispo branco, anteriormen-
te um alvo em e3, ameaça oferecer-se em troca do imprescindível defensor das
casas pretas das Pretas.
20... h8 21 f4!
E, agora, a dama começa a agir na coluna f com nítidas intenções após 22
fxg6. Não tão nítido é o apoio que ela está dando ao próximo lance das Brancas.
Gigantes do xadrez agressivo 233

21... d7 22 e4!
Se, agora, 22... xe4 23 xe4 xe4 24 b8+, de repente as Pretas recebem
mate em sua primeira fileira.
O fato de que elas não conseguem mais manter o cavalo branco longe da
casa e4 deixa transparecer quão rápido a energia está se esvaindo de seu jogo.
22...c4
Smyslov força o recuo do bispo para que as Brancas não tenham f1 como
opção de defesa de sua primeira fileira.
23 c2 de7
Parece que a pressão que as Pretas fazem sob a coluna e as salvará no fim
das contas, já que o impetuoso 24 d6? depara-se com 24... e1+ e as Brancas
recebem mate em g2.
24 cf1!!
Geller aproveita ao máximo o seu cavalo “extra” oferecendo-o em sacrifício.
As Pretas quase não têm opções senão aceitar, já que ... e1+ não é mais uma
opção caso o cavalo branco se mova. Elas irão deparar-se com a destruição em f7
após 25 fxg6 hxg6 (ou 25...fxg6 26 f8+! e mate) 26 d6 etc.
234 Neil McDonald

24... xe4 25 fxg6!


O primeiro ponto por trás do sacrifício é que se 25... xf4 26 gxh7 e é mate!
25...f6
O único lance, já que, depois de 25... xg6 26 xe4 xe4 27 xf7+ xf7 28
xf7, as Pretas não possuem nenhuma boa defesa para 29 f8+ xf8 30 xf8 mate.
26 g5!?
Geller não resiste a uma segunda oferta de dama. Armado de um compu-
tador é fácil criticar um jogador por ter cometido imprecisões em uma posição
altamente complexa. Basta dizer que 26 g3! parece mais simples, com a mesma
ameaça de 27 g7, aniquilando o bispo em h8. Se, então, 26... d7 (não há outra
escolha) 27 gxh7+ xh7 (27... f7 28 xf6+! xf6 29 g7+ e6 30 xf6+ é sinis-
tro) 28 f4! proporciona às Brancas um ataque decisivo, já que 28... xh6 permite
mate em dois com 29 h4+! xh4 30 g6. As Pretas resistem por mais tempo
após 28... g8 29 h4 ge8 30 xe4+ xe4 31 xe4 xe4 32 xe4+ xh6 33
f3! g7 34 h3, mas ainda teriam que abandonar a partida, já que não possuem
uma resposta adequada para o xeque mortal em h7: 34... g8 35 a8+ ganha o
bispo e depois a partida.
26... d7
É mate em dois com o familiar 27 f8+ se as Pretas tocarem a dama.
27 g1!

Geller disse que moveu seu rei pois viu que, depois de tentar 27 xf6 xf6
28 xf6 hxg6 (28... e7 29 f7+!) 29 xg6+ h8 30 g5 4e6 31 f6+ xf6 32
xf6, o rei preto ficaria sem defesas e levaria mate com 33 h6+ e 34 g6+; mas
que, infelizmente, o rei branco levaria mate antes com 32... e1+!. Portanto, Geller
pôs seu rei em g1 para evitar este cenário, e calculou que as Pretas não consegui-
riam fazer nada significativo com seu tempo extra.
27... g7
Gigantes do xadrez agressivo 235

Após 27... 8e6, uma resposta forte seria 28 f3!?, planejando simplesmente
29 g3 com ameaças decisivas.
28 xf6 g4
Se 28... xf6, Geller teria jogado como na observação sobre 27 g1, quando
... e1+ seria apenas um xeque a mais seguido de f2.
29 gxh7+ h8 30 xg7+ xg7 31 xg4! 1-0

As Brancas conseguirão deleite em dobro com uma nova dama e um mate


instantâneo após 31... xg4 32 f8+ xf8 33 xf8+ etc.
Uma excelente exibição por parte de Geller. Foram necessários coragem,
cálculo tático e julgamento sutil para o ataque triunfar.

Não há tempo a perder preparando um aríete de peão

Partida 62
E.Geller – V.Korchnoi
Havana, 1963
Abertura Ruy Lopez

1 e4 e5 2 f3 c6 3 b5 a6 4 a4 f6 5 0-0 e7 6 e1 b5 7 b3 0-0 8 a4
b7 9 d3 d6 10 d2 d7 11 c3 d4 12 xd4 exd4 13 e2 c5 14 g3 g6
15 c3 dxc3 16 bxc3 d5 17 e5 e8 18 axb5 axb5 19 xa8 xa8 20 h6 g7
21 d4 c8
Agora as Brancas iniciaram o ataque:
22 f4!
236 Neil McDonald

Se as Pretas conseguissem fechar a posição com 22...f5 e 23... e6, teriam um


jogo maravilhoso: a maioria de peões brancos na ala do rei (4-3) ficaria estática
pelo bloqueio do cavalo em e6, e, enquanto isso, a maioria de peões pretos na ala
da dama (3-2) poderia ser facilmente transformada em um peão passado.
Que pena! As Pretas não têm tempo suficiente para essa manobra. Após
22... e6? elas são atingidas por 23 f5, enquanto após 22...f5 as Brancas irão uti-
lizar uma oportunidade tática de abrir todas as linhas em volta do rei preto: 23
exf6 xf6 24 e4! (uma entrada poderosa do cavalo branco) 24... e7 25 xg7
xg7 26 xc5 e as Pretas ficam sem saída, já que 26... xc5? (melhor simplesmen-
te aceitar a perda de um peão) 27 dxc5 xc5? 28 d4+ é fatal. 22... f5 também
não conteria o fluxo de peões brancos após 23 xf5 xf5 24 c2 d7 25 f5! etc.
E, finalmente, uma tentativa de diminuir o impacto de uma ruptura com trocas
fracassaria depois de 22... h4 23 xg7 xg7 24 f5! xg3 (24...gxf5 25 f3 xg3
26 xg3+ também é bastante ruim) 25 f6+ h8 26 hxg3 e os peões brancos são
tão ameaçadores quanto na partida.
Por que a coisa está tão crítica para as Pretas em todas as variantes? Pelo
simples fato de que estão jogando sem qualquer ajuda do bispo em a8. Esta
peça mal aparece nas variantes listadas acima. Ela poderia muito bem voltar
ao jogo por causa da ajuda que poderia dar às Pretas para se defenderem na
ala do rei.
22...cxd4
Korchnoi percebe que sua única chance é criar contrajogo na ala da dama,
mas Geller o ignora completamente.
23 xg7 xg7 24 f5!!
Gigantes do xadrez agressivo 237

As oportunidades que aparecem devem imediatamente ser aproveitadas. Um


segundo de hesitação contra um adversário engenhoso pode ser fatal. Se Geller ti-
vesse jogado o “lento” 24 cxd4, então 24...f5! sugaria a maior parte da energia de
ataque de seus peões da ala do rei. Neste caso, o peão passado preto na ala da dama
e o bispo forte das casas pretas daria, no mínimo, chances iguais para as Pretas.
24... d8
Com o estrago já feito na coluna f, as Brancas poderiam responder a 24...gxf5
com o simples 25 cxd4, seguido por 26 f3 etc., com um ataque gigantesco.
25 cxd4 c6
O peão da coluna f não pode ser eliminado, pois, após 25...gxf5 26 h5 ou
26 c2, o cavalo branco posiciona-se em f5 anunciando um ataque de mate.
26 f6+
Um lance comprometedor como esse só deve ser jogado quando há uma
continuação clara. O peão parece bastante imponente em f6, mas também está
bloqueando a coluna f, e isso pode acabar por diminuir a energia das outras peças
brancas. Normalmente, colocar o peão em f6 é justificável, já que, com o rei preto
em g8, o peão pode liderar um ataque de mate do tipo d2 e h6, como vimos na
partida entre Bronstein e Keres acima. Aqui Geller tem um outro plano em mente.
26... f8 27 e2!!
238 Neil McDonald

Não sei o que o leitor pensa, mas sempre fico impressionado com lances de
reagrupamento como esse. Talvez porque eles refletem a paciência que eu não
possuo como jogador. Geller visa a uma ruptura com f4 e e5-e6, e não há nada
que as Pretas possam fazer para evitar.
27... a5 28 f1 d7 29 f4 g8
Korchnoi é ótimo na defesa e fez tudo que foi possível para se preparar para
o impacto. Mas é preciso apenas perceber o bispo em a8 para saber quem vai
ganhar a batalha no centro.
30 e6!

30...fxe6 31 g4 f7 32 xe6
Ameaçando 33 g5.
32...h5 33 f4! d2
Se 33... xe6 34 f7+ f8 35 h6+ e o peão passa.
34 xd2 xe6 35 c2 h7 36 g5!

As Pretas já não têm nenhuma defesa, já que a dama está ameaçando tanto
o peão h5 quanto o g6.
Gigantes do xadrez agressivo 239

36... xc2 37 f7 c8 38 f8 xf8 39 xf8 c6


O bispo chegou meio atrasado para a festa, não acha?
40 h4 g7 41 f3 1-0

Um aríete duplo de peões


Depois que seu adversário fracassou em manter a posição fechada, Alekhine con-
seguiu combinar rupturas de peões em d5 e f5.

Partida 63
A.Alekhine – A.Selezniev
Bad Pistyan, 1922
Gambito da Dama

1 d4 d5 2 f3 f6 3 c4 e6 4 c3 e7 5 g5 bd7 6 e3 0-0 7 c1 c6 8 d3
dxc4 9 xc4 d5 10 f4
Outra versão do tratamento do centro que vimos na partida entre Alekhine
e Rubinstein no Capítulo Três.
10... xf4 11 exf4 b6 12 b3 d5 13 d2 d6 14 e5 xc3 15 bxc3 c5 16
0-0 b5 17 c2 a6 18 fe1 ad8 19 cd1

Aqui as Pretas fizeram uma troca óbvia:


19...cxd4?
Entretanto, não perceberam que seu peão em c era necessário para blo-
quear a tentativa das Brancas de atacar subitamente sua ala do rei. Em vez do
lance efetuado, elas deveriam ter jogado 19...g6!, que reprime o poder do bispo
branco em c2 e impede um aríete de peão com f4-f5. Se, então, 20 b3, com
possibilidades de combinações do tipo 21 xf7 xf7 22 xe6, as Pretas podem
bloquear o bispo com 20...c4!.
240 Neil McDonald

Em contrapartida, depois de 19...cxd4 o bispo branco se torna um monstro e


até apoia um sacrifício de dama.
20 cxd4 g6 21 b3!

É claro que Alekhine não ia deixar passar a chance de pressionar os peões


em e6 e f7. O “xadrez agressivo, parte dois” começou. Até o final da partida, Alekhi-
ne forçará um lance atrás do outro, acertando em cheio as peças pretas com uma
série de ondas de ataque.
21... c8
Selezniev é obrigado a jogar apenas lances defensivos passivos. Ele ado-
raria poder desafiar o bispo branco com 21... b7 e depois 22... d5, mas não há
tempo: 22 d3! (um lance de dama típico de Alekhine: sem pretensão alguma, a
dama dá um passo à frente e introduz ameaças em ambos os lados do tabuleiro)
22...a6 (caso contrário b5 cai) 23 xg6!! hxg6 24 xe6! fxe6 25 xg6+ h8. Em
suas anotações, Alekhine diz: “26 c2 e é mate dentro de poucos lances”, mas
isso dá espaço para a réplica 26... f5!, e a defesa parece ser suficiente. Em vez dis-
so, 26 h6+ g8 27 xe6+ propicia ótimas chances de vitória, já que as Pretas
são obrigadas a entregar sua dama, pois notam que 27... f7 28 d3! logo as faria
entregar seu rei.
22 e2!
Não 22 d5? exd5 23 xd5 e6!, quando as Brancas sofrem uma cravada.
Assim como na variante no lance 21, o reposicionamento da dama branca é o
prelúdio de um ataque violento. As Pretas têm que lidar com a ameaça a b5, e, por
isso, o aríete de peão chega com grande impacto.
22...a6
Ainda assim, Selezniev deveria deixar sua dama fora de perigo com
22... b6.
23 d5!
Gigantes do xadrez agressivo 241

Não há descanso para as peças do adversário!


23... b6
Depois de 23...exd5 24 xd5, o desbloqueio da coluna e e a aproximação do
bispo a f7 significam que as Pretas estão sendo aterrorizadas por 24 xf7+ ou 24
xf7, sem contar o banal 24 c6, acertando tanto d8 quanto e7.
24 c6!
Alekhine percebe que para aumentar a energia de seu ataque ele tem que
eliminar a peça que está protegendo as casas pretas em volta do rei preto.
24... de8 25 xe7+ xe7 26 f5!!

A segunda parte do ataque com o aríete de peão. Se as Pretas aceitarem


a oferta com 27...gxf5, seu rei ficará mortalmente exposto: a dama branca e as
torres poderão dar início a um ataque rápido enquanto a dama preta estará fora
de jogo na ala da dama. Por exemplo, 27 h5 (ameaçando capturar uma torre
com um xeque em g5) 27... h8 (ou 27...f6 28 dxe6 xe6, quando as Brancas têm
o mesmo lance vencedor que foi de fato efetuado na partida: 29 d7!! xd7 30
xe6 seguido por um xeque descoberto mortal) 28 h6 fe8 29 f6+ g8 30 d3
f4 31 e5 e as Pretas ficam sem defesa ao longo da coluna g.
242 Neil McDonald

26... b7
Ou 26... fe8 27 d6 b7 28 e5! com pressão gigantesca.
27 dxe6 fxe6 28 fxe6 e7
Se as Pretas tinham esperanças de bloquear e depois ganhar o peão passa-
do, então ficaram instantaneamente desiludidas.
29 d7!

29... fe8
Um outro cenário seria 29... xd7 30 exd7+ h8 (depois de 30... ef7 31 xf7+
xf7 32 d2 f8 33 e8, o peão passado avança sem oposição) e as Brancas pode-
riam perder de maneira mais vergonhosa com 31 xe7?? xf2+, quando seu rei
recebe mate em dois lances! No entanto, a alternativa 31 d8 ! impediria uma das
peças pretas de participarem do ataque a f2, por isso as Brancas conseguiriam cap-
turar facilmente e7, mantendo uma peça a mais.
30 f3!
Infiltrar-se com a dama pela coluna f a fim de atacar a torre em e7 é a parte
final da estratégia das Brancas para vencer.
30... c5
As Pretas estão esperando 31 f6? f8! 32 xe7?? (32 b2!) 32... xf2+ e
mate.
31 f7+!
Uma maneira espetacular de levar a dama para f6 com ganho de tempo. Caso
ela seja capturada, a maneira mais precisa de vencer é com 31... xf7 32 exf7+ g7
33 f8 +! xf8 34 f7+ g8 35 xe8+ e mate.
31... h8 32 f6+ g8 33 h4! 1-0
Para que após 33... f8 as Brancas possam tomar tranquilamente e7; ou seja,
34 xe7 xf2+ 35 h2 f4+ 36 h1 e vence. Vendo sua última esperança dis-
sipar-se, Selezniev decidiu se entregar. Se 33...a5, as Brancas poderiam finalizar a
partida com 34 ed1 a4 35 d8 axb3 36 xe8+ xe8 37 f7+ h8 38 xe8+ g7
39 e7, ameaçando mate em f8 para adicionar mais uma desgraça à lista das Pretas.
Gigantes do xadrez agressivo 243

Um ataque bastante admirável de Alekhine, que perseguiu as peças pretas


sem nenhuma misericórdia depois de seu adversário ter lhe dado uma chance
com 19...cxd4?.

O aríete de peão supera um cavalo perfeito

Partida 64
V.Topalov – V.Ivanchuk
Nanjing, 2008
Defesa Siciliana

1 e4 c5 2 f3 c6 3 d4 cxd4 4 xd4 e6 5 c3 f6 6 db5 b4 7 a3 xc3+ 8


xc3 d5 9 exd5 exd5 10 d3 0-0 11 0-0 d4 12 e2 g4
Ivanchuk provoca a resposta das Brancas, depois da qual e3 vira uma casa
débil. Esta será uma base excelente para o cavalo preto, que pode ser apoiado
tanto pelo peão d4 quanto por uma torre em e8.

13 f3!
Topalov aceita o desafio. O cavalo preto ganhará sua casa dos sonhos, mas,
em troca, as Brancas ficarão com o par de bispos e a possibilidade de atacar com
f4-f5.
13... h5 14 f4 e8
O Grande Mestre ucraniano segue com seu plano. Ele prefere entregar o bis-
po na casa h5 a 14... g6 15 xg6 hxg6, pois ele não deseja que tenha um peão
em g6 providenciando um “gancho” para um avanço f4-f5 pelas Brancas.
15 xh5 xh5 16 f4 f6 17 f3!
A dama dirige-se para h3 a fim de atacar h7. Agora, por que isso se o peão
está sendo completamente defendido pelo cavalo em f6? Um dos segredos da
244 Neil McDonald

estratégia do xadrez é antever o plano do adversário. Ivanchuk confia em seus


planos e sempre joga para ganhar, portanto, é racional supor que ele esteja pre-
tendendo ... d5 e ... e3. Como consequência, o peão em h7 irá perder seu defen-
sor sem que as Brancas precisem utilizar qualquer artimanha persuasiva. Algumas
casas ficam fracas durante o percurso em que ambos os jogadores procuram realizar
seus planos.

17... d5
Como previsto, o cavalo parte para buscar seu destino e o peão em h7 torna-
-se um alvo.
18 h3 g6?
Enfraquecendo suas casas pretas e criando um gancho para o avanço do
peão branco em f no fim das contas. Ivanchuk deveria ter jogado 18...h6!. Se, en-
tão, 19 f5 f6! mantém tudo estável. Aparentemente, as Pretas perderam tempo
com seu cavalo, mas a situação da dama branca em f5 também não é das melho-
res, pois está no meio do caminho do avanço do peão em f. Então, é capaz de a
partida acabar em um excêntrico empate por repetição de lances depois de 20
h3 d5 21 f5 f6 etc.!
Como dissemos acima, Ivanchuk é um Grande Mestre bastante criativo que
sempre tenta aproveitar o máximo de cada posição. Ele acredita que o forte cava-
lo que colocará em e3 compensará vários pontos fracos na ala do rei. Infelizmente
para ele, está sendo otimista demais, embora seja necessário um enxadrista com
a habilidade de Topalov para provar isso a ele.
19 f5!
Todos os praticantes do xadrez agressivo adoram um aríete de peão, espe-
cialmente quando este aponta para o rei inimigo. Ele abre linhas de ataque para
suas próprias peças e enfraquece as defesas de peão.
19... e3
Parece que o ataque a f1 dará às Pretas um lance vital para a consolidação
das defesas em sua ala do rei.
Gigantes do xadrez agressivo 245

20 h6!

Vale lembrar da máxima de Alekhine no Capítulo Um: “Há posições em que


uma combinação é obrigatória”. Quando os dois jogadores estão tentando impor
sua vontade sobre o adversário, um tempo pode fazer toda a diferença. Ao igno-
rar a ameaça à sua torre, Topalov dá energia vital ao seu ataque na ala do rei.
20... e7
Se 20... xf1, as Brancas podem ganhar a dama preta com 21 fxg6 hxg6 22
xg6 fxg6 23 xg6+ h8 24 g5 e3 25 xd8 axd8. Então, elas terão em suas
mãos a possibilidade de um empate por xeque perpétuo e a chance de buscar
mais com 26 g6+ h8 27 e1!, planejando 28 c3 para enfraquecer a defesa do
cavalo preto em e3, quando a torre branca pode juntar-se ao ataque ao rei preto.
No entanto, eu esperava que Topalov fosse manter a tensão com 21 g5!,
quando se 21...f6? 22 c4+ h8 23 fxg6 força mate em alguns lances, e o desastre
ocorre em f6 ou h7. Assim, as Pretas devem responder com 21... d6, quando o
simples 22 xf1 mantém uma forte pressão; a ameaça imediata é 23 fxg6 hxg6
(novamente, se 23...fxg6 24 c4+ é um lance mortal) 24 f6 e vence.
21 f4
Agora, para conseguir evitar 22 h4 f6 23 fxg6, Ivanchuk terá que enfraque-
cer seus próprios peões.
21...gxf5 22 d2
Diferentemente da situação no lance 20, as Brancas não precisam se apres-
sar aqui, já que o peão em f5 não pode fugir.
22... ad8 23 xf5 xf5 24 xf5 d6
A torre preta chega à sua terceira fileira bem a tempo de evitar o desastre na
coluna g.
25 f4 g6 26 f1 e2 27 g3 f8 28 f2 e6
246 Neil McDonald

Topalov possui todas as peças em casas excelentes para ataque, mas, como
de costume, é necessária a intervenção de um peão para adicionar um pouco
mais de poder de fogo na ruptura da defesa.
29 h4! e7 30 e5 d7 31 h5 g7 32 g5
Após desalojar a torre preta de g6, a ameaça é 33 xg7+ xg7 34 h6+ g8
35 g5+ g6 36 f6 e mate no próximo lance.
32...f5!
Ivanchuk se defende solidamente, abrindo caminho para sua dama defen-
der sua segunda fileira.
33 xg7+ xg7 34 e5+ g8 35 h6 c6 36 f4 f7
Nosso gigante utilizou um grupo inteiro de peões da ala do rei para realizar
o seu ataque. Para começar, ele avançou seu peão da coluna f a fim de separar as
defesas das Pretas. Depois, ele retirou a torre preta de g6 com a ajuda de seu peão
da coluna h. E agora está na hora de atacar o obstáculo em f5, o que requer o uso
de seu peão da coluna g.
37 g4!

37...d3
Gigantes do xadrez agressivo 247

As Pretas ficam sem defesa depois de 37... e7 38 g2!, enquanto se 37...fxg4


38 g5+ h8 39 g7+! g8 (ou 39... xg7 40 f8+ e mate no próximo lance) 40
e5+ f8 41 g7+ e8 42 g8+ e vence.
Portanto, Ivanchuk deve entregar o peão em f5. Depois disso ele logo será
forçado a entrar em um final de jogo sem esperança nenhuma a fim de evitar per-
der para um ataque direto. Os lances restantes foram:
38 cxd3 h8 39 gxf5 xd3 40 g2 d5+ 41 f3 e7 42 xd5 xd5 43 c2
c7 44 xc7 xc7 45 f3 g8 46 e4 e8 47 e5 f7 48 g5 c7 49 h6
b5 50 e3 b6 51 a4 c7 52 d6 a6 53 c6 b4+ 54 b7 d5 55 g5 a5 56
c6 b4+ 57 xb6 d3 58 b3 1-0

Morphy enfraquece as defesas das Pretas


Finalmente, percebemos que Morphy sabia tudo sobre o aríete com o peão da
coluna f 92 anos antes de Bronstein sentar-se para enfrentar Najdorf.

Partida 65
P.Morphy – H.Bird
Londres, 1858
Gambito Evans

1 e4 e5 2 f3 c6 3 c4 c5 4 b4 xb4 5 c3 c5 6 d4 exd4 7 cxd4 b6 8 0-0


d6 9 d5 a5 10 e5 xc4 11 a4+ d7 12 xc4
Para os olhos modernos, o lance óbvio aqui seria 12... e7, desenvolvendo a
ala do rei e preparando-se para rocar, ao mesmo tempo em que mantém o centro
bloqueado. Em vez disso, Bird lançou-se em uma aventura tática com:
12...dxe5? 13 xe5 f6
A dama preta ataca o cavalo e possui planos contra a torre em a1. Ao mesmo
tempo, ela ainda pressiona a casa f2 a fim de impedir 14 e1 e abre alas para o
roque grande, que protegeria seu rei. Portanto, Morphy deve agir rapidamente
para desorganizar o jogo das Pretas.
14 xd7 xd7
Depois de 14... xa1 15 xb6 axb6, as Brancas possuem um ataque devas-
tador com 16 xc7, ou elas poderiam simplesmente armar uma armadilha para a
dama com 16 c3 e7 17 b3 e 18 a3.
15 g4+ e8 16 g5! g6
A tentativa de atrapalhar o desenvolvimento das Brancas atacando a1
fracassou, já que se 16... xa1 17 e1+ e7! (depois de 17... f8 18 b4+ e7
19 xe7+ e as Pretas levarão mate na sua primeira fileira). Agora as Brancas de-
248 Neil McDonald

veriam lembrar-se da regra de dinâmica segundo a qual quando se ataca com


uma dama e uma torre, a dama deve liderar à frente. Assim, 18 xe7+? deixaria
um mate pendente em b1, enquanto 18 b4! é decisivo; por exemplo 18... d8
(lembre-se de que as Pretas já moveram seu rei – então elas não podem rocar! –,
e 18...c5 19 dxc6 não oferece nenhuma esperança) 19 xe7+ c8 20 xf7 e as
Pretas não têm uma maneira adequada de enfrentar 21 e8+ com um mate de
primeira fileira.
Depois do lance da partida, Bird está pronto para responder a 17 e1+ f8
18 b4+ com o lance de bloqueio 18... d6.
17 c3!
Mais uma vez, o mestre americano ignora solenemente qualquer tentativa de
destruir seu desenvolvimento por parte da dama preta. Assim, depois de 17...h6, cra-
vando o bispo, ele poderia jogar 18 ae1+ f8 19 b4+ d6 e, agora, não mais a
troca de damas (que diminui o nível de energia), mas sim 20 h4!, que mantém a
iniciativa com uma contracravada ao peão em h6.
17... f6 18 ae1+ f8 19 b4+ g8 20 xf6 xf6 21 e4 g6

Morphy completou o desenvolvimento de suas peças, enquanto Bird tem


problemas com seu rei e em ativar sua torre em h8. Por outro lado, parece que a
iniciativa das Brancas chegou ao final, não há nenhuma combinação possível na
coluna e e não há nenhuma fraqueza na proteção de peões do rei preto. Dados al-
guns lances, Bird poderá consolidar-se e pensar sobre como irá explorar seu peão
extra.
Então nosso gigante fez tudo errado?
22 h1!!
Gigantes do xadrez agressivo 249

Este lance calmo é a maneira certa de adicionar um ímpeto fresquinho no


ataque das Brancas. Ele acaba com a cravada em f2, e depois disso uma arma
intimidadora é adicionada ao arsenal das Brancas: o peão rompedor de linhas
da coluna f. A propósito, vemos aqui porque Morphy preferiu 18 ae1+ para 18
fe1+. Manter a torre em f1 a fim de que ela apoie o peão em f traz mais ener-
gia para a configuração das Brancas do que se ela fosse usada para um ataque
na coluna d ou c.
22...h5
Bird responde com o avanço de um de seus próprios peões, mas na melhor
das hipóteses ele será apoiado pela dama e pela torre em h8, ao passo que o peão
em f das Brancas é apoiado por todas as suas peças.
23 f4 h4 24 f5 h5 25 f4!

Se, agora, 25...h3, as Brancas teriam 26 f6+! gxf6 27 g4+ h7 28 h4,


ganhando a dama preta.
Então a melhor defesa das Pretas é 25... h6!, trazendo sua torre mais para
frente a fim de apoiar sua terceira fileira. Nesse caso, Morphy poderia ter aprovei-
tado o fato de a dama do inimigo estar “afogada” em h5 ampliando a luta com um
segundo aríete de peão na ala da dama: 26 a4! ameaça 27 a5, colocando o bispo
em maus lençóis. Então, 26...a5 27 b5 visa a um terceiro golpe de peão com 28
d6! para enfraquecer o bispo e manter a iniciativa.
Aqui o aríete de peão branco na ala do rei poderia ser considerado uma ope-
ração para manter a dama fora de jogo, enquanto mais rupturas acontecem na ala
da dama e no centro.
250 Neil McDonald

É, de fato, uma pena que Bird tenha cometido um erro agora, pois teria ocor-
rido uma luta bastante interessante depois de 25... h6.
25...f6?
Talvez Bird tenha percebido o perigo em 26 a4 etc., por isso estava com pres-
sa em levar sua dama de volta para o centro via f7. Se for isso, é um exemplo
clássico de lance motivado posicionalmente que fracassou por uma razão tática.
26 xf6+! gxf6 27 g4+ xg4
Se o rei preto fugir, então um xeque de dama em e7 será mate em no máxi-
mo três lances.
28 xg4+ f8 29 e6 h6 30 f4 g7 31 e7+ 1-0

Uma das tragédias para os fãs de Morphy é que seus adversários, muitas
vezes, sucumbiam perante seus poderes táticos, privando-nos da chance de ver
sua habilidade estratégica em sua completa manifestação.
8
Peões Atrasados e
Bispos Indianos

Nos anos de 1920, tanto Lasker quanto Capablanca temiam que os melhores en-
xadristas do mundo aperfeiçoassem o conhecimento sobre abertura e estratégia.
Todas as partidas entre os enxadristas com esse conhecimento iriam acabar ine-
vitavelmente em empates e, como consequência, o xadrez competitivo de alto
nível chegaria ao fim. Esse fenômeno foi chamado de “a morte por empate”.
Deve-se mencionar que Capablanca demonstrou sua preocupação enquan-
to ainda era Campeão Mundial, portanto, não eram resmungos de um homem
derrotado. Além disso, o próprio cubano conseguiu manter-se sem derrotas entre
10 de fevereiro de 1916 e 21 de março de 1924. Portanto, em suas condições era
sensato supor que outros enxadristas da elite desenvolveriam uma invencibilida-
de parecida com o passar do tempo.
Felizmente essa profecia nunca se concretizou, por duas razões: em primei-
ro lugar, há um dinamismo inerente em posições alcançadas até pelas aberturas
mais simétricas ou clássicas, isto é, começando por 1 d4 d5 ou 1 e4 e5. Isso quer
dizer que nem tudo pode ser resolvido somente por lógica ou senso comum. É
preciso calcular variantes e tomar decisões baseando-se em intuição, o que dá
espaço à criatividade humana, a julgamentos ruins e à boa e velha sorte e, por-
tanto, a perdas e ganhos. Como Capa ficou oito anos sem perder? Bem, ele era um
gênio. Sua intuição espantosa guiou-o em posições pouco claras que desafiavam
as ciências exatas. Enxadristas “comuns” da elite não seguiram os seus passos.
Ainda assim, imagine se 150 anos de experimentos tivessem apenas pro-
vado que as únicas boas aberturas para as Pretas eram o Gambito da Dama Re-
cusado e a Ruy Lopez. Neste caso, a profecia da “morte por empate” poderia ter
chegado muito mais próximo de se concretizar. Vale lembrar dos 40 empates do
primeiro match entre Karpov e Kasparov em 1984/85, em que nenhum dos joga-
dores conseguia progredir muito em partidas clássicas começando por 1 d4 d5.
252 Neil McDonald

Na verdade, poderia ser dito que a “morte por empate” triunfou naquele match,
já que foi suspenso após 48 partidas sem um resultado (o escore na época era 5-3
para Karpov com 40 empates em um match “o primeiro a vencer seis partidas”).
Mas o que realmente baniu o fantasma da morte por empate foi a descober-
ta de que aberturas não clássicas poderiam servir para as Pretas. Por essa razão,
devemos agradecer a Nimzowitsch e a outros hipermodernos que provaram ao
mundo do xadrez, nas décadas de 1920 e 1930, que as Pretas não precisam res-
ponder a 1 d4 com 1...d5 e a 1 e4 com 1...e5. Se a simetria for evitada, teremos
uma posição com desequilíbrio que promete uma batalha acirrada.

Introdução ao bispo indiano


Um dos maiores geradores de dinamismo é o bispo indiano, isto é, um bispo fian-
quetado em g7 na abertura. É possível perceber o poder que ele exerce sobre a
diagonal a1-h8 na conclusão de uma partida de Morphy.

Partida 66
T.Barnes – P.Morphy
Londres, 1858
Abertura Ruy Lopez

1 e4 e5 2 f3 c6 3 b5 f6 4 d4 exd4 5 e5 e4 6 0-0 a6 7 a4 c5 8 xc6


dxc6 9 xd4 e7 10 c3 0-0 11 e3 f6 12 exf6 xf6 13 e2 g6 14 h1 d6
15 ad1 h4 16 f4 g4 17 f3 h5 18 xc5 xc5 19 e4 b6 20 eg5 h6
21 c4+ h8 22 f7+ h7 23 7e5 f6 24 xg4 xg4 25 e5 e6 26 e4+
f5 27 xf5+ xf5 28 g4 f6 29 f5 e8

As Pretas estão com a estrutura de peões mais fraca devido a seus peões
dobrados. Portanto, as Brancas deveriam neutralizar qualquer contrajogo possível
Gigantes do xadrez agressivo 253

com 30 de1, por exemplo: 30... d8 (não 30... d4? 31 d7! ganhando a quali-
dade) 31 f3! etc., mantendo a torre preta fora da sétima fileira. Então elas pode-
riam tentar explorar sua maioria de peões na ala do rei (3-2). Se Morphy estivesse
jogando com as Brancas, esse é o curso que a partida poderia ter tomado. Mas
Thomas Wilson Barnes é um enxadrista “romântico”, ele não se interessa por toda
essa bobagem de jogar de maneira preventiva e explorar a maioria de peões no
final da partida. Em vez disso, ele ataca direto o ponto mais fraco e torna-se presa
de um excelente sacrifício de qualidade do americano:
30 g6 e2!
Barnes achou que havia intimidado este lance.
31 d8 xg6
A única maneira de impedir um mate.
32 fxg6+ xg6 33 d7
Ele poderia ter tentado salvar alguns de seus peões da ala da dama, mas o
mestre inglês está muito envolvido em seu ataque.
33... xc2 34 ff7

Agora as Brancas parecem estar próximas da vitória, pois 35 xg7+ parece ser
inevitável. Os peões da ala do rei superam a multidão da ala da dama das Pretas.
34... d4!
Um lance excelente que vira o jogo, já que 35 xd4? permite 35... xf7. O bis-
po defende g7 e pode ser apoiado por ...c6-c5 se for necessário. Vemos que as peças
e os peões pretos estão se ajudando, uma situação saudável em qualquer posição.
35 xc7
Muito óbvio. Se Barnes tivesse percebido o perigo, ele não teria deixado as
Pretas obterem um peão passado na coluna a. Uma abordagem mais segura teria
sido 35 b3, por exemplo: 35... e5 36 fe7 xh2+ 37 g1 e2 38 xc7 etc.
35... xb2 36 xb7 xa2
O leitor que utiliza (ou enfrenta) a Defesa Grünfeld deve estar ciente de
que um peão passado preto na coluna a, apoiado pelo bispo de casas pretas
254 Neil McDonald

em g7, pode ser uma força especialmente potente. Por exemplo, 1 d4 f6 2 c4


g6 3 c3 d5 4 f3 g7 5 cxd5 xd5 6 e4 xc3 7 bxc3 c5 8 b1 0-0 9 e2 cxd4
10 cxd4 a5+ 11 d2 xa2 12 0-0 g4 13 g5 h6 14 e3 c6 15 d5 xf3 16
xf3 e5 17 xb7 e aqui, em vez de defender e7, as Pretas podem jogar 17...a5!,
deixando a cargo do peão passado a função de gerar contrajogo suficiente.
Muitas vezes, vale a pena o sacrifício de qualidade a fim de adquirir o cená-
rio do bispo com o peão passado. Certamente, nem Barnes nem Morphy tinham
ouvido falar de Grünfeld, então eles não puderam usar essa comparação como
uma orientação estratégica. Mas, na maior parte do tempo, Morphy conseguia
completar as colunas de seu conhecimento com cálculo preciso e genial habili-
dade posicional.
37 h4

Barnes percebeu o perigo e decidiu ativar seus próprios peões em busca de


contrajogo.
37...a5 38 h5+ g5!
Teria sido um erro terrível tentar abrigar o rei com 38... h7??, pois permitiria
às Brancas decidirem a partida com ameaças de mate: 39 f8 a4 40 bb8 g6 41
f7+ g7 42 bb7, ganhando o bispo. De qualquer forma, o rei precisa ser ativa-
do na fase final.
39 xg7+
Ele não pode só ficar esperando que seu adversário avance seus peões.
39... h4
Morphy despreza a captura em g7, pois seu rei está planejando um encontro
com seu adversário.
40 ge7?
O jeito para resistir seria 40 gd7 c5 41 g5!, tentando utilizar seus próprios
peões.
Gigantes do xadrez agressivo 255

40...a4! 0-1
Um final repentino e inesperado. Não há nenhuma defesa adequada para
... g3 ou ... h3 e então mate ou em h2 ou em a1.

Os riscos de um jogo sem peões


A partida de Morphy acima demonstra o poder do bispo indiano. Assim, não é de
surpreender que nos anos de 1920 e 1930 os enxadristas hipermodernos fizes-
sem experimentos colocando o bispo em g7 durante a abertura. Eles obtiveram
sucesso principalmente na Defesa Grünfeld, já que não sabiam como lidar com a
configuração da Índia do Rei de maneira apropriada.

Partida 67
A.Alekhine – F.Sämisch
1ª Partida do Match
Berlim, 1921
Abertura Inglesa

1 c4 e5 2 c3 f6 3 g3 g6 4 g2 g7 5 f3 d6 6 d4 exd4?
Sämisch já mostra sua insegurança na abertura ao conceder prematuramen-
te o centro. Em vez disso, ele deveria ter esperado até que as Brancas tivessem
criado um alvo potencial, jogando e2-e4, antes de seguir com esta troca. Portanto,
era necessário que ele reforçasse a posição com 6... bd7.
7 xd4 0-0 8 0-0 bd7 9 b3!
Perceba que Alekhine é perspicaz e não se apressa para jogar 9 e4, pois as
Pretas poderiam atacar o peão com ... c5 e ... e8 etc.
9... c5 10 b2 e8 11 c2
256 Neil McDonald

11... e6?
Sämisch não consegue encontrar um bom plano. Avançando mais de 30
anos, a abordagem Bronstein/Boleslavsky para esta posição seria 11...a5, impe-
dindo a expulsão do cavalo em c5. Então, depois de 12 ad1, que ameaça esta-
belecer um estrangulamento na ala da dama com 13 db5, seguido por d5, as
Pretas deveriam proteger as casas b5 e d5 com 12...c6!!. Então as Pretas atingi-
riam uma posição sólida e forte. Caso as Brancas jogassem 13 e4 (um lance que
elas deveriam segurar por um tempo para antes sondar a coluna d), estaríamos
bem no território dos jogos de Bronstein e Geller que serão analisados mais tarde
neste capítulo.
É difícil para os enxadristas modernos compreenderem quão antiposicio-
nal o lance 12...c6 teria parecido para os enxadristas de 1921. As Brancas jogam
12 ad1, e como as Pretas respondem? Ora, dando para si mesmas um peão
atrasado em d6 com 12...c6. Parece uma decisão ridícula, absurda.
É o contrário de atualmente, quando fica a impressão de que as Pretas foram
longe demais para evitar ...c7-c6 em alguns desses jogos com Defesa Índia do Rei na
época pré-Bronstein/Boleslavsky. Aqui, por exemplo, está a abertura de A.Alekhine-
-E.Spencer tirada de uma exibição simultânea na Grã-Bretanha em 1923: 1 d4 f6 2
c4 d6 3 c3 bd7 4 e4 e5 (“um erro estratégico”, diz Alekhine – bastante enganado,
é claro) 5 f3 g6 6 h3 g7 7 e3 e7 8 c2. O que haveria de ser mais natural que
8...c6, protegendo a casa d5? Mas Spencer não queria para si o peão atrasado em
d6, então jogou 8... f8. Alekhine abriu a coluna c com 9 d5! xd5 10 cxd5 e ficou
com um jogo excelente após 10... d7 11 g5 f6 12 e3 etc.
Voltando para Alekhine-Sämisch...
12 ad1 e7 13 fe1 b8
Gigantes do xadrez agressivo 257

Alekhine está desenvolvendo seu jogo o máximo possível antes de com-


prometer-se com o avanço e4-e5 no centro. Enquanto isso, as peças pretas es-
tão vagando sem objetivo, pois não estão recebendo nenhuma ajuda de seus
peões. É possível comparar essa situação com as partidas mencionadas ante-
riormente entre Bronstein e Zita ou Pachman, em que as Pretas possuem mo-
vimentos de peão disponíveis em ambas as alas do tabuleiro. Uma das regras
do xadrez dinâmico é que uma estrutura de peões imperfeita mas que energiza
suas peças é sempre preferível em comparação a uma que seja organizada e
sem vida.
14 f3
Uma troca de peças é bem vinda para aquele que está com seu jogo constri-
to, então Alekhine recua seu cavalo.
14... f8 15 e4
Finalmente é hora de ações decisivas no centro.
15... d7 16 a3!
258 Neil McDonald

Com duas ameaças: o estratégico 17 e5, explorando a cravada em d6, e o tá-


tico 17 b5 a6 18 xc7! xc7 19 xd6 e7 20 xc7, quando as Brancas ganham
dois peões. Aqui nós vemos que o cavalo preto nunca deveria ter saído de seu
posto em c5.
16... e5 17 xe5 xe5 18 f4! d4+ 19 h1 g7 20 d5

O jogo sem lances de peão de Sämisch provou-se catastrófico. A ameaça é


21 f5, quando, caso o cavalo recue, 22 xc7 ganha um peão, ou melhor ainda 22
xd4 xd4 23 b2 e então 24 f6+ etc. com um ataque decisivo.
20... f6 21 xf6+
A troca do bispo de casas pretas é o prenúncio da morte da posição das
Pretas.
21... xf6 22 b2 e7 23 c3
A ameaça de mate em h8 obriga o mestre alemão a perder um peão.
23...f6 24 xf6 xf6 25 xf6 b5 26 cxb5 xb5 27 e5 dxe5 28 xe5

Mas não 28 c6? b7. O resto é bem fácil para Alekhine.


28... b7 29 xb7 xb7 30 d7 h5 31 ed1 f8 32 f1 e7 33 f5!
Gigantes do xadrez agressivo 259

Um uso elegante do aríete de peão para ganhar um segundo peão. Se


33... xd7 34 fxe6+ ganha uma peça.
33...gxf5 34 xf5+ e8 35 xe7+ xe7 36 xh5 1-0
Não é de surpreender que nos anos de 1930 a Defesa Índia do Rei fosse tão
mal vista. A partir do lance 7, Sämisch faz 16 lances seguidos sem mover os peões
nem uma vez sequer. Com certeza, isso é um sinal de desarmonia em seu campo.
Como Bronstein disse certa vez, “como se pode vencer partidas sem nunca avan-
çar qualquer peão?”.

Entram Bronstein e Boleslavsky


No final da década de 1930, as Defesas Nimzo-Índia e Grünfeld estavam bem esta-
belecidas contra 1 d4. Contra 1 e4 havia a Siciliana, que recentemente começava a
ser experimentada (Capablanca tentou até mesmo a Variante do Dragão, imagine
só!). A Caro-Kann começava a ser vista com mais frequência e Alekhine estava jo-
gando várias Defesas Francesas com as Pretas, assim como emprestando seu nome
para 1 e4 f6. Alekhine enfatizava que não era hipermoderno, mas, na verdade,
qualquer enxadrista da elite daquela época que fosse receptivo a ideias novas e
prósperas não podia evitar tornar-se, pelo menos em parte, um hipermoderno.
Bronstein e seu bom amigo, adversário em jogos e parceiro de treino, Isaac
Boleslavsky (1919-1977), adicionaram uma nova e importante arma ao arsenal
do xadrez dinâmico ao provar, nos anos de 1940, que a Defesa Índia do Rei pode-
ria ser jogada pelas Pretas. Após terem atingido isso, todo o material do xadrez
moderno estava a postos: um jogo vibrante que não corria nenhum perigo de
morte por empate.

Partida 68
F.Zita – D.Bronstein
Match Moscou contra
Praga, 1946
Defesa Índia do Rei

1 c4 e5 2 c3 f6 3 f3 d6 4 d4 bd7!
Bronstein não tem nenhuma intenção de ceder o centro, não até que as
Brancas tenham enfraquecido sua posição com e2-e4.
5 g3 g6 6 g2 g7 7 0-0 0-0
O primeiro passo para um jogo dinâmico é escolher uma abertura de contra-
-ataque. Ajuda se o adversário não tiver ideia de como enfrentá-la.
8 b3 e8 9 b2?
Não é de surpreender que Zita reaja com o plano completamente plausível
de colocar o bispo em b2. Na verdade, este é um erro primário. O bispo deveria
260 Neil McDonald

ser colocado em e3, de onde apoia d4, fortalece o peão em f2 (sim, este peão se
tornará um alvo) e impede a dama preta de ir para a casa b6.
Portanto, as Brancas deveriam jogar 9 e4 c6 10 h3, quando 10... b6? pode
ser enfrentado com 11 e3.
9...c6!!
Uma diferença gritante com relação ao jogo de Sämisch. Bronstein enfra-
quece seus peões sem medo, a fim de aumentar o nível de energia de suas peças.
Além disso, o cavalo branco é mantido fora das casas b5 e d5, o que significa que
não haverá nenhum desastre d5, do tipo sofrido pelas Pretas nos dois jogos de
Alekhine analisados acima.
10 e4 exd4 11 xd4 b6!!

Aqui nós vemos o segundo objetivo de ...c7-c6: abrir o caminho para a


dama preta assumir um posto ativo na ala da dama. Em vez de vagar sem rumo,
podemos dizer que ela está colocada em uma casa “Alekhine” – como vimos no
Capítulo Cinco e em outras partes deste livro, o quarto Campeão Mundial encon-
trava com frequência um local seguro e poderoso para sua dama em sua terceira
fileira.
12 d2 c5 13 fe1 a5! 14 ab1 a4
Iniciando um ataque frontal contra a estrutura de peões na ala da dama das
Brancas. Este é um prelúdio para uma combinação que irá aproveitar a pressão
diagonal exercida pela dama preta e pelo bispo em g7.
15 a1
As Pretas recuperariam seu peão rompendo a ala da dama branca após 15
xa4 xa4 16 bxa4 a6. Mas, como veremos, o bispo vai revelar-se um alvo em
a1.
15...axb3 16 axb3 g4 17 h3
Gigantes do xadrez agressivo 261

17... xa1!!
Um sacrifício de qualidade para retirar a energia da posição das Brancas por
meio da destruição do único rival do bispo indiano.
18 xa1 xf2!!

O jogo ativo em uma das alas seguido de um ataque surpresa na outra é


uma das marcas de Bronstein. As partidas de Morphy não nos mostraram que a
casa f2 das Brancas, junto com a f7 das Pretas, é a mais fraca de todo o tabuleiro?
19 e3
Após 19 xf2 d3 ou 19 xf2 xb3, a posição das Brancas colapsa. Para co-
meçar, o seu cavalo em d4 seria capturado, deixando o cavalo em c3 desprotegido
também, e, enquanto isso, uma torre é atacada em a1 ou e1.
19... xh3+ 20 h2
Com 20 xh3 xh3, as casas pretas das Brancas ficam muito fracas – não
que elas possam se gabar muito de suas casas brancas.
20... f2! 21 f3
Ou 21 xf2 xd4.
21... cxe4 22 f4 g4+ 23 h1 f5!
262 Neil McDonald

Ameaçando armar uma armadilha para a dama com 24... h6. Enquanto
isso, d4 ainda está desprotegida. Este tormento cruel imposto a duas ou mais pe-
ças inimigas era um traço distintivo do estilo de Morphy.

24 xe4 xe4 25 xd6 xd4


O cavalo foi finalmente capturado, deixando as Brancas com muito menos
material e enfrentando ainda um ataque.
26 b8 d8 27 a8 e5 28 a7 b4 29 a2 f8 30 h3 h6 0-1

Uma maneira explosiva para a moderna Índia do Rei entrar em cena.

E quanto ao peão atrasado em d6?


Bronstein saiu são e salvo de sua aventura na ala da dama no jogo acima, mas, se
as Brancas tivessem respondido com cuidado, será que ele teria sofrido devido à
sua fraqueza em d6? Um peão atrasado em uma coluna aberta é, definitivamente,
um defeito estrutural sério. Era esse o pensamento por trás da recusa patológica
de Sämisch de jogar ...c7-c6 no jogo acima.
Gigantes do xadrez agressivo 263

Na verdade, Bronstein e Boleslavsky haviam descoberto através de análise


concreta que as Brancas não podiam se dar ao luxo de focar no peão d6 – tão
grande é a força da iniciativa em potencial das Pretas na ala da dama.
Na próxima partida, um enxadrista excepcional desorganiza a coordena-
ção de suas peças a fim de alcançar o peão atrasado. O Grande Mestre sueco Ulf
Andersson descreveu-a de maneira memorável: “Um duelo entre dois gigantes,
porém, um posicionado sobre solo firme e o outro sobre areia movediça.”

Partida 69
S.Reshevsky – D.Bronstein
Torneio de Candidatos
Zurique, 1953
Defesa Índia do Rei

1 d4 f6 2 c4 g6 3 g3 g7 4 g2 0-0 5 c3 d6 6 f3 bd7 7 0-0 e5 8 e4 e8


9 h3 exd4 10 xd4 c5 11 e1 a5 12 c2
Se Reshevsky soubesse da força do contra-ataque das Pretas, talvez tivesse
jogado 12 b1!. O plano seria organizar as coisas na ala da dama antes de dar início
às operações no centro. A partida poderia seguir com 12...a4 13 b4! axb3 14 axb3
c6 (se as Pretas evitarem esse lance, elas poderão ficar amarradas após 14...h6 15
db5!, quando ...c7-c6 torna-se impossível) 15 b4 e o cavalo preto é recuado.

Eis G.Kasparov contra R.Gerber em uma exibição simultânea em Cannes em


1988. É possível perceber que: a) as Pretas não conseguem um peão forte em a3;
b) elas não arrumam uma casa ativa e segura para sua dama em a5; c) elas não
têm excelentes postos avançados para seus cavalos em b4 e c5. Os peões brancos
da ala da dama estão vivazes e móveis, não são apenas suportes em que as Pretas
podem descansar suas peças.
12...c6!
264 Neil McDonald

Tudo conforme planejado. No lance anterior, o Grande Mestre americano


havia armado uma cilada: 12... fxe4? 13 xe4 xd4 14 g5 d7 (14...f6? perde
imediatamente para 15 xf6!) 15 f6+ xf6 16 xf6 e o desaparecimento do
bispo de casas pretas é lamentável para as Pretas.
13 e3
Reshevsky prepara-se para perseguir o “criminoso” em d6 o mais rápido pos-
sível com o plano de ad1, de2 e xd6. Se as Pretas escolherem defender o
peão com ... c7, um pouco mais de pressão resolverá o problema: d2 seguido
por ed1 e depois xd6.
13... fd7 14 ad1 a4 15 de2?
Reshevsky parece obcecado com a coluna d e continua sem perceber a es-
calada de eventos na ala da dama. Não é tarde demais para evitar que a ala da sua
dama fique inútil com 15 b4!; por exemplo, 15...axb3 16 axb3 a5 17 b1 a6 18
a1 c7 19 d2 dc5 20 eb1 d7 21 b4 como em A.Greenfeld-J.Hjartarson na
Olimpíada de Lucerna em 1982.
15... a5!

Esta atividade toda é muito boa, mas e o peão em d6? Foi abandonado ao seu
destino? Não, pois 16 xd6 se depara com uma combinação “global” que atormen-
ta as peças brancas na ala da dama, no centro e na ala do rei: 16... e5! 17 b3 (para
defender c4) 17...axb3 18 axb3 xh3! 19 xh3 f3+ 20 f1 xe1 21 xe1 xe4 22
d3 xc3! 23 xc3 a1+ 24 d1 a2 com uma enorme iniciativa para as Pretas.
16 f1
Uma casa ruim para o bispo. Na verdade, tendo ido tão longe, Reshevsky
provavelmente deveria ter tentado 16 xd6 de qualquer maneira. Mas, após, 16...
e5, devolveu o peão com 17 dd1! xc4 18 d4!, como jogado por Smyslov. As
Brancas não podem alegrar-se por ter trocado seu peão da coluna c pelo peão em
d6, mas pelo menos se livraram do forte bispo preto de casas pretas.
16... e5 17 d4
O fato de o cavalo ter voltado a d4 mostra que o plano de atacar d6 acabou
em fiasco.
Gigantes do xadrez agressivo 265

17...a3
Como vimos nas partes retiradas de partidas modernas acima, Kasparov e
outros tomavam cuidado para não deixar as Pretas conseguirem um peão em a3.
Aqui ele paralisa a ala da dama de Reshevsky, tornando b4 um ótimo posto avan-
çado para um cavalo preto, e arruína suas chances no final.
18 f4 ed7 19 b3 a6!
Os cavalos pretos tomam conta das casas b4 e c5.
20 f2 dc5 21 e3 b4 22 e2 d7

A ala da dama das Brancas está sob um estrangulamento nas casas pretas.
Se elas não fizerem nada rapidamente, a pressão se espalhará para a ala do rei
após 23... e7 e 24... ae8. Um bom enxadrista sabe que uma posição passiva nor-
malmente se torna perdida, então Reshevsky tenta uma ruptura central.
23 e5!? dxe5 24 fxe5 ad8 25 g4!
Um ótimo lance que abre caminho para o bispo de casas pretas entrar na
briga via h4.
25... e6!
Bronstein percebe o perigo e dá início ao contra-ataque a d4 imediatamente.
26 h4 xd4 27 xd4
266 Neil McDonald

Parece que as Pretas estão prestes a perder a qualidade, mas nosso herói
está com tudo sob controle.
27... c5! 28 de4 h6! 29 h1 e6 30 g5
A força do peão a3 é vista na variante 30 xd8 xd8! 31 f3?! d2 32 e1
xa2.
30... g7 31 f4 f5
O ataque das Brancas está perdendo força, e o peão e5 está muito fraco.
Portanto, elas tentam fazer uma certa confusão:
32 e4 xe4+!
32... xe5? era bastante tentador, já que 33 f6+? xf6 34 xe5 xe5 é
um sacrifício de dama poderoso. Mas Reshevsky havia preparado esta admirável
cilada 33 xf5! gxf5 (ou 33... xf6 34 f6+ xf6 35 xe8+ xe8 36 xe8+ g7
37 gxf6+ e vence) 34 f6+ xf6 35 gxf6!! (ele não quer a dama preta!) 35... xe3
36 g2+ h8 37 g7 mate.
33 fxe4 a6!

Ameaçando paralisar o centro das Brancas com 33... c7 e 34... e6, então
as Brancas têm que pressionar, mesmo que sua posição esteja ficando cada vez
mais fraca.
34 e6 fxe6 35 xe6 f8!
Bronstein mantém suas torres no tabuleiro para impulsionar sua iniciativa.
Só é preciso dar uma espiada nos dois bispos brancos para perceber que as Bran-
cas não conseguirão criar nenhuma possibilidade dinâmica na coluna e.
36 e7 d4 37 3e6 f5
Agora 38 g2 c5 imobilizaria a torre em e6, então Reshevsky não tem ou-
tra escolha a não ser entrar em um final horrível.
38 e8 c5 39 xd8 xe6!
A melhor recaptura, já que as Brancas possuem contrajogo após 39... xd8
40 e8+.
Gigantes do xadrez agressivo 267

40 xf8+ xf8 41 g3
Reshevsky decide entregar de vez o peão em g e deposita suas esperanças
nos bispos de cores opostas. Se, em vez disso, 41 g2 c5 deixa as Brancas em
Zugzwang; por exemplo 42 e2 f4 43 g4 xe2 44 xe2 xh3+ 45 h2 f1+
e mate.
41... xg5 42 xe6 xg3 43 c8+ e7 44 g4
Numa estranha troca de suas funções normais, o rei preto empurra a dama
branca para o canto após 44 xb7+ d8 45 a8+ c7, quando não há mais bons
xeques e o rei preto leva mate; por exemplo 46 g2 e1+ 47 h2 e5 mate.
44... c3 45 g2 b2+ 46 e2+ d6 47 f3 c5!
Bronstein joga o final com habilidade notável, empurrando gradualmente
o rei branco para trás e, então, colocando-o em Zugzwang. É claro que a troca de
damas não ajudaria as Brancas, pois a recaptura cria um peão passado em b2.
48 e4 d4+ 49 f3 f6+ 50 g2 c7 51 f3 b2+ 52 e2 d4 53 f3 h5
54 g2 g5 55 g3 f4+ 56 g2 g4 57 hxg4 hxg4 58 h1 b6 59 g2 c7 60
h1 d6 61 g1 b6 62 g2 c5+ 63 h1 h6+ 64 h2 e3 65 b4 d4! 0-1

Após 66 g2 g3, as Brancas irão esgotar seus lances de peão na ala da dama
e entrarão em Zugzwang. Se dama sair de g2, é mate em g1; se o bispo sair de f1,
ele não mais apoiará h3 e, então, a resposta ... h6+ forçará mate.
Uma batalha épica. Após sua fraca abertura, o Grande Mestre americano jo-
gou com bastante vivacidade, mas não conseguiu superar a melhor coordenação
das peças e peões pretos.

Geller entra em cena


Seguindo o exemplo de Bronstein, Geller tornou-se um grande fã da Defesa Índia
do Rei. Ele adorava a oportunidade que surgia de jogar dinamicamente com as
peças pretas. Como era de se esperar, ele muda de maneira criativa a configura-
ção de suas peças ao colocar sua dama na ala do rei.
268 Neil McDonald

Partida 70
M.Germek – E.Geller
Bled, 1961
Defesa Índia do Rei

1 d4 f6 2 c4 g6 3 g3 g7 4 g2 0-0 5 f3 d6 6 0-0 bd7 7 c2 e5 8 d1 e8


9 e4 c6 10 c3 exd4 11 xd4 e7
As Brancas jogaram um rápido d1. Geller, então, retira sua dama da coluna
perigosa ao mesmo tempo em que adiciona um defensor para d6 e contra-ataca e4.
12 b3 c5 13 f3
Germek protege seu peão e4, mas, por outro lado, suas casas pretas centrais
ficam um tanto enfraquecidas.

13...a5!
Como já vimos, o peão em a não apenas impede que o cavalo seja expulso
por b3-b4, mas, também, prepara-se para bombardear a estrutura na ala da dama
das Brancas.
14 a3?
Já tendo comprometido suas casas pretas com 13 f3, Germek leva seu de-
fensor natural para o canto do tabuleiro. Para piorar a situação, o bispo se tornará
um alvo após ...a5-a4. Uma alternativa lógica seria 14 b2, planejando 15 d2
e 16 ad1 para tentar provar de uma vez por todas que o peão em d6 é fraco. A
propósito, foi dessa maneira que Korchnoi lidou com a posição das Brancas em
uma partida posterior.
14... fd7!
A essa altura, o leitor deve estar completamente ciente de que uma das cha-
ves para se conduzir um jogo dinâmico é encontrar uma casa forte e segura para
a dama. Aqui Geller percebeu que pode aumentar significativamente a pressão
Gigantes do xadrez agressivo 269

sobre a estrutura de peões brancos ao deixar f6 vaga para ela; uma casa “Alekhine”
na terceira fileira.
15 f2
Enquanto a dama preta está prestes a assumir o controle de um posto de
ataque, sua inimiga tomou para si uma função defensiva ao superproteger d4 e
f3. Agora, após 15...a4 16 ce2 e5 17 f4, as Brancas conseguiriam manter a
posição sólida.
15... e5 16 f1
Mantendo os cavalos pretos fora de d3, mas f3 perdeu um de seus defensores.
16... f6!

Uma das características do estilo de Geller é que ele está sempre à procura
de maneiras para combinar pressão frontal contra uma estrutura de peões com
pressão diagonal contra uma peça vulnerável (de preferência um cavalo!). Aqui
sua dama realiza as duas tarefas: ela ataca f3 juntamente com o cavalo em e5 e
ao mesmo tempo torna a situação incômoda para as peças brancas ao longo da
diagonal a1-h8.
17 ac1
Uma vez que uma estrutura de peões perde sua mobilidade, ela tende a
se tornar um alvo. Teremos uma demonstração do poder da dama preta se as
Brancas tentarem se libertar com 17 f4: 17... g4 18 f3 (elas perderiam um
peão após 18 d2 xe4) 18... xd4+! 19 xd4 xd4+ 20 g2 (ainda pior é 20
h1 f2+ 21 g1 d1+ capturando c3, ou aqui 21 g2 h3+ etc.) 20... e3+
21 h1 g4 22 f2 xc3 23 xe3 xa1 e as Pretas vencem “por pontos”.
17...a4!
As peças pretas estão em casas ativas, mas seu ataque não chegará a lugar
algum sem a ajuda de peões. Encontrar uma harmonia dinâmica entre peças e
peões é o ideal no xadrez agressivo. Quando os peões e as peças recusam-se a
trabalhar juntos, a energia se dissipa, até mesmo nas posições mais promissoras.
18 b4
270 Neil McDonald

Agora o bispo em a3 está imobilizado e o peão em c4 fica vulnerável.


18... e6 19 ce2 h5!

Geller está jogando nos dois lados do tabuleiro. Ele pretende enfraquecer
ainda mais a ala do rei das Brancas com uma troca de peões em g3. Avançando
vários lances adiante, a abertura da coluna h permitirá um ataque direto ao rei
branco.
20 xe6 xe6 21 d4
Uma das técnicas do xadrez dinâmico é a defesa indireta de um ponto fraco.
A torre branca finalmente tem o peão d6 à vista, mas não pode capturá-lo, pois f3
ficaria desprotegido.
21...h4 22 e2 hxg3 23 hxg3 ad8 24 g2
Germek parece ter coberto suas fraquezas de peão satisfatoriamente, mas
um terceiro aríete de peão revela todas as deficiências de sua posição.
24...d5! 25 exd5 cxd5

26 xe6
Com 26 c5, veríamos uma troca de vantagens impressionante: o peão fra-
co em c4 desaparece, mas é substituído por um forte posto avançado para o ca-
Gigantes do xadrez agressivo 271

valo preto com 26... c4, que, por sua vez, torna-se um forte peão passado após
27 xc4 dxc4 28 xe6 xe6 etc. É importante observar como uma vantagem
passa para outra; no contexto do xadrez agressivo poderíamos dizer que uma
forma de energia (ataque) é convertida em outra.
É possível perceber, a partir desta variante, que 24...d5 não teria a mesma
energia sem o enfraquecimento prévio de c4 com o aríete de peão ...a5-a4: um
peão branco em b3 teria mantido o cavalo preto fora de c4.
27... xe6 27 cxd5 xd5 28 f4?
As Brancas têm uma posição miserável, com um bispo fora de jogo em a3
e o outro como alvo em e2. Ainda assim, desistir de todas as casas brancas não
é a saída para sua salvação. Elas deveriam tentar 28 xd5 xd5 29 c2, já que
29... g4 ainda não é o suficiente devido a 30 c4!.
28... xd1 29 xd1 c4 30 xc4 xc4 31 d2 c3!
Parece que Geller está jogando para ganhar o peão b4, mas na verdade ele
está preparando um final inesperado na outra ala.
32 c2 e4+ 33 h2 g7!

Eis o plano secreto: se as Brancas capturarem o bispo, levarão mate em dois


lances com 33... h8+.
34 g4 h8+ 0-1
As Brancas perdem a dama após 35 g3 d3+ 36 f3 h3+.
Assim, uma defesa que Alekhine havia rejeitado (por ser insegura) tornou-se
consagrada na lista de aberturas modernas de xadrez. De qualquer forma, não te-
mos o direito de criticar o quarto Campeão Mundial. Uma das maiores qualidades
de Alekhine era sua busca incessante por aperfeiçoamentos na teoria de abertura.
Quando ele tomava nota de suas partidas, frequentemente explicava suas esco-
lhas com frases do tipo “queria testar a recomendação de X” ou “queria confirmar
minha opinião quanto à variante Y”. Sua curiosidade e desejo de compreender
significava que ele estava disposto a testar a maioria das aberturas, exceto aque-
las com as Pretas envolvendo um fianchetto em g7.
272 Neil McDonald

O fato é que Alekhine nasceu muito cedo para apreciar os méritos da Defesa
Índia do Rei. Em torneios, com as Pretas ele sempre jogava para ganhar, a menos
que um empate fosse necessário para alcançar o objetivo esportivo. Isso quer di-
zer que, às vezes, ele se esforçava demais para desequilibrar a posição. Se tives-
se jogado seu xadrez, em uma época posterior, sem dúvida ele teria feito como
Fischer e o jovem Kasparov e tornado a Defesa Índia do Rei fundamental em seu
repertório. É a maneira perfeita de alcançar chances de vitória com as Pretas sem
tomar riscos inaceitáveis. Todos os amantes do xadrez agressivo devem um pouco
de gratidão a Bronstein e a Boleslavsky por terem feito o trabalho pioneiro.

Convivendo com um peão atrasado


A pesquisa de Bronstein e Boleslavsky influenciou além dos limites da Defesa Ín-
dia do Rei. A ideia de que uma fraqueza estrutural ou estática é aceitável, em troca
de jogo ativo, tem relação com aberturas sem o bispo fianquetado em mente. Por
exemplo: hoje em dia ninguém se surpreende se um jogador aceitar um peão
atrasado na Variante Sveshnikov da Defesa Siciliana.

Partida 71
S.Karjakin – V.Topalov
Wijk aan Zee, 2006
Defesa Siciliana

1 e4 c5 2 f3 c6 3 d4 cxd4 4 xd4 f6 5 c3 e5 6 db5 d6 7 g5 a6 8 a3


b5 9 d5 e7 10 xf6 xf6 11 c3 g5 12 c2 0-0 13 a4 bxa4 14 xa4 a5 15
c4 b8 16 a2 h8 17 ce3 xe3 18 xe3 e7 19 b3 f5 20 exf5 xf5 21
d5 b7 22 0-0 c8 23 d3 h4 24 d1 h6 25 g3 f5 26 g4 c5 27 ad2
c8 28 e4 b7
Gigantes do xadrez agressivo 273

As peças brancas estão superprotegendo o cavalo em d5 de um jeito que


faria Nimzowitsch rolar lágrimas de gratidão. Por outro lado, o que Karjakin real-
mente gostaria de fazer é colocar pressão direta com suas torres e dama sobre o
peão atrasado em d6. Uma troca de cavalos abriria caminho para uma possível
ruptura com xd6.
Há muitos obstáculos no meio do caminho para tal plano. Um dos mais im-
portantes é o cavalo branco cravado pelo bispo preto e, se ele mover sua dama
para g4, o bispo seguirá com ... c8! (isso aconteceu no lance 27). Mesmo que a
dama de Karjakin fuja aos olhos do bispo e ele consiga trocar os cavalos, ainda
haverá o perigo de um golpe combinativo contra sua vulnerável casa g2. As Pretas
podem ter um peão atrasado em d6, mas sua dama, torres e bispos estão prontos
para a ação.
É notável quão parecidas são estas considerações dinâmicas em relação
àquelas da configuração Índia do Rei no jogo de Bronstein. Em ambos os casos,
há um cavalo branco em frente a um peão atrasado em d6. Parece uma tarefa
fácil mover o cavalo para o lado e chegar ao peão, no entanto o cavalo não
pode abandonar seu posto sem dar às Pretas um ganho dinâmico em outro
setor do tabuleiro.
29 h3?!
Karjakin não quer se contentar com um empate jogando 29 g4 c8 etc.;
então decide atrair as peças pretas para um ataque na ala do rei. Com isso, ele
espera sair-se melhor com uma ruptura xd6 no centro.
29... h4!
Não é preciso pedir duas vezes para o Grande Mestre búlgaro iniciar um
jogo dinâmico.

30 d3?!
É claro que Karjakin não pretende conseguir dar mate ao rei preto com
31 h7. Ainda assim ele está usando a ameaça para tentar descoordenar peças
pretas. Na verdade, a cada passo de seu plano, as Brancas atrapalham mais a
274 Neil McDonald

coordenação de suas próprias peças. Portanto, teria sido melhor deixar o bispo
em c4.
30... f5!
Traços da partida entre Topalov e Morozevich no Capítulo Quatro, quando
nosso herói repeliu o impetuoso ataque das Brancas com 23... f5! etc.
31 b1?
O jovem Grande Mestre oferece o peão c3 como próximo passo de seu es-
forço em atormentar as peças pretas. Em vez disso, ele deveria ter jogado 31 c4 ou
31 c4, apesar de sua posição já ter se deteriorado.
31... xc3
Topalov mostra que pode capturar o peão com segurança.
32 g4

Agora parece que as Pretas estão com problemas, pois, após 32... g5? 33
xc3 (mas não 33 xh4? xg2+ e 34... xh4) 33... xg4 34 hxg4, Karjakin está
prestes a alcançar seu objetivo de penetrar na coluna d com 35 xd6. Note que
um subsequente d8+ será sempre uma ameaça de mate, pois o bispo branco
em b1 nega a casa h7 ao rei preto. No entanto...
32...h5!!
Esse lance de peão destrói a estratégia do adversário. A dama branca é obri-
gada a recuar para uma casa consideravelmente inferior. Depois disso é a dama
preta que se torna a força de ataque dominante na ala do rei.
Apesar de todas as manobras e ameaças das peças grandes, o que decide a
partida é a energia dada à posição das Pretas ou, poder-se-ia dizer, a energia que
um peão sugou da posição das Brancas.
33 e2 g5 34 f4
Karjakin continua a guerrear e poderia ter até enganado um jogador mais
fraco que Topalov. Ele impede o mate em g2 com seu próprio ataque de peão
sobre a dama inimiga. Na verdade, todas as peças pretas fortes estão en prise!
34... xf4!
Gigantes do xadrez agressivo 275

Isso arruína a posição das Brancas, pois, capturando qualquer uma das tor-
res, segue-se um ataque esmagador ao rei: 35 xc3? f3+ 36 h1 g3 37 gxf3
(ou mate em h2) 37... xf3+ e vence; ou 35 xf4 f3+ 36 f2 xd2 37 xd2
g3+ 38 f1 exf4, quando as Brancas levam mate em dois lances se capturarem o
peão em d6. É possível perceber que, após as Brancas jogarem 35 xc3 ou 35
xf4, a ideia de dar continuidade ao objetivo com xd6, ameaçando dar mate ao
rei preto, é tentadora. Infelizmente, ele nunca teve os lances livres de que preci-
sava. Não é de surpreender que Tartakower descreveu o xadrez como “a tragédia
de um tempo”.
35 h1 xg2 36 xg2
Imagino que, se estiverem em apuro de tempo, as Brancas não pensariam
muito em 36 xc3, que expõe seu rei a um xeque descoberto. Na verdade, o Gran-
de Mestre Rogozenko considera o não xeque 36... h4 como a resposta mais forte:
37 h2 e3 38 xe3 f3 39 xf3 xf3 e as Pretas vencem.
36... g3
De acordo com Rogozenko, 36... h4 ainda é a maneira mais rápida de vencer.
37 xf4 xg2+ 38 xg2 xh3+ 39 g1 g3
276 Neil McDonald

As Brancas têm apenas uma pequeníssima desvantagem, se contarmos o


material no tabuleiro: uma torre e duas peças menores contra uma dama e quatro
peões. Infelizmente para ele, seu cavalo não possui uma cobertura de peões e,
portanto, o avanço do peão preto em h irá lhe custar caro.
40 f2 g8
Seria uma pena ser vítima de um mate em f8.
41 xd6 h4!
Esse peão efetua apenas dois lances, mas demonstra ser um grande herói
pela causa das Pretas.
42 c6 g4
Não era muito tarde para perder com 42...h3 43 c8+. Depois da resposta
das Brancas, Topalov pode forçar uma simplificação.
43 f5

43... xg2+! 44 xg2 xf5 45 cg6 f7 46 6g4 f6 47 h2 f7 48 h3 e4


49 g5 e3 50 xh4
Parece que Karjakin não estava pronto para abandonar até que conseguisse
a revanche pelo peão que arruinou toda a sua esperança.
50...g6 0-1
Após 51 a2, as Pretas poderiam chamar a atenção com 51... f2+! 52 xf2+
exf2 e é promovido.
9
A Psicologia da
Preparação

Nossos cinco gigantes tiveram destinos distintos na busca pelo reconhecimento de


melhor enxadrista do mundo. Morphy nasceu antes mesmo do Campeonato Mun-
dial ser inventado; Alekhine morreu com o título de Campeão Mundial; Bronstein
provou ser do mesmo nível do Campeão Mundial da época, mas nunca ganhou
a mesma honra; Geller derrotou uma porção de Campeões Mundiais em torneios
sem alcançar um match pelo título; Topalov venceu o Campeonato Mundial em um
torneio e, no momento em que escrevo, pode ainda vencê-lo em um match.
Neste capítulo pretendo analisar como a preparação psicológica, incluindo
uma análise profunda do estilo do adversário, tem agido nas tentativas de nossos
cinco enxadristas de atingirem o desempenho ideal.

O match entre Morphy e Harrwitz


Daniel Harrwitz (1823-1884) havia se tornado o enxadrista profissional residente
do Café de la Régence, em Paris, após a morte de Kieseritzky. Ele era, portanto, um
dos mais formidáveis adversários que Morphy teria de enfrentar em sua conquista
da Europa, em 1858. Um match foi organizado: o vencedor seria aquele que pri-
meiro conseguisse sete vitórias.
O prognóstico não era bom para o americano. Em sua partida pré-match
de aquecimento, Harrwitz havia vencido após Morphy sacrificar muito material.
É evidente que Harrwitz não desejava revelar seus planos de abertura em um en-
frentamento amigável, então jogou 1 e4, enquanto que nas partidas oficiais utili-
zou 1 d4. Na primeira destas partidas, Morphy foi surpreendentemente superado
com as Pretas no Gambito da Dama. A posição estática que surgiu com a abertura
não lhe trouxe chances de mostrar sua criatividade posicional e tática. Logo ele foi
forçado para um final desagradável:
278 Neil McDonald

Partida 72
D.Harrwitz – P.Morphy
1ª Partida do Match
Paris, 1858
Gambito da Dama

1 d4 d5 2 c4 e6 3 c3 f6 4 f4 a6 5 e3 c5 6 f3 c6 7 a3 cxd4 8 exd4 dxc4


9 xc4 b5 10 d3 b7 11 0-0 e7 12 e5 0-0 13 e2 d5 14 g3 h8 15
fe1 f6 16 e4 g6 17 xd5 xd5 18 xd5 exd5 19 e5 ad8 20 xc6
xc6 21 ac1 c8 22 d6 g8 23 e5 g7
Aqui Harrwitz centraliza seu rei e aumenta o controle das casas pretas:
24 f4! d7 25 f2 h6 26 e3 xc1 27 xc1 c8 28 c5! xe5 29 fxe5 e6
30 a4?!
Impaciência típica de final de partida do século XIX. Mais correto seria 30
e2, visando a 31 f3 para forçar 31... d8. Então a torre preta estará presa a d5,
deixando a torre branca livre para explorar a ala da dama. E, se após 30 e2 as
Pretas tentarem 30...f6, 31 a4! será ainda mais forte.
30...bxa4 31 xa6

31... b8?
As Pretas poderiam salvar-se com 31... a8! 32 b7 b8 33 c7 g5! seguido
por 34... g6. Se o rei branco dirigir-se para a ala da dama, o rei preto pode contra-
-atacar com ... f5 e ... e4 etc.
32 b5! d8 33 b6 a8 34 d2
A ameaça de intervenção do rei branco feita na ala da dama faz com que
Morphy entregue um peão imediatamente.
Gigantes do xadrez agressivo 279

34... c8 35 xc8 xc8 36 b5 a8 37 xd5 a3 38 bxa3 xa3 39 c5!

De modo que, se 39... a2+ 40 c2. Morphy é vagarosamente dilacerado. Os


lances restantes foram:
39... f8 40 e2 e7 41 d5 d7 42 c6 h5 43 f6 e7 44 d6+ e8 45 e6 fxe6
46 xe6+ f7 47 d7 a8 48 d6 e7 49 xg6 xd7 50 g5 h8 51 f3 e6
52 g3 h4+ 53 g4 h3 54 g3 f6 55 h5 1-0
Apesar de seu impulsivo lance 30, esta foi uma bela exibição posicional de
Harrwitz. Mostra que nem todos os adversários de Morphy eram táticos dedica-
dos. Na segunda partida do match, Morphy estava sedento por revanche. Ele de-
senvolveu uma forte pressão, mas foi perdendo sua força gradualmente (e um
cavalo também!) devido à resistente defesa do adversário.

Partida 73
P.Morphy – D.Harrwitz
2ª Partida do Match
Paris, 1858
Defesa Philidor

1 e4 e5 2 f3 d6 3 d4 exd4 4 xd4 c6 5 b5 d7 6 xc6 xc6 7 g5 f6


8 c3 e7 9 0-0-0 0-0 10 he1 h6 11 h4 e8 12 xe7 xe7 13 e5 xf3
14 gxf3 g5+ 15 b1 dxe5 16 xe5 g2 17 d5 xh2 18 ee1 d6 19 g1
h7 20 e3 f5 21 f4 b6 22 e2 f7 23 c4 f6 24 h5 e7 25 de1 d7
26 a3 d6 27 d4 g8 28 g2 e8 29 c3 f4
280 Neil McDonald

Aqui Morphy errou com:


30 h1?
30 g4! é a melhor chance.
30...g6 31 hg1 d5!
O cavalo foi encurralado.
32 e1 xh5 33 g5 xf3 34 e6 f6 35 e7+ g7 36 xe8 hxg5 37 e1
c6 0-1
O escore: 2-0 para Harrwitz no match, 3-0 no total se você incluir a partida
amistosa.
A essa altura, o americano deve ter parado para refletir sobre a situação.
Como vimos acima, ele havia sido totalmente superado com as Pretas no Gambito
da Dama. Evidentemente a força de Harrwitz estava em conseguir aniquilar o ad-
versário em posições simples e lentas, como 1 d4 d5. Juntamente a isso, a tentativa
de ataque de Morphy havia acabado em fiasco na segunda partida, assim como na
partida de aquecimento. Pode-se até chamar isso de sorte, mas quais outros joga-
dores conseguiram repelir duas vezes consecutivas as investidas de Morphy? Não,
não há dúvidas de que Harrwitz era um bom defensor contra um ataque direto.
Um dos traços característicos do talento de Morphy era a rapidez com que
aprendia com suas experiências. Ele lia seus adversários de maneira bastante pers-
picaz e clara. Então vamos imaginar o que ele deve ter pensando com seus botões
quando retirou-se para seus aposentos em Paris na noite após a segunda partida:
“Com as Pretas, está claro que devo evitar uma estrutura de peões fixa no
centro, como aquela no Gambito da Dama. Não posso deixar Harrwitz ter um pla-
no claro e simples. Ele tem que se envolver em uma batalha complexa na extensão
de todo o tabuleiro, o que significa ameaças simultâneas a seu rei e seus peões.
“Com as Brancas, tenho que desenvolver o centro como costumo fazer. Mas,
uma vez que eu tenha ganho uma vantagem posicional, preciso mirar não só o
rei. A luta deve ser ampliada o quanto for possível, para colocar suas peças em
situações complicadas. Só devo sacrificar no momento em que o resultado for
totalmente claro”.
Gigantes do xadrez agressivo 281

Nas partidas restantes do match, vemos Morphy aplicar uma perfeita estra-
tégia “anti-Harrwitz”. Vejamos o que aconteceu na terceira partida.

Partida 74
D.Harrwitz – P.Morphy
3ª Partida do Match
Paris, 1858
Defesa Holandesa

1 d4 f5!
Então não haverá o “clássico” Gambito da Dama. O que Harrwitz pensa da es-
trutura de peões assimétrica que surge com a Holandesa? Não gosta muito, como
veremos.
2 c4 e6 3 c3
Infelizmente para as Brancas, o fianchetto não era muito conhecido no sécu-
lo XIX, então a resposta, geralmente considerada como melhor na teoria moder-
na, era 3 f3 e 4 g3, ou 3 g3 de imediato, e não poderia fazer parte de sua técnica.
3... f6
Certamente ele estava evitando 3...d5, pois isso daria a seu adversário um
centro de peões mais familiar. Avancemos para a posição-chave, no lance 18:
4 g5 b4 5 b3 c5 6 d5 e5 7 e3 0-0 8 d3 d6 9 ge2 h6 10 xf6 xf6 11 a3
xc3+ 12 xc3 d7 13 0-0 g6 14 b4 b6 15 f3 h5 16 c2 b7 17 a4 f7

Foi esse o momento em que o curso do match virou a favor de Morphy. O


mestre alemão deveria jogar 18 c6! ab8 19 ab1, apenas mantendo a tensão.
Mas Harrwitz precisa de um plano claro, e o melhor que conseguiu arranjar foi
abrir a coluna b de uma vez.
18 xd7? xd7 19 bxc5 bxc5 20 f4 e4 21 ab1?
Ele deveria ter mantido a dama preta longe de a4 com 21 a4!.
21... a6 22 fc1 a4!
282 Neil McDonald

O resultado da estratégia incorreta de Harrwitz é que ele possui dama e torre


presas ao peão c4, enquanto a outra torre não pode fazer nada na coluna b aberta.
23 g3 h4!
As Brancas estão privadas de qualquer contrajogo na ala do rei, então
Morphy pode focar no desenvolvimento da pressão na ala da dama.
24 f1 ab8 25 d2
Mas qual é o lance que mais injeta poder na posição das Pretas?
25... b6!!

Eu também daria dois pontos de exclamação para esse lance se ele tivesse
sido jogado por Topalov contra Kramnik. As Brancas têm que tomar uma deci-
são desagradável: ou concedem o controle da coluna b, ou fazem a troca em b6,
quando as Pretas recebem uma oportunidade de desmembrar a estrutura de pe-
ões brancos no centro.
26 xb6 axb6 27 b3
A troca de damas não ajuda muito. No entanto, se Harrwitz tivesse ficado só
esperando, poderia ter sido atacado com ... a8 e ...b6-b5, quando o peão em a3
se tornaria um alvo para a dama preta.
27... xb3 28 xb3 b5 29 cxb5 xb5 30 a5
A tentativa de contra-atacar d6 é derrotada com a chegada do rei preto.
30... a8 31 b7 a6 32 c3 f8! 33 d8 d7
É negada ao cavalo a fuga por e6, pois 34 e6+ xe6 35 dxe6 e7 não traz
esperanças para as Brancas.
34 b3 e7 35 b8 c4!
As peças de Harrwitz estão em desordem e não conseguem evitar a perda
de alguns peões.
Gigantes do xadrez agressivo 283

36 f2 c3 37 e2 xa3 38 c6+ xc6 39 dxc6 c2 40 d2 c3!


Um toque hábil que garante um destino bem diferente para os peões passa-
dos em c. O resto é simples para Morphy.
41 c1 xc6 42 b3 f6 43 a3 g5 44 g3 hxg3 45 hxg3 gxf4 46 gxf4 g6 47
a5 c5 48 a6 c3 49 xd6+ h5 50 d2 g4 51 g2+ f3 52 g5 c5 53
h5 xe3 54 h4 f3 0-1
O talento de Morphy foi capaz de lhe proporcionar uma compreensão total
da estrutura de peões pouco conhecida, ao passo que Harrwitz não possuía tal
subsídio para recorrer. Assim que ele foi retirado de sua zona de conforto com o
Gambito da Dama, ficou desamparado.
Se o ataque acima, sobre c4, tivesse sido efetuado por Alekhine em circuns-
tâncias parecidas, provavelmente eu o teria classificado como posicional em vez
de xadrez agressivo. O intervalo de mais ou menos 50 anos entre as carreiras des-
ses dois gigantes significa que o russo aprendeu seu xadrez numa época em que
havia modelos de técnicas, incluindo Harrwitz-Morphy, já disponíveis para isso.
Em contrapartida, quando Morphy colocou sua dama em a4 e bispo em a6,
estava sendo guiado por seu talento, sem nenhum modelo anterior para basear
sua técnica. A ideia de entrar neste território desconhecido foi uma decisão toma-
da antes da partida, com objetivo de energizar a disputa, isto é, escapar do centro
do Gambito da Dama. Consequentemente, essa partida envolveu preparação, psi-
cologia e dinamismo, tornando-se uma partida no estilo agressivo.
Já vimos a performance monótona de Morphy em sua primeira partida com
as Brancas contra Harrwitz. No segundo encontro desse tipo, ele produziu uma
das melhores partidas de sua vida.

Partida 75
P.Morphy – D.Harrwitz
4ª Partida do Match
Paris, 1858
Defesa Philidor
284 Neil McDonald

1 e4 e5 2 f3 d6 3 d4 exd4 4 xd4 c6 5 b5
Entregando o par de bispos, mas garantindo que sua dama consiga ficar no
seu posto central forte.
5... d7 6 xc6 xc6 7 g5 f6
Harrwitz varia a partir de 7... f6 o modo como havia jogado na segunda
partida do match (ver acima), mas Morphy o fará pagar pela fraqueza criada em
e6.
8 h4 h6 9 c3 d7 10 0-0 e7 11 ad1 0-0 12 c4+ f7
O simples 12... h8 era mais sólido. No entanto, Harrwitz também está ten-
tando utilizar a psicologia. Em sua primeira partida com as Pretas contra Morphy,
o mestre alemão havia se beneficiado com o ataque um tanto desorganizado do
seu adversário.

E, então, ele espera fazer seu adversário tomar outra medida prematura com
13 e5?, o que aparentemente é bom, já que 14 e6 é uma ameaça e 13...fxe5? perde
a qualidade para 14 xe5. Mas, após 13... g4! 14 xg4 (ou 14 d4 g6 e f3 está
desprotegida) 14... xg4 15 e6, as Brancas não teriam muito para mostrar em sua
iniciativa, além do peão um tanto vulnerável em e6.
Mas Morphy aprendeu que não se deve apressar as coisas quando se está
enfrentando Harrwitz, e decide continuar seu desenvolvimento posicional.
13 d4! g4 14 h3 e5 15 e2 g5?
Um lance verdadeiramente terrível, que é o único indício na partida inteira
de que ela foi jogada séculos atrás. As Pretas desejam fixar seu cavalo na casa
e5, mas ao fazer isso, estarão entregando para o cavalo branco um posto central
ainda mais poderoso em f5. Simultaneamente, ele expõe sua estrutura de peões a
uma possível ruptura com f2-f4, que abre linhas para as torres brancas.
Nenhum mestre moderno escolheria tal lance. Ele sujeitaria seu cavalo a ser
empurrado de e5 com um lance consolidador como 15... e8 e, então, se 16 f4 (possi-
velmente prematuro) 16... g6 tentaria fazer pressão sobre o peão e4 com ... f8 etc.
16 g3 g7 17 f5 g6 18 f4 gxf4 19 xf4 h8 20 h4!
Gigantes do xadrez agressivo 285

Bem a tempo de frustrar as esperanças de um ataque preto pela coluna g,


já que 20... ag8, que parece um lance lógico e forte, permite 21 xh7+! xh7 22
h5+ e mate.
20... f8 21 xe5!
Uma troca inteligente. A natureza semibloqueada da posição favorece os
cavalos brancos, já que não há nenhuma jogada de peão que as Pretas possam
utilizar para reavivar seu par de bispos. Se elas tentassem jogar ...d6-d5, sua posi-
ção logo se desintegraria. Outra vantagem da troca é que a torre branca consegue
a coluna aberta f.
21...fxe5 22 f1 e6
Harrwitz está pronto para responder a 23 h5 com 23... g8, com o tipo de
linha defensiva sólida que esmagou o ataque de Morphy na segunda partida do
match. Mas, como discutimos acima, o americano sempre aprendia rapidamente
com os seus erros. Ele era um grande psicólogo e sabia como conduzir uma partida
por caminhos que eram desagradáveis para seu adversário. Então, em vez de ini-
ciar um ataque rápido, Morphy focou sua atenção para o outro lado do tabuleiro:
23 b5!!
286 Neil McDonald

Uma surpresa desagradável para Harrwitz. Se ele recuar sua dama para d7
para proteger c7, então 24 h5! ameaçando 25 xg6 é forte. Além disso, nin-
guém gosta de mudar de ideia no meio do caminho.
Enquanto isso, se 23... xb5 24 xb5 b6, as Pretas serão privadas do guar-
dião natural de suas casas brancas. O outro bispo em f8 é uma peça defensiva útil
no caso de um grande ataque na ala do rei por parte das Brancas, mas não pode
fazer muito mais, já que está bloqueado por seus peões. Sem dúvida, Morphy te-
ria explorado a ala da dama. Mais cedo ou mais tarde ele teria avançado seus pe-
ões para enfatizar a debilidade do bispo.
23... g8
Harrwitz percebe que pode colocar sua dama em g8, no fim das contas,
e relaxa. Pois, se 24 xc7? c8 25 d5, as Pretas possuiriam a maldosa cilada
25... b5!! que ganha a qualidade, pois as Brancas levariam mate em g2 após 26
xb5?? xg2+ 27 h1 h2+! 28 xh2 xc2+ etc.
24 f2!
Morphy vê a combinação de seu adversário e adiciona um defensor a g2.
Agora as Pretas não possuem uma maneira satisfatória de enfrentar o ataque em
c7, pois 24... xb5 25 xb5 é ainda pior que 23... xb5, pois a dama preta ficaria
menos capaz de ajudar sua ala da dama em g8 do que em e6. Harrwitz decide sa-
crificar o peão em c a fim de ativar sua torre da dama, mas não consegue qualquer
compensação.
24...a6 25 xc7 c8 26 d5

26... xd5
É uma catástrofe posicional para as Pretas caso deixem o cavalo aproveitar
um ótimo posto avançado em d5 ou removam-no pelo preço de seu tão impor-
tante bispo.
27 exd5 c7
Parece possível que, nos cálculos feitos anteriormente, Harrwitz não tenha per-
cebido que 27... xd5 perde para a combinação 28 xh7+! xh7 29 h5+ h6 (ou
Gigantes do xadrez agressivo 287

29... h6 30 xh6 xh6 31 f7+ g8 32 g6+ e mate) 30 e7! e6 31 xg6 e as


Pretas ficam sem defesa, pois 31... xg6 32 f7+ custa-lhes a dama, enquanto as ten-
tativas de consolidação com 31... e8 ou 31... g8 perdem a qualidade para 32 f8+.
28 c4
A partida já está perdida, pois as Pretas têm um peão a menos e estão muito
fracas nas casas brancas, mas o método da execução ainda é bonito de se ver.
28... e7 29 h5 e8 30 c5!!

Fechando com chave de ouro sua conquista posicional e psicológica. Morphy


sabia que não poderia bater Harrwitz com um ataque direto ao seu rei logo na
abertura. Portanto, a luta deveria ocorrer nos dois lados do tabuleiro. Um aríete
de peão na ala da dama que prepara o terreno para uma combinação de mate é a
representação perfeita de sua estratégia vitoriosa.
30... xc5
Ou 30...dxe5 31 xe5+.
31 xh7+! xh7 32 h5+ g8 33 xe7+ g7
33... xe7 34 xg6+ é fácil para as Brancas.
34 f5+ g8 35 xd6! 1-0
288 Neil McDonald

Um belo fim de partida. É claro que, depois de 35... xg2+!?, podemos assu-
mir que Morphy teria capturado g2 com a peça correta...
Raramente ocorre uma mistura tão perfeita de tática e estratégia em uma
mesma partida. É difícil imaginar como os grandes enxadristas modernos como
Topalov ou Kasparov poderiam melhorar os lances de Morphy.
O destino do match havia mudado completamente. Morphy havia ganho
duas partidas seguidas, jogando o melhor xadrez posicional já visto até aquele mo-
mento. Depois disso, nosso gigante adicionou as partidas cinco e seis à sua lista,
empatou a sétima, embora tenha ficado muito perto de uma vitória, e venceu a oi-
tava. Portanto, o placar foi 5-2 com um empate. Apesar de as regras determinarem
que o vencedor seria o primeiro a obter sete vitórias, Harrwitz abandonou o match
pois sabia que não possuía nenhuma resposta para o sublime jogo do americano.

Por que Alekhine derrotou Capablanca


Em 1927, Alekhine finalmente teve a chance de participar de um match do Cam-
peonato Mundial. Apesar de seu jogo brilhante e de seus resultados estupendos,
poucos eram os especialistas que pensavam que ele pudesse destituir o então
Campeão, José Raúl Capablanca (1888-1942). A invencibilidade emanava do
cubano, que havia perdido apenas algumas partidas nos dez anos que antece-
deram essa data. Além disso, Capa recentemente havia ganho o torneio de Nova
Iorque, de 1927, de maneira esmagadora, nada menos que 2½ pontos a mais que
o segundo colocado, Alekhine.
O talento de Capablanca fazia-o jogar com estruturas de peões que seus con-
temporâneos ainda tinham que aprender e dominar. Numa época regida por 1 d4
d4 e 1 e4 e5, eis três exemplos da criatividade posicional do cubano: contra Corzo
(Havana), em 1913, sua abertura com as Pretas foi 1 d4 f6 2 c4 d6 3 c3 bd7 4 e4
e5, e continuou para então ganhar o prêmio de melhor partida; contra Nimzowitsch
(São Petersburgo), em 1914, ele jogou um sacrifício de peão que adiantou em mui-
tas décadas as ideias do Gambito Benko; e contra o próprio Alekhine ele venceu
esmagadoramente jogando com as Pretas com uma estrutura de peões Benoni.
Quando as coisas começaram a dar errado para o cubano, tanto seus admi-
radores quanto seus críticos atribuíram este fenômeno à negligência e à falta de
zelo no tabuleiro. Ele parecia tratar o xadrez como um hobby, e às vezes parecia
um pouco inquieto durante as partidas.
Era difícil imaginar que, em um match do Campeonato Mundial, Capablanca
fosse demonstrar a mesma negligência. Mas Alekhine recebeu motivos para ficar
esperançoso após uma partida que disputaram em Nova Iorque em 1924. Seu gran-
dioso adversário estava precisando desesperadamente de uma vitória, pois estava
atrás de Lasker na disputa pelo primeiro lugar. Capa jogou melhor que Alekhine e
alcançou um final com possibilidades de vitória, mas, depois, efetuou alguns lances
imprecisos e conseguiu apenas um empate. Isso foi uma revelação para Alekhine,
que passou seus pensamentos para seu livro On the road to the World Championship:
Gigantes do xadrez agressivo 289

Eu finalmente detectei uma pequena fraqueza no meu futuro adversário: sua impre-
cisão aumenta quando encontra uma resistência inflexível! É claro que eu já havia
notado Capablanca cometer pequenos erros eventualmente, mas eu não achava
que ele fosse incapaz de se safar do fracasso mesmo esforçando-se ao máximo para
evitá-lo.
Então, imaginemos Alekhine recostando-se no convés do navio para Buenos
Aires em 1927 e escrevinhando no bloco de anotações sua estratégia para o match:
1) Capa joga estruturas incomuns de peões brilhantemente, mas seu reper-
tório de abertura não visa explicitamente a essas posições.
2) Ele se cansa e acaba se descuidando em uma disputa prolongada; mas...
3) Seu talento e sede de batalha surgem quando seu adversário o insulta ao
tentar um ataque direto, e não muito bom, logo na abertura.
Conclusão: Tenho que manter as aberturas o mais estreitas e sólidas pos-
síveis, e aguardar até que meu adversário fique negligente. Não devo acordar o
leão dentro dele!
Em outras palavras, ele tinha que coibir o talento posicional de Capablanca,
e a maneira de fazer isso era jogar aberturas clássicas, as quais Alekhine havia
analisado detalhadamente. Como é possível mostrar seu conhecimento especial
de estruturas de peões, em partidas intermináveis que comecem com o Gambito
da Dama?
A preguiça de Capablanca significava que ele não havia ampliado seu reper-
tório de aberturas para dar chance ao seu talento. Se seu adversário fizesse uma
tentativa interessante de ganhar, ele conseguia explorá-la de maneira brilhante.
Mas ele não possuía a habilidade de instigar uma batalha estrategicamente com-
plexa.
O match foi uma luta longa e difícil, com vários empates sem graça. É difícil
discordar de Golombek quando ele diz que, quando estamos jogando, “tende-se
a desejar que a Defesa Ortodoxa para o Gambito da Dama nunca tivesse sido
inventada”. No entanto, estar preparado para um match longo e enfadonho era
parte essencial na estratégia de Alekhine. Ele também teve que superar uma das
falhas de seu próprio estilo, que era a tendência de pressionar demais com as
peças pretas.
No final, a coibição que Alekhine fez ao talento do adversário e a exploração
de seus pequenos erros mostraram-se triunfantes. Ele venceu o match por 6-3
com 25 empates.
O objetivo de vida de Alekhine era o título mundial, e nós só podemos é
aplaudir a sua conquista. Como resultado, essa é, ainda hoje, considerada uma
das maiores reviravoltas da história do Campeonato Mundial, pois Capablanca es-
tava longe de ser considerado “carta fora do baralho” em 1927.
Como um exemplo da estratégia de Alekhine para o match, e dos erros ne-
gligentes que ela provocou em seu adversário, eis aqui a 21ª partida.
290 Neil McDonald

Partida 76
J.R.Capablanca – A.Alekhine
21ª Partida do Match
Buenos Aires, 1927
Gambito da Dama

1 d4 d5 2 c4 e6 3 c3 f6 4 g5 bd7 5 e3 e7 6 f3 0-0 7 c1 a6 8 a3?


Assim como na partida entre Alekhine e Rubinstein (ver Capítulo Três), as
Brancas tentam se beneficiar atrasando d3. Em vez disso, elas poderiam ter
mantido uma pequena vantagem com 8 cxd5 exd5 9 d3.
8...h6 9 h4 dxc4! 10 xc4 b5 11 e2 b7
Aqui vemos que ...a7-a6 mostrou-se muito mais útil que a2-a3, pois permitiu
que a casa b7 fosse desocupada com ganho de tempo. Já pode-se dizer que as
Pretas possuem uma pequena vantagem, visto que seu bispo de casas brancas
em b7 está melhor colocado que seu inimigo na casa e2.
12 0-0 c5
Graças ao seu melhor tratamento da abertura, Alekhine alcança o lance li-
bertador padrão sem qualquer risco. Na verdade, é Capablanca quem deve ficar
atento às peças pretas ativas.

13 dxc5 xc5 14 d4?!


O primeiro sinal de que Capablanca está preocupado. Ele poderia ter troca-
do as peças com 14 xd8 fxd8 15 fd1, evitando, assim, qualquer perigo. Mas
parece que ele não queria admitir, assim tão cedo, que havia perdido sua pequena
vantagem de abertura.
14... c8 15 b4?
Outro lance descuidado, e desta vez é sério. Ele cria uma debilidade desne-
cessária em c4, e Alekhine irá explorá-la da melhor maneira. Ele deveria ter ofere-
cido a troca de bispos com 15 f3.
Gigantes do xadrez agressivo 291

15... cd7! 16 g3 b6 17 b3 fd5 18 f3 c4!

As Pretas começam a adquirir o controle das casas brancas no centro.


19 e4 c8 20 xc4?
O terceiro lance descuidado, depois do qual o jogo das Brancas entrou em
decadência inevitável. Alekhine realça que Capablanca deveria ter jogado 20
b1! na intenção de libertar seu jogo com a troca 21 d6 ou 21 d6. Então, de-
pois de 20... d8 21 d2! (expulsando a torre do posto avançado) 21... xc1 22
xc1 a8 23 c7, a simplificação adicional manteria a igualdade.
20... xc4 21 c1 a8!
Alekhine acaba com a cravada em c4 e aumenta seu domínio das casas
brancas.
22 c3 c8 23 xd5 xd5 24 xd5 xd5

À primeira vista, a partida parece estar equilibrada, pois há uma estrutura


de peões simétrica, ambos os lados possuem todas suas peças desenvolvidas e
nenhum rei está enfrentando um ataque. Então devemos parar e pensar na natu-
reza da vantagem das Pretas. Ela nos dirá muito sobre o conceito de energia que
é essencial na estratégia do xadrez agressivo.
292 Neil McDonald

Os peões brancos da ala da dama estão em casas pretas, portanto, podem ser
alvos do bispo preto. Já o bispo branco está olhando para o nada, ele não pode nem
atacar os peões pretos nem defender seus próprios peões. O cavalo preto também
é bem superior ao seu par inimigo. Ele é invencível em c4, enquanto o cavalo bran-
co pode ser expulso de seu posto central, como veremos no próximo lance.
A dama e a torre brancas estão presas à defesa dos peões na ala da dama,
pois as peças menores não conseguem realizar esta tarefa. Isto significa que a
dama e a torre pretas têm mais liberdade de ação. Em outras palavras, a superio-
ridade das peças menores pretas confere um poder extra a todas as suas peças.
E não apenas às peças, os peões pretos também foram energizados e isso será a
última gota para Capa.
25 a4
Isso facilita a tarefa de Alekhine. Generalizando, livrar-se de um par de peões
deveria propiciar mais chances de fuga, mas o peão preto em b5 nunca se torna
um alvo, ao passo que o peão branco em b4 está sempre sob pressão do bispo
preto. Portanto, seria melhor ter suportado pacientemente o fraco peão em a3.
25... f6 26 f3 b2!
Alekhine explica que estava esperando o avanço ...e6-e5 de peão, então quis
evitar qualquer perigo deste bispo ser retirado da ala da dama pela resposta e3-e4.
O lance também tem o mérito de forçar a torre branca para uma casa mais passiva.
27 e1
Depois de 27 d1 bxa4! 28 xa4 b6 29 xd5 xa4 30 d1 a3!, as Bran-
cas não têm como salvar seu peão em b devido à debilidade em sua primeira
fileira, pois se 31 b1 xb4 ou 31 d6 d8 com uma cravada fatal.
27... d8 28 axb5 axb5 29 h3 e5!

Assim como na partida entre Alekhine e seu outro rival Lasker (ver Capítulo
Quatro), o avanço de um peão central, a fim de fazer um cavalo recuar, mostra-se
muito forte para uma defesa que já está enfraquecida.
30 b1 e4 31 d4?!
Gigantes do xadrez agressivo 293

Erros táticos aparecem com facilidade em posições ruins. Esse lance e o pró-
ximo poupam sofrimento às Brancas, já que 31 e1 d2! as deixa em um caos
desesperançoso, por exemplo: 32 c2 xc2 33 xc2 d2 34 e1 a3 e a torre
branca será sufocada.
31... xd4 32 d1?! xe3! 0-1
A torre branca é capturada após 33 xd5 xd5 34 fxe3 xe3+.

O match entre Bronstein e Botvinnik


No match do Campeonato Mundial de 1951, David Bronstein não conseguiu exa-
tamente destituir Mikhail Botvinnik (1911-1995), mas chegou bem perto disso. Ele
estava vencendo por um ponto após 22 das 24 partidas estipuladas, mas perdeu
a 23a partida e empatou a 24a, apenas “empatando” a série em 12-12. Um pouco
mais de convicção em suas habilidades posicionais e um pouco menos de medo
da análise de seu adversário nos adiamentos de partidas poderiam muito bem ter
feito de Bronstein o sétimo Campeão Mundial.

Partida 77
M.Botvinnik – D.Bronstein
5ª Partida do Match
Moscou, 1951
Defesa Nimzo-Índia

1 d4 f6 2 c4 e6 3 c3 b4 4 e3 0-0 5 d3 c5 6 f3 b6 7 0-0 b7 8 a4 cxd4


9 a3 e7 10 exd4 c7 11 b4 g4 12 g3 f5 13 c3 a6 14 e1 c6 15 f1 d8
16 f4 d6 17 xd6 xd6 18 g2 f7 19 c5 c7 20 c1 ae8 21 a4 b5 22
c3 f4 23 d5 fxg3 24 fxg3 exd5 25 d4 f6 26 h4 e5 27 xe5 xe5 28
xe5 xe5 29 f5 c4

Botvinnik gostava de jogar de acordo com um modelo estratégico claro. Ele


preparava um sistema de abertura que criasse um peão fraco ou uma casa fraca
294 Neil McDonald

na posição de seu adversário e martelava continuamente este ponto fraco até que
a posição de seu adversário se despedaçasse. Ele venceu muitas partidas técnicas
desta maneira.
No match do Campeonato Mundial, Bronstein fez o máximo que pôde para
evitar o “abraço de urso” posicional de seu adversário. Um método psicológico era
jogar as aberturas do próprio Botvinnik contra ele. Logo na primeira partida em
que seu adversário jogou 1 d4, Bronstein respondeu 1...e6. Ele mostrou que esta-
va disposto a jogar tanto a Francesa, após 2 e4 d5, quanto a Holandesa, após 2 c4
f5. Essas eram as duas defesas preferidas de Botvinnik na época.
O Campeão Mundial acreditava na solidez estratégica de suas defesas quan-
do jogava com as Pretas. Por isso, foi uma tarefa desagradável ter que provar que
elas eram instáveis jogando com as Brancas. O truque funcionou, já que Botvinnik
perdeu nada mais nada menos que quatro vezes com as peças brancas e não pro-
duziu uma partida fácil do tipo “1 d4 e vence”.
No diagrama anterior, Botvinnik conseguiu agarrar seu astuto adversário em
um jogo técnico. Ele poderia ganhar seu peão imediatamente com 30 e7+ e
31 exd5, com uma pequena vantagem devido ao peão isolado em d7. Mas o
“Lógico de Ferro” quis fazer as coisas corretamente. Para começar, a torre deveria
ser colocada em d1, para que, após o peão ser recuperado, ela pudesse atacar d7.
A partida continuou:
30 d1 h8!!

Uma surpresa muito desagradável para as Brancas. Acontece que, depois de ele
tomar em d5, ele ganha a batalha posicional mas perde a partida: 31 xd5? xd5
32 xd5 xd5 33 xd5 g6! 34 d6 e3! e a ameaça de 35... f1 mate ganha a torre.
Enquanto o Campeão Mundial estava pensando em termos gerais sobre fra-
quezas de peões e colunas abertas, Bronstein estava focado em características
táticas específicas da posição.
Botvinnik ainda teve várias chances de se salvar, mas ficou confuso com o
fracasso bizarro de seu plano e logo destrói sua posição. Então pode-se dizer que
Gigantes do xadrez agressivo 295

o lance mais calmo que se pode imaginar em um tabuleiro, ou seja, ... h8, venceu
a partida para as Pretas. Estou certo de que Bronstein teria adorado o paradoxo.
31 e1
31 d3 seria mais seguro.
21... xa3 32 d6?
Botvinnik ainda pensa que está atacando, então coloca seu cavalo na exce-
lente casa d6. Em vez disso, ele deveria ter se contentado em bloquear o peão d5
com 32 d4.
32... c6 33 a1 c2 34 xa6 d4!

Muito mais promissor que o materialista 34... xb4. Sem a torre branca e o
cavalo em d6 para conter o seu avanço, o peão fraco, dobrado e desprezível em d
está cheio de energia. Isso traz para as Brancas problemas que são muito difíceis
de resolver, especialmente com apuro de tempo.
35 cxb5 xg2 36 xg2 g4 37 f5
A melhor chance era 37 e4.
37...d3 38 d6 xf5 39 xd3 ge3+ 0-1
O rei branco receberá mate pela torre em f1 ou h5.

Geller, o matador de Campeões Mundiais


Geller tinha orgulho de seu ótimo histórico contra Campeões Mundiais, e com
razão. Em seu livro The Application of Chess Theory, ele coloca todas as partidas,
exceto uma, em que os venceu (a partida omitida foi contra Tal, 20a rodada em
Curaçao em 1962, que foi arruinada por erros devido à pressão do tempo).
Excluindo-se os empates, o histórico de Geller inclui um placar de 4-1 contra
Botvinnik e 5-3 contra Fischer.
Infelizmente para o Grande Mestre ucraniano, ele nunca conseguiu superar
todos os obstáculos para participar de um match pelo mais alto título. Uma das
barreiras mais difíceis era Boris Spassky, que o derrotou duas vezes em matches
de qualificação.
296 Neil McDonald

Como derrotar Bobby Fischer


Nunca houve um enxadrista perfeito. Talvez a própria ideia seja um absurdo ló-
gico; afinal de contas, ao adaptar o estilo para tornar mais difícil o trabalho do
adversário, torna-se mais difícil vencê-los. Então o que quer que se ganhe em pro-
teção e solidez perde-se a mesma quantia em criatividade e vitalidade.
Na verdade, assim que alguém passa a ter um “estilo”, pode-se ter certeza de
que ele terá fraquezas.
Durante os anos 1969-1972, Bobby Fischer estava muito à frente de qual-
quer resistência que pudessem lhe oferecer. Mas ele também tinha suas fraque-
zas, ou talvez devêssemos chamar de “aspectos menos brilhantes de seu jogo
quando comparados aos de outros excelentes enxadristas”. Ele não brilhava tanto,
especialmente em posições pouco claras e um tanto aleatórias. Eis o que Geller
tinha a dizer sobre isso:
[...]era claro para mim que o ponto vulnerável do Grande Mestre americano eram
posições duvidosas, obscuras, perigosas e irracionais. Quando a partida era dessa na-
tureza, Fischer frequentemente fracassava, mesmo quando em uma posição ganha
(Geller, The Application of Chess Theory).
Jogando com as Pretas e a partir de posições perdidas, Geller conseguiu
vencer duas vezes o Fischer maduro. Em ambos os casos ele jogou uma Variante
Siciliana bastante ardilosa de contra-ataque e, em ambos os casos, Fischer ficou
confuso no momento da vitória.
Uma das duas partidas, Fischer-Geller em Skopje em 1967, aparece como a
Partida 58 no livro My Sixty Memorable Games, de Fischer. Aqui está a outra partida.

Partida 78
R.J.Fischer – E.Geller
Monte Carlo, 1967
Defesa Siciliana

1 e4 c5 2 f3 d6 3 d4 cxd4 4 xd4 f6 5 c3 a6 6 g5 e6 7 f4 b6!?


Sempre é dito em livros que não se deve capturar peões envenenados, mas
Fischer, Geller, Kasparov, Anand e Topalov são alguns dos tolos que ignoram esse
conselho!
8 d2 xb2
É evidente que as Pretas estão se arriscando, mas remover o peão b2 impe-
de as Brancas de atingirem um desenvolvimento de ataque fácil com 9 0-0-0. É,
portanto, a melhor maneira de Geller interromper o rumo lógico da partida.
9 b1 a3 10 f5 c6 11 fxe6 fxe6 12 xc6 bxc6 13 e5 d5?!
Isso é compatível com o plano do Grande Mestre ucraniano de escolher lan-
ces mais arriscados, mas 13...dxe5 seria mais seguro e melhor. Como foi jogado
mais tarde por Kasparov e Anand.
Gigantes do xadrez agressivo 297

14 xd5 cxd5 15 e2?!


Uma investigação profunda sobre Peão Envenenado está além do âmbito
deste livro. Basta dizer que 15 d3!? dxe5 16 0-0 é a abordagem moderna para
essa posição, e que foi utilizada pelo jovem Magnus Carlsen para obter uma vitó-
ria esmagadora em 2004.

15...dxe5 16 0-0 c5+?


É irônico como Geller jogou essa abertura de linha de maneira tão insana,
apenas para perturbar Fischer, e que foi ele mesmo quem se descontrolou primei-
ro. Ele já fez vários lances “loucos” e sente que é hora para alguns lances “sãos” de
desenvolvimento, isto é, fazer o bispo surgir com um xeque e depois colocar a torre
em f8. Mas lances normais não funcionam em posições malucas. Então ele deveria
jogar o estranho mas forte 16... a7!, que mantém a casa c5 livre para que a dama
preta retorne para a defesa. O tempo que ela poderia ter ganho ao dar xeque ao
rei preto a partir de c5 é a diferença entre a vida e a morte em situações como essa.
17 h1 f8 18 c4!
Não somente atacando d5, mas também tornando a casa c2 acessível para
a dama branca.
18... xf1+ 19 xf1 b7
298 Neil McDonald

20 g4?
Apesar de ter pensado por mais de vinte minutos, Fischer não encontra o
lance vencedor e, consequentemente, perde a partida. Não que a linha vencedora
fosse fácil de encontrar, de maneira alguma. Após a partida, houve uma discussão
para descobrir o que poderia ter sido feito. O debate levou uma hora e ocorreu no
salão do torneio. Envolveu Geller, Fischer e outros competidores intrigados que
não conseguiram encontrar uma continuação decisiva.
O gênio americano exclamou com raiva: “Era uma posição esmagadora!”, e
ele estava com a razão. Mas, apesar de Fischer vencer quase todas as vezes com
uma pequeníssima vantagem e um plano claro para aperfeiçoar sua posição, aqui
ele vacila, mesmo com uma grande vantagem, pois não possui nenhuma orienta-
ção para guiá-lo. Essa falta de inspiração em situações como essa era o calcanhar
de Aquiles de Fischer. Deve-se acrescentar que apenas uns poucos enxadristas
possuíam as qualidades necessárias para tirar vantagem disso, e nenhum deles
conseguiu competir com Fischer em seus anos de ouro e obter êxito. Quase sem-
pre eles eram derrotados pela maestria tática e estratégica de Fischer sem conse-
guir criar confusão na posição.
O lance correto era 20 c2!, como foi jogado por Tal alguns meses após esta
partida. Depois de 20...e4, a fim de evitar a invasão da dama branca em h7, o lance
21 g4! torna-se decisivo de repente. A diferença de 20 g4? um lance mais cedo
é que as Pretas não podem utilizar sua dama no centro para repelir o ataque das
Brancas, pois ... d3 daria às Brancas a possibilidade do xeque mortal a4+!.
Fischer não viu esta sutileza e acabou perdendo em 25 lances com as
Brancas.
20...dxc4 21 xe6
Num primeiro relance parece que o ataque das Brancas está prestes a pros-
perar, já que é ameaça de mate em d7.
21... d3!

No entanto, Geller consegue bloquear a coluna d e ameaça um mate em f1.


Como discutimos antes, este contra-ataque da dama preta teria sido impossível se
Gigantes do xadrez agressivo 299

as Brancas tivessem aproveitado a chance de jogar 21 c2. Nesse caso, após 21...
e4 22 g4 d3 23 a4+ forçaria mate.
22 e1 e4!!
Um lance formidável. O bispo impede o ataque da dama em e5 e abre cami-
nho para 23... b8, seguido ou por 24... b1 com uma simplificação vencedora, ou
por 24... b2 com um contra-ataque letal a g2.
23 g4 b8 24 d1
A última esperança das Brancas é um xeque de bispo em a4. Geller impede
isso com uma excelente manobra de rei.
24... d7!
Verifica-se que o local mais seguro para o rei preto é a terceira fileira.
25 f7+ e6 0-1

Após 26 f1 b2 27 g4+ d5, o rei preto se regojiza em d5 enquanto o rei


branco se desespera em h1.

Como derrotar Anatoly Karpov


Mais uma vez, vemos Geller utilizar todas as três facetas do xadrez agressivo: ele
ganha a batalha psicológica no 3o lance, a batalha de preparação no 9o lance e
coroa sua vitória dinâmica de meio-jogo com um fantástico sacrifício de dama.
Como fã da Defesa Francesa, sempre fiquei impressionado com a façanha de
Geller. Imagine só: as Pretas jogam 1...e6, e o que Geller faz? Captura o peão com
xe6!!, mesmo que ele ainda seja defendido pelo peão f7...

Partida 79
E.Geller – A.Karpov
URSS, Moscou, 1976
Defesa Francesa
300 Neil McDonald

1 e4 e6 2 d4 d5 3 c3!
Karpov raramente utiliza a Francesa, portanto devia ter preparado algo es-
pecial para o lance corriqueiro 3 d2 do adversário. Então Geller decidiu mostrar
sua surpresa primeiro. Essa foi uma decisão inteligente, já que o jovem Campeão
Mundial fica claramente desconfortável em uma estrutura de peões pouco fami-
liar.
3... b4 4 e5 d7 5 f3 b6 6 d2 a6 7 xa6 xa6 8 0-0 b8 9 e2!

Abrindo caminho para o plano de c1 e c2-c4, quando a linha de ataque é


aberta contra o peão em c7.
9... e7?
Até aqui, Karpov jogou uma defesa competente, e um tanto sem inspira-
ção, no estilo de Petrosian. Mas, agora, ele coloca o bispo em uma casa em que
bloqueia o cavalo em g8. Como é que o pobre cavalo deve entrar no jogo, perce-
bendo que ... h6 poderá ser sempre respondido com xh6, dobrando os peões
pretos da ala do rei? Enxadristas especialistas na Francesa compreendem que
nesse tipo de cenário pode-se recuar o bispo para f8 (o que é arriscado aqui, pois
as Brancas estão prontas para um rápido c1 e c2-c4) ou efetuar uma troca com
9... xd2, o que parece ser a melhor ideia. Karpov tenta manter seu bispo bom
sem recuá-lo, mas ele quer mais do que a posição está disposta a lhe oferecer.
Como consequência, ele acabará sendo horrivelmente esmagado.
Se o leitor alguma vez parou para imaginar como um enxadrista como
Morphy se sairia em um torneio de xadrez moderno, sem nenhum conhecimento
de desenvolvimento de jogo desde a sua própria época, o jogo de Karpov nesta
partida dá um prognóstico pessimista. Karpov era o atual Campeão Mundial, jo-
vem, dotado de uma compreensão natural excelente de estratégia, resumindo,
estava no seu auge. Mas, quando é forçado para uma estrutura de peões pouco
familiar, sem conhecimento teórico para completar as lacunas de sua compreen-
são, ele fica completamente a esmo. Se Morphy enfrentasse um enxadrista mo-
derno, ele seria confrontado com estruturas de peões e enigmas técnicos que
Gigantes do xadrez agressivo 301

não conseguiria resolver no tabuleiro. O americano era, sem dúvida, um gênio no


xadrez. Mas, se enfrentasse um dos melhores enxadristas modernos, seu talento
seria superado por um celeiro de talentos de outras épocas: as ideias de Steinitz,
Rubinstein, Capablanca, Fischer, Kasparov e muitos outros mostrariam aos seus
oponentes como vencê-lo na abertura e no meio-jogo.
Por outro lado, Morphy possuía uma capacidade fantástica de assimilar as
ideias dos jogadores que enfrentava e de usá-las para aperfeiçoar seu próprio en-
tendimento sobre o jogo. Se Morphy tivesse um ano para estudar a teoria moder-
na, sem dúvida ele surgiria como um dos melhores enxadristas do mundo.
10 c1 b5
Karpov faz o seu melhor para anular o poder da ruptura c2-c4, mas isso não
pode ser impedido para sempre.
11 f4
Com planos de 12 h5. As Pretas ainda não conseguem desenvolver seu
cavalo, pois 11... h6 vai de encontro a 12 h5 f5 13 g4!.
11...h5 12 b3 a3 13 b1 a5 14 c4 c6 15 c5!

Geller demonstra um julgamento excelente. Fechar a ala da dama parece


paradoxal, mas ele está prestes a dar um ultimato a seu adversário: “Se você não
abrir linhas para mim, vou encurralar seu bispo”.
15... b4
Um Campeão Mundial aprende rapidamente com suas experiências. Seis
lances mais cedo, Karpov rejeitou uma troca em d2, mas, agora, está desesperado
para que ela ocorra.
16 c1!
Existem oportunidades que só aparecem uma vez na vida. Agora 17 a3 c3
18 b4 é iminente, quando o bispo é enclausurado em um caixão de peões brancos.
16...a4
As Brancas atingem seu objetivo de abrir linhas, pois Karpov é obrigado a
recuar seu clérigo desafortunado, mesmo que isso lhe custe um peão.
17 d3 a5 18 bxa4 bxa4 19 xa4 a7 20 g5 c7
302 Neil McDonald

21 xb8+!
Genuinamente Geller. Nosso herói venceu a batalha posicional na ala da
dama, mas não pretende buscar a vitória com o materialismo de agarrar-se forte-
mente a seu peão extra. Em vez disso, visa a um ataque direto ao rei inimigo que
está preso no centro.
21... xb8 22 xc6+ f8 23 f4 a7
As Pretas defendem seu bispo novamente para que sua dama fique livre
para desafiar sua rival. Portanto as Brancas têm que agir rapidamente se quiserem
manter sua vantagem.
24 h4! e8 25 xe6!!

O lance mais brilhante que Geller jogou na sua vida. Em suas partidas, fre-
quentemente vemos o enfraquecimento sutil de uma estrutura de peões seguido
de um ataque criativo. Aqui, no entanto, em um lance, temos uma explosão tática
que dizima a estrutura de peões.
Assim, o único papel que a torre em h8 irá desempenhar na partida é o de
vítima dos cavalos brancos atacantes.
25...fxe6
Gigantes do xadrez agressivo 303

Ou, de maneira parecida, 25... xe6 26 xe6+ fxe6 27 g6+ e8 28 xh8.


26 hg6+ xg6
Com uma tristeza profunda, as Pretas devolvem a dama imediatamente,
pois ela seria retirada à força após 26... f7 27 xh8+ f8 28 fg6+.
27 xg6+ e8 28 xh8 a4
Karpov está com poucos peões, mas luta vigorosamente no final. Geller pre-
cisa jogar com cuidado para vencê-lo, mas, mais cedo ou mais tarde, acaba por
colocá-lo na lista de Campeões Mundias que derrotou.

29 d1 e7 30 xe7 xe7 31 g6+ f7 32 f4 xe5 33 dxe5 xf4 34 c1


e8 35 c6 d8 36 c7+ c8 37 g3 a4 38 c6 xa2 39 xe6 g5 40 d6 d2
41 e6 xc7 42 e7 1-0

Aço versus Armadura


O match entre Kramnik e Topalov no Campeonato Mundial de 2006 colocou um
estrategista profundo, da Escola de Botvinnik, contra um enxadrista criativo e
muito bem preparado nos moldes de Bronstein. Nós veremos alguns embates
fascinantes.
Com as Pretas, Kramnik adotou uma tática segura no match: visava ao de-
senvolvimento sensato e sólido, mantendo a atenção para as chances de contra-
-ataque, caso seu adversário pressionasse demais. Entretanto, ficaria satisfeito em
simplificar e empatar.
Na partida seguinte, Topalov conseguiu pegar seu adversário em uma ci-
lada. As Pretas pareciam bem, mas não conseguiam melhorar sua posição nem
forçar nenhuma simplificação. Enquanto isso, lentamente, Topalov conseguiu
montar um ataque utilizando o dinamismo latente em suas peças.
Essa percepção apurada de energia oculta em uma posição é uma das cha-
ves do sucesso do Grande Mestre búlgaro. Ele prepara variantes em que seus
adversários ficam felizes em participar, pois seus programas de computador lhes
dizem que eles estão indo bem. Talvez eles tenham chances de atacar ou ganhem
304 Neil McDonald

vantagem no desenvolvimento ou mais espaço. Mas Topalov percebeu que essa


posição contém uma energia latente que o programa de computador não con-
seguiu detectar, apesar de sua maestria absoluta em tática. O adversário pensa
que está se saindo bem, mas ele não consegue alcançar nada concreto e, então,
a partida vai virando lentamente contra ele. O motivo principal é que seus peões
não contribuem o suficiente para as ações de suas peças.

Partida 80
V.Topalov – V.Kramnik
15ª Partida do Match
Elista, 2006
Defesa Eslava

1 d4 d5 2 c4 c6 3 f3 f6 4 e3 f5 5 c3 e6 6 h4 g6 7 e2 bd7 8 0-0
d6 9 g3
Aqui Kramnik tomou a decisão importante de conceder o centro de peões.
Ele espera que um ...e6-e5, no tempo certo, lhe dê boa atividade com as peças.
Retrospectivamente, podemos concluir que ele deveria ter enfrentado a si-
tuação com, digamos, 9...0-0.
9...dxc4? 10 xc4 b6 11 e2 0-0 12 xg6 hxg6
As Brancas possuem os dois bispos e uma pequena vantagem em espaço,
mas a posição das Pretas parece bastante firme. Topalov, imediatamente, utilizou
sua maioria na ala do rei.
13 e4 e5
Bloqueando o avanço das Brancas e abrindo a coluna d. É de se imaginar que
isso daria uma pausa para o adversário refletir, mas Topalov continua a pressionar.
14 f4!
Gigantes do xadrez agressivo 305

É preciso boa percepção da dinâmica de uma posição para notar que as


Brancas podem conviver com a iniciativa das Pretas na coluna d.
14...exd4 15 xd4 e7
Salvando o bispo do garfo 16 e5 ao ameaçar 16... c5.
16 g2 c5 17 d3 ad8 18 c2
As Pretas ganharam dois tempos ao ameaçar a dama branca. A pergunta é
se elas conseguem fazer alguma coisa com essa explosão de atividade. Do contrá-
rio, as Brancas poderão explorar sua vantagem latente de dois bispos e de peões
móveis na ala do rei. Assim, Kramnik percebe que deve agir na coluna d da forma
mais enérgica que puder. Ele começa com um ataque indireto a e4 que ganha
para seus cavalos a casa d5.
18... d4 19 e5 fd5

Visando a 20... e3+ 21 xe3 xe3, quando o par de bispos brancos desa-
parece e a ameaça de invasão com 22... d2 quer dizer que Topalov tem de con-
cordar com uma troca dupla de torres com 22 ad1 xd1 23 xd1 d8 etc. Essa
simplificação maciça drenaria toda a energia de qualquer avanço possível dos pe-
ões brancos na ala do rei.
20 f3!
Um lance um tanto estranho, mas que serve a seu propósito. Topalov não se
importa em ter de efetuar uma série de lances defensivos se eles mantiverem o
potencial dinâmico de sua posição.
20... xc3
Frustrado na sua tentativa de simplificar, Kramnik muda para o plano B: ele
abre o caminho para suas torres atacarem na coluna d.
21 bxc3 c5 22 d2 d7 23 e1 fd8
A pressão das Pretas na coluna d parece séria. Será que Topalov perdeu o
controle da posição?
24 d3!
306 Neil McDonald

Há um toque de deselegância em o bispo posicionar-se à frente de seu com-


panheiro em d2. Mas, como vimos com 20 f3, as peças brancas estão preparadas
para sacrificar sua dignidade a fim de manter seu inimigo longe.
24... e6
Visando a 24... c4 ou, talvez, até mesmo, ao heroico 24... c4!? em alguns
casos.
25 c1!

Após todos os lances de recuo, Topalov está pronto para atacar com 26 f5!. En-
tão as vantagens que acumulou cuidadosamente (o par de bispos e o centro móvel
de peões) irão demolir os peões pretos na ala do rei e deixarão seu rei sem defesas.
25...f5
Kramnik aproveita a chance oferecia pelo último lance das Brancas e blo-
queia, mesmo que temporariamente, o avanço do peão f4, já que 26 exf6? dei-
xaria e1 pendurado. Ainda assim, essa é uma concessão posicional maciça, pois
o peão preto em f5 pode ser enfraquecido, tanto direta com um g3-g4, na hora
certa, quanto indiretamente com h4-h5 para retirar o apoio do peão de g6.
26 e2
Topalov recusa-se a se apressar. Seu lance de dama impede 26... c4.
26... f8
Temendo o bispo branco de casa branca, Kramnik coloca seu rei em uma
casa preta.
27 d1
Outro lance paciente. O bispo em d3 é superprotegido para que a dama
branca tenha liberdade para agir.
27... e7 28 h4!
Gigantes do xadrez agressivo 307

Finalmente, o Grande Mestre búlgaro começa a utilizar os peões de sua ala


do rei. O plano é irromper com h1 e h4-h5, seguidos pela conquista do peão em
f5. Então nada seguraria o ataque das torres e bispos brancos ao rei preto.
28... d5 29 c2
Agora que a dama preta abandonou e6, Topalov está com menos medo do
... c4, então coloca sua dama em sua casa ideal, de onde ela apoia o ataque do
bispo ao peão f5.
29... c4 30 h1
O ataque das Brancas está prestes a iniciar com 31 h5, mas Kramnik atrasa
a celebração da vitória ao arrastar a torre de volta para a defesa de d1. Deve-se
lembrar que esta era uma partida rápida de desempate, jogada no final do match
Topalov-Kramnik, e, dadas as circunstâncias, não se pode esperar sempre os lan-
ces mais precisos.
30... a3 31 e2 d7 32 d1 b5 33 g4!!
308 Neil McDonald

As peças brancas maiores estão presas à defesa de d3, mas mesmo assim
seus peões têm capacidade de efetuar uma ruptura.
33...fxg4 34 g3
Visando a 35 e6 e7 36 xg4, ou se 35... d6 36 xg4!, quando 36... xd3 37
gxd3 xd3 38 xd3 xd3 39 xg6 ameaça tanto a torre quanto o mate em f7.
34... e7 35 f5! gxf5 36 g5+ e8 37 e6!
Toda a energia latente que foi armazenada nos bispos brancos e nos peões
da ala do rei é agora lançada contra o rei preto.
37... d6 38 xf5! xd1 39 g6+ f8 40 e7+ xe7 41 xe7+ xe7 42 d3
Entregar a dama não salvará as Pretas, pois seu rei ainda está nas mãos do
bispo branco de casas brancas.
42... a1 43 b2 d1 44 e2 a1 45 xg4 xa2+ 46 h3 f6 47 e6 d2 48
g6 2d7 49 f3 b4 50 h5! 1-0

É justo que o único peão branco remanescente na ala do rei dê a última


palavra. As Pretas não têm esperanças contra 51 h6 e então 52 hxg7+ ou 52 h7.
Essa foi uma disputa notável entre o poder de uma iniciativa temporária e a
defesa que contém dinamismo latente. Por que Kramnik perdeu? Porque sozinhas
suas peças não tinham força suficiente para romperem as linhas da defesa branca
na coluna d. Elas não receberam nenhuma ajuda de seus peões, ao contrário de
Topalov, que, assim que conseguiu se fortalecer contra as ameaças do adversário,
mostrou seus trunfos com peões ativos na ala do rei e com seu par de bispos.
10
A Arte da
Surpresa

Uma variante forçada é uma sequência longa de lances na abertura que envolve
uma colisão violenta entre os dois exércitos. Mesmo nos tempos de Morphy, mui-
tas variantes forçadas estavam bem estabelecidas na teoria, embora, principal-
mente, apenas após 1 e4 e5.
Um enxadrista do estilo agressivo gosta do desafio de encontrar novos lan-
ces tanto durante quanto no final de uma variante forçada. É desnecessário dizer
que a expressão “tudo que foi esquecido é novo” aplica-se aqui. A descoberta não
precisa ser necessariamente um bom lance, mas deve impor problemas ao adver-
sário, de forma que terá probabilidades de produzir um resultado melhor do que
o lance habitual.
Em alguns pontos os enxadristas do xadrez agressivo me recordam do
monstro no filme O Planeta Proibido. Essa terrível criatura não pode ser destruída
pois está sendo recriada a cada segundo pelos sonhos maldosos do Dr. Morbius
e fortalecida por uma usina nuclear subterrânea de dimensões inimagináveis. Da
mesma forma, o enxadrista do xadrez agressivo recria seu estilo a cada partida,
sempre um passo à frente dos golpes do seu adversário, e possui seu próprio “la-
boratório” secreto, onde suas inovações nas aberturas são criadas e testadas.
Em seus últimos anos, Bobby Fischer passou a considerar as variantes for-
çadas como uma influência maligna para o xadrez, por isso que ele queria emba-
ralhar as peças no início da partida. O desgosto por aberturas consagradas não é
um fenômeno moderno. Como vimos, após algumas experiências desagradáveis
no match contra Morphy, Anderssen decidiu evitar variantes forçadas com aber-
turas como 1 e4 d5 e 1 e4 c5 com as Pretas (naquela época as Defesas Escandinava
e Siciliana eram bem menos estudadas) e a extrema 1 a3 com as Brancas. O gênio
tático alemão, normalmente, surgia dessas aberturas com posições promissoras,
mas Morphy era ainda melhor que ele no meio-jogo.
310 Neil McDonald

Morphy inova
Eis aqui um exemplo de preparação de abertura que o mestre alemão estava an-
sioso para evitar.

Partida 81
P.Morphy – J.Schulten
Nova Iorque, 1857
Abertura Ruy Lopez

1 e4 e5 2 f3 c6 3 b5 c5 4 c3 ge7 5 0-0 0-0?


As Pretas deveriam recuar seu bispo com 5... b6 para que 6 d4 cxd4 7 cxd4
possa ser respondida por 7...d5, mantendo uma base de peão no centro.
6 d4 exd4 7 cxd4 b6 8 d5 b8 9 d6 cxd6 10 f4!

O próprio Morphy descreveu seu décimo lance como “um aperfeiçoamento


daquele, dados os tratados vigentes do dia”. De acordo com Sergeant, ele referia-
-se a Hanstein-Von der Lasa, no Staunton’s Handbook (Guia de Staunton), no qual
as Brancas efetuavam a captura óbvia de d6.
No entanto, após 10 xd6 as Pretas podem libertar-se com 10... c7 11 d3
d5!, que também as livra do peão fraco em d7. O lance de Morphy não só desen-
volve mas também mantém as peças adversárias bloqueadas.
10... c7?
Inovações na abertura sempre atraíram respostas ruins. As Pretas deveriam
ter jogado o lance libertador 10...d5, apesar de que, após 11 exd5 d6, as Brancas
teriam mais vantagem do que teriam obtido com 10 xd6.
11 c3 a6 12 c4 b5 13 b3 b7 14 xd6 xd6 15 xd6
Schulten conseguiu desenvolver seu bispo de c8, mas seu cavalo permane-
ce tristemente trancado em b8, pois se 15... c6 16 ad1 atacaria novamente o
peão em d7.
15...h6 16 ad1 c8 17 f4 b6 18 e5!
Gigantes do xadrez agressivo 311

Todas as peças pretas menores estão bem longe de seu rei, posicionadas passi-
vamente na coluna b. Então não é de surpreender que o ataque a f7 ganhe material,
não importa como as Pretas joguem, pois, se 18... e8 ou 18... e7, então 19 g6!.
18... f6 19 xf6 gxf6 20 g4 g7 21 xf6!
Uma das características do estilo de Morphy é que ele não apenas deixa as
peças adversárias fora de jogo, ele também as torna alvos. Se, agora, 21... xf6 22
d6+ g7 23 xb6 é sem esperanças para as Pretas.
21... c6 22 e5 a5 23 d3 h8 24 cd5 c4
Ele deveria ter trocado algumas peças em d5. A tentativa de obter contrajo-
go na ala da dama leva a outro peão fraco em c4.
25 xc4 bxc4 26 g3+ f8 27 b6 a7 28 d1
Nessas partidas, que não fazem parte de um match, volta e meia vemos Mor-
phy procurando por um ataque de mate enquanto que um mestre moderno es-
taria contente em vencer lentamente com seus peões extras. O americano sabia
que, ao enfrentar adversários amadores, esta era a maneira mais rápida e, portan-
to, mais eficiente de finalizar a partida. Schulten não iria começar de repente a
defender seu rei como Korchnoi!
28... b5 29 d4 c7?
Ele deveria tentar 29... e7.
30 dg4 1-0
312 Neil McDonald

E aqui temos a prova: Morphy poupou-se do incômodo de um final traba-


lhoso. As Pretas abandonaram já que a ameaça é 31 g8+ (ou até com mais efi-
ciência 32 bd5! e 33 g8+) 31... xg8+ 32 xg8+ e7 33 e8 mate, e se 30... e7
31 bd5+ seria letal.

A surpresa supera a estabilidade


Alekhine esteve preparando sua revanche sobre Euwe por dois anos após ter per-
dido o título mundial para ele em 1935. Eis a sexta partida do match da revanche,
no qual nosso herói tinha uma surpresinha para o holandês no lance seis.

Partida 82
A.Alekhine – M.Euwe
6ª Partida do Match
Países Baixos, 1937
Defesa Eslava

1 d4 d5 2 c4 c6 3 c3 dxc4 4 e4 e5 5 xc4
Na verdade, a confusão do Dr. Euwe deve ter começado aqui. Por que lhe foi
permitido capturar d4? Ele não precisou esperar muito pela resposta.
5...exd4
Após 5... xd4 6 b3 d7 7 g5!, ameaçando 8 d1, temos um ataque re-
manescente de Morphy-Brunswick e Isouard do Capítulo Dois.
6 f3!?
Uma resposta surpreendente. Oito anos (e oito capítulos) mais cedo, Paul
Morphy mostrou para o mundo que podia dar a vantagem de um cavalo para
seus adversários. Alekhine quer fazer o mesmo.

6...b5?
Gigantes do xadrez agressivo 313

Um ano após essa partida, a análise feita por Goncharov mostrou o ca-
minho correto para as Pretas: 6...dxc3 7 xf7+ e7 8 b3 (a única maneira de
manter o ataque) 8...cxb2!! (para ele parece bizarro desenvolver o bispo branco,
mas na verdade ele está sendo impedido de dar um xeque poderoso em g5 e
será um alvo em b2 depois do próximo lance das Pretas) 9 xb2 b6 10 a3+
c5 11 xg8 xg8 12 xc5+? (ou 12 xg8 a5+ 13 d2 xa3 com melhores
chances para as Pretas, apesar de ser a maneira correta de as Brancas jogarem)
12... xc5 13 0-0 (se 13 xg8 c3+ 14 e2 e6 15 xh7 c4+ e as Pretas
vencem) 13... h5!! (outro bom lance; evita 14 ac1 e ajuda a encurralar a dama
branca em h8) 14 xg8 e6 15 h8 c6 com uma vantagem clara para as
Pretas, pois a dama branca está presa.
Então concluímos que o sacrifício de Alekhine não é sólido. Mas, com o reló-
gio correndo, como Euwe poderia ter encontrado um lance como 8...cxb2!!, que é
totalmente contraintuitivo? E como ele poderia saber que cinco lances depois sua
dama deveria ir para h5?
Acredito que as chances de Euwe ter encontrado estes lances “por acaso” são
ínfimas. Mas sempre foi mais provável que desse algo errado, como de fato ocor-
reu na partida. Euwe procura um lance que seu adversário possa ter analisado
com menos cuidado e cria algo bem ruim.
7 xb5!
As Brancas recuperam seu peão, já que se 7...cxb5 8 d5 ganha a torre em
a8. Isso significa que há equilíbrio de material, com as Brancas bem mais desen-
volvidas e as Pretas com o fardo de um peão muito fraco em d4.
7... a6 8 b3!

8... e7
Ou 8... xb5?Ou 9 xf7+ d7 10 xd4! com um ataque vencedor para as
Brancas (mas não 10 xg8? xg8! 11 xg8? b4+ quando perdem sua dama).
9 0-0! xb5 10 xb5 f6
314 Neil McDonald

As Pretas ainda não podem jogar 10...cxb5, pois a torre seria capturada após
11 d5.
11 c4 bd7 12 xd4
Euwe está completamente perdido e poderia muito bem entregar os pontos
aqui. Mas acredito que ele queira chegar a um número respeitável de lances antes
de abandonar a partida. “Campeão Mundial perde em 12 lances” não seria uma
manchete muito boa no café da manhã do dia seguinte, especialmente se tivesse
que enfrentar Alekhine novamente...
12... b8 13 c2 c5 14 f5 e5 15 f4 h5 16 xf7+!

Ganhando um segundo peão e forçando uma simplificação decisiva.


16... xf7 17 xc5 xc5 18 xe5 b5 19 d6 b6 20 b4 d8 21 ad1 c5
22 bxc5 xc5 23 d5 1-0
Como dissemos antes, uma inovação não precisa ser objetivamente sólida.
Se Alekhine atingisse Euwe com dez inovações desse tipo, imagino que ele ga-
nharia sete ou oito, empataria uma ou duas e perderia a outra. Em outras pala-
vras, ele teria um placar mais que satisfatório ao efetuar dez lances interessantes
e complexos, mesmo que “ruins”! Por outro lado, se ele tivesse repetido 6 c4
na próxima vez que jogasse com as Brancas e enfrentasse Euwe, seria sortudo se
conseguisse um empate. Certamente, se um lance é bom, ou pelo menos uma
tentativa decente, pode ser repetido com relativa segurança, mas não terá o mes-
mo efeito que quando jogado pela primeira vez. Deixa de ser uma inovação, mas
ainda é uma adição útil para o nosso conhecimento do jogo.
Alekhine deu uma entrevista de rádio para a BBC em 1938 e citou esta par-
tida como evidência de que sempre há algo novo para se aprender no xadrez, já
que o Dr. Euwe, um grande especialista em aberturas, havia perdido uma posi-
ção em apenas seis lances. A gravação foi conservada e está disponível em sites
da internet como o YouTube. Quando eu ouvi a voz um tanto fina de Alekhine
pela primeira vez, lembrei-me de que seus contemporâneos o descreviam como
um homem nervoso. Só que seu xadrez agressivo e o caminho interessante de
Gigantes do xadrez agressivo 315

sua vida fizeram-me esperar ouvir alguém mais como o Marlon Brando em O
Poderoso Chefão.

Surpreendendo o adversário com uma (antiga) abertura


novinha em folha
Dr. Siegbert Tarrasch (1862-1934) tinha um conhecimento excelente de xadrez
posicional, quiçá o melhor do mundo em seus anos dourados no início de 1890.
No entanto, lhe faltava um pouco de habilidade tática e ele tendia a subestimar a
importância do dinamismo. Lasker havia tirado vantagem destas pequenas defi-
ciências para derrotar Tarrasch no seu match pelo Campeonato Mundial de 1908.
Quando a partida a seguir foi jogada, o mestre alemão já tinha 60 anos. É evi-
dente que Alekhine queria envolvê-lo em uma luta tática, enquanto evitava uma es-
trutura de peões clássica, pois Tarrasch cresceu numa época em que 1 d4 d5 e 1 e4 e5
eram de praxe. Um enxadrista moderno poderia fazer uso da Defesa Índia do Rei, mas
ela era pouco conhecida em 1922 e ainda menos respeitada. Em vez disso, Alekhine
decidiu introduzir no xadrez de primeira classe as ideias do mestre russo Blumenfeld.
É o tipo de abertura “moderna” e de contra-ataque para derrubar Tarrasch.

Partida 83
S.Tarrasch – A.Alekhine
Bad Pistyan, 1922
Contragambito Blumenfeld

1 d4 f6 2 c4 e6 3 f3 c5 4 d5 b5!?
O Contragambito Blumenfeld é um precursor do Gambito Benko: 2 c4 c5
3 d5 b5. Uma diferença-chave no Benko é que, em vez de tentar apoderar-se do
centro com peões, as Pretas contentam-se com o fianchetto em g7 e mantêm uma
posição sólida enquanto exercem pressão a partir dos flancos, por exemplo: 4
axb5 a6 5 bxa6 g6 6 c3 xa6 7 f3 g7 8 g3 d6 etc.
Mesmo hoje em dia, Blumenfeld tem seus Grandes Mestres adeptos, mas ele
provavelmente não é tão sólido. Imagino que Alekhine tenha pensado o mesmo.
Mas vale lembrar que estamos enfrentando tanto o homem quanto o tabuleiro, e
como o bom doutor entende isso tudo?
5 dxe6
Em vez de aceitar o peão, as Brancas poderiam ter oferecido elas mesmas
um peão com 5 g5!?, quando, se 5...bxc4 (5...exd5 6 cxd5 d6 é mais seguro) 6
c3, estão prontas para expandir seu centro com 7 e4. Em outras palavras, os
peões brancos estariam trabalhando mais que os pretos. Na partida, essa situa-
ção é logo invertida.
5...fxe6 6 cxb5 d5
316 Neil McDonald

Ao expulsar o peão branco de c4, as Pretas obtiveram êxito na construção


de um centro de peões amplo. Morphy estaria completamente familiarizado com
a ideia de jogar o Gambito do Rei, em que as Brancas expulsam o peão de e5 com
1 e4 e5 2 f4 exf4, para que após 3 f3 (impedindo 3... h4+) elas estejam prontas
para se apossar do centro com 4 d4.
7 e3?
A escolha de abertura de Alekhine é justificada. Você pode imaginar que
Capablanca teria dado de ombros e feito um fianchetto com 7 g3! sem pensar
muito sobre isso.
Mas Tarrasch aprendeu xadrez numa época em que o fianchetto era raro, e,
então, ao ser surpreendido, sua intuição ou senso comum não iriam lhe dizer para
colocar o bispo em g2.
Eis o que poderia acontecer após 7 g3: 7... d6 8 g2 0-0 9 0-0 bd7 (o peão
b5 é um empecilho para as Pretas, pois impede o natural 9... c6) 10 bd2. Se as
Pretas tentassem expandir com 10...e5?, elas poderiam ser atingidas pelo aríete
de peão 11 e4!. Depois de 11...dxe4? 12 g5, as Brancas irão recuperar seu peão
em e4 tendo destruído o centro das Pretas. Se, em vez disso, 11...d4, o centro das
Pretas congela nas casas pretas, perdendo toda a sua energia expansiva e dei-
xando muitas casas brancas fracas. Então, em vez de 10...e5?, as Pretas deveriam
manter o desenvolvimento com 10... b7, quando o jogo pode continuar com 11
b3 e7 12 b2. Agora 12...e5 ainda enfrenta 13 e4!, enquanto uma tentativa de
atacar com as peças permite às Brancas o avanço de seus próprios peões centrais:
12... g4 13 h3 ge5 14 xe5 xe5 15 f4 f7 16 e4! e os peões brancos tiveram
iniciativa no jogo P.Nikolic-F.Izeta Txabarri, em Oviedo (rápido) em 1993.
Observando-se essas variantes, que acontecem naturalmente a partir da posi-
ção após 7 g3, é fácil compreender porque Blumenfeld foi sucedido pelo Gambito
Benko. Mais tarde, as Pretas também entregam um peão com ...b7-b5 para romper o
centro das Brancas; as Pretas, entretanto, não expõem seus peões centrais ao ataque.
Analisando as variantes dadas anteriormente e comparando-as com o que
aconteceu na partida entre Tarrasch e Alekhine, aprende-se praticamente tudo o
que é preciso saber sobre o uso dinâmico de peões no xadrez. Como vimos no Ca-
Gigantes do xadrez agressivo 317

pítulo Seis, uma partida frequentemente é decidida pela diferença entre a energia
de uma estrutura de peões ativa e de uma inerte.
7... d6 8 c3 0-0 9 e2 b7 10 b3 bd7 11 b2 e7 12 0-0

O bispo em e2 está em uma casa passiva de onde não pode apoiar um


contra-ataque com e3-e4 no centro. Há também um inconveniente sério em as
Brancas evitarem um fianchetto: elas serão privadas do lance g2-g3 de peão que
bloquearia a ação do bispo preto em d6 à casa h2 e protegeria a casa g2 contra
um futuro ataque da dama preta. Certamente, sem o fianchetto, o lance g2-g3
enfraqueceria muitas das casas brancas ao redor do rei branco.
12... ad8 13 c2 e5 14 fe1?
Para o bem ou para o mal, as Brancas devem proteger-se com 14 e4; por exem-
plo: 14...d4 15 c4+ h8 16 d5 criando contrajogo. Uma vez que ele permita o pró-
ximo lance de Alekhine, o centro preto fica intocável, e toda a esperança é perdida.
14...e4
O quarto Campeão Mundial abre a diagonal para seu bispo, vaga a casa e5
para seu cavalo e retira o cavalo branco de f3. Depois disso, as casas f2 e h2 estão
abertas para o ataque.
14...e4 15 d2 e5 16 d1 fg4 17 xg4 xg4 18 f1
318 Neil McDonald

Tarrasch joga de acordo com o modelo defensivo de Steinitz, que requer


que os cavalos sejam posicionados onde não possam ser facilmente atacados pe-
las peças inimigas. Ele consegue cobrir as casas f2 e h2, mas a casa g2 permanece
vulnerável. Ai, se as Brancas tivessem feito um fianchetto!
18... g5!
Alekhine sabe que se deve sempre atacar o ponto mais fraco do campo ini-
migo.
19 h3 h6 20 h1 f5
Um reposicionamento excelente do cavalo. Ele apoia o avanço de peão no
centro ao mesmo tempo em que ameaça 21... h4.
21 h2
Para que 21... h4 possa ser enfrentado com 22 g1, sem enfraquecer sua
frente de peões. Por outro lado, o controle das Brancas sobre a casa g3 é dimi-
nuído, o que permite que as Pretas armem um sacrifício de cavalo ali.
21...d4!

Os peões de Alekhine estão correndo para o centro, tomando para si algumas


das casas vitais para as peças brancas. Enquanto isso, as Brancas têm maioria de
peões (3-1) nas colunas laterais da ala da dama, que é completamente irrelevante.
22 c1
A tomada de d4 permitiria que o bispo em b7 se juntasse ao ataque após
...e4-e3.
22...d3 23 c4+ h8 24 b2 g3+! 25 g1
Se 25 fxg3 xg3 26 f1 xf1+ e 27... h2 mate.
25... d5!
As Pretas poderiam tirar vantagem rapidamente com 25...d2, ganhando a
qualidade, mas Alekhine prefere manter sua iniciativa. Ele está certo, é claro!
26 a4 e2+ 27 h1 f7 28 a6 h5! 29 b6
Se 29 f1 e6!, visando a 30... xh3! 31 gxh3 g1 mate, é completamente
desesperançoso para as Brancas.
29... g3+ 30 g1 axb6 31 xb6 d2 32 f1 xf1
Gigantes do xadrez agressivo 319

Compare essa situação com a do lance 25. Alekhine só aceita a troca agora,
já tendo repelido a dama branca para longe da defesa e efetuado lances úteis de
ataque como ... d5 e ...h7-h5.
33 xf1 e6 34 h1 xh3!
Dando início à investida final.
35 gxh3 f3 36 g3 h4
Agora percebemos o valor de 28...h5. Se o cavalo fugir, seu rei leva mate na
coluna h.
37 f6!? xf6 38 xe4 xh3+ 0-1
Após 39 g1 h2+, as Brancas perdem sua dama, ao passo que, após 39 g2
f3+, elas perdem seu rei.

Seguindo os passos de Morphy

Partida 84
D.Bronstein – E.Rojahn
Olimpíada de Moscou, 1956
Defesa dos Dois Cavalos

1 e4 e5 2 f3 c6 3 c4 f6 4 g5 d5 5 exd5 a5 6 d3 h6 7 f3 e4 8 dxe4!?
Bronstein relata que sempre imaginou como Morphy pretendia responder
a 7...e4. O americano havia jogado esta variante com as Pretas em várias ocasiões,
mas nenhum de seus adversários jamais ousou jogar 7...e4 quando ele jogava
com as Brancas. A resposta comum é 8 e2, mas isso fez Bronstein pensar imedia-
tamente: Morphy havia planejado 8 dxe4, entregando uma peça em troca de um
centro móvel de peões?
Bronstein iria enfrentar o mestre norueguês Rojahn na Olimpíada de 1956,
em Moscou, e decidiu testar 8 dxe4 contra ele. Mas, antes de tudo, cito suas pró-
prias palavras: “Eu tenho permissão dos meus colegas de time”. Gostaria que ten-
tássemos imaginar Kasparov, Anand ou Topalov tendo que pedir permissão para
seus colegas de Olimpíada para efetuar um sacrifício. Suponha que isso mostra o
quão cuidadoso um enxadrista soviético dos anos de 1950 deveria ser, guardando
sua reputação contra qualquer acusação de que ele não estivesse levando a sério
a tarefa de representar seu país.
De qualquer forma, Bronstein conseguiu permissão e este foi o resultado:
8... xc4 9 d4 b6?
Uma recuada óbvia, mas 9... d6! parece melhor, apesar de parecer convidar
um garfo de peão. No entanto, as Brancas não desejam ver seu centro dissolvido
após 10 e5? f5, quando tanto sua dama quanto d5 ficam pendurados.
Para que seu sacrifício funcione, Bronstein precisa ampliar e manter seus
peões centrais como uma cunha, até que tenha trazido todas suas peças para
320 Neil McDonald

apoiá-los. Isso é algo que ele não pode fazer após 9... d6, pois a resposta natural
10 c3 tira-lhe a chance de jogar c2-c4. Assim, efetuando um ataque planejado
a e4, Rojahn poderia ter negado ao adversário o tempo de que ele precisava para
fazer seu plano funcionar.
Por outro lado, não é de surpreender que o norueguês tenha jogado o lance
natural 9... b6: ele achava que Bronstein só havia cometido um erro e pendurado
uma peça com 8 dxe4. Isso trouxe uma vantagem psicológica gigantesca para nos-
so herói, pois Rojahn não estava procurando sutilezas como 9... d6; ele estava
esperando ganhar a partida com alguns lances diretos de desenvolvimento.
10 c4!
Bronstein aproveita a chance de aumentar o tamanho e o poder de seu centro.
10...c5?
Não foi uma boa decisão, pois as Pretas não terão mais como desafiar o cen-
tro das Brancas com seus peões. Em vez disso, 10...c6 tem sido recomendado.
11 d3

Agora Bronstein pode desenvolver todas as suas peças e usá-las como rolo
compressor no centro. Rojahn ainda tem seu cavalo extra, mas suas peças não
receberão nenhum auxílio de seus peões. Os peões pretos da ala da dama con-
tinuam passivos até o final da partida, enquanto os da ala do rei só conseguem
efetuar o lance 27...f6, que concede peões passados ao adversário.
11... g4 12 bd2 e7 13 0-0 0-0?
Como seu bispo acabará paralisado em h7, as Pretas deveriam ter aproveita-
do a chance de trocá-lo com 13... xf3.
14 e5 h5 15 b3! bd7 16 b2
O jogo flui naturalmente: o bispo chega em b2 bem a tempo de apoiar o
cavalo.
16... xe5 17 xe5 d7 18 c3 f6 19 ae1 xc3 20 xc3
A troca de algumas peças não ajudou as Pretas, pois, agora, há menos defen-
sores que podem ser chamados para entregar suas vidas a fim de arruinar o poder
dos peões brancos. Como vimos acima, a peça de que Rojahn realmente queria se
livrar ainda permanece em h5.
Gigantes do xadrez agressivo 321

20... f6 21 e5 f5 22 f4

Os peões brancos são agora magníficos.


22... g6 23 e4 ab8 24 f3 h7 25 g4!
Ampliando ainda mais a frente de peões. A pressão implacável exercida so-
bre as peças pretas é bem no estilo de Morphy. As peças brancas estão todas po-
sicionadas confortavelmente, próximas ao centro de peões, enquanto as peças
pretas não têm onde se acomodar e estão sendo continuamente cutucadas.
25... g6 26 f5 b6 27 g3 f6
Rojahn está desesperado. Ele ganha a casa e5 para seu cavalo, mas pelo pre-
ço de retirar qualquer limitação imposta aos peões centrais brancos.
28 e6 e5 29 h4!
Ainda mais peões juntam-se ao ataque.
29... h8 30 g5 bc8 31 h1 d8 32 g6 xg6 33 fxg6 b5 34 d6 b6 35 d7
xd7 36 exd7 cd8 37 xf6 c6+ 38 g2 1-0
O avanço dos peões brancos faz-me lembrar de uma legião romana utili-
zando seus escudos não apenas como armas de defesa, mas também como uma
arma para esmagar o inimigo enquanto adentra suas linhas.

Uma novidade que transforma uma compressão posicional em


uma luta de xadrez agressivo
Pode parecer surpreendente que Geller, que estava sempre em busca de atividade
com as peças pretas, fosse um grande fã do sólido Gambito da Dama. Na verdade,
adequa-se muito bem a seu estilo. No início da partida, ele sempre procurava ma-
neiras de enfraquecer a estrutura de peões do adversário e gostava de fazer isso a
partir de uma base segura. Além disso, Geller adorava utilizar um peão como um
aríete caso sentisse que seu adversário estivesse transgredindo as “leis” da boa es-
tratégia. O Gambito da Dama proporciona às Pretas a chance de usar seus “peões
desprotegidos” dessa maneira, como ilustra a partida a seguir contra Timman.
Mas, antes de tudo, observamos esta partida retirada do match mais famoso
da história do xadrez:
322 Neil McDonald

Partida 85
R.Fischer – B.Spassky
6ª Partida do Match,
Reykjavik, 1972
Gambito da Dama

1 c4 e6 2 f3 d5 3 d4 f6 4 c3 e7 5 g5 0-0 6 e3 h6 7 h4 b6 8 cxd5 xd5


9 xe7 xe7 10 xd5 exd5 11 c1 e6 12 a4 c5 13 a3 c8 14 b5 a6 15
dxc5 bxc5 16 0-0 a7 17 e2 d7 18 d4 f8 19 xe6 fxe6 20 e4 d4 21 f4 e7
22 e5 b8 23 c4 h8 24 h3 f8 25 b3 a5

26 f5 exf5 27 xf5 h7 28 cf1 d8 29 g3 e7 30 h4 bb7 31 e6 bc7 32


e5 e8 33 a4 d8 34 1f2 e8 35 2f3 d8 36 d3 e8 37 e4 f6 38
xf6 gxf6 39 xf6 g8 40 c4 h8 41 f4 1-0
As Pretas foram totalmente esmagadas no estilo posicional. Seus peões em
c5 e d4 tornaram-se dois tocos mortos de madeira, sem nenhuma energia expan-
siva. Enquanto isso, Fischer pôde utilizar seus peões móveis da ala do rei para ir-
romper a posição das Pretas com 26 f5.
Fischer estava jogando o melhor xadrez visto na face da terra entre os anos
de 1970 e 1972, apesar de Spassky não ter apresentado muita resistência na par-
tida acima. Ele simplesmente deixou toda a energia do centro preto dissipar-se.
Agora, vejamos como, com a mesma variante da abertura, Geller não apenas
manteve o dinamismo da posição das Pretas, como também utilizou sua energia
para destruir a posição das Brancas.
Todas as três facetas do xadrez agressivo são mostradas. Primeiramente,
há a preparação: Geller descobriu um aperfeiçoamento excelente na abertura
para as Pretas. Em segundo lugar, há a psicologia: o jovem Timman ficou des-
lumbrado com a façanha que Fischer realizou, sem muito esforço, na partida
acima, e não crê que a abertura do americano possa conter qualquer falha. E
Gigantes do xadrez agressivo 323

em terceiro lugar: há o dinamismo. O Gambito da Dama revela uma energia


latente sensacional.

Partida 86
J.Timman – E.Geller
Hilversum, 1973
Gambito da Dama

1 d4 d5 2 c4 e6 3 c3 e7 4 f3 f6 5 g5 0-0 6 e3 h6 7 h4 b6 8 cxd5 xd5


9 xe7 xe7 10 xd5 exd5 11 c1 e6 12 a4 c5 13 a3 c8 14 b5
Até agora, tudo no estilo de Fischer. Afinal de contas, que razões o holandês
poderia ter para não seguir os passos desse grande homem? A retrospectiva é
mais poderosa que o talento, então, o xadrez moderno prefere 14 e2 aqui.
14... b7!

Este é o aperfeiçoamento de Geller. Há uma ameaça posicional de 15...c4,


impedindo o recuo do bispo branco, depois do qual ele pode ser utilizado como
um alvo para mobilizar os peões pretos na ala da dama com 16...a6 17 a4 b5.
15 dxc5 bxc5 16 xc5 xc5 17 xc5 a6
O objetivo do sacrifício de peão. A dama branca não pode continuar defen-
dendo o bispo e, após a captura em a6, seu rei fica preso no centro.
18 xa6 xa6 19 a3
Tirando sua dama do caminho de 19... c8, com ganho de tempo.
19... c4 20 d2
Agora, após o óbvio 20... c8, as Brancas teriam a oportunidade de consolidar
com 21 d4, impedindo a dama preta de alcançar a casa c2. Timman teria uma po-
sição completamente ganha: um peão extra, domínio das casas pretas e um rei se-
guro. Podemos dizer que toda a energia teria sido drenada da posição das Pretas.
É instrutivo ver como Geller mantém seu dinamismo essencial.
20... g4! 21 g1 d4!
324 Neil McDonald

O segundo sacrifício de peão evita o fechamento da posição com d4.


22 xd4 h4!
Um ataque à estrutura de peões inimiga é uma característica-chave do es-
tilo de Geller. Ele induz o adversário a entregar o peão f2, já que 23 f1 permite
23... c4, enquanto, após 23 e1, tanto 23... xh2 quanto 23... c8 deixam as Bran-
cas pensando em como irão tirar seu rei do centro.
23 e1 xf2+ 24 e2 f1
Agora o bispo preto ameaça atacar em duas direções: 25... c4 ou 25... g4.
Portanto, ele deve ser eliminado, mesmo que o desaparecimento do cavalo branco
deixe seu rei terrivelmente exposto.
25 xe6 fxe6 26 d6 h8 27 e4 c8 28 e3 f8 29 d2 e5! 30 xe5

Um computador poderá dizer que esse é o erro que perde a partida, mas, na
verdade, as Pretas já estão sem esperanças há muito tempo. É quase impossível
defender-se com 100% de precisão quando seu rei está bailando no centro. Se
cada lance que se tiver que efetuar for um lance único, mais cedo ou mais tarde
haverá um deslize fatal. Por essa razão, é mais fácil atacar que defender.
30... e1+ 31 e2 g1+ 32 d3 d8+ 33 c3 d1 34 b5 d4+ 35 c2
Gigantes do xadrez agressivo 325

E agora? Vale lembrar que as peças que agem sozinhas não conseguem des-
truir uma defesa. Em algum ponto, o auxílio de um peão é sempre necessário!
35...a6!
Agora a dama branca não pode ficar defendendo a sua torre e a casa c5.
36 xa6 c5+ 0-1
É mate com 37 b1 d1 ou 37 b3 b8+ 38 a4 b4.

Preparação no século XXI


Hoje em dia, enxadristas como Kramnik e Aronian, frequentemente mas não sem-
pre, tentam evitar variantes forçadas. Eles contentam-se com um desenvolvimen-
to contido de suas peças e com chances de vencer seu adversário por meio de
manobras melhores que as dele. Não há nada de errado com essa abordagem
que, frequentemente, leva a um xadrez belo e criativo.
Para um jogador do xadrez agressivo, a necessidade de encontrar lances
novos e interessantes é mais importante que nunca. Numa era de informações
instantâneas, os rivais de Topalov ficam sabendo de uma nova ideia de abertura
que ele tenha inventado apenas algumas horas depois de ele a ter utilizado no
tabuleiro. Na verdade, eles podem começar a se preparar para enfrentar essa ideia
no segundo em que Topalov mover sua peça, caso eles estejam assistindo à parti-
da ao vivo por uma transmissão online!
Por essa razão, a inovação só pode ser boa para uma partida. É tão extra-
ordinariamente difícil alcançar uma vitória em um torneio mundial que Topalov
contenta-se com um precioso ponto em troca de seus trabalhos analíticos.
Na partida seguinte, o Grande Mestre búlgaro aplica as três facetas do xadrez
agressivo: preparação, psicologia e dinamismo. Ele estava enfrentando seu colega
e treinador há bastante tempo, o búlgaro Ivan Cheparinov, um enxadrista muito
forte e criativo. Como um “confidente”, Cheparinov não apenas conhecia todos os
planos secretos de abertura de Topalov, ele havia, inclusive, sugerido muitos deles!
É interessante observar como nosso herói superou essa situação estranha.

Partida 87
V.Topalov – I.Cheparinov
Sófia, 2008
Defesa Grünfeld

1 d4 f6 2 c4 g6 3 c3 d5 4 cxd5 xd5 5 d2
O primeiro sinal de que Topalov deseja evitar uma batalha teórica contra seu
jovem treinador.
5... b6 6 f3 g7 7 e3
Já que o cavalo preto foi para b6, as Brancas podem ativar seu bispo com 7
f4 ou 7 c1 0-0 8 g5. Em vez disso, ele o prende atrás da estrutura de peões
326 Neil McDonald

com um lance que parece muito calmo (para ter chamado tanta atenção dos teó-
ricos), e é exatamente por isso que Topalov o escolheu.
7...0-0 8 c1

Devemos nos lembrar de que, apesar de ser um analista brilhante,


Cheparinov tinha apenas 21 anos de idade. Ele não havia jogado partidas o su-
ficiente para desenvolver completamente sua consciência posicional, como fica
claro no próximo lance.
8... 8d7?
Esperando igualar após 9 e2 e5, mas ele dá de cara com uma surpresa desa-
gradável. Como veremos, o cavalo está mal posicionado em d7. O correto seria 8...
c6, quando, após 9 b5 d7, as Pretas poderiam preparar ...e7-e5 com jogo razoável.
A estratégia de abertura de Topalov funcionou perfeitamente. Se ele tivesse
jogado numa longa linha teórica, seu adversário iria passo a passo com ele. Ao di-
vergir de uma linha teórica principal logo no início, ele deu ao adversário a chance
de cometer um erro estratégico.
9 a4!
Ameaçando ganhar uma peça com 10 a5 e também provocando a resposta
das Pretas. É claro que, se as Pretas tivessem jogado 8... c6, este lance seria inútil.
9...a5
Essa pode não parecer uma grande concessão, mas, como veremos, Topalov
planeja mirar tanto no peão em a5 quanto no cavalo em b6. O fato de as Pretas
não poderem mais jogar ...a7-a6 (para cobrir a casa b5) também é significativo.
10 e4!
Gigantes do xadrez agressivo 327

As Brancas expandem-se no centro antes que seu adversário tenha tempo


de jogar ...e7-e5, para que, então, ele possa fixar um peão em d5.
10...e5
Cheparinov tem que desafiar o centro branco, e outro golpe de peão com
10...c5 deixa uma debilidade muito ruim em b5 após 11 d5.
11 d5 c6
O cavalo em b6 perde o último apoio de peão, mas ele tem que enfrentar a
ameaça de 12 b5, ameaçando o peão em c7.
12 g5!
O próximo passo do plano das Brancas é colocar o bispo em e3 para exercer
pressão direta sobre o cavalo preto enfraquecido. Mas, antes de tudo, Topalov ati-
ça seu adversário a enfraquecer seus peões da ala do rei com 12...f6 ou a posicio-
nar mal seu bispo em f6.
12... f6 13 e3 e7
A necessidade de defender b6 prende o cavalo a d7, o que imobiliza o bispo
em c8, que, por sua vez, tranca a torre em a8. Com tantas peças pretas paralisadas
na ala da dama, Topalov decide fixar a situação no centro e começar um ataque
na ala do rei.
14 d6
328 Neil McDonald

Matando qualquer esperança que Cheparinov pudesse ter de ativar seu jogo
com 14...cxd5 ou 14... b4. Normalmente, este avanço seria arriscado, já que o peão
está sem o seu apoio, mas aqui as peças pretas estão muito presas para atacá-lo.
14... e6 15 b3!
Com isso, ele impede qualquer chance que as Pretas pudessem ter de livrar-
-se do cavalo ruim com 15... c4.
15... g7 16 h4!
Seu adversário tem dois cavalos, uma torre e um bispo imobilizados na ou-
tra ala, então um ataque no canto extremo da ala do rei é completamente lógico.
16...f5
Normalmente, este é um bom lance de contra-ataque, mas, nesse caso, ele
leva a um colapso rápido. Por outro lado, ele não poderia só ficar esperando pelo
ataque das Brancas.
17 g5 f6 18 b4!

Pensamento altamente flexível. Topalov volta sua atenção para a ala da


dama novamente e ameaça 19 bxa5 xa5 20 b3+, ganhando uma peça.
18...f4
18...axb4 19 b3+ h8 20 xb4 c5 21 b5! também é horrível para as Pre-
tas.
19 xb6 xb6 20 bxa5 d7
Salvando o cavalo de 21 b3+.
21 a6!
Não querendo dar nenhum contrajogo para as Pretas após 21 c4+ h8
22 e6 xa5! 23 xf8 xf8 etc. A resposta de Cheparinov evita perder a quali-
dade, mas ele acaba com um peão passado a menos e ainda enfrenta um ata-
que.
21... h8 22 b1!
O recuo do cavalo para b1 aumenta a energia da posição das Brancas, um
paradoxo que teria deleitado Bronstein.
22... h6 23 f3 bxa6 24 xc6 b7 25 c7 xe4 26 xd7 f5
Gigantes do xadrez agressivo 329

As Pretas ameaçam tanto b1 quanto d7. Parece que Cheparinov está con-
seguindo um pouco de contrajogo. No entanto, Topalov esmaga rapidamente a
“rebelião”.
27 c7 xb1 28 g5! g7
Após 26... xg5 27 hxg5, a torre em h1 ataca h7 com efeito letal.
29 c4 c2 30 d5!
Uma centralização poderosa. O primeiro lance da dama branca não ajudou
apenas as peças brancas a conspirarem contra f7, mas também introduziu temas
combinatórios contra a8 e e5.
30...h6 31 f7!
Se você estiver imaginando por que as Pretas têm tão menos armas na bri-
ga, dê uma olhada em como a torre branca está trabalhando duro na sétima fi-
leira. Sua torre em h1 também desempenhou um papel importante apoiando 28
g5!. Já as torres pretas só efetuaram a metade de um lance durante a partida
inteira, quando as Pretas rocaram.
31... c8
Se 31... xf7 32 xf7+ e a8 está pendurada.
32 xg7! 1-0
330 Neil McDonald

As Pretas recebem mate após 32... xg7 33 xe5+ f6 34 e7+ etc.


Um jogo de xadrez agressivo sensacional. Topalov utilizou os três elementos
com grande estilo: psicologia, preparação e dinamismo.

Um choque de estilos de xadrez


Uma boa maneira de finalizar o nosso estudo sobre xadrez agressivo é com uma
batalha acirrada entre Topalov e um dos grandes estrategistas de seu tempo. O
Grande Mestre búlgaro conseguiu impor uma disputa dinâmica com um sacrifício
de peça notável.

Partida 88
V.Topalov – V.Kramnik
Wijk aan Zee, 2008
Defesa Semieslava

1 d4 d5 2 c4 c6 3 f3 f6 4 c3 e6 5 g5 h6 6 h4 dxc4 7 e4 g5 8 g3 b5 9
e2 b7 10 0-0 bd7 11 e5 g7 12 xf7!!

Um grande choque para Kramnik. Não me surpreenderia se o Grande Mestre


russo já tivesse começado a escrever o lance normal 12 xd7 em seu caderno
quando Topalov tomou seu cavalo. Neste caso, 12... xd7 13 d6 levaria a uma
variante aguda e bem ensaiada, que Kramnik havia jogado tanto com as Brancas
quanto com as Pretas.
Em vez disso, o cavalo de Topalov pulou sobre f7 e retirou o peão preto do
tabuleiro – o búlgaro pegou seu rival de longa data com uma variante preparada!
12... xf7 13 e5 d5 14 e4
Ameaçando um garfo de cavalo em d6. Os dois últimos lances foram força-
dos para as Pretas, mas agora elas têm que tomar uma decisão importante: o rei
deve ir para e7 ou para g8?
Gigantes do xadrez agressivo 331

14... e7!
O rei preto permanece no centro, na esperança de poder levá-lo para a ala
da dama a tempo, onde ele encontrará abrigo atrás de um muro grande de peões
pretos. Além disso, após 14... g8, a torre em h8 será imobilizada. As Brancas po-
deriam preparar uma ruptura com f2-f4, no estilo de Morphy nos jogos em que
começava com um cavalo a menos, como vimos no Capítulo Dois.
Uma das decisões mais difíceis de se tomar no xadrez é o quanto a segu-
rança do rei deve ser posta em perigo a fim de alcançar um objetivo estratégico,
como o ganho de um peão ou um desenvolvimento mais fluido. Às vezes, en-
xadristas muito fortes sofrem uma derrota cortante porque assumem riscos um
pouco grandes demais com seu rei. Por outro lado, jogadores inexperientes per-
dem oportunidades de melhorar seu jogo porque ficam preocupados com o me-
nor sinal de perigo à saúde de vossa majestade.
Kramnik passou pelo primeiro teste, mas imagino quanto tempo e energia
mental isso irá lhe custar.
15 d6 b6
A dama defende o bispo, abre caminho para a torre em a8 dirigir-se para f8
para apoiar a defesa, e libera a casa d8 para que seu rei possa recuar.
332 Neil McDonald

Esta posição surgiu como uma consequência natural do sacrifício no lance


12. Nós deveríamos, entretanto, pausar e considerar o que Topalov ganhou por
sua peça. Uma olhada rápida nos diz que ele ganhou tempo para levar seu cavalo
para d6 e que o cavalo preto está preso no centro. No entanto, isso dificilmente
parece compensação suficiente. Diferentemente dos jogos de Morphy, em que
começa com a desvantagem de um cavalo, todas as peças pretas estão envolvidas
ou prontas para se envolverem na luta. Além disso, o centro ainda está bloqueado,
tornando difícil para as peças brancas chegarem ao rei. São considerações como
as desse tipo que impediram jogadores de investigar seriamente o sacrifício em
f7 – até que Topalov e seu time botaram suas cabeças para funcionar.
Então o que eles notaram sobre a posição que os outros teóricos não viram?
Fundamentalmente, que o sacrifício 12 xf7 não só deslocou o rei preto mas tam-
bém retirou o apoio ao peão e6. É uma característica curiosa que, apesar de as
Pretas terem tantas peças no centro, a casa e6 seja difícil de defender.
Assim, o rei em e7 fica no caminho de ... e8; o cavalo em d7 bloqueia ... c8; e
o cavalo inimigo em d6 impede a dama de defender a terceira fileira, após ...c6-c5.
O peão pode ser apoiado com ... c7, mas as Pretas não querem recuar seu cavalo
bem posicionado. Por sua vez, a alternativa ... f8 tem o inconveniente de impedir
o lance ... af8 e, então, torna uma ruptura das Brancas com f2-f4 muito mais forte.
É claro que uma fraqueza só é fraqueza se puder ser atacada e, aqui, 12 xf7
mostra seu valor. A retirada do peão em f7 deu à dama branca o acesso a g6, onde
ela pode juntar forças com o bispo de casas brancas em g4 para atacarem e6.
Portanto, Topalov tem um plano claro para melhorar a coordenação de suas
peças, isto é, um ataque a e6, e obter energia suficiente para compensar o cavalo
perdido.
16 g4! af8
Em uma partida posterior contra Shirov, o prevenido Karjakin jogou 16...h5!?,
desviando o bispo do ataque a e6, o que levou a uma luta árdua e ao empate no
final, após 17 xh5 af8 18 g4 h6 etc.
17 c2
Gigantes do xadrez agressivo 333

17... xd4?
Kramnik visa obstruir o desenvolvimento das Brancas ao atingir o bispo em
g4. Ele também enfraquece a defesa de e5, e, caso aquele peão também seja cap-
turado, o cavalo branco perderá sua base no centro. Infelizmente para ele, o fato
de ter deixado b7 sem defesa significa que, depois da resposta das Brancas, ele irá
perder seus dois bispos.
O lance fundamental era 17... hg8!, defendendo g7. Se, então, 18 g6,
mantendo o seu plano original, após 18... c7 a ameaça de um ataque descoberto
por 19... xe5 significa que a dama branca tem que fugir. Após esta partida, as
Brancas conseguiriam vencer seu adversário com 19 e4 a8 20 f4 em V.Kiselev-
-B.Gundavaa, em 2008 em Moscou. Outra linha aguda começa com 18 ad1 c5!?.
Mas Kramnik não poderia analisar tudo isso com o relógio correndo! A
pressão psicológica e a pura complexidade dos problemas que estava enfrentan-
do fez com que se tornasse praticamente impossível para o ex-Campeão Mundial
encontrar uma boa defesa enquanto jogava. Topalov teria ficado extremamente
desapontado se não conseguisse o ponto inteiro depois de usar sua novidade.
18 g6!
A ameaça principal é 19 xe6+.
18... xg4 19 xg7+ d8 20 xb7+ c8 21 a4!

Se, agora, 21... xb7 22 xd7+ vence. Então Topalov conseguiu todo o seu
material de volta, exceto um peão, o que significa que ele possui um ataque forte
ao rei preto quase que de graça.
21...b4 22 ac1 c3 23 bxc3 b3
Kramnik esforça-se ao máximo para manter as linhas fechadas na ala da
dama, e espera conseguir contrajogo com seu peão passado.
24 c4 fg8 25 d6+ c7 26 f7 f8 27 cxd5?
No calor da batalha, é difícil até mesmo para os melhores enxadristas man-
ter a cabeça fria. Depois de 27 h3! a troca de damas 27... xf7 28 hxg4 deixa o cava-
lo preto e a torre em f7 pendurados. Por outro lado, se 27... e2 28 xe6, o ataque
334 Neil McDonald

das Brancas será decisivo; por exemplo: 28... f4 29 xf4 xf4 30 b5+! cxb5 31
cxb5+ d8 32 fd1! e as Pretas não têm como defender d7, pois 32... h7 perde
imediatamente para 33 g8+.
27... xf7 28 xc6+ b8 29 xf7 e8
De acordo com Scherbakov, 29... b6! 30 xh8 xd5 daria às Pretas boas
chances de sobreviver, devido à força do peão passado.
30 d6 h8 31 c4 e2 32 dxe6 b6 33 b4 a8

Agora Topalov pode trocar seu peão avançado em e pelo peão passado pre-
to. Depois disso, sua bela coordenação de peças, o rei a salvo e o peão passado
levam à vitória.
34 e7 d5 35 xb3 xe7 36 fb1 d5 37 h3 h5 38 f7 c8 39 e6 a6 40 xg5
h4 41 d6 g8 42 3b2 d3 43 e7 f6 44 e5 d7 45 e6 1-0
A batalha entre o xadrez agressivo e o xadrez posicional continuará no fu-
turo, mas é hora de dizer adeus ao leitor. Desejo-lhe sorte e satisfação no xadrez,
qualquer que seja a maneira como prefira jogar!
Índice de Aberturas

Os números se referem às páginas.

Abertura Catalã, 7, 171, 209 Defesa Índia Antiga, 42


Abertura dos Quatro Cavalos, 164 Defesa Índia da Dama, 102, 192
Abertura Inglesa, 67, 180, 217, 255 Defesa Índia do Rei, 98, 259, 263, 268
Abertura Réti, 34 Defesa Nimzo-Índia, 30, 121, 197, 224, 293
Abertura Ruy Lopez, 20, 80, 127, 135, 138, 159, Defesa Petrov, 140
168, 184, 226, 235, 252, 310 Defesa Philidor, 54, 119, 279, 283
Abertura Vienense, 79 Defesa Pirc, 189
Contragambito Blumenfeld, 315 Defesa Semieslava, 330
Defesa Alekhine, 200, 213 Defesa Siciliana, 22, 26, 65, 123, 145, 174, 220,
Defesa dos Dois Cavalos, 319 243, 272, 296
Defesa Escandinava, 15, 205 Gambito da Dama, 57, 109, 131, 156, 161, 239,
Defesa Eslava, 93, 304, 312 278, 290, 322, 323
Defesa Francesa, 13, 62, 90, 299 Gambito do Rei, 72, 86
Defesa Grünfeld, 186, 230, 325 Gambito Evans, 82, 247
Defesa Holandesa, 115, 149, 176, 281 Partidas com desvantagem, 48, 50, 52
Índice de Enxadristas

Os números se referem às páginas. Os números em negrito indicam que o enxadrista jogou com as peças pretas.
Alekhine, 13, 26, 34, 42, 57, 109, 131, 149, 156, Maurian, 48
159, 186, 213, 239, 255, 290, 312, 315 Morozevich, 140
Amador, 82 Morphy, 15, 48, 50, 52, 54, 82, 86, 119, 123, 164,
Anderssen, 15, 168, 205 168, 205, 247, 252, 278, 279, 281, 283, 310
Aronian, 192 Naiditsch, 161
Barcza, 180 Najdorf, 224
Barnes, 119, 252 Opocensky, 42
Bird, 247 Paulsen, 123, 164
Bogoljubow, 149 Petrosian, 90
Böök, 57 Podgorny, 26
Botvinnik, 115, 293 Polugaevsky, 217
Bronstein, 20, 72, 115, 121, 138, 176, 180, 197, Pomar Salamanca, 13
200, 217, 224, 226, 259, 263, 293, 319 Ponomariov, 80, 102
Brunswick e Isouard, 54 Portisch, 184
Capablanca, 290 Pribyl, 189
Carlsen, 7 Radjabov, 209
Cheparinov, 325 Reshevsky, 263
Delekta, 79 Réti, 34
Dreev, 62 Rojahn, 319
Euwe, 186, 312 Rozentalis, 67
Fischer, 296, 322 Rubinstein, 109
Geller, 30, 62, 65, 79, 90, 98, 121, 127, 135, 171, Sämisch, 255
184, 189, 230, 235, 268, 296, 299, 323 Schulten, 86, 310
Germek, 268 Selezniev, 239
Gligoric, 135, 138 Smyslov, 197, 230
Harrwitz, 278, 279, 281, 283 Spassky, 322
Ivanchuk, 243 Spiridonov, 171
Junge, 159 Stahlberg, 176
Kamsky, 93, 145 Stean, 65
Karjakin, 272 Strikovic, 174
Karpov, 299 Tal, 72
Keres, 30, 226 Tarrasch, 315
Korchnoi, 20, 235 Timman, 323
Kotov, 127 Topalov, 22, 67, 80, 93, 102, 140, 145, 161, 174,
Kramnik, 7, 22, 304, 330 192, 209, 220, 243, 272, 304, 325, 330
Lasker, 131 Velimirovic, 98
Lichtenhein, 52 Worrall, 50
Ljubojevic, 200 Zita, 259
Lutz, 220 Znosko-Borovsky, 213
Marshall, 156
NEIL McDONALD

GIGANTES
DO
XADREZ
AGRESSIVO

Nesta obra, NEIL McDONALD seleciona


cinco grandes enxadristas que, com
consistência e sucesso, empregaram o
xadrez agressivo — estilo que é uma mis-
tura potente de dinamismo, preparação e
psicologia e que visa deixar o adversário
sob pressão constante.

O autor analisa as contribuições de cada


enxadrista, as diferenças sutis em seus
métodos e, de Morphy a Topalov, como
eles seguiram os passos uns dos outros.
GIGANTES DO XADREZ AGRESSIVO lhe aju-
dará a aprimorar sua habilidade em um
dos elementos mais cruciais do xadrez.

Guia agradável e instrutivo


para o xadrez agressivo

Aprenda com os grandes


nomes do xadrez

Descubra como as mais famosas


mentes do xadrez funcionam

NEIL McDONALD é um Grande Mestre


inglês e um dos maiores autores de livros
sobre xadrez.

XADREZ

www.grupoa.com.br