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UNIVERSIDADE CATÓLICA PORTUGUESA

Faculdade de Educação e Psicologia

Pós-graduação em Supervisão Pedagógica e Avaliação Docente

A FAMÍLIA E A ESCOLA

Módulo da Unidade Curricular


“Temas e Problemas da Escola Para Todos”
Teorias Explicativas do Insucesso Escolar

Professora Doutora Cristina Palmeirão

Luísa Martins

Lisboa, Dezembro de 2009


A FAMÍLIA E A ESCOLA

ÍNDICE

1 - Introdução …………………………………………………………………...……….. 3

2 – Família do passado versus família actual …………...………………..…………. 4

2.1 – A família do passado …………………………………………..…………… 4

2.2 – A família actual ………………………………….……………..…………… 5

3 – A escola para todos ……………...…………………………………..…………….. 7

3.1 – Compreender a escola actual ……………………………...………………. 7

3.2 – Os novos desafios da escola ……………………………...……………….. 8

4 – Promover a colaboração da família com a escola ...……………………...…….. 10

4.1 – Práticas da escola ………………………………………..…………………… 11

4.2 – A minha prática …………………..…………………………………………… 12

4.3 – Práticas a implementar ………………………………………………………. 15

5 – Conclusão ……………………………………………………………………………. 16

Bibliografia …………………………………..…………………………………………… 18

Luísa Martins – SPAD Lisboa 2


A FAMÍLIA E A ESCOLA

1 – INTRODUÇÃO

“Gosto de ser homem, de ser gente, porque sei que minha


passagem pelo mundo não é predeterminada, preestabelecida.
Que meu „destino‟ não é um dado mas algo que precisa ser feito
e de cuja responsabilidade não posso me eximir.”
Paulo Freire

A Família é a unidade fundamental da sociedade. Espera-se que seja


responsável pela transmissão de valores, de regras, tradições, visando a
estabilidade emocional dos indivíduos e o equilíbrio nas suas relações com os
outros. Espera-se que a família cumpra com o seu papel na socialização primária
dos indivíduos (Berger e Luckman, 1968)1, desde a infância até à sua integração na
sociedade. Esta socialização tem como pano de fundo uma enorme carga afectiva e
uma aprendizagem do mundo, tal como é visto pelos adultos mais significativos para
a criança: os pais.
Da escola espera-se que desempenhe o seu papel na socialização secundária,
isto é, que promova o desenvolvimento de competências técnicas, com vista à
integração dos indivíduos no mundo do trabalho.
No entanto, o papel socializador da família perdeu sentido, na medida em que já
não há tempo para transmitir os valores que lhe eram tradicionalmente atribuídos.
Verifica-se uma desresponsabilização cada vez maior dos pais no desenvolvimento
de competências sociais e pessoais das crianças e jovens.
Cabe agora à escola a árdua tarefa de se responsabilizar também pelo
desenvolvimento da socialização primária, essencial para o desenvolvimento de
competências cognitivas nos nossos alunos. No entanto, vários estudos revelam que
muitos dos problemas com que a escola se depara, como indisciplina, abandono
escolar, insucesso, poderão ser minimizados se os pais se envolverem no processo
educativo dos seus filhos e colaborarem com a escola.
Está nas mãos da escola adaptar-se a esta nova realidade e criar condições
para ajudar os pais a contribuir para a formação dos seus filhos.
Cada escola e cada um de nós deve implementar dinâmicas que promovam a
participação dos pais na escola, quebrando as barreiras que ainda persistem.

1
Citado em O novo pacto educativo de Juan Carlos Tedesco (1999)

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2 – FAMÍLIA DO PASSADO VERSUS FAMÍLIA DO PRESENTE

“Quanto mais formos capazes de descobrir porque somos


aquilo que somos, tanto mais nos será possível compreender
porque é que a realidade é o que é."
Paulo Freire

2.1 – A família do passado

A família é o primeiro contexto que cada indivíduo conhece e com o qual


estabelece relações. É neste contexto que são transmitidos os valores sociais e
culturais herdados de gerações anteriores que influenciam a percepção do mundo,
as relações interpessoais e as competências individuais.
Tradicionalmente, o conceito de família era definido como o conjunto de
pessoas que residiam na mesma casa e que tinham relações de parentesco entre si.
As relações entre os membros de uma família deveriam obedecer a uma hierarquia
bem definida, encabeçada pelo pai. À mãe competia-lhe cuidar dos filhos.
Cabia à família a função de transmitir os valores tradicionais. O artigo 11.º da
Constituição Política da República Portuguesa de 1933, estabelece que a família
deve considerar-se “como fonte de conservação e desenvolvimento da raça, como
base primária da educação, da disciplina e harmonia social, e como fundamento de
toda a ordem política pela sua agregação e representação na freguesia e no
município.”2
No Censos de 1960 definiu-se a família como “o grupo de pessoas ligadas por
união ou parentesco, legítimo ou ilegítimo, que utilizassem habitualmente o mesmo
alojamento, e a pessoa isolada que ocupasse um alojamento”.
Por volta dos anos sessenta, as famílias caracterizavam-se, maioritariamente,
por uma formação que se restringia ao pai, mãe e filhos e, eventualmente, uma avó
ou um avô.
O pai era o principal responsável pelos rendimentos familiares. A mãe, que
anteriormente se dedicava às lides da casa e a acompanhar os seus filhos nas
tarefas escolares (quando a sua formação o permitia), começou timidamente a ter o

2
in Adão, A., Remédios, M. J. (2005). A narratividade educativa na 1ª fase da governação de Oliveira
Salazar. A voz das mulheres na Assembleia Nacional portuguesa (1935-1945).

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seu lugar no mundo do trabalho, não deixando de ter todas as outras obrigações
inerentes à sua condição de mulher.
Os idosos integrados na família, desempenhavam um papel regulador das
relações familiares. Ajudavam na educação dos mais novos com o carinho
despretensioso e compreensivo das avós e as histórias da experiência vivida dos
avôs. A sua presença regular e os valores e tradições que transmitiam aos netos,
eram fundamentais para um desenvolvimento harmonioso das crianças e jovens.
A relação da família com a escola era distante, de respeito e humildade. Os pais
tinham um papel passivo, contrastando com um maior poder atribuído à instituição.
Os pais eram os convidados, visitantes a quem se pedia que dessem algum
estímulo às aprendizagens escolares.

2.2 – A família actual

Apesar de a família continuar a ser o aspecto mais importante para a maioria


dos indivíduos, de acordo com um estudo realizado em 2003 por Sofia Leite para o
Instituto Nacional de Estatística,
“Nas últimas décadas, as práticas e as representações da família, em Portugal,
conheceram profundas alterações. Enquanto em outros países essas mudanças
ocorreram de forma gradual, durante os últimos cinquenta ou sessenta anos, em
Portugal, decorreram em curto espaço de tempo e de forma acelerada,
particularmente nos últimos trinta anos, e em consequência de uma ruptura
institucional.”

De facto, verifica-se nestes últimos cinquenta, sessenta anos, que a estrutura da


família sofreu alterações significativas. São vários os factores que estão na origem
destas alterações:
Os empregos longe da residência, que obrigam a horas infindáveis gastas
na deslocação e o aumento do número de horas de trabalho, obrigam os pais a
passar cada vez menos tempo em casa;
A entrada em massa das mulheres no mercado de trabalho e a sua
crescente afirmação profissional;
A crescente instabilidade das relações conjugais e aumento do número de
divórcios: uma em cada cinco crianças portuguesas vive em famílias monoparentais;

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Os idosos já não têm lugar no núcleo familiar, pelo que deixaram de reforçar
a educação imposta pelos pais;
O aumento do desemprego e consequente instabilidade perante o futuro;
A televisão e a internet afastam os membros da família que, apesar de se
encontrarem debaixo do mesmo tecto, se encontram isolados.
Assim, na sociedade actual, vive-se numa correria constante, os dias passam
rapidamente uns a seguir aos outros, os empregos são cada vez mais distantes e
incertos, os pais chegam tarde a casa, as nossas crianças passam a maior parte do
dia na companhia da televisão, da internet ou na rua. O tempo útil de convívio de
uma família não é de qualidade, pois é muitas vezes passado à frente de uma
televisão que relata as notícias (sabemos o que se passa no mundo, mas não
sabemos os que se passa nas nossas casas). Os laços afectivos deixaram de ter
conteúdo, vão-se esmorecendo e os adultos significativos nem sempre são os pais
ou as mães, mas sim outros adultos ou os pares.
A falta de um modelo de referências apoiado nas relações familiares,
compromete o desenvolvimento das nossas crianças e jovens como futuros
cidadãos responsáveis, críticos, participativos, com princípios assentes no respeito
pelo outro e na solidariedade.
“A falta de um padrão original de medida deixa-os sem âncora para as suas
referências e órfãos de sentido de pertença, sem defesas perante as pressões culturais
exteriores, desprovidos de horizontes e esvaziados de sentido pessoal de vida.”3

É certo que os pais têm pouco tempo para estar com os seus filhos. Então que
esse tempo seja de qualidade, de diálogo e rico em manifestações de afecto.
Os pais devem demonstrar interesse no tempo que os seus filhos passam sem
eles: o que fazem, com quem estão, onde vão e orientá-los com subtileza. Devem
incentivar as conversas familiares sobre a escola: como é o presente e como
melhorá-lo para um futuro melhor.
É preciso repensar a família nesta nova sociedade. Ela deve reforçar a coesão e
a solidariedade entre os seus membros e primar pela transmissão dos valores e das
tradições que tornam cada família única.

3
in Texto de suporte à apresentação feita no Seminário “Família e Educação: Que relação para o
futuro?”, realizado pelo Conselho Nacional de Educação, no dia 27 de Maio de 2004.

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3 – A ESCOLA PARA TODOS

“O que importa acima de tudo é que as nossas escolas sejam


capazes de contribuir para a formação de pessoas livres,
autónomas, criativas e empreendedoras, cultas, responsáveis
e que disponham de um quadro cívico de referência que as
leve a ser exigentes consigo mesmas e com os outros.”4

3.1 – Compreender a escola actual

Até há cerca de cinquenta, sessenta anos a escola era a responsável pela


transmissão de conhecimentos científicos e estava reservada a um grupo restrito de
indivíduos das camadas sociais mais elevadas. “Salazar, numa entrevista em 1933,
referia que considerava mais urgente a constituição de vastas elites do que ensinar
o povo a ler, ressaltando que os grandes problemas nacionais tinham de ser
resolvidos não pelo povo, mas pelas elites enquadrando as massas.”5
Sob o regime salazarista, a educação perdeu o protagonismo que lhe foi
atribuído pela 1ª República. A falta de investimento na escola e a convicção que o
povo devia ser mantido na ignorância, para que fosse dócil, paciente e resignado,
manteve Portugal cada vez mais afastado da realidade das sociedades europeias:
“orgulhosamente só”.
Em 1934, o então ministro da Instrução Pública, Eusébio Tamagnini, propôs
uma forma de extinguir o analfabetismo, dividindo a população escolar em cinco
grupos: ineducáveis (8%), normais estúpidos (15%), inteligência média (60%),
inteligência superior (15%) e notáveis (2%). Excluindo os dois primeiros grupos, só
seria necessário dar instrução a 77% da população escolar, o que se traduzia numa
poupança significativa no orçamento. Na mesma década, Salazar afirmou que “se
todos souberem ler e escrever a instrução desvaloriza-se”.
Por volta dos anos 70, durante o governo de Marcelo Caetano, Veiga Simão
tentou tornar a escola acessível a todos e foram tomadas algumas medidas como o
alargamento da escolaridade obrigatória para seis anos e a oportunidade de
prosseguimento de estudos aos mais aptos, independentemente da sua classe

4
Artigo de Eduardo Marçal Grilo e Guilherme d’Oliveira Martins, no Jornal Expresso (2008).
5

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social. No entanto, a taxa de analfabetismo nessa altura ainda era de 25,7% e o


fosso criado pelos sucessivos governos salazaristas, manteve-nos na cauda da
Europa até aos dias de hoje.
A Lei de Bases do Sistema Educativo, Lei n.º 46/86, inovadora para a altura e
ainda hoje actual após vinte e três anos, declarou que “O ensino básico é universal,
obrigatório e gratuito, passando a ter a duração de nove anos”. Como primeiro
objectivo preconizou “Assegurar uma formação geral comum a todos os portugueses
que lhes garanta a descoberta e o desenvolvimento dos seus interesses e aptidões,
capacidade de raciocínio, memória e espírito crítico, criatividade, sentido moral e
sensibilidade estética, promovendo a realização individual em harmonia com os
valores da solidariedade social” (Art.º 7º).
Desde 1986 que sucessivos diplomas são publicados para reforçar o definido na
Lei de Bases, mas a inércia do nosso sistema educativo tem dificultado a aplicação
plena da Lei. A mudança não se decreta, só acontece quando os actores,
professores, direcções executivas, pais, etc., se implicam e a assumem como
necessária para os vários interesses em jogo.
A verdade é que, em 2001, a taxa de analfabetismo em Portugal ainda rondava
os 9% o que prova que temos ainda muito a fazer para que a escola seja para
TODOS, independentemente da cor, raça, condição social ou outras limitações de
ordem vária.

3.2 – Os novos desafios da escola

Como não é possível dissociar a escola da sociedade onde se insere, as


profundas alterações que a estrutura da família tem sofrido ao longo das últimas
décadas, impuseram à escola vários desafios que têm dificultado a integração
integral de todos os alunos:
Actualmente, a maioria das famílias não cumpre o seu papel fundamental na
socialização primária das crianças, que chegam à escola com deficit de regras e de
valores, essenciais para que a escola desempenhe a sua função de ensinar. Apesar
de não ser possível substituir essa função da família, a escola deve agora
preocupar-se também com o desenvolvimento das competências sociais e pessoais
dos seus alunos.

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Uma vez que os pais passam cada vez menos tempo com os seus filhos,
estes ocupam o seu tempo livre em frente da televisão, desenvolvendo atitudes de
passividade, ou navegando na internet, onde se perdem nas redes sociais e em
mundos virtuais “alheando os jovens das relações concretas e isolando-os da
sociedade envolvente” (Pinto, 2004:25).
Outro problema das tecnologias de informação é “a ilusão da conquista do
conhecimento e do saber” (Azevedo, 2009:6) transmitida pela televisão e disponível
na internet e que retira credibilidade à escola e desacredita os conhecimentos
científicos dos professores.
Há diferentes perspectivas, por vezes contraditórias, sobre o que se
pretende da escola: os pais das famílias mais desfavorecidas valorizam os
conhecimentos transmitidos na escola e esperam que esta dê aos seus filhos as
competências necessárias para a sua inserção no mundo do trabalho; os pais das
famílias mais favorecidas estão mais preocupados com o desempenho académico
dos seus filhos e esperam que a escola lhes possibilite o desenvolvimento de
competências para o prosseguimento de estudos, com vista a uma melhor situação
profissional, económica e social.
Os professores ainda não se encontram preparados para enfrentar os
desafios da escola actual e agarram-se desesperadamente à escola que lhes dava
um estatuto de peritos quase venerados no seu contexto. Esta recusa dos
professores em vencer a inércia leva-os a não se adaptarem à nova realidade, que é
a nossa sociedade, e a procurar culpados por não conseguirem “ensinar” com a
eficácia de outrora.
Como referiu António Sota Martins na sua Dissertação de Mestrado (2008:75),

A função da escola já não é só transmitir conhecimentos, práticas e


comportamentos. A escola tem também outras funções sociais que vão da
ocupação dos tempos livres dos alunos, à despistagem e quantas vezes resolução
de problemas sociais, afectivos, económicos, etc. Aos poucos, a escola tem-se
transformado, assumindo um papel cada vez mais importante de apoio às crianças
e respectivas famílias.

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4 – PROMOVER A COLABORAÇÃO DA FAMÍLIA COM A ESCOLA

“Não restam dúvidas de que os pais são os primeiros


educadores da criança e que, ao longo da sua escolaridade,
continuam a ser os principais responsáveis pela sua educação
e bem-estar. Os professores são parceiros insubstituíveis na
assunção dessa responsabilidade.”
Ramiro Marques

Ao longo do tempo a relação da família com a escola foi sofrendo algumas


alterações. A escola que detinha maior poder e em que os pais tinham um papel
passivo, deu lugar a uma escola em que os pais são membros participantes nos
respectivos órgãos de gestão e que promove uma relação de proximidade.
Todos sabemos que é fundamental a colaboração entre a família e a escola,
devendo ser caracterizada por uma partilha de responsabilidades e procura de
soluções, num trabalho conjunto baseado no respeito mútuo.
Quando há uma boa relação colaborativa da família com a escola, verifica-se
uma redução significativa de problemas de indisciplina, os alunos são mais
empenhados e responsáveis e obtêm melhores resultados escolares.
Por norma, os pais que tiveram no seu percurso escolar uma relação positiva
com a escola, têm uma visão mais holística e actual desta, vêem-na como um
espaço de desenvolvimento pessoal e social, mostram-se mais disponíveis para
partilhar responsabilidades e colaborar nas actividades escolares dos seus filhos.
No entanto, muitas famílias ainda vêem a escola como um instituição distante e
estranha, apenas transmissora de conteúdos e apenas capaz de permitir o acesso a
uma profissão.
Segundo um estudo realizado por Don Davies (1989), são normalmente as
famílias mais carenciadas, que ainda se debatem pela sua sobrevivência e que têm
horários de trabalho muito alargados, as que têm mais dificuldades em acompanhar
o percurso escolar dos seus filhos e em se deslocar à escola. Estes pais têm uma
representação negativa da escola originada pelos seus próprios fracassos e
insucessos, que é agravada por só serem convocados para tomarem conhecimento
dos maus resultados escolares dos seus filhos ou de problemas de indisciplina.

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Cabe à escola tomar a iniciativa no desenvolvimento de estratégias que


promovam a mudança de atitude destes pais e consciencializá-los da importância do
desenvolvimento de uma relação colaborativa com a escola para a formação integral
dos seus filhos.
No entanto, apesar de actualmente se reconhecer a importância da colaboração
da família com a escola, muitos professores ainda vêem as famílias “como simples
utentes a quem não é reconhecido o direito de exercer influência a priori, sobre o
seu funcionamento, sendo-lhes apenas reconhecida a possibilidade de reclamar, a
posteriori, na qualidade de consumidores”.6
Trata-se de um receio sentido mas não verbalizado por alguns professores de
perderem o seu estatuto de detentores de poder dentro da instituição que é a escola,
e que não reconhecem que esse poder poderá ser reforçado se conseguirem a
colaboração dos pais e o consequente reconhecimento do seu trabalho.

4.1 – Práticas da Escola

A escola onde lecciono é uma escola do Concelho do Seixal. Está localizada


numa zona extensa de vivendas uni e bifamiliares, cujos moradores são da classe
média alta, maioritariamente com o 12º ano de escolaridade, muitos deles com
formação superior.
Alguns dos nossos alunos são de origem africana e residem em barracas, com a
problemática que é inerente a este tipo de bairros degradados. No entanto, nos
últimos anos, tem-se verificado uma acentuada melhoria das condições de vida das
respectivas famílias, que tem sido determinante para a redução dos problemas de
indisciplina provocados por estes alunos e para um aumento do seu sucesso
escolar.
Curiosamente, em 2007, o Concelho de Almada encontrava-se entre os 15
concelhos, num total de 308, com um poder de compra superior em 20% à média
nacional. Apesar de a escola estar localizada no Concelho do Seixal, com poder de
compra abaixo da média nacional, Vale de Milhaços é a localidade da freguesia de
Corroios mais próxima de Almada, com muitos dos moradores a desenvolverem a
sua actividade profissional naquela cidade.

6
Afonso, N., (1993, p.133), citado em Martins, A., (2008, p. 87).

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As anteriores constatações levam-nos a relacionar a situação económica da


maioria das famílias dos nossos alunos com a participação dinâmica e interventiva
da Associação de Pais e Encarregados de Educação dos pais da escola.
Não se pode deixar de referir que, no sentido de incentivar a participação dos
pais dos nossos alunos, independentemente da APEE, têm sido implementadas
diversas práticas pela direcção, professores e directores e turma:
Participação em projectos – alguns professores e directores de turma
solicitam aos pais a sua colaboração no desenvolvimento de alguns projectos, como
o Projecto Eco-escolas, com o qual a escola obteve o primeiro prémio, o Projecto
Sopalândia, que juntou os familiares dos alunos de cinco turmas da escola.
Participação nas actividades das turmas, como por exemplo o Teatro
Musical: “Com D. Dinis e Dona Isabel”, que contou com a participação de várias
mães que actuaram, ao lado dos seus filhos, perante uma grande audiência.
Passado pouco tempo após a sua realização, algumas das mães perguntavam, à
professora dinamizadora, quando seria a próxima actividade.
Realização de palestras sobre várias temáticas que foram alvo da
preocupação de pais e professores, como segurança, educação alimentar,
indisciplina – realizaram-se na escola duas ou três palestras por ano, marcadas
normalmente para as 21 horas. Foram moderadas invariavelmente pela presidente
da Associação de Pais e Encarregados de Educação da escola ou pela Presidente
do Conselho Executivo e foram convidadas, para as dinamizar, reconhecidos
representantes de diversas entidades da Comunidade local.
Colaboração (real) com a APEE - de um modo geral, a Associação de Pais e
Encarregados de Educação é constituída por elementos que colaboram
regularmente com as várias estruturas de gestão, apresentando propostas que
contribuem para um melhor funcionamento da escola.

4.2 – A minha prática

Sou professora há vinte e cinco anos e fui directora de turma em vinte e dois
deles. Este cargo, para o qual sempre me disponibilizei, levou-me a criar laços com
as pessoas que vivem nos alunos. Ouvi-os falar dos seus problemas, medos e
alegrias, mostrei-lhes alternativas, outros caminhos a seguir, ajudei-os a
conhecerem-se e a aceitarem-se.

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Com a reorganização curricular de 2001, foi criada a área curricular não


disciplinar de Formação Cívica, que é um espaço privilegiado para desenvolver
práticas cooperativas e colaborativas, resolver conflitos, partilhar ideias e promover
reflexões. Inevitavelmente, as relações com os alunos tornaram-se mais estreitas e
passei a compreender a importância do meu papel na construção da sua identidade.
Com os pais estabeleci contactos próximos e tentei compreender as suas
razões e constrangimentos e conhecer as pessoas que também vivem neles. Nestes
contactos tive, por vezes, a sensação de déjà vu, pois o relato das situações repete-
se: casos de instabilidade económica e emocional, insegurança perante a
indisciplina ou insucesso dos seus filhos ou dúvidas sobre como os ajudar. Em
praticamente todos eles, encontrei preocupação e interesse; na maioria, vontade de
colaborar com a escola (apesar de nem sempre terem disponibilidade) e em alguns,
o desespero e a vontade de desistir de lutar para tornar os seus filhos melhores
pessoas. Penso que na maioria das situações que passaram por mim, contribui de
forma positiva na tomada de consciência dos pais relativamente à necessidade de
colaborarem com a escola, de se responsabilizarem pelo percurso educativo dos
seus filhos e de serem firmes e coerentes na definição de regras de conduta e de
trabalho.
Ao longo dos anos, a partir da experiência, comprovada em vários estudos, fui
adquirindo a consciência que não é possível resolver problemas de indisciplina, de
insucesso ou de abandono escolar se não contar com a colaboração dos pais,
mesmo que não tenham muito tempo para acompanhar os seus filhos.
Também descobri que deveria ser eu, enquanto directora de turma, a dar o
primeiro passo promovendo relações cordiais e de empatia com os pais, tentando
compreendê-los e orientá-los.
Neste sentido, desenvolvi algumas estratégias que permitiram promover a
colaboração dos pais e encarregados de educação:
Contactos com os pais – no tempo em que ainda não havia telemóveis,
disponibilizava o número de telefone de casa de modo a que os pais, que chegavam
tarde a casa, me contactassem e de eu os contactar da minha residência. Com a
expansão dos telemóveis passei a disponibilizar o número do meu a todos os pais
na primeira reunião do ano lectivo. Quando surgiu a plataforma Moodle, passei
também a utilizá-la a partir da dinamização do fórum. Desde há dois anos que lhes

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dou conhecimento do meu endereço de correio electrónico e tenho registado os dos


pais. É fantástica a interacção que se gera com estas outras formas de
comunicação. Apesar de alguns professores olharem desconfiados para mim,
quando sabem que faculto aos pais o número do telefone de casa ou do telemóvel,
nunca, ao longo de todos estes anos, algum encarregado de educação teve uma
atitude incorrecta ou abusiva.
Marcação da hora de atendimento para o fim da tarde – apesar de estar
marcada no horário normal uma hora de atendimento aos pais, durante alguns anos,
marquei uma hora de atendimento não oficial após as 18h 30m. Presentemente, na
primeira reunião do ano lectivo, apresento propostas de horas de atendimento, para
o fim da tarde, de acordo com a minha disponibilidade; a hora é escolhida
democraticamente pelos pais e faço questão de salientar que estou disponível para
os receber noutro dia e noutra hora, desde que o solicitem antecipadamente.
Reuniões DT/EE – estas reuniões são marcadas para o fim da tarde e no dia
da semana em que a maioria dos pais pode estar presente. Este dia é escolhido na
primeira reunião do ano lectivo. Para além das reuniões de início de período, marco
reuniões extraordinárias a meio de cada período lectivo, de modo a transmitir as
informações recolhidas nas reuniões de avaliação intercalar e a aferir procedimentos
entre os pais e o conselho de turma.
Colaboração dos pais nas actividades - desde sempre que solicito a
colaboração dos pais para a realização de actividades, como por exemplo,
quermesses (no final dos períodos) ou confecção de bolos (semanalmente) para
angariação de fundos para financiar as visitas de estudo dos alunos mais
carenciados. Mais recentemente, solicitei a sua participação no Projecto
“Sopalândia” que envolveu cinco turmas, uma de cada ano de escolaridade, assim
como os respectivos encarregados de educação e que consistiu na escolha de uma
sopa por cada grupo (cerca de 5 grupos por turma), confecção da sopa em casa de
um dos alunos do grupo e partilha de sopas e que contou com a colaboração de
professores, alunos e respectivos familiares. No presente ano lectivo, está já
prevista a participação no projecto “Saladalândia” semelhante ao Projecto
“Sopalândia” do ano lectivo anterior, mas no qual se irão confeccionar saladas
saudáveis.

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É importante salientar que a participação regular dos pais nas actividades da


escola e a sua colaboração com o conselho de turma é uma conquista que deve ser
preservada. Normalmente os pais estão habituados a ser chamados à escola para
ouvirem queixas sobre o comportamento ou o aproveitamento dos seus filhos. E por
que não comunicar-lhes os progressos ou informá-los sobre o quão exemplares eles
são? É sempre agradável ouvir uma informação positiva sobre o desempenho das
nossas crianças e assim, quem sabe, desenvolver nos pais mais renitentes um
verdadeiro espírito de colaboração na educação dos seus filhos, nossos alunos.

4.3 – Práticas a implementar

A colaboração da família com a escola não é uma guerra ganha. Ela é feita de
pequenas batalhas que se vão travando no dia-a-dia. Precisamos de lutar com as
armas que temos como o diálogo aberto e sincero, sensibilidade para entrever as
representações que cada pai ou mãe tem da escola, o uso de linguagem acessível a
todos, estabelecimento de relações de empatia e mostrar-se disponível para ajudar
pais e filhos a encontrar soluções para os seus problemas.
De um modo geral, deverão implementar-se algumas práticas que poderão
promover a participação dos pais na escola e consequente colaboração:
• Todos os professores deverão pôr de lado a desconfiança que sentem com a
participação dos pais na vida da escola e aceitá-los como parceiros indispensáveis.
• Apoiar as famílias desestruturadas ou com dificuldades financeiras através de
contactos com instituições de apoio à família, como por exemplo a célula da Santa
Casa da Misericórdia em Santa Marta de Corroios.
• Promover a formação sistemática de pais na escola, em horário pós-laboral, a
partir da dinamização de acções que vão ao encontro dos interesses dos pais
• Incentivar uma participação de qualidade dos pais nos órgãos de gestão
• Aprofundar a colaboração com a APEE, convidando os seus elementos a
participarem na organização do ano lectivo, como por exemplo na formação de
turmas, preparação da recepção aos alunos, etc..
• Marcar uma hora de atendimento no horário dos professores para receberem
os pais, tornando a relação mais directa e aberta com todos os elementos dos
Conselhos de Turma.

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5 – CONCLUSÃO (OU REFLEXÃO)

O educador, então, não será apenas nem fundamentalmente


um técnico, que planifica e decide, mas antes um arquitecto
do desenvolvimento humano, de si e de outros, um artesão -
tecelão de afectos - no sentido, sobretudo, da minúcia na
construção de laços e sentidos de si, do outro e da relação de
si com outros.

Estes trabalhos, que me têm sido solicitados no âmbito desta especialização ou


no âmbito da formação contínua de Matemática (que frequentei no ano lectivo
anterior), têm tido o condão de fazer sentir necessidade de me afastar da azáfama e
correria diária para reflectir.
A minha actuação como directora de turma passou a ser mais consciente nos
últimos anos. Porquê? Foi, sem dúvida, uma pergunta que me perseguiu nos últimos
dias. Não tenho certezas, apenas encontrei algumas respostas possíveis.
Até há cerca de doze anos atrás dediquei a minha vida a tornar bem sucedidos
os meus projectos pessoais: filhos, família e alguma estabilidade financeira.
Foi também por volta dessa altura que fiquei efectiva na escola onde hoje
lecciono: a escola que escolhi de entre tantas outras por onde passei. Identifiquei-
me com a localização, organização, alunos, professores, funcionários, enfim com
tudo.
Foi há doze anos atrás que, finalmente, se reuniram os factores que me
permitiram encontrar a estabilidade necessária para ser uma pessoa feliz e
perseguir outras metas. Dediquei-me a descobrir como poderia ser melhor
profissional.
A experiência que o tempo nos proporciona, aliada à aprendizagem em estudos
sobre esta temática, é também um dos factores que nos ajuda a compreender-nos e
a compreender os outros. E aprendemos com os sucessos, mas muito mais com os
erros, que nos conduzem à descoberta de respostas, a reflectir, a experimentar
novos caminhos e a reformular as nossas práticas, num cair e levantar contínuo que
nos faz crescer e ganhar confiança.
O reconhecimento de que não somos perfeitos é um caminho que precisamos
de percorrer ao longo da nossa vida. Vamos encontrando estratégias que nos

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ajudam a melhorar, mas é difícil reconhecer que nunca iremos atingir a perfeição. No
entanto, não podemos resignar-nos a esta imperfeição, mas simplesmente continuar
a lutar para atingir essa meta inatingível.
Só estamos disponíveis para nos darmos aos outros, quando nos conciliamos
com a pessoa que somos. Quando nos aceitamos com todos os nossos defeitos e
algumas qualidades, estamos preparados para aceitar os defeitos dos outros,
compreender os seus receios e constrangimentos e ajudá-los a encontrar os seus
caminhos, as suas respostas.

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A FAMÍLIA E A ESCOLA

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