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IC IONARIO
DE,....
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DICIONARIO
DE
IN GUISTI CA
LINGUÍSTICA DA
DA
ENUNCIAÇAO N UNCI AÇAO
O objetivo deste Diciondrio é ambicioso: enfocar a definição
conceituai de um campo teórico que apenas recentemente tem
recebido maior atenção da comunidade científica brasileira. Para
isso, os organizadores reuniram mais de 40 linguistas de todo o
país, que escreveram cuidadosamente cerca de 400 verbetes.
Cada verbete traz informações referenciais: definição sucinta;
termos relacionados que permitem ao leitor conhecer a terminolo-
gia destacada de um determinado autor; nota explicativa e referên-
cias bibliográficas. Ao final do livro, especialistas da área elaboraram
uma minibiografia de 14 consagrados autores da linguística.
Esta obra não está direcionada somente para especialistas em
linguística da enunciação. Professores de português, de línguas e
de linguística, bem como estudantes de graduação e pós-graduação
em Letras, encontram aqui uma referência única nesse campo do
conhecimento no Brasil.
VALDIR DO NASCIMENTO fLORES
LECI BORGES BARBISAN
MARIA JosÉ BocoRNY FrNATTo
~editora MARLENE TEIXEI RA
~~contexto
Promovendo a Circulação do Saber

ISBN 978-85-7244-430-9
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Biblioteca Paruc I
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Récanati, Jakobson e Fuchs,
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trabalho enorme para tor-
ar homogêneos os verbetes,
ra fazê-los legíveis aos não es-
~ alistas, para transformá-los
Vald.ir do Nascimento Flores
Leci Borges Barbisan
Maria José Bocorny Finatto
Marlene Teixeira

Comelho Editorial
Ataliba Teixeira de Castilho
Felipe Pena
Jorge G respan
José Luiz Fiorin
Magda Soares D IC IONÁRIO
Pedro Paulo Funari
Rosâ,ngela Doin de Almeida DE
L INGUÍSTICA
DA
E NUNCIAÇÃO

Proibida a reprodução total ou parcial em qualquer mfdia


sem a autorização escrita da editora.
Os infrarores estão sujeitos às penas da lei.

Prefácio de José Luiz Fiorin

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Foto de capa
Jaime Pinsky
Montagem de capa e diagramarão
Gusravo S. Vilas Boas
Prepararão de uxtos
Lilian Aquino
Revisão
Márcia Nunes

D ados l nternàcionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Flores, Valdir do Nascimenro
Dicionário de lingulsrica da enunciação I
organizadores Valdir do Nascimento Flores [er Prefácio ........................................................................................................................................................................ ?
al.).- São Paulo: Conrexto, 2009.

Ourros organizadores: Leci Borges Barbisan, Palavras ao leitor ..............................................................................................................................................11


Maria José Bocorny Fi narro, Marlene T eixeira
ISBN 978-85-7244-430-9
Relato de uma expedição terminológica ................................................................................... 27
I. Lingulsrica - D icionários 2. Pesquisa
lingulsrica I. Flores, Valdir do Nascimento. Guia do usuário ................................................................................................................................................31
li. Barbisan, Leci Borges. III. Finatto, Maria
José Bocorny. IV. Teixeira, Marlene.
Lista de abreviaturas e siglas .................................................................................................................35
09-02225 CDD-418.03
fndice para catálogo sisremárico:
I. Enunciação : Lingulsrica : Dicionários 4 18.03 Equipes (por autores tratados) ...........................................................................................................37
2. Lingulsrica da enunciação: Dicionários 4!8.03
Lista alfabética de te rmos ........................................................................................................................39

Lista alfabética de verbetes .....................................................................................................................45

Dados biográficos e bibliográficos dos teóricos em foco ........................................ 237


EDITORA CONTEXTO
Diretor editorial: Jaime Pinsky Códigos das equipes, fontes bibliográficas
Rua Dr. José Elias, 520 - Alto da Lapa e bibliografia recomendada ................................................................................................................ 257
05083-030- São Paulo - sr
I'ABX: (! !) 3832 5838
Colaboradores e redatores de verbetes ..................................................................................... 269
conrexto@editoracontexro.com.br
www.cditoracontexto.com.br
Os organizadores ..........................................................................................................................................283
acabou vendo, Joan Brossa,
que os verbos do catalão
tinham coisas por detrás
eram só palavras, não.
João Cabral, Fábula de Joan Brossa

Diccionario, no eres
twnba, sepulcro, féret ro,
túmulo, mausoleo,
sino preservación,
fuego escondido,
plantación de rubfes,
perpetuidade viviente
de la esencia,
granero dei idioma
Pablo Neruda, Ode ao diccionario

Diz Greimas, em Du sens II, que "os lexemas se apresentam muitas vezes
como condensações que recobrem, por pouco que se as explicitem, estruturas nar-
rativas e discursivas bastante complexas" (p. 225) . Isso implica que o dicionário
não é um depósito de palavras, no qual elas estão inertes. Ao contrário, ele deixa
ver a história dos vocábulos e, por meio deles, a história de um povo, com suas
vicissitudes e vitórias, suas preferências, crenças, normas, costumes, interesses,
carências, sentimentos, conhecimentos, emoções, paixões, afetos ... Os sentidos,
como numa escavação arqueológica, desvelam camadas estratificadas da vida hu-
mana, com seus anelos e fracassos. O dicionário contém heranças de antepassados
perdidos em tempos longínquos, que nos legaram, expressos por palavras, ferra-
mentas e modos de fazer, tristezas, alegrias e modos de ser, metáforas, substanti-
vos, tempos verbais e modos de simbolizar. Pode-se dizer do dicionário o que disse
Guimarães Rosa das línguas, em Ave, palavra: "são rastros de velhos mistérios".
Um dicionário contém a sabedoria de um povo armazenada durante a vida
da língua, mostra como ele vê o mundo, como concebe a vida, como sofre, como
ama, como conhece, como se decepciona, como se revolta, como se resigna, como
se desespera, como espera ...
Por tudo isso, não basta ler seus verbetes, é preciso saboreá-los, manejá-los, Ao mesmo tempo em que temos de fazer esse movimento de eliminação,
jogar com eles, navegar por entre eles. É necessário perceber as múltiplas relações de afastamento, de recusa, aspiramos a compreender a totalidade: no caso da lin-
tecidas pelas palavras, relações evidentes e estranhas, metafóricas e metonímicas, guagem, anelamos a apreender seu mistério e sua epifania. Por isso, o dicionário
sincrónicas e diacrónicas, mas que sempre fascinam, surpreendem e intrigam. É desvela gestos de inclusões daquilo que os antecessores deixaram à parte na sua re-
preciso deixar as palavras falar, ouvir seus ecos e gritos, ver suas obscuridades e dução metodológica. Portanto, ele revela-nos as polêmicas, os diálogos, as recusas
cintilações, saborear sua doçura e sua acidez, sentir seus aromas deleitosos e de- e as aceitações, as filiações e as oposições.
sagradáveis, experimentar suas texturas macias e ásperas. Dizia Fernando Pessoa Depois, ele faz-nos conhecer objetos teóricos, abstrações, já que a ciência
pela voz de Bernardo Soares no Livro do desassossego: "Gosto de dizer. Direi me- trata sempre do geral. Não existe uma ciência das estradas de ferro brasileiras ou da
lhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, construção do Ipod. É por isso que a física não trata dos corpos na sua singularida-
sensualidades incorporadas". A aproximação do dicionário exige rigor, mas prin- de, mas de abstrações, como a massa, que os atravessam e os tornam comparáveis.
cipalmente deslumbramento. Ela requer de nós todas as paixões contemplativas, Da mesma forma, não existe ciência das vogais, dos textos de telenovela. Por isso,
pede-nos paciência e lentidão. um dicionário de enunciação é, antes de tudo, uma cartografia dos objetos teóricos
Poder-se-ia dizer que tudo o que se considerou até aqui a respeito do da linguística. É a história da construção desse objeto poliformo que é o discurso.
dicionário é justo e adequado, mas não é pertinente a este prefácio em que se Foi para reconstruir essa narrativa de idas e vindas, de sucessos e fracas-
apresenta um dicionário científico, mais especificamente, um dicionário sobre sos, de rasgos de genialidade e de trabalho laborioso no domínio da linguística da
linguística da enunciação. enunciação que Valdir do Nascimen to Flores, Leci Borges Barbisan, Maria José
Um dicionário especializado, em vez de nos mostrar a totalidade da cul- Bocorny Finatto e Ma rlene Teixeira, num gesto de abertura científica, convidaram
tura que se desenvolveu numa dada formação social, desvenda-nos um segmento diferentes especialistas, que buscaram resgatar a história delineada anteriormen-
dela. Assim, um dicionário científico permite que extraiamos dele as mil histórias te na obra de autores tão diversos como Benveniste e Culioli, Bréal e Bakhtin,
que nele estão entranhadas: as da constituição de um campo do saber, as de sua Authier-Revuz e Ducrot, Greimas e Récanati, Jakobson e Fuchs, etc. Os organiza-
institucionalização, as de sua aceitação, os esquecimentos e as recuperações. Um dores tiveram um trabalho enorme para tornar homogêneos os verbetes, para fazê-
dicionário de ciência começa por ilos indicar os gestos de exclusão, que constituem los legíveis para os não especialistas, para transformá-los em textos dotados de
o gesto científico primeiro, já que as exigências metodológicas e epistemológicas "autonomia". E tudo isso sem que perdessem a qualidade e o rigor, de modo que
pedem objetos claramente delimitados e questões que têm origem em problemas o dicionário fosse útil também para o especialista do campo. Posso afirmar, com
claramente enunciados. O principio da pertinência obriga a ciência a renunciar a segurança, que o trabalho incansável e pertinaz dessa equipe teve êxito. Ela entrega
tratar a realidade, seja ela natural ou simbólica, da maneira como a apreendemos, esta obra aos leitores, convidando-os para a aventura de entender o dicionário, de
do modo como a vivemos na experiência imediata. A ciência abdica de abordar a sentir o dicionário, de navegar por seus verbetes, perdendo-se, encontrando-se,
totalidade. Por isso, seu gesto inaugural é a exclusão. Borges mostrou isso em belo desconstruindo e reconstruindo a cartografia do campo. Este dicionário é um
texto do livro História universal da infâmia: mapa, é uma súmula, é uma história da linguística da enunciação. Mas ele não está
Naquele Império, a Arte da Cartografia conseguiu tal perfei- pura e simplesmente voltado para o passado, ele está aberto para o futuro. Ele não
ção que o mapa de uma só província ocupava toda uma cidade, e o fecha, ele torna patentes perspectivas e possibilidades. Ele desafia a imaginação,
mapa do Império, toda uma província. Com o tempo esses mapas provoca os pesquisadores, incita ao trabalho acadêmico. U nindo o que foi feito
enormes não satisfizeram, e os Colégios de Cartógrafos levantaram e 0 que pode ser feito, este dicionário é um instrumento indispensável a todos os
um mapa do Império, que tinha o tamanho do Império e coincidia que têm paixão pela linguagem, a todos aqueles que se deslumbram com ela e a
com ele ponto por ponto. Menos apaixonadas pelo Estudo da Car- analisam com rigor.
tografia, as gerações seguintes entenderam que esse mapa ampliado
era inútil e não sem impiedade o entregaram às inclemências do sol

j
José Luiz Fiorin
e dos invernos. Nos desertos do oeste perduram despedaçadas ruí-
nas do mapa, habitadas por animais e por mendigos; em todo o país
não há outra relíquia das disciplinas geográficas.
Desde a edição do Dicionário de linguística e gramática, 1 de Joaquim Matto-
so Câmara Júnior, a linguística brasileira não tem produzido muitos dicionários de
linguística. É com entusiasmo, portanto, que apresentamos ao público brasileiro
o nosso Dicionário de linguística da enunciação, que reúne termos e definições que
circulam no campo da enunciação. Uma equipe de mais de quarenta colaborado-
res trabalhou nos últimos anos com o intuito de fornece r ao leitor uma obra de
referência representativa dos principais construtos teóricos da área.
No momento em que vem à luz o Dicionário, é de suma importância que
sejam fei tos alguns esclarecimentos a respeito do contexto de sua emergência e
também dos motivos que justificam sua elaboração.

SOBRE A NECESSIDADE DE UM DICIONÁRIO


DE LINGUlSTICA DA ENUNCIAÇÃO
Em linhas gerais, no Brasil, os estudos referen tes ao campo da enuncia-
ção - apesar de constantemente presentes como fonte bibliográfica na literatura
especializada- ainda não tiveram tratamento sistematizado. Isso se d eve às con-
dições específicas de instauração da linguística brasileira, em especial, com relação
ao advento da diversidade dos estudos do âmbito do discurso. Mas sobre isso seria
demasiado discorrer aqui. Cabe, no entanto, fazer alguma digressão no que tange,
em especial, à área da enunciação.

1
Conforme Matos (2004, p. 159), o dicionário de Mattoso Câmara "tem uma história singularfssima:
foi lançado em 1956, pelo Centro de Pesquisas da Casa de Rui Barbosa (RJ), com o título de Dicioná-
rios de fatos gramaticais (DFG); cm 1965, ]. Ozon-Editor (RJ) publicou a segunda edição, intitulada
Dicionário de filologia e gramática e, em 1977, postumamente, a Editora Vozes (Pelrópolis, RI) pu-
blicou a sétima edição, sob o título atualizado de Dicionário de lingufstica e gramática (DLG)".
Ver: MATOS, Francisco Gomes de. O Diciondrio de lingufstica e gramática: notas de um leitor-pos-
faciador. DELTA, 2004, v. 20, n.spe, p. l59-164.
As teorias da enunciação receberam uma leitura muito particular no cenário tratamento diferenciado entre si quanto à exaustividade da indicação das suas
linguístico b rasileiro. Algumas foram identificadas às pragmáticas, outras ao trata- terminologias. Privilegiamos, nesse momento, os autores cujas teorias têm maior
mento do texto e houve também as que foram ligadas às perspectivas discursivas. circulação no Brasil atualmente. Por ora, julga mos que o Dicionário deve atender
Nesse sentido, houve, no caso de algumas teorias- como a de Jacqueline às exigências mais prementes dos consulentes.
Authier-Revuz e a de Oswald Ducrot, por exemplo-, uma espécie de "apropria- Também gostaríamos de registrar que, com este Dicionário, esperamos co-
ção" do aparato metodológico sem a incorporação da teoria subjacente aos mo- operar para a autonomia do campo da enunciação nos estudos da linguagem no
delos. Ou, ao contrário disso, houve uma apropriação de termos e definições fora Brasil, além de encorajar o leitor a se aprofundar na leit u ra dos textos a partir dos
d o construto epistemológico do qual fazem parte. Esse é o caso, muitas vezes, das quais os verbetes foram construídos. Desse modo, após cada verbete, são indicadas
leituras feitas de termos importantes de reflexões como a de Mikhail Bakhtin e a leituras para um ma ior aprofundamento.
de Émile Benveniste.
Essa constatação não encerra uma crítica. Somos cientes de que os saberes
se instauram de maneira singularizada e em sintonia com as condições sócio-his- SoBRE OS FUNDAMENTOS EPISTEMOLÓGICOS
tóricas, epistemológicas e disciplinares de cada organização social e cultural. Ape- QUE NORTEARAM A ELABORAÇÃO DO DICIONARIO
nas registramos, com isso, que o' surgimcnto do campo da enunciação no Brasil se O Dicionário, a exemplo do que sugerem Flores & Teixeira (2005), fala em
dá, de certa forma, mediado por outras disciplinas dos estudos da linguagem. teorias da enunciação, no plural, e em linguística da enunciação, no singular. Utiliza
Certamente que essa mediação determinou o entendimento dos termos do também a palavra "campo", em construções como "campo enunciativo", "campo
campo. Basta uma vista de olhos na produção bibliográfica da área para se perce- da enunciação", "campo da linguística da enu nciação", en tre outros. Ora, mesmo
ber a variação no tratamento conceituai de termos como discurso, texto, enunciado, que não seja possível, neste momento, fazer uma discussão epistemológica aprofun-
enunciação, para citar os mais comuns. dada2 sobre as diferenças sugeridas pelo uso de "campo", "teorias" e "linguística",
Assim, a necessidade de produzir o Dicionário de linguística da enuncia- alguns esclarecimentos ao menos devem ser feitos. An tes, porém , duas observações.
ção deve-se, em especial, à demanda de definição conceituai de um campo teórico A p rimeira, e talvez a mais importante, é que essas distinções têm validade
que apenas recentemente tem recebido maior atenção da comunidade científica somente pa ra os fins estabelecidos neste Dicio11ário. Ou seja, não estamos propon-
brasileira. Como bem lembram Krieger; Finatto (2004) "[ ... ] o uso de termos téc- do algo q ue seja extensível à li nguística geral. Como se sabe, a elaboração de um
nicos é um importante recurso para a precisão conceituai nas comunicações pro- dicionário especializado exige de quem o faz uma visada epistemológica sobre a
fissionais" (p. 18) ao que as autoras acrescentam: "[ ...] as linguagens das técnicas área em estudo. Aqueles que já se ocuparam da tarefa de elaborar um sabem das di-
e das ciências mostram-se muito além de meras listas de palavras ou conjunto ficuldades encon tradas para mapear epistemologicamente uma determinada área,
de rótulos denominativos" (p. 124). Sendo assim, consideramos que o Dicionário
logo, saberão avaliar os percalços por nós enfren tados.
deve contribuir para a construção de um conhecimento compartilhad o do campo, A segunda observação é que palavras como "campo", "teoria" e mesmo
assegurando-lhe um mínimo de unidade. "linguística" são, hoje em dia, carregadas de múltiplos sentidos. Boa parte das ve-
Em outras palavras, um dicionário especializado - obra de referência que zes, elas se fazem acompanhar de longas explicações. Certamente, não é da natu-
serve, entre outras coisas, de instrumento de apoio à leitura das teorias de um de- reza de um dicionário dar a conhecer todas as discussões que possibilitaram a sua
terminado campo-, ao oferecer subsídios para maior precisão terminológica, deve feitura. U m dicionário deve, em princípio, atender às necessidades de consulta de
colaborar para a sistematização do conhecin1ento de base da área, minimizando 0
estabelecimento de falsas homonímias e de precárias equivalências teóricas.
Temos consciência de que uma obra com essas características já nasce de-
mandando revisão e ampliação. Muito há ainda que se acrescentar com relação 2 Para isso, consultar: CREMONESE, Lia Emília. Bases epistemológicas para a elaboração de um dicio-
nário de Linguística da Enunciação. Mestrado em Estudos da Linguagem. Un iversidade Federal do
tanto aos termos e definições quanto às teorias contempladas. Claro está que, Rio Grande do Sul (UFRGS). Instituto de Letras, Programa de Pós-Graduação em Letras. Orienta-
nos tempos atuais, a diversidade de teorias exige de um dicionário d e linguística ção: Prof. Dr. Valdir do Nascimento Flores. Coorientação: Profa. Dra. Maria José Bocorny Finatto.
constante renovação e revitalização. Assim, cabe dizer que as teorias receberam Porto Alegre, 2007.
seu leitor. A explicitação da epistemologia subjacente a ele deve ser feita em âmbito Primeiramente, entendemos que há um a divisão geral do campo da enun-
acadêmico. 3 Ao público leitor, cabem as explicações que facilitam a consulta ao di- ciação, obtida segundo o critério da existência, ou não, de um modelo de análise
cionário. Com isso, queremos dizer que seremos concisos acerca dessas palavras. da enunciação. Segundo esse critério, temos: .,o
Nesse sentido, usamos "campo" para nomear o conjunto das teorias que o grupo de autores que, mesmo sem explicitar um modelo de análise da
dizem respeito à enunciação. Nesse caso, a referência é genérica. Consideram os in- linguagem , refletiu sobre a enunciação. A teoria que esses autores auto-
cluídos no campo todos os estudos que visam à abordagem de problemas teóricos rizam é, em b oa parte, derivada da leitura do conj un to de seus escritos
e descritivos da enunciação. Constituem o campo todas as teorias da enunciação e não do estabelecimento explícito de uma metodologia. Esse é o caso,
integrantes do Dicionário. Para esse uso da palavra, fomos inspirados po r Jacque- n este Dicionário, de autores como Michel Bréal, Charles Bally, Émile
line Authier-Revuz, que assim procede em Ces mots quine vont pas de sai: boucles Benveniste e Mikhail Bakhtin. Notadamente autores que figuram dentre
réflexives et non-coi·ncidence du dire (1995). A autora fala em "balisages dans le os "fundadores" do campo;
champ énonciatif', que se pode traduzir por "balizagens no campo enunciativo". 4 o grupo de autores cujas propostas teórico-metodológicas de análise
O sintagma "teorias da enunciação", por sua vez, nomeia, no contexto deste enunciativa são explicitamente elaboradas e, m uitas vezes, reelabora-
dicionário, os diferentes construtos teórico-metodológicos que integram o campo. das. Estão nesse grup o autores como Ro man Jakobson, Oswald Ducrot,
São as propostas individualizadas, normalmente, assimiladas aos nomes de seus Jacqueline Authier-Revuz, Antoine Culioli,5 Claude Hagege.
autores. É assim que se fala na teoria de Émile Benveniste, na teoria de Oswald o grupo de autores que, mesmo sem propor um a teoria própria, se vale
Ducrot, entre outros. Cabem aqui alguns aponta mentos mais específicos. de teorias da enunciação par a uma descrição bastante original de fenô-
menos en un ciativos. É o caso, por exemp lo, da reflexão acerca da pará-
As teorias da enunciação são diversas e diferentes uma da outra. H á muitas
formas de agrupá-las. frase desenvolvida por Catherine Fuchs.

Fuchs (1985), por exemplo, propõe a existência de duas correntes: 1) a cor- Propomos, ainda, uma segunda clivagem, obtida de acordo com o critério
rente enunciativa em sentido estrito, aí incluídos os estudos que consideram os de a teoria estar, ou não, inserida em um cont exto maior das reflexões do autor.
subsistemas de unidades e as formas da língua. Fuchs denomina-os de "neoes- Desse segundo critério, obtemos dois grupos:
truturalistas" e dá como exemplo os trabalhos de Bally, Benveniste e Culioli, e 2) no primeiro, figuram , por exemplo, os nomes de Michel Bréal, Émile
a corrente enunciativa em sentido amplo, aí incluída a pragmática que recorre a Benveniste, Charles Bally, Roman Jakobson, François Récanati, Fran-
conceitos lógico-linguísticos, a atos de fala o u à interação. çois Flahault , Claude Hagege, Algirdeas Greimas, Patrik Charaudeau,
Dahlet (1998) faz também uma distinção interna a " uma disciplina que já Mikhail Bakhtin;
nasce plural" (p. 69). Para ele, há uma grande clivagem n o campo da en unciação, no segundo, encontra mos, por exemplo, Oswald D ucrot, Jacqueline
que dá origem a dois domínios: há a perspectiva indiciai - na qual Dahlet inclui as Authier-Revuz e An toine Culioli.
teorias de Charles Bally e Érnile Benveniste- e a perspectiva operatória- na q ual
A diferença, n esse últim o caso, é que os autores constantes do primeiro
se incluem as teorias de Gustave G uilha ume e Antoine Culioli.
grupo desenvolveram um p ensamento em torno de temáticas muito mais amplas
De certa forma, também nós fazemos uma distinção interna ao campo, na do que as circunscritas ao campo da enunciação. Em outras palavras, há autores
medida em que reconhecemos que as teorias apresentadas no Dicionário têm esta- dentre os contemplados no Dicionário cuja teorização ultrapassa o campo da enun-
tutos diferenciados.
ciação e q ue n ão poderiam ter seu pensamento reduzido à temática enunciativa.
Na verdade, essa d iferença colocou-nos frente a um problema para a ela-
boração do Dicionário: que recorte fazer no interior dessas teorias de forma a não
3
Uma versão aprofundada dessa discussão pode ser encontrada em Cremonese (2007), conforme mutilá-las do conjun to do qual fazem parte? Observemos alguns exemplos.
nota 2, supra.
' A autora, inclusive, intitula um texto usando a palavra "campo" de maneira muito próxima a que
fazemos aqui. Trata-se de Psychanalyse et champ linguistique de l'énonciation: parcours dans Ia méta-
éno11ciation, publicado por ocasião do Colloque international de Ce.risy-La Salle (1998), Linguistique ' Mesmo que a teoria de Culioli se encontrcesparsamente construída em inúmeros artigos, a reunião dos
ct psychanalyse, sob a direção de Michel Arrivé e Claudine Normand. volumes dePour une linguistiquede l'énonciation permite uma visão do conjunto da proposta do autor.
A obra de Roman Jakobson comporta números que falam por si: são mais de Falta ainda falar do sintagma "linguística da enunciação", que dá título ao
seiscentos livros e artigos dos quais apenas a metade encontra-se reunida nos sete Dicionário. Esse termo nomeia o conjunto das teorias da enunciação- o que torna
volumes dos Selected Writings. 6 São incontáveis os temas de estudo: a poesia, a pin- o seu uso próximo da ideia de "campo" - com a particularidade de enfatizar se tra-
tura, a métrica, a teoria linguística, o folclore, a fonologia, a patologia da linguagem/ tar de teoria e análise linguística. Com a expressão "linguística da enunciação", es-
a aquisição da linguagem, as línguas no mundo, a semiótica, entre outros. peramos dar a entender ao consulente que estão reunidos no Dicionário os termos
O linguista Émile Benveniste, além dos trabalhos reunidos em Problemas de de um conjunto de teorias do campo da enunciação que têm o propósito de ana-
linguística geral I e Problemas de linguística geral II, assina o monumental Vocabulá- lisar a linguagem de um ponto de vista linguístico que, como veremos, se constrói
rio das instituições indoeuropeias e os dois tomos Origines de La formation des noms de maneira muito singular relativamente, em especial, à linguística saussuriana.
em indo-européen e Noms d'agentet noms d'action em indo-européen. Em todos, Ben- Isso não impede de se admitir que algumas das teorias contempladas de-
veniste demonstra preocupação com aspectos diacrónicos, sintáticos, lexicais etc. senvolvem análises pa ra além do linguístico- é notadamente o caso de Greimas,
Em Charles Bally, encontramos um autor que se dedicou a fazer do francês Jakobson e Bakhtin, por exemplo. Apenas registramos que, ao fazermos o Dicio-
alvo de suas reflexões não apenas com relação ao que chama de estilística, mas nário de linguística da enunciação, optamos por produzir uma obra de referência,
também com relação à didática da língua, à literatura e ao francês falado. prioritariamente, do campo da linguística.
Mikhail Bakhtin, por su'a vez, paralelamente à contribuição aos estudos lin-
guísticos, a partir de uma concepção de linguagem que implica necessariamente
a enunciação, produz reflexão de extremo interesse para os estudos literários e às SOBRE A ESCOLHA DAS TEORIAS
ciências humanas de modo geral.
Em linhas gerais, foram usados quatro critérios para justificar a inclusão
Assim, se d e um lado, não era possível reduzir a obra de tais autores ao cam-
das teorias neste Dicionário:
po da enunciação, uma vez que inúmeros textos seus demonstram interesses mui-
to maiores; de outro, o recorte se impunha, já que não se tratava de fazer um dicio- a) a referência (continuidade ou ruptura) à dicotomia saussuriana língua/
nário de Roman Jakobson, por exemplo, mas apenas da sua elaboração no campo fala e, por ela, ao quadro sistêmico-estrutural;
enunciativo. E o caso de Jakobson é paradigmático: sua "teoria da enunciação" é, b) a proposição de uma análise da linguagem do ponto de vista do sentido;
na verdade, consubstancial à proposição da noção de shifter - termo que o autor c) a reflexão em torno de mecanismos de produção do sentido entendidos
importa de O. Jespersen - no texto "Shifters, verbal categories, the russian verb". como marcas da enunciação com a elaboração explícita de uma teoria
O interessante, nesse caso, é que não conh ecemos outros trabalhos de Jakobson sobre o tema da enunciação;
que versem sobre a enunciação. Sua notoriedade no campo deriva somente desse d) a inserção do elemento subjetivo no âmbito de estudos da linguagem.
artigo, complexo sem dúvida, mas limitado se comparado com o número de pro- A seguir, tentaremos explicitar cada um desses critérios, com especial ênfa-
blemas estudados por contemporâneos seus. se para o primeiro, em nossa opinião, determinante dos demais.
Enfim, como dissemos, as divisões internas ao campo da enunciação que
fazemos aqui têm validade apenas no contexto do Dicionário e atendem às d eman-
LíNGUA E FALA: CONCEITOS PRODUTIVOS DE TEORIAS ENUNCIATIVAS
das específicas de sua elaboração.
A percepção de que a linguagem é um todo multiforme (Saussure, 2000,
p. 17) e a preocupação em construir os princípios da ciência linguística que neces-
sitava definir um objeto único e autónomo para análise fizeram com que o concei-
6
São eles: 1: Phonologica/ Studies, 1971; II: Word and Language, 1971; III: Poetry of Grammar and to de língua se tornasse o ponto de partida das reflexões saussurianas contidas no
Grammar of Poetry, 1981; IV: S/avic Epic Studies, 1966; V: On Verse, its Masters m1d Explorers, 1979;
VI: Early Slavic Paths and Crossroads, partI: 1985, part //: 1985; Vll: Contributions to Comparative Curso de linguística geral.
Mythology. Studies in Unguistics and Philology, 1972-1982, 1985; VIII: Completion Volume I. Major Para os nossos propósitos neste Dicionário, importa considerar que par-
Works, 1976-1980, 1986 (1987/1988).
7
Foi a atitude de recortar um tema do conjunto das reflexões de um autor que possibilitou a elabora-
timos do princípio de que a definição de linguagem, sob seus dois aspectos, o de
ção do livro Introdução aos estlldos deRoman ]akobson sobre afasia, de Flores; Surreaux; Kuhn (2008). língua e o de fala, que fundamentaram a teoria saussuriana, foram muito pro-
dutivos -reinterpretados, modificados, alargados - para as teorias enunciativas. para o estudo da língua. A fala vem antes, faz evolu ir a língua. Há interdependência
Em outros termos: as teorias presentes no Dicionário se remetem, cada uma a seu entre elas. Mas n ão se poderia reunir, sob o mesm o ponto de vista a língua e a fala,
modo, ao pensamento saussuriano, principalmente, à problemática da construção explica Saussure, para quem cada uma é objeto de uma linguística.
do objeto da linguística. Assim, ao se ler o cap ítulo III ( Objeto da Linguística) da Introdução do CLG,
Flores & Teixeira (2005) defendem que h á vinculação da linguística da observa-se que a distinção entre língua e fala apresenta p rop ósitos bem definidos:
enunciação, quanto à formulação de seu objeto de estudo, à dicotomia saussuria- 1) o de mostrar sua intenção de instituir uma ciência da linguagem; 2) o de enfati-
na língua/fala, sem, contudo, haver identificação completa. Segundo eles, entre os zar a necessidade de defin ição de um objeto único e classificável para essa ciência;
autores do campo enunciativo, se vê um duplo movimento -de conservação e de 3) o de defender sua tese de q ue esse o bjeto é criado a parti r de um ponto de vista;
alteração - em relação a Saussure. 4) o de demonstrar, apoiado em vários argumentos, que esse objeto só pode ser a
Não seria um excesso de generalização dizer que os fenômenos estudados língua como é por ele entendida.
nas teorias da enunciação pertencem à língua, mas não se encerram nela; p erten- Partindo-se dos conceitos saussurianos de língua e fala, como foram pro-
cem à fala à medida que só nela e por ela têm existência, e questionam a existência postos no Curso de linguística geral, podemos fazer algumas reflexões sobre o papel
de ambas já q ue emanam das duas. Relembremos, então, os termos pelos quais que eles assumem nas teorias da enunciação. Tom emos, inicialmente, apenas dois
língua e fala comparecem no Cu'rso de linguística geral. exemplos: Benveniste e Ducrot.
No capítulo intitulado "Objeto da Linguística", Saussure parte do fato de Benveniste, sobre Saussure, diz:
que, diferent emente de outras ciências, que têm objetos previamente estabelecidos, Quando Saussure introduziu a ideia de signo linguístico, ele
na linguística isso não ocorre, já que a linguagem se apresenta ao pesquisador com pensava ter dito tudo sobre a n atureza da língua: n ão parece ter vis-
faces diferentes como som, como ideia, como estrutura sintática etc. Na linguísti- to que ela podia ser outra coisa ao mesmo tempo, exceto no quadro
ca, o objeto não preexiste à teoria com a qual ele vai ser analisado. Ao contrário, é da oposição bem conh ecida que ele estabelece entre língua e fala.
Compete-nos ir além do ponto a que Saussure chegou na análise da
à luz de um ponto de vista que o objeto deve ser construído.
língua como sistema significante (PLG II, p. 224). (grifo n osso)
Encontran do, então, na linguagem um aglomerado confuso de coisas heteró-
clitas que, além de poder ser analisado linguisticamente de diferentes ângulos, está Oswald Ducrot (1987), desde muito cedo em sua teoria da argumentação
a cavaleiro de diferentes domínios (p. 17), tais como a Psicologia, a Antropologia, a na língua, a firma, em texto intitulado Estruturalismo, enunciação e semântica, que
Gramática normativa, a Filologia etc., e, no esforço para fundamentar uma ciência a descrição semântica de uma língua, considerada como conjun-
da Linguística, e, consequentemente p ara definir um objeto como um todo em si e to de frases ou de enunciados, não só não pode ser acabada, como
como princípio de classificação, Saussure propõe a língua como objeto da linguística. não pode ser empreendida de forma sistemática, se n ão m encionar,
Vários argumentos apoiam esse ponto de vista no Curso: a língua tem defi- [... ] certos aspectos da atividade linguística realizada graças a essa
língua". E acrescen ta: "Se utilizarmos, para exprimir tal tese, a ter-
nição autônoma, é vista como sistema, é norma para todas as manifestações da lin-
minologia saussuriana tradicional, seremos levados a afirmar [... ]
guagem , portanto, pode ser estudada cientificamente. A língua é só uma parte da que uma linguística da língua é impossível se não for também uma
linguagem, é seu produto social e, como tal, é compartilhada pela comunidade de linguística da fala (p. 63). (grifo nosso)
fala por meio de um contrato que se estabelece entre seus membros; é o produto que
O que queremos ilustrar com os exemplos dados é q ue os a utores do campo
o indivíduo registra passivamente (p. 22) po r aprendizagem, é de natureza concreta.
da en unciação, em geral,8 partem dos conceitos de lfngua e fala para fundamentar
A fala- o outro aspecto da linguagem - é a utilização da língua, sua part e
individual, de caráter criador e livre. É o acessório, o acidental da linguagem . As-
sim sendo, a fala não pode ser o objeto próprio da linguística, qu e d eve se ocupar
1
do estável, do geral, isto é, da lingua, porque esta é homogênea, porque faz a uni- O caso de Bakhtin merece uma observação. Em Marxismo e filosofia da linguagem, encontra-se
uma crítica ferrenha à teorização saussuriana da linguagem que, se examinada superficialmente,
dade da linguagem. A fala se subordina à língua. pode soar como uma recusa radical da perspectiva forma l para o estudo da linguagem. No entanto,
A língua pode ser estudada separadam ente, mas língua e fala são estreita- uma leitura em filigrana do conjunto da obra do Círculo de Bakhtin, revela que a "semântica" aí
pressuposta comporta, necessariamente, as dimensões do reiterável e do instável em estreita correla-
mente relacionadas: a lingua é necessária para a fala inteligível, e a fala é n ecessária ção. A esse respeito, ver Faraco, 2006.
suas reflexões, embora enraízem neles suas teorias de modos diferentes. Há, na de sai: boucles réflexives et non-coi"ncidence du dire (1995 ), aborda as incisas, a pseu-
linguística da enunciação, uma espécie de retomada da oposição saussuriana, no do-anáfora, correções, glosas. Oswald Ducrot, ao longo de seus inúmeros trabalhos
entanto, cada teoria da enunciação reformula-a, amplia-a e até mesmo, num certo dos últimos 30 anos, trata os conectores, os operadores, os m odalizadores, a nega-
sentido, dela diverge em relação à teoria saussuriana. ção, os pressupostos etc. Catherine Fuchs, em La Paraphrase e l'énonciation ( 1994),
Fuchs (1985, p. 120) considera, também, que o questionamento da oposi- desenvolve uma abordagem singular do fenôm eno da paráfrase. Claude Hagege, em
ção língua/fala se realiza em duas direções: a) na da constatação de que existem na L 'homme de paroles, dedica-se a estudar os fenômenos da variação social, da conota-
língua categorias que remetem ao funcionamento da própria língua e que não po- ção, da díade tema-rema, do tempo etc. Em Benveniste encontramos estudos sobre
dem ser estudadas sem que se leve em consideração a situação de enunciação; b) na derivação, temporalidade verbal, pronomes (aí incluídas as discussões sobre a cate-
adm issão de que, no plano do funcionamento concreto do discurso, é impossível goria de pessoa), modalidade, fraseologia, advérbios, funções sintáticas, negação etc.
dissociar o plano objetivo do subjetivo: "o sujeito est á sempre presente em tudo, Cabe ressaltar, porém, que, se de um lado, podemos ver a linguística da
mesmo quando se mascara" (idem). enun ciação como um campo constituído por diferentes teorias sem ânt icas da
enunciação - e isso é um fator unificador-, por outro, não se pode tomá-las em
Em suma, a linguística da enunciação é uma continuidade ou uma ruptura
bloco, quando o que está em questão é o tipo de análise semântica que fazem - e
com Saussure? Há espaço para identificarmos ambas as possibilidades. Porém , o
isso é um fator de diferenciação entre elas. Nada há em comum entre a descrição
que cabe salientar é que, independentemente do vínculo que o campo da enun-
semântica feita por Oswald Ducrot e a feita por Jacquelin e Authier-Revuz, por
ciação tem com Saussure, as teorias da enunciação constituem um novo objeto,
exem plo. I nú m eros são os distanciamentos entre ambos: con cep ção de sujeito,
que não encontra, ao menos não totalmente, abrigo na dicotomia língua/fala. Este
con ceito de enunciação, entendimento do q ue é língua etc. Nesse caso, é oportuno
novo objeto tem um nome: enunciação.
o comentário de Fuchs (1985), para quem a concepção de semântica das teorias da
en unciação "está longe de ser unificada: há provavelmente tan tas concepções da
0 PONTO DE VISTA DO SENTIDO semântica quantas são as teorias" (p. 121).
Dizer que as teorias da enunciação estudam a linguagem do ponto de vista
do sentido merece algum comentário, inclusive porque, muitas vezes, tais teorias Os MECANISMOS DE PRODUÇÃO DO SENTIDO NO DISCURSO
são também nomeadas "semântica da enunciação".
Em decorrência do q ue dissemos anteriormente, podemos situar outro--ªs-
O leitor perceberá que preferimos utilizar a expressão "estudo do sentido" pecto unificador das teorias da enunciação: os mecanismos de produção do sentido
em vez de "semântica da enun ciação", e isso não por vermos algum equívoco nesta da enunciação. Tais mecanismos são de diferentes naturezas e adquirem relevância
última. A opção tem mesmo uma função didática. O uso de "semântica da enun- no escopo da t eoria em que fo ram concebidos. I
ciação" poderia levar a associar as teorias da enunciação a um nível da análise lin- Mas, em linhas gerais, são descrit os os mecanismos, as marcas, as opera-\_1
guística. Assim como há os níveis sintático e fonológico, haveria o nível semântico ções, que revelam a relação do dizer com o dito, da en unciação com o enunciado
ao qual estariam ligadas as teorias da enunciação. ou ainda, do processo de produção de um enunciado com o produto. Fuchs a esse
Preferimos outra configuração. ~studar a linguagem do prisma de uma teo- respeito comenta:
ria da enunciação é estudá-la do ponto de vista do sentido, sim, mas isso não sig-
Sabemos que a hipótese de base de toda teoria enunciativa é a
nifica que os demais níveis de análise linguística não sejam contemplados pelas
inscrição do sujeito no próprio âmago do sistema lin guístico, mani-
teorias enunciativas. É uma questão de ponto de vista: o núcleo de qualquer teoria festada em particular pela existência de certas categorias gramaticais
e_nunciativa é o sentido. No entanto, todos os níveis da-;;_nálise linguística (morfo- específicas,9 que marcam a relação do sujeito com seu próprio enun-
logia, sintaxe, fonologia etc.) podem ser analisados, na enunciação, da perspectiva
do sentido. Exemplifiquemos.
Antoine Culioli, nos volumes de Pour une linguistique de l'énonciation ( 1990, 9
Paralelamente, gostaríamos de destacar que, mesmo concordando com a hipótese de base de Fuchs, temos
1999a, 1999b), analisa a negação, a representação metalinguística em sintaxe, a quan- reservas quanto à existência de "categorias específicas" para marcar a relação entre o sujeito e o seu enun -
ciado. Há em Benveniste, em especial, no texto citado por Fuchs, uma considerável ampliação dessa visão
tificação, a temporalidade, o aspecto. Authier-Revuz, em Ces mots qui ne vont pas "localizacionista" daenunciação.Estaideiaédescnvolvidanaspáginas 105-107 de Florcs&Teixeira (2005) .
r
I
ciado (pessoas, modalidades, temporalidade, dêixis etc. cf. 'O apare- o que coloca a n ecessidade de convocar "exteriores teóricos" à linguística propria-
lho formal da enunciação' de Benveniste). (Fuchs, 1985, p. 77). mente dita para apoiar a descrição de fatos de linguagem. Assim, a proposta de
..
o São, então, c<msiderados mecanismos de produção de sentido na enun-
Authier-Revuz torna legítima a aspiração do teórico da enunciação de se pronun-
ciar sobre a natureza do sujeito, desde que fundamentado em campos exteriores
ciação: os indicadores de subjetividade em Benveniste (os pronomes, os tempos
à linguística- como, por exemplo, no caso de Authier-Revuz, a psicanálise- que
verbais, os verbos de fala, os advérbios de tempo e de lugar, as fu nções sintáticas
tem uma teoria da subjetividade.
de interrogação, de intimação ou de asserção, as modalidades); os shifters em Jako-
bson (as categorias verbais de tempo, modo pessoa); os fenômenos estudados na
estilística linguística de Bally (dictum e modus, tema e rema); o discurso citado e
A VISUALIZAÇÃO DO CAMPO
suas variantes, tal como abordado por Bakhtin/Volochínov.
Em teorias mais recentes, porém, é possível encontrar uma vasta lista de Finalmente, fazemos acompanhar estas Palavras ao leitor de uma visuali-
problemas linguísticos que integram a abordagem enunciativa (cf. Authier-Revuz, zação do campo da enunciação, tal como ele foi tomado, em linhas gerais, para
Ducrot, Culioli) e que vão além das "marcas" lembradas por Fuchs. a elaboração do Dicionário. Temos consciência de que uma representação gráfica
Em linhas gerais, podemos perceber que cada teoria elege mecanismos es- é sempre insuficiente para dar a conhecer uma epistemologia. No entanto, mais
pecíficos para dar a conhecer a sua perspectiva do estudo enunciativo. De nossa uma vez, nos ve_mos na situação de ter que optar entre aprofundar uma discussão
parte, c~be apenas lem~·ar que não é o fenômeno linguístico em si que determina ou apenas dá-la a conhecer ao nosso consulente. A opção que fazemos está, acre-
1
o_gue pode, ou não, ser considerado mecanismo enunciativo, mas o ponto de vista ditamos, em consonância com o perfil do usuário suposto para este Dicionário,
_teórico que o aborda. Em outras palavras e a título de exemplo: o estudo acerca da aqueles que se iniciam nos estudos da enunciação.
paráfrase desenvolvido por Catherine Fuchs não invalida, nem desconhece, o utras Assim, decidimos apresentar uma "árvore de domínio" 10, isto é, uma repre-
abordagens do fenômeno, no entanto, a autora apresenta uma análise dos meca- sentação gráfica, do campo da enunciação que sintetize tão-somente o princípio
nismos parafrásticos circunscrita à enunciação. geral sobre o qual o Dicioná1io foi feito, qual seja, o de que a linguística da enuncia-
Atitude similar pode ser vista em Enunciação e gramática (cf. Flores et al. ção é uma parte da linguística para onde convergem diferentes teorias da enuncia-
2008). Nesse livro, os autores apresentam análises enunciativas de mecanismos ção que se originam da discussão em torno da dicotomia saussuriana língua/fala.
linguísticos não comu mente abordados no campo: pronomes indefinidos, prepo- Esperam os poder ilustrar com a árvore o aspecto de conversão que, acreditamos, é
sições, frase nominal, aspecto verbal etc. É claro que não se ignora que tais fenô- inerente ao campo. Essa representação está na figura a seguir.
menos são, desde sempre, objeto de estudo das mais diferentes teorias linguísticas,
no entanto, o que se vê em Enunciação e gramática é a proposição de uma análise
enunciativa dos fenômenos.
Enfim, integram o escopo de análise das teorias da enunciação todos os me-
canismos linguísticos que permitam estudar o que-..__
Fuchs (1985) nomeou generica-
mente de "inscrição do sujeito no próprio âmago do sistema linguístico" ( cf. supra).

Ü ELEMENTO SUBJETIVO
10
Ainda que não do mesmo modo, a~_teorias da enunciação levam em conta Esta "árvore de domínio" foi desenvolvida em Cremonese (2007, p. 136-139) e faz parte de uma de-
tida reflexão epistemológica para a construção do Dicionário, leitura por nós recomendada àqueles
o elemento subjetivo, não como acessório, mas como parte essencial da descrição que quiserem se aprofundar no tema. Sobre a árvore diz a autora "Pensamos que wn campo como
linguística. Entretanto, é p reciso dizer que não é o próprio sujeito que essas teorias a Linguística da Enunciação não seja passível de uma representação linear, especialmente porque
contemplam, mas a representação que a enunciação dele fornece. muitos de seus aspectos e características não podem ser facilmente planificados". Ao que acrescenta
a autora: "Temos plena consciência[ ... ] de que tal representação[ ... ] não consegue abarcar a totali-
A esse respeito, a posição deAuthier-Revuz é singular. A autora vê uma ine- dade de dados que deveriam estar presentes. Trata-se de um modelo simplificado, buscando ser mais
vitável heterogeneidade (incompletude) teórica afetando o campo da enunciação, didático, e que tem como objetivo situar o consulente".
Árvore de domínio - linguística da enunciação era importante empreender o reconhecimento terminológico de um campo mul-
tifacetado. Assim imbuídos, cada redator, cada membro das equipes de pesquisa
encarregadas de repertoriar, selecionar os termos de cada teórico e, situar as suas
contribuições em meio aos diferentes desenhos do campo que se descortinava, re-
elaborados tais desenhos à medida que avançávamos, soube enfrentar bravamen te
toda uma sucessão de desafios. Um dos p rincipais desafios foi o de explicitar no-
ções complexas de um modo que fosse, ao mesmo tempo, conceitualmente correto
e acessível para o nosso público-alvo.
Cumprida a jornada, vemos que foram m uitas p essoas envolvidas nas mais
diferentes tarefas ao longo de cada uma das suas etapas. As atividades primeiras do
desenho macro e microestrutural do Dicionário, as reuniões de planejamento do
trabalho, o desenho inicial da nossa base de dados e as testagens iniciais de seu fun-
cionamento das informações com usuários contaram com o auxílio da tradutora
de francês e terminóloga Aline Vasconcelos. Suas inquietações e questionamentos
motivaram a todos. Na continuidade do trabalho, contamos com o apoio técnico
Figura l -Árvore de domínio - representação do campo- Linguística da Enunciação. de Daniel Costa da Silva, igualmente tradutor e terminólogo. Seus cuidados e sua
dedicação constantes acabaram inspirando todos os envolvidos na aventura e, com
Nessa configuração, o leitor pode ainda verificar alguns pontos: a) resguar- certeza, são responsáveis pelo bom norteamento de várias decisões tomadas. Agra-
da-se que os autores possam ligar-se a outros campos do conhecimento que não 0 decemos também os auxilios de pesquisa recebidos do CNPq, através de Bolsas de
linguístico (caso de Bakhtin, por exemplo); b) a direção das setas permite visualizar Iniciação C ientífica, Bolsas de Apoio Técnico, Bolsas de Produtividade em Pesqui-
que uma parte da reflexão desses autores configura-se em uma teoria da enuncia- sa e sob a forma de recursos financeiros. Cabe também registrar a cooperação do
ção, a contemplada no Dicionário, e que outra parte liga-se a outras reflexões; c) de- grup o TERMISUL, que nos permitiu ut ilizar alguns recursos informatizados para
monstra-se a vinculação das teorias ao quadro saussuriano e, por ele, à linguística. sup01te à nossa base de dados. Finalmente, agradecemos à Pró-Reitoria de Pesqui-
Nesse modelo, abdica-se da representação do aspecto semântico das teo- sa da UFRGS e à Editora da UFRGS pelos apoios recebidos.
rias, uma vez que o concebemos como um ponto de vista sobre a linguagem e não
como um nível da análise linguística. Uma árvore de domínio é, pois, uma forma
sempre parcial de caracterização de um campo. Apesar disso, essa representação Valdir do Nascimento Flores
cumpre, cremos, seu papel de fornecer ao leitor as informações epistemológicas Leci Borges Barbisan
Maria José Bocorny Finatto
gerais que nortearam a elaboração do Dicionário.
Marlene Teixeira

AGRADECIMENTOS
REFER~NCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Ao concluir estas Palavras ao leitor, importa ainda registrar que empreen-
de~ u~a obra como esta equivale a uma trajetória, uma verdadeira aventura, cujo AUTHIER-REVUZ. Ces mots quine vont pas de soi: boucles réjlexives et not~-coi'ncidences du dire. Paris:
Larousse, 1995.
pnme1ro passo não se deve dar sem antes contar com alguns recursos vitais. En- BENVENISTE, Émile. Problemes de linguistique générale I. Paris: Gallimard, 1966.
tre es~es recursos, destacamos dois muito especiais: o espírito de cooperação e o _ __. Problemes de linguistique générale li. Paris: Gallimard, 1974.
entusiasmo. Esses elementos foram responsáveis por manter animado todo um CREMONESE, Lia Emília. Bases epistemológicas para a elaboração de um dicionário de Lingufsticn da
Emmciação. Mestrado em Estudos da Linguagem. Universidade Federal do Rio Grande do Sul
conjunto de pessoas que havia se reunido em torno de uma crença; a crença de que (UFRGS). Instituto de Letras, Programa de Pós-graduação em Letras.
CULIOLI, Antoine. Pour une linguistique de /'enonciation, T. 1. Paris: Ophrys, 1990.
___. Pour une linguistique de /'enonciation, T. 2. Paris: Ophrys, 1990a.
___. Pour tme liuguistique de /'enonciation, T. 3. Paris: Ophrys, 1990b.
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TEZZA, Cristovão; CASTRO, Gilberto de (orgs.). Vinte ensaios sobre Mikhail Bakhtin. Petrópolis:
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FLORES, Valdir do Nascimento; SURREAUX, Luiza Milano; KUNH, Tanara Zingano. Introdução aos
EXPEDIÇÃO TERMINOLÓGICA
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Alfa. Unesp: São Paulo: 1985, p. 111-129.
KRJEGER, Maria da Graça; FINATTO, Maria José Bocorny. Introdução à terminologia: teoria e prática.
São Paulo: Contexto, 2004.
MATOS, Francisco Gomes de. O Dicio~ário de Linguistica c Gramática: notas de um leitor-posfaciador. Ter participado da organização de uma obra como esta equivale à sensação
DELTA, 2004, v. 20, p.159-164.
de ter empreendido uma aventura. Fizemos uma expedição rumo a um território
SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. São Paulo: Cultrix, 2000.
que nos surpreendeu a cada passo dado. E, ao longo da verdadeira aventura que foi
auxiliar o planejamento e a execução do desenho deste Dicionário de linguística da
enunciação, optamos por nos ajustar às situações que se apresentaram, sem o que,
dito isso com a certeza dos sobreviventes, teríamos sucumbido.
Tal ajustamento significou respeitar as especificidades de uma terminologia
viva, multifacetada, inscrita em meio a um campo para o qual convergem estudos de
diferentes ramos das ciências huma nas e sociais, como também preservar os modos
de dizer dos elaboradores e das equipes envolvidas na redação dos verbetes de cada
teórico contemplado. Tivemos em mente o usuário e o caráter didático e descritivo
de uma obra como esta. Por isso, fizemos vários testes com estudantes de Letras
que comentaram os verbetes ao longo de suas construções e sucessivas revisões.
Além disso, procuramos respeitar alguns princípios terminológicos bási-
cos: a) conceitos diferentes demandam verbetes diferentes; b) definições devem ser
concisas, sempre que possível; c) notas explicativas são muito importantes e devem
situar a definição de um conceito em meio a outros conceitos de um mesmo teóri-
co; d ) as terminologias identificadas devem ser passíveis de localização em meio a
uma representação da estrutura conceituai do campo (sua "árvore de domínio") e
de associação aos seus produtores e campos de conhecimento; e) as terminologias,
como produtos histórico-culturais, são o que são e não devem moldar-se ao que
os terminólogos desejariam que fossem.
No percurso de auxiliar a reconhecer os termos mais relevantes para com-
por o desenho de um campo de conhecimento, uma pergunta nos acompanhou.
Afinal, de que é feito um termo (científico ou técnico)? Essa questão assombra,
diariamente, todos aqueles que, como nós, dedicam-se ao trabalho-aventura de modos de dizer de uma equipe de mais de quarenta redatores de verbetes e de
ajudar a reconhecer e repertoriar terminologias dos mais variados matizes e de notas, que preencheram muito mais fichas terminológicas do que se pode supor
diferentes territórios do saber. A resposta, apressada, parece simples: "Ora, um apenas considerando o número de termos integrados ao Dicionário.
termo é uma palavra técnica, tal como policarbonato ou pancreatite. É uma palavra Por fim, devemos sempre ter em mente que colaborar para identificar uma
diferente, em suma, que tem um sentido bem específico em meio a uma comuni- terminologia, como esta que aqui se apresenta, implica relacionar os termos aos
cação específica". seus autores e textos-fonte e, sobretudo, colocar-se no lugar dos destinatários do
Concordando com a grande maioria dos estudiosos de Terminologia, 1 trabalho: o consulente. Esse usuário tem um determinado perfil e determinadas
entendemos que a resposta acima é realmente apressada. Afi nal, um termo nem necessidades. Assim, nossa função também se situou entre atender às necessidades
sempre é uma só palavra. Mostra-se, também, como uma cadeia de palavras. E, do usuário - um estudante brasileiro da área de Letras em fase final de curso ou
ao apresentar-se como cadeia, revela-nos uma unidade de sentido cujos limites que inicia seus estudos de pós-graduação - e atender às necessidades de represen-
nem sempre são fáceis de precisar. .. Se esse "perigo" de limites imprecisos entre tação do campo que se quer dar a conhecer por seus termos, conceitos, pontos de
as construções e os termos já foi apontado por quem percorreu o caminho das conta tos e diversidades fundamentais.
terminologias das ferramentas e das máquinas, o que mais se poderia esperar no Além de compreender a informação posta, acreditamos ser importante
campo das Linguísticas? ' colaborar para favorecer um entusiasmo do usuário pelo campo e dar condições
As especificidades das terminologias que circulam menos e das que se mis- para quem queira prosseguir sua pesquisa a partir de um verbete consultado. Daí
turam mais com as palavras do dia a dia estão igualmente presentes na terminologia porque sempre estão indicados termos relacionados e fontes para um aprofunda-
da Linguística da Enunciação. Ideia, sui-referencial e eu são termos em Benveniste; mento das noções apresentadas.
ilocutório implfcito e ilocutório explícito são termos cunhados por Flahault; Qnt e Qlt Do ponto de vista de algumas teorias terminológicas e práticas termino-
são outras denominações em Culioli; a confluência de duas linguas verificamos no gráficas sistematizadas internacionalmente, esta obra poderia ser chamada de
termo relação de répérage, da obra do mesmo teórico. Assim, cada um dos teóricos glossário visto que tem uma abrangência limitada- ao menos em relação ao trata-
tomados como referência para a construção desse campo dos estudos da lingua- mento dado a algumas teorias enunciativas aqui repertoriadas. Entretanto, cabe a
gem apropria-se de suas palavras de um modo que lhe é particular. Além disso, um denominação dicionário uma vez que o conjunto das terminologias reconhecidas
mesmo teórico pode estabelecer três ou quatro conceituações para um termo ao é suficiente para instrumentalizar a leitura feita das teorias no cenário da linguís-
longo de sua obra ... Essa apropriação e seu espelhamento, justamente, integram o tica brasileira.
núcleo do fazer de quem ajuda a reconhecer e a sistematizar uma dada terminologia. Em meio ao dia a dia do trabalho, aprendemos a reconhecer e a admirar,
Não se pode mais pensar, de um modo ingênuo, que caberia ao terminó- com respeito, algumas especificidades terminológicas desse campo. Vimos, por
logo apenas o trabalho de "arrumar" as diferenças e de colocá-las em ordem al- exemplo, que a influência do francês sobre a terminologia em português, em alguns
fabética. O terminólogo não deve, conforme entendemos, sublimar as diversida- momentos, é bastante presente. Deparamo-nos com termos criados pela tradução
des, as polissemias, as conceituações diferentes, tampouco conter a necessidade de e leituras brasileiras, que não nos pareceram funcionar como termos nos originais
longas notas explicativas em determinados casos, como ocorreu em enunciação dos autores, caso de agenciamento, por exemplo. Assim, foi possível testemunhar
de Bakhtin. Ele deve, sim, respeitar os modos de dizer, descrever as variações e como uma palavra do original pode transmutar-se em termo a partir da sua tra-
explicitá-las de uma maneira que seja claro, para o usuário, justamente o quadro dução e recepção. Esse fenômeno, entre tantos outros, bem poderia compor um
da diversidade. E, nesse caso, também foi preciso respeitar e conciliar os diferentes longo diário da expedição, material que auxiliaria outros exploradores tão pouco
experientes nesse campo como nós mesmos. Organiza r tal diário, contar sobre as
curvas do caminho percorrido, poderá prestar boa colaboração para novas aven-
turas em áreas afins.
' Grafada com t maiúsculo, pois corresp onde a uma •\rea de estudos já bem desenvolvida nas nossas
Universidades, enquanto terminologia com t minúsculo equivale a conjunto de termos ou termo de Esperamos que o trabalho terminológico empreendido, no que aqui é apre-
uma dada especialidade. sentado, possa ter ficado à altura das expectativas dos nossos usuários e que tenha
contemplado boa parte das necessidades de apresentar o tão rico e multifacetado
campo de conhecimentos em foco. E, para fechar o relato, vale lembrar que:

a publicação de um glossário ou dicionário será a fase final de


um processo, geralmente longo, integrado por uma sequência de
eta~as e de trabalho. A identificação de uma terminologia é um pro-
cedimento complexo e que não se reduz a um conhecimento simpli-
ficado de uma lista[ ...] Vai muito além disso e encaminha-se em di-
reção ao reconhecimento de toda uma linguagem que 'acontece' sob
um figurino diferenciado[ ... ]. (Krieger & Finatto, 2004, p. 130.)

Maria José Bocorny Finatto


Este Dicionário recebeu tratamento textual de forma a atingir uma gama
Daniel Costa da Silva
( terminólogos responsáveis pelo Dicionário) maior de leitores não necessariamente especializados em linguística da enuncia-
ção. Assim, espera-se que possa atingir professores de língua materna, em geral,
e professores de língua e linguística do nível superior, em especial. Além desses,
devem se interessar pelo que é aqui apresentado estudantes de graduação e pós-
graduação da área de Letras.
No início do Dicionário está uma LISTA ALFABÉTICA DE TERMOS. Ela
associa cada termo a cada um dos teóricos contemplados. Assim, é possível saber
previamente, sem percorrer toda a obra, o que foi destacado da terminologia de
cada um dos autores tratados.
Abaixo, um guia rápido sobre os campos do verbete:

[D Enunciação I2J (2) 12Js. f 8J Bakhtin


0 Outras denominações: enunciado, enunciado concreto.

[D Definição: materialização da interação verbal de sujeitos históricos.


12] Fonte da definição: BAK95b.
[I} Nota explicativa: Partindo da crítica de duas concepções, uma que con-
sidera a língua como sistema de normas imutáveis e outra, a enunciação,
como ato individual, Bakhtin (Volochinov] propõe a observação da dina-
micidade da linguagem e da natureza social da enunciação. [... ]

0 Fonte da nota: BAK95b.

~ Leitura recomendada: BAK97; BAK98A; BAK03E; BRA97.

IT!J Termos relacionados: dialogismo, discurso (3), gêneros do discurso.


11. Termos relacionados: outros termos presentes neste dicionário que,
LEGENDA em conjunto com o termo em foco, in tegram uma rede de noções afins
1. Termo: expressão relevante coletada na(s) obra(s) do autor. d e um mesmo autor. Sua consulta amplia a compreensão da noção em

2. (2): o número ao lado do termo indica que a mesma forma, com sen- foco no verbete. Todos os itens indicados como termos relacionados

tido diferente, ocorre em outros autores. Advertência: Oswald Ducrot corresp ondem a verbetes com informações completas.
é o único autor que apresenta sen tidos diferen tes para um m esmo ter-
mo. Quando isso ocorre, para facilitar a leitura, seus termos são apre-
sentados antes dos dem ais autores. O UTRAS INDICAÇOES IMPORTANTES

3. s.f.: classificação gramatical do termo ou expressão (s.f. == substan- 1) Em casos como o abaixo, V. significa q ue a definição e todas as demais
tivo feminino). informações est ão apresentadas no termo a que se remete (enunciação),
4. Nome: autor/teórico em foco. seu equivalente preferencial, mais empregado ou mais explorado pelo
teórico. Observe que o núm ero (2) ao lado da remissão conduzirá sem-
S. Outras denominações: variante do termo verificada na obra do mes-
pre a outro termo do mesmo teórico (Bakhtin). Não há remissões en-
mo a utor. Embora haja registro da denominação variante como ter-
mo, o verbete respectivo não tem informações nocionais. Isso significa tre autores diferentes.
que o termo que encabeça o verbete é a forma preferencial de uso e
conceituação. Para siglas simples, não há verbetes remissivos. enunciado (5) S. m. Bakhtin
6. Definição: coletada na(s) obra(s) do autor e/o u elaborada pela equi- V . enunciação (2)
pe responsável.
7. Fonte da definição: o código BAK95b corresponde à referência biblio- 2) Ao final do Dicionário estão os dados biográficos e bibliográficos de
gráfica BAK (BAKHTIN), 95 ( 1995), b (segunda obra do autor n o mes- cada um dos teóricos cuja terminologia, mais diretamente relacionada
mo ano). Há casos em que o código não remete a uma obra, m as, sim, ao campo em foco, está presente nesta obra.
à equipe que redigiu a definição. Por exemplo, EBE06 significa que a A ordenação é pelo último sobrenome de cada teórico.
definição foi elaborada pela EQUIPE BENVENISTE. Há casos em que
essa indicação significa que apenas um ou mais autores dessa equipe
são responsáveis pela definição. A informação específica sobre autoria
consta da seção COLABORADORES EREDATORES DE VERBETES.
H á casos em que uma fonte é ao mesmo tempo uma equipe e uma fon-
te bibliográfica. Isso significa que a informação contida na bibliografia
origin almente citada sofreu interferência da equipe, que reapresenta
a informação conforme a fonte, mas a altera de algum modo. Todas
as referências das fontes consultadas encontram-se n a seção FONTES
BIBLIOGRÁFICAS E BIBLIOGRAFIA RECOMENDADA.
8. Nota explicativa: informações que complementam a definição.
9. Fonte da nota: indica a fonte consultada conforme codificação an tes
citada. Aplica-se aqui o mesmo sistema d e fontes de definições acima
indicado.
10. Leitura recomendada: fontes que podem complementar as info rma-
ções oferecidas sobre o termo, conforme codificação antes citada.
DE ABREVIATURAS E SIGLAS

c.f conforme
Mackenzie Universidade Presbiteriana Mackenzie
op. cit. obra citada
PUC-RS Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul
S. substantivo
S. f. substantivo feminino
s. m. substantivo masculino
UCPEL Universidade Católica de Pelotas
ucs Universidade de Caxias do Sul
UERGS Universidade Estadual do Rio Grande do Sul
UFPR Universidade Federal do Paraná
UFRGS Universidade Federal do Rio Grande do Sul
UFSC Universidade Federal de Santa Catarina
UFSCAR Universidade Federal de São Carlos
UFSM Universidade Federal de Santa Maria
Unicerto Faculdades Integradas da União de Ensino Superior Certo
Unipampa Universidade Federal do Pampa
Unifra Centro Universitário Franciscano
Unisinos Universidade do Vale do Rio dos Sinos
UPF Universidade de Passo Fundo
USP Universidade de São Paulo
v. verbo
v. vide
AUTHIER-REVUZ, Jacqueline
Coordenação: Marlene Teixeira (Unisinos)
Equipe: Aracy Ernst Pereira (UCPel), Débora Linck, Elsa Ortiz (UFRGS), Fernan-
do Hartmann (Associação Clínica Freudiana de São Leopoldo), Karina Giacomelli
(Unipampa), Pedro de Sousa (UFSC), Vera Helena Dentee de Mello (Unisinos) e
Walkyria Wetter Bernardes (Unicerto)
Colaboração: Valdir do Nascimento Flores (UFRGS)

BAKHTIN, Mikhail
Coordenação: Marlene Teixeira (Unisinos) e Maria da Glória Corrêa di Fanti
(UCPEL)
Equipe: Ca rlos Alberto Faraco (UFPR) e Vera Lúcia Pires (UFSM)

BALLY, Charles
Coordenação: Lia Cremonese

BENVENISTE, Émile
Coordenação: Valdir do Nascimento Flores (UFRGS)
Equipe: Magali Lopes Endruweit (UERGS), Thaís Weigert, Silvana Silva (Unisinos)
e Sônia Lichtenberg
Colaboração: Célia Della Mea (Unifra) e Daniel Costa da Silva

BRÉAL, Michel
Coordenação: Thaís Weigert
Colaboração: Valdir do Nascimento Flores (UFRGS) e Daniel Costa da Silva

CHARAUDEAU, Patrick
Coordenação: Maria Eduarda Giering (Unisinos)
Equipe: Maria Helena Albé Veppo (Unisinos) e Vera Helena Dentee de Mello
(Unisinos)
CULIOLI, Antoine
Coordenação: Valdir do Nascimento Flores (UFRGS)
Colaboração: Adriana Zavaglia (USP) e Marília Blundi Onofre (UFSCAR)

DUCROT, Osvald
Coordenação: Leci Borges Barbisan (PUC-RS) e Carmem Luci da Costa Silva
(UFRGS). ALFABÉTICA DE TERMOS
Equipe: Clá udia S. Toldo (UPF), Jocelyne da C. Bocchese (PUC-RS), Lia Marquardt
(PUC-RS), Rejane F. Machado (PUC-RS), Susana Q. de Creus (PUC-RS), Tânia
Ma ris de Azevedo (UCS) e Telisa F. Graeff (UPF)

l. acento de valor-Bakhtin 29. autorrepresentação do dizer-


FLAHAULT, François
2. actan te da narração-Greimas Authier-Revuz
Coordenação: Silvana Silva (Unisinos) 30. autorrepresentação opacificante
3. actante do enunciado-Grei mas
4. actantes da comunicação-Grei mas do dizer-Authier-Revuz
FUCHS, Catherine S. actantes da enunciação-Greimas 31. autonímia-Authier-Revuz
Coordenação: José Gaston Hilgert (Mackenzie) 6. actorialização-Greimas 32. bivocalidade-Bakhtin
agenciamento-Benveniste 33. bivocalização-Bakhtin
7.
34. bloco sem ântico-Ducrot
GREIMAS, Algirdas 8. alocutário 1- Ducrot
35. caracteres afetivos naturais-Bally
9. alocutário2- Ducrot
Coordenação: José Luiz Fiorin (USP) 36. caracteres afetivos por evocação
10. aparelho formal da enunciação-
do meio-Bally
Benveniste
HAGEGE, Claude 37. carnavalização-Bakhtin
11. apropriação-Benveniste
Coordenação: Valdir do Nascimento Flores (UFRGS) 38. circuito externo-Charaudeau
12. argumentação externa-Ducrot
39. circuito in terno-Charaudeau
13. argumentação interna-Ducrot
40. correferir-Benven iste
JAKOBSON, Roman 14. a rgum entação 1 - Ducrot
41. código-Jakobson
Coordenação: Luiza Milano Surreaux (UFRGS) 15. a rgumentação 2 - Du crot com ponente linguístico-D ucrot
42.
Equipe: Tanara Zingano Kuhn 16. argument o-Ducrot 43. com ponente retórico-Ducrot
17. articulador-Ducrot 44. compreensão-Bakhtin
18. aspecto-Ducrot 45. compreensão-Benveniste
RÉCANATI, François aspectualização-Greimas
19. 46. compreensão responsiva
Coordenação: Silvana Silva (Unisinos) 20. ativa compreensão respons1va- ativa- Bakhtin
Colaboração: Cristina Damim (Unisinos) Bakhtin 47. comunicação-Greimas
21. atividade lingu ística-Ducrot 48. comunicação-Jakobson
22. ator da enunciação-Greimas 49. conceito atualizado-Bally
23. atar do enunciado-Greim as 50. conceito real-Bally
24. atualização-Bally 51. con ceito virtual-Bally
25. atualização-Benveniste 52. conclusão-Ducrot
26. atualização dos conceitos-Bally 53. conector-Ducrot
27. atualização dos termos 54. conotação auton ímica-
da frase-Bally -Authier-Revuz
28. autocomentário reflexivo-Au- 55. construção composicional-
thier-Revuz -Bakhtin
56. construção híbrida -13akh tin
..
r'
r;;·
57. contato-Jakobson
97. dispositivo do ato de linguagem-
Charaudeau
132.
133.
enunciação-Benveniste
enunciação-Culioli
174.
175.
fa la-Flahault
fala intermediária-Flahault ê
"'o
~
<:r
58. contexto-Ducrot 98. distância-Bakhtin 134. enunciação-Ducrot 176. fato de expressão-Bally ..
~

59. contexto-Jakobson
..
a"'.
n
"'-
ro
60. contradição pragmática-Récanati
99. dominante expressiva-Bally
100. domínio de comunicação-
135.
136.
enunciação-Greimas
enunciação-Jakobson
177.
178.
fato de linguagem-Bally
fato expressivo-Bally
-o
"'u..,
.·c
..0
61. contrato de comunicação-
...nr Charaudeau 13 7. enunciação-Récanati 179. figurativização-Greimas ~
Charaudeau
"'"'
3
o I OL domínio do semiótico- 138. enunciado 1 - Ducrot 180. focalização-Greimas t;
"' 62. correferência-Benven iste ;.:::l
Benveniste 139. enunciado 2 - Ducrot 181. forças centrífugas-Bakhtin
63. correlação de personalidade-
Benveniste 102. domínio nocional-Culioli 140. enunciado 3 - Ducrot 182. forças centrípetas-Bakhtin
64. correlação de pessoalidade- 103. domínios de constrangimentos- 141. enunciado 4 - Ducrot 183. forma-Benveniste
Benveniste Hagege 142. enunciado-Benveniste 184. forma abstrata-Culioli
65. correlação de subjetividade- 104. domínios de iniciativas-Hagege 143. enunciado-Bakhtin 185. forma composicional-Bakhtin
13enveniste 105. efeito-sujeito-Authier-Revuz 144. enunciado-Bally 186. forma de hererogeneidade
66. cronotopo-Bakhtin 106. efeitos diretos-Bally 145. enunciado-Greimas mostrada-Authier-Revuz
67. debreagem-Greimas 107. efeitos naturais-Bally 146. enunciado-Récanati 187. forma esquemática-Culioli
68. debreagem actancial-Greinias 108. efeitos por evocação-Bally 147. enunciado concreto-Baldltin 188. forma metaenunciativa-Authier-
69. debreagem enunciativa-Greimas 109. efeitos por evocação 148. enunciado perfomativo-Flahault Revuz
70. debreagem enunciva-Greimas do meio-Bally 149. enunciador psicossocial-Hagege 189. forma tópica-Ducrot
71. debreagem espaciai-Greimas llO. ele-Benveniste 150. enunciador 1 - Ducrot 190. forma vazia-Benveniste
72. debreagem interna-Greimas 111. ele-Bréal 151. enunciador 2- Ducrot 191. frase-Bally
73. debreagem temporal-Greimas 112. elemento subjetivo-Bréal 152. enunciador 3 - Ducrot 192. frase-Benveniste
74. delocu tividade- Ducrot 113. embrayeur-Jakobson 153. enunciador-Culioli 193. frase-Ducrot
75. denegação-Authier-Revuz 114. embreador-Jakobson 154. enunciador-Greimas 194. fronteira-Culioli
76. destinatário-Ducrot 115. embreante-Jakobson 155. enunciatário-Greimas 195. função cognitiva-Jakobson
77. destinatário-Jakobson 156. epilinguística-Culioli 196. função conotativa-Jakobson
116. embreagem actancial-Greimas
78. diacronia-Jakobson 157. escala argumentativa-Ducrot 197. função denotativa-Jakobson
117. embreagem enunciativa-Greimas
79. dialogicidade interna-Baldltin 158. espacialização-Greimas 198. função emotiva-Jakobson
118. embreagem enunciva-Greimas
80. dialogismo- Bakhtin 159. espaço de realização dos sujeitos- 199. função expressiva-Jakobson
119. embreagem espacial-Greimas
81. dialogização-Bakhtin Flahault 200. função fática-Jakobson
120. embreagem heterocategórica-
82. diálogo-Bakhtin 160. espaço-tempo-Bakhtin 201. função metalinguística-Jakobson
83. diálogo-Benveniste
Greimas
161. estilística-Bally 202. função poética-Jakobson
84. diálogo-Hagege 121. embreagem homocategórica-
162. estilística comparativa externa- 203. função referencial-Jakobson
85. diálogo interno-Bakhtin Greimas
Bally 204. gêneros discursivos-Bakhtin
86. dictum-Bally 122. embreagem interna-Greimas
163. estilística da expressividade-Bally 205. gêneros do discurso-13akhtin
87. dimensão axiológica-Bakhtin 123. embreagem temporal-Greimas
164. estilística externa-Bally 206. gêneros textuais-Bakhtin
88. discursivização-Greimas 124. embreagem-Greimas
165. estilística interna-Bally 207. glosa-Culioli
89. discurso 1 - Ducrot 125. encadeamento argumentativo-
166. estilo-Bakhtin 208. glosa metaenunciativa-Authier-
90. discurso 2 - Ducrot Ducrot
167. estilo-Jakobson Revuz
91. discurso-Bakhtin 126. encenação da linguagem-
168. eu-Benveniste 209. gradualidade-Ducrot
92. discurso-Benveniste Charaudeau 210. heterogeneidade constitutiva-
169. eu-Bréal
93. discurso-Greimas 127. entidade abstrata-Ducrot
170. excedente de visão-Bakhtin Authier-Revuz
94. discurso bivocal-Bakhtin 128. entidade concreta-Ducrot 171. exotopia-Bakhtin 211. heterogeneidade mostrada-Au-
95. discurso citado-Bakhtin 129. enunciação-Authier-Revuz 172. expressividade-Bally thier-Revuz
96. dispositivo de mise en scene da 130. enunciação-Bakhtin 173. exterioridade discursiva-Authier- 212. heterogeneidade teórica-Authier-
linguagem -Charaudeau 131. enunciação-Bally Revuz Revuz
r< 213. heteroglossia-Bakhtin 254. localização espacial-Greimas 290 . não-coincidência entre as pala- 327. polo metonímico-Jakobson Cl
!a" E
214. hibridismo-Bakhtin 255. localização temporai-Greimas vras e as coisas-Authier-Revuz 328. posição avaliativa-Bakhtin ...
"'"'
;;r 215. hibridização-Bakhtin 256. locutor-Bally 291. não-coincidência interlocutiva- 329. posto 1 - Ducrot
1l
c::r "'
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216. hipótese externa-Ducrot 257. locutor-Benveniste Authier-Revuz 330. posto 2 - Ducrot "'
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"'p.. 217. hipótese interna-Ducrot 258. locutor-Ducrot 292. não-coincidências do dizer- 331. potencial argumentativo-Ducrot ""
.D
n> ..E'!
ft 218. homem dialogal-Hagege 259. lugar-Flahault Authier-Revuz 332. práxis enunciativa-Greimas ....
~

ª
o
V>
219. ideia-Benveniste
220. ilocutório-Flahault
260.
261.
marca-Authier-Revuz
marcador-Culioli
293. não-pessoa-Benveniste
294. não-um-Authier-Revuz
333.
334.
predicação de identidade-Fuchs
presente-Benveniste
3
22 1. ilocutório explícito-Flahault 262. marcador de reformulação 295. narrado-Greimas 335. pressuposto 1 - Ducrot
222. ilocutório implícito-Flahault parafrástica-Fuchs 296. narratário-Greimas 336. pressuposto 2 - Ducrot
223. indicadores auto-referenciais- 263. marcador discursivo parafrásti- 297. negociação-Authier-Revuz 337. primeira pessoa-Bréal
Benveniste co-Fuchs 298. nível complexo-Ducrot 338. princípio da dupla estruturação-
224. indicadores de dêixis-Benveniste 264. marcador parafrástico-Fuchs 299. nível elementar-Ducrot Hagege
225. indicadores de subjetividade- 265. margem-Récanati 300. noção-Culioli 339. processo metafórico-Jakobson
Benveniste 266. meio-Bally 301. observador-Greimas 340. processo metonímico -Jakobson
226. indicar-Récanati 267. meio de expressão-Bally 302. ocorrência-Culioli 341. programação espacial-Greimas
227. indíviduo falante-Bally 268. mensagem-Jakobson 303. opacidade-Authier-Revuz 342. programação temporal-Greimas
228. insígnia-Flahault 269. metaenunciação-Authier-Revuz 304. opacidade-cum-transparência- 343. Qlt-Culioli
229. instância de discurso-Benveniste 270. metáfora-Jakobson 344. Qnt-Culioli
Récanati
230. instrução-Ducrot 271. metalíngua-Culioli 305. opacidade-Récanati 345. qualidade-D ucrot
231. intenção reflexiva-Récanati 272. metalinguística-Bakhtin 306. opacificação-Authier-Revuz 346. qualificação-Culioli
232. interdiscurso-Authier-Revuz 273. metassemântica-Benveniste 347. quantificação-Culioli
307. operação dinâmica de
233. interlocutário-Greimas 274. metonímia-Jakobson 348. reconhecimento-Benveniste
identificação-Fuchs
234. interlocutor-Ducrot 275. mise en sci!ne da linguagem- referência-Benveniste
308. operação enunciativa-Culioli 349.
Charaudeau
235. interlocutor-Greimas 309. operador 1 - Ducrot 350. referencialização-Greimas
276. modalidade-Bally
236. internalizador-Ducrot 310. operador 2 - Ducrot 351. reflexividade generalizada-
277. modalização autonímica-Au-
23 7. intersubjetividade-Benveniste 311. ordem própria da língua- Récanati
thier-Revuz
238. isotopia-Greimas Authier-Revuz 352. reformulação-Fuchs
278. modalização autonímica de
239. leis argumentativas-Ducrot 312. ordem semiótica-Benveniste 353. refração-Bakhtin
empréstimo-Authier-Revuz
240. leis lógicas-Ducrot 313. palavra-Bakhtin 354. regra-Ducrot
279. modificador 1 - Ducrot
241. lexis-Culioli 314. palavra-Benveniste 355. relação de localização-Culioli
280. modificador 2 - Ducrot
242. língua-Bally 315. palavra bivocal-Bakhtin 356. relação de interlocução-Hagege
28 1. modo de organização do discur-
243. língua-Benveniste so-Charaudeau 316. paradoxo pragmático-Récanati 357. relação de répérage-Culio!i
244. língua-Jakobson 282. modo enunciativo desdobrado- 317. paráfrase-Fuchs 358. relações dialógicas-Bakhtin
245. língua-discurso-Benveniste Authier-Revuz 318. parentesco semânico-Fuchs 359. relações lógicas-Bakhtin
246. língua falada-Bally 283. modo semântico-Benveniste 319. performatividade generalizada- 360. rem etente-Jakobson
24 7. linguagem- Bally 284. modo semiótico-Benveniste Récanati 361. retorno do dizer-Authier-Revuz
248. linguagem-Benveniste 285. modus-Bally 320. perspectivização-Greimas 362. segmento-Ducrot
249. linguagem-Culioli 286. monólogo-Benveniste 321. pessoa-Benveniste 363. segunda pessoa-Bréal
250. linguagem-Jakobson 287. mostrar-Récanati 322. plurilinguismo-Bakhtin 364. semântica argumentativa-Ducrot
251. linguagem natural-Bally 288. não-coincidência das palavras 323. plurivocalidade-Bakhtin 365. semântica linguística-Ducrot
252. linguística sócio-operativa- com elas mesmas-Authier-Revuz 324. plurivocidade-Bakhtin 366. semântica pragmática-Ducrot
Hagege 289. não-coincidência do discurso 325. polifonia-Ducrot 367. sem ântico-Benveniste
253. linguística-Culioli com ele mesmo-Authier-Revuz 326. polo metafórico-Jakobson 368. semantização-Benveniste
369. semiótico-Benveniste 401. sujeito empírico-Ducrot
370. sentido literal-Ducrot 402. sujeito falante-Bally
371. sentido-Benveniste 403. sujeito falante-Ducrot
372. sentido-Ducrot 404. tema-Bakhtin
373. sentido implícito-Ducrot 405. tematização-Greimas
374. shifter-Jakobson 406. tempo crônico-Benveniste
375. significação-Bakhtin 407. tempo da língua-Benveniste
376. significação-Ducrot 408. tempo linguístico-Benveniste
ALFABÉTICA DE VERBETES
377. significação-Récanati 409. temporalização-Greimas
378. signo ideológico-Bakhtin 410. Teoria da Argumentação na
379. signo-Benveniste Língua-Ducrot
380. signo-Récanati 411. Teoria da Polifonia-Ducrot
381. signo vazio-Benveniste 412. Teoria dos Blocos Semânticos-
382. símbolo-índice-Jakobson Ducrot
383. símbolos-Bally 413. Teoria dos Topoi-Ducrot
384. sinal-Bakhtin 414. Teoria dos Três Pontos de
385. sincronia-Jakobson Vista-Hagege acento de valor S. m. Bakhtin
386. sintagmatização-Benveniste 415. terceira pessoa-Benveniste Outras denominações: dimensão axiológica, posição avaliativa, valoração.
387. situação de comunicação- 416. terceira pessoa-Bréal Definição: tratamento avaliativo que constitui todo enunciado.
Charaudeau 417. termo da frase-Bally Fonte da definição: BAK95b.
388. situação de discurso-Benveniste 418. texto-Ducrot Nota explicativa: O acento de valor (apreciativo, avaliativo) acompanha toda forma
389. situação de enunciação-Culioli 419. texto-Récanati
de enunciação, sendo uma condição para sua existência. Por isso, para uma dada
390. subentendido-Ducrot 420. textualização-Greimas
391. subjetividade-Benveniste unidade da língua tornar-se enunciado, ela deve receber um tratamento avaliativo,
421. token-reflexividade-Récanati
392. sui-referencial-Benveniste 422. topos-Ducrot que acontece quando um locutor na relação com o outro toma atitude responsiva
393. sujeito-Bally 423. translinguística-Bakhtin frente a uma realidade específica. Logo, todo enunciado compreende uma orien-
394. sujeito- Benveniste 424. transparência-Récanati tação valorativa que permite a criação de variados sentidos a um mesmo segmento
395. sujeito barrado-Authier-Revuz 425. tu-Bréal linguístico. Há, assim, uma reavaliação, um deslocamento de uma palavra deter-
396. sujeito clivado-Authier-Revuz 426. um-Authier-Revuz minada de um contexto para outro, marcando sua apreciação social e evolução
397. sujeito descentrado- 427. unicidade-Benveniste histórica. A materialização dos acentos valorativos impressos nos enunciados pode
Authier-Revuz 428. valor argumentativo-Ducrot
ser observada pela entonação (entoação) expressiva (como tom amistoso, auto-
398. sujeito dividido-Authier-Revuz 429. valor expressivo-Bally
399. sujeito da enunciação-Greimas 430. valoração-Bakhtin ritário, irônico, professoral, demagógico, científico) inscrita em diferentes situa-
400. sujeito-efeito-Authier-Revuz 43 1. verbos delocutivos-Benveniste ções de comunicação discursiva, fazendo os temas variarem. A expressividade do
enunciado, situada na fronteira entre o verbal e o não-verbal, o dito e o não-dito, é
uma resposta que faz emergir a relação do locutor não só com o próprio objeto do
discurso, mas também com os enunciados do outro sobre o mesmo objeto, o que
reflete a dialogicidade constitutiva (entre discursos e sujeitos) e a sua dimensão
social. Enunciar, dessa forma, é atribuir valor ao q ue se diz e aos outros dizeres,
é se posicionar ideologicamente em relação ao outro. Pela mudança de acento de
valor da palavra, podemos observar a pluriacentuação do enunciado, as possibi-
lidades de sentido, sua irrepetibilidade. Nesse contexto, toda palavra utilizada em
uma dada interação possui expressividade, valoração, constituindo-se como enun-
~ ciado, cuja dimensão axiológica expressa juízo de valor e posições ideológicas de actorialização s.f Greimas
!ir sujeitos do discurso. Definição: procedimento de instituição dos atores do discurso.
e.
~ Fonte da nota: BAK95b: 107, 132, 134-135; BAK03E; VOL81B. Fonte da definição: GRE79a: 8-9.
"'
§· Leitura recomendada: BAK95b; BAK03E; DIF04; PONOS. Nota explicativa: A actorialização é um dos componentes da discursivização. É o
~ Termos relacionados: enunciação (2), signo ideológico, tema. procedimento pelo qual se instituem os atores do discurso, seja os da en unciação
~
,.
& (aquele que fala ou aquele para quem se fala), seja os do enunciado (aqueles de
li actante da narração S. m. Greimas quem se fala) .
V. actante do enunciado Fonte da nota: FI096: 117-118.
Leitura recomendada: FI096: 59-126; GRE79a: 8-9; GRE08.
actante do enunciado S. m. Greimas Termos relacionados: aspectualização, ato r da enunciação, discursivização.
Outras denominações: actante da narração
Definição: posição narrativa que compreende o ele, indicadora daquele que realiza agendamento S. m. Benveniste
ou sofre uma ação, independentemente de qualquer outra determinação semântica. Definição: processo de organização sintagmática pelo sujeito.
Fonte da definição: GRE79a: 3. ' Fonte da definição: EBE06.
Nota explicativa: O conceito de _actante do enunciado substitui, na Semiótica fran- Nota explicativa: Através do agendamento, o sujeito organiza as formas da língua
cesa, o de personagem, porque, de um lado, ele engloba não somente seres huma- para transmitir a ideia a ser expressa em seu enunciado.
nos, mas também animais, objetos ou conceitos; de outro, é anterior aos investi- Nota terminológica: agenciamento é um termo dentro da teoria benvenistiana que
necessita de atenção por parte do leitor brasileiro. Revendo algumas ocorrências,
mentos semânticos que constroem as personagens.
no texto em francês, de agencement e de agencer e suas formas derivadas, assim
Fonte da nota: GRE79a: 3-4.
como as de agenciamento e do verbo agenciar, no texto traduzido em português, e
Leitura recomendada: BAR02b: 28-43; BER03: 287-303; FI005: 27-41; GREOS.
fazendo um cotejamento entre tais ocorrências, constata-se que o verbo original
Termos relacionados: actantes da enunciação, enunciador (5), enunciatário.
agencer resulta em quatros formas na tradução: agenciar, arrumar, arranjar e or-
ganizar. Ocorre que, quando se traduz agencement por agenciamento, deixa-se de
actantes da comunicação s. m. Greimas usar um sinónimo natural de organização e se institui um novo termo, diferente da
V. actantes da enunciação acepção da palavra original. Assim, acontece uma espécie de deslocamento concei-
tuai que, pelo uso específico dentro da teoria, confere o estatuto de termo a agen-
actantes da enunciação s. m. Greimas ciamento, isto é, um caráter único frente a todos outros usos que se possa fazer da
Outras denominações: actantes da comunicação palavra fora desse contexto. Observando alguns contextos em que aparece o vocá-
Definição: parceiros do ato enunciativo que compreende o eu e o tu. bulo agencement, percebe-se que Benven iste o utiliza em combinação com diversas
Fonte da definição: GRE79a: 3. outras unidades: agencement des mots, agencement syntagmatique, agencement des
Nota explicativa: Os actantes da enunciação aparecem em três níveis distintos: formes, agencement du langage, agencement de la langue, agencement d'un répertoire
1) o autor e o leitor implícitos, que são pressupostos pela própria existência do de termes, agencement designes, agencement du systeme des classes sociales.
enunciado, chamados enunciador e enunciatário; 2) aquele que narra e aquele para Fonte da nota: BEN95: 230-233.
quem se narra, que estão projetados no interior do enunciado, denominados nar- Leitura recomendada: BEN89A.
rador e narratário; 3) as personagens que dialogam entre si no interior do texto, Termos relacionados: apropriação, referência, sintagmatização.
nomeados de interlocutor e interlocutário.
Fonte da nota: FI004a. alocutário ( 1) S. m. Ducrot
Leitura recomendada: FI096: 59-72; GRE79a: 3-4; GRE08. Definição: aquele para quem as palavras do locutor são dirigidas.
Termos relacionados: enunciador (5), enunciatário, interlocutor. Fonte da definição: DUC80b; EDU06.
Nota explicativa: O termo alocutário (l) refere-se ao momento em que Ducrot
r No próprio texto de 1970, é possível deduzir dos contextos de ocorrência do termo
vinculava seus estudos à Pragmática em 1980. Nessa época, postula, na noção ge- certa flutuação conceituai. Observe-se: "Os 'tempos' verbais cuja forma axial, o
nérica de interlocutor, a distinção entre os pares locutor/alocutário; enunciador/ 'presente', coincide com o momento da enunciação, fazem parte deste aparelho
destinatário. Exemplo: no enunciado "A ordem será mantida custe o que custar", necessário" (BEN95: 85) (grifo nosso); "Desde o momento em que o enunciador
supostamente dita por um ministro de estado, em decorrência de desordens, rea- se serve da língua para influenciar de algum modo o comportamento do alocutá-
rio, ele dispõe para este fim de u m aparelho de funções" (BEN95: 86) (grifo nosso).
liza, segundo Ducrot , dois atos: o de promessa e o de ameaça. O locutor (inscrito
no dizer do ministro) dirige-se ao alocutário (representado pelo povo em geral), Fonte d a nota: BEN95; BEN95; EBE06.
produzindo os atos de promessa e de ameaça, respectivamente dirigidos a dois Leitura recomendada: BEN89C.
Termos relacionados: enunciação ( 4), língua (2), d iscurso ( 4).
destinatários distintos: bons cidadãos e desordeiros.
Fonte da nota: DUC80b; EDU06.
Termos relacionados: destinatário (1), interlocutor (1), locutor (2).
apropriação s.f Benveniste
Definição: processo de uso da língua pelo sujeito por meio de sua enunciação.
Fonte da definição: BEN89: 84; BEN95: 281, 288.
alocutário (2) s.m. Ducrot Nota explicativa: Benveniste ressalta que o processo de apropriação ocorre com a
Definição: aquele que é iinguisticamente representado n o enunciado como alvo
tomada, por inteiro, da língua. É o estabelecimen to pelo sujeito de relações com as
da enunciação.
formas da língua, de modo a selecio nar aquelas que forem compatíveis com a ideia
Fonte da definição: DUC87B; DUC88; EDU06.
a ser expressa. Cabe lembrar, porém, que o termo apropriação, a exemplo de muitos
Nota explicativa: O termo alocutário (2) refere-se ao momento em que Ducrot
outros utilizados por Benveniste, pode receber nuances de sentido muito impor-
esboça a Teoria da Polifonia em 1984. Alocutário é um ser do discurso distinto do
tantes em função do tema ao qual o aut or está se referindo. Assim, em Estruturalis-
ser empírico (ouvinte). É indicado n o enunciado como aquele a quem se dirige a mo e linguística, entrevista a Pierre Daix em 1968, encontra-se a seguinte passagem:
enunciação. Por isso, o alocutário é intralinguístico como o locutor, e o ser empí- "A apropriação da linguagem pelo homem é a apropriação da linguagem pelo con-
rico (falante ou ouvinte) é extralinguístico. junto de dados que se considera que ela traduz, a apropriação da língua por todas
Fonte da nota: DUC87B; DUC88; DUC95b; EDU06. as conquistas intelectuais que o manejo da língua permite. É algo de fundamental:
Termos relacionados: enunciado (1 ), locutor, sujeito falante (2). o processo dinâmico da língua, que permite inventar novos conceitos e por con-
seguinte refazer a língua, sobre ela mesma de algum modo" (BEN89: 21) (grifo
aparelho formal da enunciação S. m. Benveniste nosso). Ou ainda em A natureza dos pronomes: "os indicadores eu e tu não podem
Definição: dispositivo que permite ao locutor transformar a língua em discurso. existir como signos virtuais, não existem a não ser na medida em que são atuali-
Fonte da definição: EBE06. zados n a instância de discurso, em que marcam para cada uma das suas próprias
Nota explicativa: Ao apropriar-se do aparelho formal da enunciação, o locutor instâncias o processo de apropriação pelo locutor" (BEN95: 281) (grifo nosso).
produz uma referência única e irrepetível, permitindo a semantização da língua. Fonte da nota: BEN89: 84; BEN95: 281, 288.
Tal movimento faz emergir os índices de pessoa (a relação eu-tu), os índices de Leitura recomendada: BEN89C; BEN95A; BEN95B.
ostensão (este, aqui) e as formas temporais, produzidas na e pela enunciação. Não Termos relacionados: atualização (2), língua (2), subjetividade.
se pode deixar de acrescentar que a noção de aparelho é recorrente e não sem am-
biguidades na teoria benvenistiana. Embora o autor lhe tenha dedicado um tex- argumentação (1) s.f Ducrot
to especial, O aparelho formal da enunciação, de 1970, muitas são as ocorrências Definição: operação semântico-discursiva em que o sentido do enunciado é cons-
do termo no conjunto da obra. Assim, Benveniste, ao fazer a distinção entre a truído a partir de um segmento-argumento e um segmento-conclusão, mediados
enunciação histórica e a enunciação d e discurso, em As relações de tempo no verbo por um lugar-comum argumentativo.
francês, texto de 1959, considera que "o historiador não dirá jamais eu nem tu nem Fonte da definição: DUC88; DUC89b; EDU06.
aqui nem agora, porque não tomará jamais o aparelho formal do discurso que con- Nota explicativa: Essa definição de argumentação apoia-se na Teoria dos Topai.
siste em primeiro lugar na relação de pessoa eu: tu" (grifo nosso) (BEN95: 262). Segundo essa teoria, a argumentação é construída pela relação entre os segmentos
argumento e conclusão e garantida por um princípio argumentativo, o topos, que Fonte da nota: CAR99; CAR02b; DUC02a; DUC02b; EDU06.
estabelece a passagem de um segm ento a outro. No exem plo "Pedro é inteligente, Termos relacionados: argumentação interna, aspecto, encadeamento argumentativo.
portanto é um bom aluno", a passagem do argumento Pedro é inteligente para a
conclusão é um bom aluno é mediada pelo seguinte princípio argumentativo (to- argumentação interna s.f Ducrot
pos): os inteligentes são bons alunos. Definição: encadeamento argumentativo que parafraseia uma entidade lexical
Fonte da nota: DUC88; DUC89b; EDU06. Fonte da definição: DUC02a; DUC02b.
Termos relacionados: argumento, conclusão, topos. Nota explicativa 1: Entidade lexical é concebida aqui como palavra ou expressão
atualizada no discurso/enunciado.
argumentação (2) s.f Ducrot Nota explicativa 2: Como a argumentação interna de uma entidade lexical é um
Definição: operação semântico-discursiva em que o sentido de uma entidade lin- encadeamento argumentativo que se constitui numa espécie de reformulação, essa
guística é construído a partir da interdependência entre os dois segmentos do en- entidade não é, ela p rópria, um segmento desse encadeamento. Ex.: a argumenta-
cadeamento argumentativo. ção interna de prudente é perigo DC (donc =portanto) precaução, que não con-
Fonte da definição: CAROl; CAR02a; DUC02a; DUC02b; EDU06. tém a entidade lexical prudente.
Nota explicativa: Essa definição de argumentação apoia-se na Teoria dos Blocos Fonte da nota: CAR99; CAR02b; DUC02a; DUC02b; EDU06.
Semânticos (versão mais recente da Teoria da Argumentação na Língua), pela qual Termos relacionados: argumentação externa, aspecto, encadeamento argumentativo.
argumentar consiste em construir sentido pela interdependência entre dois seg-
mentos que compõem o encadeamento argumentativo. Nos encadeamentos "Pedro
argumento S. m. Ducrot
é rico: ele deve ser feliz" e "Pedro casou-se com Maria: ele deve ser feliz", não se
Definição: segmento do enunciado que orienta para uma conclusão.
trata da mesma felicidade, já que, no primeiro encadeamento, há interdependên-
Fonte da definição: DUC89b; EDU06.
cia entre felicidade e riqueza e, no segundo, entre felicidade e amor.
Nota explicativa: O argumento é definido como um segmento que juntamente
Fonte da nota: CAROl; CAR02a; DUC02a; DUC02b; EDU06.
com o segmento conclusão constitui o sentido do enunciado. Essa concepção apa-
Termos relacionados: encadeamento argumentativo, segmento, Teoria dos Blo-
rece desde a chamada versão Standard da Teoria da Argumentação na Língua até
cos Semânticos.
a versão denominada Teoria dos Topai. No exemplo "Faz calor lá fora, vamos pas-
sear.", temos um enunciado constituído por dois segmentos, sendo o primeiroFaz
argumentação externas.f. Ducrot
calor lá fora argumento para o segundo vamos passear. Note-se que o sentido de
Definição: pluralidade de discursos que podem seguir uma entidade lexical.
calor só pode ser apreendido na relação entre os dois segmentos. Assim, calor nesse
Fonte da definição: DUC02a; DUC02b; EDU06.
Nota explicativa 1: Entidade lexical é concebida aqui como palavra ou expressão enunciado é favorável ao passeio. Se tivéssemos Faz calor lá fora, não vamos passe-
atualizada no discurso/enunciado. ar, calor seria desfavorável a um passeio.
Nota explicativa 2: Uma entidade lexical é evocada de modo externo se essa en- Fonte da nota: DUC88; DUC89b; EDU06.
tidade constitui um segmento do encadeamento argumentativo. Se uma entidade Termos relacionados: argumentação (1), enunciado (3), sentido.
lexical, como, por exemplo, ter pressa é o primeiro segmento do encadeamento
argumentativo, o aspecto está relacionado a ela de modo externo à direita, e são as- articulador S. m. Ducrot
sinaladas as consequências de ter pressa: ter pressa DC (dane= portanto) agir rapi- Definição: entidade lexical cuja função é comparar as argumentações que consti-
damente. Se a entidade lexical ter pressa é o segundo segmento do encadeamento, tuem o sentido do segmento que a precede e do que a segue.
o aspecto está relacionado a ela de modo externo à esquerda: andar rapidamente Fonte da definição: DUC02a; DUC02b; EDU06.
DC (dane= portanto) ter pressa, em que é indicada a causa de ter pressa. Uma Nota explicativa 1: Entidade lexical é concebida aqui como palavra ou expressão
possibilidade de argumentação externa para a expressão t er pressa é ter pressa DC atualizada no discurso/enunciado.
(dane= portanto) agir rapidamente. Nesse caso, a expressão ter pressa participa do Nota explicativa 2: Articuladores são entidades lexicais como e, porque e mas, uti-
encadeamento argumentativo. lizadas para relacionar e comparar enunciados e segmentos no discurso. Assim,
_ d ecto à espacialidade e à actorialidade. A
por exemplo, diante do convite para uma caminhada, o discurso 1 faz bom tempo, iótica estende a noçao e asp . , . ) ,
lenta). A sem . , d' tância (lugares acessíveis e macesstVets 'a
mas eu estou cansado argumenta por uma recusa, enquanto o discurso 2 estou . d de do espaço concel ne a JS M l
aspectuaIt a . . d d . poemas denominados Belo Belo, de anue
cansado, mas faz bom tempo argumenta por uma concordância. Em ambos os ltmtares Num os ms d'd I
extensão e aos . ·;, . l'd- dos píncaros/ A água da fonte escon 1 a
discursos, tem-se o mas articulando dois segmentos: o locutor de 1 afirma que os .. oeta diZ: Quero aso I ao -
Bandena, o P . , l" Para mostrar que quer o que nao
fi . ceu/ Sobre a escarpa macesstVe . . ..
desagrados do cansaço são mais importantes do que os agrados do bom tempo, en- A rosa que QleS . om a distância, a inacessibilidade. A as-
quanto o locutor de 2 afirma, ao contrário, que o agrado do bom tempo prevalece. . poeta aspectuahza o espaço c . d
pode ser, o . . , l'dade da realização. Asstm, um gesto po e
Fonte da nota: CAROl; DUC02a; DUC02b; EDU06. .d d d to r dtz respeitO a qua 1
pectuah a e o a -d de ser segura ou hesitante, pode-se falar uma
Termos relacionados: argumentação (1), conector, sentido (2). I t ou desastra o, a voz po . . d
ser e egan e • . d'fi Idade uma atitude pode ser prectptta a
·. com fluencta ou 1 cu ' .
língua estrangeua miótica é sempre uma quahfica-
momento certo. O aspecto, em se ' . b
aspecto S. m. Ducrot ou toma da no Q estabelece esse ponto de VIsta so re
Definição: classe de encadeamentos argumentativos de um mesmo bloco semântico. ção do tempo, do espaço ou da pessoa. uem
Fonte da definição: CAR98; DUC02a; DUC02b; EDU06. as categon··as da enunciação é o observador.
. GRE?9a: 21 -22; GRE79b: 19-20.
Nota explicativa: Um bloco semântico formado por estudar/ser aprovado, por Fonte da no ta.
exemplo, pode ser expresso no encadeamento argumentativo sob dois aspectos: eitura recomendada: F1089; GRE08; SIL04. . -
~ermos relacionados: actorialização, espacialização, temporahzaçao.
o normativo com o conector do tipo geral de donc (=portanto), em que se tem
"estudar DC (donc) aprovado", e o transgressivo com o conector do tipo geral de
pourtant (= no entanto), em que se tem "estudar PT (pourtant) não ser aprovado".
ativa compreensão responsiva s.f Bakhtin
São considerados de aspecto normativo os encadeamentos (1) João estudou, por- v. compreensão (1)
tanto foi aprovado; (2) Se Pedro estudou, então será aprovado; (3) João foi apro-
· ·d de linguística sf. Ducrot
vado porque estudou. Da mesma forma, são considerados de aspecto transgressivo atlVl a . .fi .ológicos e psicológicos que tornam possível a
os encadeamentos: (4) João estudou, mesmo assim não foi aprovado; (5) Embora Definiç~o:dco~Jiuntolde·p~~~~~::s e: um ponto particular do espaço e do tempo.
tenha estudado, João não foi aprovado; (6) Ainda que tenha estudado, João não produçao a 1a a, pe o m '
será aprovado. d d finição· DUC80a; EDU06.
Fonte a r e t' . ~ noção de atividade linguística diz respeito ao conjunto de ~~o­
Fonte da nota: CAR98; DUC02a; DUC02b; EDU06. Nota exp tca tva. , 1a produção da fala por um suJeitO
Leitura recomendada: CAR98. cessos externos à linguagem que tornam posslVe
Termos relacionados: bloco semântico, encadeamento argumentativo, regra. falante em dada enunciação.
Fonte da nota: DUC80a; EDU06. . . ( )
. . _ (S) enunciado (2), suJeito falante 2 ·
aspectualização s.f Greimas Termos relaciOnados: enunctaçao '
Definição: processo de estabelecimento de um ponto de vista a respeito das cate-
d enunciação s. m. Greimas . ,
gorias de tempo, espaço e pessoa. at Of a . . d t enunciativo dotada de característiCaS pSI-
Fonte da definição: GRE79a: 21. Definição: imagem dos parcetros o a o
Nota explicativa: O aspecto sempre foi entendido pela Linguística como "um pon- quicas e físicas e de um tom de voz.
to de vista do sujeito sobre o processo". Ele modula o conteúdo do predicado, Fonte da definição: FI004a. . - roxima-se do éthos de retóri-
ao considera r o processo, inscrito no tempo, como acabado (perfectivo) ou não Nota explicativa: O conceito de ator da endunctaça~ ap_o (enunciador/enunciatário;
· d actantes a enunCtaça
acabado (imperfectivo), pontual ou durativo. A duratividade pode ser vista em sua ca clássica. É uma tmagem os , . , · fi · de um tom
continuidade ou descontinuidade (iterativo). Além disso, o processo que tem du- narrador/narratário) constituída de caractensttcas pstqultc~s e ~::ss;o porém, o
. d nciatário são o autor e o et or. '
ração pode ser encarado em seu início (incoativo), em seu desenvolvimento (cur- de voz. O enunCia ore o enu t e o let'tor implícitos, ou seja,
. . d osso mas o au or
sivo) ou em sua conclusão (terminativo). Ainda, a duração pode ser considerada autor e o lettor reats, e carne e ' , I D mesma forma, a ima-
uma imagem do autor e do leitor constrmda pe o texto. a
quantitativamente (em horas, dias, meses, anos etc.) ou qualitativamente (rápida,
~ gem do narrador e a do narratário são depreendidas do texto. Quanto à diferença sujeito tem da realidade. A atualização tem por efeito inverter a relação entre a
~ entre elas, pode-se dizer que, enquanto a imagem do narrador e a do narra tá rio são extensão e a compreensão dos conceitos. Um conceito virtual é indeterminado
g: apreendidas num texto singular, a do enunciador e a do enunciatário são captadas em extensão (por não haver como definir o total de possibilidades de uso) e de-
"''·
g na totalidade da obra. Machado de Assis é o enunciador de Memórias póstumas terminado em compreensão (por apresentar um número limitado de caracteres
~ de Brás Cubas e Dom Casmurro é seu narrador. A imagem d este é percebida no distintivos). Já um conceito atualizado é determinado em extensão (por ser carac-
~
g- conjunto dessa obra, enquanto a do enunciador é depreendida da totalidade da terizado em relação a um determinado uso por um sujeito) e indeterminado em
ii obra do autor. Isso permite dar uma definição enunciativa à heteronírnia: uma compreensão (por referir-se a uma noção individual, à representação de realidade
pluralidade de enunciadores na obra de um m esmo autor real. do sujeito que faz uso dele).
Fonte da nota: FI004a. Fonte da nota: BAL65: 77 e s.
Leitura recomendada: FI004a; FI004b; DIS03. Leitura recomendada: CHI85; DUR98; MED85.
Termos relacionados: conceito real, conceito virtual, frase (1).
Termos relacionados: actorialização, ator do enunciado, discursivização.

ator do enunciado S. m. Greimas atualização (2) s.f Benveniste


Definição: processo de inserção do signo em uma dada instância de discurso.
Definição: unidade lexical nominal que condensa os conteúdos semânticos que
Fonte da definição: BEN95: 281-282.
dão concretude aos seres de quem se fala.
Nota explicativa: Benveniste ilustra o processo de atualização com os signos eu
Fonte da definição: GRE79a: 8.
e tu. Segundo o autor, tais signos não têm significado como formas objetivas ou
Nota explicativa: O conceito de ator do enunciado substitui, num cuidado de preci-
virtuais, afinal, eu não designa nada nem ninguém. No entanto, eu, no instante em
são e de generalização, o de personagem, a fim de tornar possível seu emprego fora
que fizer parte de uma instância de discurso, é automaticamente atualizado com o
do domínio literário (por exemplo, uma indústria ou um ministro religioso). Seu sentido que emana da totalidade do significado da enunciação que integra. Assim,
conteúdo semântico básico é a presença do traço de individuação, que o faz apare- o signo, ao ser atualizado, passa a ter existência na língua-discurso.
cer como uma figura autônoma do universo semântico. O ato r pode ser individua}
Fonte da nota: BEN95: 281 -282.
(Riobaldo), coletivo (o MST), figurativo (concreto, como o lobo ) ou não figurati-
Leitura recomendada: BEN95A.
vo (abstrato, como o destino). A individuação do ator é frequentemente marcada Termos relacionados: apropriação, enunciação ( 4), língua-discurso.
pela atribuição de um nome próprio (por exemplo, Aurélia, Iracema, Dona Flor).
No entanto, isso não é condição necessária para a existência do ator, pois um papel atualização dos conceitos s. r Bally
(por exemplo, o professor, o marido) é suficiente para sua denominação. V. atualização (l)
Fonte da nota: GRE79a: 7-8.
Leitura recomendada: GRE79a: 7-8; GRE08. atualização dos termos da frase s.f Bally
Termos relacionados: actorialização, ator da enunciação, discursivização. V. atualização (1)

atualização ( 1) s. r Bally autocomentário reflexivo S. m. Authier-Revuz


Outras denominações: atualização dos conceitos, atualização dos termos da frase. V. glosa metaenunciativa
Definição: processo pelo qual o sujeito transforma a língua em fala.
Fonte da definição: BAL65: 77 e s. autonímia s. f Authier-Revuz
Nota explicativa: Segundo Bally, para se tornar um termo da frase, um conceito Definição: fenômeno linguístico caracterizado pela menção de um signo como
virtual, unidade da língua, deve ser atualizado pelo sujeito, o que o torna um con- forma de autodesignação.
ceito real, unidade da fala. A atualização dos conceitos consiste, então, em fazê-los Fonte da definição: AUT95a; AUT95b.
passar à realidade. É importante destacar que "real" refere-se à realidade para o Nota explicativa: Authier-Revuz toma a noção de autonímia proposta por Rey-
sujeito, não à realidade objetiva, concreta. Trata-se de uma representação que o Debove (1978: 144), segundo a qual o fenômeno ocorre quando uma palavra fi-
gura no discurso como autodesignação de um signo. Do signo comum ( "
") . , . ou em
~so ao sign~ a.utommico, há a passagem de um signo de semiótica simples a um
signo de semiótica complexa, isto é, o signo autonímico representa um todo com
s~gnifican~e e significado, pois o significante integra 0 significado, como se 0 signo
tivesse dois andares. Ao se tomar um signo e falar dele te ' , ·
, r-se-a uma autonuma.
Po~ exemp~o, em '"co~por' é uma palavra ambígua", fala-se da palavra "compor", bivocalidade s.f Bakhtin
e nao daquJ!o que ela significa normalmente. Outras denominações: bivocalização, discurso bivocal, palavra bivocal.
Fonte da nota: FLOOS: 78-79; REY78: 144; TEIOSa: 141 - 142. Definição: propriedade do enunciado de ser constituído a partir do diálogo.
Leitura recomendada: AUT96; FLOOS: 78-79; FL008; REY78; TEIOSa. Fonte da definição: BAK98A.
Termos relacionados: conotação autonfmica, modalização autonímica. Nota explicativa: Considerando que a enunciação acontece em um meio plurilin-
gue dialogizado, em que circulam diferentes linguagens, posições sociais, pontos
autorrepresentação do dizer s.f Authier-Revuz de vista, que se interceptam de diversas maneiras, o enunciado é sempre bivocal,
V. m etaenunciação ou seja, traz em sua constituição o diálogo entre diferentes vozes discursivas. A
bivocalidade é orgânica, pois há ressonâ ncias de vozes no todo do enunciado, ca-
racterística própria da sua dialogicidade interna. Logo, a palavra, assim como o
enunciado e o discurso, é bivocal, e essa propriedade pode ser mais ou menos
aparente, dependendo dos gêneros do discurso mobilizados. No romance, por
exemplo, gênero em que a palavra bivocal é bastante explorada por Bakhtin, o plu-
rilinguismo, considerado o discurso de outrem na linguagem de outrem, orienta
para o desencadeamento de interpretações relacionadas ao dizer do autor. Isso se
dá pela palavra bivocal, que serve simultaneamente a dois locutores (personagem e
autor) e exprime ao mesmo tempo duas intenções diferentes: a intenção direta do
personagem que -fala e a intenção indireta (modificada) do autor. Nessê discurso
há duas vozes, duas expressões, duas linguagens. São vozes dialogicamente correla-
cionadas, como se se conhecessem uma à outra, como se conversassem entre si. O
discurso bivocal surge sob as condições da vida au têntica da palavra (a língua em
uso, o enunciado concreto) e suas implicações eu/outro, suas relações dialógicas.
Portanto, a palavra, m esmo isolada, sendo interpretada como representante do
enunciado do outro (sujeito/discurso), é bivocal, internamente dialogizada.
Fonte da nota: BAK97: 184-185; BAK98A: 127.
Leitura recomendada: BAK97; BAK98A.
Termos relacionados: dialogismo, hibridização, plurilinguismo.

bivocalização s.f Bakhtin


V. bivocalidade

bloco semântico s. m. Ducrot


Definição: entidade semântica, unitária e indecomponível, subjacente a encadea-
mentos argumentativos.
Fonte da definição: CAR95; CAR98; EDU06.
Nota explicativa: O bloco semântico subjacente aos encadeamentos (1) "Ped ro
estudou um pouco, portanto tem possibilidades de ser aprovado" e (1') "Pedro es- ~~
tudou pouco, portanto não tem possibilidades de ser aprovado" pode ser expresso
pelo enunciado "o estudo conduz ao êxito", o qual estabelece uma interdependên-
cia semântica entre estudo e êxito. Essas duas palavras formam um bloco semântico,
'l&á
por expressarem um modo particular de representar, ao mesmo tempo, a relação caracteres afetivos naturais s. m. Bally
entre estudo e êxito. Trata-se de um estudo que conduz ao êxito e de um êxito V. efeitos naturais
obtido pelo estudo, o que significa que o sentido do bloco n ão resulta da soma dos
sentidos das palavras que o compõem, tomadas isoladamente, mas da interdepen- caracteres afetivos por evocação do meio s. m. Bally
dência semântica existente entre elas. Nessa perspectiva, o enunciado "o estudo V. efeitos por evocação
conduz ao êxito" é a expressão de uma única ideia, resultante do relacionamento
sem ântico entre seus termos. carnavalização s.f Bakhtin
Fonte da nota: CAR95; CAR98; EDU06. Definição: processo cultural em que há uma alegre inversão do estabelecido.
Termos relacionados: aspect0, encadeamento argumentativo, regra. Fonte da definição: BAK97: 122.
Nota explicativa: Bakhtin é um dos m ais importantes teóricos do riso. Destaca seu
caráter universal (está presente em todas as culturas) e ambivalente (o discurso
cómico não é niilista: destrói para reconstruir, ridiculariza para renovar). Esse riso
ambivalente tem em si uma vitalidade indestrutível, um p oder transformador e
criador de vida. Daí decorre sua relevância para a evolução histórica da cultura
e da literatura. Segundo Bakh tin, o riso não recusa o sério, mas purifica-o e com-
pleta-o. Purifica-o do dogmatismo, do caráter unilateral, da esclerose, do fanatis-
mo e do espírito categórico, dos elem entos de medo ou int imidação, do didatismo,
da ingenuidade e das ilusões, de uma nefasta fixação sobre um plano único. O riso
impede que o sério se fixe e se isole da integridade inacabada da existência coti-
diana. Ele restabelece essa integridade ambivalente. Em seu livro sobre Rabelais,
Bakhtin estuda em profundidade a cultura cómica popular da Europa medieval.
Recupera suas fontes milenares, busca desvendar sua lógica emancipadora dian-
te da seriedade da cultura gótica no contexto do Renascimento e mostra o papel
histórico de Rabelais nesse contexto. Segundo Bakhtin, foi ele o primeiro autor
moderno a transpor para a literatura erudita a lógica da cultura cómica popular,
isto é, a lógica do carnaval. Bakhtin não se limita a discutir o carnaval como uma
festa popular, mas o caracteriza em sentido amplo como uma concepção de mun-
do. Essa concepção carnavalesca se caracteriza por uma alegre inversão do mundo
estabelecido: suspende-se a estrutura hierárquica, ridiculariza-se o sério e o oficial,
anulam-se as barreiras entre o alto e o baixo, o sagrado e o profano, o grande e
o insignificante. Ao permitir a experiência de uma vida às avessas, a cultura car-
navalesca p roclama a alegre relatividade de tudo e a possibilidade de um mundo
diferente. Nesse sen tido, é inerente à cultura carnavalesca um impulso utópico.
Carnavalizar é, portanto, indispensável p ara vivificar e transformar a vida cultural.
Carnavalização tem em Bakhtin um sentido estrito e um sentido amplo. No pri- como uma encenação da qual participam seres de fala. Esta dupla realidade do di-
meiro, o termo é usado para designar os processos pelos quais se faz a transposição zer e do fazer leva à consideração de que o ato de linguagem é uma totalidade que
da lógica da cultura carnavalesca para a literatura erudita. Bakhtin dedica boa par- se compõe de um circuito externo (fazer) e de um interno (dizer), indissociáveis
te de seu estudo da obra de Dostoievski para demonstrar a ligação deste roman- um do outro. No circuito interno, situam-se os sujeitos protagonistas, definidos
cista com a tradição literária carnavalesca e as maneiras pelas quais ele renovou como seres de fala da encenação do dizer. No circuito externo, encontram-se os su-
essa própria tradição. Em sentido amplo, carnavalização remete a todo processo jeitos denominados parceiros da interação linguageira, seres psicossociais que são
que faz uma alegre inversão do estabelecido e, assim, dessacraliza e relativiza os testem unhas, mais ou menos conscientes, das práticas sociais e das representações
discursos oficiais, os discursos da ordem e da hierarquia, os discursos do sério e do imaginárias da comunidade a qual pertencem.
imutável; deixa clara a sua unilateralidade e seus limites, descentra-os. A carnava- Fonte da nota: CHAOla: 28-29.
lização permite que a consciência socioideológica passe a perceber esses discursos Leitura recomendada: CHA83; CHA08; CHA92; CHAOla; CHAO lb; CHA04a;
como apenas uns entre muitos e em suas relações tensas e contraditórias. CHA04b; CHAOS.
Fonte da nota: BAK87; BAK97. Termos relacionados: circuito externo, dispositivo do ato de linguagem.
Leitura recomendada: BAK87; BAK97.
código s. Jakobson
111.

circuito externos. Charaudeau111.


Definição: elemento do ato de comunicação verbal que corresponde ao conjunto
Definição: instância do ato de linguagem que compreende o fazer psicossocial. de regras linguísticas à disposição do falante.
Fonte da definição: CHAOla: 26. Fonte da definição: JAK69b.
Nota explicativa: O termo código é utilizado por Jakobson a partir de sua aproxi-
Nota explicativa: O ato de linguagem é visto como um fenômeno que combina
mação com os estudos acerca da Teoria da Comunicação e da Informação. O lin-
o dizer e o fazer. O fazer é a instância situacional que se define pelo espaço que
guista toma esse termo para sua linguística porque, conforme seu depoimento, crê
ocupam os responsáveis por esse ato. O dizer é a instância discursiva que se define
"ser preferível trabalhar agora com esses conceitos bem definidos, mensuráveis e
como uma encenação da qual participam seres de fala. Essa dupla realidade do di-
analisáveis" (1969a: 22). Jakobson propõe, então, que se substitua o termo langue,
zer e do fazer leva à consideração de que o ato de linguagem é uma totalidade que
utilizado por Saussure, por código. Assim, código é um repertório de possibilida-
se compõe de um circuito externo (fazer) e de um interno (dizer), indissociáveis
des já previstas e preparadas, constituído por simbolos lexicais, constituintes gra-
um do outro. No circuito externo, encontram-se os sujeitos denominados parceiros
maticais e fonológicos e regras gramaticais e fonológicas de combinação (op. cit.:
da interação linguageira, seres psicossociais que são testemunhas, mais ou menos
76-77). Sua teoria amplia essa visão dos teóricos da comunicação ao acrescentar
conscientes, das práticas sociais e das representações imaginárias da comunidade a
que o código prevê, também, a estratificação estilística dos símbolos lexicais e as
qual pertencem. No circuito interno, situam-se os sujeitos protagonistas, definidos
variações na sua constituição e nas regras de suas combinações. Tendo em vista
como seres de fala da encenação do dizer.
essa concepção de código, decorre que este é a base para a comunicação, quando se
Fonte da nota: CHAOla: 28-29.
·considera interlocutores pertencentes à mesma comunidade linguística; é preciso
Leitura recomendada: CHA83; CHA08; CHA92; CHAOla; CHAOl b; CHA04a;
um código que seja comum ao emissor e ao receptor e subjacente à troca de men-
CHA04b; CHAOS. sagens. Assim, segundo Jakobson (l969a: 122-123), todo processo linguístico-
Termos relacionados: circuito interno, dispositivo do ato de linguagem. ou todo ato de comunicação verbal - é constituído de seis elementos: remetente,
mensagem, destinatário, contexto, código e contato. Cada um desses seis fatores de-
circuito interno s. Charaudeau
111.
termina uma d iferente fu nção da linguagem. O código é determinante da função
Definição: instância do ato de linguagem que compreende a organização do dizer. metalinguística, que se caracteriza pela possibilidade dos falantes verificar se estão
Fonte da definição: CHAOla: 26. usando o mesmo código ou repertório linguístico.
Nota explicativa: O ato de linguagem é visto como um fenômeno que combina Fonte da nota: EJA06.
o dizer e o fazer. O fazer é a instância situacional que se define pelo espaço que Leitura recomendada: JAK69a; JAK69b.
ocupam os responsáveis por esse ato. O dizer é a instância discursiva que se define Termos relacionados: comunicação (2), função metalinguística, shifter.
componente linguístico S. m. Ducrot ção, objeção, execução etc.), que se forma ao longo de todo processo de comuni-
Definição: conjunto de conhecimentos que atribui urna certa significação a cada cação. Sob essa perspectiva, o interlocutor introduz elementos novos ao discurso
enunciado, independentemente de qualquer contexto. do locutor, uma vez que .concorre, para a constituição do sentido, a interação de
Fonte da definição: DUC77; DUC87; EDU06. diversos contextos, pontos de vista e falas sociais. Sendo a compreensão ativa, todo
Nota explicativa: Constituída em momento anterior à Teoria da Argumentação locutor é um respondente em maior ou menor grau, porque não é o primeiro fa-
n~ Língua, essa noção de componente linguístico, para Ducrot, faz parte da des- lante, e seu enunciado pressupõe a existência n ão só do sistema da língua, mas so-
cnção semântica de uma língua. Sustenta-se na hipótese de que as ocorrências bretudo de enunciados antecedentes com os quais entra em relação. A compreen-
linguísticas precisam ser primeiro descritas através de um conjunto de conheci- são ativa determina uma série de inter-relações complexas, de consonâncias e mul-
mentos, que exclui as circunstâncias nas quais são pronunciadas, chegando-se, tissonâncias com o com p reendido, enriquece-o de novos elementos.
desse modo, à significação. Fonte da nota: BAK03E: 271-272; BAK95b: 132; BAK98: 91.
Fonte da nota: DUC77; DUC87; EDU06. Leitura recomendada: BAK03E; BAK95b; BAK98; PON08.
Termos relacionados: contexto, enunciado (2), significação (2). Termos relacionados: dialogismo, enunciação (2), signo ideológico.

componente retódco S. m. Ducrot compreensão (2) s.f Benveniste


Definição: conjunto de conhecimentos que possibilita prever o sentido da ocor- Definição: atividade exercida por quem utiliza a língua, que consiste em construir
rência numa determinada situação.
sentidos novos, a cada situação de uso.
Fonte da definição: DUC77; DUC87; EDU06.
Fonte da definição: EBE06.
Not~ explicativa: C~nstituída em momento anterior à Teoria da Argumentação Nota explicativa: Por compreensão entende-se todo o trabalho que os participantes
na L~~ua, ess.a n_oçao de componente retórico, para Ducrot, é uma das etapas da do diálogo executam com a língua, uma vez que as formas, ao integrarem o discur-
d~s~nçao semant1ca de urna língua. Nessa concepção, a produção de sentido sub- so, passam a expressar sentidos relativos à atitude do sujeito e à situação enuncia-
diVIde-se em duas etapas: a primeira é a do componente linguístico e a segunda é
tiva. Desse modo, compreensão pressupõe reconhecimento da língua como sistema
a do componente retórico. O componente retórico carrega as circunstâncias de
de signos distintivos, os quais, em uma situação enunciativa, têm referência única,
uso e entra em jogo para explicar o sentido da ocorrência particular do enunciado
relativa a eu-tu-aqui-agora, indicadores das categorias de pessoa, espaço e tempo.
depois de se ter atribuído uma significação ao componente linguístico.
Fonte da nota: DUC77; DUC87; EDU06. Fonte da nota: EBE06.
Leitura recomendada: BEN89A; BEN89C; BEN89D.
Termos relacionados: componente linguístico, contexto, significação (2).
Termos relacionados: frase (2), palavra (2), reconhecimento.
compreensão ( 1) s.f Bakhtin
Outra~ ~enominações: ativa compreensão responsiva, compreensão responsiva ativa. compreensão responsiva ativa s. f Bakhtin
De~mça_o: processo de construção de sentido em que o interlocutor tem partici- V. compreensão (1)
paçao a t1va.
Fonte da definição: BAK95b: 132. comunicação (1) s. f Greimas
N,ota exp~cativa: A compreensão, para Bakhtin, é um processo ativo segundo 0 qual Definição: atividade de manipulação em que um sujeito faz o outro crer no que
ha uma,onentação em relação à enunciação do outro. A cada palavra da enunciação se diz.
que esta em processo de compreensão, o interlocutor faz corresponder uma série Fonte da definição: GRE79a: 48.
de palavras suas, formando uma réplica. Criticando o esquema tradicional de co- Nota explicativa: A comw1icação foi entendida por muitas teorias como um fazer
m~nic~çã~, em qu~ o r~c~ptor exer~eria uma função passiva limitada a compreen- informativo, isto é, a transmissão de um saber de um emissor para um receptor,
dei o_ s1gmficado lmgmstico, Bakhtm ressalta a posição responsiva ativa ocupada considerados posições vazias. Ora, tanto um quanto outro são sujeito dotados de
pelo mterlocutor em relação ao enunciado. Nessa relação, 0 próprio locutor não crenças, sentimentos, valores, visão de m undo, inscritos n u m universo discursivo
espera uma compreensão passiva, mas sim uma resposta (concordância, pa rticipa- num dado momento de seu vir-a-ser. Por isso, é preciso distinguir entre a comu-
acontece com crianças em fase de aquisição de linguagem: "elas (crianças) têm a
nicação recebida e a comunicação assumida. Aquela é a apreensão da significação,
enquanto esta é sua apropriação e sua integração num universo discursivo já exis- tendência a comunicar-se antes de serem capazes de enviar ou receber comunica-
tente. Assumir a palavra do outro é, de certa maneira, crer nela, enquanto fazer ção informativa" (1969: 127).
assumi-la é dizer para que se creia no que se diz. Dessa forma, a comunicação é Fonte da nota: EJA06; JAK69b.
menos um fazer saber e mais um fazer crer e um fazer fazer. Essa concepção con- Leitura recomendada: JAK69b; FL005; FL008.
sidera que todo ato comunicativo é dotado de uma dimensão argumentativa. A Termos relacionados: código, língua (3), linguagem (3).
argumentação são, assim, os procedimentos de que se utiliza o enunciador com
vistas a fazer o enunciatário assumir as mensagens que ele produz. A comunicação conceito atualizado S. m. Bally
envolve tanto o contrato quanto a polêmica. V. conceito real
Fonte da nota: GRE79a: 45-48.
Leitura recomendada: BAR02b: 92-113; FI005: 75-87; GRE08. conceito real s. m. Bally
Termos relacionados: enunciação (6). Outras denominações: conceito atualizado, termo da frase.
Definição: unidade constitutiva da fala.
comunicação (2) s.f Jakobson Fonte da definição: BAL65: 77 e s.
Definição: processo linguístico que envolve troca de mensagens entre interlocutores. Nota explicativa: O conceito real, também denominado termo da frase ou conceito
Fonte da definição: EJA06. atualizado, é a unidade da fala, do uso da língua. É o resultado da ação do sujeito de
Nota explicativa: A trajetória de pesquisa de Jakobson, bastante ampla e relacio- atualizar os chamados conceitos virtuais, o que faz com que as unidades da língua
nada a diversas áreas, é perpassada pela ideia de que a linguagem é comunicativa. tornem-se termos da frase. Um conceito atualizado é determinado em extensão,
Sempre tendo em vista um emissor e um receptor que estão em conta to através de pois é caracterizado em relação a um determinado uso pelo sujeito. É, no entanto,
um código comum em um contexto específico e trocando mensagens, Jakobson indeterminado em compreensão, por ser subjetivo, referindo-se a uma noção in-
sofreu grande influência, nos anos 1950, da Teoria da Comunicação e da Teoria dividual, à representação de realidade do sujeito que faz uso dele. O termo conceito
da Informação. A partir das ideias trazidas pelos engenheiros da comunicação, real faz parte da segunda fase de estudos de Bally, a Teoria Geral da Enunciação.
Jakobson passou a adotar a nomenclatura utilizada por eles em sua linguística. Fonte da nota: BAL65: 77 e s.
Dizia ele: "creio ser preferível trabalhar agora com esses conceitos bem definidos, Leitura recomendada: CHI85; DUR98; MED85.
mensuráveis e analisáveis" (1969: 22). Daí que, em seus textos, vemos a utilização Termos relacionados: atualização (1), conceito virtual, frase (1) .
de termos como codificador (emissor) e decodificador (receptor). Embora alguns
críticos de Jakobson afirmem que ele defende a ideia de uma significação pré-esta-
conceito virtual S. m. Bally
belecida na mensagem, ao retornarmos aos textos do linguista russo, percebemos
Definição: unidade constitutiva da estrutura da língua.
que ele mesmo nos alerta para a impossibilidade de se pensar a comunicação como
Fonte da definição: BAL65: 77 e s.
um processo que sempre tem sucesso. Em seu Linguística e comunicação ( 1969), ele
Nota explicativa: Os conceitos virtuais, como unidades da língua que são, precisam
nos diz: "para o receptor, a mensagem apresenta grande número de ambiguidades
ser atualizados pelo sujeito para que se tornem termos da frase, quando são cha-
onde não havia qualquer equívoco para o emissor" (1969: 81). Jakobson propõe
mados de conceitos reais. Um conceito virtual é indeterminado em extensão, pois
que se estude a comunicação tendo em vista dois tipos de significação: a geral e
não há como definir o total de possibilidades de uso. Bally exemplifica dizendo que
a contextuai. A partir de elementos da Teoria da Informação, o autor remete 0
não há como pensar que a noção de "flor" compreenda um número fixo de coisas
teor de informação gramatical (que diz respeito ao código) à significação geral e 0
chamadas "flores"; ou a noção de "andar", um número fixo de "andares". Ao mes-
t~or de informação referente a essas formas gramaticais nos eventos de fala à sig-
mo tempo, um conceito virtual é determinado em compreensão, porque apresenta
mficação contextuai. Para o autor, falar de comunicação é falar de língua em uso.
um número limitado de caracteres distintivos, seja qualitativamente (por exem -
Assim, informação, em Jakobson, diz respeito tanto aos aspectos do código como
plo, "olhar", "olhar atentamente"), seja quantitativamente (por exemplo, "homem
do contexto. E é por isso que a comunicação pode ser "não informativa". É o que
grande", "gigante", "anão"). O termo conceito virtual in tegra a segunda fase de "tui obJ"eto do dizer ao mesmo tempo em que é usada pelo locutor para
vra const1 . . .
estudos de Bally, a Teoria Geral da Enunciação. . sentido É uma estrutura em que se conjugam a sem1ót1ca denotativa
expressar um · . . . , . , . . .
Fonte da nota: BAL65: 77 e s. c • · ao m undo) e a semrót1ca metahngmst1ca (referencia ao s1gno vra auto-
(re1erencJa " , . , ..
Leitura recomendada: CH I85; DUR98; MED85. nímia). Tome-se, como exemplo, a expressão É uma barbandade , com o ~ma~
Termos relacionados: atualização (1), conceito real, frase (1 ). ' h " o locutor fala de "algo que é considerado por ele uma barbandade
os gauc os . " . , . .
~ wmw no te mpo faz menção à palavra barbandade , emprestada de d1scurso
, .
conclusão s. f Ducrot alheio (do vocabulário dos gaúchos) . Nesse caso, a palavra torna-se o ~bJeto do
Definição: segmento de um enunciado escolhido pelo locutor dentre as possibili- dizer ao mesmo tempo em que é utilizada, isto é, acum ulam-se nela dms empre-
dades oferecidas pelo sentido do segmento argumento. gos: 0 uso e a menção. A conotação autonímica pode ser sinalizada por aspas, que,
Fonte da definição: DUC89b; EDU06. além de atestarem que as palavras ou expressões destacadas foram deslocadas de
Nota explicativa: A conclusão é definida como o segmento do enunciado que jun- seu lugar, por pertencerem a outro discurso, indicam uma suspensão da responsa-
tamente com o segmento argumento estabelece unidade de sentido ao enunciado. bilidade do enunciador, que q uestiona o caráter de apropriação dessas palavras ou
Essa concepção vem desde a chamada versão Standard da Teoria da Argumentação expressões, em relação ao discurso em que são usadas.
na Língua até a versão den,ominada Teoria dos Topai. No enunciado "Faz calor, Fonte da nota: AUT04aD: 217-220; FLOOS: 78-79; TEIOSa: 141-143.
vamos à praia", o segmento conclusão "vamos à praia" é definido pela orientação Leitura recomendada: AUT96; FLOOS: 78-79; FL008; REY78; TEIOSa.
de sentido dada pelo segmento argumento "faz calor". Termos relacionados: autoním ia, modalização autonímica.
Fonte da nota: DUC88; DUC89b; EDU06.
Termos r elacionados: argumento, enunciado (4), segmento. construção composicionaL.r Bakhtin
Outras denominações: fo rma composicional.
conector S. m. Ducrot Definição: organização das partes e do todo de um en unciado, representante de
Definição: entidade teó rica que tem a função de ligar dois segmentos, constituindo um dado gênero do discurso.
o encadeamento argumentativo. Fonte da definição: BAK03E.
Fonte da defin ição: CAR02a; DUC02a; DUC02b; EDU06. Nota explicativa: A construção composicional é um dos elementos que constitui
Nota explicativa: 1: Entidade teórica é concebida aqui como representação dos ele- organicamente os gêneros do d iscurso. Tal construção contempla a estrutura_ção
m entos que conectam dois segm entos do encadeamento argumentativo. 2: A Teo- de um enunciado (texto): como se inicia, como se desenvolve e como termma;
r ia dos Blocos Semânticos admite prototipicamente do is tipos de conectores: os como as inform ações são d ispostas e se articulam. Toda variação da construção
do tipo de dane(== portanto) que formarn os encadeamentos argumentativos nor- composicional, ou de umdos o utros elem entos (tema e estilo) dos gêneros discur-
mativos [Ex.: estudou DC (==dane) foi aprovado no exame] e os do tipo pourtant sivas, implica a dinarnicidade dos gêneros, sua heterogeneidade constitutiva, e a
(== no entanto) que formam encadeamentos argumentativos transgressivos [Ex.: possibilidade de articular outros gêneros em sua tessitura enunciativa. Tendo em
estudou PT(== pourtant) não foi aprovado no exame] . vista 0 enunciado ser a unidade mínima da comunicação discursiva, um elo entre
Fonte da nota: DUC02a; DUC02b; EDU06. já-ditos e a ser ditos na cadeia discursiva e, assim, orientar-se para a resposta do
Termos relacionados: articulador, aspecto, encadeamento argumentativo. outro, é essencial considerar a sua construção composicional para verificar as fron-
teiras que definem a alternância dos sujeitos do discurso (falantes) . O enunciado,
conotação autonímica s.f Authier-Revuz podendo ser uma réplica do diálogo estrito (uma palavra, um conjunto de pala-
Definição: fenômeno de utilização dos signos em que se acwnulam as fun ções de vras), uma obra especializada de uma dada esfera de conhecimento, um romance
uso e de menção em uma mesma palavra. etc., apresenta diferentes modos de estruturação devido à sua natureza (mais ou
Fonte da definição: AUT95a; AUT95b. menos complexa) . Além disso, sempre possui limites precisos: um início definido
Nota explicativa: A noção de conotação autonímica compreende o fenômeno em e um acabamento formal que suscita resposta. Ressalta-se que o início e o fin1
que um signo é, ao mesmo tempo, empregado e citado, isto é, quando uma pala- pressupõem o outro, seja a partir dos enunciados precedentes, seja dos enunciados
futu ros (compreensão ativa). Por isso, a construção composicional, considerando Fonte da definição: DUC05; EDU06.
o enunciado a unidade real de comunicação, é fu ndamental para se apreender a Nota explicativa: A noção de contexto está relacionada a uma das concepções de
alternância dos sujeitos do discurso. Por conseguinte, o acabamento somente pode pragmática identificada pelo autor como contextuai. Supondo que a sequência "o
ser compreendido como a formalização da passagem da palavra (enunciado) ao carro está na rua" seja enunciada n um diálogo, os artigos definidos fornecem indi-
outro, uma vez que organicamente todo enunciado é dialógico, inacabado e in- cações para o intérprete buscar no contexto o tema do diálogo para determinar a
concluso. Isso porque o enunciado existe na inter-relação com outros enunciados, que "carro" e a que "rua" específicos o locutor está se referindo.
advindos de diferentes direções, que não permitem uma conclusão definitiva. Fonte da nota: DUC05; EDU06.
Fonte da nota: BAK03E: 262; 274-275; 279-282. Termos relacionados: enunciação (5), enunciado (1), instrução.
Leitura recomendada: BAK03E; PONOS.
Termos relacionados: dialogismo (2), enunciação (2), gêneros do discurso. contexto (2) s.111. Jakobson
Definição: elemento do ato de comunicação verbal que representa a situação em
construção híbrida s.f Bakhtin que ocorre a comunicação.
V. hib ridização Fonte da definição: JAK69b.
Nota explicativa: Segundo Jakobson ( 1969b: 122-123 ), todo processo linguístico-
contato S. ln. Jakobson ou todo ato de comunicação verbal- é constituído de seis elementos: remetente,
Definição: elemento do ato de comunicação verbal que se apresenta como canal mensagem, destinatário, contexto, código e cantata. Cada um desses seis fatores de-
físico e conexão psicológica e que capacita os interlocutores a entrar e permanecer termina uma diferente função da linguagem. O contexto é determinante d a função
em comunicação. referencial, caracterizada pela criação de representações da situação de fala que
Fonte da definição: JAK69b. são comuns aos interlocutores no ato de comunicação verbal. Ou seja, no ato co-
Nota explicativa: Segundo Jakobson (1969b: 122-123), todo processo linguístico- municativo é necessária a criação de contextos comuns mediante representação; é
ou todo ato de comunicação verbal - é constituído de seis elementos: remetente, através de representações comuns que se pode situar o evento de fala.
mensagem, destinatário, contexto, código e contato. Cada um desses seis fatores Fonte da nota: EJA06; JAK69b.
determina uma diferente função da linguagem. O contato é determinante da fun- Leitura recomendada: JAK69bC.
ção fática, caracterizada por visar à manutenção da conexão verbal entre interlo- Termos relacionados: comun icação (2), enunciação, função referencial.
cutores. De acordo com Jakobson (1969b: 126), há mensagens que, ao enfatizarem
o conta to, no que diz respeito à conexão psicológica entre o remetente e o destina- contradição pragmáticas./ Récanati
tário, servem fundamentalmente para prolongar ou interromper a comunicação, V. paradoxo pragmático
para atrair a atenção do interlocutor ou confirmar sua atenção continuada; já no
que tange o canal físico, essas m ensagens proporcionam verificar se o canal funcio- contrato de comunicação s. m. Charaudeau
na ("Alô, está me ouvindo?"). Ainda segundo o autor (op. cit.: 127), essa habilidade Definição: condição específica da situação de troca linguageira na qual surge
é precocemente adquirida pelas crianças, sendo que são capazes de comunicar-se o discurso.
antes mesmo de conseguir enviar ou receber comunicação informativa. Fonte da definição: CHA06: 67.
Fonte da nota: EJA06; JAK69bC. Nota explicativa: O contrato de comunicação resulta das características próprias
Leitura recomendada: JAK69bC. da situação de troca linguageira (dados externos) e das características discursivas
Termos relacionados: comunicação (2), fu nção fática, mensagem. decorrentes (dados internos). Os dados externos relacionam-se às condições de
enunciação da produção linguageira: condição de identidade, condição de fina-
contexto ( 1) S. m. Ducrot lidade, condição de propósito, condição de dispositivo. Os dados internos são os
Definição: indicação das circunstâncias da enunciação fornecida pela estrutura propriamente discursivos, os que permitem responder à pergunta do "como di-
linguística para o intérprete atribuir sentido ao enunciado. zer?". Esses dados internos, que são o conjunto dos comportamentos linguageiros
esperados quando os dados externos da situação de comunicação são percebidos Fonte da nota: BEN95: 254-259.
depreendidos e reconhecidos, repartem-se em três espaços de comportamento; Leitura recomendada: BEN95: 247-293; BEN89: 81-90.
Jinguageiros: o espaço da locução, o da relação e o da tematização. 0 contrato de Termos relacionados: correlação de subjetividade, não-pessoa, pessoa.
comunicação complementa-se com o projeto de fala do locutor. O primeiro apre-
senta o quadro de restrições situacionais e discursivas; o outro desdobra-se num correlação de subjetividade s.f Benveniste
espaço de estratégias.
Definição: oposição entre as pessoas eu e tu.
Fonte da nota: CHA06: 70-71.
Fonte da definição: EBE06.
Leitura recomendada: CHA83; CHA08; CHA92: 636-638; CHA97; CHAOlb; Nota explicativa: A diferença entre eu e tu é que eu é interior ao enunciado e exte-
CHA04a; CHA04b; CHA05.
rior a tu, no entanto essa exterioridade não suprime a realidade do diálogo. Essas
Termos relacionados: domínio de comunicação, encenação da linguagem, situa- qualidades de interioridade e de transcendência pertencem particularmente ao eu
ção de comunicação.
e se invertem em tu. É possível, então, definir o tu como a pessoa não subjetiva em
face da pessoa subjetiva que eu representa.
correferência s.f Benveniste Fonte da nota: EBE06.
Outras denominações: correferir.
Termos relacionados: correlação de pessoalidade, não-pessoa, pessoa.
Definição: possibilidade linguística própria do colocutor de partilhar da referência
do discurso do locutor.
cronotopo s. m. Bakhtin
Fonte da definição: BEN89: 84.
Outras denominações: espaço-tempo.
~.ota. expl~cativa: ~C~ I:referência é fundante do diálogo e está estreitamente ligada Definição: ligação intrínseca de relações espaciais e temporais artisticamente re-
a Ideta da mtersubJetivtdade. Por exemplo, o locutor, ao enunciar "ontem ...", ins- presentadas na narrativa literária.
taura a possibilidade do colocutor de atribuir a "ontem ... " 0 mesmo sentido dado Fonte da definição: BAK94: 84.
pelo locutor.
Nota explicativa: Bakhtin cria a categoria do cronotopo com vistas primordialmen-
Fonte da nota: EBE06.
te ao estudo da narrativa literária. A partir de referenciais físico-matemáticos, ele
Leitura recomendada: BEN89C.
assume a inseparabilidade do tempo e do espaço e a considera formalmente cons-
Termos relacionados: intersubjetividade, pessoa, referência. titutiva da narrativa literária. Nesse sentido, os cronotopos são tomados como cen-
tros organizadores da narrativa, ou seja, entende-se que os eventos narrativos se
correferir v. Benveniste configuram tendo como base coordenadas espaço-temporais. Serão, por exemplo,
V. correferência
breves e rápidos nos espaços de passagem (soleiras de portas, corredores, escadas,
ruas); serão longos e lentos em espaços como a pequena cidade interi01·ana. Por
correlação de personalidade s.f Benveniste isso, cada cronotopo terá diferentes funções e sentidos narrativos. Por exemplo,
V. correlação de pessoalidade
o cronotopo da pequena cidade interiorana favorece a representação artística de
eventos estendidos no tempo. Na unidade da narrativa, ocorrem diferentes cro-
correlação de pessoalidade s.f Benveniste notopos em diferentes inter-relações: eles não apenas coexistem ou se sucedem,
Outras denominações: correlação de personalidade. mas podem entrar em relações de diferentes tipos, tais como dominação, inclusão,
Definição: relação opositiva queseestabeleceentreas pessoas eu/tu e a não-pessoa ele. substituição, oposição. Essa construção beterocronotópica representa artistica-
Fonte da definição: BEN95: 258. mente a própria dimensão heterocronotópica da experiência vivida e das ativida-
Nota explicativa: A~ e~ressões de pessoa são organizadas por duas correlações des socioculturais como um todo. Embora apresentado e detalhado tendo sempre
con~t~ntes: a de subJetiVIdade, em que o eu é pessoa subjetiva e o tu é pessoa não a literatura como referência, Bakhtin deixa claro que o cronotopo é uma categoria
subJetiva (eu-tu); e a de pessoalidade, em que eu e tu são pessoas que se opõem a aplicável à vida cotidiana e a outras áreas da cultura. No pano de fundo desse
ele a não-pessoa (eu/tu-ele).
conceituai, está a concepção de que as ações humanas estão sempre localizadas
no tempo-espaço e suas especificidades estão correlacionadas a diferentes tipos de
cronotopos. Nessa perspectiva, somos entendidos como seres cronotópicos: tanto
nossa biografia quanto as atividades socioculturais se organizam e se desdobram
cronotopicamente. E, como estamos imersos numa rede de diferentes cronotopos,
é mais apropriado dizer que somos, de fato, seres heterocronotópicos.
Fonte da nota: BAK94: 84-85, 243-258. debreagem s.f Greimas
Leitura recomendada: l3AK94: 84-85, 243-258; MOR90. Definição: operação de projeção para fora da instância de enunciação.
Fonte da definição: GRE79a: 79.
Nota explicativa: A debreagem é um dos mecanismos de instauração de pessoas, es-
paços e tempos no enunciado. O o utro mecanismo é a embreagem. A debreagem é
uma operação pela qual a instância da enunciação projeta para fora dela as catego-
rias ligadas à sua estrutura de base (a pessoa, o tempo e o espaço) para constituir os
elementos sobre os quais se assenta o enunciado-discurso. Dessa fo rma, ela povoa
o enunciado de pessoas e inscreve as ações e os estados num tempo e num espaço.
Fonte da nota: GRE79a: 79.
Leitura recomendada: FI096: 43-48; GRE79a: 79; GRE08.
Termos relacionados: embreagem, debreagem enunciativa, debreagem enunciva.

debreagem actancial s.f Greimas


Definição: procedimento de projeção para fo ra da instância de enunciação de um
não eu, instalando no discurso tanto os parcei ros do ato enunciativo compreendi-
dos pelo eu e o tu, quanto a posição narrativa que compreende o ele.
Fonte da definição: GRE79a: 80.
Nota explicativa: A debreagem actancial instala no discurso tan to os actantes da
enunciação (eu/tu), quanto os actantes do enunciado (ele) . Nesse tipo de debrea-
gem, projeta-se para fora da instância da enunciação sempre um não eu, porque o
enunciador, responsável pela produção do enunciado, é sempre implícito e pres-
suposto. Ele não se manifesta n unca no discurso. Qualquer eu projetado no inte-
rior do discurso-enunciado não pode ser considerado o enunciador propriamente
dito nem se identifica com ele. Esse eu será um narrador, que não se confunde com
o autor (enunciador). Assim, o não eu instalado no discurso enunciado será um
eu/tu, actantes da enunciação, quando o texto for narrado em primeira pessoa, ou
um ele, quando o narrador se ausentar no enunciado, nos textos ditos narrados
em terceira pessoa. Observe-se que a terminologia narrado em terceira pessoa é
imprecisa, porque, por definição, quem fala é a primeira pessoa. Na verdade, os
enunciados "narrados em terceira pessoa" são aqueles em que o na rrador se oculta
sob uma camuflagem objetivante.
Fonte da nota: GRE79a: 79-81.
Leitura recomendada: FI096: 59-126; GRE79a: 79-81; GRE08.
Termos relacionados: debreagem, debreagem enunciativa, debreagem enunciva.
ri01·idade ao futuro). Na medida em que na debreagem enunciva se estabelecem
debreagem enunciativas.f Greimas .
actantes, espaços e tempos enuncivos, temos uma debreagem actancial enunciva,
Definição: procedimento de projeção para fora da instância de enunc1ação e de
uma debreagem espacial enunciva e uma debreagem temporal enunciva. Esse ti
instalação no enunciado dos parceiros do ato enunciativo compreendidos pelo eu 0
de debreagem cria um efeito de sentido de objetividade. Efetivamente, se os fa:Os
e o tu, do espaço da enunciação e do tempo da enunciação.
parecem narrar-se a si mesmos, num espaço não relacionado ao da enunciação e
Fonte da definição: FI096: 43-44.
num tempo pretérito ou futuro, que simulam o tempo cósmico, então se tinge 0
Nota explicativa: Na debreagem enunciativa, instalam-se no enunciado os actantes
texto de "objetividade". A debreagem enunciva produz o enunciado enunciado,
da enunciação (eu/tu), o que cr ia uma narrativa em que o narrador se explici-
que é assim chamado para mostrar q ue mesmo o que parece escapar ao ato enun-
ta como eu e em que se pode também explicitar o "leitor" a quem ele se dirige.
ciativo é enunciado, isto é, resultante do ato enunciativo.
Instauram-se também o espaço do aqui e aqueles que se organizam a partir do Fonte da nota: FI096: 44-45.
espaço enunciativo (por exemplo, ai, ali, lá) . Instituem-se os tempos relacionados Leitura recomendada: FI096: 41-56.
diretamente ao presente da enunciação (concomitância, anterioridade e posterio-
Termos relacionados: debreagem, debreagem enunciativa.
ridade ao presente). Na medida em que na debreagem enunciativa se estabelecem
actantes, espaços e tempos enunciativos, temos uma debreagem actancial enuncia- debreagem espacial s. f Greimas
tiva, uma debreagem espacial enunciativa e uma debreagem temporal enunciativa.
Definição: procedimento de projeção para fora da instância de enunciação de um
Esse tipo de debreagem cria um efeito de sentido de subjet ividade. Observe-se, por
não aqui, fu ndando no discurso, ao mesmo tempo, o espaço objetivo do enuncia-
exemplo, o início do poema "Tabacaria", de Álvaro de Campos, wn dos heterôni- do e o sim ulacro do espaço da enunciação.
mos de Fernando Pessoa: "Não sou nada. I Nunca serei nada. I Não posso querer Fonte da definição: GRE79a: 81.
ser nada. I A parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo". A debreagem Nota explicativa: Na debreagem espacial, projeta-se para fora da instância da enun-
enunciativa produz a enunciação enunciada, ou seja, os elementos da enunciação ciação sempre um não aqui, porque um aqui instalado no discurso-enunciado será
que estão projetados no enunciado. sempre diverso do espaço pressuposto da enunciação. Esse não aqui m anifestar-se-á
Fonte da nota: FI096: 43-44. como um simulacro do espaço da enunciação ou como um espaço criado no in-
Leitura recomendada: FI096: 41-56. terior do enunciado, sem qualquer relação com o aqui enunciativo. Por exemplo,
Termos relacionados: debreagem, debreagem enunciva. quando o poeta diz "Minha terra tem palmeiras,/ Onde canta o Sabiá; 1 As aves
que aqui gorjeiam, I Não gorjeiam como lá", o espaço marcado pelo advérbio aqui
debreagem enunciva s.f Greimas é um simulacro do espaço da enunciação, pois é diferente do aqui da enunciação
Definição: procedimento de projeção para fora da instância de enunciação e de pressuposta, e o espaço assinalado pelo advérbio lá ta mbém é um espaço da enun-
instalação no enunciado da posição narrativa que compreende o ele, do espaço do ciação, porque é determinado a partir do aqui. O espaço "objetivo" do enunciado é
enunciado e do tempo da enunciação. aquele que não é construído a partir de um aqui. No início do capítulo V de O gua-
Fonte da definição: FI096: 44-45. rani, aparece a seguinte frase: "No pequeno jardim da casa do Paquequer, uma lin-
Nota explicativa: Na debreagem enunciva, instalam-se no enunciado os actantes da moça se embalava indolentemente numa rede de palha presa aos ramos de uma
do enunciado (ele), o que cria uma narrativa em que o narrador se ausenta do acácia silvestre". O espaço marcado pelo adjunto adverbial de lugar no pequeno
enunciado, o que é imprecisamente denominado narrativa em terceira pessoa. Nela jardim da casa do Paquequer é um espaço sem relação com o lugar da enunciação.
é como se os fatos se na rrassem a si mesmos. Instauram-se também os espaços que Por isso, diz-se que ele é do domínio do espaço "objetivo" do enunciado. O termo
não têm nenhuma relação com o espaço enunciativo (por exemplo: no primeiro objetivo aparece entre aspas, para indicar que esse espaço é também uma criação
capítulo da segunda parte de O guarani, de Alencar, aparece a seguinte frase: "No da enunciação, e que, colocá-lo fora da relação com o aqui da enunciação, é uma
vasto copiar do pouso havia três pessoas contemplando com um certo prazer a astúcia enunciativa, para criar um efeito de sentido de objetividade.
luta espantosa dos elem entos"). Instituem-se os tempos relacionados seja a um Fonte da nota: GRE79a: 81-82.
marco temporal pretérito (concomitância, anterioridade e posterioridade ao pre- Leitura recom endada: Fl096: 257-299; GRE79a: 81-82; GRE08.
térito), seja a um marco temporal futuro (concomitância, anterioridade e poste- Termos r elacionados: debreagem, debreagem enunciativa, debreagem enunciva.
rna posição em que os deixamos". O narrador, depois de um longo relato de fatos
debreagem internas./ Greimas passados, retoma a história no ponto em que a suspendera no final da primeira
Definição: operação de projeção para fora da instância de enunciação realizada
parte. O anúncio da retomada é feito no agora da narração. Daí a utilização do
por um actante já instalado no enunciado.
presente, que indica uma concomitância ao momento do ato enunciativo, e o pre-
Fonte da definição: FI096: 45.
térito perfeito, que aponta para uma an terioridade ao presen te. Esse agora não é o
Nota explicativa: Na debreagem interna- na instauração no enunciado, das ca-
tegorias de pessoa, espaço e tempo - um actante já instalado no enunciado, seja agora da en unciação pressuposta, mas um simulacro const ruído no enunciado. No
ele o narrador ou um ator do en unciado, dá a palavra a outro, operando assim capítulo I da segunda parte da mesma obra, aparece o seguinte texto: "Dois anos
uma debreagem de segundo ou de terceiro graus. É, assim, por exemplo, que se antes deste singular casamento, residia à Rua de Santa Teresa uma senhora pobre
constitui um diálogo. Observe o texto que segue, retirado do capítulo LVIII de e enferma. Era conhecida por D. Emília Cam argo; tinha em sua companhia uma
Quincas Borba, de Machado de Assis: "- Os conservadores não se demoram no filha já moça, a que se reduzira toda sua família". Instala-se no enu nciado um mar-
poder, disse-lhe finalmente Camacho.- Não?- Não; eles não querem a guerra, e co temporal pretérito "Dois anos antes deste singular casamento". A partir desse
têm de cair por força". O narrador, instalado no enunciado por uma debreagem, tempo do então (oposto ao agora da enunciação), estabelecem -se concomitâncias
realiza uma nova debreagem, dando a palavra a Camacho e a Rubião. A afirmação durativas (residia, era conhecida, tinha) e uma anterioridade (reduzira). Esse é o
"disse-lhe finalmente Cama'cho" é do narrador. Os atores do enunciado tomam a tempo "objetivo" do enunciado. O termo objetivo aparece entre aspas, para indicar
palavra, tornando-se, portanto, um eu. Essa é uma debreagem interna de segundo que se trata de um efeito de sentido construído pela enunciação.
grau. Se dentro do diálogo alguém realizasse uma nova debreagem, seria ela de Fonte da nota: GRE79a: 81.
terceiro grau: "O Coronel, um tanto chocado, confidenciou-nos: - Minha mulher Leitura recomendada: FI096: 127-255; GRE79a: 81; GRE08.
hoje chegou para mim e disse: - Quero me separar d e você". Teoricamen te, os Termos relacionados: debreagem, debreagem enunciativa, debreagem enunciva.
graus de debreagem são infinitos. Na prática, é raro irem além do terceiro grau. As
debreagens internas produzem um efeito de referencialização, pois é como se um dêitico s. m. Benveniste
ator estivesse repetindo literalmente o que o outro disse. V. signo vazio
Fonte da nota: FI096: 45-46.
Leitura recomendada: FI096: 41-56. dêixis s.f Benveniste
Termos relacionados: debreagem, debreagem enunciativa, debreagem enunciva. Definição: mecanismo que relaciona a indicação de um objeto através de uma pa-
lavra à instância de discurso que a contém.
debreagem temporaL. t Greimas Fonte da definição: EBE06.
Definição: procedimento de projeção para fora da instância de enunciação de um
Nota explicativa: A dêixis é um mecanismo ou uma relação, pois é responsável pela
não agora, instituindo no discurso um simulacro do agora da enunciação e tam-
conversão do significado do signo no nível semiótica da língua em referência da
bém construindo o tempo objetivo do enunciado, a partir de um marco temporal
palavra no nível sem ântico da língua. Trata-se de uma conversão do significado-
pretérito ou futuro, que se pode denominar o tempo de então.
repetível - do signo- à referência- irrepetível- da palavra. Benveniste exemplifi-
Fonte da definição: GRE79a: 81.
ca essa relação com palavras tais como os adjetivos, os p ronomes demonstrativos
Nota explicativa: Na debreagem temporal, projeta-se para fora da instância da
(este, esta, entre outros), os advérbios de lugar (aqui, entre outros) e de tempo
enunciação sempre um não agora, porque um agora instalado no discurso-enun-
(agora, hoje, en tre out ros) . Dessa forma, "aqui", na frase "Estou aqu i.", enquanto
ciado será sempre diverso do tempo pressuposto da enunciação. Esse não agora
signo, significa um espaço ocupado por alguém por oposição ao espaço ocupado
se manifestará como um simulacro do tempo da enunciação ou como um tempo
criado no interior do enunciado, a partir de um marco temporal pretérito ou fu- por outros e q ue pode se converter, enquanto palavra, em referência a um espaço
turo. No capítulo IX da segunda parte do romance Senhora, de Alencar, lemos: em que eu se encontra de alguma maneira singular.
"Tornemos à câmara nupcial, onde se representa a primeira cena do drama origi- Fonte da nota: EBE06.
nal, de que apenas co nhecemos o prólogo. Os dois atores ainda conservam a mes- Termos relacionados: indicadores de subjetividade, referência.
delocutividade (1) s.f Benveniste
V. verbos delocutivos. destinatário ( 1) s. m. Ducrot
Definição: paciente do ato de fala, que tem como agente o enunciador.
delocutividade (2) s.f Ducrot Fonte da definição: DUC80b; EDU06.
D~~ição: pro,cesso de derivação que produz novo significado de entidades lin- Nota explicativa: A noção de destinatário vincula-se ao reconhecimento de exis-
gUJshcas atraves da enunciação. tência, no dizer do locutor, de uma pluralidade de vozes (enunciadores), dirigidas
Fonte da definição: DUC88; EDU06. a destinatários, seres distintos do alocutário. O termo é apresentado pelo autor
~ota explicativa: A delocutividade permite que o sentido de uma determinad na leitura que faz dos atos de fala em 1980. Neste momento, postula, na noção
tldad 1' ' · d · · a en- genérica de intelocutor, a distinção entre os pares locutor!alocutário; enunciador/
e mgurst~ca,. a qumdo na enunciação, integre-se à sua estrutura, constituin-
do um novo s~gnrficado. Para Ducrot, uma entidade é derivada delocutivament destinatário. Exemplo: o enunciado "a ordem será mantida custe o que custar",
~e ~utra, medrante duas condições: a) que haja parentesco morfológico entre o: supostamente dita por um ministro de Estado, em decorrência de desordens, rea-
sr~mficantes 1. e 2; e b) que a entidade lexical 2 seja compreendida a partir de 1 liza, segundo Ducrot, dois atos: o de promessa e o de ameaça. O locutor (inscrito
nao, o contráno. Exemplo: o significante "parabéns" tem como significado " t d' e 110 dizer do ministro) dirige-se ao alocutário (representado pelo povo em geral),
felicitar I é " p 10 ao e
" a gu ~ · ,~ ~ro,~es~o de delocutividade, é produzido um novo signifi- produzindo os atos de promessa e de ameaça, respectivamente dirigidos a dois
cante parabemzar , CUJO srgmficado é "dar parabéns a alguém". destinatários distintos: bons cidadãos e desordeiros.
Fonte da nota: DUC88; EDU06. Fonte da nota: DUC80b; EDU06.
Termos relacionados: enunciação (6), enunciado (1), sentido (2). Termos relacionados: alocutário (1), enunciador (1), locutor.

denegação s.f Authier-Revuz destinatário (2) s.m. Jakobson


Definição: forma de negação q . Definição: elemento do ato de comunicação verbal que corresponde àquele com
ue, ao negar, srmultaneamente, afirma 0 con-
teúdo negado.
quem se fala.
Fonte da definição: AUTO L
Fonte da definição: JAK69b.
Nota explicativa: Termo derivado da psicanálise freudiana d - é Nota explicativa: Segundo Jakobson (l969b: 122-123 ), todo processo linguístico -
· h , a enegaçao um
concelto~c ave para ~~th!er-Revuz. O exemplo clássico é fornecido por Freud, ou todo ato de comunicação verbal - é constituído de seis elementos: remeten-
quando r~lata ~ e.xpenenCl~ de um paciente seu, que, ao falar de um sonho com te, mensagem, destinatário, contexto, código e contato. Cada um desses seis fatores
~~a figma femm~a, antectpa-se e enuncia "não é minha mãe". Na perspectiva de determina uma diferente função da linguagem. O destinatário é determinante da
:~~· esse enuncrado é uma denegação, uma vez que indica que a ideia de "ser a função conativa, que enfatiza a recepção da mensagem pelo destinatário. Ele é con-
m~e passou pela mente do analisando. Na teoria de Authier-Revuz, a hetero e- siderado a segunda pessoa (o "tu") de um diálogo, seja ele real ou virtual.
~:tdad~ most~ada, repres~nt~da ~a língua, é vista como uma forma de denega:ão Fonte da nota: EJA06; JAK69b.
h heterog~neidade constitutiva, merente e irrepresentável. As marcas explícitas de Leitura recomendada: JAK69a; JAK69bC.
e:e.rogenerdade respondem à ameaça que representa para o desejo de domínio do
Termos relacionados: comunicação (2), função conativa, remetente.
~UJetto. fal~nte o fato de ele não poder escapar de uma fala que, fundamentalmente,
e l:e.tewgenea. Através dessas marcas, que designam o outro localizadamente o
SUJerto empenha-se em fortalecer o estatuto do um É nesse se t'd h '
diacronia s.f Jakobson
'd d · n r o que a etero- Definição: categoria de análise das diversas etapas da língua dura11te a lenta pro-
genet a e ~estrada pode ser considerada um modo de de~egação no discurso da
h eterogenerdade constitutiva. gressão do tempo.
Fonte da nota: AUTO L Fonte da definição: JAK85: 62-63.
Leitura recomendada: AUT98; AUT04a; TEIOO. Nota explicativa: O conceito de diacronia foi primeiramente proposto por Saussu-
re, no Curso de linguística geral. Para ele, d iacronia diz respeito à análise dinâmica
Term~s :elacionados: heterogeneidade constitutiva, heterogeneidade mostrada
negocraçao. ' da língua: "a linguística diacrônica estudará [...] as relações que unem termos su-
cessivos não percebidos por uma mesma consciência coletiva e que se substituem
uns aos outros sem formar sistema entre si". Jakobson retoma esse conceito con-
testando, contudo, a exclusividade do caráter dinâmico. Dessa forma, a diacronia
diálogo ( 1) s. m. Bakhtin
Definição: propriedade consti tutiva de todo discurso que pressupõe comunica-
compreende também os fatos estáticos. Se "apenas os resultados das modificações
ção com outros discursos e o discurso do outro, independentemente da estrutura
são concedidos à diacronia", é preciso, conforme Jakobson, considerar a modifi-
dos enunciados.
cação do sentido dos componentes estáticos do sistema. Assim, os conceitos de
Fonte da definição: BAK98A.
coexistência e de sucessão no tempo se entrelaçam na língua.
Nota explicativa: O diálogo constitui-se como uma interação viva entre discursos,
Fonte da nota: EJA06; JAK85: 64-72; SAU74:116.
Leitura recomendada: JAK85; SAU74. um diálogo interno, q ue não se limita à forma composicional do diálogo estrito
Termos relacionados: língua (3), sincronia. (face a face), pois é bem mais amplo, diversificado e complexo. Nessa perspectiva,
Bakhtin critica abordagens que se voltam simplesmente para o diálogo estrito e
dialogicidade interna s.f Bakhtin ignoram o principal: a constituição dialógica da linguagem, que penetra em toda
V. dialogismo a estrutura discursiva. A dialogicidade interna estabelece permanente relação de
interação, relações de sentido com discursos outros (consonância, discordância,
dialogismo S. m. Bakhtin reiteração, confronto etc.); responde a já-ditos, antecipa respostas, assim como
Outras denominações: dialogicidade interna, dialogização, diálogo interno. suscita respostas. O diálogo, desse modo, faz parte de todo enunciado (romance,
Definição: princípio da linguagem que pressupõe que todo discurso é constituído artigo acadêmico, notícia jornalística etc.).
por outros discursos, mais ou menos aparentes, desencadeando diferentes relações Fonte da nota: BAK98A; BAK03D; BAK03E.
de sentido. Leitura recomendada: BAK95b; BAK98A; BAK03D; BAK03E; FAR03; VOL81A.
Fonte da definição: BAK98A; BAK03E; BAR94. Termos relacionados: dialogismo, plurilinguismo, relações dialógicas.
Nota explicativa: O dialogismo é constitutivo de todo discurso. É uma proprieda-
de da linguagem (discurso) que estabelece inter-relação permanente com outros diálogo (2) s. m. Benveniste
discursos e o discurso do outro. Isso se deve ao fato de o discurso trazer ressonân- Definição: Q uadro figurativo da enunciação em que duas figu ras, na posição de
cias de já-ditos, responder a dizeres diversos (passados, presentes, futuros) e fazer parceiros, são alternativamente protagonistas da enunciação.
projeções e/ou antecipações do discurso-resposta. Essa inter-relação permanente Fonte da definição: EBE06.
com discursos de outrem caracteriza a dinamicidade da linguagem, sua natureza Nota explicativa: Benveniste ressalta que tan to o uso social da linguagem, tal como
heterogênea e a instauração de variadas relações de sentido. A constituição dialógi- ocorre durante urna troca de frases de cortesia (saúde, tempo etc., corno, por
ca da linguagem evidencia que todo enunciado, um elo na cadeia da comunicação exemplo, "Tudo bem!", "Tudo, e você?"), quanto o jogo verbal, tal corno ocorre
discursiva, inscrito em um determinado momento sócio-histórico, é povoado de durante uma troca de provérbios rimados, constituem o limite do diálogo. Segun-
palavras do outro em diferentes graus de presença, o que garante a sua inconclu- do Benveniste, essas fo rmas de comunicação não comportam objeto ou finalidade,
sividade, o inacabamento orgânico. O dialogismo, sendo um princípio intrínseco estabelecendo apenas uma troca alternada de falas fo rmulaicas ou estereotipadas.
do discurso, aparece nas diferentes noções desenvolvidas pela teoria bakhtiniana, Com esse comentário, o autor ma rca que sua concepção de diálogo não é a de uma
como linguagem, palavra, signo ideológico, enunciado, sujeito, estilo e compreensão. simples troca verbal entre interlocutores. De fato, para o autor, o diálogo é uma
Fonte da nota: BAK98A; BAK03E; BAR94. troca verbal entre interlocutores movida por um interesse comum ou intersubje-
Leitura recomendada: BAK97; BAK98A; BAK03E; BAR94; FAR03; FI006; tivo. Assim, cada um dos interlocutores, ao propor-se alternativamente como eu,
TODSl. pode manter ou alterar a trajetória do diálogo, de acordo com sua concepção sin-
Termos relacionados: diálogo ( 1), plurilinguismo, relações dialógicas. gular do objeto comum aos dois. Tal possibilidade não é prevista em uma simples
alternância de falas estereotipada, seja ela rimada o u ecoada.
dialogização s.f Bakhtin Fonte da nota: EBE06.
V. dialogismo
Termos relacionados: aparelho formal da enunciação, intersubjetividade, pessoa.
diálogo (3) s. m. Hagege Nota explicativa: Como a enunciação é a instância de mediação entre a organiza-
Outras denominações: relação de interlocução. ção virtual do discurso e a sua realização, a teoria prevê procedimentos que pos-
Definição: construção solidária de um sentido que caracteriza a atividade linguís- sibilitam a passagem de uma a outra. A discursivização é, assim, o emprego das
tica dos parceiros da interlocução. operações que instituem atores, tempos e espaços. Dessa forma, ela compreende
Fonte da definição: HAG90: 207. três componentes: a actorialização, a espacialização e a temporalização.
Nota explicativa: Diálogo deve ser entendido em sentido amplo, como interlocu- Fonte da nota: GRE79a: 107.
ção em geral, portanto, não apenas como o par pergunta/resposta. Não se limita ne- Leitura recomendada: FI005: 56-85; GRE08.
cessariamente a dois parceiros, nem a interações frente a frente. Do ponto de vista Termos relacionados: actorialização, discurso (5), enunciação (7).
das estratégias utilizadas, considera-se que as interrogações, injunções e negações
desempenham um papel importante na construção do sentido. discurso (1) S. m. Ducrot
Fonte da nota: HAG90: 207-208. Definição: sequência de enunciados ligados entre si.
Leitura recomendada: HAG90. Fonte da definição: DUC84a: 368-393; EDU06.
Termos relacionados: enunciador psicossocial. Nota explicativa: Ao sistematizar a análise das entidades linguísticas, Ducrot dis-
tingue as entidades abstratas- a frase e o texto- de suas ocorrências concretas- o
diálogo interno n~. Bakhtin S.
enunciado e o discurso. Frase e enunciado situam-se em um nível elementar de aná-
V. dialogismo
lise, enquanto texto e discurso situam-se num nível complexo. Assim, o discurso é a
realização do texto. Para que uma sequência de enunciados constitua um discurso,
dictum S. m. Bally
e não uma justaposição incoerente de enunciados, o autor propõe, como condição
Definição: parte da frase que corresponde a seu conteúdo proposicional.
suplementar, que os enunciados sucessivos não sejam acontecimentos independen-
Fonte da definição: BAL65: 35 e s.; DUR98.
tes, mas se apoiem uns nos outros. Exemplo: a sequência "Amanhã vai fazer bom
Nota explicativa: O dictum corresponde à parte de representação da frase. É a no-
tempo: vou à praia" apresenta dois enunciados, pois o locutor faz duas asserções,
ção direta e objetiva que o sujeito tem em contato com os signos da língua sem
uma a propósito do tempo do dia seguinte e outra a propósito do que vai fazer no dia
operar subjetivamente sobre eles. Trata-se, portanto, da representação recebida
seguinte, sendo que a segunda asserção apoia-se na primeira, numa relação argu-
pelo sentido (a memória ou a imaginação) pela parte intelectual do pensamento
mentativa. Em versões posteriores da teoria, esses dois segmentos, por constituírem
do falante. A frase tem sempre duas partes: o dictum, o seu conteúdo, e o modus, a
um encadeamento argumentativo, passam a ser considerados um único enunciado.
sua dimensão en unciativa, a essência da frase, a atitude do sujeito em relação a esse
conteúdo. No enunciado "O agricultor deseja que chova", o dictum é a ideia da Fonte da nota: DUC84a: 368-393; EDU06.
chuva, é o está em questão na frase, enquanto o desejo do agricultor corresponde Termos relacionados: enunciado (1), entidade concreta, texto (1).
ao modus. O termo dictum faz parte da segunda fase de estudos de BalJy, a Teoria
Geral da Enunciação. discurso (2) S. m. Ducrot
Fonte da nota: BAL65: 35 e s.; DUR98. Definição: encadeamento argumentativo, constituído por dois segmentos relacio-
Leitura recomendada: CHI85; DUR98; MED85. nados por um conector.
Termos relacionados: frase (1), modus. Fonte da definição: CAR02a; DUC02a; DUC02b; EDU06.
Nota explicativa: Nessa acepção, vinculada à Teoria dos Blocos Semânticos, o
dimensão axiológica s. f Bakhtin termo discurso designa o próprio encadeamento argumentativo e o sentido das
V. acento de valor palavras é dele dependente. Portanto, somente o discurso é "doador de sentido".
Isso equivale a dizer que o sentido não preexiste ao discurso. Assim, o segmento
discursivização s. t Greimas de discurso "Pedro é inteligente" não tem sentido sem que a ele sejam conectados
Definição: procedimento pelo qual a instância da enunciação constitui o enunciado outros possíveis segmentos como "então resolverá o problema".
de atores e cria um quadro espaço-temporal em que se inscrevem os acontecimentos. Fonte da nota: CAR02a; DUC02a; DUC02b; EDU06.
Fonte da definição: GRE79a: 107. Termos relacionados: encadeamento argumentativo, enunciado (1), sentido (2).
discurso (3) s. m. Bakhtin
Definição: língua em sua integridade concreta e viva Nota explicativa: O termo discurso é particularmente polissêmico. Na Semiótica
Fonte da definição: BAK97 : 18 1. · reimasiana, designa o nível do percurso gerativo de sentido em que a organiza-
Nota explicativa: O discurso é um fenômeno . gão discursiva virtual se torna realizada. Três parâmetros definem o discurso: a
que nasce a partir do diálogo e t d' . socral complexo, multifacetado ~nunciação, quando se opera a discursivização; a interação, dimensão pragmática,
. .
Já-dito e, ao mesmo tempo é Ol'I.eilt d
n re 1scursos diVers c · · A

d' os. onstJtUJ-se no ambito do


'

cm que se estabelece a relação en tre enunciador e enunciatário; o uso, em que se


. ' a o para o 1scurs · .
surgir. Todo discurso respond d' 0-Iesposta que é solicitado a realiza uma práxis enunciativa cultural, que se manifesta em gêneros, fnseologias,
e a outros 1zeres e po · , .
geneamente por uma divers'd d d - . ' r consegu mte, e tecido hetero- registros, esquemas discursivas canônicos etc.
I a e e vozes (pos1ç- · ·
ou menos aparentes Entre d' oes sociais, pontos d e vista) mais Fonte da nota: BER03: 417-418.
· o Iscurso e o objeto t . d.
do falante interpõe-se um m . t1 , I . 'en I e o IScurso e a personalidade Leitura recomendada: GRE79a: 102-106; GRE08.
ew eX!ve mmtas ve d'fi il d
discursos de outrem de discu !h . ' zes I c e ser penetrado, de Termos relacionados: discursivização, enunciação (6).
' rsos a ews sobre o mesm b.
tema. O discurso, desse mod fi . . o o Jeto, sobre o mesmo
o, con guia-se a partir d 1
terações sociais complexas p . d
' O!s em to os seus cami h
e um entre açamento de in-
, b'
discurso bivocal s. m. Bakhtin
direções, o discurso se encontra co d' n os ate o o Jeto, em todas as V. bivocalidade
. . m o 1scurso de o utre - d .
participar, com ele de uma inte - . m e nao po e deiXar de
. ' raçao VIva e tensa Nes . . .
do discurso pressupõe a 111 • s .· _ .
cnçao va1orativa de u d d I
· se p10cesso, a matenaliZação discurso citado s. m. Bakhtin
sujeito frente a outros discu E m a o ocutor, a posição de um Definição: mecanismo sintático-semântico de transmissão da palavra de o utrem
rsos. m outras palavr d· .
enunciados concretos de d t . d as, o Jscurso existe na forma de em que há uma integração ativa entre a palavra citada e a palavra de quem cita.
e ermma os falantes · ·t d d.
tuem dialógica e historicament L . 'SUJei os o .Jscurso que se consti- Fonte da definição: BAK81A: 143, 146.
dialógico e histórico Os .e.d ogo, o discurso é constitutiva mente ideológico Nota explicativa: Bakhtin considera o discurso citado (discurso direto, discurso
· enunc1a os, segundo fi l'd· d . '
tores definidos, tempo e esp ·ó . na.~ a es determmadas, interlocu- indireto, discurso indireto livre e suas variantes) um problema específico de sin-
aço PI pnos, concretizam-se e A d .
em esferas sociais de ativi'dad h m generos o discurso taxe que é tratado impropriamente pelos linguistas. Propõe que esse mecanismo
e umana.
Fo.n te da nota: BAK97: 183-184; BAK98A: 86, 88; BAK03E seja visto a partir de uma perspectiva enunciativa, isto é, levando-se em conta as
Leitura reco~endada: BAK97; BAK98A; BAK03E; BRA97 .. condições reais de fala. C hama a atenção para o fato de que aquele que apreende a
Termos relacionados· enunci - ( ) A enunciação de outrem não é um ser mudo, mas um ser cheio de palavras interio-
. açao 2 ' generos do discurso, plurilinguismo.
res. Essas palavras interiores constituem um substJ·ato a partir do qual se dá a inte-
discurso (4) S. m. Benveniste ração do discurso citante com o discurso apreendido do exterior. É no quadro do
Definição: atualização da língua cada vez , discurso interior que ocorre a apreensão da enunciação de outrem, sua compreen-
Fonte da definição: EBE06. que alguem assume o lugar de eu. são e sua apreciação. De forma pioneira, esse mecanismo sintático-semântico é
Nota explicativa: As formas da língua . . trabalhado como enunciação na enu nciação, reação da palavra à palavra, discurso
. 'ao se1em assumidas p . . .
a constituir 0 discurso Nes . OJ um SUJeito, passam no discurso, recepção ativa do discurso de outrem. Essa reação ativa ao discurso de
· se PI ocesso, o valor di t · t · .
também a expressar um valo!· en . . s 111 IVO própno da lingua passa outrem segue duas orientações principais: 1) pode visar à conservação da integri-
unc1atJvo
Fonte da nota: EBE06. · dade da palavra alheia. Nesse caso, verifica-se um esforço no sentido de delimitar o
~eitura r~co~endada: BEN89B, BEN89D, BEN89E. discurso citado com fronteiras nítidas e estáveis (por exemplo, discurso du·eto, dis-
ermos telacionados: enunciação (4) líng d. curso indireto); 2) pode visar a uma utilização mais sutil da palavra alheia, através
' ua- 1scurso, semântica.
do enfraquecimento e até mesmo do apagamento das fronteiras entre discurso ci-
discurso (5) S. m. Greimas tado e discurso citante. Nessa segunda tendência, encontram-se modelos mistos de
Definição: processo semiótico realizado u . transmissão do discurso de outrem (por exemplo, o discurso indireto sem sujeito
Fonte da definição: BER03: 417-418. q e se manifesta sob a forma de texto. aparente e, particularmente, o discurso indireto livre). Além dessas duas tendên-
cias maiores, Bakhtin refere inúmeras variantes do discurso direto e do discurso
indireto, em que se verifica maior flexibilidade e permeabilidade em relação às ten- tratual. No circuito interno do dispositivo, encontram-se os protagonistas, seres
dências do contexto narrativo. Traça, assim, uma história das formas de citação, de fala, internos ao ato de linguagem, definidos por meio de seus comportamentos
articulando-as aos gêneros literário, retórico, jurídico, político, entre outros. Esse discursivas. Os protagonistas são responsáveis pelo ato de enunciação. Eles são o
estudo não deixa de ser uma espécie de demonstração de como se operacionaliza a "sujeito-enunciador" e o "sujeito-destinatário", também denominados "locutor-
teoria semântica de Bakhtin, que integra elementos abstratos da língua à estrutura enunciador", ou simplesmente "enunciador", e "interlocutor-destinatário", ou
da enunciação viva, entendida como espaço de diálogo entre acentos apreciati- "destinatário". Os protagonistas assumem diferentes faces de acordo com os pa-
vos. Ao propor um estudo do discurso citado, tradicionalmente descrito como péis que lhe são atribuídos pelos parceiros do ato de linguagem em função da rela-
um problema de sintaxe, não pelo viés de abordagens gramaticais ou estilísticas, ção contratual. Embora haja uma relação de condição entre os sujeitos parceiros e
mas sob uma perspectiva enunciativa, o autor evidencia que a análise dos fatos de
05
protagonistas, não há entre eles uma relação de transparência absoluta.
língua é indissociável da enunciação. A análise do discurso citado proposta por ele
Fonte da nota: CHA92: 634; CHA01a: 30-31; CHA05: 18.
indica como articular metodologicamente, na análise de fenômenos de linguagem,
Leitura recomendada: CHA83; CHA08; CHA92; CHAOla; CHAOlb; CHA04a;
a questão linguística propriamente dita a dados da enunciação concreta, em que o
CHA04b; CHA05.
outro é concebido como constitutivo do processo discursivo.
Termos relacionados: circuito externo, circuito interno, encenação da linguagem.
Fonte da nota: BAK81; TEIOSb.
Leitura recomendada: BAK8l; CLA98: 252-254.
distância s.f Bakhtin
V. exotopia
dispositivo de mise en scene
da linguagem m. Charaudeau
S.
dominante expressiva s.f Bally
V. dispositivo do ato de linguagem V. valor expressivo

dispositivo do ato de linguagem s. m. Charaudeau domínio de comunicação S. m. Charaudeau


Outras denominações: dispositivo de rnise en scene da linguagem. Definição: conjunto de situações de comunicação de determinada prática social.
Definição: dispositivo no interior do qual se encontra o sujeito falante em relação Fonte da definição: CHA04b; 26.
a um outro parceiro. Nota explicativa: A situação de comunicação, ao determinar as condições de
Fonte da definição: CHA92: 634. produção e de reconhecimento dos atos de linguagem, ou seja, as condições de
Nota explicativa: Os componentes do dispositivo do ato de comunicação são a enunciação sob seu aspecto externo, estrutura a prática social em domínios de
situação de comunicação, os modos de organização do discurso, a língua e o tex- comunicação. Cada situação de comunicação particular inscreve os dados gerais
to. O locutor, mais ou menos consciente das restrições e da margem de manobra que orientam o domínio de comunicação, no nível de seus componentes, e traz
que lhe apresenta a situação de comunicação, utiliza categorias da língua que ele especificações que lhe são próprias. Todo domínio de comunicação propõe, a seus
ordena em modos de organização do discurso. O texto é o resultado do ato de lin- parceiros, certo número de condições que definem a expectativa da troca comuni-
guagem produzido por um sujeito em uma situação de troca social dada. Distin- cativa. É o reconhecimento dessas condições que possibilita a intercompreensão.
guem-se dois tipos de identidade dos sujeitos que participam do ato de linguagem. Fonte da nota: CHA04b; 26-27.
No circuito externo, encontram-se os parceiros do ato de linguagem, sujeitos de Leitura recomendada: CHA83; CHA08; CHA92; CHA01a; CHA01b; CHA04a;
ação, seres sociais que têm intenções. Também denominados "locutor-emissor" CHA04b; CHA05; CHA06.
e "interlocutor-receptor", esses parceiros são definidos por um certo número de Termos relacionados: contrato de comunicação, situação de comunicação.
traços identitários cuja pertinência depende do ato de comunicação considerado.
Eles são também denominados "sujeito comunicante" e o "sujeito interpretante" e domínio do semiótica S. m. Benveniste
estão implicados no jogo de expectativas que lhes é proposto por uma relação con- V. semiótica
domínio nocional s. Culioli 111. a língua os interpreta. Expressam-se através de índices chamados por Hagege de
Definição: classe de ocorrências estruturada a partir do centro organizador de biolectais, pertencentes a uma zona sistematicamente codificada, por exemplo: em
uma noção. japonês, várias partículas modalizando o enunciado segundo o grau de certeza, de
Fonte da definição: CUL90F; CUL90G; CUL99aD; CUL99bD. dúvida, de interrogação, variam em função do sexo do enunciador ou do auditor.
Nota explicativa: Um domínio nocional tem, entre outras, as seguintes proprieda- o imaginário linguístico diz respeito a variáveis que decorrem da aptidão humana
des: 1) de um ponto de vista quantitativo, ser munido de uma classe de ocorrên- para construir relações entre indivíduos, entre grupos, assim como entre estes e o
cias; 2) de um ponto de vista qualitativo, todo domínio se compõe de um interior, ambiente (índices sociolectais como as formas de familiaridade); que refletem are-
com um centro organizador, de uma fronteira e de um exterior. O interior fornece lação simbólica do enunciador com a língua (índices simbolectais como a adoção
ocorrências ao mesmo tempo individuais e identificáveis umas com as outras, por- de pronúncia considerada mais conveniente para determinado papel social); que
que todas possuem uma mesma propriedade. O centro organizador aparece, por decorrem dos estatutos e opções políticas (índices poliolectais como fenômenos
exemplo, em operações de autoidentificação ou na tipificação: Exemplo: a) "um de hipercorreção).
gat o e' um gato)); b) (( um gato é sempre um gato"; c) "um verdadeiro livro" (não Fonte da nota: HAG90: 212-214; 237-252.
uma brochura); d) "um livro livro" (isto é, um livro que é, verdadeiramente, um Leitura recomendada: HAG90.
livro). O exterior fornece, 'conforme o caso, o vazio, a ausência, 0 impossível, a Termos relacionados: diálogo (3), domínios de iniciativas, linguística sociooperativa.
alteridade inata: Exemplo: estruturas como: é "totalmente" diferente; isso não é
u~ livro "mesmo"; isso não tem "nada" a ver. A fronteira compreende valores que domínios de iniciativas s. m. Hagege
n_ao pertencem nem ao interior, nem ao exterior, mas, conforme a ação dos enun- Definição: elementos que interferem na realidade do exercício discursivo tendo
Ciadores. no decorrer de uma conversa, de uma discussão, de uma argumentação, em vista as iniciativas do enunciador.
a fr~nteira poderá ser religada seja ao interior, seja ao exterior. Logo, 0 domínio Fonte da definição: HAG90: 212.
nociOnal é um conjunto de virtualidades. Nota explicativa: Apesar de todos os constrangimentos impostos, percebe-se a ini-
Fonte da nota: CUL90F; CUL90G; CUL99aD; CUL99bD. ciativa do enunciador em dois momentos: a) na construção do sistema da língua
Leitura recomendada: FRA98; FUC75; FUC84. que pode se dar por enunciador coletivo (agente inconsciente das mudanças em
Termos relacionados: fronteira, noção, ocorrência. longos períodos), por grupo de enunciadores formando sociedades caracterizadas
(gênese dos crioulos, nascimentos de línguas especiais) e/ou por enunciadores in-
do~~nios de constrangimentos S. m. Hagege dividuais por ocasião de ações conscientes (criação neológica, atividade poética
Definiçao: elementos condicionadores das iniciativas linguísticas dos enunciado- etc.); b) na participação que tem na criação das situações de variação linguística e
res em situações de fala. de uso da palavra como instrumento de poder.
Fonte da definição: HAG90. Fonte da nota: HAG90: 212.
No.ta explicativa: Domínios de constrangimentos, considerados como 0 que é obriga- Leitura recomendada: HAG90.
tór~o e escapa ao controle do utilizador, dividem-se em: a) sistema da língua (fono- Termos relacionados: domínios de constrangimentos, enunciador psicossocial,
logia, morfologia, sintaxe, léxico); b) circunstâncias dialogais; c) fatores biológicos e linguística sócio-operativa.
d) imaginário linguístico. O sistema da língua e as circunstâncias dialogais corres-
pondem ao lado social do modelo desenvolvido por Hagege. O primeiro apresenta-
se para o enunciador como um campo de servidão, definidor da gramática como
o que é obrigatório. Por exemplo, independe da vontade do enunciador decidir
que o verbo e o nome não concordam numa língua em que essa concordância seja
regra~ O segundo diz. respeito a regras de construção dos enw1ciados. Por exemplo,
relaçoes entre enunCJados ligados ao seio de uma família por relações de conversão.
Os fatores biológicos são relativos às variáveis ligadas ao sexo e à idade tal como
_ d . compreendida por exemplo, em situações em que o falante
evocaçao po e ser ' . . ..
. - de que determinada expressão sena ma1s adequada em uma Cll-
tena a sensaçao .
, · d que em outra, diante de um grupo socral do que de outro. O termo
cunstancJa o 'l' .
- caz parte da primeira fase de estudos de Bally, a EstJ JStJca.
efeitos por evocaçao t<

Fonte da nota: BAL51; CHI85.


efeitos diretos S. m. Bally Leitura recomendada: CHI85; DUR98; MED85. - . . -
V. efeitos natura is .onados· efeitos naturais, fato de expressao, m e10 de expressao.
Termos r elacl ·

efeitos naturais s.m. Bally efeitos por evocação do meio s. m. Bally


Outras denominações: caracteres afetivos naturais, efeitos diretos.
V. efeitos por evocação
Definição: impressões causadas no sujeito que decorrem diretamente da significa-
ção das unidades expressivas de uso da linguagem.
efeito-sujeito s. m. Authier-Revuz
Fonte da definição: BAL51 .
Nota explicativa: Segundo Bally, os efeitos naturais são aqueles decorrentes da im-
v. sujeito-efeito
pressão causada diretamente no sujeito falante e ouvinte pela significação, pelo
sentido dos fatos de expressão, isto é, das unidades expressivas de uso da lingua-
ele ( 1) Benveniste
gem, sem uma reflexão a respeito. O falante tem a impressão de que as expressões v. não-pessoa
são inseparáveis da significação. Os efeitos naturais compreendem efeitos produzi-
dos por caracteres subjetivos, singulares e individuais. Diz Bally que se está diante ele (2) Bréal
de um efeito natural q uando, por exemplo, ao ouvir uma palavra, o sujeito "ex- V. terceira pessoa
perimenta uma sensação agradável ou desagradável, sem que a reflexão acrescente
nada de essencial a essa primeira impressão". O termo efeitos naturais faz parte da elemento subjetivo S. m. Bréal
primeira fase de estudos de Bally, a Estilística. Definição: intervenção do interlocutor na linguagem.
Fonte da nota: BAL51. Fonte da definição: BRE92: 157. . _
Nota explicativa: Para Michel Bréal, as reflexões, os sentimentos e as apreCJaçoes
Leitura recomendada: CHI85; DUR98; MED85.
Termos relacionados: efeitos por evocação, fato de expressão. do interlocutor constituem o elemento subjetivo da linguagem, que é represen-
tado por palavras, por formas gramaticais e pelo plano geral de nossas línguas.
efeitos por evocação s. m. Bally Por exemplo, advérbios como "felizmente", "sem dúvida" e "talvez" expressa~ o
Outras denominações: caracteres afetivos por evocação do meio, efeitos por evo- sentimento do interlocutor e são elementos subjetivos que se entrelaçam na lm-
cação do meio. guagem com as palavras que servem apenas para expor os fatos.
Definição: impressões causadas no sujeito a partir de uma reflexão inconsciente que Fonte da nota: BRE92: 157-159.
liga determinadas unidades expressivas a meios linguísticos e sociais específicos. Leitura recomendada: BRE92.
Fonte da definição: BAL51. Termos relacionados: primeira pessoa, segunda pessoa, terceira pessoa (2).
Nota explicativa: Os efeitos por evocação decorrem do valor simbólico que as uni-
dades expressivas adquirem nos diferentes meios sociais, isto é, esses efeitos são embrayeur s. m. Jakobson
aqueles provocados no sujeito quando os fatos expressos evocam os meios da vida V. shifter
e da atividade social em que seu emprego é mais frequente. Bally destaca que essa
evocação só é possível devido à existência de uma língua comum e de modos de embreador s.m Jakobson
expressão específicos a diferentes meios de expressão. A essência dos efeitos por V. shifter
1
a primeira pessoa do plural está no lugar da primeira do singular e isso é marcado
embreagem s.f Greimas
pelo particípio no singular, que é explicado como vestígio da ocorrência de uma
Definição: efeito de retorno à instância de enunciação, produzido pela suspensão
debreagem anterior à embreagem.
da oposição entre dois termos das categorias de pessoa ou de espaço ou de tempo.
Fonte da nota: FI096: 48-52, 302.
Fonte da definição: G RE79a: 119.
Leitura recomendada: FI096: 48-52; GRE08.
Nota explicativa: Na embreagem, suspendem-se oposições das categorias de pes-
Termos relacionados: debreagem, embreagem enunciativa, embreagem enunciva.
soa ou de espaço ou de tempo, o que leva à utilização de uma pessoa com valor
de outra, de um marcador de espaço com sentido de outro ou de um tempo com
significado de outro. Quando Pelé afirma, como faz frequentemente, "Se o Pelé
embreagem actancial s. f Greimas
Definição: efeito de retorno à instância de enunciação, produzido pela suspensão
jogasse hoje, marcaria muito mais gols", o que faz é neutralizar a oposição entre a
da oposição entre dois termos da categoria de pessoa.
primeira e a terceira pessoas, utilizando a terceira com valor de primeira. Quando
Fonte da definição: FI096: 48.
se diz "Você lá, o que está fazendo?", suspende-se a oposição entre aí e lá, utilizan-
Nota explicativa: Na embreagem actancial, suspendem-se oposições da categoria de
do-se o segundo advérbio no lugar do primeiro. Quando se afirma "No dia 7 de
pessoa e, como consequência, utiliza-se uma pessoa no lugar de outra. Por exem-
setembro de 1822, D. Pedrp proclama a independência", neutraliza-se a oposição
plo, na frase "Vamos tomar nosso remedinho", dita pela mãe à criança, a primeira
entre o pretérito perfeito (concomitante ao pretérito) e o presente (concomitante
pessoa do plural está usada com o valor de segunda do singular. São ainda embrea-
ao presente) e este passa a ser usado em lugar daquele. A embreagem é um efeito
gens actanciais a passagem de u m actante de um nível enunciativo para outro. Isso
de retorno à instância de enunciação, porque, quando se instalam no enunciado ocorre, quando há histórias dentro da história e um ator de uma entra na outra:
pessoas, espaços e tempos no seu sentido próprio, eles simulam pessoas, espaços por exemplo, no conto "Continuidade dos parques", de Cortázar, um ator de uma
e tempos do mundo real. No entanto, quando se utiliza uma pessoa no lugar de história dirige-se à biblioteca em que o leitor está lendo-a para matá-lo. Acontece
outra, um tempo com valor de outro, um marcador de espaço com o sentido de também quando um actante de um nível ocupa o lugar de um de outro nível:
outro, nota-se claramente que pessoas, espaços e tempos são construções da lin- por exemplo, Riobaldo, personagem da obra Grande sertão: veredas, de Guimarães
guagem: a primeira pessoa do plural pode indicar a primeira do singular; a se- Rosa, é tecnicamente um interlocutor, já que é instalado no texto por um narra-
gunda do singular pode ser usada pela primeira do singular; o espaço da primeira dor, marcado pelo travessão que inicia o romance. No entanto, como o narrador
pessoa pode apontar para o da terceira; o presente pode tornar-se futuro e assim não aparece mais e todo o romance é constituído da exposição de Riobaldo, este
por diante. São ainda embreagens todos os procedimentos de mistura de níveis ocupa o lugar do narrador. As embreagens actanciais produzem efeitos de apro-
enunciativos (por exemplo, o galã sair da história projetada na tela do cinema ximação e distanciamento da instância da enunciação, que se concretizam como
para viver uma aventura amorosa com a espectadora, como em A rosa pú1pura subjetividade e objetividade. O efeito será de subjetividade na medida em que se
do Cairo, de Woody Allen) ou as operações de volta ao passado ou de ida ao fu- camin ha da terceira para a primeira pessoa; será de objetividade em caso contrário.
turo (como as chamadas analepses e prolepses da narrativa verbal ou o flashback Fonte da nota: FI096: 48, 118-1 24.
e o flashforward da narrativa cinematográfica). As embreagens produzem efeitos Leitura recomendada: FI096: 84-101,118-124.
de aproximação e distanciamento da instância da enunciação, que se concretizam Termos relacionados: embreagem, embreagem enunciativa, embreagem enunciva.
como subjetividade e objetividade na categoria de pessoa; como presentificação e
absenteização na categoria de espaço; como conjunção e deslocação, realidade e embreagem enunciativas.! Greimas
virtualidade, inacabamento e não início na categoria de ten1po. É necessário postu- Definição: efeito de retorno à instância de enunciação, que se dá quando um ter-
lar teoricamente que toda embreagem pressupõe uma debreagem anterior, porque mo enunciativo é utilizado no lugar de outro, seja ele enunciativo ou enuncivo.
é preciso haver uma marca que indique ao leitor que uma pessoa, um tempo ou Fonte da definição: FI096: 51.
um marcador de espaço estão sendo usados no lugar de outro. Ora, essa marca Nota explicativa: Na embreagem enunciativa, os actantes da enunciação (eu/tu), os
deve ser descrita como um vestígio da debreagem que precede a embreagem. Na espaços determinados a partir do aqui e os tempos enunciativos (concomitância,
frase "Apesar da benevolência com que fomos acolhidos, não nos sentíamos bem", anterioridade e posterioridade ao presente) são usados no lugar seja de actantes,
espaços e tempos enunciativos, seja de actantes, espaços e tempos enuncivos (ele; embreagem espacial s.f Greimas
espaços construídos sem qualquer referência ao aqui; concomitância, anteriorida- Definição: efeito de retorno à instância de enunciação, produzido pela suspensão
de ou posterioridade ao pretérito ou ao futuro). Quando se diz "Se você precisa da oposição entre dois termos da categoria de espaço.
do serviço público de saúde, você está perdido", o você é usado no lugar de uma Fonte da definição: FI096: 48.
terceira pessoa (alguém). Como se usa um actante da enunciação para significar Nota explicativa: Na embreagem espacial, suspendem-se oposições da categoria
um actante do enunciado, ocorre uma embreagem enunciativa. Na frase "Entrego de espaço e, como consequência, utiliza-se um marcador de espaço no lugar de
amanhã sem falta", o presente é utilizado no lugar do futuro do presente. Como outro. Na frase "Eu só queria estar lá para mostrar a esta canalha como age um
um tempo enunciativo tem o valor de outro, dá-se uma embreagem enunciativa. homem de bem", o demonstrativo esta está empregado com o valor de aquela,
O que determina se a embreagem é enunciativa é o termo que é usado em lugar de para presentificar "canalha" no espaço da enunciação. As embreagens actanciais
outro. Se ele for enunciativo, a embreagem será enunciativa. Como a embreagem produzem efeitos de aproximação e distanciamento da instância da enunciação,
enunciativa diz respeito às categorias de pessoa, de espaço e de tempo, há uma que se concretizam como presentificação e absenteização. O efeito será de presença
embreagem actancial enunciativa, uma embreagem espacial enunciativa e uma na medida em que se põe no espaço do eu/tu o que estava fora dele; será de ausên-
embreagem temporal enunciativa. cia em caso contrário.
Fonte da nota: FI096: 51. · Fonte da nota: FI096: 49, 289-290.
Leitura recomendada: FI096: 84-101, 118-124, 191-229, 238-248, 283-285, 293-296. Leitura recomendada: Fl096: 283-285, 293-296.
Termos relacionados: embreagem, embreagem enunciva. Termos relacionados: embreagem, embreagem enunciativa, embreagem enunciva.

embreagem enunciva s.f Greimas embreagem heterocategórica s.f Greimas


Definição: efeito de retorno à instância de enunciação, que se dá qua ndo um ter- Definição: efeito de retorno à instância de enunciação, produzido pela suspensão
mo enuncivo é utilizado no lugar de outro, seja ele enunciativo ou enuncivo. de oposições, que afeta distintas categorias da enunciação.
Fonte da definição: FI096: 51. Fonte da definição: GRE79a: 121.
Nota explicativa: Na embreagem enunciva, os actantes do enunciado (ele), os espa- Nota explicativa: Na embreagem heterocategórica, suspendem-se as oposições entre
ços construídos sem qualquer relação com o aqui e os tempos enunciativos (conco- termos de categorias enunciativas distintas. Nela uma pessoa é usada no lugar de um
mitância, anterioridade e posterioridade ao pretérito ou ao fu turo) são usados no tempo ou um espaço, um tempo é utilizado com valor de uma pessoa ou um espaço,
lugar seja de actantes, espaços e tempos enunciativos (eu/tu; espaços relacionados um espaço designa uma pessoa ou um tempo. Quando se diz "A distância entre São
ao aqui; concomitância, anterioridade ou posterioridade ao presente), seja de ac- Paulo e Rio é de seis horas de carro", neutraliza-se a oposição entre espaço e tempo,
tantes, espaços e tempos enuncivos. Quando um pai diz ao filho "O papai não quer e uma medida de tempo indica uma medida de espaço. Como duas categorias
que você faça isso", a terceira pessoa (papai) é usada no lugar da primeira. Como diversas são afetadas pela embreagem, temos uma embreagem heterocategórica.
se usa um actante do enunciado para significar um actante da enunciação, ocorre Fonte da nota: FI096: 50-51.
uma embreagem enunciva. Na frase "Se eu quisesse aborrecimentos, voltava para Leitura recomendada: FI096: 50-51; GRE79a: 121; GRE08.
casa", o imperfeito é utilizado no lugar do futuro do pretérito. Como um tempo Termos relacionados: embreagem, embreagem enunciativa, embreagem enunciva.
enuncivo tem o valor de outro, dá-se uma embreagem enunciva. O que determina
se a embreagem é enunciva é o termo que é usado em lugar de outro. Se ele for embreagem homocategórica s.f Greimas
enuncivo, a embreagem será enunciva. Como a embreagem enunciva diz respeito Definição: efeito de retorno à instância de enunciação, produzido pela suspensão
às categorias de pessoa, de espaço e de tempo, há uma embreagem actancial enun- de oposições, que afeta uma mesma categoria de pessoa, de espaço ou de tempo.
civa, uma embreagem espacial enunciva e uma embreagem temporal enunciva. Fonte da definição: GRE79a: 121.
Fonte da nota: FI096: 51. Nota explicativa: Na embreagem homocategórica, suspendem-se as oposições entre
Leitura recomendada: FI096: 84-101, 118-124, 191-229, 238-248,283-285, 293-296. termos da categoria de pessoa ou de tempo ou de espaço. Nela uma pessoa é usada no
Termos relacionados: embreagem, embreagem enunciativa. lugar de outra, um tempo com valor de outro, um marcador de espaço para designar
outro. Observe-se o seguinte texto: "Em 1964, um golpe de estado instaurou uma di- cabamento e não início ou acabamento. O efeito será de conjunção, de realidade
tadura no Brasil. Gabeira era um estudante, que, mais tarde, participará da guerrilha ou de inacabamento na medida em que se aproxima do agora e de deslocação, de
urbana". O verbo participará, que indica uma posterioridade ao presente, é usado no virtualidade ou de não início ou de acabamento, quando se afasta do momento da
lugar de participaria, que designa posterioridade ao pretérito. Como uma só e mes- enunciação. Na frase "Eu desejava falar com o senhor", o imperfeito está no lugar
ma categoria é afetada pela embreagem, temos uma embreagem homocategórica. do presente. Esse afastamento do presente da enunciação dá um efeito de virtua-
Fonte da nota: FI096: 50. lidade à frase, o que atenua o pedido expresso por ela. Por isso, esse imperfeito é
Leitura recomendada: FI096: 84-101, 118-124, 191-229, 238-248, 283-285, 293- denominado imperfeito de polidez.
296; GRE08. Fonte da nota: FI096: 49-50, 227-229.
Termos relacionados: embreagem, embreagem enunciativa, embreagem enunciva. Leitura recomendada: FI096: 191-229, 238-248.
Termos relacionados: embreagem, embreagem enunciativa, embreagem enunciva.
embreagem interna s./ Greimas
Definição: efeito de retorno à instância de enunciação, em que um actante já insta- embreante s. Jakobson
lado no enunciado realiza uma operação de suspensão de uma oposição entre dois V. shifter
termos das categorias de pessoa ou de espaço ou de tempo.
Fonte da definição: FI096: 52. encadeamento argumentativo S. m. Ducrot
Nota explicativa: Na embreagem interna, a operação enunciativa é realizada por Definição: sequência de dois segmentos de discurso, com interdependência de
um actante inscrito no enunciado. Tomemos o seguinte texto: "No segundo ca- sentido, ligados por um conector.
pítulo do conto 'Miss Dollar', de Machado de Assis, o narrador, falando do Dr. Fonte da definição: DUC98; DUC02a; DUC02b; EDU06.
Mendonça, diz:- o Agora exercia a medicina como amador". Instala-se no enun- Nota explicativa: Os encadeamentos argumentativos são qualificados como dis-
ciado um actante de terceira pessoa: o narrador. É esse actante já instaurado no cursos constituídos por dois segmentos que, de um ponto de vista semântico, pos-
enunciado que vai realizar a embreagem em que o imperfeito é usado no lugar do suem uma interdependência de sentido. Essa relação de interdependência pode ser
presente. Por isso, trata-se de uma embreagem interna. normativa (DC) ou transgressiva (PT). As abreviaturas DC e PT correspondem a
Fonte da nota: FI096: 52. dane(= portanto) e pourtant (= no entanto).
Leiturarecomendada:FI096: 84-101,118-124,191-229,238-248,283-285,293-296. Fonte da nota: CAR94; CAR02a; DUC02a; DUC02b.
Termos relacionados: embreagem, embreagem enunciativa, embreagem enunciva. Termos relacionados: bloco semântico, conector, segmento.

embreagem temporal s.f Greimas encenação da linguagem s.f Charaudeau


Definição: efeito de retorno à instância de enunciação, produzido pela suspensão Outras denominações: mise en scene da linguagem
da oposição entre dois termos da categoria de tempo. Definição: ato de utilização da Linguagem pelo sujeito falante que produz um efei-
Fonte da definição: FI096: 49. to sobre o interlocutor, por meio de escolhas de diferentes ordens de organização
Nota explicativa: Na embreagem temporal, suspendem-se oposições da categoria do discurso.
de tempo e, como consequência, utiliza-se um marcador de tempo no lugar de Fonte da definição: CHA83: 108.
outro. Na frase "Ele terá atualmente vinte anos", o futuro do presente é usado no Nota explicativa: Em todo ato de comunicação ocorre uma encenação. Assim
lugar do presente, para indicar uma virtualidade, uma possibilidade, uma suposi- como no teatro o ator se utiliza do espaço cênico, um texto, para produzir efeitos
ção. São também embreagens temporais as voltas ao passado ou as idas ao futuro de sentido endereçados a um público imaginado pelo locutor, utiliza os compo-
durante uma narrativa. É o caso do flashback e do flashforward no cinema ou das nentes do dispositivo da comunicação em função dos efeitos que quer produzir so-
chamadas analepses e prolepses nas narrativas verbais. As embreagens actanciais bre o interlocutor. O sujeito comunicante, considerando as restrições situacionais
produzem efeitos de aproximação e distanciamento da instância da enunciação, do ato de comunicação, pergunta-se sobre "como dizer", isto é, sobre como orde-
que se concretizam como conjunção e deslocação, realidade e virtualidade, ina- nar discursivamente os dados externos. Os dados da finalidade do ato de comu-
nicação determinam escolhas enuncivas (os modos de organização do discurso) fonte da definição: AUT98B: 183.
a serem empregadas pelo sujeito falante; os dados sobre a identidade dos falantes Nota explicativa: A enunciação, concebida como um campo heterogêneo do co-
determinam modos enunciativos (alocutivo, elocutivo, delocutivo) nos quais deve nhecimento, põe em jogo o sujeito e sua relação com a língua e com o sentido.
se engajar; os dados do propósito determ inam certos modos de tematização (orga- r. tão considerada lugar de uma inevitável heterogeneidade teórica, que leva a
p, en '
nização de temas e subtemas); os dados das circunstâncias materiais determinam . 'st ·ca entendida em seu sentido restrito, a ter que recorrer a teorias exteriores
Imgm 1 ' . . . . .
modos de serniologização (organização da encenação material - verbal ou não- seu campo para apoiar a descrição dos fatos enune1at1vos. Ta1s teonas extenores
3
verbal- do ato de comunicação). são: a teoria do sujeito de}. Lacan, o dialogismo de M. Bakhtin e a noção de inter-
Fonte da nota: CHA92: 635; CHA97: 70; CHA04a: 452-453; CHA04b: 26-27. discurso de M. Pêcheux.
Leitura recomendada: CHA83; CHA08; CHA92; CHA97; CHAOla; CHAOlb; fonte da nota: AUT98B: 177-196.
CHA04a; CHA04b; CHA06. Leitura recom endada: AUT98; AUT04a; TEIOO.
Termos relacionados: contrato de comunicação, dispositivo do ato de linguagem, Termos relacionados: heterogeneidade constitutiva, heterogeneidade mostrada,
modo de organização do discurso. heterogeneidade teórica.

entidade abstrata s.f Ducrot enunciação (2) s.f Bakhtin


Definição: construção teórica subjacente à realização linguística. Outr as denominações: enunciado, enunciado concreto.
Fonte da definição: DUC84a: 368-393; EDU06. Definição: materialização da interação verbal de sujeitos históricos.
Nota explicativa: Ao sistematizar a análise das entidades linguísticas, Ducrot dis- Fonte da definição: BAK95b.
tingue as entidades abstratas - a frase e o texto - de suas ocorrências concretas- o Nota explicativa: Partindo da crítica de duas concepções, uma que considera a
enunciado e o discurso. Como entidade abstrata, a frase subjaz ao material linguís- língua um sistema de normas imutáveis e outra, a enunciação como ato individual,
tico de que são constituídos os enunciados, permanecendo idêntica a cada uma Bakhtin [Volochinov] propõe a observação da dinamicidade da linguagem e da
de suas realizações. Exemplo: a sequência "faz bom tempo", se dita por pessoas natureza social da enunciação. Para tanto desenvolve uma concepção de enuncia-
diferentes, apresenta dois enunciados (entidades concretas) distintos e duas ocor- ção em que a língua é considerada em situações concretas, cujos interlocutores,
rências da mesma frase (entidade abstrata). espaço, tempo e projeto discursivo são fundamentais. Desse modo, o que importa
Fonte da nota: DUC84a: 368-393; EDU06. não é 0 aspecto reiterável da forma linguística, mas sim seu caráter de novidade,
Termos relacionados: entidade concreta, enunciado (1), frase (3). 0 evento, aquilo que permite a circulação de posições avaliativas de sujeitos do
discurso e a permanente renovação de sentidos.
entidade concreta s. r Ducrot As rubricas enunciação e enunciado, na obra bakhtiniana, conforme explica o
Definição: realização linguística de uma construção teórica que lhe é subjacente. tradutor Paulo Bezerra (Os gêneros do discurso, ed. 2003), advêm do termo russo
Fonte da definição: DUC84a: 368-393; EDU06. "viskázivanie", significando tanto o ato de enunciar em palavras, como o seu resul-
Nota explicativa: Ao sistematizar a análise das entidades linguísticas, Ducrot dis- tado, um romance, por exemplo. Logo, o tratamento dado ao enunciado equivale
tingue as entidades abstratas- a frase e o texto- de suas ocorrências concretas- o ao da enunciação. O enunciado, para o pensador russo, é a unidade mínima da
enunciado e o discurso. Somente a esses últimos pode-se atribuir um sentido, obti- comunicação discursiva e um elo entre vários enunciados; por isso, preserva resso-
do a partir da significação da frase que lhe é subjacente. nâncias de diferentes dizeres ao mesmo tempo em que antecipa outros.
Fonte da nota: DUC84a: 368-393; EDU06. Todo enunciado, segundo textos assinados por Voloshinov (1926, 1930), com-
Termos relacionados: discurso (1), entidade abstrata, enunciado (1). porta duas faces indissociáveis: uma verbal e outra extraverbal (contexto mais am-
plo). Os enunciados não coincidem com sua constituição puramente verbal (em
enunciação (1) s.f Authier-Revuz sentido estrito), pois são impregnados de não-ditos. A face extraverbal, situação e
Definição: campo heterogêneo do conhecimento em que se articulam língua, fala condição necessária do desenvolvimento ideológico do enunciado, corresponde
e sujeito. ao espaço e tempo do acontecimento, ao objeto ou tema do enunciado e às posi-
ções assumidas pelos interlocutores. Os aspectos extraverbais não são a causa ex- ·s Quanto ao proJ'eto discursivo do falante e às formas de gênero de acaba-
estávet .
terior do enunciado, não são uma força mecânica externa, mas sim se integram ao é possível perceber que o enunciado, resultante de uma relação valorativa,
111ent o,
enunciado como um elemento indispensável a sua constituição semântica. Nessa ·e se materializa em gêneros do discurso, os quais fu ncionam como uma me-
sempt . . . .
perspectiva, o verbal e o extraverbal estão articulados no enunciado, indicando mória discursiva dinâmica que organiza nosso dtzer em formas compostcwnats,
que toda dimensão verbal é heterogênea e constitutivamente ideológica e social. · ]adas a u m tema e a u m estilo verbal recon hecíveis de uma dada comunidade.
arttcu ' . .
Essas características, no entanto, não eliminam a possibilidade de o enun ciado Na constit uição do enunciado, há um entrecruzament o de vozes dtscurstvas em
se materializar apenas por elementos não-verbais (por exemplo, um gesto, uma concorrência, em que se encontram e se distanciam diferentes pontos de vista, vi-
expressão facial, uma obra de arte), desde que tenha s ujeito, expressão avaliat iva. sões de mundo. Dessa forma, o enunciado constitui-se como uma resposta a uma
Também é impottante observar que há no enunciado, conforme Bakhtin (textos de realidade concreta, ou seja, o enunciado se materializa heterogeneamente quan -
1959 a 1961), uma relação entre o dado e o criado. Isso se deve ao fato de o enunciado do um indivíduo, de um dado con texto cultural, toma uma atitude responsiva
não ser um mero reflexo, uma expressão de algo já existente fora dele, dado e acabado, (em relação ao objeto do discurso e à atitude do outro sobre o objeto), posição
mas sim criar algo que não existia antes, criar algo singular, com nova valoração. Nes- ideológica corporificada pela entonação expressiva. Existindo entonação (acento
se processo, o criado se vale de algo dado (língua, um fenômeno, um sentimento etc.), de valor, avaliação, expressividade), h á enunciado, em cuja constituição ressoam
que se transforma, é ressign$cado, reelaborado, reacentuado em um novo contexto relações dialógicas diversas com outros sujeitos e discursos. . . .
de enunciação. Da mesma forma, o enunciado está sempre em inter-relação com ou- o enunciado (enunciação), surgido num determinado m omento soctal e htstón-
tros enunciados, o que o caracteriza como dialógico. Não há enunciado isolado, uma co, por conseguinte, n ão pode deixar de tocar em milhares de fios dialógi~os exis-
vez que todo enunciado pressupõe enunciados outros, que o antecedem e o sucedem. tentes, de ser participante ativo do diálogo social. A relação entre o enunetado e o
Nessa perspectiva, nenhum enunciado pode ser o primeiro ou o último, já que pertence objeto do discurso é complexa, uma vez que o objeto é constituído por pontos de
a uma cadeia complexa de enunciados, os quais instauram relações de sentido entre si. vista e apreciações de outros, o que cria interações variadas. Assim, o enunciado,
Bakhtin (textos de 1952 e 1953) distingue o enunciado concreto da oração, mos- para Bakhtin (textos de 1934 e 1935), concretiza-se a partir de uma plur~lidade de
trando que a oração é unidade da língua, não é delimitada pela alternância de vozes, em que fo rças de centralização e de expansão em permanente ten stonamen-
sujeit os do discurso, não tem contato com a situação extraverbal, nem com os to garantem a dinamicidade dos sentidos pela interceptação entre vozes sociais,
enunciados alheios e n em pressupõe posição responsiva do outro. O enunciado,
acentuadas valorativamente por sujeitos dialógicos.
por sua vez, como unidade da comunicação discursiva, é construído com auxílio
Fonte da nota: BAK95b; BAK97; BAK98; BAK03.
de formas linguísticas (desde uma unidade até um conjunto), importando, so-
Leitura recomendada: BRA05; BRA06a.
bretudo, a dinamicidade instaurada no processo enunciativo, a possibilidade de
Termos relacionados: d ialogismo, discurso (3), gêneros do discurso.
resposta, a orientação social (endereçamento) para o interlocutor, os contextos
constitutivos, as inter-relações com outras enunciações, a história do dizer, as p o-
sições ideológicas assumidas e as relações de sentido estabelecidas.
enunciação (3) s.f Bally . .,
Definição: ato do falante de utilizar os meios de expressão comuns a todos os mdlVl-
Dentre as peculiaridades do enunciado, a alternância dos sujeitos do discurso
duos de uma comunidade Enguística para expressar suas ideias e sua subjetividade.
delimita formalmente seu início e seu fim, e a conclusibilidade (acabam ento)
Fonte da definição: BAL65.
configura a abertura para a resposta. O enunciado é constituído por três fato res
Nota explicativa: Na enunciação, um sujeito (que é uma representação que o lo-
organicamente ligados que determinam sua inteireza, a possibilidade de resposta
cutor tem de si m esmo) se expressa por meio da linguagem, expondo suas ideias
(compreensão responsiva): a) exauribilidade do objeto e do sentido, b) projeto de
e sua subjetividade. Segundo Bally, toda en u nciação do pensam ento pela língua
discurso ou vontade de discurso do falante, c) formas típicas composicionais e de
é condicionada lógica, psicológica e linguisticamente em proporções variáveis. A
gênero do acabamento. Embora o enunciado seja inesgotável, há uma variação no
enunciação é o ato que um sujeito realiza ao comunicar seus pensamentos. Pensar
seu tratamento conforme a esfera (campo) de atividade humana. Em esferas mais
é " reagir a uma representação constatando-a, apreciando-a ou desejando-a", e a
dinâmicas, como a publicitária, a esgotabilidade é pequena, já que há mais chance
representação consiste em uma noção da realidade que cada sujeito tem. A "teoria
de criatividade. Em esferas menos dinâmicas, como a das atividades burocráticas,
geral da enunciação" foi apresentada em um segundo momento da reflexão de
há um maior grau de esgotabilidade, pois os gêneros, ainda que híbridos, são mais
· - "(BEN95· 178)
' ncia ou de justificação, quando se quer criar uma convtcçao . .
Charles Bally, no livro, Linguística geral e linguística francesa. Ela é o aprimoramen- refere ' . , . d t' do de enunciado ou mesmo de frase,
uso o termo é maiS proxtmo o sen I
to do estudo que o autor denomi nava inicialmente "Estilística". Nesse ' d - do d e "ato" tal como aparece no texto de 1970, que é,
Fonte da nota: BAL51; BAL65: 35 e s. ou seja, de pro uto e nao ' . . - d termo or
. vez associado à ideia de ato. Esses exemplos de utthzaçao o p
Leitura recomendada: CHI85; DUR98; MED85. pot sua ' _ d . isoladamente, numa
eniste são suficientes para provar que nao se po e tomar l -
Termos relacionados: Estilística, frase ( 1), meio de expressão. Benv . · E tras pa avras, nao se
. . algo que foi construído numa dlacroma. m ou '
smcron1a, râneos um do outro.
ler os textos de Benveniste como se fossem contempo d fi . - d
enunciação (4) s.f Benveniste po de lh ' ltiplas e mçoes o
Definição: colocação da língua em funcionamento por um ato individual de utilização. veniste operou deslocamentos em seu traba o e as mu
Bw 1 d'
Fonte da definição: BEN89: 82. termo enunciação, em sua obra, são exemplo c aro ISSO.
Nota explicativa: A noção de enunciação, entendida como uso da língua, pressu- Fonte da nota: EBE06.
põe um quadro enunciativo, que se configura por sujeitos - o par eu-tu -, ou seja, Leitura recomendada: BEN89A; BEN89D, ON0~7._ , iscurso, semântico.
a noção de pessoa - e situação- o espaço e o tempo. Essa noção, descrita como Termos relacionados: aparelho for mal da enunCiaçao, lmgua-d
ato de tomada da palavra, constitui-se em um processo de inserção dos sujeitos na
língua, o qual envolve apropriação e atualização. O primeiro se caracteriza pela enunciação (5) s.f Culioli . I e dá a construção
seleção de signos linguísticos, comuns aos sujeitos; o segundo exige um trabalho Definição: modo de constituição dos enunctados pelo qua s
dos sujeitos que visam, respectivamente, à expressão e à compreensão de uma ideia de sentido.
relativa a ambos e à situação em que se inserem. Tal atividade dos sujeitos p res- Fonte da definição: CUL90; CUL99a; CUL99b. . la
. _ _ , b' d como a mane1ra pe
supõe o estabelecimento de inter-relações entre as palavras ou sin tagmatização, . ti . Em Culioli a enunclaçao nao e conce I a .
Nota exp ltca va. ' . 1 um enunctado
exigência da ideia que é expressa ou interpretada. O estudo da enunciação é feito qual um sujeito se enuncia, mas sim como ~ ~anelra pela q~t:e um lado, todo
por meio da análise do enunciado, sua materialização. A noção apresentada até se constitui. Na enunciação, há uma contradtçao fundamental: . das por
· c . - arafrasttcas gera
aqui configura-se, sem dúvida, em uma das mais importantes definições do ter- . do faz parte de uma famíha de transtormaçoes p
enunc1a )· de outro a cada um
mo enunciação na obra de Émile Benveniste. No entanto, não deve ser entendida um esquema de léx.is (um enunciado é u m dentre outros , , d
, . . t - s (cada um os enun-
como suficiente para esgotar o tema. Em outras palavras, o termo enunciação em nciados podem ser associadas vanas mterpre açoe
desses enu . . rocesso de constru-
Benveniste não tem definição única, nem unívoca. Ao contrário disso, trata-se de ciados da família é modulado). Se, na relação predtcattva, o p . - -
d denvaçao que sao as
tema m ulti face tado, desenvolvido ao longo de anos de reflexão. O termo enuncia- ão e reconhecimento dos enunciados pauta-se em regras e d d laça-o
Ç · · ·egras e mo u
ção ocorre em muitos textos dos dois volumes de Problemas de linguística geral e mesmas de um enunciador a outro, na relação enunClatlv~ as I . I' é r sar as
nem sempre com o mesmo sentido. Tal diversidade conceituai, longe de parecer O d fi da teona culto lana ana I
não serão necessariamente as mesmas. esa o d . 1 ç-ao entre
uma contradição no pensamento do autor, se explica desde que se considere que . d - rastros a I e a
operações enunciativas marcadas nos enuncia os, que sao . 1'
Benveniste construiu essa noção ao longo d e mais de 40 anos de reflexão. O termo . . odem ser genera tza-
. 'd de d e linguagem e as línguas e CUJ OS mecam smos p -
a atIVl a . roduçao de um
recebe nuances de definição de acordo com o tema a que está associado. Assim, dos e devem ser distinguidos das condições efetlvas que regem a p
se pode identificar outros sentidos de enunciação conforme o texto de Benveniste enunciado no aqui agora de uma enunciação singular.
que esteja sob exame. Em "O aparelho fo rmal da enunciação", texto de 1970, o
Fonte da nota: CUL90; CUL99a; FRA98; VOG92.
autor fala em enunciação, no mínimo, em três sentidos: a) Como "realização vocal
Leitura recomendada: FUC84; VOG92. . - . ão de enunciação.
da língua" (BEN89: 82); b) Como "conversão da língua em discurso" (BEN89: 83);
Termos relacionados: enunciador (4), relação de locahzaçao, sttuaç
c) Como realização individual da língua "no quadro fo rmal de sua realização"
(BEN89: 83); Porém, em "A frase nominal", texto de 1950, Benveniste u tiliza o
termo enunciação em sentido muito específico, não contemplado nos usos listados
enunciação (6) s.f Ducrot · t de um enunc1a
. do .
Definição: acontecimento constituído pelo apareClmen o
acima. Diz ele a propósito da frase nominal homérica: "a enunciação assim form ula-
Fonte da definição: DUC87.
da, por causa do próprio caráter permanente do seu conteúdo, é apta para servir de
Nota explicativa: Ducrot constrói uma teoria do sentido, considerando-o um pro- 'ação (8) s.f Jakobson . .
duto da enunciação. Por isso, sua noção de enunciação não se vincula ao ato, rnas enUUCl . . I l
pefinição: attvidade pe a qua se mam
·resta a presença cod1ficada do falante naqm-
ao fato de que um enunciado aparece. Desse modo, não se interessa pelo sujei-
lo que é falado.
to produtor do enunciado, mas pelas figuras enunciativas constituídas no senti-
ponte da
definição: FL005. . . 1. ·
do do enunciado. Esse sentido traz uma representação da enunciação como um r f . Jakobson pod e ser cons!·derado um dos pnme1ros mgmstas a
Nota exp ICa tva. - d . -ao isso porque sua teoria sobre as funções
confronto de pontos de vista diferentes. Sendo assim, é a descrição do sentido do b as questoes a enunc1aç , . _
pensar so re b h ;fters estão entre as primeiras sistematiZaçoes no campo
enunciado que evidencia a sua enunciação. Nas diferentes fases teóricas, importa . gem e so re os s tp . -
da língua . . 1' ua Sua teoria das funções da lmguagem supoe
para o autor verificar o conjunto de marcas que atestam a relação argumentativo- da linguística sobre o SUJel~O na l~g ~ de seu modelo a atividade da fala. O caso
-enunciativa do locutor com o seu dizer. Ao alicerçar seus estudos no postulado . . · luir na s1stemat1Zaçao
urn su~etto, ao me exem lo clássico dos pronomes pessoais (JAK71b), demons~ra a
estruturalista, verifica as relações estabelecidas pelas formas da língua para a cons- dos shifters, com o p l c l e aquilo que é falado, visto que são os shifters
trução do sentido argumentativo no discurso. . 1. ão entre aque e que ta a d
totallmp Icaç . à il que Jakobson chama de processo e
tos do código que remetem qu o
Fonte da nota: DUC80b; DUC84a: 368-393; DUC87; EDU06. os elemen d.
. -o ou se)· a o próprio evento de Iscurso.
Termos relacionados: discurso (1), enunciado (1), sentido (2). enunCJaça ' '
Fonte da nota: EJA06; FL005; JAK69a; JAK7lb.
. FL005· FL008· JAK69a; JAK71b.
enunciação (7) s. f Greimas Leitura recomend a da. , ' , .
Termos relacionados: estilo (2), shifter, símbolo-mdJce.
Definição: instância linguística que permite a passagem da organização virtual do
discurso à sua realização.
·ação (9) J. Récanati .
Fonte da definição: GRE79a: 126. enU?._Cl .
Defimçao: aconteCJmen
tso. dotado de significação que ocorre em um local determl-
Nota explicativa: O conceito de enunciação em Greimas não diz respeito à media-
nado e em um certo momento.
ção entre a üngua e o discurso, mas entre a organização virtual do discurso e a sua
F t da definição· REC79: 153. . .fi -
realização. Isso ocorre porque a Semiótica francesa busca descrever a produção e :~aeexplicativa: E~istem diversos tipos de acontecimentos dot~do~fidceasçl::pr~pç:i::
a compreensão dos discursos manifestados em toda e qualquer linguagem. Para · r exemplo tem uma s1gm
O fato de soar a sirene dos b omb euos, po ., - . d à reali-
aconteci~ento:::d~o:::s:o:~~:e~:~:h:~~~:!~~:. ::~~~:ia~~o
explicar as abstrações que se fazem no ato da leitura, ela concebe a geração do 1
Porém, esse é um
sentido como um percurso que vai do mais simples e abstrato ao mais complexo
zação de uma fr~se, nao p~ . ·ficação é resultante da realização específica de
e concreto. Esse percurso gerativo do sentido, que é um simulacro metodológico,
tipo de fato particular, poiS s~a s~gm . nto em um contextoespaço-tem-
apresenta três níveis de profundidade: as estruturas fundamentais, as narrativas e umenunciado.SendoaenunoaçaoumaconteCJme . d um momento ou local
as discursivas. Os dois primeiros constituem a organização virtual do discurso, que . d esma frase ao ser enuncia a em
poral determma o, u~a ~ . .' _ Por outro lado, 0 acontecimento de
se realiza no terceiro. Por isso, a enunciação é a instância de mediação entre os dois diferente, pode assumir d~ve~·sas s~gndt~açoes: d a cada evento de sua enunciação.
primeiros níveis e o terceiro. Ela é o lugar do exercício da competência semiótica, um enunciado terá uma slgmficaçao erenCla a
constituída das estruturas fundamentais e narrativas. Ao mesmo tempo, é a instân- Fonte da nota: REC79: 153.
cia de instauração do sujeito da enunciação, que opera num tempo, o agora, e num Leitura recomendada: REC79
espaço, o aqui. O lugar do eu-aqui-agora é a instância de onde se projetam pessoas, Termos relacionados: enunciado (8) .
espaços e tempos que povoam o enunciado e onde se criam os investimentos se-
mânticos mais concretos do discurso. No ato enunciativo, ao mesmo tempo em enunciado ( 1) S. m. Ducrot
que o sujeito da enunciação organiza um universo de significação no discurso, Definição: manifestação particular de uma frase.

~:.:e:~:~:~ ~~~~~ =~ ~~~~~~do 'P'<''n". '~";;~õ~e~:~i~:~:=~"~':


constrói uma imagem de si mesmo com que opera na situação de comunicação. 0 7
Fonte da nota: GRE79a: 125-128, 159-160, 327.
Leitura recomendada: BAR02b; FI005; FI008; GRE08. do estudo semântico da língua de Ducrot. O enr;;cta o d ·o teórico o enunciado
Termos relacionados: discurso (5), enunciado (7), práxis enunciativa. Teoria da Polifonia, :vinculado à noção de frase. esse qua r ,
é tratado como uma entidade empírica, produto da enunciação. Desse produto , Fonte da definição: CAR02b; EDU06.
abstrai-se uma entidade abstrata, a frase, que, no escopo da Teoria, difere da acep. Nota explicativa: O termo enunciado (4) está definido com base na Teoria dos
ção da tradição gramatical. Blocos Semânticos. Nesse quadro teórico, o enunciado passa a ser considerado
Fonte da nota: DUC87B; EDU06. uma unidade argumentativa, reunindo segmentos interdependentes e constituin-
Termos relacionados: enunciação (6), frase (3), sentido (2). do 0 encadeamento argumentativo. Em enunciados como "Paulo tem um bom
salário: ele deve ser feliz" e "Paulo tem muitos amigos: ele deve ser feliz", o sentido
enunciado (2) S. m. Ducrot de "felicidade" não é o mesmo. No primeiro enunciado, o sentido de "felicidade"
Definição: unidade argumentativa de sentido, composta d~ um segmento-argu- está ligado à questão monetária; no segundo, o sentido de "felicidade" está ligado
mento e um segmento-conclusão. à questão afetiva. Nesses exemplos, ocorre uma interdependência semântica entre
Fonte da definição: DUC88; EDU06. dois segmentos, formando uma unidade de sentido.
Nota explicativa: O enunciado (2) está definido conforme a fase inicial da Teoria da Fonte da nota: CAR02a; CAR02b.
Argumentação na Língua. Nesse quadro teórico, o enunciado constitui uma unidade Termos relacionados: encadeamento argumentativo, segmento, Teoria dos Blo-
argumentativa, formada por dois segmentos. No enunciado "O tempo está quente, cos Semânticos.
vamos à praia", o primeiro·segmento é o argumento e o segundo é a conclusão.
Fonte da nota: DUC88; EDU06. enunciado (5) s.m. Bakhtin
Termos relacionados: argumento, conclusão, Teoria da Argumentação na Língua. V. enunciação (2)

enunciado (3) S. m. Ducrot enunciado (6) S. m. Benveniste


Definição: unidade argumentativa de sentido constituída por segmentos-argu- Outras denominações: frase.
mentos, com um princípio argumentativo intermediário, que possibilita a passa- Definição: manifestação da enunciação, produzida cada vez que se fala.
gem para segmentos-conclusões. Fonte da definição: EBE06.
Fonte da definição: ANS95; EDU06. Nota explicativa: Na medida em que a enunciação é processo, o enunciado pode
Nota explicativa: O enunciado (3) está definido com base na Teoria dos Topai, ser considerado o produto da enunciação e inclui pessoa, tempo e espaço. O enun-
em que o sentido do enunciado depende de um princípio argumentativo utiliza- ciado tem existência em um determinado momento em que a língua é mobilizada
do para pôr em relação argumento e conclusão. Como exemplo, podemos citar 0 por um locutor.
enunciado "o tempo está quente, mas estou cansada", produzido em um contexto Fonte da nota: EBE06.
de recusa a um convite de ida à praia. Nesse caso, o primeiro segmento "o tem- Termos relacionados: atualização (2), enunciação (3), palavra.
po está quente" produz a conclusão implícita "vamos à praia" não assumida pelo
locutor, que, ao apresentar o segundo segmento "estou cansada", encaminha e enunciado (7) S. m. Greimas
assume a conclusão contrária "não vamos à praia". Esse trajeto de sentido entre os Definição: produto resultante do ato enunciativo, independentemente da dimen-
segmentos-argumentos e seus respectivos segmentos-conclusões ocorre devido ao são sintagmática.
princípio argumentativo de que "o tempo quente favorece a ida à praia", posto na Fonte da definição: GRE79a: 123.
relação entre os dois segmentos. Nota explicativa: O enunciado é o estado que resulta da enunciação, independen-
Fonte da nota: ANS95; EDU06. temente da dimensão sintagmática. Isso quer dizer que wn enunciado pode ter a
Termos relacionados: argumento, segmento, Teoria dos Topai. dimensão d e uma palavra, de uma frase, de um texto composto de muitas frases.
O enunciado comporta frequentemente elementos que remetem à instância da
enunciado (4) S. m. Ducrot enunciação: de um lado, os termos que Benveniste chamou de aparelho formal
Definição: unidade argumentativa de sentido formada pela interdependência en- da enunciação, ou seja, pronomes pessoais, possessivos, demonstrativos, tempos
tre dois segmentos, constituindo o encadeamento argumentativo. verbais, advérbios de tempo e de lugar; de outro, termos que descrevem o ato dizer
(verba dicendi). Ainda remetem à instância da enunciação adjetivos e advérbios ·agmática Nesse momento, o autor concebe a enunciação como a rea-
lados à P1 · . _
apreciativos e substantivos e verbos que indicam o ponto de vista do enunciad . ão de diversos atos de fala (asseverar, prometer etc.) Os enunc1adores sao os
or.
A eliminação de todos esses termos produz textos enuncivos, isto é, sem nenhuma hzaç dos atos de fala de uma enunciação. Esses atos são cons1'derados d'1stmtos
.
agentes . . . " _ . .,
marca da enunciação, sem nenhum traço de subjetividade. Evidentemente, isso é ntam para senttdos d1ferenc1ados. O exemp1o eu nao v1re1 apresenta
porque apO . _ . .
uma possibilidade apenas teórica. No entanto, constitui o ideal de, por exemplo
urna enu nciação como a realização de dois atos, CUJOS agentes. sao d01s enuncia-
jornalistas, que pretendem que seus textos sejam objetivos, imparciais e neutros:
dores. Esses dois atos realizam asserções, sendo que um enunciador
· afirma que o
Na verdade, objetividade, imparcialidade e neutralidade são efeitos de sentido locutor virá e o outro enunciador recusa essa asserção.
construídos pelo enunciador. São obtidos graças a uma tentativa de eliminar do Fonte da nota: DUC87A; DUC80b.
enunciado todos os vestígios do ato enunciativo. A enunciação é um ato que faz Termos relacionados: destinatário ( 1), locutor, poli fonia.
ser o sentido, isto é, que lhe dá existência. O enunciado é o objeto cujo sentido faz
ser o sujeito, ou seja, dá existência ao enunciador. Com efeito, as marcas da enun- enunciador (2) s.m.Ducrot
ciação no enunciado criam para o leitor uma imagem do enunciador: a de uma Definição: origem dos pontos de vista presentes no enunciado.
pessoa irada, entusiasmada, ressentida, apática e assim por diante. Fonte da definição: DUC87.
Fonte da nota: GRE79a: 12_3-124; FI096: 31, 36. Nota explicativa: O termo enunciador (2) está definido com base nas reflexões
Leitura recomendada: FI096: 31-41; FI004a; FI004b; GRE08. iniciais de Ducrot sobre o fenômeno da polifonia, em que faz uma revisão dos
Termos relacionados: actante da enunciação, actante do enunciado, enunciação (6). postulados contidos na obra de 1980, quando vinculava seus estudos à pragmática.
Na perspectiva aqui definida, os enunciadores não estão associados à ideia de ato,
enunciado (8) S. m. Récanati rnas são concebidos como pontos de vista que o locutor, enquanto responsável
Definição: ato de discurso que é dito em um local e em um momento determinados. pelo enunciado, apresenta. Neste momento, a noção de enunciador é exemplifica-
Fonte da definição: REC79: 26-27. da através de fenômenos linguísticos como a ironia, a negação, a pressuposição e
Nota explicativa: Um enunciado é um evento com um conteúdo representativo. 0 uso de "mas". No exemplo de negação "Pedro não é gentil", tem-se um locutor
Récanati ilustra o conceito de enunciado através da frase proferida "o gato está responsável pela enunciação e dois enunciadores (E1 e E2): E1 apresenta o ponto
sobre o capacho". Além de veicular uma informação sobre algo (o gato está sobre de vista de que "Pedro é gentil" e E2 apresenta o ponto de vista de que "Pedro não
o capacho), a frase mostra, ao mesmo tempo, que se trata de uma afirmação ("o é gentil". Dentre esses dois pontos de vista opostos, o locutor assume E2.
gato está sobre o capacho"). Fonte da nota: DUC87B.
Fonte da nota: REC79: 26-27. Termos relacionados: enunciação (1), locutor, polifonia.
Termos relacionados: significação (3), signo (2), texto (2).
enunciador (3) S. m. Ducrot
enunciado concreto s. m. Bakhtin Definição: origem dos diferentes pontos de vista apresentados no enunciado, a
V. enunciação (2) partir da evocação de um princípio argumentativo.
Fonte da definição: DUCOS; DUC88.
enunciado performativo s. m. Flahault Nota explicativa: O termo enunciador (3) está definido conforme as reflexões de
V. ilocutório explicito Ducrot sobre o fenômeno da polifonia no interior da Teoria dos Topoi. Nessa pers-
pectiva, a descrição do sentido consiste em observar nos enunciados a fonte dos
enunciador ( 1) S. m. Ducrot diferentes pontos de vista e o princípio argumentativo (topos) que evoca, com a
Definição: agente do ato de fala. verificação da atitude do locutor em relação a tais pontos de vista (oposição, apro-
Fonte da definição: DUC80b. vação e identificação). No exemplo "Maria estudou pouco, mas foi aprovada no
Nota explicativa: O termo enunciador (1) está definido com base na apresentação concurso", têm-se quatro enunciadores (E1, E2, E3 e E4): E1 apresenta o ponto de
do termo por Ducrot na leitura que faz dos atos de fala em 1980, estudos vincu- vista de que "Maria estudou pouco", E2 conclui sobre "a reprovação de Maria a
partir do ponto de vista de ter estudado pouco", E3 afirma a "aprovação de Maria" Nota explicativa: Enunciador psicossocial é, também, a designação geral para o
e E4 conclui, a partir de E3, que "outros fatores, além do estudo, auxiliam na apro- princípio de que o sujeito deve estar no cerne das preocupações da linguística
vação de concursos". O locutor, neste caso, aprova Ele E2, m as se identifica com como enunciador e não como pura subjetividade. A noção de psicossocial realça
E3 e E4. Esses quatro enunciadores argumentam, convocando o topos "o estudo que o homem em situação dialogal estabelece com seu semelhante uma relação na
leva ao êxito em con cursos".
qual estão solidariamente empenhados os componentes psicológicos e sociais, dos
Fonte da nota: DUC88.
quais a sit uação permite a expressão. A noção de enunciador deve ser entendida
Termos relacionados: locutor, polifonia, topos.
como a união de locutor com auditor e não como se tratasse de duas entidades
permutáveis. O con ceito de enunciador psicossocial permite a Hagege instituir um
enunciador (4) S. m. Culioli auditor e um locutor cuja dissimetria é reconhecida, sem que, no entanto, seja
Definição: parâmetro abstrato de origem das localizações instauradas pelo proces-
recomen dada uma linguística de um que prevaleceria sobre uma linguística do ou-
so enunciativo e reconstituído ao término do trabalho de análise.
tro. A natureza psicossocial do enunciador não apaga sua principal propriedade, a
Fonte da definição: CUL90.
de ser enunciador, portanto, n ão ameaça a autonomia da linguística com relação
Nota explicativa: O enunciador é um índice de acontecimento que retira seu valor
às demais ciências.
de sua localização em relação ao momento de locução o qual é também identifica-
Fonte da nota: H AG90: 210-211.
do em relação a um identifica~te de origem. Ao se reconduzir os enunciados aos
Leitura recomendada: HAG90.
processos que eles instauram, reconstitui-se o sujeito enunciador. Não se trata,
Termos relacionados: domínios de iniciativas, homem dialogal, linguística sacio-
portanto, nem da fonte de determinação da construção enunciativa, nem da fonte
operativa.
do ato de locução, nem da origem do processo enunciativo, mas sim da origem das
localizações instauradas pelo processo enunciativo. Para Culioli, todo o arranjo de
formas é da ordem do enunciativo e o sujeito enunciador, por sua vez, não é uma enunciatário S. m. Greimas
instância pré-construída exterior a esse arranjo, pelo contrário, ele é produto dela. Definição: destinatário implícito da enunciação.
Fonte da nota: CUL90, FRA98. Fonte da definição: GRE79a: 125.
Leitura recomendada: FRA98; FUC75; FUC84. Nota explicativa: O enunciatário é o leitor implícito do texto, pressuposto pela
Termos relacionados: enunciação (5), relação de localização, situação de enunciação. própria existência do enunciado, que lhe dá sentido . Isso quer dizer que a Semi-
ótica não trabalha com o leitor real, mas com uma imagem do leitor construída
enunciador ( 5) S. m. Greimas na e pela linguagem. O enunciatário distingue-se do narratário, que é um actante
Definição: destinador implícito da enunciação. instalado n o en unciado pelo procedimento de debreagem.
Fonte da definição: GRE79a: 125. Fonte da nota: FI096: 65.
Nota explicativa: O enunciador é o autor implícito do texto, pressuposto pela pró- Leitura recomendada: BAR02b: 73-88; FI004b; FI096: 61-72; GRE08.
pria existência do enunciado, que lhe dá sentido. Isso quer dizer que a Semiótica Termos relacionados: en unciador (5), narratário, sujeito da enunciação.
não trabalha com o autor real, mas com uma imagem do autor construída na e
pela linguagem. O enunciador distingue-se do narrador, que é um actante instala- epilinguística s. f Culioli
do no enunciado pelo procedimento de debreagem. Outras denominações: glosa
Fonte da nota: FI096: 65. Definição: atividade metalinguística não consciente do sujeito que enuncia.
Leitura recomendada: BAR02b: 73-88; Fl004a; FI096: 61-72; GRE08. Fonte da definição: CUL99bC.
Termos relacionados: enunciatário, narrador, sujeito da enunciação. Nota explicativa: A epilinguística está na origem de formulações explicativas muito
comuns n o discurso cotidiano. Tais formulações têm papel importante no discur-
enunciador psicossocial S. m. Hagege so e p odem, por exem plo, especificar o sentido de algo que foi dito anteriormente.
Definição: locutor em situação de diálogo. Assim, no enunciado "Este h omem é um imbecil, aliás, aquilo que eu chamo de
Fonte da definição: HAG90: 210. imbecil", a expressão "aquilo que eu chamo de" indica uma espécie de remissão
à noção em causa. Antoine Culioli, ao dar destaque à atividade epilinguísf · ·tos e obJ"etos no espaço ela introduz a questão da utilização das cate-
• [; , d - I. , . Ica, dá ãO dos suJei ' . _ .· .
en ase as pro uçoes mgUistlcas espontâneas - não-conscientes - de um en . ç . ·ais para significar outra cmsa que nao o espaço propnamente dtto.
. . uncta- gonas espac1
dor que busca exphc1tar para o coenunciador o sentido de um dito precedente. ota· GRE79a: 358-359; GRE08.
0 Fonet da n .
exemplo dado por Culioli, em 1979, é: .t ra recomendada: BER85; FI096: 257-299.
Let u . . . - I 1· - ·a1
Primeiro enunciado: O homem que veio aqui ontem vestia um impermeável be e. acionados: aspectualização, dJscurstvtzaçao, oca tzaçao espac1 .
Termos r el
Segundo enunciado (epilinguístico): Pois é, alguém veio aqui ontem, e este alg:é
o fato é que ele vestia realmente uma capa bege. rn, espaço de realização do sujeitos. m. Flahault
Fonte da nota: CUL99aB.
Outras denominações: ERS. .
Leitura recomendada: FRA98; FUC84. · - . instância social da relação entre o par de mterlocutores.
Defimça0 .
Termos relacionados: enunciação (5), enunciador (4) linguagem (3) . Fonte da definição: FLA79: 140. . . • . _
Jicativa: O espaço de realização do sujeito é a tercen·a mstanc1a da relaçao
Nota exp . . . _
escala argumentativa s.f Ducrot entre 0 par de interlocutores, ou seja, a instância social. Ele, enquanto mstltUiçao
Definição: relação entre dois argumentos de um enunciado que apresenta p como social, é responsável pelo sentimento de existência dos sujeitos. Como ~spaço de
argumento para uma conclt,1são r, e p' como argumento mais forte do que p para -a caracteriza as relações intersubjetivas e o fu ncionamento da linguagem
regul aÇ 0 ' . _ .
essa mesma conclusão. ·gualdade reciprocidade e troca. Tais regras são condtçoes fundamentais para
peIa 1 , . . .
Fonte da definição: DUC73. a circulação da fala. Há outras regras que não têm o status essenCial das pnmeuas,
Nota explicativa: O conceito de escala argumentativa está relacionado à noção de mas que podem ser aplicadas em determinadas situações de interlocução. Pode-se
que dois argumentos pertencem a uma mesma classe se ambos são argumentos em ·t por exemplo, a limitação da fala de um sujeito pelo outro por um constran-
CI ar, I ·d l")
favor da mesma conclusão. "Até mesmo", por exemplo, inserido em um enuncia- gimento situacional ("Não falemos desse assunto aqui no meio da mu t1 ão. ·
do, é utilizado como argumento, apresen tado pelo locutor como mais forte para Fonte da nota: FLA79: 140-146.
a conclusão. Assim, num contexto em que o locutor estiver falando do sucesso de Leitura recomendada: FLA79.
uma reunião, ele poderá dizer: "Pedro veio e até mesmo Paulo". Entende-se qu Termos relacionados: fala, insígnia, lugar.
" d e
Pe ro veio" (p) e que "Paulo veio" (p') são argumentos que favorecem a mesma
conclusão (r) (a reunião foi um sucesso), e que "Paulo veio" (p') é argumento mais espaço-tempo S. m. Bakhtin
forte para essa conclusão.
V. cronotopo
Fonte da nota: DUC73.
Termos relacionados: enunciad o (1), argumento, conclusão. Estilística s. f Bally
Outras denominações: Estilística da Expressividade, Estilística Interna.
espacialização s. f Greimas Definição: estudo da linguagem de um grupo social organizado do ponto de vista
Definição: procedimento de construção dos espaços no discurso. de seu conteúdo afetivo e subjetivo.
Fonte da definição: GRE79a: 358. Fonte da definição: BAL5l: 1-2. .
Nota explicativa: A espacialização é um dos componentes da discursivização. Ela Nota explicativa: A Estilística é um estudo sincrônico e descritivo dos fatos da lm-
compreende, em primeiro lugar, os procedimentos de localização espacial dos guagem organizada associados à afetividade, que objetiva analisar a estrutura dessa
acontecimentos, seja em espaços relacionados ao lugar da enunciação, seja em es- língua e, especialmente, as relações en tre a fala e o p ensamento. Para tanto, f~z a
paços construídos autonomamente em relação ao lugar da en unciação. Em segun- comparação entre os meios de expressão da língua em questão e leva em constde-
do l.ugar, abrange os procedimentos de programação espacial, por meio da qual se ração a situação, 0 contexto de uso e a interlocução estabelecida. Ba~ly destaca que
realiza uma disposição linear dos diferentes espaços em que os acontecimentos são se trata de um estudo linguístico, à medida que busca a face expresstva dos pensa-
localizados. A noção de espacialização introduz a problemática da proxêmica nos mentos e não a face pensada dos fatos expressos. À Estilística cabe estudar o que
estudos enunciativos. Como a proxêmica busca analisar a significação da disposi- do pensamento do sujeito está expresso no uso que ele faz da linguagem e como
o uso da linguagem age sobre sua subjetividade. Para o autor, é somente a partir atualização individual do sistema linguístico, como a visão de Croce, Vossler e
da determinação do conteúdo lógico que a expressão subjetiva pode ser posta em Spitzer, para quem estilo é a expressão criativa do psiquismo individual. Desvia-se,
evidência. A Estilística corresponde ao primeiro momento de estudos de Bally. assim, da ideia de apriorismo do sistema, pressuposta na primeira visão, a partir da
Fonte da nota: BAL51; BAL67. qual os fenômenos de estilo são observados com base em potencialidades do siste-
Leitura recomendada: CHI85; DUR98; MED85. ma linguístico, e da ideia de que o estilo decorre da ação criativa, exclusivamente
Termos relacionados: enunciação (3), Estilística Externa, língua (1). pessoal do falante, característica da segunda visão. A formulação inicial de estilo
encontra-se em "O discurso na vida e o discurso na arte", texto de 1926, assinado
Estilística Comparativa Externas./ Bally também por Voloshinov. Nesse texto, a afirmação clássica do escritor francês Geor-
V. Estilística Externa ge Louis Buffon (1707 -1788) -"O estilo é o homem" (Discours sur le style, 1753) -
é retomada como "O estilo é pelo menos duas pessoas ou, mais precisamente,
Estilística da Expressividade s.f Bally uma pessoa mais seu grupo social na forma de seu representante autorizado, o
V. Estilística ouvinte [... ]". Como se pode notar, desde o início, a noção de estilo, em Bakhtin,
está entrelaçada à de alteridade, ambas vinculadas ao princípio do dialogismo, as-
Estilística Externa s.f Bally sim permanecendo ao longo dos textos em que a noção é trabalhada: "O autor e
Outras denominações: Estilística Comparativa Externa. 0 herói na atividade estética" e "Os gêneros do discurso", ambos em Estética da
Definição: estudo sincrónico e descritivo da linguagem que compara os sistemas criação verbal, assim como também nas obras Marxismo e filosofia da linguagem,
de expressão de duas línguas diferentes. Problemas da poética de Dostoievski, Questões de literatura e de estética: a teoria do
Fonte da definição: BAL67. romance, A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto da obra de
Nota explicativa: A Estilfstica Externa é o estudo comparativo entre duas línguas François Rabelais. Apesar de o conceito encontrar-se associado a reflexões e catego-
distintas que destaca os procedimentos linguísticos, os signos através dos quais a rias específicas, nessas diferentes obras, sua formulação contribui para elucidar os
língua expressa as ideias e a subjetividade. Assim, buscam-se os caracteres objeti- pilares sobre os quais se constrói o pensamento bakhtiniano, fundados na ideia de
vos e gerais, ou seja, faz-se a reconstituição da estrutura de uma língua e/ou da ou- que a interação verbal é o modo de ser dos sujeitos e da linguagem. De fato, toda
tra. A comparação entre os dois sistemas evidencia as semelhanças e as diferenças a obra de Bakhtin gira em torno do eixo eu/outro(s). O estilo é de natureza social
que somente são percebidas por contraste. O termo Estilística Externa faz parte da porque a atividade mental do falante se constitui em território social. A singulari-
primeira fase de estudos de Bally, a Estilística. dade que se materializa no estilo é, então, decorrente da confluência das inúmeras
Fonte da nota: BAL67. vozes que participam da constituição da consciência individual. Pode-se dizer que
Leitura recomendada: CHI85; DUR98; MED85. a noção bakhtiniana de estilo contribui para eliminar a falsa dicotomia indivíduo
Termos relacionados: Estilística, língua (1). e sociedade.
Fonte da nota: BRA05: 79-84; BRA06b: 54-62; FAR03: 118-123; TEZ06.
Estilística Interna s.f Bally Leitura recomendada: BRAOS; BRA06a.
V. Estilística Termos relacionados: construção composicional, gêneros do discurso, tema.

estilo ( 1) S. m. Bakhtin estilo (2) s.m. Jakobson


Definição: expressão individual que se constrói a partir de uma orientação social Definição: modo peculiar de arranjo dos signos linguísticos que caracteriza a ex-
de caráter apreciativo. pressão verbal dos falantes.
Fonte da definição: FAR03: 103. Fonte da definição: EJA06.
Nota explicativa: O conceito de estilo desenvolve-se ao longo das formulações Nota explicativa: Jakobson aponta o estilo como marcado por uma predominân-
bakhtinianas, a partir de uma fértil polêmica com a Estilística e a linguística clás- cia de processos metafóricos (similaridade) ou de processos metonímicos (con-
sica. Bakhtin problematiza tanto a visão de Charles Bally, para quem estilo é a tiguidade) na fala dos sujeitos. Em casos extremos, quando o indivíduo perde a
capacidade de selecionar os elementos da língua, o autor aponta o idioleto- modo escrever sua autobiografia, o escritor precisa se deslocar, se posicionar fora dos
de falar específico de um indivíduo num dado momento - como única realidade limites do apenas vivido, se tornar um outro em relação a si mesmo, isto é, precisa
possível de fala. Pode-se dizer que essa particularidade é também marcada por olhar-se com um certo excedente de visão e conhecimento. Só assim poderá dar
um estilo. No entanto, segundo o autor (1969: 22), não se pode esquecer de que um relativo acabamento ao vivido. O conceito de excedente de visão não ocorre
qualquer discurso individual supõe uma troca, já que a propriedade privada, no em Bakhtin apenas no contexto de sua estética. Vale também para suas reflexões
domínio da linguagem, não existe - tudo é socializado. Assim, mesmo quando sobre a vida e participa, assim, de uma articulação de coordenadas que fundamen-
os discursos parecem individuais, marcados por um estilo próprio, na realidade, tam sua filosofia geral: a singularidade, a alteridade, a interação. Na vida, cada um
esse estilo decorre do fato de que há um "tu", pois "não há emissor sem receptor" ocupa um lugar único, isto é, um lugar irredutível ao ocupado por qualquer outra
(op. cit.: 22).Ainda segundo o autor,"[ ... ] as variantes dialetais têm [... ]a função pessoa. Desse modo, quando uma pessoa é contemplada por outra situada fora e
de procedimentos estilísticos. Desse modo, de acordo com o tema e a nossa atitude diante de si, os horizontes concretos de ambas jamais coincidem. Isso porque, em
diante desse tema, enfeitamos nossos enunciados com esses dialetismos ou, pelo qualquer situação ou proximidade em que o contemplado possa estar em relação
contrário, evitamo-los cuidadosamente. É preciso ser estreitamente doutrinário a quem contempla, este verá e saberá algo que o contemplado, de sua posição fora
para separar artificialmente os cânones estilísticos do código linguístico. Na rea- e diante de si, não pode ver: as partes de seu corpo inacessíveis a seu próprio olhar
lidade, esses cânones são uma parte inalienável deste" (1985: 82-3). Isso permite (a cabeça, o rosto e sua expressão), o mundo atrás dele, toda uma série de objetos
concluir que o estilo está na língua e, por consequência, caracteriza a enunciação. e relações que, em função dessa ou daquela relação de reciprocidade entre ambos,
Fonte da nota: EJA06. são acessíveis a um e inacessíveis a outro. Obviamente, correlacionada com esse
Leitura recomendada: JAK69bA; JAK69bB; JAK85. excedente de visão, há uma certa carência, porque o contemplador vê predomi-
Termos relacionados: enunciação (8), função poética, shifter. nantemente no outro aquilo que esse outro não pode ver de si mesmo. Essa tensão
entre o excedente e a carência impede a fusão de horizontes, ou seja, a anulação
eu ( 1) S. m. Benveniste da singularidade de um no outro. Ao mesmo tem po, ela impele inexoravelmente
V. sujeito (2) para a interação: é o excedente de visão dos outros que responde às carências; a
alteridade tem um papel fundamental na constituição do eu- o "eu-para-mim" se
eu (2) S. m. Bréal constrói a partir do "eu-para-os-outros".
V. primeira pessoa Fonte da nota: BAK03: 3-192.
Leitura recomendada: BAK03: 3-192; PON08.
excedente de visão S. m. Bakhtin Termos relacionados: exotopia.

Definição: atributo do autor-criador que lhe permite dar acabamento estético às


personagens e à obra. exotopias.f Bakhtin
Outras denominações: distância.
Fonte da definição: BAK03: 11.
Definição: condição de exterioridade pessoal, espacial, temporal, linguística e cultural.
Nota explicativa: Bakhtin desenvolve, em seu texto "O autor e a personagem na
Fonte da definição: BAK95: 15, 23.
atividade estética", uma longa e complexa reflexão sobre o problema do autor e da
Nota explicativa: Bakhtin se utiliza do conceito de exotopia em pelo menos três
autoria. Distingue, de início, o autor-pessoa (isto é, o escritor, o artista) do autor-
pontos de sua obra: em sua teoria da subjetividade, da autoria e da cultura. Na
-criador (a função estético-formal engendradora da unidade da obra). O autor-
constituição da subjetividade, precisa-se dos outros, da sua posição exotópica. Sem
-criador é, então, o elemento formal que dá acabamento estético às personagens e isso, não se consegue perceber de fato e assimilar integralmente sequer a própria
a seu mundo. E o faz por ter justamente um excedente de visão e conhecimento: imagem externa - nenhum espelho ou foto ajudarão a instituir essa imagem. A
o autor-criador vê e sabe mais do que qualquer das personagens. Na concepção imagem externa pode ser vista e entendida apenas por outras pessoas graças à sua
de Bakhtin, mesmo a narrativa autobiográfica exige um autor-criador com ex- posição exotópica e ao fato de serem outras. É de fora que vêm as coordenadas que
cedente de visão e conhecimento. A autobiografia não é mero discurso direto do vão constituindo os seres que estão sempre por se consumar. Embora a alteridade
escritor sobre si mesmo, pronunciado do interior do evento da vida vivida. Ao seja constitutiva da individualidade, o eu e os outros não coincidem, seus horizon-
tes não se fundem porque cada um ocupa um lugar único na existência. Essa com-
plexa rede de relações, englobando a alteridade constitutiva e a condição singular
e irredutível da individualidade, é que torna inexorável o diálogo. Ao elaborar sua
concepção de autoria, Bakhtin assume a exotopia como condição necessária para
o autor-criador dar acabamento estético às personagens e a seu mundo. Por estar
fora do mundo das personagens, o autor-criador vê e sabe mais do que elas e, por fala s.f Flahault
isso, pode realizar o ato de consumá-las esteticamente. Há aqui uma correlação Outras denominações: fala intermediária.
entre a posição exotópica e um certo excedente de visão que funda o "ser autor" no Definição: entrecruzamento das coerções simbólicas da língua e das forças ideo-
plano estético. Em sua teoria da cultura, Bakhtin postula que a exotopia é condição lógicas do discurso.
necessária para se poder compreender criativamente uma outra cultura . Se se per- Fonte da definição: FLA79: 11-75.
der essa distância, se houver uma fusão de horizontes, o máximo que se consegue é Nota explicativa: A fala é entendida, na concepção de Flahault, como um espaço
uma simples dublagem da outra cultura, sem trazer nada de novo e enriquecedor. de realização do sujeito, pois, apesar da existência das coerções, o sujeito assume a
Uma cultura só se revela com profundidade aos olhos de outra cultura. É de fora que fala como sua, uma vez que visa, através dela, atingir a plenitude do sentido como
se podem colocar à cultura alheia novas questões que ela mesma não se coloca. Ao originário de si. A fala é igualmente denominada fala intermediária, tendo em vista
respondê-las, ela se revela e revela novos aspectos e novas profundidades de sentido. a existência de tensão entre o desejo do sujeito de produzir seu sentido e a necessi-
Nesse encontro dialógico, as culturas não se fundem nem se confundem, cada uma dade de se posicionar relativamente a um outro suj eito em determinada situação e
mantém a sua unidade e integridade aberta, mas elas se enriquecem mutuamente. a uma certa situação ideológica.
Fonte da nota: BAK03: 3- 192, 359-366. Fonte da nota: FLA79: 11-75.
Leitura recomendada: BAK03: 3-192, 359-366; PON08. Leitura recomendada: FLA79.
Termos relacionados: diálogo (1), excedente de visão. Termos relacionados: espaço de realização do sujeito, lugar.

expressividade s.f Bally fala intermediária s. f Flahault


Definição: ação do falante de modificar uma unidade da linguagem. V. fala
Fonte da definição: BAL67.
Nota explicativa: A expressividade é o meio do qual o falante se vale para alcançar fato de expressão s. m. Bally
seu objetivo de exteriorizar seus pensamentos, imprimindo suas marcas de sin- Outras denominações: fato de linguagem, fato expressivo.
gularidade. Ela ocorre sempre em relação a um outro falante, real ou imaginário, Definição: unidade expressiva do uso da linguagem que corresponde a uma unidade
individual ou coletivo. Através desse mecanismo, o falante atua por meio da lin- de pensamento do falante.
guagem, fazendo um uso p essoal da língua, recriando-a constantemente. O proce- Fonte da definição: BAL51; BAL67.
dimento que gera a expressividade não é nem automático, nem infalível. Para que Nota explicativa: Um fato de expressão consiste em um uso espontâneo, portanto
a expressividade se realize, é necessário que exista uma realidade psíquica em re- relacionado à afetividade, da linguagem. A afetividade, diz Bally, é a manifestação
lação à qual o falante deve agir por meio da linguagem, satisfazendo uma necessi- natural e espontânea das formas subjetivas do pensamento de todos os sujeitos.
dade afetiva. Ademais, o seu resultado não é necessariamente aquele esperado pelo Ela está ligada a todas as sensações vitais, aos desejos, às vontades, aos juízos de
falante, já que a língua se realiza em relação a um outro. O termo expressividade é valor. É o sinal exterior do interesse pessoal que o ser humano sente pela realidade.
estudado na primeira fase de Bally, a Estilística. A linguagem afetiva ou expressiva traduz esses movimentos interiores. Um fato de
Fonte da nota: BAL51; BAL67. expressão corresponde a uma unidade de pensamento, uma unidade completa e
Leitura recomendada: CHI85; D UR98; MED85. autônoma de sentido, podendo compreender desde um afixo até frases. Para Bally,
Termos relacionados: enunciação (3), sujeito falante (1) . "é necessário delimitar os contornos dos fatos de expressão até que eles correspon-
dam às unidades psicológicas", sendo que "delimitar um fato de expressão é traçar
exterioridade discursiva s.f Authier-Revuz [ ... ]seus limites próprios, aqueles que permitem assimilar a unidade de pensamen-
V. interdiscurso to de que ele é a expressão; identificá-lo é proceder a essa assimilação definindo o
fato de expressão e substituindo-o por um termo de identificação simples e lógica na crença na figuratividade, que os discursos sociais transformam em evidências
que corresponde
_ a uma representação
. ou a um conceito do espír1'to" . Um tato
c
de' ou estereótipos. Finalmente, é preciso levar em conta que a figuratização do dis-
expressao é, portanto uma umdade de uso da linguagem delimitada até curso é um processo gradual que vai do icônico, em que há uma semelhança com
. 'I 'd d que se
assnn1 e a um a e de pensamento a que ele se refere Afi 1·ma B 11 1
. . " · a y que e e apenas 0 mundo sensível, ao abstrato, que dele se afasta.
pode ser Identificado
. . por um termo que tenha a propr1'edade de expnm1r, · · sob
Fonte da nota: BER03: 261, GRE79a: 147-148.
sua forma ma1s snnples, a mais objetiva, a mais abstrata, a ideia que ele contém"
Leitura recomendada: BAR02b: 113-132; BER03: 153-261; GRE08.
Segundo o autor, contudo, a delimitação e a identificação de um fato de exp -.
_ . . . ressao Termos relacionados: isotopia, tematização.
sa~ apena~ mews (essenc1a1s) para se chegar ao objetivo, que é identificar seu con-
teudo af~tJv~. Um exemplo _dado por Bally seria um indivíduo ficar sabendo que
outro f01 vítima de uma catastrofe e, nessa situação, usar a expressão "Coitad ,,
focalização s.f Greimas
Definição: procedimento de instalação no discurso da perspectiva de um observa-
que correspon~er~a a uma unidade de pensamento, no caso, a piedade. o ter:~
dor, a partir da qual serão selecionados os objetos discursivas e será orientada sua
fato de expressao mtegra a primeira fase de estudos de Bally, a Estilística.
Fonte da nota: BAL51; BAL67. interpretação.
Leitura recomendada: CHI85; DUR98; MED85. Fonte da definição: GRE79a: 150.
Termos relacionados: efeitos' naturais, efeitos por evocação, Estilística. Nota explicativa: A focalização pode ser parcial ou total. No primeiro caso, temos
uma focalização interna, quando a seleção e a interpretação são feitas a partir do
fato de linguagem S. m. Bally ponto de vista de um actante instalado no enunciado. Em Grande sertão: veredas,
V. fato de expressão de Guimarães Rosa, os acontecimentos são vistos do ponto de vista de Riobaldo,
personagem. Por isso, vai-se acompanhando seu amor por Diadorim como um
fato expressivo s. m. Bally amor homossexual. O narrador Rio baldo já sabe que Diadorim é uma mulher. No
V. fato de expressão entanto, ele narra, respeitando o ponto de vista da personagem, que, no momento
da ação, não tinha conhecimento da verdadeira identidade de Diadorim. Na foca-
figurativização s. f Greimas lização interna, o observador pode ser fixo, como no exemplo citado, ou variável,
Definição: processo pelo qual o enunciador constrói no discurso simulacros do como em Vidas secas, de Graciliano Ramos, em que cada trecho é relatado sob
mundo natural. a ótica de uma personagem. Quando a focalização for parcial, pode-se ter ainda
Fonte da definição: GRE79a: 147. uma focalização externa, em que se relatam apenas as ações das personagens, mas
Nota explicativa: A figurativização é o processo pelo qual o enunciador representa não seus pensamentos e sentimentos. Focaliza-se a exterioridade da cena e não o
o mundo na linguagem. Isso se faz fundamentalmente pelo emprego de termos íntimo de seus participantes. Um exemplo clássico é O falcão maltês, de Dashiel
concret~s, que têm maior densidade sêmica, entre eles antropónimos, cronônimos Han1mett. A focalização será total quando o observador for onisciente, ele sabe
e to~ônnnos. Quando se fala em representação (mímese) do mundo natural, é mais do que as personagens e conhece os sentimentos e os pensamentos de cada
p.re~1so ficar at~nt~ para o fato de que a figurativização é um procedimento enun- uma delas. Nesse caso, normalmente, o observador está em sincretismo com o nar-
Ciativo, 0 que s1gnifica que a expressão mundo natural se refere às realidades cria- rador. Um exemplo é O guarani, de Alencar. A focalização não é necessariamente
das pelos universos de discurso. Assim, quando se lê no livro de Isaías 0 seguinte constante ao longo da obra.
trec~,o "Eis que uma Virgem conceberá e dará à luz um filho, e seu nome será Ema- Fonte da nota: FI 096: 108-111.
nu~l _(7, 14), tem.o~ a mímese da realidade criada pelo discurso religioso judaico- Leitura recomendada: BER03: 111-150; GRE08.
-cns~ao. A figur~tJvJZaçã~ produz textos figurativos, a cuja classe pertence a quase Termos relacionados: observador, perspectivização.
to~ahdade dos d.ts:urs~s literários, históricos, jornalísticos etc. É preciso ainda no-
tai que a figuratJvizaçao não elabora decalques do mundo, mas apresenta-se como
uma "tela d 0 parecer
· ", cuan
·· d o uma ilusao
· - referencial. É necessário repetir que ela
força centrífugas.! Bakhtin
, Definição: processo de descentralização discursiva que constitui a enunciação.
e uma construção do enunciador. Em grande parte, a adesão ao discurso baseia-se Fonte da definição: BAK98.
Nota explicativa: A enunciação constitui-se em um meio repleto de vozes sociais .- tas correspondem ao movimento que visa à concentração de tais vozes. Já
centttpe . . . •
pontos de vista, em que se sobressai à tensão de duas tendências verbais: as força~ a~nn t
'fugas correspondem à expansão das vozes soctats. A partrr da concorren-
.
centrípetas e as centrífugas. Enquanto as centrípetas se empenham num movimento . de diferentes vozes- plurilinguismo dialogiZado - as forças se confrontam e o
cta . . d d' .
de busca da unificação da língua e procuram resistir às divergências, as centrífugas · do dialógico via atitude responsiva de um suJeito o tscurso, se matena-
enunCia ' • . . . . , .
se empenham em manter a variedade, a diferença, a expansão. No cruzamento das . unidade contraditória e tensa de duas tendenCiaS soctats e htstoncas da
[Jza como
forças, pode haver predominância de uma em relação à outra, conforme o gênero vida verbal.
do discurso mobilizado. Baldüin observa que o discurso prosaico reforça a plurali- Fonte da nota: BAK98. .. .
dade de vozes, uma vez que o romance e os gêneros da prosa literária se constituem Termos relacionados: enunciação (2), força centrífuga, plunlmgmsmo.
historicamente na corrente de forças de descentralização, enquanto o discurso da
poesia favorece a unificação. No gênero romance, Dostoievski é um representan- forma s.f. Benveniste
te do processo de descentralização, enquanto Tolstoi acentua o movimento de Definição: princípio relacional da língua baseado em distinção.
centralização. Na inter-relação das forças, impotta a construção de sentidos, as Fonte da definição: EBE06.
relações dialógicas desencadeadas. Considerando a diversidade de vozes discursi- Nota explicativa: Benveniste considera a teoria saussuriana do signo, apresen.tan-
vas que se interceptam na q:mstrução do enunciado, as forças centrífugas corres- do-a como o âmbito da forma. A noção de forma, portanto, corresponde ao stgno
pondem ao movimento que visa à expansão de tais vozes. Já as centrípetas cor- saussuriano. Embora Benveniste apresente forma como unidade da língua, não a
respondem à concentração das vozes sociais. A partir da concorrência de diferen- toma como única unidade: a ela opõe a noção de sentido. Forma e sentido, ainda
tes vozes - plurilinguismo dialogizado - as forças se confrontam e o enunciado que noções opostas, são tratadas como noções gêmeas, indissociáveis, ambas res-
dialógico, via atitude responsiva de um sujeito do discurso, se materializa como ponsáveis pela significação no e do discurso. .
unidade contraditória e tensa de duas tendências sociais e históricas da vida verbal. A noção de forma na teoria enunciativa de Benveniste não pode ser entendtda sem
Fonte da nota: BAK98. que seja relacionada à noção de sentido. Forma re.cebe diferentes acep~õe~ no deco.r-
Term os relacionados: enunciação (2), força centrípeta, plurilinguismo. rer da reflexão do autor. Observem-se apenas dms exemplos: em Os mvezs de análzse
linguística, texto de 1964,forma é vista com relação a s.entido e amb~s :ão.ligados à
força centrípeta s.f Bakhtin noção de nível de análise. Benveniste, nesse texto, constdera que a eXtgenC!a d~ pro-
Definição: processo de centralização discursiva que constitui a enunciação. cedimentos e métodos adequados à descrição linguística impõe-se ao pesqutsador
Fon te da definição: BAK98. e a noção de nivel é, segundo ele, essencial na determinação desses procedimentos.
Nota explicativa: A enunciação constitui-se em um meio repleto de vozes sociais, Para 0 autor, "há duas operações fundamentais que se comandam uma à outra e
pontos de vista, em que se sobressai a tensão de duas tendências verbais: as forças das quais todas as outras dependem": a segmentação e a substituição. A ~sso Benve-
centrípetas e as centrífugas. Enquanto as centrípetas se empenham num movi- niste acrescenta uma exigência de princípio: o sentido "é de fato a condtção funda-
mento de busca da unificação da língua e procuram resistir às divergências, as mental que todas as unidades de todos os níveis devem preencher para obter st~t~s
centrífugas se empenham em manter a variedade, a diferença, a expansão. No cru- linguístico" (p. 130). O sentido intervém nas operações de segmentação e substltuz-
zamento das forças, pode haver predomínio de uma em relação à outra, confor- ção em função do nível de análise do qual ele depende. O sentido de uma unidade é
me o gênero do discurso mobilizado. Bakhtin observa que o discurso da poesia condição fundamental para q ue ela possa, simultaneamente, integrar um nível su-
favorece a unificação, força centrípeta, já que os gêneros poéticos se desenvolvem perior e distribuir-se no mesmo nível. Assim, por exemplo, o fone~a pode ser ~on­
na corrente de forças de união e d e centralização concretas, ideológicas e verbais, siderado uma unidade porque, ao mesmo tempo, integra uma umdade supenor-
enquanto o discurso prosaico reforça a pluralidade de vozes. No gênero romance, morfema ou a palavra - e se distribui entre os demais fonemas. Há, portanto,
0
Tolstoi é um representante do processo de centralização, enquanto Dostoievski duas espécies de relações entre as un idades: as relações entre unidades de mesmo
acentua o movimento de expansão. Na inter-relação das forças, importa a constru- nível e as relações entre unidades de nível diferente. Entre as unidades de mes-
ção de sentidos, as relações dialógicas desencadeadas. Considerando a diversidade mo nível, as relações são distribucionais; entre as unidades de nível diferente, são
de vozes discursivas que se interceptam na construção do enunciado, as forças integrativas. É nesse contexto que Benveniste acrescenta a discussão em torno das
noções de forma e sentido. A forma diz respeito às relações distribucionais e per- semiótica e no semântico cumpririam o papel de instaurar "na língua uma divisão
mite reconhecer as unidades como constituintes; o sentido diz respeito às relações fundamental, em tudo diferente daquela que Saussure tentou instaurar entre lín-
integrativas e permite reconhecer as unidades como integrantes. A fo rma de uma gua e fala" (BEN89: 229). Esse dois sistemas- semiótica e semântico- se superpõem
unidade linguística é, em Os níveis de análise linguística, portanto, a sua capaci- na lingua. Ou, nas palavras de Benveniste (BEN89: 233-234): "na base, há o sis-
dade de dissociação em constituintes de nível inferior; o sentido de uma unidade tema semiótica, organização de signos, segundo o critério da significação, tendo
linguística é, por sua vez, a capacidade de integrar uma unidade de nível superior. cada um destes signos uma denotação conceptual e incluindo numa sub-unidade
Esquematicamente, tem-se: 0 conjunto de seus substitutos paradigmáticos. Sobre este fundamento semiótica,
a língua-discurso constrói uma semântica própria, uma significação intencionada,
RELAÇÕES RELAÇÕES produzida pela sintagmatização das palavras em que cada palavra não retém senão
DISTRIBUCIONAIS INTEGRATIVAS uma pequena parte do valor q ue tem enquanto signo. Uma descrição distinta é
Permitem reconhecer Permitem reconhecer então necessária para cada elemento segundo o domínio no qual está encaixado,
unidades constituintes unidades integrantes conforme é tomado como signo ou como palavra".
FORMA: capacidade SENTIDO: capacidade Fonte da nota: EBE06.
de dissoCiação de integração Leitura recomendada: BEN89A, BEN89D.
Termos relacionados: semântico, semiótica.
Em A forma e o sentido na linguagem, texto de 1966 dirigido a filósofos, Benveniste
apresenta outra concepção de forma. Ele parte de uma visão primeira - segundo forma abstrata s.f Culioli
a qual a forma é ou a matéria dos elementos linguísticos quando o sentido é ex- V. forma esquemática
cluído ou o arranjo formal desses elementos no mesmo nível ao qual ele tange-
para propor algo absolutamente diferente. Para Benveniste, "há para língua duas forma composicional s.f Bakhtin
maneiras de ser língua no sentido e na forma" (BEN89: 239). Há a língua como V. construção composicional
semiótica e a língua como semântica. São, na verdade, duas espécies e dois domí-
nios do sentido e da forma. O modo semiótica da língua está ligado ao sistema de forma de heterogeneidade mostrada s.t Authier-Revuz
signos cuja significação se estabelece intrassistema, mediante distinção; o modo V. marca
semântico está ligado à atividade do locutor e implica construção de referência
no agenciamento sintagmático. A forma no semiótica diz respeito ao significante, forma esquemática s./ Culioli
entendido como o "aspecto formal da entidade chamada signo" (BEN89: 225); Outras denominações: forma abstrata.
o sentido no semiótica diz respeito às relações de oposições com os outros signos Definição: forma hipersintática metalinguística de um item lexical que representa
da língua, pois, no semiótica, "ser distintivo e ser significativo é a mesma coisa" a relação entre a sua invariância funcional e a sua variância semântica.
(BEN89: 228). No semântico, "o 'sentido' se realiza na e por uma forma específica, Fonte da definição: CUL90.
aquela do sintagma, diferentemente do semiótica que se define por uma relação Nota explicativa: A forma esquemática, também chamada por Culioli de forma abs-
de paradigma" (BEN89: 230). Logo, no semântico, a forma diz respeito à o rgani- trata, é uma representação metalinguística de uma forma empírica (textual) cuja
zação sintagmática; o sentido diz respeito à ideia decorrente dessa sintagmatização. configuração remete a relações entre parâmetros que delineiam, ao mesmo tempo,
Em suma, no semântico "o sentido se realiza formalmente na língua pela escolha, a invariância da forma e a sua deformabilidade, ou as diversas variações de seus
pelo agenciamento de palavras, por sua organização sintática, pela ação que elas usos. A partir do momento em que uma relação predicativa é modulada, a sequên-
exercem umas sobre as outras. Tudo é dominado pela condição do sintagma, pela cia ganha o estatuto de enunciado, a interpretação das marcas estabiliza-se e um de
ligação entre os elementos do enunciado destinado a transmitir um sentido dado, seus valores potenciais efetiva-se. Desse modo, a fo rma esquem ática define hiper-
numa circunstância dada" (BEN89: 230) . Como se pode ver, Benveniste comple- sintaticamente, aquém ou além de qualquer sintaxe preestabelecida, a identidade
xifica as relações entre forma e sentido nesse texto, uma vez que forma e sentido no da variação semântica de uma unidade linguística. Em Culioli (1990, p. 169-176),
aparece um exemplo de forma esquem ática da marca dane, que retomamos aqui: Fonte da n ota: BAL65: 35 e s.; DUR98.
dane marca o estabelecimento de uma relação consecutiva entre dois termos, e Leitura recomen dada: CHI85; DUR98; MED85.
(termo anterior) e e 1 (termo posterior), cuja conexão é um movimento duplo, d: Termos relacionados: dictum, enunciação (3), modus.
e 1 a e 0 e de e 0 a e 1 (e 0 e e 1 são os parâmetros da forma esquemática de dane).
Fon te da no ta: CUL90. frase (2) s. t Benveniste
Leitura recomendada: FRA98; FUC75; FUC84. Definição: unidade do discurso.
Fonte da definição: BEN95: 139.
forma metaen unciativa s.f Authier-Revuz Nota explicativa: A frase é a materialidade do d iscurso, sua variedade não tem
V. glosa metaen unciativa limites, sua criação é indefinida, seu número é infinito. Com a frase passamos de
urn sistem a para outro: da língua como sistema de signos para a língua em ação,
form a tópica s.f Ducrot no discurso, no modo semântico de significância da lingua. A frase é a cada vez um
Defi nição: configuração formal que o princípio argumentativo assume quando acontecimento diferente; ela existe tão-somente no momento em que é proferida,
aplicado à produção do enunciado. apagando-se imediatamente. Às vezes, Benven iste utiliza o termo frase em um sen-
Fonte da definição: DUC89b; EDU06. tido equivalente ao do term o enunciado.
Nota explicativa: Considerando o princípio argumentativo (topos) "O trabalho é Fonte da n ota: BEN95: 139; BEN89: 228-242.
fator de êxito", a forma tópica direta seria "Quanto mais se trabalha, mais se tem Leit ura recom endada: BEN95; BEN89.
êxito" e a forma tópica recíproca, "Quanto menos se trabalha, menos se tem êxito". Termos relacionad os: enunciado (6), ideia, semântico.
Um enunciado como "Pedro trabalhou m uito; ele será aprovado" convoca a forma
tópica d ireta do princípio argumentativo (topos) "o trabalho é fato r de êxito". frase ( 3) s. t Ducrot
Fon te da nota: DUC89b; EDU06. Definição: entidade linguística abstrata suscetível de infinidade de realizações
Termos relacionados: gradualidade, Teoria dos Topai, topos. patticulares.
Fonte da definição: DUC77; EDU06.
form a vazia s.f Benveniste Nota expli cativa: A noção de frase não apresenta modificações nas diversas etapas
V. signo vazio do estudo semântico da lín gua de Ducrot. Essa noção, que difere da definição das
gramáticas tradicio nais, constitui o nível elementar da descrição linguística. A fra-
frase ( 1) s. 1 Bally se pertence à língua e subjaz às entidades concretas (os enunciados).
Outras denominações: enunciado. Fon te da nota: ANS94; DUCOO; DUC77; DUC87; EDU06.
Definição: produto do ato de uso da língua por um sujeito. Termos relacion ad os: enunciado (1), n ível elemen tar, significação (2).
Fonte da definição: BAL65: 35 e s.
N ota explicativa: Segundo Bally, "a frase é a forma mais simples possível da mani- fronteira s. f Culioli
fes tação de um pensamento" . Pensar, explica o autor, é reagir ao mundo por cons- Definição: zona híbrida do domínio nocional que compreende valores, relativa-
tatação, apreciação ou vontade. Assim, a partir do uso de frases, o falante atualiza mente a uma ocorrência cent ral.
as estruturas formais da língu a, enunciando julgamentos de fato, de valor e de von - Fonte da definição: CUL90a; CUL90b; CUL99Ab; CUL99Ba.
tade. A frase, ou o enunciado, é o produto de uma intenção do falante, uma reação Nota explicativa: A fronteira é constituída de valores q ue não pertencem nem ao
ao mundo tal como ele é percebido por esse sujeito. A frase é composta pelo dietum interior, nem ao exterior do domínio nocional, mas, conforme a ação dos enun-
e pelo modus. O dietum corresponde à representação da parte intelectual do pensa- ciadores no decorrer de uma conversa, de uma discussão, de uma argumentação, a
mento do falante, à par te formal do enu nciado. O modus, por sua vez, é a parte mais fronteira poderá estar ligada seja ao interior, seja ao exterior. A fronteira de um do-
essencial do enun ciado, na qual a subjetividade do falante é explicitada. A noção de mínio nocion al tem a propriedade "P" e ao mesmo tempo a propriedade alterada
frase faz parte da segu nda fase de estudos de Bally, a Teoria Geral da Enunciação. que faz com que ela nem seja totalmente "P", nem seja totalmente exterior a "P".
Por exemplo: considerando-se o dia, tem -se: o diurno-diurno (manhã) , o diurno. a mensagem requer um CONTEXTO a que se refere, apreensível pelo des-
eficaz, . _ _ , . .
-noturno (a tarde) e o noturno (a noite). Assim, tem-se também u ma divisão entre . á .· e que seJ· a verbal ou suscetível de verbabzaçao. E necessano amda um
1111 at 110 . .
dia e noite, e o dia pode ser, ele m esmo, dividido em dia-dia e dia-noite. A ideia de óDIGO que seja comum ao remetente e ao destmatán o e o CONTATO, canal
fro nteira permite entrar na classe dos valores não nulos assim como permite sair C· conexão psicológica necessários à comunicação. Dos fatores acima destaca-
fis1co e
dessa classe. Trata-se, enfim, da construção do complementélr linguístico. nção emotiva dá ênfase ao remetente. Dessa forma, o falante que prolonga
dos, a fu , _
Fonte da nota: CUL90a; CUL90b; CUL99Ab; CUL99Ba. r exemplo ao enunciar grande, dem onstra, atraves dessa opçao por
a voga1 a, Po ' . _ ,
Leitura recomendada: FRA98; FUC75; FUC84. uma das va riações de duração (breve/lo nga), sua atttude em relaçao a mensagem.
Termos relacionados: domínio nocional, noção, ocorrência. Variações de duração, bem como uso de interjeições repercutem n.o co,~ponente
de informação emotiva da mensagem, que é apreensível pelo destmatano, desde
função cognitiva s.f Jakobson que as condições anteriormente citadas sejam respeitadas.
V. função referencial Fonte da nota: EJA06.
Leitura recomendada: JAK69bC.
função conativa s.f Jakobson Termos relacionados: fu nção conativa, função fática, remetente.
Definição: função da linguagem que enfatiza a recepção da mensagem pelo destinatário.
Fonte da definição: JAK69b. função expressiva s.! Jakobson
Nota explicativa: Segundo Jakobson (1 969: 123), em todo ato de comunicação V. função emotiva
verbal, o REMETENTE envia uma MENSAGEM ao DESTINATÁRIO. Para ser
eficaz, a m ensagem requer um CONTEXTO a que se refere, apreensível pelo des- função fática s.f Jakobson _
tinatário e que seja verbal ou suscetível de verbalização. É necessário ainda um Definição: função da linguagem caracterizada pela busca de manutençao da cone-
CODIGO que seja comum ao remetente e ao destinatário e o CONTATO, canal xão verbal entre interlocutores.
físico e conexão psicológica necessários à comunicação. Dos fatores acima desta- Fonte da definição: JAK69b.
cados, a função conativa dá ênfase ao destinatário, e é expressa através do vocativo Nota explicativa: Segundo Jakobson (1969: 123), em todo at o de comunicação
e do imperativo. Assim, em uma frase como "Beba!", a mensagem n ão diz respeito verbal, 0 REMETENTE envia uma MENSAGEM ao DESTINATÁRIO. Para ser
a conteúdos proposicionais, que podem ser questionados se verdadeiros o u falsos eficaz, a mensagem requer um CONTEXTO a que se refere, apreensível pelo des-
e sim à própria invocação da segunda pessoa. É a essa possibiLidade de invocar um tinatário e que seja verbal ou suscetível de verbalização. É necessário ainda um
"tu" que a função conativa se refere. cODIGO que seja comum ao remeten te e ao desti natário e o CONTATO, canal
Fonte da nota: EJA06. físico e conexão p sicológica necessários à comunicação. Dos fatores acima destaca-
Leitura recomendada: JAK69bC. dos, a função fática dá ênfase ao contato, ou seja, re fere-se às mensagens trocadas
Termos r elacionados: destinatário (2), fun ção emotiva, fun ção fática. entre os fala ntes as quais servem para: prolongar o u interromper a comunicação;
verificar se 0 canal funciona (Alô, está me ouvindo?); atrair a atenção do interlo-
função denotativa s.f Jakobson cutor o u; confirmar sua atenção contin uada. Para Jakobson (1969: 127), a função
V. função referencial fática é a primeira a ser adquirida pelas crian ças, uma vez que estas, inicialmente,
se comunicam sem vincular mensagens info rmativas.
função emotiva s.f Jakobson Fonte da nota: EJA06.
Outras denominações: fun ção expressiva. Leitura recomendada: JAK69bC.
Definição: função da linguagem caracterizada pela expressão direta da atitude de Termos relacionados: contato, fu nção conativa, fu nção emotiva.
quem fala em relação àquilo de que está falando.
Fonte da definição: JAK69b. função metalinguística s.f Jakobson . . . .·
Nota explicativa: Segundo Jakobso n (1969: 123), em todo ato de comun icação Definição: fu nção da linguagem caracterizada pela posstblhdade dos falantes veu-
verbal, o REMETENTE envia uma MENSAGEM ao DESTINATÁRIO. Para ser fica rem se estão usando o mesmo código ou repertório linguístico.
Fonte da definição: JAK69b. função referenciaL.! Jakobson
Nota explicativa: Segundo Jakobson (1969b: 123), em todo ato de comunicação outras denominações: função cognitiva, função denotativa.
verbal, o REMETENTE envia uma MENSAGEM ao DESTINATÁRIO. Para ser Definição: função da linguagem caracterizada pela criação de representações da
eficaz, a mensagem requer um CONTEXTO a que se refere, apreensível pelo des- situação de fala que são comuns aos interlocutores no ato de comunicação verbal.
tinatário e que seja verbal ou suscetível de verbalização. É n ecessá rio ainda um Fonte da definição: JAK69b.
CÓDIGO que seja comum ao remetente e ao destinatário e o CONTATO, canal Nota explicativa: Segundo Jakobson (1969b: 123), em todo ato de comunicação
físico e conexão psicológica necessários à comunicação. Dos fatores acima des- verbal, o REMETENTE envia uma MENSAGEM ao DESTINATÁRIO. Para ser
tacados, a função metalinguística caracteriza-se pelo recurso que remetente e/ou eficaz, a mensagem requer um CONTEXTO a que se refere, apreensível pelo desti-
destinatário têm de recorrer ao código para confirmar a eficácia da comunicação natário e que seja verbal ou suscetível de verbali:tação. É necessário ainda um Có-
da mensagem, como nos exemplos "Não o estou compreendendo" e "Entende o DIGO que seja comum ao remetente e ao destinatário e o CONTATO, canal físico
que quero dizer?". Segundo Jakobson (op. cit.: 127), no processo de aquisição da e conexão psicológica necessários à comunicação. Dos fatores acima destacados, a
linguagem a criança faz largo uso de operações metalinguísticas. Inversamente, na função referencial dá ênfase ao contexto, ou seja, ao uso de representações comuns
afasia, o autor destaca a perda da capacidade de realizar tais operações. entre remetente e destinatário para transmitir uma informação sobre a situação
Fonte da nota: EJA06; JAK69b. em que ocorre a comunicação.
Leitura recomendada: JAK69bB. Fonte da nota: EJA06; JAK69b.
Termos relacionados: código, remetente, destinatário 2. Leitura recomendada: JAK69bC.
Termos relacionados: contexto 2, função conativa, função emotiva.
função poética s./ Jakobson
Definição: função da linguagem caracterizada pela seleção e combinação singular
das palavras a cada evento de fala.
Fonte da definição: JAK69b.
Nota explicativa: Cada das uma das seis funções da linguagem estudadas por Jako-
bson, caracteriza-se pelo destaque em um dos fatores constitutivos do processo
linguístico. Segundo Jakobson (l969b: 123), em todo ato de comunicação verbal,
o REMETENTE envia uma MENSAGEM ao DESTINATÁRIO. Para ser eficaz, a
mensagem requer um CONTEXTO a que se refere, apreensível pelo destinatário e
que seja verbal ou suscetível de verbalização. É necessário ainda um CÓDIGO que
seja comum ao remetente e ao destinatário e o CONTATO, canal físico e conexão
psicológica necessários à comunicação. Dos fatores acima destacados, a função
poética caracteriza-se pela ênfase dada à própria configuração da mensagem, isto
é, à seleção e combinação singular dos elementos do código a cada evento de fala.
Qualquer tentativa de reduzir a esfera da função poética à poesia seria uma simpli-
ficação, pois a função poética está presente na linguagem em todos os seus aspectos
(linguagem em ato, linguagem em evolução, linguagem em estado nascente, lin-
guagem em dissolução).
Fonte da nota: EJA06; JAK69b.
Leitura recomendada: JAK69bC.
Termos relacionados: mensagem, metáfora, metonímia.
Ainda que os gêneros discursivas possuam características mais ou menos estáveis,
~ são reelaborados, ressignificados, reacentuados a cada enunciação, pois novos
....
o-
~· ace ntos valorativos se inscrevem nas práticas discursivas, como um tom mais ou
o. rnenos respeitoso, alegre, afetivo, que passam a refletir a individualidade do falante
!"' gêneros discursivas S. m. Bakhtin e a movimentar efeitos de sentido. Bakhtin observa que as palavras que consti-
ã V. gêneros do discurso tuem os enunciados são tomadas de outros enunciados, representantes de gêneros
discursivas, e não do sistema da língua. Isso se deve ao fato de a palavra possuir
gêneros do discurso S. m. Bakhtin expressão típica, uma espécie de eco da totalidade do gênero, que permite uma
Outras denominações: gêneros discursivas. reacentuação. O conhecimento de um repertó rio comum de formas discursivas
Definição: formas discursivas reconhecidas de uma coletividade que en d ·c . pode facilitar o relacionamento social em diferentes situações, já que cada esfera da
• . ' 1 1retentes
ocorrenc1as, apresentam uma certa semelhança, permitindo 0 compartilham atividade humana produz gêneros do discurso correspondentes. As formas discur-
d e conh ec!ll1entos
· ·
nas mterações verbais. ento
sivas não são modelos a serem aplicados, mas sim formas híbridas que imprimem
Fonte da definição: BAK03: 262. relações com a realidade e com enunciados alheios. Os gêneros são plurívocos,
Not~ explicativa: Os gêneros do discurso são definidos por Bakhtin como f trazem vozes, posições sociais, retomam e antecipam discursos outros, ou seja,
r~latJ~amente estáveis de enunciados. A comunicação se dá a partir de gênero:p:: suscitam respostas. São materiais discursivas dinâmicos, que têm como pressu-
~ISCUiso, um~ vez que todos os enunciados possuem formas com relativa estabi- posto a construção do enunciado concreto a partir de uma esfera de atividade, em
h~ad.e, a.s quats se empr~gam de modo seguro, mesmo quando se desconhece sua que locutor, interlocutor, tempo, lugar e finalidade do dizer são constitutivos. Os
eXJstencia no plano teónco. São essas observações que permitem afirmar que gêneros do discurso fazem parte de uma memória coletiva, e a certa estabilidade
por um ~ado, fala-se por gêneros diversos sem suspeitar de sua existência, por~~~ que os caracteriza pode ser observada pelos elementos que os constituem organi-
tro,.partilh~m-se c.om os interlocutores formas discursivas comuns que fomentam camente: a construção composicional, o tema e o estilo.
process~ mteracr~nal, não necessitando criar novos gêneros a cada troca verbal
0
Fonte da nota: BAK03: 262-265; 268; 282-284; 292-293.
o que praticamente nnpossibilitaria a comunicação. Os gêneros do discur - · ' Leitura recomendada: BAK98; BAK03; TOD8l.
d' ., · d sosaom-
rss?cJav~Js . as atividades humanas, que se realizam em esferas sociais a partir das Termos relacionados: acento de valor, dialogismo, enunciação (2).
:uars os mdtvíduos i~t~rage~. Logo, os gêneros discursivas são dinâmicos, pois
Iefle.tem d~ modo ~a1s ImedJato, preciso e flexível as mudanças que transcorrem glosa metaenunciativas.f Authier-Revuz
na ~tda soci~l. Por Isso, são considerados como correias de transmissão entre a his- Outras denominações: autocomentário reflexivo, forma metaenunciativa, moda-
tóna. d.a. sociedade e a história da linguagem. Considerando a inesgotabilidade das lidade autonimica.
p~sstbilidade~ de atividade humana, Bakhtin ressalta a riqueza e a diversidade dos Definição: forma de retomada utilizada pelo locutor para comentar seu próprio dizer.
gener~s ~ 0 . d~scurs~. Da .mesma forma, observa que a extrema heterogeneidade Fonte da definição: AUT95a; AUT95b.
~os genews dtscurstvos dtficulta a definição da natureza do emmciado, caracterís- Nota explicativa: O termo glosa metaenunciativa é utilizado para designar os au-
tica. fun.da~ent~l par~ o estu~o ,d?s gêneros. Para tanto, estabelece uma distinção tocomentários reflexivos da enunciação, tais como: "Ela me convidou ... convidou
entr e generos discursivas pnmanos (simples) e gêneros discursivas secundários modo de dizer ... melhor, m e intimou a ir à conferência"; "Espetacular, o termo
(complexos), procurando observar em que esfera de atividade (c i]' . ili' . talvez seja um pouco exagerado"; "É uma gentalha, como diria seu pai"; etc. As
'd'' · . . , . ram tar, m ta 1 ,
mi IatJca, acadêmiCa, JUndtca, literária etc.) cada um surge e como se relaciona glosas metaenunciativas possuem as seguintes propriedades: 1) são identificáveis
com outros gêneros. Por exemplo, os gêneros secundários, como o romance sur- na linearidade discursiva, uma vez que possuem caracteristicas sintático-semân-
gem em es~aç~s de convívio complexo, bastante desenvolvido e organizad~. Em ticas passíveis de serem descritas; 2) são estritamente reflexivas, pois num único
sua for.maçao, Incorporam e reelaboram gêneros primários que se transformam ato de enunciação duplicam o dizer de um elemento através de um comentário
e, adqmrem um novo caráter. A diversidade dos gêneros, sua transformação con- "simultâneo"; 3) são opacificantes, no sentido de que o elemento ao qual se refe-
tmua, é resultante das relações interpessoais que se estabelecem historicamente.
rem perde a transparência que normalmente o caracteriza em seu uso padrão.
Fonte da nota: AUT98: 3-45.
--..___

hlt l
Leitura recomendada: AUT98; AUT04a.
Termos relacionados: heterogeneidade most1·ada, nao-comc1
- · 'd enc1as
A · do diz
opacificação. er,

gradualidade s.f Ducrot heterogeneidade constitutiva s. f Authier-Revuz


Definição: propriedade do princípio argumentativo que relaciona duas escal Definição: princípio fundador da própria natureza da linguagem, que diz respeito à ex-
Fonte da definição: DUC89b; DUC88b. as.
terioridade, não-marcada na linearidade do dizer, que constitui o sujeito e o discurso.
Nota explicativa: D ucrot afirma que o princípio argumentativo (topos) é de natu- Fonte da definição: AUT90; AUT04a.
reza gradual, p~rque estabelece, entre duas escalas, uma correspondência de valo- Nota explicativa: O percurso pelo continuum de formas explicitamente marcadas
res argumentativos (mais e menos). Essa propriedade possibilita ao topos relacio- da presença da alteridade no discurso, passando por sequências nas quais a presen-
nar duas escalas, duas gradações, entre as quais estabelece uma correspondê · ça do outro é sinalizada apenas de maneira implícita, conduz a um ponto-limite,
·r, . nc1a
um orme, ou.seJa, ao se percorrer uma das escalas, percorre-se, necessariamente, a em que a alteridade não é nem localizável, nem representável na superfície linguís-
outra. O sentido no qual st; percorre uma implica um determinado sentido para tica. O termo "heterogeneidade constitutiva" diz respeito a esse ponto-limite, em
0
pe~·c.urso da outra. Por exemplo, para que se relacione a escala da riqueza com a da que o outro - sempre onipresente em toda manifestação linguística - não se res-
felicidade, faz-se necessário .mobilizar um topos do tipo "A riqueza traz felicidade", tringe a um exterior a quem I de quem I de que se fala, mas é a condição para que se
e este, sob suas formas tópiCas, conduzirá a que se percorra as duas escalas uni-· fale. A relação entre as formas de heterogeneidade mostrada marcadas e/ou sugeri-
formemente,
. como em "Quanto mais riqueza, mais felicidade" e "Quanto menw das e esse ponto-extremo, em que as palavras dos outros I as outras palavras estão
nqueza, menos felicidade".
constitutivamente presentes no discurso, sem se representar na superfície, não se
Fonte da nota: DUC89b; DUC88b.
dá por progressão linear de um plano a outro. A heterogeneidade constitutiva é
Termos relacionados: forma tópica, Teoria dos Topai, topos.
uma dimensão do heterogêneo de ordem estrutural, fundamental, condição de
existência do fato enunciativo. Com essa noção, chega-se ao limite da linguística,
isto é, a heterogeneidade constitutiva representa o lugar em que se esgota a possi-
bilidade de descrição linguística da presença do outro, o que leva Authier-Revuz a
buscar ancoragem em teorias exteriores à ciência da linguagem para propô-la. Re-
corre, assim, a duas abordagens em que se encontra um questionamento radical-
ainda que sob bases diferentes - das noções de discurso como homogêneo e de
locutor como fonte de sentido: o dialogismo do Círculo de Bakhtin e a teoria do
sujeito estruturalmente clivado, elaborada por Lacan, a partir da leitura de Freud.
Essa ancoragem permite entender a fala como sendo determinada para além da
vontade do sujeito falante, que, ilusoriamente, acredita ser a fonte de seu dizer,
quando não é mais do que seu suporte e seu efeito. A partir do conceito de hete-
rogeneidade constitutiva, formulado desde um lugar exterior ao alcance da lin-
guística, Authier-Revuz produz descrições classificatórias radicalmente diferentes,
em relação ao que se tem produzido no campo da linguística, do fenômeno que
examina, as formas da heterogeneidade mostrada.
Fonte da nota: AUT90; AUT04aB; AUT04aC ..
Leitura recomendada: AUT90; AUT04aB; AUT04aC.
Termos relacionados: heterogeneidade mostrada, heterogeneidade teórica.
heterogeneidade mostrada s.f Authier-Revuz Jação do sujeito com a língua e com o sentido. Dessa forma, é inevitável que a
Definição: representação de diferentes modos de negociação do sujeito falante linguística, entendida em seu sentido estrito, recorr a a abordagens exteríores a
com a alteridade que afeta a homogeneidade aparente de seú dizer, através de for- seu campo, considerando a intervenção desses elementos para alicerçar a descri-
mas linguisticamente detectáveis, na linearidade do discurso. ção dos fatos enunciativos.
Fonte da definição: AUT90; AUT04a. Fonte da nota: AUT04aD: 177; FL005: 74-75; TEI05a; 137.
Nota explicativa: Ao fazer uso da linguagem, o sujeito falante vale-se de um certo Leitura recomendada: AUT98; FL005: 79; FL008; REY78; TEI05a.
número de formas, linguisticamente apreensíveis no enunciado, que indicam a Termos relacionados: heterogeneidade constitutiva, heterogeneidade mostrada,
inscrição do outro discurso I do discurso do outro em seu dizer. Através dessas sujeito clivado.
formas, o enunciador busca apresentar como homogêneo o que é essencialmente
heterogêneo, numa tentativa tanto de assegurar o domínio sobre seu dizer, como heteroglossia s.f Bakhtin
de restaurar a autonomia de seu d iscurso, nos pontos em que esse do~1ínio/essa V. plurilinguismo
autonomia se acham ameaçados. Desse modo, procura preservar a imagem ilu-
sória de sujeito autónomo, que sabe quem fala, de que fala e como fala, condição hibridismo S. m. Bakhtin
necessária para que um discurso seja efetivado. Authier-Revuz distingue formas
V. hibridização
marcadas de heterogeneidade mostrada, que atribuem ao outro um lugar linguisti-
camente descritível, claramente delimitado no discurso (discurso direto, discurso
indireto, glosas, aspas ... ), das formas em que a presença da alteridade não se marca
hibridização s.f Bakhtin
Outras denominações: construção híbrida, hibridismo.
na sequência discursiva, sendo apenas ind icada/reconhecida implicitamente (iro-
Definição: combinação de duas linguagens sociais no interior de um único enunciado.
nia, discurso indireto livre, metáforas ... ). Passando por esse continuum, segundo a
Fonte da definição: BAK98: 156.
autora, chega-se, inevitavelmente, a um outro plano de heterogeneidade- não-lo-
Nota explicativa: O termo hibridização pressupõe a fusão de dois en unciados, dois
calizável e não-representável-, constitutiva do sujeito e de seu discurso. Assim, no
modos de fala r, dois estilos, duas linguagens, d uas perspectivas semânticas e axio-
campo da enunciação, estão em jogo, de maneira solidária, dois planos distintos,
mas não disjuntos, o da heterogeneidade constitutiva e o da heterogeneidade mos- lógicas em um só enunciado, cujos índices gramaticais e composicionais orientam
trada. Não há relação de correspondência di reta entre esses planos. Isso porque a para o fato de que o enunciado é de responsabilidade de um único falante. As
intervenção da psicanálise e do dialogismo, no quadro teórico de Authier-Revuz, diferentes vozes (posições sociais, pontos de vista) e linguagens aparecem em um
compromete crucialmente a suposição de transparência do dizer. As formas de mesmo conjunto sintático. Bakhtin afirma que as construções híbridas têm uma
heterogeneidade mostrada manifestam, então, a onipresença de uma outra hete- grande importância para o estilo do romance. No caso do estilo humorístico, por
rogeneidade, a constitutiva, que, sem se marcar na linearidade discursiva, afeta exemplo, a fala de outrem, narrada, apresentada numa certa interpretação, seja
radicalmente o sujeito e o d iscurso. em massas compactas, seja introduzida sem marcas aparentes, nunca está nitida-
Fonte da nota: AUT90; AUT04aB; AUT04aC. mente separada do discurso do autor, pois há um jogo multiforme com as frágeis
Leitura recomendada: AUT90; AUT04aB; AUT04aC. fronteiras dos discursos, das linguagens e das perspectivas. Além disso, Bakhtin
Termos relacionados: heterogeneidade constitutiva, heterogeneidade teórica. considera a hibridização uma das categorias básicas dos procedimentos de criação
da linguagem romanesca, já que marca o reencontro no enunciado de duas cons-
heterogeneidade teórica s. r Authier-Revuz ciências linguísticas, separadas por uma época, uma diferença social. No discurso
Definição: articulação de teorias exteriores à linguística às qua is é necessário recor- do cotidiano, é preciso considerar que, em essência, todo enunciado vivo é consti-
rer para explicar fatos da língua. tuído por um grau variável (maior ou menor) de hibridização.
Fonte da definição: AUT95a; AUT95b. Fonte da nota: BAK98: 110-111; 11 3; 156-157.
Nota explicativa: A enunciação, na teoria de Authier-Revuz, constitui um cam- Leitura recomendada: BAK98.
po heterogêneo do conhecimento, cujos estudos centram seu interesse na re- Termos relacionados: bivocalidade, dialogismo, plurilinguismo.
r
hipótese externa s.f Ducrot
Definição: recurso metodológico que constitui a observação dos dados linguísticos
a serem descritos.
Fonte da definição: DUC80b; DUC87; EDU06.
Nota explicativa: A noção de hipótese externa está associada à ideia de que a obser- ideia s.f Benveniste
vação dos fatos linguísticos não é teoricamente inocente, já que implica um início Definição: expressão do sentido da frase.
de descrição, isto é, que os fatos observados são subsumidos a conceitos. As hipó- Fonte da definição: EBE06.
teses externas dizem respeito às relações entre a observação de enunciados (lugar Nota explicativa: A ideia é, a cada vez, particular. É a partir desta ideia particular
em que o linguista escolhe as hipóteses externas) e a descrição das frases (lugar em que o locutor agencia palavras quando enuncia. Como o sentido de uma frase é a
que são construídas as hipóteses internas). ideia que ela exprime, esse sentido nos é dado formalmente na língua pela escolha,
Fonte da nota: DUC80b; DUC87; EDU06. pelo agenciamento de palavras, por sua o rganização sintática, pela ação que elas
Termos relacionados: enunciado (1), frase (3), hipótese interna. exercem umas sobre as outras.
Fonte da nota: EBE06.
hipótese internas./ Ducrot Termos relacionad os: frase (2), referência, sentido (1 ).
Definição: modelo teórico construído pelo linguista para a descrição dos fatos lin-
guísticos a serem explicados. ilocutório S. m. Flahault
Fonte da definição: DUC80b; DUC87; EDU06. V. lugar
Nota explicativa: Um exemplo de hipótese interna da Teoria da Argumentação na
Língua é o conjunto de conceitos que a compõe. ilocutório explícito s. m. Flahault
Fonte da nota: DUC80b; DUC87; EDU06. Outras denominações: enunciado performativo.
Termos relacionados: enunciado (1), frase (3 ), hipótese externa. Definição: inscrição da fala do sujeito em um lugar de legitimação de sua identi-
dade perante o outro.
homem dialogal s. m. Hagege Fonte da definição: FLA79: 40-50.
Definição: conjunto da proposta teórica de Claude Hagege, em que tem lugar um Nota explicativa: A partir do conceito de Austin de enunciado performativo, isto
sujeito concebido como enunciador, do qual se pode conhecer os condicionamen- é, enunciado que indica a instauração de uma ação através da fala de um sujeito,
tos e as liberdades que o relacionam à língua. Flahault propõe a definição de ilocutório explícito. A frase "Eu te batizo em nome
Fonte da definição: HAG90. do Pai e do Filho" é um enunciado performativo, pois impõe a existência da ação de
Nota explicativa: Claude Hagege considera que a linguística deve integrar a ma- batizado a partir da fala do sujeito. O enunciado per formativo é dito explícito quan-
neira como o homem constrói, desconstrói e reconstrói as línguas diversificando do apresenta marcas linguísticas que denotam os interlocutores no enunciado, tais
os tipos sobre um fundo de invariantes ligadas à sua natureza, no decurso de uma como o verbo conjugado na primeira pessoa do singular, indicando o sujeito, o eu.
longa história ou da história breve das línguas especiais; a apropriação feita do Na enunciação de "Eu te amo!", um sujeito declara explicitamente seu sentimento
signo e, através deste, do m undo e das suas simultaneidades rearticuladas. Claude de amor por outra pessoa. Em contrapartida, na enunciação de "Você é uma amiga
Hagege, com a proposta de uma linguística do homem dialogal, inscreve o estudo muito legal", o sentimento de amor pode ser apenas subentendido. Flahault empre-
da língua no social, defendendo uma sociolinguística enunciativa que se opõe tan- ga a palavra lugar de legitimação aproximando-a do seu sentido jurídico: o ilocu-
to ao fechamento chomskyano à sociedade quanto ao corte inicial entre língua e tório explícito "Eu te amo!" alça o dizer do sujeito em uma posição de validação ou
fala operado por Saussure. autenticação perante a instância social, a qual ultrapassa o sujeito e o interlocutor.
Fonte da nota: DOS94: 494-496; HAG90. Fonte da nota: FLA79.
Leitura recomendada: DOS94: 494-496; HAG90. Leitura recomendada: FLA79.
Termos relacionados: enunciador psicossocial, linguística sócio-operativa. Termos relacionados: ilocutório implícito, lugar.
ilocutório implícitos. Flahault 111. enunciação, criar a referência em relação ao sujeito que enuncia, transformando a
Definição: inscrição da fala do sujeito em uma insinuação de sua identidade pe- língua em discurso. A forma eu adquire existência linguística apenas no ato em que
rante o outro. é proferida em relação ao tu, com quem estabelece uma correlação de subjetividade.
Fonte da definição: FLA79: 41. Fonte da nota: EBE06.
Nota explicativa: A insinuação deve ser entendida como enunciação em que Leitura recomendada: BEN95A; BEN95B; BEN95C.
0
sujeito se posiciona de forma não manifestadamente declarada perante 0 outro
de forma a poder negar, se quiser, determinado sentido. Essa insinuação pode se: indicar v. Récanati
mais ou menos forte, conforme o desejo do sujeito de comprometer sua enuncia- Outras denominações: mostrar.
ção perante o outro. Ela ocorre porque a enunciação não contém marcas linguís- Definição: possibilidade da linguagem de mostrar aquilo que n ão pode representar.
ticas indicativas da presença do sujeito na enunciação (tais como em enunciações Fonte da definição: REC79: 125-126.
de ilocutório explícito como "Eu juro que... ") . Flahault exemplifica essa situação Nota explicativa: O enunciado "O gato está sobre o telhado", por exemplo,
com as enunciações hesitantes de um casal de amigos receoso em demonstrar uma ao mesmo tempo em que d iz que o gato está sobre o telhado, ou seja, fala de
afeição maior um pelo outro e que assim, não diz "eu te amo!", ilocutório explícito um conteúdo, também indica ou mostra, implicitamente, que o enunciado
de afeição, mas insinua, ou' seja, demonstra tal afeição de forma menos compro- "O gato está sobre o telhado" é uma afirmação que fala de si mesma. A linguagem
missada e menos comprometedora. pode indicar ou mostrar de diferentes maneiras, como através de um modo verbal,
Fonte da nota: EFL06. de um contexto, de uma entonação específica, por exemplo.
Leitura recomendada: FLA79. Fonte da nota: REC79: 125-126.
Termos relacionados: ilocutório explícito, lugar. Leitura recomendada: REC79.
Termos relacionados: margem, texto (2).
indicadores autorreferenciais S. m. Benveniste
V. indicadores de subjetividade. indivíduo falantes. m. Bally
V. sujeito falante (1)
indicadores de dêixis S. m. Benveniste
V. indicadores de subjetividade. insígnia s.f Flahault
Definição: sistema semiótico que indica a posição de fala que o sujeito produz
indicadores de subjetividades. m. Benveniste relativamente a seu interlocutor.
Outras denominações: indicadores autorreferen ciais, indicadores de dêixis. Fonte da definição: FLA79: 92.
Definição: formas disponíveis na língua utilizadas para convertê-la em discurso, Nota explicativa: Flahault cunha o termo insígnia por referência aos termos signo
cujo emprego remete à enunciação. e sinal, tais como são normalmente entendidos em Semiótica. Signo refere-se à
Fonte da definição: EBE06. união entre um significante e um significado dentro de um sistema linguístico;
Nota explicativa: Os indicadores de subjetividade são formulados a partir da dis- sinal remete a um significante cujo significado está fora de si mesmo, a ser bus-
cussão da noção de dêixis, redefinida por Benveniste como contemporân ea da si- cado n o contexto extralinguístico. O sujeito, por não estar totalmente dentro da
tuação de discurso. Esses indicadores pertencem a várias classes de palavras- pro- língua e nem totalmente fora dela, apresenta uma relação com o sistema simbólico
nomes, verbos, advérbios etc.- podendo ser divididos, de acordo com a noção que intermediário entre signo e sinal. Esse sistema é chamado de insígnia: o prefixo in-
expressam, em indicadores de pessoa, de tempo, d e lugar, de objeto mostrado etc. ("dentro") indica a posição singular que o sujeito toma no sistema da língua e o
Sua condição de autorreferenciação deve-se ao fato de sua existência estar ligada elemento -sígnia remete à ordem do signo, já que a fala do sujeito apresenta a união
à tomada da palavra, cuja realidade é a realidade do discurso. O pronome eu, por entre sign ificante e significado . A insígnia é, portanto, a iden tidade do sujeito, pois
exemplo, é uma forma da língua que ao ser enunciada remete ao sujeito do discur- sua fala é uma posição própria e interna a um sistema linguístico q ue contém a si e
so. Sua característica é predicar sobre si próprio, o que lhe permite, no momento da ao interlocutor. A insígnia pode falhar quando não há reconhecimento da fala do
sujeito pelo interlocutor. A falha é ilustrada na seguinte enunciação (durante uma passagem de locutor a sujeito. A passagem de locutor a sujeito da qual fala Ben-
viagem): "Olha! O carro está nos 42000 quilômetros. É hora de mandar trocar 0
veniste em "Da subjetividade na linguagem", texto de 1958, acontece na instância
óleo". O interlocutor pode contestar esse dizer, seja por uma crítica construtiva, ao de discurso. Segundo Benveniste "é na instância de discurso na qual eu designa 0
responder "oh, ainda há tempo. Sabes que o contador não funciona", seja por uma locutor que este se enuncia como 'sujeito"' (BEN95: 288). Em outras palavras, a
crítica agressiva, ao dizer "Se seguimos teus conselhos, nunca chegamos". Em ambas instância de discurso é também um lugar onde sujeito e linguagem se ligam. Em
as críticas, o interlocutor não reconheceu a insígnia do sujeito, a saber, a ide ntidade suma, a instância de d iscurso é uma noção que, dentro da t eoria de Benveniste, re-
de alguém que se posiciona como capaz de falar sobre o funcionamento de um carro. cebe nuances de sentido na medida em que o autor vai desenvolvendo sua reflexão
Fonte da nota: FLA79: 65-68; 93-96. durante os mais de 30 anos em que teorizou sobre os fenôm enos da enunciação.
Leitura recomendada: FLA79. Fonte d a nota: BEN89; FL007; ON007.
Termos relacionados: espaço de realização do sujeito, lugar. Leitura r ecomendada: FL007; ON007.
Termos relacionados: enunciação (4), indicadores de subjetividade, semântico.
instância de discurso s. r Benveniste
Definição: ato de dizer cada vez único pelo qual a língua é atualizada em fala pelo locutor. instrução s. r Ducrot
Fonte da definição: BEN95A. Definição: indicação contida na significação da frase, que tem como função penni-
Nota explica tiva: O term o instância de discurso tem um lugar crucial na teoria tir a interpretação dos enunciados.
benvenistiana, em especial, porque ele está normalmente associado ao fun ciona- Fonte da definição: DUC89b.
mento enunciativo dos indicadores de subjetividade. Os indicadores se referem Nota explicativa: A instrução, con tida na significação da frase, indica ao intérprete
à instância de discurso e n ela são produzidos. A expressão instância de discurso do enunciado o que é necessário fazer para compreender o sentido de um enun-
quase sempre se faz acompanhar, nos textos de Benveniste, da palavra enunciação ciado. É através da instrução que a frase especifica o tipo de marca que é necessário
e as duas noções são definidas, muitas vezes, de maneira muito próxima. Os artigos procurar no contexto linguístico para explicar o sentido dos enunciados no dis-
onde figura a expressão têm um traço em comum: através da análise dos indica- curso. No enun ciado "A reunião foi um sucesso: Pedro veio e até mesmo Paulo",
dores de subjetivid ade vêm à luz as relações da linguagem com o sujeito falante. a significação de "até mesmo" fornece a instrução, ao intérprete, de que a p resença
Em linhas gerais, pode-se considerar que a instância de discurso tem as seguintes de Paulo à reunião foi inusitada.
propriedades essenciais: a) ela se identifica a uma temporalidade que contém os in- Fonte da nota: DUC80b; DUC87; DUC88; DUC89b.
dicadores de subjetividade, ou seja, o tempo da instância de discurso é o momento Termos relacionados: frase (3), sentido (2), significação (2).
sempre presente em que o "eu " fala, mesmo que fale de acontecimentos passados
ou futuros. Trata-se de um presente implícito não assimilável ao presente grama- intenção reflexiva s.f Récanati
tical. A instância de discurso é, portanto, um eixo referencial cada vez único para a Definição: atitude do locutor de indicar o valor da enunciação do enunciado produzido.
temporalidade. Ela se identifica ao tempo presente implícito em que fala o locutor, Fonte d a definição: REC79: 174-193.
isto é, ao presente do locutor, e não ao presente formal gramatical. A instância de Nota explicativa: Para com unicar algo a alguém, é necessário indicar que ato de
discurso, considerada essa primeira propriedade, pode ser vista como o tempo de discurso está sendo realizado, mostrando o valor que se dá àquela comunicação.
atualização da frase (do enunciado); b) ela se liga ao momento inicial de produção Essa indicação de valor da enunciação pelo locutor de um enunciado é a força
do enunciado. A instância d e discurso tem relação muito próxima com a ideia de ilocucionária. Por exemplo, a intenção de uma p essoa que deixa as luzes acesas
produção inicial de um enunciado porque ela é também o espaço-tempo em que o ao sair de casa é indicar ou dizer que há alguém em casa. Porém, essa intenção do
"eu" é iden tificado ao locutor. Benveniste ilustra essa característica da instância de locutor pode não ser compreendida pelo interlocutor. A intenção ilocu cio nária
discurso quando diz "o eu só pode ser identificado pela instância de discurso que o se realiza somente quando o interlocutor reconhece essa intenção do locutor. A
contém e som ente por aí" (BEN89: 278-279). Trata-se, n esse caso, da instância de intenção é, nesse caso, também reflexiva, pois o locutor, através de seus enun-
discurso como o espaço-tempo de atualização da fo rma "eu ", aspecto este ligado ciados, mostra, implícita ou explicitamente, como devem ser considerados seus
ao aspecto anterior da temporalidade; c) ela tem também p apel fundamental na próprios enunciados.
Fonte da nota: REC79: 174-193. cutário. O interlocutor é aquele que fala e o interlocutário, aquele a quem se fala.
Leitura recomendada: REC79. Fonte da nota: GRE79a: 191.
Termos relacionados: enunciação (9), reflexividade generalizada, token-reflexividade. Leitura recomendada: BAR02b: 73-88; FI096: 61-84, 177-181, 283-285; GRE08.
Termos relacionados: interlocutor (2), sujeito da enunciação.
interdiscurso S. m. Authier-Revuz
Outras denominações: exterioridade discursiva. interlocutor ( 1) S. m. Ducrot
Definição: lugar de constituição do sentido que escapa à intencionalidade do su- Defu1ição: aquele a quem é dirigida a enunciação.
jeito por ação do inconsciente e pela determinação de processos sócio-históricos, Fonte da definição: DUC80b.
cujos traços podem ser apreendidos no fio do discurso. Nota explicativa: Interlocutor é um termo geral. Ao tratar da polifonia, Ducrot
Fonte da definição: AUT95a: 66. (198Gb) especifica interlocutor como abrangendo o alocutário a quem as palavras
Nota explicativa: O interdiscurso, que é um conceito fundamental e originário da são ditas, e o destinatário como paciente da pluralidade de vozes (enunciadores)
proposta teórica de Michel Pêcheux, relaciona-se à memória discursiva, ou seja, presentes no enunciado.
aos vários discursos anteriores e exteriores ao dizer, construído no momento da Fonte da nota: DUC80b.
enunciação. O dizer é constituído no momento da enunciação, mas os dizeres an- Termos relacionados: alocutário (1), destinatário (l), polifonia.
teriores o constituem enquanto interdiscurso. Esse dizer- eu falo aqui e agora- é
determinado pelo interdiscurso, despossuindo o sujeito do domínio da enuncia- interlocutor (2) S. m. Greimas
ção, sem que ele o perceba. Authier-Revuz, em seu estudo sobre a dupla hetero- Definição: destinador de uma fala de um diálogo.
geneidade - constitutiva e mostrada-, reformulado posteriormente em termos de Fonte da definição: GRE79a: 191.
não-coincidências, faz uso desse conceito de Pêcheux, que, junto com o de dialo- Nota explicativa: O diálogo, que reproduz sob a forma de simulacro, no interior do
gismo de Bakhtin, serve ao seu propósito de mostrar a dimensão heterogeneidade discurso, a estrutura da comunicação, pressupõe os dois actantes da enunciação-
constitutiva do discurso. Nesse contexto, o interdiscurso continua sendo entendi- o destinador e o destinatário-, que são chamados, quando tomados conj untamen-
do como o espaço de um além-discursivo não identificado, porém desembaraça- te, interlocutores ou, quando considerados separadamente, interlocutor e interlo-
do da acepção de sujeito totalmente efeito de determinações sociohistóricas, pois, cutário. O interlocutor é aquele que fala e o interlocutário, aquele a quem se fala.
embora sofra os efeitos do pré-construído- elemento do interdiscurso que produz Fonte da nota: GRE79a: 191.
o efeito de evidência, de referencialidade - ,também se encontra à mercê da ação Leitura recomendada: BAR02b: 73-88; FI096: 61-84, 177-181; 283-285; GRE08.
do desejo inconsciente que desorganiza esses efeitos. Sob o signo da psicanálise, Termos relacionados: interlocutário, sujeito da enunciação.
o conceito de interdiscurso em Authier-Revuz deve ser visto em sua relação com
uma heterogeneidade radical, a do desejo e do inconsciente que constitui o sujeito. internalizador S. m. Ducrot
Fonte da nota: AUT95a. Definição: entidade lexical Y que, relacionada a outra X, forma um sintagma XY,
Leitura recomendada: AUT95a; AUT98. cuja argumentação interna se produz com a argumentação externa de X.
Termos relacionados: heterogeneidade constitutiva, heterogeneidade mostrada, Fonte da definição: DUC02a; DUC02b.
sujeito-efeito. Nota explicativa: Os internalizadores pertencem à classe dos operadores. No
exemplo "procurar em vão" (XY), a expressão "em vão" (Y) é um internalizador
interlocutário S. m. Greimas da palavra "procurar" (X) no sin tagma XY. Esse sintagma "procurar em vão" tem
Definição: destinatário de uma fala de um diálogo. sua argumentação interna "procurar NO ENTANTO não encontrar" formada pe-
Fonte da definição: GRE79a: 191. las mesmas palavras da argumentação externa de "procurar" (X), que é "procurar
Nota explicativa: O diálogo, que reproduz sob a forma de simulacro, no interior do PORTANTO encontrar". Assim, a expressão "em vão" funciona, nesse sintagma,
discurso, a estrutura da comunicação, pressupõe os dois actantes da enunciação - como um internalizador de "procurar".
o destinador e o destinatário-, que são chamados, quando tomados conjuntamen- Fonte da nota: DUC02a; DUC02b.
te, interlocutores ou, quando considerados separadamente, interlocutor e interlo- Termos relacionados: argumentação externa, argumentação interna, operador (1).
intersubjetividades.f Benveniste repetição que dá coerência ao discurso e determina para ele um plano de leitura.
Definição: inter-relação constitutiva da enunciação que pressupõe o eu e o outro Por exemplo, sabe-se que uma fábula é uma história de gente e não uma história de
mutuamente implicados. bicho, porque o traço semântico /humano/ é nela recorrente, uma vez que se atri-
Fonte da definição: EBE06. buem aos animais qualificativos ou ações próprios dos seres humanos. Um texto
Nota explicativa: O tema da intersubjetividade é recorrente em Benveniste, porém, pode ser pluri-isotópico. Nesse caso, vários planos de leitura são oferecidos à inter-
o uso da palavra intersubjetividade é menos comum se comparado à subjetividade e pretação. A existência de mais de uma isotopia no discurso pode ser marcada por
à pessoa. Em "Da subjetividade na linguagem", Benveniste sintetiza seu raciocínio desencadeadores ou conectores de isotopia. Os conectores são termos com dois
dizendo: "Muitas noções na linguística, e talvez mesmo na psicologia, aparecerão sentidos, cada um apontando para uma leitura. Conta-se que Emílio de Menezes,
sob uma luz diferente se as restabelecemos no quadro do discurso, que é a língua ·orna lista e poeta, quando soube que uma mulher muito gorda se sentara no banco
enquanto assumida pelo homem que fala, e sob a condição da intersubjetividade, ~e um ônibus e este quebrara, fez o seguinte trocadilho: "É a primeira vez que vejo
única que torna possível a comunicação linguística" (BEN95: 293) . Nessa síntese um banco quebrar por excesso de fundos." A palavra banco está usada em dois
intersubjetividade é apresentada por Benveniste como uma "condição" da experiên~ sentidos: "móvel comprido para sentar-se" e "casa bancária". Também está em-
cia humana inerente à linguagem. Essa experiência se reflete na língua. Tal perspec- pregado em dois sentidos o termo fundos: "nádegas" e "capital, dinheiro". Ambos
tiva se confirma quando Benveniste considera que "a intersubjetividade tem [...] os vocábulos são conectores de isotopia, pois apontam para duas leituras diversas:
sua temporalidade, seus termos, suas dimensões" (BEN89: 80). E acrescenta: "por a quebra física do móvel e a quebra financeira da casa bancária. Os desencadeado-
aí se reflete na língua a experiência de uma relação primordial, constante, indefini- res de isotopia são termos que não se encaixam no plano de leitura proposto e, por
damente reversível, entre o falante e o seu parceiro" (BEN89: 80). Esse "se reflete na isso, obrigam a estabelecer uma nova leitura. Na propaganda "GRAVE COM BASF
língua" do qual fala o autor é relativa"[ ... ] ao de fala no processo de troca que reme- e agudos também", começa-se a ler o texto como um apelo para gravar com um
te a experiência humana inscrita na linguagem" (BEN89: 80). Assim, pode-se con- aparelho da marca Basf. No entanto, o termo agudos não se insere nesse plano de
siderar que a intersubjetividade é correlativa a uma "experiência humana" que se leitura e determina o estabelecimento de um outro, em que graves e agudos têm o
reflete na língua. Em suma, a Teoria da Enunciação de Benveniste tem como funda- sentido de "qualidade do som dada pela frequência". Nesse caso, a publicidade diz
mento a noção de intersubjetividade, já que é na e pela linguagem que o homem se que um aparelho Basf permite ouvir bem tanto os sons graves quanto os agudos.
constitui como sujeito, e essa condição está na dependência da existência do outro. Fonte da nota: BAR03: 217; GRE79: 394.
Como exemplo, pode-se considerar que a intersubjetividade se marca na língua pela Leitura recomendada: BAR02b: 124- 130; BER03: 185-193; GRE08.
relação de oposição pessoa eu/pessoa não-eu, distinção necessária à noção de uni- Termos relacionados: figurativização.
cidade de cada uma das pessoas. Essa unicidade se apresenta em uma relação com-
plementar, que é intrínseca à relação de subjetividade - há pessoa subjetiva porque
há pessoa não subjetiva, relação que pode inverter-se. Intersubjetividade é, então,
noção primeira, pressuposta, epistemologicamente, pela noção de subjetividade.
Fonte da nota: FL007.
Leitura recomendada: BEN89D; BEN95C.
Termos relacionados: enunciação ( 4), pessoa, subjetividade.

isotopia s.f Greimas


Definição: recorrência de um elemento semântico ao longo do discurso que simul-
taneamente lhe dá coerência e lhe determina um plano de leitura.
Fonte da definição: GRE79a: 197-199.
Nota explicativa: O termo isotopia foi emprestado do domínio da físico-química e
refere-se à reiteração dos mesmos lugares semânticos ao longo do discurso. É essa
iQt
Q'·
o.
Fonte da definição: FRA98.
Nota explicativa: O esquema de léxis é representado por um termo de partida,
um termo de chegada e um relator de predicação que orienta a relação: À. = <e
E n>, respectivamente, cujos termos são instanciados por noções. Uma léxis-
0 1
~
cr
leis argumentativas s.f Ducrot termo próximo de lekton, o dito em grego, e dictum, o dito em latim - não é um
~ Definição: regras internas que orientam a dedução de conteúdos argumentativos enunciado: ela é um esquema pré-assertivo gerador de enunciados, ou seja, de
do discurso. uma família parafrástica, cujas montagens diferentes são respostas a situações ou
Fonte da definição: ANS83. contextos diferentes. Desse modo, todo enunciado é construído a pmtir da escolha
Nota e~plica_tiva: Apresen:adas em 1983 por Ducrot e Anscombre, as leis argu- de uma dentre todas as paráfrases possíveis geradas por uma léxis. Assim, uma
mentativas sao regras destmadas a refletir uma regularidade, sugerida pela obser- Jéxis, orientada a partir da relação primitiva, poderá gerar n enunciados diferentes,
vação dos enunciados, e de outros fenômenos relacionados a essa regularidade. As como um suporte de operações de modalidades que participam de sua construção
leis argumentativas, distintas das leis lógicas tradicionais, explicam encadeamentos (asserção positiva e negativa, diátese, transitividade etc.). Como um enunciado só
discursivas em que A é um argumento para B, ou seja, todo discurso que utiliza A se constitui em relação a uma situação de enunciação, a notação formal de uma
pode apresentá-lo como devendo orientar o interlocutor para a conclusão B. Jéxis deve ser definida levando-se em consideração outros elementos que estão
Fonte da nota: ANS83. implicados nas operações enunciativas: <e 0 e 1 n> E Sit (S/s, T/t), em que Sit
Termos relacionados: argumentação (1), hipótese interna, leis lógicas. remete a situação de enunciação, S a sujeito enunciador, s a sujeito do enunciado,
Ta momen to da enunciação, ta momento ao qual se refere o enunciado. Haverá,
leis lógicas s.f Ducrot portanto, um pacote de relações entreS/se outro entre T/t. Essa relação complexa
Definição: leis que decorrem da relação lógica entre dois elementos, pela qual se é fundamental: além de constituir um enunciado, ela também desambiguiza os
afirma que, se um elemento é verdadeiro, o outro também o é. enunciados. Assim, por exemplo, "O livro de Pedro"; "Pedro, seu livro"; "Pedro,
Fonte da definição: ANS83. ele, seu livro"; "Pedro tem um livro"; "Pedro, ele, tem um livro" pertencem à mes-
Nota explicativa: As leis lógicas estão relacionadas ao método de descrição semân- ma família e foram gerados por um mesmo esquema de léxis: <e 0 /Pedro/, e 1 I
tica: hipóteses externas (derivadas da observação dos dados) e hipóteses internas livro/, n> ). Se mais de dois termos estiverem em relação, como é o caso de João
(m ecanismos explicativos dos dados). Com base nas hipóteses externas: a) uma comprou um presente para Maria, há uma intricação de relações, ou seja, relações
interpretação pode ser aceitável do ponto de vista lógico das condições de verdade, que se sobrepõem, chamadas de relações binárias intricadas.
mas inaceitável do ponto de vista da língua; b) uma interpretação pode ser acei- Fonte da nota: FRA98.
tável do ponto de vista da língua, mas inaceitável do ponto de vista da lógica das Leitura recomendada: FRA98; FUC75; FUC84.
condições de verdade. Quanto às hipóteses internas, entende-se que seria possível Termos relacionados: domínio nocional, noção.
criar um contexto especial para atribuir condições de verdade às premissas e às
conclusões, mas o custo teórico seria alto demais. Essas constatações levam Ans- língua ( 1 ) s. r Bally
combre e Ducrot a construir conceitos explicativos de natureza argumentativa e a Outras denominações: língua falada.
formular leis que põem em relação esses conceitos, porque a observação dos dados Definição: conjunto formado pela estrutura e uso linguísticos.
mostra que a redução da argumentação à lógica é inaceitável. Fonte da definição: BALSl; BAL65; BAL67.
Fonte da nota: ANS83. Nota explicativa: A língua consiste no conjunto do sistema de conceitos virtuais
Termos relacionados: hipótese externa, hipótese interna, lei~ argumentativas. com o de conceitos reais. O sujeito atualiza os conceitos virtuais, tornando-os reais,
isto é, transformando a língua em fala, que é a parte verdadeiramente analisada por
léxis s.f Culioli Bally. Língua corresponde, assim, à língua falada, q ue é uma abstração, na medida
Definição: ente metalinguístico referente a um esquema relacional entendido em que, em um mesmo momento, em uma sincronia, há inúmeros grupos sociais,
como um modelo abstrato da estrutura predicativa mínima. centro de interesse e, ainda, indivíduos que usam a língua de diferentes maneiras.
Entretanto, para os sujeitos, a língua é sempre una. Por esse motivo, Bally acred ita só pode ser analisada ao se levar em consideração diacron ia e sincronia sim u ltane-
que os estudos linguísticos devem ser feitos a partir de análises da língua falada e amente. Essa perspectiva de Jakobson dá ênfase à funcionalidade do con ceito de
sem pre sincronicamente, um a vez q ue o SUJ.eito falante n ão tem consciênc · Hngua. O autor fala em uma "sincronia dinâmica da língu a", na qual a estrutura da
1a, no
uso, das d iferenças e da evolução constante pela qual passa a sua üngua. Essa de- Hngua e a função do tempo sobre ela coexistem. Q uanto ao fator espaço, o autor
terminação está presente em ambas as fases do pensamento do autor, no primeiro fala sobre a d istância entre os interlocutores causada pelos d iferen tes códigos (cabe
momento, a Estilística, e na segunda fase, a teoria geral da enunciação, quando lembrar que para o autor a base co nstituinte do código é a relação dialética som
Bally assum e definitivamente o termo língua. e sentido), e q ue será atualizada a cada ato comun icativo, o que reitera o caráter
Fonte da nota: BALSl ; BAL65; BAL67. enunciativo da noção de língua em }akobson.
Leitura recomendada: CHI85; D U R98; M ED 85. Fonte da n ot a: JAK69b; JAK70; JAK96; FLOOS.
Termos relacionados: con ceito virtual, frase (1 ), sujeito falante (1). Leitura recom endada: JAK69b; FLOOS; FL008.
Termos relacionados: cód igo, enunciação (8), lin guagem (3).
língua (2) s.f Benveniste
D efinição: sistema que inter-relacio na valor distintivo das formas e valor referen - língua-discurso s. f Benveniste
cial relativo à situação en unciativa. Definição: ativid ade do sujeito q ue coloca a língua em uso.
Fonte da definição: EBE06.
Fonte da definição: EBE06.
Nota explicativa: Todos os outros sistem as podem ser interpretados p ela üngua, Nota explicativa: Émile Benven iste cria o termo língua-discurso para referir-se à
jam ais o inverso. Toda a semiologia de um sistema não-linguístico deve pedir em- relação do sistema de signos como prop riedade coletiva, atualizado individual-
prestad a a interpretação da língua e não pode existir senão na e pela semiologia da mente em uma situação p rópr ia de uso da língua.
língua. A língua é o único sistema simultaneamen te semiótica em su a est rutura Fonte da not a: EBE06
formal e em seu funcionam ento: 1) ela se manifesta pela enunciação, que contém Leitura recomen dada: BEN89A; BEN89E.
referência a uma situação dada; falar é sempre falar-de; 2) ela consiste fo rmalmen- Termos relacionados: semântico, semiótica , sentido (1).
te de unidades distintas, e cad a uma é um signo; 3) ela é pro duzida e recebida nos
mesmos valores de referência por todos os membros d e uma co m unidad e; 4) ela é língua falada s.r Bally
a única atualização da comunicação intersubjetiva. V. língua ( 1)
Fonte da nota: EBE06.

linguagem ( 1) s. r Bally
língua (3) s.t ]akobson Outras denominações: linguagem natural.
Definição: sistema de signos que cons tituem o rep ertório linguístico comum aos Defin ição: conjunto dos sistemas estrutural e de uso da língua.
m embros de uma comunidade. Fonte d a definição: BALSl; BAL65; BAL67.
Fon te da definição: JAK69b. Nota explicativa: A linguagem é o conjunto formado p ela união do sistema de
Nota explicativa: Jakobson parte da concepção de língua apresentada p or Saussu- símbolos linguísticos e pelo sistema de unidades expressivas. O primeiro conjunto
re, como a de um sistema de signos, p ara am pliá -la ao incluir a noção de subcódi- é constit uído por associações e oposições de elemen tos na co nsciência dos sujei-
gos (funções da linguagem) . Esse sistema é por ele considerado um conjunto di- tos. Como os símbolos dificilmente corresp ondem às unidades de pen samento,
nâmico de signos diversificado (confo rme p redom in ância de determinada função os sujeitos, em seu meio social específico, criam o sistema expressivo, de fatos de
da linguagem) e conversível (ent re as funções da linguagem ). A visão d inâmica de expressão, isto é, um grupo de u nidades que têm relação com a afetividade e com
língua em Jakobson leva à consideração de q ue, em suas variantes locais, ela sofre a subjetividade, atualizando-o constantemente a partir do uso. O termo linguagem
ação dos fato res do tempo e d o espaço. No que tange ao fator tempo, Jakobson (di- está estreitamente ligado ao uso da língua e consta na p rimeira fase da obra de
ferentem ente de Saussure, para quem a língua era vista como um sistema estático Bally, a Estilística. Embora reconheça a existên cia de dois sistem as (o de símbolos
e uniforme, pois as m udanças só ocorreriam através da fala) entende q ue a língua e o de uso), em inúmeros momentos, linguagem e língua são tratados como sinô-
nimos, pois, para o autor, o objeto de estudo é a língua como um instrumento de (BEN89: 221); b) alterna o termo com língua. Como em: "a linguagem se realiza
expressão e de ação da vida real. Para 13ally, a manifestação da subjetividade está sempre dentro de uma língua, de uma estrutura linguística definida e particular,
sempre em primeiro plano na linguagem, acima das formas lógicas; a inteligência inseparável de uma sociedade definida e particular." (BEN95: 31); c) alterna o ter-
parece se sobressair porque é preciso para o falante fazer-se entender. É importante mo com línguas. Como em: "A universalidade dessas formas [dos pronomes] e
destacar, contudo, que o falante só pode exprimir parcialmente seu pensamento, dessas noções faz pensar que o problema dos pronomes é ao mesmo tempo um
sua face acessível, aos demais indivíduos. A linguagem é, assim, um meio sempre problema de linguagem e um problema de línguas, ou melhor, que só é um proble-
imperfeito para a transmissão das ideias. Embora isso seja uma ilusão, à medida ma de línguas por ser, em primeiro lugar, um problema de linguagem." (BEN95:
que a língua está em constante evolução, os falantes têm o sentimento de que a 277); d) alterna o termo com língua e com línguas. Como em: "Chega-se assim a
língua é um sistema em que cada elemento se relaciona com os demais e que esse esta constatação - surpreendente à primeira vista, mas profundamente de acordo
sistema não só sempre existiu como existirá sempre. Essa ilusão, destaca o autor, é com a natureza real da linguagem - de que o único tempo inerente à língua é o
necessária para a crença de que a realidade é um estado imutável. É justamente essa presente axial do discurso, e que este presente é implícito. [... ] Esta parece ser a
experiência fundamental do tempo, de que todas as línguas dão testemunho à sua
a razão pela qual Bally crê que os estudos linguísticos devam ser sincrônicos.
Fonte da nota: BAL51; BAL65; BAL67. maneira" (BEN89: 76).
Fonte da nota: BEN89; BEN95; FL007.
Leitura recomendada: CHiey5; DUR98; MED85.
Leitura recomendada: FL007.
Termos relacionados: língua (1), sujeito falante (1).
Termos relacionados: língua (2), língua-discurso.

linguagem (2) s.f Benveniste linguagem (3) s.f Culioli


Definição: faculdade de simbolizar inerente à condição humana.
Definição: capacidade humana de construção de representação, referenciação e
Fonte da definição: BEN95: 27.
regulação passível de ser apreendida na diversidade das línguas.
Nota explicativa: assim entendida, a linguagem está diretamente ligada à inter-
Fonte da definição: FRA98.
subjetividade uma vez que, como uma faculdade de simbolizar, ela é condição
Nota explicativa: A linguagem, como uma atividade cognitiva de construção e re-
de existência do homem e como tal é sempre referida ao outro. A linguagem é conhecimento de formas, é responsável pela constituição dos enunciados e pela
constitutiva do homem na justa medida em que a intersubjetividade lhe é inerente. construção da significação. Por ser cognitiva, essa atividade somente pode ser
Dessa forma, pode-se considerar que a vinculação entre linguagem e intersubjeti- apreendida a partir daquilo que produz, ou seja, dos enunciados, partindo-se deles
vidade constitui uma espécie de a priori da teoria benvenistiana. Em testemunho e a eles retornando. O conceito culioliano de linguagem pressupõe, portanto, uma
disso, cabe lembrar o texto "Da subjetividade na linguagem", de 1958, em que contínua atividade epilinguística (atividade metalinguística não-consciente) que
Benveniste diz que "Não atingimos jamais o homem reduzido a si mesmo e procu- supõe a relação entre um modelo (competência) e a sua realização (performance).
rando conceber a existência do outro. É um homem falando que encontramos no Desse modo, Culioli, cuja teoria tem por objeto de estudo a relação entre a lingua-
mundo, um homem falando com outro homem. E a linguagem ensina a própria gem e as línguas, toma por objeto de análise aquilo que é acessível ao linguista e
definição do homem" (13EN95: 285). passível de observação, ou seja, os enunciados e seus valores interpretativos. Desse
Ou seja, o homem é homem porque tem linguagem. Opor o homem à lingua- modo, a linguagem, atividade significante de representação, referenciação e regu-
gem é opô-lo à sua própria natureza. A linguagem é condição do homem que nela lação, somente é acessível através dos textos, isto é, dos arranjos de marcadores.
está sob a forma da intersubjetividade. Esse princípio é reiterado inúmeras vezes Fonte da nota: FRA98.
e em vários textos de Benveniste. Porém, a exemplo de outros termos da teoria de Leitura recomendada: FRA98; FUC75; FUC84.
Benveniste, também a linguagem recebe, no desenvolvimento da obra do autor, Termos relacionados: enunciação (5), enunciador (4), linguística.
nuances de sentido que decorrem do contexto em que ocorre e dos termos que se
faz acompanhar. Assim, têm-se sentidos muitos específicos de linguagem quando linguagem (4) s.f Jakobson
Benveniste: a) adjetiva o termo. Como em: "Nosso domínio será a linguagem dita Definição: sistema de signos linguísticos que tem seu funcionamento baseado nos
ordinária, a linguagem comum, com exclusão expressa da linguagem poética ... " processos de seleção e combinação.
Fonte da definição: JAK69b.
·uir através de uma orientação teórica e formal de tipo fundacional, no-
~M tl ' .
Nota explicativa: Em Jakobson, linguagem é sinónimo de funcionamento S • -imitivas operações elementares, regras e esquemas, que geram as categonas
d "fo l . 1' . egun. çoes P1 ' . . , . .
o o auto r, a ar tmp tca a seleção de certas entidades linguísticas e sua co . icais e as orgamzações própnas para cada lmgua. Procuram-se mvanantes
nação em unidades linguísticas de mais alto grau de complexidade" (1 .rnbt- gramat . . . ,
969· 37). ue estabelecem e regulam a attvtdade de linguagem, tal como aparecem atraves
Essa posst'bili'dade d e arranJo
· se dá através da m etáfora (seleção) e da met
. _ . .
, .
Ofllrnta ~as configurações das diferentes línguas. Assim, a linguística somente pode ser a
(combmaçao). Tendo ~m vista que a lmguagem é operacionalizada dessa forma, busca pelo generalizável, no sentido em que uma propriedade, das categorias, das
0
a~tor apr~senta sua~ dtferentes funções (fática, conativa, metalinguística, referen. operações, ditas gerais, devem poder ser (re)construídas, por raciocínio, cada vez
ctal, emotiva e poética), qu e se fazem presentes de maneira hierárquica na fal d que for necessário.
. I a o
mter ocutor, dependendo de fatores externos. Ou seja, "a diversidade de interlo- Fonte da nota: FRA98.
cuto~es e sua mútua adaptabilidade constituem fator de importância decisiva na Leitura recomendada: FRA98; FUC75; FUC84.
multiplicação e diferenciação de subcódigos no âmbito de uma comunidade de Termos relacionados: enunciação (5), enunciador (4) linguagem (2).
fala e dentro da competência verbal de seus membros individuais" (1970: 27). As-
sim, podemos dizer que, para Jakobson, a linguagem funciona através do desloca- linguística sócio-operativa s./ Hagege . .
mento entre os polos metMórico e metonímico a fim de cumprir com suas variadas Definição: modelo teórico que reflete a dialética entre constrangimento e hberda-
funcionalidades. Segundo Jakobson (1969: 18), a linguagem é 0 próprio funda- de que liga a língua ao enunciador.
mento da cultura. Essa perspectiva tem relação com as fecundas discussões entre Fonte da definição: HAG90: 211.
Jakobson e Lévi-Strauss, dividindo inquietações comuns no campo da linguística Nota explicativa: Linguística sócio-operativa é uma perspectiva genérica sobre a
e da antropologia. Em relação a ela, todos os outros sistemas de signos são acessó- relação de interlocução e as propriedades humanas definidas. O modelo é divido
rios ou derivados. Interessa ainda ressaltar que o autor procurou estudar a lingua- em duas grandes linhas- domínios de constrangimento e domínios de iniciativa-
gem em todos seus aspectos: linguagem em ato, linguagem em evolução, lingua- que são tratadas solidariamente. A linguística sócio-operativa considera que a dia-
gem em estado nascente, linguagem em dissolução, linguagem poética. Jakobson lética dos constrangimentos e das liberdades desempenha papel importante no es-
(op. cit.: 33) aponta que os estudos da linguagem devem necessariamente incor- tudo da variação e da norma. O lugar dado ao social, no modelo, conduz ao estudo
porar o estudo das significações. O autor destaca (op. cit.: 21) que a temática da do fenômeno da variação linguística.
li.nguagem tem relação direta com as pesquisas sobre a função poética, tendo em Fonte da nota: HAG90: 11-12; 211 -212; 252.
VIsta sua função predominante, qual seja a ênfase na m ensagem. Leitura recomendada: HAG90.
Fonte da nota: EJA06; JAK69b; JAK70.
Termos relacionados: domínios de constrangim entos, domínios de iniciativas, Teo-
Leitura recomendada: JAK69b; JAK70.
ria dos Três Pontos de Vista.
Termos relacionados: língua (3), metáfora, metonímia.
localização espaciaL.t Greimas
linguagem natural s.f Bally Definição: processo de construção de um sistema de referências, que permite situar
V. linguagem (1)
espacialmente estados e acontecimentos.
Fonte da definição: GRE79a: 215.
linguística s.f Culioli Nota explicativa: A localização espacial refere-se à construção de um sistema de re-
Definição: ciência que tem por objeto a linguagem apreendida através da diversi- ferências que instala no enunciado um espaço do aqui (espaço enunciativo) e um
dade das línguas naturais.
espaço do algures (espaço enuncivo ). O espaço enunciativo não é somente o lugar
Fonte da definição: FRA98.
do eu, mas todos os espaços organizados a partir do aqui. Em Sabiá, composição
Nota explicativa: A definição de linguística é programática, assinala um objetivo de Chico Buarque e Tom Jobim, há a seguinte estrofe: "Vou voltar /Sei que ainda
es~edfico e, ~essa maneira, influi sobre a teorização e sobre a metodologia da te- vou voltar /Para o meu lugar /Foi lá e é ainda lá /Que eu hei de ouvir cantar /Uma
ona de Anto me Culioli. O objetivo não é construir uma gramática universal, mas sabiá". O espaço marcado por lá para onde o poeta pretende voltar é determinado
a partir do aqui. É, portanto, um espaço enunciativo. Já o espaço enuncivo é aquel m pretérito e um futuro. Assim, o sistema de referências temporais apre-
sente, u
construído no enunciado, m as sem qualquer referência ao espaço da enunciaç· e . m presente do presente (concomitante ao momento de referência presen-
ao. senta. u
No primeiro capítulo de O missionário, de Inglês de Souza, aparece a seguinte fra. um pretérito do presente (anterior ao momento de referência presente) e um
te), . d c A • )

se: "Só o infelicitava na existência abundante gozada em Silves a desconsideração do presente (postenor ao momento e re1erenc1a presente ; um presente
(utUI'O . A • • •

com que o tratavam o Vigário e o povo". O espaço indicado pelo adjunto adverbial retérito (concOJmtante ao momento de referencia preténto), um preténto do
do p d c A • , • )fu d é .
em Silves não tem relação com o espaço da enunciação. Trata-se, portanto, de urn retérito (anterior ao momento e re1erenc1a pretento e um turo o pret nto
espaço enuncivo. Não se pode dizer, num raciocínio mecânico, que os espaços r osterior ao momento de referência pretérito); um presente do futuro (conco-
indicados pelos pronomes demonstrativos e pelos advérbios de lugar são enuncia- n~itante ao momento de referência futuro), um pretérito do futuro (anterior ao
tivos e os marcados pelos adjuntos adverbais são enuncivos. De um lado, há casos 1110111
ento de referência futuro) e um futuro do futuro (posterior ao momento de
em que o lá ou o ali podem indicar um espaço enuncivo. Nesse caso, significa referência futuro). Os momentos dos acontecimentos relacionados ao momento
" naque1e 1ugar" : "I sso mesmo: uma cueca provocantemente acompan had a por urn de referência presente são os tempos enunciativos; aqueles ordenados em relação
tweed clássico, com o célebre logotipo dos dois "c" entrelaçados e, como transgres- aos momentos de referência pretérito e futuro são os tempos enuncivos. Alguns
são final, a camélia que se tornou um dos ícones do estilo Coco Chanel fincada exemplos de referências temporais expressas pelo verbo do português: 1) o preté-
bem ali, al i mesmo" (·Veja, 1259, 28/10/1992, p. 75). De outro, há advérbios enun- rito do presente é um tempo enunciativo, manifestado pela forma verbal deno-
civos, embora pouco usados no português moderno: algures, alhures, nenhures. minada pretérito perfeito do indicativo: Você viu a notícia sobre o escândalo de
Tanto os espaços enunciativos como os enuncivos podem ser colocados nos eixos corrupção?; 2) o presente do pretérito é um tempo enuncivo do pretérito, expresso
da categoria topológica horizontalidade (perspectividade vs.lateralidade) vs. verti- pela forma verbal conhecida como pretérito perfeito do indicativo, quando indicar
calidade. Nesse caso, são localizados em cima, embaixo, na frente, atrás, à direita, um acontecimento acabado, limitado, pontual, ou pela forma verbal chamada pre-
à esquerda, assim por diante. Essas localizações espaciais podem ser investidas de térito imperfeito, quando designar evento inacabado, ilimitado, durativo: O Brasil
valores: em A morte e a morte de Quincas Berro d'Água, de Jorge Amado, o alto é 0 teve, no século passado, uma das mais altas taxas de crescimento do planeta; Às
espaço do dever, da rotina, enquanto o baixo é o espaço do querer, do prazer; no cinco horas da tarde, havia um nevoeiro que a luz do sol irisava; 3) o pretérito do
poema "Vou-me embora pra Pasárgada", de Manuel Bandeira, o aqui é o espaço futuro é um tempo enuncivo do futuro, manifestado pela forma verbal denomina-
da obrigação, enquanto o lá é espaço do prazer, da inconsequência, da felicidade. da futuro do presente composto: Quando tudo isso acabar, terei comprado minha
Fonte da nota: FI096: 261-265. passagem para o inferno.
Leitura recomendada: FI096: 261-299; GRE79a: 215-216; GRE08. Fonte da nota: GRE79a: 145-162.
Termos relacionados: espacialização, debreagem espacial, programação espacial. Leitura recomendada: FI096: 127-256; GRE79a; GRE79b; GRE08.
Termos relacionados: debreagem temporal, embreagem temporal, temporalização.
localização temporal s.f Greimas
Definição: processo de construção de um sistema de referências que permite situar locutor ( 1) S. m. Bally
temporalmente estados e acontecimentos. V. sujeito falante ( 1)
Fonte da definição: GRE79a: 216.
Nota explicativa: A localização temporal diz respeito à construção de um siste- locutor (2) S. m. Benveniste
ma de referências constituído a partir do agora, momento da enunciação. A ele, Definição: indivíduo linguístico cuja existência se marca na língua toda vez que
aplica-se a categoria concomitância vs. não concomitância (anterioridade vs. pos- toma a palavra.
terioridade) e obtêm-se, assim, três momentos de referência: um presente, um pre- Fonte da definição: BEN95: 286.
térito e um fu turo. O momento de referência presente é equivalente ao momento Nota explicativa: Locutor é aquele que fala em uma dada instância de discurso e
da enunciação; o pretérito e o futuro, marcados no enunciado, estabelecem um que, ao falar, se autoindica através de marcas específicas na língua. Trata-se de uma
tempo do então. A cada um desses momentos de referência reaplica-se a categoria noção importante na teoria porque ela permite a Benveniste formular a noção de
acima mencionada e passa-se a ter três momentos dos acontecimentos: um pre- sujeito e, por esta, a de subjetividade. Esse movimento de passagem de uma noção
a outra é bem claro no texto "A natureza dos pronomes", em que ele afirma que "é
se identificando como pessoa única pronunciando eu que cada um dos locutores
se coloca como 'sujeito'" (BEN95: 280-281). Ou, ainda, em "Da subjetividade na
linguagem": "A linguagem só é possível porque cada locutor se apresenta c01110
sujeito, remetendo a ele mesmo como eu no seu discurso" (BEN95: 286). Em resu-
mo, a noção de locutor é necessária para que Benveniste possa formular a noção de marca s.f Authier-Revuz
sujeito, uma vez que sua teoria dedica-se bastante a estudar a subjetividade enten- Outras denominações: forma de heterogeneidade mostrada.
dida como "capacidade do locutor para se propor como sujeito" (BEN95: 286). Definição: forma que atribui ao outro um lugar linguisticamente descritível.
Fonte da nota: ON007; FL007. Fonte da definição: AUT04aC: 21. . .
Leitura recomendada: ON007; FL007. Nota explicativa: No quadro teórico de Authier-Revuz, o termo marca d1z respei-
to às formas da heterogeneidade mostrada (d iscurso relatado, aspas, glosas etc.),
Termos relacionados: subjetividade, sujeito (2).
através das quais o enunciador representa a heterogeneidade que o constitui. Essa
representação n ão pode ser tomada como u ma evidência, como se, via linguagen:,
locutor (3) S. m. Ducrot
a falta pudesse ser mostrada. O estatuto do representado só pode ser compreendi-
Definição: sujeito responsável pelo enunciado.
do na articulaç_ão necessária com o irrepresentável da heterogeneidade constituti-
Fonte da definição: DUC88; EDU06.
va, isto é, com o que, na enunciação, escapa radicalmente ao enunciador. A marca
Nota explicativa: O locutor, nem sempre linguisticamente marcado, é o ser do dis-
aponta para o caráter heterogêneo do processo enunciativo e, simultaneamente,
curso, distinto do sujeito falante (ser empírico). Na Teoria da Polifonia, o locutor
procura preservar a ilusão da homogeneidade desse pr~cesso . Uma vez que a ~a~­
apresenta enunciadores, em relação aos quais demonstra diferentes atitudes.
ca é uma explicitação de um comentário que o enunCiador faz sobre seu propno
Fonte da nota: DUC88; EDU06.
dizer, o enunciador deve ser tomado não pelo que diz, mas no que diz, pois há o
Termos relacionados: enunciador (1), sujeito falante (2), Teoria da Polifonia.
outro no que ele coloca como sendo próprio. As marcas não têm o mesmo estatu-
to, mas estão situadas numa escala que varia de um grau maior a um grau menor
lugar s. m. Flahault de explicitação no nível do discurso. Passando por esse continuum de formas re-
Outras denominações: ilocutório.
cuperáveis da presença do outro no discurso, chega-se inevitavelmente à presen-
Definição: espaço de dizer do sujeito, restrito e variável conforme a circunstância social.
ça do outro (palavras dos outros, outras palavras) no discurso (heterogeneidade
Fonte da definição: FLA79: 54.
constitutiva), aspecto que, na perspectiva de Authier-Revuz, não depende de uma
Nota explicativa: O espaço de dizer do sujeito é restrito e variável. Restrito, pois a
abordagem linguística, mas necessita de ancoragem em exterioridades teóricas.
posição do sujeito não coincide com a posição do falante natural, o qual pode dizer
Fonte da nota: PED96: 33; TEIOSa: 162-163.
tudo que quiser na língua que domina. Variável, pois o dizer do sujeito depende da
Leitura recomendada: AUT95a; AUT9Sb.
posição que ele e o interlocutor ocupam em uma dada circunstância social. Assim,
Termos relacionados: heterogeneidade constitutiva, heterogeneidade mostra-
a cada enunciação, o lugar do sujeito varia. A variabilidade do espaço do sujeito da, negociação.
aponta para a existência de uma instância terceira aos interlocutores - a própria
situação que estabelece a interlocução. Algumas vezes, a colocação da instância marcador s. m. Culioli
terceira não é a mesma para os interlocutores- situação em que cada interlocutor Definição: ente linguístico que remete à indicação das operações de linguagem que
atribui lugares diferentes para si e para o outro. se atualizam no sistema lingUístico por meio de diferentes ocorrências de formas
Fonte da nota: FLA79. engendradas, responsáveis por gerar a significação.
Leitura recomendada: FLA79. Fonte da definição: FRA98; CUL90.
Termos relacionados: insígnia. Nota explicativa: Culioli parte do princípio teórico de que existem três níveis de
representação. Nível I (da linguagem) [noções; operações]: nível da representação
mental que organiza as experiências individuais; Nível II (das línguas) [arranjos de
marcadores] : nível das marcas das atividades de nível I, isto é, traços linguísticos também chamados marcadores fortes, por terem a sua função específica inscrita
5l
1
que se materializam nos textos; Nível III (da metalinguagem): nível do trabalho na própria significação lexical, instituem uma relação parafrástica em qualquer
contexto em que aparecem; os outros, denominados também de marcadores fra-
"'
~
~
I
metalinguístico desenvolvido pelos analistas/linguistas, pautando-se nas produ- Q)

ções do nível II, tendo em vista represen tar os processos de linguagem do nível I. cos, não constituem, por sua significação lexical, um índice exclusivo de relação de "'"'u
~
Culioli considera que o nível I, embora inacessível ao trabalho do linguista, deixa equivalência semântica, podendo exercer outras funções nos diferentes contextos .o
em que ocorrem. Um exemplo de marcador especializado é o que se registra na fala ~
sua marca no nível II, por meio de diferentes arranjos de formas linguísticas. As- 19
U)

sim, a marca de uma dada operação de linguagem, por exemplo de quantificação, acima. Com essa mesma função, são recorrentes, nas interações faladas, expressões ;.:l

pode ser reconhecida em cada processo de enunciação, dados os arranjos de for- do tipo "como você falou", "retomando em outras palavras", "voltando ao que
mas linguísticas que o constituem. disse no início", "em resumo" e similares. Todas elas introduzem, por força de
Fonte da nota: FRA98. sua especificidade semântica, enunciados parafrásticos. A passagem a seguir traz
Leitura recomendada: FRA98; FUC84. um exemplo de marcador parafrástico não especializado. "L2- agora nessa parte
Termos relacionados: linguagem (2), metalíngua. de Engenharia também a parte que eu conheço é a parte de eletricidade ... entende?
[EO] o:: normalmente os engenheiros ... eletrotécnicos que eles chamam ... eles vão
marcador de reformulação parafrástica s. m. Fuchs buscar especialidade no exterior ... entende?... principalmente financiado pela pró-
Outras denominações: marcador discursivo parafrástico, marcador parafrástico. pria empresa entende? [P] então normalmente você vê ... indivíduos se deslocarem
Definição: operador discursivo que anuncia formalmente uma predicação de daqui fazerem curso na França... em Porto Rico .. . ficam dois seis meses ... tudo
identidade semântica entre dois enunciados. custeado pela empresa entende? Ll- uhn uhn" (CAS87: 82). A palavra "então"
Fonte da definição: FUC94. exerce a função de marcador parafrástico nesse contexto, porque abre um enun-
Nota explicativa: O marcador de reformulação parafrástica anuncia que determina- ciado que, em relação ao primeiro, revela evidente natureza parafrástica. Não se
da reformulação de um enunciado-origem é de natureza parafrástica. Sua presença trata, porém, de uma função especializada dessa palavra, já que, em outros contex-
é provável na relação parafrástica cujos enunciados não apresentam eles própr ios tos, ela assume outras funções, dentre as quais se destaca a de introduzir enuncia-
traços linguísticos de equivalência semântica, mas só a assumem no discurso. Nes- dos conclusivos. Da mesma forma exercem com frequência, na fala, a função de
se caso, cabe ao marcador parafrástico predicar essa equivalência em determina- marcador parafrástico não especializado palavras e expressões como "m as", "exa-
do momento e contexto do desdobramento enunciativo. Registre-se, no entanto, tamente", "realm ente", "certo", "justamente", "isso", "agora", "é", "quer dizer",
que mesmo as paráfrases já li nguisticamente identificadas como tais podem vir "mas realmente", "então realmente", "digamos assim", "vamos dizer que", "mas
introduzidas por marcadores, o que ocorre particularmente em contextos em que realmente então" e muitas outras. Em relação a essa distinção, cabe ainda acres-
elas não vêm adjacentes ao enunciado parafraseado. A reintrodução parafrástica centar q ue , os marcadores não especializados ou fracos são reconhecidos como
desse enunciado no desenvolvimento de um tópico, em geral determinada pela parafrásticos a posteriori, isto é, somente quando a natureza parafrástica do enun-
necessidade de assegurar coesão e coerência ao discurso, costuma vir fo rmalmente ciado refomulador tiver sido revelada pela equivalência semântica entre matriz e
anunciada por um marcador parafrástico, conforme mostra este segmento de fala: paráfrase para serem reconhecidos como tais.
"[EO] Ll - é mas eu acho que está indo bem o negócio está todo mundo queren- Fonte da nota: CAS87; FUC94; HIL06.
do partir para o campo da constr ução (PJ Ll- como disse há pouco:: acho que Leitura recomendada: FUC82; FUC94; GUL83; HIL06; MOR82.
esse ramo da construção .. . está ótimo hoje em dia né? está todo mundo querendo Termos relacionados: paráfrase, predicação de identidade, reformulação.
casa própria ... " (CAS87: 77-88). O marcador parafrástico "como disse há pouco",
mais do que predicar um grau de equivalência semântica entre os dois enuncia- marcador discursivo parafrástico S. m. Fuchs
dos, anuncia a retomada parafrástica do enunciado-origem, num ponto já distante V. marcador de reformulação parafrástica
dele na evolução do discurso, trazendo de volta à consciência dos interlocutores
o tópico discursivo em foco. Podem-se distinguir dois tipos de marcadores de re- marcador parafrástico s. m. Fuchs
formulação parafrástica: os especializados e os não especializados. Os primeiros, V. marcador de reformulação parafrástica
margem s. r Récanati mensagem s.f Jakobson . - . . ' o

Definição: local do texto em que se encontram indicações a respeito deste. · - . )emento do ato de comurucaçao verbal caractenzado pelo arranJO um-
pefimçao. e
Fonte da definição: REC79: 142-145. co das palavras a cada evento de fala.
Nota explicativa: No enunciado "Qualquer um sabe que Frege morreu em 1925",
Fonte da definição: JAK69b. . , .
há uma oposição entre aquilo que é propriamente dito (Frege morreu em 1925), tiva· Segundo Jakobson ( 1969b: 122-3), todo processo hngutstlco-
Nota explica · , . , . .
chamado de texto, e aquilo que é mostrado a respeito do texto (Qualquer um de comunicação verbal- e constttUJdo de sets elementos. remetente,
ou tod o a to .
sabe que), chamado de indicador, que se aloja na margem. A margem pode ser tinatário contexto código e contato. Cada um desses sets
mensagem, des , , , . fatores
explícita, como no exemplo acima, ou implícita. Ao dizer que a margem pode ser · uma diferente função da linguagem. A mensagem e determmante da
determma . .
implícita, Récanati confirma sua existência como parte da significação de todo e - po e'tt'ca , caracterizada pela seleção e combmação smgular dos elementos do
funçao
qualquer texto. código a cada evento de fala.
Fonte da nota: REC79: 142-145. Fonte da nota: EJA06; JAK69b.
Leitura recomendada: REC79. Leitura recomendada: JAK69a; JAK69bC.
Termos relacionados: texto (2). Termos relacionados: metáfora, metonímia, função poética.

meio S. m. Bally metaenunciação s.f Authier-Revuz .


V. meio de expressão Outras denominações: autorrepresentação do dizer, retorno do dtzer.
Definição: forma reflexiva por meio da qual o discurso se reveste de um comentá-
meio de expressão S. m. Bally rio sobre si mesmo.
Outras denominações: meio.
Fonte da definição: AUT98. .
Definição: forma de atividade social específica que tende a criar e conservar um Nota explicativa: O fenômeno da metaenunciação faz parte do grande. conJUnto
tipo especial de expressão. das formas da reflexividade metalinguística. Relaciona-se com a metalmguagem
Fonte da definição: BALSl. produzida espontaneamente pelo enunciador e não em re~posta a uma s~licitação
Nota explicativa: O meio é o que une determinados sujeitos a outros por quais- explícita exterior em forma de uma investigação siste~átlca q~e ocorre JUnto aos
quer circunstâncias da vida em sociedade, como, por exemplo, diferentes classes sujeitos falantes a respeito de determinado fenômeno hnguagetro, ou sobre o sen-
sociais ou profissões, tendendo a criar formas particulares de linguagem, sempre tido dado a tal frase ou palavra emitida pelo enunciador.
subordinadas à língua comum e, ao mesmo tempo, influenciando-a. A criação Fonte da nota: AUT95a; AUT9Sb; TEIOO.
dessas variedades é decorrente das circunstâncias particulares, das necessidades Leitura recomendada: AUT9Sa; AUT95b; AUT98; TEIOO. .
e das exigências inerentes a essas formas de vida e de pensamento. Os meios de Termos relacionados: conotação autonímica, modalização autonímica, não-com-
expressão, afirma Bally, estão relacionados entre si, eles não formam um conjunto
cidências do dizer.
por seu número, mas um sistema por seu agrupamento e sua penetração recí-
proca. Os símbolos linguísticos, ao serem empregados pelo falante, comportam
metáfora s.f Jakobson
efeitos em virtude de uma reação geral e simultânea aos fatos d e linguagem, que Outras denominações: polo metafórico, processo metafórico.
se limitam e se definem uns pelos outros. As reações resultantes do choque entre Definição: mecanismo de funcionamento da linguagem baseado n o princípi? de
os usos da língua em meios distintos, diz Bally, provocam nos falantes e ouvintes substituição dos elementos, pelo qual cada elemento é selecionado de uma séne de
sentimentos particulares. Esses sentimentos são os efeitos por evocação. O meio de
termos alternativos.
expressão integra a primeira fase de estudos de Bally, a Estilística.
Fonte da definição: JAK69b.
Fonte da nota: BALSl. Nota explicativa: De acordo com Jakobson, o discurso se desenvolve através ~e
Leitura recomendada: CHI85; DUR98; MED85. duas linhas de construção semântica diferentes: wn tema pode levar a outro por SI-
Termos relacionados: efeitos por evocação, fato de expressão, símbolo. milaridade (substituição) ou por contiguidade (combinação). Na metáfora, o prin-
Nota explicativa: A metalinguística constitui-se como um arcabouço teóric~-~e­
cípio de substituição se dá por meio de similaridade. Dessa forma, um indivíduo )
todológico, desenvolvido por Bakhtin e seu Círculo, que, ultrapassando os limites
ao falar, seleciona termos que se encontram no mesmo eixo paradigmático virtual
(eixo das seleções), ou seja, que são similares, para então substituí-los um pelo ou- da linguística do sistema, propõe o estudo do enunciado concreto e as relações
tro a fim de constituir seu discurso. A relação entre os dois polos (metafórico e me- de sentido desencadeadas. Em tal proposta, as pesquisas metalinguísticas não ig-
tonímico) que organizam a linguagem se dá de forma interdependente, e a tendên- noram as contribuições da linguística, havendo uma expect~tiva que a linguístic.a
cia mais a um do que ao outro marca o estilo pessoal de fala. Jakobson relaciona ambém considere os pressupostos metalinguísticos. No conJunto da obra bakhtJ-
ainda a metáfora e a metonímia com o funcionamento da linguagem nas afasias. toiana,
· noções como significação e estilo verbal contemplam aspectos linguísticos
Fonte da nota: EJA06. como componentes orgânicos da constituição complexa dos enunciados. A di-
Leitura recomendada: JAK69bB. ferença da abo rdagem metalinguística em relação à linguística reside no fato de
Termos relacionados: estilo (2), função poética, metonímia. serem observados a dinamicidade da língua, seu caráter de novidade, o aconteci-
mento, que permite a circulação de posições avaliativas de suj eitos do discurso, e
metalíngua s.f Culioli a permanente renovação de sentidos. Para o pensador russo, a metalinguística e a
Definição: sistema de representação que permite descrever e calcular as relações linguística devem completar-se mutuamente e não se fundir, pois cada uma de~as
entre o conjunto das produções orais e escritas e a linguagem. tem suas especificidades e objetos de diferentes naturezas. A abordagem metalin-
Fonte da definição: FRA98; CUL90. guística, sem dispensar particularidades sintáticas, léxico-semânticas etc., se v~lta
Nota explicativa: Para Culioli, trabalhar na construção de um sistema de repre- ara 0 estudo da natureza social e dialógica do enunciado, seu caráter não-reite-
p b' - - t
sentação metalinguístico, que permite descrever (representar graças a um sistema rável, único e histórico. Para a m etalinguística, as formas ver aiS nao sao neu ras,
de reescritura) e calcular, é indagar necessariamente sobre a abstração a partir de pois, ao serem produzidas em interações verbais por diferentes sujeitos ~iscursi­
observações, da regularidade e da homogeneidade, assim como do caráter estável, vos, em um meio social e histórico, são perpassadas por acentos valoratJvos que
finito, fechado do discu rso metalinguístico construído. Assim, dizer que um mo- assinalam a heterogênea concorrência de vozes sociais e a circulação de variados
delo é metalinguístico significa dizer que tudo o que é pertinente pode ser repre- sentidos. Visando facilitar o entendimento da teoria bakhtiniana, sem confundir
sentado pela escritura. Logo, é importante não ter símbolos não analisáveis, isto conceito de metalinguística com acepções comumente utilizadas, Todorov e os
0
é, todo operador e toda categoria devem ser construídos ou apresentados como biógrafos do pensador russo, Clark e Holquist, preferem a designação tra nslinguís-
primitivos. Na teoria de Culioli, as observações devem ser feitas respeitando-se três tica à metalinguística. Essa opção é coerente com o uso do prefi.xo " ", que, no
trans
regras: (a) construir metalinguagens (necessariamente exteriores às línguas) a par- caso específico, assinala o movimen to de ir "além da" linguística, uma proposta de
tir dos sistemas de representações elaborados no interior de cada língua específica mudança a partir de uma disciplina de base. A tra nslinguística bakhtiniana anteci-
e somente utilizar seres metalinguísticos que têm um estatuto na teoria; (b) não pa os estudos da enunciação e do discurso posteriormente desenvolvidos.
separar teoria da linguagem e teoria da análise das línguas; (c) utilizar fórmulas em
Termos relacionados: discurso, enunciação, relações dialógicas.
que cada ocorrência dos símbolos metalinguísticos tem uma marca localizável em
um texto, e em que cada constituinte do texto adquire um estatuto m etalinguístico
no sistema de representações. Sendo esta última regra fundamental.
metassemânticas.f Benveniste
Definição: análise translinguística de textos e de obras cuja base teórica é a semân-
Fonte da nota: FRA98; CUL90.
tica da enunciação.
Leitura recomendada: FRA98; FUC75; FUC84.
Fonte da definição: EBE06.
Termos relacionados: linguagem (2).
Nota explicativa: Para Benveniste é preciso ultrapassar a noção saussuriana do
signo linguístico como princípio único por dois caminhos: pela análise intralin-
metalinguística s.f Bakhtin
guística, o discurso, e pela análise translinguística, a m etassemântica.
Outras denominações: translinguística.
Definição: campo de estudo que tem como objeto de investigação o discurso, lín- Fonte da nota: EBE06.
Termos relacionados: enunciação (3), semântico, sem iótico.
gua em sua integridade concreta e viva, e suas relações dialógicas.
preciso um pouco de 'caridade', para retomar um termo cristão, em um caso des-
metonímias.f Jakobson
ses". Entretanto, é preciso considerar que Authier-Revuz inscreve-se 110 campo
Outras denominações: poJo metonímico, processo metonímico.
aberto por Rey-Debove por meio de um deslocamento do ponto de vista semiótica
Definição: mecanismo de funcionamento da linguagem baseado no princípio de
para o enunciativo. A passagem da conotação autonímica à modalização autoní-
combinação dos elementos, d eterminado pela relação de contiguidade entre eles.
Fonte da definição: JAK69b. mica não é uma simples troca de nomenclatura. O ponto de vista das duas autoras
Nota explicativa: De acordo com Jakobson, o discurso se desenvolve através de não é o mesmo, assim como não é o mesmo o campo dos fatos cobertos por suas
abordagens. Rey-Debove caracteriza a conotação autonímica como fato de polisse-
duas linhas de construção semântica diferentes: um tema pode levar a outro por
mia. Para Authier-Revuz, a modalização autonímica é um fato de enunciação mo-
similaridade (substituição, como no caso da metáfora) ou por contiguidade (com-
dalizado p or uma representação opacificante, ou seja, por uma interposição de um
binação, como no caso da metonímia). Na metonímia, combina-se termos num
mesmo eixo sintagmático, ou seja, que são contíguos, associando-os na cadeia de comentário sobre o próprio signo entre o signo e o que ele designa. De acordo com
a descrição proposta pela autora- apoiada no dialogismo, no interdiscurso e na
fala a fim de constituir o discurso. Jakobson (1969, p. 56) traz o seguinte exemplo
concepção lacaniana de sujeito -, na modalização autonímica, o dizer retorna re-
para ilustrar o funcionamento da metonímia: em um teste psicológico em que
crianças foram expostas a uma série de palavras, as que mostraram tendência à flexivamen te sobre um ponto de seu desenvolvimento para suspender 0 modo pelo
organização do discurso através do processo metonímico responderam ao esti- qual a nomeação normalmente se dá, tornando visível a negociação do enunciador
mulo choupana com frases como "queimou" e "é uma pobre casinha". (Através com a heterogeneidade que o constitui, e que ele tem a necessidade de desconhecer.
Fonte da nota: AUT95a; AUT95b.
do processo metafórico, as crian ças responderiam, por exemplo, "casebre", por
Leitura recomendada: AUT95a; AUT95b; AUT98; TEIOO.
similaridade). A relação entre os dois polos (metafórico e metonímico) que orga-
nizam a linguagem se dá de forma interdependente, e a tendência mais a um do Termos relacionados: conotação autonímica, metaenunciação, não-coincidências
do dizer.
que ao outro marca o estilo pessoal de fala. Jakobson relaciona ainda a metáfora e
a metonímia com o funcionamento da linguagem nas afasias.
Fonte da nota: EJA06. mod.alização autonímica de empréstimo s.f
Leitura recomendada: JAK69bB. Auth1er-Revuz
Termos relacionados: estilo (2), função poética, m etáfora. Definição: tipo de modalização autonímica na qual ocorre a representação do dis-
curso outro.
mise en scene da linguagem s.f Charaudeau Fonte da definição: AUT95a; AUT95b; AUT04b.
V. encenação da linguagem Nota explicativa: O termo modalização autonímica de empréstimo é utilizado para
designar a modalização autonímica enquan to pertencente ao campo da represen-
modalidade s.f Bally tação do discurso outro. O termo é uma diferenciação do campo mais vasto da
V. modus modalização autonímica como um todo. Diz respeito à presença de palavras de
outro no interior do discurso que se faz. Essas formas deixam evidente que as pala-
modalização autonímica s.f Authier-Revuz vras não vão por si próprias, mas vêm do outro. Por exemplo, "p olifonia, para falar
Outras d enominações: modo enun ciativo desdobrado. como Bakhtin", "inimigo potencial, como diríamos hoje". As formas de modali-
Definição: tipo de comentário metaenunciativo que o sujeito faz sobre seu próprio zação autonímica de empréstimo localizam, no discurso, os pontos de presença do
dizer durante a produção desse mesmo dizer. outro, uma fronteira na qual o traço entre exterior e interior merece ser seguido
Fonte da definição: AUT95a; AUT95b. atentamente; são imagens de exteriores discursivas, fornecidas pelos discursos, na
Nota explicativa: A modalização autonímica origina-se diretamente da noção se- presença deles mesmos.
miótica de conotação autonímica, tal como proposta por]. Rey-Debove, como um Fonte da nota: AUT95a; AUT95b; AUT04b.
fenômeno em que se dá o acúmulo hierarquizado de duas semióticas, a denotativa, Leitura recomendada: AUT98; AUT04a.
que remete ao mundo e a metalinguística, que remete ao signo. Exemplo: "seria Termos relacionados: modalização autonímica.
modificador ( 1) S. m. Ducrot Nota explicativa: Patrick Charaudeau distingue quatro modos de organização do
Definição: entidade lexical que, aplicada a outra, tem por efeito reforçar ou atenuar discurso: enunciativo, descritivo, narrativo e argumentativo. O modo de organi-
zação enunciativo caracteriza-se por estabelecer a posição do locutor na configu-
a argumentação.
ração verbal, ou seja, é uma categoria do discurso que testemunha a forma como
Fonte da definição: DUC95a; EDU06.
Nota explicativa': O noção de modificador (I) está definida com base na Teoria o sujeito falante trata a encenação do ato de comunicação. Os procedimentos de
dos Topai, em que é concebida em termos de gradualidade. São modificadores as construção enunciativa são de duas ordens: de ordem linguística, pois explicitam
os diferentes tipos de relações do ato enunciativo, por meio do processo de mo-
palavras ou expressões que, quando aplicadas a determinados predicados (subs-
dalização do enunciado; de ordem discursiva, pois contribuem para pôr em cena
tantivos e verbos), aumentam sua força argumentativa (modificadores realizantes)
os outros modos de organização do discurso. O modo descritivo consiste em um
ou diminuem-na (modificadores desrealizantes). Considerando-se os sintagmas
fazer existir os seres do mundo, ao nomeá-los, ao determinar o lugar que ocupam
"problema difícil" e "problema fácil", no primeiro caso, "difícil" é modificador rea-
no espaço e no tempo, e ao qualificá-los. O modo narrativo diz respeito a um saber
lizante de "problema"; já, no segundo caso, "fácil" é modificador desrealizante de
organizar a sucessão de ações e de eventos nos quais esses seres são implicados. Já
"problema". Nos dois casos, mantém-se o mesmo princípio argumentativo (topos)
o modo argumentativo consiste em um saber organizar as relações de causalidade
de "problema", que é "a e~istência de problema exige solução".
que se instauram entre essas ações, com auxilio de vários procedimentos que inci-
Fonte da nota: DUC95a; EDU06.
dem sobre o encadeamento e o valor dos argumentos. O gênero de um texto não
Termos relacionados: gradualidade, Teoria dos Topai, topos.
deve ser confundido com seu modo de organização, pois um gênero de texto pode
resultar da combinação de vários desses modos de organização, o que não impede
modificador (2) s. m. Ducrot que, às vezes, um texto se caracterize pela predominância de um desses modos.
Definição: adjetivo ou advérbio que, acrescentado a substantivo ou a verbo res-
Fonte da nota: CHA92: 635-814; CHA01b: 15-16; CHA04a: 337-338; CHA04b: 17.
pectivamente, compõe sintagmas cuja argumentação interna contém somente as
Leitura recomendada: CHA83; CHA08; CHA92; CHA01a, CHAOlb; CHA04a;
palavras contidas na argumentação interna do substantivo ou do verbo.
CHA04b; CHA05.
Fonte da definição: DUC02a; DUC02b. Termos relacionados: encenação da linguagem.
Nota explicativa: A definição de modificador (2) situa-se no interior da Teoria
dos Blocos Semânticos. Nessa concepção, o modificador não introduz nenhum modo enunciativo desdobrado S. m. Authier-Revuz
termo na argumentação interna de X, mas somente reorganiza a argumentação in- V. modalização autonímica
terna de X com os conectores e com a negação. O sintagma "problema fácil" (XY)
tem sua argumentação interna "esforço PORTANTO solução" constituída pela modo semiótico S. m. Benveniste
reorganização da argumentação interna de "problema" (X), que é "esforço NO V. semiótica
ENTANTO não solução. Essa reorganização ocorre pela mudança do conector NO
ENTANTO(= POURTANTem francês) para PORTANTO(= DONC em francês) modus S. m. Bally
e pela exclusão da negação. Outras denominações: modalidade.
Fonte da nota: DUC02a; DUC02b. Definição: parte da frase que corresponde à operação subjetiva que o falante rea-
Termos relacionados: argumentação interna, operador (2), Teoria dos Blo- liza sobre ela.
cos Semânticos. Fonte da definição: BAL65: 35 e s.
Nota explicativa: O modus é a parte mais importante da frase explícita, por cor-
modo de organização do discurso s. Charaudeau 111. responder à sua essência, a sua dimensão enunciativa, aquela através da qual a
Definição: procedimento linguageiro que consiste em utilizar certas categorias da afetividade e a subjetividade são explicitadas. É a atitude do sujeito falante em
língua para ordená-las conforme as finalidades discursivas do ato de comunicação. relação ao conteúdo expresso na frase explícita. O modus forma a totalidade da
Fonte da definição: CHA92: 634. frase com o dictum, que é tal conteúdo, o objeto da representação do falante. Dito
de outra maneira, o modus corresponde à operação que o sujeito produz sobre a
frase; tal operação pode marcar entendimento, julgamento de valor ou julgamento
de vontade. Conforme Bally, é através do modus que a representação formal da
frase é atualizada, isto é, ganha sentido pelo falante. Em "Maria crê que o réu seja
inocente", o dictum é a inocência do réu e o modus é a crença de Maria, isto é, o jul- não-coincidência das palavras com elas mesmas s. t
gamento de fato que Maria realiza sobre o objeto da representação. O termo modus Authier-Revuz
faz parte da segunda fase de estudos de Bally, a Teoria Geral da Enunciação. Definição: alteridade que constitui o dizer, representada por uma operação de re-
Fonte da nota: BAL65; DUR98. dução da plurivocidade potencial das unidades da língua.
Leitura recomendada: CHI85; DUR98; MED85. Fonte da definição: AUT95a; AUT95b; HAR07.
Termos relacionados: dictum, frase (1). Nota explicativa: A representação no dizer da não-coincidência das palavras com
elas mesmas se refere ao excesso de sentido a que toda palavra está sujeita, como
monólogo S. m. Benveniste testemunham as glosas metaenunciativas, em que o receptor comentador de seu
Definição: variedade de diálogo formulada em linguagem interior, entre um "eu" próprio dizer representa sua enunciação seja pela polissemia, pela homonímia,
locutor e um "eu" ouvinte. • pelo equívoco a que a língua está sujeita. A não-coincidência das palavras com elas
Fonte da definição: EBE06. mesmas diz respeito ao fato de a enunciação ser atravessada por outros sentidos,
Nota explicativa: Como o diálogo pressupõe a existência de dois membros em em razão de a língua interpor sua forma, sua materialidade enquanto sistema de
relação de enunciação, o monólogo sempre se estabelece entre dois "eu", quais diferenças. Para Authier-Revuz, essa não-coincidência se refere não somente à in-
sejam, o "eu" locutor e o "eu" ouvinte, que se dirigem um ao outro, alternadamen- traduzibilidade de uma língua para outra, aos chistes ou ao jogo intencional das
te, como no diálogo externo. Ainda que o "eu" ouvinte possa não responder, sua palavras, mas ao deslize constante do significado sobre o significante, atestando
presença é indispensável para tornar significante a enunciação do "eu" locutor. que não existe uma unidade na relação significante-significado. Por exemplo: Digo
Fonte da nota: EBE06. "cadeira" em todos os sentidos dessa palavra.
Termos relacionados: aparelho formal da enunciação, diálogo (2), pessoa. Fonte da nota: AUT95a; AUT95b; HAR07.
Leitura recomendada: AUT98; AUT04a; TEIOO.
mostrar v. Récanati Termos relacionados: heterogeneidade constitutiva, heterogeneidade mostrada,
V. indicar heterogeneidade teórica.

não-coincidência do discurso com ele mesmo s.f


Authier-Revuz
Definição: alteridade que constitui o dizer, representada pela interferência de ou-
tro discurso na enunciação.
Fonte da definição: AUT95a; AUT95b; HAR07.
Nota explicativa: Trata-se de um tipo de não-coincidência que nos coloca diante
do já-dito constitutivo de qualquer discurso, evidenciando a dificuldade, ou mes-
mo a impossibilidade, de estabelecer fronteiras bem definidas entre um discurso e
outro. Para sustentá-la, Authier-Revuz busca referência no dialogismo bakhtinia-
no, o qual postula que um discurso se constitui sempre a partir de outros discur-
sos, não existindo a possibilidade de um discurso advir do nada. Recorre também
ao conceito de interdiscurso de Pêcheux, entendido como o lugar de constituição
do sentido que escapa à intencionalidade do sujeito por ação do inconsciente e
pela determinação de processos sócio-históricos. Na representação da não-co· . te da definição: AUT95a; AUT95b; HAR07.
A , , 0 •

denc1a do dtscurso com ele mesmo, no ato de enunctação, o enunciador repre


tnq, fo~a explicativa: A não-coincidência interlocutiva evidencia a impossibilidade de
. . , . senta
nas palavras que ele dtz, no dtscurso que ele mantem, o JOgo de um d iscurso outr ~o t ··a entre dois sujeitos, d izendo, portanto, da impossibilidade de uma comu-
stme !1 . , ,
Conforme Authier-Revuz, a não-coincidência do discurso com ele mesmo 111ant. ~- . - perfeita. Remete à concepção de que o senttdo e constrmdo no processo
ntcaçao .
festa o encontro pelo enunciador, nas palavras de seu discurso, de palavras vindas . ·vo e não transmitido de um sujeito que o detém para outro. Esse ttpo de
d1scurs1
de outro lugar. O outro da não-coincidência do discurso com ele mesmo é suscet{. não-coincidência, enquanto representação do dizer, reflete as interações nas quais
vel de tomar todos os valores no campo definido negativamente como aquele dos que está em jogo são as representações que o enunciador faz de si e do interlocu-
0
discursos distintos do discurso que se faz no eu-aqui-agora. São exemplos desse tor no próprio ato enunciativo. Porém, é preciso entender que a representação que
tipo de não-coincidência: "polifonia" como disse Bakhtin; "democracia", 110 sen. enunciador faz de seu interlocutor é representação das representações dele e, por
0
tido que lhe dá o neoliberalismo. consequência, antecipação do que ele supõe que será o cálculo interpretativo do
Fonte da nota: AUT95a: 235; AUT95b; HAR07. outro. A função na enunciação das formas de autorrepresentação do dizer, fazen-
Leitura recomendada: AUT98; AUT04a; TEIOO. do jogar a relação de um enunciador com o outro-interlocutor, são representações
Termos relacionados: heterogeneidade constitutiva, heterogeneidade mostrada do fato de que o dizer é endereçado (ao outro e a si próprio) e, por isso mesmo,
heterogeneidade teórica. '
• tocado de uma não-coincidência, de um afastamen to inerente. Por exemplo: "ca-
deira", se é que você entende o que quero dizer.
não-coincidência entre as palavras e as coisas s.f Fonte da nota: AUT95a: 174; AUT95b; HAR07.
Authier-Revuz
Leitura recomendada: AUT98; AUT04a; TEIOO.
Definição: alteridade que constitui o dizer, representada pela interposição da ma-
Termos relacionados: heterogeneidade constitutiva, heterogeneidade mostrada,
terialidade formal da língua na enunciação.
Fonte da definição: AUT95a; AUT95b; HAR07. heterogeneidade teórica.
Nota explicativa: A não-coincidência entre as palavras e as coisas diz respeito ao
fato de que a linguagem e aquilo que ela representa são instâncias diferentes, por não-coincidências do dizer s.f Authier-Revuz
exemplo, a coisa "cadeira" e a palavra "cadeira" são elementos não-coincidentes. Definição: alteridade que constitui o dizer, cuja representação linguística se dá
Temos, então, de um lado, a língua em sua materialidade e, de outro, a língua através do desdobramento metaenunciativo próprio à modalização autonímica.
como não dependente da ordem das coisas. A representação da não-coincidência Fonte da definição: AUT95a; AUT95b; HAT07.
entre as palavras e as coisas diz sobre a impossibilidade de nomeação da coisa pela Nota explicativa: No desenvolvimento de sua teoria, Authier-Revuz acrescenta ao
palavra. Para Authier-Revuz, o que está em jogo, no cerne da operação de nomea- conceito de heterogeneidades o conceito de não-coincidências do dizer. Essas não-
ção, associando palavras e coisas, é o encontro da não-coincidência fundamental -coincidências constitutivas que atravessam o dizer obrigam o en unciador a uma
de duas ordens heterogêneas: aquela da língua e aquela do real. A representação da negociação, em que se manifesta, através da denegação, o jogo da heterogeneidade
não-coincidência entre as palavras e as coisas constitui o quadro de estudo das for- mostrada com a heterogeneidade constitutiva, pelo qual ele procura manter um do-
mas metaenunciativas de representação por um enunciador do ato de nomeação. mínioilusóriosobresuafala.Atravésdasmarcasdas não-coincidências,quedesignam
Por exemplo: digamos "cadeira" na falta de uma palavra melhor. o outro localizadamente, o sujeito empenha-se em fortalecer o estatuto da unidade
Fonte da nota: AUT95b: 507-510; HAR07. imaginária. São quatro os tipos de não-coincidências que afetam o dizer: não-coin-
Leitura recomendada: AUT98; AUT04a; TEIOO.
cidência interlocutiva; não-coincidência do discurso com ele mesmo; não-coinci-
Termos relacionados: heterogeneidade constitutiva, heterogeneidade mostrada,
dência entre as palavras e as coisas; não-coincidência das palavras com elas mesmas.
heterogeneidade teórica.
Fonte da nota: AUT95a; AUT95b; HAR07.
Leitura recomendada: AUT98; AUT04a; TEIOO.
não-coincidência interlocutiva s. f Authier-Revuz
Termos relacionados: heterogeneidade constitutiva, heterogeneidade mostrada,
Definição: alteridade que constitui o dizer, representada pela interferência do ou-
tro interlocutor na enunciação. heterogeneidade teórica.
ele apenas comenta a narrativa dizendo eu, mas nela não toma parte (conferir, por
não-pessoas. r Benveniste exemplo, o narrador de Quincas Borba, de Machado de Assis). A Semiótica reserva o
Outras denominações: ele, terceira pessoa. . • .
Definição: Face objetiva da língua. Modo de enunciação possível para as mstãncras nome de narrador para todo e qualquer destinador do discurso instaurado no enun-
ciado. Isso quer dizer que essa categoria não é exclusiva do discurso literário, mas
não pessoais.
está presente em todo e qualquer texto: no discurso jornalístico, no publicitário etc.
Fonte da definição: EBE06.
Nota explicativa: Benveniste denomina a terceira pessoa, ele, de não-pessoa, por- Fonte da nota: FI096: 65-67.
Leitura recomendada: BAR02b: 73-88; FI096: 61-72, 103-124; GRE08.
que entende que h a, uma diferença de natureza e de função. entre as pessoas,
. eu/tu,
-
e a nao-pessoa, e1e. Na língua, tudo 0 que não é do domímo de eu-tu, pertence ao Termos relacionados: enunciador ( 4), narratário, sujeito da enunciação.
domínio do ele, da não-pessoa.
Fonte da nota: EBE06. narratário S. m. Greimas
Termos relacionados: correlação de pessoalidade, correlação de subjetividade, pessoa. Definição: destinatário do discurso, instalado no enunciado.
Fonte da definição: GRE79a: 242.
não-um S. m. Authier-Revuz Nota explicativa: O narratário é um actante da enunciação enunciada, a quem o
Definição: heterogeneidade constitutiva que afeta o dizer. narrador se dirige. Ele pode ser explícito ou implícito. No primeiro caso, o narrador
Fonte da definição: AUT95a: 74-84. . endereça-se explicitamente a ele; no segundo, é uma imagem construída pelo nar-
Nota explicativa: 0 termo não-um é utilizado, na teoria de Authrer~Revuz, para rador. No capítulo IV de Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis,
designar a heterogeneidade constitutiva, irredutível, que afeta o drzer. :al he- o narrador dirige-se a um narratário explicitamente instalado no texto: "Era uma
terogeneidade é apresentada pela autora como c~nstitutiv~ de ~uatr~ u_p~s ~e ideia fixa, fixa como ... Não me ocorre nada que seja assaz fixo nesse mundo: talvez
na-o-coincidências enunciativas: não-coincidência mterlocutlva, nao-comCidencJa
. _ a Lua, talvez as pirâmides do Egito, talvez a finada dieta germânica. Veja o leitor a
do discurso com ele mesmo, não-coincidência entre as palavras e as c01sas ~ ~ao- comparação que melhor lhe quadrar, veja-a e não esteja daí a torcer-me o nariz, só
coincidência das palavras com elas mesmas. Essas não-coincidências enunciativas
porque ainda não chegamos à parte narrativa destas memórias. Lá iremos. Creio
que se impõem ao dizer denunciam que a enu nciação ocorre na ten~ão entre o um
que prefere a anedota à reflexão, como os outros leitores, seus confrades, e acho
do dizer e 0 não-um do irrepresentável. O inevitável real do heterogeneo e a neces-
que faz muito bem". Já numa revista fe minina como Marie Claire, os narradores
sária ilusão protetora do um criam uma autorrepresentação do dizer que procura
dos textos dirigem-se a uma mulher moderna, que trabalha, que tem uma vida
afastar as falhas do não-um inerentes a toda enunciação.
sexual ativa e prazerosa, mas que não abdica dos chamados atributos da feminili-
Fonte da nota: AUT95a: 74-84.
dade. Nesse caso, temos um narratário implícito. A Semiótica reserva o nome de
Leitura recomendada: AUT98; AUT04a; TEIOO.
narratário para todo e qualquer destinatário do discurso, instaurado no enuncia-
Termo relacionado: um.
do. Isso quer dizer que essa categoria não é exclusiva apenas do discurso literário,
mas está presente em todo e qualquer texto: no discurso religioso, no jurídico etc.
narrador S. m. Greimas Fonte da nota: Fl096: 65-67.
Definição: destinador do discurso, instalado no enunciado.
Leitura recomendada: BAR02b: 73-88; F1096: 61-72, 103-124.
Fonte da definição: GRE79a: 242.
Nota explicativa: O narrador é um actante da enunciação enunciada ~ue ~em por Termos relacionados: enunciatário, narrador, sujeito da enunciação.
função conduzir a narrativa. Ele pode ser explícito ou implícito. No pnmeuo caso,
apresenta-se como eu; no segundo, ausenta-se do enunciado, deix~ndo ~s fatos se negociação s.f Authier-Revuz
narrarem a si mesmos. O narrador explícito pode estar ou não em smcretrsmo com Definição: relação entre a heterogeneidade mostrada e a heterogeneidade constitutiva.
uma personagem. No primeiro caso, ele participa da ação narrativa, como perso- Fonte da definição: AUTO L
nagem principal ou secundária (por exemplo, Sérgio, em O Ateneu, de Raul Pom- Nota explicativa: Authier-Revuz considera que a função das formas da heteroge-
peia, ou José Fernandes, em A cidade e as serras, de Eça de Queirós); no segundo, neidade mostrada - representação das relações do sujeito falante, através de formas
linguisticamente detectáveis na linearidade do discurso, com a alteridade que afeta
noção s.f Culioli
a homogeneidade aparente de seu dizer- no processo enunciativo é fazer emergir
Definição: forma virtual de representação não-linguística da atividade simbó-
um outro tipo de heterogeneidade, a constitutiva, ou seja, o princípio fundador da
lica, ligada ao estado de conhecimento e à atividade de elaboração de quais-
própria natureza da linguagem, que diz respeito à exterioridade, não-marcada na quer experiências.
linearidade do dizer, que constitui o sujeito e o discurso. O termo negociação é, en-
Fonte da definição: CUL90A; CUL90B; CUL99Ab; CUL99Ba.
fim, utilizado para designar o encon tro, no dizer, entre as não-coincidências enun-
Nota explicativa: De acordo com Culioli, a noção é uma primeira etapa da repre-
ciativas e a necessidade de representar esse dizer como homogêneo. As não-coinci-
sentação linguística e se situa na articulação do linguístico com o extralinguístico,
dências constitutivas que afetam o dizer obrigam o enunciador a uma negociação, em um nível híbrido de representação. H á, nesse nível, cadeias semânticas de asso-
em que se manifesta, através da denegação, o jogo da heterogeneidade mostrada ciação, em que se têm ramificações de propriedades estabelecidas pela experiência,
com a heterogeneidade constitutiva. Authier-Revuz assinala que o contato entre as estocadas e elaboradas sob diversas formas (em ligação notadamente com proces-
duas heterogeneidades não se faz por uma relação linear de um plano ao outro. A sos de memorização: imagem, atividade onírica ou emblemática etc.). Essas rami-
heterogeneidade mostrada não é um reflexo, dentro do discurso, da heterogenei- ficações de propriedades, que se organizam umas em relação às outras de acordo
dade constitutiva. Em contrapartida, elas não são realidades independentes, pois com fatores físicos, culturais e antropológicos, estabelecem um domínio nocional.
as formas da heterogeneidade mo; trada permitem o acesso à representação que o Para o autor, a noção é uma representação cuja materialidade é inacessível ao lin-
locutor dá de sua enunciação. Segundo a autora, essas duas realidades são necessa- guista, logo, a noção é virtual e não disponível em todas suas acepções, não corres-
riamente solidárias e articuladas. pondendo, diretamente, a um item lexical. Ela é um gerador de unidades lexicais.
Fonte da nota: AUTO L Falar de noção é falar de um conjunto que se pode expressar, por exemplo, p or "ler;
Leitura recomendada: AUT98; AUT04a; TEIOO. leitura; livro; leitor; biblioteca etc.". Entendida, portanto, como um feixe de pro-
Termos relacionados: denegação, heterogeneidade constitutiva, heterogeneidade priedades físico-c ulturais, sem estatuto linguístico propriamente dito, apresenta-
mostrada. se como uma entidade híbrida entre o mundo e as representações físico-culturais,
por um lado, e a língua, por outro. A noção é em si mesma indivisível e pode ser
nível complexo S. m. Ducrot apreendida somen te at ravés das ocorrências, que são suas realizações particulares.
Definição: nível da descrição semântica que compreende o texto e o discurso. Fonte da nota: CUL90a; CUL90b; CUL99Ab; CUL99Ba.
Fonte da definição: DUC84a; EDU06. Leitura recomendada: FRA98; FUC75; FUC84.
Nota explicativa: A atividade linguística é subdividida em dois níveis: o elementar Termos relacionados: domínio nocional, fronteira, ocorrência.
e o complexo. O nível complexo é constituído de uma entidade abstrata (o texto) e
de uma entidade concreta (o discurso).
Fonte da nota: DUC84a; EDU06.
Termos relacionados: atividade linguística, discurso (1), nível elementar.

nível elementar S. m. Ducrot


Definição: nível da descrição semântica que compreende a frase e o enunciado.
Fonte da definição: DUC84a; EDU06.
Nota explicativa: A atividade linguística abrange dois níveis: o elementar e o com-
plexo. O nível elementar é constituído de uma entidade abstrata (a frase) e de uma
entidade concreta (o enunciado).
Fonte da nota: DUC84a; EDU06.
Termos relacionados: enunciado (1), frase (3), nível complexo.
que constituem os arranjos de formas), não à passagem, da qual nada pode ser
dito. Essa passagem de uma representação mental, incorporal, para uma atividade
que permite referir corresponde a um "colocar em forma" da noção.
Fonte da nota: CUL90a; CUL90b; CUL99Ab; CUL99Ba.
Leitura recomendada: FRA98; FUC75; FUC84.
observador S. m. Greimas Termos relacionados: domínio nocional, fronteira, noção.
Definição: sujeito cognitivo instalado no enunciado que relata os acontecimentos
a partir do seu conhecimento, compreensão e interpretação dos fatos. opacidade ( 1) s.f Authier-Revuz
Fonte da definição: GRE79a: 259. V. opacificação
Nota explicativa: O conceito de observador é particularmente útil, quando há
uma defasagem entre o conhecimento, a compreensão e a interpretação dos fatos opacidade (2) s.f Récanati
pelo narrador e pelo observador. Por exemplo, Riobaldo, quando começa narrar Definição: propriedade do signo que permite evidenciar sua própria forma ao
seu amor por Diadorim, já sabe que essa personagem é uma mulher. No entanto, ocultar aquilo que representa.
relata os fatos como se se tratas.se de um amor homossexual, porque Riobaldo Fonte da definição: REC79: cap. 1 e 2.
personagem, 0 observador, pensava que Diadorim fosse um homem. Somente no Nota explicativa: Um signo pode ou não ocultar aquilo que representa. Um mapa,
final, quando o corpo de Diadorim está sendo preparado para o sepultamento, por exemplo, pode ser percebido, basicamente, de duas formas. Se o mapa não
ele descobre que se trata de uma mulher: "E disse. Eu conheci! Como em todo o ocultar o que representa, pode ser entendido como uma representação de algo
tempo antes eu não contei ao senhor- e mercê peço:- mas para o senhor divulgar como os aspectos geográficos e políticos de uma região (contexto transparente).
comigo, a par, justo o travo de tanto segredo, sabendo somente no átimo em que Entretanto, também há a possibilidade de ocultar aquilo que representa e, nesse
eu também soube... Que Diadorim era o corpo de uma mulher, moça perfeita .. . caso, ele poderia passar a ser visto como um objeto, como um quadro ou um
Estarreci. A dor não pode mais do que a surpresa. A coice d'arma, da coronha [... ] pôster (contexto opaco). Quando o signo deixa de representar algo - oculta aquilo
Uivei. Diadorim! Diadorim era uma mulher" (ROSA, João Guimarães. Grande ser- que representa - e apresenta a si mesmo como objeto, pode-se falar em opacidade.
tão: veredas. 22. ed., Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1986, p. 560). O narrador tem No enunciado "'Cícero' tem 6letras", o signo "Cícero" remete à própria forma do
consciência dessa defasagem de conhecimento e, por isso, pede desculpas ao nar- signo, ou seja, à palavra "Cícero". Assim, a relação estabelecida entre o signo e a
ratário, dizendo que queria que ele soubesse do fato no momento em que a perso- coisa representada, agora ocultada, é opaca.
nagem Rio baldo também soube. O observador pode ser explícito ou implícito. No Fonte da nota: REC79.
primeiro caso, pode estar em sincretismo com um actante da enunciação (o narra- Termos relacionados: signo (2), transparência.
dor, por exemplo) ou um actante do enunciado (uma personagem, por exemplo).
No segundo caso, é um ponto de vista, percebido por diferentes marcas no texto. opacificação s.f Authier-Revuz
Um acontecimento é uma ação encarada do ponto de vista de um observador. Outras denominações: autorrepresentação opacificante do dizer, opacidade.
Fonte da nota: FI096: 107-109; GRE79a: 259-260. Definição: fenômeno pelo qual um signo faz referência ao mundo e, simultanea-
Leitura recomendada: BER03: 111-150; FI096: 103-111; GRE08. mente, coloca-se como objeto do discurso.
Termos relacionados: focalização, narrador. Fonte da definição: AUT95a; AUT95b.
Nota explicativa: O fenômeno da opacificação se inscreve no quadro da oposição
ocorrências. r Culioli lógica entre transparência e opacidade do signo (cf. Récanati). Ao empregar essa
Definição: realização particular de uma noção sob forma de linguagem.
noção, Authier-Revuz insiste no fato de que, na modalização autonímica, há uma
Fonte da definição: CUL90a; CUL90b; CUL99Ab; CUL99Ba.
alteração e não uma perda de transparência, na medida em que o termo modali-
Nota explicativa: A ocorrência, na medida em que é a encarnação de uma noção
zado continua a significar o mundo. Na teoria de Authier-Revuz, é um termo que
sob forma de linguagem, é a passagem a uma materialidade e, ao mesmo tempo,
indica que no ato de dizer uma palavra, ela pode ser separada de seu significado
a um sistema de referenciação. O linguista tem acesso à materialidade (as marcas
geral e passar a ser representada reflexivamente, em sua forma significante. Isso enunciado P e um enunciado P' não são as mesmas; c) a diferença argumentativa
acontece mediante a interposição de um comentário que duplica a palavra em entre P e P' não deriva de uma diferença informativa, já que a mesma informação
questão (por exemplo, "X, se podemos dizer") . Essa duplicação opacifica o dizer "Pedro trabalhou" é dada nos dois enunciados.
da palavra na medida em que simultaneamente: a) indica que há uma ou mais for- Fonte da nota: DUC89b.
mas pelas quais a palavra pode significar na mesma cadeia enunciativa; b) converte Termosrelacionados:conclusão,enunciado (4), TeoriadaArgumentação na Língua.
a forma escolhida em maneira de dizer.
Fonte da nota: JULOl. operador (2) S. m. Ducrot
Leitura recomendada: AUT95a; AUT95b. Definição: entidade lexical Y que, aplicada a uma entidade lexical X, produz um sin-
Termos relacionados: modalização autonímica. tagma XY, cujo sentido é constituído de encadeamentos contendo somente as pala-
vras plenas já presentes na argumentação interna e na argumentação externa de X.
operação dinâmica de identificação s.f Fuchs Fonte da definição: DUC02a; DUC02b.
V. predicação de identidade Nota explicativa 1: Entidade lexical é concebida aqui como palavra ou expressão
atualizada no discurso/enunciado.
operação enunciativa s. f Culioli Nota explicativa 2: O termo operador (2) está definido com base na Teoria dos
Definição: mecanismo de ancoragem das relações predicativas no que se refere à Blocos Sem ânticos. Nesse quadro teórico, o operador Y articulado a uma palavra
situação de enunciação. X forma um sintagma XY, em que Y somente com bina de modo novo o sintag-
Fonte da definição: CUL90. ma, reorganizando os constituintes semânticos de X. Nesse caso, Y atua sobre a
Nota explicativa: A expressão operação enunciativa designa as operações que, no argumentação de X em termos de gradualidade. Os operadores apresentam duas
modelo de Antoine Culioli, são responsáveis pela constituição dos enunciados na subclasses: os modificadores e os internalizadores.
m edida em que constroem a significação pela atribuição de valores referenciais. O Fonte da nota: DUC02a; DUC02b.
termo operação se justifica pela hipótese de que o valor referencial do enunciado Termos relacionados: gradualidade, internalizador, modificador (2).
não é dado, mas construído. Isso significa que as formas organizadas que o mate-
rializam remetem a operações de constituição do valor referencial. ordem própria da língua s.f Authier-Revuz
Fonte da nota: CUL90. Definição: sistema finito de unidades e de regras de combinação da língua.
Leitura recomendada: FRA98; FUC84. Fonte da definição: AUT98A.
Termos relacionados: enunciação (5), enunciador (4), situação de enunciação. Nota explicativa: A expressão ordem própria da língua corresponde ao aspecto es-
trutural da língua, conforme a concepção saussuriana. Authier-Revuz não descon-
operador ( 1) S. m. Ducrot sidera a estrutura linguística na descrição de fatos enunciativos, embora reconheça
Definição: entidade lexical que permite conclusões diferentes em relação a um que a forma não tem sentido por si mesma. Na concepção da autora, ao passar da
enunciado P e um enunciado P'. língua ao discurso, as formas linguísticas inevitavelmente se deixam afetar pela
Fonte da definição: DUC89b. subjetividade e pela incompletude, razão pela qual a descrição de fatos enunciati-
Nota explicativa 1: Entidade lexical é concebida aqui como palavra ou expressão vos necessita buscar apoio em outros campos do saber além da linguística.
atualizada no discurso/enunciado. Fonte da nota: AUT98A: 165-173.
Nota explicativa 2: O operador (1) está definido de acordo com a segunda fase Leitura recomendada: AUT98A: 165- 173; TEI05a: 132-133.
da Teoria da Argumentação na Língua. Nesse quadro teórico, o morfema "um
pouco", por exemplo, na frase "Pedro trabalhou um pouco", pode ser considera- ordem semiótica s.f Benveniste
do operador porque satisfaz a três condições que lhe são necessárias: a) pode-se V. semiótico
construir uma frase P' "Pedro trabalhou pouco" substituindo "um pouco" por
"pouco"; b) as argumentações que tornam possíveis, numa situação dada, um
....... --------~----

.palavra (2) s.f Benveniste


Definição: Unidade constituinte da frase ou enunciado na qual significação distin-
tiva e significação contextuai se articulam, produzindo sentido próprio à atitude
do sujeito e à situação enunciativa.
palavra (1) s.f Bakhtin Fonte da definição: EBE06.
Definição: produto da interação entre o locutor e o interlocutor. Nota explicativa: Palavra é noção mediadora entre a Teoria do Signo, de Saussu-
Fonte da definição: BAK95b: 11 3. re, e a Teoria da Enunciação, de Benveniste. É por meio da palavra que a língua,
Nota explicativa: A palavra é o território comum do locutor e do interlocutor. enquanto significação de caráter coletivo, é atualizada. Por atualização da palavra,
Isso se deve ao fato de ela proceder de alguém e se dirigir para alguém (o interlo- entende-se a noção de emprego, sentido único e singular em um enunciado que,
cutor). É através da palavra, conforme Bakhtin, que se define a relação do locutor por sua vez, também é único e singular. Para que a palavra assim seja considerada,
com o outro e a coletividade. Funciona como uma zona fronteiriça que se apoia não é suficiente transpô-la da condição de virtualidade para a de uso. Palavra só
sobre o locutor numa extremidade e sobre o interlocutor na outra, concretizan- tem existência no en unciado, e à noção de atualização agregam-se as noções de
do-se, nesse espaço social, comct enunciado. A palavra é um fenômeno ideoló- sintagmatização e de semantização. Mediante sintagmatização e semantização, a
gico por excelência que, possuindo natureza dinâmica, entra em contato com palavra consta, em um enunciado, junto com outras palavras, com as quais se
uma diversidade de fios ideológicos de modo a refletir e refratar diferentes graus inter-relaciona. Nessa inter-relação, a palavra conserva parte da significação relati-
das transformações sociais. Por conseguinte, ela suscita uma atitude responsiva, va ao signo, indicando sentido próprio à ideia que é expressa.
uma posição ativa (concordância e/ou discordância no todo ou em parte). No Fonte da nota: EBE06.
ensaio "Os gêneros do discurso", Bakhtin destaca que as palavras, no processo Termos relacionados: atualização (2), sentido (1 ).
de construção de um enunciado, são selecionadas segundo as particularidades
dos gêneros do discurso mobilizados, pois elas trazem a expressão típica e ecos palavra bivocal s.f Bakhtin
do gênero em que circulam. Desse modo, as palavras entram no discurso, tra- V. bivocalidade
zendo ecos e tons de enunciações alheias em menor ou maior grau. A palavra,
segundo Bakhtin, existe para o falante sob três aspectos: (a) "palavra da Hngua", paradoxo pragmático S. m. Récanati
não pertencente a ninguém, (b) "palavra alheia", que é dos outros, cheia de ecos Outras denominações: contradição pragmática.
de outros enunciados, e (c) "minha palavra", porque, uma vez que se opera com Definição: contradição entre o que é dito em um enunciado e o que é indicado
ela em uma situação determinada, com um projeto discursivo determinado, ela sobre a enunciação desse enunciado.
se impregna da expressividade do locutor. A "palavra da língua" é aquela que Fonte da definição: REC79: 193-206.
ainda não recebeu acento valorativo, expressividade, não é, portanto, atribuída a Nota explicativa: O enunciado "O gato está sobre a soleira, mas eu não creio nisso"
nenhum sujeito. Tanto a "palavra alheia" quanto a "minha palavra" apresentam é um paradoxo pragmático. A contradição que se apresenta não se estabelece entre
expressividade a partir da relação com uma dada situação concreta. A palavra se o que é dito e os fatos da realidade, como se poderia pensar, mas é de um outro
materializa como expressão de certa posição valorativa do sujeito, cuja experiên- tipo. A contradição pragmática dá-se entre o conteúdo proposicional e aquilo que
cia discursiva se desenvolve em uma interação constante e contínua com os enun- é indicado pelo ato, pelo proferimento de um locutor. Por um lado, a primeira
ciados dos outros. O discurso é pleno de palavras dos outros, as quais trazem parte do enunciado acima implica pragmaticamente, mesmo que o locutor não
consigo sua expressão, seu tom valorativo que é assimilado, reelaborado e/ou re- acredite nisso, a afirmação de que "o gato está sobre a soleira". Por outro lado, na
acentuado pelos interlocutores. segunda parte, o locutor afirma que não crê nisso, contradizendo o que está impli-
Fonte da nota: BAK95b: 113. cado pragmaticamente na sua enunciação. Como se vê, esse tipo de contradição é
Termos relacionados: acento de valor, enunciação (2), refração. interior ao enunciado.
Fonte da nota: REC79: 193-206. a relação de equivalência semântica entre unidades linguísticas fora de situações
Leitura recomendada: REC79. de uso d~ língua. Nessa perspectiva, têm parentesco semântico .entre si frases que
Termos relacionados: enunciação (9), intenção reflexiva, reflexividade generalizada. compartilham um mesmo núcleo de significação, isto é, que estão interligadas por
uma invariante semântica. As diferentes frases constituem formas diferentes de ex-
paráfrase s. f Fuchs pressar um mesmo conteúdo. É:stática e fechada essa relação de equivalência, pois
Definição: enunciado-alvo resultante de uma atividade de reformulação de um não é produto de uma atividade de sujeitos envolvidos na enunciação, e sim de um
enunciado-origem, por meio da qual se realiza, em dada situação discursiva, uma par de objetos que estão numa certa relação semântica. O parentesco semântico
predicação de identidade semântica entre os dois enunciados. é dinâmico e aberto na medida em que a relação de equivalência semântica entre
Fonte da definição: FUC94. dc~is enunciados que se sucedem no desdobramento discursivo resulta de um fazer
Nota explicativa: A paráfrase, por resultar de uma atividade de reformulação, im- interpretativo sobre as significações dos enunciados, em situação de uso da língua.
plica um deslocamento de sentido em relação ao enunciado-origem, mantendo Nesse caso, a equivalência semântica é necessariamente modalizada, isto é, sempre
com este uma relação de equivalência semântica em diferentes graus, nunca, po- se verifica um deslocamento semântico na passagem de um para outro enunciado.
rém, em grau absoluto. Numa abordagem enunciativa da paráfrase, esse paren- Fonte da nota: FUC94; FUC04; HJL06.
tesco semântico não é dado, a priori,•pela estrutura proposicional dos dois termos Leitura recomendada: FUC82; FUC94; FUC04; GUL83; HIL06; MOR82.
da relação parafrástica, mas é instituído pelo enunciador no desdobramento do Termos relacionados: paráfrase, predicação de identidade, reformulação.
discurso, para produzir modulações semânticas determinadas pelas contingências
do ato discursivo. Para que um enunciado seja identificado como parafrástico, performatividade generalizada s.f Récanati
não é necessário, portanto, que ele revele explicitamente, em sua configuração lin- Definição: propriedade aplicável a todos enunciados de serem simultaneamente
guística, um grau de identidade semântica com o enunciado-origem, embora essa uma ação e uma afirmação sobre seu conteúdo.
seja a caracterização mais comum das ocorrências parafrásticas. Mesmo que dois Fonte da definição: REC79: 11 3-123.
enunciados não apresentem nenhum traço linguístico de parentesco semântico,-a Nota explicativa: Vários atos podem ser realizados através da linguagem, como 0
sua relação parafrástica pode ser instituída, em dada situação discursiva, por força ato de ordenar, o ato de prometer, dentre outros. Esses atos são expressos na lin-
de fatores extralinguísticos ou contextuais. Nesse caso, é indispensável que o cará- guagem por meio de performativos, como "eu te ordeno" ou "eu prometo". Ou-
ter parafrástico do enunciado seja marcado por meio de um operador discursivo, tros enunciados, porém, como é o caso de "Vá embora", não têm um performa-
denominado de marcador parafrástico. A exigência desse marcador é tanto maior tivo explícito, mas têm uma certa performatividade implícita. "Vá embora" pode
quanto menor for a percepção linguística do grau de equivalência semântica entre indicar, por exemplo, im plicitamente, uma ordem. A performatividade é uma
os dois enunciados. propriedade generalizada, pois mesmo os enunciados que parecem não ter uma
Fonte da nota: FUC94; HIL06. perfomatividade, possuem esse aspecto. O enunciado "Frege morreu em 1925"
Leitura ·recomendada: FUC82; FUC94; GUL83; HIL06; MOR82. possui um aspecto performativo que pode ser "Eu afirmo que Frege morreu em
Termos relacionados: marcador de reformulação parafrástica, parentesco semân- 1925" ou "Eu acho que Frege morreu em 1925". Para Récanati, todo enunciado é
tico, reformulação. um ato discursivo que tem a propriedade da performatividade generalizada.
Fonte da nota: REC79: 11 3-123.
parentesco semântico S. m. Fuchs Leitura recomendada: REC79.
Definição: relação de equivalência semântica entre dois enunciados, reconhecida Termos relacionados: reflexividade generalizada.
no discurso com base em suas condições de produção e de recepção.
Fonte da definição: FUC94; FUC04. perspectivização s.f Greimas
Nota explicativa: O parentesco semântico pode ser concebido como estático e fe- Definição: processo de escolha feito pelo enunciador da perspectiva a partir da
chado ou como dinâmico e aberto. De acordo com a primeira concepção, trata- qual serão apresentados no texto os acontecimentos.
se de uma relação entre frases e não entre enunciados, uma vez que se aborda Fonte da definição: GRE79a: 274.
Nota explicativa: A perspectivização é do domínio da textualização. O enunciador,
sência de repetição e de pluralização; d) é opositivo à não-pessoa- ele. A categoria
levando em conta, no caso do texto verbal, as coerções da linearidade, escolhe
de pessoa é comum a todas as línguas. Benveniste, em seus estudos, enfatizou 0
apresentar o percurso de uma personagem em detrimento do de outra presente
estudo da pessoa em pronomes e verbos. No entanto, cada língua apresenta formas
também na cena narrativa. Assim, num romance policial, o leitor pode ser colo-
específicas de manifestação da categoria de pessoa, dependendo da maneira como
cado na perspectiva do detetive, do criminoso ou da vítima. O escritor romeno cada sistema linguístico está constituído.
Caragiale cria um efeito de sentido humorístico, num conto em que um chefe Fonte da nota: EBE06
de estação narra as relações de sua mulher com seu auxiliar, rapaz muito bonito. Leitura recomendada: BEN95A; BEN95C.
Tudo leva a crer que se trata de um marido enganado, que não percebe os sinais Termos relacionados: eu, sujeito, tu.
da tra ição, quando, no final, ele revela que o belo rapaz é seu cunhado, irmão de
sua mulher. A perspectivização pode também, ao invés de eliminar totalmente da plurilinguismo s. Bakhtin 111.

manifestação o percurso de uma personagem, conservar ambos os percursos, mas Outras denominações: heteroglossia, plurivocidade, plurivocalidade.
explicitar longamente um deles, enquanto o outro é manifestado fragmentaria- Definição: combinação de diferentes linguagens, vozes sociais, falares, q ue for-
mente. O conto Dentro do bosque, de Yabu No Naka, adaptado para o cinema mam uma unidade superior.
por Akira Kurosawa, joga com diferentes perspectivas. Nele narra-se o suposto Fonte da definição: BAK98: 75.
assassinato de um samurai e o estupro de sua mulher por um bandido. O texto é Nota explicativa: O plurilinguismo configura-se com o um arranjo de diversas lin-
composto pelos depoimentos de um lenhador, um bonzo andarilho, um policial, guagens (línguas sociais), constitutivamente dialógicas, as quais, independente-
uma velha, o bandido, a mulher do samurai e uma médium, que recebe o espírito mente do princípio de seu isolamento, são pontos de vista específicos sobre o mun-
do samurai morto. Cada um, de sua perspectiva, narra ao juiz de instrução os fatos do, formas de interpretação verbal, perspectivas semânticas e axiológicas. As lin-
ocorridos. Na versão do samurai assassinado, ele não foi morto pelo bandido, mas guagens estão em inter-relação, podendo ser confrontadas, servir de complemento
se suicidou. Na versão do bandido, ele não assassinou o samurai, mas o venceu entre si, oporem-se umas às o utras. Bakhtin apresenta o plurilinguismo como uma
num d uelo; não estuprou a mulher, pois ela ofereceu-se a ele. Os fatos vão sendo perspectiva diferente de olhar os estudos literários, linguísticos e filosóficos da lin-
interpretados diferentemente segundo cada uma das perspectivas. guagem. O romance, em especial, passa a ser observado discursivamente a partir
Fonte da nota: GRE79a: 274. da combinação de diferentes línguas sociais e estilos, já que a verdadeira premissa
Leitura recomendada: BER03: 11 1-150; GRE08. da prosa romanesca está na estratificação interna da linguagem, na sua diversidade
Termos relacionados: focalização, textualização. social e na divergência de vozes que ela encerra. Resgata, assim, a pluralidade de
discursos (pluridiscursividade), a diversidade de vozes discursivas (plurivocidade).
pessoa s.f Benveniste O plurilinguismo, desse modo, estabelece-se com o uma proposta de deslocamento
Definição: categoria linguística que se constitui na e pela enunciação. dos estudos estritamente literários para os estudos discursivo-literários. Por conse-
Fonte da definição: EBE06. guinte, amplia a abordagem dos estudos linguísticos para linguístico-discursivos,
Nota explicativa: Por meio da noção de pessoa, Émile Benveniste introduz, na abarcando a concepção de linguagem como atividade essencialmente heterogênea,
Linguística, a noção de sujeito, que corresponde à enunciação: eu diz eu - e porque dialógica e dinâmica. Bakhtin destaca ser o plurilinguismo dialogizado o verda-
o diz - diz tu. Em outras palavras, essa noção implica constituição recíproca: o ato deiro meio da enunciação, considerando não só a diversidade de vozes sociais e
históricas (posições, pontos de vista) em conco rrência na formalização do dizer,
por meio do qual eu se constitui como sujeito, constitui tu. Eu e tu são mutuamen-
mas também as relações dialógicas, relações de sentido, que se estabelecem neces-
te constitutivos, tu é implícito ao dizer de eu. A categoria de pessoa é sempre dual,
sariamente entre as linguagens. Nessa perspectiva, todo enunciado é plurilingue,
um par linguístico que tem existência concomitante. Esse par linguístico apresenta
plurivocal e plw·idiscursivo, ou seja, é constituído por uma diversidade de lingua-
as seguintes características: a) é indissociável porque não há como enunciar eu sem
gens, que fazem ressoar outros discursos (vozes).
prever tu, ainda q ue este tenha existência imaginada ou mesmo, no monólogo, seja
Fonte da nota: BAK98: 71; 73; 75-76; 82; 98-99.
desdobramento do próprio eu; b) é reversível uma vez que tu pode tornar-se eu
Leitura recomendada: BAK98; DIF05 ; FAR03.
pela tomada da palavra; c) é, a cada vez, único, entendendo-se unicidade como au-
Tennos relacionados: dialogismo, diálogo (1), hibridização.
..........---------------
plurivocalidade s.f Bakhtin posto ( 2) s.m. Ducrot
Definição: sentido explícito inscrito em um enunciado, cuja responsabilidade é
V. plurilinguismo .
atribuída a um enunciador.
plurivocidade s.f Bakhtin Fonte da definição: DUC87; EDU06.
V. plurilinguismo Nota explicativa: A acepção de posto (2) está vinculada à Teoria da Polifonia, em que
a pressuposição é concebida como uma das manifestações polifônicas da lingua-
polifonias.f Ducrot . gem. Nesse sentido, o autor descreve o fenômeno da pressuposição, considerando
Definição: fenômeno que possibilita ao locutor apresentar drferentes pontos de o fato de que certas palavras do enunciado possibilitam um sentido pressuposto e
vista em um determinado enunciado. outro posto, cujos responsáveis são dois enunciadores, Ele E2. A sequência "todos
Fonte da definição: DUC87; EDU06. vieram à aula, até Joana" contém um posto, sentido explicitado pelo locutor no
Nota explicativa: Opondo-se à ideia de unicidade do sujeito falant~, Ducrot afirma enunciado (E2). Além disso, devido ao uso da palavra "até", a sequência contém um
que 0 autor de um enunciado (sujeito empírico) não se expressa drretamen~e, mas pressuposto, argumento implícito de que a presença de Joana à aula é inusitada (El).
0
faz por meio da figura de um locutor (sujeito discursivo), q~e apresenta drfere~­ Fonte da nota: DUC87; EDU06.
tes vozes, diferentes pontos de vista, cuja origem são enuncr~dores. Isso mostra Termos relacionados: enunciador (2), pressuposto (2), Teoria da Polifonia.
que 0 sentido de um enunciado nasce da confrontação das drferentes vozes que
ali aparecem. potencial argumentativo S. m. Ducrot
Fonte da nota: DUC87, DUC88. Definição: conjunto de enunciados que podem servir de conclusão a um enuncia-
Termos relacionados: enunciador (2), locutor, sujeito falante (2) . do-argumento.
Fonte da definição: DUC88.
polo metafórico S. III. Jakobson Nota explicativa: A noção de potencial argumentativo vincula-se à primeira versão
V. metáfora da Teoria da Argumentação na Língua. Um enunciado P como "Pedro estudou
pouco" e um en unciado P' como "Pedro estudou um pouco" têm diferentes po-
polo metonímico S. III. Jakobson tenciais argumentativos. No primeiro caso "Pedro estudou pouco", pode-se ter,
V. metonímia entre outras conclusões, "Pedro não passou no concurso", "Pedro foi mal na pro-
va", "Pedro perdeu a bolsa de estudos". Já, no segundo caso "Pedro estudou um
posição avaliativas.f Bakhtin pouco", outras conclusões são encaminhadas como "Pedro passou no concurso",
V. acento de valor
"Pedro foi bem na prova", "Pedro ganhou a bolsa de estudos".
posto ( 1) s. m. Ducrot Fonte da nota: DUC88.
Definição: ato de fala explícito realizado pelo locutor. Termos relacionados: conclusão, enunciado (3), valor argumentativo.
Fonte da definição: DUC77; EDU06. . _
Nota explicativa: A noção de posto (1) está vinculada à des~r~ção d~ pre~s~posrçao práxis enunciativa s./ Greimas
como um ato de fala, constituído em um esquema geral de atrvtdadelmgursttca. Nes- Definição: hábito linguístico que condiciona a enunciação individual.
se momento, Ducrot situa seu estudo no interior da semântica pragmática~ ~a q~al Fonte da definição: BER03: 87-88.
mais tarde se distancia. Inserido nessa reflexão, o posto diz respeito à exphcrt~ça~, Nota explicativa: A expressão práxis enunciativa não é de Greimas, mas foi intro-
pelo locutor, de diferentes atos de fala contidos em uma enunciação. Na.s~quencta duzida por seus continuadores para operacionalizar na análise uma preocupação
"Fulano vem me ver, logo ele tem problemas", o locutor apresenta exphCJtamen~~ recorrente do semioticista francês: a de que o caráter idioletal dos textos indivi-
dois atos de afirmação: (1) "Fulano vem me ver" e (2) "Fulano tem problemas · duais não pode fazer esquecer o caráter eminentemente social da comunicação
Fonte da nota: DUC77; EDU06. humana. Há duas ordens de restrições que determinam a enunciação: de um lado,
Termos relacionados: atividade linguística, pressuposto (1), sentido literal. o sistema da língua; de outro, os limites, de caráter sociocultural, impostos pelos
hábitos, pelas ritualizações, pelos esquemas, pelos gêneros, pela fraseologia etc. A Leitura recomendada: FUC82; FUC94; GUL83; HIL06; MOR82.
enunciação individual não se realiza independentemente das enunciações coleti- Termos relacionados: marcador de reformulação parafrástica, paráfrase, paren-
vas que a precederam e que a tornam possível. Os usos sedimentados, resultantes tesco semântico.
da história, determinam todo ato de linguagem. O enunciador, no momento da
enunciação, convoca, atualiza, repete, reitera um "já dado" (gêneros, modos de di- presente S. m. Benveniste
zer etc.), mas também o revoga, o recusa, o renova e o transforma. Há um domínio Definição: eixo do tempo linguístico que fundamenta a temporalidade da enunciação.
do impessoal que rege a enunciação individual. É preciso ficar claro, no entanto, Fonte da definição: BEN89: 74-75.
que, muitas vezes, a enunciação individual insurge-se contra esses modos de dizer Nota explicativa: Como eixo ou centro da t emporalidade linguística, a enunciação
sedimentados, dando lugar a práticas inovadoras, que criam significações inéditas. de "eu", além de instaurar o presente concomitante ao passado e ao futuro, esta-
Esses enunciados, assumidos pela prática coletiva, podem sedimentar-se em novos belece a temporalidade do "tu". Assim, a cada enunciação de "eu", em havendo
usos, que, por sua vez, podem ser revogados e assim sucessivamente. O discurso instaura~ão singular do presente, será produzido um passado e um futuro igual-
literário exibe uma tensão entre conservação e revolução das formas. Na "Carta mente smgulares. Além disso, pode-se dizer que o presente é o fundamento da
pras icarniabas", capítulo do livro Macunaíma, Mário de Andrade ridiculariza a intersubjetividade, isto é, quando eu diz "ontem", esse "ontem" converte-se com-
práxis enunciativa dos pré-modernist as, com sua sintaxe clássica, seu léxico pre- pulsoriamente no "ontem" do "tu". De forma recíproca, "tu", ao tomar a palavra
ciosista e até arcaizante, suas citações latinas etc. Stanislaw Ponte Preta, na crônica convertendo-se em "eu", converte minha demarcação temporal na sua.
"O repórter policial", ironiza a práxis enunciativa desses profissionais da imprensa Fonte da nota: EBE06.
de sua época: "Qualquer cidadão q ue vai à Polícia prestar declarações que possam Leitura recomendada: BEN89B, BEN95B.
ajudá-la numa diligência (apelido que eles puseram no ato de investigar) é logo Termos relacionados: intersubjetividade, tempo linguístico.
apelidado de testemunha-chave. Suspeito é Mister X, advogado é causídico, solda-
do é militar, marinheiro é naval, copeira é doméstica e, conforme esteja deitada, a pressuposto ( 1) S. m. Ducrot
vítima de um crime- de costas ou de barriga - fica numa dessas duas incômodas Definição: ato de fala implícito inscrito no sentido do enunciado.
posições: decúbito dorsal ou decúbito ventral". Fonte da definição: DUC77; EDU06.
Fonte da nota: BER03: 85-89. Nota explicativa: A noção de pressuposto (l), em Ducrot, está vinculada à descri-
Leitura recomendada: FONOl: 171-202; FON07. ção da pressuposição como um ato de fala. Na sequência "Fulano vem me visitar;
Termo relacionado: enunciação (6). logo ele tem problemas", o locutor apresenta os atos de afirmação "Fulano vem
me visitar" (X) e "Fulano tem problemas" (Y). Além disso, apresenta uma outra
predicação de identidade s./ Fuchs proposição a partir do articulador logo de que "a pessoa referida não poderia vir,
Outras denominações: operação dinâmica d e identificação. senão por interesse" (Z). Nessa terceira proposição (Z), o locutor diz algo como se
Definição: operação por meio da qual se atribui, no discurso, um grau de equivalên- não tivesse dito, o que constitui o pressuposto.
cia semântica a dois enunciados, instituindo-se entre eles uma relação parafrástica. Fonte da nota: DUC77; EDU06.
Fonte da definição: FUC94. Termos relacionados: atividade linguística, posto (l), sentido literal.
Nota explicativa: A predicação de identidade semântica é um procedimento de
discurso que se identifica com o próprio parafraseamento como atividade discur- pressuposto (2) s.m. Ducrot
siva. Por meio dela, o enunciador institui, na evolução do discurso, um parentesco Definição: sentido implícito inscrito em um enunciado, cuja responsabilidade é
semântico entre dois enunciados. Essa predicação pode ocorrer por meio de traços atribuída a um enunciador.
linguísticos que inscrevem o parentesco semântico nos próprios enunciados ou, Fonte da definição: DUC87; EDU06.
então, por meio de marcadores de reformulação parafrástica, quando nos enun- Nota explicativa: A acepção de pressuposto (2) está vinculada à Teoria da Polifo-
ciados em relação esse parentesco não for linguisticamente perceptível. nia, em que a pressuposição não é mais concebida como ato, mas como uma das
Fonte da nota: FUC94. manifestações polifônicas da linguagem. Nesse sentido, o autor descreve o fenô-
meno da pressuposição considerando o fato de que certas palavras do enunciado ridas pelos participantes de um ato de interlocução. Constitui-se em exemplo a
possibilitam um sentido pressuposto e outro posto, cujos responsáveis são dois propriedade dos pronomes pessoais de não terem referente fixo para além de uma
enunciadores, E1 e E2, sendo o último aquele com quem o locutor se identifica. A instância dialogal particular.
sequência "todos vieram à aula, até Joana" contém um posto, sentido explicitado Fonte da nota: HAG90: 115-118.
pelo locutor no enunciado, cujo responsável é E2. Além disso, devido ao uso da
Leitura recomendada: HAG90.
palavra "até", a sequência contém um pressuposto, argumento implícito de que a
Termos relacionados: domínios de constrangimentos, domínios de iniciativas, teo-
presença de Joana à aula é inusitada, cujo responsável é El.
ria dos três pontos de vista.
Fonte da nota: DUC87; EDU06.
Termos relacionados: enunciador (2), posto (2), Teoria da Polifonia.
processo metafóricos. m. Jakobson
V. metáfora
primeira pessoa s.f Bréal
Outras denominações: eu.
Definição: pessoa verbal pela qual o indivíduo se opõe aos demais.
processo metonímico S. ttl. Jakobson
Fonte da definição: BRE92: 161. V. metonímia
Nota explicativa: Michel Bréai diz que a parte que o indivíduo dá a si mesmo na
linguagem é desproporcionada, porque das três pessoas do verbo há uma que ele se programação espacial s.f Greimas
reserva de modo absoluto, a que se convencionou chamar primeira pessoa. Definição: processo de encadeamento sintagmático dos espaços construídos
Fonte da nota: BRE92: 161. no enunciado.
Leitura recomendada: BRE92. Fonte da definição: GRE79a: 295.
Termos relacionados: elemento subjetivo, segunda pessoa, terceira pessoa (2). Nota explicativa: A programação espacial efetua-se pelo estabelecimento da cor-
relação entre as ações dos sujeitos e os espaços em que elas ocorrem. No romance
princípio da dupla estruturação s. Hagege 111. Germinal, de Zola, estão localizados, no eixo vertical, os espaços do alto, da super-
Definição: princípio de ordenamento linguístico de objetos e de noções. fície, e os do baixo, do fundo, da mina. Na superfície, vigem os valores culturais
Fonte da definição: HAG90: 21 1. da burguesia; nas profundezas da mina, os valores naturais. Num, os operários
Nota explicativa: A primeira estruturação é a que cria categorias por abstração e as estão submetidos à exploração do trabalho; noutro, às explosões de gás grisu e aos
hierarquiza. Para Hagêge, o mundo não contém objetos que representem a plura- desmoronamentos. Esses dois espaços encadeiam-se sucessivamente: do fundo à
lidade, a singularidade, a dualidade, o animado, o humano, a qualidade, a posse, superfície e desta para aquele. Os mineiros não têm um espaço próprio. Sua luta
a determinação, o agente, o paciente, a transitividade, a cor, o parentesco. Tais é pela busca de um território para construir sua axiologia. Tentam conquistar a
categorias estão presentes nas línguas como universais, ainda que não simultanea- superfície durante sua grande greve. Quando esta fracassa, voltam ao fundo. O
mente e nem com as mesmas estruturas formais, mas como conjunto de elementos desmoronamento do poço por causa da sabotagem precipita a planície no abismo.
possíveis, dentro do qual cada categoria ocupa uma posição. A segunda estrutura- A metáfora da germinação, que é, ao mesmo tempo, subterrânea, terrestre e aérea,
ção organiza as próprias línguas, em vários níveis, como redes de solidariedade. O indica o estabelecimento de uma nova axiologia, a do proletariado, que ultrapassa
significado de um sinal, dentro do léxico e, em particular, de uma zona semântica, o lugar da burguesia num processo ascensional. Essa programação espacial está
é definido pela sua diferença. O sistema fonológico e o sistema gramatical de cada relacionada a um discurso ideológico concernente ao progresso social e político
língua estão ligados entre si, tanto na história como na sincronia, por relações de da humanidade: o proletariado, liberto das coerções da natureza e do mundo bur-
interação que não correspondem à realidade exterior e moldam, por oposição a guês, constrói um mundo novo num lugar acima do ocupado pela burguesia.
esta, a autonomia das línguas como modelos de produção de sentidos. Em suma, Fonte da nota: BER03:144-149; GRE79a: 295-296.
ao postular a independência (relativa) da língua em relação ao mundo, Hagege Leitura recomendada: BER85; GRE08.
considera que as línguas tornam o mundo dizível na medida em que são profe- Termos relacionados: debreagem espacial, embreagem espacial, espacialização.
programação temporaL.t Greimas
Definição: processo de encadeamento das ações e dos acontecimentos num eixo
de sucessões.
Fonte da definição: GRE79a: 296.
Nota explicativa: A programação temporal não se reduz à disposição numa linha
de tempo dos acontecimentos que se sucedem uns depois dos outros. Ela implica qualidade s.f Ducrot
também uma medida dos tempos em durações, operando, assim, com a aspectuali- Definição: noção de positividade ou negatividade manifesta pelos encadeamentos
zação: há as ações durativas e pontuais, por exemplo. A programação temporal argumentativos.
constrói periodizações. Além disso, ela opera com simultaneidades, mostrando Fonte da definição: CAR94; EDU06.
que dois acontecimentos ocorrem paralelamente. No capítulo V de O Guarani, Nota explicativa: O termo qualidade é apresentado por Marion Carel nos primeiros
de Alencar, narra-se uma conversa entre Cecília e Isabel no jardim da casa do Pa- estudos sob re a Teoria dos Blocos Semânticos. Segundo a autora, os encadeamen-
quequer. O capítulo VI inicia-se com a seguinte frase: "Ao mesmo tempo que esta tos argumen tativos não exprimem somente blocos, mas também um certo tipo de
cena se passava no jardim, dois homens passeavam do outro lado da esplanada, positividade ou negatividade, denominada qualidade. Essa qualidade, juntamente
na sombra que projetava o edifíçio". Essa introdução serve para mostrar que 0 com o bloco, constitui uma regra. Os encadeamentos "Pedro é rico: ele deve ser fe-
diálogo entre D. Antônio de Mariz e Aires Gomes, que será relatado em seguida, liz" e "Pedro é rico: ele não deve ser feliz" relacionam-se ao mesmo bloco (riqueza/
ocorre paralelamente ao colóquio ent re Isabel e Cecília. A programação temporal felicidade), mas não têm o mesm o sentido. Suas qualidades opõem-se e exprimem
constrói uma rep resentação cronológica da organização narrativa do texto. regras distintas (a riqueza traz felicidade e a riqueza não t raz felicidade).
Fonte d a nota: GRE79a: 296-297. Fon te da nota: CAR94; EDU06.
Leitura recomendada: GRE08; SIL04: 142-164. Termos r elacionados: bloco semântico, encadeamento argumentativo, regra.
Termos relacionados: debreagem temporal, localização temporal, temporalização.
qualificação s. f Culioli
Outras denominações: Qlt.
Definição: operação associada à estruturação nocional pela qual são construídas
diferenciações qualitativas ent re ocorrências de uma mesma classe.
Fonte da definição: CUL99a.
Nota explicativa: Qualificação é uma delimitação que permite distinguir o que é X do
que é qualitativamente diferente de X. A qualificação está associada à estruturação no-
cional de uma noção e instaura relações de complementaridade nocional baseada em
uma operação de diferenciação qualitativa. Érepresentada por Qlt. Tal operação supõe a
pertença das ocorrências diferenciadas a uma mesma classe (somente se pode comparar
o comparável). Diferenciar supõe conjuntamente a possibilidade de identificar, uma
vez que ocorrências somente são qualitativamente distinguíveis se forem identificáveis.
Fonte da nota: CUL99a.
Leitura recomendada: FRA98; FUC84.
Termos relacionados: noção, ocorrência, quantificação.

quantificação s. f Culioli
Outras denominações: Qnt.
Definição: operação pela qual é construída a representação da ocorrência de uma
noção em um espaço-tempo de referência.
c: Fonte da definição: CUL90.
ifr Nota explicativa: A quantificação permite efetuar duas operações essenciais:
e.
g:... (1) construir ocorrências da noção na produção/reconhecimento de enunciados;
~· (2) construir a existência de uma ocorrência (ocorrência de uma noção fragmenta-
li" da) situada no espaço-tempo enunciativo que um sujeito enunciador constrói em
~
& relação a um coenunciador.
reconhecimento s. Benveniste 111.

"'~ Definição: atividade exercida por quem utiliza a língua, q ue consiste e_m atribuir
Fonte da nota: CUL90.
significado relativo à pertença ao sistema.
Leitura recomendada: FRA98; FUC84.
Fonte da definição: EBE06.
Termos relacionados: dom ín io nocional, noção, ocorrência.
Nota explicativa: Esta atividade, que implica, em uma situação de uso, reconhe-
cer um signo como p ertencente ao sistema, é fu ndamental para o estabelecimento
de comunicação, entretanto não é o basta nte. Daí reconhecimento estar sempre
associado à compreensão; é necessário que o sistema seja comum a locutor e alo-
cutário e q ue a situação discursiva também o seja. Por meio de reconhecimento e
compreensão associados, percebe-se relação entre a significação do já-conhecido
e a significação a tua!.
Fonte da nota: EBE06.
Leitura recomendada: BEN89A; BEN89D; BEN89E.
Termos relacionados: atualização (2), compreensão (2), palavra (2).

referência s.f Benveniste


Definição: significação singular e irrepetível da lingua cuja interpretação realiza-se
a cada instância de discurso contendo um locutor.
Fonte da definição: BEN89: 278.
Nota explicativa: Benveniste relaciona a noção de referência às características do uso
do pronome "eu", palavra que, por excelência, expressa a fala instantânea e efême-
ra do locutor. U ma vez que o pronome "eu" tem um significado diferente, singular
a cada vez que for empregado por um locutor, a referência, tanto de uma palavra
quanto de uma frase ou u m texto, é definida pela situação de discurso que envolve a
unidade linguística considerada. A situação de discurso, definidora da referência, é
constituída pela presente relação entre locutor, alocutário, objeto de alocução e ins-
tâncias de tempo e lugar de um a determinada enunciação ou instância de discurso.
Fonte da nota: EBE06.
Leitura recomendada: BEN89A; BEN89D; BEN95A; BEN95B.
Termos relacionados: língua (2), pessoa, situação de discurso.

referencialização s.f Greimas


Definição: processo de constituição dos efeitos de realidade ou de verdade do discurso.
Fonte da definiçãÓ: GRE79a: 312-3 13.
Nota explicativa: A referencialização cria efeitos de realidade ou de verdade do reformulação s. r Fuchs
discurso, atribuindo a seus elementos um referente, que não é um dado a prio- Definição: atividade discursiva que consiste na passagem de um texto-fonte T para
ri, mas uma construção da linguagem. Há duas maneiras básicas de construção um texto-alvo T', envolvendo, necessariamente, um duplo processo de interpreta-
da referencialização: a externa e a interna. A primeira é dada pela relação que se ção de Te de produção de T'.
estabelece entre os elementos do discurso e os do "mundo natural", entendido Fonte da definição: FUC94; FUC04.
como uma sem iótica, já q ue ele é categorizado pela linguagem e apreendido em Nota explicativa: A interpretação de T constrói um conteúdo C, que é o ponto de
sua significação. Os elementos com os quais se faz a referencialização externa são partida para a produção de T', cujo conteúdo, porém, não será C, mas sim C'. Não
os dêiticos, os cro nônimos, os topônimos, os antropônimos etc. Todos esses ele- existe, portanto, identidade de conteúdo entre o texto-fon te e o texto-alvo, uma
mentos criam uma ilusão referencial. Diz-se ilusão referencial, porque não se colo- vez que, a rigor, os dois textos se originam de atos enun ciativos distintos. Tome-se,
ca o problema do discurso verdadeiro, mas do discurso que parece verdadeiro, ou por exemplo, um texto técnico T de um livro de economia e a sua divulgação, por
seja, aquele que apresenta efeitos de realidade ou de verdade. A referencialização meio de um texto T', num programa de televisão. O último reformula o primei-
interna é feita pelos procedimentos pelos quais o discurso se apoia sobre si mesmo, ro, mas, por se constituir numa situação enunciativa nova, a reformulação resulta
remetendo a seus elementos: por exemplo, a anaforização, a cataforização, a passa- num novo texto, com características sem ânticas próprias. Essa mesma explicação
gem de uma unidade discursiva•a outra, como da narrativa ao diálogo e vice-versa. pode estender-se para as atividades de autorreformulação realizadas pelo enun-
A referencialização interna garante a credibilidade do discurso, criando um efeito ciador na construção de um enunciado qualquer. É por isso que a reformulação
de fechamento e de coerência. A intertextualidade deve ser entendida como um implica transformação de conteúdo, a qual se situa num continuum de transfor-
dos tipos da referencialização externa, quando a referência se instaura entre dois mações que se estende d esde uma identidade quase absoluta entre Te T' até uma
textos diferentes. alteridade radical entre os dois textos, para além do qual não mais se percebe o
Fonte da nota: GRE79a: 3 10-313; GRE79b: 188- 189. cará ter reformulador da atividade linguístico-discursiva. A atividade de reformu-
Leitura recomendada: BER03: 233-261; GRE08. lação pode centrar-se ora na interpretação de Tora na produção de T', o que leva
Termos relacionados: figurativização. à distinção entre reformulação explicativa e reformulação imitativa.
Na reformulação explicativa, recorrente, por exemplo, nos discursos de
reflexividade generalizada s. r Ré canati divulgação de textos t écnicos e especializados de toda ordem, instaura-se uma
Definição: p ropriedade que t êm os enunciados de veicular um significado ao mes- relação comunicativa entre um d estinador e um destinatário. O produtor de T'
mo tempo em que refletem o valor formal desse significado. se apresenta como quem conhece o texto-fonte e é capaz de tran smitir esse co-
Fonte da definição: REC79: 121-126. nhecimento de forma inteligível a seu interlocutor. O produtor se constitui co mo
Nota explicativa: O enunciado "O gato está sobre o capacho" representa a exis- intérprete tanto do texto-fonte quanto de quem o produziu. Ao estilo de um tra-
tência de um gato sobre o capacho. Além disso, esse enunciado apresenta uma dutor que domina duas línguas, ele domina dois códigos, o do produtor d e Te o
maneira de sign ificar, que não é a da representação. Essa maneira de significar do receptor de T'. Por se tratarem de atividades enunciativas distin tas, revela-se
ocorre quando o próprio enunciado exibe suas propriedades formais, q uando ele um distanciamento do sujeito reformulador em relação ao texto reformulado e à
se apresenta enq uanto afirmação, sugestão etc. Esse modo de significar ocorre por situação em que ele foi produzido. Além disso, a explicação de T por meio de T'
uma reflexão do enunciado sobre si m esmo, o qual possui a propriedade da reflexi- imprime à atividade reformuladora urna orientação determinada que se caracteri-
vidade. Assim, todo enunciado n ão apenas fala sobre seu conteúdo, mas também, za pela passagem do menos conhecido para o mais conhecido, do menos claro p ara
através da reflexividade, faz uma indicação sobre o ato que realiza sua enunciação. o mais claro. Segundo essa orientação, a reformulação explicativa resulta, em geral,
A reflexividade é entendida como generalizada por Récanati, pois é aplicável a to- numa amplificação do texto-fonte, mas também se pode apresentar na forma de
dos os enunciados. textos condensados, como acontece nos resumos. Na reformulação imitativa, ca-
Fonte da nota: REC79: 121-126. racterística, por exemplo, da reelaboração de textos com o objetivo de desenvolver
Leitura recomendada: REC79. a expressividade no sentido retórico, tem-se a impressão de que as duas instâncias
Termos relacionados: p erformatividade generalizada. enunciativas se 'a nulam , a do texto reformulado e a da reformulação. O enunciador
de T' aparenta ocupar a posição do enunciador de T, apagando-se como produtor pio argumentativo (topos), que era utilizada como ga rantia da passagem, no enun-
de um novo texto; ciado, do argumento para a conclusão. Segundo essa teoria, os conteúdos expres-
não se manifesta a ação de um destinador que se dirige a um destinatário. Além dis- sos pelos dois segmentos de um encadeamento argumentativo constituem uma
so, a imitação não confere à atividade reformuladora uma orientação determina- unidade sem ântica inteira, indecomponível. A unidade semântica inteira exprime
da, como a que caracteriza as atividades explicativas. Nesse sentido, pode-se dizer o bloco semântico. Os encadeamentos, por sua vez, além dos blocos, exprimem
que as reformulações imitativas estão numa relação paradigmática não orientada também positividade ou negatividade, ou seja, uma qualidade que, juntamente
ao passo que as explicativas funcionam como uma relação sintagmática ordenada. com o bloco, constitui uma regra. Exemplo: (1) "É tarde; o trem deve estar aí";
Fonte da nota: FUC94; FUC04; HIL06. (lneg) "É cedo; o trem não deve estar aí". Nos dois casos, trata-se da chegada do
Leitura recomendada: FUC82; FUC94; FUC04; GUL83; HIL06; MOR82. trem, afirmada em (1) e negada em (l neg). Assim, (1) e (lneg) fazem referência ao
Termos relacionados: paráfrase, parentesco semântico, predicação de identidade. bloco q ue exprime "as coisas chegam com o tempo". Mas há a qualidade que opõe
os dois enunciados: a positividade de (1) e a negatividade de (l neg). Então, (1) e
refração s.f Bakhtin (lneg) realizam o mesmo bloco, mas suas qualidades diferem; portanto, eles não
Definição: operação pela qual se inscreve nos signos a experiência histórica dos exprimem a mesma regra. São considerados encadeamentos contrários .
grupos humanos. • Fonte da nota: CAR94; EDU06.
Fonte da definição: BAK81. Termos relacionados: bloco semântico, encadeamento argumentativo, qualidade.
Nota explicativa: O termo refração diz respeito aos diferentes modos de seman-
tização do mundo, gerados pela práxis dos grupos humanos. Pode-se entender relação de interlocução s.f Hagege
refração como a interpretação do mundo que se produz no ato de enunciação a V. diálogo (3)
partir das valorações atribuídas pelos grupos humanos ao conjunto de suas expe-
riências históricas. A refração é uma condição necessária do signo na concepção relação de localização s.f Culioli
de Bakhtin. As significações não estão dadas no signo em si, nem são asseguradas Outras denominações: relação de répérage.
por formas linguísticas abstratas, tomadas fora da enunciação, nem ocorrem por Definição: relação fundamental entre termos de uma língua em que um adquire
uma relação transparente entre linguagem e mundo. Para Bakhtin, a constituição valor referencial devido à identificação relativamente a o utro.
do sentido realiza-se por duas operações simultâneas dos signos: a de reflexo e a Fonte da definição: CUL99b.
de refração do mundo, ou seja, com os signos não só se descreve o mundo, mas Nota explicativa: A observação minuciosa de variadas línguas e a teorização de
também se constroem diversas interpretações (refrações) desse mundo. A semiose fenômenos aparentemente distantes entre si levaram Culioli a propor uma relação
humana é, então, uma realidade aberta e infinita. Assim, a discussão sobre a sig- fundamental chamada de relação de localização. O conceito de localização está
nificação na linguagem, em Bakhtin, não se faz com base numa semântica única e ligado ao conceito de localização relativa e ao de determinação. Dizer que x é iden-
universal, mas leva em conta o ato concreto da enunciação. tificado em relação a y significa dizer que x é localizado (no sentido estrito do ter-
Fonte da nota: FAR03: 50-51. mo), situado em relação a y e que este último serve de identificante (de ponto de
Leitura recomendada: BAK81. referência), quer seja ele mesmo identificado em relação a um outro identificante
Termos relacionados: palavra (1), signo ideológico. ou a um identificante origem, quer seja ele mesmo origem. Assim, quando, no inte-
rior de um sistema de referência, um termo x é identificado em relação a um termo
regra s.f Ducrot y, a operação fornece a x um valor referencial (determinação de uma propriedade)
Definição: resultado da relação entre o bloco semântico e uma qualidade. que não possuía anteriormente. A ideia fundamental é que um objeto somente
Fonte da definição: CAR94; EDU06. adquire um valor determinado graças a esse sistema de localização. A relação de
Nota explicativa: O termo regra foi utilizado nos primeiros escritos de Marion Ca- localização é sempre binária e caso se tenha, por exem plo, três termos, obtêm-se
rel sobre a Teoria dos Blocos Semânticos para revisar e rejeitar a noção de princí- uma segunda relação (binária) sobre a primeira relação. Por isso, é possível dizer
que, para Culioli, enunciar é construir um espaço, orientar, determinar, ou seja, sujeitos, as lógicas voltam-se para as generalidades do sistema da língua, abstraído
estabelecer uma rede de valores referenciais, em suma, um sistema de localização. de situações de comunicação discursiva. Embora não sejam redutíveis às relações
Fonte da nota: CUL99b. concreto-semânticas, as relações dialógicas precisam delas para a sua materialização.
Termos relacionados: enunciador (4); operação enunciativa. Fonte da nota: BAK97: 182-184; BAK03B.
Leitura recomendada: BAK97; BAK03B; BAK03D.
relação de répérage s.f Culioli Termos relacionados: força centrípeta, relações dialógicas, significação (1).
V. relação de localização
remetente S. m. Jakobson
relações dialógicas s.f Bakhtin Definição: elemento do ato de comunicação verbal que corresponde àquele que fala.
Definição: relações de sentido desencadeadas pelo enunciado. Fonte da definição: JAK69b.
Fonte da definição: BAK97. Nota explicativa: Segundo Jakobson (1969b: l22-3a), todo processo linguístico-
Nota explicativa: Ultrapassando os limites das relações lógicas (linguística do siste- ou todo ato de comunicação verbal- é constituído de seis elementos: remetente,
ma) sem dispensá-las, as relações dialógicas configuram-se no campo do discurso mensagem, destinatário, contexto, código e contato. Cada um desses seis fatores
da língua como fenômeno integral concreto, em que circulam posições avaliativa; determina uma diferente função da linguagem. O remetente é determinante da
de diferentes sujeitos, o que garante a permanente renovação de sentidos. As rela- função emotiva, caracterizada pela expressão direta da atitude de quem fala em
ções dialógicas são possíveis a qualquer parte do enunciado, inclusive a uma pala- relação àquilo de que está falando. O remetente pode ser tomado como o locutor,
vra isolada, desde que considerada representante do discurso do outro, da voz do aquele de quem parte o dizer, ou a inda, aquele que enuncia. Ele é considerado a
outro. Para o Círculo de Bakhtin, todo enunciado, todo texto, somen te tem vida primeira pessoa (o "eu") de um diálogo.
Fonte da nota: EJA06; JAK69b.
contatando com outro enunciado, outro texto. Não é, pois, um contato mecânico
Leitura recomendada: JAK69a; JAK69bC.
entre elementos abstratos, mas sim um contato entre variadas vozes sociais pro-
Termos relacionados: comunicação (2), destinatário (2), função emotiva.
venientes de diferentes sujeitos do discurso, como a resposta a dizeres anteriores
e a antecipação de dizeres futuros, permitindo observar inter-relações de sentido
diversas, as relações dialógicas.
retorno do dizer S. m. Authier-Revuz
V. metaenunciação
Fonte da nota: BAK97: 183-184; BAK03B.
Leitura recomendada: BAK97; BAK03B; BAK03D; FAR03.
Termos relacionados: dialogismo, enunciação (2), metalinguística.

relações lógicas s.f Bakhtin


Definição: relações linguísticas concreto-semânticas.
Fonte da definição: BAK97: 184.
Nota explicativa: As relações lógicas são consideradas o objeto de estudo da lin-
guística que tem como preocupação a relação entre os elementos no sistema da lín-
gua ou entre os elementos do texto num enfoque puramente linguístico. Tais re-
lações correspondem a fenômenos sintáticos, lexicais e semânticos, e somente po-
dem tornar-se dialógicas se se converterem em enunciado concreto, passarem para
o campo do discurso. Isso acontece quando um sujeito toma a palavra, assumindo
posições avaliativas, ideológicas, na fronteira de outros enunciados. Enquanto as
relações dialógicas estão preocupadas com as relações de sentido entre diferentes
"pouco" e "um pouco" conduzem a conclusões contrárias, como se pode conferir
nos encadeamentos (1') "Pedro comeu pouco, portanto não vai melhorar"; (2')
"Pedro comeu um pouco, portanto vai melhorar".
Fonte da nota: DUC97.
Termos relacionados: encadeamento argumentativo, potencial argumentativo,
segmentos. m. Ducrot Teoria da Argumentação na Lín gua.
Definição: constituinte da unidade argumentativa de sentido.
Fonte da definição: CAR02b; DUC02a; DUC02b; DUC88; EDU06. semântica pragmáticas.[ Ducrot
Nota explicativa: O termo segmento aparece na Teoria da Argumentação na Lín- V. semântica linguística
gua, inicialmente, ou como argumento ou como conclusão e, posteriormente,
como um segmento interdependente semanticamente de outro, formando uma
semântico S. m. Benveniste
unidade de sentido. Outras denominações: semântica.
Fonte da nota: CAROl; DUC88; EDU06.
Definição: sistema linguístico resultante da atividade do locutor em relação à língua.
Termos relacionados: argumentação (1), encadeamento argumentativo, enun-
Fonte da definição: EBE06.
ciado (1).
Nota explicativa: Nesse sistema, apresentado como um âmbito da língua, dão-se
as relações intersubjetivas. Assim, entende-se que, com a proposição desse siste-
segunda pessoa s.f Bréal ma, a Linguística ocupa-se das noções de sujeito e de referência. Definido como
Outras denominações: tu.
atividade do locutor relativa à língua, pressupõe a presença de alocutário, bem
Definição: pessoa verbal que é interpelada pela primeira pessoa.
como a instalação de tempo e espaço. No semântico, a unidade é a frase ou enun-
Fonte da definição: BRE92: 161.
ciado, materialidade que expressa o exercício do locutor que, para atribuição de
Nota explicativa: Michel Bréal considera que a segunda pessoa, na medida em que
referência, se insere na língua, apropriando-se desse sistema e atualizando signos
é convocada pela primeira, mantém com esta uma relação de proximidade.
com os quais configura a frase, com a finalidade de referir uma ideia que expressa
Fonte da nota: BRE92: 161.
sua atitude e a situação de discurso. Apesar de Benveniste, ao tratar do semântico,
Leitura recomendada: BRE92.
apresentá-lo como oposto ao semiótico, verifica-se que ambos se complementam,
Termos relacionados: elemento subjetivo, primeira pessoa, terceira pessoa (2).
já que o semântico se efetiva a partir da inserção do sujeito no semiótico.
Fonte da nota: EBE06.
semântica argumentativa s.f Ducrot
Leitura recomendada: BEN89A; BEN95D; FLOOS; FL008.
V. semântica linguística
Termos relacionados: língua-discurso, semiótico, sentido (1).
semântica linguística s.f Ducrot
Outras denominações: semântica argumentativa, semântica pragmática. semantização s.f Benveniste
Definição: estudo que descreve as estruturas linguísticas a partir de suas potencia- Definição: processo relativo ao uso da língua para atribuição de referência à ati-
lidades argumentativas. tude do sujeito e à situação enunciativa.
Fonte da definição: DUC88b. Fonte da definição: EBE06.
Nota explicativa: A semântica linguística defende que o sentido de um en unciado Nota explicativa: Embora o uso da língua seja descrito como processo que com-
não depende de um conhecimento prévio da realidade, o que implicaria uma des- preende apropriação, atualização, sintagmatização e semantização, o último item
crição informativa, já que procura descrever as estruturas linguísticas de um ponto engloba os demais, pois semantização resume todo o trabalho com a língua: a con-
de vista argumentativo. Nesse caso, os enunciados: ( 1) "Pedro comeu pouco" e versão da lingua em discurso.
(2) "Pedro comeu um pouco" não se distinguem por seu sentido informacional, Fonte da nota: EBE06.
uma vez que, nos dois casos, trata-se da ingestão de pequena quantidade de ali- Leitura recomendada: BEN89A; BEN89D; FLOOS; FL008.
mento. Distinguem-se, entretanto, do ponto de vista argumentativo, visto que Termos relacionados: ideia, língua-discurso, sem ântico.
as unidades de n ível diferente, são integrativas. É nesse contexto que Benveniste
semiótico s. m. Benveniste acresce~ta a ~is~uss~o e~ torno das noções de sentido e forma. A forma d iz respeito
Outras denominações: domínio do semiótica, modo semiótica, o rdem semiótica.
às relaçoes dtstrzbucwnms e permite reconhecer as unidades como constituintes· 0
Definição: sistema de signos linguísticos, cuja significação se estabelece intrassis-
sentido diz respeito às relações integrativas e p ermite reconhecer as unidades co~o
tema, mediante distinção.
i~tegrantes. A forma de uma unidade linguística é, em Os níveis de análise Linguís-
Fonte da definição: EBE06.
ttca, portanto, a sua capacidade de dissociação em constituintes de nível inferior· 0
s:ntido de ~ma unidade linguística é, considerado este texto de Benveniste, a ca~a­
Nota explicativa: Benveniste utiliza o termo semiótica em oposição a semântico,
para traçar urna d ivisão entre dois domínios da língua. O campo do semiótica
cldade de mtegrar uma unidade de nível superior. Esquematicamente, tem -se:
corresponde à língua na acepção saussuriana, sendo o signo sua unidade. Embora
esse linguista assim delimite o sistema semiótica, este não é independente do se- RELAÇÕES RELAÇÕES
mântico, e vice-versa, pois ambos se superpõem, constituindo a língua tal corno DISTRIBUCIONAIS INTEGRATIVAS
é utilizada. Permitem reconhecer Permitem reconhecer
Fonte da nota: EBE06. t-_u_n_i_d_ad_:..es:.....__co:..:.n:..:.s~tz:_:_·t::.::u::.::i.n:. :tes:____-+-
_:: unidades integrantes
Leitura recomendada: BEN89A; BEN95D. FORMA: capacidade SENTIDO: capacidade
Termos relacionados: forma, língua (2), semântico. de dissociação de integração

Em ."A forma e o sentido na linguagem", texto de 1966 d irigido a filósofos, Ben-


sentido ( 1) s. m. Benveniste vemste apresenta outra concepção de sentido. Ele parte de uma visão primei-
Definição: capacidade de uma unidade linguística integrar uma unidade de
ra - segu~do a qual o sen.tido é a noção implicada pelo termo mesmo da língua
nível superior.
como cOnJunto de procedimentos de comunicação identicamente compreendidos
Fonte da definição: BEN95: 136.
por wn conjunto de locutores~ para propor algo absolutamente diferente. Para
Nota explicativa: a noção de sentido na teoria enunciativa de Benveniste não pode
Benveniste, "há para língua duas maneiras de ser língua no sentido e na forma"
ser entendida sem que seja relacionada à noção de forma. Sentido recebe diferentes
(BEN89: 239) . Há a língua como semiótica e a língua como semântica. São, na
acepções no decorrer da reflexão do autor. Observem-se apenas dois exemplos:
verdade, duas espécies e dois domínios do sentido e da forma. O modo semiótica da
em "Os níveis de análise linguística" , texto de 1964, sentido é visto com relação
língua está ligado ao sistema d e signos cuja significação se estabelece intrassist em a
a forma e ambos são ligados à noção de nível de análise. Benveniste, nesse t exto,
considera que a exigência de procedimentos e métodos adequados à descrição lin-
mediante distinção; o modo semântico está ligad o à atividade do locutor e implic~
construção de referência no agenciamento sintagmático. A fo rma no semiótica diz
guística impõe-se ao pesquisador e a noção de nível é, segundo ele, essencial na de-
respeito ao significante, entendido como o "asp ecto formal da entidad e chamada
termin ação desses procedimentos. Para o autor, "há duas operações fundamentais
signo" (BEN89:. 225); o sentido no semiótica diz respeito às relações de oposições
que se comandam uma à outra e das quais todas as outras dependem": a segmen-
com os outros s1gnos da língua, pois, no semiótica, "ser distintivo e ser significativo
tação e a substituição. A isso Benveniste acrescenta uma exigência de princípio: é a mesma coisa" (BEN89: 228). No semântico, "o 'sentido' se realiza na e por uma
o sentido que "é de fato a condição fundamental que todas as unidades de todos forma específica, aquela do sintagma, diferentemente do semiótica que se define
os níveis devem preencher para obter status linguístico" (BEN95: 130) . O sentido por ~ma relaçã~ de paradigma" (BEN89: 230). Logo, no semântico, a forma diz
intervém nas operações de segmentação e substituição em função do nível de análise respeitO à orgamzação sintagmática; o sentido diz respeito à ideia decorrente dessa
do qual ele d epende. O sentido d e uma unidade é condição fundamental para que sintagmatização. Em suma, no sem ântico "o sentido se realiza fo rmalmente n a
ela possa, simultaneamente, integrar um nível superior e distribuir-se no mesmo língua pela escolha, pelo agenciamento de palavras, por sua o rganização sintática,
nível. Assim, por exemplo, o fonema pode ser considerado uma unidade porque, pela .ação que elas exercem umas sobre as outras. Tudo é dominado pela condição
ao mesmo tempo, integra uma unidade superior- o morfema ou a palavra - e se do smtagm a, pela ligação entre os elementos do enunciado destinado a transmitir
distribui entre os d emais fonemas. Há duas esp écies de relações entre as unidades: um sentido dado, numa circunstância dada" (BEN89: 230). Como se pode ver ,
as relações ent re unidades de mesmo nível e as relações entre unidades de nível Be n~eni ste complexifica as relações entre sentido e forma nesse texto, uma vez que
diferente. Entre as unidades de mesmo nível, as relações são distribucionais; entre senttdo e forma no semiótica e no semântico cumpri ria m o papel de instaurar "na
língua uma divisão fundamental, em tudo diferente daq~ela. que Saussure. te.n- shifter s. m. Jakobson
tou instaurar entre língua e fala" (BEN89: 229). Esses dOis ststemas- semtóttco Outras denominações: embrayeur, embreador, embreante.
e semântico - se superpõem na língua. Ou, nas palavras de Benveniste (BEN89: Definição: categoria linguística caracterizada por articular o que é falado ao evento
233-234) : "na base, há o sistema semiótica, organização de signos, segundo o cri- de fala.
tério da significação, tendo cada um destes signos uma denotação conceptual e Fonte da definição: JAK69a.
incluindo numa subunidade o conjunto de seus substitutos paradigmáticos. Sobre Nota explicativa: Foi o linguista dinamarquês Otto Jespersen quem batizou com
este fundamento semiótico, a língua-discurso constrói uma semântica própria, o nome shifters esse fenômeno que Jakobson considera fundamental para a lin-
uma significação intencionada, produzida pela sintagmatização das palavras em guística, pelo fato de sempre remeter à mensagem em que ele aparece. O exemplo
que cada palavra não retém senão uma pequena parte do valor que tem enquanto clássico apresentado por Jakobson é o pronome pessoal. A partir da classificação
signo. Uma descrição distinta é então necessária para cada elemento segundo o do- de Pierce dos signos em símbolos, índices e ícones, Jakobson propõe o shifter como
mínio no qual está encaixado, conforme é tomado como signo ou como palavra". uma reunião das características do símbolo, por associar-se ao objeto represen-
Fonte da nota: BEN95D. tado através de uma significação geral (por exemplo, o pronome "eu"), com as
Leitura recomendada: BEN89A; BEN89D; BEN95D. características do índice, por estar em relação de existência com o que representa
Termos relacionados: discurso (4,, forma, língua-discurso. (o indivíduo que diz "eu"), pois "aponta para". O s11ifter, assumindo essa dupla ca-
racterização, é, portanto, um símbolo-índice. Diz-se que os shifters possuem uma
sentido (2) s. m. Ducrot significação geral própria, no entanto, sua utilização na instância de enunciação é
Definição: valor semântico do enunciado. que determina sua significação contextua!. Segundo Jakobson, as categorias ver-
Fonte da definição: DUC88; EDU06. bais se distinguem entre aquelas que são marcadas pela sua relação com o evento
Nota explicativa: O sentido (valor semântico de um enunciado) difere, em quan- de fala e aquelas que não são. Encontra-se uma aplicação desta classificação em
tidade e em natureza, da significação (valor semântico da frase). O enunciado diz Bechara (1999), ao propor uma explicação das categorias verbais. A categoria de
muito mais do que a frase, cuja natureza é instrucional e aberta. O sentido se pro- tempo é considerada um shifter por caracterizar o evento narrado em referência
duz quando são obedecidas as indicações dadas pela significação. ao evento de fala. O pretérito, por exemplo, informa que o evento narrado é ante-
Fonte da nota: DUC88; EDU06. rior ao evento de fala. Shifter é o termo utilizado por Jakobson, contudo, ele ficou
Termos relacionados: enunciado (1), frase (3), significação (2). extensivamente conhecido pelo seu equivalente em francês embrayeur e, no Brasil,
pela versão em português embreante.
sentido implícito S. m. Ducrot Fonte da nota: BEC99; EJA06; JAK69a.
Leitura recomendada: BEC99; JAK69a; FLOOS; FL008.
V. subentendido
Termos relacionados: enunciação (8), estilo (2), símbolo-índice.
sentido literal S. m. Ducrot
Definição: elemento semântico rrúnimo contido no sentido de todos os enuncia- significação ( 1) s.f. Bakhtin
dos de uma mesma frase. Definição: aparato técnico para a realização do sentido na enunciação.
Fonte da definição: DUC80b; EDU06. Fonte da definição: BAK95b: 129.
Nota explicativa: Em suas reflexões iniciais, Ducrot defende que os enunciad~s.de Nota explicativa: A significação representa os elementos reiteráveis que, junta-
uma mesma frase conteriam um conteúdo comum, ao qual cada um deles adtctO- mente com o tema (dimensão não-reiterável), constituem a enunciação. As formas
naria somente uma característica particular, devido a sua condição de emprego. linguísticas são decorrentes de convenções e não têm existência concreta sozinhas.
Assim, "Pedro foi ao cinema?" e "Pedro foi ao cinema!" seriam enunciados da Por exemplo, no enunciado "Que horas são?", a significação é idêntica em todas as
instâncias históricas em que é pronunciada. Está associada aos elementos linguís-
mesma frase "Pedro foi ao cinema".
ticos que a compõem (relações morfológicas, sintáticas e semânticas) . O tema do
Fonte da nota: DUC80b; EDU06.
Termos relacionados: enunciado (1), frase (3), sentido (2). enunciado "Que horas são?" não pode ser segmentado, pois varia a cada situação
histórica concreta em que é pronunciado. A significação está para as unidades lin- pretar o enunciado da frase. Essas instruções não devem ser confunclidas com 0
guísticas, enquanto o tema está para o todo, para o sentido sempre novo da enun- sentido literal, pois dizem somente o que deve ser feito para descobrir 0 sentido
ciação. Nessa perspectiva, segundo Bal<htin, o tema constitui o estágio superior da que é particular cada vez que uma frase é enunciada. Ex.: no enunciado "a reuniã~
capacidade linguística de significar, e a significação, o estágio inferior. A significa- foi um sucesso: Pedro veio e até mesmo Paulo", a significação de "até mesmo"
ção é um potencial, uma possibilidade de significar, que se concretiza no interior fornece a instrução para se interpretar esse enunciado.
de um tema concreto, em uma enunciação concreta. Logo, a significação de um Fonte da nota: DUC80b; DUC87; EDU06.
ou outro elemento linguístico pode orientar-se em duas direções: para o estágio Termos relacionados: enunciado ( 1), frase (3), sentido (2).
superior, o tema, o que vai remeter à "significação contextuai" em uma enunciação
concreta. Ou então ela pode tender para o estágio inferior, o da "significação no significação (3) s. 1 Ré canati
sistema da língua". A inter-relação entre significação (elementos estáveis) e tema Definição: relação entre um signo e um objeto ou um fato em um dado espaço
(signos dinâmicos e complexos num momento concreto), conforme Bakhtin, é e momento.
vista inadequadamente quando se dá ênfase a um sentido dito central (denotação), Fonte da definição: REC79: 49-51, 95, 153-164.
que corresponderia à significação, e se desprezam outros sentidos, os considerados Nota explicativa: A significação de um enunciado, que representa algo, não é inde-
periféricos (conotação), que êorresponderiam ao tema. O problema reside na pri- pendente do acontecimento de sua enunciação. O enunciado "Eu moro em Paris",
mazia dada a um possível aspecto estável, usual, não considerando a importância por exemplo, tem uma certa significação, um certo conteúdo proposicional, 0 fato
da clinamicidade dos sentidos (tema) nas situações de enunciação. Para Bakhtin, é de o enunciador morar em Paris. No entanto, essa significação depende também do
impossível traçar uma fronteira entre significação e tema, pois um não existe sem evento da enunciação. Apenas na relação da frase com sua enunciação, é possível
o outro. É a significação que oferece a estabilidade necessária para o tema se desen- co,m~ree~der, p~r exemplo, o significado da palavra "eu". Como toda enunciação
volver. A distinção entre tema e significação ganha luz ao se tratar da compreensão, é umca e trrepettvel, a cada nova enunciação de "Eu moro em Paris" 0 significado
uma vez que a compreensão exige uma atitude ativa frente ao caráter evolutivo do será diferente. Récanati denomina, também, o signo como coisa representante e 0
tema. Compreender a enunciação de outrem significa orientar-se em relação a ela, objeto ou fato como coisa representada.
encontrar o seu lugar adequado em um dado contexto, fazendo corresponder a Fonte da nota: REC79: 49-51,95, 153-164.
outras enunciações. É somente por uma atitude responsiva ativa que podemos Leitura recomendada: REC79.
apreender o tema, o qual, sendo clinâmico, necessita de um processo evolutivo que Termos relacionados: enunciação (9), signo (2).
ultrapasse os limites da significação, porém não a dispensa para a compreensão
da enunciação completa. Um mesmo elemento linguístico (significação) recebe signo ( 1) S. m. Benveniste
orientações sociais apreciativas diferentes, dependendo da situação da enunciação Definição: elemento primordial do sistema linguístico, constituído por um signi-
(finalidade, interlocutores, lugar e tempo), garantindo a circulação de sentidos e ficante e um significado cuja ligação deve ser reconhecida como necessária, sendo
a decorrente instauração do tema. Assim, a significação é absorvida pelo tema e esses dois componentes consubstanciais um com o o utro.
dilacerada por suas contradições vivas, para retornar enfim sob a forma de uma Fonte da definição: BEN95: 59.
nova significação com uma estabilidade e uma identidade igualmente provisórias. Nota explicativa: Na língua, os signos existem em uma relação de oposição e de
Fonte da nota: BAK95b: 128-129, 13 1-132. diferença. O signo, unidade semiótica, é dotado de significação na comunidade da-
Leitura recomendada: BAK95b: 129. queles que fazem uso de uma língua, e a totalidade desses signos forma a totalidade
Termos relacionados: compreensão (1), enunciação (2), tema. dessa língua. Interessa, ainda, destacar que, mesmo sendo Benveniste um atento
leitor de Ferdinand de Saussure- de onde vem, em essência, sua reflexão sobre 0
significação (2) s. 1 Ducrot sign~ - há especificidades em torno da noção de signo tal como ela comparece na
Definição: valor semântico da frase. teona benvenistiana. Destacam-se, ao menos, duas: Benveniste publica em 1939
Fonte da definição: DUC80b; DUC87; EDU06. Na~ureza do signo linguístico, texto que obteve notoriedade entre seus pares. Nesse
att1go, Benvemste
· ava1·ta os termos pelos quats . Saussure estabelece o princípio da
Nota explicativa: A significação contém instruções dadas àqueles que irão inter-
arbitrariedade do signo linguístico. Benveniste parte da definição da Saussure, se- "Enunciemos então este princípio: tudo o que é do domínio do semiótico tem por
gundo a qual "imotivado quer dizer arbitrário em relação ao significad o com o qual critério necessário e suficiente que se possa identificá-lo no interior e no uso da
não tem nenhuma ligação natural na realidade" (SAU74: 83) para dizer que, nessa língua." (BEN89: 227) . Nessas passagens, percebe-se claramente que o que está em
definição, intervém "um terceiro termo" (BEN95: 54), qual seja, a coisa, a própria questão não é mais a noção de signo saussuriana, a que foi objeto de análise
realidade. Para Benveniste, há "contradição entre a maneira como Saussure define em natureza do signo linguístico, mas uma nova noção de signo, dessa vez marcada
signo linguístico e a natureza fundamen tal que lhe atribui" (BEN95: 55) . Benve- por um outro princípio: o uso. A noção de signo desenvolvida por Benveniste,
niste considera que "entre o significante e o significado o laço não é arbitrário: pelo nesse texto, inclui a noção de uso.
contrário, é necessário" (BEN95: 55 [grifo do autor]. Arbitrário é que o signo possa Fonte da nota: BEN89: 227.
se aplicar a um determinado elemento da realidade e não a outro. Assim, Benve- Leitura recomendada: BEN89; BEN95.
niste, ao contrário de Saussure, passa a considerar a arbitrariedade como algo que Termos relacionados: dêixis, língua (2), signo vazio.
diz respeito à relação entre o signo e a realidade, ao passo que a arbitrariedade fi-
caria circunscrita à relação entre o significante e o significado. Em outro texto, pu- signo (2) S. m. Récanati
blicado mais de vinte anos depois, "A forma e o sentido na linguagem ", Benveniste Definição: produto da relação entre um elemento representante e um elemento
volta a falar sobre signo ling,.uístico, agora em um novo contexto: o da distinção representado.
semiótico/semântico e forma/sentido. Ao considerar, a exemplo de Saussure, que Fonte da definição: REC79.
a língua é um sistema de signos, Benveniste diz: "Compete-nos ir além do ponto a Nota explicativa: Récanati utiliza o termo genérico coisa, pertencente à tradição
que Saussure chegou na análise da língua como sistema significante" (BEN89: 224). filosófica, para considerar que o signo é uma coisa que representa outra coisa. Com
A maneira como Benveniste operacionaliza esse "ir além " ancorando-se na divi- isso, quer dizer que algo pode ser representante de algo, o representado. O signo
são semiótico/semântico, segundo ele, "em tudo diferente daquela que Saussure pode ser, por exemplo, um pensamento, uma enunciação escrita ou uma enun-
tentou instaurar entre língua e fala" (BEN89: 229). O signo está ligado ao modo ciação falada, ou seja, uma coisa, que só assume sua condição de signo quando há
semiótico de existência da língua e, nesse modo, ele tem forma e sentido. A forma uma relação de significação entre a coisa representante e a coisa representada. O
no semiótica diz respeito ao significante, entendido como o "aspecto formal da signo surge quando a coisa representada, por exemplo, uma maçã, é representada
entidade chamada signo" (BEN89: 225); o sentido no semiótica diz respeito às rela- por meio de um pensamento ou de uma enunciação. Assim, é apenas na relação
ções de oposições com os outros signos da língua, pois, no semiótica, "ser distintivo entre a coisa representante e a coisa representada que surge o signo.
Fonte da nota: REC79.
1
e ser significativo é a mesma coisa" (BEN89: 228). E é especificamente quanto
ao sentido da unidade do semiótica que Benveniste parece querer explicitar o "ir Leitura recomendada: REC79.
I
além" de Saussure. Observe-se as passagens a seguir: "Para que um signo exista, Termos relacionados: opacidade (2), transparência.
é suficiente e necessário que ele seja aceito e que se relacione de uma maneira ou
de outra com os demais signos. A entidade considerada significa? A resposta é signo ideológico S. m. Bakhtin
sim ou não. Se é sim, tudo está dito e registre-se; se é não, rejeitemo-la e tudo está Definição: forma variável e flexível da comunicação discursiva.
dito também. ' Chapéu' existe? Sim. 'Chaméu' existe? Não. A questão não é mais Fonte da definição: BAK95b: 93.
de definir o sentido, enquanto o que releva da ordem semiótica. No plano do sig- Nota explicativa: O signo ideológico não só existe como parte de uma realidade,
nificado, o critério é: isso significa ou não? Significar é ter um sentido, nada mais. mas também reflete e refrata uma realidade que lhe é exterior, apreendendo-a de
E esse sim ou não só pode ser pronunciado por aqueles que manuseiam a língua, um ponto de vista específico. Na relação signo I ideologia, pode-se dizer que sem
aqueles para os quais essa língua é a língua e nada mais. Nós erigimos, dessa forma, signos não há ideologia. Todo signo é considerado ideológico e está sujeito a crité-
a noção de uso e de compreensão da língua como um princípio de discriminação, rios de avaliação (verdadeiro, falso, correto, justificado, bom etc.), o que permite
um critério. É no uso da língua que um signo tem existência; o que não é usado afirmar que não existe signo neutro. Os campos do ideológico e do semiótico (sig-
não é signo; e fora do uso o signo não existe. Não há estágio intermediário; ou está nos) são mutuamente correspondentes: o ideológico possui valor semiótico e o se-
na língua ou está fora da língua, 'tertium non datur"' (BEN89: 227) . E acrescenta: miótica possui valor ideológico. O signo (ideológico) se materializa, de modo ver-
bale/ou não-verbal, 110 processo de interação social entre sujeitos historicamente
forma de identificação do grupo. Os símbolos fazem parte do primeiro momento
situados, os quais desempenham papéis ativos. Nessa interação, a ~ompreensão do
de estudo de Bally, a Estilística.
signo se dá como uma resposta por meio de outros signos, a~ro~rmaçã~ a outros Fonte da nota: BALSI.
signos conhecidos. Isso num contexto preciso, numa en~ncra~ao partrc~la.r, em
Leitura recomendada: CHI85; DUR98; MED85.
·
que o srgno, consr·der·ando seus diversos acentos valorativos, mstaura. drferentes
Termos relacionados: Estilística, fato de expressão, meio de expressão.
relações dialógicas, relações de sentido, com outros signo~. Para Bakhtm, o aspect~
semiótica da comunicação discursiva melhor se concretJZa pela palavra, a q~al e símbolo-índices. m. Jakobson
considerada um fenômeno ideológico por excelência, que, por sua natureza dinâ-
Definição: categoria linguística que articula o código à mensagem.
mica, acompanha as mudanças sociais. Fonte da definição: JAK69a.
Fonte da nota: BAK9Sb: 31-32,34-36,93.
Nota explicativa: Foi Charles Pierce, no terreno da Semiótica, quem propôs o
Leitura recomendada: BAK95b; CLA98; FAR03.
termo símbolo-índice (dentro da classificação dos signos em símbolos, índices e
Termos relacionados: acento de valor, refração, sinal. ícones). Jakobson faz uma leitura linguística da proposta de Pierce, destacando a
imbricação en tre código e mensagem no evento de fala. Um símbolo está associa-
signo vazio S. m. Benveniste do ao objeto representado por uma regra convencional (pertencente ao código),
Outras denominações: forma vazia, dêitico. enquanto que um índice está em uma relação existencial com o objeto que ele
Definição: signo cuja referência é a situação a cada vez única da enuncia~ão, que representa (aponta para). Jakobson propõe a tomada do pronome pessoal como
se torna pleno assim que um locutor o assume em cada instância do seu drscurso. um símbolo-índice. Por exemplo, "eu" não pode representar seu objeto sem estar
Fonte da definição: BEN95: 280. associado a ele por uma convenção, um símbolo. Ao mesmo tempo, "eu" só pode
Nota explicativa: Os signos vazios são os responsáveis pela conversão .da lín~ua representar seu objeto em uma "relação existencial" com ele, ou seja, indicando
em discurso e pela subjetividade na linguagem. Exemplos de signos vaz10s: os m- seu enunciador. Segundo Jakobson, os shifters (como, por exemplo, os pronomes
dicadores de pessoa (eu, tu), os indicadores de ostensão (este, esse), os pronomes pessoais) são um exemplo de combinação entre essas duas funções, sendo assim
(meu, teu), os advérbios (aqui, agora), as locuções adverbiais (neste lugar, nesta considerados sín1bolos-fndices. Ou seja, o símbolo-índice tem a característica de
hora) e todos os seus correlates, e ainda as variações do paradigma verbal. simultaneamente pertencer ao código e apontar para aqu ilo que ele representa em
Fonte da nota: BEN95: 279-282. cada enunciação.
Leitura recomendada: BEN95. Fonte da nota: JAK69a.
Termos relacionados: discurso (4), signo (1), subjetividade. Leitura recomendada: JAK69a; FLOOl; FLOOS; FL008.
Termos relacionados: enunciação (8), estilo (2) , shifter.
símbolo s. m. Bally
Definição: elemento constitutivo da estrutura da língua, suscetível de receber um sinal S. m. Bakhtin
sentido no uso. Definição: elemento de caráter imutável da língua.
Fonte da definição: BAK9Sb: 93.
Fonte da definição: BALSl.
Nota explicativa: o estudo da linguagem, conforme Bally, inclui dois níveis:. o da Nota explicativa: Bakhtin considera a relação entre o sinal e o signo na sua reflexão
afetividade e subjetividade e o dos símbolos, o sistema da língua, que é atual~za.do sobre a língua. O sinal constitui apenas um instrumento técnico para designar um
pelo falante para expressar-se. É raro que um símbolo corresponda a um umco objeto ou acontecimento. É uma forma estável e sempre igual a si mesma. Não
fato de pensamento. Da mesma forma, dificilmente um pensamento traduz-se por pertence ao domínio da ideologia; por isso, não reflete, nem refrata outros senti-
apenas um símbolo. Os símbolos empregados pelo falante devem ser os n:~smos dos. Na perspectiva enunciativa, o locutor não está interessado na forma linguís-
tica como sinal que, em qualquer caso em que é mobilizado, permanece sempre
em um grupo social, seja ele formado por uma comunidade ~eográ~ca, f~rmhar ou
idêntico, mas sim pela possibilidade de essa forma linguística figurar num dado
com qualquer outro tipo de ligação entre os indivíduos, servmdo, mclusrve, como
contexto como um signo mutável e flexível. Sob esse enfoque, Bakhtin afirma que
a "pura sinalidade" não existe, e o elemento que torna a forma linguística um signo relativa à atitude do sujeito e à situação enunciativa. Desse modo, sintagmatização
não é a sua identidade como si nal, mas sua mobilidade específica, a capacidade de está a serviço de semantização.
receber uma ou o utra o rientação avaliativa. Por conseguint e, o comp onente de Fonte da n ota: EBE06.
"sinalidade" da língua é dialeticamente deslocado, absorvido pela nova qualidade Leitura recomendada: BEN89A; BEN89D; BEN95D.
do signo, que não dissocia sinal e reconhecimento. A p alavra em uso não se apre- Term os relacio nados: discurso ( 4), frase (2), palavra (2).
senta como um item do dicionário, mas como parte das mais diversas enunciações
dos locutores A, B ou C de sua comunidade e das múltiplas enunciações de sua situação de comunicação s.f Charaudeau
própria p rática linguística. Logo, a fo rma linguística se apresenta aos locutores no Definição: meio extralinguístico ao qual estão ligados os indivíduos de uma comu-
contexto de enunciações precisas, o que p ermite afirmar que a palavra é sempre nidade social quando interagem pela linguagem.
carregada de um conteúdo ou de um sentido ideológico ou vivencial. Po rtanto, na Fonte da definição: CHA92: 634-635.
relação sinal/signo, o locut or assume um ponto de vista, uma posição apreciativa, Nota explicativa: A situação d e comunicação é o quadro, ao mesmo tempo físi-
e, não recebendo a língua pronta para ser usada, participa ativamente do processo co e mental, em que se constrói um contrato de troca linguageira, em função da
social da comun icação discursiva.
identidade dos parceiros e do projeto de fala do sujeito falante. Na situação de
Fonte da nota: BAK95b: 92-95.
comunicação, instituem-se as restrições que determinam, em parte, a expectativa
Leitura recom end ada: BAK95b; TEZ03.
da troca linguageira, restrições essas provenientes da identidade dos parceiros do
Term os relacionados: relações lógicas, significação (1), signo ideológico.
intercâmbio e do lugar que ocupam na troca, da fin alidade do ato comunicativo,
do propósito ou universo de discurso tematizado e das circunstâncias materiais
sincronia s.f Jakobson (físicas) em que se desenvolve. As restrições situacio nais do ato de comunicação
Definição: categoria de análise da língua que determina um recorte específico no tempo.
são dados externos cuja finalidade é construir o d iscurso, respondendo à questão
Fonte da definição: JAK85.
do "estamos aqui para dizer o quê?" e, assim, p roduzem instruções que devem
Nota explicativa: O conceito de sincronia fo i primeiramente proposto por Saussu-
encontrar seu correspon dente em um "como dizer?". São os seguin tes os com-
re, no Curso de Linguística Geral. Para ele, a sincronia diz respeito à análise estática
ponentes da situação de comunicação: caracterfsticas físicas da troca linguageira:
da língua: "a linguística sincrônica se ocupará das relações lógicas e psicológicas
os parceiros estão presentes fisicamente um diante do outro ou não; são únicos
que unem os termos coexisten tes e que formam um sistema, tais como são per-
cebidos pela consciência coletiva" (SAU74: 116) . Jakobson retom a esse conceito ou múltiplos; são próximos ou distantes um do outro; o canal de transmissão é
contestando, contudo, seu caráter estático. Em sua perspectiva, a sincronia é dinâ- oral ou gráfico, direto ou indireto; é utilizado (ou não) outro código semiológico;
mica, ou seja, "qualquer modificação ocorre, em primeiro lugar, no plano da sin- características identitárias dos parceiros: sociais, socioprofissionais, psicológicas e
cronia, e é, desse modo, compon ent e do sistema" (JAK85: 64). Assim, os conceitos relacionais; caracteristicas contratuais: troca (situação de interlocução, em que os
de coexistência e de sucessão no tempo se entrelaçam na língua (JAK85: 72). parceiros do ato de comunicação estão fisicamente em presença um do outro e
Fonte da n ota: EJA06; JAK85; SAU74. ligados por um contrato de troca imediata ) e não-troca (situação de monolocução,
Leitura recomendada: JAK85; SAU74. na qual os parceiros, estando face a face ou não, estão ligados por um contrato de
Termos relacionados: diacronia, língua (3). troca postergada, por não ocorrer, q uando do discurso do sujeito falante, a inter-
venção do interlocutor).
sintagmatização s.f Benveniste Fonte da n ota: CHA92: 636-638; CHA97: 67-68; CHA01b; CHA04a: 450-453;
Definição: trabalho realizado por quem utiliza a língua, relativo ao estabelecimen- CHA04b: 22; CHAOS.
to de inter-relações entre as palavras que constituem o enunciado. Leitura recomendada: CHA83; CHA08; CHA92: 636-638; CHA97; CHAOlb;
Fonte da definição: EBE06. CHA04a; CHA04b; CHA05.
N ota explicativa: A noção d e sintagmatização está atrelada à noção de semantiza- Termos relacionados: contrato de comunicação, dispositivo do ato de linguagem,
ção. Estabelecem-se conexões entre as palavras porque há um a ideia a ser expressa, domínio de comunicação.
,
situação de discurso s.f Benveniste . . subjetividade s.f Benveniste
D efinição: circunstância irrepetível de apropriação da língua que mstaura a mterlo- Definição: passagem de locutor a sujeito.
cução e a instância espacial e temporal coextensiva e contemporânea da enunciação. Fonte da definição: BEN95: 286.
Fonte da definição: BEN89: 81-90. Nota explicativa: Há d iferentes p erspectivas de enfoque da noção de subjetivida-
Nota explicativa: A situação em que se realiza o discurso inclui as coordenadas de na teoria benvenistiana, nem sempre convergentes. Isso se dá por um motivo
espaciais, temporais e pessoais, relativamente à enunciação como centro. simples: Benveniste teorizou sobre o tema em vários co ntextos teóricos, ao longo
Fonte d a nota: BEN89: 81-90. dos mais de trinta anos de trabalho. Assim, a questão da subjetividade não pode ser
Leitura recomendada: BEN89; BEN95. desvinculada do con texto em que fora produzida na teoria benvenistiana. Toma-
Termos relacionados: discurso (4), sujeito (2) . se, aqui, por base, em primeiro lugar, o texto "Da subjetividade na linguagem" que,
como sugere o título, é fundamental para elucidar a noção de subjetividade. Nesse
situação de enunciação s.f Culioli . texto, Benveniste apresenta a linguagem como condição de existência do homem
Definição: parâmetro teórico que indica o conjunto de situações q ue constituem o e como tal sempre referida ao outro, o que acaba por vincular linguagem e inter-
sist ema de referência do enunciado. subjetividade. A linguagem é constitutiva do h omem na justa medida em que a
Fonte da definição: CUL99a. • intersubjetividade lhe é inerente, sem o que não se poderia encontrar "um h omem
Nota explicativa: Esse espaço enunciativo não é dado em definitivo. É produzido
falando com o utro homem" (BEN95: 285). Assim, pode-se dizer que a mesma
por cada ato de enunciação em que cada utilizador de uma língua natural constrói,
linguagem que está "na natureza do homem, que não a fabricou" (BEN95: 285),
por sua enunciação, seu próprio referencial espacial e temporal (chamado sistema
é constitutiva desse homem sob a "condição da intersubjetividade". E é essa condi-
referencial): esse n ão é, entretan to, objetivado, universal, exterior e independente
ção que "se reflete na língua" (BEN89: 80). Em "Da subjetividade na linguagem",
de t od o utilizador. Para Culioli, um termo é identificado em relação à situação de
Benven iste d iz também que "É n a e pela linguagem que o hom em se constitui como
enunciação Sit (S, T ), definida pelos parâmetros S, sujeito enunciador, e T, tempo da
sujeito" (BEN95: 286). Esse "na e pela linguagem" é fundamental porque confere
enu nciação. Pode-se trabalhar seja sobreS, seja sobre T, seja sobreS e T, seja sobre a
à linguagem a propriedade de ser, ao mesmo tempo, "condição de" e "meio para".
remissão global a Sit. Com S, distinguem-se enunciador e locutor; com T, trabalha-
O "na linguagem" diz respeito à condição do homem e é relativa à noção de in-
se sobre o espaço-tempo e, particularmente, sobre a classe ordenada d~s instantes.
tersubjetividade; o "pela linguagem" diz respeit o ao "se reflete na língua". Para o
Fonte da no ta: CUL99a.
devido enten dimento disso, é preciso recorrer à versão em francês do texto porque
Leitura r ecom endada: FRA98; FUC84.
se deve estar atento a algumas marcas tipográficas. Diz Benveniste no texto em
Termos relacionados: enunciação (5), enunciador (4).
francês: "c'est dans et parle langage que l'homme se constitue comme sujet; parce
que le langage seul fonde en réalité, da ns sa réalité qui est celle de l'être, le co ncept
subentendido s. m. Ducrot
Outras definições: sentido implícito. d'"ego" (BEN66: 259). O itálico de sa remete indubitavelmente a sujet, também
Definição: sentido implícito constituído na enunciação. em itálico. Vê-se, nesse caso, a passagem de uma visão de homem para uma visão
Fonte da definição: DUC77. de sujeito e isso ocorre "dans et parle langage". É a partir desse raciocínio que se
Nota explicativa: O termo subentendido é apresentado por Ducrot nos estudos inclui a questão da subjetividade. Observe-se a continuidade do pensamento de
vinculados à pragm ática, da qual, ma is tarde, o au tor se distan cia. Inserido nessa Benveniste: "'la s ubjectivité' dont nous traitons ici est la capacité du locuteur à se
reflexão, ligada aos atos de fala, o subentendido diz respeito ao modo pelo qual o poser comme 'sujet'" (BEN66: 259). Agora são as aspas que garantem a coesão da
sentido pode ser in terpretado pelo interlocutor em determinada circunstância de frase. Trata-se, nesse caso, de uma "subjectivité" que marca a passagem de locutor
enunciação. Na sequência "Pedro parou de fumar", por exemplo, tem-se como a "sujet". Ou seja, a subjetividade entre aspas remete, nessa passagem do texto, a
subentendido "Se Pedro parou de fumar, você tam bém conseguirá", que é um sujeito também ele entre aspas. Essa passagem de locutor a sujeito se dá "dans et
sentido, entre vários outros, possível de interpretação pelo interlocutor. parle langage". Para Benveniste, tal "subjectivité" se determina p elo stat~1s linguís-
Fonte d a nota: DUC87. tico da pessoa. A subjetividade é a passagem de locutor a sujeito e essa passagem se
Termos relacionados: enunciação (6), posto (l), pressuposto (1) . apresenta na lingua através de marcas específicas que são do campo da categoria
-de pessoa. Em resumo, olhando por um determinado prisma, na teoria de Benve- aproximativos. Encontram-se usos que se poderia chamar de não-teóricos, já que
niste, intersubjetividade, linguagem e homem estão correlacionados, assim como eles não têm grandes implicações no conjunto da reflexão benvenistiana: t rata-se,
o estão subjetividade, língua e pessoa. Nessa perspectiva, a subjetividade está mar- nesse caso, de sujeito relativo a indivíduo que fala. Em "Estrutura das relações de
cada no sistema da língua. É essa noção de subjetividade que permite Benvenis~e pessoa no verbo", de 1946, Benveniste, comentando a ordem social presente nas
elaborar as análises linguísticas ligadas à categoria de pessoa (os tempos verbais, distinções verbais do coreano, diz que "as formas são diversificadas ao extremo se-
os pronomes etc.). Há, no entanto, uma segunda possibilidade de entendimento gundo o nível do sujeito e do interlocutor e variam segw1do se fale a um superior,
da noção de subjetividade na teoria Benveniste que está ligada ao exercício da lin- a um igual ou a um inferior " (BEN95: 248).
guagem. Nessa segunda perspectiva, a subjetividade está fortemente relacionada Não muito distante desse uso está uma ocorrência de sujeito no texto "O Aparelho
à noção de enunciação e não mais às marcas linguísticas da passagem de locutor formal da enunciação". Ao fala r da realização vocal da língua e da_prática científica
a sujeito. Assim, subjetividade pode ser entendida como ligada ao ato de discurso que procura eliminar ou atenuar os traços individuais da enu nciação, Benveniste
que é constituído pela temporalidade da instância de discurso e pela linguagem. diz que o linguista recorre "a sujeitos diferentes" (BEN89: 82) para m ultiplicar os
Fonte da nota: EBE06. regist ras e alerta que a noção de iden tidade, em se tratando de realização vocal,
Leitura recomendada: BEN95B; FL007. é apenas aproximativa, já que "para o mesmo sujeito, os mesmos sons não são
Termos relacionados: intersubjetividade, pessoa (2), sujeito. jamais reproduzidos exatamente" (BEN89: 82-83) . Há, também, usos cuja espe-
cificidade decorre da alternância com outros termos. Como em "Estrutura da lín-
sui-referencial adj. Benveniste gua e estrutura da sociedade", de 1968, em que a especificidade de sujeito decorre
Definição: propriedade dos signos de remeter seu emprego a sua própria enunciação. da alternância com falante: "Para cada falante o falar emana dele e retoma a ele,
Fonte da definição: EBE06. cada um se determina como sujeito com respeito ao out ro ou a outros" (BEN89:
Nota explicativa: Benveniste apresenta uma classe de signos que emana da enun- 101). As nuances de sentido podem se complexificar ainda ma!s em função dos
ciação e que remete à enunciação. Tais signos só podem ser identificados na ins- termos q ue coocorrem com sujeito. Observe-se a passagem a seguir, presen te em
tância de discurso que os contém uma vez que têm referência própria e correspon- "A natureza dos pronomes", em que Benveniste utiliza, p rimeiramente, a expres-
dem, cada vez, a um ser único. Seu emprego define as coordenadas da instância são "sujeito falante" entre aspas e, em seguida, diz: "É identificando-se como pes-
de discurso - as noções de pessoa, tempo e espaço -, e essa referência, mediante soa única pronunciando eu que cada um dos locutores se propõe alternadamente
estabelecimento de correlações, permite deslocamentos espaciais e temporais. como 'sujeito'" (BEN95: 280-281) [grifo nosso]. Há aqui termos que não se reco-
Fonte da nota: EBE06. brem teoricamente: sujeito falante, pessoa, locutores e sujeito. Por motivos óbvios,
Leitura recomendada: BEN89B; BEN95A; BEN95B. o termo adquire grande relevância teórica em "Da subjetividade na linguagem",
Termos relacionados: indicadores de subjetividade, signo vazio, situação de discurso. de 1958. Nesse texto, Benveniste parece deixar entrever que o sujeito não é nem
homem- "É na linguagem e pela linguagem que o homem se constitui com o su-
sujeito (1) S. m. Bally jeito." (BEN95: 286) - , nem locutor- "A 'subjetividade' de que tratamos aqui é a
V. sujeito falante (1) capacidade do locutor para se propor como 'sujeito'". (BEN95: 286). Ou ainda: "A
linguagem só é possível porque cada locutor se apresenta como sujeito, remetendo
sujeito (2) s. m. Benveniste a ele mesmo como eu no seu discurso" (BEN95: 286). E também: É na instância do
Outras denominações: eu. discurso na qual eu designa o locutor que se enuncia como "suj eito". (BEN95: 288).
Definição: constituição do homem na linguagem e pela linguagem. Fonte da nota: ON007; FL007.
Fonte da definição: BEN95: 286. Leitura recomendada: BEN95B, FLOOS; FL008.
Nota explicativa: O termo sujeito aparece, nos textos de Benveniste, com diferentes Termos relacionados: intersubjetividade, locutor (2), sem ântico.
sentidos. Excetuadas as ocorrências em que sujeito tem uso próximo a estudos da
tradição gramatical ou relativos à sintaxe em seu aspecto formal, um breve le- sujeito barrado S. m. Authier-Revuz
vantamento permite vislumbrar algumas ocorrências e seus respectivos sentidos V. sujeito clivado
sujeito clivado s. m. Authier-Revuz sujeito-efeito s. m. Authier-Revuz
Outras denominações: sujeito barrado, sujeito descentrado, sujeito dividido. Outras denominações: efeito-sujeito.
Definição: instância de constituição do ser pelo inconscie~te. Definição: figu ra enunciativa resultante da determinação do sujeito pelo incons-
Fonte da definição: AUT04aC. ciente e pelo interdiscurso.
Nota explicativa: A noção de sujeito clivado é formulaç!a de acordo com a psicaná- Fonte da defuüção: AUT98: 17.
lise freu~o-lacaniana e remete à divisão do sujeito, irredutível a desd obramentos e Nota explicativa: O terino sujeito-efeito indica, na teoria de Authier-Revuz, o reco-
compartJment~ções e_m duas pa1·tes ou em múltiplas "personagens" colocadas em nhecimento de que o sujeito não é origem de seu dizer, uma vez que é determinado
cena na en~nCJação. E um conceito ao qual Authier-Revuz recorre para explicar a pelo Íl1consciente, tal como definido no campo da psicanálise lacaniana, e pelo
heterogeneidade teórica à linguística mobilizada. Dizer que o sujeito é clivado não interdiscurso, tal como definido pelas teorias do discurso de M. Pêcheux. É através
significa fazer juízo de valor, isto é, a clivagem do sujeito não é nem boa nem rui
m. dessa noção que a autora busca faze r convergir os exteriores teóricos por ela cha-
Trata-se
. . de clivagem estrutural, constitutiva do "eu", que resulta da falta que se mados para constituir sua teoria da enunciação.
1mpnme no ser por sua conclição de desejante e descentrado pelo inconsciente.
Fonte da nota: AUT98A; AUT04aC: 65.
Fonte da nota: AUT98A: 169; AUT04aC: 63-65; TEI05a: 149-15 1.
Leitura recomendada: AUT98;' AUT04a; TEI05a. Leitura recomendada: AUT98; AUT04a.
Termos relacionados: heterogeneidade teórica, sujeito-efeito. Termos relacionados: interdiscurso, sujeito clivado.

sujeito da enunciação s. m. Greimas sujeito empírico S. m. Ducrot


Definição: sujeito produtor do discurso, que engloba tanto o enunciado r quanto V. sujeito falante (2)
o enunciatário.
Fonte da definição: GRE79a: 125. sujeito falante ( 1) s.111. Bally
Nota explicativa: O termo sujeito da enunciação é tomado freq uentemente como Outras deno.minações: inclivíduo falante, locutor, sujeito
sinônimo de enunciador. No entanto, o en unciatário é tão produtor do discurso Definição: marcação por meio da língua que um indivíduo faz de si mesmo, do
quanto o enunciador: de um lado, porque a "leitura" é um ato de linguagem (um mundo, da sociedade, das situações e dos demais indivíduos que o cercam.
at~ de cons~ução da significação) do mesmo modo que o ato de produção pro- Fonte da defulição: BAL51; BAL65; BAL67.
pna~ente dito; de o utro, porque o enunciador produz o texto para uma imagem Nota explicativa: O uso da linguagem está condicionado à visão que o sujeito tem
de le1tor, que determina as diferentes escolhas en unciativas, conscien tes ou incons- de si, dos outros e do mundo. Ao agir no mundo, impondo-se através da lingua-
cientes, presentes no enunciado. Ao colocar o enunciatário como uma das instân- gem, valendo-se do mecanismo da expressividade, esse sujeito deixa marcas de sua
cias do sujeito da enunciação, Greirnas quer ressaltar seu papel de coenunciador. afetividade, de sua singularidade. Essas maTcas se referem exatamente ao contexto,
Com efeito, a imagem do enunciatário constitui uma das coerções discursivas a
à situação e à interlocução e podem ser depreendidas através da comparação dos
que obedece o enunciador: não é o mesmo produzir um texto para um especialista
fatos expressos por esse fala nte com outros fatos de linguagem. O sujeito, então,
numa dada disciplina ou para um leigo; para uma criança ou para um adulto.
Fonte da nota: FI004a: 135; GRE79a: 125. não vê a si mesmo, não vê aos demais e nem é visto por eles de forma objetiva, há
Leitura recomendada: FI004a; FI004b; GRE08. sempre um filtro, que é o seu olhar, a imagem que faz de tudo o que o cerca. O que
Termos relacionados: debreagem, enunciador (5), enunciatário. os sujeitos podem perceber uns dos outros são apenas as manifestações exteriores
de seus seres reais, especialmente aquelas realizadas a partir do uso da linguagem;
sujeito descentrado S. m. Authier-Revuz e mesmo quando a interpretação dessas manifestações é bastante fiel, ela não cor-
V. sujeito clivado responde ao interior exato dos sujeitos, mas a uma representação, aquilo que é
manifesto exteriormente através do uso da linguagem, na qual ele deixa marcas. O
sujeito dividido s. m. Authier-Revuz sujeito falante integra tanto ao primeiro momento de estudos de Bally, que corres-
V. sujeito clivado ponde à Estilística, quanto à segunda fase, a Teoria Geral da Enunciação.
Fonte da nota: BALSl ; BAL65; BAL67.
Leitura recomendada: CHI85; DUR98; MED85.
Termos relacionados: expressividade, fato de expressão, língua ( 1).

sujeito falante (2) s. m. Ducrot tema S. m. Bakhtin


Outras denominações: sujeito empírico.
Definição: expressão dinâmica, dialógica e sin gular da enunciação.
Definição: ser dotado de atividade p sicofisiológica necessária à produção do
Fonte da definição: BAK95b: 128.
enunciad o.
Nota explicativa: Há, na teoria bakh tiniana, duas abordagen s relativas ao tema, as
Fonte da definição: DUC87; DUC88.
quais, embora não sejam excluden tes, apresentam características próprias. A primei-
N ota explicativa: O sujeito falante n ão é objeto da descrição linguística, uma vez
ra delas, que ent ende ser o tem a a parte não-reiterável da enunciação, é encontrad