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RESENHA • NOVAS FORMAS DE PODER E CONTROLE NAS ORGANIZAÇÕES

NOVAS FORMAS DE PODER


E CONTROLE NAS ORGANIZAÇÕES
Por Ana Paula Paes de Paula
Professora da UFMG
E-mail: appaula@face.ufmg.br

ECONOMIA POLÍTICA DO PODER


De José Henrique de Faria
Curitiba: Juruá Editora, 2004. v. 1 (202 p.), v. 2 (250 p.), v. 3 (192 p.).

Composta por três volumes, a mais A publicação é bem-vinda, pois são do caminhos para começar um diálo-
recente obra de José Henrique de Fa- poucos os trabalhos que exploram os go entre as diversas vertentes.
ria, Economia política do poder, é fruto estudos organizacionais sob uma Os volumes que compõem a obra
de 25 anos de pesquisa e reflexão. O perspectiva marxista. Na atual valo- de José Henrique Faria podem ser to-
título talvez não remeta o leitor dire- rização de estudos de orientação pós- mados separadamente, mas somente
tamente para questões da esfera dos moderna, o marxismo costuma ser a leitura completa trará ao leitor a
estudos organizacionais, mas o con- apontado como uma grande narrati- verdadeira dimensão do trabalho rea-
teúdo traz uma densa e sólida discus- va e vem ocupando uma posição cada lizado pelo autor. No primeiro volu-
são sobre as relações de poder nas or- vez mais marginal. As perdas não po- me, identificado pelo subtítulo “Fun-
ganizações sob uma perspectiva crí- deriam ser maiores, pois juntamente damentos”, Faria procura delinear as
tica. Inspirado pela teoria crítica com o marxismo relega-se o potencial bases epistemológicas e teóricas da
frankfurtiana, o autor procura fundar de crítica e análise presente no méto- economia política do poder, exploran-
uma linha de pensamento por ele de- do dialético e nas elaborações de vá- do o arcabouço que circunda o poder
nominada economia política do poder, rios autores que o professam. Dessa e o controle nas organizações sociais,
uma concepção interdisciplinar do es- forma, mais do que valorizar o emba- por meio da discussão de questões
tudo do poder nas organizações que te entre modernismo e pós-modernis- que sustentam o pensamento marxis-
abrange as ciências econômicas, as mo, os estudiosos das organizações ta, tais como a organização e a divi-
ciências sociais, a história e a psicos- deveriam optar por uma posição mais são do trabalho, a exploração do tra-
sociologia. A exemplo dos marxistas heterodoxa e buscar articular as con- balho, os processos de trabalho e de
ocidentais, Faria se vale das noções de tribuições presentes nas diversas cor- valorização, o processo de acumula-
estrutura e superestrutura para avaliar rentes de pensamento. O resgate de ção de capital e as tecnologias físicas
como operam as instâncias manifestas autores como Herbert Marcuse, e de gestão. Em seguida, Faria faz uso
(regramento e estruturas) e ocultas (re- Theodor Adorno e Walter Benjamin da dialética para discutir o contexto
lações subjetivas e inconsciente indi- revela que estes anteciparam em dé- político e sócio-histórico no qual as
vidual) nas configurações de poder e cadas as preocupações que hoje cir- relações no mundo contemporâneo se
controle das organizações. cundam os pós-modernos, apontan- desdobram. O autor resgata os con-

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ANA PAULA PAES DE PAULA

ceitos de classe social, elites e oligar- crítica, abrindo caminhos para futu- dessas instâncias. As sete matrizes ge-
quia em uma tentativa de atualizá-los ros pesquisadores interessados em radas constituem um modelo
e consolidá-los à luz das novas reali- aprofundar as análises e validar as referencial teórico-analítico valioso
dades sociais. Outro capítulo é dedi- críticas realizadas. Finalizando o vo- para qualquer pesquisador que esteja
cado à análise dos conceitos de poder lume, Faria realiza uma análise da interessado na questão do poder e do
e de suas relações, destacando-se pela transição do taylorismo-fordismo para controle nas organizações. O autor
síntese e profundidade alcançadas pelo a gestão flexível, por meio de um es- encerra o capítulo discutindo a ques-
autor. Finalizando esse volume, Faria tudo de caso que aborda o seu impac- tão das alternativas para a gestão au-
explora o paradoxo existente entre a to nas organizações e nas relações de tocrática, como coletivos e cooperati-
práxis e o discurso nas organizações, trabalho, destacando os novos meca- vas que pregam a mínima divisão ver-
realizando uma discussão sobre res- nismos de opressão, controle e sofri- tical de trabalho, a autonomia, a res-
ponsabilidade social e democracia que mento impostos aos trabalhadores. ponsabilidade, a democracia e o equi-
revela como as organizações estão No terceiro volume, “As Práticas do líbrio ecológico. Resgata também o
reelaborando o controle social por Controle nas Organizações”, Faria ideal de alguns movimentos popula-
meio do discurso da ética corporativa. aprofunda a questão abordada acima, res democráticos, cujo funcionamen-
No segundo volume, intitulado tomando como referência um conjun- to se inspira na autogestão, ou seja, em
“Uma Crítica da Teoria Geral da Ad- to de pesquisas empíricas sobre pro- um sistema de paridade com comple-
ministração”, o autor se dedica a cri- cessos objetivos e subjetivos de con- ta participação nas decisões sobre o
ticar a ideologia que perpassa as ela- trole que emergem nas unidades pro- trabalho e a gestão. Com essa nova re-
borações teóricas da área, que são dutivas. No primeiro capítulo, o autor ferência implícita ao pensamento de
definidoras das formas, processos e resgata as sete instâncias de análise das Maurício Tragtenberg, Faria abre es-
mecanismos de controle nas organi- organizações (mítica, sócio-histórica, paço para suas considerações finais,
zações. A inspiração buscada em seu institucional, organizacional, grupal, que no melhor estilo marxista discu-
mestre Maurício Tragtenberg é evi- individual e pulsional) apresentadas tem a nova crise estrutural do capital
dente, por ter elaborações similares por Eugène Enriquez em seu livro A e apontam a importância, nesse con-
que constam no livro Burocracia e ideo- organização em análise (Petrópolis: texto, de uma teoria crítica do contro-
logia (São Paulo: Ática, 1974). O tra- Vozes, 1997), explorando-as em deta- le sobre o processo de trabalho.
balho de Faria procura seguir o mes- lhe a partir da perspectiva do contro- Neste último volume, o leitor sente
mo caminho, mas amplia o escopo, le. Conclui que a investigação dos falta de um detalhamento das pesqui-
havendo capítulos inteiros dedicados mecanismos de controle deve contem- sas empíricas que serviram de suporte
aos enfoques da teoria administrati- plar a estrutura organizacional, os con- para a elaboração teórica apresentada,
va (organização científica do trabalho, flitos, a identidade e o envolvimento pois estas poderiam fornecer algumas
relações humanas, neoclassicismo, com o trabalho. No capítulo seguinte, bases metodológicas e analíticas que au-
behaviorismo, estruturalismo, funcio- Faria propõe uma teoria crítica do con- xiliariam o pesquisador na reprodução
nalismo, teoria Z, círculos de contro- trole nas organizações. Primeiro, o de investigações da mesma natureza.
le da qualidade e produção flexível). autor mapeia os mecanismos típicos Por outro lado, como o nível de con-
Percorrendo esses capítulos, o leitor de controle articulados em cada uma trole psicossocial costuma ser relegado
tem uma opção de contraponto aos das teorias de administração analisa- pelos pesquisadores devido às dificul-
conhecidos manuais descritivo- das no segundo volume. Em seguida, dades intrínsecas de análise, suas for-
prescritivos de teoria geral da admi- Faria discute, de uma perspectiva teó- mas de controle poderiam ter sido mais
nistração. De um modo geral, os ca- rica, os níveis de controle – econômi- aprofundadas e exemplificadas. Mas o
pítulos são instigantes no que se re- co, político-ideológico e psicossocial –, texto de Faria é uma publicação de fô-
fere à abordagem, mas não esgotam apontando as formas de controle ma- lego a exigir dedicação do leitor, que
totalmente as discussões levantadas, nifestas em cada um deles. Para finali- será plenamente recompensado pelo
deixando o leitor à espera de um zar, ele apresenta uma matriz que cru- seu esforço, pois se trata de uma leitu-
maior aprofundamento. No entanto, za essas formas de controle com as ins- ra indispensável para todos aqueles
justamente por isso geram a impres- tâncias de análise das organizações dis- que se ocupam dos estudos sobre po-
são de que há muitos aspectos inex- cutidas por Enriquez, apresentando se- der e controle nas organizações e ten-
plorados nas teorias da administra- paradamente os controles objetivos e de a se tornar um clássico da teoria or-
ção no que diz respeito à perspectiva subjetivos que emergem em cada uma ganizacional brasileira.

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