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Maurício Tragtenberg

TRAGTENBERG E A
RESISTÊNCIA DA CRÍTICA:
PESQUISA E ENSINO
NA ADMINISTRAÇÃO HOJE

Ana Paula Paes de Paula


Mestre em Administração de Empresas pela FGV-EAESP,
Doutoranda no IFCH-Unicamp e Pesquisadora da Fapesp.
E-mail: appaula@uol.com.br

Espírito crítico e generoso, intelectual autodidata de considera o poder a faculdade de dispor de força ou auto-
grande erudição e humildade, Maurício Tragtenberg sem- ridade para impor deveres. Já a dominação seria um tipo
pre despertou controvérsias, entusiasmo e admiração. Até especial de poder em que as vontades do dominador são
hoje, é impossível ficar indiferente à sua vida e obra. Seus incorporadas pelos dominados, seja por medo, costume
contemporâneos recordam-se dele com saudade e os que ou pela possibilidade de obter vantagens pessoais. A di-
não tiveram oportunidade de conhecê-lo contagiam-se com ferença é sutil, mas relevante, pois indica que é possível
a força de sua história pessoal e de suas idéias. Circulando exercer o poder ainda que existam resistências, mas que
com “formosa liberdade” (Cândido, 1956) entre Marx, só há dominação quando se obtém o consentimento ou a
Weber e autores anarquistas, Tragtenberg deixou-nos como subordinação das pessoas.
legado valiosos escritos no campo da teoria das organiza- Para superar a dominação, Tragtenberg apostava no
ções e das Ciências Sociais. Sua obra comprova que as poder transformador da educação, defendendo uma pe-
idéias não envelhecem, apenas adquirem novas nuanças, dagogia libertária que valoriza, sobretudo, a autonomia e
demonstrando que é um equívoco acreditar que textos an- a determinação humanas. Consciente dos desafios que essa
tigos são inevitavelmente datados e “empoeirados”. pedagogia representava para o sistema educacional de um
A resistência de seu pensamento à ação do tempo tam- modo geral, e particularmente para as universidades, o
bém reafirma a importância dos clássicos como fonte de autor acreditava que a alternativa era “a criação de canais
inspiração para a interpretação da realidade atual e para o de participação real de professores, estudantes e funcio-
desenvolvimento de novas teorias. Nestes tempos de ex- nários no meio universitário, que oponham-se à esclerose
cessiva relativização das idéias que orientam o pensamento burocrática da instituição” (Tragtenberg, 1979, p. 23).
sociofilosófico, seu marxismo heterodoxo é uma referên- A ênfase na necessidade de uma participação real re-
cia fundamental para a academia, pois indica um cami- vela uma outra grande preocupação do autor: o caráter
nho possível para conciliar de modo crítico e rigoroso manipulatório da autogestão e do “participacionismo”
vertentes teóricas diversas. (Tragtenberg, 1980). Na sua visão, a sedução promovida
Sempre engajado na causa da liberdade, Tragtenberg pela abertura de canais de participação e pelo discurso
analisou em profundidade a questão da dominação nas democrático oculta novas formas de dominação, de modo
organizações. Baseando-se no pensamento weberiano, que, para efetivar a participação, é fundamental transcen-

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São • v. 41
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Maurício Tragtenberg

der a falsa democratização, desvendando as armadilhas tionando os rumos do ensino e da pesquisa em sua época.
presentes nos mecanismos formais e na retórica partici- A crítica de Tragtenberg resistiu ao tempo e continua
pativa. incomodando, não porque pareça despropositada, mas
No final da década de 70, baseado nessas percepções justamente porque reflete uma situação que sobreviveu a
e atento às relações cada vez mais opressivas e desiguais mudanças. Sua análise ainda se aplica às universidades
entre professores, alunos e burocratas do ensino, ele de- de um modo geral e adquire maior veracidade no contex-
nunciou a existência de uma “delinqüência acadêmica” to das escolas de Administração, onde, além do saber en-
nas universidades (Tragtenberg, 1979). Na sua visão, os frentar o crônico viés do tecnicismo, a “indústria do
professores e pesquisadores exibiam pouca preocupação management” (Wood Jr., 2001a) estimula todas suas for-
com as finalidades sociais do conhecimento, construindo mas de comercialização.
um saber técnico aparentemente neutro e apolítico, mas
utilizado como instrumento de poder. Monopolistas de
PESQUISA E ENSINO DA ADMINISTRAÇÃO: UMA
DELINQÜÊNCIA ACADÊMICA REVITALIZADA?
PARA DESENVOLVER A
As diretrizes curriculares básicas recomendadas pelo
ADMINISTRAÇÃO COMO CAMPO Ministério da Educação para os cursos de graduação em
DO CONHECIMENTO, É FUNDAMENTAL Administração apontam que o processo pedagógico deve
garantir que o futuro administrador tenha, além de habili-
CRIAR UM SABER TEÓRICO PRÓPRIO, dades técnicas, uma formação humanística, pois ele deve
estar apto a tomar decisões compreendendo o meio onde
QUE RECRIE E UTILIZE OS CONTEÚDOS está inserido.
O administrador deve ser capaz de analisar as organi-
ANALÍTICOS DISPONÍVEIS PARA zações e antever mudanças. Valores como responsabili-
dade social, justiça e ética profissional também são rele-
EXAMINAR OS FENÔMENOS vantes. Além disso, o administrador deve ter consciência
da grande influência de suas decisões sobre as esferas so-
ORGANIZACIONAIS LOCAIS. cial, política, econômica e ecológica. Tal perfil demanda
uma sólida formação teórico-analítica, o que se traduz na
um pretenso saber hegemônico, estes mantinham suas necessidade de ter instituições de ensino que privilegiem
posições por meio da constituição de “panelas acadêmi- a pesquisa e que orientem o processo de aprendizado para
cas,” nas quais a produção de um artigo era o “metro para o desenvolvimento da cidadania.
medir o sucesso universitário” e os congressos “merca- Nas últimas décadas, o crescente status das posições
dos humanos” propícios para “contatos comerciais”. gerenciais, entre outros fatores, aumentou a procura pe-
Tragtenberg também alertou para o risco de o tecni- los cursos de Administração. A questão da qualidade tam-
cismo superar o humanismo, transformando as universi- bém ganhou relevância, ocupando lugar na retórica, e
dades em “multiversidades”, ou seja, “multinacionais da eventualmente na prática, dos dirigentes das instituições
educação” que, ao “mercadorizarem” o ensino, se afas- de ensino. Entretanto, um exame de realidade atual evi-
tam de seu papel social. Assim, os fins formativos são dencia que ainda há um longo caminho a percorrer e com-
deixados em segundo plano, a criação do conhecimento prova a persistência de traços da delinqüência acadêmica
cede lugar ao controle quantitativo de sua produção e o na pesquisa e ensino da Administração no país.
desempenho dos professores e alunos é mais valorizado
do que o aprendizado, de modo que a universidade se
transforma, como afirma Tragtenberg parafraseando Lima PESQUISA: EM BUSCA DE
Barreto, em um “cemitério de vivos”. TEORIAS E TÉCNICAS APROPRIADAS
Ao denunciar a delinqüência acadêmica, Tragtenberg
enfatizava a questão da responsabilidade social das insti- No campo da pesquisa, um levantamento realizado
tuições educacionais, dos professores e dos pesquisadores, por Bertero e Keinert (1994) sobre a produção acadêmica
destacando o papel da universidade na formação cidadã e publicada pela RAE – Revista de Administração de Em-
na produção do conhecimento. Por esse motivo, alertava presas, entre 1961 e 1993, comprovou que a produção
para a crescente deterioração do ambiente acadêmico, ques- nacional nesse período foi de reduzida originalidade e

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Paulo, Brasil.
Tragtenberg e a resistência da crítica: pesquisa e ensino na Administração hoje

baseada predominantemente nos cânones do mainstream biente universitário.


internacional. Para os autores, assim como para Vergara Nos últimos anos, notamos um movimento de reação
e Souza (1995) e Martins (1996), essas constatações rea- por parte de algumas instituições e pesquisadores, princi-
firmam nossa posição de consumidores, repetidores e palmente no que se refere às tentativas de estimular pes-
divulgadores de idéias, teorias e modismos produzidos quisas no campo da cultura e dos estudos organizacio-
fora do país. Tais constatações também demonstram a atu- nais. O lançamento da edição brasileira do Handbook of
alidade das idéias anteriormente defendidas por Guerrei- Organization Studies (Clegg, Hardy e Nord, 1999) com-
ro Ramos (1958). prova esse esforço ao transcender a mera tradução, inclu-
Bertero e Keinert (1994) também identificaram um foco indo notas técnicas de autores nacionais. Do mesmo modo,
na elaboração acadêmica em detrimento da técnica e da o crescimento da área de Organizações nos últimos en-
aplicação gerencial, posição igualmente sustentada pelo contros da Anpad (Associação Nacional de Programas
trabalho de Machado-da-Silva, Carneiro da Cunha e Ambon de Pós-Graduação em Administração) e a criação do Eneo
(1990). Adicionalmente, Bertero, Caldas e Wood Jr. (1999) (Encontro Nacional de Estudos Organizacionais) em 2000
sugerem que, nos últimos anos, ocorreram poucas mudan- também sinalizam a vitalidade das pesquisas no campo.
ças. Os autores advogam que muitos dos trabalhos nacio-
nais são apenas exercícios de autodesenvolvimento, sem
relevância para a construção de conhecimento teórico ou NÃO HÁ COMO APRENDER
prático na área. Também questionam se não estaria haven-
do um esvaziamento da finalidade da pesquisa, uma vez ADMINISTRAÇÃO SEM DOMINAR E
que muitos dos trabalhos parecem ser escritos apenas para
SIMULAR CONTEÚDOS TÉCNICOS.
apresentação e publicação e não são utilizados como refe-
rência em investigações posteriores. PORÉM, A EXAGERADA ÊNFASE
Os autores observam que a Administração em todo o
mundo ainda está em uma fase de construção teórica pre- TECNICISTA EM UM CONTEXTO DE
liminar, não tendo se desenvolvido da mesma forma que
as outras ciências sociais. Por outro lado, apontam o atra- ACELERADAS TRANSFORMAÇÕES
so brasileiro e reconhecem a existência de um consenso
quanto à fragilidade de nossa produção científica, que não TECNOLÓGICAS LEVARÁ MAIS
tem sido bem-sucedida na consolidação de teorias e
acúmulo de conhecimentos, pois explora pouco as ver- ADIANTE À OBSOLESCÊNCIA
tentes teóricas alternativas ou emergentes dos principais
PREMATURA DOS PROFISSIONAIS.
centros de pesquisa internacionais e permite-se permear
pelo gerencialismo dos best-sellers de Administração.
As pesquisas citadas apontam para uma revitalização A difusão de correntes teóricas como o contingen-
da delinqüência acadêmica denunciada por Tragtenberg. cialismo, o neo-institucionalismo, a teoria crítica e a
Reproduzindo o saber tecnicista cultivado pelo main- abordagem pós-moderna está contribuindo para aumen-
stream internacional e presente nos livros promovidos tar a qualidade de nossa produção acadêmica, uma vez
pela “indústria do management”, pesquisadores e pro- que pluralizou o debate, tornando-o mais matizado e
fessores deixam de cumprir seu papel social, pois não consistente. No entanto, se não dialogarmos criticamente
contribuem para a evolução do conhecimento e aparen- com essas abordagens, persiste o risco de continuarmos
temente produzem apenas para manter e cultivar seu como seguidores e reprodutores. A imitação, de fato, im-
status acadêmico. pede a criação de teorias capazes de interpretar o mundo
Por outro lado, no vácuo do saber escassamente pro- que nos circunda e de gerar soluções que transformem a
duzido, perpetua a lógica “mercadorizante” na produção realidade existente.
de artigos e na participação em congressos. Essa lógica é Para desenvolver a Administração como campo do
bastante agravada pela “glamourização” de tudo o que se conhecimento, é fundamental criar um saber teórico pró-
relaciona ao management, que por vezes transforma even- prio, que recrie e utilize os conteúdos analíticos disponí-
tos de caráter científico em meros acontecimentos soci- veis para examinar os fenômenos organizacionais locais.
ais. E não há como negar a persistência das “panelas aca- Este saber deve evoluir com a apropriação “esclarecida”
dêmicas”: temos que reconhecer que ainda são necessári- do conhecimento desenvolvido no exterior e com a reali-
as muitas mudanças para uma real democratização do am- zação de trabalhos de desenvolvimento teórico e empírico.

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Maurício Tragtenberg

ENSINO: A “MULTIVERSIDADE” tração tornou-se um negócio de crescimento e lucros in-


E O “CEMITÉRIO DE VIVOS” vejáveis.
Analisando esse quadro num ensaio sobre tendênci-
Infelizmente, ainda são raras as investigações sobre as no ensino da Administração, Alcadipani e Bresler
o ensino de Administração no Brasil, principalmente no (2000) argumentam que está ocorrendo um processo de
que se refere ao conteúdo dos cursos de graduação e pós- “macdonaldização”. Nesse processo, a tecnologia de fast-
graduação. Ainda assim, alguns pontos são de fácil food é utilizada para padronizar informações e maximizar
constatação: primeiro, a desatualização generalizada dos a quantidade de alunos. Nas “universidades-lanchonete”,
conteúdos; segundo, a adoção “despudorada” de fórmu- professores “adestrados” utilizam recursos pirotécnicos
las prontas e modismos administrativos. para apresentar “receitas de bolo” e “doutrinas sagradas”
Nas escolas de Administração locais, os conteúdos dos manuais de management. Objetivo: fast-imbecilizar
que se desenvolveram no campo da gestão empresarial os estudantes. Conseqüência: embotamento da visão crí-
durante o século XX costumam ser reproduzidos sem tica e do pensamento analítico, com a criação de hordas
reflexão ou contextualização histórica. Prevalece, assim, de profissionais que cultuam símbolos superficiais de
a difusão sem análise crítica de conhecimentos nem sem- poder e status.
pre atuais. Os esforços de atualização restringem-se a Os autores também sugerem que, na “universidade de
lançamentos de handbooks e outros livros didáticos, ge- resultados”, o que importa não é a qualidade da produção
ralmente traduções de obras próprias do mainstream e da formação, mas os números de cursos, matrículas,
norte-americano. aprovações. De fato, algumas faculdades e universidades
O fato de não produzirmos pesquisa em quantidade, estão sendo administradas como se fossem grandes
qualidade e originalidade suficientes limita o conteúdo corporações, onde o aluno é um cliente dentro do “negó-
daquilo que ensinamos. Alimenta-se, assim, a percepção cio educação”, e o objetivo é formar o técnico profissio-
de que a Administração é uma área fundamentalmente ins- nal, e não o profissional cidadão.
trumental e já “globalizada”. Como efeito colateral, é re- Diante desse cenário, podemos dizer que as “multi-
forçada a aversão pelo estudo dos clássicos e de textos mais versidades” profetizadas por Tragtenberg se tornaram
complexos. Desta forma, consolida-se a prática de repro- realidade, reafirmando a perenidade e vitalidade da de-
dução e disseminação de um saber acrítico e descontextua- linqüência acadêmica. Nelas o conhecimento perde es-
lizado. paço para a informação, que é comercializada em paco-
Não é, portanto, surpreendente a fácil inserção que os tes padronizados para atender ao crescente “mercado de
livros populares de gestão encontram também no meio alunos”. Valorizando conteúdos pobres, eventualmente
acadêmico. Num ambiente caracterizado, por um lado, embalados de forma vistosa, as “multiversidades” ini-
pelo vazio de idéias críticas e, por outro, pela demanda bem o desenvolvimento da autonomia intelectual dos
de soluções de problemas concretos, livros de receitas e estudantes e afastam-se do compromisso social de for-
fórmulas encontram terreno fértil. mar profissionais críticos e engajados.
Outro ponto relevante a considerar é o caráter instru- Além de suportar essa maçante padronização do ensi-
mental e tecnicista do ensino da Administração, especial- no, os alunos também sofrem com o ambiente extrema-
mente em nível de graduação. Não há como aprender mente competitivo das escolas de business, permeadas por
Administração sem dominar e simular conteúdos técni- valores como o individualismo e o culto do sucesso. Ca-
cos. Porém, a exagerada ênfase tecnicista em um contex- racterizada por uma lógica instrumental e “mercadorizante”,
to de aceleradas transformações tecnológicas levará mais as escolas de Administração desvinculam-se de seu papel
adiante à obsolescência prematura dos profissionais. De social. O resultado é a insatisfação dos alunos com o cur-
fato, somente a formação de um caráter crítico-analítico so, pois, justamente no momento em que procuram a sua
poderá garantir no futuro um desempenho profissional própria razão de ser por meio da profissão, são sistemati-
adequado. Visão ampla, capacidade de definir e estruturar camente alienados dela.
problemas, postura ética, capacidade de inovar e outras Os professores, por sua vez, pressionados a adequar-se
características só virão de uma experiência de aprendiza- às demandas de um mercado de trabalho que exige pro-
gem que tenha cunho humanista. dutividade e sintonia com a “indústria do management”,
O caráter instrumental e tecnicista do ensino também tendem a repelir teorias e posturas mais críticas. Com o
gera necessidade de constantes reciclagens profissionais desencantamento do corpo docente e discente, as insti-
para atualização de conhecimentos técnicos e contato com tuições de ensino em Administração se tornam “cemité-
“idéias de vanguarda”. Com isso, o ensino da Adminis- rios de vivos”, onde a consciência do poder de trans-

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Tragtenberg e a resistência da crítica: pesquisa e ensino na Administração hoje

formação da realidade se perde e tudo o que resta é a luta trativos e as fórmulas prontas, que ocupam espaço de abor-
pela sobrevivência profissional. dagens teórico-analíticas essenciais a uma formação mais
sólida e humanística.
Além de adensar os conteúdos, também é impor-
CONSIDERAÇÕES FINAIS tante evoluir em termos de didática. Examinando o
campo de Produção e Administração de Operações,
Há mais de 20 anos, Tragtenberg tentou nos advertir Wood Jr. (2001b) sugere que métodos anacrônicos de
sobre a necessidade de conter a progressiva delinqüên- ensino persistem, mas que estão surgindo algumas
cia acadêmica que se desenvolvia nas universidades. Ao inovações bem-sucedidas, principalmente aquelas que
longo deste ensaio, utilizamos o seu pensamento e as deslocam o foco do ensino para a aprendizagem, do pro-
reflexões de alguns pesquisadores brasileiros para de- fessor para o aluno. Também neste sentido, Tragtenberg
monstrar que essa delinqüência persiste no âmbito da (1978) tem muito a nos dizer com sua defesa do
pesquisa e ensino da Administração no Brasil. Assim, autodidatismo e da pedagogia libertária, especialmente
superá-la ainda é um desafio do nosso tempo e envolve porque também está atento para as armadilhas da
um resgate da responsabilidade social das instituições autogestão e do participacionismo.
educacionais, dos professores e dos pesquisadores, a fim Nesta breve discussão, apresentamos idéias e argu-
de garantir a formação cidadã dos administradores, ca- mentos que poderão ser objeto de futuro desenvolvimen-
pacitando-os para tomar decisões que não somente aten- to. Nosso objetivo foi provocar o debate evocando os
dam às necessidades empresariais, mas que também be- legítimos alertas de Maurício Tragtenberg sobre ques-
neficiem a sociedade. tões cruciais que persistiram e ganharam relevância em
Para isso, é fundamental pensar criticamente sobre os nosso campo de atuação. A resistência de suas críticas
rumos da pesquisa e do ensino da Administração no país. relaciona-se à permanência, ainda que em novas roupa-
Estimular a produção de um saber local seria o primeiro gens, da lógica de dominação nas organizações. Suas
passo para mudar a situação do ensino. É justamente nes- obras continuam emanando a força de suas proposições
te vácuo de idéias que prosperam os modismos adminis- libertárias. 

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Atlas, 1999. set. 1978. jan./mar. 2001b.

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