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• Universidade Federal do Ceará







• LITERATURA AFROBRASILUSA E



--
RESIDUALIDADE; NAÇAO CRIOULA,



• OU AFROBRASILUSA?



...'
•,
curso que mente há sempre outro, verdadeiro, com-
Abstract

• prometido com palavras de luz, a iluminar o caos."
• Analisys of Nação Crioula (Creole Nation) - (PONTES, 1999; 21).

• José Eduardo Agualusa's work - in which elements Portanto, falávamos já de uma nomenclatura
• ara pointed ont so to confirm the existence of the não familiar aos historiadores, teóricos, críticos,
• "afrobrasiluso'' literature, a new concept introduced
• ensaístas, professores e pesquisadores das três litera-
• by Roberto Pontes. turas, e muito menos aos leitores utentes da Língua

• Portuguesa.

• Palavras-chaves: afrob rasilusa; residualidade; Sabíamos que a recepção do que estávamos a
• hibridação cultural; mentalidade. propor esbarraria nas reações dos indiferentes (e os

• houve e haverá sempre sobre a face do nosso desven-
• turado planeta); na dos curiosos (que se achegam,

• Três são as questões propostas para discussão degustam o efeito sonoro e mágico do termo, mas
• nesta mesa de comunicações por mim coordenada. tiram o nariz de perto, perdendo o aroma raro das

• Primeira: o conceito de literatura afrobrasilusa; segun- coisas novas); na dos descrentes (que quase sempre

• da: o conceito de residual idade; terceira: o exame da reconhecem a importância de algo diferente, mas não
• adequação desses conceitos à narrativa, ao teatro e à acreditam nas possibilidades do que se diz); na dos

• poesia contemporâneos. Cabe-me iniciar os trabalhos invejosos (a mais abundante categoria de gente a in-
• tecendo considerações em torno do romance epistolar, festar a Terra, que toda iniciativa válida procura tor-

• Nação crioula, do escritor angolano José Eduardo pedear); na dos improdutivos (os quais por excessiva
• Agualusa, para em seguida ouvirmos a comunicação míngua de trabalho criativo não enxergam o que os

• da Dr". Elizabeth Dias Martins acerca doAuto da Com- outros descobrem e não valorizam o parceiro porque

• padecida, o clássico de Ariano Suassuna, a do senão se tornam mais apagados ainda). E haveria
• mestrando e pesquisador da CAPES, Denilson Albano muitas outras variantes que não convém aqui referir,

• Portácio, a propósito do Romanceiro da Inconfidên- pois há também a categoria dos verdadeiros investi-
• cia de Cecília Meireles, e ainda de Marta Leuda Lucas gadores, os interessados em conhecer a novidade e

• de Sousa, mestranda e pesquisadora da FUNCAP, que trabalhar a partir do original, como é o caso do setor

• nos falará sobre Jeremias sem Chorar de Cassiano de Literatura Portuguesa da Universidade Federal de
• Ricardo. Todos, evidentemente, reexaminarão a seu Pernambuco e do Gabinete Português de Leitura, do

• turno as questões enumeradas. mesmo estado, que demonstraram o desejo de rece-
• De início, faz-se necessário indicar os passos ber informes sobre o andamento de nossa pesquisa,

• anteriores da pesquisa que ora mantemos em anda- visando trabalhar seu conceito básico numa dimen-
• mento, fazendo referência à minha dissertação de são mais ampla.

• Mestrado, cujo título é Poesia insubmissa afro- Assim foi que recebemos e aceitamos honro-

• brasilusa, co-editada pela Oficina do Autor (Rio de so convite da Professora Dr", Lucila Nogueira, da
• Janeiro) e Edições UFC (Fortaleza) em 1999. UFPE, para estar de 4 a 7 de outubro naquela Uni-

• Na "Introdução" ao citado trabalho, já em versidade, num fórum internacional que reúne espe-
• 1990, justificando a escolha dos autores cujas obras cialistas em literaturas africanas, brasileira e portu-

Revista • seriam examinadas, a saber, José Gomes Ferreira, guesa, os quais demonstraram interesse em adotar o
• português, Carlos Drummond de Andrade, brasileiro,
do GELNE • termo, afrobrasiluso, como o mais adequado para
VaI. 2 • e Agostinho Neto, africano (angolano), dizíamos: "Os designar um novo fato literário.
N'.1 •
• três pertencem a uma comunidade de língua e expres- Bem diversa do que se entende por litera-
2000 • são afrobrasilusa. Estão como que a demonstrar, num tura africana, brasileira e portuguesa, a literatura

• momento da história de seus povos, que para um dis- afrobrasilusa é algo que tem conformação ontológica
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na hibridação cultural', mas até aqui, infelizmente, Começa, pois, por notável engendramento uma •
tem sido ignorada tanto pela Teoria da Literatura quan- série de cartas datadas, segundo a ordem em que apa- •

to pela Literatura Comparada. recem, de Luanda, Benguela, Paris, Lisboa, Novo •
Ao investigador literário compete, parece-me, Redondo (ou Quisala), Cajaíba (Recôncavo Bahiano), •

adotar postura semelhante à do biólogo, do químico, Rio de Janeiro e Quinta de Saragoça. A narrativa se •
ou do astrônomo, que se põem a observar lâminas e fecha com mais uma carta, esta, de Ana Olímpia a •

reações ao microscópio, pipetas e telescópios, até que Eça de Queirós, que tem dupla função: síntese die- •
conseguem identificar, respectivamente, um vírus ines- gética e capítulo final. •

perado, uma propriedade dietética útil, ou um cometa Mas, como este romance nos põe diante da •
perdido no mais longínquo quadrante do Universo. matéria afrobrasilusa? - todos querem saber, natu- •

Ora, exatamente assim se passou conosco ralmente. •
quando da identificação de um fato literário novo, Muito simples. Nação Crioula é o nome de um •

forçando-me a nomeá-Io, como faz qualquer poeta navio negreiro que abastece com regularidade o Bra- •
diante da novidade, através de palavra nova, pois aqui- sil, de escravos, principalmente, os mercados de Per- •

lo que ainda não é, termina por ser, permitam-me fa- nambuco e Bahia. Com a escolha desta embarcação •
zer uso desta formulação metafísica radical. para centrar a narrativa, o A. consegue contar fluente- •

Procurando agir metodologicamente como os mente e muito à vontade a História do período, tanto •
profissionais mencionados, identifiquei uma espécie da África quanto do Brasil atlânticos, e ainda das rus- •
de literatura escrita em Língua Portuguesa por africa- gas político-diplomáticas de Portugal e Inglaterra,


nos, brasileiros e portugueses, mas que não pertence empenhada esta última em pôr fim ao tráfico escravista •
às literaturas específicas desses povos. Verifiquei que para favorecer seus interesses manufatureiros.


a conformação ontológica da literatura afrobrasilusa Desse modo, a realidade brasileira e a africa- •
reside precisamente na hibridação cultural que lhe é na se sintonizam, e de tal modo, que o mítico e o


peculiar, porque toda cultura viva vem a ser produto fabulístico surgem, espontâneos, na carta final, de Ana •
de uma residualidade, a qual é sempre a base de cons- Olímpia a Eça de Queirós, ao lermos: "Muita gente


trução do novo. Assim também é que toda hibridação não compreende porque é que os escravos, na sua •
cultural revela uma mentalidade e que toda a produ- maioria, se conformam com a sua condição uma vez


ção artística considerada erudita não passa da crista- chegados à Améria ou ao Brasil. Eu também não com- •
lização de resíduos culturais sedimentados. preendia. Hoje compreendo. No navio em que fugi-


Pois bem, "os termos resíduo, residual e mos de Angola, o Nação Crioula, conheci um velho •

residualidade têm sido empregados relativamente ao que afirmava ter sido amigo de meu pai. Ele recor- •
que resta ou remanesce na Física, Química, Medici- dou-me que na nossa língua (e em quase todas as ou- •
na, Hidrografia, Geologia, e outras ciências, mas na

tras línguas da África Ocidental) o mar tem o mesmo •
Literatura (história, teoria, crítica e ensaística) não se nome que a morte: Calunga. Para a maior parte dos •

tem feito uso dos mesmos." (PONTES, 1999b; 1). escravos, portanto, aquela jornada era uma passagem •
Todos sabemos que a transmissão dos padrões através da morte. A vida que deixavam em África, •

culturais se dá através do contato entre povos no pro- era a Vida; a que encontravam na América ou no Bra- •
cesso civilizatório, mesmo que este traga dissimulada sil, um renascimento." (AGUALUSA. 1998; 157). •
consigo a barbárie.?

Essa reflexão de Ana Olímpia sobre o destino •
Exatamente isso é o que podemos ler em Na- humano dos africanos apresados e vendidos como •

ção crioula, romance epistolar no qual o protagonis- mercadoria nas Américas, pungente e verdadeira, fun- •
ta, Fradique Mendes (ser de papel, criação coletiva de num mesmo passo a história de África, Brasil e •

de Eça de Queirós e outros escritores da geração por- Portugal, do mesmo modo que a expressão escrita do •
tuguesa de 1870) redige e envia cartas a Madame de fato narrado se dá no idioma comum a esses países •

Jouarre, madrinha de Fradique, a Ana Olímpia, amante
e mulher do protagonista, e a Eça de Queirós, co-au-
em conseqüência da política colonial portuguesa.
Não pode haver índice maior de concentração
- .


tor do ilustre títere. de residualidade cultural do que este, pois, mesc1a- •





in: Sincretismos: uma ex-

I Sirvo-me aqui da expressão "hibridações culturais", utilizada por CANEVACCI, Massimo •
ploração das hibridações culturais. São Paulo: Studio Nobel, ) 996, e apenas dela, recusando naturalmente as muitas •
impropriedades escritas por este professor do Centro de Antropologia Cultural da Universidade La Sapienza de Roma. •
Para que se faça idéia dos desacertos havidos nesse livro, agravados por uma péssima tradução, basta ler o que se tem


à p. 29, quando o A. fala sobre Caetano Veloso: "Ele é, de fato, brasileiro, nascido na Bahia e representante de ponta •
daquele movimento que transformou a música brasileira, fazendo com que o mundo todo a conhecesse, uma verdadeira • Revista
escola de filosofia aplicada .•.. Como se vê, Carmen Miranda, Noel Rosa, a bossa-nova, os sambas-enredo e Antônio • do GELNE

Carlos Jobim não entram nas cogitações de Canevacci. Na seqüência, tem ele a coragem de reinventar para nós a • Vai 2
História do nosso Modernismo, ao sentenciar: "Nos rastros do mencionado modernismo, que surgiu em São Paulo nos • N'.1
anos 30, Caetano recombina o grande tema da antropofagia com a música." Portanto, voltamos a frisar, fazemos uso tão •
somente da feliz expressão "hibridações culturais", pois este livro de Canevacci é um desastre.
• 2000

Ao falar em barbárie, hoje, logo pensamos em Walter Benjamin que associou definitivamente cultura e barbárie. •
155
2











• das História, ficção e língua, no destino de três na- condição servil nas colônias portuguesas, e depois a
• ções de partes distintas do mundo, África, América e proclamação da Lei Áurea, no Brasil, prejudicou

• Europa, dá-se ao longo do tempo a hibridação cultu- as velhas famílias. Não compreendiam (ainda não
• ral alimentadora de uma nova mentalidade e de uma compreendem) as razões do meu regresso."

• nova literatura, a afrobrasilusa, cuja característica (AGUALUSA, 1998; 157-158).
• maior vem a ser o fusionamento, numa só expressão, Finalizando o romance, a protagonista dirige-

• de elementos culturais e lingüísticos originários de três se uma última vez ao grande realista português, con-
• pontos distintos etnicamente. vertido em personagem passivo de Agualusa, e diz: :

• A dada altura do meu livro Poesia insubmissa Agora V. conhece toda a minha história, ou quase
• afrobrasilusa, ao comentar os versos de Agostinho toda. Talvez lhe interesse saber que me casei com

• Neto, escrevemos: "Em certos poemas como "Meia- Arcênio de Carpo. Sou feliz, tanto quanto é comum
• noite na quitanda", a afinidade cultural entre angola- ser-se feliz. Estou na vida como numa varanda. Vejo

• nos e brasileiros muito facilita a percepção do texto; na rua passarem as pessoas com as suas tragédias ín-

.,
• parece até estarmos a ler algum poeta brasileiro (Ma-
nuel Bandeira, Mário deAndrade, Ascenso Ferreira
timas. Vejo-as nascer e morrer. Nestas terras ácidas a
natureza conspira contra nós. Um homem morre, de-
• ou Jorge de Lima, por exemplo) quando nos achamos saparece, e logo a sua obra inteira se corrói e se cor-

• simplesmente diante dos versos de Agostinho Neto. rompe e se desfaz. Os palácios de hoje amanhã serão
• Se não, vejamos: "-Cem réis de jindungo/ Sá Do- ruínas. Uma panela de sopa, deixada ao ar, fermenta

• mingas.// O sol/ entrega Sá Domingas à lua! nas qui- numa única noite. Os fungos crescem nos armários
• tandas dos mussequesz/ E a quitandeira esperando/ - como plantas malignas e se os deixarmos ocupam in-

• Cinqüenta réis de tomate/ três tostões de castanha-de- teiramente os quartos e as casas. A própria memória
• caju/ um doce de coco/ Sá Domingas" [SE, p.53] rapidamente se dissolve. Creio que aqui já ninguém

• (PONTES, 1999; 143). se recorda de como morreu o velho Arcênio de Carpo,
• Ora, a realidade angolana estetizada não nos é e muito menos se lembram de Fradique Mendes. A

• difícil de entender uma vez que a nossa é uma cultura mim chamam-me a brasileira e os mais novos acre-
• que os africanos ajudaram a compor, e, como observa ditam realmente que eu nasci no Brasil. Também por

• Eduardo Portella, é uma cultura "deles também, que isso lhe entrego estas cartas. Disponha delas como
• se confunde com eles. Uma cultura com a sua afri- entender." (AGUALUSA, 1998; 159).

• canidade." (PORTELLA, [s.d.]; 88). Eis, portanto, consumada na narrativa de José
• Mas voltemos ao romance de Agualusa, ao Eduardo Agualusa, a assertiva de Aristóteles que nos

• ponto em que o deixamos, a reflexão de Ana Olímpia dizia desde cedo: "a Poesia encerra mais filosofia e
• que prossegue do seguinte modo: "Para mim também elevação do que a História" (ARISTÓTELES, 1981;

• foi assim. Em Pernambuco, e depois na Bahia, reen- 28); assim, podemos deduzir como os caminhos e
• carnei pouco a pouco outra mulher. Às vezes vinha- descaminhos cruzados das culturas africana, brasi-

• me à memória a imagem de um rosto, a figura de leira e portuguesa são hoje indissociáveis e potenci-
• alguém que eu tinha amado e ficado em Luanda, e eu almente dispõem de vigor extraordinário, de que é

• não conseguia dar-lhe um nome. Pensava nos meus exemplo Nação crioula.
• amigos como personagens de um livro que houvesse A propósito, ninguém melhor para traduzir a

• lido. Angola era uma doença íntima, uma dor vaga, experiência do leitor diante de um texto afrobrasiluso
• indefinida, latejando num canto remoto da minha alma. do que Hermano Vianna, prefaciador do livro de

• Quando nasceu Sophia eu já me sentia brasileira; Agualusa: "A ficção me transportou, numa viagem
• porém, sempre que ouvia alguém cantar os singelos trepidante, para Luanda, e de Luanda para Paris, e de

• versos do mulato Antônio Gonçalves Dias chorando Paris para Olinda, e de Olinda para o Rio de Janeiro,
• de saudades do Brasil - "Minha terra tem palmeiras/ e novamente para Luanda. Como o mais poderoso

• onde canta o sabiá! as aves que aqui gorjeiam! não jet-lag, a literatura também provoca efeitos neuroló-
• gorjeiam como lá" -, sempre que isso acontecia era gicos bem concretos; eu perdera integralmente mi-

• em Angola que eu pensava: "Minha terra tem primo- nha orientação geográfica. E para aumentar a confu-

• res/ que tais não encontro eu cá! Não permita Deus são, na realidade, encontrava-me cercado por uma
• que eu morra! sem que eu volte para lá". Em 1889, multidão africana que lotava, em plena algazarra al-
• poucos meses após a morte de Fradique, ouvi de novo
• fandegária (só quem já passou por uma alfândega
• alguém cantar estes versos e compreendi que tinha de guineense pode entender o que isso significa), a sala

• regressar a Luanda. Vendi o Engenho Cajaíba, que de desembarque do Osvaldo Vieira, o sorumbático
• Fradique me deixara em testamento, e embarquei com aeroporto de Bissau". E o prefaciador continua rela-

• a nossa filha e uma empregada." tando a emoção que sentiu ao ler a página inicial des-
• A carta final e fictícia de Ana Olímpia a Eça te livro de Agualusa: "Ao abrir sua primeira página,
Revista •
• de Queirós continua: "Gonçalves Dias, como certa- ainda povoava minha memória a forte impressão cau-
do GELNE • mente V. sabe, desapareceu na viagem de regresso ao sada por outra leitura recente, a de Black Atlantic, do
Vai 2 •
• Brasil, quando o vapor em que seguia, o Ville de sociólogo Paul Gilroy. No seu entender, o Atlântico
N'1 • Boulogne, naufragou em pleno Atlântico. Eu tive mais Negro é ao mesmo tempo um conceito e uma realida-
2000 •
• sorte: o meu navio resistiu; em contrapartida encon- de: espaço de trocas de mercadorias, corpos e idéias,
• trei Angola à beira do naufrágio. A extinção total da que coloca em cheque a busca de "origens" e raízes
156 •










das várias culturas afro-americanas, mostrando como identidades culturais brasileiras e angolanas contem- •
todas elas foram produzidas, ao mesmo tempo, de um porâneas, pois bem, obras assim pertencem a qual •

lado e do outro do oceano, ou melhor, no trânsito inter- Literatura? Africana, brasileira, lusitana? •
oceânico. A narrativa do Nação Crioula é quase uma Não há como fugir ao primado do real: es- •

confirmação da hipótese provocativa e polêmica de tamos diante de um fato novo. No momento, os nos- •
Gilroy: a ação tem lugar no fluxo transatlântico, prin- sos irmãos africanos - e José Eduardo Agualusa entre •

cipalmente entre o Brasil e Angola do século passa- estes - realizam a melhor literatura do idioma que •
do. mostrando a invenção de um Atlântico que não é nos é comum, reinventando-o e lançando às bases •

só negro, mas essencialmente, mestiço, e propiciador corretas da autêntica comunidade de povos utentes •
de rnestiçagens." (VIANNA, 1998: 7). dessa materna, dulcíssima e canora Língua Portu- •

Hermano Vianna primeiro procura descrever guesa, nossa pátria verdadeira, na qual se proclama •
sua sensação de acronur e de desterritorialização" o espaço inventivo mais recente, ou seja, a literatu- •

causada pelo mergulho no texto afrobrasiluso. De- ra afrobrasilusa, na mesma hora histórica em que •
pois procura explicar o impacto sofrido, apoiando-se Timor-Leste rompe sua crisálida opressiva e se faz •

numa leitura sociológica que considera "quase uma país independente .. •
confirmação" da hipótese levantada por Gilroy. •

Não há que estranhar tanto. É apenas preciso Bibliografia •
reconhecer o impacto de uma expressão verbal nova •

chamada literatura afrobrasilusa; também, para nós,
AGUALUSA, José Eduardo. Nação Crioula. Rio de

não há quases diante dos quais (não é trocadilho) pos- •
samos hesitar.
Janeiro: Graphia, 1998. •

Volto a fazer a pergunta com a qual concluí ARISTÓTELES. "Poética". In: A Poética Clás- •
minha comunicação no GELN anterior: "A poesia sica. Trad. Jaime Bruna. São Paulo: Cultrix/


contida em Sagrada Esperança, de Agostinho Neto, EDUSP, 1981. •
escrita em Língua Portuguesa por um africano, que

CANEVACCI, Massimo. Sincretismos: uma explo- •
soa familiar aos brasileiros, a poesia dos Poemas Ne- ração das hibridações culturais. São Paulo:

gros, de Jorge de Lima, ou a ficção de Jorge Amado,

Studio Nobel, 1996. •
por exemplo, que causam indistintamente o prazer de •
ler entre os de África, Brasil e Portugal; uma narrati- NETO, Agostinho. Sagrada Esperança. Cuba: União •
dos Escritores Angolanos, 1985.

va como A Selva, de Ferreira de Castro, escrita por •
um português, mas cuja ação se passa na Amazônia PONTES, Roberto. Poesia Insubmissa Afrobrasilusa.


brasileira e comove igualmente a africanos, brasilei- Rio de Janeiro-Fortaleza: Oficina do Autor/ •
EUFC, 1999.

ros e portugueses; ou ainda a narrativa de A Costa •
dos Murmúrios, de Lídia Jorge, que transcorre no li- •
__ oResidualidade e Mentalidade Trovadorescas •
toral da África e recorta o tempo de encerramento da no Romance de Clara Menina. Rio de Janeiro: •
aventura colonial portuguesa, escrita por autora nas- •
Comunicação ao Ill Encontro Internacional de •
cida no Algarve, mas francamente contrária à ação Estudos Medievais, 1999b. •
colonial de seu país em Moçambique; e, por fim, Na- •
Literatura Afrobrasilusa: Tentativa de Con- •
ção Crioula, que põe a nu o passado colonial portu- __ o


guês ao mesmo tempo que repensa o relacionamanto ceito. Comunicação ao 6° Encontro Internacio- •
nal de Lusitanistas. Rio de Janeiro, 1999. •
das hibridações culturais havidas entre Angola, Bra- •
sil e Portugal, possibilitando visualizar a importância PORTELLA, Eduardo. África, Colonos e Cúmplices. •

desse imbricamento para a constante recriação das Rio de Janeiro: Editorial Prado, [s.d.]. •



.-.•













• Revista
• do GELNE

• VaI. 2
• N'.1
J Quero com esta palavra significar a desestabilização do tempo tanto histórico quanto narrativo. Sigo a lógica semântica •
de outro vocábulo, acromia, s.f. referente à descoloração da pele.
• 2000

Não pensei aqui em Gilles Deleuze, apesar de fazer uso de um termo que hoje é marca deste pensador. •
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