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METABOLISMO DE LIPÍDIOS

As células podem obter combustíveis de ácidos graxos de três fontes: gorduras


consumidas na dieta, gorduras armazenadas nas células como gotículas de lipídeos e
gorduras sintetizadas em um órgão para exportação a outro. Algumas espécies utilizam
as três fontes sob várias circunstâncias, outras utilizam uma ou duas delas. Os
vertebrados, por exemplo, obtêm gorduras na dieta, mobilizam gorduras armazenadas em
tecidos especializados (tecido adiposo, consistindo em células chamadas adipócitos) e, no
fígado, convertem o excesso dos carboidratos da dieta em gordura para a exportação aos
outos tecidos. Em média, 40% ou mais das necessidades energéticas diárias das pessoas
que vivem em países altamente industrializados são supridos pelos triacilgliceróis da dieta
(embora a maioria das diretrizes nutricionais recomende que o consumo calórico diário
de gorduras não ultrapasse 30%).
Os triacilgliceróis fornecem mais da metade das necessidades energéticas de
alguns órgãos, particularmente o fígado, o coração e a musculatura esquelética em
repouso. Os triacilgliceróis armazenados são praticamente a única fonte de energia dos
animais hibernantes e das aves migratórias. Os protistas obtêm gorduras consumindo
organismos mais abaixo na cadeia alimentar e alguns também armazenam gorduras como
gotículas citosólicas de lipídeos. As plantas vasculares mobilizam gorduras armazenadas
nas sementes durante a germinação, mas não dependem de gorduras para a obtenção de
energia.
Nos vertebrados, antes que os triacilgliceróis possam ser absorvidos através da
parede intestinal, eles precisam ser convertidos de partículas de gordura macroscópicas
insolúveis em micelas microscópicas finamente dispersas. Essa solubilização é realizada
pelos sais biliares, como o ácido taurocólico (p. 370), que são sintetizados a partir do
colesterol no fígado, armazenados na vesícula biliar e liberados no intestino delgado após
a ingestão de uma refeição gordurosa.
Os sais biliares são compostos anfipáticos que atuam como detergentes
biológicos, convertendo as gorduras da dieta em micelas mistas de sais biliares e
triacilgliceróis (Figura 17-1, etapa ➊). A formação de micelas aumenta muito a fração
das moléculas de lipídeo acessíveis à ação das lipases hidrossolúveis no intestino, e a ação
das lipases converte os triacilgliceróis em monoacilgliceróis (monoglicerídeos) e
diacilgliceróis (diglicerídeos), ácidos graxos livres e glicerol (etapa ➋). Esses produtos
da ação da lipase se difundem para dentro das células epiteliais que revestem a superfície
intestinal (a mucosa intestinal) (etapa ➌), onde são reconvertidos em triacilgliceróis e
empacotados com o colesterol da dieta e proteínas específicas em agregados de
lipoproteínas chamados quilomícrons (Figura 17-2; ver também a Figura 17-1, etapa
➍).
As apolipoproteínas são proteínas de ligação a lipídeos no sangue, responsáveis
pelo transporte de triacilgliceróis, fosfolipídeos, colesterol e ésteres de colesterol entre os
órgãos. As apolipoproteínas (“apo” significa “destacado” ou “separado”, designando a
proteína em sua forma livre de lipídeos) se combinam com os lipídeos para formar várias
classes de partículas de lipoproteína, que são agregados esféricos com lipídeos
hidrofóbicos no centro e cadeias laterais hidrofílicas de proteínas e grupos polares de
lipídeos na superfície. Várias combinações de lipídeos e proteínas produzem partículas
de densidades diferentes, variando de quilomícrons e lipoproteínas de densidade muito
baixa (VLDL, de very low density lipoproteins) a lipoproteínas de densidade muito alta
(VHDL, de very high density lipoproteins), que podem ser separadas por
ultracentrifugação.
As porções proteicas das lipoproteínas são reconhecidas por receptores nas
superfícies celulares. Na absorção de lipídeos no intestino, os quilomícrons, que contêm
a apolipoproteína C-II (apoC-II), se deslocam da mucosa intestinal para o sistema
linfático e então entram no sangue, que os carrega para os músculos e o tecido adiposo
(Figura 17-1, etapa ➎). Nos capilares desses tecidos, a enzima extracelular lipase
lipoproteica, ativada pela apoC-II, hidrolisa os triacilgliceróis em ácidos graxos e
glicerol (etapa ➏), absorvidos pelas células nos tecidos-alvo (etapa ➐). No músculo, os
ácidos graxos são oxidados para obter energia; no tecido adiposo, eles são reesterificados
para armazenamento na forma de triacilgliceróis (etapa ➑).
Os remanescentes dos quilomícrons, desprovidos da maioria dos seus
triacilgliceróis, mas ainda contendo colescolesterol e apolipoproteínas, se deslocam pelo
sangue até o fígado, onde são captados por endocitose mediada pelos receptores
específicos para as suas respectivas apolipoproteínas. Os triacilgliceróis que entram no
fígado por essa via podem ser oxidados para fornecer energia ou precursores para a síntese
de corpos cetônicos, como descrito na Seção 17.3. Quando a dieta contém mais ácidos
graxos do que o necessário imediatamente como combustível ou como precursores, o
fígado os converte em triacilgliceróis, empacotados com apolipoproteínas específicas
formando VLDL. As VLDL são transportadas pelo sangue até o tecido adiposo, onde os
triacilgliceróis são removidos da circulação e armazenados em gotículas lipídicas dentro
dos adipócitos.
Os lipídeos neutros são armazenados nos adipócitos (e nas células que sintetizam
esteroides do córtex da suprarrenal, dos ovários e dos testículos) na forma de gotículas
lipídicas, com um centro de ésteres de esteróis e triacilgliceróis envoltos por uma
monocamada de fosfolipídeos. A superfície dessas gotículas é revestidas por perilipinas,
família de proteínas que restringem o acesso às gotículas
lipídicas, evitando a mobilização prematura dos lipídeos.
Quando hormônios sinalizam a necessidade de energia metabólica,
os triacilgliceróis armazenados no tecido adiposo
são mobilizados (retirados do armazenamento) e transportados
aos tecidos (musculatura esquelética, coração e
córtex renal) nos quais os ácidos graxos podem ser oxidados
para a produção de energia. Os hormônios adrenalina
e glucagon, secretados em resposta aos baixos níveis de
glicose ou atividade iminente, estimulam a enzima adenilil
ciclase na membrana plasmática dos adipócitos 3), que produz o segundo mensageiro
intracelular
AMP cíclico (cAMP; ver Figura 12-4). A proteína-cinase
dependente de cAMP (PKA) leva à mudanças que abrem
a gotícula de lipídeo para a atividade de três lipases, que
atuam sobre tri-, di- e monoacilgliceróis, liberando ácidos
graxos e glicerol.
Os ácidos graxos assim liberados (ácidos graxos livres,
FFA, de free fatty acids) passam dos adipócitos para
o sangue, onde eles se ligam à albumina sérica (Figura
17-3). Essa proteína (Mr 66.000), que representa cerca da
metade da proteína sérica total, se liga não covalentemente
a até 10 ácidos graxos por monômero de proteína. Ligados
a essa proteína solúvel, os ácidos graxos que de outra maneira
seriam insolúveis, são transportados aos tecido como
o músculo esquelético, o coração e o córtex renal. Nesses
tecidos-alvo, os ácidos graxos se dissociam da albumina e
são levados por transportadores da membrana plasmática
para dentro das células para servir de combustível. O glicerol
liberado pela ação da lipase é fosforilado e oxidado a di-
-hidroxiacetona fosfato, que pode entrar nas vias glicolítica
ou gliconeogênica. Alternativamente, o glicerol fosfato pode
ser usado na síntese de triacilgliceróis ou de fosfolipídeos.
As enzimas da oxidação de ácidos graxos nas células animais
estão localizadas na matriz mitocondrial, como demonstrado
em 1948 por Eugene P. Kennedy e Albert Lehninger.
Os ácidos graxos com comprimento de cadeia de 12
carbonos ou menos entram na mitocôndria sem a ajuda de
transportadores de membrana. Aqueles com 14 carbonos
ou mais, que constituem a maioria dos ácidos graxos livres
obtidos na dieta ou liberados do tecido adiposo, não conseguem
passar livremente através das membranas mitocondriais
– primeiro eles precisam passar pelas três reações
enzimáticas do ciclo da carnitina. A primeira reação é
catalisada por uma família de isoenzimas (isoenzimas diferentes,
específicas para ácidos graxos de cadeia carbonada
curta, intermediária ou longa) presente na membrana mitocondrial
externa, as acil-CoA-sintetases, que catalisam a
reação geral

Assim, as acil-CoA-sintetases catalisam a formação de uma


ligação tioéster entre o grupo carboxil do ácido graxo e o
grupo tiol da coenzima A para produzir um acil-CoA graxo,
acoplado à clivagem do ATP em AMP e PPi. (Lembre-
-se da descrição dessa reação no Capítulo 13, para ilustrar
como a energia livre liberada pela clivagem das ligações
fosfoanidrido do ATP pode ser acoplada à formação de um
composto de alta energia; p. 524.) A reação ocorre em dois
passos e envolve um intermediário acil-graxo-adenilato
(Figura 17-5).
As acil-graxos-CoA, como a acetil-CoA, são compostos
de alta energia; a sua hidrólise a ácidos graxos livres e CoA
tem uma grande variação negativa de energia livre padrão
(DG9° 5 231 kJ/mol). A formação de uma acil-CoA graxo
torna-se favorável pela hidrólise de duas ligações de alta
energia do ATP; o pirofosfato formado na reação de ativação
é imediatamente hidrolisado pela pirofosfatase inorgânica
(lado esquerdo da Figura 17-5), que puxa a reação de ativação precedente no sentido da
formação de acil-CoA
graxo. A reação total é

Os ésteres de acil-CoA graxo formados no lado citosólico


da membrana externa da mitocôndria podem ser
transportados para dentro da mitocôndria e oxidados para produzir ATP, ou podem ser
utilizados no citosol para sintetizar
lipídeos de membrana. Os ácidos graxos destinados
a oxidação mitocondrial estão transitoriamente ligados ao
grupo hidroxil da carnitina, formando acil-graxo-carnitina
– a segunda reação do ciclo.
Essa transesterificação é catalisada pela carnitina aciltransferase
I, na membrana externa. Ou a acil-CoA passa
através da membrana externa e é convertida no éster de
carnitina no espaço intermembrana (Figura 17-6), ou o éster
de carnitina é formado na face citosólica da membrana
externa, e então deslocado através da membrana externa
para o espaço intermembrana – as evidências atuais não
revelam. Em qualquer um dos casos, a passagem para o espaço
intermembrana (o espaço entre a membrana externa
e a interna) ocorre por meio de grandes poros (formados
pela proteína porina) na membrana externa. O éster de
acil-graxo-carnitina então entra na matriz por difusão facilitada
através do transportador acil-carnitina/carnitina
da membrana mitocondrial interna (Figura 17-6).
No terceiro e último passo do circuito da carnitina, o grupo
acil-graxo é enzimaticamente transferido da carnitina para
a conezima A intramitocondrial pela carnitina-aciltransferase
II. Essa isoenzima, localizada na face citosólica da
membrana mitocondrial interna, regenera a acil-CoA graxo
e a libera, juntamente com a carnitina livre, dentro da matriz
(Figura 17-6). A carnitina retorna ao espaço intermembrana
por meio do transportador acil-carnitina/carnitina.
Esse processo de três passos para transferir os ácidos
graxos para dentro da mitocôndria – esterificação com CoA,
transesterificação com carnitina, seguida de transporte e
transesterificação de volta a CoA – liga dois reservatórios
de coenzima A e de acil-CoA graxo, um no citosol e o outro
na mitocôndria. Esses reservatórios têm funções diferentes.
A coenzima A na matriz mitocondrial é amplamente utilizada
na degradação oxidativa do piruvato, dos ácidos graxos
e de alguns aminoácidos, enquanto a coenzima A citosólica
é utilizada na biossíntese de ácidos graxos (ver Figura 21-
10). A acil-CoA graxo no reservatório citosólico pode ser
utilizada para síntese de lipídeos de membrana ou pode ser
transportada para dentro da matriz mitocondrial para oxidação
e produção de ATP. A conversão ao éster de carnitina
compromete a porção acil-graxo com o destino oxidativo.
O processo de entrada mediado pela carnitina é o passo
limitante para a oxidação dos ácidos graxos na mitocôndria
e, como discutido mais adiante, é um ponto de regulação.
Uma vez dentro da mitocôndria, a acil-CoA graxo sofre os
efeitos de um conjunto de enzimas da matriz.
Conforme observado anteriormente, a oxidação mitocondrial
dos ácidos graxos ocorre em três etapas (Figura
17-7). Na primeira etapa – b-oxidação –, os ácidos graxos
sofrem remoção oxidativa de sucessivas unidades de dois
carbonos na forma de acetil-CoA, começando pela extremidade
carboxílica da cadeia acil-graxo. Por exemplo, o ácido
palmítico de 16 carbonos (palmitato em pH 7) passa sete
vezes pela sequência oxidativa, perdendo dois carbonos
como acetil-CoA em cada passagem. Ao final de sete ciclos,
os dois últimos carbonos do palmitato (originalmente C-15
e C-16) permanecem como acetil-CoA. O resultado global é
a conversão da cadeia de 16 carbonos do palmitato em oito
grupos acetil de dois carbonos das moléculas de acetil-CoA.
A formação de cada acetil-CoA requer a remoção de quatro
átomos de hidrogênio (dois pares de elétrons e quatro H1)
da porção acil-graxo pelas desidrogenases.
Na segunda etapa da oxidação de ácidos graxos, os grupos
acetil da acetil-CoA são oxidados a CO2 no ciclo do ácido
cítrico, que também ocorre na matriz mitocondrial. A acetil-
-CoA derivada dos ácidos graxos então entra em uma via de
oxidação final comum com a acetil-CoA derivada da glicose
precedente da glicólise e da oxidação do piruvato (ver Figura
16-1). As duas primeiras etapas da oxidação dos ácidos
graxos produzem os transportadores de elétrons reduzidos
NADH e FADH2, que na terceira etapa doam elétrons para
a cadeia respiratória mitocondrial, por meio da qual os elétrons
passam para o oxigênio com a fosforilação concomitante de ADP a ATP (Figura 17-7).
A energia liberada pela oxidação
dos ácidos graxos é, portanto, conservada como ATP.
Agora será analisada com mais atenção a primeira etapa
da oxidação dos ácidos graxos, começando com o caso simples
de uma cadeia acil-graxo saturada com um número par
de carbonos, então passando para os casos um pouco mais
complexos das cadeias insaturadas ou de número ímpar.
Também será abordada a regulação da oxidação de ácidos
graxos, os processos b-oxidativos que ocorrem nas outras
organelas que não na mitocôndria e, finalmente, duas maneiras
menos comuns de catabolismo de ácidos graxos, a
a-oxidação e a v-oxidação.
Quatro reações catalisadas por enzimas constituem a primeira
etapa da oxidação de ácidos graxos (Figura 17-8a).
Primeiro, a desidrogenação da acil-CoA graxo produz uma
ligação dupla entre os átomos de carbono a e b (C-2 e C-3),
produzindo uma trans-D2-enoil-CoA (o símbolo D2 designa a posição da ligação dupla;
você pode querer rever a nomenclatura
dos ácidos graxos, p. 357.) Observe que a nova
ligação dupla tem configuração trans, enquanto as ligações
duplas nos ácidos graxos insaturados que ocorrem naturalmente
com frequência estão na configuração cis. O significado
dessa diferença será analisado mais tarde.
Esse primeiro passo é catalisado por três isoenzimas da
acil-CoA desidrogenase, cada uma específica para uma série
de comprimentos de cadeia acil-graxo: acil-CoA desidrogenase
de cadeia muito longa (VLCAD, de very-long-chain
acyl-CoA dehydrogenase), atuando em ácidos graxos de 12
a 18 carbonos; de cadeia média (MCAD, de medium-chain
acyl-CoA dehydrogenase), atuando em ácidos graxos de
4 a 14 carbonos; e de cadeia curta (SCAD, de short-chain
acyl-CoA dehydrogenase), atuando em ácidos gaxos de 4 a
8 carbonos. As três isoenzimas são flavoproteínas com FAD
(ver Figura 13-27) como grupo prostético. Os elétrons removidos
da acil-CoA graxo são transferidos para o FAD, e
a forma reduzida da desidrogenase imediatamente doa seus
elétrons a um transportador de elétrons da cadeia respiratória
mitocondrial, a flavoproteína de transferência de elétrons
(ETF, de eletron-transferring protein) (ver Figura
19-8). A oxidação catalisada por uma acil-CoA desidrogenase
é análoga à desidrogenação do succinato no ciclo do ácido
cítrico (p. 646); em ambas as reações, a enzima está ligada à
membrana interna, uma ligação dupla é introduzida em um
ácido carboxílico entre os carbonos a e b, FAD é o aceptor de
elétrons, e os elétrons das reações por fim entram na cadeia
respiratória e passam para o O2, com a síntese concomitante
de cerca de 1,5 moléculas de ATP por par de elétrons.
No segundo passo do ciclo da b-oxidação (Figura 17-
8a), água é adicionada à ligação dupla da trans-D2-enoil-
CoA para formar o estereoisômero L da b-hidroxiacil-CoA
(3-hidroxiacil-CoA). Essa reação, catalisada pela enoil-
-CoA hidratase, é análoga à reação da fumarase no ciclo
do ácido cítrico, no qual H2O é adicionada a uma ligação
dupla a-b (p.647).
No terceiro passo, L-b-hidroxiacil-CoA é desidrogenada
para formar b-cetoacil-CoA, pela ação da b-hidroxiacil-
-CoA desidrogenase; NAD1 é o aceptor de elétrons. Essa
enzima é específica para o estereisômero L da hidroxiacil-
-CoA. O NADH formado na reação doa seus elétrons para a
NADH-desidrogenase, um transportador de elétrons da
cadeia respiratória, e ATP é formado a partir de ADP à medida
que os elétrons passam para o O2. A reação catalisada
pela b-hidroxiacil-CoA desidrogenase é análoga à reação da
malato-desidrogenase do ciclo do ácido cítrico (p. 647).
O quarto e último passo do ciclo da b-oxidação é catalisado
pela acil-CoA-acetiltransferase, mais comumente
chamada de tiolase, que promove a reação de b-cetoacil-
-CoA com uma molécula de coenzima A livre para separar
o fragmento de dois carbonos da extremidade carboxílica
do ácido graxo original como acetil-CoA. O outro produto é
o tioéster de coenzima A do ácido graxo, agora encurtado
em dois átomos de carbono (Figura 17-8a). Essa reação é
chamada de tiólise, por analogia ao processo de hidrólise, já
que a b-cetoacil-CoA é clivada pela reação com o grupo tiol
da coenzima A. A reação da tiolase é o reverso da condensação
de Claisen (ver Figura 13-4).
As três últimas etapas dessa sequência de quatro passos
são catalisadas por dois conjuntos de enzimas, sendo que as
enzimas utilizadas vão depender do comprimento da cadeia
acil-graxo. Para cadeias com 12 carbonos ou mais, as reações
são catalisadas por um complexo multienzimático associado
à membrana interna da mitocôndria, a proteína trifuncional
(TFP, de trifunctional protein). A TFP é um hetero-
-octâmero de subunidades a4b4. Cada subunidade a possui
duas atividades, a enoil-CoA-hidratase e a b-hidroxiaxil-CoA-
-desidrogenase; as subunidades b possuem a atividade tiolase.
Essa associação íntima de três enzimas pode permitir uma
canalização eficiente do substrato de um sítio ativo para outro,
sem a difusão dos intermediários para longe da superfície
enzimática. Quando a TFP tiver encurtado a cadeia acil-graxo
para 12 carbonos ou menos, as próximas oxidações são catalisadas
por um conjunto de quatro enzimas solúveis na matriz.
Como salientado anteriormente, a ligação simples entre
grupos metileno (¬CH2¬) nos ácidos graxos é relativamente
estável. A sequência da b-oxidação é um mecanismo
elegante para desestabilizar e quebrar essas ligações.
As três primeiras reações da b-oxidação criam uma ligação
C-C muito menos estável, na qual o carbono a (C-2) está
ligado a dois carbonos carbonílicos (o intermediário b-cetoacil-
CoA). A função cetona do carbono b (C-3) faz dele um
bom alvo para ataque nucleofílico pelo ¬SH da coenzima A,
catalisado pela tiolase. A acidez do hidrogênio a e a estabilização
por ressonância do carbânion gerado pela saída desse
hidrogênio tornam o ¬CH2¬CO¬S-CoA terminal um bom
grupo de saída, facilitando a quebra da ligação a-b.
Já foi vista uma sequência de reações praticamente
idênticas a essas quatro etapas da oxidação dos ácidos graxos,
nas etapas de reação do ciclo do ácido cítrico entre
succinato e oxaloacetato (ver Figura 16-7). Uma sequência
de reação praticamente idêntica ocorre também nas vias
pelas quais os aminoácidos de cadeia lateral ramificada (isoleucina,
leucina e valina) são oxidados como combustíveis
(ver Figura 18-28). A Figura 17-9 mostra as características
comuns dessas três sequências, quase certamente um
exemplo da conservação de um mecanismo por duplicação
gênica e evolução de uma nova especificidade nos produtos
enzimáticos dos genes duplicados.
A sequência descrita de oxidação dos ácidos graxos é típica
quando o ácido graxo é saturado (ou seja, tem apenas
ligações simples na sua cadeia de carbonos). Entretanto,
a maioria dos ácidos graxos nos triacilgliceróis e fosfolipídeos
de animais e plantas é insaturada, tendo uma ou mais
ligações duplas. Essas ligações estão na configuração cis e
não podem sofrer a ação da enoil-CoA hidratase, a enzima
que catalisa a adição de H2O às ligações duplas trans da
D2-enoil-CoA gerada durante a b-oxidação. Duas enzimas
auxiliares são necessárias para a b-oxidação dos ácidos
graxos insaturados comuns: uma isomerase e uma redutase.
Essas reações auxiliares podem ser ilustradas com
dois exemplos.
O oleato é um ácido graxo abundante monoinsaturado
com 18 átomos de carbono e com uma ligação dupla cis
entre C-9 e C-10 (simbolizada por D9). No primeiro passo
de oxidação, o oleato é convertido a oleoil-CoA e, como
os ácidos graxos saturados, entra na matriz mitocondrial
pelo ciclo da carnitina (Figura 17-6). A oleoil-CoA então
passa três vezes pelo ciclo de oxidação dos ácidos graxos
para produzir três moléculas de acetil-CoA e o éster de
coenzima A de um ácido graxo insaturado de 12 átomos
de carbono D3, a cis-D3-dodecenoil-CoA (Figura 17-10).
Esse produto não pode servir de substrato para a enoil-
-CoA-hidratase, que atua apenas em ligações duplas trans.
A enzima auxiliar D3, D2-enoil-CoA-isomerase isomeriza
a cis-D3-enoil-CoA a trans-D2-enoil-CoA, que é convertida
pela enoil-CoA-hidratase à L-b-hidroxiacil-CoA correspondente
(trans-D2-dodecenoil-CoA). Esse intermediário então
sofre a ação das enzimas restantes da b-oxidação para
produzir acetil-CoA e o éster de coenzima A de um ácido
graxo saturado de 10 carbonos, o decanoil-CoA. Esse último
sofre quatro passagens pela via de b-oxidação para produzir
mais cinco moléculas de acetil-CoA. No total, nove
acetil-CoA são produzidas a partir de uma molécula de oleato
de 18 carbonos.
A outra enzima auxiliar (uma redutase) é necessária
para a oxidação de ácidos graxos poli-insaturados – por
exemplo, o linoleato de 18 carbonos, que tem configuração
cis-D9, cis-D12 (Figura 17-11). A linoleoil-CoA sofre três
passagens pela sequência de b-oxidação para produzir três
moléculas de acetil-CoA e o éster de coenzima A de um ácido
graxo insaturado de 12 carbonos com uma configuração
cis-D3,cis-D6. Esse intermediário não pode ser utilizado pelas
enzimas da via da b-oxidação; suas ligações duplas estão
na posição errada e possuem uma configuração errada (cis,
não trans). Entretanto, a ação combinada da enoil-CoA-isomerase
e da 2,4-dienoil-CoA-redutase, como mostrado
na Figura 17-11, permite e reentrada desse intermediário
na via da b-oxidação e a sua degradação a 6 acetil-CoA. O
resultado global é a conversão de linoleato a nove moléculas
de acetil-CoA.