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CETICISMO E LIBERALISMO

REFLEXÕES SOBRE UMA POSSÍVEL AFINIDADE ELETIVA

Renato Lessa
IUPERJ

RESUMO
O objetivo deste ensaio é sugerir possíveis afinidades entre o ceticismo e uma variante específica
do liberalismo: aquela representada por John Stuart Mill no seu On Liberty. Pretende-se sustentar
a hipótese de que existe uma compatibilidade entre as premissas céticas, sobretudo aquelas contidas
nos ‘Modos de Suspensão ’e nos ‘Modos de Causalidade ’de Enesidemo, e a concepção positiva de
liberdade presente no elogio da experimentação individual, tanto na vida pública como na vida
privada, realizado por John Stuart Mill.
PALAVRAS-CHAVE: ceticismo, liberalismo, liberdade, vida pública.

“[...] the larger the field of interplay between individuals, the


greater the opportunities ofthe new and the unexpected, the more
numerous thepossibilitiesfor altering his own character in some
fresh or unexplored direction, the more paths opens before each
individual, and the winder will be his freedom of action and
thought”.
I. BERLIN, 1975: 178.

Nos debates e investigações a respeito do cífica da tradição liberal, configurada na re­


ceticismo, um dos temas menos explorados flexão de John Stuart Mill, em seu livro On
é o de suas implicações para a teoria (e para Liberty (1975).
a ação) política. Com certeza, uma das ra­
A mais importante e recente tentativa de
zões para tal escassez se encontra na virtual
definir uma “política do ceticismo” — isto
ausência de menções por parte de Sexto Em­
é, mapear as suas implicações políticas —
pírico — pensador grego que no século III
foi feita por John Christian Laursen, em seu
A.D. sistematizou os argumentos do ceticis­
importante livro The Politics o f Skepticism
mo antigo— a questões de natureza política.
in the Ancients, Montaigne, Hume, and
Com freqüência, a suspensão do juízo, re­
Kant, editado em 1922. Trata-se de uma ex­
querida pelo cético diante de querelas a res­
celente investigação, tanto em termos de sis-
peito de entidades não-aparentes, é compre­
tematicidade como de quantidade de infor­
endida por críticos como indicador de indife­
mações. O argumento básico de Laursen é
rença e conformismo diante do mundo públi­
o de que existe umapolitical stance no ceti­
co. Minha intenção nesse pequeno ensaio
cismo, e que esta mantém com o liberalismo
não é a de contra-argumentar de modo e-
relações de forte afinidade. Em outras pala­
xaustivo, mapeando as diferentes possibili­
vras, o cético veria em uma ordem política
dades de implicação do ceticismo para a teo­
regulada por procedimentos normativamen-
ria política. O objetivo, mais limitado, é o
te neutros e imparciais um arranjo adequado
de sugerir algumas afinidades eletivas entre
as suas inclinações não-dogmáticas. O Esta­
o legado do ceticismo e uma variante espe­
do de Direito, portanto, poderia ser pensado
como a configuração constitucional àa polis vadas. Ao sugerir uma afinidade eletiva entre
cética. o legado cético e a versão de Stuart Mill para
a tradição liberal, creio ser possível, em dire­
No entanto, ainda que seja plausível su­
ção oposta, sustentar a compatibilidade entre
por que um cético possa preferir viver sob
premissas céticas e uma concepção positiva
um Estado de Direito do que sob uma tirania,
de liberdade. Mas antes que este nexo se a-
é importante registrar que a idéia de uma
presente de forma minimamente plausível,
ordem política puramente procedural —
é necessário estabelecer, ainda que de modo
neutra e imparcial com relações a valores
esquemático, alguns aspectos do legado do
— é, ela mesma, a materizalização instituci­
antigo ceticismo para a reflexão política ulte­
onal de um conjunto de valores. De modo
rior. Há duas prescrições dos antigos céticos
mais preciso, essa idéia emerge, em Locke,
que são de consideração compulsória.
mais precisamente no Segundo tratado so­
bre o governo civil, como corolário de uma A primeira delas foi apresentada em um
descrição densa a respeito da natureza huma­ dos Modos da Suspensão — argumentos que
na e dos ditames do direito natural, que difi­ afirmam a relatividade de qualquer percep­
cilmente poderia ser subscrita por um cético. ção ou proposição — , de autoria do cético
A afinidade cética com o liberalismo — se Enesidemo que diz respeito à variedade de
assim descrita — poderia ser presa de um circunstâncias culturais. A principal implica­
argumento cuja estrutura formal se asseme­ ção pode ser resumida da seguinte maneira:
lha a da perítrope: por recusar a adesão dog­ dada a variedade de leis, hábitos, crenças e
mática a valores substantivos, o cético pre­ lendas adotadas por diferentes agregados
fere uma ordem procedural — neutra e im­ culturais, é impossível adotar um desses
parcial com relação a valores — , sustentada, agregados como critério de avaliação dos de­
por sua vez, em um conjunto de valores a mais1. A aplicação prática imediata desse
respeito da natureza humana e da lei natural. argumento indica, por exemplo, que é injus­
Com esse registro não pretendo anular de tificado supor que um traço cultural de uma
forma apressada qualquer tentativa de apro­ sociedade particular — digamos, uma lei a-
ximação entre o ceticismo e a tradição libe­ teniense — possa ser tomado como critério
ral. Apesar da ameaça de perítrope, sigo sus­ de avaliação de outro traço cultural de uma
tentando que o Estado de Direito, em sua sociedade distinta — digamos, um hábito
forma liberal é, para um cético, preferível a egípcio. O argumento cético, assim descrito,
implica o reconhecimento de uma variedade
qualquer outro arranjo conhecido. No entan­
to, se aqui interrompermos nossa investiga­ de formas de vida. Essa proposição aberta­
ção, acabaremos associando o ceticismo mente cosmopolita define antecipadamente
com uma variante da tradição liberal que a estrutura da argumentação anti-etnocêntri-
privilegia um modelo negativo de liberdade. ca, desenvolvida no século XX por Claude
A vigência de normas imparciais tem por Lévi-Strauss (1970). E importante registrar
finalidade garantir a integridade dos planos que, em sua circunstância original, o argu­
privados de existência, cuidando para que mento cético contrariou os modos predomi­
nantes de lidar com a diversidade das cultu­
extremidades negativas sejam eliminadas ou
tenham o seu alcance regulado. O ceticismo ras. Tal modo pode ser exemplificado nesse
com relação à possibilidade de definir dog­ comentário de Heródoto: na maioria dos
mática e universalmente a respeito desses
valores nos conduziria a advogar por uma 1 Para uma descrição completa desses argu­
ordem que abriga virtualmente todos os va­ mentos (modos), v. SEXTUS EMPIRICUS,
lores, aqui entendidos como persuasões pri­ 1976:1,36-163.
seus hábitos, os egípcios invertem exata­ dimensão inerradicável da sociabilidade;
mente os procedimentos usuais da huma­
(ii) a definição do mundo público como
nidade (apud MOMIGLIOANO, 1991: 09).
critério de validação de conhecimentos,
A segunda prescrição a ser destacada nes­ sobretudo aqueles que dizem respeito a
te ensaio foi estabelecida em outro conjunto questões de natureza política.
de argumentos, definido pelo cético Enesi-
Assim descrito, o legado do ceticismo pa­
demo, que diz respeito ao problema da cau­
ra a teoria política futura se resume a uma
salidade. Ao todo são oito argumentos —
prescrição cosmopolita e à ênfase no papel
dispostos classicamente nos Modos da Cau­
do mundo público como esfera de regulação
salidade — que desafiam os modos pelos
de dissensos. Já que o argumento cosmopoli­
quais os dogmáticos sustentam suas proposi­ ta se vale do reconhecimento de uma diversi­
ções causais2. A descrição detalhada desses
dade inerradicável de valores e perspectivas
argumentos excede os propósitos deste en­
culturais, é legítimo associá-lo à defesa de
saio. Basta registrar o seu propósito comum.
um padrão negativo de liberdade, que pode
A principal patologia dos dogmáticos, quan­
assim ser formulado: a impossibilidade de
do lidam com a causalidade, é a de atribuir
definir os valores racionalmente corretos, de
a fenômenos observáveis, causas não-obser-
modo universal e incontroverso, tem como
váveis. As implicações desse estilo intelec­ corolário a legitimidade de inúmeras persua­
tual são múltiplas: sões privadas. A prescrição que estabelece
(i) a evasão de uma esfera fenomênica um certo elogio do mundo público — enten­
— a das coisas que aparecem — , na qual dido como esfera exterior às persuasões pri­
acordos a respeito do que existe e de co­ vadas — deixa em aberto uma importante
mo proceder cognitivamente são possí­ questão: como produzi-lo? A questão diz
veis, para um domínio de entidades não- respeito diretamente ao tema da liberdade.
observáveis — hexâmeros, átomos de Se o mundo público é um produto instituci­
Demócrito, o Espírito absoluto ou a Lógi­ onal, a sua gênese, em alguma medida, en­
ca do Capital, entre várias entidades pos­ volve graus de liberdade política como re­
síveis — , com relação ao qual cada dog­ quisitos básicos à ação humana.
mático estabelece a sua certeza invio­
No entanto, a vertente da tradição liberal
lável;
que de modo mais direto possui conexões
(ii) a opção por um modo privado — idió- com o ceticismo — refiro-me diretamente a
tico — de cognição e de validação de ar­ Hume e, de modo mais remoto, a Burke —
gumentos. percebe a dimensão pública menos como o
produto da ação política de sujeitos dotados
As implicações políticas dessas duas
de liberdade do que como resultado agrega­
prescrições podem ser formalizadas de se­
guinte modo: do de processos seculares. Tanto o hábito
humeano como a tradição burkeana podem
(i) o reconhecimento da diversidade de ser pensados como processos desprovidos
valores e de perspectivas culturais como de sujeitos intencionais: são dimensões de
longo prazo que involucram circunstâncias
2 Os oito modos de Enesidemo sobre a cau­ temporais específicas. Em outras palavras,
salidade foram aparesentados por SEXTO EM­ a liberdade individual, em seu aspecto positi­
PÍRICO (1976: 1 ,180-186). Para um comentário vo, não é essencial para a definição de pautas
sobre algumas implicações desses argumentos, de comportamento habituais ou tradicionais.
v. LESSA, 1994. Desse modo, a liberdade é um estado de usu­
fruto meramente privado, eom implicações nificam as finalidades da vida, Hume e
para a conduta, mas que encontrará na esfera Burke desqualificaram inteiramente a razão
envolvente do hábito e da tradição uma refe­ e o dedutivismo como fontes adequadas de
rência reguladora irrecorrível. orientação prática diante da vida. O resulta­
do, porém, não foi o de imaginar agentes
Esse confinamento da liberdade ao âmbi­
sociais inteiramente dotados da capacidade
to privado emerge de modo claro em Hume
de decidir os cursos de ação mais apropria­
e Burke. O primeiro, apesar de fornecer des­
dos segundo o critério de cada um.
crições prazeirosas a respeito da common life
— apresentada como domínio da amizade, Dada a falência da razão como fundamen­
da diversão e de uma certa ataraxia — , to do juízo humano, o hábito e a tradição a-
quando trata da liberdade de forma filosófi­ parecem como limitadores do exercício futu­
ca, o faz subordinando-a à necessidade. Mais ro da liberdade. A liberdade máscula, moral
do que isso, Hume apresenta a sensação de e regulada de Burke, assim como o retomo
liberdade como um engano que cometemos ao conforto da vida ordinária em Hume, con­
a respeito da origem de nossas ações: “[...] figuram, a rigor, um padrão que não pode
Whatever capricious and irregular actions ser rigidamente classificado sob os rótulos
we may perform, as the desidere of showing da liberdade negativa e positiva. O confina­
our liberty is the sole motive of our actions, mento ao âmbito privado, acima menciona­
we can never free ourselves from the bonds do, é real, desde que seja entendido como
of necessity” (HUME, 1987: Livro II, parte recusa da legitimidade da pretensão de al­
III, seção ii). gum agente social em fazer com que o exer­
cício virtuoso da sua liberdade implique o
No caso de Burke, a liberdade é desqua­
direito de subordinar as regras políticas à
lificada como âmbito autônomo de formula­
sua razão privada. Na verdade, a superposi­
ção de juízos sobre a sociedade. A liberdade
ção entre o âmbito privado e a vida ordinária
burkeana, manly, moral, regulated, é um
faz com que tenhamos o desempenho de
legado usufruído por todos os membros de
uma liberdade não-política, em seu sentido
uma commonwealth e que protege o corpo
rousseauniano, mas que, ao mesmo tempo,
social de fatores corrosivos, tais como a tira­
é exercida coletivamente. Em outros termos,
nia e o cartesianismo político. Retirada de
o indutivismo hume-burkeano impede que
seu invólucro social, a liberdade perde com­
a razão nos homogeinize. Mas o preço que
pletamente a capacidade de manter os ho­
devemos pagar por esta proteção é a subor­
mens em conjunto, transformando-se, pois,
dinação aos padrões ditados pelo hábito.
em uma faculdade vazia que desconhece
circunstâncias particulares. Seu movimento, Em favor de Hume deve ser dito que a
então, conduz à atribuição de uma razão oni­ sua definição de hábito é predominante­
potente a cada indivíduo, criando, pois, as mente procedurál. Esse juízo pode ser atesta­
condições para que o agregado humano se do nas descrições do que o hábito significa
converta em puro poder. A liberdade máscu­ em passagens importantes do Treatise o f
la é prisioneira de circunstâncias sociais. A Human Nature (1987). Todas essas caracte­
sua emancipação faz com que a fantasia dos rísticas podem ser consideradas como fo r­
homens imagine mundos alternativos, cuja mais, não revelando a fisionomia de qual­
simples antevisão acaba por desrotinizar quer valor substantivo. O hábito aparece co­
modos tradicionais de conduta. mo uma exigência lógica da sociabilidade,
sem que sua definição tenha como funda­
Usando a imagem de Isaiah Berlin, pode­
mento necessário qualquer referência a con­
mos dizer que no tratamento do que sig­
teúdos éticos substantivos. Em outro mo-
mento de sua fabulação, Hume afirmou que crições morais rigidamente calcadas no hábi­
a virtude de uma ordem política está asso­ to e sustentadas em bases entimêmicas. Com
ciada ao modo pelo qual organiza as suas Mill, creio, é possível entrever um outro pa­
instituições (HUME, 1985: 14-31). Os pro­ drão de afinidade entre ceticismo e tradição
cedimentos políticos têm, portanto, primazia liberal. Nele, há um elogio da experimenta­
sobre os valores professados pelos decisores. ção individual, que diz respeito tanto à vida
Com esse axioma, Hume evita o programa privada como ao mundo público. Há, portan­
estabelecido pelos humanistas cívicos, volta­ to, uma redescrição do tema da liberdade,
dos para a descoberta dos melhores valores que associa as dimensões negativa e positi­
éticos dotados da capacidade de garantir a va, tendo como premissa comum um padrão
operação de uma ordem virtuosa. Para Hume de argumentação que não é estranho ao lega­
trata-se, tão-somente, de estabelecer proce­ do do ceticismo. Essa afinidade, creio, pode­
dimentos. A ciência política humeana é a rá ficar mais evidente a partir a redefinição
mais pura e ortodoxa aplicação de sua teoria proposta por Mill do tema da liberdade.
geral a respeito do hábito. Tal como o hábito,
Como notou Isaiah Berlin (1975: 185),
as regras institucionais são exigências lógi­
na reflexão de Stuart Mill podem ser locali­
cas da sociabilidade política.
zadas três fontes de liberticídio:
De qualquer modo, mesmo evitando uma
(i) o desejo de exercício de poder sobre
definição dogmática e substantiva a respeito
os outros;
do que significa o hábito, Hume não elege
como dimensão decisiva de seu mundo o (ii) a busca de conformidade com a opi­
plano da liberdade individual. A liberdade nião comum, tanto pela imposição desta
é o exercício humano das escolhas sociais, aos desviantes como pelo desejo de ade-
orientadas pelas imposições lógicas do hábi­ quar-se à inclinação da maioria;
to. Os homens ordinários agem de acordo (iii) a crença na existência de uma (única)
com procedimentos intelectuais que combi­ definição racional do que sejam as finali­
nam indução e obediência a máximas estabe­ dades da vida. Os fatores de liberticídio
lecidas pelo hábito e pela tradição. A recusa combinam, então, motivações derivadas
a agir sob orientação de um dogmático do estado de natureza (i), do hábito (ii) e
dedutivismo não os transforma em agentes do dogmatismo de corte dedutivista (iii).
livres e abertos à experimentação.
A common li/e, na perspectiva adotada
A plena afinidade entre indutivismo so­ por Stuart Mill, é dotada de um atributo que,
cial e liberdade, em suas duas dimensões — à primeira vista, o aproxima de David Hume.
negativa e positiva — , foi proposta por John Em ambos os autores, as bases do conheci­
Stuart M ill, com base na reflexão de mento ordinário são limitadas pela experiên­
Wilheim von Humbolt (STUART MILL, cia e pelos preconceitos. No entanto, nos li­
1975; VON HUMBOLT, 1973). O argu­ mites da reflexão de Hume, a materialização
mento central das reflexões de Mill foi esta­ daquela falsidade publicamente comparti­
belecido pela famosa passagem de Humbolt, lhada, através do hábito, provoca nos ho­
estampada como epígrafe de On Liberty, a mens uma blind submission a padrões segu­
afirmação da diversidade dos indivíduos co­ ros de cognição e de sociabilidade. Em Stu­
mo condição de aperfeiçoamento da espécie. art Mill, a falsidade é substituída pelo que
Na verdade, Mill pode ser considerado como poderíamos designar como uma ignorância
definidor de um indutivismo de tipo liber­ endêmica, produto da nossa parcialidade de
tário. Seus alvos críticos serão tanto o dedu­ valores e de circunstâncias.
tivismo racionalista como também as pres­
Desta atribuição de ignorância ao conjun­ social — é um perverso mecanismo de esco­
to da humanidade não deriva uma desqualifi­ lha: “He who does anything because it is
cação do conteúdo substantivo dos conheci­ the custom makes no choice” (Stuart Mill,
mentos e juízos humanos ordinários. O que 1975: 55). Curiosamente a etnografia dos
estará sob crivo são as condições sociais de efeitos do costume sobre as escolhas sociais
cognição e experimentação, vistas como res­ é a mesma para Burke e Stuart Mill. No en­
ponsáveis pela maior ou menor variedade tanto, o que para o primeiro é apresentado
de situações dispostas à reflexão humana. como um virtuoso mecanismo de configura­
Por outro lado, dada a imperfeição inerradi- ção de comportamentos e identidades soci­
cável do conhecimento social, a unanimi­ ais, para o segundo emerge como despotis­
dade de opinião aparece, para Stuart Mill, mo e como liberticídio.
como um mecanismo maximizador da igno­
O argumento humboltiano da variedade,
rância. Por esta via, o despotismo político
apresentado no primeiro capítulo de Os limi­
segrega efeitos cognitivos letais, pela redu­
tes da ação do Estado, tal como estendido
ção da variedade cognitiva potencial dos ho­
por Stuart Mill, tem importantes implicações
mens à uma uniformidade artificial e impos­
cognitivas. Através dele se esboça uma epis-
ta. Diante da precariedade cognitiva apenas
temologia não-dogmática com os seguintes
o alargamento das margens possíveis de ex­
desdobramentos políticos:
perimentação pode resultar em aperfeiço­
amento da humanidade: “As it is useful that 1. dada a dispersão isonômica da ignorân­
while mankind are imperfect there should cia, torna-se impossível legitimamente
be different esperiments of living; that free determinar que versões construídas sobre
should be given to varieties of character, a vida social podem ser, de modo inequí­
short of injury to others; and that the worth voco, consideradas verdadeiras ou falsas.
of diferent modes of life should be proved Disto decorre a necessidade da tolerância;
practically, when any one thinks fit to try 2. uma ordem política legítima tem no
them” (STUART MILL, 1975: 54). princípio da maioria uma condição neces­
O experimentalismo de Stuart Mill dife- sária para a sua adequada operação, j á que
rencia-se do elogio burkeano da experiência predomínio despótico de uma minoria
em pelo menos uma importante dimensão. im-plica a submissão de muitos igno­
Não se trata de um estoque prévio de expe­ rantes à ignorância de poucos;
riências passadas que se impõem ao conheci­ 3. conquanto seja condição necessária, o
mento por mais variadas que elas possam principio da maioria não é de modo al­
ter sido. O elogio da variedade feito por Bur­ gum suficiente. A garantia de uma ordem
ke é sobretudo retrospectivo: a complexi­ livre é dada pela existência de mecanis­
dade do passado, sua não linearidade e sua mos protetores da experimentação. Já que
superioridade cognitiva sobre o presente le­ Stuart Mill observa uma variação con­
gam aos homens atuais o limite possível e comitante entre o surgimento de inova­
legítimo da experimentação. O experimenta­ ções e o desempenho de grupos minori­
lismo de Stuart Mill é prospectivo: a liber­ tários na sociedade, ele recomenda que a
dade depende da variedade de situações proteção das minorias seja um daqueles
dispostas aos homens para experimentos mecanismos protetores.
futuros.
Dessas prescrições podemos inferir que
O despotismo do costume (STUART Stuart Mill postulou em On Liberty um in-
MILL, 1975: 66) além de limitar o alcance dutivismo social libertário, embora limitado
da experimentação humana — individual e
pela exigência de que os agentes sociais não elaborado em oposição ao dedutivismo mo-
devam ferir os interesses de outros agentes. nista e utilitarista que o precedeu, estabelece
Essa cláusula bastou para Hobbes confinar que a busca da felicidade se define como
a liberdade ao silêncio da lei. Em Stuart Mill, resposta para indagações a respeito das fina­
ela elimina apenas o que poderia ser con­ lidades da vida. No entanto, a materialização
siderado como comportamento predatório. desse objetivo é incomensuravelmente vari­
Em outras palavras, o conflito por recursos ada. Como agentes morais e cognitivos, os
escassos não esgota o repertório objetivo homens são dotados da prerrogativa de defi­
possível das ações humanas. O experimen­ nir livremente que valores substantivos de­
talismo, portanto, não aparece como meca­ vem preencher o universal vazio que os de­
nismo gerador de inovações sociais voltadas fine como espécie.
para a predação, mas como modo de acres­ Esta referência a Stuart Mill poderia ser
centar à vida social existente novas dimen­
estendida de modo exemplarista, através da
sões enriquecedoras. O experimentalismo,
adição de passagens de On Liberty, capazes
além de prospectivo, é aditivo: ele alarga o
de ilustrar as dimensões aqui apresentadas.
estoque de sabedoria social disponível.
No entanto, dadas as finalidades deste en­
Parece ser clara, portanto, a prescrição saio, creio que as dimensões variedade,
de Stuart Mill a respeito de um adequado tolerância e liberdade, associadas à uma
comportamento cognitivo por parte dos epistemologia não-dogmática, à recusa do
agentes sociais. Eles devem orientar sua ela­ despotismo do hábito e ao anti-dedutivismo
boração cognitiva pelo alargamento da ex­ moral, caracterizam Stuart Mill como um
perimentação e pela desnaturalização dos notável indutivista libertário. Este é o lugar
preconceitos. Mas, para os indivíduos não que parece ocupar no âmbito da tradição li­
façam da experimentação presente as bases beral. Deste lugar, podemos contemplar uma
do hábito futuro, Stuart Mill conta com um imagem de mundo social na qual se admite
poderoso recurso: a atribuição aos agentes a compatibilidade entre indutivismo e uto­
sociais, ao lado de atributos cognitivos, de pia; vida comum e exercício de uma liber­
um padrão de atributos morais. Tal padrão, dade humanamente tangível.

Renato Lessa é cientista político, Diretor Executivo do IUPERJ e Professor Titular do


Departamento de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense

BIBLIOGRAFIA

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