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CONTOS E CRÔNICAS DE MOACYR SCLIAR

MINUTO DE SILÊNCIO

O rei morreu, e o governo decretou: no dia seguinte ao do enterro, às


dez horas da manhã, toda a população deveria guardar um minuto de
silêncio. Assim foi feito, e à hora aprazada um pesado silêncio caiu sobre
todo o país.
As pessoas que estavam na rua viam outras pessoas, absolutamente
imóveis, em silêncio. Supostamente deveriam estar pensando no monarca
falecido, e, de fato, muitos pensavam nele; na verdade quase todos, a
exceção sendo representada por um professor de matemática que tão logo
ficou em silêncio, pôs-se a fazer cálculos e descobriu que a soma dos
minutos de silêncio de vinte e seis milhões e oitocentos mil cidadãos
equivalia a cinquenta anos, exatamente a idade que tinha o rei ao falecer.
Uma vida se perdeu, pensou o professor, outra vida se está perdendo agora,
no silêncio. E logo depois: não está se perdendo, não inteiramente, pois
algo descobri - o que será?
Nesse momento, na maternidade, sua mulher dava a luz a uma
criança que, portadora de múltiplas lesões congênitas, não resistiu: viveu
apenas um minuto. O tempo suficiente para que a mãe a batizasse com o
nome do saudoso rei.
GRILOS

Enquanto no Brasil há luta de galos, na China o quente são as lutas de


grilos. Os grilos machos se atacam quando colocados no mesmo ambiente, uma
caixa de pequenas dimensões, o que reduz consideravelmente a platéia do
espetáculo. A luta não é proibida. O apaixonado pela luta de grilos deve estar
disposto a pagar altos preços pelos insetos mais fortes. Há grilos que custam até
US$ 1.000 (R$ 2.800). Mas, em geral, os preços são bem mais baixos e insetos
que apenas cantam podem ser comprados por menos de US$ 10 (R$ 28). Folha
Online (Cláudia Trevisan), 5.abr.2005
A milenar história da luta de grilos na China viu-se seriamente abalada
com a inesperada entrada em cena de um inseto que até então fora apenas
conhecido como personagem de uma história de ficção: o Grilo Falante. Todo
mundo achava que ele tinha se aposentado depois que Pinóquio se transformara
num menino de verdade. Mas não. Não apenas o Grilo Falante não se aposentara
como saíra pelo mundo, em busca de um lugar onde pudesse cumprir sua missão
de consciência acusadora. E assim chegara à China, onde encontrara grilos
submetidos a uma triste sina: eram obrigados a lutar para diversão de uns poucos
espectadores.
No meio deles, o Grilo Falante se destacava, sobretudo porque falava duas
línguas, a dos humanos e a da sua própria espécie. O que considerava uma dádiva
do destino: era uma oportunidade única para que assumisse o papel de defensor
dos oprimidos. Assim como Espártaco liderara uma revolta dos gladiadores,
pondo em xeque o poder do Império Romano, ele lideraria os grilos não falantes
numa histórica rebelião. Empolgado, fazia discurso atrás de discurso:
- Nós, grilos, somos vítimas dos humanos - proclamava. - Eles fazem com
que a gente se mate, e para quê? Para que tenham diversão, uma diversão cruel,
doentia. Uni-vos, grilos! Nada tendes a perder, a não ser a vossa condição de
escravos!
No começo, os grilos ficaram perplexos, sem saber o que fazer. Mas aos
poucos foram se entusiasmando com a pregação e acabaram autorizando o Grilo
Falante a negociar com os humanos condições de vida mais justas.
Quando os proprietários dos grilos viram-se diante de tão estranho
interlocutor, ficaram surpresos. Acharam que tratava-se de um rebelde, um grilo
treinado por aquele estudante que enfrentara os tanques na praça da Paz Celestial.
O Grilo Falante disse-lhes que nada tinha a ver com disputas políticas. O que ele
queria era proteção para seus companheiros. E listou suas condições: as lutas, daí
em diante, deveriam ser apenas simuladas, de brincadeira. A caixa em que
lutavam seria confortável, com ar condicionado. Os grilos teriam direito a rações
duplas de alimentos, e assim por diante.
Na falta de alternativa, os donos dos grilos aceitaram as condições. Mas
estão atrás do Pinóquio. Pagarão a ele qualquer quantia para que leve o Grilo
Falante embora da China.
OS TERRORISTAS

Era um professor duro, exigente e implacável. As provas eram feitas


sem aviso prévio. Todos os trabalhos valiam nota e eram corrigidos
segundo os critérios mais rigorosos. Resultado: no fim do ano quase todos
os alunos estavam à beira da reprovação. As notas, que ele anotava
cuidadosamente ao livro de chamada, eram as mais baixas possíveis.
O que fazer? Reuniam-se todos os dias em frente ao colégio para
discutir a situação, mas nada lhes ocorria. Até que um deles teve uma ideia
brilhante.
O livro de chamada. A solução estava ali: tinham de se apossar do livro
de chamada e mudar as notas. Um 0 podia ser transformado em 8. Um 1
poderia virar 7(ou 10, dependendo do grau de ambição).
O problema era pegar o livro, que o professor não largava nunca – nem
mesmo para ir ao banheiro. Aparentemente, só uma catástrofe poderia
separá-los.
Recorreram, pois, à catástrofe. Um dos alunos telefonou do orelhão em
frente ao colégio, avisando que havia um princípio de incêndio na casa do
professor.
Avisado, o pobre homem saiu correndo da sala de aula – deixando sobre
a mesa o famigerado livro de presença.
Acrediteis se eu disser que ninguém tocou no livro? Ninguém tocou no
livro.
Os rapazes se olharam, mas nenhum deles tomou a iniciativa de mudar
as notas. Às vezes a consciência pesa mais que a ameaça de reprovação.
OS TURISTAS SECRETOS

Havia um casal que tinha uma inveja terrível dos amigos turistas –
especialmente dos que faziam turismo no exterior. Ele, pequeno funcionário de uma
grande firma, ela, professora primária, jamais tinham conseguido juntar o suficiente
para viajar. Quando dava para as prestações das passagens não chegava para os
dólares, e vice-versa; e assim, ano após ano, acabavam ficando em casa.
Economizavam, compravam menos roupa, andavam só de ônibus, comiam menos –
mas não conseguiam viajar para o exterior. Às vezes passavam uns dias na praia. E
era tudo.
Contudo, tamanha era a vontade que tinham de contar para os amigos sobre as
maravilhas da Europa, que acabaram bolando um plano. Todos os anos, no fim de
janeiro, telefonavam aos amigos: estavam se despedindo, viajavam para o Velho
Mundo. De fato, alguns dias depois começavam a chegar postais de cidades
européias, Roma, Veneza, Florença; e ao fim de um mês eles estavam de volta,
convidando os amigos para verem os 'slides' da viagem. E as coisas interessantes
que contavam! Até dividiam os assuntos: a ele cabia comentar os hotéis, os serviços
aéreos, a cotação das moedas, e também o lado pitoresco das viagens; a ela tocava o
lado erudito: comentários sobre os museus e locais históricos, peças teatrais que
tinham visto. O filho, de dez anos, não contava nada, mas confirmava tudo; e
suspirava quando os pais diziam:
- Como fomos felizes em Florença!
O que os amigos não conseguiam descobrir é de onde saíra o dinheiro para a
viagem; um, mais indiscreto, chegou a perguntar. Os dois sorriram, misteriosos,
falaram numa herança e desconversaram.
Depois é que ficou se sabendo.
Não viajavam coisa nenhuma. Nem saíam da cidade. Ficavam trancados em
casa durante todo o mês de férias. Ela ficava estudando os folhetos das companhias
de turismo, sobre – por exemplo – a cidade de Florença: a história de Florença, os
museus de Florença, os monumentos de Florença. Ele, num pequeno laboratório
fotográfico, montava 'slides' em que as imagens deles estavam superpostas a
imagens de Florença. Escrevia os cartões-postais, colava neles selos usados com
carimbos falsificados. Quanto ao menino, decorava as histórias contadas pelos pais
para confirmá-las se necessário.
Só saíam de casa tarde da noite. O menino, para fazer um pouco de exercício;
ela, para fazer compras num supermercado distante; e ele, para depositar nas caixas
de correspondência dos amigos os postais.
Poderia ter durado muito e muitos anos, esta história. Foi ela quem estragou
tudo. Lá pelas tantas, cansou de ter um marido pobre, que só lhe proporcionava
excursões fingidas. Apaixonou-se por um piloto, que lhe prometeu muitas viagens,
para os lugares mais exóticos. E acabou pedindo o divórcio.
Beijaram-se pela última vez ao sair do escritório do advogado.
- A verdade – disse ele – é que me diverti muito com a história toda.
- Eu também me diverti muito – ela disse.
- Fomos muito felizes em Florença – suspirou ele.
- É verdade – ela disse, com lágrimas nos olhos. E prometeu-se que nunca mais
iria a Florença.
OS ÓCULOS MÁGICOS

Quando eu era criança tive um problema. Melhor dizendo, tive vários


problemas, mas havia um que era bem chato. Eu precisava usar óculos.
Meus pais tinham me levado num médico especialista em olhos e ele,
depois de me examinar, fez o anúncio em tom solene:
– Você tem que usar óculos – disse e entregou a receita ao meu pai.
Bem, que eu precisava usar óculos, isso eu já sabia. Porque a verdade é que
eu não enxergava bem. Na aula, tinha de sentar na primeira fila e, mesmo
assim, às vezes não conseguia ler o que a professora escrevia na lousa.
Mais: vivia dando topadas por toda a parte, tanto que minhas pernas
estavam todas esfoladas.
Claro que eu precisava de óculos. Só que eu não queria usar óculos.
Achava que todo o mundo iria debochar de mim, que me dariam apelidos,
tipo: Quatro Olhos. Meu pai, minha mãe e minha irmã mais velha, a Teresa,
insistiram, lembraram o que o médico tinha falado. Inútil.
– Não uso óculos e está acabado! – eu dizia.
Bom, hoje uso óculos. Vocês perguntarão: mas, então, você mudou?
Mudei. E mudei graças à vó Cornélia. Vó Cornélia era a mãe do meu
pai. Eu não a via muito seguidamente; ela morava no interior e só de vez
em quando aparecia para nos visitar. Mas, quando vinha, era um
acontecimento, principalmente para mim. Porque a vó Cornélia, uma
velhinha miúda, magrinha, tinha fama de feiticeira. Todo o mundo dizia
que ela podia fazer mágicas incríveis. O meu sonho era ver alguma mágica
da vó Cornélia.
Logo depois da consulta ao médico ela veio nos visitar. Nos
primeiros dias correu tudo normal, como se ela fosse uma avó igual às
outras. Mas uma noite me chamou. Disse que tinha um presente especial
para mim e me deu uma caixa plástica. Abri, e o que havia lá dentro?
Óculos.
– Estes óculos são mágicos – ela disse. – Se você usá-los sempre, de
repente vai ver coisas maravilhosas, coisas que você nunca viu antes.
Foi assim que comecei a usar óculos. E nunca mais parei. A vó
Cornélia morreu há muito tempo. E vocês perguntarão: e aquela história da
mágica, era mentira dela? Não, não era mentira. Ou, pelo menos, não era
totalmente mentira. Porque os óculos foram mágicos para mim. Agora eu
podia enxergar direito e podia ver coisas que nunca tinha visto antes. Com
os óculos eu tinha descoberto a magia da vida.