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Regine Pernoud

A MULHER SEM ALMA


Régine Pernoud

Em 1975, “ano internacional da mulher”, o ritmo de referências à Idade Média tornou-se estonteante; a imagem da
Idade Média, dos tempos obscuros de onde se emerge, como a Verdade de um poço, impunha-se a todos os
espíritos e fornecia um tema básico para os discursos, colóquios, simpósios e seminários de todos os tipos. Como eu
mencionasse, um dia, em sociedade, o nome de Eleonora de Aquitânia, obtive logo aprovações entusiásticas: “Que
personagem admirável! — exclamou um dos presentes. Numa época em que as mulheres só pensavam em ter
filhos…”. Eu lhe fiz uma observação sobre o fato de que Eleonora parecia haver pensado assim pois teve dez e,
considerando sua personalidade, isto não poderia ter ocorrido por simples advertência. O entusiasmo tornou-se um
pouco menor.

A situação da mulher, na França medieval, é na atualidade assunto mais ou menos novo: poucos estudos sérios lhe
foram consagrados, pode-se mesmo dizer que se os poderia contar pelos dedos. A sociedade Jean Bodin, cujos
trabalhos são tão notáveis, editou em 1959-1962 dois grossos volumes (respectivamente 346 e 770 páginas) sobre a
mulher. Todas as civilizações são sucessivamente examinadas. A mulher é estudada na sociedade do Sião, ou de
acordo com os vários direitos cuneiformes, ou no Direito malikité-magrebino, mas, para o nosso Ocidente medieval,
não se contam mais do que dez páginas relativas ao Direito canônico, outras dez ao período que vai do século XIII ao
fim do século XVII, um estudo consagrado aos tempos clássicos até o Código Civil, um outro, a monarquia Franca, e
trabalhos mais pormenorizados sobre a Itália, a Bélgica e a Inglaterra, na Idade Média. E eis tudo. O período feudal é
completamente esquecido.

É igualmente inútil procurar nesta obra um estudo sobre a mulher nas sociedades célticas, onde, estamos certos, ela
tinha um papel contrastante com o confinamento a que estava sujeita nas sociedades do tipo clássico greco-romano.
No que se refere aos celtas, para os historiadores de nossa época, o homem e a mulher se encontravam num pé de
igualdade completa, tanto que não se ressalta nunca nem um nem outro. Aos celtas, de uma vez por todas, foi
recusado o direito de existir.

No entanto, impõe-se uma imagem, à qual já tive ocasião de me referir (1). Não é, em realidade, surpreendente
pensar que nos tempos feudais a rainha é coroada como o rei, geralmente em Reims, às vezes em outra catedral do
domínio real (em Sens, como Margarida de Provence), mas sempre pelas mãos do arcebispo de Reims? Dito de outra
forma, atribuía-se à coroação da rainha tanto valor quanto à do rei. Ora, a última rainha a ser coroada foi Maria de
Medicis; ela o foi, aliás, tardiamente, em 1610, na véspera do assassinato de seu marido, Henrique IV; a cerimônia
ocorreu em Paris, segundo um costume consagrado nos séculos anteriores (atingir Reims representava então um
feito militar por causa das guerras anglo-francesas). E, além disso, desde os tempos medievais (o termo é tomado
aqui em oposição a tempos feudais), a coroação da rainha tinha-se tornado menos importante que a do rei; numa
época em que a guerra se alastrava pela França de forma endêmica (a famosa Guerra dos Cem Anos), as
necessidades militares começaram a ter primazia entre todas as preocupações, por ser o rei, antes de tudo, o “chefe
da guerra”. Tanto assim é que, no século XVII, a rainha desaparece literalmente da cena em proveito da favorita.
Basta lembrar qual foi o destino de Maria Teresa ou o de Maria Leszcynska para se convencer. E quando a última
rainha quis retomar uma parte deste poder, lhe foi dada ocasião de se arrepender, pois ela se chamava Maria
Antonieta (é justo lembrar que a última favorita, a Du Barry, reuniu-se à última rainha no cadafalso).

Esta rápida visão do papel das rainhas dá idéia bem exata do que se passou com as mulheres; o lugar que elas
ocuparam na sociedade; a influência que exerceram seguiu, exatamente, um traçado paralelo. Enquanto uma
Eleonora de Aquitânia, uma Branca de Castela dominam realmente seus séculos, exercem poder sem contestação no
caso de ausência do rei, doente ou morto, e têm suas chancelarias, suas alfândegas, seus campos de atividade
pessoal (que poderia ser reivindicado como um fecundo exemplo para os movimentos feministas de nosso tempo), a
mulher, nos tempos clássicos, foi relegada a um segundo plano; exerce influência só na clandestinidade e se
encontra notoriamente excluída de toda função política ou administrativa. Ela é mesmo tida como incapaz de reinar,
de suceder no feudo ou no domínio, principalmente nos países latinos e, finalmente, em nosso Código, de exercer
qualquer direito sobre seus bens pessoais.

É, como sempre, na História do Direito que se deve procurar os fatos e seu significado, ou seja, a razão desta
decadência que se transformou, com o século XIX, no desaparecimento total do papel da mulher, principalmente na
França. Sua influência diminui paralelamente à ascensão do Direito romano nos estudos jurídicos, depois nas
instituições e, por fim, nos costumes. É um apagar progressivo do qual se pode seguir as principais etapas, pelo
menos na França, muito bem.

Curiosamente a primeira disposição que afasta a mulher da sucessão ao trono foi tomada por Filipe, o Belo. É
verdade que este rei estava sob a influência dos legisladores meridionais, que tinham literalmente invadido a corte
de França, o começo do século XIV, e que, representantes típicos da burguesia das cidades notadamente das do Sul
mais voltadas para o comércio, redescobriram o Direito romano com uma verdadeira avidez intelectual.

Esse Direito concebido por militares, funcionários, comerciantes, conferia aos proprietários o jus utendi et abutendi,
o direito de usar e abusar, em completa contradição com o Direito consuetudinário de então, mas eminentemente
favorável aos que detinham riquezas, principalmente móveis. Àqueles, com razão, esta legislação parecia
infinitamente superior aos costumes existentes para assegurar e garantir bens, tráficos e negócios. O Direito romano
do qual vemos renascer a influência na Itália, em Bolonha principalmente, foi a grande tentação do período
medieval; ele foi estudado com entusiasmo não só pela burguesia das cidades, mas, também, por todos os que viam
nele um instrumento de centralização e de autoridade. Ele se ressente, com efeito, de suas origens imperialistas e,
por que não dizer, colonialistas. Ele é o Direito, por excelência, dos que querem firmar uma autoridade central
estatizada. Também é reivindicado, adotado, estendido para as potências que procuravam, então, a centralização:
pelo imperador, primeiro, depois pelo Papa. Em meados do século XIII, o imperador Frederico II, cujas tendências
eram as de um monarca, fez deste tipo de direito a lei comum dos países germânicos. A universidade que ele funda
em Nápoles — a única que os súditos do imperador estavam daí em diante autorizados a freqüentar — ministra o
estudo do Direito romano, tão bem que esse Direito regeu as instituições e os costumes dos países germânicos numa
época em que o Ocidente não o admitia ainda. (2) Apenas ao longo do século XVII é que o estudo do Direito romano,
precisamente, porque era o Direito imperial, será admitido na Universidade de Paris. É verdade que, muito antes,
era ensinado em Toulouse, e que, favorecido pela admiração exagerada que se sente, no século XVI, pela
Antiguidade, tinha começado a impregnar os hábitos e a modificar profundamente os costumes e as mentalidades,
na própria França.

Ora, o Direito romano não é favorável à mulher, nem tampouco à criança. É um direito monárquico, que só admite
um fim. É o direito do pater familias, pai, proprietário e, em sua casa, grande-sacerdote, chefe da família com
poderes sagrados, sem limites no que concerne a seus filhos; tem sobre eles direito de vida e de morte — e da
mesma forma sobre sua mulher, apesar das limitações, tardiamente introduzidas sob o Baixo Império.

 Apoiando-se no Direito romano é que juristas como Dumoulin, por seus tratados e seus ensinamentos, contribuem,
por sua vez, para estender o poder do Estado centralizado e também — o que nos interessa aqui — para restringir a
liberdade da mulher e da sua capacidade de ação, principalmente no casamento. A influência deste direito será tão
forte que, no século XVI, a maioridade, que era aos doze anos para as meninas e quatorze para os rapazes, na maior
parte dos costumes, vai ser transferida para a mesma idade fixada em Roma, isto é, vinte e cinco anos (em Roma, a
maioridade não importava muito, pois o poder do pai sobre os filhos perdurava durante toda a vida). Era uma nítida
regressão sobre o Direito consuetudinário, que permitia à criança adquirir, muito jovem, uma verdadeira autonomia,
sem que, por isso, a solidariedade da família lhe fosse negada. Nesta estrutura, o pai tinha autoridade de gerente,
não de proprietário: ele não tinha o poder de deserdar seu filho mais velho e era o costume que, nas famílias nobres
ou de homens comuns, regulava a devolução dos bens, em um sentido que mostra claramente o poder que a mulher
conservava sobre o que lhe pertencia: no caso de um casal morrer sem herdeiros diretos, os bens provenientes do
pai iam para a família paterna, mas os provenientes da mãe voltavam para a família materna, segundo o adágio bem
conhecido do Direito consuetudinário: paterna paternis, materna maternis.

No século XVII já se constata uma profunda evolução neste ponto de vista: os filhos, considerados como menores até
vinte e cinco anos, continuam sob a autoridade do pai e a característica de propriedade tendente a tornar-se
monopólio do pai não faz mais do que se firmar. O Código de Napoleão dá o último retoque a este dispositivo e dá
um sentido imperativo às tendências que começaram a se firmar desde o fim da época medieval. Lembremos que
apenas no fim do século XVII a mulher toma obrigatoriamente o nome do marido; e, também, que é somente com o
Concílio de Trento, portanto na segunda metade do século XVI, que o consentimento dos pais torna-se necessário
para o casamento de adolescentes; tanto quanto se tornou indispensável a sanção da Igreja. Ao velho adágio dos
tempos anteriores:

                    Beber, comer, dormir juntos

                    Fazem o casamento, me parece

junta-se:

                            Mas é preciso passar pela Igreja.

 Não nos esqueceremos de destacar aqui o número de uniões devidamente arranjadas pela família nos tempos
feudais: os exemplos são abundantes realmente, moças e rapazes, noivos desde o berço, prometidos um ao outro.
Também não faltou quem quisesse argumentar com o fato de que as mulheres não eram livres na época; o que é
fácil de retrucar, pois que, deste ponto de vista, rapazes e moças se encontravam em pé de igualdade rigorosa,
porque se dispõe do futuro esposo absolutamente do mesmo modo que da futura esposa. Deste modo, é
incontestável que ocorria, então, o que ainda hoje acontece em dois terços do mundo, isto é, que as uniões, em sua
grande maioria, eram arranjadas pelas famílias. E nas famílias nobres, especialmente as reais, essas disposições
faziam, de algum modo, parte das responsabilidades de nascimento, porque um casamento entre dois herdeiros de
feudo ou de reinos era considerado como o melhor meio de selar um tratado de paz, assegurar amizade recíproca e,
também, de garantir para o futuro uma herança vultosa.

Uma força lutou contra estas uniões impostas, e esta foi a Igreja; ela multiplicou, no Direito canônico, as causas de
nulidade, reclamou sem cessar a liberdade para os que se unem, um com relação ao outro e, com freqüência,
mostrou-se bastante indulgente ao tolerar, na realidade, a ruptura de laços impostos — muito mais nesta época do
que mais tarde, notemos. O resultado é a constatação que provém da simples evidência de que o progresso da livre
escolha do esposo acompanhou em toda parte o progresso da difusão do Cristianismo. Hoje, em países cristãos, esta
liberdade, tão justamente reclamada, é reconhecida pelas leis, enquanto que, nos países muçulmanos ou nos países
do Extremo Oriente, esta liberdade, que nos parece essencial, não existe ou só recentemente foi concedida. (3)

Isto nos leva a discutir o slogan: “Igreja hostil à mulher”. Não nos demoraremos em questionar a afirmação acima, o
que exigiria um volume à parte; não iremos mais discutir as tolices evidentes (4) que foram proferidas sobre o
assunto. “Não foi senão no século XV que a Igreja admitiu que a mulher tinha alma”, afirmava candidamente, um dia
no rádio, não sei que romancista certamente cheio de boas intenções, mas cuja informação apresentava algumas
lacunas! Assim, durante séculos, batizou-se, confessou-se e ministrou-se a Eucaristia a seres sem alma! Neste caso,
por que não aos animais? É estranho que os primeiros mártires honrados como santos tenham sido mulheres e não
homens. Santa Agnes, Santa Cecília, Santa Ágata e tantas outras. É verdadeiramente triste que Santa Blandina ou
Santa Genoveva tenham sido desprovidas de uma alma imortal. É surpreendente que uma das mais antigas pinturas
das catacumbas (no cemitério de Priscille) representasse, precisamente, a Virgem com o Menino, bem designado
pela estrela e pelo profeta Isaías. Enfim, em quem acreditar, nos que reprovam na Igreja medieval justamente o
culto da Virgem Maria, ou naqueles que julgam que a Virgem Maria era, então, considerada como uma criatura sem
alma?

Sem nos demorarmos, portanto, nestas tolices, recordaremos aqui que algumas mulheres (que nada designavam
particularmente, pela família ou pelo nascimento, pois que vinham, como diríamos atualmente, de todas as camadas
sociais, como, por exemplo, a pastora de Nanterre) usufruíram na Igreja, e justamente por sua função na Igreja, de
um extraordinário poder na Idade Média. Certas abadessas eram senhoras feudais cujo poder era respeitado do
mesmo modo que o de outros senhores; algumas usavam o báculo como os bispos; administravam, muitas vezes,
vastos territórios com cidades e paróquias… Um exemplo, entre mil outros: no meio do século XII, cartulários nos
permitem seguir a formação do mosteiro de Paraclet, cuja superiora é Heloisa; basta percorre-los para constatar que
a vida de uma abadessa, na época, comporta todo um aspecto administrativo: as doações que se acumulam, que
permitiam perceber ora o dízimo de um vinhedo, ora o direito às taxas sobre o feno e o trigo, aqui o direito de
usufruir uma granja, e lá o direito de pastagem na floresta… Sua atividade é, também, a de um usufruidor, ou seja, a
de um senhor. Quer dizer que, a par de suas funções religiosas, algumas mulheres exerciam, mesmo na vida laica,
um poder que muitos homens invejariam no presente.

Por outro lado, constata-se que as religiosas desta época — sobre as quais, digamos de passagem, ainda nos faltam
estudos sérios — são na maioria mulheres extremamente instruídas, que poderiam rivalizar, em sabedoria, com os
monges mais letrados do tempo. A própria Heloísa conhece e ensina às monjas o grego e o hebraico. É de uma
abadia de mulheres, a de Gandersheim, que provém um manuscrito do século X contendo seis comédias, em prosa
rimada, imitação de Terêncio, e que são atribuídas à famosa abadessa Hrostsvitha, da qual, há muito tempo,
conhecemos a influência sobre o desenvolvimento literário nos países germânicos. Estas comédias, provavelmente
representadas pelas religiosas, são, do ponto de vista da história dramática, consideradas como prova de uma
tradição escolar que terá contribuído para o desenvolvimento do teatro na Idade Média. Digamos, de passagem, que
muitos mosteiros de homens e de mulheres ministravam instrução às crianças da região.

É surpreendente, também, constatar que a mais conhecida enciclopédia do século XII é da autoria de uma religiosa,
a abadessa Herrade de Landsberg. É a famosa Hortus deliciarum (Jardim das delícias) na qual os eruditos retiravam
os ensinamentos mais corretos sobre o avanço das técnicas, em sua época. Poder-se-ia dizer o mesmo das obras da
celebre Hildegarde de Bingen. Enfim, uma outra religiosa, Gertrude de Helfa, no século XIII, conta-nos como se
sentiu feliz ao passar de estado de gramaticista ao de teóloga, isto é, depois de ter percorrido o ciclo de estudos
preparatórios ela galgara o ciclo superior, como se fazia na Universidade. O que prova que, ainda no século XIII, os
conventos de mulheres permaneciam sendo o que sempre foram desde São Jerônimo, que instituiu o primeiro
dentre eles, a comunidade de Belém: lugares de oração, mas, também, de ciência religiosa, de exegese, de erudição;
estuda-se a Escritura Sagrada, considerada como a base de todo conhecimento e, também, os elementos de saber
religioso e profano. As religiosas são moças instruídas; portanto, entrar para o convento é o caminho normal para as
que querem desenvolver seus conhecimentos além do nível comum. O que parece extraordinário em Heloísa é que,
em sua juventude, não sendo religiosa e não desejando claramente entrar para o convento, procurava, todavia,
estudos muito áridos, ao invés de se contentar com a vida mais frívola, mais despreocupada, de uma jovem
desejando “viver no século”. A carta que Pedro, o Venerável lhe enviou o diz expressamente.

Mas há algo mais surpreendente. Se quisermos fazer uma idéia exata do lugar ocupado pela mulher na Igreja dos
tempos feudais, é preciso perguntarmo-nos o que se diria, em nosso século XX, de conventos de homens colocados
sob a direção de uma mulher. Um projeto deste gênero teria, em nosso tempo, alguma possibilidade de se realizar?
E, no entanto, isto foi realizado com pleno sucesso, e sem provocar o menor escândalo, na Igreja por Robert
d’Arbrissel, em Fontevrault, nos primeiros anos do século XII. Tendo resolvido fixar a incrível multidão de homens e
mulheres que se arrastava atrás dele — porque ele foi um dos maiores pregadores de todos os tempos —, Robert
d’Abrissel decidiu fundar dois conventos, um de homens, outro de mulheres; (5) entre eles se elevava a Igreja, único
lugar em que monges e monjas podiam se encontrar. Ora, este mosteiro duplo foi colocado sob a autoridade, não de
um abade, mas de uma abadessa. Esta, por vontade do fundador, devia ser viúva, tendo tido a experiência do
casamento. Para completar, digamos que a primeira abadessa que presidiu os destinos da Ordem de Fontevrault,
Petronila de Chemillé, tinha 22 anos. Não acreditamos que, mesmo nos dias de hoje, semelhante audácia tivesse a
menor oportunidade de ser considerada ao menos uma única vez.

Se se examinam os fatos, uma conclusão se impõe: durante todo o período feudal, o lugar da mulher na igreja
apresentou algumas diferenças daquele ocupado pelo homem (e em que medida não seria esta uma prova de
sabedoria: levar em conta que o homem e a mulher são duas criaturas equivalentes, mas diferentes?), mas este foi
um lugar eminente, que simboliza, por outro lado, perfeitamente o culto, insigne também, prestado à Virgem entre
todos os santos. E é pouco surpreendente que a época termine por uma figura de mulher: a de Joana D’Arc, que,
seja dito de passagem, não poderia, jamais, nos séculos seguintes, obter a audiência e suscitar a confiança que
conseguiu, afinal.

É surpreendente, também, observar a rigidez que se produziu ao redor da mulher no extremo fim do século XIII. É
por uma medida bastante significativa que, em 1298, o Papa Bonifácio VII decide para as monjas (cartuxas,
cistercienses) a clausura total e rigorosa que elas conheceram a partir daí. Em seguida, não se admitirá mais que a
religiosa se misture com o mundo. Não se tolerarão mais estas leigas consagradas, que foram as penitentes, no
século XIII, que levavam uma vida igual a todos, mas que se consagravam por um voto religioso. No século XVII,
principalmente, veremos as religiosas da Visitação, destinadas, por sua fundadora, a se misturarem com a vida
quotidiana, obrigadas a se conformar com a mesma clausura das carmelitas; tanto que São Vicente de Paulo, para
permitir às Irmãs de Caridade prestar serviço aos pobres, tratar dos doentes e cuidar das famílias necessitadas,
evitará tratá-las como religiosas e de fazê-las proferir os votos: seu destino foi, então, de Visitadoras. Não se poderia
mais conceber que uma mulher tendo decidido consagrar sua vida a Deus não fosse enclausurada; enquanto que,
nas novas ordens criadas para os homens, por exemplo os Jesuítas, estes permaneciam no mundo.

Basta dizer que o status da mulher na Igreja é exatamente o mesmo que na sociedade civil e que tudo o que lhe
conferia alguma autonomia, alguma independência, alguma instrução, lhe foi, pouco a pouco, retirado depois da
Idade Média. Ora, como ao mesmo tempo a universidade — que admite apenas os homens — tenta concentrar o
saber e o ensino, os conventos deixam, de modo gradativo, de ser os centros de estudo que tinham sido
anteriormente; digamos que eles param, também, e muito rapidamente, de ser centros de oração.

A mulher se encontra, portanto, excluída da vida eclesiástica, como da vida intelectual. O movimento se precipita
quando, no começo do século XVI, o rei de França mantém nas mãos a nomeação de abadessas e abades. O melhor
exemplo continua sendo a Ordem de Fontevrault, que se torna um asilo para as velhas amantes do rei. Asilo onde se
leva daí em diante uma vida cada vez menos edificante, porque a clausura tão rigorosa não demora a sofrer grandes
alterações, confessadas ou não. Se algumas ordens, como a do Carmelo ou de Santa Clara, guardam sua pureza
graças a reformas, a maior parte dos mosteiros de mulheres, no fim do Antigo Regime, é de casas de recolhimento
onde as filhas caçulas de grandes famílias recebem muitas visitas e onde se jogam cartas e outros “jogos proibidos”,
até tarde da noite.

Faltaria falar das mulheres que não eram nem grandes damas nem abadessas, nem mesmo monjas: camponesas ou
citadinas, mães de família ou trabalhadoras. Inútil dizer que, para ser corretamente tratada, a questão reclamaria
muitos volumes e, também, que exigiria trabalhos preliminares, que não foram feitos. Seria indispensável pesquisar
não somente as coleções sobre os costumes ou os estatutos das cidades, mas, também, os cartulários, os
documentos judiciários ou, ainda, os inquéritos ordenados por São Luís; (6) destacam-se aí, colhidos na vida
quotidiana, mil pequenos pormenores colhidos ao acaso e sem ordem preconcebida, que nos mostram homens e
mulheres através dos menores atos de suas existências: aqui a queixa de uma cabeleireira, ali a de uma salineira
(comércio do sal), de uma moleira, da viúva de um agricultor, de uma castelã, da mulher de um cruzado, etc.

É por documentos deste gênero que se pode, peça por peça, reconstituir, como em um mosaico, a história real. Ela
nos parece aí, é inútil dizer, muito diferente das canções de gesta, dos romances de cavalaria ou das fontes literárias
que tão freqüentemente tomamos por fontes históricas!

O quadro que se delineia da reunião desses documentos nos apresenta mais de um traço surpreendente, pois
vemos, por exemplo, mulheres votarem como homens em assembléias urbanas ou nas das comunas rurais.
Freqüentemente, no divertimos em conferências ou palestras diversas, citando o caso de Gaillardine de Fréchou,
que diante de um arrendamento proposto aos habitantes de Cauterets, nos Pirineus, pela Abadia de Saint-Savin, foi
a única a votar não, quando todo o resto da população votou sim. O voto das mulheres nem sempre é
expressamente mencionado, mas isto pode ser porque não se via necessidade em faze-lo. Quando os textos
permitem diferenciar a origem dos votos, percebe-se que, em certas regiões, tão diferentes como as comunas
bearnenses, certas cidades de Champanha, ou algumas cidades do leste como Pont-à-Mousson, ou ainda na
Touraine, na ocasião dos Estados-Gerais de 1308, as mulheres são explicitamente citadas entre os votantes, sem que
isto seja apresentado como um uso particular do local. Nos estatutos das cidades indica-se, em geral, que os votos
são recolhidos na assembléia dos habitantes sem nenhuma especificação; às vezes, faz-se menção da idade,
indicando, como em Aurillac, que o direito de voto é exercido com a idade de vinte anos, ou em Embrun, a partir de
quatorze anos. Acrescentamos a isto que, como geralmente os votos se fazem por fogo, quer dizer, lar, lareira, por
casa, de preferência a por indivíduo, é aquele que representa o “fogo”, portanto, o pai de família, que é chamado a
representar os seus; se é o pai de família que é naturalmente seu chefe, fica bem claro que sua autoridade é a de um
gerente e de um administrador, não a de um proprietário.

Nas atas de notários é muito freqüente ver uma mulher casada agir por si mesma, abrir, por exemplo, uma loja ou
uma venda, e isto sem ser obrigada a apresentar uma autorização do marido. Enfim, os registros de impostos (nós
diríamos, os registros de coletor), desde que foram conservados, como é o caso de Paris, no fim do século XIII,
mostram multidão de mulheres exercendo funções: professora, médica, boticária, estucadora, tintureira, copista,
miniaturista, encadernadora, etc.

Não é senão no fim do século XVI, por um decreto do Parlamento, datado de 1593, que a mulher será afastada
explicitamente de toda a função no Estado. A influência crescente do Direito romano não tarda, então, a confinar a
mulher no que foi sempre seu domínio privilegiado: os cuidados domésticos e a educação dos filhos. Até o momento
em que isto, também lhe será retirado por lei, porque, destaquemos, com o Código de Napoleão ela já não é nem
mesmo a senhora de seus próprios bens e desempenha, em sua casa, papel subalterno. Embora desde Montaigne
até Jean-Jacques Rousseau sejam os homens que elaborem tratados sobre a educação, o primeiro, publicado na
França foi de uma mulher, Dhuoda, que o elaborou (em versos latinos) por volta de 841-843, para uso de seus
filhos. (7)

Há alguns anos, certas discussões ocorridas a respeito da questão da autoridade paterna, na França, foram muito
desconcertantes para o historiador da Idade Média; realmente, a idéia de que foi necessária uma lei para dar à
mulher direito de olhar pela educação de seus filhos teria parecido paradoxal nos tempos feudais. A comunidade
conjugal, pai e mãe, exercia conjuntamente, então, a função da educação e da proteção dos filhos, assim como,
eventualmente, a administração de seus bens. É verdade que a família era concebida em um sentido mais amplo;
esta educação causa infinitamente menos problemas, porque ela se faz no meio de um contexto vital, de uma
comunidade familiar mais abrangente e mais diversificada do que hoje, pois não está reduzida à célula inicial pai-
mãe-criança, mas comporta também os avós, colaterais, domésticos no sentido etimológico do termo. O que não
impede que a criança tenha, eventualmente, sua personalidade jurídica distinta; assim, se ela herda bens próprios
(legados, por exemplo, por um tio), estes são administrados pela comunidade familiar, que, em seguida, deverá
prestar-lhe conta.

Poder-se-ia multiplicar assim os exemplos, com pormenores fornecidos pela história do Direito e dos costumes,
atestando a degradação do lugar ocupado pela mulher entre os costumes feudais e o triunfo de uma legislação “à
romana”, da qual nosso Código ainda está impregnado. Seria melhor que, na época em que os moralistas queriam
ver “a mulher em casa”, fosse mais indicado inverter a proposição e exigir que o lar fosse da mulher.

A reação só chegou em nossos tempos. Entretanto, ela é, digamo-lo, muito decepcionante: tudo se passa como se a
mulher, eufórica pela idéia de ter penetrado no mundo masculino, continuasse incapaz da força da imaginação
suplementar, que lhe seria necessária, para levar a este mundo seu traço particular, precisamente aquele que faz
falta à nossa sociedade. Basta-lhe imitar o homem, ser julgada capaz de exercer as mesmas funções, adotar os
comportamentos e até os hábitos de vestir do seu parceiro, sem mesmo se questionar sobre o que é realmente
contestável e o que deveria ser contestado. Seria o caso de se perguntar se ela não está movida por uma admiração
inconsciente, o que podemos considerar excessivo, por um mundo masculino que ela acredita necessário e
suficiente copiar com tanta exatidão quanto possível, seja perdendo ela própria sua identidade, ou negando
antecipadamente sua originalidade.

Tais constatações levaram-nos bem longe do mundo feudal; elas podem, em todo o caso, levar ao desejo que este
mundo feudal seja um pouco mais bem conhecido, dos que crêem, de boa fé, que a mulher “sai enfim da Idade
Média”: elas têm muito que fazer para reencontrar o lugar que foi seu nos tempos da rainha Eleonora ou da rainha
Branca…

Notas:

1. Histoire de la bourgeoisie, op. Cit., t. II, pp. 30-31.

2. Paradoxalmente, os países germânicos foram modelados pelo Direito romano, enquanto que, na França,
embora desagrade aos que continuam presos ao mito de “raça latina”, os costumes eram formados por
hábitos que acreditamos “germânicos” e que devíamos antes chamar “célticos”.

3. “A legislação muçulmana proíbe à mulher o que ela reivindica, atualmente, e que chama de seus direitos, o
que não constitui senão uma agressão contra os direitos que foram conferidos apenas aos homens”. Assim
se exprimia, em 1952, em uma publicação intitulada Al Mistri, o Xeque Hasanam Makhluf (ver La
Documentation française, n° 2418, 31 de maio de 1952, p. 4).
4. Não pensamos que fosse necessário, quando da primeira edição deste livro, lembrar as origens desta ridícula
afirmação. Mas acontece que, ouvindo-a recentemente (1989), este esclarecimento parece útil. Gregório de
Tour, na sua Histoire des Francs (História dos Francos), cap. 91, conta que o Sínodo de Mâcon de 486, ao
qual ele não assistiu — diga-se de passagem —, um dos prelados fez notar “que não se devia compreender
as mulheres sob o nome dos homens”, dando à palavra homoo sentido restrito do latim vir. Acrescenta que,
consultando a Sagrada Escritura, “os argumentos dos bispos o fizeram reconhecer” essa falsa interpretação,
o que “fez cessar a discussão”. Mas os autores da Grande Enciclopédia do século XVIII iriam explorar este
pequeno incidente (que sequer consta dos cânones do Concílio) para deixar crer que se recusava à mulher a
natureza…

5. Houve, daí em diante, numerosas ordens duplas na época, principalmente nos países anglo-saxões e na
Espanha.

6. Iniciativa sem precedente, e também sem futuro, que consistia em fazer supervisionar, pelo rei, sua própria
administração, dirigindo-se diretamente aos administradores: o rei enviava aos lugares os pesquisadores,
unicamente encarregados de recolher as palavras das pessoas sem importância, que tinham motivos de
reclamar dos agentes reais, e reformar assim, no local, os abusos cometidos; em outras palavras, era o
caminho eficaz que remediou os defeitos do estatismo.

7. Riché, Dhuoda Manuel pour mon fils, Paris, Ed. du Cerf, 1975.

http://catolicosribeiraopreto.com/a-mulher-sem-alma/#more-10273

Males causados pela interrupção das Cruzadas


Nunca, talvez, a palavra epopeia foi melhor empregada do que falando das cruzadas.

Nunca a atração do Oriente se manifesta com mais ardor e, apesar dos aparentes fracassos, conduz a mais
espantosas realizações.

Basta evocar as fundações dos “francos” na Terra Santa: feitorias dos comerciantes, estabelecimentos organizados
que formam verdadeiras cidadezinhas, com sua capela, banhos públicos, entrepostos, habitações dos mercadores,
sala do tribunal e de reuniões; praças-fortes, cuja massa desafia ainda o solo, como o krak dos cavaleiros, o castelo
de Saône e as fortificações do Tyr; e ainda feitos de armas extraordinários, como os de Raymond de Poitiers ou de
Renaud de Châtillon, que fazem pensar que as Cruzadas, posta à parte a sua finalidade piedosa, foram um feliz
derivativo para o ardor efervescente dos barões.

A Europa perderá muito no século XIV, quando a sua atenção se afasta do Oriente.

São Luís IX tinha entrevisto a possibilidade de aliança com os mongóis.

Se ela tivesse sido aproveitada, teria provavelmente mudado completamente o destino dos dois mundos, oriental e
ocidental.

A sua morte prematura, a estreiteza de vistas dos seus sucessores, deixaram no estado de esboço um projeto cuja
importância foi valorizada pelos trabalhos de René Grousset.

Só os mongóis, que procuravam a aliança franca e favoreciam os cristãos nestorianos, podiam opor ao Islã uma
barreira eficaz.

As relações estabelecidas por Jean du Pan-Carpin, depois por Guillaume de Rubruquis — quando em 1254 visitava
Karakoroum, capital do Grande-Khan — tinham feito uns e outros compreenderem quais frutos poderiam nascer de
semelhante união, pois os mongóis se ofereciam para reconquistar Jerusalém aos turcos mamelucos.

Mas a sua oferta não foi tomada em consideração.

O citado historiador das cruzadas fez notar a coincidência das duas datas: 1287, embaixada do nestoriano mongol
Rabban Çauma junto a Filipe, o Belo, sem resultado; e 1291, perda de São João d’Acre.
Submergido pelo Islã, o Oriente fechar-se-á à influência e ao comércio europeu, o que marca uma decadência
irremediável para as cidades mediterrânicas e para os armadores inquietados pelos piratas.

Só os cavaleiros hospitalários continuarão a lutar palmo a palmo, e de Rodes a Malta desenvolverão encarniçados
esforços para manter a nossa via para o Oriente.

Luta desigual, mas admirável, que não cessará antes da tomada de Malta por Bonaparte.

(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge” - Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

O paradoxo sobre a Idade Média


Por Régine Pernoud, “Idade Média: o que não nos ensinaram”, p. 9-16.

Em “Idade Média: o que não nos ensinaram”, a medievalista Régine Pernoud destrói os chavões que aprendemos
sobre a época, e recupera o verdadeiro esplendor da injustamente chamada “Idade das Trevas”.

a ignorância a respeito da idade média

Era encarregada do Museu de França nos Arquivos Nacionais, há pouco tempo, quando chegou uma carta
perguntando: “Poderia me informar a data exata do tratado que marca oficialmente o fim da Idade Média?”. Havia
ainda uma pergunta complementar: “Em que cidade se reuniram os diplomatas que prepararam esse tratado?”.

Não tendo guardado a carta, não posso senão dar o conteúdo dela, mas garanto sua exatidão; o autor pedia uma
resposta rápida, pois, dizia ele, precisaria desses dois dados para uma conferência que pretendia fazer em data
muito próxima.

Algumas vezes me surpreendi imaginando, como distração pessoal, esta conferência. Não havia dificuldade: bastava
colocar de ponta a ponta o que se lê, o que se vê, o que se ouve diariamente sobre a “Idade Média”[1]. Ora, se o
medievalista pretende compor um apanhado de tolices sobre o assunto, ficará satisfeito com os exemplos da vida
cotidiana. Não há dia em que não encontre uma reflexão do tipo: “Não estamos mais na “Idade Média”, ou “É um
retomo à “Idade Média”, ou “É uma mentalidade medieval”. E isto nas circunstâncias mais diversas: para justificar as
reivindicações do M.L.F.[2] ou para lastimar as consequências de uma greve do E.D.F.[3] ou quando desejamos
emitir opiniões gerais sobre demografia, analfabetismo, educação...

Isto começa cedo: lembro-me de ter tido ocasião de seguir os estudos de um sobrinho de sete ou oito anos, em um
destes cursos em que os pais são admitidos para poderem depois fazer com que a criança estude. Na hora da lição
de História, ocorreu textualmente o seguinte:

Professora: Como se chamavam os camponeses na Idade Média?

Coro da turma: Eles se chamavam servos.

Professora: Que é que eles faziam, que é que eles tinham?

Turma: Eles tinham doenças.

Professora: Que doenças, Jerônimo?

Jerônimo (sério): Peste.

Professora: Que mais, Emanuel?

Emanuel (entusiasmado): Cólera!

Professora: Vocês sabem muito bem História. Passemos à Geografia...

Como isto se passou há muitos anos e o sobrinho em questão já atingiu a maioridade, de acordo com o Código Civil,
acreditei que as coisas tivessem mudado. Mas eis que há alguns meses (julho de 1975), passeando com a netinha de
uma de minhas amigas (Amélia, de 7 anos), ela me disse, alegremente:

— Sabe, na escola eu estou estudando a Idade Média.


— Muito bem. E como era a Idade Média? Conta-me.

— Bem, havia os senhores (ela procura um pouco antes de encontrar a palavra difícil...) senhores feudais. Eles
lutavam o tempo todo, e com seus cavalos iam aos campos dos camponeses e estragavam tudo.

Uma casquinha de sorvete chamou sua atenção e acabou com sua entusiástica descrição. Isto me fez compreender
que, em 1975, ensina-se a História exatamente como me ensinaram, há meio século ou mais. Assim caminha o
progresso! (...)

o conhecimento geral sobre o tema

Até época bem recente, era exclusivamente por engano ou, digamos, por acaso, que se tomava contato com a Idade
Média. Era preciso ter curiosidade pessoal e, para despertar essa curiosidade, um impacto, um encontro. Um portal
românico, uma flecha gótica, durante uma viagem; um quadro, uma tapeçaria, em qualquer museu ou exposição;
suspeitava-se, então, da existência de um mundo até então mal conhecido. Mas, passada a emoção, como conhecê-
lo melhor? As enciclopédias ou dicionários que se podiam consultar não continham mais do que insignificâncias ou
dados desprezíveis sobre o período; os trabalhos eram ainda raros e os dados, geralmente contraditórios. Referimo-
nos às obras de vulgarização, acessíveis ao público médio, pois, é evidente que os de erudição eram abundantes há
muito tempo. Para atingi-los, havia toda uma série de obstáculos a vencer: de início, o próprio acesso às bibliotecas
que os guardavam, depois a barreira da linguagem erudita, na qual a maioria deles é redigida.

Tanto, que o nível geral pode ser calculado pela pergunta que serviu de base a um encontro do Círculo Católico de
intelectuais franceses, em 1964: “A Idade Média era civilizada?”. Sem a menor ironia: podemos ter certeza de que se
tratava de intelectuais, na maioria universitários, e universitários conscientes. Os debates ocorreram em Paris, na
Rua Madame. Esperamos, para tranquilidade moral dos participantes, que nenhum precisasse passar diante da
Notre-Dame de Paris para voltar à casa. Poderiam sentir certo mal-estar. Mas não, fiquemos tranquilos: de modo
geral, o universitário consciente tem certa incapacidade física para ver o que não está de acordo com as noções que
seu cérebro conservou. De modo algum veria a Notre-Dame, mesmo que seu caminho o conduzisse à Praça do
Parvis.

Hoje está tudo diferente. A própria Praça do Parvis, aos domingos e no verão, diariamente, é tomada por uma
multidão de moços e menos moços que escutam cantores e músicos, e que, às vezes, dançam enquanto os ouvem;
ou que, sentados na grama, apenas contemplam a catedral. A maioria não se contenta em admirar o exterior: Notre-
Dame de Paris reencontrou as multidões medievais, todos os domingos, quando suas portas se abrem de par em
par, na hora do concerto. Multidões recolhidas, admiradas, para quem o intelectual de 1964 faria o papel de um
animal de Jardim Zoológico (à moda antiga, certamente).

As razões desta mudança? São múltiplas. A primeira, e mais imediata, é que atualmente todos se deslocam. Circula-
se muito e em todas as direções. O medievalista não pode deixar de acrescentar: “como na Idade Média”, porque,
considerando-se os meios de locomoção modernos, o turismo desempenha atualmente o papel de peregrinação de
outras épocas. Voltamos a viajar precisamente como nos tempos medievais.

o paradoxal apreço pelas construções medievais

Ora, nota-se que, na França, apesar de vandalismos mais graves e metódicos que em outros lugares, os vestígios da
época medieval são mais numerosos do que os de todas as outras épocas reunidas. É impossível viajar aqui sem ver
um campanário que sirva para evocar o século XII ou o XIII. É impossível galgar uma colina sem encontrar uma
capelinha e nos indagarmos por que milagre ela pôde aparecer num recanto tão selvagem e tão distante. Uma
região como Auvergne não tem um só museu importante, mas, em vez disso, que riqueza entre Orcival e Saint-
Nectaire, Le Puy e Notre-Dame-du-Port, em Clermont-Ferrand! Estas regiões, que, no século XVII, intendentes ou
governadores consideravam como irritantes exílios, foram, antigamente, habitadas por uma população tão
numerosa que pôde realizar tais maravilhas, tão instruída que foi capaz de concebê-las? O papel dos mosteiros ou
cultura popular, pouco importa. Onde se recrutavam os monges, se não era entre o povo em geral e em todas as
camadas sociais, para usar a linguagem do século XX? E, além disso, se Aubazine foi um convento cisterciense, não
encontramos simples paróquias rurais como Brinay ou Vicq (atualmente, Nohant-Vicq) revestidas de afrescos
românicos cuja audácia parece surpreendente ainda hoje?
O afluxo de turistas é habitual nos edifícios da Idade Média, atualmente. O Monte Saint-Michel recebe mais
visitantes que o Louvre. Beaux-de-Provence vê estenderem-se filas de carros de onde se sobe em bandos para visitar
a velha fortaleza. Fontevrault, novamente tomada acessível aos visitantes, não é suficientemente ampla para acolher
a todos; a Abadia de Sénanque, embora apenas se ouça o canto dos monges através dos espetáculos audiovisuais
(notáveis), tem uma afluência ininterrupta. Em suma, poder-se-ia enumerar todas as regiões da França, desde as
festas medievais de Beauvais, nos confins da Picardie, até às de Saint-Savin, nos confins dos Pirineus; sempre o
mesmo entusiasmo por uma redescoberta recente, sem dúvida, mas geral.

(...)

Este é um passado bem tumultuado que agora desperta indignação. Como causa espanto esta estranha mania que
transformou mosteiros, que não foram destruídos, em prisões e quartéis. E há fatos que permitem calcular a
amplitude do movimento, a rapidez com que isto se passou. Porque há cerca de cem anos Victor Hugo, em visita ao
Monte Saint-Michel, transformado em prisão, exclamava: “Julga-se ver um sapo num relicário”[4]. E eu, que escrevo,
na minha infância, pude presenciar o exato momento em que tentavam destruir uma destas obras; pequenas janelas
foram abertas no muro que, em Avignon, transformou em caserna a grande sala do Palácio dos Papas. Hoje, quando
até Fontevrault foi finalmente restaurada, quem admitiria que o Monte Saint-Michel ou o Palácio dos Papas pudesse
tomar-se caserna ou prisão? Sobram ainda, é verdade, alguns quartéis de bombeiros da Rua de Poissy, em Paris, mas
todos sabem que Paris continuará sempre atrasada em relação “à província”! (...)

Basta dizer que o francês médio, hoje, não aceita a qualificação de “deformados e desajeitados” dada às esculturas
de um portal românico, ou de “aberrantes” às cores dos vitrais de Chartres. Seu senso artístico está suficientemente
maduro para que julgamentos indiscutíveis, há trinta anos, lhe pareçam definitivamente superados. Entretanto,
existe uma defasagem, que talvez tenha origem em modos de pensar ou no vocabulário, entre a Idade Média que
ele admira sempre que se apresenta ocasião, e o que encerra para ele o termo Idade Média.[5]

Defasagem que marca a solução de continuidade entre o que ele pôde constatar diretamente e o que lhe escapa por
força de acontecimentos, porque é preciso um conhecimento que ninguém ainda lhe deu, e que só se obtém com
um estudo inteligente de História, nos bancos escolares.

Idade Média significa sempre: época de ignorância, de brutalidade, de subdesenvolvimento generalizado, embora
seja a única época de subdesenvolvimento durante a qual construíram- se catedrais! Isto porque as pesquisas
eruditas feitas nos cento e cinquenta anos, ou mais, em seu conjunto, ainda não atingiram o grande público.

Um exemplo é surpreendente. Há pouco tempo, um programa de televisão apresentava como histórica a frase
famosa: “Matai-os todos, Deus reconhecerá os seus”, durante o massacre de Béziers, em 1209. Ora, há mais de cem
anos (exatamente em 1866), um erudito demonstrou, acima de qualquer dúvida, que a frase não poderia ter sido
pronunciada já que não a encontramos em nenhuma das fontes históricas da época, mas apenas no Livro dos
Milagres, Dialogus Miraculorum, cujo título fala por si mesmo sobre o que pretende dizer, composto
aproximadamente sessenta anos depois dos fatos, pelo monge alemão Cesário de Heisterbach, autor provido de
imaginação ardente e bastante suspeito quanto à autenticidade histórica. Desde 1866, nenhum historiador, é inútil
dizê-lo, levou em conta o famoso “Matai-os todos”; mas os escritores de História o utilizam ainda e isto basta para
provar quanto as descobertas científicas, neste caso, custam a penetrar no domínio público.

[1]
 “Idade Média” deveria aparecer sempre entre aspas; adotaremos a expressão apenas para nos submeter ao uso
corrente.

[2] Mouvement Liberateur Féminin (M.L.F.).

[3] Electricité de France (E.D.F.).

[4] “Julgava-se ver um touro em loja de miniatura.” (N. do T.)

[5] “Execuções de uma selvageria quase medieval”, escrevia, recentemente, um jornalista. Saboreemos


este quase. Certamente, no século dos campos de concentração, dos fomos crematórios e do Goulag, como não
ficar horrorizado com a selvageria dos tempos em que se esculpiam os portais de Reims ou os de Amiens!
Este texto foi editado para publicação em meio eletrônico e melhor aproveitamento do leitor.

"Mas a grande glória da Idade Média é ter empreendido a


educação do soldado, é ter feito do soldado da velha guarda um
cavaleiro.
Aquele que se batia por amor dos grandes golpes, da violência e da pilhagem tornou-se o defensor do fraco;
transformou a sua brutalidade em força útil, o seu gosto pelo risco em coragem consciente, a sua turbulência em
atividade fecunda; o seu ardor, simultaneamente, vivificou-se e disciplinou-se. O soldado tem doravante um papel a
desempenhar, e os inimigos que ele é convidado a combater são precisamente aqueles em quem subsistem os
desejos pagãos de massacre, de devassidão e de pilhagem. A cavalaria é a instituição medieval da qual com maior
gosto se guardou a recordação, e justamente, porque jamais, sem dúvida, se teve concepção mais nobre do título de
guerreiro. Tal como a encontramos instituída desde o início do século XII, ela é realmente uma ordem e quase um
sacramento. Contrariamente à opinião geralmente espalhada, ela não emparelha com a nobreza. «Ninguém nasce
cavaleiro», diz um provérbio. Plebeus, mesmo servos, a vêem ser-lhes conferida, e nem todos os nobres a recebem;
mas ser armado cavaleiro, é tornar-se nobre, e, entre as máximas do tempo, uma pretende que 'o meio de ser
enobrecido sem cartas é ser feito cavaleiro.

Ao futuro cavaleiro exigem-se qualidades precisas, o que traduz o simbolismo das cerimônias no decurso das quais
se lhe concede o seu título. Deve ser piedoso, dedicado à Igreja, respeitador das suas leis: a sua iniciação começa
com uma noite inteira passada em orações diante do altar sobre o qual está deposta a espada que ele cingirá. É a
vigília de armas, depois da qual, em sinal de pureza, ele toma um banho e depois ouve missa e comunga. Entregam-
lhe então solenemente a espada e as esporas, lembrando-lhe os deveres do seu cargo: ajudar o pobre e o fraco,
respeitar a mulher, mostrar-se corajoso e generoso; a sua divisa deve ser «Valentia e generosidade».

Vêm de seguida a armadura e a rude colée, a pranchada dada sobre o ombro: em nome de São Miguel e de São
Jorge, ele é investido cavaleiro.

Para cumprir bem os seus deveres precisa ser tão hábil como bravo: a cerimônia prossegue então com uma série de
provas físicas que são outros tantos testes destinados a experimentar o seu valor. Ele entra na liça para «correr um
alvo» — quer dizer, a cavalo, derrubar um manequim —, e para desmontar em torneio os adversários que o venham
desafiar. Os dias em que são armados novos cavaleiros são dias de festa, em que cada um rivaliza em proezas, sob os
olhos dos castelões, da corte senhorial, e do povo miúdo concentrado nas circunvizinhanças do campo de torneios.
Destreza e vigor físico, benevolência e generosidade, o cavaleiro representa um tipo de homem completo cuja
beleza corporal é acompanhada pelas mais sedutoras qualidades:

Tant est prud,homme si comme semble


Qui a ces deux choses ensemble:
Valeur du corps et bonté d'âme.

Aquilo que se espera dele não é apenas, como no ideal antigo, um equilíbrio, um meio termo, mens sana in corpore
sano, mas um máximo; ele é convidado a ultrapassar-se a si próprio, a ser ao mesmo tempo o mais belo e o melhor,
colocando a sua pessoa ao serviço de outrem. Aqueles romances nos quais os heróis da távola Redonda vão sem
cessar em busca do mais maravilhoso feito heróico apenas traduzem o ideal exaltante oferecido então àquele que
sente a vocação das armas. Nada de mais «dinâmico», para empregar uma expressão moderna, do que o tipo do
bom cavaleiro.

A cavalaria pode perder-se, do mesmo modo que se merece:


aquele que falta aos seus deveres é destituído publicamente; cortam-lhe as suas esporas de ouro rentes ao salto, em
sinal de infâmia:
Honni soit hardement ou il n'a gentillesse

dizia-se, o que equivalia a exprimir que o puro valor guerreiro não


era nada sem nobreza de alma."

(Fonte: Luz Sobre a Idade Média, Regine Pernoud, Publicações Europa-América.)

Para acabar con la Edad Media (III)


La esclavitud es probablemente el hecho de civilización que marca más profundamente a las sociedades antiguas.
Ahora bien, es curioso observar, cuando se repasan los manuales de historia, la discreción con la que se evoca; ya se
trate de la desaparición de la esclavitud al inicio mismo de la Alta Edad Media o de su brusca reaparición a
comienzos del siglo XVI, se observa respecto a ella una rara moderación.

Régine Pernoud, Para acabar con la Edad Media

Los comediantes del hotel de Bourgogne […] pretendían aniquilar lo que subsistía del teatro medieval. ¿Por qué?
Porque se trataba de un espectáculo popular. Y porque la cofradía no estaba formada por profesionales. […] Pues
bien, esas personas, en el siglo XVI, ya no tienen derecho a la cultura; deben “ir a la par con los esclavos”, pues así
era en la Antigüedad.

Régine Pernoud, Id.

Algunas mujeres (a las que nada designaba particularmente por su familia o su nacimiento, ya que procedían, como
diríamos hoy, de todas las capas sociales) gozaron en la Iglesia […] de un poder extraordinario en la Edad Media.
Algunas abadesas eran señoras feudales cuyo poder era respetado igual que el de los demás señores; algunas
llevaban el báculo como el obispo; administraban a manudo vastos territorios con pueblos, parroquias… […] La
propia Eloísa conoce y enseña a sus monjas el griego y el hebreo. De una abadía de mujeres, la de Gandersheim,
proviene un manuscrito del siglo X que contiene seis comedias en prosa rimada, imitadas de Terencio; se atribuyen a
la famosa abadesa Hrosvitha, de la que, por otra parte, es sabida la influencia que ejerció sobre el desarrollo literario
de los países germánicos.

Régine Pernoud, Id.

Para acabar con la Edad Media (II)


19/04/2011 por elperpetrador

El hecho de que [Isidoro de Sevilla] cite innumerables autores antiguos implica que tenía sus obras a mano […]. A
menudo se olvidan estos detalles cuando se habla de las traducciones de Aristóteles que harán después, en España,
los filósofos árabes: nunca habrían podido emprender semejante tarea en Sevilla, como, por lo demás, en Siria y en
otras regiones del próximo Oriente, si no hubiesen encontrado allí las bibliotecas que habían conservado las obras de
Aristóteles, y ello mucho antes de su invasión, es decir, por lo que a España se refiere, antes del siglo VIII. […]
Carlomagno […] funda en Aquisgrán la Academia palatina, que agrupa a poetas, gramáticos y letrados venidos desde
todos los horizontes de esta Europa unida por algún tiempo bajo su poderoso magisterio, y que adoptan nombres
evocadores: el poeta Angilberto, un franco, se atribuye el nombre de Homero, mientras que el visigodo Teodulfo se
llama a sí mismo Píndaro y el inglés Alcuino, Flaccus.

Régine Pernoud, Para acabar con la Edad Media

Con la clausura del espíritu medieval se pierde en el olvido el mundo de los arquetipos divinos, y la mirada, antes
capaz de captar la transparencia metafísica del fenómeno, va  a chocar con la opacidad impenetrable de las
realidades inmediatas. En arquitectura, especialmente, un gigantismo marmóreo y grandilocuente pasó a ser la
expresión plástica del nuevo espíritu prometeico. Es verdad que la belleza de las grandes obras plásticas del
Renacimiento no puede cuestionarse, pero no es menos cierto que algo de excesivo, de mundano y hasta de
mórbido y tortuoso se introdujo con ellas frente a la sencilla serenidad y el diáfano silencio que presidían el arte
sublime del Medioevo. El artista o el poeta dejaron de ser los intérpretes de signaturas eternas, hermeneutas del
Silencio sagrado, y reivindicaron la obra de arte como medio de expresión de sí mismos. Retirados los dioses, el
artista y el escritor devinieron cronistas de sus propios sentimientos y, en  definitiva, cantores de sus propias
miserias.

A pesar de ciertos beneficios muy apreciables, y por lo demás justamente apreciados por las víctimas de la
colonización romana, ésta, una vez derrumbada, dio paso a las costumbres originales de los diversos pueblos de
Occidente cuyas afinidades con los “bárbaros” eran evidentes. Estos pueblos célticos y germánicos no conocían más
que una forma muy suave de esclavitud, que no estaba en contradicción con el cristianismo: por esto el siervo
medieval es una persona, tratada como tal; su amo no tiene sobre él este derecho y de vida y de muerte que le
reconocía el derecho romano. Por otra parte, mucho más que una categoría jurídica determinada, la servidumbre es
un estado, ligado a un modo de vida esencialmente rural y vinculado a la tierra; obedece a los imperativos agrícolas y
ante todo a esa necesaria estabilidad que implica el cultivo de una una tierra. […] Este vínculo íntimo del hombre y la
tierra en la que vive es lo que constituye la servidumbre, pues, por otro lado, el siervo tiene todos los derechos del
hombre libre: puede casarse, fundar una familia, y su tierra pasará a sus hijos cuando muera.

Régine Pernoud, Para acabar con la Edad Media

“¡Vaya! –me dijo, muy sorprendida– yo creía que a Galileo le habían quemado vivo en la Edad Media por haber dicho
que la Tierra era redonda”. Le expliqué que su frase contenía tres errores históricos: Galileo no había descubierto
que la Tierra era redonda; esto se conocía desde hacía más de cuatro siglos. Después, no le habían quemado vivo,
sino sólo encarcelado, lo que ya era una manera bien poco cortés de tratar a alguien que se daba cuenta por primera
vez de que la Tierra gira alrededor del Sol. Por último, todo esto no ocurrió en la Edad Media.

Régine Pernoud, Para acabar con la Edad Media

A família: a chave para compreender a sociedade


medieval – 1
É frequente na Europa, a população de certas cidades vestir roupas medievais, ou históricas, para rememorar fatos
do passado, ou simplesmente reviver a alegria da era medieval. Fotos de encenações dessas na Itália, ilustram este
post.

Para compreender bem a sociedade medieval, é necessário estudar a sua organização familiar.

Aí se encontra a “chave” da Idade Média, e também a sua originalidade.

Todas as relações nessa época — tanto as de senhor-vassalo como as de mestre-aprendiz — se estabelecem sobre a
estrutura familiar.

A vida rural, a história do nosso solo, só se explicam pelo regime das famílias que aí viveram.

Quando se queria avaliar a importância de uma aldeia, contava-se o número de “fogos”, e não o número de
indivíduos que a compunham.

Na legislação, nos costumes, todas as disposições tomadas dizem respeito aos bens de família, ao interesse da
linhagem, ou então estendendo esta noção familiar a um círculo mais importante — ao interesse do grupo, do corpo
de ofício, que não é senão uma vasta família fundada sobre o mesmo modelo que a célula familiar propriamente
dita.

Os altos barões são antes de tudo pais de família, agrupando à sua volta todos os seres que, pelo seu nascimento,
fazem parte do domínio patrimonial.

As suas lutas são querelas de família, nas quais toma parte toda essa corte, a qual têm o cargo de defender e de
administrar.

A história da feudalidade não é outra senão a das principais linhagens.


E que será, no fim de contas, a história do poder real do século X ao século XIV?

A de uma linhagem, que se estabelece graças à sua fama de coragem, ao valor de que os seus antepassados tinham
feito prova. Muito mais que um homem, é uma família que os barões colocaram na sua liderança.

Na pessoa de Hugo Capeto viam o descendente de Roberto, o Forte, que tinha defendido a região contra os
invasores normandos; ou de Hugo, o Grande, que tinha já usado a coroa.

De fato, é o que transparece no famoso discurso de Adalbéron de Reims:

“Tomai por chefe o duque dos francos, glorioso pelas suas ações, pela sua família e pelos seus homens, o duque em
quem encontrareis um tutor não só dos negócios públicos, mas dos vossos negócios privados”.

Esta linhagem manteve-se no trono por hereditariedade, de pai para filho, e viu os seus domínios crescerem por
heranças e por casamentos, muito mais que por conquistas.

É uma história que se repete milhares de vezes na nossa terra, em diversos níveis, e que decidiu uma vez por todas
os destinos da França, fixando na sua terra linhagens de camponeses e de artesãos, cuja persistência através dos
reveses dos tempos criou realmente a nossa nação.

Na base da “energia francesa” há a família, tal como a Idade Média a compreendeu e conheceu.

Não poderíamos apreender melhor a importância desta base familiar do que, por exemplo, comparando a sociedade
medieval, composta de famílias, com a sociedade antiga, composta de indivíduos.

Nesta, o varão detém a primazia em tudo: na vida pública ele é o civis, o cidadão que vota, que faz as leis e toma
parte nos negócios de Estado; na vida privada, é o pater familias, o proprietário de um bem que lhe pertence
pessoalmente, do qual é o único responsável, e sobre o qual as suas atribuições são quase ilimitadas.

Em parte alguma se vê a sua família ou a sua linhagem participando na sua atividade. A mulher e os filhos estão
inteiramente submetidos a ele, em relação a quem permanecem em estado de menoridade perpétua.

Sobre eles, como sobre os escravos ou sobre as propriedades, tem o jus utendi et abutendi, o poder de usar e
consumir.

A família parece existir apenas em estado latente, não vive senão pela personalidade do pai, que é simultaneamente
chefe militar e grande sacerdote, com todas as conseqüências morais que daí decorrem, entre as quais é preciso
colocar o infanticídio legal.

A criança, na Antiguidade, era a grande sacrificada, um objeto cuja vida dependia do juízo ou do capricho paterno.

Estava submetida a todas as eventualidades da troca ou da adoção, e quando o direito de vida lhe era concedido,
permanecia sob a autoridade do pater familias até à morte deste.

Mesmo então não adquiria de pleno direito a herança paterna, já que o pai podia dispor à vontade dos seus bens por
testamento.

Quando o Estado se ocupava dessa criança, não era de todo para intervir a favor de um ser frágil, mas para realizar a
educação do futuro soldado e do futuro cidadão.

Poderíamos estudar a Antiguidade — e estudamo-la de fato — sob a forma de biografias individuais: a história de
Roma é a de Sila, Pompeu, Augusto; a conquista dos gauleses é a história de Júlio César.

Nada subsiste desta concepção na nossa Idade Média. O que importa então já não é o homem, mas a linhagem.

(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge” - Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

A família: a chave para compreender a sociedade medieval – 2

continuação do post anterior: A família: a chave para compreender a sociedade medieval – 1    


Ao se abordar a Idade Média, uma mudança de método impõe-se: a história da unidade francesa é a da linhagem
capetiana; a conquista da Sicília é a história dos descendentes de uma família normanda, demasiado numerosa para
o seu patrimônio. 

Para compreender bem a Idade Média, é preciso vê-la na sua continuidade, no seu conjunto. Talvez por isso ela é
muito menos conhecida e muito mais difícil de estudar do que o período antigo, porque é necessário apreendê-la na
sua complexidade, segui-la na continuidade do tempo, através dessas cortes que são a sua trama. 

E é preciso fazê-lo não apenas em relação às que deixaram um nome pelo brilho dos seus feitos ou pela importância
do seu domínio, mas também nas gentes mais humildes das cidades e dos campos, que é preciso conhecer na sua
vida familiar se quisermos dar conta do que foi a sociedade medieval.

Isto se explica, pois durante esse período de perturbações e de decomposição total, que foi a Alta Idade Média, a
única fonte de unidade, a única força que permaneceu viva foi precisamente o núcleo familiar, a partir do qual se
constituiu pouco a pouco a unidade francesa. 

A família e a sua base fundiária foram assim, devido às circunstâncias, o ponto de partida da nossa nação.

Esta importância dada à família traduz-se por uma preponderância, muito marcada na Idade Média, da vida privada
sobre a vida pública. 

Em Roma, um homem só tem valor enquanto exerce os seus direitos de cidadão, enquanto vota, delibera e participa
nos negócios do Estado. 

As lutas da plebe para obter o direito de ser representada por um tribuno são, a este nível, bastante significativas.

Na Idade Média, raramente se trata de negócios públicos. Ou melhor, estes tomam logo o aspecto de uma
administração familiar, são contas de domínio, regulamentos de rendeiros e de proprietários. 

Mesmo quando os burgueses reclamam direitos políticos, no momento da formação das comunas, é para poderem
exercer livremente o seu ofício e não serem mais incomodados pelas portagens e pelos direitos de alfândega. 

A atividade política, em si, não apresenta interesse para eles. De resto, a vida rural é então infinitamente mais ativa
que a vida urbana, e tanto numa como noutra é a família, não o indivíduo, que prevalece como unidade social.

Tal como se apresenta no século X, a sociedade assim compreendida tem como traço essencial a noção de
solidariedade familiar saída dos costumes bárbaros, germânicos ou nórdicos. 

A família é considerada como um corpo em cujos membros circula um mesmo sangue, ou como um mundo
reduzido, desempenhando cada ser o seu papel com a consciência de fazer parte de um todo. 

A união não repousa, como na antiguidade romana, sobre a concepção estatista da autoridade do seu chefe. 

Repousa sim sobre esse fato de ordem biológica e moral, de acordo com o qual todos os indivíduos que compõem
uma mesma família estão unidos pela carne e pelo sangue, por interesses solidários, e nada é mais respeitável do
que a afeição que naturalmente anima uns para com os outros. 

Tem-se muito vivo o sentido desse caráter comum dos seres de uma mesma família. 

Aqueles que vivem sob um mesmo teto, que cultivam o mesmo campo e se aquecem no mesmo fogo — ou, para
usar a linguagem do tempo, os que participam do mesmo “pão e pote”, ou que “comer da mesma gamela”, “que
cortam a mesma côdea” — sabem que podem contar uns com os outros, que o apoio da sua corte não lhes faltará. 
O espírito de grupo é, com efeito, mais potente aqui do que poderia ser em qualquer outro agrupamento, já que se
funda sobre os laços inegáveis do parentesco pelo sangue e se apóia sobre uma comunidade de interesses não
menos visível e evidente. 

Étienne de Fougères protesta no seu Livre des manières [Livro de boas maneiras] contra o nepotismo dos bispos.
Todavia, reconhece que estes fariam bem em rodear-se dos seus parentes, “se estão de boas relações”, pois nunca
podemos ter certeza da fidelidade dos estranhos, diz ele, enquanto pelo menos os nossos não nos faltarão.

Partilham-se portanto as alegrias e os sofrimentos. Recolhem-se em casa os filhos daqueles que morreram ou estão
em dificuldades, e todas as pessoas de uma mesma casa se agitam para desagravar a injúria feita a um dos seus
membros. 

O direito de guerra privada, reconhecido durante grande parte da Idade Média, é apenas a expressão da
solidariedade familiar, e correspondia inicialmente a uma necessidade. 

Quando da fraqueza do poder central, para o defender-se o indivíduo só podia contar com a ajuda da sua corte, e
sem ela ficaria sozinho, entregue durante toda a época das invasões a perigos e misérias de toda espécie. 

Para viver, era preciso enfrentar, agrupar-se. E que grupo valeria mais que uma família resolutamente unida?

(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge” - Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

http://gloriadaidademedia.blogspot.com.br/2014/05/a-familia-chave-para-compreender_25.html

O pai de família medieval: guardião, protetor, mestre,


chefe, imagem de Deus e custódio da tradição
A solidariedade familiar, exprimindo-se se necessário pelo recurso às armas, resolvia então o difícil problema da
segurança pessoal e a do domínio. 

Em certas províncias, particularmente no norte da França, a habitação traduz esse sentimento da solidariedade. 

O principal compartimento da casa é a sala, que congrega diante da sua vasta lareira a família. Nela se juntam
para comer, para festejar os casamentos e os aniversários e para velar os mortos. 

Corresponde ao hall dos costumes anglo-saxões, pois a Inglaterra teve na Idade Média costumes semelhantes aos
nossos, aos quais permaneceu fiel em muitos pontos.

A esta comunidade de bens e de afeição é necessário um administrador, e naturalmente o pai de


família desempenha este papel. 

Mas a autoridade que ele desfruta é antes a de um gerente, em lugar de ser a de um chefe, absoluta e pessoal como
no direito romano. 

Trata-se de um gerente responsável, diretamente interessado na prosperidade da casa, mas que cumpre um dever
mais do que exerce um direito. 

Proteger os seres fracos — mulheres, crianças, servos — que vivem debaixo do seu teto, assegurar a gestão do
patrimônio, tal é o seu encargo, mas não é considerado o chefe definitivo da casa familiar nem o proprietário do
domínio. 

Embora desfrute os seus bens patrimoniais, tem apenas o seu usufruto.


Tal como os recebeu dos antepassados, deve transmiti-los àqueles cujo nascimento designará para lhe
sucederem. 

O verdadeiro proprietário é a família, não o indivíduo.

Do mesmo modo, embora possua toda a autoridade necessária para as suas funções, o pai de família está longe de
ter, sobre a mulher e os filhos, esse poder sem limites que lhe concedia o direito romano. 

A mulher colabora na mainbournie, quer dizer, na administração da comunidade e na educação dos filhos.

Ele gere os bens próprios, porque o consideram mais apto do que ela para os fazer prosperar, coisa que não se
consegue sem esforço e sem trabalho. 

Mas quando ele tem de se ausentar, por uma razão qualquer, a mulher retoma essa gestão sem o mínimo obstáculo
e sem autorização prévia. 

Guarda-se tão viva a recordação da origem da sua fortuna, que no caso de a mulher morrer sem filhos os seus bens
próprios voltam integralmente para a sua família.

Nenhum contrato pode opor-se a isto, as coisas passam-se naturalmente assim.

Em relação aos filhos, o pai é o guardião, o protetor e o mestre. A sua autoridade paterna cessa na maioridade, que
adquirem muito jovens, quase sempre aos quatorze anos entre os plebeus. 

Entre os nobres, a idade varia de quatorze a vinte anos, porque têm de fornecer para a defesa do feudo um serviço
mais ativo, que exige forças e experiência. 

Os reis da França eram considerados maiores com quatorze ou quinze anos, e sabe-se que foi com esta idade que
Filipe Augusto atacou à frente de suas tropas. 

Uma vez maior, o jovem continua a gozar da proteção dos seus e da solidariedade familiar.

 Porém, diferentemente do que se passava em Roma, e conseqüentemente nos países de direito escrito, adquire
plena liberdade de iniciativa e pode afastar-se, fundar uma família, administrar os seus próprios bens como
entender. 

Logo que é capaz de agir por si mesmo, nada entrava a sua atividade e ele torna-se senhor de si próprio, mantendo
no entanto o apoio da família de que saiu. 

É uma cena clássica dos romances de cavalaria ver os filhos da casa, logo que estão em idade de usar armas e de
receber a investidura, deixar a residência paterna para correr o mundo ou ir servir o seu suserano.

A noção da família assim compreendida repousa sobre uma base material — a herança de família, bem fundiário em
geral — porque desde os começos da Idade Média a terra constitui a única fonte de riqueza, e permanece
conseqüentemente o bem estável por excelência. 

(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge” - Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

http://gloriadaidademedia.blogspot.com.br/2014/06/o-pai-de-familia-medieval-guardiao.html
A Idade Média cristã pacifica os povos

A Idade Média, tal como se apresentava, corria o risco de nunca conhecer senão caos e decomposição. Nascida de
um império desmoronado e de vagas de invasões sucessivas, formada por povos desarmonicos.

Esta Europa tão dividida, tão perturbada aquando do seu nascimento, atravessa uma era de harmonia e de união tal
como ela nunca conhecera e não conhecerá talvez mais no decorrer dos séculos.

Vemos a Europa inteira estremecer à palavra de um Urbano II, de um Pedro, o Eremita, mais tarde de um São
Bernardo ou de um Foulques de Neuilly. Vemos monarcas, preferindo a arbitragem à guerra, submeter-se ao
julgamento do papa ou de um rei estrangeiro para regularizar as suas dissensões.

Praticamente, a cristandade pode definir-se como a «universidade» dos príncipes e dos povos cristãos obedecendo a
uma mesma doutrina, animados de uma mesma fé, e reconhecendo desde logo o mesmo magistério espiritual.

Esta comunidade de fé traduziu-se numa ordem europeia assaz desconcertante para cérebros modernos, bastante
complexa nas suas ramificações, grandiosa, contudo, quando a examinamos no seu conjunto. A paz na Idade Média
foi muito precisamente, segundo a bela definição de Santo Agostinho, a «tranquilidade» desta ordem.

Nas relações entre a Igreja e os Estados; estamos habituados a ver na autoridade espiritual e na autoridade temporal
dois poderes claramente distintos. Contudo se nos integrarmos na mentalidade da época: não é a Santa Sé que
impõe o seu poder aos príncipes e aos povos, mas estes príncipes e estes povos, sendo crentes, recorrem
naturalmente ao poder espiritual, quer eles queiram fazer fortalecer a sua autoridade ou respeitar os seus direitos,
quer desejem fazer solucionar as suas questões por um árbitro imparcial. A tentativa audaciosa de unir os dois
poderes, o espiritual e o temporal, para o bem comum se salda num êxito. Era uma garantia de paz e de justiça este
poder moral (da Igreja) do qual não se podiam infringir as decisões sem correr perigos precisos, entre outros o de se
ver despojado da sua própria autoridade e afastado da estima dos seus súditos.

Durante a maior parte da Idade Média, o direito de guerra privada continua considerado como inviolável pelo poder
civil e pela mentalidade geral; manter a paz entre os barões e os Estados apresenta, portanto, imensas dificuldades,
e, se não fosse a cristandade, a Europa corria o risco de nunca passar de um vasto campo de batalha .

O sistema feudal maneja toda uma sucessão de arbitragens naturais: o vassalo pode sempre recorrer de um senhor
ao suserano deste último; o rei, à medida que a sua autoridade se estende, exerce cada vez mais o seu papel de
mediador; o Papa, enfim, continua o árbitro supremo. Basta, frequentemente, a reputação de justiça ou de
santidade de um grande personagem para que se recorra, assim, a ele.

A Idade Média não contestou o problema da guerra em geral mas, por uma série de soluções práticas e de medidas
aplicadas no conjunto da cristandade, restringiu sucessivamente o domínio da guerra, as crueldades da guerra,
as durações da guerra. É assim, com leis precisas, que se edificou a cristandade pacífica.

A primeira destas medidas foi a Paz de Deus, instaurada desde o fim o século X : é também a primeira distinção que
foi feita, na história do mundo, entre o fraco e o forte é feita proibição de maltratar as mulheres, as crianças, os
camponeses e os clérigos; as casas dos agricultores são, como as igrejas, declaradas invioláveis.

A grande glória da Idade Média é ter empreendido a educação do soldado, é ter feito do soldado da velha guarda um
cavaleiro. Aquele que se batia por amor dos grandes golpes, da violência e da pilhagem tornou-se o defensor do
fraco; transformou a sua brutalidade em força útil, o seu gosto pelo risco em coragem consciente, a sua turbulência
em actividade fecunda; A cavalaria é a instituição medieval da qual com maior gosto se guardou a recordação.

O cavaleiro deve ser piedoso, dedicado à Igreja, respeitador das suas leis: a sua iniciação começa com uma noile
inteira passada em orações diante do altar sobre o qual está deposta a espada que ele cingirá.

A cavalaria foi o grande entusiasmo da Idade Média; o sentido da palavra: cavalheiresco, que ela nos legou, traduz
muito fielmente o conjunto de qualidades que suscitavam a sua admiração. Basta percorrer a sua literatura,
contemplar as obras de arte que dela nos restam, para ver por todo o lado, nos romances, nos poemas, nos quadros,
nas esculturas, surgir este cavaleiro do qual se representa
Quando uma máquina de guerra é demasiado mortífera, o papado proíbe o seu emprego; o uso da pólvora de
canhão, cujos efeitos e composição se conhecem desde o século XIII, só começa a propagar-se no dia em que a sua
autoridade já não é suficientemente forte e em que já se começam a esboroar os princípios da cristandade.

Escreve Orderic Vital, «por temor de Deus, por cavalaria, procurava-se aprisionar de preferência a matar. Guerreiros
cristãos não têm sede de espalhar sangue».

Fonte: Pernoud, Régine, Luz sobre a Idade Média, 1996, Publicações Europa-América.

http://www.sinaisdostempos.org/perguntas/idade-media-paz-povos

O papel da mulher na Idade Média - Régine Pernoud

Há quem pense que na Idade Média o papel da mulher era o de submissão total e completo ostracismo. Há quem
cogite que se pensava que a alma da mulher não era imortal - afirmação gratuitamente preconceituosa e
contraditória (se a alma é espiritual e imortal, como a alma feminina não seria? Seria uma alma mortal?). Como a
Igreja seria hostil a esses seres sem alma, mas durante séculos batizou, confessou e ministrou a Eucaristia a essas
criaturas? Não é estranho que os primeiros mártires cristãos tenham sido mulheres (Santas Agnes, Cecília, Ágata
etc)? Como venerar a Virgem Maria como cheia de graça e considerá-la desalmada? A historiografia contemporânea
simplesmente apagou a mulher medieval.

Por exemplo, no plano social. Dentro dessa perspectiva desapareceram da história personagens como Hilda de
Whitby, que no século VII fundou sete mosteiros e conventos, ou quem sabe a religiosa alemã Hroswitha de
Gandersheim, autora de dezenas de peças de teatro. Em Bizâncio, numerosas eram as mulheres na universidade.
Anna Comnena fundou em 1083 uma nova escola de medicina onde lecionou por vários anos. Eleonora da Aquitânia,
enquanto rainha, desempenhou um importante papel político na Inglaterra e fundou instituições religiosas e
educadoras.

Nos tempos feudais a rainha era coroada como o rei, geralmente em Rheims ou, por vezes, em outras catedrais. A
coroação da rainha era tão prestigiada quanto a do Rei. A última rainha a ser coroada foi Maria de Medicis em 1610,
na cidade de Paris. Algumas rainhas medievais desempenharam amplas funções, dominando a sua época; tais foram
Eleonora de Aquitânia (+1204) e Branca de Castela (+1252); no caso de ausência, da doença ou da morte do rei,
exerciam poder incontestado, tendo a sua chancelaria, as suas armas e o seu campo de atividade pessoal. Verdade é
que a jovem era dada em casamento pelos pais sem que tivesse livre escolha do seu futuro consorte. Todavia
observe-se que também o rapaz era assim tratado; por conseguinte, homens e mulheres eram sujeitos ao mesmo
regime.

A mulher na Igreja

Precisamente por causa da valorização prestada pela Igreja à mulher, várias figuras femininas desempenharam
notável papel na Igreja medieval. Certas abadessas, por exemplo, eram autênticos senhores feudais, cujas funções
eram respeitadas como as dos outros senhores; administravam vastos territórios como aldeias, paróquias; algumas
usavam báculo, como o bispo... Seja mencionada, entre outras, a abadessa Heloisa, do mosteiro do Paráclito, em
meados do século XII: recebia o dízimo de uma vinha, tinha direito a foros sobre feno ou trigo, explorava uma
granja...Ela mesma ensinava grego e hebraico às monjas, o que vem mostrar o nível de instrução das religiosas deste
tempo, que às vezes rivalizavam com os monges mais letrados. Pena faltar estudos mais sérios sobre o tema...É
surpreendente ainda notar que a enciclopédia mais conhecida no século XII se deve a uma mulher, ou seja, à
abadessa Herrade de Landsberg. Tem o título "Hortus Deliciarum" (Jardim das Delícias) e fornece as informações
mais seguras sobre as técnicas do seu tempo. Algo de semelhante se encontra nas obras de S. Hildegard de
Bingen.Gertrude de Helfta, no século XIII conta-nos como se sentiu feliz ao passar do estado de "romancista" ao de
"teóloga". Conforme Pedro, o Venerável, ela, em sua juventude, não sendo freira e não querendo entrar num
convento, procurava, todavia, estudos muito áridos, ao invés de se contentar com a vida mais frívola de uma jovem.
Ao percorrer o ciclo de estudos preparatórios ela galgara o ciclo superior, como se fazia na Universidade. Veio da
abadia feminina de Gandersheim um manuscrito do século X contendo seis comédias, em prosa rimada, imitação de
Terêncio, e que são atribuídas à famosa abadessa Hrotsvitha, da qual, há muito tempo, conhecemos a influência
sobre o desenvolvimento literário nos países germânicos. Estas comédias, provavelmente representadas pelas
religiosas, são, do ponto de vista da história dramática, consideradas como prova de uma tradição escolar que terá
contribuído para o teatro da Idade Média.

Mulheres líderes

Algo inédito e que nos dias de hoje - tão democráticos - jamais aconteceria:

No século XII, Robert d'Arbrissel, um dos maiores pregadores de todos os tempos resolveu fixar a multidão de
seguidores seus na região de Fontevrault. Para isso ele criou um convento feminino, um masculino e entre os dois
uma Igreja que seria o único local aonde os monges e as monjas poderiam se encontrar. Ora, este mosteiro duplo foi
colocado sob a autoridade, não de um abade, mas de uma abadessa. Esta, por vontade do fundador, devia ser viúva,
tendo tido a experiência do casamento. Para completar, a primeira abadessa que presidiu os destinos da Ordem de
Fontevrault, Petronila de Chemillé, tinha 22 anos. 

No período feudal o lugar da mulher na Igreja apresentou algumas diferenças daquele ocupado pelo homem, mas
este foi um lugar iminente, que simboliza, por outro lado, perfeitamente o culto, insigne também, prestado à Virgem
Maria entre os santos. E não é curioso como a época termine por uma figura de mulher - Joana D'Arc, que seja dito
de passagem, não poderia, jamais, nos séculos seguintes obter a audiência do rei, sendo ela mulher, plebéia e
ignorante, conseguindo mesmo assim suscitar a confiança que conseguiu, afinal. Pobre Joana D'Arc! Recentemente
Luc Besson fez um filme de S. Joana D'Arc digna dos melhores hospícios, completamente esquizofrênica e que
confundia sua vingança pessoal com o que seria a voz de Deus. Sem comentários.

A mulher comum

Faltaria falar das mulheres comuns, camponesas ou citadinas, mães de família ou trabalhadoras. A questão é muito
extensa, e os exemplos podem chegar através de diversas fontes como documentos ou mil outros detalhes colhidos
ao acaso e que mostram homens e mulheres através dos menores atos de suas existências. Através de documentos,
pôde-se constatar a existência de cabeleireiras, salineiras (comércio do sal), moleiras, castelãs, mulheres de
cruzados, viúvas de agricultores, etc. É por documentos deste gênero que se pode, peça por peça, reconstituir, como
em um mosaico, a história real - muito diferente dos romances de cavalaria ou de fontes literárias que apresentam a
mulher como um ser frágil, ideal e quase angélico - ou diabólico - mas que não tinha voz nem vez. Existem
documentos demonstrando como em muitos locais, mulheres e homens votavam em assembléias urbanas ou
comunas rurais. Ouve um caso curioso: Gaillardine de Fréchou foi uma mulher e a única pessoa que, diante da
proposta de um arrendamento aos habitantes de Cauterets, nos Pirineus, pela Abadia de Saint Savin, votou pelo
Não, quando a cidade inteira votou pelo Sim. Nas atas dos notários é muito freqüente ver uma mulher casada agir
por si mesma, abrir, por exemplo, uma loja ou uma venda, e isto sem ser obrigada a apresentar uma autorização do
marido. Enfim, os registros de impostos, desde que foram conservados, como é o caso de Paris, no fim do século XIII,
mostram multidão de mulheres exercendo funções: professora, médica, boticária, estucadora, tintureira, copista,
miniaturista, encadernadora, etc.

Extraído de "O mito da Idade Média" de Régine Pernoud.

Os meninos durante o cerco de Jerusalém


Os que lá estiveram contam que, enquanto a cidade esteve sitiada, depois dos freqüentes embates, sitiantes e
sitiados misturavam-se uns com outros.

Acontecia muitas vezes que, tendo-se retirado os homens, era freqüente ver alguns batalhões de meninos
avançando, uns desde a cidade e outros saindo do nosso meio e do acampamento de seus pais, e atacavam-se e
combatiam imitando-os, tornando-se igualmente dignos de serem contemplados.

Porque, como dissemos no inicio desta história, quando se estendeu por todos os países do Ocidente a noticia da
expedição a Jerusalém, os pais empreenderam a viagem levando consigo seus filhos, ainda meninos.

E foi assim que, mesmo quando os pais de alguns deles morreram, os filhos prosseguiram o caminho, habituaram-se
aos trabalhos e, no tocante a misérias e privações de toda espécie, souberam agüentá-las e não se mostraram
inferiores aos homens feitos.
Aqueles meninos formaram um batalhão e elegeram seus príncipes entre eles: um tomou o nome de Hugo, o
Grande, outro o de Bohemundo, outro o de Conde do Flandres, outro o de Conde de Normandia, representando de
tal modo a todos esses ilustres personagens e mais outros.

Sempre que algum desses jovens príncipes via algum dos seus carente de viveres ou de outras coisas, ia a procura
dos Príncipes mencionados para lhes pedir provisões, e eles lhas davam em abundância, para sustentá-los
dignamente em sua debilidade.

A jovem e singular milícia costumava aproximar-se para hostilizar os meninos da cidade, cada um deles armado com
longas canas no lugar de lanças, cada um com seu escudo de vime entrelaçado, cada um, de acordo com suas forças,
levando pequenos arcos e flechas.

Os meninos, bem como os da cidade, enquanto seus pais contemplavam-nos de ambas as partes, avançavam e
encontravam-se no meio da planície; os habitantes da cidade saiam até às muralhas para ver, e os nossos deixavam
suas tendas para assistir o combate.

Via-se, então, provocarem-se com brados e se darem golpes às vezes sangrentos, mas sem que nenhum deles
corresse perigo de morte. Muitas vezes esses prelúdios animavam a coragem dos homens maduros e provocavam
novos combates.

Ao verem o ardor impotente que animava aqueles membros delicados e esses fracos braços que agitavam
alegremente armas de toda espécie, depois de se terem infligida de uma parte e outra feridas dadas e recebidas,
amiúde os espectadores de mais idade adiantavam-se para tirar os meninos do centro de campo e engajarem entre
si um novo combate.

(Fonte: “Crônicas de Gilberto de Noguent”, apud Régine Pernoud, “Las Cruzadas”, Los Libros del Mirasol,
Compañía General Fabril Editora, S.A., Buenos Aires, 1964, pp. 80 s.)

1ª Cruzada: o conde de Chartres envia notícias de


Antioquia
A 21 de outubro de 1097 os primeiros contingentes de Cruzados chegaram ante as muralhas de Antioquia.

O cronista Alberto de Aix descreve-os de seguinte maneira:

“Os Cruzados vão em direção às muralhas de Antioquia no meio de esplendor dos escudos dourados, verdes,
vermelhos e de outras corres; desfraldam suas bandeiras de ouro e de púrpura; montam os cavalos de guerra e vão
revestidos de escudos e capacetes resplandecentes.”

Parece um fragmento de uma canção de gesta e, todavia, é só o relato de um cronista que em geral é muito preciso,
o qual simplesmente transmite a sensação que certamente produziu aquele exército de cores resplandecentes,
segundo o gosto da época.

A cidade para a qual se dirigem é também digna de uma canção de gesta.

Antioquia, ao pé do Monte Silpius, banhada pelo Orontes, que a une ao mar, era praticamente inexpugnável, com
sua muralha de 12 quilômetros de comprimento, eriçada por trezentos e sessenta torres.

Quando chegaram, os Cruzados não imaginaram que permaneceriam junto à cidade por mais de um ano.

De perto dessas muralhas o Conde Estevão de Blois, um dos principais barões, envia notícias à sua esposa, Adélia de
Normandia, filha de Guilherme, o Conquistador.

“O Conde Estevão a Adélia, sua amada esposa, a seus queridos filhos e a todos os vassalos de sua linhagem, saúde e
bênção.

“Podeis estar certos, meus muito queridos, de que a mensagem que envio para vos confortar deixa-me diante de
Antioquia são e salvo; e, pela graça de Deus, com muita prosperidade. Agora, junto com todo o exército eleito por
Cristo e por Ele dotado de grande valor, fazem vinte e três semanas que avançamos sem cessar rumo à Morada de
Nosso Senhor Jesus.
“Podeis ter por certo, minha cara, que em ouro, prata e toda sorte de riquezas, tenho presentemente duas vezes
mais do que aquilo que me foi entregue quando vos deixei, porque todos nossos Príncipes, com o consentimento do
exército inteiro, e contra meus próprios desejos, me nomearam chefe, cabeça e guia da expedição.

“Sem dúvida ouvistes contar que depois de termos nos apoderado da cidade de Nicéia, livramos uma grande batalha
contra os pérfidos turcos, e com a ajuda de Deus os vencemos.

“Conquistamos para o Senhor toda a Romênia e depois a Capadócia. Soubemos que um dos Príncipes dos turcos,
Assam, habitava na Capadócia; dirigimos nossos passos até ele.

“Conquistamos pela força todos os seus castelos e obrigamo-lo a fugir a outro castelo, muito forte, edificado num
penhasco muito alto.

“Entregamos as terras de Assam a um de nossos chefes e, para que as possa conservar, deixamos com ele muitos
soldados de Cristo.

“Daí, seguindo sempre os malditos turcos, repelimo-los até o centro da Armênia, junto ao grande rio Eufrates.
Deixando suas bagagens e bestas de carga à beira do rio, fugiram pela outra margem, até a Arábia.

“Entretanto, os mais audaciosos soldados turcos entraram na Síria e se apressaram, com marchas forçadas de noite
e dia, para chegar antes de nós à real cidade de Antioquia. Todo o exército de Deus, quando soube disso, deu graças
e louvou Deus Todo-Poderoso.

“Apressamo-nos radiantes em chegar à cidade de Antioquia, sitiamo-la e desde então temos tido com freqüência
escaramuças com os turcos, e sete vezes combatemos com grande valentia, sob o mando de Cristo, a eles, aos
habitantes de Antioquia e às inumeráveis tropas que vieram em seu socorro.

“E nas sete batalhas com a ajuda do Senhor Deus, vencemos e causamos a morte a um grande número de inimigos.

“Nas mesmas batalhas, também é verdade, e nos numerosos ataques que realizamos contra a cidade, muitos de
nossos irmãos foram mortos e suas almas arrebatadas aos gozos do Paraíso...

“Diante da cidade, durante todo o inverno, aguentamos por Cristo Nosso Senhor um frio excessivo e chuvas
torrenciais.

“O que alguns dizem sobre o calor do sol, impossível de se suportar na Síria, não é verdade, porque o inverno daqui
assemelha-se muito a nosso inverno do Ocidente....

“Enquanto no dia da Páscoa meu Capelão Alexandre escrevia a toda pressa esta carta, uma parcela de nossos
homens que espreitava os turcos livrou com eles uma batalha vitoriosa e prenderam sessenta cavalos, que
trouxeram ao exército.

“Escrevo-vos umas quantas coisas entre tantas que temos feito; e, dado que não sou capaz de dizer-vos tudo o que
penso, recomendo-vos que andeis bem, que veleis com cuidado minhas terras e cumprais vosso dever para com
vossos filhos e vassalos. Tornareis a ver-me quando puder voltar e estar convosco. Adeus”.

(Fonte: Régine Pernoud, “Las Cruzadas”, col. Los Libros del Mirasol, Compañia General Fabril Editora S.A. - Buenos
Aires, 1964, pp. 56 a 58)

Por que uma visão tão negativa da Idade Média?


A Idade Média das epidemias, guerras e fomes não existe então? Existe, mas ela se reduz ao período da guerra dos
Cem Anos (1337-1453), que foi marcada pela grande peste negra de 1348 e asjacqueries  (revoltas camponesas). Ora,
um século não é 1000 anos.

De onde vem então essa lenda sombria da Idade Média? Ela teve várias causas. Inicialmente, os humanistas se
desinteressaram da Idade Média por uma reação de retorno à cultura greco-romana nas artes, porém também no
domínio legislativo. Os filósofos das "luzes" e os revolucionários de 1789 tinham um objetivo diferente. Eles queriam
desacreditar a monarquia e o Cristianismo que lhe estava inevitavelmente associado. Foram eles que forjaram a
reputação negra e obscurantista da Idade Média, adicionando a falsificação histórica ao desprezo. O clímax volta na
3ª República, que fez do anticlericalismo seu cavalo de batalha. Ora, o que há de melhor para combater o
cristianismo senão apresentar a época onde ele foi triunfante como selvagem, inculta e retrógrada? Historiadores
como Augustin Thierry, Jules Michelet e Anatole France continuaram a obra de desinformação do século precedente.
Felizmente, a recrudescência do interesse que o grande público testemunha pela Idade Média nestes últimos anos
vai obrigar os historiadores e as mídias a restaurar a verdade.

Esta visão negativa da Idade Média penaliza plenamente a Igreja, por uma associação de ideia evidente, visto que
nossa Idade Média era eminentemente cristã. Poder-se-á objetar que o Renascimento também era cristão, assim
como todo o período do Antigo Regime. Certamente, porém os séculos XVI, XVII e XVIII foram cristãos muito
diferentemente da época medieval. O cristianismo medieval estava fundamentado sobre o ensino e a cultura das
massas. A Igreja, ainda que poderosa, não era opressiva. Ela tinha uma total autonomia perante o poder temporal. O
cristianismo dos séculos seguintes será marcado pelo embargo do poder secular sobre a Igreja. A Concordata
assinada entre o papa Leão X e Francisco I fez deste o chefe da Igreja da França, ele próprio nomeando bispos e
abades. Seria inútil precisar que a missão da Igreja se encontrará com isso profundamente desencaminhada. Os altos
cargos eclesiásticos serão dados pelo rei a aristocratas arrivistas e incompetentes na matéria (Richelieu e Mazarin
foram certamente excelentes ministros, porém cardeais sem valor), a Inquisição será a ferramenta de eliminação dos
opositores ao regime (quem resistiria a um bom processo por bruxaria?) e mesmo as comunidades religiosas
perderão sua pureza (sabe-se que Fontevraut se tornou um asilo para as antigas amantes  do rei e que a maioria dos
conventos se tornaram refúgios agradáveis para as cadetes (filhas não primogênitas da nobreza) das grandes famílias
que aí viviam uma vida normal, menos contemplativa!). 

Assim, compreende-se que opressão e religião não caminham juntas na França. Entre uma Idade Média rural,
piedosa e culta e um Antigo Regime mercantil, elitista e monarquista, dois grupos foram sacrificados, o povo e a
Igreja. A burguesia das cidades e o materialismo começam uma ascensão que atingirá nossa época. O povo será
então somente um meio de enriquecimento, o que desembocará nas misérias da Revolução Industrial, e a Igreja
uma inimiga que deve ser combatida, o que dará lugar à grande onda de anticlericalismo do século 19.

Fonte: Pour en finir avec le Moyen-Age de Régine Pernoud.

http://catolicosribeiraoarteehistoria.blogspot.com.br/2013/10/por-que-uma-visao-tao-negativa-da-idade.html

Sem Cristandade medieval nunca teria reinado a paz na


Europa
A Idade Média, tal como se apresentava, corria o risco de nunca conhecer senão caos e decomposição. Nascida de
um império desmoronado e de vagas de invasões sucessivas, formada por povos desarmônicos.

Esta Europa tão dividida, tão perturbada quando do seu nascimento, atravessa uma era de harmonia e de união tal
como ela nunca conhecera e não conhecerá talvez mais no decorrer dos séculos.

Vemos a Europa inteira estremecer à palavra de um Urbano II, de um Pedro, o Eremita, mais tarde de um São
Bernardo ou de um Foulques de Neuilly.

Vemos monarcas, preferindo a arbitragem à guerra, submeter-se ao julgamento do papa ou de um rei estrangeiro
para regularizar as suas dissensões.

Praticamente, a Cristandade pode definir-se como a “universidade” dos príncipes e dos povos cristãos
obedecendo a uma mesma doutrina, animados de uma mesma fé, e reconhecendo desde logo o mesmo
magistério espiritual.

Esta comunidade de fé traduziu-se numa ordem européia assaz desconcertante para cérebros modernos, bastante
complexa nas suas ramificações, grandiosa, contudo, quando a examinamos no seu conjunto. A paz na Idade Média
foi muito precisamente, segundo a bela definição de Santo Agostinho, a “tranqüilidade” desta ordem.

Nas relações entre a Igreja e os Estados; estamos habituados a ver na autoridade espiritual e na autoridade temporal
dois poderes claramente distintos.
Contudo se nos integrarmos na mentalidade da época não é a Santa Sé que impõe o seu poder aos príncipes e aos
povos, mas estes príncipes e estes povos, sendo crentes, recorrem naturalmente ao poder espiritual, quer eles
queiram fazer fortalecer a sua autoridade ou respeitar os seus direitos, quer desejem fazer solucionar as suas
questões por um árbitro imparcial.

A tentativa audaciosa de unir os dois poderes, o espiritual e o temporal, para o bem comum se salda num êxito.

Era uma garantia de paz e de justiça este poder moral (da Igreja) do qual não se podiam infringir as decisões sem
correr perigos precisos, entre outros o de se ver despojado da sua própria autoridade e afastado da estima dos seus
súditos.

Durante a maior parte da Idade Média, o direito de guerra privada continua considerado como inviolável pelo poder
civil e pela mentalidade geral; manter a paz entre os barões e os Estados apresenta, portanto, imensas dificuldades,
e, se não fosse a Cristandade, a Europa corria o risco de nunca passar de um vasto campo de batalha.

(Fonte: Régine Pernoud, “Luz sobre a Idade Média”, 1996, Publicações Europa-América.)

A Cristandade medieval instaurou a paz de Cristo na


Europa
O sistema feudal maneja toda uma sucessão de arbitragens naturais: o vassalo pode sempre recorrer de um senhor
ao suserano deste último; o rei, à medida que a sua autoridade se estende, exerce cada vez mais o seu papel de
mediador; o Papa, enfim, continua o árbitro supremo.

Basta, freqüentemente, a reputação de justiça ou de santidade de um grande personagem para que se recorra,
assim, a ele.

A Idade Média não contestou o problema da guerra em geral, mas, por uma série de soluções práticas e de medidas
aplicadas no conjunto da Cristandade,restringiu sucessivamente o domínio da guerra, as crueldades da guerra, as
durações da guerra. É assim, com leis precisas, que se edificou a Cristandade pacífica.

A primeira destas medidas foi a Paz de Deus, instaurada desde o fim o século X: é também a primeira distinção que
foi feita, na história do mundo, entre o fraco e o forte é feita proibição de maltratar as mulheres, as crianças, os
camponeses e os clérigos; as casas dos agricultores são declaradas invioláveis como as igrejas.

A grande glória da Idade Média é ter empreendido a educação do soldado, é ter feito do soldado da velha guarda
um cavaleiro. 

Aquele que se batia por amor dos grandes golpes, da violência e da pilhagem tornou-se o defensor do fraco;
transformou a sua brutalidade em força útil, o seu gosto pelo risco em coragem consciente, a sua turbulência em
atividade fecunda.

A cavalaria é a instituição medieval da qual com maior gosto se guardou a recordação.

O cavaleiro deve ser piedoso, dedicado à Igreja, respeitador das suas leis: a sua iniciação começa com uma noile
inteira passada em orações diante do altar sobre o qual está deposta a espada que ele cingirá.

A cavalaria foi o grande entusiasmo da Idade Média; o sentido da palavra: cavalheiresco, que ela nos legou, traduz
muito fielmente o conjunto de qualidades que suscitavam a sua admiração.

Basta percorrer a sua literatura, contemplar as obras de arte que dela nos restam, para ver por todo o lado, nos
romances, nos poemas, nos quadros, nas esculturas, surgir este cavaleiro do qual se representa

Quando uma máquina de guerra é demasiado mortífera, o papado proíbe o seu emprego; o uso da pólvora de
canhão, cujos efeitos e composição se conhecem desde o século XIII, só começa a propagar-se no dia em que a sua
autoridade já não é suficientemente forte e em que já se começam a esboroar os princípios da Cristandade.

Escreve Orderic Vital, “por temor de Deus, por cavalaria, procurava-se aprisionar de preferência a matar. Guerreiros
cristãos não têm sede de espalhar sangue”.
(Fonte: Régine Pernoud, “Luz sobre a Idade Média”, 1996, Publicações Europa-América.)

Confrarias de mestres e operários de um mesmo ofício:


proteção social e fé
A confraria, que era de origem religiosa e existia mais ou menos por toda parte, era um centro de ajuda mútua. 

Figuravam em primeiro plano aspensões concedidas aos mestres idosos ou já enfermos e os socorros aos doentes,
durante todo o tempo da doença e da convalescença.

Era um sistema de seguros em que cada caso podia ser conhecido e examinado em particular, o que permitia dar o
remédio apropriado a cada situação e ainda evitar os abusos.

Se o filho de um mestre é pobre e quer aprender, os homens de bem devem lhe ensinar por 5 soldos (taxa
corporativa) e por suas esmolas — diz o estatuto dos fabricantes de escudos.

A corporação ajudava ainda no caso de seus membros precisarem viajar ou por ocasião do desemprego.

Thomas Deloney conta-nos este episódio interessante: Tom Dsum, sapateiro inglês em viagem, encontra-se com um
jovem senhor arruinado, e se dispõe a acompanhá-lo a Londres:

— Sou eu quem paga. Na próxima cidade nos divertiremos bastante.

— Como?! Pensava que você não tivesse mais que um soldo no bolso.

— Se você fosse sapateiro como eu, poderia viajar de um lado a outro da Inglaterra apenas com um penny no bolso.
Em cada cidade acharia boa comida, boa cama e boa bebida, sem mesmo gastar seu penny. Isto porque nenhum
sapateiro deixará faltar alguma coisa a um dos seus. Pelo nosso regulamento, se algum companheiro chegar a uma
cidade sem dinheiro e sem pão, basta ele se dar a conhecer, não precisando se ocupar com outra coisa. Os outros
companheiros da cidade não somente o receberão bem, mas lhe fornecerão gratuitamente víveres e acomodações.
Se quiser trabalhar, sua corporação se encarregará de lhe arranjar um patrão, e ele não terá que procurá-lo”.

Esta curta passagem não necessita comentários.

Assim compreendidas, as corporações eram um centro muito vivo de ajuda mútua, honrando seu lema: “Todos por
um, um por todos”. 

Elas se glorificavam por suas obras de caridade. Os joalheiros obtiveram assim permissão para vender nas festas dos
apóstolos, no domingo e nos feriados em geral.

Tudo o que o joalheiro ganhasse então era colocado na caixa da confraria, e do dinheiro desta caixa dava-se todo
ano, no dia da Páscoa, um jantar aos pobres do Hospital de Paris.

Na maioria dos ofícios, os órfãos da corporação são educados às suas custas.

Tudo se passa numa atmosfera de concórdia e de alegria, da qual o trabalho moderno não pode dar uma idéia. 

As corporações e confrarias tinham cada uma suas tradições, suas festas, seus ritos piedosos e cômicos, canções e
insígnias. 

Ainda segundo Thomas Deloney, para ser adotado como filho do “nobre ofício” um sapateiro deve saber “cantar,
soar o corno, tocar flauta, martelar, combater com a espada e cantar seus instrumentos de trabalho em versos”.

Nas festas da cidade e nos cortejos solenes, as corporações expunham seus estandartes e ocupavam lugares de
destaque. São pequenos mundos extraordinariamente vivos e ativos, que dão à cidade seu impulso e sua fisionomia
original.

Em resumo, não se poderia melhor caracterizar a vida urbana na Idade Média do que citando o grande historiador
das cidades medievais, Henri Pirenne: 

“A economia urbana é digna da arquitetura gótica, da qual é contemporânea. Ela criou uma legislação social
inteira, mais completa que a de qualquer outra época, inclusive a nossa. 
“Suprimindo os intermediários entre vendedor e comprador, ela assegurou aos burgueses o benefício da vida
barata. 

“Impiedosamente perseguiu a fraude, protegeu o trabalhadorcontra a concorrência e a exploração, regulamentou


seu trabalho e seu salário, velou por sua higiene, providenciou a aprendizagem, impediu o trabalho da mulher e da
criança, ao mesmo tempo que conseguiu reservar para a cidade o monopólio de prover com produtos os campos
circunvizinhos e encontrar ao longe escoadouros para o seu comércio”.

(Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

O vínculo feudal: relação pessoal de fidelidade e


proteção
Pode-se dizer da sociedade atual que ela se fundamenta sobre o salariado. No plano econômico, as relações de
homem para homem reduzem-se às relações do capital e do trabalho.

Executar um trabalho determinado, receber em troca uma certa soma, tal é o esquema das relações sociais. O
dinheiro é o nervo essencial delas, pois com raras exceções uma atividade determinada se transforma de início em
numerário, antes de se transformar novamente em objeto necessário à vida.

Para compreender a Idade Média, é preciso se afigurar uma sociedade vivendo de modo totalmente diverso, em
que a noção de trabalho assalariado, e em parte até mesmo a do dinheiro, são ausentes ou secundárias. 

O fundamento das relações de homem a homem é a dupla noção de fidelidade e proteção. Assegura-se a alguém
seu devotamento, e em troca espera-se dele segurança.

Não se contrata sua atividade, tendo em vista um trabalho determinado com remuneração fixa, mas sua pessoa, ou
antes sua fidelidade.

Em retribuição, se oferece subsistência e proteção, no pleno sentido da palavra. Tal é a essência do liame feudal.

Durante toda a Idade Média, sem esquecer sua origem territorial, senhorial, a nobreza teve uma conduta sobretudo
militar. É que, de fato, seu dever de proteção comportava de início uma função guerreira: defender seu domínio
contra as invasões possíveis.

Apesar dos esforços em reduzir o direito de guerra privada — taisguerras foram mitigadas pela ação da Igreja,
mediante a trégua de Deus e a quarentena — ele ainda subsistia, e a solidariedade familiar podia implicar a
obrigação de vingar pelas armas as injúrias feitas a um dos seus.

Acrescenta-se ainda uma questão de ordem material. Detendo a principal, senão a única fonte de riqueza, que era a
terra, apenas os senhores tinham a possibilidade de equipar um cavalo de guerra e de armar escudeiros e oficiais.

O serviço militar será, pois inseparável do serviço de um feudo, e a fidelidade prestada pelo vassalo nobre supõe
auxílio de suas armas, todas as vezes que for necessário.

Este é o primeiro encargo da nobreza e um dos mais onerosos: a obrigação de defender o domínio e seus
habitantes.

A espada diz: “É minha justiça e encargo guardar os clérigos da Santa Igreja e aqueles que produzem o alimento”.

Os mais antigos castelos, aqueles que foram construídos nas épocas de turbulência e invasões, trazem a marca
visível dessa necessidade.

A aldeia e as habitações dos camponeses estão nos arredores da fortaleza, em cujo recinto toda a população irá se
refugiar por ocasião de perigo, e onde ela encontrará auxílio e mantimentos em caso de sítio.

(Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)
O imposto do sangue era o mais duro, e só era pago pela
nobreza
Das obrigações militares da nobreza decorre a maior parte dos seus costumes.

O direito de primogenitura vem, em parte, da necessidade de confiar ao mais forte a herança que ele deve garantir,
muitas vezes pela espada. 

A lei sálica se explica também por isso, pois só um homem pode assegurar a defesa de um castelo (donjon).

Assim pois, quando uma mulher se torna a única herdeira de um feudo, o suserano tem o dever de casá-la. Eis por
que a mulher apenas sucederá após seus filhos mais jovens, e estes após o primogênito.

Estes só receberão apanágios, e ainda assim muitos desastres ocorridos pelo fim da Idade Média tiveram por origem
os demasiados apanágios deixados a seus filhos por João, o Bom. O poder foi para eles uma tentação perpétua, e
para todos uma fonte de desordem durante a minoridade de Carlos VI.

Os nobres têm igualmente o dever de fazer justiça a seus vassalos de todas as condições e de administrar o feudo. 

Trata-se precisamente do exercício de um dever, e não de um direito, implicando em responsabilidades bastante


pesadas, pois cada senhor deve dar contas de seu domínio, não somente à sua linhagem, mas também a seu
suserano.

Etienne de Fougères descreve a vida do senhor de um grande domínio como cheia de preocupações e de cansaços:

Cá e lá vai, muitas vezes volta,

Não repousa nem descansa.

Perto dos castelos ou longe deles,

Às vezes alegre, quase sempre triste.

Cá e lá vai, não dorme,

Para que seu caminho não se interrompa.

Longe de ser ilimitado, como geralmente se acreditou, seu poder é bem menor do que o de um industrial ou
qualquer proprietário de nossos dias, porque ele jamais tinha a propriedade absoluta de seu domínio. 

Dependia sempre de um suserano, e os suseranos, mesmo os mais poderosos, dependiam do rei. Em nossos dias,
segundo a concepção romana, o pagamento de uma terra dá pleno direito sobre ela.

Na Idade Média não era assim. No caso de má administração, o senhor incorria em penas que podiam chegar ao
confisco de seus bens.Assim, ninguém governa com autoridade completa e não escapa ao controle direto daquele
de quem ele depende.

Essa repartição da propriedade e da autoridade é um dos traços mais característicos da sociedade medieval.

(Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

Idade Média: era de grandes descobertas geográficas


No domínio da exploração e dos conhecimentos geográficos, a atividade não foi menor.

É um erro, mais do que uma injustiça, fazer remontar apenas ao Renascimento a época das grandes viagens. 

A descoberta da América fez esquecer que a curiosidade dos geógrafos e exploradores da Idade Média em relação
ao Oriente não havia sido menor do que a dos seus sucessores em relação ao Ocidente.

Desde os primórdios do século XII, Benjamim de Toledo tinha ido até às Índias. Cerca de cem anos mais tarde, Odéric
de Pordenone atingia o Tibete.
As viagens de Marco Polo, bem como outras menos conhecidas — as de Jean du Plan-Carpin, Guillaume de
Rubruquis, André de Longjumeau, Jean de Béthencourt — bastam para dar idéia da atividade desenvolvida nessa
época para a descoberta da Terra.

A Ásia e a África eram então infinitamente mais bem conhecidas do que o foram a seguir. 

São Luís estabeleceu relações com o khan dos mongóis e também com o Velho da Montanha, o terrível senhor da
seita dos assassinos.

Desde 1329 era estabelecido em Colombo, no sul da Índia, um bispado que recebeu por titular o dominicano
Jourdain Cathala de Séverac. 

As cruzadas haviam sido, para o mundo ocidental, ocasião de estabelecer e manter contato com o Oriente Próximo,
mas na realidade as relações nunca haviam cessado completamente, alimentadas como eram pelos peregrinos e
pelos mercadores.

Em direção à África, as explorações estenderam-se até à Abissínia e às margens do Níger, que foi alcançado no
princípio do século XV por Anselmo Ysalguier, um burguês de Toulouse.

Seria certo que a América não foi visitada já desde essa época, se não mesmo “descoberta”? 

É um fato certo que os vikings tinham atravessado o Atlântico Norte e estabelecido relações regulares com a
Groenlândia. 

Aí se estabeleceram islandeses, aí se instituiu um bispado, e em 1327 os groenlandeses respondiam ao apelo do


papa João XXII à cruzada,enviando-lhe como participação nas despesas um carregamento de peles de focas e de
dentes de morsas.

Não é impossível que a partir dessa época tenham explorado uma parte do Canadá e remontado o São Lourenço,
onde Jacques Cartier haveria de descobrir com estupor, alguns séculos mais tarde, que os índios faziam o sinal da
cruz e declaravam que o tinham aprendido dos seus antepassados.

Nada disto é tão espantoso, se considerarmos que por intermédio dos árabes a Idade Média se encontrava em
relações pelo menos indiretas com a Índia e a China, e se beneficiava igualmente dos seus conhecimentos
astronômicos e geográficos.

Um planisfério datado de 1413, traçado por Mecia de Viladestet e conservado na Biblioteca Nacional, dá a
nomenclatura e a situação exata das estradas e dos oásis saarianos, em toda a extensão do deserto e até
Tombuctu. 

Nesse imenso espaço, que até meados do século XIX iria permanecer em branco nos nossos mapas, um viajante da
Idade Média podia preparar com precisão o seu itinerário e saber quais iriam ser as etapas do seu percurso do
Atlas ao Níger.

Outras tantas causas atuaram diretamente sobre as relações da Europa com o Oriente, e por ricochete sobre as
ciências geográficas: os desastres da Guerra dos Cem Anos, o cisma do Oriente, e mais tarde a ruptura com o Islã e
as invasões turcas.

É preciso acrescentar que, ao contrário do que se crê, os sábios do Renascimento manifestam um espírito
retrógrado em relação aos seus antecessores, ao transferirem a base dos seus estudos para as obras da
Antiguidade. (A este respeito, ver o artigo muito pertinente e muito documentado de R.P. Lecler, La Géographie des
humanistes, no primeiro número da revista Construire (1940).)

Aristóteles e Ptolomeu tinham sido largamente ultrapassados neste domínio, e privar-se das lições da experiência
para regressar às suas teorias era privar-se de todo um conjunto de aquisições pouco a pouco reconquistadas pela
época moderna, prestando justiça, ainda neste ponto, à ciência medieval.

(Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)
Feudalismo: reciprocidade de fidelidade e serviço
As obrigações que ligam o vassalo a seu senhor levam à reciprocidade: “O senhor deve tanta fidelidade e lealdade a
seu homem como o homem a seu senhor”— diz Beaumanoir.

Esta noção de dever recíproco, de serviço mútuo, se encontra muitas vezes em textos, tanto literários como
jurídicos.

“O senhor deve mais reconhecimento a seu vassalo do que este a seu senhor” — observa Etienne de Fougères no
seu “Livre des Manières”.

Philippe de Novare comenta em apoio dessa constatação:  “Aqueles que recebem serviços e jamais o recompensam
bebendo de seus servos o suor, que lhes é veneno mortal ao corpo e à alma”. 

De onde vem a máxima: “Ao bem servir convém recompensar”.

Exige-se da nobreza mais compostura e retidão moral que dos outros membros da sociedade. 

Por uma mesma falta, a pena aplicada a um nobre será muito superior à de um plebeu. 

Beaumanoir cita um delito pelo qual a pena de um camponês é de 60 soldos, e a de um nobre de 60 libras, numa
desproporção de 1 para 20.

Segundo os Établissements  de Saint Louis, a falta pela qual um homem costumeiro — isto é, um plebeu — pagava 50
soldos de multa acarretava para um nobre o confisco de todos os seus bens móveis.

Isto se encontra também nos estatutos de diversas cidades.

Os de Pamier fixam assim a tarifa de multas em caso de roubos: vinte libras para o barão, dez para o cavaleiro, cem
soldos para o burguês, vinte soldos para o vilão.

(Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

A nobreza podia ser adquirida, de preferência por


méritos, ou perdida por deméritos
A nobreza é hereditária, mas pode também ser adquirida, seja como retribuição de serviços, seja pela aquisição de
um feudo nobre.

Foi o que aconteceu em grande escala pelos fins do século XIII.Numerosos tinham sido os nobres mortos ou
arruinados nas grandes expedições, então muitos tornaram-se nobres, fato que deu origem a uma reação da
nobreza. 

A cavalaria enobrecia aquele a quem ela era conferida. E com o correr dos tempos surgiram os títulos de nobreza,
que na verdade foram distribuídos muito parcimoniosamente.

Podia-se adquirir a nobreza, mas também podia-se perdê-la por decadência, como decorrência de uma condenação
infamante. 

A vergonha de uma hora apaga bem quarenta anos de honra  — dizia-se.

Ela se extinguia ainda pela derrogação, quando um nobre confessava ter exercido um ofício plebeu ou um tráfico
qualquer.

Com efeito, era proibido sair do papel que lhe fora conferido. Elenão devia mais procurar se enriquecer, assumindo
cargos que lhe poderiam fazer negligenciar aqueles aos quais dedicou sua vida.

Entretanto, excetuavam-se dos ofícios plebeus aqueles que, necessitando de recursos importantes, só podiam ser
executados pelos nobres. Por exemplo, a vidraria ou a administração de forjas.
O tráfico marítimo era permitido aos nobres porque exige, além de capitais, um espírito de aventura, que não seria
conveniente coibir.

No século XVIII Colbert alargará os campos de atividade econômica da nobreza, para dar mais impulso ao comércio e
à indústria.

(Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

Nobreza: privilégios honoríficos e práticos; ônus pesados


e custosos

A nobreza é uma classe privilegiada. Seus privilégios são, antes de mais nada, honoríficos: direitos de precedência,
etc. Alguns decorrem de encargos que a nobreza possui.

Assim, apenas o nobre tem direito à espora, ao cinturão e ao estandarte, o que lembra que originalmente só os
nobres tinham possibilidade de equipar um cavalo de guerra.

Ao lado disso ele goza de exceções, que no princípio eram comuns a todos os homens livres.

Tal é a exceção da “taille” (imposto sobre o vinho) e de certos impostos indiretos, cuja importância, nula na Idade
Média, não cessou de crescer no século XVI, e sobretudo no século XVIII.

A nobreza possui direitos precisos e substanciais, que são todos aqueles decorrentes do direito de propriedade:
direito de arrecadar as rendas, direito de caça e outros.

Os tributos e as rendas pagos pelos camponeses são apenas o aluguel da terra sobre a qual tiveram a permissão de
se instalar, ou que seus ancestrais julgaram bom abandonar a um proprietário mais poderoso que eles mesmos.

Arrecadando suas rendas, os nobres estavam exatamente na condição de um proprietário de imóveis recebendo
seus aluguéis.

A longínqua origem desse direito de propriedade se apagou pouco a pouco, e na época da Revolução Francesa o
camponês se julgou o legítimo proprietário de uma terra da qual era locatário desde muitos séculos.

O mesmo aconteceu com relação a esse famoso direito de caça, que comumente é apontado como sendo um dos
abusos mais berrantes de uma época de terror e de tirania.

O que de mais legítimo para um homem que aluga um terreno a um outro, do que reservar para si o direito de aí
caçar?

Proprietário e arrendatários, ambos sabem a que ponto devem se ater, no momento em que estipulam obrigações
recíprocas, e este é um aspecto essencial.

O senhor não deixa de estar sobre sua terra, quando caça perto da habitação de um camponês.

Que alguns deles tenham abusado desse direito e “esmigalhado com o casco de seus cavalos colheitas douradas dos
camponeses” — para exprimir-nos como os manuais de ensino primário — é coisa possível, ainda que impossível de
confirmar.

Mas não se pode conceber que eles o tenham feito sistematicamente, pois boa parte das suas rendas eram
resultantes de quotas nas colheitas, e portanto o senhor era diretamente interessado em que as colheitas fossem
abundantes.

A questão é idêntica com relação às “banalidades”. O forno ou a prensa senhorial são, em sua origem, comodidades
oferecidas aos camponeses, em troca das quais era normal receber-se uma retribuição.

Tudo como atualmente se faz em certas comunas, ao alugar-se ao camponês uma debulhadeira ou outros
instrumentos agrícolas.

(Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)
Sociedade medieval: riqueza assombrosa de
relacionamentos
Julgou-se durante muito tempo que bastava, para explicar a sociedade medieval, recorrer à clássica divisão em três
ordens: clero, nobreza e terceiro estado.

É a noção que dão ainda os manuais de História: três categorias de indivíduos, bem definidas, tendo cada uma as
suas atribuições próprias e nitidamente separadas umas das outras. Nada está mais afastado da realidade histórica.

A divisão em três classes pode aplicar-se ao Antigo Regime, aos séculos XVII e XVIII, onde efetivamente as diferentes
camadas da sociedade formaram ordens distintas, cujas prerrogativas e relações dão conta do mecanismo da vida.

No que concerne à Idade Média, tal divisão é superficial. Explica o agrupamento, a repartição e distribuição das
forças, mas nada revela sobre a sua origem, sua jurisdição, a estrutura profunda da sociedade.

Tal como aparece nos textos jurídicos, literários e outros, esta divisão corresponde a uma hierarquia, comportando
uma ordem determinada, mas uma ordem diferente do que se pensou, e desde já muito mais variada.

Nos atos notariais, vê-se correntemente o senhor de um condado, o cura de uma paróquia aparecerem como
testemunhas em transações entre vilãos, e a mesnie  (mesnada  é o termo correspondente entre nós, mas de sentido
diferente, englobando um companheirismo guerreiro) de um barão — quer dizer, o seu meio, os seus familiares —
comporta tanto servos e frades como altas personagens.

As atribuições destas classes estão também estreitamente entrelaçadas.

A maior parte dos bispos são igualmente senhores, e muitos deles se originam do povo miúdo.

Um burguês que compra uma terra nobre torna-se também nobre em certas regiões. Logo que abandonamos os
manuais para mergulhar nos textos, esta noção das “três classes da sociedade” se mostra fictícia e sumária.

Mais próxima da verdade, a divisão em privilegiados e não privilegiados se mostra também incompleta,
porquehouve na Idade Média privilegiados da mais alta à mais baixa escala social. 

O menor aprendiz é um privilegiado em determinados níveis, pois participa dos privilégios do corpo de ofício; as
isenções da universidade beneficiam os estudantes, e mesmo os seus criados, tanto como os mestres e os doutores.

Alguns grupos de servos rurais gozam de privilégios precisos, que o seu senhor é obrigado a respeitar. 

Considerar como privilégios apenas os da nobreza e do clero, é uma noção completamente errônea da ordem
social.

(Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

A família: “chave” para compreender a sociedade


medieval
Para compreender bem a sociedade medieval, é necessário estudar a sua organização familiar.

Aí se encontra a “chave” da Idade Média, e também a sua originalidade.

Todas as relações nessa época — tanto as de senhor-vassalo como as de mestre-aprendiz — se estabelecem sobre a
estrutura familiar.

A vida rural, a história do nosso solo, só se explicam pelo regime das famílias que aí viveram.

Quando se queria avaliar a importância de uma aldeia, contava-se o número de “fogos”, e não o número de
indivíduos que a compunham.

Na legislação, nos costumes, todas as disposições tomadas dizem respeito aos bens de família, ao interesse da
linhagem, ou então estendendo esta noção familiar a um círculo mais importante — ao interesse do grupo, do corpo
de ofício, que não é senão uma vasta família fundada sobre o mesmo modelo que a célula familiar propriamente
dita.

Os altos barões são antes de tudo pais de família, agrupando à sua volta todos os seres que, pelo seu nascimento,
fazem parte do domínio patrimonial.

As suas lutas são querelas de família, nas quais toma parte toda essa corte, a qual têm o cargo de defender e de
administrar.

(Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

Linhagens familiares: verdadeira estrutura da sociedade


medieval
A história da feudalidade não é outra senão a das principais linhagens. E que será, no fim de contas, a história do
poder real do século X ao século XIV?

A de uma linhagem, que se estabelece graças à sua fama de coragem, ao valor de que os seus antepassados tinham
feito prova.

Muito mais que um homem, é uma família que os barões colocaram na sua liderança. Na pessoa de Hugo Capeto
viam o descendente de Roberto, o Forte, que tinha defendido a região contra os invasores normandos; ou de Hugo,
o Grande, que tinha já usado a coroa.

De fato, é o que transparece no famoso discurso de Adalbéron de Reims:

“Tomai por chefe o duque dos francos, glorioso pelas suas ações, pela sua família e pelos seus homens, o duque em
quem encontrareis um tutor não só dos negócios públicos, mas dos vossos negócios privados”.

Esta linhagem manteve-se no trono por hereditariedade, de pai para filho, e viu os seus domínios crescerem por
heranças e por casamentos, muito mais que por conquistas.

É uma história que se repete milhares de vezes na nossa terra, em diversos níveis, e que decidiu uma vez por todas
os destinos da França, fixando na sua terra linhagens de camponeses e de artesãos, cuja persistência através dos
reveses dos tempos criou realmente a nossa nação.

Na base da “energia francesa” há a família, tal como a Idade Média a compreendeu e conheceu.

(Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

Superioridade da família na Idade Média em relação à


Antiguidade
Não poderíamos apreender melhor a importância desta base familiar do que, por exemplo, comparando a sociedade
medieval, composta de famílias, com a sociedade antiga, composta de indivíduos.

Na Antiguidade

Nesta, o varão detém a primazia em tudo: na vida pública ele é o civis, o cidadão que vota, que faz as leis e toma
parte nos negócios de Estado; na vida privada, é o pater familias, o proprietário de um bem que lhe pertence
pessoalmente, do qual é o único responsável, e sobre o qual as suas atribuições são quase ilimitadas.

Em parte alguma se vê a sua família ou a sua linhagem participando na sua atividade.

A mulher e os filhos estão inteiramente submetidos a ele, em relação a quem permanecem em estado de
menoridade perpétua.

Sobre eles, como sobre os escravos ou sobre as propriedades, tem o jus utendi et abutendi, o poder de usar e
consumir.
A família parece existir apenas em estado latente, não vive senão pela personalidade do pai, que é simultaneamente
chefe militar e grande sacerdote, com todas as conseqüências morais que daí decorrem, entre as quais é preciso
colocar o infanticídio legal.

A criança, na Antiguidade, era a grande sacrificada, um objeto cuja vida dependia do juízo ou do capricho paterno.

Estava submetida a todas as eventualidades da troca ou da adoção, e quando o direito de vida lhe era concedido,
permanecia sob a autoridade do pater familias até à morte deste.

Mesmo então não adquiria de pleno direito a herança paterna, já que o pai podia dispor à vontade dos seus bens por
testamento.

Quando o Estado se ocupava dessa criança, não era de todo para intervir a favor de um ser frágil, mas para realizar a
educação do futuro soldado e do futuro cidadão.

Poderíamos estudar a Antiguidade — e estudamo-la de fato — sob a forma de biografias individuais: a história de
Roma é a de Sila, Pompeu, Augusto; a conquista dos gauleses é a história de Júlio César.

Na Idade Média

Nada subsiste desta concepção na nossa Idade Média. O que importa então já não é o homem, mas a linhagem.

Ao se abordar a Idade Média, uma mudança de método impõe-se: a história da unidade francesa é a da linhagem
capetiana; a conquista da Sicília é a história dos descendentes de uma família normanda, demasiado numerosa para
o seu patrimônio.

Para compreender bem a Idade Média, é preciso vê-la na sua continuidade, no seu conjunto.

Talvez por isso ela é muito menos conhecida e muito mais difícil de estudar do que o período antigo, porque é
necessário apreendê-la na sua complexidade, segui-la na continuidade do tempo, através dessas cortes que são a
sua trama.

E é preciso fazê-lo não apenas em relação às que deixaram um nome pelo brilho dos seus feitos ou pela importância
do seu domínio, mas também nas gentes mais humildes das cidades e dos campos, que é preciso conhecer na sua
vida familiar se quisermos dar conta do que foi a sociedade medieval.

Isto se explica, pois durante esse período de perturbações e de decomposição total, que foi a Alta Idade Média, a
única fonte de unidade, a única força que permaneceu viva foi precisamente o núcleo familiar, a partir do qual se
constituiu pouco a pouco a unidade francesa.

A família e a sua base fundiária foram assim, devido às circunstâncias, o ponto de partida da nossa nação.

(Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

A vida familiar dominava a vida pública e não o inverso


como hoje
Esta importância dada à família traduz-se por uma preponderância, muito marcada na Idade Média, da vida privada
sobre a vida pública.

Em Roma, um homem só tem valor enquanto exerce os seus direitos de cidadão, enquanto vota, delibera e participa
nos negócios do Estado.

As lutas da plebe para obter o direito de ser representada por um tribuno são, a este nível, bastante significativas.

Na Idade Média, raramente se trata de negócios públicos. Ou melhor, estes tomam logo o aspecto de uma
administração familiar, são contas de domínio, regulamentos de rendeiros e de proprietários.

Mesmo quando os burgueses reclamam direitos políticos, no momento da formação das comunas, é para poderem
exercer livremente o seu ofício e não serem mais incomodados pelas portagens e pelos direitos de alfândega.

A atividade política, em si, não apresenta interesse para eles.


De resto, a vida rural é então infinitamente mais ativa que a vida urbana, e tanto numa como noutra é a família, não
o indivíduo, que prevalece como unidade social.

Tal como se apresenta no século X, a sociedade assim compreendida tem como traço essencial a noção de
solidariedade familiar saída dos costumes bárbaros, germânicos ou nórdicos.

A família é considerada como um corpo em cujos membros circula um mesmo sangue, ou como um mundo
reduzido, desempenhando cada ser o seu papel com a consciência de fazer parte de um todo.

A união não repousa, como na antiguidade romana, sobre a concepção estatista da autoridade do seu chefe.

Repousa sim sobre esse fato de ordem biológica e moral, de acordo com o qual todos os indivíduos que compõem
uma mesma família estão unidos pela carne e pelo sangue, por interesses solidários, e nada é mais respeitável do
que a afeição que naturalmente anima uns para com os outros.

Tem-se muito vivo o sentido desse caráter comum dos seres de uma mesma família. Diz um autor do tempo:

Les gentils fils des gentils pères

Des gentils et des bonnes mères

Ils ne font pas de pesants heires [héritiers].

Os gentis filhos dos gentis pais

Das gentis e boas mães

Não se tornam herdeiros pesados.

Aqueles que vivem sob um mesmo teto, que cultivam o mesmo campo e se aquecem no mesmo fogo — ou, para
usar a linguagem do tempo, os que participam do mesmo “pão e pote”, [Em português, a expressão correspondente
seria “comer da mesma gamela”] “que cortam a mesma côdea” — sabem que podem contar uns com os outros, que
o apoio da sua corte não lhes faltará.

O espírito de grupo é, com efeito, mais potente aqui do que poderia ser em qualquer outro agrupamento, já que se
funda sobre os laços inegáveis do parentesco pelo sangue e se apóia sobre uma comunidade de interesses não
menos visível e evidente.

Étienne de Fougères, o autor de quem foi citado o extrato precedente, protesta no seu Livre des manières [Livro de
boas maneiras] contra o nepotismo dos bispos.

Todavia, reconhece que estes fariam bem em rodear-se dos seus parentes, “se estão de boas relações”, pois nunca
podemos ter certeza da fidelidade dos estranhos, diz ele, enquanto pelo menos os nossos não nos faltarão.

Partilham-se portanto as alegrias e os sofrimentos. Recolhem-se em casa os filhos daqueles que morreram ou estão
em dificuldades, e todas as pessoas de uma mesma casa se agitam para desagravar [O desagravo, no Portugal
medieval, é o direito de revindita] a injúria feita a um dos seus membros.

O direito de guerra privada, reconhecido durante grande parte da Idade Média, é apenas a expressão da
solidariedade familiar, e correspondia inicialmente a uma necessidade.

Quando da fraqueza do poder central, para o defender-se o indivíduo só podia contar com a ajuda da sua corte, e
sem ela ficaria sozinho, entregue durante toda a época das invasões a perigos e misérias de toda espécie.

Para viver, era preciso enfrentar, agrupar-se. E que grupo valeria mais que uma família resolutamente unida?

(Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

Solidariedade familiar: garantia da segurança pessoal e


da propriedade
A solidariedade familiar, exprimindo-se se necessário pelo recurso às armas, resolvia então o difícil problema da
segurança pessoal e a do domínio.

Em certas províncias, particularmente no norte da França, a habitação traduz esse sentimento da solidariedade.

O principal compartimento da casa é a sala, que congrega diante da sua vasta lareira a família. Nela se juntam para
comer, para festejar os casamentos e os aniversários e para velar os mortos.

Corresponde ao hall  dos costumes anglo-saxões, pois a Inglaterra teve na Idade Média costumes semelhantes aos
nossos, aos quais permaneceu fiel em muitos pontos.

A esta comunidade de bens e de afeição é necessário um administrador, e naturalmente o pai de família


desempenha este papel.

Mas a autoridade que ele desfruta é antes a de um gerente, em lugar de ser a de um chefe, absoluta e pessoal como
no direito romano.

Trata-se de um gerente responsável, diretamente interessado na prosperidade da casa, mas que cumpre um dever
mais do que exerce um direito.

Proteger os seres fracos — mulheres, crianças, servos — que vivem debaixo do seu teto, assegurar a gestão do
patrimônio, tal é o seu encargo, mas não é considerado o chefe definitivo da casa familiar nem o proprietário do
domínio.

Embora desfrute os seus bens patrimoniais, tem apenas o seu usufruto. Tal como os recebeu dos antepassados, deve
transmiti-los àqueles cujo nascimento designará para lhe sucederem.

O verdadeiro proprietário é a família, não o indivíduo.

Do mesmo modo, embora possua toda a autoridade necessária para as suas funções, o pai de família está longe de
ter, sobre a mulher e os filhos, esse poder sem limites que lhe concedia o direito romano.

A mulher colabora na mainbournie, quer dizer, na administração da comunidade e na educação dos filhos.

Ele gere os bens próprios, porque o consideram mais apto do que ela para os fazer prosperar, coisa que não se
consegue sem esforço e sem trabalho.

Mas quando ele tem de se ausentar, por uma razão qualquer, a mulher retoma essa gestão sem o mínimo obstáculo
e sem autorização prévia.

Guarda-se tão viva a recordação da origem da sua fortuna, que no caso de a mulher morrer sem filhos os seus bens
próprios voltam integralmente para a sua família. Nenhum contrato pode opor-se a isto, as coisas passam-se
naturalmente assim.

Em relação aos filhos, o pai é o guardião, o protetor e o mestre. A sua autoridade paterna cessa na maioridade, que
adquirem muito jovens, quase sempre aos quatorze anos entre os plebeus.

Entre os nobres, a idade varia de quatorze a vinte anos, porque têm de fornecer para a defesa do feudo um serviço
mais ativo, que exige forças e experiência.

Os reis da França eram considerados maiores com quatorze ou quinze anos, e sabe-se que foi com esta idade que
Filipe Augusto atacou à frente de suas tropas.

Uma vez maior, o jovem continua a gozar da proteção dos seus e da solidariedade familiar. Porém, diferentemente
do que se passava em Roma, e conseqüentemente nos países de direito escrito, adquire plena liberdade de iniciativa
e pode afastar-se, fundar uma família, administrar os seus próprios bens como entender.

Logo que é capaz de agir por si mesmo, nada entrava a sua atividade e ele torna-se senhor de si próprio, mantendo
no entanto o apoio da família de que saiu.

É uma cena clássica dos romances de cavalaria ver os filhos da casa, logo que estão em idade de usar armas e de
receber a investidura, deixar a residência paterna para correr o mundo ou ir servir o seu suserano.
(Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

Direito de propriedade: grande e sagrado fundamento da


família
A noção da família assim compreendida repousa sobre uma base material — a herança de família, bem fundiário em
geral — porque desde os começos da Idade Média a terra constitui a única fonte de riqueza, e permanece
conseqüentemente o bem estável por excelência.

Dizia-se então:

Héritage ne peut mauvoir

Mais meubles est chose volage.

Uma herança não pode movimentar-se

Mas os móveis são coisa instável.

Esta herança familiar, quer se trate de um arrendamento servil ou de um domínio senhorial, permanece sempre
propriedade da linhagem.

É impenhorável e inalienável, os reveses acidentais da família não podem atingi-la. Ninguém pode tomá-la, e a
família também não tem o direito de a vender ou negociar.

Quando o pai morre, a herança de família passa para os herdeiros diretos. Tratando-se de um feudo nobre, o filho
mais velho recebe quase a sua totalidade, porque a manutenção e defesa de um domínio requer um homem, e que
seja amadurecido pela experiência.

Esta a razão do morgadio, que a maior parte dos costumes consagra.

Para os arrendamentos, o uso varia com as províncias, sendo por vezes a herança partilhada, mas em geral é o filho
mais velho quem sucede.

Notemos que se trata aqui da herança principal, do patrimônio de família. Em tal circunstância as outras são
partilhadas pelos filhos mais novos, mas é ao mais velho que cabe o “solar principal”, com uma extensão de terra
suficiente para ele viver com a sua família.

É justo, pois afinal o filho mais velho quase sempre secundou o pai, e depois dele é quem mais cooperou na
manutenção e na defesa do patrimônio.

Em algumas províncias, tais como Hainaut, Artois, Picardie e em algumas partes da Bretanha, não é o mais velho, e
sim o mais novo o sucessor da herança principal.

Uma vez mais, isso ocorre por uma razão de direito natural, porque numa família os mais velhos são os primeiros a
casar, estabelecendo-se então por conta própria, enquanto o mais novo fica mais tempo com os pais e cuida deles
na velhice.

Este direito do mais jovem [sem correspondência em Portugal, normalmente esta sucessão de patrimônio passava
para os filhos segundos] testemunha a elasticidade e a diversidade dos costumes, que se adaptam aos hábitos
familiares de acordo com as condições de existência.

(Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

A herança familiar: bem muito valorizado na Idade Média


De qualquer maneira, o que é notável no sistema de transmissão de bens é que passam para um único herdeiro,
sendo este designado pelo sangue.

“Não existe herdeiro por testamento”, diz-se em direito consuetudinário. Na transmissão do patrimônio de família,
a vontade do testamenteiro não intervém. 
Pela morte de um pai de família, o seu sucessor natural entra de pleno direito em posse do patrimônio.

“O morto agarra o vivo”, dizia-se ainda nessa linguagem medieval, que tinha o segredo das expressões
surpreendentes. É a morte do ascendente que confere ao sucessor o título de posse, e o coloca de fato na posse da
terra.

O homem de lei não tem de intervir nisso, como nos nossos dias. 

Embora os costumes variem de acordo com as províncias e conforme o lugar, fazendo do mais velho ou do mais
novo o herdeiro natural, e embora varie a maneira como sobrinhos e sobrinhas possam pretender à sucessão na
falta de herdeiros diretos, pelo menos uma regra é constante: só se recebe uma herança em virtude dos laços
naturais que unem uma pessoa a um defunto. 

Isto quando se trata de bens imóveis, porquanto os testamentos só dizem respeito aos bens móveis ou a terras
adquiridas durante a vida, e que não fazem parte dos bens de família.

Quando o herdeiro natural é notoriamente indigno do seu cargo, ou se é pobre de espírito, por exemplo, são
admitidas alterações, mas em geral a vontade humana não intervém contra a ordem natural das coisas.

“Instituição de herdeiro não tem lugar”, tal é o adágio dos juristas de direito consuetudinário. É neste sentido que
ainda hoje se diz, falando das sucessões reais: “O rei morreu, viva o rei”.

Não há interrupção nem vazio possível, uma vez que só a hereditariedade designa o sucessor. Por isso a gestão dos
bens de família se acha continuamente assegurada.

Não deixar o patrimônio enfraquecer, tal é realmente o fim a que visam todos os costumes. Por isso havia sempre
um único herdeiro, pelo menos para os feudos nobres.

Temia-se a fragmentação que empobrece a terra, dividindo-a ao infinito.

O parcelamento foi sempre fonte de discussões e de processos, além de prejudicar o cultivador e dificultar o
progresso material, pois é necessário um empreendimento de certa importância para poder aproveitar os
melhoramentos que a ciência ou o trabalho põem ao alcance do camponês, ou para poder suportar eventuais
fracassos parciais, e em qualquer caso fornecer recursos variados.

O grande domínio, tal como existe no regime feudal, permite uma sábia exploração da terra.

Pode-se deixar periodicamente uma parte em repouso, dando-lhe tempo para se renovar, e também variar as
culturas, mantendo de cada uma delas uma harmoniosa proporção.

(Fonte: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

O papel da mulher na Idade Média


Há quem pense que na Idade Média o papel da mulher era o de submissão total e completo ostracismo.

Há quem cogite que se pensava que a alma da mulher não era imortal ‒ afirmação gratuitamente preconceituosa e
contraditória (se a alma é espiritual e imortal, como a alma feminina não seria? Seria uma alma mortal?).

Como a Igreja seria hostil a esses seres sem alma, mas durante séculos batizou, confessou e ministrou a Eucaristia a
essas criaturas?

Não é estranho que os primeiros mártires cristãos tenham sido mulheres (Santas Agnes, Cecília, Ágata etc)?

Como venerar a Virgem Maria como cheia de graça e considerá-la desalmada? A historiografia contemporânea
simplesmente apagou a mulher medieval.

Por exemplo, no plano social. Dentro dessa perspectiva desapareceram da história personagens como Hilda de
Whitby, que no século VII fundou sete mosteiros e conventos, ou quem sabe a religiosa alemã Hroswitha de
Gandersheim, autora de dezenas de peças de teatro.
Em Bizâncio, numerosas eram as mulheres na universidade. Anna Comnena fundou em 1083 uma nova escola de
medicina onde lecionou por vários anos.

Eleonora da Aquitânia, enquanto rainha, desempenhou um importante papel político na Inglaterra e fundou
instituições religiosas e educadoras.

Nos tempos feudais a rainha era coroada como o rei, geralmente em Rheims ou, por vezes, em outras catedrais.

A coroação da rainha era tão prestigiada quanto a do Rei. A última rainha a ser coroada foi Maria de Medicis em
1610, na cidade de Paris.

Algumas rainhas medievais desempenharam amplas funções, dominando a sua época; tais foram Eleonora de
Aquitânia (+1204) e Branca de Castela (+1252); no caso de ausência, da doença ou da morte do rei, exerciam poder
incontestado, tendo a sua chancelaria, as suas armas e o seu campo de atividade pessoal.

Verdade é que a jovem era dada em casamento pelos pais sem que tivesse livre escolha do seu futuro consorte

Todavia observe-se que também o rapaz era assim tratado; por conseguinte, homens e mulheres eram sujeitos ao
mesmo regime.

(Autor: Régine Pernoud, “Idade Média ‒ o que não nos ensinaram”).

Mulheres líderes da sociedade medieval


Algo inédito e que nos dias de hoje ‒ tão democráticos ‒ jamais aconteceria:

No século XII, Robert d'Arbrissel, um dos maiores pregadores de todos os tempos resolveu fixar a multidão de
seguidores seus na região de Fontevrault.

Para isso ele criou um convento feminino, um masculino e entre os dois uma Igreja que seria o único local aonde os
monges e as monjas poderiam se encontrar.

Ora, este mosteiro duplo foi colocado sob a autoridade, não de um abade, mas de uma abadessa.

Esta, por vontade do fundador, devia ser viúva, tendo tido a experiência do casamento.

Para completar, a primeira abadessa que presidiu os destinos da Ordem de Fontevrault, Petronila de Chemillé, tinha
22 anos.

(Um parêntesis: nos dias de hoje alguém imaginaria um acontecimento destes sequer ser considerado? Pois ele
aconteceu na época em que os ignorantes costumam taxar como “Idade das trevas”).

No período feudal o lugar da mulher na Igreja apresentou algumas diferenças daquele ocupado pelo homem, mas
este foi um lugar iminente, que simboliza, por outro lado, perfeitamente o culto, insigne também, prestado à Virgem
Maria entre os santos.

E não é curioso como a época termine por uma figura de mulher ‒ Joana D'Arc, que seja dito de passagem, não
poderia, jamais, nos séculos seguintes obter a audiência do rei, sendo ela mulher, plebéia e ignorante, conseguindo
mesmo assim suscitar a confiança que conseguiu, afinal.

Pobre Joana D'Arc!

Luc Besson fez um filme de Santa Joana D'Arc digna dos melhores hospícios, completamente esquizofrênica e que
confundia sua vingança pessoal com o que seria a voz de Deus. Sem comentários.

(Autor: Régine Pernoud, “Idade Média ‒ o que não nos ensinaram”).

A mulher na Igreja medieval


Precisamente por causa da valorização prestada pela Igreja à mulher, várias figuras femininas desempenharam
notável papel na Igreja medieval.
Certas abadessas, por exemplo, eram autênticos senhores feudais, cujas funções eram respeitadas como as dos
outros senhores; administravam vastos territórios como aldeias, paróquias; algumas usavam báculo, como o bispo...

Seja mencionada, entre outras, a abadessa Heloisa, do mosteiro do Paráclito, em meados do século XII: recebia o
dízimo de uma vinha, tinha direito a foros sobre feno ou trigo, explorava uma granja...

Ela mesma ensinava grego e hebraico às monjas, o que vem mostrar o nível de instrução das religiosas deste tempo,
que às vezes rivalizavam com os monges mais letrados.

Pena faltar estudos mais sérios sobre o tema...É surpreendente ainda notar que a enciclopédia mais conhecida no
século XII se deve a uma mulher, ou seja, à abadessa Herrade de Landsberg.

Tem o título "Hortus Deliciarum" (Jardim das Delícias) e fornece as informações mais seguras sobre as técnicas do
seu tempo. Algo de semelhante se encontra nas obras de Santa Hildegarda de Bingen.

Gertrude de Helfta, no século XIII conta-nos como se sentiu feliz ao passar do estado de "romancista" ao de
"teóloga".

Conforme Pedro, o Venerável, ela, em sua juventude, não sendo freira e não querendo entrar num convento,
procurava, todavia, estudos muito áridos, ao invés de se contentar com a vida mais frívola de uma jovem.

Ao percorrer o ciclo de estudos preparatórios ela galgara o ciclo superior, como se fazia na Universidade.

Veio da abadia feminina de Gandersheim um manuscrito do século X contendo seis comédias, em prosa rimada,
imitação de Terêncio, e que são atribuídas à famosa abadessa Hrotsvitha, da qual, há muito tempo, conhecemos a
influência sobre o desenvolvimento literário nos países germânicos.

Estas comédias, provavelmente representadas pelas religiosas, são, do ponto de vista da história dramática,
consideradas como prova de uma tradição escolar que terá contribuído para o teatro da Idade Média.

(Autor: Régine Pernoud, “Idade Média ‒ o que não nos ensinaram”).

A mulher comum na Idade Média


Faltaria falar das mulheres comuns, camponesas ou citadinas, mães de família ou trabalhadoras.

A questão é muito extensa, e os exemplos podem chegar através de diversas fontes como documentos ou mil outros
detalhes colhidos ao acaso e que mostram homens e mulheres através dos menores atos de suas existências.

Através de documentos, pôde-se constatar a existência de cabeleireiras, salineiras (comércio do sal), moleiras,
castelãs, mulheres de cruzados, viúvas de agricultores, etc.

É por documentos deste gênero que se pode, peça por peça, reconstituir, como em um mosaico, a história real ‒
muito diferente dos romances de cavalaria ou de fontes literárias que apresentam a mulher como um ser frágil, ideal
e quase angélico ou diabólico ‒ mas que não tinha voz nem vez.

Existem documentos demonstrando como em muitos locais, mulheres e homens votavam em assembléias urbanas
ou comunas rurais.

Ouve um caso curioso: Gaillardine de Fréchou foi uma mulher e a única pessoa que, diante da proposta de um
arrendamento aos habitantes de Cauterets, nos Pirineus, pela Abadia de Saint Savin, votou pelo Não, quando a
cidade inteira votou pelo Sim.

Nas atas dos notários é muito freqüente ver uma mulher casada agir por si mesma, abrir, por exemplo, uma loja ou
uma venda, e isto sem ser obrigada a apresentar uma autorização do marido.

Enfim, os registros de impostos, desde que foram conservados, como é o caso de Paris, no fim do século XIII,
mostram multidão de mulheres exercendo funções: professora, médica, boticária, estucadora, tintureira, copista,
miniaturista, encadernadora, etc.

(Autor: Régine Pernoud, “Idade Média ‒ o que não nos ensinaram”).


A vida rural
A vida rural foi extraordinariamente ativa durante a Idade Média, e grande quantidade de culturas foi introduzida na
França durante essa época.

Isso foi devido, em grande parte, às facilidades que o sistema rural da época oferecia ao espírito de iniciativa da
nossa raça.

O camponês de então não é nem um retardatário nem um rotineiro. A unidade e a estabilidade do domínio eram
uma garantia tanto para o futuro como para o presente, favorecendo a continuidade do esforço familiar.

Nos nossos dias, quando concorrem vários herdeiros, é preciso desmembrar o fundo e passar por toda espécie de
negociações e de resgates, para que um deles possa retomar a empresa paterna. [disposições recentes vieram
modificar o regime das sucessões]

A exploração cessa com o indivíduo, mas o indivíduo passa, enquanto o patrimônio fica, e na Idade Média tendia-se
para residir.

Se existe uma palavra significativa na terminologia medieval, essa palavra é mansão senhorial (manere, o lugar
onde se está), o ponto de ligação da linhagem, o teto que abriga os seus membros passados e presentes, e que
permite às gerações sucederem-se pacificamente.

Bem característico também é o emprego dessa unidade agrária que se denomina manse — extensão de terra
suficiente para que uma família possa nela fixar-se e viver.

Variava naturalmente com as regiões: um cantinho de terra na gorda Normandia ou na rica Gasconha traz mais ao
cultivador que vastas extensões na Bretanha ou no Forez.

A manse  tem pois uma extensão muito variável conforme o clima, as qualidades do solo e as condições de
existência. É uma medida empírica e — característica essencial — de base familiar, não individual, resumindo por si
só a característica mais saliente da sociedade medieval.

Assegurar à família uma base fixa e ligá-la ao solo de qualquer forma, para que aí tome raízes, dê fruto e se
perpetue, tal é a finalidade dos nossos antepassados. 

Pode-se traficar com as riquezas móveis e dispô-las por testamento, porque por essência são mutáveis e pouco
estáveis. Pelas razões inversas, os bens fundiários [propriedades rústicas ligadas à terra, à agricultura, são a base da
economia medieval] são propriedade familiar, inalienáveis e impenhoráveis.

O homem não é senão o guardião temporário, o usufrutuário. O verdadeiro proprietário é a linhagem.

Uma série de costumes medievais decorrem dessa preocupação de salvaguardar o patrimônio de família. Assim, em
caso de falta de herdeiro direto os bens de origem paterna voltam para a família do pai, e os de origem materna
para a da mãe, enquanto no direito romano só se reconhecia o parentesco por via masculina.

É o que se chama direito de retorno, que desempata de acordo com a sua origem os bens de uma família extinta.

Do mesmo modo, o asilo de linhagem dá aos parentes mesmo afastados o direito de preferência, quando por uma
razão ou por outra um domínio é vendido.

A maneira como é regulada a tutela de uma criança que ficou órfã apresenta também um tipo de legislação
familiar. A tutela é exercida pelo conjunto da família, e torna-se naturalmente tutor aquele cujo grau de parentesco
designa para administrar os bens.

O nosso conselho de família é apenas um resíduo do costume medieval que regulava o arrendamento dos feudos e a
guarda das crianças.

Na Idade Média se tem viva a preocupação de respeitar o curso natural das coisas, de não criar prejuízos quanto aos
bens familiares, tanto que, no caso em que morram sem herdeiro aqueles que detêm determinados bens, o seu
domínio não pode voltar para os ascendentes.
Procuram-se os descendentes mesmo afastados, primos ou parentes, evitando voltar esses bens para os que tiveram
antes a sua posse: “Bens próprios não voltam para trás”.

Tudo isso pelo desejo de seguir a ordem normal da vida, que se transmite do mais velho para o mais novo e não
volta para trás: os rios não voltam à nascente, do mesmo modo os elementos da vida devem alimentar aquilo que
representa a juventude, o futuro. 

Esta é mais uma garantia para o patrimônio da linhagem, que se transfere necessariamente para seres jovens,
portanto mais ativos e capazes de o fazer valer mais longamente.

Por vezes, a transmissão dos bens faz-se de uma forma muito reveladora do sentimento familiar, que é a grande
força da Idade Média.

A família (aqueles que vivem de um mesmo “pão e pote”) constitui uma verdadeira personalidade moral e jurídica,
possuindo em comum os bens cujo administrador é o pai.

Pela sua morte, a comunidade reconstitui-se com a orientação de um dos filhos, designado portanto pelo sangue,
sem que tenha havido interrupção da posse dos bens nem transmissão de qualquer espécie.

É aquilo a que se chama a comunidade silenciosa, de que faz parte qualquer membro da casa de família que não
tenha sido expressamente posto “fora do pão e pote”.

O costume subsistiu até ao fim do Antigo Regime, e podem-se citar famílias francesas que durante séculos nunca
pagaram o mínimo direito de sucessão. Em 1840, o jurista Dupin assinalava nessa situação a família Jault, que não o
pagava desde o século XIV.

Em todos os casos, mesmo fora da comunidade silenciosa, a família, considerada no seu prolongamento através das
gerações, permanece o verdadeiro proprietário dos bens patrimoniais.

O pai de família que recebeu esses bens dos antepassados deve dar conta deles aos seus descendentes. Seja servo
ou senhor, nunca é o dono absoluto. 

Reconhece-se a ele o direito de usar, não o de consumir, e tem além disso o dever de defender, proteger e
melhorar a sorte de todos os seres e coisas dos quais foi constituído o guardião natural.

(Autor: Régine Pernoud, “Lumière du Moyen Âge”, Bernard Grasset Éditeur, Paris, 1944)

O que é o feudalismo? Origens do regime feudal


Para compreender a Idade Média, temos de nos representar uma sociedade que vive de modo totalmente diferente,
da qual a noção de trabalho assalariado, e mesmo em parte a de dinheiro, estão ausentes ou são muito secundárias.

O fundamento das relações de homem para homem é a dupla noção de fidelidade, por um lado, e por outro a de
proteção.

Assegura-se devoção a qualquer pessoa, e dela espera-se em troca a segurança.

Não se compromete a atividade em função de um trabalho preciso, de uma remuneração fixa, mas a própria pessoa,
ou melhor, a sua fé, e em troca se requer subsistência e proteção, em todos os sentidos da palavra.

Tal é a essência do vínculo feudal.

Esta característica da sociedade medieval explica-se, ao considerarmos as circunstâncias que presidiram à sua
formação.

A origem encontra-se nessa Europa caótica do século V ao século VIII. O Império Romano desmoronava-se sob o
duplo efeito da decomposição interior e da pressão das invasões.
Tudo em Roma dependera da força do poder central. A partir do momento em que esse poder foi ultrapassado, a
ruína era inevitável. Nem a cisão em dois impérios nem os esforços de recuperação provisória poderiam travá-la.

Nada de sólido subsiste nesse mundo em que as forças vivas foram pouco a pouco esgotadas por um funcionalismo
sufocante, onde o fisco oprime os pequenos proprietários.

Em breve estes não têm outro recurso senão ceder as suas terras ao Estado para pagar os impostos. O povo
abandona os campos, e para o trabalho dos campos apela voluntariamente a esses mesmos bárbaros que
dificilmente são contidos nas fronteiras.

É assim que na Gália os borguinhões se instalam na região Sabóia-Franco-Condado e se tornam os rendeiros dos
proprietários galo-romanos, cujo domicílio partilham.

Sucessivamente, pacificamente ou pela espada, as hordas germânicas ou nórdicas assomam no mundo ocidental.

Roma é tomada e retomada pelos bárbaros, os imperadores são eleitos e destituídos conforme o capricho dos
soldados. A Europa não é mais que um vasto campo de batalha, onde se enfrentam as armas, as raças e as religiões.

Como poderá alguém defender-se numa época em que a agitação e a instabilidade são a única lei?

O Estado encontra-se distante e impotente, senão inexistente, cada um move-se por isso naturalmente em direção à
única força que permaneceu realmente sólida e próxima: os grandes proprietários fundiários, que podem assegurar
a defesa do seu domínio e dos seus rendeiros.

Fracos e pequenos recorrem a eles, confiam-lhes a sua terra e a sua pessoa, com a condição de se verem protegidos
contra os excessos fiscais e as incursões estrangeiras.

Por um movimento que se tinha esboçado a partir do Baixo Império, e não tinha parado de se acentuar nos séculos
VII e VIII, o poderio dos grandes proprietários aumenta com a fraqueza do poder central.

Cada vez mais se procura a proteção do “senhor” (senior), a única ativa e eficaz, que protegerá não só da guerra e da
fome, mas também da ingerência dos funcionários reais.

Assim se multiplicam as cartas de vassalagem, pelas quais a arraia-miúda se liga a um “senhor” para garantir a sua
segurança pessoal.

Os reis merovíngios tinham o hábito de se cercar de uma corte de “fiéis” (fideles), homens devotados à sua pessoa,
guerreiros ou outros, o que por imitação levará os poderosos da época a agruparem à sua volta os “vassalos” (vassi)
que julgaram bom recomendarem-se a eles.

Enfim esses próprios reis, cada vez mais desprovidos de autoridade face aos grandes proprietários, contribuíram
muitas vezes para a formação do poder dominial distribuindo terras aos seus funcionários, para retribuir os seus
serviços.

Quando os carolíngios chegaram ao poder, a evolução estava quase terminada.

Em toda a extensão do território, senhores mais ou menos poderosos, agrupando à sua volta os seus homens, os
seus fiéis, administravam os feudos mais ou menos extensos.

Sob a pressão dos acontecimentos, o poder central tinha dado lugar ao poder local, que tinha absorvido
pacificamente a pequena propriedade, e afinal de contas permanecia a única força organizada.
A hierarquia medieval, resultado dos fatos econômicos e sociais, tinha-se formado a partir de si própria; e os seus
usos, nascidos sob a pressão das circunstâncias, manter-se-iam pela tradição. Não tentaram lutar contra o estado
dos acontecimentos.

A dinastia de Pepino tinha chegado ao poder porque os seus representantes se contavam entre os mais fortes
proprietários da época.

Contentaram-se em canalizar as forças das quais faziam parte, e em aceitar a hierarquia feudal tirando dela o partido
que podiam tirar.

Tal é a origem do estado social da Idade Média, cujas características são completamente diferentes das que se
conheceram até então.

A autoridade, em lugar de estar concentrada num só ponto (indivíduo ou organismo), encontra-se repartida pelo
conjunto do território.

A grande sabedoria dos carolíngios foi de não tentarem ter nas mãos toda a máquina administrativa, mantendo a
organização empírica que tinham encontrado.

A sua autoridade imediata se estendia apenas a um pequeno número de personagens, que possuíam elas próprias
autoridade sobre outros, e assim sucessivamente até às camadas sociais mais humildes.

De degrau em degrau, uma ordem do poder central podia assim transmitir-se ao conjunto do país, e aquilo que não
controlavam diretamente podia ser atingido indiretamente.

Em lugar de combatê-la, Carlos Magno contentou-se em disciplinar a hierarquia que deveria impregnar tão
fortemente os hábitos franceses.

Reconhecendo a legitimidade do duplo juramento que todo homem livre devia a si próprio e ao seu senhor, ele
consagrou a existência do vínculo feudal.

Tal é a origem da sociedade medieval, e também a da nobreza fundiária, não a militar, ao contrário do que se julgou
demasiadas vezes.

Desta formação empírica, modelada pelos fatos, pelas necessidades sociais e econômicas, (Citemos a excelente
fórmula de Henri Pourrat: “O sistema feudal foi a organização viva imposta pela terra aos homens da
terra” (L’homme à la bêche. Histoire du paysan, p. 83) decorre uma extrema diversidade na condição das pessoas e
dos bens, já que a natureza dos compromissos que uniam o proprietário ao seu rendeiro variava segundo as
circunstâncias, a natureza do solo e o modo de vida dos habitantes.

Toda sorte de fatores entram em jogo, os quais tornam diferentes as relações e a hierarquia de uma província para
outra, ou mesmo de um domínio para outro.

Mas o que permanece estável é a obrigação recíproca: fidelidade por um lado, proteção pelo outro. Por outras
palavras, o vínculo feudal.

(Autor: Regine Pernoud, “Luz da Idade Média”. Ed. original: “Lumière du Moyen Âge”, Grasset, Paris, 1944)

Vínculo feudal é pessoal e familiar, afetivo e protetor


Durante a maior parte da Idade Média, a principal característica do vínculo feudal é ser pessoal.
Um vassalo preciso e determinado recomenda-se a um senhor igualmente preciso e determinado, decide vincular-se
a ele, jura-lhe fidelidade e espera em troca subsistência material e proteção moral.

Quando Roland morre, evoca “Carlos, meu senhor que me alimentou”, e esta simples evocação diz bastante da
natureza do vínculo que os une.

Somente a partir do século XIV o vínculo se tornará mais real que pessoal.

Ligar-se-á à posse de uma propriedade e decorrerá das obrigações fundiárias que existem entre o senhor e os seus
vassalos, cujas relações se assemelharão desde então muito mais às de um proprietário com os seus locatários.

É a condição da terra que fixa a condição da pessoa.

Mas, para todo o período medieval propriamente dito, os vínculos criam-se de indivíduo para indivíduo: Nihil est
preter individuum (nada existe fora do indivíduo).

O gosto de tudo o que é pessoal e preciso, o horror da abstração e do anonimato são características da época.

Este vínculo pessoal que liga o vassalo ao suserano é proclamado no decorrer de uma cerimônia em que se afirma o
formalismo, caro à Idade Média, porque qualquer obrigação, transação ou acordo deve traduzir-se por um gesto
simbólico, forma visível e indispensável do assentimento interior.

Quando se vende um terreno, por exemplo, o que constitui o ato de venda é a entrega pelo vendedor ao novo
proprietário de um pouco de palha ou um torrão de terra proveniente do seu campo.

Se a seguir se faz uma escritura — o que nem sempre ocorre —, servirá apenas para memória.

O ato essencial é a traditio, como nos nossos dias é o aperto de mão em alguns mercados

Diz o Ménagier de Paris:

“Como sinal deste grande acontecimento(como sinal de uma transação importante), entregar-lhe-ei um pouco de
palha, ou um prego velho, ou uma pedra que me foram entregues”.

(Autor: Regine Pernoud, “Luz da Idade Média”. Ed. original: “Lumière du Moyen Âge”, Grasset, Paris, 1944)

Feudalismo: fidelidade mútua, homenagem ao senhor,


proteção ao vassalo
A Idade Média é uma época em que triunfa o rito, em que tudo o que se realiza na consciência deve passar
obrigatoriamente a ato.

Isto satisfaz uma necessidade profundamente humana: a do sinal corporal, à falta do qual a realidade fica imperfeita,
inacabada, fraca.

O vassalo presta “fidelidade e homenagem” ao seu senhor.

Fica na sua frente de joelhos, com o cinturão desfeito, e coloca a mão na dele — gestos que significam o abandono, a
confiança, a fidelidade.

Declara-se seu vassalo e confirma-lhe a dedicação da sua pessoa. Em troca, e para selar o pacto que doravante os
liga, o suserano beija o vassalo na boca.

Este gesto implica mais e melhor que uma proteção geral, é um laço de afeição pessoal que deve reger as relações
entre os dois homens. Segue-se a cerimônia do juramento, cuja importância não é demais sublinhar.

É preciso entender juramento no seu sentido etimológico de sacramentum, coisa sagrada. Jura-se sobre os
Evangelhos, realizando assim um ato sagrado que compromete não só a honra, mas a fé, a pessoa inteira.

O valor do juramento é tão grande, e o perjúrio tão monstruoso, que não se hesita em manter a palavra dada em
circunstâncias extremamente graves — por exemplo, para atestar as últimas vontades de um moribundo com o
testemunho de uma ou duas pessoa.
Renegar um juramento representa na mentalidade medieval a pior das desonras.

Uma passagem de Joinville manifesta de maneira muito significativa que se trata de um excesso, porque um
cavaleiro não pode decidir-se, mesmo que a sua vida esteja em jogo.

Quando do seu cativeiro, os drogomanos do sultão do Egito vieram oferecer a libertação a ele e aos companheiros, e
perguntaram-lhe se daria para a sua libertação algum dos castelos que pertencem aos barões de além-mar.

O conde respondeu que não tinha poder, porque eles pertenciam ao imperador da Alemanha, ainda vivo.

Perguntaram se entregaríamos algum dos castelos do Templo ou do Hospital, para a nossa libertação. E o conde
respondeu que não podia ser, pois quando aí se nomeava um castelão, faziam-no jurar pelos santos que não
entregaria castelo algum para libertação de corpo de homem.

E eles manifestaram que parecia não termos talento para nos libertarmos, e que se iriam embora e nos enviariam
aqueles que nos lançariam espadas, como tinham feito aos outros (isto é, que os massacrariam como aos outros).

A cerimônia completa-se com a investidura solene do feudo, feita pelo senhor ao vassalo.

Confirma-lhe a posse desse feudo por um gesto de traditio, entregando-lhe geralmente uma vara ou um bastonete,
símbolo do poder que deve exercer no domínio desse senhor.

É a investidura cum baculo vel virga, para empregar os termos jurídicos em uso na época.

Desse cerimonial, das tradições que ele supõe, decorre a elevada concepção que a Idade Média fazia da dignidade
pessoal.

(Autor: Regine Pernoud, “Luz da Idade Média”. Ed. original: “Lumière du Moyen Âge”, Grasset, Paris, 1944)

Feudalismo e dignidade pessoal


Nenhuma época esteve mais pronta do que a Idade Média para afastar as abstrações, os princípios, para se entregar
unicamente às convenções de homem para homem; e também nenhuma fez apelo a mais elevados sentimentos
como base dessas convenções.

Era prestar uma magnífica homenagem à pessoa humana. Conceber uma sociedade fundada sobre a fidelidade
recíproca, era indubitavelmente audacioso.

Como se pode esperar, houve abusos, faltas, e as lutas dos reis contra os vassalos recalcitrantes são a prova disso.

Resta dizer que durante mais de cinco séculos a fé e a honra permanecem a base essencial, a armadura das
relações sociais. 

Quando estas foram substituídas pelo princípio de autoridade, no século XVI e sobretudo no século XVII, não se pode
pretender que a sociedade tenha ganho com isso.

Em qualquer dos casos, a nobreza, já enfraquecida por outras razões, perdeu a sua força moral essencial.

(Autor: Regine Pernoud, “Luz da Idade Média”. Ed. original: “Lumière du Moyen Âge”, Grasset, Paris, 1944)

Nobreza feudal pagava um imposto de sangue: tinha que


fazer a guerra
Durante toda a Idade Média a nobreza, sem esquecer a sua origem fundiária, dominial, teve um modo de viver
sobretudo militar, pois efetivamenteo seu dever de proteção comportava em primeiro lugar a função guerreira de
defender o seu domínio contra as possíveis usurpações. 

Embora se esforçassem por reduzir o direito de guerra privada, ele subsistia e a solidariedade familiar podia implicar
a obrigação de vingar pelas armas as injúrias feitas a um dos seus.
Uma questão de ordem material se lhe acrescentava, pois detendo com exclusividade a posse da terra, que era a
principal fonte de riqueza, senão a única, os senhores eram os únicos com a possibilidade de equipar um cavalo de
guerra, armar escudeiros e sargentos.

E o serviço militar será portanto inseparável do serviço do feudo. 

A fé prestada pelo vassalo nobre supõe o contributo das suas armas, sempre que “disso for mester”.

É o primeiro encargo da nobreza, e um dos mais onerosos, essa obrigação de defender o domínio e os seus
habitantes, como se vê num poema de Carité, de Reclus de Molliens:

L'épée dit: C'est ma justice

Garder les clercs de Saint Église

Et ceux par qui viandes est guise.

A espada disse: é meu dever

Manter os clérigos da Santa Igreja

E aqueles por quem os alimentos são obtidos.

As praças-fortes mais antigas, que foram construídas nas épocas de perturbação e de invasões, mostram a marca
visível dessa necessidade.

A aldeia, as casas dos servos e dos camponeses, estão ligadas às encostas da fortaleza, onde toda a população irá
refugiar-se em caso de perigo, e onde encontrará ajuda e abastecimento em caso de cerco.

(Autor: Regine Pernoud, “Luz da Idade Média”. Ed. original: “Lumière du Moyen Âge”, Grasset, Paris, 1944)

O morgadio. Pesados deveres dos nobres


Das obrigações militares da nobreza decorre a maior parte dos seus hábitos.

O direito de morgadio vem em parte da necessidade de confiar ao mais forte a herança que ele deve garantir, muitas
vezes pela espada.

A lei de herança por masculinidade explica-se também dessa forma, pois só o homem pode assegurar a defesa de
um torreão.

Por isso também, quando um feudo “cai em roca” (quando uma mulher é a única herdeira), o suserano sobre o qual
recai a responsabilidade desse feudo, que ficou assim em estado de inferioridade, sente-se no dever de casá-la.

Por isso a mulher não sucederá senão após os filhos mais novos, e estes após o mais velho.

Eles só receberão apanágios, daí os desastres que ocorreram no fim da Idade Média terem tido como origem os
apanágios excessivamente importantes deixados aos filhos por João, o Bom.

O poder que receberam tornou-se para eles uma tentação perpétua, e para todos uma fonte de desordens durante a
menoridade de Carlos VI.

Os nobres têm o dever de proporcionar a justiça aos seus vassalos de qualquer condição, e igualmente o de
administrar o feudo.

Trata-se do exercício de um dever, e não de um direito.

Implica responsabilidades muito pesadas, já que cada senhor deve dar conta do seu domínio não só à sua linhagem,
mas também ao seu suserano.

Étienne de Fougères descreve a vida do senhor de um grande domínio como cheia de preocupações e de fadigas:

Cà et là va, souvent se tourne,


Ne repose ni ne séjourne:

Château abord, château aourne,

Souvent haitié, plus souvent mourne.

Cà et là va, pas ne repose

Que sa marche ne soit déclose.

Anda de cá para lá, muitas vezes muda de direção,

Não repousa nem se detém:

Castelo dentro, castelo fora,

Muitas vezes alegre, mais vezes triste.

Anda de cá para lá, não repousa

Senão quando o seu caminho está aberto.

O seu poder, longe de ser ilimitado como de maneira geral se julgou, é bem menor que o de um chefe de indústria
ou de qualquer proprietário nos nossos dias.

Nunca tem a propriedade absoluta dos seus domínios, depende sempre de um suserano, e no fim das contas os
suseranos mais poderosos dependem do rei.

Nos nossos dias, de acordo com a concepção romana, o pagamento de uma terra confere pleno direito sobre ela.

Na Idade Média não é assim. Em caso de má administração, o senhor sofre penalidades que podem ir até à
confiscação dos seus bens.

Deste modo, ninguém governa com autoridade total nem escapa ao controle direto daquele de quem depende.

Esta repartição da propriedade e da autoridade é um dos traços mais característicos da sociedade medieval.

As obrigações que ligam o vassalo ao seu senhor implicam reciprocidade:

“Tanto o senhor deve fé e lealdade ao seu homem como o homem ao seu senhor”, diz Beaumanoir.

Esta noção de dever recíproco, de serviço mútuo, encontra-se muitas vezes, tanto nos textos literários como
jurídicos. Étienne de Fougères observa, no Livre des manières:

Graigneur fait a sire à son homme

Que l'homme à son seigneur et dome.

O senhor deve mais reconhecimento ao seu vassalo

Do que ele próprio deve ao senhor.

Apoiando esta constatação, Philippe de Novare nota:

“Aqueles que recebem serviço e nunca o recompensam bebem o suor dos seus servos, que é veneno mortal para o
corpo e para a alma”.

Donde também a máxima: A bien servir convient eür avoir (Para bem servir, convém bom ter).

(Autor: Regine Pernoud, “Luz da Idade Média”. Ed. original: “Lumière du Moyen Âge”, Grasset, Paris, 1944)
"Estas universidades são criações eclesiásticas, o
prolongamento, de algum modo, das escolas episcopais,
das quais diferem no fato de dependerem diretamente
do papa e não do bispo do lugar. A bula Parens
scientiarum de Gregório IX pode ser considerada como a
carta de fundação da Universidade
medieval." (PERNOUD, Regine. Luz sobre a Idade Média.
Publicações Europa-América, 1997, p. 98.)

* Regine Pernoud, Historiadora e medievalista francesa (1909-1998). Doutora em Letras e diplomada pela École des
Chartes e pela École du Louvre, foi diretora do Museu de Reims, do Museu de História da França, dos Arquivos
Nacionais e do Centro Jeanne d´Arc d´Orléans (que fundou em 1974).

As mulheres na Idade Média

"Recordaremos aqui que certas mulheres (…) de todas as camadas sociais, como o prova a pastora de Nanterre,
desfrutaram na Igreja, e devido à sua função na Igreja, dum extraordinário poder na Idade Média. Algumas
abadessas eram autênticos senhores feudais, cujo poder era respeitado de modo igual ao dos outros senhores;
algumas usavam báculo, como o bispo; administravam muitas vezes vastos territórios com aldeias, paróquias… Um
exemplo entre milhares: pelos meados do século XII, os cartulários permitem-nos seguir a formação do mosteiro de
Paráclito, cuja superiora é Heloísa; basta percorrê-los para constatar que a vida duma abadessa na época comporta
todo um aspecto administrativo: as doações acumulam-se, permitindo aqui receber o dízimo sobre uma vinha, ali ter
direito a foros sobre fenos ou trigos, aqui usufruir duma granja e ali dum direito de pastagem na floresta… A sua
actividade é também a dum explorador, ou mesmo dum senhor. É de dizer, pois, que, pelas suas funções religiosas,
certas mulheres exercem, mesmo na vida laica, um poder que muitos homens poderiam invejar-lhes hoje.

Por outro lado, constata-se que as religiosas desse tempo - sobre as quais, digamo-lo de passagem; nos faltam
absolutamente estudos sérios - são, na sua maior parte, mulheres extremamente instruídas, que poderiam ter
rivalizado em saber com os monges mais letrados do tempo. A própria Heloísa conhece e ensina às suas monjas o
grego e o hebreu. É duma abadia de mulheres, a de Gandersheim, que provém um manuscrito do século X que
contém seis comédias em prosa rimada, imitadas de Terêncio; são atribuídas à famosa abadessa Hrotsvitha, cuja
influência sobre o desenvolvimento literário dos países germânicos se conhece. Estas comédias, provavelmente
representadas pelas religiosas, são, do ponto de vista da história dramática, consideradas como a prova duma
tradição escolar que terá contribuído para o desenvolvimento do teatro na Idade Média. Acrescentemos de
passagem que muitos mosteiros, de homens ou de mulheres, ministravam localmente a instrução às crianças da
região.

É surpreendente também constatar que a enciclopédia mais conhecida do século XII emana duma religiosa, a
abadessa Herrade de Landsberg. É o famoso Hortus deliciarum («Jardim de Delícias»), no qual os eruditos vão
procurar as informações mais seguras em relação às técnicas no seu tempo. Podia dizer-se o mesmo das obras da
célebre Hildegarda de Bingen. Finalmente, uma outra religiosa, Gertrude de Heifta, no século XIII, conta-nos como se
sentiu feliz por passar do estado de «gramática» ao de «teóloga», isto é, que, depois de ter percorrido o ciclo dos
estudos preparatórios, ela aborda o ciclo superior, como se fazia na universidade. O que prova que ainda no século
XIII os conventos de mulheres são o que sempre tinham sido desde São Jerónimo, que instituiu o primeiro deles, a
comunidade de Bethléem: centros de oração, rias também de ciência religiosa, de exegese, de  erudição; estuda-se
aí a Sagrada Escritura, considerada como a base de todo o conhecimento, e também todos os elementos do saber
religioso e profano. As religiosas são mulheres instruídas; aliás, entrar no convento é uma via normal para aquelas
que querem desenvolver os seus conhecimentos para além do nível corrente. O que pareceu extraordinário em
Heloísa, na sua juventude, foi o facto de, não sendo religiosa e não desejando manifestamente entrar no convento,
ela continuar, no entanto,  estudos demasiado áridos, em vez de se contentar com a vida mais frívola, mais
despreocupada, duma rapariga que deseja «permanecer no século». A carta que Pierre, o Venerável, lhe enviou di-lo
expressamente.

Mas há mais surpreendente. Se se quiser fazer uma ideia exacta do lugar ocupado pela mulher na Igreja, nos tempos
feudais, é preciso perguntar a si próprio o que se diria no nosso século XX de conventos de homens colocados sob o
magistério duma mulher. Um projecto desse género teria no nosso tempo a menor possibilidade de resultar? Foi, no
entanto, o que se realizou com pleno sucesso, e sem ter provocado o menor escândalo na Igreja, com Robert
d’Arbrissel em Fontevrault, nos primeiros anos do século XII. Tendo resolvido fixar a multidão inverosímil de homens
e mulheres que chamava atrás de si -porque foi um dos maiores conversores de todos os tempos-, Robert d’Arbrissel
decidiu fundar dois conventos, um de homens outro de mulheres entre eles erguia-se a igreja que era o único lugar
onde monges e monjas podiam encontrar-se. Ora esse mosteiro duplo foi colocado sob a autoridade, não dum
abade, mas duma abadessa. Esta, pela vontade do fundador, devia ser viúva, tendo, pois, a experiência do
casamento. Acrescentemos, para sermos completos, que a primeira abadessa, Pétronille de Chemillé, que presidiu
aos destinos desta ordem de Fontevrault tinha vinte e dois anos. Não vemos que hoje semelhante audácia, mais uma
vez, tivesse possibilidades de ser encarada.

Se examinarmos os factos, impõe-se esta conclusão: durante todo o período feudal, o lugar da mulher na Igreja foi
certamente diferente do homem (e em que medida não seria uma prova de sabedoria o ter em conta que homem e
mulher são duas criaturas iguais, mas diferentes?), mas foi um lugar eminente, que, aliás, simboliza perfeitamente o
culto, eminente também, prestado à Virgem entre todos os santos. E pouco nos surpreende que a época termine
com um rosto de mulher: o de Joana d’Arc, a qual, diga-se de passagem, nunca teria podido nos séculos seguintes
obter a audiência e suscitar a confiança que no fim de contas obteve".

(PERNOUD, Régine: O mito da Idade Média, Publicações Europa-América, S/D, pp.95-99)

Transcrito do site: www.salterrae.org

O trabalho na Idade Média


Dois textos sobre o trabalho na época medieval. Os grifos são meus.

Primeiro a historiadora medievalista Régine Pernoud:

Seria ainda necessário assinalar a influência exercida pela doutrina eclesiástica no regime de trabalho; o direito
romano apenas conhecia, nos contratos de arrendamento ou de venda, a lei da oferta e da procura, enquanto no
direito canónico e depois dele o direito consuetudinário submetem a vontade dos contraentes às exigências da
moral e à consideração da dignidade humana. Isto devia ter uma profunda influência nos regulamentos dos mestres,
que proibiam à mulher os trabalhos demasiado fatigantes para ela, a tapeçaria de tear alto, por exemplo; o resultado
foram também todas aquelas precauções de que se rodeavam os contratos de aprendizagem e o direito de visita
concedido aos jurados, tendo por fim controlar as condições de trabalho do artesão e a aplicação dos estatutos.
Sobretudo, é preciso apontar como muito revelador o facto de ter alargado ao sábado de tarde o repouso de
domingo, no momento em que a actividade económica se amplifica com o renascimento do grande comércio e o
desenvolvimento da indústria.

Uma revolução mais profunda tinha de ser introduzida pelas mesmas doutrinas no concernente à escravatura.
Notemos que a Igreja não se ergueu contra a instituição propriamente dita da escravatura,  necessidade económica
das civilizações antigas. Mas lutou para que o escravo, tratado até então como uma coisa, fosse daí em diante
considerado como um homem e possuísse os direitos próprios da dignidade humana; uma vez obtido este resultado,
a escravatura encontrava-se praticamente abolida; a evolução foi facilitada pelos costumes germânicos que
conheciam um modo de servidão muito suavizado; o conjunto deu lugar à servidão medieval, que respeitava os
direitos do ser humano e apenas introduzia, como restrição à sua liberdade, a ligação à gleba. É curioso constatar
que o facto paradoxal da reaparição da escravatura no século XVI, em plena civilização cristã, coincide com o retorno
geral ao direito romano nos costumes.

Pernoud, Régine. Luz sobre a Idade Média. Publicações Europa-América. 1997. pp. 86-87.
A Igreja e as mulheres na Idade Média
Régine Pernoud*

Recordaremos aqui que certas mulheres (…) de todas as camadas sociais, como o prova a pastora de Nanterre,
desfrutaram na Igreja, e devido à sua função na Igreja, dum extraordinário poder na Idade Média. Algumas
abadessas eram autênticos senhores feudais, cujo poder era respeitado de modo igual ao dos outros senhores;
algumas usavam báculo, como o bispo; administravam muitas vezes vastos territórios com aldeias, paróquias…

Um exemplo entre milhares: pelos meados do século XII, os cartulários permitem-nos seguir a formação do mosteiro
de Paráclito, cuja superiora é Heloísa; basta percorrê-los para constatar que a vida duma abadessa na época
comporta todo um aspecto administrativo: as doações acumulam-se, permitindo aqui receber o dízimo sobre uma
vinha, ali ter direito a foros sobre fenos ou trigos, aqui usufruir duma granja e ali dum direito de pastagem na
floresta… A sua atividade é também a dum explorador, ou mesmo dum senhor. É de dizer, pois, que, pelas suas
funções religiosas, certas mulheres exercem, mesmo na vida laica, um poder que muitos homens poderiam
invejar-lhes hoje.

Por outro lado, constata-se que as religiosas desse tempo - sobre as quais, digamo-lo de passagem; nos faltam
absolutamente estudos sérios - são, na sua maior parte, mulheres extremamente instruídas, que poderiam ter
rivalizado em saber com os monges mais letrados do tempo. A própria Heloísa conhece e ensina às suas monjas o
grego e o hebreu. É duma abadia de mulheres, a de Gandersheim, que provém um manuscrito do século X que
contém seis comédias em prosa rimada, imitadas de Terêncio; são atribuídas à famosa abadessa Hrotsvitha, cuja
influência sobre o desenvolvimento literário dos países germânicos se conhece. Estas comédias, provavelmente
representadas pelas religiosas, são, do ponto de vista da história dramática, consideradas como a prova duma
tradição escolar que terá contribuído para o desenvolvimento do teatro na Idade Média. Acrescentemos de
passagem que muitos mosteiros, de homens ou de mulheres, ministravam localmente a instrução às crianças da
região.

É surpreendente também constatar que a enciclopédia mais conhecida do século XII emana duma religiosa, a
abadessa Herrade de Landsberg. É o famoso Hortus deliciarum («Jardim de Delícias»), no qual os eruditos vão
procurar as informações mais seguras em relação às técnicas no seu tempo. Podia dizer-se o mesmo das obras da
célebre Hildegarda de Bingen. Finalmente, uma outra religiosa, Gertrude de Heifta, no século XIII, conta-nos como se
sentiu feliz por passar do estado de «gramática» ao de «teóloga», isto é, que, depois de ter percorrido o ciclo dos
estudos preparatórios, ela aborda o ciclo superior, como se fazia na universidade. O que prova que ainda no século
XIII os conventos de mulheres são o que sempre tinham sido desde São Jerônimo, que instituiu o primeiro deles, a
comunidade de Bethléem: centros de oração, mas também de ciência religiosa, de exegese, de  erudição; estuda-se
aí a Sagrada Escritura, considerada como a base de todo o conhecimento, e também todos os elementos do saber
religioso e profano. As religiosas são mulheres instruídas; aliás, entrar no convento é uma via normal para aquelas
que querem desenvolver os seus conhecimentos para além do nível corrente. O que pareceu extraordinário em
Heloísa, na sua juventude, foi o fato de, não sendo religiosa e não desejando manifestamente entrar no convento,
ela continuar, no entanto, estudos demasiado áridos, em vez de se contentar com a vida mais frívola, mais
despreocupada, duma moça que deseja «permanecer no século». A carta que Pierre, o Venerável, lhe enviou di-lo
expressamente.

Mas há mais surpreendente. Se se quiser fazer uma idéia exata do lugar ocupado pela mulher na Igreja, nos tempos
feudais, é preciso perguntar a si próprio o que se diria no nosso século XX de conventos de homens colocados sob o
magistério duma mulher. Um projeto desse gênero teria no nosso tempo a menor possibilidade de resultar? Foi, no
entanto, o que se realizou com pleno sucesso, e sem ter provocado o menor escândalo na Igreja, com Robert
d’Arbrissel em Fontevrault, nos primeiros anos do século XII. Tendo resolvido fixar a multidão inverossímil de
homens e mulheres que chamava atrás de si -porque foi um dos maiores conversores de todos os tempos-, Robert
d’Arbrissel decidiu fundar dois conventos, um de homens outro de mulheres entre eles erguia-se a igreja que era o
único lugar onde monges e monjas podiam encontrar-se. Ora esse mosteiro duplo foi colocado sob a autoridade, não
dum abade, mas duma abadessa. Esta, pela vontade do fundador, devia ser viúva, tendo, pois, a experiência do
casamento. Acrescentemos, para sermos completos, que a primeira abadessa, Pétronille de Chemillé, que presidiu
aos destinos desta ordem de Fontevrault tinha vinte e dois anos. Não vemos que hoje semelhante audácia, mais uma
vez, tivesse possibilidades de ser encarada.
Se examinarmos os fatos, impõe-se esta conclusão: durante todo o período feudal, o lugar da mulher na Igreja foi
certamente diferente do homem (e em que medida não seria uma prova de sabedoria o ter em conta que homem e
mulher são duas criaturas iguais, mas diferentes?), mas foi um lugar eminente, que, aliás, simboliza perfeitamente o
culto, eminente também, prestado à Virgem entre todos os santos. E pouco nos surpreende que a época termine
com um rosto de mulher: o de Joana d’Arc, a qual, diga-se de passagem, nunca teria podido nos séculos seguintes
obter a audiência e suscitar a confiança que no fim de contas obteve.

(PERNOUD, Régine. O mito da Idade Média. Publicações Europa-América, S/D, pp.95-99)

*Régine Pernoud: historiadora e medievalista francesa (1909-1998). Doutora em Letras e diplomada pela École des
Chartes e pela École du Louvre, foi diretora do Museu de Reims, do Museu de História da França, dos Arquivos
Nacionais e do Centro Jeanne d´Arc d´Orléans (que fundou em 1974). Escreveu numerosas obras sobre a Idade
Média, entre as quais destacamos “Idade Média: o que não nos ensinaram”, “Luz sobre a Idade Média” e “A mulher
no tempo das catedrais”.

Texto adaptado por mim para o portugês do Brasil. Os grifos são meus.

A poesia épica medieval captou o maravilhoso que


latejava na realidade
Por Régine Pernoud

Aquele que pretendeu que os franceses não tinham «a cabeça épica» ignorava a Idade Média. Nenhuma literatura é
mais épica do que a nossa. Não só se inicia com a Chanson de Roland [Canção de Rolando], mas compreende mais de
cem outras obras que são tão boas como ela e que continuam um tesouro a explorar.

Todas, ou quase todas, testemunham essa simplicidade na grandeza, esse sentido das imagens, que fazem do autor
da Chanson um dos maiores poetas de todos os tempos.

O caráter da epopéia francesa é precisamente este tom simples e despojado que é o de toda a nossa Idade Média:
os heróis não são nela semideuses, são homens, cujo valor guerreiro não exclui as fraquezas humanas.

Rolando ou Guilherme de Orange são seres todos cheios de contrastes, cuja valentia arrasta alternadamente
desmesura e humildade, excesso e desalento.

Nossas epopéias não são um monótono desfile de indivíduos heróicos e de façanhas prodigiosas.

A valentia é nela estimada acima de tudo, mesmo a dos inimigos e dos traidores, e com ela o sentimento da honra, a
fidelidade ao vínculo feudal.

Por isso os heróis da Chanson de Roland [Canção de Rolando] permanecem tão ricos em cores na nossa imaginação:
Rolando, bravo mas temerário, Turpin, o arcebispo piedoso e guerreiro, Olivier, o Sábio, e Carlos, alto e poderoso
imperador, mas cheio de piedade pelos seus barões massacrados e abatido por vezes pelo peso da sua existência
«penosa».

O autor soube evocar esses personagens por imagens e gestos, não por descrições. Todos os pormenores que ele dá
são «vistos» e fazem ver; esse estandarte completamente branco, cujas franjas de ouro lhe descem até aos joelhos,
coloca melhor Rolando na beleza resplandecente do seu trajo do que o faria uma descrição minuciosa à maneira
moderna.

Os feitos e os gestos dos heróis, seus pensamentos e preocupações são tratados em pinceladas claras e rápidas, com
uma arte infinita nos pormenores como tal silhueta, cor, reflexo de um cobre ou o som de um tambor.

São as cintilações que jorram dos «elmos claros» durante a confusão de um combate, os rubis que luzem nas «maças
dos mastros» da armada sarracena, ou ainda essa luva que Rolando estende a Deus no seu arrependimento e que o
Arcanjo Gabriel agarra.

(Trecho do livro “Luz sobre a Idade Média”, de Régine Pernoud).


O dinheiro
Por Régine Pernoud

Este artigo traça um breve histórico do desenvolvimento do comércio e do mercado financeiro e a reação da Igreja
frente as injustiças sociais ocasionadas por ele. É um capítulo do livro “A burguesia”, escrito pela eminente
historiadora francesa.

O maneio do dinheiro caracterizou sempre a burguesia; inseparável do comércio, factor inegável de progresso, uma
vez que é a base da economia de mercado, esse maneio que atinge no nosso tempo desenvolvimentos insuspeitos
aquando das origens da burguesia, foi contrariado e limitado durante os tempos medievais e mais tarde ainda, pela
legislação eclesiástica, sempre em vigor em Direito, ainda que caída em desuso, a partir do século XIX.

Esta legislação, precisada no Código de Direito Canônico de 1917, que mantém na posse dos clérigos a interdição da
prática de usura, entende essa palavra no sentido de “empréstimo com lucro”, por outras palavras: proveito extraído
de um empréstimo de dinheiro. O termo: usurário, na época feudal, designa aquilo a que chamamos banqueiros,
manipuladores de dinheiro.

Temos, aliás, a tendência para simplificar abusivamente as fases por onde passou a condenação da usura; para
relembrar resumidamente as principais etapas, o combate havia sido iniciado nesse ponto pelos Padres da Igreja,
Clemente de Alexandria, no início do século III, mas sobretudo São Gregório Nazianzeno e os dois irmãos São Basílio
e São Gregório de Niza, que denunciam incansavelmente os danos da usura no mundo romano e a sujeição que ela
implica, levando quase automaticamente os mais pequenos ao poder dos que detêm o dinheiro. Fundamentam-se
nas prescrições da Bíblia, Antigo e Novo Testamentos, e denunciam a incompatibilidade entre o Evangelho e a usura,
quer dizer, mais valia produzida pelo pagamento de um lucro pelo dinheiro emprestado. Pouco a pouco, é elaborada
toda uma doutrina no seio da Igreja, que impregnará as massas. O dinheiro em si é improdutivo: o que ele produz é
o facto do trabalho de quem beneficiou com o empréstimo. Aristóteles tinha-o constatado e filosoficamente
estabelecido, mas no mundo antigo essa constatação mantinha-se no plano do pensamento, sem conseqüência
prática sobre a vida humana – um pouco como as aquisições científicas se tomavam em ciência pura e não se
realizavam ao nível da técnica. Todavia, a sua influência será profunda no momento em que, a meio do século XIII se
vai operar a síntese entre pensamento aristoteliano e pensamento cristão. Mas, muito tempo antes, a usura, livre no
mundo antigo, encontrava-se condenada no mundo cristão. Não somente, como já se disse e repetiu, devido ao
famoso versículo do Evangelho: “Empresta sem nada esperar em troca”, mas porque o empréstimo com lucro é,
nessa qualidade, uma hipoteca sobre o trabalho do próximo, logo, uma forma de exploração contrária à caridade.
Todo o objecto mobiliário ou imobiliário, logo que é emprestado, presta um serviço efectivo e sofre uma certa
degradação, o que justifica o pagamento de um aluguer: quer se trate de um campo, de uma casa, etc. Sempre que
se trata de um empréstimo de dinheiro, pelo contrário, num tempo em que as moedas consistem num metal
precioso que não se altera, a soma emprestada deve ser devolvida sem lucro, uma vez que o serviço que prestou só
será válido quando um trabalho o faça frutificar, e o dinheiro devolvido conserva o valor que tinha no momento do
empréstimo, sem degradação. Os Padres da Igreja teceram condenações extremamente violentas no que respeita à
usura. Para São Basílio, aquele que empresta com usura comete um crime, porque aquele a quem empresta torna-se
seu escravo. O concílio de Elvira (cerca do ano 300) ordenava excomungar o clérigo que tivesse recebido usuras,
quer dizer, lucros com dinheiro (cânone 20, aplicável em toda a Espanha).

O Concilio de Nicéia de 325, através do seu cânone 17, alargava esta interdição à Igreja universal. No tocante aos
laicos, as interdições seriam mais tardias; elas só terão um alcance prático com a legislação de Carlos Magno
(Admonitio generalis  de Aix-la-Chapelle, 789). O Decreto de Graciano (cerca de 1140) exprime bem os pontos
essenciais dessa mentalidade: primeiramente no que diz respeito ao comércio: “É difícil, senão impossível, ao
negociante agradar a Deus”, especificando bem: “Aquele que compra uma coisa, não para a vender integralmente e
sem lucro, mas a fim de se servir dela para fabricar qualquer outra coisa, não é um negociante. Mas o homem que
compra uma coisa para obter um lucro, vendendo-a tal qual a comprou, este homem é um dos compradores e
desses negociantes que foram expulsos do Templo de Deus”. Ora, retoma ele, “de todos os negociantes, o mais
maldito é o usurário, porque vende uma coisa dada por Deus, mas adquirida pelos homens (ao contrário do
negociante) e depois da usura ele retoma a coisa com o bem de outrem, aquilo que o negociante, não faz”. Objectar-
se-á: “Aquele que aluga um campo para receber uma renda ou uma casa para obter um aluguer, não será
semelhante a quem empresta o seu dinheiro a juros?” Certamente que não. Primeiro, porque a única função do
dinheiro é o pagamento de um preço de compra; depois, o rendeiro faz frutificar a terra; o locatário frui da casa:
nestes dois casos, o proprietário parece dar uso do seu bem para receber dinheiro e, de um certo modo, trocar o
ganho por ganho, enquanto que com o dinheiro avançado ele não pode fazer qualquer uso; finalmente, o uso esgota
a pouco e a pouco o campo, degrada a casa, enquanto que o dinheiro emprestado não sofre nem diminuição, nem
envelhecimento”.

Mas, concorrentemente a esta mentalidade geral, o gosto do lucro cresce na época e encontra-se estimulado pelo
intenso desenvolvimento do tráfico internacional, principalmente do tráfico Oriente-Ocidente. Notemos que o lucro
do comerciante que transporta do Oriente especiarias é então considerado como legítimo, porque ele compensa as
despesas e as fadigas nos preços de quem as procura e de quem as leva até às grandes feiras da Champagne, da Île-
de-France ou qualquer outro sítio. O comércio, assim compreendido, é uma verdadeira função indispensável à vida
da cidade. A distinção será fortemente estabelecida a partir do século XIII; apenas o lucro puro é considerado como
condenável, e um tal Jean Gerson, no século XV, formulará em termos perfeitamente claros esta condenação:
“Vender uma coisa mais cara do que o preço de compra, se o ganho em excesso é assinalável, tendo em
consideração todas as dificuldades, os perigos, os melhoramentos, de que deve ser indemnizado, deve ser
considerado como uma falta, e uma falta mais grave se, sendo feita, se aproveitar da necessidade do próximo”. Por
outras palavras, a “lei” da oferta e da procura é condenada; o comércio, ele próprio, é coisa, não somente lícita, mas
útil: aquilo que se condena é o lucro puro, obtido a expensas do próximo. Um Santo Tomás encarava, aliás, de bom
grado a organização do comércio, indispensável à vida dos homens, num plano colectivo: os bens necessários à vida,
ao conforto, ao prazer de todos os cidadãos, podem do mesmo modo ser transportados por iniciativa da própria
cidade. Não podemos deixar de chamar a atenção para o facto de, na época, não ser considerado acção colectiva
tudo o que diz respeito à produção, a qual necessita de uma iniciativa individual e pede para ser estimulada pelo
ganho individual, mas que, em compensação, tudo o que diz respeito ao transporte e distribuição, aquilo a que
chamaríamos o colectivismo é considerado e parece perfeitamente defensável.

No que diz respeito à usura, longe de se contentar com interdições lançadas de uma vez por todas, a procura está
então muito activa. Sem pretendermos tornar-nos pesados com os pormenores, indiquemos que, a partir do século
XIII, foram formulados os célebres “casos” que os teólogos da Sorbonne só definirão expressamente no século XVII.

Esses “títulos extrínsecos” que autorizam, aos olhos dos teólogos, a percepção de uma certa soma pelo mutuante,
logo que entra na posse do seu capital, são bem conhecidos; todos os canonistas enumeraram assim, Damnum
emergens,  sempre que o mutuante sofre um prejuízo; Lucrum cessans,  na ausência de lucro; Periculum sortis, em
compensação do risco de perda do seu capital; foram admitidos a partir do século XIII. Tendo-se verificado no século
XV uma nova expansão da actividade económica, especialmente em Itália e nos países da Europa Central, uma nova
procura se impunha e é então que teólogos canonistas como Santo Antonino de Florença ou São Bernardino de
Sena, debruçando-se sobre o estudo dos problemas económicos, criam a noção de capital produtivo: o dinheiro
emprestado, não apenas para solucionar uma necessidade momentânea, mas para iniciar uma actividade produtora
de bens. Neste caso, é legítimo que o mutuante receba uma parte dos bens produzidos, na condição, todavia, que o
seu dinheiro tenha corrido os riscos do empreendimento; por outras palavras, cria-se então a noção de investimento
e condena-se, em nome do Evangelho, a do capital garantido. Ainda uma outra excepção vai ser
considerada: stipendium laboris, a retribuição dos serviços daquele que emprestou, como seria, nos nossos dias, o
salário dos seus empregados.

Por outras palavras, ao longo dos séculos, a disciplina eclesiástica não deixou de evoluir, considerando todas as
condições novas que poderiam surgir. Ela também não deixou de considerar como fundamentalmente anticristã a
própria noção de empréstimo com lucros; e do mesmo modo, como contrário ao espírito da caridade – essencial à
vida evangélica –, toda a tentativa de monopólio ou de açambarcamento dos bens de consumo. Também, no século
XVIII, se vai desencadear um verdadeiro tumulto entre, por um lado, teólogos e canonistas e, por outro lado, os
defensores das doutrinas liberais, os quais têm essencialmente como objectivo “liberalizar” as relações entre
compradores e vendedores, quer dizer, dar ao mais poderoso toda a independência face ao mais fraco. Nessa época,
todos os princípios da economia “boa e leal” praticada nos tempos medievais: o preço justo, tudo o que fosse uma
concorrência baseada na qualidade do produto, a interdição imperativa das compras massivas permitindo aos
capitalistas-comerciantes controlar o mercado de trabalho, são tratados como reaccionários e ridicularizados. É
então que o papa Bento XIV dirige em 1745, em honra dos bispos de Itália, a famosa carta Vix pervenit,  que renova
expressamente a condenação do empréstimo com lucros, alargada seguidamente a toda a Igreja.

A CONSCIÊNCIA TRANQUILA

Acontece que, entretanto, se verificou um movimento que modificou, em profundidade, a mentalidade geral: a
Reforma. Embora esta tenha sido freqüentemente discutida ou contestada, a sua influência não parece negável no
que concerne ao maneio do dinheiro. Várias vezes foi citada a célebre frase de Calvino: “Por que razão não se
permite aos possuidores de um determinado montante de dinheiro retirar uma soma qualquer, quando se permite
ao proprietário de um campo estéril arrendá-lo mediante uma renda?” Formulada, na época, por numerosos juristas
e teóricos, esta proposta, que punha em causa a esterilidade do dinheiro nessa qualidade, terá uma influência
dominante em todo o lado onde se estabelecer a Reforma. Aí remonta a alteração do sentido do termo usura, que
designava até então todo o lucro proveniente de dinheiro, e passará somente a designar o lucro excessivo recebido
através de empréstimo de dinheiro. Além disso, e sob a mesma influência, a riqueza torna-se símbolo de
prosperidade, símbolo da bênção de Deus – um sentimento herdado do Antigo Testamento, ou, pelo menos, de
certos livros do Antigo Testamento, antes da passagem dos profetas.

Por outras palavras, o rico podia, futuramente, ter a consciência tranqüila; era superar um passo capital. Até então, e
especialmente durante o período feudal, o rico não podia ter a consciência tranqüila. Constituía, aliás, uma
excepção, e uma excepção visível, numa sociedade onde as irregularidades de fortuna eram muito pouco sensíveis.
Os que conseguiram obter grandes fortunas eram os comerciantes, e sobretudo os que faziam o comércio do
dinheiro: aqueles a que se chama Lombardos, até porque é justo reconhecer que, naquela época, em matéria de
manipulação de dinheiro, foram os italianos que inventaram tudo. Ora, estes Lombardos, quando a sua fortuna
ultrapassa o que parece razoável, vêem-na confiscada, tal como acontece aos usurários judeus.

A batalha decisiva sobre esta questão do maneio do dinheiro verifica-se em França, durante o século XVIII, onde a
burguesia, tal como a nobreza, conhecem a “doce vida”; ela resume-se à batalha a favor ou contra o empréstimo a
juros, iniciada pelo pequeno clero contra a grande burguesia.

A obra capital de Bernard Groethuysen, A Igreja e a Burguesia, indica o número incrível de sermões, panfletos e
escritos diversos, pelos quais se exprimiram as duas posições, por um lado a da Igreja, por  outro a dos financeiros;
mas estes encontram-se apoiados pela filosofia do tempo, a qual se apresenta aqui sob o seu duplo aspecto, ao
mesmo tempo legalista e optimista. Uma confiança absoluta nas “leis naturais” leva a ver, no livre jogo dessas “leis”,
a condição de uma prosperidade geral. É conhecido o famoso apóstrofe de Turgot: “Sem juros, não há empréstimos;
sem empréstimos, não há dinheiro; sem dinheiro, não há comércio, não existem negócios, tudo morre, tudo está
perdido”. Conhecem-se bastante pior os escritos desses membros, quase sempre provenientes do pequeno e do
médio clero, que à análise se revelam fortemente perspicazes: “Os que pedem emprestado indemnizam com os
juros que pagam; os negociantes de venda por grosso encontram essa indemnização nos negociantes de venda a
retalho, e estes no povo que suporta, assim, os juros dos empréstimos do comércio, dos depósitos a prazo e à
ordem, das letras de câmbio, etc., bem como o excedente dos preços das mercadorias vendidas a crédito, ou
compradas a prazo... Todo o prejuízo, todos os danos recaem sobre o público e, por conseguinte, sobre os pobres
que formam a maioria” (Traité, de Hyacinthe de Gasquet, 1766). Essas mesmas vozes impotentes, sufocadas por
tudo aquilo que contar para a época, no pensamento como nos negócios, manifestavam, todavia, uma estranha
lucidez e têm hoje valor profético: “Os que empilham bens uns sobre os outros sem fim, sem medida; os que juntam
todos os dias novos campos e novas casas às suas antigas heranças; os que acumulam quantidades extraordinárias
de trigo, para o vender quando a ocasião lhes for mais favorável; os que emprestam com usura, aos pobres ou aos
ricos – pensam nada fazer contra a razão, contra a igualdade, enfim, contra a lei divina, porque eles não prejudicam
ninguém, segundo eles, e ajudam aqueles que sem isso passariam por grandes necessidades... e, por conseguinte, é
uma grande injustiça, e uma injustiça que encerra muitas outras, que uma só pessoa possua tantas terras, e casas, e
todos os dias pense em adquirir mais e mais, o que não pode acontecer sem que se desaposse um grande número
de antigos proprietários; que uma só pessoa possa recolher os frutos de todas as terras, de um país bastante grande
e prive uma enorme multidão de homens, reduzidos por este meio à mendicidade; que uma só pessoa atraia para a
sua casa toda a fertilidade dos campos e force tanta gente a viver das suas esmolas; que um só homem queira ser o
dono da vida e da morte de um povo inteiro... É a maior das injustiças... porque é declarar a guerra à espécie
humana e afastar mais gente dos seus bens, coisa que a guerra não faria”. Estas linhas foram escritas em 1697, por
um tal Padre Thomassin, num Tratado do negócio e da usura, de que ninguém fez grande caso. Se elas não puderam
conhecer as alterações que, no século XIX, substituíram a sociedade anónima pelo proprietário possuidor e que, no
século XX, deram a essas sociedades, até mesmo a um Estado todo-poderoso e único detentor das actividades de
uma nação, um poder aproximadamente sem limites, pelo menos encontram-se nelas, por antecipação, o esquema
das estruturas económicas levadas a cabo em todo o Ocidente pela burguesia.

Do mesmo modo, ela não se enganou naquela época. É um bloco anticlerícal, pelo menos da burguesia dos negócios
e – o que volta sensivelmente ao mesmo – a dos filósofos. Um só ficará à margem: Jean-Jacques Rousseau, que
morre pobre.

Após o primeiro obstáculo, transposto no início do século XVI, é um segundo obstáculo no século XVIII: elabora-se
uma verdadeira doutrina do lucro pelo maneio do dinheiro, que encontra nela própria a sua própria justificação e
que, notemos, manter-se-á imutável e, aliás, muito raramente posta em causa até ao nosso tempo.

Certamente que o gosto e o desejo do lucro estão na própria natureza do homem e são, aliás, inseparáveis da vida, e
factores evidentes de progresso. O que era novo era erigir em “lei natural” uma função económica, proclamar como
um imperativo do progresso aquilo que havia sido, em certos casos, anteriormente tolerado, mas a título de
expediente e como um mal menor. A doutrina do lucro apresentar-se-á, de ora avante, como um absoluto
justificado, aliás, por deslumbrantes êxitos. Pode-se-lhe atribuir certamente a parte mais notável dos progressos
concluídos no equipamento na Europa e em geral no Ocidente; e será interessante salientar que esse
desenvolvimento de que, hoje, toda a gente beneficia, teria sido impossível sem o maneio do crédito e o espírito do
lucro a que presidiu. Mas temos igualmente o direito de nos questionarmos se o excessivo passivo que comportou
esse desenvolvimento terá sido inevitável.

O ACTIVO E O PASSIVO DO PROGRESSO

Hoje, basta resumir semelhante questão, uma vez que o conteúdo é geralmente conhecido. No século XVIII esse
passivo é representado pelo empobrecimento dos campos, num tempo onde, segundo o exemplo da Inglaterra,
começa o movimento de exploração capitalista da terra: a terra deve produzir, e o camponês era, de facto,
infinitamente menos defendido que sob o regime da servidão feudal, que lhe garantia a tranqüila posse do campo
que cultivava. Além disso, o século XVIII, tanto quanto o século XVII, é o da escravatura, e os filósofos são unânimes
em exigir, aquando do tratado de paz com a Inglaterra, que sejam conservadas as Antilhas, onde o trabalho dos
escravos garantia enormes lucros tanto aos plantadores como aos armadores. Recordemos que Montesquieu era um
dos accionistas da Companhia da índias, gozando do monopólio do comércio negreiro, enquanto que cada um
conhece a posição de Voltaire, comparando esses campos de café e de açúcar tão produtivos a “alguns arpents  de
neve” do Canadá.

() Arpent  é uma antiga medida agrária francesa que valia 50 a 51 ares, conforme as regiões. (N. do T.)

No século XIX, o passivo do desenvolvimento industrial seria representado pela exploração elevada hoje a um grau
dificilmente crível pelo trabalhador industrial, homem, mulher ou criança. A Revolução tinha desembaraçado nesse
domínio, libertando o trabalho de todos os regulamentos de controlo e juranda. A liberdade do trabalho tornada
total, traduziu-se, de facto, no esmagamento dos trabalhadores. Foi necessário quase um século para que, nesse
particular domínio, o termo fosse desmistificado, ou antes, o seu emprego: uma liberdade de direito traduzia-se
numa exploração de facto, deixando face a face o possuidor e aquele que, para viver, apenas podia contar com a
força dos seus braços.

O passivo do desenvolvimento industrial fez-se sentir, numa perfeita continuidade, entre o Antigo e o Novo Regime,
sobre todos os territórios de além-mar, não tendo sido nunca as guerras coloniais tão extensas e tão sistemáticas
como na Terceira República; quanto à escravatura, tinha sido suprimida em 1848,  mas esquece-se muito que o
sistema do trabalho obrigatório e do trabalho forçado se tinha mantido, tendo sido abolido em 1947.

A opinião só tomou consciência muito tardiamente da injustiça imobiliária de todo o sistema colonialista. É, hoje,  um
tema de acusação tornado habitual, mas deve-se salientar que se prefere, em geral, exercer a sua indignação sobre o
passado do que sobre determinada fracção da sociedade que se expõe ao desprezo público, sob o nome de
“burguesia capitalista”. Acontece que a verdade obrigaria hoje a reconhecer todas as camadas sociais – talvez, com
excepção do subproletariado do qual afirmam que, em França, representa ainda dois milhões de seres humanos –
que beneficiam das vantagens do desenvolvimento industrial; a diversos níveis, mas todos beneficiam. E isto às
expensas de um mundo dito em “vias de desenvolvimento”, que se encontra em relação à Europa e à América do
Norte, na situação dos operários que sob o reinado de Luís-Filipe povoavam os arrabaldes de Paris.

As doutrinas de Marx sobre as mais-valias, o lucro proveniente do dinheiro, encontravam aproximadamente uma
das posições tradicionais da Igreja. Então, surge um novo facto: se essas posições são ainda mantidas actualmente,
deixar-se-á de falar nelas após a chegada ao poder da burguesia. O último decreto canónico realizado a propósito da
usura de dinheiro tem um nome significativo: Non inquietandos (16  de Setembro de 1830):  era nele indicado que
não se deviam censurar os empréstimos que mantivessem um juro modesto,  que era lícito, em virtude da lei civil.
Esse decreto devia ser renovado em 1873  pela Congregação da Propagação da fé.

Às flutuações verificadas no valor do dinheiro iriam, efectivamente, modificar totalmente os dados do problema,
mas o que parece extraordinário é o reduzido número de cristãos que se preocupam, futuramente, com questões
deste género: se exceptuarmos os esforços de La Tour du Pin e de cristãos sociais do século passado, constata-se
que, precisamente na época do capitalismo, crédito, especulação e maneio de dinheiro, conhecem desenvolvimento
e uma importância jamais atingida pelo passado, mas nenhuma voz se levanta, na Igreja, para indicar sobre este
ponto o dever dos cristãos. Mesmo os sindicatos “cristãos” adoptando, sem mais, as teses marxistas sobre
quantidades de questões, não terão colocado nunca o problema de fundo sobre as relações do cristão e do maneio
do dinheiro.

Os papas, a partir da encíclica Rerum Novarum,  denunciaram a “usura devoradora” como a calamidade capital do
tempo. Essas denúncias tomaram-se por diversas vezes nos escritos pontificais sem provocar, ao que parece, um eco
válido. Concluindo o artigo consagrado ao termo “Usura” no Dictionnaire de la théologie catholique, o  padre Henri
du Passage limita-se a constatar: “Face a esta invasão do monstro capitalista, face a estas evoluções no terreno
dos ateliers  e, muito mais ainda, na Bolsa, um número de observadores imparciais tornaram-se mais reservados nas
suas críticas com respeito à disciplina antiga sobre a usura... Ficará por esclarecer, acrescenta, nos dados complexos
dos actuais problemas, uma doutrina de crédito que, satisfazendo de modo plenamente coerente as leis da moral,
manterá e conduzirá o capital para o círculo dos seus deveres e dos seus direitos”(Dictionnaire de la théologie
catholique,  t. 15, col. 2389). Isto foi escrito em 1946, mas o desejo formulado continuou sem efeito; por
conseguinte, cada um conhece o papel desempenhado pela praga da usura, na miséria provocada no conjunto dos
camponeses chineses e, actualmente, esses flagelos da usura amplamente espalhados nas relações entre países
ocidentais e países em vias de desenvolvimento. Contentemo-nos em citar um número: em 1969, a Índia havia
recebido 600 milhões de dólares, a título de ajuda financeira, acordada pelas nações ricas; ora, sobre esses 600
milhões de dólares, 550 milhões serviram para amortização das dívidas. E sabe-se que hoje (1984) alguns países da
América Latina colocam em perigo o sistema bancário internacional, na impossibilidade que têm de saldar dívidas
que ultrapassam de longe a receita nacional.

Fonte: “A burguesia”, cap. VIII, Europa-América, Lisboa, 1995

Tradução: Vítor Romaneiro

 http://www.quadrante.com.br/artigos_detalhes.asp?id=221&cat=3&pagina=5

Régine Pernoud: batismo de Clóvis é marco histórico


No 15º centenário da conversão de Clóvis, a famosa historiadora Régine Pernoud é entrevistada por CATOLICISMO
sobre esse esplendoroso acontecimento

Régine Pernoud, historiadora francesa mundialmente conhecida como especialista tanto em estudos sobre a Idade
Média quanto em documentos antigos. É doutora honoris causa da Universidade Federal do Rio de Janeiro, entre
muitas outras; fundadora do Centro de Estudos sobre Santa Joana d'Arc (em Orléans, França); diretora de inúmeros
museus franceses; conferencista muito solicitada em seu país e no exterior; detentora de numerosos prêmios e
condecorações concedidos por seus estudos. Com mais de trinta livros publicados, suas obras tiveram o mérito de
dissipar a legenda negra propositalmente difundida contra a Idade Média e o esplendor da Igreja naqueles séculos
de fé. Suas pesquisas sobre o papel de Nossa Senhora no início da Cristandade, sobre Santa Joana d'Arc, São Luís IX e
os santos medievais, bem como sua notável obra "A Luz da Idade Média", conquistam o leitor por seu rigor científico
e o encanto de suas descrições.

Em uma entrevista exclusiva para CATOLICISMO, a grande historiadora se dirige ao público brasileiro a propósito da
comemoração, no presente mês, do 15º centenário do batismo de Clóvis, rei dos francos. Ela recebeu nosso enviado
especial, Sr. Nelson Fragelli, em seu apartamento, em Paris, revelando grande simpatia pelos ideais de nossa revista.

Catolicismo -- A Sra., enquanto historiadora, como considera o batismo de Clóvis?

Régine Pernoud -- Evidentemente, é uma data muito importante. Não apenas para a história da França, mas para a
história da Europa. A Igreja adquire a liberdade, o que põe fim às dificuldades que algumas heresias suscitaram. O
poder temporal se abre à Igreja, tendo sido Clóvis considerado um novo Constantino. E é preciso realçar que depois
de sua conversão se espalharam tantas heresias, que sem uma intervenção da Providência hoje talvez não fôssemos
católicos. A conversão de Clóvis e a liberdade concedida à Igreja são indubitavelmente um sinal dessa intervenção. A
Igreja pôde, assim, travar mais comodamente seu combate contra as heresias.

O único pagão da História, que vem de fora para dentro da Igreja, é Clóvis. Os visigodos, os godos e os vândalos são
cristãos, mas são arianos. O arianismo teve tanta importância quanto o protestantismo na Europa, e durou também
muito tempo: quatro séculos. Os arianos negam a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, o que é capital. O fato de
que Clóvis -- que realmente quis se converter -- tenha escolhido a fé católica verdadeira, teve evidentemente uma
importância enorme em todo o destino da Europa cristã.

Entretanto, quando se diz batismo de Clóvis, eu gostaria muito que se falasse também um pouco de Clotide. Pois a
quem devemos o batismo de Clóvis, senão a Clotilde? Quando se estuda a história da Antiguidade, de Creta, da
Grécia, de Roma, etc., a mulher não existe. Quando se estuda a história do Cristianismo, somos obrigados a começar
pelas mulheres: por Clotilde, Radegunda, a Rainha Branca de Castela, e outras ainda. A Idade Média está povoada de
mulheres que têm deveres administrativos. A primeira de todas é Clotilde. Por ocasião do batismo de Clóvis, falemos
da ação de Clotilde, uma vez que à fé de Clotilde se deveu o batismo de Clóvis.

Ela consegue fazer batizar seu primeiro filho, que morre quinze dias depois. Bem se pode imaginar a fé que essa
mulher precisou ter, para vencer uma tal prova. Clóvis é pagão, e é preciso não esquecer que ele se dirige a Wotan, o
deus da Germânia. Pois bem, que o primeiro efeito de um batismo cristão seja que esta criança morra ao cabo de
quinze dias, isto teria podido arruinar inteiramente o caminho da conversão de Clóvis. Meu Deus! Até para a própria
Clotilde! O extraordinário é que essa mulher responde: "Sou feliz em saber que ele se encontra na beatitude
celeste". É admirável como esforço interior!

O segundo filho que nasce é também batizado, e quinze dias depois cai doente. Portanto, nova prova cruciante.
Porém, desta feita, a criança é curada. É preciso considerar qual deva ter sido a fé de Clotilde para vencer estas
provas, que precederam o batismo de Clóvis.

Catolicismo -- Talvez seja então por causa desses sofrimentos que Santa Clotilde obteve do Céu as graças
necessárias para a conversão de seu marido. Como a Sra. considera as críticas que muitos estão fazendo à
comemoração do batismo de Clóvis?

Régine Pernoud -- Há pessoas que não querem ouvir falar da comemoração do batismo de Clóvis, sob pretexto de
que é nacionalismo. Eu considero isto uma bobagem pura e simples. Não se trata de nacionalismo, mas da conversão
de toda a Europa. Um artigo publicado no "Le Monde", em fevereiro último, procura desnaturar esta comemoração,
revestida de um alto simbolismo para todos nós. Posso afirmar uma coisa com certeza: esse articulista não cursou a
Escola de Chartes. Universidade onde se estudam documentos antigos. O que parece entrar em linha de conta para
ele, em História, são as ideologias, em seus vários matizes. É um artigo desprovido de solidez, que não tem qualquer
fundamento. São especulações abstratas e ideológicas. É preciso, pois, prepararmo-nos para ouvir um certo número
de tolices, doutamente professadas no "Le Monde" e alhures.
Catolicismo -- A Sra. poderia nos contar algum outro episódio relativo ao batismo de Clóvis, e que pudesse levar
nossos leitores a se interessarem pela História, sobretudo por este acontecimento?

Régine Pernoud -- Há vários. Ele partiu para a guerra contra os godos após haver feito uma aliança com eles, a qual
não caminhou bem. Clóvis sai vencedor da batalha de Tolbiac, em 493, e o cronista do tempo afirma: "Os godos são
derrotados, como sempre".

Existe ainda o episódio de Clóvis indo ao túmulo de São Martinho de Tours, antes de começar a batalha. Porém,
pede ele a seus companheiros que entrem na basílica construída em cima do túmulo. Ele mesmo não entra, pois
ainda não é cristão. Quando seus companheiros entram, ouvem os monges cantarem a passagem de um salmo: "Tu
terás a vitória...". Eles retornaram dizendo a Clóvis: "Tudo vai bem, podes partir para a guerra". Contam-lhe o que
ouviram, e isto o encorajou efetivamente.

Aliás, mencionei o túmulo de São Martinho de Tours. Pediram-me um trabalho sobre ele, e eu jamais teria
acreditado que São Martinho fosse um personagem tão cativante. Acabo de concluir o trabalho, e em breve será
entregue ao editor.

Catolicismo -- Para alguns detratores, a conversão de Clóvis era mais uma manobra política do que o resultado da
ação da graça.

Régine Pernoud -- Creio que não se tratava de uma manobra de alta política, pois a metade do país estava, pelo
contrário, voltada à heresia ariana. Se cálculo político houvesse, em todo caso não seria da alta diplomacia.

Com efeito, Clóvis sabia muito bem que congregaria mais facilmente os povos da antiga Gália, como os godos ou os
borguinhões, se ele abraçasse não a fé católica, mas o arianismo, posto que os outros povos eram arianos.

Diz-me muito, também, considerar que Clóvis morreu após o Concílio de 511. Ora, o que se discutiu e se estabeleceu
nesse concílio? Foi o direito de asilo. É esse direito de asilo que vai caracterizar toda a Idade Média, e que
desaparecerá apenas sob o golpe dos tribunais burgueses, no século XVI. A burguesia jamais quis suportar o direito
de asilo, mas este era qualquer coisa de magnífico, de transcendente. Que o pior dos criminosos pudesse ainda ter
uma oportunidade se ele se postasse à porta de uma igreja, ou se chegasse até o cemitério, ou se se dependurasse
em uma cruz colocada em um entroncamento de vias, ou ainda se pudesse penetrar em um mosteiro -- considero
que isto é para nós algo desconcertante.

Catolicismo -- Por que a Sra. fala do  direito de asilo,  quando lhe perguntamos se a conversão de Clóvis era um ato
político?

Régine Pernoud -- O direito de asilo foi posto em aplicação graças ao Concílio de 511. E Clóvis assistiu a este Concílio.
Tal direito de asilo assim estabelecido foi, conseqüentemente, muito importante, e desempenhou um grande papel
na vida de toda a Europa, durante todo o período medieval. Este direito de asilo era uma espécie de primazia da
caridade sobre a justiça, uma vez que ele dava oportunidade até ao pior dos criminosos. E o próprio Ricardo Coração
de Leão, rei, foi vítima de um movimento de cólera, e foi perseguido pelos tribunais eclesiásticos por haver lesado o
direito de asilo de um homem culpado.

Catolicismo -- Por que a burguesia não tolerava o direito de asilo?

Régine Pernoud -- Porque isto não era conforme ao direito dos legistas de então. É muito significativo ver na História
o retorno do direito romano nos costumes, a partir do século XIV, um pouco no século XV, e sobretudo depois do
século XVI. Os magistrados só escrevem sobre o direito romano, e este ignorava a misericórdia.

Catolicismo -- Que conselho a Sra. poderia dar aos brasileiros de nossos dias?

Régine Pernoud -- É que eles vivam de modo semelhante ao de Clóvis e Clotilde, os quais souberam ultrapassar seu
simples amor de esposos, em vista de um progresso espiritual. E que este progresso espiritual seja capaz de animá-
los -- sobretudo os jovens -- a elevar suas vistas a um ideal sublime, para o bem da família, da sociedade e do povo.
Pela conversão de seu marido, Clotilde deu à luz à Filha primogênita da Igreja. Por um senso da dedicação e de um
ideal elevado, nós poderemos dar novamente a nossas pátrias suas características cristãs.
 http://www.catolicismo.com.br/materia/materia.cfm/idmat/925CA9F2-3048-560B-
1C4F420AC7D235A8/mes/Setembro1996

Excertos - Idade Média: o que não nos ensinaram.


Idade Média: o que não nos ensinaram

Régine Pernoud

Editora Agir, 1994

A invasão de um novo gênero, o do romance, desconhecido na Antiguidade Clássica; enfim o nascimento da lírica
cortês que enriqueceu com novas cores o tesouro do humanidade.

Entretanto, na própria Alta Idade Média, viu-se o livro tomar a forma que se apresenta até hoje, o codex,
instrumento de cultura, que daí em diante, substituiu o volume, o rolo antigo; a imprensa não poderia prestar os
serviços que prestou senão graças a invenção do livro. É, igualmente, nesta época que foi elaborada a linguagem
musical usada no Ocidente até hoje.

É raro que os historiadores admitam reconhecer aí a veia céltica e sua prodigiosa faculdade de invenção verbal e
formal.

[...]; porque foi a formação clássica, a ética clássica que, até época recente nos impedia de ver nas obras da Alta
Idade Média outra coisa que obras “rudes e bárbaras”.

Isidoro de Sevilha exerceu profunda influência no pensamento medieval. Sua obra feita na Espanha do século VII
contém em germe a essência da cultura dos séculos românticos e góticos.

Jacques Fontaine chamou atenção sobre o fato de que, em arquitetura, o arco otomano, que se atribui geralmente
aos árabes, existia há mais de cem anos antes de sua eclosão nesta Espanha “visigótica”, que ele tão bem estudou.

Os mosteiros da Irlanda se tornaram privilegiados centros de cultura, já que estavam fora de alcance de invasões. É
na Irlanda que se encontra, nesta época, os gramáticos mais eruditos e, entre eles, os melhores helenistas.

A epopéia em língua francesa nasce, no século XI propagada por via oral e é logo fixada em alguns manuscritos. A
Chanson de Roland estava desde então divulgada, transmitida pelos jograis e menestréis.

É na própria sociedade do século XI que se deve procurar as razões e inspirações da Canção de Rolando.

O romance é mais que uma invenção da época feudal que não pode ser compreendida fora do contexto. A maior
parte dos personagens nos vem de lendas celtas, através da obra genial de Geoffey de Monmouth.

A Idade Média tem uma sociedade para a qual contam, antes de tudo, as ligações pessoais, que exaltam o ideal do
cavaleiro culto e cortês, que enaltece a fidelidade, a palavra dada e que finalmente, faz da mulher uma suserana.

O teatro foi muito representado em toda parte, na Idade Média. Vemos surgir em um contexto litúrgico: de início as
cenas da Bíblia, especialmente do Evangelho, foram dramatizadas. Padres e monges representavam também. Estas
paraliturgias desenvolveram-se em seguida na noite de Páscoa, Natal, ..., em geral comemorando todas as festas do
ano.

A palavra gesto é uma das palavras-chaves da Idade Média.

Com efeito, vocal e instrumental, a música medieval era muito mais sentida como uma “música ambiente” do que
um espetáculo propriamente dito. Até o século XIII não se separou a linguagem musical da linguagem poética:
nenhuma poesia sem melodia; o poeta é ao mesmo tempo músico. Vale lembrar que, nesta época, nem todos
aprendem a ler, mas todos aprendem a cantar.

Os infelizes que faziam pantomimas, vendo que lhes interditavam falar, puseram-se a cantar. Alguns viram aí a
origem da ópera cômica.

A ordem feudal, com efeito, foi muito diferente da ordem monárquica que a substitui, e que sucedeu de maneira
mais centralizada ainda, a ordem estatal que é, atualmente, a das diversas nações européias.
Realmente as mudanças tornaram-se difíceis, o exército não mais existindo para garantir as estradas nem para as
vigiar. Também, mais do que nunca, a terra é a única fonte de riqueza. É essa terra que é preciso proteger.

Este estado que se chama com muita justiça feudal. Ele se baseia, realmente, sobre o fief, feodum. O termo, de
origem germânico ou céltica, designa o direito de que se frui sobre um bem qualquer, geralmente uma terra: não se
trata de uma propriedade, mas antes de um usufruto, de um direito de uso.

O movimento das migrações causou problemas que foram resolvidos de maneira mais liberal do que se poderia
imaginar. Assim, o primeiro problema proposto a um acusado de crime que compareceu diante do tribunal foi: “Qual
é a lei?” Com efeito, ele é julgado segundo a sua própria lei, não pela lei de região em que se encontra.

Ora, justamente toda a vontade individual encontra-se limitada e determinada pelo que foi a grande força da Idade
Média: o costume. Encontrei, certa vez, esta pérola em um estudo feito por um professor de história: “Na Idade
Média, as leis são chamadas costumes.” E passa-se a nada compreender da época quando não se estabelece uma
diferença entre a lei, vinda de um poder central, e por uma natureza fixa e definida, e o costume, conjunto de usos
nascidos da região em evolução.

Court ( etimologicamente): pátio, parte do castelo onde todos se encontram, encontravam.

A partir do século IV a escravidão começou a desaparecer progressivamente. Até que no século XVI, ela volta a
surgir. A substituição da escravidão pela servidão é, sem dúvida, o fato social que destaca melhor o desaparecimento
do Direito Romano, da mentalidade romana nas sociedades ocidentais a partir dos séculos V e VI.

Do antigo Regime em diante, a terra cultivável passou a ser objeto de compra e venda; o que restritamente ocorria
na Idade Média.

A Igreja, ela mesma de mobilidade social, encorajou grandemente a liberação de servos. Eis um exemplo: Suger, filho
de um escravo, foi colega do futuro rei Luís VI, na abadia de Saint-Denis; nos bancos escolares nasceu entre eles uma
amizade que só terminou com a morte.

É, realmente, a volta à escravidão determinada pela expansão colonial que caracteriza o período clássico.

O Concílio de Trento (1547-1563) demarca o fim da Idade Média.

Colbert dando instruções aos jovens que enviava a Roma para aprender Belas-Artes: “Copiar com exatidão as obras
primas da Antiguidade sem nada adicionar a elas.” Tudo que estivesse em desacordo com a plástica grega e latina
era impiedosamente recusado. A imitação da Antiguidade se dedicava a destruição dos testemunhos dos tempos
“góticos” (desde Rabelais esta palavra passou a ser usada com sinônimo de bárbaro).

Trouveur (trovador) que vem do verbo trouver (encontrar), logo é o que encontra, o encontrador, o inventor, ou


seja. A imaginação e a busca, é o início de toda criação artística ou poética.

As religiosas desta época – sobre as quais, digamos de passagem, ainda faltam estudos sérios – são na maioria
mulheres extremamente instruídas, que poderiam rivalizar, em sabedoria, com os monges mais letrados do tempo.
A própria Heloísa conhece e ensina às monjas o grego e o hebraico. Os mosteiros femininos eram lugares de oração,
mas, também, de ciência religiosa, de exegese, de erudição.

Enfim, os registros de impostos ( nós diríamos, os registros de coletor) desde que foram conservados, como é o caso
de Paris, no fim do século XIII, mostram multidão de mulheres exercendo funções: professora, médica, boticária,
estucadora, tintureira, copista, miniaturista, encardenadora, tec.

Obstinavam-se em estudar, não propriamente as obras na sociedade que as veria nascer, respondendo às suas
necessidades, à sua mentalidade, mas as ligações que elas poderiam ter como os arquétipos supostos que, às vezes,
iam ser procurados muito longe...

 http://alexbenedictus-et-patensis.blogspot.com.br/2011/12/excertos-idade-media-o-que-nao-nos.html
Excertos: Idade Média - o que não nos ensinaram (parte
2).
Idade Média: o que não nos ensinaram

Régine Pernoud

Editora Agir, 1994

Por que essa distância entre ciência e saber comum?

O termo Renascimento (Rinascita) foi utilizado, pela primeira vez, por Vasari em meados do século XVI.

O que caracteriza o Renascimento do século XVI, é que ele impõe, em princípio, a imitação do mundo clássico. O
simples bom senso basta para fazer compreender que o Renascimento não se poderia produzir se os textos antigos
não tivessem sido conservados em manuscritos recopilados durante os séculos medievais.

O Monte Saint-Michel foi chamado também de Palácio dos Papas.

Os processos de feitiçaria começaram a partir do século XIV. E, o interesse por ela começou a crescer. É, com efeito,
no século XVII – século da Razão – que o número de processos de feitiçaria cresce assustadoramente.

Bougre: deformação de bulgare. É possível que o catarismo venha de seitas bogomilianas, das reigõs búlgaras, onde
se teriam pregado as doutrinas maniqueístas. Os cátaros recrutavam seus adeptos dentre mercadores. Além disso,
eram acusados, não sem razão, de usura.

A associação dos domenicanos à Inquisição ocorreu porque o próprio Gregório IX a confiou aos padres pregadores
(domenicanos), muito populares, logo que a instituiu em 1231.

Os maiores atos de violência atribuídos à Inquisição, na verdade, foram feitos por leigos, pela população em geral.

Excomungar é colocar fora da comunidade de fiéis quem não se conforma com as regras instituídas pela Igreja
enquanto sociedade: é “colocar fora do jogo”, como se pratica em toda parte com quem não aceita as regras de uma
sociedade, de um clube, de um partido, de uma associação qualquer, à qual, anteriormente, pretendia pertencer.

Sabe-se como o renascimento do Direito Romano e seu estudo, principalmente na Universidade de Bolonha, vão
pouco a pouco se introduzir no Direito da Igreja – não de forma tão completa como farão na sociedade civil.

A sociedade feudal admite o direito de guerra privada, que é o direito de o grupo vingar a ofensa sofrida por um de
seus membros e, por este meio, obter a reparação. As guerras feudais, que em nada se parecem às de nossos
tempos, tem sua origem neste emaranhado de ligações pessoais e de tradições comunitárias que constituem a
sociedade de então.

A sociedade feudal é uma sociedade de tendências comunitárias, embora regidas por compromissos pessoais, e
também essencialmente ligada à terra, rural.

O fato de que os cátaros negavam a validade de juramento era um ataque à própria essência da vida feudal, formada
de contratos de homem para homem e repousando sobre o valor do juramento. Por isso, a reprovação geral causada
pela heresia; ela rompe um acordo profundo do qual partilha toda sociedade, e esta ruptura parece de extrema
gravidade aos que a testemunham. Todo o incidente de ordem espiritual parece, neste contexto, mais grave que um
acidente físico.

Assim, vê-se que a Inquisição, no que ela tem de mais odioso, é fruto de disposições tomadas, de início, por um
imperador (Frederico II) em que se pode encontrar o protótipo do “monarca esclarecido”, apesar de ter sido, ele
próprio, um cético e logo excomungado.

A inquisição do século XVI, a partir deste momento só nas mãos dos reis e imperadores, iria fazer um número de
vítimas sem comparação com as do século XIII. Na Espanha, chega-se à utilização da Inquisição contra judeus e
mouros, o que equivalia a deturpar por completo seus objetivos. Com efeito, ela era para uso interno: destinada a
detectar os heréticos, isto é, aqueles que, pertencendo à Igreja, se voltavam contra ela.
Foi assim que, no século XIII,  Fernando III, rei de Espanha ( primo de São Luís, e que como ele será canonizado),
tinha recusado a Inquisição: não havia hereges em seu reino e ele mesmo se proclamava “rei das três religiões”
(cristã, judaica e mulçulmana).

Obs.: São Luís IX era do século XIII: nasceu em 1214;

A face da Igreja se torna, no século XVI, monolítica, estatal, ligada a toda uma burocracia e a um mentalidade
puramente ocidentais.

Na Idade Média, chamavam-se os hospitais de “Hospedagem de Deus” ou “Casa de Deus”, onde se acolhiam e


tratavam gratuitamente pobres, doentes e miseráveis.’

 http://alexbenedictus-et-patensis.blogspot.com.br/2011/12/excertos-idade-media-o-que-nao-nos_29.html

Excertos: Idade Média - o que não nos ensinaram (parte


3).
Idade Média: o que não nos ensinaram

Régine Pernoud

Editora Agir, 1994

Com a pólvora, os mecanismos de guerra vão mudar a partir do século XIV: passar-se-á então a desenvolver mais as
técnicas de ataque que de defesa.

É surpreendente pensar que no fim do século XIII havia na China uma cristandade próspera, agrupando seis bispos à
volta do arcebispo de Pequim.

A História deixa de existir quando não for procura da verdade, fundamentada em documentos autênticos; ela se
evapora literalmente, ou melhor, ela nada mais é do que fraude e mistificação.

Tudo o que se pode pedir a uma obra literária é que seja eco de uma mentalidade, não a descrição de uma
realidade, ainda menos sua descrição exata.

Basta lembrar o personagem de Abelardo, transformado num incrédulo, num cético, perdido em um século de
ignorância e embrutecimento. Fazer passar por um cético o pensador cujos esforços de pensamento foram todos
dedicados a estabelecer o dogma da Trindade divina, o teólogo que abriu caminho ao próprio Tomás de Aquino, é
em si bastante paradoxal; e no entanto, é o que se lê na maioria das obras de vulgarização.

Foi minha vez de me espantar: esse jornalista nunca teria visto uma abóbada gótica? Ele não haveria se questionado
que para mantê-la há quase um milênio, a cerca de 40 metros de altura, não seria necessário que se tivesse feito
com cuidado?

Em 1350, o homem, na Europa, acaba de ser sacudido pelo mais violento cataclismo que aconteceu: a peste
bulbônica ou a peste negra, que apareceu em 1347 e atacou não menos que um em cada três homens. No século
VIII, a peste negra atacou também, mais depois não apareceu mais.

A Guerra dos Cem anos aconteceu de 1340 a 1453.

Nenhuma parcela da verdade jamais será insignificante.

Ao se familiarizar com outros tempos, outras épocas, outras civilizações, adquire-se o hábito de desconfiar dos
critérios de seu tempo: eles evoluirão, como outros evoluíram. É ocasião de revisar, dentro de si próprio, o
mecanismo de pensamento, seus próprios motivos para agir ou refletir, por comparação com outros.

A solução do passado nunca é a mesma do presente. Ora, todos sabem que um problema corretamente proposto
já está meio resolvido.

 http://alexbenedictus-et-patensis.blogspot.com.br/2011/12/excertos-idade-media-o-que-nao-nos_30.html
Organização social na Idade Média
...estes tempos que se chamam obscuros 
(Miguel de Unamuno)
 
Durante muito tempo pensou-se que para se explicar a sociedade medieval bastava usar a divisão clássica em três
ordens: clero, nobreza e terceiro estado. É o que ensinam ainda os livros de história: três categorias de indivíduos,
bem definidas, tendo cada uma suas atribuições próprias, separadas nitidamente das outras. Nada mais afastado da
realidade histórica! Essa divisão em três classes pode ser aplicada ao Antigo Regime, nos séculos XVII e XVIII, onde,
de fato, os diferentes níveis da sociedade formavam ordens distintas, onde as prerrogativas e relações davam conta
do mecanismo da vida. Mas seria superficial aplicar esta divisão à Idade Média: ela explica os grupos, a repartição, a
distribuição de forças, mas não revela nada sobre as origens, sobre a mola, a estrutura profunda da sociedade. Pelo
que aparece nos textos jurídicos, literários e outros, a sociedade medieval é uma hierarquia, com uma ordem
determinada, mas esta ordem não é aquilo que se imaginou, e antes de mais nada, ela é bem mais diversa. Nos atos
notariais vemos freqüentemente um senhor de um condado, um pároco, servirem de testemunha em transações
entre vilões, e a mesnie de um barão – ou seja, seus próximos, seus familiares – inclui tanto servos e monges quanto
altas personalidades. As atribuições destas classes são também estreitamente ligadas: a maioria dos bispos também
são senhores; ora, muitos deles saíram do povo humilde. Um burguês que compra uma terra nobre, em certas
regiões, passa a ser nobre. Basta abandonar os livros de história para mergulhar nos documentos, e esta noção de
«três classes da sociedade» mostra-se fictícia e sumária.

Apesar de mais perto da verdade, também a divisão entre privilegiados e não-privilegiados é incompleta, pois na
Idade Média, havia privilégios de alto a baixo da escala social. Um simples aprendiz, de certo modo, é um
privilegiado, pois ele participa dos privilégios da corporação; os benefícios da Universidade servem tanto aos
estudantes e seus valetes quanto aos mestres e aos doutores. Certos grupos de servos rurais gozam de privilégios
particulares que seus senhores são obrigados a respeitar. Considerar como privilégios apenas os da nobreza e do
clero, é ter uma noção inteiramente falsa da ordem social.
 
Para se compreender bem a sociedade medieval, é necessário estudar sua organização familiar. Aí se acha
a chave da Idade Média, e sua originalidade. Todo relacionamento desta época é estabelecido sobre o modo
familiar: os dos senhores aos vassalos, os de mestre a aprendiz. A vida rural, a história do nosso solo, só se explica
pelo regime das famílias que aí viveram. Queria-se avaliar a importância de um vilarejo? Contava-se o número
de feux1, e não o número de indivíduos que o formava. Na legislação, nos costumes, todas as disposições tomadas
tratam do bem de família, do interesse da linhagem – ou, alargando esta noção familiar a um círculo maior, ao
interesse do grupo, da corporação, que nada mais é que uma grande família, fundada sobre o mesmo modelo da
família propriamente dita. Os grandes barões são, antes de tudo, pais de família, unindo em torno de si todos os
seres que, por seu nascimento, fazem parte do domínio patrimonial; suas lutas são brigas de família, na qual toma
parte toda esta mesnie que eles têm encargo de defender e administrar. A história da feudalidade é a história de
suas principais famílias. E, se avaliarmos bem, o que é a história do poder real, do século X ao século XIV? É a história
de uma dinastia, estabelecida graças à sua fama de coragem, ao valor demonstrado por seus ancestrais: muito mais
do que um homem, é uma família que os barões escolheram por chefe; na pessoa de Hugo Capet, eles viam o
descendente de Roberto o Forte que defendera aquela região contra o invasor normando, de Hugo o Grande, que já
havia carregado a coroa; isso aparece no famoso discurso de  Adalberto de Reims: «Escolhei para chefe o duque dos
Francos, glorioso por suas ações,  por sua família e por seus homens, o duque em quem encontrareis um tutor, não
apenas dos negócios públicos, mas ainda dos seus negócios particulares». Esta linhagem se manteve no trono por
hereditariedade, de pai para filho, e viu seu domínio crescer pelas heranças e casamentos, muito mais que por
conquistas: história que se repete milhares de vezes em nossa terra, em diversas esferas, e que decidiu de uma vez
por todas o destino da França, fixando na terra as linhagens dos camponeses e dos artesãos, cuja perseverança
diante de mil obstáculos e sofrimentos criou, de fato, nossa nação. Na base da "energia francesa" está a família,
como a Idade Média a entendeu e conheceu.
 
Para entender bem a importância desta base da sociedade medieval, composta de famílias, vamos compará-la, por
exemplo, com a sociedade da antiguidade, composta de indivíduos. Na sociedade greco-romana o homem (vir) é que
conta; na vida pública ele é o cidadão (civis), que vota, que faz as leis e toma parte dos negócios do Estado; na vida
privada ele é o proprietário de um bem que lhe pertence pessoalmente (paterfamilias), do qual ele é o único
responsável e sobre os quais ele possui atribuições mais ou menos ilimitadas. Nunca se constata uma participação de
sua família ou de seu parentesco nestas atribuições. Sua mulher e seus filhos lhe são inteiramente submissos e
guardam um estado de menoridade perpétua; ele tem sobre eles, como sobre seus escravos ou sobre seus bens
fundiários, o poder de usar e abusar (jus utendi et abutendi). A família parece só existir em estado latente; ela só vive
pela personalidade do pai, ao mesmo tempo chefe militar e sacerdote-mor; e isso com todas as conseqüências 
morais que decorrem, entre elas o infanticídio legal. Aliás, na antiguidade, a criança é a grande sacrificada: ela é um
objeto cuja vida depende do juízo e do capricho paternal. Ela está submetida a todas as eventualidades de uma troca
ou de uma adoção, e quando o direito à vida lhe é cedido, fica na dependência do paterfamilias até a morte deste;
mesmo então ele não herda de pleno direito, pois seu pai pode dispor de seus bens em testamento a seu grado.
Quando o Estado se interessa por uma criança, nunca será para intervir em seu favor, mas tão somente para formar
o futuro soldado ou o cidadão.
 
Nada disso subsiste na nossa Idade Média. Nela o que importa não é mais o homem, mas a linhagem. A antiguidade
pode ser estudada, e é de fato, pelas biografias individuais: a história de Roma é a história de Sylla, de Pompéia, de
Augusto; a conquista da Gália é a história de Júlio  César. Entrando na Idade Média uma mudança se impõe: a
história da unidade francesa é a história da linhagem capeciana; a conquista da Sicília é a história dos descendentes
de uma família normanda, numerosa demais para os seus domínios. Para se entender bem a Idade Média deve-se
considerá-la na sua continuidade, no seu conjunto. Por isso, talvez, ela seja tão mal conhecida e seu estudo bem
mais difícil que o do período antigo, pois é preciso desembaralhar sua complexidade, segui-la na continuidade do
tempo,  através destas mesnies que formam a trama; e não apenas as que deixaram um nome pela grandeza de suas
conquistas ou pela importância de seus domínios, mas também os humildes moradores, os habitantes das cidades e
do campo, que devemos conhecer  em sua vida familiar, se desejamos entender o que  foi a sociedade medieval.
 
Isso se explica. Durante o período de agitações e completa decomposição que foi a Alta Idade Média2, a única fonte
de unidade, a única força viva foi exatamente o laço familiar, a partir do qual foi constituída, pouco a pouco, a
unidade francesa. A família e seu domínio foram assim, devido às circunstâncias, o berço de nossa nação.
 
Esta importância dada à família traduz-se em uma preponderância, muito clara na Idade Média, da vida privada
sobre a vida  pública. Em Roma, um homem só vale na medida em que ele exerce seus direitos de cidadão: que ele
vota, delibera e participa dos negócios do Estado; os esforços da plebe para obter uma representação, por um
tribuno, são bem significativas disto. Na Idade Média raramente se faz menção de negócios públicos: ou melhor, os
negócios públicos são logo vistos como administração familiar; são contas dos domínios, pagamentos de
arrendatários e proprietários; e mesmo quando os burgueses3, quando se formaram os municípios, reclamam de
direitos políticos, é com o único intuito de poder exercer livremente seu trabalho, sem ter de pagar pedágios e taxas;
a atividade política propriamente dita não tem nenhum interesse para eles. Aliás, a vida rural é infinitas vezes mais
ativa que a vida urbana, e em ambas é a família, e não o indivíduo, que prevalece como unidade social.
 
Tal como se apresenta desde o século X, a sociedade assim compreendida tem como traço essencial a noção de
solidariedade familiar, nascida dos costumes bárbaros, germânicos ou nórdicos. A família é considerada como um
corpo onde corre, em todos seus membros, o mesmo sangue — ou como um mundo reduzido, com cada ser
cumprindo a sua parte, consciente de fazer parte de um todo. A união não se estabelece mais, como na antiguidade
romana, por uma concepção estatista da autoridade de seu chefe, mas por este fato de ordem biológica e também
moral: todos os indivíduos que compõem uma mesma família são unidos pela carne e pelo sangue, seus interesses
são solidários, e nada é mais respeitável que a afeição natural que os anima, uns pelos outros. É muito vivo o
sentimento deste caráter comum dos seres de uma mesma família:
 
Les gentils fils des gentils pères
Des gentils et des bonnes mères
Ils ne font pas de pesants heires".
 
"Gentis filhos de gentis pais
Gentis e boas mães
Não brigam pela herança"
 
diz um autor do tempo. Os que vivem sob o mesmo teto cultivam o mesmo campo e se aquecem no mesmo fogo.
Ou, na linguagem do tempo, os que repartem o pão e a taça sabem que podem contar uns com os outros e que, na
necessidade, o apoio de sua mesnie não faltará. A união aqui é, com efeito, mais forte do que em qualquer outro
grupo, pois é baseada nos laços incontestáveis do parentesco e do sangue, apoiando-se numa comunhão de
interesses não menos visível e evidente. O autor do verso citado acima, Etienne de Fougères, protesta no seu Livre
des Manières contra o nepotismo de certos bispos; no entanto ele mesmo reconhece que os bispos fazem bem de se
cercar de seus parentes «se eles são competentes», pois, diz ele, nunca se tem certeza da fidelidade dos
estrangeiros, enquanto que os seus, pelo menos, não lhe trairão.
 
Dividi-se assim as alegrias e as tristezas. Recolhe-se à casa os filhos dos que faleceram ou que passam necessidade, e
numerosos familiares se levantam para vingar um de seus membros que tenha sido insultado. O direito à guerra
privada, reconhecido durante boa parte da Idade Média, é apenas a expressão desta solidariedade familiar. Ele
correspondia, na origem, a uma necessidade: quando o poder central não tinha força, o indivíduo só podia contar
com a ajuda da mesnie para se defender, e, durante toda a época das invasões bárbaras, ele estaria abandonado, se
estivesse só, a toda espécie de perigos e misérias. Para viver era necessário se defender, se agrupar — e qual grupo
podia valer mais que uma família firmemente unida?
 
A união familiar, expressa em caso de necessidade pelo socorro das armas, resolvia então o difícil problema da
segurança pessoal e dos domínios. Em certas províncias, particularmente no norte da França, o habitat traduz este
sentimento de união: a principal peça da casa é a sala; ela preside, com sua vasta lareira, às reuniões de família, a
sala onde se reúnem para as refeições, para as festas de casamento ou aniversário e também para velar os mortos; é
o hall do costume anglo-saxão, pois a Inglaterra teve, na Idade Média, costumes semelhantes aos franceses,
permanecendo fiel a eles em muitos pontos.
 
Essa comunidade de bens e de afeição necessita de um administrador. Quem assume este cargo é, naturalmente, o
pai de família. Mas ele não é um chefe absoluto e pessoal, como no direito romano, ele é mais um gerente: gerente
responsável,  diretamente interessado na prosperidade da casa, mas que cumpre um dever mais do que exerce um
direito. Este encargo consiste principalmente em proteger os seres indefesos, como as mulheres, as crianças e os
que trabalham em sua casa, vivendo sob o mesmo teto e assegurar a gestão do patrimônio; mas ele não é
considerado como um  mestre vitalício nem como o proprietário dos domínios. Se ele goza dos bens patrimoniais, só
o faz como usufruto: como ele o recebeu de seus ancestrais, assim deverá transmiti-lo aos que, por nascimento,
deverão lhe suceder. O verdadeiro proprietário é a família, não o indivíduo.
 
Se é verdade que ele possui toda a autoridade necessária para  suas funções, ele está longe de possuir sobre sua
mulher e seus filhos este poder ilimitado que lhe concedia o direito romano. Sua mulher colabora na administração
da comunidade e na educação dos filhos; o marido gerencia os bens que ela possua em próprio porque ele é
considerado mais capaz do que ela para levá-lo à prosperidade, o que não se consegue sem esforço e trabalho; mas
quando, por alguma razão, ele deve se ausentar, sua mulher retoma em mãos esta gestão sem o mínimo obstáculo e
sem qualquer autorização. Mantém-se tão acesa a lembrança da origem de sua fortuna que, a mulher morrendo
sem filhos, seus bens pessoais voltam integralmente à sua família; nenhum contrato pode se opor a isso, as coisas
acontecem assim naturalmente.
 
O pai é o protetor, guarda e mestre das crianças. Sua autoridade paternal termina com a maioridade, a qual chega
muito cedo: quase sempre com quatorze anos para os que não são nobres e, para  estes últimos, varia entre
quatorze e vinte anos, pois os nobres tinham a obrigação de defender o feudo com um serviço mais ativo, o que
exigia mais força e experiência. Os reis de França eram considerados maiores com quatorze ou quinze anos, e foi
com esta idade que Felipe-Augusto atacava chefiando seus soldados. Uma  vez maior de idade, o jovem continua a
ter a proteção dos seus e a  solidariedade familiar, mas, diferentemente do que acontecia em Roma e, mais tarde,
nos paises de direito escrito, ele ganhava plena liberdade de iniciativa e podia se afastar, fundar uma família,
administrar seus próprios bens, como entendesse. Desde que ele saiba agir por si mesmo, nada vinha atrapalhar sua
atividade; ele é seu mestre, apesar de conservar o apoio da família de onde saiu. É uma cena clássica dos romances
de cavalaria, ver o filho, assim que é capaz de pegar em armas e de usar armadura, deixar a casa paterna para correr
o mundo ou para servir ao suserano.
 
A noção familiar, assim entendida, tem uma base material: o bem de família: bem fundiário em geral, pois a terra
constitui, no início da Idade Média, a única fonte de riqueza, permanecendo em seguida como o bem estável por
excelência. «Herança não se pode mover, mas os móveis podem desaparecer», dizia-se então. Este bem familiar,
seja ele as terras de um servo ou os domínios senhoriais, permanece sempre propriedade da linhagem. Ele é
impenhorável e inalienável; as dificuldades acidentais da família não podem prejudicá-lo. Ninguém pode arrancá-lo e
a família não tem o direito de vendê-lo ou de trocá-lo.
 
Com a morte do pai, este bem de família passa aos herdeiros diretos. Tratando-se de um feudo nobre, o mais velho
fica com quase tudo, pois é preciso um homem, e um homem amadurecido pela experiência, para manter e
defender os domínios; esta é a razão do direito de primogenitura, consagrado pela maioria dos costumes. Para os
bens dos que não são nobres, o uso varia de acordo com a província: às vezes a herança é dividida, mas em geral é o
filho mais velho que sucede. Lembremos que até aqui só falamos da herança principal, do bem de família; os outros
são, segundo as necessidades, divididos pelos filhos mais moços, mas é ao mais velho que cabe a casa sede, com
extensões de terra suficientes para que possa viver, ele e sua família. E é justo, pois quase sempre é o filho mais
velho quem ajudou o pai, sendo aquele que, depois  do pai, mais contribuiu para a manutenção e defesa do
patrimônio. Em algumas províncias, como na Hainaut, na Artois, na Picardia e em partes da Bretanha, será o mais
moço, e não  o mais velho, quem sucederá ao pai como herdeiro principal, e ainda aqui, por uma razão de direito
natural: em geral, o mais velho se casa primeiro e vai se estabelecer por conta própria, enquanto que o mais moço
fica mais tempo com seus pais, cuidando deles em sua velhice. Este direito do mais moço mostra bem a
maleabilidade e a diversidade dos costumes, que se adaptam aos hábitos familiares, seguindo as condições de
existência.
 
De qualquer forma, o que devemos assinalar neste sistema de herança dos bens, é que eles passam a um herdeiro
único, o qual é designado pelo sangue. «Não há herança por testamento», diz-se em direito consuetudinário (dos
costumes). Na transmissão do bem familiar a vontade do  testamentário não interfere. Na morte de um pai de
família, seu sucessor natural entra de pleno direito em possessão do patrimônio: «Le mort saisit le vif» 4, dizia-se
ainda na linguagem medieval, que possuía o segredo das expressões marcantes. É a morte do pai que dá ao sucessor
seu título de propriedade, que o põe em saisine, ou seja, em possessão legal da herança, do uso de sua terra; o
homem de leis não tem nada a fazer aí, como acontece hoje. Se os costumes variam segundo o lugar, tornando
herdeiro natural, aqui ao mais velho, lá ao mais moço; se a maneira como sobrinhos e sobrinhas podem pretender à
sucessão quando falta herdeiro direto varia segundo a província, ao menos uma regra é constante: só se recebe
herança em virtude dos laços naturais que lhe unem ao defunto. Isto quando se trata de bens imóveis; os
testamentos só existem para os bens móveis ou para as terras adquiridas durante a vida e que não fazem parte do
bem de família. Quando o herdeiro natural é notoriamente conhecido como indigno de seu encargo, ou quando não
tem cabeça para administrar um domínio, admite-se certas ponderações. Mas, em geral, a vontade humana não
interfere  contra a ordem natural das coisas. Não se faz instituição de um herdeiro, dizem os juristas
consuetudinários. Neste sentido se diz ainda, quando se fala da sucessão real: «Le roi est mort, vive le roi  — o rei
morreu, viva o rei». Não há nem interrupção nem vacância possível quando só a hereditariedade designa o sucessor.
Assim, a gestão do bem de família acha-se sempre assegurada. Todos os costumes visam a não deixar que se
enfraqueça o patrimônio. Por isso nunca havia mais de um herdeiro, pelo menos para os feudos nobres. Temia-se a
divisão que tira da terra sua capacidade de gerar bens; a divisão sempre provocou discussões e processos,
atrapalhando o cultivador e bloqueando o progresso material, pois para que o camponês aproveite dos progressos e
melhorias trazidas pela ciência ou pelo próprio trabalho, é necessário  um empreendimento de certa importância,
capaz inclusive de suportar os prejuízos parciais, e de qualquer forma, oferecer recursos variados. O grande domínio,
como existia na feudalidade, permitia uma exploração eficiente da terra, deixando-se periodicamente uma parte em
descanso, dando-lhe tempo de se renovar, e variando as culturas e mantendo-se entre elas proporção harmoniosa.
Assim, durante a Idade Média, a vida rural foi extraordinariamente ativa, e muitas culturas foram então introduzidas
na França.
 
Isto é devido, em boa parte, às facilidades que o sistema rural da época oferecia ao espírito de iniciativa de nossa
raça. O camponês desta época não é nem um retardatário nem um acostumado. A unidade, a estabilidade do
domínio eram garantias para o futuro como para o presente, porque favoreciam a continuidade do esforço familiar.
Hoje, quando se está diante de vários herdeiros, desmembra-se os fundos e realiza-se diversas negociações para que
um deles possa retomar a empresa paternal. A exploração da empresa cessa com o indivíduo. Ora, o indivíduo passa
e o lar permanece. Na Idade Média havia a tendência a permanecer. Se existe uma palavra significativa na
terminologia medieval ela é: manoir  (casa), lugar onde se permanece, manere em latim – o nó que amarra a
linhagem, o teto que abriga seus membros, passados e presentes, e que permite às gerações de sobreviver
pacificamente.
 
Outro bem característico é a medida agrária chamada manse: extensão de terra suficiente para que uma família
possa se fixar e viver. Ela variava naturalmente segundo as regiões: na Normandia ou na Gascogne de terras férteis 
um pequeno sítio de terras produz mais ao cultivador que vastas terras da Bretanha ou do Forez; a manse tem um
valor variável de acordo com o clima, qualidade do solo e condições de existência. É uma medida empírica e
essencialmente familiar, não individual. Ela resume perfeitamente a característica mais marcante da sociedade
medieval5.
 
Assegurar para a família uma base fixa, firmá-la no solo, como que criando raízes, frutificá-la e perpetuá-la, esta é a
finalidade de nossos antigos. Se é possível fazer negócios com as riquezas móveis, dispô-las em testamento, é que
elas são essencialmente cambiáveis e pouco estáveis; ao contrário, o bem fundiário, propriedade familiar, é
inalienável. O homem é apenas seu protetor, tem dela o usufruto; o verdadeiro proprietário é a linhagem.
 
São muitos os costumes medievais que vêm desta preocupação de proteger o bem de família. Quando faltam
herdeiros diretos, os bens de origem paterna voltam à família do pai, e os bens de origem materna voltam à família
da mãe, enquanto que em direito romano só era reconhecido o laço do lado masculino. Essa divisão era
chamada fente  (fenda), que dividia pelas origens os bens de uma família extinta. Também a chamada retração de
linhagem dava aos parentes afastados a precedência, quando um domínio era vendido. A guarda de uma criança
órfã era também organizada por uma legislação familiar. A tutela era exercida por toda a família, enquanto que o
grau de parentesco designava naturalmente aquele que devia administrar os bens da criança, sendo assim seu tutor.
O atual Conselho de família é o que restou do costume medieval sobre transações dos feudos e da guarda das
crianças.
 
Aliás, a Idade Média tem sempre grande preocupação em respeitar o desenrolar natural das coisas, sem criar
rupturas no caminho do bem de família. Quando os representantes de uma família morrem sem herdeiros antes de
se pensar em devolver os bens às respectivas famílias de origem, procura-se os parentes afastados, primos,
sobrinhos netos: «Bens de família não voltam atrás». Isso vem do desejo de se respeitar a ordem normal da vida,
que se transmite do mais velho para o mais moço, sem voltar atrás: os rios não voltam para sua fonte, assim os
elementos da vida devem alimentar os representantes da juventude, do futuro. É aliás mais uma garantia para o
bem da linhagem quando ele vai necessariamente para os mais moços, mais ativos e capazes de frutificá-los por mais
tempo.
 
Às vezes a devolução dos bens se realiza de uma forma que revela bem o sentimento familiar que é a grande força
da Idade Média. A família constitui uma verdadeira personalidade moral e jurídica, possuindo em comum os bens
administrados pelo pai; quando este morre, a comunidade se refaz na conduta de um dos seus, designado pelo
sangue, sem que tenha havido interrupção da possessão dos bens nem transmissão alguma. É a
chamada comunidade tácita da qual participam todos os membros da casa que não tenham sido expressamente
colocados fora da comunhão familiar (hors de pain et pot). Este costume subsistiu até o fim do Antigo Regime6  e se
sabe de algumas famílias francesas que durante séculos nunca tinham pago nenhuma taxa de sucessão. O jurista
Dupin assinala, em 1840, a família Jault que desde o século XIV nunca havia pago sucessão.
 
De qualquer forma, mesmo fora da comunidade tácita, a família, considerada no seu prolongamento através das
gerações, é o verdadeiro proprietário do bem patrimonial. O pai de família que recebeu este bem de seus ancestrais,
deve contas aos seus descendentes; que ele seja servo ou senhor, ele nunca é o dono absoluto, tendo ainda o dever
de defender, de proteger e  de melhorar a sorte de todos, seres e coisas, dos quais ele foi constituído guarda natural.
 
***
 
E assim se formou a França, obra de milhares de famílias, obstinadamente fixadas ao solo, no tempo e no espaço.
Francos, Burgondos, Normandos, Visigodos, todos estes povos errantes cuja massa instável faz da Alta Idade Média
um caos tão impressionante, formam, a partir do século X, uma nação, solidamente  ligada à sua terra, unida por
laços mais fortes que qualquer federação conhecida dos homens. O esforço renovado destas famílias microscópicas
havia originado uma vasta família, um macrocosmo, cuja linhagem capetiana, que conduziu gloriosamente o destino
da França, de pai para filho, durante mais de três séculos, simboliza maravilhosamente a dignidade. Seguramente
trata-se dos mais belos espetáculos oferecidos pela História, esta família se sucedendo como nossos chefes, em linha
direta, sem interrupção ou quedas, durante mais de trezentos anos, um tempo igual ao decorrido entre a coroação
de Henrique IV e a guerra de 1940...
 
Mas o que devemos compreender é que a história dos capetianos diretos é apenas a história de uma família francesa
entre milhares de outras. Esta vitalidade, esta persistência sobre nosso solo, está presente em todos os lares de
França de modo semelhante, salvo acidentes ou acasos  inevitáveis na existência. A Idade Média, saída da incerteza
e do desespero, da guerra e das invasões, foi uma época de estabilidade, de permanência, no sentido etimológico do
termo.
 
Foram suas instituições familiares, como estão expostas no nosso direito consuetudinário, que proporcionaram esta
estabilidade. Elas conciliam o máximo de independência individual e o  máximo de segurança. Cada indivíduo
encontra em sua casa a ajuda matéria, nos laços familiares a proteção moral de que pode  necessitar; ao mesmo
tempo, desde que ele sabe se cuidar ele está livre para desenvolver sua iniciativa, fazer sua vida: nada contraria a
expansão de sua personalidade. Mesmo os laços que o ligam ao lar paterno, a seu passado, a suas tradições, nunca
serão obstáculos. A vida recomeça para ele como que por inteiro, assim como, biologicamente, ela é nova e inteira
para um ser que vem ao mundo – ela é como a experiência pessoal, tesouro incomunicável que cada um deve
construir para si e que só tem valor na medida em que nos é própria.
 
É evidente que tal concepção da família basta para dar todo um dinamismo e solidez a uma nação. A aventura de
Roberto Guiscard e seus irmãos, mais moços de uma família normanda muito pobre e muito numerosa, que emigra e
chega a ser o rei da Sicília, fundando aí uma dinastia poderosa, é tipicamente uma história medieval, feita toda de
coragem, de sentimentos familiares e de fecundidade. O direito consuetudinário, que fez a força de nosso país, se
opunha diretamente, neste ponto, ao direito romano, no qual a coesão da família só se mantém pela autoridade do
chefe, enquanto que todos os seus membros lhe são submissos por toda a vida, através de rigorosa disciplina:
concepção militar, estatal, baseada numa ideologia de legistas e funcionários públicos, e não no direito natural. A
família nórdica já foi comparada a uma colméia que enxameia periodicamente, multiplicando-se e renovando as
áreas de floração, enquanto que a família romana seria uma colméia que nunca enxameasse. A família forjada pelos
costumes formava pioneiros e homens empreendedores, mas a família romana formava militares, administradores e
funcionários.
 
É curioso seguir ao longo dos séculos a história de povos formados por diferentes disciplinas para constatar os
diferentes resultados obtidos. A expansão romana foi militar, política e não étnica; os romanos conquistaram seu
império pelas armas e o conservaram por seus burocratas; este império só se manteve enquanto soldados e
funcionários puderam vigiá-lo facilmente. Mas a desproporção entre as fronteiras e a centralização do poder,
finalidade ideal e conseqüência inevitável do direito romano, só fazia aumentar: o império romano desfazia-se
sozinho, devido às suas próprias instituições, quando a força das invasões bárbaras veio lhe dar o golpe de
misericórdia.
 
Por outro lado temos o exemplo das raças anglo-saxãs. Seus costumes familiares eram idênticos aos nossos durante
toda a  Idade Média, com a diferença que eles os conservaram. Isso explica, sem dúvida, sua prodigiosa expansão
pelo mundo. O que forma um império são as ondas de exploradores, pioneiros, mercadores, aventureiros que tudo
arriscavam, deixando seus lares para tentar fortuna, sem esquecer sua terra natal e as tradições de seus pais.
 
Já os países germânicos, que nos forneceram grande parte dos costumes adotados na Idade Média, impuseram-se
desde cedo o direito romano. Seus imperadores quiseram retomar as tradições do Império do Ocidente, e julgaram
que para unificar as vastas terras a eles submissas o direito romano lhes dava um bom instrumento de centralização.
Desde o fim do século XIV ele era a lei comum do Santo Império 7, enquanto que na França, por exemplo, ele só será
ensinado na Universidade de Paris a partir de 1679. Isso explica por quê a expansão germânica foi mais militar do
que étnica.
 
Enquanto isso, a França era construída sobre o direito consuetudinário. É verdade que costuma-se falar do sul
do Loire e do vale do Rhône8 como região de direito escrito, ou seja, de direito romano, mas isso quer dizer que os
costumes destas províncias se inspiravam na lei romana, não que o código Justiniano estivesse aí em vigor. Durante
toda a Idade Média a França conservou intactas seus costumes familiares, suas tradições domésticas. Somente a
partir do século XVI que nossas instituições, pela influência de legistas, evoluem num sentido cada vez mais «latino».
É uma transformação que se realiza lentamente, aparecendo no início em pequenas modificações: a maioridade
passa aos vinte e cinco anos, como na Roma antiga, onde a criança, mantendo em relação a seu pai perpétua
menoridade, não sofria maiores inconvenientes se a maioridade civil viesse tarde.
 
Ao casamento, considerado até então como sacramento, como adesão de duas vontades livres para a realização de
suas finalidades, acrescenta-se  a noção de contrato, acordo puramente humano, baseado em estipulações
materiais9. A família francesa passa a se modelar sobre um tipo estatal que ela nunca tinha conhecido, e assim como
o pai de família vai concentrar em suas mãos todo o poder familiar, assim também o Estado caminha para uma
Monarquia absoluta10.  Apesar das aparências, a Revolução Francesa (1789) não foi um começo, mas um fim de
linha: resultado da evolução de dois ou três séculos, ela representa o estabelecimento definitivo em nosso meio da
lei romana, em prejuízo dos costumes; Napoleão só fez consolidar sua obra instituindo o Código Civil e organizando o
exército, o ensino, a nação inteira, pelo ideal de funcionários da Roma antiga.
 

Podemos, além disso, perguntar se o direito romano, apesar de todos os seus méritos, convinha ao gênio próprio de
nossa raça, ao caráter do nosso solo. Este conjunto de leis, todo ele forjado por militares e legistas, esta criação
doutrinária, teórica, rígida, podia ela ser colocada no lugar de nossos costumes, elaborados pela experiência de
gerações lentamente moldadas na medida de nossas necessidades? – Nossos costumes que eram apenas nossa
educação, constatada e formulada juridicamente, os usos de cada um, ou melhor, de cada grupo ao qual cada um
pertencia. O direito romano fora concebido para um Estado urbano, não para um país rural. Falar da Antigüidade é
lembrar Roma ou Bizâncio; para relembrar a França medieval não falamos de Paris, mas sim de Île-de-France, nem
de Bordéus, mas da Guyanna, nem de Rouen, mas da Normandia. Só podemos considera-la em suas províncias de
solo fértil, do bom trigo e bom vinho. É significativo ver, na Revolução Francesa, aquele que era o manant (o
permanente) passar a ser o cidadão: palavra que nos evoca outra — cidade. É coerente até, visto que a cidade vai
passar a ser a potência política, logo a principal potência, pois, tendo desaparecido o costume, tudo devia depender
das leis. As novas divisões administrativas da França, seus departamentos, todos eles concebidos em volta de uma
grande cidade, sem considerar o tipo de solo dos campos adjacentes, manifesta bem esta evolução do estado de
espírito.

A vida familiar, a partir da Revolução, estará tão enfraquecida que verá se estabelecer instituições tais como o
divórcio, a alienação do patrimônio ou as leis modernas de herança. As liberdades privadas, tão defendidas outrora,
desapareceram diante de uma concepção de um Estado centralizado sobre o modelo romano. Talvez  devêssemos
procurar aí a origem de problemas que apareceram mais tarde com tanta força: problemas da infância, da educação,
da família, da natalidade — que não existiam na Idade Média porque a família era então uma realidade, com base
material e moral 11, e com as liberdades necessárias para sua existência. 
Lumières du Moyen-Age, Editions  Grasset, Paris, 1944, cap.1. 
Tradução de Permanência)

1. 1. feux, foyer = lar, família

2. 2. Alta Idade Média - Primeiros séculos decorridos após a  queda do Império Romano, marcados pelas
invasões bárbaras.

3. 3. Burgueses - habitantes dos vilarejos ou burgos.

4. 4. Le mort saisit le vif - literalmente: o morto prende, segura, o vivo. Na verdade esta expressão é um
trocadilho com a palavra saisine, que tem a mesma origem, mas tem o significado jurídico explicado pela
autora.

5. 5. Aqui no Brasil, a medida agrária do alqueire baseia-se no mesmo princípio, sem a conotação familiar. O
alqueire é a área de terra onde se recolhe tantos litros de trigo, ou milho, variando esta medida segundo a
região.

6. 6. A Revolução Francesa, iniciada em 1789, derruba a monarquia e estabelece um novo regime na França.

7. 7. Santo Império

8. 8. Dois importantes rios franceses.

9. 9. Infelizmente o autor aqui mistura tudo: 1. Se nesta época aparece a noção de contrato no casamento, isto
não quer dizer que ele deixe de ser considerado sacramento. 2. O casamento nunca foi considerado apenas
como a união de duas vontades livres para realizarem seus fins. Antes de mais nada essa união visa o
nascimento e educação dos filhos, justamente o bem de família que ela tanto exalta neste capítulo, só que
visto aqui do seu espiritual. 3. Contrato sim, mas contrato realizado solenemente diante de Deus e de sua
Igreja. Se existem aspectos materiais a serem definidos, e o próprio tipo de sociedade que o autor descreve
obriga a isso, a Igreja sempre ensinou também que o casamento é um consentimento mútuo, ou seja, um
contrato.

10. 10. A evolução do direito de propriedade caracteriza bem isso: ele é cada vez mais absoluto e individual. Os
últimos traços de propriedade coletiva desapareceram no século XIX com a abolição do direito de uso. (nota
do autor)

11. 11. E religiosa. (N. da Permanência.)

12.  

13.  http://permanencia.org.br/drupal/node/1989

Cap.8 O ensino na Idade Média


Como em todas as épocas, a criança da Idade Média vai à escola. Em geral, à escola da paróquia ou do mosteiro
próximo. Com efeito, todas as igrejas possuem uma escola. O Concílio do Latrão, em 1179, torna essa obra
obrigatória, e é comum ainda hoje, na Inglaterra, país mais conservador que o nosso, encontrar reunidas igreja,
escola e cemitério. Acontecia também do ensino ser assegurado por fundações senhoriais. Rosny, vilarejo das
margens do Sena, tinha, desde o início do século XIII, uma escola fundada em 1200 pelo senhor local, Guy V
Mauvoisin. Às vezes trata-se também de escolas simplesmente privadas: os habitantes de uma propriedade se
associam para pagar um mestre encarregado do ensino das crianças. Um pequeno texto engraçado nos conservou a
petição de alguns pais pedindo a dispensa de um professor que, não tendo conquistado o respeito de seus alunos,
chega a ser por eles espetado com os estiletes, com os quais se escrevia em tabuinhas cobertas de cêra – eum
pugiunt grafionibus.

Mas os privilegiados são, evidentemente, os que podem freqüentar as escolas episcopais ou monásticas, ou ainda as
capitulares, pois os capítulos das catedrais estavam também submetidos à obrigação de ensinar, pelo mesmo
Concílio do Latrão 1. Algumas delas adquirem, na Idade Média, um brilho particular, como a de Chartres, de Lyon, ou
de Le Mans, onde os alunos ensinavam tragédias antigas; a de Lisieux, onde, no início do século XII, o próprio bispo
gostava de vir ensinar; a de Cambrai, da qual um texto citado pelo erudito Pithou nos faz saber que foram
estabelecidas para o bem do povo na gerência de seus negócios temporais.

As escolas monásticas tiveram, talvez, mais fama ainda, e os nomes de  Bec, de Fleury-sur-Loire, onde foi educado o
rei Roberto o Piedoso, de Saint-Géraud d'Aurillac, onde Gerbert aprendeu os primeiros rudimentos das ciências que
iria elevar a tão alta perfeição, vêm naturalmente à lembrança, como ainda a de Marmoutier, perto de Tours,  de
Saint-Bénigne, de Dijon, etc. Em Paris encontra-se, desde o século XII, três séries de estabelecimentos escolares: a
Escola Notre-Dame, ou grupo de escolas do bispado, cujo cantor da scola assume a direção para as classes menores
e o chanceler do bispado para as classes avançadas; as escolas das abadias como Sainte-Geneviève, Saint-Victor ou
Saint-Germain des Prés; e as instituições particulares abertas por mestres que obtiveram licença para ensinar, como
Abelardo.

A criança era admitida com sete ou oito anos, prolongando-se os estudos preparatórios para a Universidade por
cerca de dez anos, como hoje. São os dados registrados pelo Pe. Gilles Muisit. Os meninos estudavam separados das
meninas que, em geral, tinham escolas à parte, em menor número, talvez, mas onde os estudos eram, em muitos
casos, de nível elevado. A abadia de Argenteuil, onde foi educada Heloisa, ensinava às meninas as Sagradas
Escrituras, letras, medicina e até cirurgia, sem falar no grego e hebreu ensinados aí por Abelardo. Em geral, as
pequenas escolas davam a seus alunos noções de gramática, aritmética, geometria, música, teologia, que lhes
permitia alcançar os estudos universitários. Parece também que algumas davam também algum estudo técnico.
A Histoire Literaire cita, por exemplo, a escola de Vassor, na dioceses de Metz, onde, além de aprender as Sagradas
Escrituras e as letras, trabalhava-se o ouro, a prata e o cobre2. Os mestres eram quase sempre ajudados pelos mais
velhos e pelos melhores alunos, como acontece ainda hoje no «ensino mútuo»:  

C'étoit ce belle chose de plenté d'écoliers:    Como era bonito todos aqueles escolares

Ils manoient ensemble par loges, par soliers,      Juntos em suas classes, nas salas

Enfants de riches hommes et enfants de toiliers      Filhos de ricos com filhos de pobres

 Quem escreve isso é Gilles le Muisit, em suas lembranças de infância; de fato, nesta época, as crianças de todas as
«classes» da sociedade eram instruídas juntas, como mostra a célebre história de Carlos Magno castigando os filhos
dos barões que eram preguiçosos, ao contrário dos filhos de servos e dos pobres. A única distinção estabelecida era
no custo do ensino, sendo ele gratuito para os pobres e pago para os ricos. A isenção de taxa de estudo podia
prolongar-se por toda a duração da época escolar, incluindo o acesso ao mestrado, como mostra o Concílio do
Latrão, já citado, que proibia aos dirigentes das escolas de «exigir dos candidatos ao professorado remuneração para
conceder a licença».

 Aliás, na Idade Média, quase não há diferenças na educação das crianças de diversas condições. O filho de qualquer
pequeno vassalo são educados na sede senhorial com os filhos do suserano; os dos ricos burgueses passam pelo
mesmo aprendizado que os do último artesão, se pretendem assumir um dia a loja paterna. É por isso, sem dúvida,
que se multiplicam os exemplos de grandes personagens saídos de famílias humildes: Suger, que governou a França
durante a Cruzada de Luiz VII, é filho de servo; Maurice de Sully, bispo de Paris que fez  construir Notre-Dame, era
nascido de um mendigo; São Pedro Damião, em sua infância, cuidava de porcos, e uma das mais brilhantes luzes da
ciência medieval, Gerbert d'Aurillac, também era pastor; o Papa Urbano VI era filho de um pequeno sapateiro de
Troyes, e  Gregório VII, o grande Papa da Idade Média, filho de um pastor de cabras.

 Por outro lado, muitos dos grandes senhores foram letrados e tiveram educação como a dos clérigos: Roberto o
Piedoso compunha  hinos e seqüências latinas; Guillaume IX, príncipe da Aquitania, foi o primeiro trovador
conhecido; Ricardo Coração de Leão nos deixou poemas, como também os senhores de Ussel, de Baux, e muitos
outros. Isso sem falar dos casos excepcionais, como o do rei de Espanha, Alfonso X, o Astrônomo, que escreveu
poesias, obras de Direito, estabeleceu progresso notável nas ciências astronômicas da época, redigindo suas Tábuas
Alfonsianas, deixando também vasta crônica sobre as origens da História da Espanha e uma compilação de Direito
Canônico e de Direito Romano que formaram o primeiro Código de Direito de seu país.

 Os alunos mais capazes seguem, naturalmente, para a Universidade. Eles a escolhem segundo sua especialidade. Em
Montpellier, medicina: desde 1181, Guilheme VII, senhor da cidade, conferiu a qualquer pessoa, de qualquer lugar
que viesse, a liberdade de ensinar esta arte, desde que apresentasse garantias de seu saber. Orléans se especializou
em Direito Canônico, como Bolonha em Direito Romano. Mas já então, nada se comparava com Paris, onde o ensino
das artes liberais e da teologia atraía estudantes de todos os lugares: Alemanha, Itália, Inglaterra, e até da Dinamarca
e Noruega.

 Estas Universidades são invenções eclesiásticas, como que a continuação das escolas episcopais, com a diferença
que elas dependerão diretamente do Papa, e não do bispo local. A bula Parens Scientiarum de Gregório IX, pode ser
considerada como a ata de fundação da Universidade medieval, com seus regulamentos estabelecidos em 1215 pelo
cardeal legado Robert de Courçon, agindo em nome de Inocêncio III, e que reconhecem aos mestres e estudantes o
direito de associação. Criada pelo papado, a Universidade tem características inteiramente eclesiásticas:  os
professores pertencem todos à Igreja, e as duas grandes Ordens religiosas que a iluminam no século XIII,
Franciscanos e Dominicanos, conhecerão aí grandes glórias, com um São Boaventura e um São Tomás de Aquino.

 Todos os alunos  são chamados clérigos, mesmo quando não se destinam ao sacerdócio, e alguns recebem a
tonsura. Mas isso não significa que só se ensinava a teologia, pois os programas incluem todas as grandes disciplinas
científicas e filosóficas, gramática, dialética, além da música e geometria.

 Esta «universidade» de mestres e alunos forma uma sociedade autônoma. Philippe-Augusto, desde 1200, retira seus
membros da jurisdição civil – o que quer dizer, dos próprios tribunais reais. Mestres, alunos e mesmo domésticos da
Universidade ficam submetidos aos tribunais eclesiásticos, o que é considerado como privilégio e consagra a
autonomia desta corporação de elite. Mestres e estudantes ficam assim isentos de obrigações para com o poder
central; eles próprios administram a Universidade, tomam em comum as decisões e gerenciam a caixa, sem
nenhuma intromissão do Estado. Esta é a característica fundamental da Universidade medieval e certamente a que
mais a distingue da atual.

Esta liberdade favorece, entre as diversas cidades, uma concorrência difícil de se imaginar hoje. Durante anos, os
mestres de Direito Canônico de Orléans disputam com os de Paris para conquistar seus alunos. Os registros da
Faculdade de Decreto, publicados na Coleção de Documentos Inéditos, estão cheios de queixas contra os estudantes
parisienses que vão à Orléans para colar grau, pois os exames eram mais fáceis. Ameaças, expulsões, processos, de
nada adiantam, e as brigas prolongam-se sem fim. Concorrência também de professores, uns muito estimados,
outros menos; teses discutidas apaixonadamente, com os estudantes formando facções que chegam até a greves. A
Universidade, muito mais do que em nossos dias, era, na Idade Média, um mundo agitado.

E um mundo cosmopolita: as quatro «nações» que dividem os clérigos parisienses mostram isso claramente: havia
os picards, os ingleses, os alemães e os franceses. Os estudantes vindos de cada um desses lugares eram então
bastante numerosos para formar um grupo autônomo, com representantes e atividades próprias. Encontram-se
também nos registros nomes italianos, dinamarqueses, húngaros e outros. Os professores que ensinam vêm,
também, de todas as partes do mundo: Siger de Brabant, Jean de Salisbury têm nomes significativos. Santo Alberto
Magno vem da Renânia, São Tomás de Aquino e São Boaventura, da Itália. Não há neste tempo obstáculos à troca de
idéias, e julga-se um mestre apenas pela extensão de seu saber. Este mundo tão variado possui uma língua comum,
a única falada na Universidade: o latim. Sem o latim ela seria uma Torre de Babel. O uso do latim facilita as relações,
permite as comunicações entre os mestres de um lado ao outro da Europa, dissipa de antemão qualquer confusão
de expressão, protegendo assim a unidade de pensamento. Os problemas que apaixonam os filósofos são os
mesmos, em Paris, em Edimburgo, em Oxford, em Colônia ou em Pádua, apesar de cada um desses centros e cada
personalidade imprimir seu caráter próprio. Tomás de Aquino, vindo da Itália, termina, em Paris, de clarificar e
consolidar uma doutrina cujas bases estabelecera nas aulas de Alberto Magno, em Colônia. A Sorbonne do século
XIII nada tem de fechada. Gilles le Muisit resume assim a vida dos estudantes: 

Clercs viennent à études de toutes nations  De todas as nações chegam os clérigos estudantes

Et  en hiver s'assemblent par plusieurs légions. Que se reúnem no inverno em várias legiões

On leur lit et ils oient pour leur instruction; Lêem e eles escutam para sua instrução

En été s'en retraient moult en leurs régions,  E no verão se retiram para suas regiões

De fato, o vai-vem é contínuo. Eles partem para a Universidade que escolheram, voltam para casa nas férias, viajam
para assistir as lições de um mestre de renome ou estudar uma matéria numa cidade nela especializada. Já
mencionamos as «fugas» dos candidatos aos exames de Direito Canônico para Orleans; isto se repete
constantemente e, às vezes, entre cidades muito distantes. Estudantes e professores são habituados às grandes
viagens: a cavalo e mesmo a pé, percorrem léguas e léguas, dormindo em granjas ou em hospedarias. Com os
peregrinos e os comerciantes, são os que mais contribuem para a extraordinária animação que reina nas estradas na
Idade Média, só reencontradas no século do automóvel, ou melhor, depois da aparição dos esportes ao ar livre. O
mundo letrado era então um mundo itinerante. Era a tal ponto que, para alguns, o movimento passa a ser uma
necessidade, uma mania: encontramos hoje, no Quartier Latin, estes velhos estudantes boêmios que nunca
conseguiram voltar à vida normal nem usar os estudos, dos quais carregam o peso durante anos. Na Idade Média,
esta espécie de  indivíduo corria as estradas: era o clérigo vagabundo ou goliard, tipo bem medieval, inseparável do
«clima» da época: entregue às tabernas e às mulheres, vai de um cabaré ao outro, procurando comida e
principalmente um bom copo de vinho; frequenta os lugares ruins, conserva restos de saber, que usa para causar a
admiração dos simples, para quem recita versos de Horácio ou pedaços das canções de gesta; inicia, levado pelos
encontros ocasionais, discussões de teologia, e acaba se perdendo na multidão de trovadores, de vadios e
vagabundos, quando não é enforcado por algum crime. Suas canções se espalharam pela Europa, e o mundo
estudantil conhece ainda algumas destas canções:

Meum est propositum in taberna mori, O que quero é na taberna morrer

Vinum sit appositum morientis ori, Com o vinho derramado na  minha boca

Ut dicant cum venerint angelorum chori: Para que digam quando vier ao côro dos anjos

Deus sit propitius huic potatori! Deus seja propício a este beberão!

A Igreja precisou intervir várias vezes contra estes clerici vagi que promoviam farras e preguiças no mundo
estudantil. Mas eles eram exceções. No conjunto, o estudante do século XIII não tinha uma vida muito diferente do
atual. Foram conservadas e publicadas cartas endereçadas aos pais ou a amigos 3  que revelam as mesmas
preocupações que hoje em dia, ou quase: os estudos, os pedidos de dinheiro e alimentação, as provas. O estudante
rico morava na cidade com seu valete; os de condição mais modesta ia em pensão na casa dos burgueses do bairro
de Sainte Geneviève, e pediam isenção de toda ou de parte das taxas de inscrição da Faculdade: encontramos
muitas vezes, na margem dos registros uma menção indicando que este ou aquele não pagou a inscrição, ou que
pagou só a metade, propter inopiam, por causa da pobreza. O estudante sem recursos faz pequenos trabalhos para
viver: é copista ou encadernador nas livrarias que têm suas lojas na rua das Escolas ou na rua Saint Jacques 4. Além
disso, ele pode ter suas refeições e moradia pagas nos colégios estabelecidos. O primeiro que existiu foi criado
no Hotel-Dieu (hospital) de Paris por um burguês de Londres que, retornando de uma peregrinação na Terra Santa,
no fim do século XII, teve a idéia de  fazer esta obra pia, favorecendo o aprendizado das pessoas modestas: ele
deixou uma fundação 5 perpétua com encargo de alojar e alimentar de graça dezoito estudantes pobres que
recebiam como única incumbência velar os mortos do hospital, cada um em seu turno, e carregar a cruz processional
e a água benta nos enterros. Um pouco depois, funda-se o colégio Saint Honoré, o de São Tomás do Louvre, e muitos
outros. Pouco a pouco, formou-se o hábito de se organizar nestes colégios sessões de estudo em conjunto, como
nos seminários alemães ou os «grupos de estudo» que funcionam nas nossas Faculdades de alguns anos para cá. Os
mestres passaram a vir dar algumas aulas, alguns até se estabeleceram aí, e aos poucos os colégios foram mais
freqüentados que as próprias Universidades, como foi o caso do colégio da Sorbonne. No conjunto, havia um
sistema de bolsas, não oficialmente organizado, mas de uso corrente, que lembrava a nossa Escola Normal
Superior,  sem a prova de admissão, ou ainda, ao que se pratica nas Universidades inglesas, onde o estudante
bolsista recebe gratuitamente, não apenas a instrução, mas ainda casa, comida e, às vezes, as roupas. 

O ensino é feito em latim e se divide em dois cursos: o trivium ou artes liberais (gramática, retórica e lógica) e
o quadrivium ou ciências (aritmética, geometria, música e astronomia), o que, com as três faculdades de teologia,
direito e medicina, forma o ciclo de conhecimentos. Como  método é utilizado principalmente o comentário: é lido
um texto, os Etymologies de Isidoro de Sevilha, asSentenças de Pedro Lombardo, um tratado de Aristóteles ou de
Sêneca, segundo a  matéria ensinada, e esse texto é analisado com todos os comentários que podem ser feitos, do
ponto de vista gramatical, jurídico, filosófico, lingüístico, etc. Um ensinamento sobretudo oral, dando larga parte à
discussão, com as Questiones disputate,  questões na ordem do dia, tratadas e discutidas pelos candidatos à licença,
diante de um auditório de mestres e alunos, que muitas vezes deram origem a tratados completos de teologia ou
filosofia, ou ainda certas Glosas célebres, postas  por escrito, que eram também comentadas e explicadas durante os
cursos. As  teses sustentadas pelos candidatos ao doutorado não eram simples exposições escritas, mas
verdadeiramente teses, emitidas e sustentadas diante de todo um anfiteatro de doutores e mestres, onde
qualquer assistente podia tomar a palavra e apresentar suas objeções. 

Como se vê, este ensino é apresentado de forma sintética, cada curso tendo um lugar próprio em relação ao
conjunto, onde ele adquire  seu valor real, correspondente a sua importância para o pensamento humano. Por
exemplo, hoje em dia existe equivalência entre uma licença de filosofia e a licença de  espanhol ou de inglês, apesar
de haver muita diferença na  formação desses dois tipos de disciplina. Na Idade Média pode-se ser mestre em
filosofia, teologia ou direito – ou mestre ès-arts, o que implica o estudo do conjunto ou do essencial do
conhecimento relativo ao homem, o triviumrepresentando as ciências do espírito, e o  quadrivium as do corpo e dos
números que o regem. Toda a série de estudos, portanto, procura transmitir uma cultura geral, e só se especializa ao
sair da Faculdade. Isso explica o caráter enciclopédico de sábios e letrados da época: um Roger Bacon, um Jean de
Salisbury, um Alberto Magno, possuíam realmente todo o conhecimento da época e podiam se entregar sem medo,
em rodízio, aos assuntos os mais diversos, sem medo de digressões, pois sua visão de base é uma visão de conjunto.

Depois das sessões de trabalho na Faculdade ou no Colégio, o estudante medieval é um esportista, capaz de
percorrer etapas de várias léguas e também – os anais da época se lamentam disso com freqüência – de manejar a
espada. As vezes estouram rixas nessa população agitada, nas proximidades de Sainte Geneviève ou de Saint-
Germain-des-Prés, e foi por saber usar muito bem sua arma que François Villon 6 teve que deixar Paris. Os exercícios
físicos lhes são tão familiares quanto as bibliotecas e, mais ainda que em outros corpos de ofícios 7, sua vida é
repleta de festas e diversões que alegram o Quartier Latin. Sem falar da Festa dos Loucos e da Festa dos Bobos, que
são ocasiões excepcionais, toda recepção de doutorado era seguida de cerimônias cômicas em paródias, onde
mesmo os graves mestres de Sorbonne tomavam parte. Ambrósio de Cambrai, que foi chanceler da Faculdade de
Direito Canônico, representou seu papel e nos deixou a narração nos Anais detalhados que escreveu. Um ser assim
formado estava pronto para a ação como para a reflexão, o que sem dúvida explica como nessa época as
personalidades se adaptavam às situações as mais diversas, conseguindo bom resultado: prelados combatentes,
como Guillaume des Barres ou Guérin de Senlis, na Batalha de Bouvines, juristas capazes de organizar a defesa de
um castelo, como Jean d'Ibelin, senhor de Beyrouth, mercadores exploradores, ascetas construtores, etc.

Aliás, a Universidade foi o grande orgulho da Idade Média; os  Papas elogiam este «rio de ciência que, por seus
múltiplos afluentes, banham e fecundam o terreno da Igreja universal»; assinala-se com satisfação que, em Paris, é
tal o número de estudantes que ultrapassa o de habitantes 8. Todos são indulgentes para com eles, apesar de suas
«irreverências» e brincadeiras, que às vezes incomodam os burgueses; eles gozam a simpatia geral. Algumas cenas
de suas vidas foram esculpidas no portal Saint Etienne, de Notre-Dame de Paris: ei-los lendo e estudando, quando
uma mulher vem lhes perturbar a leitura e, para a punir, é amarrada no pelourinho por ordem da autoridade. Os reis
dão o exemplo dessa maneira de tratar os estudantes, como acontece com Philippe-Augusto que, após a vitória de
Bouvines, envia um de seus mensageiros anunciar a vitória, em primeiro lugar, aos estudantes de Paris9.

Tudo o que é relativo ao saber era, assim, reverenciado, na Idade Média. «A deshonneur meurt à bon droit qui
n'aime livre – quem não ama os livros morre na desonra», dizia um provérbio 10; e basta olhar os textos para
encontrar as provas de  que todo amor pela ciência era encorajado e alimentado.  Citemos, entre outras, a criação,
em 1215, de uma cadeira de teologia, em Paris, especial para permitir aos padres da diocese de aperfeiçoar e
completar seus estudos, o que mostra a preocupação em manter um alto grau de instrução, mesmo no clero mais
humilde. O prud'homme, este tipo de homem completo que foi o ideal do século XIII, devia necessariamente ser
letrado:

Pour rimer, pour versifier,   Para rimar e versificar,

Pour une lettre bien dicter, Para uma carta bem ditar,

Si métier fut, pour bien écrire  E precisando escrever

Et en parchemin et en cire, No pergaminho ou na cêra,


Pour une chanson controuver11 Para compor uma canção

Diante disso, podemos nos perguntar se o povo era tão ignorante, na Idade Média, como se acredita em geral; ele
tinha ao seu alcance, incontestavelmente, os meios para se instruir, e a pobreza não era um obstáculo, visto que as
aulas podiam ser inteiramente grátis, da escola do vilarejo, ou melhor, da paróquia, até a Universidade. E ele
aproveitava-se disso, pois são numerosos os exemplos de pessoas humildes que viraram grandes clérigos. 

Quer isso dizer que a instrução era tão generalizada quanto hoje? Parece claro que, neste ponto, houve um
malentendido: assimilou-se, mais ou menos, cultura a alfabetização. Para nós, um iletrado é fatalmente, um
ignorante. Ora, o número de iletrados era, sem dúvida, maior na Idade Média do que em nossa época12.  Mas, seria
justo esse ponto de vista? Pode-se fazer do conhecimento do alfabeto o critério da cultura? Do fato da educação ser
sobretudo visual, pode-se concluir que o homem só se educa pela visão?

Num capítulo dos Estatutos Municipais da cidade de Marselha, datado do século XIII, estão enumeradas as
qualidades de um bom advogado, e lê-se: litteratus vel non litteratus – que seja letrado ou não. Isso é importante:
pode-se, então, ser um bom advogado e não saber nem ler nem escrever –  conhecer o costume, o direito romano, o
manejo da linguagem, e ignorar o alfabeto. Essa noção é difícil de ser imaginada para nós, mas é capital para se
compreender a Idade Média: a instrução é feita mais pelo ouvido que pela leitura 13.  Por mais importância que se
dê aos livros ou aos escritos, estes têm lugar secundário; o papel principal cabe à palavra, ao verbo. E isso acontece
em todos os setores da vida: atualmente, qualquer funcionário escreve relatórios; na Idade Média, eles se
aconselhavam e deliberavam. Uma tese não era uma obra impressa, mas uma discussão; um negócio fechado não
era uma assinatura firmada ao pé de um escrito, mas a tradição manual (de um objeto simbólico, como um naco
de  terra na compra de um terreno) ou o engajamento verbal. Governar é se informar, pesquisar... e enviar os
arautos «gritarem» as decisões tomadas. 

Um elemento essencial da vida medieval foi a pregação. Pregar, nesta época, não era discursar em monólogos com
termos pré escolhidos, diante de um auditório silencioso e cativado. Pregava-se em toda parte, não apenas nas
igrejas, mas também nos mercados, nas feiras, nos cruzamentos das estradas – pregações vivas, cheias de fogo e de
fuga. O pregador se dirigia ao auditório, respondia suas perguntas, admitia suas contradições, seus rumores, suas
apóstrofes. Um sermão agia sobre a população, podia provocar, na hora, uma Cruzada,  propagar uma heresia,
causar uma revolta. O papel didático dos clérigos era imenso: eram eles que ensinavam aos fiéis sua história e suas
lendas, sua ciência e sua fé. Eles que anunciavam os grandes acontecimentos, que transmitiram, de um canto ao
outro da Europa a tomada de Jerusalém ou a perda de  Saint Jean d'Acre. Eles que aconselhavam a uns e guiavam os
outros, mesmo nos negócios profanos. Hoje, os que faltam de memória visual, mais automática, necessitando menos
do raciocínio que a memória auditiva, têm dificuldades nos estudos e na vida. Na Idade Média não era assim,
recebia-se a instrução escutando, e a palavra era de ouro.

Coisa curiosa, nossa época assiste à volta da  importância do verbo e o reaparecimento desse elemento auditivo que
se perdera. Podemos pensar que o rádio terá, para as gerações que virão, o papel que teve outrora a pregação;
desejamos, ao menos, que ele seja equivalente, no que toca a educação do povo.

É na  Idade Média que podemos ver realizado o termo «cultura latente». Todos, na época, têm um conhecimento,
pelo menos corrente, do latim falado, e canta o gregoriano, o que supõe, senão a ciência, ao menos o uso da
acentuação. Todos possuem uma cultura mitológica e legendária; ora, as fábulas e os contos falam mais sobre a
história da humanidade e sua natureza que boa parte das ciências inscritas nos programas oficiais das escolas. Nos
romances de ofícios publicados por Thomas Deloney, vemos os tecelãos citarem em suas canções Ulisses e
Penélope, Ariana e Teseu. Se chamaram os vitrais de «Bíblia dos iletrados», foi porque os ignorantes reconheciam aí
histórias que lhes eram familiares, realizando com toda simplicidade este trabalho de interpretação que tanto
atrapalha nossos arqueólogos!

Além disso, havia os conhecimentos técnicos que eram assimilados durante os anos de aprendizado. Nem arte, nem
ofício, eram improvisados: era preciso, para exercê-los bem, que eles se tornassem como que uma segunda
natureza; era assim, sem dúvida, que tantos artistas locais, para sempre perdidos no anonimato, puderam adquirir
esta destreza que aparece em obras como o Devoto Cristo, de Perpignan, ou a  Crucifixão, de Venasque. Pode-se
chamar de ignorante um homem que conhece tudo de sua arte, por mais humilde que seja? E devemos considerar
que, a estes conhecimentos do ofício vêm se juntar diversas tradições: o Compost des Bergiers, que uma feliz
curiosidade permitiu ser redescoberto, há pouco tempo, nos oferece um exemplo dessas pequenas Sumas do saber
tradicional: astronomia, medicina, botânica, meteorologia, que podia ser adquiridos dentro de cada ofício, variando
de um para outro, e que constituía a base de uma cultura certamente mais vasta e mais adaptada às necessidades
locais do que poderíamos  crer.

[Lumière du Moyen Age, Editions B. Grasset, Paris, 1944, cap. 8. Tradução PERMANÊNCIA]

1. 1. «Em cada diocese, escreve Luchaire, além das escolas rurais ou paroquiais que já existiam... os capítulos  e
os principais mosteiros tinham suas escolas, seus professores e alunos». (La Société Française au temps de
Philippe-Auguste, p.68).

2. 2. L.VII, cap.29, citado por J.Guiraud, Histoire partiale, histoire vraie,  p.348.

3. 3. Cf. Haskins, The life of medieval students as illustrated by their letters, in Americain historical review, III
(1892), nº 2.

4. 4. [N. da P.] Essas duas ruas existem ainda hoje e ficam próximas da famosa igreja de Saint Nicolas du
Chardonet, conquistada pelos tradicionalistas em 1977, ainda hoje um comovente reduto da verdadeira fé. 

5. 5. [N. da P.] Chama-se uma fundação um valor destinado a ser aplicado para  que os juros sejam usados em
determinadas obras. A Igreja aceita fundação de missas: um valor ou bem é doado, sendo estabelecido certo
número de missas anuais nas intenções.

6. 6. [N. da P.] François Villon (1431-1489) - Poeta francês de vida agitada, mas considerado por muitos como
principal responsável  pela formação da língua francesa. 

7. 7. Assinalemos que a Idade Média não conhece distância entre os ofícios manuais e as profissões liberais. Os
termos mostram bem isso: chama-se mestre tanto o tecelão que terminou seu aprendizado quanto o
estudante de teologia que obteve a licença.

8. 8. A afirmação não pode ser seguida ao pé da letra, mas não deixa de ser interessante saber que, na época, a
população de Paris somava quarenta mil habitantes.

9. 9. Com a experiência que já temos da vida medieval e do espírito dos seus homens, podemos compreender
que nada havia de demagogia nesta atitude do rei.

10. 10. Renart, Prov. franç., II, 99.

11. 11. Citado pela Histoire littéraire, t.XX.

12. 12. Apesar de serem menos do que se costuma dizer, pois a maioria das testemunhas que aparecem nos
atos de tabelião sabem assinar, sendo um exemplo, entre outros, o de Joana d'Arc, pequena camponesa
que, no entanto, sabia escrever.

13. 13. [N. da P.] É interessante saber que, nos mosteiros beneditinos, ainda hoje têm muita importância as
reuniões da comunidade, ou de parte da comunidade, para o que se chama de «conferência»: o abade, ou o
mestre de noviços, fala aos monges, os quais, imperceptivelmente, vão assimilando as verdades e os
costumes do mestre.

 http://permanencia.org.br/drupal/node/2113

Cap.6 As relações internacionais no Medievo


 Tal como existia, a Idade Média corria o risco de nunca conhecer o caos e a decomposição. Nascida de um império
arrasado e das vagas de invasões sucessivas, formado por povos diversos, cada um com seus costumes, seu
ambiente, sua ordem social diferente, quando não eram opostas, e tendo também, quase todos, um senso muito
vivo de castas, de sua superioridade de vencedores, ela deveria ter apresentado, e de fato, no seu início, apresentou,
um inconcebível esfacelamento.

No entanto constata-se que essa Europa tão dividida, tão conturbada no seu nascimento, apresenta nos séculos XII e
XIII um entendimento e uma união que jamais havia conhecido e que talvez não volte a conhecer ao longo dos
séculos. Vemos na primeira Cruzada príncipes sacrificarem seus bens e seus interesses, esquecer suas disputas para
tomarem juntos a Cruz – os mais diversos povos se reunirem numa só armada, a Europa toda se emocionar ao
chamado de Urbano II, de Pedro Eremita e, mais tarde, de um São Bernardo ou de Foulques de Neuilly. Vemos
monarcas preferindo a arbitragem à guerra, se inclinarem ao julgamento do Papa ou de um rei estrangeiro para
acertar suas dissenções. Fato impressionante, essa Europa organizada; não é um império, não é uma federação. Ela
é: a Cristandade.

É preciso reconhecer aqui o papel que teve a Igreja e o Papado na ordem européia. Ela foi, de fato, um fator
essencial na unidade. Muitas vezes a diocese, a paróquia, se confundia com o domínio familiar, sendo na Alta Idade
Média, época de decomposição, as células vivas a partir das quais se recompos a nação. As grandes datas que
deviam, para sempre, marcar a Europa, são as da conversão de Clóvis e a coroação de Carlosmagno, a primeira
assegurando ao ocidente a vitória da hierarquia e da doutrina católica sobre a heresia ariana, a segunda, realizada
pelo Papa Estevão II, consagrando a doutrina dos dois gládios, o espiritual e o temporal, cuja união formará a base
da Cristandade medieval.

É preciso levar em consideração, de modo mais geral, a influência do dogma católico que ensina que todos os filhos
da Igreja são membros de um mesmo corpo, como lembram os versos de Rutebeuf:

Tous sont un corps en Jésus-Christ  Todos são um corpo em Jesus Cristo

Dont je vous montre par l'écrit    E isso vos mostro por escrito

Que li uns est membre de l'autre   Que uns são membros dos outros.

A unidade doutrinária, tão viva na época, ajudava na união dos povos. Carlosmagno compreendeu tão bem isso que,
para conquistar a Saxe enviou primeiro os missionários, antes dos exércitos, e não por ambição, mas por convicção.
A história se repete no Império Germânico, na dinastia dos Othos.

Na prática a Cristandade pode se definir a «universalidade» dos príncipes e dos povos cristãos obedecendo a uma
mesma doutrina, animados de uma mesma fé, e reconhecendo por isso um mesmo magistério espiritual.

Esta comunidade de fé traduzia-se por uma ordem européia que deixa tonto um cérebro moderno, tanto ela é
complexa nas suas ramificações, grandiosa no seu conjunto. A paz na Idade Média foi exatamente, segundo a bela
definição de santo Agostinho, a «tranqüilidade da ordem»1, desta ordem.

Um ponto central permanece fixo, o Papado, centro da vida espiritual. Mas seu relacionamento com os diferentes
Estados é muito diversificado. Alguns estão ligados à Santa Sé por títulos especiais de dependência: tal é o caso do
Império Romano-germânico, cujo chefe, apesar de não ser vassalo do Papa, como se acreditou, deve ser escolhido
ou ao  menos confirmado por ele. Isso se explica se nos lembrarmos das circunstâncias que presidiram à sua
fundação e a parte essencial que teve o Papado nisso. O Papa, aliás, só faz lhe conceder o título e julgar os casos
possíveis de deposição.

Outros reinos são feudos da Santa Sé, porque pediram, em dado momento de sua história, a proteção dos Papas.
Eles lhe entregaram solenemente suas coroas, como fez o rei da Hungria, ou pediram que o Papa autentificasse seus
direitos, como fizeram os reis da Inglaterra, da Polônia ou de Aragão, para que o selo de São Pedro ratificasse e
preservasse suas liberdades.

Outros, em fim, e neste número está a França, não têm nenhum laço  de dependência temporal com a Santa Sé, mas
aceitam naturalmente suas decisões em matéria de consciência e se submetem também de boa vontade às suas
determinações quanto árbitro.

Estas são as grandes linhas do edifício da Cristandade, como expôs Inocêncio III numa época onde ela já estava
realizada, na prática, há muitos séculos. Ela baseia-se essencialmente num entendimento de ordem
sobrenatural 2  entre os povos. Quando admiramos esta base sólida da paz medieval, não podemos deixar de achar
pobre a nova base estabelecida pelos tratados de Westphalia (1648), que substitui a antiga harmonia pela frágil
agulha de balança das nacionalidades.

Foi muito desprezado este tipo de relacionamento entre a Igreja e os Estados. Estamos habituados a ver na
autoridade espiritual e na autoridade temporal dois poderes nitidamente distintos, e essa «intrusão» do Papa nos
negócios dos príncipes foi vista como intolerável. Tudo se esclarece se nos colocarmos dentro da mentalidade da
época: não é a Santa Sé que impõe seu poder aos príncipes e aos povos, mas estes príncipes e estes povos, católicos,
recorrem naturalmente ao magistério espiritual, seja para fortalecer suas autoridades ou fazer respeitar seus
direitos, seja para pedir o arbítrio imparcial para julgar suas disputas. Assim escreve Gregório X: «Si é dever daqueles
que dirigem os Estados de proteger os direitos e a independência da Igreja, é também do dever dos que possuem o
governo eclesiástico de tudo fazer para que os reis e os príncipes possuam a plenitude de sua autoridade». Os dois
poderes, em vez de se ignorar e combater, se reforçam mutuamente.

O que pode trazer confusão é que, na Idade Média, era geral manifestar maior respeito pela autoridade religiosa que
pela autoridade civil, de julgar uma superior à outra, segundo a célebre palavra de Inocêncio III, «como a alma é
para o corpo, como o sol é para a lua»: hierarquia de valores que não acarretava necessariamente uma subordinação
de fato.3

Além disso, não devemos esquecer que a Igreja, guardiã da fé, é também juiz no foro interno e depositária dos
juramentos. Ninguém na Idade Média sonharia em contestar isso. Quando um escândalo público era cometido, ela
tinha o direito e o dever de pronunciar uma sentença, de expulsar o culpado ou de absolver o arrependido. Ela faz
apenas usar um magistério que lhe é universalmente reconhecido quando excomunga um Roberto o Piedoso ou um
Raimundo de Tolosa. Igualmente quando, após conduta repreensível ou exageros de Philippe-Augusto ou do
imperador Henrique IV, ela libera seus súditos do juramento de fidelidade, ela exerce apenas uma de suas funções
soberanas, pois, na Idade Média, todo juramento toma Deus por testemunha, e em consequência a Igreja, que tem o
poder de ligar e desligar.

Que tenha havido abusos da parte da Santa Sé como da  parte do poder temporal, é incontestável, a história das
disputas entre o Papado e o Império comprova. Mas no conjunto pode-se dizer que esta tentativa audaciosa de unir
os dois gládios, o espiritual e o temporal, pelo bem comum, foi um sucesso. Era garantia de paz e de  justiça, este
poder moral que não se podia contrariar sem correr perigos bem determinados, entre os quais a perda de sua
própria autoridade e da estima de seus súditos: enquanto Henrique II, rei da Inglaterra, luta contra Thomas Beckett,
não se sabe qual dos dois vencerá; mas no dia que o rei decide se desfazer do prelado pelo assassinato, é ele o
derrotado. A reprovação moral e as penas que lhe são aplicadas têm mais eficácia que a força material. Para um
príncipe marcado com a interdição a vida não é mais tolerável: os sinos silenciosos quando o rei passa, seus súditos
fugindo quando se  aproxima, tudo compõe uma atmosfera à qual, mesmo os temperamentos mais fortes, não
resistem. Mesmo um Philippe-Augusto acaba se submetendo, quando nenhuma força material teria conseguido
impedi-lo de deixar a infeliz Ingeburge gemendo na prisão.4

Durante a maior parte da Idade Média o direito de guerra privada é visto como inviolável pelo poder civil e pela
mentalidade geral. Era portanto difícil manter a paz entre os barões e os Estados, e se não fosse a concepção da
Cristandade, a Europa teria sido um enorme campo de batalha. Mas o sistema em vigor permitia  colocar uma série
de obstáculos ao exercício da vingança privada. Antes de tudo, a lei feudal impedia que um vassalo que tivesse
jurado fidelidade ao seu senhor o atacasse. Houve faltas neste sentido, é claro, mas o juramento de fidelidade estava
longe de ser pura teoria ou simulação. Já vimos como o rei de França Luiz VII, que tinha ido ao socorro do conde
Raimundo V, ameaçado por Henrique II da Inglaterra, na cidade de Tolosa, este último, apesar de ter forças muito
superiores e certo da vitória, se retira, declarando que não pode sitiar um lugar onde se acha seu suzerano. Nesta
ocasião o laço feudal tirou a França de um momento de grande perigo.

Por outro lado, o sistema feudal realiza uma série de arbítrios naturais: um vassalo pode fazer apelo, contra seu
senhor, ao suzerano deste; o rei, à medida que sua autoridade se extende, exerce cada vez mais o papel de
mediador; o Papa, enfim, é o árbitro supremo. Bastava a reputação de justiça ou de santidade de um grande
personagem para que se fizesse apelo a ele; são vários os exemplos na história da França. Luiz VII é o  protetor de
São Tomas Beckett e seu intermediário nos conflitos com Henrique II. São Luiz  se impõe diante da Cristandade
quando publica o famoso Dit d'Amiens, que apaziguava  as disputas entre Henrique III da Inglaterra e seus barões.

Mas qualquer nobre podia, por vingança ou por ambição, invadir as terras de seu vizinho, e o poder central não era
bastante poderoso para impor sempre sua justiça, sem falar das guerras possíveis entre os Estados. A Idade Média
não procurou resolver o problema da guerra em geral, mas por suas soluções práticas e medidas aplicadas ao
conjunto da Cristandade, ela restringiu o domínio da guerra, suas crueldades, e mesmo seu tempo. Assim, por leis
precisas, edificou-se a Cristandade pacífica.

A primeira dessas medidas foi a Paz de Deus, instaurada desde o fim do século X 5: é a primeira distinção feita na
história do mundo entre o fraco e o forte, entre o guerreiro e a população civil. Desde a data de 1023, o bispo de
Beauvais faz jurar ao rei Roberto o Piedoso o juramento da Paz. Proibição de maltratar as mulheres, as crianças, os
camponeses e os  clérigos; as casas dos cultivadores são, como as igrejas, declaradas invioláveis. Reserva-se a guerra
aos que têm equipamentos para o combate. Esta é a origem da distinção moderna entre objetivos militares e
monumentos civis – noção totalmente ignorada do mundo pagão. Essa proibição não foi sempre respeitada, mas
quem a transgredia sabia estar sujeito à penas seríssimas, tanto temporais como espirituais.

Depois vem a Trégua de Deus, inaugurada desde o início do século XI, ela também pelo imperador Henrique II, o rei
da França Roberto o Piedoso, e o Papa Bento VIII. Os Concílios de Perpignan e de Elne, datando de 1041 e 1059 já a
tinham  renovado quando o Papa Urbano II, de passagem  por Clermont, em 1095, a define e proclama solenemente,
durante o mesmo Concílio que esteve na origem das Cruzadas. A Trégua de Deus reduz a guerra na sua duração,
como a Paz a reduzia no seu objeto: por ordem da Igreja, todo ato de guerra é proibido desde o primeiro domingo
do Advento até a oitava da Epifania (Tempo do Natal), desde o primeiro domingo da Quaresma até a oitava da
Ascensão, e no tempo que sobrava, da quarta-feira à noite até a segunda-feira de manhã. Podemos imaginar o que
eram essas guerras fragmentadas, ciscadas, que não podiam durar mais de três dias seguidos? Havia, ainda aqui, os
infratores, mas era seu o risco e o perigo, e também a vergonha. Quando Oto de Brunswick é posto em fuga, na
Batalha de Bouvines, apesar de sua superioridade, pelo exército muito inferior de Philippe-Augusto, foi considerado
como castigo àquele que ousara romper a Trégua e atacar num domingo.

Às vezes os príncipes cristãos tomam iniciativas que completam e ajudam as da Igreja. Philippe-Augusto, por
exemplo, instituiu a Quarentena do rei, um intervalo de quarenta dias deve obrigatoriamente passar entre a ofensa
feita, e devidamente reconhecida pelo ofendido, e a abertura de hostilidades. Sábia medida, que ajuda a refletir e a
encontrar um acordo amigável. Este mesmo intervalo de quarenta dias é dado aos habitantes de uma cidade
inimiga, para que voltem para suas casas e coloquem em segurança suas coisas quando estoura uma guerra. Não
havia como se criar, na Idade Média, campos de concentração ou seqüestros.

Mas a grande glória da Idade Média foi de ter feito a educação do soldado, de ter transformado um brutamontes em
cavaleiro. Aquele que lutava por amor das grandes proezas, da violência ou da pilhagem, virou o defensor dos fracos.
Ela transformou sua brutalidade numa força útil, seu gosto pelo perigo em coragem consciente, sua turbulência em
atividade fecunda; seu ardor ganhou vida e disciplina ao mesmo tempo. O soldado tem doravante um papel a
cumprir, e os inimigos  que ele é convidado a combater são, justamente, aqueles em quem subsiste o desejo pagão
do massacre, de orgia e de pilhagem. A Ordem da Cavalaria foi a instituição medieval que mais se incrustou na
lembrança, e é justo, pois nunca se teve concepção mais nobre do título de guerreiro.  Tal como a encontramos
instituída desde o início do século XII, ela é realmente uma Ordem religiosa, e quase um sacramento. Ao contrário do
que se costuma pensar, ela não é dada apenas para nobres: «Ninguém nasce cavaleiro», diz o provérbio.
Camponeses, mesmo servos, a recebem, enquanto que muitos nobres não a recebem. Mas ser armado Cavaleiro é
tornar-se nobre, e entre as máximas do tempo uma diz que «para se fazer nobre sem declarações deve-se ser
cavaleiro».

Do futuro cavaleiro são exigidas qualidades especiais, traduzidas no simbolismo das cerimônias que lhe conferem o
título. Deve ser piedoso, devoto à Igreja, respeitar suas leis: sua iniciação começa com uma noite de vigília, em
oração, diante do altar sobre o qual descansa a espada que cingirá: é a vigília de armas, depois da qual, em sinal de
pureza, toma um banho para assistir à Missa e comungar. Recebe então, solenemente, a espada e as esporas, e lhe
lembram os deveres do seu ofício: ajudar o pobre e o fraco, respeitar a mulher, ser corajoso e generoso; sua divisa
será «Vaillance et largesse», coragem e generosidade. Ele veste a armadura leve e recebe a espada sobre seu
ombro: em nome de São Miguel e de São Jorge ele é feito cavaleiro.

Para bem cumprir seu dever ele deve ser ágil e bravo: a cerimônia prossegue então com uma série de provas físicas,
verdadeiros testes para provar seu valor. Ele vai para a arena courir une quintaine, ou seja, derrubar um boneco
atacando-o com o cavalo a galope, ou derrubar do cavalo os adversários que virão desafia-lo. O dia em que são feitos
novos cavaleiros são dias de festa, onde cada um rivaliza em proezas, sob os olhos dos castelãs, da mesnie  senhorial
e da população concentrada em volta do terreno dos torneios. Agilidade e  vigor físico, bondade e generosidade, o
cavaleiro representa um tipo de homem completo, onde a perfeição do corpo é acompanhada das mais atrativas
virtudes: 

Tant est prud'homme si comme semble O homem valente é o que aparece

Qui a ces deux choses ensemble:  Que duas coisas traz em conjunto

Valeur du corps et bonté d'âme. Do corpo o valor, da alma a bondade.

 
O que se espera dele não é, como no ideal da antigüidade, um equilíbrio, uma justa medida, mens sana in corpore
sano, mas um máximo, onde ele é chamado a vencer a si mesmo, ser ao mesmo tempo o mais belo e o melhor
pondo sua pessoa à serviço de outra. Esses romances onde os heróis da Távola Redonda partem incessantemente à
procura de um feito maravilhoso traduz o ideal exaltante oferecido a quem possui a vocação das armas. Nada mais
dinâmico, para usar uma expressão moderna, que o tipo do bom cavaleiro.

O título de cavaleiro pode ser perdido, assim como deve ser merecido: quem falta a seu dever é degradado
publicamente, corta-se suas esporas de ouro junto ao tornozelo, em sinal de infâmia. «Honni soit hardement où il
n'a gentillesse — Seja bem desprezado quem não tem honestidade», dizia-se significando que o puro valor guerreiro
de nada valia sem a nobreza da alma.

Por isso a cavalaria foi a grande vibração da Idade Média, deixando na língua francesa a palavrachevaleresque, que
traduz fielmente o conjunto de qualidades que arrancavam admiração. Basta percorrer a literatura, contemplar as
obras de arte que nos deixaram, para vê-lo em toda parte, nos romances, nas poesias, nos quadros, nas esculturas,
nas iluminuras dos manuscritos, este cavaleiro cuja bela estátua da catedral de Bamberg representa um perfeito
modelo. Por outro lado, basta ler nossos cronistas para perceber que este tipo de homem não existiu apenas nos
romances, e que a encarnação do perfeito cavaleiro, realizada sobre o trono de França na pessoa de São Luiz, teve
nesta época uma multidão de outros exemplos.

Nessas condições, podemos representar como podia ser uma guerra medieval: estritamente localizada, ela se reduz
muitas vezes a um simples passeio militar, a tomada de uma cidade ou de um castelo. Os meios de defesa são, nesta
época, muito maiores que os meios de ataque: os muros, as fossas de uma fortaleza garantem a segurança dos
sitiados; uma corrente esticada na entrada de um porto constitui uma segurança ao menos provisória. Para o
ataque, usa-se quase que exclusivamente as armas de mão: a espada e a  lança. Se um belo corpo à corpo arranca
exclamações admiradas dos cronistas, eles só manifestam desprezo pelas armas dos fracos que são o arco ou a
besta, que diminuem o risco mas também os grandes feitos. Para sitiar um lugar usa-se catapultas de diversos tipos,
trincheiras camufladas, ou ainda a demolição das muralhas pela base, mas conta-se principalmente com a fome e a
duração do sítio para acabar com os resistentes. As fortalezas devem contar por isso com enormes provisões de
cereais em suas vastas criptas, cuja lenda dos românticos transformou em jaulas para prisioneiros6, e procura-se
sempre ter um poço ou cisterna no interior da praça. Quando uma máquina de guerra é por demais mortífera, a
Igreja proíbe seu uso. A pólvora para canhões, conhecida desde o século XIII,  só começa a se espalhar quando a
autoridade da Igreja não tem mais a mesma força e os princípios da Cristandade começam a se esfacelar. Enfim,
como escreve Orderic  Vital, «pelo temor de Deus, por cavalaria, procurava-se aprisionar mais do que matar. Os
guerreiros cristãos não tinham sede de derramar    sangue». É comum ver, no campo de batalha, o vencedor fazer
graça ao derrotado que lhe grita um obrigado. Cita-se como exemplo a batalha de Andelys, empreendida por Luiz VI
em 1119, na qual houve três mortos sobre novecentos combatentes.

Criticaram os princípios da Cristandade como prejudiciais ao patriotismo. Durante muito tempo acreditou-se que a
idéia de pátria começou com Joana d'Arc (sec.XV). Mas tudo contradiz essa idéia. A expressão «France la douce – a
doce França» encontra-se na Canção de Roland, e nunca se concebeu mais amorosa para qualificar nosso país.
Os  poetas nunca deixaram de usa-la deste modo, como lemos em Andrieu contredit:

Des pays est douce France la fleur      Doce França é a flor dos países

E no Roman de    Fauvel:

Le beau jardin de grâces plein   Belo jardim de muita graça


Où Dieu, par spéciauté,    Onde Deus especialmente

Planta les lys de royauté...       Plantou os lírios de realeza...

Et d'autres fleurs à grand plenté:  E outras flores também plantou:

Fleur de paix et fleur de justice,    Flor de paz e de justiça

Fleur de foi e fleur de franchise,   Flor de fé, de sinceridade

Fleur d'amour et fleur épanie        Flor de amor, flor desabrochada

De sens et de chevalerie... De sentimentos, de cavalaria...

C'est le jardin de douce France...   É o jardim da doce França...

É impossível pensar em sua pátria com mais carinho. E se passamos a examinar os fatos, achamos, desde a longínqua
data de 1124, a prova mais convincente da existência do sentimento nacional: trata-se dessa tentativa de invasão da
França pelos exércitos do Imperador Henrique V, dirigidas contra nosso país pelas estradas seculares dos invasores, a
nordeste da França, em direção de Reims. Assiste-se então a uma tomada de armas geral de todo o reino. Os barões
mais turbulentos, como um Thibaut de Chartres, então em plena revolta, esquecem suas querelas para se
agruparem sob o estandarte real, famosa flâmula rubra de franjas verdes que Luiz VI havia tomado sobre o altar de
Saint-Denis. A tal ponto foi a mobilização que, diante desse exército de guerreiros surgido espontaneamente de todo
o país, o imperador não ousou continuar e deu meia volta. A noção de pátria era bastante viva, já nesta época, para
provocar uma coalizão geral, e através da diversidade e multiplicidade dos feudos, havia a consciência de fazer parte
de um todo. Esta noção devia se afirmar novamente com brilho, um século mais tarde, na  batalha des Bouvines, e a
explosão de alegria em Paris e em todo o reino, quando se anunciou a vitória real, é prova suficiente. O patriotismo,
nesta época, apoia-se numa base sólida, o amor da terra, o apego ao solo, mas não deixa de se manifestar pela
França inteira, pelo «jardin de douce France».

[Lumière du Moyen Age, Editions B. Grasset, Paris, 1944,cap. 6. Tradução PERMANÊNCIA]

1. 1. [N. da P.] A definição não é de santo Agostinho, apesar deste santo doutor tê-la usado. Ela é de
Aristóteles, 300 anos antes de Cristo.

2. 2. [N. da P.] O autor usa o termo místico, mas hoje ele tem várias interpretações. Entenda-se por
entendimento sobrenatural um relacionamento baseado na Caridade, estabelecido pelo amor de Deus,
comum entre os povos católicos.

3. 3. [N. da P.] Resumindo rapidamente a doutrina católica do dois gládios: A sociedade civil tem como
finalidade o fim natural do homem que é a felicidade temporal, ou seja, bem estar, paz, prosperidade, etc. A
sociedade religiosa tem como finalidade o fim sobrenatural do homem, seu fim último, a salvação eterna. As
duas sociedades são independentes no seu campo próprio, mas como o fim último é superior ao fim natural,
o poder civil não pode contrariar o fim eterno, havendo assim, naturalmente, subordinação do civil ao
espiritual. O materialismo crescente, a partir da Renascença até nossos dias, levou a humanidade a separar
as duas sociedades, (separação da Igreja e do Estado), recusando essa subordinação, subvertendo a ordem
natural da vida social e criando o caos em que vivemos hoje. Mas essa doutrina não é particular à Idade
Média.

4. 4. [N. da P.] Depois de se casar com Ingeburge, irmã do rei da Dinamarca, em 1193, Philippe-Augusto a
repudiou e a prendeu num mosteiro. A rainha apelou a Roma. Os legados papais enviados por Celestino III
foram presos em Clairvaux. O rei casou-se com outra. Assim que foi eleito papa, Inocêncio III escreveu
protestando: «A Santa Sé não pode deixar sem defesa as mulheres perseguidas. A dignidade real não o
coloca acima dos deveres de um cristão». Não dando resultado, o Papa lançou a interdição sobre a França
(14/1/1200). Depois de tentar anulá-la, o rei acaba capitulando e se submetendo no Concílio de Soissons.
5. 5. O Concílio de Charroux, em 989, lança o anátema contra quem entrar por força numa igreja para roubar,
contra quem roubar os bens de um camponês ou dos pobres, suas ovelhas, bois ou burros. (nota do autor).

6. 6. O engano é ainda mais surpreendente pelo fato de que, ainda hoje, em alguns países como a Algéria, usa-
se esse  tipo de reserva de grãos, porões com um buraco circular no alto pelo qual se descia um  cesto para
recolher os grãos. (nota do autor).

7.  

8.  http://permanencia.org.br/drupal/node/2114

LUZ DA IDADE MÉDIA

CAP. I - A ORGANIZAÇÃO SOCIAL


Régine Pernoud

...estes tempos que se chamam obscuros 


(Miguel de Unamuno)

Durante muito tempo pensou-se que  para se explicar a sociedade medieval bastava usar a divisão clássica em três
ordens: clero, nobreza e terceiro estado. É o que ensinam ainda os livros de história: três categorias de indivíduos,
bem definidas, tendo cada uma suas atribuições próprias, separadas nitidamente das outras. Nada mais afastado da
realidade histórica! Essa divisão em três classes pode ser aplicada ao Antigo Regime, nos séculos XVII e XVIII, onde,
de fato, os diferentes níveis da sociedade formavam ordens distintas, onde as prerrogativas e relações davam conta
do mecanismo da vida. Mas seria superficial aplicar esta divisão à Idade Média: ela explica os grupos, a repartição, a
distribuição de forças, mas não revela nada sobre as origens, sobre a mola, a estrutura profunda da sociedade. Pelo
que aparece nos textos jurídicos, literários e outros, a sociedade medieval é uma hierarquia, com uma ordem
determinada, mas esta ordem não é aquilo que se imaginou, e antes de mais nada, ela é bem mais diversa. Nos atos
notariais vemos freqüentemente um senhor de um condado, um pároco, servirem de testemunha em transações
entre vilões, e a mesnie de um barão – ou seja, seus próximos, seus familiares – inclui tanto servos e monges quanto
altas personalidades. As atribuições destas classes são também estreitamente ligadas: a maioria dos bispos também
são senhores; ora, muitos deles saíram do povo humilde. Um burguês que compra uma terra nobre, em certas
regiões, passa a ser nobre. Basta abandonar os livros de história para mergulhar nos documentos, e esta noção de
«três classes da sociedade» mostra-se fictícia e sumária.

Apesar de mais perto da verdade, também a divisão entre privilegiados e não-privilegiados é incompleta, pois na
Idade Média, havia privilégios de alto a baixo da escala social. Um simples aprendiz, de certo modo, é um
privilegiado, pois ele participa dos privilégios da corporação; os benefícios da Universidade servem tanto aos
estudantes e seus valetes quanto aos mestres e aos doutores. Certos grupos de servos rurais gozam de privilégios
particulares que seus senhores são obrigados a respeitar. Considerar como privilégios apenas os da nobreza e do
clero, é ter uma noção inteiramente falsa da ordem social.

Para se compreender bem a sociedade medieval, é necessário estudar sua organização familiar. Aí se acha
a chave da Idade Média, e sua originalidade. Todo relacionamento desta época é estabelecido sobre o modo
familiar: os dos senhores aos vassalos, os de mestre a aprendiz. A vida rural, a história do nosso solo, só se explica
pelo regime das famílias que aí viveram. Queria-se avaliar a importância de um vilarejo? Contava-se o número
de feux[1], e não o número de indivíduos que o formava. Na legislação, nos costumes, todas as disposições tomadas
tratam do bem de família, do interesse da linhagem – ou, alargando esta noção familiar a um círculo maior, ao
interesse do grupo, da corporação, que nada mais é que uma grande família, fundada sobre o mesmo modelo da
família propriamente dita. Os grandes barões são, antes de tudo, pais de família, unindo em torno de si todos os
seres que, por seu nascimento, fazem parte do domínio patrimonial; suas lutas são brigas de família, na qual toma
parte toda esta mesnie que eles têm encargo de defender e administrar. A história da feudalidade é a história de
suas principais famílias. E, se avaliarmos bem, o que é a história do poder real, do século X ao século XIV? É a história
de uma dinastia, estabelecida graças à sua fama de coragem, ao valor demonstrado por seus ancestrais: muito mais
do que um homem, é uma família que os barões escolheram por chefe; na pessoa de Hugo Capet, eles viam o
descendente de Roberto o Forte que defendera aquela região contra o invasor normando, de Hugo o Grande, que já
havia carregado a coroa; isso aparece no famoso discurso de  Adalberto de Reims: «Escolhei para chefe o duque dos
Francos, glorioso por suas ações,  por sua família e por seus homens, o duque em quem encontrareis um tutor, não
apenas dos negócios públicos, mas ainda dos seus negócios particulares». Esta linhagem se manteve no trono por
hereditariedade, de pai para filho, e viu seu domínio crescer pelas heranças e casamentos, muito mais que por
conquistas: história que se repete milhares de vezes em nossa terra, em diversas esferas, e que decidiu de uma vez
por todas o destino da França, fixando na terra as linhagens dos camponeses e dos artesãos, cuja perseverança
diante de mil obstáculos e sofrimentos criou, de fato, nossa nação. Na base da "energia francesa" está a família,
como a Idade Média a entendeu e conheceu.

Para entender bem a importância desta base da sociedade medieval, composta de famílias, vamos compará-la, por
exemplo, com a sociedade da antiguidade, composta de indivíduos. Na sociedade greco-romana o homem (vir) é que
conta; na vida pública ele é o cidadão (civis), que vota, que faz as leis e toma parte dos negócios do Estado; na vida
privada ele é o proprietário de um bem que lhe pertence pessoalmente (paterfamilias), do qual ele é o único
responsável e sobre os quais ele possui atribuições mais ou menos ilimitadas. Nunca se constata uma participação de
sua família ou de seu parentesco nestas atribuições. Sua mulher e seus filhos lhe são inteiramente submissos e
guardam um estado de menoridade perpétua; ele tem sobre eles, como sobre seus escravos ou sobre seus bens
fundiários, o poder de usar e abusar (jus utendi et abutendi). A família parece só existir em estado latente; ela só vive
pela personalidade do pai, ao mesmo tempo chefe militar e sacerdote-mor; e isso com todas as
conseqüências  morais que decorrem, entre elas o infanticídio legal. Aliás, na antiguidade, a criança é a grande
sacrificada: ela é um objeto cuja vida depende do juízo e do capricho paternal. Ela está submetida a todas as
eventualidades de uma troca ou de uma adoção, e quando o direito à vida lhe é cedido, fica na dependência
do paterfamilias até a morte deste; mesmo então ele não herda de pleno direito, pois seu pai pode dispor de seus
bens em testamento a seu grado. Quando o Estado se interessa por uma criança, nunca será para intervir em seu
favor, mas tão somente para formar o futuro soldado ou o cidadão.

Nada disso subsiste na nossa Idade Média. Nela o que importa não é mais o homem, mas a linhagem. A antiguidade
pode ser estudada, e é de fato, pelas biografias individuais: a história de Roma é a história de Sylla, de Pompéia, de
Augusto; a conquista da Gália é a história de Júlio César. Entrando na Idade Média uma mudança se impõe: a história
da unidade francesa é a história da linhagem capeciana; a conquista da Sicília é a história dos descendentes de uma
família normanda, numerosa demais para os seus domínios. Para se entender bem a Idade Média deve-se considerá-
la na sua continuidade, no seu conjunto. Por isso, talvez, ela seja tão mal conhecida e seu estudo bem mais difícil que
o do período antigo, pois é preciso desembaralhar sua complexidade, segui-la na continuidade do tempo,  através
destas mesnies que formam a trama; e não apenas as que deixaram um nome pela grandeza de suas conquistas ou
pela importância de seus domínios, mas também os humildes moradores, os habitantes das cidades e do campo, que
devemos conhecer  em sua vida familiar, se desejamos entender o que  foi a sociedade medieval.

Isso se explica. Durante o período de agitações e completa decomposição que foi a Alta Idade Média[2], a única
fonte de unidade, a única força viva foi exatamente o laço familiar, a partir do qual foi constituída, pouco a pouco, a
unidade francesa. A família e seu domínio foram assim, devido às circunstâncias, o berço de nossa nação.

Esta importância dada à família traduz-se em uma preponderância, muito clara na Idade Média, da vida privada
sobre a vida  pública. Em Roma, um homem só vale na medida em que ele exerce seus direitos de cidadão: que ele
vota, delibera e participa dos negócios do Estado; os esforços da plebe para obter uma representação, por um
tribuno, são bem significativas disto. Na Idade Média raramente se faz menção de negócios públicos: ou melhor, os
negócios públicos são logo vistos como administração familiar; são contas dos domínios, pagamentos de
arrendatários e proprietários; e mesmo quando os burgueses[3], quando se formaram os municípios, reclamam de
direitos políticos, é com o único intuito de poder exercer livremente seu trabalho, sem ter de pagar pedágios e taxas;
a atividade política propriamente dita não tem nenhum interesse para eles. Aliás, a vida rural é infinitas vezes mais
ativa que a vida urbana, e em ambas é a família, e não o indivíduo, que prevalece como unidade social.

Tal como se apresenta desde o século X, a sociedade assim compreendida tem como traço essencial a noção de
solidariedade familiar, nascida dos costumes bárbaros, germânicos ou nórdicos. A família é considerada como um
corpo onde corre, em todos seus membros, o mesmo sangue — ou como um mundo reduzido, com cada ser
cumprindo a sua parte, consciente de fazer parte de um todo. A união não se estabelece mais, como na antiguidade
romana, por uma concepção estatista da autoridade de seu chefe, mas por este fato de ordem biológica e também
moral: todos os indivíduos que compõem uma mesma família são unidos pela carne e pelo sangue, seus interesses
são solidários, e nada é mais respeitável que a afeição natural que os anima, uns pelos outros. É muito vivo o
sentimento deste caráter comum dos seres de uma mesma família:

Les gentils fils des gentils pères


Des gentils et des bonnes mères
Ils ne font pas de pesants heires".

"Gentis filhos de gentis pais


Gentis e boas mães
Não brigam pela herança"

diz um autor do tempo. Os que vivem sob o mesmo teto cultivam o mesmo campo e se aquecem no mesmo fogo.
Ou, na linguagem do tempo, os que repartem o pão e a taça sabem que podem contar uns com os outros e que, na
necessidade, o apoio de sua mesnie não faltará. A união aqui é, com efeito, mais forte do que em qualquer outro
grupo, pois é baseada nos laços incontestáveis do parentesco e do sangue, apoiando-se numa comunhão de
interesses não menos visível e evidente. O autor do verso citado acima, Etienne de Fougères, protesta no seu Livre
des Manières contra o nepotismo de certos bispos; no entanto ele mesmo reconhece que os bispos fazem bem de se
cercar de seus parentes «se eles são competentes», pois, diz ele, nunca se tem certeza da fidelidade dos
estrangeiros, enquanto que os seus, pelo menos, não lhe trairão.

Dividi-se assim as alegrias e as tristezas. Recolhe-se à casa os filhos dos que faleceram ou que passam necessidade, e
numerosos familiares se levantam para vingar um de seus membros que tenha sido insultado. O direito à guerra
privada, reconhecido durante boa parte da Idade Média, é apenas a expressão desta solidariedade familiar. Ele
correspondia, na origem, a uma necessidade: quando o poder central não tinha força, o indivíduo só podia contar
com a ajuda da mesnie para se defender, e, durante toda a época das invasões bárbaras, ele estaria abandonado, se
estivesse só, a toda espécie de perigos e misérias. Para viver era necessário se defender, se agrupar — e qual grupo
podia valer mais que uma família firmemente unida?

A união familiar, expressa em caso de necessidade pelo socorro das armas, resolvia então o difícil problema da
segurança pessoal e dos domínios. Em certas províncias, particularmente no norte da França, o habitat traduz este
sentimento de união: a principal peça da casa é a sala; ela preside, com sua vasta lareira, às reuniões de família, a
sala onde se reúnem para as refeições, para as festas de casamento ou aniversário e também para velar os mortos; é
o hall do costume anglo-saxão, pois a Inglaterra teve, na Idade Média, costumes semelhantes aos franceses,
permanecendo fiel a eles em muitos pontos.

Essa comunidade de bens e de afeição necessita de um administrador. Quem assume este cargo é, naturalmente, o
pai de família. Mas ele não é um chefe absoluto e pessoal, como no direito romano, ele é mais um gerente: gerente
responsável,  diretamente interessado na prosperidade da casa, mas que cumpre um dever mais do que exerce um
direito. Este encargo consiste principalmente em proteger os seres indefesos, como as mulheres, as crianças e os
que trabalham em sua casa, vivendo sob o mesmo teto e assegurar a gestão do patrimônio; mas ele não é
considerado como um  mestre vitalício nem como o proprietário dos domínios. Se ele goza dos bens patrimoniais, só
o faz como usufruto: como ele o recebeu de seus ancestrais, assim deverá transmiti-lo aos que, por nascimento,
deverão lhe suceder. O verdadeiro proprietário é a família, não o indivíduo.

Se é verdade que ele possui toda a autoridade necessária para  suas funções, ele está longe de possuir sobre sua
mulher e seus filhos este poder ilimitado que lhe concedia o direito romano. Sua mulher colabora na administração
da comunidade e na educação dos filhos; o marido gerencia os bens que ela possua em próprio porque ele é
considerado mais capaz do que ela para levá-lo à prosperidade, o que não se consegue sem esforço e trabalho; mas
quando, por alguma razão, ele deve se ausentar, sua mulher retoma em mãos esta gestão sem o mínimo obstáculo e
sem qualquer autorização. Mantém-se tão acesa a lembrança da origem de sua fortuna que, a mulher morrendo
sem filhos, seus bens pessoais voltam integralmente à sua família; nenhum contrato pode se opor a isso, as coisas
acontecem assim naturalmente.
O pai é o protetor, guarda e mestre das crianças. Sua autoridade paternal termina com a maioridade, a qual chega
muito cedo: quase sempre com quatorze anos para os que não são nobres e, para  estes últimos, varia entre
quatorze e vinte anos, pois os nobres tinham a obrigação de defender o feudo com um serviço mais ativo, o que
exigia mais força e experiência. Os reis de França eram considerados maiores com quatorze ou quinze anos, e foi
com esta idade que Felipe-Augusto atacava chefiando seus soldados. Uma  vez maior de idade, o jovem continua a
ter a proteção dos seus e a solidariedade familiar, mas, diferentemente do que acontecia em Roma e, mais tarde,
nos paises de direito escrito, ele ganhava plena liberdade de iniciativa e podia se afastar, fundar uma família,
administrar seus próprios bens, como entendesse. Desde que ele saiba agir por si mesmo, nada vinha atrapalhar sua
atividade; ele é seu mestre, apesar de conservar o apoio da família de onde saiu. É uma cena clássica dos romances
de cavalaria, ver o filho, assim que é capaz de pegar em armas e de usar armadura, deixar a casa paterna para correr
o mundo ou para servir ao suserano.

A noção familiar, assim entendida, tem uma base material: o bem de família: bem fundiário emgeral, pois a terra
constitui, no início da Idade Média, a única fonte de riqueza, permanecendo em seguida como o bem estável por
excelência. «Herança não se pode mover, mas os móveis podem desaparecer», dizia-se então. Este bem familiar,
seja ele as terras de um servo ou os domínios senhoriais, permanece sempre propriedade da linhagem. Ele é
impenhorável e inalienável; as dificuldades acidentais da família não podem prejudicá-lo. Ninguém pode arrancá-lo e
a família não tem o direito de vendê-lo ou de trocá-lo.

Com a morte do pai, este bem de família passa aos herdeiros diretos. Tratando-se de um feudo nobre, o mais velho
fica com quase tudo, pois é preciso um homem, e um homem amadurecido pela experiência, para manter e
defender os domínios; esta é a razão do direito de primogenitura, consagrado pela maioria dos costumes. Para os
bens dos que não são nobres, o uso varia de acordo com a província: às vezes a herança é dividida, mas em geral é o
filho mais velho que sucede. Lembremos que até aqui só falamos da herança principal, do bem de família; os outros
são, segundo as necessidades, divididos pelos filhos mais moços, mas é ao mais velho que cabe a casa sede, com
extensões de terra suficientes para que possa viver, ele e sua família. E é justo, pois quase sempre é o filho mais
velho quem ajudou o pai, sendo aquele que, depois  do pai, mais contribuiu para a manutenção e defesa do
patrimônio. Em algumas províncias, como na Hainaut, na Artois, na Picardia e em partes da Bretanha, será o mais
moço, e não  o mais velho, quem sucederá ao pai como herdeiro principal, e ainda aqui, por uma razão de direito
natural: em geral, o mais velho se casa primeiro e vai se estabelecer por conta própria, enquanto que o mais moço
fica mais tempo com seus pais, cuidando deles em sua velhice. Este direito do mais moço mostra bem a
maleabilidade e a diversidade dos costumes, que se adaptam aos hábitos familiares, seguindo as condições de
existência.

De qualquer forma, o que devemos assinalar neste sistema de herança dos bens, é que eles passam a um herdeiro
único, o qual é designado pelo sangue. «Não há herança por testamento», diz-se em direito consuetudinário (dos
costumes). Na transmissão do bem familiar a vontade do  testamentário não interfere. Na morte de um pai de
família, seu sucessor natural entra de pleno direito em possessão do patrimônio: «Le mort saisit le vif»[4], dizia-se
ainda na linguagem medieval, que possuía o segredo das expressões marcantes. É a morte do pai que dá ao sucessor
seu título de propriedade, que o põe em saisine, ou seja, em possessão legal da herança, do uso de sua terra; o
homem de leis não tem nada a fazer aí, como acontece hoje. Se os costumes variam segundo o lugar, tornando
herdeiro natural, aqui ao mais velho, lá ao mais moço; se a maneira como sobrinhos e sobrinhas podem pretender à
sucessão quando falta herdeiro direto varia segundo a província, ao menos uma regra é constante: só se recebe
herança em virtude dos laços naturais que lhe unem ao defunto. Isto quando se trata de bens imóveis; os
testamentos só existem para os bens móveis ou para as terras adquiridas durante a vida e que não fazem parte do
bem de família. Quando o herdeiro natural é notoriamente conhecido como indigno de seu encargo, ou quando não
tem cabeça para administrar um domínio, admite-se certas ponderações. Mas, em geral, a vontade humana não
interfere  contra a ordem natural das coisas. Não se faz instituição de um herdeiro, dizem os juristas
consuetudinários. Neste sentido se diz ainda, quando se fala da sucessão real: «Le roi est mort, vive le roi  — o rei
morreu, viva o rei». Não há nem interrupção nem vacância possível quando só a hereditariedade designa o sucessor.

Assim, a gestão do bem de família acha-se sempre assegurada. Todos os costumes visam a não deixar que se
enfraqueça o patrimônio. Por isso nunca havia mais de um herdeiro, pelo menos para os feudos nobres. Temia-se a
divisão que tira da terra sua capacidade de gerar bens; a divisão sempre provocou discussões e processos,
atrapalhando o cultivador e bloqueando o progresso material, pois para que o camponês aproveite dos progressos e
melhorias trazidas pela ciência ou pelo próprio trabalho, é necessário um empreendimento de certa importância,
capaz inclusive de suportar os prejuízos parciais, e de qualquer forma, oferecer recursos variados. O grande domínio,
como existia na feudalidade, permitia uma exploração eficiente da terra, deixando-se periodicamente uma parte em
descanso, dando-lhe tempo de se renovar, e variando as culturas e mantendo-se entre elas proporção harmoniosa.
Assim, durante a Idade Média, a vida rural foi extraordinariamente ativa, e muitas culturas foram então introduzidas
na França.

Isto é devido, em boa parte, às facilidades que o sistema rural da época oferecia ao espírito de iniciativa de nossa
raça. O camponês desta época não é nem um retardatário nem um acostumado. A unidade, a estabilidade do
domínio eram garantias para o futuro como para o presente, porque favoreciam a continuidade do esforço familiar.
Hoje, quando se está diante de vários herdeiros, desmembra-se os fundos e realiza-se diversas negociações para que
um deles possa retomar a empresa paternal. A exploração da empresa cessa com o indivíduo. Ora, o indivíduo passa
e o lar permanece. Na Idade Média havia a tendência a permanecer. Se existe uma palavra significativa na
terminologia medieval ela é: manoir  (casa), lugar onde se permanece, manere em latim – o nó que amarra a
linhagem, o teto que abriga seus membros, passados e presentes, e que permite às gerações de sobreviver
pacificamente.

Outro bem característico é a medida agrária chamada manse: extensão de terra suficiente para que uma família
possa se fixar e viver. Ela variava naturalmente segundo as regiões: na Normandia ou na Gascogne de terras
férteis  um pequeno sítio de terras produz mais ao cultivador que vastas terras da Bretanha ou do Forez;
a manse tem um valor variável de acordo com o clima, qualidade do solo e condições de existência. É uma medida
empírica e essencialmente familiar, não individual. Ela resume perfeitamente a característica mais marcante da
sociedade medieval[5].

Assegurar para a família uma base fixa, firmá-la no solo, como que criando raízes, frutificá-la e perpetuá-la, esta é a
finalidade de nossos antigos. Se é possível fazer negócios com as riquezas móveis, dispô-las em testamento, é que
elas são essencialmente cambiáveis e pouco estáveis; ao contrário, o bem fundiário, propriedade familiar, é
inalienável. O homem é apenas seu protetor, tem dela o usufruto; o verdadeiro proprietário é a linhagem.

São muitos os costumes medievais que vêm desta preocupação de proteger o bem de família. Quando faltam
herdeiros diretos, os bens de origem paterna voltam à família do pai, e os bens de origem materna voltam à família
da mãe, enquanto que em direito romano só era reconhecido o laço do lado masculino. Essa divisão era
chamada fente  (fenda), que dividia pelas origens os bens de uma família extinta. Também a chamada retração de
linhagem dava aos parentes afastados a precedência, quando um domínio era vendido. A guarda de uma criança
órfã era também organizada por uma legislação familiar. A tutela era exercida por toda a família, enquanto que o
grau de parentesco designava naturalmente aquele que devia administrar os bens da criança, sendo assim seu tutor.
O atual Conselho de família é o que restou do costume medieval sobre transações dos feudos e da guarda das
crianças.

Aliás, a Idade Média tem sempre grande preocupação em respeitar o desenrolar natural das coisas, sem criar
rupturas no caminho do bem de família. Quando os representantes de uma família morrem sem herdeiros antes de
se pensar em devolver os bens às respectivas famílias de origem, procura-se os parentes afastados, primos,
sobrinhos netos: «Bens de família não voltam atrás». Isso vem do desejo de se respeitar a ordem normal da vida,
que se transmite do mais velho para o mais moço, sem voltar atrás: os rios não voltam para sua fonte, assim os
elementos da vida devem alimentar os representantes da juventude, do futuro. É aliás mais uma garantia para o
bem da linhagem quando ele vai necessariamente para os mais moços, mais ativos e capazes de frutificá-los por mais
tempo.

Às vezes a devolução dos bens se realiza de uma forma que revela bem o sentimento familiar que é a grande força
da Idade Média. A família constitui uma verdadeira personalidade moral e jurídica, possuindo em comum os bens
administrados pelo pai; quando este morre, a comunidade se refaz na conduta de um dos seus, designado pelo
sangue, sem que tenha havido interrupção da possessão dos bens nem transmissão alguma. É a
chamada comunidade tácita da qual participam todos os membros da casa que não tenham sido expressamente
colocados fora da comunhão familiar (hors de pain et pot). Este costume subsistiu até o fim do Antigo Regime  [6] e
se sabe de algumas famílias francesas que durante séculos nunca tinham pago nenhuma taxa de sucessão. O jurista
Dupin assinala, em 1840, a família Jault que desde o século XIV nunca havia pago sucessão.

De qualquer forma, mesmo fora da comunidade tácita, a família, considerada no seu prolongamento através das
gerações, é o verdadeiro proprietário do bem patrimonial. O pai de família que recebeu este bem de seus ancestrais,
deve contas aos seus descendentes; que ele seja servo ou senhor, ele nunca é o dono absoluto, tendo ainda o dever
de defender, de proteger e  de melhorar a sorte de todos, seres e coisas, dos quais ele foi constituído guarda natural.

***

E assim se formou a França, obra de milhares de famílias, obstinadamente fixadas ao solo, no tempo e no espaço.
Francos, Burgondos, Normandos, Visigodos, todos estes povos errantes cuja massa instável faz da Alta Idade Média
um caos tão impressionante, formam, a partir do século X, uma nação, solidamente  ligada à sua terra, unida por
laços mais fortes que qualquer federação conhecida dos homens. O esforço renovado destas famílias microscópicas
havia originado uma vasta família, um macrocosmo, cuja linhagem capetiana, que conduziu gloriosamente o destino
da França, de pai para filho, durante mais de três séculos, simboliza maravilhosamente a dignidade. Seguramente
trata-se dos mais belos espetáculos oferecidos pela História, esta família se sucedendo como nossos chefes, em linha
direta, sem interrupção ou quedas, durante mais de trezentos anos, um tempo igual ao decorrido entre a coroação
de Henrique IV e a guerra de 1940...

Mas o que devemos compreender é que a história dos capetianos diretos é apenas a história de uma família francesa
entre milhares de outras. Esta vitalidade, esta persistência sobre nosso solo, está presente em todos os lares de
França de modo semelhante, salvo acidentes ou acasos inevitáveis na existência. A Idade Média, saída da incerteza e
do desespero, da guerra e das invasões, foi uma época de estabilidade, de permanência, no sentido etimológico do
termo.

Foram suas instituições familiares, como estão expostas no nosso direito consuetudinário, que proporcionaram esta
estabilidade. Elas conciliam o máximo de independência individual e o  máximo de segurança. Cada indivíduo
encontra em sua casa a ajuda matéria, nos laços familiares a proteção moral de que pode  necessitar; ao mesmo
tempo, desde que ele sabe se cuidar ele está livre para desenvolver sua iniciativa, fazer sua vida: nada contraria a
expansão de sua personalidade. Mesmo os laços que o ligam ao lar paterno, a seu passado, a suas tradições, nunca
serão obstáculos. A vida recomeça para ele como que por inteiro, assim como, biologicamente, ela é nova e inteira
para um ser que vem ao mundo – ela é como a experiência pessoal, tesouro incomunicável que cada um deve
construir para si e que só tem valor na medida em que nos é própria.

É evidente que tal concepção da família basta para dar todo um dinamismo e solidez a uma nação. A aventura de
Roberto Guiscard e seus irmãos, mais moços de uma família normanda muito pobre e muito numerosa, que emigra e
chega a ser o rei da Sicília, fundando aí uma dinastia poderosa, é tipicamente uma história medieval, feita toda de
coragem, de sentimentos familiares e de fecundidade. O direito consuetudinário, que fez a força de nosso país, se
opunha diretamente, neste ponto, ao direito romano, no qual a coesão da família só se mantém pela autoridade do
chefe, enquanto que todos os seus membros lhe são submissos por toda a vida, através de rigorosa disciplina:
concepção militar, estatal, baseada numa ideologia de legistas e funcionários públicos, e não no direito natural. A
família nórdica já foi comparada a uma colméia que enxameia periodicamente, multiplicando-se e renovando as
áreas de floração, enquanto que a família romana seria uma colméia que nunca enxameasse. A família forjada pelos
costumes formava pioneiros e homens empreendedores, mas a família romana formava militares, administradores e
funcionários.

É curioso seguir ao longo dos séculos a história de povos formados por diferentes disciplinas para constatar os
diferentes resultados obtidos. A expansão romana foi militar, política e não étnica; os romanos conquistaram seu
império pelas armas e o conservaram por seus burocratas; este império só se manteve enquanto soldados e
funcionários puderam vigiá-lo facilmente. Mas a desproporção entre as fronteiras e a centralização do poder,
finalidade ideal e conseqüência inevitável do direito romano, só fazia aumentar: o império romano desfazia-se
sozinho, devido às suas próprias instituições, quando a força das invasões bárbaras veio lhe dar o golpe de
misericórdia.
Por outro lado temos o exemplo das raças anglo-saxãs. Seus costumes familiares eram idênticos aos nossos durante
toda a  Idade Média, com a diferença que eles os conservaram. Isso explica, sem dúvida, sua prodigiosa expansão
pelo mundo. O que forma um império são as ondas de exploradores, pioneiros, mercadores, aventureiros que tudo
arriscavam, deixando seus lares para tentar fortuna, sem esquecer sua terra natal e as tradições de seus pais.

Já os países germânicos, que nos forneceram grande parte dos costumes adotados na Idade Média, impuseram-se
desde cedo o direito romano. Seus imperadores quiseram retomar as tradições do Império do Ocidente, e julgaram
que para unificar as vastas terras a eles submissas o direito romano lhes dava um bom instrumento de centralização.
Desde o fim do século XIV ele era a lei comum do Santo Império[7], enquanto que na França, por exemplo, ele só
será ensinado na Universidade de Paris a partir de 1679. Isso explica por quê a expansão germânica foi mais militar
do que étnica.

Enquanto isso, a França era construída sobre o direito consuetudinário. É verdade que costuma-se falar do sul
do Loire e do vale do Rhône[8] como região de direito escrito, ou seja, de direito romano, mas isso quer dizer que os
costumes destas províncias se inspiravam na lei romana, não que o código Justiniano estivesse aí em vigor. Durante
toda a Idade Média a França conservou intactas seus costumes familiares, suas tradições domésticas. Somente a
partir do século XVI que nossas instituições, pela influência de legistas, evoluem num sentido cada vez mais «latino».
É uma transformação que se realiza lentamente, aparecendo no início em pequenas modificações: a maioridade
passa aos vinte e cinco anos, como na Roma antiga, onde a criança, mantendo em relação a seu pai perpétua
menoridade, não sofria maiores inconvenientes se a maioridade civil viesse tarde.

Ao casamento, considerado até então como sacramento, como adesão de duas vontades livres para a realização de
suas finalidades, acrescenta-se  a noção de contrato, acordo puramente humano, baseado em estipulações
materiais[9].  A família francesa passa a se modelar sobre um tipo estatal que ela nunca tinha conhecido, e assim
como o pai de família vai concentrar em suas mãos todo o poder familiar, assim também o Estado caminha para uma
Monarquia absoluta[10].  Apesar das aparências, a Revolução Francesa (1789) não foi um começo, mas um fim de
linha: resultado da evolução de dois ou três séculos, ela representa o estabelecimento definitivo em nosso meio da
lei romana, em prejuízo dos costumes; Napoleão só fez consolidar sua obra instituindo o Código Civil e organizando o
exército, o ensino, a nação inteira, pelo ideal de funcionários da Roma antiga.

Podemos, além disso, perguntar se o direito romano, apesar de todos os seus méritos, convinha ao gênio próprio de
nossa raça, ao caráter do nosso solo. Este conjunto de leis, todo ele forjado por militares e legistas, esta criação
doutrinária, teórica, rígida, podia ela ser colocada no lugar de nossos costumes, elaborados pela experiência de
gerações lentamente moldadas na medida de nossas necessidades? – Nossos costumes que eram apenas nossa
educação, constatada e formulada juridicamente, os usos de cada um, ou melhor, de cada grupo ao qual cada um
pertencia. O direito romano fora concebido para um Estado urbano, não para um país rural. Falar da Antigüidade é
lembrar Roma ou Bizâncio; para relembrar a França medieval não falamos de Paris, mas sim de Île-de-France, nem
de Bordéus, mas da Guyanna, nem de Rouen, mas da Normandia. Só podemos considera-la em suas províncias de
solo fértil, do bom trigo e bom vinho. É significativo ver, na Revolução Francesa, aquele que era o manant (o
permanente) passar a ser o cidadão: palavra que nos evoca outra — cidade. É coerente até, visto que a cidade vai
passar a ser a potência política, logo a principal potência, pois, tendo desaparecido o costume, tudo devia depender
das leis. As novas divisões administrativas da França, seus departamentos, todos eles concebidos em volta de uma
grande cidade, sem considerar o tipo de solo dos campos adjacentes, manifesta bem esta evolução do estado de
espírito.

A vida familiar, a partir da Revolução, estará tão enfraquecida que verá se estabelecer instituições tais como o
divórcio, a alienação do patrimônio ou as leis modernas de herança. As liberdades privadas, tão defendidas outrora,
desapareceram diante de uma concepção de um Estado centralizado sobre o modelo romano. Talvez  devêssemos
procurar aí a origem de problemas que apareceram mais tarde com tanta força: problemas da infância, da educação,
da família, da natalidade — que não existiam na Idade Média porque a família era então uma realidade, com base
material e moral[11], e com as liberdades necessárias para sua existência.

(Lumières du Moyen-Age, Editions B. Grasset, Paris, 1944, cap. 1. Tradução de Permanência)

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[1] feux, foyer = lar, família 
[2] Alta Idade Média - Primeiros séculos decorridos após a  queda do Império Romano, marcados pelas invasões
bárbaras. 
[3] Burgueses - habitantes dos vilarejos ou burgos. 
[4]  Le mort saisit le vif - literalmente: o morto prende, segura, o vivo. Na verdade esta expressão é um trocadilho
com a palavra saisine, que tem a mesma origem, mas tem o significado jurídico explicado pela autora. 
[5] Aqui no Brasil, a medida agrária do alqueire baseia-se no mesmo princípio, sem a conotação familiar. O alqueire é
a área de terra onde se recolhe tantos litros de trigo, ou milho, variando esta medida segundo a região. 
[6] A Revolução Francesa, iniciada em 1789, derruba a monarquia e estabelece um novo regime na França. 
[7] Santo Império - 
[8] Dois importantes rios franceses. 
[9] Infelizmente o autor aqui mistura tudo: 1) Se nesta época aparece a noção de contrato no casamento, isto não
quer dizer que ele deixe de ser considerado sacramento. 2) O casamento nunca foi considerado apenas como a
união de duas vontades livres para realizarem seus fins. Antes de mais nada essa união visa o nascimento e educação
dos filhos, justamente o bem de família que ela tanto exalta neste capítulo, só que visto aqui do seu
espiritual.  3)Contrato sim, mas contrato realizado solenemente diante de Deus e de sua Igreja. Se existem aspectos
materiais a serem definidos, e o próprio tipo de sociedade que o autor descreve obriga a isso, a Igreja sempre
ensinou também que o casamento é um consentimento mútuo, ou seja, um contrato.  
[10] A evolução do direito de propriedade caracteriza bem isso: ele é cada vez mais absoluto e individual. Os últimos
traços de propriedade coletiva desapareceram no século XIX com a abolição do direito de uso. (nota do autor) 
[11] E religiosa. (N. da P.)

http://www.permanencia.por.vc/revista/historia/luz1.htm