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JOHN RAWLS

A TEORIA DA JUSTIÇA COMO EQUIDADE (LIBERALISMO SOCIAL)


(Usados excertos de: Filosofia 10º Ano, Luís Rodrigues, Plátano Editora, 2009 e John Rawls,
Uma Teoria da Justiça, Ed. Presença, Lisboa, 1993)
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1. John Rawls (1921-2004 – filósofo norte americano) publicou em 1971 a


sua principal obra («Uma Teoria da Justiça»). Esta obra deu origem a
um grande número de comentários sob a forma de artigos, livros e
colóquios. A que se deve a sua importância? Ao facto de Rawls tentar
conciliar dos conceitos para muitos dificilmente compatíveis ou mesmo
totalmente incompatíveis: a liberdade individual e a igualdade.
2. Como deve organizar-se uma sociedade para que o seu funcionamento
seja justo, isto é, para que os mais desfavorecidos não sejam
sacrificados em nome do igualitarismo? Para Rawls trata-se de
encontrar um meio-termo entre o liberalismo irrestrito (fraca
intervenção do Estado na livre concorrência entre os indivíduos) e o
socialismo autoritário (controlo praticamente total da vida económica
por parte do Estado).
3. A conceção de justiça de Rawls revela uma nítida influência das teorias
contratualistas do séc. XVIII. Como concebe Rawls o contrato social?
Como um pacto cujo objetivo é estabelecer uma sociedade
essencialmente justa e livre. O contrato social é um pacto originário
(posição original) entre indivíduos iguais e livres que escolhem
instituições e normas que promovam a liberdade e a igualdade entre
todos.
4. Mas como escolher princípios de justiça que promovam a igualdade
entre todos se, dada a condição socioeconómica, cada um de nós tende
a escolher princípios em função da sua situação pessoal (dos seus
interesses)?
5. Para melhor descrever o contrato social originário, Rawls fala de
“posição original”. A posição original é uma situação imaginária
(hipotética e provisória) de total imparcialidade em que pessoas
racionais, livres e iguais criam uma sociedade regida por princípios de
justiça. Para que tal imparcialidade se verifique essas pessoas devem
estar “cobertas” por um “Véu de ignorância”.
6. Imagine que está num grupo de pessoas prestes a criar de raiz uma
nova sociedade e um novo governo. Essas pessoas têm uma tarefa
muito importante que é a de decidir como construir uma sociedade justa.
Estão numa condição muito especial, a bem dizer extraordinária: estão
cobertas por um “véu de ignorância” quanto à sua condição na futura
sociedade. Assim sendo, não sabe se vai ser homem ou mulher, rico ou
pobre, doente ou saudável, idoso ou jovem, pouco ou muito dotado em
termos inteletuais, não sabe a que grupo étnico vai pertencer, nem se
vai ser católico, protestante, ortodoxo, muçulmano, judeu ou ateu. Em
termos gerais não sabe se vai estar no topo, no meio ou no fundo da
escala social. Pensa que dada essa condição deve escolher um
governo e uma sociedade justa para todos.

«(…) Vou escolher um tipo de sociedade que discrimine os ateus? Não,


porque posso vir a ser ateu. Quero uma sociedade e um governo
indiferentes às necessidades dos mais carenciados, que não intervenha
para atenuar a desigualdade económica? Não, porque não sei se não
virei a estar nessa situação. Quero uma sociedade em que haja
discriminação racial no acesso às posições e lugares economicamente
mais favoráveis? Não, porque não sei a que grupo racial irei pertencer. A
prudência aconselha-me mesmo a que me prepare para o pior. Assim,
vou escolher um tipo de sociedade em que, se me encontrar numa
situação desfavorável, me seja garantido um nível de vida
minimamente digno. Nestas condições seria tolice minha pensar que
os outros irão aceitar que a futura sociedade se reja por princípios que,
beneficiando-me, os prejudicarão. Nem posso aceitar princípios que
beneficiem os outros em detrimento dos meus interesses. O mais
provável é que todos aprovem uma igual distribuição dos recursos
sociais. Mas e se, como é muito provável dadas as diferenças entre os
seres humanos, houver desigualdade económica? Admitirei essa
desigualdade se ela também for de alguma forma vantajosa para
mim. Nem todos vamos ter o mesmo nível de vida, mas não aprovarei
princípios que permitam que os outros colham benefícios e eu
unicamente prejuízos. E se nem todos vamos ser iguais, pelo menos
que haja igualdade de oportunidades. Não quero uma sociedade que
unicamente respeite os meus direitos políticos, que me permita votar e
expressar as minhas ideias, quero também uma sociedade que respeite
os direitos das pessoas a bens materiais e a serviços sociais».
(John Rawls, Uma Teoria da Justiça, Ed. Presença, Lisboa, 1993).

OS PRINCÍPIOS DA JUSTIÇA EQUITATIVA

Uma sociedade justa deve então cumprir as seguintes condições:

1. Assegurar a cada membro o maior conjunto possível de liberdades


básicas (direito de voto, de ocupar um posto público, de reunião, de
expressão, de propriedade pessoal, etc.) compatíveis com uma
liberdade igual para todos. É o princípio de igual liberdade.
2. As posições sociais mais vantajosas (salários mais elevados, por
exemplo) devem estar ao alcance de todos com base na igualdade
de oportunidades. É o princípio da igualdade de oportunidades.
3. As desigualdades socioeconómicas (de estatuto social, de
rendimentos e de riqueza) são admissíveis se funcionarem a favor de
todos, sobretudo dos mais desfavorecidos. É o chamado princípio
da diferença, (considerado a maior contribuição de Rawls para o
pensamento político e igualmente a sua tese mais controversa).

a) Quanto ao primeiro princípio (princípio de igual liberdade), há um


alargado consenso. Repare-se que não se exige simplesmente igual
liberdade política e cívica, mas também o máximo de liberdade individual
que não interfira com as liberdades de todos. Este princípio tem
precedência sobre todos os outros, isto é, a liberdade não pode ser
sacrificada em nome do bem-estar da maioria ou em nome da felicidade
geral. No entanto, esta prioridade só é plausível se todos tiverem
atingido um nível de vida acima do limiar da pobreza. Também viola
esse princípio ter de abdicar de uma determinada crença religiosa e
aderir a outra para ter acesso a certos cargos públicos relevantes, como
foi, por exemplo, o caso, ao longo da história, de muitos judeus que
quiseram ser juízes ou advogados.
b) O princípio da igualdade de oportunidades significa que cada um
deve ter as mesmas oportunidades de acesso às várias funções e
posições sociais. De que igualdade se trata? De uma igualdade
semelhante à que acontece nas corridas de atletismo. Numa corrida de
400 metros planos as posições de saída dos atletas são diferentes. Esta
medida tem como objetivo compensar as desigualdades geradas pela
forma da pista, tornando possível a igualdade de condições de saída.
Imaginemos a seleção para postos de trabalho numa empresa. É justo
que as posições mais vantajosas e os restantes lugares sejam dados
aos mais qualificados. Contudo, a igualdade de oportunidades é mais do
que isso. Exige que todos os concorrentes aos lugares tenham tido a
possibilidade de obter qualificação apropriada na escola ou em qualquer
outra instituição.
c) O princípio da diferença corresponde ao modo como Ralws entende a
equidade. A EQUIDADE equivale a uma distribuição desigual dos
bens básicos que deve favorecer quem se encontra em pior
situação por razões económicas, físicas ou intelectuais. Por outras
palavras, justifica-se que algumas pessoas ganhem acima da média
desde que essa desigualdade beneficie os membros menos
favorecidos da sociedade.
d) Como se justifica moralmente a desigualdade económica?
Rawls apresenta duas razões interligadas. A desigualdade justifica-se:
a) se beneficiar todos os membros da sociedade, em especial os menos
favorecidos. b) se for uma condição necessária e suficiente para
incentivar uma maior produtividade.
e) Um certo grau de desigualdade – em que uns possam ganhar mais do
que outros – torna as pessoas mais produtivas e, aumentando o
tamanho do bolo, cada qual pode receber uma fatia maior do que em
situação de fraca ou menor produtividade. Se a desigualdade existente
for maior do que o necessário para aumentar a produtividade então ela é
injusta, moralmente inaceitável.
f) Ralws quer dizer que, até certo ponto, a desigualdade económica é
um incentivo que aumenta a produtividade global da sociedade.
Assim, há mais recursos e bens que podem (e devem) ser
canalizados para beneficiar os que estão em situação menos
vantajosa. Os impostos são uma destas formas de assistência contínua
aos que estão em piores condições. (Este princípio tem em conta que
numa sociedade de total igualdade a produtividade poderia ser tão baixa
que todas as pessoas, inclusive os mais desfavorecidos, seriam
prejudicados).
g) O propósito do princípio da diferença é o de regular e corrigir as
desigualdades. Assim, os mais afortunados têm o direito de
satisfazer os seus interesses e ambições desde que o exercício das
suas capacidades também traga vantagens aos que não foram
favorecidos pelos acasos naturais (doença incapacitante, etc.) e sociais
(ter nascido numa classe social desfavorecida, etc.).
h) Ralws defende a liberdade individual quer no plano político quer no
plano económico, mas procura corrigir uma distribuição demasiado
desigual da riqueza e dos benefícios sociais. Por isso mesmo, a sua
teoria recebe o nome de liberalismo social. Uma acentuada
desigualdade económica - uma distribuição muito desequilibrada dos
bens sociais - põe em causa a igualdade de oportunidades e, assim
sendo diminui significativamente as liberdades dos mais desfavorecidos.

A QUESTÃO DA DESOBEDIÊNCIA CIVIL


E/OU OBJEÇÃO DE CONSCIÊNCIA
«(…) Parto do princípio de que a sociedade em questão é quase justa;
isto implica que ela possui uma forma de governo democrático,
embora possam apesar disso existir injustiças sérias. Parto do
pressuposto de que em tal sociedade os princípios da justiça são no
essencial publicamente reconhecidos como constituindo os termos
fundamentais para uma cooperação entre sujeitos livres e iguais. Deste
modo, ao recorrer à desobediência civil, deseja-se apelar ao sentido
de justiça da maioria e advertir de forma pública que, a nossa
opinião sincera e ponderada, as condições para uma cooperação
livre estão a ser violadas. Apelamos aos outros que reconsiderem,
que se coloquem na nossa posição e que reconheçam que não
podem esperar indefinidamente o nosso consentimento quanto às
condições que nos impõem.
Ora, o impacto deste apelo depende da conceção democrática da
sociedade como sistema de cooperação entre pessoas iguais. Se
encararmos a sociedade de outra forma, este tipo de protesto pode ser
deslocado. Por exemplo, se a lei básica for vista como refletindo a
ordem natural e se o governo governar por direito divino enquanto
representante escolhido por Deus, os súbditos terão apenas o
direito de súplica. Podem apresentar o seu caso mas, se a decisão
lhes for desfavorável, não podem desobedecer. Fazê-lo seria uma
revolta contra a mais alta autoridade moral legítima (e não apenas
jurídica). Isto não significa que o soberano não possa errar, mas apenas
que não cabe aos seus súbditos corrigir tal erro. Mas, uma vez
interpretada a sociedade como uma forma de cooperação entre
iguais (Democracia), aqueles que são vítimas de uma injustiça séria
não são obrigados à submissão. Na verdade, a desobediência civil
(e também a objeção de consciência) é um dos mecanismos
estabilizadores de um sistema constitucional, embora por definição
seja um mecanismo ilegal. Juntamente com as eleições livres e
regulares e um poder judicial independente, competente para interpretar
a constituição (a qual não tem que ser escrita), a desobediência civil,
quando utilizada de forma moderada e ponderada ajuda a manter as
instituições justas. Ao resistir à injustiça, dentro dos limites do direito,
ela serve para impedir os desvios face às regras da justiça e para os
corrigir caso ocorram. O facto de os cidadãos estarem em geral
dispostos a recorrer à desobediência civil justificada é um elemento
de estabilidade na sociedade bem ordenada ou que seja justa».
(John Rawls, Uma Teoria da Justiça, Ed. Presença, Lisboa, 1993)

 Analise o texto de John Rawls quanto à legitimidade (ou não) da


“desobediência civil». Justifica.

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