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Metodologia do

Trabalho Científico
CLARA MENDONÇA
VERA PEREIRA
Unidade 1
Ciência e conhecimento
científico
Habilidades

• C
ompreender a importância da produção científica para a ciência.

Descritores de desempenho

• Conhecer conceito, classificação e divisão da ciência.

• Identificar os diferentes tipos de conhecimento.

• Compreender as relações entre cada um desses modelos de conhe-


cimento e a produção científica.

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Apresentação da unidade
O objetivo desta unidade é familiarizá-lo com os diversos tipos de conhecimentos que
circulam na sociedade. Os conhecimentos, por apresentarem diferentes naturezas, não
podem ser classificados em melhores ou piores, o que existe é uma adequação para
o meio em que eles circulam. Você não pode utilizar uma linguagem informal, ou seja,
aquela que você utiliza em um ambiente descontraído, para apresentar um trabalho
científico, pois na Academia o interlocutor é outro, e é onde circula o conhecimento
social.
Você deve estar se perguntando: como saber utilizar as linguagens de cada meio de
circulação social? É justamente sobre isso que vamos tratar. Veremos os diversos tipos
de conhecimentos que a humanidade acumulou e suas características.

1.1 Conceito de ciência


Inicialmente, vamos contextualizar o cenário em que os procedimentos científicos
nasceram. Podemos remontar as origens do pensamento científico até a Grécia Antiga,
no entanto, a ciência, tal como a entendemos hoje, só vai adquirir seus contornos
durante o Renascimento. Mas, a ciência renascentista era uma ciência voltada para os
fatos naturais, assim, articular ciência com sociedade é algo bem recente. Até o século
XIX, a Filosofia era a disciplina que buscava entender as questões naturais, sociais e
humanas, mas ela não conseguia, por si só, explicar alguns problemas como miséria,
desigualdade social, conflitos de classe etc.
Os pesquisadores dessa época não possuíam instrumentais metodológicos para abordar
tais assuntos cientificamente. Cabe destacar que a evolução humana teve significativa
contribuição do método construído pelos pensadores desde o século XV, passando por
René Descartes, Francis Bacon e Galileu Galilei, buscando o conhecimento das ciências
naturais, até o século XIX com Comte e Durkheim. Esses renomados pensadores
dedicaram suas vidas a explicar as aspirações sociais humanas por meio de métodos
das ciências naturais para as sociais.
Feita essa contextualização, seguimos nossos estudos com o seguinte questionamento
de Labort (1988, p. 23): "o que é ciência?”. Ele mesmo fornece a resposta refletindo
no sentido de que, quando o homem do paleolítico encontrou um mamute, percebeu
imediatamente que não podia enfrentá-lo. Fugiu correndo e, na incoerência aterrorizada
da corrida, caiu e feriu o joelho em um sílex. Compreendeu que o sílex era mais duro do
que o joelho. Ora, o homem é o único animal que reuniu essas diversas experiências para
formular uma hipótese de trabalho, uma hipótese que verificará experimentalmente.
Essa foi, sem dúvida, uma atividade científica.

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Naturalmente, esse fato que o autor reporta como “ciência” não é exatamente essa
ciência sobre a qual nos referimos hoje.

Atenção
Ciência é o conjunto de teorias que tendem a explicar
uma determinada realidade e cujas conclusões po-
dem ser repetidas.

Assim, as disciplinas de Sociologia, História, Geografia etc. podem ser entendidas como
ciência porque abrigam uma série de teorias que se propõem a explicar determinada
realidade, seguindo dada metodologia e cujas conclusões podem ser generalizadas. A
Metodologia Científica insere-se nesse contexto: também é uma ciência, não por possuir
em seu título a palavra “científica”, mas porque engloba várias teorias e possui um
sistema próprio de proceder (metodologia), cujas conclusões podem ser generalizadas
e aplicadas em outras ciências e, também, em sua vida.

Figura 1.1: Metodologia Científica

Fonte: Plataforma Deduca (2018).

Evidentemente que o homem paleolítico não tinha consciência do que estava fazendo:
ele realizava suas ações seguindo seus instintos para sobreviver. No entanto, no
momento em que age e começa a pensar no “porquê” faz algo, esse homem ancestral
passa a elaborar teorias: passa, portanto, a construir ciência.

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Figura 1.2: O salto do conhecimento

Fonte: Plataforma Deduca (2018).

Reflita
Teoria é toda lei, valor, fundamento e condicionantes
que um pesquisador elabora para explicar um fenô-
meno em particular.

É por meio dessa e de outras regras, capazes de explicar determinado fenômeno social
ou natural, que se constitui uma ciência. Então, podemos entender que a teoria é um
tipo de engrenagem capaz de articular relações do cotidiano abstratamente, ou seja, é
a teoria que retira da realidade o objeto e o transforma em representação.
As ciências podem ser divididas por áreas, é o que veremos a seguir.

1.2 Classificação e divisão de ciência


Segundo Mattar (2014), as ciências são classificadas, pelo menos, a partir de seus
aspectos básicos e nos seus métodos científicos, porém, esta não é uma atividade
simples.
Grosso modo, as ciências podem ser divididas em exatas, biológicas e humanas.
Vejamos algumas características de cada uma.

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• Ciências exatas: são todas aquelas que têm a Matemática como funda-
mento. Assim, a Matemática, a Física, a Astronomia, as ciências da compu-
tação e as engenharias podem ser classificadas como exatas.

• Ciências biológicas: são aquelas que têm como base o estudo dos seres
vivos em seus aspectos biológicos. São exemplos de biológicas a Medici-
na, a Odontologia, a Educação Física, a Agronomia, a Fisioterapia e a Fo-
noaudiologia.

• Ciências humanas: desenvolvem, em seus estudos, um ótica sociológica


do ser humano. A Filosofia, a Sociologia, as Letras, a Pedagogia, a Admi-
nistração, a Contabilidade e o Direito são exemplos de cursos na área de
ciências humanas.

Vejamos, a seguir, um pouco mais sobre o conceito de conhecimento.

1.3 Considerações sobre o conhecimento


Você já parou para tentar definir o que é conhecimento? Pode até pensar que é simples
e estar dizendo para si mesmo que conhecimento é tudo aquilo que alguém sabe.
Entretanto, definir o que é conhecimento é uma tarefa muito complexa.
Primeiramente, pode-se dizer que o conhecimento transita por diferentes áreas e
espaços de aprendizagem, sendo que:

Conhecer é atividade especificamente humana. Ultrapassa o mero 'dar-se conta de', e sig-
nifica a apreensão, a interpretação. Conhecer supõe a presença de sujeitos; um objeto que
suscita sua atenção compreensiva; o uso de instrumentos de apreensão; um trabalho de
debruçar-se sobre. Como fruto desse trabalho, ao conhecer, cria-se uma representação do
conhecido - que já não é mais o objeto, mas uma construção do sujeito. O conhecimento
produz, assim, modelos de apreensão - que por sua vez vão instruir conhecimentos futu-
ros. (FRANÇA et al., 2011, p. 140).

Em segundo lugar, é importante entender que o conhecimento não é, e nem pode ser,
somente individual. Diz-se isso porque ninguém sabe tudo sobre determinado assunto.
Cada um sabe um pouco sobre algo, e esse pouco individual se junta para formar um
conhecimento ainda maior.
O conhecimento que a sociedade tem hoje dos diversos setores que a formam foi
algo construído com o tempo. Lembre-se de que nosso antepassado pré-histórico foi
desenvolvendo as tecnologias aos poucos, pois, no início, nem o fogo ele sabia acender.

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Este foi um dos primeiros conhecimentos fundamentais para o desenvolvimento da
humanidade.
Nesse contexto, hoje, a humanidade domina uma gama tão grande de conhecimento
que estes foram sendo divididos em setores. Veja que o conhecimento de um padre ou
de um pastor é totalmente diferente do conhecimento de um médico. Para curar uma
doença, por exemplo, o médico vai pedir exames, receitar uma medicação, já o padre
ou o pastor pode realizar uma oração em benefício da cura do doente. Qual deles é o
melhor conhecimento? Nenhum, pois não há juízo de valor para isso. Nos dois casos,
pressupõe-se que tanto o médico quanto o pastor ou o padre sejam estudiosos de
suas áreas de conhecimento. O diferencial entre uma área e outra é a linguagem e a
metodologia aplicadas por quem constrói o conhecimento. Assim, quando o estudioso
vai a fundo em seus estudos, ele pode ser considerado um pesquisador.

Figura 1.3: Pesquisador

Fonte: Plataforma Deduca (2018).

Mas o que faz o pesquisador?


Se você respondeu “pesquisa”, tem toda a razão, porém, agora cabe outra pergunta:
como e o que se pesquisa? Perceba, portanto, que para esta disciplina o mais importante
são as perguntas que fazemos para desvendar determinados mistérios. Isto porque
esses questionamentos constituem a base das atividades do pesquisador e percorrerão
toda a sua linha de investigação. A isto chamamos de Método, e às suas respostas
chamamos de Conhecimento Científico.
Além disso, esse conhecimento produzido, a partir das respostas alcançadas pelas
perguntas, conforme observam França et al. (2011), surge para o pesquisador como
representações da realidade. É um conhecimento construído sobre um conhecimento

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anterior, ampliando os horizontes dos saberes e produzindo novas perguntas que
culminarão em novos conhecimentos.
Diante desse contexto, observe que a construção do conhecimento, seja para entender
a regra de um jogo desportivo ou uma complexa organização social, ocorre a partir da
inquietude, curiosidade e proatividade de quem investiga.

Curiosidade
Você sabia que o conhecimento é resultado das dúvi-
das daquele que estuda determinado assunto?

Sendo assim, o conhecimento aparece como:

[...] a abertura para o mundo, a cristalização (ou enquadramento) do mundo. Conhecer


significa voltar-se para a realidade, deixar falar o nosso objeto; mas conhecer significa
também apreender o mundo através de esquemas já conhecidos, identificar no novo a
permanência de algo já existente ou reconhecível. O predomínio de uma ou outra dessas
tendências tem efeitos negativos, e é através de seu equilíbrio que se pode alcançar o co-
nhecimento ao mesmo tempo atento ao novo e enriquecido pelas experiências cognitivas
anteriores. (FRANÇA et al., 2011, p. 43).

Perceba, portanto, que em todos os tempos históricos a humanidade sempre construiu


conhecimento, seja de uma forma ou de outra, como colocam Bastos e Keller (2000, p.
54):

A história humana é a história das lutas pelo conhecimento da natureza para interpretá-la
e para dominá-la. Cada geração recebe um mundo interpretado por gerações anteriores.
Esta história está constituída por interpretações místicas, proféticas, filosóficas, cientí-
ficas, enfim, por ideologias. Cada indivíduo que vem ao mundo já o encontra pensado,
pronto: regras morais estabelecidas, sociedade organizada, religiões estruturadas, leis co-
dificadas, classificações preparadas. No entanto, tal estruturação do mundo não justifica
a alguém se sentir dispensado de repensar este mundo, porque caso contrário tem-se o
lugar comum, a mediocridade e, o que é pior, a alienação.

Cervo e Bervian (2010) lembram que, por meio do conhecimento, o homem entra em
várias áreas da realidade, porém, é preciso ressaltar que a própria realidade apresenta
natureza diferenciada. Por isso, o conhecimento humano foi classificado em níveis, ou
tipos. São eles: o senso comum, o conhecimento teológico, o conhecimento artístico,
o conhecimento filosófico e o conhecimento científico. Se você se tornar um estudioso
da área e for aprofundar seus conhecimentos para além do que for apresentado aqui,

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verá que pode haver modificações na classificação dos níveis de conhecimento. Mattar
(2014) comenta que a divisão tradicional dos níveis de conhecimento mostra-se a partir
de um exame mais apurado e muito frágil, pois o conhecimento artistístico também
pode ser um nível de conhecimento, ao passo que o conhecimento mitológico pode ser
agregado ao conhecimento teológico. Neste material, adotamos a abordagem proposta
por Mezzaroba e Monteiro (2017), Cervo e Bervian (2010) e Lakatos e Marconi (2009),
que não apresentam o conhecimento artístico, mas o conhecimento mitológico.

Figura 1.4: A arte como conhecimento

Fonte: Plataforma Deduca (2018).

Veja, a seguir, os tipos de conhecimento e suas características.

1.3.1 O senso comum


O senso comum é um tipo de conhecimento que recebe vários nomes, como: bom
senso, conhecimento popular, conhecimento empírico, conhecimento espontâneo e
conhecimento vulgar.
Você já deve ter ouvido coisas do tipo: não passe debaixo da escada porque dá azar;
mulher que teve filho só lava o cabelo depois do resguardo. Enfim, você pode ter ouvido
essas coisas e muito mais, mas já leu algum estudo científico comprovando que passar
por debaixo da escada dá azar? Ou que lavar o cabelo depois de ter um bebê pode levar
a mãe à morte? Certamente não, pois esses conhecimentos não têm fundamentos
científicos, são coisas que as pessoas falam. Porém fique atento, pois, muitas vezes, o
senso comum pode estar certo. Certamente, durante sua infância, alguém avisou você
para não colocar o dedo na tomada elétrica, pois esta dá choque. É muito provável que

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tenha sido alertado sobre isso, pois alguém já teve a experiência de levar um choque
quando colocou o dedo ou um objeto na tomada. Daí vem o nome empirismo.
Mezzaroba e Monteiro (2017) lembram que o senso comum é resultado de informações
trocadas entre as pessoas com o passar do tempo; são conhecimentos que passam
por gerações, sendo adaptados e assimilados pela cultura popular. Esse conhecimento
é acessível a qualquer pessoa, pois o indivíduo não precisa ser especialista no assunto
para repassar esse tipo de conhecimento.
No entanto, a fragilidade desse tipo de conhecimento consiste no fato de ele ser
destituído de teor crítico. Simplesmente é aceito do jeito que é enunciado. Lembre-se
de que o conhecimento desse tipo pode gerar preconceitos ou ser transformado em
verdades absolutas.
Essa forma de construção do conhecimento não é científica, não é filosófica, e tem a
particularidade de, muitas vezes, estar isenta de argumentações. O senso comum atende
às necessidades imediatas da sociedade, e todos nós possuímos conhecimentos de
senso comum. Quais são os seus?
É importante destacar que os conhecimentos de senso comum são usados, também,
para resolver problemas do cotidiano. Contudo, trata-se de um conhecimento limitado,
posto que "[...] não é sistemático, nem eficiente, e não permite identificar conhecimentos
complexos ou relações abstratas" (GRESSLER, 2003, p. 27).
Para Lakatos e Marconi (2009, p. 18, grifo nosso) o senso comum "[...] não se distingue do
conhecimento científico nem pela veracidade, nem pela natureza do objeto conhecido:
o que os diferencia é a forma, o modo ou o método e os instrumentos do 'conhecer’".
Todavia, recebe pejorativamente a denominação de conhecimento vulgar ou popular.
Para Petrin (2014), senso comum é:

[...] aquele tipo de conhecimento que se estende a todos os indivíduos e vem, inclusive,
sem que percebamos, como uma herança genética de geração em geração. Isso é usa-
do diariamente mesmo que a gente não se dê conta, em atividades comuns como por
exemplo o uso das ervas para confecção de chás e cura de doenças. Nós simplesmente
confiamos, mesmo sem nos perguntar porque funcionam, apenas acreditando em tudo
que ouvimos a respeito, principalmente dos mais velhos. (PETRIN, 2014, s.p.).

O senso comum também é capaz de produzir aquilo que as ciências chamam de dogmas.
Mezzaroba e Monteiro (2017) definem dogmas como algo que se aceita como verdade,
sem a presença de questionamentos, e trazem como exemplo de dogma as ações dos
terroristas islâmicos, que carregam bombas e sacrificam sua vida para matar pessoas
que não aderem à sua religião.

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Portanto, o modo de se combater o dogmatismo é a atitude crítica. Conversar, debater,
pesquisar sobre ideologias e crenças é um modo salutar de combater as intolerâncias
que o dogma pode acarretar.

Figura 1.5: Racismo como dogma

Fonte: Plataforma Deduca (2018).

Vejamos agora outro nível de conhecimento: o mitológico.

1.3.2 Conhecimento mitológico


O conhecimento mitológico também é conhecido como conhecimento mítico, e está
relacionado com a palavra mito.
Certamente, você já deve ter ouvido algum mito. As civilizações antigas, como os
egípcios, os gregos e os romanos, utilizavam muito esse recurso. Mesmo os indígenas
têm essa cultura dos mitos. Mezzaroba e Monteiro (2017) lembram que o conhecimento
mítico desempenhava na Antiguidade o mesmo papel da ciência, da Teologia e da
Filosofia, até que essas áreas se estruturaram e se tornaram campos de estudo.
Um exemplo de mito é a explicação do nascimento do sol. Acreditavam os romanos
que, todo dia, o deus Apolo atravessava o céu com o sol em sua carruagem. Nos dias
nublados ou chuvosos, Apolo estava ocupado fazendo outras coisas, como relatou
Pousadoux (1998).
Veja o que Mezzaroba e Monteiro (2017, p. 27) falam sobre o conhecimento mitológico:

Você, com certeza, já pôde perceber que o conhecimento mítico é um modo lúdico, ingê-
nuo, fantasioso, anterior a toda reflexão, e não crítico de buscar explicações para fatos

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desconhecidos pelo homem. Isso é assim porque o mito se apresenta como uma verdade
instituída, que dispensa a apresentação de provas para ser aceito.

O conhecimento mitológico aproxima-se muito do conhecimento teológico, que será


visto na sequência. Além disso, alguns autores não os separam, pois tratam os mitos e
religiões como se tivessem a mesma origem.
O mito também está relacionado com os personagens de histórias, que salvam a
humanidade de algum mal. Mezzaroba e Monteiro (2017) alertam que um mito pode
ser criado. Veja, por exemplo, o que Hitler significou para a história da Alemanha: o
“salvador” daquela pátria. Quem estudou o mínimo de História sabe o que essa figura
causou de males para a Europa na Segunda Guerra Mundial. Por esse motivo, é preciso
estar atento, mesmo hoje em dia, para que os mitos criados pela mídia não confundam
nosso senso crítico.
Perceba também a distância que existe entre o conhecimento mítico e o conhecimento
científico, afinal, o segundo é racional e trabalha com aquilo que pode ser experimentado,
discutido e comprovado.
Vamos dar sequência ao nosso estudo sobre os níveis do conhecimento, agora
enfatizando o conhecimento teológico.

1.3.3 Conhecimento teológico


Esse tipo de conhecimento tem como fundamento a religião e a fé. O princípio que
orienta esse conhecimento é o de que não é necessário ver para crer. Mezzaroba e
Monteiro (2017) lembram que esse conhecimento pressupõe a existência de forças que
estão além da capacidade de explicação do homem, são instâncias divinas e criadoras
de tudo o que existe. O conhecimento religioso ou teológico parte do princípio de que
as verdades tratadas são infalíveis e indiscutíveis, por consistirem em revelações da
divindade, do sobrenatural.
Ademais, o conhecimento religioso apoia-se em doutrinas que contêm proposições
sagradas e pode ser visto como:

• valorativo: atribui o conceito de certo e de errado;

• inspiracional: dadas pela divindade, e, por esse motivo, tais verdades são
consideradas indiscutíveis;

• infalível e exato: por ter origem divina;

• não verificado: não pode ser comprovado e depende da aceitação de uma


atitude de fé perante um conhecimento revelado.Vejamos, na sequência,
uma explicação para o conhecimento filosófico.

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1.3.4 Conhecimento filosófico
Mattar (2014) argumenta que um dos grandes patrimônios da Filosofia é a sua própria
história, que teve início na Grécia Antiga. De acordo com o autor, é a partir da Filosofia
que nasce a própria ciência, logo, os dois níveis de conhecimento (filosófico e científico)
relacionam-se pelo rigor, que se traduz pela presença do método e pela busca da verdade.
Entretanto, a Filosofia encontra-se sempre à procura do que é mais geral, interessando-
se pela formulação de uma concepção unificada e unificante do universo. Para tanto,
procura responder às grandes indagações do espírito humano, buscando até leis mais
universais que englobem e harmonizem as conclusões da ciência.
O conhecimento filosófico pode ser caracterizado como:

• valorativo: seu ponto de partida consiste em hipóteses filosóficas que ba-


seiam-se na experiência, e não na experimentação;

• não verificável: os enunciados das hipóteses filosóficas não podem ser


confirmados nem refutados, eles são longamente discutidos;

• racional: consiste em um conjunto de enunciados logicamente correlacio-


nados;

• sistemático: suas hipóteses e enunciados visam a uma representação coe-


rente da realidade estudada, em uma tentativa de compreendê-la em sua
totalidade;

• infalível e exato: suas hipóteses e postulados não são submetidos a expe-


rimentações.

Para Cervo e Bervian (2010), a principal tarefa da Filosofia é a reflexão sobre os


fatos e problemas que cercam o ser humano, sempre na tentativa de compreender,
problematizar, porém, com a intenção de resolvê-los.
Na sequência, vamos estudar outro tipo de conhecimento muito importante para
estudantes de todos os níveis de ensino.

1.3.5 Conhecimento científico


Talvez os maiores pontos de convergência entre o conhecimento filosófico e o científico
é a presença do método e a racionalidade, fato que a ciência herdou da Filosofia, visto
que a primeira é posterior à segunda.
Mezzaroba e Monteiro (2017, p. 42) descrevem que:

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O conhecimento científico propriamente dito é uma conquista tardia da humanidade. Foi
entre os séculos XVI e XVII, com a revolução científica deflagrada por Copérnico, Bacon,
Galileu, Descartes e outros pensadores, que a Ciência conquistou campo próprio de inves-
tigação e de reflexão. Daquele momento em diante, ela passou a utilizar métodos próprios
de pesquisa, separando-se, então, definitivamente do conhecimento filosófico.

O desenvolvimento da ciência a partir do século XVI foi tão expressivo que o homem
começou a estudar e entender profundamente os objetos, fatos e coisas existentes no
mundo, de modo que ele se tornou capaz de prever acontecimentos e melhorar a vida
da sociedade em diversos setores, tais como saúde, transporte e educação.
Importante também compreender que o conhecimento sobre determinado assunto
sempre pode ser revisitado, pois a tecnologia permite que novos fatos sejam
descobertos. Na Biologia, por exemplo, os primeiros estudos sobre as células não
apontaram a existência de organelas celulares. Com o advento de microscópios mais
modernos, descobriu-se a existência das organelas celulares e a intrincada arquitetura
dessas minúsculas estruturas.
Podemos elencar algumas características do conhecimento científico:

• factual: estuda ocorrências, fatos e tudo aquilo que é real;

• sistemático: seu conjunto de saberes é organizado sistematicamente, for-


mando um sistema de ideias (teoria), e não conhecimentos dispersos e
desconexos;

• verificável: as hipóteses que explicam os fenômenos podem ou não ser


comprovadas;

• falível: em virtude de não ser definitivo e estar em constante redescoberta.

O conhecimento científico é largamente utilizado na faculdade, pois tudo que é


apresentado para o estudante deve vir de fontes confiáveis.
O conhecimento científico, portanto, pauta-se na reflexão crítica sobre determinado
objeto, e suas conclusões são resultados de um processo que envolve: exploração e
descoberta, hipóteses (ideias explicativas), análise pelos pares (outros pesquisadores)
e conclusões (benefícios e resultados).

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Figura 1.6: O ciclo do conhecimento científico

Fonte: Elaborada pelas autoras (2018).

No item a seguir, veremos a relação do conhecimento científico com a vida acadêmica.

1.4 O conhecimento científico e as produções


acadêmicas
É com o conhecimento científico que você, aluno, vai lidar durante todo o seu percurso
acadêmico. Durante o seu curso serão apresentadas as bases científicas que
fundamentam sua futura profissão; também durante seus estudos, você será orientado
no sentido de compreender e aplicar os métodos e técnicas de pesquisa da sua área,
o que culminará com a escrita de artigos ou do seu Trabalho de Conclusão de Curso.
Porém, o pensamento científico vai acompanhá-lo durante toda a sua vida profissional,
pois é através do pensamento organizado, direcionado e lógico que você vai resolver os
desafios que toda profissão apresenta.
O caminho da pesquisa é extremamente organizado, e a própria comunidade científica
trata de fazer essa organização através de normas e orientações para a escrita dos
trabalhos acadêmicos e consequente exposição do conhecimento aprendido e
desenvolvido.
Findamos, neste momento, o estudo da primeira unidade. Vejamos, na sequência, uma
síntese.

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Síntese

Abordamos, nesta unidade, alguns conceitos importantes:

• Estudamos o conceito de conhecimento.

• Vimos que o conhecimento que a humanidade acumulou é tão grande que


foi dividido em áreas.

• Aprendemos que o conhecimento pode ser dividido em senso comum, mi-


tológico, religioso, filosófico e científico, porém, se você pesquisar mais,
poderá encontrar outras divisões.

• Entendemos que na Academia também se estuda o conhecimento filosófi-


co, mas o científico é amplamente utilizado nos cursos superiores.

Saiba mais
Consulte a obra “O que é ciência, afinal?”, de Alan
Chalmers, publicado pela Editora Brasiliense. Vale a
pena ler para entender um pouco mais sobre o assun-
to, acesse o link: <http://www.academia.edu/down-
load/38987094/chalmers_o_que_e_ciencia_afinal2.
pdf>.

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Referências

BASTOS, C.; KELLER, V. Aprendendo a aprender: introdução à metodologia científica.


Petrópolis: Vozes, 2000.

CERVO, A. L.; BERVIAN, P. A. Metodologia científica. 6. ed. São Paulo: Makron Books
do Brasil, 2010.

FRANÇA, J. L. et al. Manual para normalização de publicações técnico-científicas. 8.


ed. rev. e aum. Belo Horizonte: UFMG, 2011.

LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. de A. Metodologia do trabalho científico. 7. ed. São


Paulo: Atlas, 2009.

MATTAR, J. Metodologia científica na era da informática. 3. ed. São Paulo: Saraiva,


2014.

MEZZAROBA, O.; MONTEIRO, C. S. Manual de metodologia da pesquisa em direito.


São Paulo: Saraiva, 2017.

PETRIN, N. Conhecimento científico. São Paulo: Estudo Prático, 2014.

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