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Estudar gramática: (des)interesse e (in)utilidade

João Costa (Universidade Nova de Lisboa)

A linguagem é, sem dúvida, a característica fundamental que nos faz ser diferentes de
outras espécies animais. Sabemos que há animais, como as abelhas ou os golfinhos, que
têm sistemas de comunicação com alguma complexidade, mas nenhuma outra espécie
animal domina um sistema tão rico, inovador e complexo como a linguagem. Ao
contrário das outras espécies animais, temos a capacidade de criar palavras, frases e
enunciados novos, de falar do que não está presente no nosso contexto, de expressar
opiniões e até de utilizar a linguagem para dizer exactamente o contrário daquilo que
sentimos!

Ninguém contesta o interesse de estudar como funciona o nosso corpo, nas suas
diferentes funções. No entanto, é frequente ouvir questionar o interesse de estudar como
funciona a língua e afirmar que o estudo da gramática é desinteressante e inútil.
Surpreendentemente, até se defende (muitas vezes, de forma não muito explícita) que o
estudo da gramática põe em causa o “humanismo” do estudo da língua. Ora, se a nossa
competência como seres vivos que dominam e utilizam uma gramática é o que nos
distingue dos outros animais, haverá algum estudo mais humanista do que o estudo do
que nos identifica e distingue como humanos? Parece-me que não… Não será
aprofundando o nosso conhecimento sobre a nossa especificidade como humanos que
conheceremos e entenderemos melhor o Homem?

Só por este motivo, já me parece ser suficientemente interessante que a escola se


preocupe em dedicar tempo ao estudo da gramática. Sabemos, contudo, que muitos,
infelizmente, não se contentam com o facto de uma área de estudos ser interessante.
Para muitos, o que não tem aplicabilidade, o que não pode ser utilizado, não merece ser
estudado. É, para mim, assustador que assim seja. Se esta linha de pensamento vencer,
estaremos, indubitavelmente, a um passo muito curto do fim dos estudos humanísticos.
Paradoxalmente, observa-se que são alguns dos pretensos defensores das Humanidades
que pretendem que não se estude gramática, porque não é útil, trazendo, de forma
bastante perigosa, para uma discussão sobre o papel das Humanidades na formação dos
jovens o argumento que pode, um dia, erradicar completamente as Humanidades da
formação.

Para além de perigosa, pobre e indefensável, tentarei mostrar que esta argumentação em
torno da utilidade do ensino da gramática é, também, errada. Vários autores têm
mostrado que, ao contrário do que os defensores da inutilidade proclamam, estudar
gramática é útil. Centrar-me-ei nas relações positivas entre conhecimento gramatical e
bom domínio da escrita.

É comum ouvir-se dizer que, para uma boa competência de escrita, basta ler muito. É
inegável que a leitura tem um impacto bastante positivo em todas as competências
relacionadas com o domínio da língua. Citando apenas alguns exemplos, um leitor
fluente e experiente tem um capital lexical mais rico do que um mau leitor, isto é, uma
criança com muita experiência de leitura tem um vocabulário mais diversificado do que
outros leitores. Um leitor experiente está exposto a modelos de escrita (diversificados
ou não), estando, à partida, melhor apetrechado para uma reprodução na escrita dos
modelos com que contacta. Um leitor experiente conhece algumas expressões e
construções típicas da linguagem escrita, que não ocorrem com tanta frequência na
oralidade, estando mais apto a utilizá-las nos seus textos escritos ou orais formais.

Por se conhecerem estas correlações positivas entre leitura e competência linguística, a


escola tem atribuído um papel central à leitura. Deve ser assim e deve fazer-se mais e
melhor, porque, apesar deste papel central da leitura, vários estudos revelam que
continuamos com baixos índices de literacia, a ler pouco e a ler mal. Iniciativas como o
Plano Nacional de Leitura, o trabalho desenvolvido nas Bibliotecas Públicas e nas
Bibliotecas Escolares, estudos sobre literacia e promoção da leitura têm tentado
entender, de formas muito interessantes e já com alguns bons resultados, como se pode
formar bons leitores e como se pode converter um trabalho escolar muito centrado na
leitura na formação de mais e melhores leitores.

Se sabemos que o trabalho centrado na leitura não se tem traduzido, necessariamente, na


formação de leitores competentes, sabemos ainda melhor que, apesar das correlações
óbvias entre leitura e escrita, não há, à saída da escola, uma generalizada competência
de escrita com níveis aceitáveis. Os erros de escrita estão por todo o lado, desde o nível
micro-textual (ortográfico) até a níveis macro-textuais (de estruturação de texto em
função dos seus fins). Tentarei mostrar que, em alguns dos erros e problemas apontados,
há, nitidamente, uma falta de hábito de reflexão sobre o funcionamento da língua.

Consideremos alguns exemplos, retirados de blogs cujos autores têm formação superior.
Nos exemplos, foram alteradas algumas palavras e não é identificada a fonte, para
preservar o anonimato dos seus autores:

(1) “Fiz este pedido ao meu Conselho Executivo à mais de dois meses”

(2) “Era preciso pedir á tutela que esclarecesse”

(3) “Se falasse-mos disso mais vezes”

Estes são erros que, infelizmente, encontramos todos os dias. É preocupante que
ocorram em textos produzidos por adultos com formação superior. Um deles foi
extraído de um blog que se dedica a troca de ideias sobre experiências de leitura,
presumindo-se, portanto, que é produzido por um leitor experiente. Por que motivo
ocorrem erros desta natureza de forma tão frequente? Porque os nossos alunos, como foi
referido por Inês Duarte, há alguns meses em entrevista ao jornal “Público”, à saída do
Ensino Secundário, não conhecem as regras de ortografia. Aplicam-nas muitas vezes
com sucesso, recorrendo à memória sobre a grafia das palavras, mas não as conhecem.
Ora, esse desconhecimento leva a que, em caso de dúvida ou hesitação, não se possa
recorrer a uma regra explícita sobre a grafia das palavras.

Hábitos de reflexão gramatical constituem um óptimo auxiliar para a formulação de


regras de ortografia. Só me é possível consultar um prontuário, para esclarecer as
minhas dúvidas, se dominar a metalinguagem que me permite identificar o que é uma
contracção, o que é uma crase, o que é um pronome, o que é um verbo, quais os tempos
verbais, etc. Se não dominar essas categorias, não tenho os instrumentos necessários
para resolver problemas tão básicos como a solução de problemas de ortografia.

Vejamos mais alguns exemplos, que atestam problemas ao nível da pontuação:


(4) Os problemas que a minha escola identificou, são de outro nível.

(5) Eu defendo que, a solução deve estar…

(6) A TLEBS contudo, só trouxe…

(7) Porém eu acho que…

(8) Na minha escola, foi discutido muito superficialmente, se se devia adoptar…

Todos os casos ilustrados instanciam contextos de mau domínio do uso da vírgula. Em


(4) e (5), coloca-se uma vírgula que não devia estar presente. Em (6), falta uma vírgula
antes de “contudo”. Em (7), falta uma vírgula depois de “porém” e, finalmente, em (8),
falta uma vírgula antes de “muito superficialmente”. Em todos os casos, falta um hábito
de reflexão sobre as regras de pontuação. As regras que estão em causa, em cada um
destes contextos, são muito fáceis de enunciar:

» Não se coloca vírgula entre o sujeito e o predicado.


» Não se coloca vírgula entre uma conjunção e o sujeito.
» Os advérbios conectivos são separados do sujeito por vírgula. Se ocorrerem entre o
sujeito e o predicado, são intercalados por vírgula.
» Os modificadores que ocorrem depois do verbo são, opcionalmente, intercalados por
vírgula.

As regras são simples, mas os problemas de pontuação são dos mais frequentes.
Encontro-os em textos de alunos de diferentes graus, em textos oficiais, na legendagem
de filmes e, cada vez mais, em traduções de obras literárias de algumas editoras
conceituadas. Não é difícil encontrarmos a razão de ser de tantas dúvidas na colocação
da vírgula. A muitos de nós, a escola apenas disse que a vírgula é “uma pausa pequena”,
ignorando-se o facto de haver pausas que fazemos na oralidade que não podem ser
assinaladas com vírgula (como entre o sujeito e o predicado) e vírgulas que nem sempre
correspondem a uma pausa natural. Talvez fosse mais transparente um ensino claro e
inequívoco das regras de colocação da vírgula. Contudo, para que esse ensino seja
suficiente, se retomarmos as quatro regras enunciadas acima, precisamos de saber
identificar o sujeito, o predicado, conjunções, advérbios conectivos e modificadores.
Para tal, temos de ter trabalhado (ou temos de trabalhar em paralelo) a sua identificação.
Tradicionalmente, o trabalho que se faz sobre funções sintácticas e classes de palavras
não explora, de forma produtiva, a aplicação dos conhecimentos adquiridos em aspectos
tão essenciais como um bom domínio da pontuação. Talvez se encontre nesse tipo de
prática alguma explicação para a ideia de que o estudo da gramática é inútil.

Observemos, finalmente, exemplos de má estrutura textual, em duas aberturas de texto


(o exemplo (9) é retirado de um blog, o exemplo (10) é uma adaptação do início de um
capítulo de um romance de um autor português):

(9) Com efeito, sentia-se a necessidade…

(10) E, portanto, XXX era um artista.


No primeiro caso, observamos um mau uso do conector “com efeito”, que deve ser
utilizado para clarificar ou instanciar algo que foi expresso anteriormente, pelo que não
pode ser utilizado na abertura de um texto, sem haver qualquer informação anterior. No
segundo caso, estamos perante um uso bastante estranho do conector “portanto”, que
deve expressar uma conclusão face a informação que foi dada anteriormente. Este uso é
estranho, porque não há texto anterior no capítulo que permita assegurar uma
interpretação clara para este conector, nem no final do capítulo anterior. O próprio uso
de “e”, neste contexto, é bastante questionável. Uma vez que se trata de uma estrutura
narrativa bastante simples, não me parece que se possa considerar que estejamos perante
um caso de liberdade poética. O uso de conectores para o estabelecimento de nexos
entre porções de texto é, na verdade, uma fonte de dificuldade, sendo possível encontrar
exemplos de má articulação entre frases em muitos textos. Um uso eficiente dos
conectores passará pelo seu estudo e por prática de uso. É necessário distinguir
conectores que expressam conclusões, contrastes, instanciações, exemplificação, etc. e
quais as posições que estes conectores podem ocupar em frases e textos. Para tal, é
necessário o seu estudo sistemático e articulado com as tarefas de interpretação e
produção de diferentes tipologias textuais. Obviamente, para que este estudo seja bem
sucedido, é necessário reconhecer o que são conectores, que esta é uma função
discursiva que pode ser desempenhada por diferentes expressões e por diferentes classes
de palavras, o que, por sua vez, implica um trabalho prévio sobre classes de palavras.

Tentei, através destes exemplos, mostrar que o estudo da gramática é útil, ao contrário
do que se diz. Casos como estes constituem resposta a uma pergunta que tem sido feita
muitas vezes durante os últimos anos: “Qual é o contributo do estudo da gramática para
a melhoria do desempenho dos nossos alunos na leitura, na escrita e na oralidade?” O
que aqui deixei é apenas um conjunto de pequenos exemplos. Há uma quantidade
imensa de trabalhos que mostram os benefícios de uma actividade sistemática, reflexiva
e bem construída sobre o funcionamento da língua no desenvolvimento da leitura, da
escrita e da oralidade. Mas para que esses benefícios se manifestem é necessário, pelo
menos, desenvolver dois tipos de prática: um estudo efectivo da gramática – que não se
trata de uma mera memorização de categorias, etiquetas ou definições, mas sim de uma
actividade de observação, descoberta e análise de dados – e uma aplicação efectiva dos
resultados desse estudo nas actividades de uso da língua.

É frequente, perante observações deste tipo, ouvirem-se relatos de pessoas que dizem
não saber gramática e, ainda assim, terem bons níveis de desempenho na leitura e na
escrita. Em qualquer área do saber, há dons naturais que não implicam um
conhecimento explícito tão aprofundado. Há crianças que correm durante horas e que
não precisam que o professor de Educação Física lhes explique como controlar a
respiração para evitarem a famosa “dor de burro”. Há crianças que pintam muito bem,
sem que lhes tenha sido ensinada a melhor forma de utilizar os materiais de pintura.
Mas estes são a minoria. Os outros precisam que se lhes ensine como fazer, como
melhorar e como progredir.

Perante dados deste tipo, que não são de todo novos e têm sido repetidos por tantos
autores ao longo das últimas décadas, parece-me legítimo perguntar: qual o interesse e a
utilidade de se continuar a dizer que o estudo da gramática é desinteressante e inútil?
Será publicado nos Cadernos do ECB, uma revista do Externato Cooperativo da
Benedita, cujo n.º 1 (ano I) sairá em Maio /2008.

(http://area.dgidc.min-
edu.pt/sitio_dos_pais/joaocosta_estudargramatica_19mar08.html)

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