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Ciências Ambientais

1. INTRODUÇÃO

O pensamento e a razão são os instrumentos básicos do ser humano na busca de


soluções novas para problemas novos e para nortear as ações das quais dependam a sua
sobrevivência enquanto indivíduo e espécie. O conhecimento sobre a realidade,
desenvolvido pela razão e inteligência, a partir da percepção, evolui do ensaio e erro e
do senso comum, para a sistematização que ganha o título de Ciência. Nesta, os
conceitos e os modelos teóricos constituem o seu patamar. Entretanto, os próprios
conceitos e modelos devem ser objeto de uma reflexão crítica mais ampla e mesmo
filosófica, sem o que nenhuma ciência adquire maturidade e consciência de seu real
papel na sociedade. Tal reflexão tem sido efetuada pela Sociologia do Conhecimento e
pela Filosofia das Ciências.

Este trabalho se esforça para dar alguns passos iniciais no sentido da contextualização
filosófica, histórica e social da “Ciência Ambiental”, o que o autor considera da maior
importância, face à gama de interferências e interesses com conotações Geopolíticas e
Ideológicas que, sobre ela, debruçam a sombra da manipulação e alienação, entendendo
como tal quaisquer construtos ideacionais sem correspondência no mundo real.

2. UMA BREVE CONSIDERAÇÃO QUANTO À DELIMITAÇÃO DE


“CIÊNCIAS AMBIENTAIS” NO CONTEXTO DAS CIÊNCIAS.

Em primeiro lugar consideraríamos “Ciências” como um “conjunto de conhecimentos


socialmente adquiridos ou produzidos, historicamente acumulados, dotados de
universalidade e objetividade que possibilite sua transmissão, e estruturado com
métodos, teorias e linguagem próprias, que visam orientar a natureza e a as atividades
humanas” (Aurélio).

Agregaríamos a essa definição do conceito de “Ciências” a noção de que tais


conhecimentos sejam “histórica e socialmente justificados”, isto é, venham a ser
instrumentos de trabalho e transformação da realidade objetiva, em consonância com as
demandas da sociedade ou, em última instância, do ser humano enquanto sujeito
histórico que desenvolve quaisquer ciências.

Ciências Ambientais seriam então o conhecimento científico que enfoca “o ambiente


que engloba os seres vivos e é composto por eles, inclusive o homem, abrangendo as
características naturais do espaço, o modo de produzir e se organizar da sociedade, que
estabelece uma relação de interveniência e reciprocidade com tal espaço e todos os seres
vivos nele presentes”.

Todas as ciências podem ser tomadas como “auxiliares” das Ciências Ambientais: A
Geopolítica, a Política, a Economia, Sociologia, Antropologia, Medicina e Psicologia,
no campo das ciências humanas e sociais, as quais possibilitariam a compreensão da
dinâmica e das motivações sociais que atuam, reciprocamente, com e no mundo natural.

As demais ciências, Naturais ou aquelas ditas Exatas, ou que delas se aproximem, tais
como Geografia, Meteorologia, Física, Estatística, Agronomia, Astronomia e outras
tantas, forneceriam outra ordem de subsídios e a moldura de informações objetivas sem
as quais qualquer pretensão cientifica se reduziria a subjetivismos e ideologia.

Ter as demais ciências como auxiliares não definiria uma ascendência definitiva de
qualquer enfoque sobre os outros saberes, mas apenas um momento em que esse
enfoque apresenta conceitos e metodologia mais funcionais e abrangentes na solução de
uma problemática que se imponha num dado momento histórico, para uma sociedade
específica. A demais, aceitar outro enfoque como auxiliar, implica em submeter-se às
suas informações e conclusões justificadas como limite.

Exemplificando: Num dado momento histórico a Ciência Náutica foi a grande


organizadora de todos os conhecimentos da época, para a Nação portuguesa,
possibilitando-a a realizar a expansão marítima que, por 70 anos a tornou, de uma
pequena Nação, no maior império do mundo de então.

Entretanto, nenhuma ciência funda, por si só, juízos de valores que norteariam uma
sociedade e suas ações. Quando verdadeira, a ciência conceitua, define e possibilita a
instrumentalização dos meios para as ações que a sociedade almeja e delimita. Pensar de
outra forma definiria uma visão idealista e que nada acrescenta à compreensão de
qualquer ciência como parte de um todo histórico-social. Há que se lembrar que, ao
longo da história, grupos sociais e indivíduos sempre se apossaram, ou tentaram fazê-
lo, de núcleos de conhecimento para realização de fins próprios tais como exploração,
dominação e manipulação. Do mesmo modo, sempre localizamos construções teóricas
emanadas da inteligência daqueles aos quais tais construtos serviam, tal como as
concepções geográficas difundidas pelas cidades italianas monopolizadoras do comércio
com o Oriente e que usavam aquelas concepções como mitos impeditivos da expansão
marítima de outros povos. Do mesmo modo, sempre surgiram construtos ideológicos,
ou seja, abstrações teóricas sem correspondência com a realidade, tal como o Arianismo
e o Nazi-fascismo que, tendo sua origem na perversão humana e vieram servir a
interesses concretos e historicamente localizados, ainda que tais interesses
freqüentemente perdem o controle sobre as “criaturas” das quais se utilizam. Tais
construtos tem a vocação para se imporem pelo proselitismo e, sempre, pela força, às
sociedades em que vicejam. Somam para isso os interesses objetivos a que servem e a
dinâmica perversa e cruel do espírito humano, a qual se manifesta com toda a
plenitude nos indivíduos fronteiriços à psicose, as personalidades narcísicas e
paranóides. O traço comum dessas manifestações é o deslocamento do ser humano para
pano de fundo de projetos grandiosos e causas messiânicas, tais como “a raça superior”,
a “ditadura do proletariado”. Cumpre a cada geração identificar, no seu aqui e agora, em
seu entorno e momento histórico, as manifestações dessa dinâmica.

3. UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE A NATUREZA DO CONCEITO, A


DEFINIÇÃO DOS CONCEITOS E AS CONDIÇÕES DE SUA VALIDAÇÃO.

Os conceitos que definem quaisquer realidades, são meras abstrações provisórias do


real, sendo apenas representações do mundo objetivo no nosso psiquismo. Tal
fenômeno se dá a partir da capacidade humana de simbolizar e da necessidade de
atuarmos sobre a realidade, transformando-a conforme os nossos desígnios, sempre
natural e socialmente condicionados. Convém que se lembre que tais abstrações são
sempre meras e deficientes aproximações do real.

Todo conceito é um instrumento de trabalho e é validado por sua eficácia enquanto via
de compreensão e de transformação do real. Na medida em que a realidade e o contexto
se alteram, os conceitos são reelaborados, superados e substituídos por outros mais
eficazes. Pensar o contrário, seria transformar qualquer pensamento com pretensões
científicas, em posições dogmáticas e sem utilidade para a compreensão e
transformação da realidade. O pensamento ideológico e o religioso apresentam essa
configuração. Trazemos como lembrança desses dois momentos de um conceito ou
concepção, a nau Caravela que, após viabilizar a expansão marítima européia, foi
superada por outras concepções náuticas. Como exemplo de concepção religiosa ou
ideológica, trazemos a noção da Terra como uma mesa plana, idéia que restringia o
ímpeto de navegação dos povos ibéricos. Outra concepção mítica e historicamente
desmentida foi aquela de que “a supressão da sociedade de classes” promoveria um
fantástico “desenvolvimento das forças produtivas” que inundaria de fartura e bem estar
coletivo as sociedades que a praticassem.

4. O HOMEM NO CONTEXTO NATURAL

A Espécie Humana emergiu do seio da diversidade de vida terrena como um animal


deficitário, tanto em função da imaturidade biológica em que nascia, quanto da
limitação de sua memória celular e do papel de seus “ instintos”, como possíveis
aparatos biológicos necessários e suficientes para possibilitar-lhe sobrevivência
enquanto espécie ou indivíduo. No Homem, o “instinto” reduzia-se a “pulsão”, ou seja,
uma mera quebra de homeostase e uma tendência a determinada direção para
recuperação do desequilíbrio pulsional. A partir daí, nossa espécie investiu em cérebro,
cultura e linguagem, ao invés de desenvolver presas e garras, para efetivar sua
sobrevivência.

Há teses que afirmam ainda, expondo a vulnerabilidade de nossa espécie, que um dos
fatores que viabilizou a sobrevivência humana, no passado prè-histórico, foi a
capacidade de exalar mau cheiro: seriamos a última opção de caça a ser escolhida pelos
grandes carnívoros.

Controlando um dos elementos da natureza, o fogo, o Homem dominou os metais,


domesticou animais e buscou melhores sementes e grãos, podendo então se
sedentarizar, armazenar recursos alimentares, proliferar, adoecer e adquirir resistência a
doenças, construir impérios e dominar outros povos que, por esta ou aquela razão,
permaneceram no estágio da caça e da coleta.

Empobrecido de programação celular-institiva, a humanidade evoluiu por ensaio e erro,


numa dinâmica em que se equilibram “pulsão” e “cultura”. Antes de proliferar e
desenvolver a cultura que chamamos “do consumismo”, a ponto de pressionar a
possibilidade da Terra não poder mais recepcionar a vida sobre ela, a humanidade
apenas pontualmente pressionava os recursos naturais a ponto de limitar a vida. Isso
ocorria nas guerras, que quase sempre tinham como motivação o saque, o seqüestro, a
busca de escravos, ou seja, formas de satisfazer necessidades às custas dos bens, vida
ou liberdade de outro ser da própria espécie, o que não deixava de ser um ataque à bio-
diversidade. Os povos primitivos, tal como a sociedade Tupinambá, no estágio da
coleta, caça e pesca, podiam pressionar de tal ordem a capacidade de suporte de seus
recursos faunísticos que o território brasileiro tornou-se um “espaço vital” insuficiente
para seis milhões de índios que o habitavam.

Comprova esta tese o fato de que todos os grupos eram inimigos entre si, na defesa de
seus campos de caça e “reservas”, por eles miticamente denominadas de “Terra Sem
Males”.
5. O PARADOXO DO TRIUNFO HUMANO: A AMEAÇA PLANETÁRIA À
VIDA

O triunfo sobre as doenças infecto-contagiosas, a produção em massa de bens de


consumo duráveis e não duráveis, a produção de alimentos em volume tal que a fome só
não foi banida da face da terra pela incapacidade de nossa espécie em distribuir tais
alimentos de forma eqüitativa, elevou de tal maneira o crescimento populacional e a
urbanização, que daí resultou um volume de produção de dejetos e descartes que
entulham e contaminam o entorno em que o homem se estabeleceu.

Graves desequilíbrios foram detectados, com potencialidade de ameaçar a vida em


escala global, principalmente através da emanação de gases, mudanças climáticas e
nível dos mares. A consciência crítica dos povos se mobilizou, organizando tanto o
conhecimento quanto formas de participação social para o enfrentamento da
problemática, buscando promover mudança de atitudes face aos fatores que facilitam ou
induzem aos desastres ambientais globais ou localizados.

Há conflitos de interesses dentro das Nações e entre elas. Os povos hegemônicos não
demonstram qualquer sinal de renúncia ao seu consumismo desenfreado e nem à
exploração que exercem sobre povos a eles submetidos, através do comércio injusto e
do mercado financeiro internacional. Desta exploração, resulta o uso intensivo dos
recursos naturais das Nações periféricas, sem que sua população disso se beneficie, na
medida em que o esforço produtivo tem como objetivo apenas a geração de saldos
financeiros.
Nesse contexto, o desenvolvimento sustentável das Nações periféricas, como o Brasil, é
duvidoso, na medida em que a sua população não se beneficia do esforço coletivo e, da
riqueza gerada, muito pouco tem chance de retornar ao sistema produtivo e realimenta-
lo, o que seria condição essencial para sua manutenção durante gerações e com
equidade.

O sistema de dominação internacional vigente sempre foi hábil em controlar os


movimentos que surgem com qualidade crítica a ele e, mantendo o discurso
“politicamente correto”, sabe defender astuciosamente seus interesses. Entendo que
isso se dê, em larga margem, tanto sobre a temática ambiental, quanto sobre as
organizações que atuam “em defesa do meio ambiente”. Anexo a este trabalho, seguem
três artigos nos quais abordo essa questão, ou seja, sobre o controle e manipulação da
temática ambiental pelos interesses que mais delapidam o meio ambiente e a
humanidade.