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Holandeses dominam Pernambuco - O Arraial do Bom Jesus

1635

Leonardo Dantas Silva


Especial para o DIARIO

Durante vinte quatros anos da ocupação holandesa no Nordeste do Brasil, a guerra foi
sempre uma constante nodia-a-dia dos habitantes. Excluindo a ocupação de Salvador
(1624-1625), a dominação holandesa no Nordeste pode ser dividida em três períodos
distintos, como bem observou Evaldo Cabral de Mello: O primeiro, que vai de 1630, queda
de Olinda, a 1637, quando as tropas do Rei Católico abandonam Pernambuco rumo à Bahia,
corresponde a guerra de resistência, que se saldou com a afirmação do poder neerlandês
sobre toda a região compreendida entre o Ceará e o São Francisco.

O segundo período, de 1637 a 1645, engloba principalmente o governo de João Maurício de


Nassau (1636-1644), podendo ser prolongado até o ano seguinte, quando eclodiu o levante
luso-brasileiro. É esta que constitui, para a historiografia, a idade de ouro do Brasil
holandês. O período final, de junho de 1645 a janeiro de 1654, abrange a guerra da
restauração, que terminou com a capitulação do Recife e das últimas praças-fortes
inimigase com a liquidação definitiva da presença holandesa no Nordeste. 1

O Arraial do Bom Jesus

Na altura do n.º 3.259 da hoje Estrada do Arraial, em Casa Amarela, encontra-se o Sítio
Trindade, que faz fundos com a Estrada do Encanamento, onde uma pequenina pirâmide de
granito, ali colocada pelo Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, em
29 de janeiro de 1922, assinala o local do Arraial Velho do Bom Jesus.

Naquele parque municipal, que hoje abriga inúmeros espécimes da nossa flora regional, o
general Matias de Albuquerque, à frente de centenas de bravos pernambucanos, resistiu
por cinco anos (1630-1635) às bem municiadas e numerosas tropas holandesas financiadas
pela Companhia das Índias Ocidentais.

Era o Arraial do Bom Jesus, no dizer de Tadeu Rocha:

uma construção irregular e mal acabada, mas muito resistente. A natureza do terreno, o
profundo fosso e os altos paredões deram-lhe o aspecto de uma fortaleza quase
inexpugnável, sob cuja proteção foram abrigar-se muitas famílias, numerosos sacerdotes e
diversos negociantes. Surgiu, assim, uma povoação eminentemente brasileira o Arraial do
Bom Jesus onde Henrique Dias se apresentou com os seus pretos livres, em 14 de maio de
1633, completando o amálgama de brancos, índios, negros escravos e mestiços de toda
ordem, já existentes no forte e no vizinho arraial. 2

Com a tomada do Recife pelos holandeses, o general Matias de Albuquerque iniciou a


Guerra da Resistência recolhendo-se com seus bravos ao Arraial do Bom Jesus, que
ocupava grande área daquele hoje populoso bairro do Recife, onde por cinco anos resistiu
numa luta sem tréguas.

No dizer de Oliveira Lima, "com o desespero no coração, recolhia-se com alguns valentes
companheiros, senhores de engenho da capitania, para um lugar na várzea [do Capibaribe]
situado a uma légua do Recife e de Olinda, ponto por ele fortificado com quatro peças
[canhões] e duzentos homens". Utilizando-se de táticas da guerra de guerrilha, os da terra
puderam combater o invasor, obstando as comunicações, reduzindo suas forças,
envolvendo-o "num apertado semicírculo, onde sentiam duramentea falta de madeiras e
víveres frescos".

Ao Arraial do Bom Jesus compareceram com seus comandados Luís Barbalho e Martim
Soares Moreno, Filipe Camarão com seus índios e Henrique Dias com os seus negros,
resolutos em manter uma guerra diuturna que veio incutir na gente de Pernambuco o
sentimento do nativismo.

No Recife, um conselho político da Companhia das Índias Ocidentais, formado por Pieter
van Hagen, Johan de Bruyne, Servaas Carpentier e Johanes van Walbeeck, determinou que
7.000 homens comandados pelo general Jonkheer Diederick van Waerdenburch realizassem
incursões contra os redutos portugueses na Paraíba (Cabedelo), no Rio Grande do Norte
(Reis Magos) e no Cabo de Santo Agostinho (Nazaré), não tendo este sido feliz em suas
tentativas.

Em abril de 1632, porém, a sorte parece sorrir para os holandeses: Domingos Fernandes
Calabar, um mestiço acusado de contrabando, passa para o lado dos invasores. Profundo
conhecedor da região, habituado à guerrilha, de logo desperta a atenção dos chefes
holandeses que souberam apreciar-lhe as suas habilidades, dar-lhe um tratamento
diferenciado na sociedade de então e recompensar-lhe os serviços. Com a sua ajuda foram
tomadas as vilas de Igarassu (1632), Rio Formoso (1633), Itamaracá (1633), Rio Grande
do Norte (1633) e Nazaré do Cabo (1634).

Em 1635, com a chegada de novos reforços, o efetivo militar da Companhia no Recife foi
elevado para 4.000 infantes e 1.500 marinheiros, apoiados por 42 embarcações, sob o
comando do general polonês Cristóvão Arcizewsky (1592-1656). Com tal reforço, o alto
comando holandês vem conquistar finalmente as capitanias do Rio Grande do Norte,
Paraíba e Itamaracá. As tropas portuguesas, por sua vez, ficaram restritas ao Arraial do
Bom Jesus, ao Forte de Nazaré do Cabo e ao atual Estado das Alagoas, defendido em
Sirinhaém por Matias de Albuquerque.

Era o coronel Christoffel dáArtischau Arciszewski um nobre polaco, aparentado da família


principesca dos Radziwills, que quando jovem cometeu assassinato contra um advogado,
que tentava apoderar-se da propriedade de sua família, e por isso fora banido indo se
refugiar na Haia como correspondente político do seu tio. Aconselhado por Janus Radziwills,
seu primo, vem ingressar na Universidade de Leiden, a fim de obter uma formação mais
consistente e mais protestante do que na França. Aos 32 anos junta-se ao exército Conde
de Nassau, embarcando cinco anos mais tarde, no posto de capitão, na frota do almirante
Cornelis Lonck (1629) que vinha invadir Pernambuco. Na mesma frota veio encontrar-se
com o oficial alemão Sigmund von Schkoppe, senhor de Krebsbergen e Grand Cotzen, "um
soldado de bigodes vermelhos, muito rígido, que serviu aos interesses da Companhia das
Índias Ocidentais no Brasil por 24 anos, até a capitulação do Taborda".

Visto comsimpatia pelos seus comandados, era Arciszewski um competente militar, com
paixão pelo latim e conhecimento dos clássicos, como testemunha o frei Manuel Calado.
Sobre este religioso, cronista da guerra brasílica, escreveu aquele militar, tratar-se de "um
papista português, um homem inteligente que goza de autoridade entre os habitantes e
que gosta de falar latim".

Em 1637, por se indispor com o Conde João Maurício de Nassau, foi Arciszewski forçado a
regressar às pressas para a Holanda e, em seguida, retornou a Polônia.

O Arrecife dos Navios

Leonardo Dantas Silva


Especial para o DIARIO
Ele o primeiro a vê-lo, e a vir, (na barra do Suape) ao Brasil, não deixou lá quando nem
ondes: só anos depois confessou-se.Porque aquela que então confessa"a terra de mais luz
da Terra"Ele talvez nessa luz tantatenha pressentido a arma-brancacom que tudo se
expressariaa gente que lá, algum dia.
João Cabral de Melo Neto

Após o seu descobrimento por Vicente Yáñez Pinzón, naquele janeiro de 1500, Pernambuco
continuou nos primeiros anos do século XVI como uma feitoria do Rei de Portugal, sem uma
diretriz para o seu povoamento e desenvolvimento, o que só vem acontecer, trinta e cinco
anos depois, quando da chegada da comitiva do donatário Duarte Coelho Pereira que aqui
implanta as bases da Civilização Duartina.

Após vagar pela costa em busca de um lugar seguro dos ataques dos índios e corsários, o
primeiro donatário fixou a sede da capitania na Vila de Marim, consagrada depois pelo
nome de Olinda. De sua torre podia ele vislumbrar toda a planície flúvio-marinha,
anteriormente ocupada pela baía doRecife, que se estendia da ponta rochosa do ponto de
chegada de Vicente Yáñez Pinzón rebatizado pelos portugueses por Cabo de Santo
Agostinho, ao sul , até o sopé de das colinas de Olinda, ao norte.

As terras de aluvião, trazidas pelas enxurradas dos deltas dos rios Beberibe, Capibaribe,
Tejipió, Jaboatão e Pirapama, durante cerca de cinco milhões de anos, vieram a formar esta
planície quaternária erguida entre as colinas terciárias e os arrecifes que detêm a fúria do
mar. Os arrecifes de arenito, formados do mesmo período com o recuo do oceano,
descritos pelo poeta Bento Teixeira (1601) como "cinta de pedra inculta e viva", tornara-se
a barreira natural que veio a facilitar o trabalho dos rios tributários da antiga baía. A um só
tempo em que o mar construía suas praias e restingas, os rios, na observação de Tadeu
Rocha, "formavam ilhas e coroas, por entre os quais passaram a divagar, lançando braços
em muitas direções", enquanto que o manguezal facilitava a sedimentação e a fixação dos
aluviões. Foi esta a primeira paisagem vislumbrada pelo homem, que chegou a
Pernambuco no início do século XVI da nossa era, sendo assim descrita por Ambrósio
Fernandes Brandão em Diálogos das grandezas do Brasil (16l8),quando o personagem
Brandônio diz a Alviano que Olinda se localiza "em uma enseada, da qual saem duas pontas
ao mar; de uma delas se forma o cabo tão conhecido no mundo por de Santo Agostinho, e
a outra se chama de Jesus, por nela estar situado um famoso templo dos padres da
Companhia, chamado do mesmo nome". Está esta vila situada em uma enseada, da qual
saem duas pontas ao mar; de uma delas se forma o cabo tão conhecido no mundo, por de
Santo Agostinho, e a outra se chama a Ponta de Jesus, por nela estar situado um formoso
templo dos padres da Companhia, chamado do mesmo nome. Contém em si toda a
Capitania 50 léguas de costa, que toma princípio de onde parte com a Ilha de Itamaracá
até o Rio São Francisco, e dentro delas há infinitos engenhos de fazer açúcares, muitas
lavouras de mantimentos de toda sorte, criações sem conto de gado vacum, cabras,
ovelhas, porcos, muitas aves de volataria e outras domésticas, diversos gêneros de frutas,
tudo em tanta cópia que causa maravilha a quem o contempla e com curiosidade o nota. A
paisagem não surpreenderia o navegador português por suas belezas naturais: Em Roteiro
de todos os sinais (c 1582/85), Luiz Teixeira registra o Cabo de Santo Agostinho a oito
graus e meio, como sendo "terra baixa e tem muito arvoredo junto ao mar e parecendo
alguns campos sem árvores". A paisagem continuou a sofrer transmudações em épocas
mais recentes, quando pela mão do homem foram, através de inúmeros aterros, soldadas
ao continente algumas ilhas fluviais formadas pelos deltas dos rios. Algumas delas
permaneceram isoladas, até recentemente, como as do Retiro, do Leite, do Nogueira, de
Thomas Coque, de Joana Bezerra, do Pina, do Maruim, de Joaneiro; chegando outras aos
nossos dias como as do Recife, de Santo Antônio, da Boa Vista, cujos contornos estão
registrados nos mapas da atualidade.
Açúcar, a fonte da cobiça

Leonardo Dantas Silva


Especial para o DIARIO

E ainda assim, sempre doce e vencedor de amarguras, vai a dar gosto ao paladar
dos seus inimigos nos banquetes, saúde nas mezinhas aos enfermos, e grandes
lucros aos senhores de engenho e aos lavradores que o perseguiram, e aos
mercadores que o compraram e o levaram degredado nos portos, muito maiores
emolumentos à Fazenda real nas alfândegas.
Antonil (1711)

Originária da distante Papua (Nova Guiné), onde já era conhecida há cerca de 12.000 anos,
e depois cultivada na Ásia Meridional, foi a cana-de-açúcar (Saccharum officinarum L.)
trazida pelos árabes da África para a Sicília e desta para a costa Sul da Espanha. Entre os
portugueses o seu cultivo tem início no Algarve, ao tempo de D. João I (1404), sendo
depois transportada pelo Infante D. Henrique para Ilha da Madeira, que a transformou no
grande propulsor do progresso do mundo colonial de então. De produto vendido nas boticas
européias no século XIV, integrando a cozinha árabe que por três séculos dominou a
Península Ibérica e tentou desenvolver o plantio da cana-de-açúcar em Granada, o açúcar
chegou a Portugal "como remédio e regalo parcimonioso em gente rica".

Data de 1425 o plantio das primeiras mudas de cana-de-açúcar na ilha da Madeira, trazidas
da Sicília por ordem do infante D. Henrique e plantadas no centro do Funchal, nas cercanias
do Terreiro da Sé. Sua cultura logo se desenvolveu e, em 1455, a produção era estimada
em 6000 arrobas. Em 1498, dois anos antes da descoberta do Brasil, Dom Manuel, Rei de
Portugal, já fixava a exportação das ilhas Madeira, Açores, São Tomé e Cabo Verde em
120.000 arrobas.

Naquele final de século XV, a doçaria em Portugal já se encontrava centenária, com os seus
bolos de mel, o alfenim, a alféloa, originários da cozinha árabe. É desta época a
representação das Cortes de Évora contra as alfeloeiras que, entre outros danos, faziam "os
meninos chorar e pedir a seus pais mais dinheiro para comprarem dela dita alféloa"; daí a
proibição de Dom Manuel, punindo a transgressão com pena de prisão e açoite, do
comércio desse doce a ser exercido por homens.

O açúcar produzido na ilha da Madeira se tornara conhecido na Europa de então e o aoPapa


Leão X (1513-1521) fora enviado, pelo capitão Simão Gonçalves da Câmara, madeirense
bem conhecido por seus rompantes de liberalidade, foi enviado a escultura do Sacro
Colégio, com todos os cardeais em tamanho natural feitos em alfenim.

O açúcar no Brasil

Muito embora introduzida oficialmente no Brasil por Martin Afonso de Souza, em 1532, a
cana-de-açúcar já tomava conta da paisagem pernambucana desde os primórdios da
colonização, ainda ao tempo da feitoria de Cristóvão Jacques, no Canal de Itamaracá
(1516). Em 1526, já figura na Alfândega de Lisboa o pagamento de direitos sobre o açúcar
proveniente de Pernambuco, segundo informação revelada pela primeira vez por F. A.
Varnhagen. 1

Com a implantação no Brasil do sistema das capitanias hereditárias, o território da


capitania de Pernambuco foi doado a Duarte Coelho Pereira, que havia prestado à coroa
relevantes serviços na conquista das Índias.
O primeiro engenho-de-açúcar de Pernambuco, o Engenho Velho de Beberibe, foi erguido
logo nos primeiros anos da colonização por Jerônimo de Albuquerque, cunhado do primeiro
donatário, sob a invocação de Nossa Senhora da Ajuda.

Era este empreendimento, o primeiro das centenas que se seguiram, dando início a uma
economia com base na cultura da cana-de-açúcar, fundada pelo donatário Duarte Coelho,
que, para isso, mandou buscar mestres-de-açúcar na ilha da Madeira, importando a mão-
de- obra escrava da África, de onde vieram os primeiros negros da Guiné.

A cultura da cana-de-açúcar veio dar novas cores, costumes, cheiros e sabores à paisagem,
contribuindo assim para o desenvolvimento e sobrepujança da terra pernambucana, cujos
primórdios eram assim vistos por Oliveira Lima:

A capitania de Duarte Coelho foi a que mais cedo prosperou, conquanto à custa de muito
gasto e de muito esforço, porque, além das pouco vulgares qualidades pessoais do
donatário, a terra recomendava-se pela sua excelência. Clima quente, porém temperado
pelas suaves virações de terra e mar, tão faladas de Piso, o sábio médico de Maurício de
Nassau. Chuvas abundantes e regulares em toda a zona aquém do sertão, refrescando os
campos, engrossando os rios e evitando as secas. Terreno acidentado sem demasias,
descendo gradualmente dos platôs ou tabuleiros do interior para as matas frondosas, nas
quais a pujança não sobrepuja a beleza, e para as várzeas fertilíssimas banhadas por
muitos rios, e expirando nos mangues ou alagados do mar. 2

Em Pernambuco, a "terra garanhona do massapê", para usar a expressão de Gilberto


Freyre, foi o solo ideal para a fundação dessa cultura que por mais de quatro séculos
domina a economia de toda uma região.

Para o primeiro donatário, a Nova Lusitânia, como ele insistia em denominar Pernambuco,
jamais seria uma colônia simplesmente extrativista, como queriam as ordens de Lisboa na
primeira metade do século XVI, mas uma terra de plantação, embrião do que veio a ser a
civilização do açúcar. Foi este produto o suporte econômico da grande marcha civilizadora
de Pernambuco, responsável pela colonização de todo o Norte do Brasil.

A Civilização do Açúcar

Com os seus engenhos espalhados pelas várzeas dos rios Capibaribe, Beberibe, Jaboatão e
Una, a Capitania Duartina viu florescer a civilização do açúcar, fonte da riqueza responsável
pela construção de todo um patrimônio artístico e cultural ainda hoje presente em suas
fronteiras.

O engenho-de-açúcar foi, desde os primórdios da colonização, uma espécie de célula


formadora da civilização que se implantou com a cultura do açúcar em terras brasileiras,
como bem demonstra Gilberto Freyre:

O engenho-de-açúcar tornou-se a primeira base econômica e o persistente modelo de


forma ou de configuração social de todo um vasto sistema de organização de economia e
de família, de sociedade e de cultura, que das terras de cana-de-açúcar se comunicaria a
outras terras e constituiria o fundamento da unidade unidade dinâmica daquela parte da
América em que portugueses, com auxílio ameríndio e principalmente africano,
desenvolveriam um tipo novo de civilização. [...] Mas as formas sociais que condicionariam
esses outros ajustamentos regionais de substâncias, seriam as que primeiro se
desenvolveriam naquelas terras as de cana-de-açúcar e em torno dos seus engenhos
engenhos de animais, de rodas dáágua e a vapor: um sistema de relações dos homens com
a natureza e dos homens entre si caracterizado pela preponderância da organização
patriarcal de economia inclusive de trabalho: durante longo tempo, o escravo de família e
de sociedade. 3

Observa Antonil, em seu livro clássico, verdadeiro manual para quem quisesse se
estabelecer no Brasil como agricultor de cana-de-açúcar, existiam no Brasil dois tipos de
engenho: o engenho real, para agricultores de grandes cabedais (posses) e as engenhocas,
um tipo de fábrica de menor proporção, necessitando os primeiros de cerca de 150 a 200
escravos. O engenho real, tão bem representado em quadros e desenhos assinados por
Frans Post, era movido a água e sua produção chegava a 4000 pães (formas) de açúcar,
incluindo as canas moídas de sua propriedade e a dos lavradores sem engenho. Num só
engenho real estariam reunidos os mais diferentes profissionais, todos indispensáveis para
o sucesso do empreendimento.

Daí se fazer necessário: escravos de enxada e foice, no campo e na moenda; os mulatos,


mulatas, negros e negras do serviço da casa ou em outras partes, barqueiros, canoeiros,
calafates, carpinas, carreiros, oleiros, vaqueiros, pastores e pescadores; um mestre de
açúcar, um banqueiro (seu substituto), um contrabanqueiro, um purgador, um caixeiro (no
engenho e outro na cidade), feitores, um feitor-mor e o capelão.

Para o trabalho dessa gente se fazia necessário mantimentos e farda, medicamentos,


enfermaria e enfermeiro, "e para isso são necessárias rocas de muitas mil covas de
mandioca". Necessita ainda o engenho de barcos velame, cabos, cordas e breu; de
fornalhas, que por sete e oito meses ardem de dia e de noite, muita lenha, e para isso faz-
se mister dois barcos veleiros para se buscar nos portos, indo um atrás do outro sem parar,
e muito dinheiro para a comprar, ou grandes matos com muitos carros e muitas juntas de
bois para se trazer. Os canaviais necessitam também suas barcas e carros com suas juntas
debois, enxadas e foices. As serrarias, de machados e serras. A moenda de toda a casta de
paus de lei de sobressalente e muitos quintais de aço e de ferro. A carpintaria, de madeiras
seletas e fortes para esteios, vigas, aspas e rodas, e pelo menos os instrumentos mais
usuais, a saber serras, trados, verrumas, compassos, regras, escopos, enxós, goivas,
machados, martelos, pregos e plainas. A fábrica do açúcar, de caldeiras, tachas e bacias e
outros muitos instrumentos menores, todos de cobre, "cujo preço passe de oito mil
cruzados, ainda quando se vende não tão caro como nos anos presentes".

E não param por aí as necessidades de um engenho real:

São finalmente necessárias, além das senzalas dos escravos e além das moradas do
capelão, feitores, mestre, purgador, banqueiro e caixeiro, uma capela decente com seus
ornamentos e todo o aparelho do altar, e umas cases para o senhor-de-engenho, com seu
quarto separado para os hóspedes que no Brasil, desprovido totalmente de estalagens, são
contínuos, e o edifico do engenho forte e espaçoso, com as mais oficinas, e casa de purgar,
caixaria, alambique e outras coisas que por miúdas aqui se escusa apontá-las, e delas se
falara em seu lugar. 4

O crescente aumento do número de engenhos em Pernambuco é confirmado pelas


narrativas dos primeiros anos: 23 em 1570 (Gândavo), 66 em 1583 (Cardim) e 77 em
1608 (Campos Moreno). O preço da arroba do açúcar branco em Lisboa passou de 1$400
em 1570 para 2$020 em 1610 (Simonsen).

Tal riqueza já fora observada por Gabriel Soares de Sousa (1540-1591), em seu Tratado
Descritivo do Brasil em 1587, no qual relata possuir Pernambuco "mais de cem homens que
têm até cinco mil cruzados de renda, e alguns até oito, dez mil cruzados".

Desta terra saíram muitos homens ricos para estes reinos que foram a ela muito pobres,
com os quais entram cada ano desta capitania quarenta e cinqüenta navios carregados de
açúcar e pau-brasil, o qual é o mais fino que se acha em toda costa; e importa tanto este
pau a Sua Majestade que o tem agora novamente arrendado por tempo de dez anos por
vinte mil cruzados cada ano. E parece que será tão rica e tão poderosa, de onde saem
tantos provimentos para estes reinos que se devia ter mais em conta a fortificação dela, e
não consentir que esteja arriscada a um corsário a saquear e destruir, o que se pode
atalhar com pouca despesa e menos trabalho. 5

Graças aos lucros obtidos com o açúcar, os de Pernambuco realizaram a colonização da


Paraíba e do Rio Grande do Norte, estendendo sua conquista ao Ceará e ao Pará, sendo sua
participação decisiva na incorporação do Maranhão ao território nacional. Foi um
pernambucano, por sua participação no esforço da incorporação do Maranhão, cujo
território era ocupado pelos franceses, que orgulhosamente acresceu este topônimo ao seu
nome de família, prática que se estendeu por todos os seus descendentes. Refiro-me a
Jerônimo de Albuquerque que, nascido em Olinda em 1548, filho do capitão Jerônimo de
Albuquerque, cunhado do primeiro donatário, com D. Maria do Espírito Santo, índia da tribo
dos Tabaiares, veio a conquistar o Maranhão aos franceses, então comandados pelo
Monsieur de la Ravardière, Daniel de la Touche. Por assinatura do termo de capitulação, em
2 de novembro de 1615, ao apor o seu nome, Jerônimo de Albuquerque acrescentou o
topônimo Maranhão.

Na qualidade de primeiro capitão-mor da Capitania do Maranhão, Jerônimo de Albuquerque


Maranhão fixou-se na cidade de São Luís, aonde veio a falecer em 11 de fevereiro de 1618,
passando seus descendentes a proclamar a sua glória com o apelido de Albuquerque
Maranhão.

A agroindústria do açúcar veio modificar a paisagem pernambucana daqueles primeiros


anos da colonização. O canavial, como se fosse um rio a transbordar do seu próprio leito,
espalhou-se pelas várzeas, galgou as pequenas serras, derramou-se pelas encostas,
encheu de verde-cana o horizonte, substituindo o verde da floresta tropical. Graças a essa
nova ordem econômica, o açúcar passou de especiaria de alto luxo, vendido em boticas,
para o alcance das classes de menor poder aquisitivo.

Inicialmente foram os engenhos das margens do rio Beberibe, Salvador e Nossa Senhora
da Ajuda, cujos partidos de cana referia-se o primeiro donatário em sua carta de 1542.

Poucos anos depois os engenhos espalharam-se ao longo da costa, onde houvesse


abundância de lenha, aproveitando os deltas dos rios, de modo a facilitar o transporte.
Neles, sob a força do açúcar, o triângulo rural no qual se baseou toda uma civilização:
casa-grande, engenho e capela.

Na toponímia local, os nomes desses engenhos são ainda hoje preservados, alguns com
mais de 450 anos, o que levou o poeta Ascenso Ferreira assim cantar:

Dos engenhos de minha terra


Só os nomes fazem sonhar!
Esperança!
Estrela d'Alva!
Flor do Bosque!
Bom Mirar!

O canavial, porém, expulsou a opulência da mata e de algumas das espécies nativas. Hoje
só restam lembranças na toponímia local: São Lourenço da Mata, Nazaré da Mata e Santo
Antão da Mata, numa referência às matas reais de pau-brasil. Aqui e acolá, sob o cocuruto
de morro, ainda aparecem alguns resquícios de matas a relembrar a opulência dos tempos
idos.

1 VARNHAGEN, F. A. História geral do Brasil, 9. ed. São Paulo: Melhoramentos, 1975, t. 1.


p. 106128.
2 OLIVEIRA LIMA, M. de. Op. cit. p. 11.

3 FREYRE, Gilberto. In Enciclopédia Barsa. v 2. Rio de Janeiro, 1980.p. 71-72

4 ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas. Lisboa:
Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 2001. p. 71-
72.

5 SOUZA, Gabriel Soares de. Tratado Descritivo do Brasil em 1587. 9. ed. revista e
atualizada. Apresentação de Leonardo Dantas Silva. Recife: Ed. Massangana, 2000. p. 20

Cristãos-Novos e Judeus em Pernambuco

Leonardo Dantas Silva


Especial para o DIARIO

Perseguidos pela Inquisição, os judeus, disfarçados em cristãos-novos, tentavam


estabelecer-se no Brasil onde, em algumas partes, detinham 14% da população
economicamente ativa. Quando da Dominação Holandesa (1630-1654), a
comunidade do Recife veio a ser conhecida internacionalmente, sendo o seu
passado objeto do interesse dos estudiosos dos nossos dias.

Cristãos-novos e judeus

A importância dos cristãos-novos e judeus na formação do Brasil colonial é estudada, de


forma pioneira, pelo Prof. José Antônio Gonsalves de Mello, a partir da publicação de
Tempo dos Flamengos - Influenciada ocupação holandesa na vida e na cultura do Norte do
Brasil (1947) e de forma mais pormenorizada em Gente da Nação - Cristãos-novos e
judeus em Pernambuco 1642-1654.

Quando em 1492 os Reis Católicos de Espanha, Isabel de Castela e Fernando de Aragão,


vieram a expulsar os judeus sefardins do seu território, parte das famílias transferiu-se
para Portugal. A paz durou pouco, pois já em 1497, D. Manuel, Rei de Portugal, obrigou o
batismo cristão de todos os judeus, criando assim a figura do cristão-novo, determinando a
expulsão daqueles que não viessem a adotar a religião católica romana. Assim, segregados
em determinadas áreas urbanas e obrigados a adotar uma nova religião, os judeus
permaneceram em terras do Portugal continental e em terras de além-mar, alguns
praticando às escondidas rituais da Lei Mosaica, até 1536, quando da implantação do
Tribunal do Santo Ofício da Inquisição.

Temendo o poder da Inquisição, responsável por milhares de vítimas quando de sua


atuação na Espanha, a gente da nação, como também eram chamados os judeus, iniciou a
sua dispersão em busca de outras terras. Em 1537, Carlos V autorizou a instalação de
alguns deles em Antuérpia; em 1550, Henrique V, de França, permite o estabelecimento de
homens de negócios e "outros portugueses cristãos-novos" [sic] em cidades francesas,
dando assim origem aos grupos conversos de Bordéus, Baiona, Toulouse, Nantes, Ruão;
que só viriam a ser reconhecidos como membros da comunidade judaica no séc. XVIII. Na
década de 1590, iniciou-se a migração da França para Hamburgo e Amsterdã, cidades onde
vieram a se fixar. Outros, porém, movidos pela aventura e pela possibilidade de
enriquecimento fácil, vieram tentar a sorte no Brasil, onde chegaram a integrar uma
considerável parte da população, estimada em 14% na capitania de Pernambuco.

Em Pernambuco, aprimeira presença documentada de cristãos-novos, com animus de


fixar permanência, data de 1542 quando da doação das terras a Diogo Fernandes e Pedro
Álvares Madeira, nas quais pretendiam erguer o Engenho Camarajibe. O primeiro, originário
de Viana do Castelo, era marido de Branca Dias, que, nesta época, respondia processo por
práticas judaizantes perante o Tribunal do Santo Ofício de Lisboa, só se transferindo para o
Brasil por volta de 1551; o segundo, talvez oriundo da Ilha da Madeira, era especialista no
fabrico de açúcares.

Em 1555, um ataque dos índios destruiu as suas plantações, o que motivou carta de
Jerônimo de Albuquerque, cunhado do primeiro donatário então no governo da capitania,
ao Rei de Portugal, pedindo auxílio para Diogo Fernandes, "gente pobre de Viana", então
com seis ou sete filhas e dois filhos, que, com sua mulher Branca Dias, viriam a ser
acusados de práticas judaizantes anos mais tarde.

Além desses, outros cristãos-novos tornaram-se senhores de engenho em Pernambuco,


permanecendo também como mercadores, atividade peculiar dos judeus por todo o mundo.
Outros, porém, se transformaram em rendeiros na cobrança dos dízimos e faziam
empréstimos, sendo denunciados como onzeneiros, isto é, agiotas, como o James Lopes da
Costa, João Nunes Correia e Paulo de Pina1 . Grande parte deles dedicava-se ao comércio
de exportação de açúcares, indústria que se encontrava em franco desenvolvimento na
capitania. Alguns chegavam muito jovens e, com a exportação desse produto, se
transformavam em representantes das grandes famílias de capitalistas da época, como
João da Paz, sobrinho de Miguel Dias Santiago, e Duarte Ximenes, ligado por laços de
parentesco aos Ximenes de Aragão, grandes comerciantes de Antuérpia.

Um deles, James [Jaime] Lopes da Costa, o mesmo que aparece em 1591 como
onzeneiro2, era senhor do Engenho da Várzea, tendo-se transferido para Lisboa, residência
de sua mulher e filhos, e de lá para Amsterdã, onde se encontrava em 1598. Nesta cidade,
conhecida como a Jerusalém do Ocidente, declarou-se judeu passando a usar o nome de
Jacob Tirado, e aí fundou a primeira sinagoga portuguesa daquele grande centro, chamada
Bet Yahacob (Casa de Jacob). Era natural do Porto (Portugal), tendo nascido em 1544,
transformando-se, assim, num dos mais ilustres membros da comunidade de Amsterdã.
Nesta cidade foi alvo de significativa homenagem do rabino alemão Uri Phoebus Halevi, que
dedicou-lhe o seu livro ali editado em 1612.

Foi ainda James Lopes da Costa que, em 1615, constituiu um grupo de quinze judeus
portugueses, a SantaCompanhia de Dotar Órfãs e Donzelas, mais conhecida entre os
sefardins pela sigla Dotar, no qual foram acrescidos os nomes de quatro judeus ausentes,
dois dos quais residentes em Pernambuco, João Luís Henriques e Francisco Gomes Pina.

No final do século XVI, quando da Primeira Visitação do Santo Ofício às partes do Brasil
(1593-1595), já era considerável o número de cristãos-novos em Pernambuco. Numa
amostragem com base nos depoimentos, constantes das denunciações e confissões, pode-
se estimar em 14% da população desta capitania.

No tempo do Visitador

Em 1593, quando estava a capitania duartina posta em sossego chega do Recife, em 21 de


setembro, o visitador do Santo Ofício Heitor Furtado de Mendoça (sic) e seus oficiais
procedentes da capitania da Bahia.

O inquisidor demorou-se no Arrecife, como era então denominado o Recife, até o dia 24,
quando lhe foi mandado de Olinda um bergantim que o conduziu, pelo rio Beberibe, até o
Varadouro onde já estava a sua espera uma grande comitiva, tendo à frente Dom Felipe
Moura, então no governo da capitania, e o licenciado Diogo do Couto, ouvidor da vara
eclesiástica, com muitos clérigos, o ouvidor-geral do Brasil, Gaspar de Figueiredo Homem,
e demais pessoas gradas, além das companhias e bandeiras dos regimentos militares.
Ao desembarcar no Arrecife, como ele denomina no termo de abertura da Primeira
Visitação do Santo Ofício às partes do Brasil, o inquisidor pôde comprovar a grandeza da
capitania, que em 1583 fora objeto de carta do jesuíta Fernão Cardim, na qual afirmara
possuir Pernambuco, entre outras coisas, 66engenhos com uma produção correspondente a
200 mil arrobas, sendo o seu porto visitado anualmente por mais de 45 navios.

A presença de um representante da Inquisição de Lisboa, em busca de apurar possíveis


práticas judaizantes, veio revelar aspectos da vida privada dos habitantes de Pernambuco,
Itamaracá e Paraíba, naquele final de século XVI, como se depreende dos depoimentos que
integram os volumes das Confissões e Denunciações, cuja edição conjunta vem a ser
publicada em 1984.

Não se trata de descrições da paisagem, da fauna, da flora e dos nativos, comuns nas
crônicas dos viajantes e cartas jesuíticas, mas aspectos mais recônditos da vida privada de
seus habitantes que, sob ameaças de penas espirituais, traziam para os autos ricas
narrativas com respeito ao dia-a-dia de cada um. De suas narrativas podemos vislumbrar
as relações familiares, a vida sexual, os filhos legítimos, legitimados e bastardos, a prática
da prostituição e do adultério, casos de bigamia, pecados sexuais contra a natureza
(sodomia, pederastia, lesbianismo), batizados, casamentos, festas de igreja, ensino de
primeiras letras, tarefas domésticas, a vida no campo e na vila, maneiras de trajar,
sistemas de transporte, alimentação, práticas de feitiçarias, procedência do elemento
escravo (negros e indígenas), os primeiros advogados, médicos, boticários, as
manifestações de música e teatro, a luta contra os índios e contra os corsários. Aspectos
interessantes da presença dos corsários de James Lancaster e João Vernner, que aportaram
no Recife em 24 de março de 1595, são ali encontrados. Eles permaneceram no Arrecife
durante 31 dias e de lá saíram com 15 navios carregados das mais diferentes riquezas,
inclusive com as alfaias da igreja do Corpo Santo.

Caracterizou-se a 1ª Visitação do Santo Ofício a Pernambuco pela criação de um "Tribunal


da Inquisição em Olinda", como bem observa José Antônio Gonsalves de Mello em sua obra
citada. O inquisidor Heitor Furtado de Mendoça (sic), não somente determinou a prisão de
alguns denunciados, como também os mandou aos cárceres da Inquisição em Lisboa. Mas,
no que diz respeito aos processos "cujas culpas exigissem apenas abjuração de levi", como
bigamia, sodomia, blasfêmia e outros, tinha o visitador e seus assessores autoridade
suficiente para pronunciar a decisão final.

Observa o autor de Gente da Nação, serem "amplos pois, os poderes do tribunal olindense,
e as penas por ele impostas eram acatadas por autoridades civis fora do Brasil, inclusive da
metrópole, como nos casos de degredo e de galés".

Justificando o seu raciocínio, Gonsalves de Mello chega a relacionar, com a devida


numeração em que os autos se encontram no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, 55
processos de réus cujas sentenças foram prolatadas pelo tribunal olindense.

No que diz respeito a práticas judaizantes, "de todos os cristãos-novos de Pernambuco,


nenhuns foram mais acusados perante a mesa do Santo Ofício do que Branca Dias, seu
marido Diogo Fernandes e suas filhas do por cerimônias judaicas", segundo observa
Rodolpho Garcia em seus comentários às Denunciações.

Nesse aspecto, grande parte dos depoentes assinalavam a presença do casal como
responsável pela instalação de uma sinagoga em terras do Engenho Camarajibe. Embora os
dois denunciados não mais pertencessem ao mundo dos vivos, as denúncias terminaram
por implicar alguns dos seus descendentes. Dos filhos de Diogo Fernandes com Branca Dias
havia vivos, em 1595, Jorge Dias da Paz (morador na Paraíba), Andresa Jorge, Beatriz
Fernandes, que tinha os apelidos de Alcorcovada e Velha, além de uma filha adulterina do
marido, havida em uma criada da casa, de nome Brijolândia Fernandes.

Muito embora fossem Branca Dias e Diogo Fernandes "já defuntos", as penas da Inquisição
recaíram sobre sua filha, Beatriz Fernandes, que, presa em Olinda a 25 de agosto de 1595,
foi remetida para Lisboa onde deu entrada nos Estaus (como era chamado o Paço e
Cárceres da Inquisição, no Rossio) em 19 de janeiro de 1595. Débil mental e aleijada (daí o
seu apelido de Alcorcovada), começou a confessar suas culpas judaicas em 3 de dezembro
de 1597; submetida à Câmara de tormento, em 31 de dezembro de 1598, é finalmente
condenada por abjuração - culpas no judaísmo - com sentença de excomunhão maior e
confisco de todos os seus bens.

Findo o processo, participou do auto-de-fé de 31 de janeiro de 1599 e, ao contrário do que


informa Pereira da Costa (in RIAP, v. VII, n.46, p. 146), não foi condenada à fogueira pois
anda vivia, em Lisboa, no ano de 1604. (Processo nº 4580 da Inquisição de Lisboa, Arquivo
Nacional da Torre do Tombo, Lisboa).

Segundo José Antônio Gonsalves de Mello, 5 em conseqüência dos depoimentos de Beatriz


Fernandes, outros filhos e netos do casal de judaizantes foram levados ao Tribunal do
Santo Ofício de Lisboa: a sua irmã Andresa Jorge, que ingressou nos Estaus em 16 de
dezembro de 1599 (Processo nº 6321), juntamente com uma filha, Beatriz de Souza
(Processo nº 4273), e duas sobrinhas, estas filhas de Filipa da Paz, Ana da Costa Arruda
(Processo nº 11.116) e Catarina Favela (Processo nº 2304) A última, quando do seu
depoimento de 8 de janeiro de 1600, revelou ter 17 anos de idade. Submetidas ao
tormento são condenadas como suspeitas de levi na fé e vão ao auto de 3 de agosto de
1603.

Das quatro implicadas, apenas Andresa Jorge recebe ordens de retornar ao Brasil em 4 de
setembro de 1603.

Outra implicada pelo depoimento de Beatriz Fernandes, débil mental, foi a sua irmã por
parte de pai, Brijolândia Fernandes (Processo nº 9417), que chegando aos cárceres da
Inquisição em 16 de dezembro de 1599 participa do auto-de-fé, com suspeitas de
vehementi, de 3 de agosto de 1603.

Quanto a Jorge Dias da paz, citadonas págs. 58, 94, 95, 149 e 151 das Denunciações, não
consta haver ou não se conservou processo no cartório da Inquisição de Lisboa.

Em torno de Branca Dias foram criadas várias lendas. Muito embora já houvesse falecido
quando da instalação da Visitação do Santo Ofício, em 1593, o seu nome aparece entre as
vítimas da Inquisição6. Tal afirmativa, encontrada em outros cronistas, vem da lenda que
deu origem à denominação do riacho e do açude do prata em terras do subúrbio recifense
de Dois Irmãos: Segundo a lenda a denominação viria da prata jogada por Branca Dias,
naqueles dois cursos d'água, quando da chegada da Inquisição a Pernambuco.

Rodolpho Garcia, no seu bem elaborado estudo introdutório às Denunciações de


Pernambuco, faz referência ao drama histórico Branca Dias dos Apipucos, escrito na
segunda metade do século XIX, citado na obra Pernambucanas Ilustres, de Henrique
Capitulino Pereira de Mello, publicada no Recife em 1879.

De Pernambuco, a lenda de Branca passa para a Paraíba onde aparece, em 1905, emO
Livro de Branca. O seu autor, José Joaquim de Abreu, diz ter Branca Dias nascido na
Paraíba, em 15 de julho de 1734, tendo sido imolada na fogueira da Inquisição, em Lisboa,
no auto-de-fé de 20 de março de 1761. Além deste, outros exemplos são relacionados por
àquele autor da introdução que faz às Denunciações.

Com base em tal lenda o teatrólogo contemporâneo Dias Gomes escreveu a peça O Santo
Inquérito, transformada em programa radiofônico e em especial para televisão, a qual
sempre desperta as atenções do grande público em suas diversas montagens.

O edifício do Palácio da Inquisição de Lisboa, chamado de Estaus, era localizado no largo do


Rossio. Ocupava toda a área do perímetro delimitado, nos dias atuais, pela praça D. Pedro
IV, praça D. João da Câmara, ruas 1º de Dezembro, do Redentor e das Portas de Santo
Antão, localizando-se sua frente principal no hoje Teatro D. Maria I.

A sua descrição detalhada aparece na obra de Júlio Castilho Lisboa Antiga 7 e nas plantas
copiadas do arquivo da Torre do Tombo,desenhada em 1634 por Matheus do Couto,
"Arquiteto da Inquisição deste Reino", que incluem os aposentos (planta baixa) dos quatro
pavimentos e os dois cadafalsos onde eram suplicados os condenados.

As atividades da Inquisição, iniciadas em Lisboa em 1540, prolongaram-se até 1821,


quando veio a ser abolida por decreto das Cortes Portuguesas, datado de 31 de março
daquele ano. "O terrível tribunal do Santo Ofício, na observação de Pereira da Costa,
durante o tempo da sua existência celebrou nos quatro distritos de Lisboa, Évora, Coimbra
e Goa, 760 autos-de-fé, em que figuraram 31.349 vítimas, das quais 1.075 foram
relaxadas em carne (mortas nas fogueiras) e 638 queimadas em estátua por se acharem
ausentes em países estrangeiros onde não podia chegar a autoridade da Inquisição. Nas
vítimas da Inquisição, figuram 339 infelizes remetidos do Brasil, alguns dos quais
pereceram nas chamas".

Intelectuais cristãos-novos

Com a doação da igreja de Nossa Senhora da Graça aos padres da Companhia de Jesus,
em 1551, Olinda veio dispor de um Colégio dos Jesuítas, cujas aulas tiveram início em julho
de 1568, sob a direção do padre João Pereira. Surge, assim, em Pernambuco um centro
educacional que viria a formar as gerações, não somente na iniciação à alfabetização e ao
catecismo da doutrina cristã, bem como nos rudimentos da matemática, mas também no
latim, na filosofia e na moral. Em 1800 o prédio do antigo Colégio dos Jesuítas vem a ser
ocupado pelo Seminário Episcopal de Nossa Senhora da Graça, cujos Estatutos foram
elaborados pelo bispo D. José Joaquim da Cunha de Azeredo Coutinho (Lisboa: Tipografia
da Acad. R. das Ciências, 1798), com a finalidade de instruir "a mocidade em todos os seus
principais ramos da literatura, própria não só de um eclesiástico, mas também de um
cidadão que se propõe a servir ao Estado". O seminário, chamado pelo cônego Barata de
"escola de heróis", veio a ser o principal propagador do ideário iluminista dos filósofos
franceses nas capitanias do Norte do Brasil.

Também na segunda metade do século XVI atuaram em Pernambuco dois mestres-escolas


leigos, ambos cristãos-novos: Branca Dias, que mantinha uma escola para moças, e Bento
Teixeira, um erudito que atuou como mestre-escola em Olinda, Igarassu e Cabo,
responsáveis pela formação de grande parte dos filhos da elite de então.

Ainda em Pernambuco residiu por muitos anos o também cristão-novo Ambrósio Fernandes
Brandão, proprietário de terras em São Lourenço da Mata 8, que, em 1618, escreveu o
livro Diálogos das Grandezas do Brasil (Recife: Editora Massangana, 1997). Trata-se de um
dos mais importantes relatos sobre a flora, fauna, paisagem e vida social e econômica das
capitanias do Norte, naquele primeiro século de sua colonização, sendo hoje de consulta
obrigatória pelos estudiosos dos mais diversos misteres.

Por sua vez, o mestre-escola Bento Teixeira vem a ser o autor da primeira obra poética,
produzida no Brasil, que veio a alcançar as honras do prelo. Trata-se do poema épico a
Prosopopea, escrita em Pernambuco, entre 1585-94, e publicada em Lisboa em 1601, com
a dedicatória a "Jorge de Albuquerque Coelho, Capitão e Governador de Pernambuco",
numa produção da oficina de Antônio Álvares.

Que eu canto um Albuquerque sobera no Da fé, da cara pátria firme muro, Cujo valor é ser
que o céu lhe inspira, Pode estancar a lácia e grega lira.

Diogo Barbosa Machado (1682-1772), em sua Biblioteca Lusitana (Lisboa 1741), declara
ser Bento Teixeira, a quem ele acresceu o sobrenome "Pinto", natural de Pernambuco,
dando causa à repetição de um erro que se arrastou ao longo de dois séculos. Somente em
1960, quando da publicação do seu livro Estudos Pernambucanos9, o historiador José
Antônio Gonsalves de Mello vem esclarecer a real naturalidade do poeta Bento Teixeira. Ao
compulsar o processo n.º 5206 da Inquisição de Lisboa (ANTT), aparece como réu um certo
Bento Teixeira, originário de Pernambuco, que se declara natural da cidade do Porto
(Portugal), onde nasceraem cerca de 1561.

Soube ele cantar as belezas do porto de Pernambuco, sendo o primeiro a descrever, em


versos, a simbiose da nascente povoação do Recife com o mar.
Em meio desta obra alpestre e dura,
Uma boca rompeu o mar inchado
Que na língua dos bárbaros escura,
Paranambuco de todas é chamada:
De Pará, no que é mar; Puca, rotura,
Feita com a fúria desse Mar Salgado,
Que sem derivar, cometer mingoa,
Cova do Mar se chama em nossa lingoa.
Prosopopea

Nos seus diversos depoimentos, ele afirma ser natural da cidade do Porto (Portugal), de
onde saiu com a idade de cinco para seis anos para o Brasil em companhia dos seus pais.
Fixando-se inicialmente no Espírito Santo (c 1567), matriculou-se na escola dos padres
jesuítas com os quais continuou os seus estudos na Bahia. Em 1579, já tendo concluído os
seus estudos, transferiu-se para a capitania dos Ilhéus onde se casou com Filipa Raposa.
Anos mais tarde (1584) fixou-se na vila de Olinda, onde abriu uma escola para meninos na
rua Nova (a principal da vila). Por dificuldades financeiras transfere-se para a vila de
Igarassu (1588), onde, além de mestre-escola, exerceu as funções de advogado, cobrador
de dízimos e contratador de pau-brasil. Pelos freqüentes adultérios de sua mulher, Filipa,
viu-se obrigado a se transferir para o Cabo de Santo Agostinho onde, em dezembro de
1594, vem a cometer uxoricídio. Fugindo da justiça, vem refugiar-se no Mosteiro de São
Bento (Olinda). Por essa época, chega a Pernambuco o visitador do Santo Ofício Heitor
Furtado de Mendoça (sic), sendo o cristão-novo Bento Teixeira denunciado por práticas
judaizantes. Preso em 19 de agosto de 1595 é embarcado, juntamente com outros réus,
para os cárceres do Santo Ofício em Lisboa, onde por mais de quatro anos passa por
sofrimentos e privações. Solto em 30 de outubro de 1599, aos 40 anos de idade,
padecendo de uma tuberculose, por motivos ignorados volta à cadeia de Lisboa, conforme
atesta o médico João Álvares Pinheiro, a 9 de abril do ano seguinte. Do seu processo nada
mais consta, a não ser esta anotação na capa: É falecido Bento Teixeira e faleceu andando
com a penitência em o fim de julho de 600.

Ó Sorte, tão cruel, como mudável,


Por que usurpas aos bons o seu direito?
Escolhes sempre o mais abominável,
Reprovas, e abominas o perfeito,
O menos digno, fazes agradável,
O agradável mais, menos aceito...
Ó frágil, inconstante, quebradiça,
Roubadora dos bens, e da justiça.
Prosopopea
Bento Teixeira, erudito dos mais brilhantes doseu tempo, conhecedor dos clássicos, do
latim e de outras línguas, dado a fazer trovas e sonetos, foi o autor do poema épico,
Prosopopea, editado nas oficinas do impressor Antônio Álvares, "o primeiro escrito no Brasil
a merecer as honras do prelo", infelizmente publicado no ano seguinte ao da sua morte:
1601.

1 MELLO, José Antônio Gonsalves de. Gente da nação: cristãos-novos e judeus em


Pernambuco. 1542-1654 Recife: FUNDAJ, Ed. Massangana, 1989. 552 p. il. (Estudos e
pesquisas; n. 65). Inclui dicionário biográfico dos judeus residentes no Nordeste (1630-
1654) e índice onomástico. 2. ed. Apresentação de José Mindlin. Recife: FUNDAJ, Editora
Massangana, 1996.(Série descobrimentos; n.º 6) 542 p.

2 PRIMEIRA visitação do Santo Ofício às partes do Brasil - confissões e denunciações de


Pernambuco 1593-1595. Apresentação e organização de Leonardo Dantas Silva. Prefácio de
José Antônio Gonsalves de Mello. Recife: FUNDARPE; Diretoria de Assuntos Culturais, 1984.
(Coleção pernambucana; 2fase, v. 14) 509 + 158 p. il. 1ed. conjunta. Inclui índice
onomástico.

3 PRIMEIRA visitação do Santo Ofício às partes do Brasil - confissões e denunciações de


Pernambuco 1593-1595. op. cit.

4 MELLO, José Antônio Gonsalves de. Gente da nação. op. cit. p. 167-198.

5 MELLO, José Antônio Gonsalves de. Gente da nação: cristãos-novos e judeusem


Pernambuco. 1542-1654. op. cit.

6 COSTA, Francisco Augusto Pereira da. Anais pernambucanos 1493-1850. Edição fac-
similar. Recife: FUNDARPE; Diretoria de Assuntos Culturais; 1983-85. 10 v. (Coleção
Pernambucana, 2fase, v. 2-11). Organizados por Leonardo Dantas Silva, com anotações de
José Antônio Gonsalves de Mello. v. 10, p. 416.

7 CASTILHO, Júlio. Lisboa antiga. 2. ed. Lisboa, 1937. v. X, p. 51-54

8 PRIMEIRA visitação do Santo Ofício às partes do Brasil - confissões e denunciações de


Pernambuco 1593-1595. op. cit. p. 231 e 260.

9 MELLO, José Antônio Gonsalves de. Estudos pernambucanos: críticas e problemas de


algumas fontes da história de Pernambuco. 2. ed. aum. Apresentação de Leonardo Dantas
Silva. Recife: FUNDARPE; Diretoria de Assuntos Culturais, 1986. 243 p. (Coleção
pernambucana; 2fase, v. 23)

Holandeses invadem Pernambuco

1630

Leonardo Dantas Silva


Especial para o DIARIO

Na primeira metade do século XVII a riqueza da capitania de Pernambuco, bem conhecida


em todos os portos da Europa, veio despertar as atenções dos Países Baixos que, em
guerra com a Espanha, sob cuja coroa estava Portugal e suas colônias, necessitava de todo
açúcar produzido no Brasil para suas refinarias (26 só em Amsterdam). Com o insucesso da
invasão da Bahia (1624), onde permaneceram por um ano, mas com o valioso apoio de
Isabel da Inglaterra e Henrique IV da França, rancorosos inimigos da Espanha, a Holanda,
através da Companhia das Índias Ocidentais, formada pela fusão de pequenas associações,
em 1621, cujo capital elevara-se, em pouco tempo, a 7 milhões de florins, voltou o seu
interesse para Pernambuco.

Naqueles idos de 1629, estavam os habitantes de Olinda empenhados em festejar o


nascimento do Príncipe Baltazar, filho do rei Felipe IV e de sua mulher Isabel de Bourbon1,
e pouca atenção davam para os conselhos de Pedro Corrêa da Gama, empenhado em
fortificar a sede da capitania e o porto do Recife, ante a ameaça da presença de uma
armada holandesa que, segundo já se anunciava, viria tomar Pernambuco.

No púlpito da Matriz do Salvador, grandioso templo erguido em três naves, com seus
altares cobertos de ouro ostentando alfaias em prata dourada, o dominicano frei Antônio
Rosado, ao condenar a vida de prazeres dos perdulários habitantes da capitania, vaticinara
em altos brados:

Ah! Olinda, que do teu nome ao de Holanda não há de mudar mais que o i em a. Antes de
muitos dias hás de ser destruída e abrasada por holandeses, em castigo dos grandes
pecados que cometes, e me parece que já te vejo arder em fogo, olha que, pois falta a
justiça da terra, há de vir a do céu!

Os vaticínios do frade não se fizeram esperar. Poucos dias depois do seu sermão profético,
eis que um patacho, vindo do Arquipélago do Cabo Verde, chega ao Recife anunciando a
partida, em 26 de dezembro de 1629, de uma grande armada da Holanda com destino a
Pernambuco.

Mas logo apareceram os argumentos dos descrentes dessas ocasiões: Se essa frota se
tivesse dirigido ao Recife, não chegaria primeiro do que o patacho, que partiu depois dela
do CaboVerde?

O raciocínio era bastante para acalmar os ânimos e a garantir mais alguns dias de festas
em regozijo ao nascimento do herdeiro do trono de Espanha.

O governador Matias de Albuquerque, por sua vez, ao contrário dos descrentes, logo
convocou o Conselho e determinou algumas poucas medidas que poderia tomar em defesa
da sede da capitania, impedindo que qualquer habitante deixasse a vila ou dela retirasse
qualquer bem de valor.

Apenas se passaram oito dias, da chegada do patacho, eis que a esquadra holandesa é
avistada do Cabo de Santo Agostinho, vinha em busca da riqueza maior da capitania: o
açúcar!

A produção de 121 engenhos de açúcar, "correntes e moentes" no dizer de van der Dussen,
2 viria a despertar a sede de riqueza dos diretores da Companhia, que armou uma
formidável esquadra sob o comando do almirante Hendrick Corneliszoon Lonck, que, com
65 embarcações e 7.280 homens, apresentou-se nas costas de Pernambuco em 14 de
fevereiro de 1630, iniciando assim a história do Brasil Holandês.

Matias de Albuquerque, governador da capitania, procurou concentrar os seus esforços da


defesa do Recife, mas o general holandês Theodoro Waerdenburch, seguindo o que fora
planejado na Holanda, desembarcou as forças terrestres na praia do Pau Amarelo e no
comando de um exército de 3.000 homens marchou sobre Olinda.

No combate do Rio Doce, venceu as tropas de Matias de Albuquerque tomando conta de


Olinda. Recolhendo-se ao Recife, onde a defesa estava sob o comando de Antônio Lima e
não suportando o ataque por terra e mar, o general Matias de Albuquerque determinou o
incêndio de 24 navios surtos no porto, carregados de oito mil caixas de açúcar, algodão,
pau-brasil e tabaco - "que tudo valeria bem um milhão e seiscentos mil cruzados" - e
retirou-se para o interior, onde a 4 de março fundou o Arraial do Bom Jesus [na atual
Estrada do Arraial], iniciando, assim, a chamada guerra da resistência.

A Vila de Olinda

A Vila de Olinda, a mais bela da América Portuguesa, que já em 1584 tinha o seu fausto
comparado ao de Lisboa e Coimbra, dominava a paisagem, com seus quatro mosteiros, a
Igreja do Salvador do Mundo e o casario pintado de branco, construído em pedra e cal,
colorido pelo verde do coqueiral que lhe proporcionava um clima ameno. Nas ruas, ricos
senhores-de-engenho vestiam seda e damasco, montavam em garbosos cavalos ajaezados
em prata e ao som de seus guizos e cascavéis chamavam a atenção para sua passagem.

O jesuíta Fernão Cardim relata em uma de suas cartas a "boa casaria de pedra e cal, tijolo
e telha", demonstrando que em Olinda, no dizer de frei Manuel Calado, "tudo eram delícias
e não parecia esta terra senão um retrato do terreal paraíso".

Opinião de acordo com a de cronistas holandeses, a exemplo do reverendo Johan Baers,


que observa, em torno da igreja paroquial "chamada de São Pedro", se encontram "muitas
belas casas e muitos armazéns", adiantando mais adiante:

As casas não são baldas de conforto, mas,cômodas e bem feitas, arejadas por grandes
janelas, que estão ao nível do sótão ou celeiro, mas sem vidros, com belas e cômodas
subidas, todas com largar escadarias de pedra, porque, as pessoas de qualidade moram
todas no alto. Os umbrais de todas as portas e janelas são, de pedra dura e pesada.3

O capelão holandês, no seu relato em Olinda Conquistada, parece descrever habitações


semelhantes a atual casa nº 7 do antigo Pátio de São Pedro. Com suas paredes em grossa
alvenaria de pedra (50 a 70 cm), quadros de pedra nas portas e janelas e cunhais do
mesmo material.

A vida religiosa da capitania tinha como centro a matriz do Salvador do Mundo, sendo ela,
em todo século XVI e primeira metade do século XVII, a segunda igreja em importância da
América Portuguesa, depois da Sé da Bahia. O grande templo foi parcialmente concluído
em 1540, apresentando-se com três naves, tendo na portada duas colunas geminadas. O
padre Fernão Cardim assim o descreve em 1584: "uma formosa igreja matriz, de três
naves, com muitas capelas ao redor, e que acabada ficaria uma boa obra."

Matriz colegiada, a igreja do Salvador do Mundo era dirigida por um pároco, auxiliado por
um coadjutor e quatro capelães, que recitavam o ofício divino e celebravam missa solene
em comum.

O pároco de Olinda era, no dizer de Arlindo Rubert, uma espécie de Vigário-Geral da


Capitania, com especiais faculdades outorgadas pelo Bispo da Bahia. Em seu livro, A Igreja
no Brasil, ele apresenta uma relação dos primeiros vigários da matriz do Salvador do
Mundo, com as datas aproximadas de posse e transmissão do cargo: Padre Mestre Pedro
da Figueira (1535-15...), Padre Pedro Manso (15...-1562), Padre Silvestre Lourenço (1563-
1571), Licenciado Diogo Vaz de Freitas (1571-1572), Licenciado Antônio Pires (1572-
157...), Padre Antônio Muniz (157...-1584), Padre Antônio de Sá (1584-159?), Licenciado
Diogo de Couto (1589-1618); alguns dos quais não chegaram a tomar posse em suas
funções.4

Por ocasião da invasão holandesa, em 1630, a matriz do Salvador do Mundo veio a servir,
por algum tempo, às cerimônias da igreja reformada, assistida por seis pastores e, dentre
eles o já citado Johannes Baers, que oficiou naquele templo por ocasião da Páscoa de 1630.
Pela Páscoa os srs. Conselheiros mandaram abrir a principal igreja paroquial de Olinda,
orna-la e prepara-la, onde no dia da Páscoa fiz primeira prédica, e também preguei nos
dias seguintes, e batizei um soldado enfermo. [...] Vieram também à igreja muitos pretos e
pretas, que a seu modo atendiam quietos e devotos ao ofício divino e escutavam
humildemente, e eram também (assim dizia-se) batizados.

O Arraial do Bom Jesus

Derrotados no Recife e com os navios e armazéns em chamas, os luso-brasileiros


recolhem-se ao interior dando início a chamada Guerra de Resistência. Matias de
Albuquerque, "com o desespero no coração, recolhia-se com alguns valentes companheiros,
senhores de engenho da capitania, para um lugar na várzea [do Capibaribe] situado a uma
légua do Recife e de Olinda, ponto por ele fortificado com quatro peças [canhões] e
duzentos homens" (Oliveira Lima).

Estava assim iniciada uma guerra sem tréguas que se prolongaria ao longo dos próximos
24 anos. Inicialmente foi erguido o Arraial do Bom Jesus [parte do local é hoje ocupado
pelo Sítio Trindade, na Estrada do Arraial], onde por cinco anos, utilizando-se das táticas da
guerrilha, os da terra puderam combater o invasor, obstando as comunicações, reduzindo
suas forças, envolvendo-o "num apertado semicírculo, onde sentiam duramente a falta de
madeiras e víveres frescos".

Ao Arraial do Bom Jesus compareceram com seus comandados Luís Barbalho e Martim
Soares Moreno, Filipe Camarão com seus índios e Henrique Dias com os seus negros,
resolutos em manter uma guerra diuturna que veio incutir na gente de Pernambuco o
sentimento do nativismo.

No Recife, um conselho político da Companhia das Índias Ocidentais, formado por Pieter
van Hagen, Johan de Bruyne, Servaes Carpentier e Johanes van Walbeeck, determinou que
7.000 homens comandados pelo general Jonkheer Diederick van Waerdenburch realizassem
incursões contra os redutos portugueses na Paraíba (Cabedelo), Rio Grande do Norte (Reis
Magos) e Cabo de Santo Agostinho (Nazaré), não tendo este sido feliz em suas tentativas.

Em abril de 1632, porém, a sorte parece sorrir para os holandeses: Domingos Fernandes
Calabar, um mestiço acusado de contrabando, se passa para o lado dos invasores.
Profundo conhecedor da região, habituado à guerrilha, de logo desperta a atenção dos
chefes holandeses que souberam apreciar-lhe as suas habilidades, dar-lhe uma tratamento
diferenciado na sociedade de então e recompensar-lhe os serviços. Com a sua ajuda foram
tomadas as vilas de Igarassu (1632), Rio Formoso (1633), Itamaracá (1633), Rio Grande
do Norte (1633) e Nazaré do Cabo (1634). Com as novas tropas chegadas da Holanda, que
vieram elevar o efetivo militar para 4.000 infantes e 1.500 marinheiros, apoiados por 42
embarcações, contando com o comando do polonês Cristóvão Arcizewsky, o alto comando
holandês vem conquistar finalmente as capitanias do Rio Grande do Norte, Paraíba e
Itamaracá. As tropas portuguesas ficaram limitadas ao Arraial do Bom Jesus, ao forte de
Nazaré do Cabo e ao atual estado das Alagoas, defendido em Serinhaém por Matias de
Albuquerque.

O Arraial do Bom Jesus, sitiado durante três meses e três dias, pelas tropas de Arcizewsky
veio capitular em 6 de junho de 1635: "porque afinal faltou tudo o que servia de sustento;
consumiram-se cavalos, couros, cães, gatos e ratos, com que se alimentavam. E quando
ainda houvesse algumas dessas imundas coisas, não existia mais pólvora, nem qualquer
munição" (Memórias Diárias).

Cansado e extenuado,Matias de Albuquerque inicia uma marcha para a Bahia à frente de


uma tropa de 140 homens brancos, acrescida dos negros de Henrique Dias e dos índios de
Filipe Camarão, com a qual em 19 de julho veio tomar a vila de Porto Calvo, então sob o
poder das tropas do comandante Alexandre Picard, que tinha sob suas ordens quatro
companhias com 400 militares. Por ocasião da rendição foi entregue como prisioneiro
Domingos Fernandes Calabar, que veio a ser condenado à morte por garroteamento em 22
de julho.

Sabendo que as tropas de Arcizewsky viriam ao seu encalço, Matias de Albuquerque


continuou a sua marcha para Bahia, levando na vanguarda sete a oito mil civis
pernambucanos cujo pânico fez empreender tão penosa caminhada. Entre os que o
acompanhavam nesta retirada figuravam alguns senhores rurais, que deixaram para trás
seus engenhos, escravos, animais e toda a riqueza acumulada em quase um século da
civilização duartina.

Nesta fase da guerra, aparece a figura do frei Manuel Calado do Salvador (1584-1654),
então residente em Porto Calvo e, por isso, encarregado de acompanhar o condenado
Calabar nos seus últimos momentos. O religioso não só participou da guerra da resistência
contra o invasor, mas também veio a se tornar um dos principais cronistas.

Transferindo-se para o Recife, o frei veio a ser um dos comensais da corte do novo
governador do Brasil Holandês, o Conde João Maurício de Nassau, que aqui permaneceu de
1637 a 1644. O frei Manuel Calado, por sua vez, um misto de guerrilheiro, pregador, poeta
ecronista, nascido em Vila Viçosa (Portugal), conseguiu escrever a mais palpitante obra
sobre o dia-a-dia da dominação holandesa, dando-lhes vida e movimento.

A importância de seu O Valeroso Lucideno, que já fora citada por Robert Southey, in
History of Brazil (Londres, 1810. 3 v.) e por Capistrano de Abreu, in Memórias de um frade
(Revista do Instituto Arqueológico e Geográfico Pernambucano, 1905-06, v. 65, p. 18), é
ressaltada por José Antônio Gonsalves de Mello: "o seu livro é admirável, pois, além de ser
o único que nos apresenta flagrantes reveladores da vida de portugueses e holandeses, da
cidade e do campo, da guerra e dos salões dos palácios nassovianos, no período de 1630 a
1646, é escrito com uma vivacidade encantadora. Da fase anterior ao movimento
restaurador, iniciado em 13 de junho de 1645, o frade em vez de escrever a crônica miúda,
do dia-a-dia dos acontecimentos, apresenta-se em painéis, salientando episódios
marcantes a que a sua pena quase um pincel de mestre pintor dá vida e movimento8".

Adivulgação da paisagem pernambucana, neste início do século XVII, ganhou especial


relevo, com a presença dos artistas holandeses contratados pela Companhia das Índias
Ocidentais. Desde a chegada da esquadra invasora às costas de Pernambuco, em 14 de
fevereiro de 1630, já os holandeses procuraram descrever, com detalhes e grande apuro
técnico, a paisagem da terra que estavam a conquistar. São desta época o conjunto de
desenhos e mapas, dentre os quais o de Nicolau Jan Vischer, impresso em Amsterdam
(1630), marcando a tomada de Olinda e do Recife. O conjunto pode ser apreciado no
Museu do Instituto Arqueológico Histórico e Geográfico Pernambucano e no Instituto
Ricardo Brennand.

1 Herdeiro do trono de Espanha, nascido em 17 de outubro de 1629.

2 DUSSEN, Adriaen van der. Relatório sobre as capitanias conquistadas no Brasil pelos
holandeses (1639): suas condições econômicas e sociais. Rio de Janeiro: Instituto do
Açúcar e do Álcool, 1947. 168 p. Tradução, introdução e notas de J. A. Gonsalves de Mello.

3 BAERS, Padre João. Olinda conquistada. Tradução de Alfredo de Carvalho. Apresentação


de Leonardo Dantas Silva. Recife: SEC, Departamento de Cultura, 1977. 76 p. (Coleção
Pernambucana; 1fase, v. 11 b). Fac-símile da ed. Recife: Typographia de Laemmert & C. -
Editores, 1898. p. 40.
4 RUBERT, Arlindo. Op. cit. v. 1, p. 199.

5 RICHSHOFFER, Ambrósio. Diário de um soldado da Companhia das Índias Ocidentais


1629-1632. Tradução de Alfredo de Carvalho. Apresentação de Leonardo Dantas Silva.
Prefácio de Ricardo José Costa Pinto. Recife: SEC, Departamento de Cultura, 1981. 210 p.
il. (Coleção pernambucana; 1fase, v. 11 a). Fac-símile da. ed. Recife: Typographia a vapor
de Laemmert & Comp., 1897.

6 COELHO, Duarte de Albuquerque. Memórias diárias da guerra do Brasil 1630-1638.


Apresentação de Leonardo Dantas Silva; Prefácio de José Antônio Gonsalves de Mello.
Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1981. 398 p. il. (Coleção Recife; v. 12).
Inclui mapas de Manoel Bandeira e índice onomástico.

7 MELLO, José Antônio Gonsalves de. Tempo dos Flamengos. 2.ed. p. 130.

8 MELLO, José Antônio Gonsalves de. Frei Manuel Calado do Salvador: religioso da Ordem
de São Paulo, pregador apostólico por Sua Santidade, cronista da restauração. Recife:
Universidade do Recife, 1954. p. 11-12

Pernambuco, Como um sol a brilhar no infinito

"Quando os alísios empurravam da Europa e África as caravelas não buscavam


farol de luz mas farol opaco: esta pedra Na terra de mais luz da Terra foi um farol
cego este Cabo: às avessas, farol sem luz para navegantes encandeados."
João Cabral de Melo Neto

Leonardo Dantas Silva

Para o navegador espanhol, quem primeiro a vislumbrara, era esta a terra de mais luz da
Terra. Com as suas retinas ofuscadas pelos dois sóis, no seu poente por detrás das
montanhas daquele continente recém-descoberto, Francisco YaÑez Pinzón, avistara uma
ponta de pedra que se adentrava ao mar, a qual chamou de Santa Maria de la Consolacion.
Na descrição de Capistrano de Abreu: Naquele 26 de janeiro de 1500, a água do mar
apareceu turva, a sonda registrou fundo de dezesseis braças, e a costa assomou próximo.
Para ele velejaram, nela desembarcaram e tomaram conta da região em nome da coroa de
Espanha, proclamando o feito em vozes altas, cortando galhos e entalhando nomes nos
troncos das árvores, fazendo mouchões de terra, bebendo água, chantando cruzes. De
gentes viram simples pegadas: a este primeiro ponto chamaram de Santa Maria de la
Consolacion, hoje cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco. 1

Dentro na Vila de Olinda habitam inumeráveis mercadores com suas lojas abertas,
colmadas de mercadorias de muito preço, de toda a sorte em tanta quantidade que
semelha uma Lisboa pequena. A barra do seu porto é excelentíssima, guardada de duas
fortalezas bem providas de artilharia e soldados, que as defendem; os navios estão surtos
da banda de dentro, seguríssimos de qualquer tempo que se levante, posto que muito
furioso, porque têm para sua defensão grandíssimos arrecifes, a onde o mar quebra.
Sempre se acham nele ancorados, em qualquer tempo do ano, mais de trinta navios,
porque lança de si, em cada um ano, passante de 120 carregados de açúcares, pau-brasil e
algodão. A vila é assaz grande, povoada de muitos e bons edifícios e famosos templos,
porque nela há o dos Padres da Companhia de Jesus [1551], o dos Padres de São Francisco
da Ordem Capucha de Santo Antônio [1585], o Mosteiro dos Carmelitas [1588], e o
Mosteiro de São Bento [1592], com religiosos da mesma ordem.

Preocupou-se o primeiro donatário não somente com a implantação da agroindústria


açucareira, mas também com a educação da juventude e, muito particularmente, com a
catequese dos indígenas, tendo para isso entregue aos padres da Companhia de Jesus, em
1551, a ermida de Nossa Senhora da Graça por ele construída na mais alta elevação da vila
de Olinda. Coube aos padres Manoel da Nóbrega e Antônio Pires dirigir o nivelamento do
terreno e nele iniciar a construção, junto à primitiva igreja, do edifício do Colégio de Olinda,
obras estas que se prolongaram por toda a segunda metade do século XVI, e de Horto
Botânico destinado à aclimatação das plantas exóticas que eram transportadas da Europa e
do Oriente para Pernambuco.

Também outras ordens religiosas procuraram estabelecer os seus conventos em terras da


nova capitania. Depois dos Jesuítas (1551), seguiram-se os Franciscanos (1585),
Carmelitas (1588) e Beneditinos (1592).

1 ABREU, José Capistrano de. O Descobrimento do Brasil. 2 ed. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira; Brasília, INL, 1976. p. 149.

2 ABREU, José Capistrano de. op. cit. 28.

3 GUEDES, Max Justo. "As primeiras expedições de reconhecimento da costa brasileira", in


História Naval Brasileira. v. 1 cap. 4. Rio de Janeiro: Ministério da Marinha, 1975.

4 ABREU, José Capistrano de. Op. cit. p. 23.

5 COSTA, F. A. Pereira da. Anais Pernambucanos. v. 1. Recife: Fundarpe; Diretoria de


Assuntos Culturais, 1983. p. 29-38 (Coleção Pernambucana 2fase, 2 1).

A Vila de Olinda

Segundo a tradição recolhida pelo frei Vicente do Salvador, registrada na sua História do
Brasil (1627), a denominação Olinda vem de "um galego criado de Duarte Coelho, porque,
andando com outros por entre o mato, buscando um sítio em que se edificasse [a vila], e
achando este, que em um monte bem alto, disse com exclamação e alegria : Oá linda!".

A versão já fora antes relatada por Ambrósio Fernandes Brandão, autor dos Diálogos das
grandezas do Brasil (1618), que residiu em Olinda na segunda metade do século XVI,
sendo repetida pelo franciscano frei Antônio de Santa Maria Jaboatão (1695-1779) e pelo
beneditino dom Domingos do Loreto Couto (c 1696- c 1762), chegando o historiador inglês
Robert Southey (1810) a atribuir a exclamação ao próprio Duarte Coelho: "Oh! linda
situação para se fundar uma vila!".

Com a versão de frei Vicente do Salvador, que também residiu no convento franciscano de
Olinda e começou recolher anotações para sua História em 1587, não concorda o
historiador Adolpho de Varnhagen que, meticuloso em suas conclusões, lembra que a
denominação teria origem em Portugal, "mais nada natural que aquele nome fosse de
alguma quinta, ou casa, ou burgo, por qualquer título caro ao donatário na sua pátria, e
que ele no Brasil quisesse perpetuar [...] Sabe-se também que Olinda era o nome de uma
das belas damas na novela do Amadis de Gaula, cuja leitura estava então muito em voga,
não faltando leitores que lhe davam fé, como em nossos dias se dá à história."

Alfredo de Carvalho, em Frases e palavras (1906), ao concordar com Varnhagen, chama a


atenção para a existência, nas cercanias de Lisboa, das freguesias de Linda-a-Pastora e
Linda-a-Velha.

A versão do frei Vicente do Salvador, corroborada por Ambrósio Fernandes Brandão, é a


mais aceita para explicar o nascimento da primitiva capital de Pernambuco, cujo núcleo
urbano parece delineado na carta de doação, assinada por Duarte Coelho Pereira, de 12 de
março de 1537.

Naquele documento, impropriamente chamado de Foral de Olinda, a nascente vila recebe


do primeiro donatário as terras de serventia, para uso comum dos seus habitantes. Nele se
faz menção a existência da Câmara, da Rua Nova (Bispo Azeredo Coutinho), das fontes de
águas potável, do Varadouro Galeota (onde aquela embarcação sofreu reparos) e do
Arrecife dos Navios, porto da vila que veio dar origem à cidade do Recife.

Nome poético, surgido de uma leitura de novela; ou denominação saudosista, a relembrar


um sítio perdido na toponímia portuguesa; ou ainda, exclamação de um criado de Duarte
Coelho, oriundo da Galícia, perdido entre as matas de cajueiros que se espalhavam na
planície arenosa, hoje ocupada pelos bairros do Rio Doce e Rio Tapado, tudo serve para
explicar o que há no nome: Olinda. Os olindenses, porém, a exemplo dos seus avós, têm
uma explicação própria para todo esse feitiço que toma conta de quem a conhece: Quem
não viu Olinda, não amou ainda!

Uma visão da primeira capital de Pernambuco, no início do século XVII, nos é dada por
Ambrósio Fernandes Brandão, em Diálogos das grandezas do Brasil (16l8):

Francisco YaÑez Pinzón

Os preparativos da frota de Francisco YaÑez Pinzón (c.1460 c. 1523), comandante da nau


NiÑa quando da primeira viagem de Cristóvão Colombo, têm início em 1499 no porto
espanhol de Palos, na costa do Mediterrâneo. Visando buscar novas terras no Atlântico
Norte, Pinzón reuniu alguns dos mais experientes homens do mar para, com eles,
empreender uma nova viagem de exploração às terras recém-descobertas. Com suas
próprias economias, consegue aparelhar uma flotilha de quatro caravelas Pinta, Nina, Fraila
e Vicente YaÑez , convidando para comandar três delas os experientes pilotos Juan de
Úmbria, Juan de Jerez e Juan Quintero, que no passado já haviam participado das três
primeiras expedições de Cristóvão Colombo. Na nova expedição, que reunia um total de
150 homens, trouxe também dois dos seus sobrinhos, Árias Perez e Diomedes Fernandez
Calmero, filho do seu irmão Martin Alonso Pinzón (c.1440-1493), que fora comandante da
caravela Pinta quando da primeira viagem de Cristóvão Colombo.

Por essa época Colombo já houvera realizado três viagens àquelas terras desconhecidas. A
primeira em 1492-93, descobrindo às Bahamas, Cuba e Haiti; a segunda em 1493-96,
atingindo pequenas ilhas, além de Porto Rico, Cuba e Jamaica; a terceira em 1498-1500,
chegando a ilha de Trinidad, na parte mais meridional das Antilhas, chegando a foz do rio
Orenoco.

Levantando âncoras a 18 de novembro daquele ano, no comando de sua pequena armada,


Pinzón partiu em busca do arquipélago das Canárias e, de lá, rumou para o do Cabo Verde,
permanecendo com os barcos ancorados na ilha de Santiago por três semanas. A 13 de
janeiro de 1500, partiu no rumo sul-sudoeste e, após navegar cerca de 300 léguas,
ultrapassou a linha do Equador perdendo de vista a estrela polar Norte, que lhes servia de
guia.

Durante mais de uma semana, ele convivera em meio às incertezas e intensas


tempestades. A experiência o aconselhou a manter as proas das embarcações na mesma
direção, sul-sudoeste, e, ao sabor da corrente, após navegar 540 léguas em 13 dias, vem
finalmente avistarnovas terras com seus contornos azulados.

Nas licenças concedidas pelos Reis Católicos para Vicente Pinzón descobrir novas terras,
foram excluídas as terras já anteriormente visitadas por Cristóvão Colombo, daí a sua
decisão de "afoitar-se além da linha equinocial, em paragens não iluminadas pela estrela
polar".

Francisco YaÑez Pinzón, por sua vez, vem a tomar posse da terra em nome dos Reis de
Espanha, logo determinando aos escrivães régios a competente lavratura do ato jurídico,
com a assinatura das testemunhas presentes, de conformidade com a fórmula redigida por
jurisconsultos e teólogos espanhóis.

Concluídas as medidas de praxe, seguiu a expedição beirando a costa, em direção ao norte,


assinalando todos os acidentes e, mais tarde, o que veio se chamar rio Amazonas, "a que
deu o nome de Mar Dulce".Continuando, ainda em direção ao norte, "chegou até o cabo
Orange, a que deu o nome de São Vicente, e ao rio Oiapoque, que se ficou chamando de
Vicente Pinzón; foi o último ponto do Brasil em que tocou".2

Apresença de Vicente YaÑez Pinzón na costa Norte do Brasil, três meses antes do
desembarque de Pedro Álvares Cabral em Porto Seguro, na Bahia, é fato aceitável por
todos os estudiosos do período, muito embora venha a ser pouco divulgado pela
historiografia oficial.

Cabo de S. Agostinho

Ainda em seu tempo, a expedição de Vicente Pinzón foi proclamada pelos mais ilustrados
nomes da crônica histórica de então: Juan de la Cosa (1500), Piero Martir de Anghiera
(1501), Ângelo Trevisano (1504); como se não bastassem os depoimentos do próprio
Pinzón e de alguns homens de sua frota no processo conhecido como Probanzas del Fiscal,
um pleito judicial movido por Diego Colombo, filho de Cristóvão Colombo, contra a Coroa
de Castela para assegurar os direitos do seu pai. As audiências tiveram início em dezembro
de 1512, em São Domingos, no Caribe, e se prolongaram até 1515, em Sevilha, na
Espanha. No seu depoimento Vicente Pinzón afirma haver inicialmente aportado no cabo de
Santo Agostinho, em Pernambuco.

Para Adolpho de Varnhagen, quando da publicação de sua História do Brasil, em 1854, o


ponto de chegada de Vicente Pinzón na costa do Brasil seria a ponta de Mucuripe, no
Ceará, que teria sido chamada de Rostro Hermoso, ao consultar o mapa de Juan de la Cosa
(1501), o primeiro a representar a América, no Museu Naval de Madri. Com Varnhagen
também concorda o almirante Max Justo Guedes que, escrevendo em 1975, sustenta o seu
raciocínio ao sobrepor o mapa de Juan de la Costa sobre os contornos do litoral da costa
norte do Brasil, proclamando Vicente YaÑez Pinzón como o primeiro navegador europeu a
desembarcar oficialmente no Brasil.3

Com Varnhagen, porém, não concorda Capistrano de Abreu chamando a atenção de que
Santa Maria de la Consolacion e Rostro Hermoso são dois pontos distintos no litoral do
Brasil. Como prova apresenta a "capitulação que os Reis de Espanha assentaram em
Granada com Vicente YaÑez, a 5 de setembro de 1501", onde se lê:

Tenenmos que en quanto nuestra merced e voluntad fuere ... vos el dicho Vicente YaÑez ...
"seades" nuestro Capitan e Gobernador de las dichas tierras de suso nombradas desde la
dicha punta de Santa Maria de la Consolation seguiendo la costa hasta Rostro Hermoso, é
de alli toda la costa que se corre al Norueste hasta el dicho Rio que vos posites nome Santa
Maria de la Mar-dulce. 4

Ao promontório avistado, situado a 8 graus de latitude austral, o navegante espanhol


colocou o nome de Santa Maria de la Consolacion, mais tarde denominado, nas rotas dos
portugueses e cartas náuticas do século XVI, de Santo Agostinho.5
Para os primeiros navegadores europeus que chegaram a costa de Pernambuco, a costa
apresentava-se como sendo de terra baixa [com] muito arvoredo junto ao mar e parecendo
alguns campos sem árvores, na observação do piloto português Luís Teixeira, in Roteiros de
todos os sinais etc., ao elaborar o seu manuscrito entre 1582-1585.

Para o mesmo homem do mar, o Cabo de Santo Agostinho era o primeiro acidente
geográfico, situado a oito graus e meio, avistado por qualquer navegador procedente da
Europa, na costa brasileira:

Virei correndo a costa para o norte e terei aviso que se vir algumas barreiras ao longo do
mar em demanda ao Cabo de Santo Agostinho, vê-lo-ei cortado e lança-se ao mar e faz um
focinho como de baleia, em cima dele um monte, redondo de arvoredo, como cerca.

Um focinho como de baleia, fora a imagem que ficara nas retinas daquele experiente
cartógrafo, quando de sua visão da costa pernambucana, ocorrida entre 1573 e 1578.

Os tempos de Duarte Coelho

O território que constituiu a primitiva Capitania de Pernambuco foi estabelecido quando da


doação feita por D. João III a Duarte Coelho Pereira, em l0 de março de 1534 e
compreendia:

Sessenta léguas de terra... as quais começarão no Rio São Francisco [...] e acabarão no rio
que cerca em redondo toda Ilha de Itamaracá, ao qual ora novamente ponho nome Rio
Santa Cruz ... e ficará com o dito Duarte Coelho a terra da banda Sul, e o dito rio onde
Cristóvão Jacques fez a primeira casa de minha feitoria e a cinqüenta passos da dita casa
da feitoria pelo rio adentro ao longo da praia se porá um padrão de minhas armas, e do
dito padrão se lançará uma linha ao Oeste pela terra firme adentro e a terra da dita linha
para o Sul será do dito Duarte Coelho, e do dito padrão pelo rio abaixo para a barra e mar,
ficará assim mesmo com ele Duarte Coelho a metade do dito rio de Santa Cruz para a
banda do Sul e assim entrará na dita terra e demarcação dela todo o dito Rio de São
Francisco e a metade do Rio de Santa Cruz pela demarcação sobredita, pelos quais rios ele
dará serventia aos vizinhos dele, de uma parte e da outra, e havendo na fronteira da dita
demarcação algumas ilhas, hei por bem que sejam do dito Duarte Coelho, e anexar a esta
sua capitania sendo as tais ilhas até dez léguas ao mar na frontaria da dita demarcação
pela linha Leste, a qual linha se estenderá do meio da barra do dito Rio de Santa Cruz,
cortando de largo ao longo da costa, e entrarão na mesma largura pelo sertão e terra firme
adentro, tanto, quanto poderem entrar e for de minha conquista...

A metade da barra Sul do canal de Itamaracá que o rei D. João III denominou de "rio" de
Santa Cruz , até cinqüenta passos além do local onde existira a primitiva feitoria de
Cristóvão Jacques, demarcava o limite Norte de Pernambuco; ao Sul, o limite da capitania
era o Rio São Francisco, em toda sua largura e extensão, incluindo todas as suas ilhas da
foz até a sua nascente. Assim o território da Capitania de Pernambuco infletia para o
Sudoeste, a acompanhar o curso do rio, alcançando suas nascentes no hoje Estado das
Minas Gerais. Ao Norte o Rei estabeleceu o traçado de uma linha para o Oeste, por terra
adentro, até os limites da sua conquista; ou seja, os definidos pelo Tratado de Tordesilhas
(1493), isto é, as terras situadas além das 370 léguas ao Oeste das ilhas do Cabo Verde.

As fronteiras da capitania duartina, desse modo, abrangiam todo o atual Estado das
Alagoas e terminavam ao Sul, no Rio São Francisco, fazendo fronteira com o atual Estado
das Minas Gerais. Graças à posse deste importante curso dáágua, em toda sua extensão e
largura, o território de Pernambuco crescia na orientação Sudoeste, ultrapassando na sua
largura em muito as sessenta léguas estabelecidas na carta de doação. Na observação de
F. A. Varnhagen possuía a capitania de Duarte Coelho doze mil léguas quadradas,
constituindo-se na maior área territorial entre todas que foram distribuídas pelo Rei D. João
III.

Chegando à Feitoria de Pernambuco em 9 de março de 1535, Duarte Coelho fez-se


acompanhar de sua mulher, Brites de Albuquerque, do seu cunhado Jerônimo de
Albuquerque, e de algumas famílias do norte de Portugal que vinham tentar a sorte no
desenvolvimento da agroindústria canavieira.

Coube a esse "fundador de nação" a implantação, de forma sistemática, das bases da


agroindústria açucareira. Trouxe consigo, além de uma alentada parentela, novas técnicas
de fabrico do açúcar com a vinda dos engenhos e dos mestres especializados da ilha da
Madeira e, sobretudo, da importação de capital judeu para o financiamento do
empreendimento.

Calabar e outros desertores

1635

Leonardo Dantas Silva


Especial para o DIARIO

Durante toda a guerra, segundo se depreende dos cronistas que escreviam no dia-a-dia,
era comum as deserções de ambos os lados litigantes. A religião, a fome, as privações do
corpo, a promessa de ganhos e a ausência do sentimento de pátria, fizeram com que a
mudança de lado se tornasse rotina, sendo praticada pelos mais diferentes indivíduos
pertencentes às mais diferentes etnias e nacionalidades.

Do lado das forças da resistência foram os cristãos-novos, receosos dos tentáculos da


Inquisição, quem primeiro se bandearam para o lado dos invasores. No seu rastro vieram
os índios tapuias, sempre em constantes litígios com os portugueses; escravos africanos,
buscando um novo tratamento; pequenos infratores, procurados pela justiça do rei de
Espanha; até mesmo um sacerdote que resolveu, sem que nem pra que, tornar-se seguidor
da nova teologia reformada.

Do lado do holandês, formado em sua maioria por soldados mercenários das mais
diferentes origens, fugiam aqueles ameaçados por castigos e/ou pela fome e pelas
necessidades do corpo; fugiam franceses em busca dos seus valores religiosos; fugiam os
próprios holandeses que haviam optado por casarem-se com moças da terra; havendo até
casos de agentes duplos, que procuravam no calor da guerra a servir a dois senhores.

A adesão de Calabar

Do lado das forças da resistência, comandadas pelo general Matias de Albuquerque, são
constantes as deserções e atos de traição, como se vislumbra da leitura das Memórias
Diárias, escritas pelo próprio donatário, Duarte de Albuquerque Coelho, irmão do general
comandante.

De todas, a que mais causou impacto, foi o episódio da deserção do mulato Domingos
Fernandes Calabar, em 20 de abril de 1632. Tal fato é atribuído pelos cronistas da guerra
brasílica como a principal causa da perda da capitania de Pernambuco para as forças de
ocupação holandesas. Conhecedor profundo da região, dos seus caminhos, portos, cursos
dáágua e veredas, com o poder de diálogo e convencimento dos índios, apontado como
mestre nas táticas da guerra de guerrilhas, Calabar aprendeu o idioma holandês e assim
pôde conquistar as simpatias dos seus superiores.
Como o nosso general lhe conhecia o talento, sentiu muito esta fuga, não só pelo mal que
receava (como iremos vendo), mas pelo caminho que abria para os outros, como ele (que
não faltavam), fazerem o mesmo.3

Era Domingos Fernandes Calabar profundo conhecedor da região, habituado às guerras de


guerrilha, o que logo despertou às atenções dos chefes holandeses que souberam assim
apreciar suas habilidades e dar-lhe um tratamento diferenciado na sociedade de então,
recompensado-lhe pelos seus serviços. Com a sua ajuda e orientação foram tomadas às
vilas de Igarassu (1632), Rio Formoso (1633), Itamaracá (1633), Rio Grande do Norte
(1633) e Nazaré do Cabo (1634).

Pouco se sabe dos seus motivos em trair os portugueses, passando-se de armas e


bagagem para o lado dos holandeses. Dos relatos e documentos de então informam apenas
que era Domingos Fernandes filho da negra Ângela Álvares com um português de nome
desconhecido, nascido em 1609, na vila alagoana de Porto Calvo, que tomou parte ativa na
guerra desde o seu primeiro momento; fora ele ferido, em 14 de março de 1630, quando
na defesa do Arraial do Bom Jesus, estando processado por alguns crimes pela justiça do
rei de Espanha. No dizer Francisco Varnhagen, "tinha ele muito valor e astúcia, sendo o
mais prático em toda aquela costa e em terra que o inimigo podia desejar".4

Domingos Fernandes Calabar é citado no Diário de um seu contemporâneo, o oficial inglês


Cuthbert Pudsey, que entre 1629 e 1640 esteve a serviço da Companhia das Índias
Ocidentais no Brasil. Trata-se de uma das mais interessantes crônicas do período inicial da
Guerra Brasílica, em face do seu autor ter tomado parte ativa nos ataques às vilas de
Igarassu e Itamaracá, bem como na tomada do Arraial Velho e do forte de Nazaré.
Participou também da batalha da Mata Redonda e do cerco de Porto Calvo (1635), bem
como da incursão dos holandeses à Bahia (1638), tendo também integrado a frota do
almirante Cornelis Cornelisz Jol às Antilhas. O seu regresso à Holanda se dá em 1640. No
seu Diário (1629-1640) 5 ele nos revela informes preciosos sobre a personalidade e
atividades exercidas por Calabar, com quem parece ter convivido, assinalando os motivos
por ele revelados ao buscar abrigo junto às tropas holandesas:

Por esse tempo veio até nós um português chamado Domingos Fernandes [Calabar], que
por haver estuprado uma mulher na região de Camaragibe, e para que depois ela não
contasse quem havia feito isto, cortou-lhe a língua da boca. Vivera como renegado por
cerca de dois anos entre os portugueses. Então, tendo vindo servir aos holandeses, foi feito
capitão. Graças a seus conselhos e meios molestamos muitíssimo o país, sendo ele um
sujeito intrépido e político, sabedor de todas as picadas e caminhos através de toda a terra,
jactando-se de nada mais fazer senão dano aos portugueses. Sendo ele mesmo um mulato,
isto é, com um pai português e uma mãe negra. Desta espécie achamos muitos sujeitos
intrépidos. 6

Graças aos seus conhecimentos da região e do aprendizado rápido da língua holandesa,


Calabar logo cativou às autoridades militares e administrativas neerlandesas, gozando das
simpatias e recebendo carinho e atenções por parte dos mais grados. Convivia ele com as
figuras mais representativas desua época e, para um mestiço do seu tempo, tal tratamento
contribuiria para massagear de sobremaneira o seu ego de mulato e o animava na
conquista de novos postos em sua carreira militar, na qual veio atingir o posto de capitão
com o soldo de sargento-mor.

Seria este, quem sabe, talvez o principal motivo que o fez grato aos superiores
holandeses, quando a sua condição de mulato, filho de pai desconhecido, o impediria de
receber tais honrarias e simpatias por parte dos senhores da terra e da oficialidade
portuguesa.
O seu prestígio social junto aos novos aliados tornou-se patente quando do batizado do
seu filho com Ana Cardosa, na igreja reformada do Recife. Segundo anotações no Livro
Batismal 1633-1654, conservado no Arquivo Municipal de Amsterdã (Gemeent Archief
Amsterdam), sob o n.º 379/211, estiveram presentes ao batizado do menino Domingos
Fernandes Filho, em 20 de setembro de 1634, o alto conselheiro Servatius Carpentier
(também médico e senhor-do-engenho Três Paus), o coronel alemão Sigmund von
Schkoppe, o coronel polonês Chrestofle dá Artischau Arciszewski e uma senhora da alta
sociedade do Recife não identificada. O fato vem demonstrar a importância social de que
gozava o mestiço Domingos Fernandes Calabar quando, em simples solenidade familiar,
vem reunir um represente do alto Conselho e os dois principais chefes do Estado Maior do
Brasil Holandês.

Outro gesto de consideração do governo do Brasil Holandês para com a memória de


Calabar, se dá quando do pedido de sua viúva em favor dos seus três filhos órfãos, em data
de 13 de abril de 1636. Na ocasião, "considerando os grandes serviços feitos à Companhia
pelo seu falecido esposo", o Conselho Político concedeu uma pensão de 8 florins por mês a
cada uma das crianças, segundo informa José Antônio Gonsalves de Mello in Tempo dos
Flamengos.7

É fato que, além de profundo conhecedor da região, Calabar sabia negociar com os índios
o que veio ajudar de sobremaneira os holandeses em suas vitórias mais importantes
naquele período inicial da guerra da conquista. Mas, em que pese à lenda que se formou
em torno do seu nome e das "biografias" apaixonadas e discursos apologéticos dos dias
atuais, Domingos Fernandes Calabar é um nome pouco citado pelas fontes holandesas.

Os Holandeses em Pernambuco - Uma história de


24 anos

O espião Verdonck

Num tempo em que ainda não se encontrava solidificado o sentimento nativista e a


consciência de uma pátria, como a temos nos dias atuais, a deserção era fato corriqueiro
dentro das fileiras dos exércitos litigantes.

No seu relato o soldado Ambrosius Richshoffer, que escreveu O Diario de um soldado da


Companhia das Índias Ocidentais 1, registra constantes fugas das hostes holandesas e de
outras, particularmente de mouros (negros) e brasilianner (índios), do lado das forças da
resistência; os primeiros chegaram a formar um regimento e esses últimos, graças ao seu
conhecimento das trilhas e veredas do território ocupado, foram de grande valia para a
causa dos holandeses.

Do lado dos holandeses torna-se notável o número de mercenários franceses que fogem
em busca de refúgio do lado contrário, talvez por sua condição de católicos e por não
suportar a fome que lhes fora impingida durante o cerco do Recife; "os desertores são na
sua maioria franceses, de sorte que os desta nacionalidade estão sendo muito suspeitos
eodiados entre nós".

O caso de um agente duplo aparece nas crônicas holandesas, durante o período da guerra
de resistência. Trata-se do holandês Adriaen Verdonck, natural de Brabante e morador na
vila de Olinda, quando da invasão em 1630. Para angariar simpatias junto ao alto Conselho,
tomou para si a tarefa de escrever um longo relatório acerca da situação da vila de Olinda,
particularmente no que diz respeito a lugares, aldeias e comércio, "bem como Itamaracá,
Paraíba e Rio Grande", datado de 20 de maio de 1630.2
Com isso ele adquire às simpatias dos holandeses, chegando a privar do convívio em seus
passeios e da própria refeição do general comandante Theodorus van Waerdenburch
(Jonkheer Diederick van Waerdenburch), tomando assim conhecimento de informes
preciosos do desenvolvimento da guerra. Tudo caminhava sem atropelos até que, em dada
de 26 de dezembro de 1630, segundo registra Richshoffer em seu Diário, "passou-se para o
nosso lado um mouro [negro escravo] do inimigo, que referiu haver entre a nossa gente
um traidor, que diariamente vai ter com os nossos adversários na floresta, e lhes dá notícia
da força que guarnecem todos os nossos postos, dos navios que chegam da pátria, e
quantos soldados, víveres e munições trazem".

A denúncia toma corpo a 15 de janeiro, quando um escravo de Adriaen Verdonck vem a ser
reconhecido por um indígena, que se passa para o lado holandês, adiantando ser ele o
portador das cartas destinadas a Matias de Albuquerque "de três em três dias,
comunicando-lhe todos os nossos planos, e revelando-lhe tudo o que se passava ou lhe era
confiado".

O agente espião foi de imediato recolhido à prisão, "com ferros nas mãos e nos pés" e lá
fica recolhido até que novas acusações lhe foram feitas, inclusive "por um velho monge"
português, que vem a ser libertado pelos holandeses mas cujo nome não é revelado.
Diante das denúncias, a partir de 3 de abril o prisioneiro vem a ser submetidos a contínuas
sessões de torturas, sendo levado ao potro e a prancha, e assim foi obtida a sua confissão.
Desesperado tenta ele o suicídio, atirando-se por um pequeno buraco "que havia junto a
prisão com o propósito de quebrar o pescoço. Sofreu apenas um pequeno buraco na
cabeça, sendo em seguida ainda mais severamente torturado e melhor guardado".

Não suportando as torturas que lhe foram impostas, Adriaen Verdonck vem a falecer na
noite anterior ao dia da sua execução, 10 de abril de 1631.

Não se conformando com a morte de Verdonck, as autoridades holandesas determinaram


que fosse o seu cadáver retirado da prisão e arrastado pelas ruas "por quatro mouros" até
o lugar da execução onde, após a leitura da sentença condenatória, veio a ser
estrangulado, como narra Richshoffer, em seu Diário:

Ali, em virtude da condenação, foi estrangulado, sendo-lhe cortados dois dedos e a cabeça.
Em seguida foi esquartejado; colocaram a cabeça num alto poste no hornaveque do forte
de Bruyn, e o quarto junto ao Vijfhuck ou Trots den duivel; o outro foi pendurado numa
forca diante da trincheira nova Kyk in de pot (Olha para dentro do pote).Os outros dois
[quartos] foram mandados para Olinda, devendo um ser pendurado da mesma forma no
monte e o último no lugar em que a nossa gente foi abatida a 3 de janeiro último [1631].

Uma queima de arquivo

Após a derrota das tropas que defendiam o Arraial do Bom Jesus, Matias de Albuquerque,
que se encontrava em Nazaré do Cabo, inicia sua marcha em direção à Bahia. No caminho,
ao passar pela povoação de Porto Calvo, no atual território de Alagoas, comandando um
pequeno exército de 140 homens, resolve tomar aquele baluarte até então em mãos dos
holandeses.

Para isso contou com a colaboração de Sebastião Souto, que fez o chefe holandês, major
Alexandre Picard, crer na vantagem numérica das forças da resistência. Porto Calvo vem a
se render em 19 de julho de 1635. Nos termos da rendição uma das condições impostas
por Matias de Albuquerque ao major holandês, que comandava uma tropa de pouco mais
de 360 homens, seria a entrega de Domingos Fernandes Calabar e do judeu Manuel de
Castro, este último servindo aos holandeses nas funções de almoxarife da povoação.
Foi Manuel de Castro de imediato condenado pelo Auditor Geral "que o mandou enforcar
em um cajueiro", ficando Calabar para o dia seguinte.

Entregue Calabar às forças de Matias de Albuquerque, seu julgamento sumário e sua


execução passam a ser descritos com cores fortes e detalhes minuciosos pelo frei Calado,
encarregado pelo general de acompanha-lo nos seus últimos momentos. Em Olinda
Conquistada, Evaldo Cabral de Mello chama a atenção que a cooperação de Calabar "só se
torna proeminente nas fontes portuguesas", que pareciam querer atribuir-lhe o fracasso da
missão de Matias de Albuquerque em Pernambuco. "As fontes holandesas, pelo contrário,
creditam-lhe tão somente os bons serviços prestados como guia".

A verdade é que sua execução não se deveu apenas ao colaboracionismo mas igualmente
ao conhecimento que adquirira dos contactos comprometedores mantidos por pessoas
gradas da capitania com as autoridades neerlandesas.8

Uma fonte holandesa, pelo menos, o Diario do oficial inglês Cuthbert Pudsey, antes citado,
apresenta o papel desempenhado por Domingos Fernandes Calabar como de grande
importância para as conquistas de então, assinalando:

Este capitão Domingos [Calabar], em força e coragem, não podia ser igualado. Muitas
vezes, enquanto era um renegado, tentaram prende-lo, mas escapou de suas artimanhas
por sua coragem e rapidez nos pés. De tal modo que seus inimigos teriam dado qualquer
dinheiro para por-lhe as mãos. Nunca encontramos um homem tão adaptado a nossos
propósitos, para dar aos soldados proveito, pois ele tomava um pequeno navio e aterrava-
nos em território inimigo à noite, onde pilhávamos os habitantes & quanto mais dano ele
podia ocasionar aos seus patrícios, maior era sua alegria.

Prisioneiro Calabar, foi ele submetido a um julgamento sumário, em 22 de julho de 1635,


sendo condenado à morte por garroteamento pelo general Matias de Albuquerque na
ocasião representando a pessoa do próprio Rei, "pois era seu general naquela guerra",
sendo acusado o prisioneiro de "muitos males, agravos, extorsões que havia feito".

Após a sentença foi o condenado assistido pelo frei Calado que o ouviu em confissão e com
ele ficou conversando, "das oito da manhã ao meio-dia", ocasião em que relacionou os
nomes dos seus credores, bem como dos seus bens e objetos em ouro, guardados no
Recife, e as dívidas do Conselho da Companhia para com ele por conta do seu soldo de
militar. Esses apontamentos foram entregues pelo padre-mestre a sua genitora, Ângela
Álvares, que residia em Porto Calvo.

Na manhã em que esteve com Calabar, dá o frade o testemunho de que, indagado o


prisioneiro sobre a colaboração de alguns portugueses para com as forças de ocupação,
pelo ouvidor João Soares de Almeida, respondeu ele "que muito sabia e tinha visto naquela
matéria e que não eram os mais abatidos do povo os culpados".9

Das denúncias de Domingos Fernandes Calabar foi o general Matias de Albuquerque


cientificado pelo frade, "que o avisou de algumas coisas pesadas, o qual em o ouvindo
mandou que não se falasse mais nesta matéria, para não se levantar alguma poeira da qual
se originassem muitos desgostos e trabalhos".

Naquela noite foi o prisioneiro levado pelo sargento-mor dos italianos, Paulo Barnola, que
se encarregou de o encostar junto a um esteio ao lado da casa a fim de dar-lhe o garrote,
fazendo-lhe, em seguida, em quartos [retalhar o corpo do condenado em quatro partes]
"as quais puseram em cima dos paus da estacada", sendo-lhes obstado qualquer
pronunciamento, que na ocasião mostrou o prisioneiro desejo de faze-lo, "como queria,
receosos de que lhe dissesse, ou declarasse algumas coisas pesadas", conforme ressalta o
relato do frei Manuel Calado em seu livro clássico.
A narração dos fatos, que antecederam à execução de Calabar, levou a Evaldo Cabral de
Mello concluir: Tratou-se aparentemente da operação que hoje se designa em linguagem
policial por queima de arquivo.

Esta é a visão que se faz nos dias atuais do mestiço Domingos Fernandes Calabar, nem um
herói, exaltado em prosa e versos, até mesmo na música popular por alguns, nem um
traidor, como enfatizavam os cronistas portugueses do seu tempo e a maioria dos
historiadores dos séculos XIX e XX.

Era Calabar, simplesmente um desertor que viu nas forças neerlandesas mais vantagens
para a sua carreira de militar do que entre as tropas do general Matias de Albuquerque.
Como tantos outros, escolheu ele um dos lados em conflito e, no jogo do perde e ganha,
não foi feliz na sua opção.

Cansado e extenuado, Matias de Albuquerque inicia uma marcha em busca da Bahia à


frente de uma tropa de 140 homens brancos, acrescida dos negros de Henrique Dias e dos
índios de Filipe Camarão. Sabia ele que as tropas de Arcizewsky viriam ao seu encalço e
assim apressou-se na sua marcha, sem não antes deixar os restos mortais de Calabar
expostos na estacada da povoação. Acompanharam o general, em sua vanguarda sete a
oito mil civis pernambucanos cujo pânico fez empreender tão penosa caminhada. Entre os
que o acompanhavam naquela ocasião, figuravam também alguns senhores-de-engenhos,
que deixaram para trás suas fábricas, propriedades, escravos, animais e toda a riqueza
acumulada em mais de um século da civilização duartina.

Um duplo desertor

Para algumas fontes flamengas, uma das grandes perdas para as forças luso-brasileiras foi
a passagem para o lado dos holandeses do jesuíta paulista Manuel de Moraes, quando da
tomada da Paraíba em 30 de dezembro de 1634, pelas tropas comandadas pelo coronel
Chrestofle dá Artischau Arciszewski, segundo assim descreve o autor das Memórias Diárias:

O padre Manuel de Moraes com um lenço em um pau foi render-se ao inimigo, tão
esquecido das obrigações de sua profissão, que a este juntou o maior, que foi casar-se
depois em Amsterdã, sendo sacerdote e pregador apostólico, e abraçar a seita de Calvino!

Era este jesuíta um grande conhecedor da língua dos indígenas, revelando-se


posteriormente autor de um Dicionário da Língua Tupi e de uma História da América, cujos
originais receberam mais tarde elogios do filólogo Hugo de Groot.

Exercia papel da maior importância entre as forças da resistência, como comandante das
milícias indígenas a quem ensinara às técnicas da guerra de guerrilhas. Dele testemunhava,
em 1631, Matias de Albuquerque: "pelejava com tão notável zelo e ardis como se fora sua
profissão a guerra e milícia". Por sua vez, era visto por fontes holandesas, na Paraíba para
onde se transferiu, como "a maior autoridade sobre todos os selvagens daquela região".

Mestiço, descrito por uns como mulato e por outros como mameluco, ele vivia a sete anos
entre os indígenas e mais recentemente encontrava-se empenhado em ministrar táticas de
guerra volante. Dentre os seus aplicados alunos figurava o futuro herói da restauração e
futuro dom, Antônio Filipe Camarão, que vem a ser seu sucessor no comando daqueles
batalhões.

Constrangido por ter perdido a função de capitão geral dos índios para o seu aluno Antônio
Filipe Camarão, o padre Manuel de Moraes aproveitou a rendição da Paraíba para aderir à
causa dos holandeses, renunciando sua fé católica e tornando-se um pregador luterano.
Caindo nas boas graças do comandante Arciszewski, o padre ganhou notoriedade ao
renunciar a teologia católica tomando-se de paixão pelos ensinamento da igreja reformada.

A sua inesperada adesão, logo se transformou em propaganda da igreja reformada: Padre


torna-se protestante. Foi o padre Manuel de Moraes de logo enviado aos Países Baixos a
fim de melhor aprimorar os seus estudos teológicos.

Na Holanda, logo aprendeu a língua local e em pouco tempo veio casar-se com a jovem
Margaretha van der Heide, irmã do mestre dos pesos de Gelderland. Fixando moradia em
Amsterdã transformou-se de guerrilheiro em pregador devotado, conhecido por suas
preleções nos púlpitos dos templos contra a doutrina e dogmas da igreja católica romana.
Ainda nesta cidade escreve alguns textos científicos e, por conta do falecimento de sua
mulher, transfere-se para Leiden onde se matricula na universidade local em 27 de julho de
1640, apresentando-se como Lusitanius Licenteatus Theologiae. Nesta cidade ele tenta a
publicação do seu Dicionário da língua Tupi e de sua História da América.

A sua vida afetiva porém toma novas cores quando do seu casamento com a jovem Anna
Smits, uma das mais belas jovens de Leiden, que logo se tornou enfeitiçada pelo seu
charme de mulato brasileiro.

Apesar de sua aparência de homem "feio, preto, cara de chim", segundo depoimento de
Dona Anna Paes, "veio ele a se casar na Holanda com uma das moças mais formosas do
país".

O segundo casamento, ao que parece, pouco durou pois o padre apóstata se transfere para
Amsterdã e lá tem um encontro secreto com o Núncio Apostólico, junto ao Reino dos Países
Baixos, "onde se mostrou arrependido de sua escapada protestante e confessou seus
pecados ao representante do Papa que lhe deu absolvição".

Deixando na Holanda mulher e filhos, bem como amigos de prestígio como o historiador
Jan de Laet, que tece elogios a sua inteligência, e Coenradsa Burgh, o padre Manuel de
Moraes volta a sua terra a fim de explorar o corte de pau-brasil em área que lhe fora
arrendada pela Companhia.

Após algum tempo, João Fernandes Vieira sabedor do seu retorno do padre apóstata o
manda prender e logo que este chega a sua presença é cometido de grande
arrependimento: "prostou-se aos seus pés e com copiosas lágrimas, que lhe corriam sem
cessar, lhe pediu encarecidamente que lhe desse uma palavra em seu aposento, com
mostras de grande arrependimento, para que fosse seu terceiro para se eximir do castigo
que temia".

Abandonando a causa dos flamengos, tornou o padre aos exércitos dos insurrectos servindo
com ardor, ao lado de João Fernandes Vieira, a causa da Insurreição Pernambucana, sendo
o seu nome anotado por Diogo Lopes Santiago quando da batalha dos Montes das Tabocas,
na qual participou exortando os soldados e rezando em voz alta suas orações, até a vitória
final em 3 de agosto de 1645.

Após o sucesso das tropas insurrectas em Tabocas e Casa Forte, foi o padre Manuel de
Moraes enviado por João Fernandes Vieira à Lisboa, com a missão de narrar a D. João IV os
feitos obtidos pelos exércitos da terra contra os holandeses. Durante essa temporada foi ele
preso pela Inquisição de Lisboa e ali respondeu o processo, cujo teor vem a ser publicado
na Revista do Instituto Histórico Brasileiro (v. LXX, Rio de Janeiro 1908). Da leitura de suas
páginas se depreende que o religioso apresentou a seu favor "um perdão do Papa para sua
apostasia ao catolicismo", assegurando em seu depoimento "ter sido ele o único jesuíta
preso a quem as autoridades nos Países Baixos haviam proibido de regressar ao Brasil, por
temerem que levantasse o gentio contra o governo do Recife".

1 RICHSHOFFER, Ambrósio. Diário de um soldado da Companhia das Índias Ocidentais


1629-1632. Tradução de Alfredo de Carvalho. Apresentação de Leonardo Dantas Silva.
Prefácio de Ricardo José Costa Pinto. Recife: SEC, Departamento de Cultura, 1981. 210 p.
il. (Coleção pernambucana; 1fase, v. 11 a). Fac-símile da. ed. Recife: Typographia a vapor
de Laemmert & Comp., 1897.

2 O Relatório de Adriaen Verdonck foi publicado por José Antônio Gonsalves de Mello in
Revista do Arquivo Público de Pernambuco. n.º 6 p. 589-680. Recife, 1949.

3 COELHO, Duarte de Albuquerque. Memórias diárias da guerra do Brasil 1630-1638.


Apresentação de Leonardo Dantas Silva; Prefácio de José Antônio Gonsalves de Mello.
Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1981. 398 p. il. (Coleção Recife; v. 12).
Inclui mapas de Bandeira e índice onomástico, p. 121.

4 VARNHAGEN, Francisco Adolpho. História da luta com os holandeses no Brasil 1624-


1654. Lisboia 1872.

5 PUDSEY, Cuthbert. Diário de uma estada no Brasil 1629-1640. Tradução e leitura


paleográfica por Nelson Papavero; TEIXEIRA, Dante Martins. Petrópolis: Editora Index,
2000. p. 69

6 PUDSEY, Cuthbert. Diário de uma estada no Brasil 1629-1640. Tradução e leitura


paleográfica por Nelson Papavero; TEIXEIRA, Dante Martins. Petrópolis: Editora Index,
2000. p. 69

7 MELLO, José Antônio Gonsalves de. Tempo dos flamengos: influência da ocupação
holandesa na vida e na cultura do Norte do Brasil 3.ed., organizada por Leonardo Dantas
Silva. Prefácio de Gilberto Freyre. Recife: FUNDAJ, Ed. Massangana; INL, 1987. 294 p. il.
(Estudos e pesquisas, n. 50). p. 177

8 MELLO, Evaldo Cabral. Olinda Restaurada Guerra e açúcar no Nordeste, 1630-1654. 2.


ed. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998. p. 249

9 CALADO, Frei Manuel. O valeroso Lucideno e triunfo da liberdade. 4. ed. Apresentação de


Leonardo Dantas Silva. Prefácio José Antônio Gonsalves de Mello. Recife: FUNDARPE;
Diretoria de Assuntos Culturais, 1985. 2v. (Coleção pernambucana; 2fase, v. 13), v. I, 350
p. v. 2, 318 p. il. Inclui índice onomástico. p. 61.

Três meses e três dias

O Arraial do Bom Jesus, então comandado pelo governador André Marim e seus capitães,
veio a ser sitiado durante três meses e três dias, pelas tropas de Arciszewski. Na
resistência foram consumidos tudo o que poderia uma criatura pensar como alimento.

Foram nomeados para tratarem da capitulação os capitães João de Campos e Gamboa e


Luiz Avelar Fouto, tendo o Arraial capitulado em 6 de junho de 1635, como relata Duarte de
Albuquerque Coelho em suas Memórias: "porque afinal faltou tudo o que servia de
sustento; consumiram-se cavalos, couros, cães, gatos e ratos, com que se alimentavam. E
quando ainda houvesse algumas dessas imundas coisas, não existia mais pólvora, nem
qualquer munição". 3

Não é pois de admirar que se perdesse a praça; o que admira é que em tal estado a
sustentasse o governador André Marim e seus capitães. [...] Foi finalmente preciso render-
se; e com as circunstâncias referidas de certo que não foi ingloriosamente.

Segundo escreveu no seu Diário, o oficial inglês Cuthbert Pudsey, o coronel Arciszewski,
depois de sitiar por vários meses o Arraial Velho do Bom Jesus, impedindo com
emboscadas diárias que lhe chegasse qualquer tipo de mantimentos, soube por alguns
prisioneiros que a fome e a doença campeava dentro das muralhas o que tornava
impossível qualquer resistência.

O coronel intimou o forte a render-se, o que foi negado. Essa arrogância irritou Arciszewski,
que sabia, pelas inteligências dos prisioneiros, de suas desgraças, e em fúria disse que não
daria qualquer quartel. No dia seguinte parlamentaram e obtiveram quartel e todas as
condições honrosas que pediram ao coronel. Era mais que certo que nos dois últimos dias
para nenhuma alma dentro do forte havia sobrado comida. Por esse motivo Arciszewski,
muito nobremente, enviou instantaneamente quarenta bois e pão do país suficiente para
satisfazer sua fome, aplaudindo sua defesa e sua fidelidade a seu príncipe, ao manter o seu
forte sem ser tomado, até o último instante possível. 4

Após a rendição do Forte Real do Bom Jesus, tão somente às milícias do governador André
Marin, pois Matias de Albuquerque encontrava-se com o pouco que restou de suas tropas
em Nazaré do Cabo, obtiveram um tratamento honroso. Pelo tratado de rendição, assinado
com os chefes holandeses, foi permitida a sua retirada com honras, em formação militar,
ao som de caixas com suas bandeiras desfraldadas e morrões acesos, bem como a
concessão de embarcações e mantimentos que lhes transportassem até as Índias. Eram ao
todo 500 veteranos e 150 nativos, que gozavam de tal proteção, o mesmo não se dando
com a população civil que se encontrava no interior do forte e os habitantes das zonas
rurais cuja liberdade era trocada por altas somas em dinheiro e mesmo ouro e pedras
preciosas; como testemunha o oficial inglês Cuthbert Pudsey em seu Diário:

Foi também resolvido que os habitantes que estavam dentro do forte deveriam pagar,
como resgate, uma soma geral de dois meses de pago para cada soldado da legião do
coronel. Eles ficaram contentes de hipotecar para sua satisfação imediata, tanta prata &
jóias quanto fosse o valor da soma, entregando-as nas mãos dos senhores, que se
contentavam, em lugar de dinheiro, em dar aos soldados papéis no valor de tanto, que
podíamos vender para registrar em nossa conta, ou podíamos vender essas notas por
metade do seu valor em dinheiro ou vinho. O inimigo capitulou no ano de 1635, com cerca
de 1900 homens. Marcharam para o Recife com as cores desfraldadas em balas em suas
bocas [de fogo], e dali foram enviados para as Índias Ocidentais para ocupar uma praia em
alguma ilha habitada por sua nação. E uma grande celebração tanto aqui como em Holanda
fizeram os nossos por essa vitória. Esse forte tinha permanecido em suja defesa por cinco
anos e alguns meses.

Para a população civil, ao contrário da narrativa fria do cronista inglês, os holandeses


reservaram às mais cruéis torturas a fim de lhes extorquir o pouco que ainda possuíam em
favor de um resgate arbitrado de forma aleatória e brutal pela oficialidade. As mulheres
eram estrupadas e os homens, como Antônio de Freitas e Silva, foram "submetidos aos
mais cruéis tormentos a fim de que dessem mais dinheiro" em troca de suas vidas, como
descreve Duarte Coelho de Albuquerque, em suas Memórias Diárias.

Parecia-lhes que com isto ressarciam o que tinham despendido na opugnação do Real
[referência ao Arraial do Bom Jesus] em pólvora, munições e gente, que passou de 1000
homens os mortos e 700 os feridos. Nós perdemos 100, com o capitão Gabriel Soares e
Pedro Gonçalves Pereira, e o alferes Gregório Guedes; nossos feridos excederam a 140.

Segundo documento da época, cujo original hoje se encontra na Biblioteca do Instituto


Ricardo Brennand (Recife), foram arrecadados por alguns membros do Supremo Conselho
vários moradores de Pernambuco grande quantia em prata e dinheiro. Dentre eles figura o
nome de Antônio de Freitas e Silva que para salvar sua vida pagou um alto resgate.

Mediante terríveis tormentos, onde "se apertavam às cordas muito pouco a pouco para
despedaçar seu corpo, com maiores penas e arrancar todos os seus membros do lugar até
que ele prometeu pagar por seu resgate 4.000 ducados".

Calcula aquele documento que fora extorquida, naqueles dias, da população civil quantia
superior a "mais de 500.000 ducados".

A prata de São Bento

Segundo a mesma denúncia, o capitão Charles de Tourlon, da guarda pessoal do Conde


João Maurício de Nassau, o mesmo que foi casado com dona Anna Paes, em busca da prata
do Mosteiro de São Bento impôs "ao padre provedor" torturas das mais aviltantes. Fazendo
introduzir naquele sacerdote "uma clava no canal de sua natura com que o rebentou para
fazer-lhe declarar com a tortura onde os frades haviam enterrado a prata do convento". 5

Os que conseguiram pagar o seu próprio resgate tiveram salvo-conduto para abandonar a
capitania, dando início a grande epopéia em busca da Bahia de Todos os Santos. A fim de
se unir aos de Pernambuco vieram os principais de Itamaracá, dentre os quais Jerônimo
Cavalcanti de Albuquerque (descendente de Jerônimo de Albuquerque, o primeiro grande
povoador de Pernambuco), proprietário de três engenhos em Goiana, e seu primo,
Lourenço Cavalcanti de Albuquerque, proprietário de dois engenhos e muito gado.

Dentre esses torturadores encontrava-se um membro do Supremo Conselho do Brasil


Holandês, Jacob Stachowerá, que, para as fontes holandesas, "tratava-se de homem de
baixa moral que também de apropriada de uma vasta propriedade de um rico judeu
português".

Na lista de torturadores também aparece o nome do conselheiro político Hendrick Schilt


que, para conseguir "uma pulseira de patacas e a prata da igreja do engenho Umbu",
propriedade localizada no atual município de Goiana, "mandou o seu secretário matar o
padre Álvaro Mendes, capelão daquele engenho, que foi morto ao pé do altar". O fato
apresenta-se com riquezas de detalhes em processo que foi movido contra aquele
conselheiro, com sentença condenatória proferida em 30 de outubro de 1637, conservado
no Arquivo Geral do Estado (Haia), documentos da Companhia das Índias Ocidentais. No
mesmo arquivo se conservam os processos por corrupção contra vários outros membros do
Supremo Conselho, dentre os quais Hamel, Bas e Bulestraten, denunciados na publicação
Bree byl e o Brasilsche Gelt Sack, que traz a falsa declaração de haver sido impresso no
Recife.

Alguns historiadores, a exemplo Pieter Marinus Netscher, chegaram a por em dúvida às


denúncias formuladas pelo autor das Memórias Diárias, quando este trata da "fereza
bárbara" imposta pelos holandeses à população civil após a tomada do Arraial, em junho de
1635; "violentando-os a se resgatarem com seus dinheiros, cujas quantias foram taxadas
arbitrariamente e não conforme as condições de cada um". Mas foi o próprio Conde João
Maurício de Nassau que, em carta datada 29 de janeiro de 1646:

Conquistado o Arraial, apesar de haverem sido os portugueses tomados debaixo de nossa


proteção, depois se extorquiu a fazenda aos principais, torturando-os e içando-os pelos
braços; outrossim, como alguns moradores contra o seu juramento se tinham juntado com
as forças espanholas que foram no ano anterior, os governadores da colônia mandaram
trucida-los pelos tapuias, tanto quanto esses pudesses haver às mãos, assim culpados
como inocentes sem distinção, e sem poupar mesmo a mulheres ou a criança. 6
De Pernambuco acompanharamMatias de Albuquerque em sua retirada, o morgado do
Cabo, João Paes Barreto, "que largou dois engenhos, muito gado e outras fazendas, por ser
um dos mais ricos proprietários do Brasil; e ainda pôde retirar 350 escravos", levando
consigo os seus irmãos Estevão Cristóvão, Miguel, Diogo, Antônio, Felipe, D. Catarina
Barreto, viúva de D. Luís de Souza. Também se retirou D. Isabel de Moura, viúva de
Antônio Ribeiro de Lacerda, e sua irmã, D. Mência de Moura, mulher de Cosme Dias da
Fonseca, todos deixando ao abandono seus engenhos e propriedades.

1 MELLO, Evaldo Cabral de. Olinda Restaurada Guerra e açúcar no Nordeste 1630-1654.
Rio de Janeiro: Topbooks, 1998. 2. ed. p. 15

2 ROCHA, Tadeu. Roteiros do Recife. 4. ed. Recife: ed. autor, 1972. p. 82.

3 COELHO, Duarte de Albuquerque. Memórias diárias da Guerra do Brasil 1630-1638.


Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1981. (Coleção Recife; v. 12).

4 PUDSEY, Cuthbert. Diário de uma estada no Brasil 1629-1640. Tradução e leitura


paleográfica por Nelson Papavero; TEIXEIRA, Dante Martins. Petrópolis: Editora Index,
2000. p. 85

5 Manifesto dos portugueses de Pernambuco etc. , original de documento inédito datado de


1646, conservado na Biblioteca do Instituto Ricardo Brennand (Recife).

6 GUIA de Fontes para a História do Brasil Holandês: Acervos de Manuscritos em Arquivos


Holandeses. Organização de Marcos Galindo e Lodewijk Hulsman. Estudo introdutório e
organização editorial de Leonardo Dantas Silva. Apresentação de Francisco Weffort. Recife:
FJN, Ed. Massangana; Brasília: Minc - Projeto Resgate, 2001.426 p. (Obras de consulta, n.
22). Contém: Arquivos holandeses, 1885-1886 por José Hygino Duarte Pereira: A
universidade e a pesquisa histórica 1957-1958 por José Antônio Gonsalves de Mello p. 156
-157.

Um porto quieto e seguro

"Um porto tão quieto e tão seguro, que para as curvas das naus serve de muro", na
descrição da Prosopopea (1601) do poeta cristão-novo Bento Teixeira, escrita em
Pernambuco na segunda metade do século XVI, seriam as origens humildes da povoação.

Hé este porto tal, por estar posta,Huma cinta de pedra, inculta e viva, Ao longo
dasoberba e larga costa, Onde quebra Neptuno a fúria esquiva;Antre a praya, e
pedra decomposta, O estranhado elemento se diriva, Com tanta mansidão, q. hua
fateyxaBasta ter à fatal Argos anneyxa.Prosopopea

Situada no cruzamento do paralelo, a oito graus e três minutos de latitude sul, e do


meridiano de trinta e quatro graus e cinqüenta e sete minutos, de longitude oeste, a "barra
do arrecife", assim chamada no Diário de Pero Lopes de Souza (1532), veio a ser a "ribeira
do mar dos Arrecifes dos Navios", a que se refere o donatário Duarte Coelho Pereira em
sua chamada carta foral de 12 de março de 1537, uma minúscula povoação de mareantes
e pescadores que vivia em torno da ermida de São Pedro Gonçalves, por eles denominada
de Corpo Santo.

A situação da Vila de Olinda, juntamente com a nascente povoação do Arrecife e as terras


de engenhos ao seu redor, despertou a atenção do cartógrafo português Luiz Teixeira que,
na segunda metade do século XVI, traçou mapa aquarelado integrante do seu Roteiro de
todos os sinais, conhecimentos, fundos, baixos, alturas e derrotas que há na Costa do
Brasil desde o Cabo de Santo Agostinho até o Estreito de Fernão Magalhães, cujo códice
encontra-se magnificamente conservado na Biblioteca Real da Ajuda (Lisboa).

O mapa de Luiz Teixeira (c. 1573), descreve o trecho da costa pernambucana, situado
entre a "terra da banda Sul" (hoje bairro da Cabanga) e a "Vila D'Olinda", inserindo na
parte continental as Terras de yngenhos e fazdas, o "caminho para vila huma légoa", pelo
primitivo istmo, apresentando no extremo deste algumas construções e a igreja de São Frei
Pedro Gonçalves, tudo na primitiva povoação dos Arrecifes, origem modesta da cidade do
Recife.

Chamava-me a atenção o historiador José Antônio Gonsalves de Mello, neste mapa, para
uma anotação do cartógrafo a um "de mestre Gaspar", possivelmente residência de algum
clérigo ou cirurgião que vivia nos primórdios do povoamento do Recife, já referido em certo
documento datado de Olinda 1571.

O porto do Recife, tanto o Poço como o Lamarão, merece maior atenção pois no mapa
estão representados um "Arrecife", posteriormente conhecido como "Banco do Inglês", e os
"Baixos do Galeão", referência ao naufrágio do galeão do capitão Simão da Gama de
Andrade, mencionado como "Galeão Grande São João" que "se desfez em Pernambuco" por
volta de 1551, conforme carta de Tomé de Souza, datada deste mesmo ano, ao Rei de
Portugal. Assinala, ainda, uma "Lajea", nas proximidades de Olinda, designada por Vital de
Oliveira como "baixos de Olinda"; uma "Barreta", na faixa dos arrecifes do porto, depois
conhecida como "Barreta dos Afogados", fechada em 1840, e a "barra por onde entram" no
porto as embarcações. Em terra firme, também estão assinalados o Rio dos Afogados, o Rio
Capibaribe e o Varadouro das Naus, no estuário do Rio Beberibe, assinalando-se de forma
aleatória a localização dos primeiros engenhos.

Segundo aquele documento as terras situadas no entorno de Olinda e do seu porto


(Recife), localizadas nos deltas dos rios Capibaribe e Beberibe, estariam ocupadas por
alguns desses engenhos. Alguns deles vieram dar seus nomes aos atuais bairros ou
subúrbios do Recife, que conservaram as denominações primitivas: Várzea, Dois Irmãos,
Camaragibe, Apipucos, Monteiro, Casa Forte, Cordeiro, Torre, Madalena. Outros ainda nas
margens dos rios Jiqui/Jiquiá, Peres, São Paulo, Curado; Tejipió/Penedo de Baixo, Santo
Amarinho, Ibura, São Francisco, Uchoa; Jaboatão, Bulhões, Recreio, Santo André, Socorro,
Suassuna, Santa Ana, Goiabeira, Manacu; do Pirapama; do Una, bem como de outras
bacias hidrográficas tão ricas em massapê e de boas matas.

O prédio da sinagoga

Data de 1636 o surgimento da nova sinagoga do Recife, que começou a ser construída na
Rua dos Judeus no primeiro semestre daquele ano, segundo denúncia dos predicantes do
Conselho da Igreja Reformada, Schagen e Poel, feita ao Conselho Político em 23 de julho:

Em primeiro lugar, observa-se que os judeus que residem aqui começam a estabelecer uma
assembléia em forma de sinagoga, o que deve ser impedido (Dag Notule).

Em princípio funcionou a sinagoga em casa alugada, mas, logo depois, veio a ser
construído um templo próprio em pedra-e-cal, possivelmente entre 1640 e 1641, conforme
documento enviado ao Conselho dos XIX, com data de 10 de janeiro de 1641.

Em cerca de 1637, com a construção da cidade Maurícia pelo conde João Maurício de
Nassau, em terras da ilha de Antônio Vaz (hoje ocupada pelos bairros de Santo Antônio e
São José), surgiu uma segunda congregação judaica, "do outro lado do rio", a Kahal
Kadosh Maguen Abraham (Santa Congregação Escudo de Abraão), aonde veio exercer o
rabinato o erudito Moyses Raphael de Aguilar.

Formado em Amsterdã, onde em 1637 obteve o cargo de mestre da escola rabínica Ets
Hayim, Moyses Aguilar embarcou para o Recife no início de 1641, acompanhado de um
irmão, Aron Aguilar, e de um filho de sua irmã, Isaac de Castro Tartas, que veio a ser
condenado pela Inquisição de Lisboa a morrer na fogueira em dezembro de 1647.8 Sobre
ele, Daniel Levi de Barrios, cronista dos sefardins de Amsterdã, faz este elogio:

Dos sinagogas el Brasil ostenta,


Una en el Arrecife se ilumina
com Abuab; com Aguilar se aumenta
outra, Angélica en nombre y doctrina. 9

Em 1839, quando da publicação do Inventário dos prédios que os holandeses haviam


edificado ou reparado até o ano de 1654, não se faz qualquer menção à sinagoga da
comunidade Maguen Abraham, nem ao cemitério da comunidade10 localizado ao sul da
ilha de Antônio Vaz, muito embora apareça com segurança a indicação do local onde
funcionou a Zur Israel, a primeira sinagoga do Novo Mundo:

Humas casas grandes de sobrado da mesma banda do rio, com fronteira para a Rua dos
Judeos, que lhes servia de synagoga, a qual he de pedra-e-cal, com duas lojas por baixo,
que de novo fabricarão os ditos Judeus.11

A sinagoga Zur Israel estava situada no sexto lote de terreno, construído a partir do norte,
funcionando no primeiro andar de um prédio geminado, servido por uma só escada, no qual
existiam no andar térreo duas lojas, bem próximas à "Porta de Terra", que dava saída para o
istmo que ligava o Recife a Olinda. Estabelecida em prédio especialmente construído para
tal fim, a sinagoga tinha suas atividades litúrgicas no primeiro andar, onde ocupava um
amplo salão. Tinha encostado à parede da frente, voltado para o leste, o armário em
madeira (Aron Hakodesh), no qual eram guardados os rolos da Torá, e, ao centro, a Tebá,
local elevado destinado aos oficiantes na leitura dos rolos sagrados e cânticos, com cadeiras
destinadas aos membros de projeção da comunidade, em frente da Tebá, e bancos nas
laterais.

Nesta primeira sinagoga em terras das Américas exerceu o rabinato o célebre Isaac Aboab
da Fonseca que era português de nascimento. Natural de Castro Daire, distrito de Viseu, na
Beira Alta, Isaac Aboab da Fonseca nasceu em 1605, tendo emigrado ainda criança com os
seus pais para a França e, logo em seguida, para Amsterdã. Bisneto do último Gaon
(máxima autoridade no ensino e interpretação da Lei) de Castilha, que em 1492 foi forçado
a emigrar da Espanha para Portugal, estabelecendo-se na cidade do Porto, Isaac recebeu, ao
nascer, o nome de Simão da Fonseca. Era filho de David Aboab e Isabel da Fonseca, que
em 1612 já se encontravam em Amsterdã, "onde a família pôde, finalmente, observar com
liberdade sua religião judaica". 12

Tendo estudado nas escolas judaicas daquela cidade holandesa, denominada de "A
Jerusalém do Ocidente", Aboab da Fonseca foi, em 1626, designado Haham (rabino) da
Congregação Beth Israel, função que ocupou até 1638 quando da unificação de três
sinagogas ali existentes. Por desistência dorabino Menasseh ben Israel (1604-1657), veio a
aceitar, em 1641, o convite da comunidade do Recife para vir presidir os serviços religiosos
da sinagoga local, a Zur Israel, recebendo para isso o estipêndio de 1.600 florins anuais.
Exercia ainda a função de Mohel, ou circundador, e vivia, ao que parece, exclusivamente
do culto e do ensino do hebraico, da Torá e do Talmud para os que se iniciavam.

A sinagoga Zur Israel era integrada de personagens ilustres como o Hazan (o leitor),
Jehosua Velosino; o Rubi (o mestre-escola), Samuel Frazão e o Samas (guarda e mestre das
crianças) Isaac Namias, Bodeck (encarregado da matança dos animais) Benjamin Levy,
segundo relação dos funcionários no ano de 1649. No ano anterior, a 16 de novembro,
houve a fusão das comunidades Zur Israel e Maguen Abraham, ocasião em que foi
elaborado o Haskamot, ou seja, Regulamento de 40 artigos através do qual iria se reger as
duas comunidades, subscrito por 172 membros, adultos do sexo masculino, pertencentes à
comunidade residentes no Recife e em Maurícia. 13

Tal era a importância da comunidade do Recife naquela época que o famoso erudito
Menasseh ben Israel, rabino de Amsterdã, cujo nome português era Manuel Dias Soeiro,
esteve para partir para Pernambuco em 1640. No Recife já se encontrava residindo o seu
genro, Ephraim Soeiro, e alguns membros proeminentes da comunidade judaica de então
que vieram a ser por ele homenageados: David Senior Coronel, Dr. Abraão de Mercado,14
Jacob Mocata e Isaac Castanho. A homenagem se dá em 1641 quando da publicação da
segunda parte de sua obra El Conciliador etc., em quatro volumes (Amsterdã, 1632-51), na
qual Menasseh ben Israel faz incluir uma dedicatória das mais significativas:

Nobilissimos y magnificos seÀores [...] y más SeÀores de nuestra nacion, habitantes en el


Recife de Phernambvco, Salud.

1 MELLO, José Antônio Gonsalves de. Gente da Nação: cristãos-novos e judeus em


Pernambuco. 1542-1654. Recife: FUNDAJ, Ed. Massangana, 1989. 552 p. il. (Estudos e
pesquisas; n. 65). Inclui dicionário biográfico dos judeus residentes no Nordeste (1630-
1654) e índice onomástico. p. 136.

2 BARLAEUS, Gaspar. História dos feitos, recentemente praticados no Brasil etc.


Tradução de Cláudio Brandão; Apresentação de Leonardo Dantas Silva; Prefácio de José
Antônio Gonsalves de Mello. Recife: Fundação de Cultura Cidade do Recife, 1980. XIII,
410 p. il. 60 gravuras, reproduzidas em fac-símile da ed. de Amsterdã de 1647, 27 assinadas
por Frans Post (1645). (Coleção Recife; v. 4).

3 LIPINER, Elias. "Um episódio da autonomia dos judeus na História do Brasil", Revista
Comentário. Rio, 1972. ano XIII n.º 50 p. 53-82..

4 CALADO, Frei Manuel. O valeroso Lucideno e triunfo da liberdade. 4. ed. Apresentação


de Leonardo Dantas Silva. Prefácio de José Antônio Gonsalves de Mello. Recife:
FUNDARPE; Diretoria de Assuntos Culturais,1985. 2v. (Coleção pernambucana; 2fase, v.
13), v. I, 350 p. v. 2, 318 p. il. p. 307
5 MELLO, José Antônio Gonsalves de. Gente da Nação. op. cit. p. 218-222.

6 Brasil Holandês O "Thierbuch" e a "Autobiografia" de Zacharias Wagener v. 2. Rio de


Janeiro: Ed. Index, 1997, prancha 106, p. 197. WAGENER, Zacarias. Zoobiblion Livro de
Animais. São Paulo, 1964, gravura 106.

7 MELLO, José Antônio Gonsalves de. "A Sinagoga do Recife holandês", in Revista do
Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro: v. 149, n. 358-361, p. 75-82,
1988.

8 LIPINER, Elias. Izaque de Castro: o mancebo que veio preso do Brasil. Recife:
FUNDAJ, Ed. Massangana, 1992. XIII, 322 p. il. (Descobrimentos; n.1) Bibliografia e
índice onomástico e reprodução de páginas do processo nº 11.550 da Inquisição, Lisboa -
ANTT.

9 BARRIOS, Daniel Levi de. Triumpho del Gobierno Israelitico Theocratico, Honores
Funebres al [...] Jaxam Ishac Abuab.

10 O local do cemitério encontra-se assinalado no atlas desenhado por Johannes Vingbons


(De JodseBegraef Plaets), em 1639, e repetido no mapa de Cornelis Bastiaansz Golijath,
datado de 1648, que assim o assinala: Joden Kerckhof.

11 INVENTÁRIO das armas e petrechos belicos que os holandeses deixaram em


Pernambuco e dos prédios edificados ou reparados até 1654. Recife: Biblioteca Pública de
Pernambuco, 1940. 2. ed. p. 7.

12 BÖHM, Günter. Los sefardíes en los dominios holandeses de América del Sur y del
Caribe 1630-1750. Frankfurt: Vervuert Verlag, 1992. p. 45.

13 Arnoldo Wiznitzer publicou o texto do Haskamot em 1953: "The records of the Earliest
Jewish Community in the New World", in Publications of the American Jewish Historical
Society, v. 42 n.º 3. Traduzido para o português em 1954, in Anais da Biblioteca Nacional
do Rio de Janeiro, v. 74. José Antônio Gonsalves de Mello transcreve alguns tópicos do
documento e a relação dos 172 signatários do documento de 28 páginas; deixaram de
subscrever Isaac Nahamias, Mose Israel Pena, Aron da Silva, Moseh Drago e Rafael de
Mercado. in Gente da Nação op. cit. p.335-345.

14 Primeiro médico e boticário do Novo Mundo. Depois do seu regresso a Amsterdã,


recebe autorização do "Lord Protetor" Oliverio Crowell para emigrar para Barbados e lá se
estabelecer como médico. Günter Bßhm, op. cit. p. 79

Legado de Nassau é tema de fascículo do DIARIO

Edição de segunda-feira traz 10º encarte sobre ocupação holandesa

Em 1637, quando aportou no Recife, trazendo uma missão científica formada por pintores,
astrônomos e médicos, o conde holandês João Maurício de Nassau-Siegen não imaginava
que sua contribuição seria decisiva para a realização do maior e mais completo
levantamento artístico, paisagístico, cartográfico e científico desta parte do Novo Mundo no
Século 17. Nassau e o seu legado são o tema do próximo fascículo da coleção Os
holandeses em Pernambuco: uma história de 24 anos, escrita pelo jornalista e historiador
Leonardo Dantas e que o DIARIO DE PERNAMBUCO encarta na edição desta segunda-
feira. Esse é o décimo fascículo de um total de 26 que serão encartados até o dia 29 de
dezembro.

Lembrado até hoje por moradores e visitantes do Recife, Nassau é mostrado pelo
historiador como o responsável pela reorganização administrativa do governo, com a
transformação do Conselho Político em "Conselho Secreto", composto por Adrien Van der
Dussen, Mathias Van Ceulen e Jan Gijsseling. Coube a Nassau também promover no
Recife uma verdadeira revolução no âmbito de sua paisagem urbana. Entre os feitos,
destacam-se a construção das três primeiras pontes em grandes dimensões no Brasil. Uma
ligando o Recife à Cidade Maurícia (onde hoje fica o Bairro de Santo Antônio), outra
ligando a ilha ao continente na altura da Casa da Boa Vista (imediações do Convento do
Carmo) e uma terceira sobre o rio dos Afogados.

Nassau foi responsável ainda pela instalação do primeiro observatório astronômico das
Américas, além, do calçamento de algumas ruas e saneamento urbano. O conde criou um
grande jardim recreio, que era também um pomar e dispunha de alguns animais vindos das
mais diferentes partes. Conta o historiador que, segundo testemunho do frei Manoel
Calado, a construção de palácios e horto botânico ocupava todo o tempo do Conde de
Nassau, "que andava pela ilha com um cordão, traçando ruas e praças, demarcando limites,
construindo parques arborizados, tudo à moda da Holanda".

No fascículo anterior da coletânea, foram mostrados detalhaes da vida de Nassau antes de


chegar ao Brasil. Segundo Leonardo Dantas, o conde decidiu aceitar o cargo de
Governador-Geral do Brasil por ter contraído débitos calculados em aproximadamente 500
mil florins. Gastos que se deviam especialmente às obras de sua casa, considerada o
exemplo mais puro do classicismo holandês e que chegou a ser paradigma para as mansões
da Holanda e da Inglaterra. O imóvel hoje abriga um dos mais importantes museus
holandeses.

Nassau foi nomeado Governador-Geral aos 32 anos de idade. Entre suas obrigações, ditava
a Companhia, o conde deveria manter a lei e a ordem, proteger a fé, prevenir abusos,
construir fortificações e regulamentar os direitos e os deveres dos habitantes.

Imagens do Brasil Holandês


Albert Eckhout
Pinceladas perfeitas e olhos de
cientista.
Albert Eckhout, após muito observar,
registrou primeiro em esboços, depois
em pinturas e gravuras, a hipnotizante
natureza do Nordeste Brasileiro.
Através desses importantes registros
iconográficos é que o velho mundo
pode conhecer um Brasil real, a Nova
Holanda do século XVII, bem diferente
de todas as idéias fantasiosas que os
europeus faziam deste continente.
Por Monique Cardoso
"Mulher tupinambá" - Albert Eckhout mostra um ser nativo em
primeiro plano e ao fundo, a marca da invasão holandesa, uma
enorme fazenda de cana-de-açúcar.

O pintor holandês Albert Eckhout foi companheiro de Frans Post na


comitiva de Maurício de Nassau, quando o Conde veio governar o Brasil
Holandês. Mas, apesar disso, não recebeu o mesmo reconhecimento que
o colega. Ficou esquecido durante séculos e alguns, até hoje, contestam
o valor artístico de sua obra, exaltando, apenas, seu valor documental.
As comparações com Post foram inevitáveis, mas a produção dos dois
pintores durante a permanência no Nordeste parece claramente
complementar: um pintava as paisagens e o outro, os detalhes. A
natureza e os tipos étnicos do Brasil Holandês ganharam mundo através
de impressionantes painéis de Albert Eckhout, onde figuras são
representadas em tamanho natural, a maioria das telas tinha mais de 2
metros de altura.

Nascido em Groingen, 1610, Eckhout


faleceu na mesma cidade provavelmente
em 1665, e há pouquíssimas informações
a seu respeito. Sabe-se apenas que,
depois de retornar à Europa, ainda serviu
Nassau até 1653, sendo transferido então
para Dresden, na Alemanha, onde
trabalhou por dez anos para o Eleitor João
Jorge II. No período em que permaneceu
no Brasil - de 1637 a 1644 - Eckhout, além
do Recife, conheceu o interior do nordeste, Obra de Eckhout no Museu de
Copenhagen, Dinamarca:
a Bahia e ainda o Chile, como participante
melancias, cajus, magabas,
de uma expedição enviada pelo Conde. Em abacaxis, cocos e maracujás
terras da Nova Holanda, retratou os em flor.
habitantes, a fauna e a flora com riqueza
de detalhes. Apesar do aspecto estático e documental, não se pode
negar a perfeição artística das telas de Albert Eckhout. Seus
personagens solitários ocupam exatamente o centro do espaço pictórico
e parecem fitar, face a face, o espectador. A técnica e o estilo aplicados
nas suas naturezas-mortas eram, sem dúvidas, consideradas inovadoras
para o século XVII.

Choque entre a preservação da cultura nativa e a influência do


homem branco sobre indígenas e mestiços: "Mameluca", de
1641, e "Homem tapuia", de 1643.

Quanto ao destino e preservação das obras produzidas no Brasil,


Eckhout teve bem mais sorte que Post. É sabido que, no mínimo, as
telas "brasileiras" do artista somam 21, nove etnográficas, onde são
retratados os nativos e mestiços do Brasil, e 12 naturezas-mortas,
frutas, legumes, vegetais em geral, e que elas encontram-se até hoje
bem guardadas e catalogadas. Johan Maurits de Nassau-Siegen
conservou-as em sua casa, em Haia, até 1654, quando ofereceu 23
originais de Eckhout - as telas "brasileiras" e dois retratos que se
perderam num incêndio - ao gabinete de arte do Rei Frederico III, da
Dinamarca. Hoje, a coleção de obras que Albert Eckhout pintou no
nordeste do Brasil podem ser vistas no Museu de Copenhagen.
Natureza-morta representando Por conta do cuidado que o governo
abóboras, couves, rabanetes e Dinamarquês dedicou ao seu acervo
pepinos-amarelos , espécie
trazida da Holanda.
artístico, D. Pedro II, em visita ao país em
1876, pode conhecer as obras de Eckhout
e, impressionado com a beleza dos quadros e tendo reconhecido o valor
artístico e histórico deles para o Brasil, encomendou cópias em
tamanhos menores a Niels Aagaard Lutzen, que estão hoje preservadas
no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Mas, o número de telas
produzidas na Nova Holanda por Albert Eckhout pode ser bem maior.
Em 1652, alguns originais do pintor foram oferecidos ao Eleitor de
Brandenburgo e, em 1678, outros foram dados de presente ao Rei da
França. Algumas obras também podem ter sido destruídas em incêndios
ocorridos no Nassauischer Hof e na Mauritshuis. É provável que o
próprio Eckhout tenha conservado alguma coisa para si, pois obras suas
apareceram em coleções particulares muito depois de sua morte.
Embora algumas delas tenham se perdido durante a Segunda Guerra,
ainda existem 80 telas produzidas nos dez anos em que artista esteve
em Dresden, representando pássaros brasileiros.

É inegável que as obras de Frans Post e Albert Eckhout ajudaram a criar


um levantamento completo de conteúdos botânicos, etnográficos e
zoológicos, provando que tal trabalho artístico contribuiu muito no
estudo de um momento histórico pouco conhecido e ainda pouco
explorado por total ausência de registros mais precisos, devido a falta
de cientistas e pessoas responsáveis por documentar o Brasil durante o
século XVII. Os croquis e gravuras de Eckhout também fazem parte do
Livro de Barleaus, dos Manuais, da Miscellana Cleyeri e do Theatru
Rerum Naturalium Brasiliae. De fundamental importância para um
inventário mais completo da obra desse pintor do Brasil Holandês, este
livro foi considerado destruído nos escombros da Biblioteca de Berlim,
em 1945, mas veio a reaparecer na Biblioteca de Jagiellonska, na
Cracóvia, Polônia, e conserva cerca de 400 pinturas a óleo sobre papel e
desenhos atribuídos estilisticamente a Eckhout.

Apesar de ter sido o primeiro pintor a exaltar as formas e cores


exuberantes do Brasil, o pioneirismo não é o principal mérito de
Eckhout. A fidelidade de reprodução dos elementos, seu conhecimento
científico para expor de forma tão rica e bela o tropicalismo, a descrição
minuciosa desta natureza exótica são fatores que nos mostram o quanto
de sensibilidade era aplicada ao trabalho documental de Albert Eckhout,
que divulgou ao mundo as imagens do Brasil, que até hoje, apesar da
destruição ecológica, encantam visitantes do mundo inteiro.
Fontes: Dicionário crítico da pintura no Brasil, José Roberto Teixeira
Leite; O Brasil dos Viajantes, Ana Maria de Moraes Belluzzo e Revista
Geográfica Universal.

Surgimento de um povo brasileiro

A ilusão de realidade nas pinturas de Albert Eckhout é mesmo


espantosa. As figuras estão de certo modo destacadas da
paisagem, aspecto peculiar à técnica empregada por pintores
holandeses da época, que apesar da forte marca naturalista, não
deixa de apresentar alegorias poéticas. Muitas características dos
tipos que habitavam o Brasil podem ser deduzidas a partir das
obras do artista, e o conjunto das telas brasileiras de Eckhout
mostra bem os dois lados da composição étnica da época: um
Brasil que começava a se desenvolver também fora de suas
recentes cidades, ainda enquanto colônia, e outro que
confirmava, de certa forma, a imagem mitológica selvagem que
os europeus possuíam da América.

Albert Eckhout dividiu a etnografia brasileira em quatro estados


civilizatórios, pintando oito painéis que representavam quatro
casais - tapuias, tupinambás, mestiços e negros - e o nono, que
apresentava a "Dança tapuia". No óleo "Mulher tapuia", é feito
uma série de registros iconográficos sobre a tribo, que podem
ser identificados facilmente: eram bárbaros, andavam nus e em
mata virgem, conservavam hábitos originais apesar da
convivência com o homem branco e muitas vezes utilizavam-se
da sobrevivência canibal; esse grupo foi recriado poeticamente
pelo pintor holandês que procurou evidenciar o instinto animal
dos tapuias.

Já na obra "Mulher tupinambá" as diferenças entre as duas tribos


contemporâneas são evidentes: Caça e pesca eram praticadas
com ajuda de ferramentas e utensílios bastante evoluídos,
produzidos pelos próprios indígenas. Hábitos europeus já haviam
sido, no século XVII, incorporados aos costumes tupinambás e
podem ser percebidos nas vestimentas mais cobertas e feitas de
algodão. A paisagem intocada também não era uma verdade
absoluta no quadro sobre os tupinambás, no qual pode-se
observar, ao fundo, uma ampla plantação de cana, uma casa
grande, um engenho. E só o fato de existir um casal negro entre
os painéis de Eckhout, inspirado no homem africano, conduz o
observador à idéia de que o trabalho escravo já era utilizado pelo
governo de Nassau na produção canavieira em Pernambuco
Maurício de Nassau, um conde sonhador

1636

Leonardo Dantas Silva


Especial para o DIARIO

Em 1635 encontrava-se o Conselho Político do Brasil Holandês entregue aos cidadãos Pieter
van der Hagen, Johan de Bruyne, Servaes Carpentier, Johanes van Walbeeck, sob o
comando militar de Sigmund von Schkoppe.

Cada um desses senhores, com interesses próprios e objetivos por vezes diversos dos da
própria companhia, caracterizavam um governo de total falta de comando; como
demonstra o coronel Chrestofle Arciszewski, em carta enviada ao Conselho dos XIX datada
de novembro daquele ano.

Na sua exposição, o brilhante cabo de guerra defende a criação de um Governo Geral com
um reforço militar de 6000 soldados, a fim de garantir a conquista de dar uma solução ao
"estado desesperador" das suas tropas. Segundo ele,"um terço dos soldados encontravam-
se nus", sem fardamento, tostados pelo sol abrasador e, pela ausência de calçados,
encontravam-se com os "seus pés devorados por bichos, que entravam por baixo das
unhas formando feridas". O Conselho Político, por sua vez, encontrava-se mais preocupado
com a exportação doaçúcar produzido, pouco se importando com a situação do corpo da
tropa.

Toda confusão deriva do fato que não há cabeça [...] Vocês precisam mandar, assim que
possível, um general capaz que possa remediar todas as nossas inconveniências; enfatizava
na ocasião Arciszewski.

Um nobre alemão

O Conselho dos XIX, reunido em Amsterdã, fez uma avaliação da situação da nova colônia
e depois de contabilizar os ganhos com o apresamento de 800 navios, proporcionando
lucros da ordem de muitos milhões de florins, chegou a conclusão de que a Companhia das
Índias Ocidentais nos seus cinco anos no Brasil apresentava um passivo de 18 milhões de
florins.

No período de 1623 a 1636, a Companhia das Índias Ocidentais armara 806 navios,
apresou na sua constante guerra de corso 547 navios ibéricos, que lhes renderam em 37
milhões de florins, para isso, porém, empregou a elevada soma de 45 milhões de florins,
com a contratação de soldados mercenários e outras despesas, acrescidas das custas de
manutenção de uma colônia em terras do Novo Mundo, cuja produção de açúcar e pau-
brasil não vinha dando para cobrir tais despesas. Depois de somados os perdidos e os
achados, a Companhia das Índias Ocidentais havia acumulado uma dívida de 18 milhões de
florins, o que veio contribuir para a retração dos seus contribuintes, agravando ainda mais
a situação.

Após sucessivos encontros com o chefe da província da Holanda, príncipe Frederick


Hendrick, foi estabelecido a criação de um Governo Geral e apresentado para o cargo o
nome de um jovem oficial de cavalaria, de 32 anos de idade, o conde João Maurício de
Nassau-Siegen, que por estar construindo sua faustosa residência na Haia encontrava-se
necessitando de dinheiro para fazer frente às suas hipotecas.

Alemão, nascido no castelo ancestral dos Nassau em Dilemburgo, a 17 de junho de 1604,


João Maurício era o filho primogênito do Conde João VII e de sua segunda esposa,
Margarida von Holstein-Sonderburg, uma parenta da família real da Dinamarca. Seu pai,
por sua vez, era filho do conde João VI (1535-1606), conhecido como João, o Velho, que ao
morrer deixou o território do seu condado a ser repartido como seus cinco filhos vivos. Na
partilha, coube ao pai de João Maurício o pequeno condado de Siegen, para onde se mudou
em c.1606 com toda a sua imensa família, formada por 25 filhos de dois casamentos, dos
quais 20 chegaram a idade adulta.

Como conseguir um futuro condigno a essa ninhada de pequenos condes e pequenas


condessas com que o céu o contemplara?; indagaria mais tarde Besselaar em seu ensaio.

Por esses motivos é que seu filho mais velho, João Maurício, um adolescente de 14 anos,
foi enviado à casa de um tio paterno que se encarregaria de sua educação voltada para a
carreira das armas. Os seus exíguos estudos foram realizados nas cidades de Basiléia,
Genebra (1614-1615) e Cassel, deficiência que ele procurará suprir ao longo de toda a sua
vida procurando-se cercar das mais brilhantes inteligências do seu tempo; o que
proporcionou a José Van den Besselaar, o seguinte comentário:

Assim. Maurício, menino ainda, deixou os estudos. Não sabemos se os deixou de boa
vontade, se a contragosto. Só sabemos que ele, uma vez homem feito, mostrou ter uma
cultura decerto não inferior a de outras pessoas de sua categoria, distinguindo-se de quase
todas elas com o seu profundo interesse por assuntos científicos e culturais.1

Entregue à tutela do tio Guilherme Luís, Conde de Nassau-Dillemburgo, stadhouder da


Frísia e Groninga desde 1584, vem ele receber uma instrução militar e se inteirar da
complicadíssima organização política dos Países Baixos, tendo para isso permanecido dois
anos em Leeuwarden.

A Frísia e a Groninga eram as províncias mais setentrionais dos Países Baixos. O cargo de
stadhouder, palavra que ao pé da letra significa lugar-tenente, era confiado a um alto
funcionário, sempre pertencente a uma família nobre, que governava a província como
representante do soberano. Cada uma das sete províncias neerlandesas, formadora dos
Estados-Gerais, tinha o cargo de stadhouder. Mesmo depois do rompimento com a Espanha
(1581), a figura continuou a existir, sendo cinco deles (Holanda, Zelândia, Utrecht, Guélria
e Overijssel) pertencentes à Casa de Orange, e dois outros (Frísia e Groninga) eram
alemães da Casa dos Nassaus. Não se tratava de um cargo hereditário, sendo os seus
titulares nomeados para determinado período.

Em 20 de agosto de 1621, ingressou Maurício, então com 17 anos, no exército da União,


tendo ocupado o posto inicial de alferes. Em 1625 atingiu o posto de tenente-coronel,
sendo promovido, quatro anos depois, a coronel. Em 1629 distinguiu-se na conquista da
cidade de Bois-le-Duc, na parte setentrional de Brabante, integrando as tropas do príncipe
Frederick Hendrick. Em 1632 participou da tomada de Maastricht, atual capital da província
de Limburgo, e, em 1636, na retomada da praça de Schenkenschans, situada no ducado de
Cleve (Alemanha), porto fluvial de suma importância para navegação no rio Reno.

Governador do Brasil Holandês

A execução da obra dos dois palacetes ficou a cargo do jovem Pieter Post (1608-1669),
aluno de arquitetura, na corporação de São Lucas em Haarlem, dos renomados arquitetos
Lieven de Key e Jacob van Campen Com esse último ele vem a trabalhar na Casa ten
Nieuwburch em Rijswij (1633-1636), chegando a ser nomeado em 1645 "pintor e
arquiteto" do príncipe Frederick Hendrick, para quem construiu o Palácio Real, o Oude Hof,
e a Casa ten Bosch, a primeira na Haia e a segunda nos seus arredores.
Para a construção do seu palacete, projetado dentro das linhas do classicismo italiano, João
Maurício importou pedras da Bélgica, madeiras da Alemanha e do Brasil, pavimento de
Luxemburgo, mármores da Itália, ferro de Li×ge, como se depreende das cartas, escrita
em francês, trocadas por ele com Constantino Huygens.

Muito embora tenha o palacete o traçado de Jacob van Campen, as suas sugestões e
orientações sempre se fizeram presentes modificando, por vezes, o traço original do
primitivo projeto; como quando se fez necessário àdemolição de uma primitiva ponte,
situada nos limites do primitivo lote, que chegou a incompatibilizar o jovem conde com as
autoridades da Haia.

Por muitos anos Pieter Post vai acompanhar o conde João Maurício em seus sonhos,
inclusive os por ele realizados no Brasil, onde veio o jovem arquiteto contribuir com o
traçado da Cidade Maurícia, do Palácio de Friburgo, da Casa da Boa Vista e com a igreja
dos calvinistas franceses.

Com o desenvolvimento da construção da futura Mauritshuis (Casa de Maurício), o jovem


conde ficou praticamente entregue aos credores. Calcula-se que em tal empreitada foi
empregada a elevada soma de 600.000 florins, quantia avultada para época que veio
deixar o conde João Maurício de Nassau seriamente endividado.

Restava ao nobre, para sair de tal emaranhado de dívidas originárias da sua volúpia de
construir, aceitar o convite do Conselho dos XIX e se transferir para o Brasil de onde,
mesmo à distância, poderia dar continuidade a construção do seu sonho.

Do Brasil ele continuará enviando, para serem utilizados por Pieter Post na construção da
Mauritshuis, preciosas madeiras tropicais, marfim, mobílias e, sobretudo, caixas de açúcar
que, transformadas em dinheiro, financiavam as demais despesas. Nada, portanto, era
poupando para que o sonho de João Maurício excedesse em luxo e bom gosto. Foi tanto o
dinheiro gasto naquela construção, um dos mais belos monumentos da Haia, hoje
abrigando um dos mais importantes museus de pintura dos Países Baixos, que os senhores
do Conselho dos XIX a apelidaram, maliciosamente, de Suikerhuis, isto é "Casa do Açúcar".

A Mauritshuis (Casa de Maurício) é em nossos dias, segundo apreciação de Geert Arent


Banck, "o exemplo mais puro do classicismo holandês e que chegou a ser paradigma para
as mansões da Holanda e da Inglaterra".5

Em 1636, após os seus últimos sucessos como comandante militar na Alemanha, o conde
João Maurício Nassau-Siegen, então com 32 anos, vem a ser finalmente convidado, pelo
Conselho dos XIX da Companhia das Índias Ocidentais, a ocupar o cargo de Governador
Civil e Militar do Brasil Holandês, por um prazo de cinco anos.

Para o desempenho de tão altas funções ele receberia um soldo de 1500 florins mensais, o
subsídio de 6000 florins para custear as despesas do seu equipamento pessoal, uma cota
mensal para as despesas com a alimentação de sua corte e o direito de 2% sobre o total
das presas de guerra, além de seu soldo de coronel do exército da União.

João Maurício, devedor de uma hipoteca estimada em 500.000 florins, não pensou duas
vezes na proposta.

Em 4 de agosto de 1636, João Maurício vem a ser nomeado Governador-Geral do Brasil,


por um período de cinco anos, com a garantia de assumir o seu posto de tenente-coronel
quando do retorno à Holanda. Tal posto implicava, dentre outras atividades, "na
manutenção da lei e da ordem, na proteção da fé, na prevenção de abusos, na construção
de fortificações e na regulamentação dos direitos e deveres dos habitantes".
De início prometeram ao novo governador uma frota compostade 32 naus e 7.000 homens,
tal qual aconselhara o coronel Arciszewski em sua carta de novembro de 1635, mas o
tempo foi passando e a promessa não se cumpria. Durante a espera tentou ele uma
esquadra menor, com 12 naus e 2.700 homens, mas, fatigado pela demora e incerteza,
João Maurício partiu de Texel, naquele mês de outubro, com apenas quatro navios e 350
homens sob o seu comando.

Iniciava-se com conde João Maurício de Nassau-Siegen a idade de ouro da presença


holandesa nas capitanias do Norte do Brasil, sete anos de relativa paz que vieram revelar o
Novo Mundo à Europa de então.

1 BESSELAR, José Van den. Mauricio de Nassau, esse desconhecido. Rio de Janeiro:
FAPERJ, 1982. p. 25

2 STRAATEN, Harald S. van der. Brazil a destiny: Duch contacts through the ages. Haia:
Government Publishing Office, 1984. p. 73.

3 BESSELAR, José Van den. Op. cit. p. 38.

4 BESSELAR, João Van den. Op. cit. p. 36

5 BANCK, Geert Arent. "Memória e imaginário: pensando a cidadania atual no espelho do


Brasil Holandês", in República das etnias. Rio de Janeiro:Museu da República, 2000. p. 51

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