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MICROBIOTA INDÍGENA DE SERES HUMANOSATUALIZAÇÃO EM MIOCARDITES

MICROBIOTA INDÍGENA DE SERES HUMANOS

INDIGENOUS MICROBIOTA OF HUMAN BEINGS

PAULO HENRIQUE ORLANDI MOURÃO* PAULA PRAZERES MAGALHÃES* EDILBERTO NOGUEIRA MENDES***

RESUMO m i c robiota transitória, por outro lado, é formada por


As superfícies do corpo humano são colonizadas por uma comuni- m i c rorganismos provenientes do meio ambiente, que
dade de organismos, principalmente bactérias, que constitui a habitam a pele e as mucosas por horas, dias ou semanas,
microbiota indígena. A composição desta microbiota se altera ao não se estabelecendo de forma permanente4.
longo da vida e é influenciada por diversos fatores, tais como dieta
O conhecimento da microbiota é importante do
e status imunológico do hospedeiro. A microbiota pode agir de
maneira benéfica ou, em algumas situações, pode ser prejudicial ponto de vista médico porque, entre outros motivo s ,
para o indivíduo. Podem ser distinguidas a microbiota residente, constitui um re s e rvatório de microrganismos poten-
constituída por organismos específicos, encontrados, freqüente- cialmente patogênicos. Além disso, espécimes obtidos
mente, em determinadas áreas e a microbiota transitória, que con-
para exame microbiológico podem ser contaminados,
siste de microrganismos provenientes do ambiente, que habitam a
pele e as superfícies mucosas por horas ou poucas semanas. Trato durante a colheita, por membros da microbiota. Assim,
gastrointestinal, vagina, cavidade oral e pele possuem a microbiota a interpretação de resultados desse tipo de exame
mais rica e diversificada do corpo humano. O conhecimento da requer informações re l a t i vas à composição da micro-
constituição da microbiota indígena é extremamente relevante para biota de regiões específicas do organismo, à natureza
os médicos, principalmente para orientar a interpretação de resulta-
dos de exames microbiológicos e a escolha da terapia antimicrobia- do material obtido e ao procedimento adotado na
na empírica mais adequada. Deve-se salientar que a microbiota colheita do espécime.
geralmente é benéfica. Por esse motivo, é fundamental que se tenha
consciência dos riscos do rompimento da homeostasia entre micro-
biota e hospedeiro.
IMPLANTAÇÃO DA MICROBIOTA
Palavras-chave: Constituição Corporal; Secre ç õ e s A colonização do corpo humano tem início no
C o r p o r a i s / m i c robiologia; Intestinos/microbiologia; Pele/micro-
biologia; Olho/microbiologia; Orelha Extern a / m i c ro b i o l o g i a ; momento do nascimento; o indivíduo entra em contato,
B o c a / m i c robiologia; Cavidade Nasal/microbiologia; Faringe/mi- de forma fortuita, com microrganismos presentes no
c robiologia; Trato Gastrointestinal/microbiologia; Va g i n a / m i c ro- canal do parto e ambiente e, a seguir, microrganismos
biologia; Ure t r a / m i c robiologia; Relações Hospedeiro-Parasita; passam a ser introduzidos, também, com os alimentos.
Probióticos/uso terapêutico
Fatores que influenciam a composição inicial da micro-
biota incluem via de parto (passagem pelo canal vaginal
INTRODUÇÃO ou cesariana), dieta (leite materno ou fórmula) e, ainda,
As superfícies do corpo em contato com o meio características do ambiente, como condições sanitárias ou
exterior, como pele, cavidade oral, trato respiratório exposição à microbiota hospitalar3,5.
superior, trato gastrointestinal, porção distal da uretra e Os microrganismos pioneiros criam um ambiente
vagina, são colonizadas por uma comunidade de favorável ao seu desenvolvimento, dificultando a coloni-
m i c rorganismos que constituem a microbiota indígena, zação por microrganismos introduzidos posteriormente
composta principalmente por bactérias e, em menor no ecossistema, razão pela qual a colonização inicial é
escala, fungos e pro t o zoários1. relevante para a composição da microbiota indígena5.
Há evidências demostrando que a microbiota pode Geralmente, ocorre uma sucessão ordenada, específica
e xe rcer efeitos positivos e negativos sobre a saúde do para cada local, de aquisição e eliminação de microrganis-
h o s p e d e i ro2. De fato, a microbiota indígena deve ser mos, até a formação de uma comunidade clímax, ou seja,
uma coleção estável de organismos adaptados a determi-
considerada parte de um ecossistema complexo, cujos
nado ecossistema. De acordo com diversos autores, depois
efeitos sobre o indivíduo serão va r i á veis, na dependên-
cia de fatores que influenciam o equilíbrio dinâmico
e n t re microrganismos e hospedeiro 3.
A microbiota pode ser classificada em residente (ou
autóctone) e transitória (ou alóctone). A micro b i o t a *Médico Residente de Patologia Clínica, Hospital das Clínicas da Un i versidade Federal de Minas Gerais
residente consiste em tipos re l a t i vamente fixos de (UFMG). **Doutora em Mi c robiologia, Professora Adjunta do De p a rtamento de Mi c robiologia do
Instituto de Ciências Biológicas da UFMG. ***Doutor em Microbiologia, Professor Titular do
m i c rorganismos, encontrados com regularidade em De p a rtamento de Propedêutica Complementar da Faculdade de Medicina da UFMG
Endereço para correspondência:
determinada área, podendo sofrer alterações rel a ciona- Edilberto Nogueira Mendes - De p a rtamento de Propedêutica Complementar. Faculdade de Medicina –
Universidade Federal de Minas Gerais. Av. Alfredo Balena, 190 –
das com a idade, em algumas regiões do organismo. Se sala 6018, CEP 30130-100, Belo Ho r i zonte, MG. Data de submissão: 24/12/03
for perturbada, pode recompor-se prontamente. A e-mail: enmendes@medicina.ufmg.br Data de aprovação: 30/11/04

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de algumas semanas de vida, a microbiota torna-se seme- circunstâncias, impedir completamente o desenvolvimen-
lhante àquela dos adultos2. to de infecções agudas por S. aureus, sem, no entanto, eli-
A predileção dos microrganismos por um sítio é influen- miná-lo. Os mecanismos que podem explicar a ação do
ciada por propriedades como temperatura, pH, potencial de L. fermentum incluem competição por sítios de adesão,
oxi-redução, osmolaridade e presença de nutrientes e de estimulação do sistema imunológico, neutralização de
receptores na superfície de células-epiteliais, entre outros4,6. toxinas produzidas pelo patógeno e ativação de eventos
A capacidade de adesão à superfície dos tecidos, que é célu- intracelulares, nos microrganismos patogênicos, responsá-
la-específica e relacionada à expressão de adesinas, é um dos veis pelo bloqueio da produção de fatores de virulência3,11.
principais requisitos para a colonização. Como exemplo, gli- Outra forma de interferência é o gerenciamento e o con-
colipídeos presentes na superfície do epitélio renal, denomi- sumo de nutrientes presentes no microambiente, impe-
nados antígenos de grupo sangüíneo P, possibilitam a colo- dindo a aderência e/ou a colonização por microrganismos
nização por Escherichia coli com pili P. Outra proteína ade- potencialmente patogênicos para o hospedeiro5.
siva, presente em células epiteliais, a fibronectina, apresenta Os biofilmes podem, também, desempenhar papel
predileção por bactérias Gram positivas. Em diversas condi- importante no mecanismo de interferência. A maior parte
ções debilitantes, a proporção de bactérias Gram negativas das comunidades bacterianas nas cavidades oral, vaginal e
aumenta significativamente na orofaringe, provavelmente intestinal organizam-se como biofilmes. Pouco se sabe,
devido à diminuição da produção de fibronectina pelo epi- ainda, sobre a forma de coagregação desses microrganis-
télio deste sítio. Esta alteração pode explicar a alta incidên- mos e como os patógenos evitam a interferência do bio-
cia de pneumonia por bactérias Gram negativas em pacien- filme. Estudos sobre a expressão de fatores como protea-
tes hospitalizados.3,4,7,8 A aderência pode ocorrer, também, ses, que podem ser usadas seletivamente por um determi-
por um processo de agregação interbacteriana, que resulta nado microrganismo para romper um biofilme, podem
na formação de biofilme, definido como uma comunidade ser úteis na compreensão da relação entre microrganismos
de microrganismos aderidos a uma superfície. Pode ser for- exógenos e biofilme11.
mado por uma ou múltiplas espécies e aderir a superfícies A estimulação antigênica por membros da microbiota
bióticas ou abióticas. Di versos microrganismos, entre eles indígena induz a produção de imunoglobulinas, inclusive
Pseudomonas aeru g i n o s a, E. coli, Vibrio cholera e, IgA e IgG. Estes anticorpos podem apresentar reação cru-
Staphylococcus epidermidis, Staphylococcus aureus, enterococos zada com componentes tissulares, por exemplo, antígenos
e Candida albicans já foram identificados em biofilmes6. do grupo sangüíneo ABO, ou com antígenos de micror-
ganismos patogênicos8. A importância da microbiota na
EFEITOS DA MICROBIOTA INDÍGENA produção de anticorpos tem sido demonstrada em ani-
A microbiota indígena exerce numerosos efeitos, tanto mais isentos de germes, que apresentam uma variedade de
na defesa do hospedeiro como na produção de nutrientes, deficiências imunológicas3,5,12.
no processo digestivo e no desenvolvimento de tecidos e Nutrição e Metabolismo
órgãos. Eventualmente, pode constituir importante reser-
vatório de agentes etiológicos para doenças infecciosas. Certos membros da microbiota indígena, particularmen-
te do intestino, são capazes de sintetizar vitaminas K, B12,
Defesa do hospedeiro folato, piridoxina, biotina, pantotenato e riboflavina, que
A microbiota indígena pode atuar na proteção contra podem contribuir para a nutrição do hospedeiro. Por outro
infecções através da exclusão de microrganismos e da esti- lado, a microbiota pode competir com o hospedeiro por cer-
mulação do sistema imunitário4,7,8,9,10. tas vitaminas, por exemplo, ácido ascórbico e vitamina B123.
O termo “interferência bacteriana” refere-se à habili- Membros da microbiota indígena estão, também,
dade de determinado organismo de proteger o hospedei- envolvidos na reabsorção de sais biliares. Estas substâncias
ro contra a invasão por microrganismos exógenos, inter- são excretadas na bile, conjugadas com glicuronídeos ou
ferindo com sua capacidade de adesão ou produzindo sulfatos não reabsorvíveis e desconjugadas por bactérias
substâncias antagonistas ou tóxicas, como bacteriocinas, produtoras de glicuronidases e sulfatases, possibilitando
ácidos ou peróxido de hidrogênio, entre outro s . sua reabsorção. Em contraste, a desconjugação de ácidos
Bacteriocinas produzidas por estreptococos do grupo viri- biliares por bactérias na porção superior do intestino del-
dans são consideradas barreira importante contra a colo- gado pode causar diminuição da absorção de gordura,
nização da orofaringe por St reptococcus pneumoniae, provocando esteatorréia1,3,8.
Streptococcus pyogenes e bastonetes Gram negativos11. De No intestino grosso, a principal função metabólica da
maneira semelhante, a produção de ácidos graxos de microbiota indígena é a fermentação de resíduos não dige-
cadeia curta pela microbiota do intestino grosso pode ridos, oriundos da dieta. No ceco e cólon ascendente, a fer-
dificultar a colonização do órgão por patógenos. mentação é intensa, com formação de grande quantidade
Lactobacillus fermentum RC-14 pode inibir ou, em certas de ácidos graxos de cadeia curta e multiplicação bacteriana

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acelerada. No ceco, são produzidos, principalmente, aceta- mesmo na idade adulta, de microrganismos da microbiota
to, propionato e butirato. O butirato é quase totalmente intestinal é capaz de reve rter esse quadro.13
consumido pelo epitélio colônico, representando a fonte
Agressão
principal de energia para os colonócitos, além de estimular
a multiplicação e a diferenciação das células epiteliais. Em certas circunstâncias, qualquer microrganismo, inclu-
Acetato e propionato, absorvidos pela circulação portal, são sive membros da microbiota indígena, pode causar doença.
metabolizados nos tecidos periféricos, principalmente mús- O potencial patogênico dos integrantes da microbiota é
culos, e no fígado. Na porção distal do cólon, o processo de variável. No caso de ruptura de alça intestinal, por exemplo,
putrefação é quantitativamente mais importante e a multi- centenas de espécies de bactérias são inoculadas no peritôneo,
plicação bacteriana é lenta5. porém apenas algumas serão responsáveis pela peritonite7,8.
Embora não haja evidências conclusivas, a microbiota É importante salientar que o grau de imunocompetên-
colônica parece interferir no risco de desenvolvimento de cia de cada indivíduo influencia o resultado final da intera-
câncer nos seres humanos. Vários investigadores propuse- ção do microrganismo com o hospedeiro. Com o aumento
ram que a dieta influencia a composição da microbiota da freqüência de situações que levam ao comprometimento
intestinal. Dieta rica em carne e pobre em vegetais aumen- do sistema imunológico, doenças causadas por membros da
ta a excreção fecal de compostos ricos em compostos N- microbiota indígena, denominadas infecções oportunistas,
nitrosos, um grupo de substâncias genotóxicas produzidas tornaram-se mais prevalentes. Por exemplo, C. albicans,
por bactérias intestinais, associadas ao desenvolvimento de o b s e rvada na microbiota intestinal, é a causa mais comum
câncer de cólon. Por outro lado, alguns microrganismos são de septicemia em pacientes em quimioterapia para câncer, e
Pneumocistis carinii, um habitante comum do trato respira-
capazes de neutralizar tais substâncias. Foi demonstrado que
tório, pode causar pneumonia específica, uma causa impor-
a predominância de Bacteroides ou de Lactobacillus na
tante de óbito em pacientes com AIDS8.
microbiota fecal está associada a risco aumentado ou dimi-
Componentes da microbiota podem provocar doença
nuído, respectivamente, de desenvolvimento da doença.
no sítio de origem ou em outros locais, por exemplo, após
Além disso, bactérias da microbiota intestinal produtoras de
ruptura de barreiras que separam compartimentos corpo-
sulfatase conve rtem o adoçante artificial ciclamato (sulfato
rais estéreis ou não. Procedimentos como cateterização,
de ciclohexamina) em agente carcinógeno (ciclohexamina)
intubação e extrações dentárias, doenças como úlceras per-
com ação na bexiga3,5,8.
furadas e queimaduras, ou ainda ferimentos traumáticos
Desenvolvimento de tecidos e órgãos podem levar à introdução de microrganismos em locais
anteriormente estéreis. Microrganismos indígenas podem,
É possível que bactérias da microbiota indígena sejam
também, complicar processos infecciosos préexistentes.
capazes de induzir modificações fenotípicas no hospedeiro.
Um exemplo clássico é a superinfecção por S. pneumoniae,
No intestino, parece que a interação entre microbiota e hos- originário da microbiota indígena da orofaringe, que pode
pedeiro é necessária para o desenvolvimento normal do complicar pneumonia de origem viral3,7,8.
órgão. Sabe-se que modificações profundas ocorrem no Pequeno número de bactérias indígenas atravessam,
ecossistema intestinal de mamíferos no período de substitui- continuamente, a mucosa do trato gastrointestinal, pro-
ção do leite materno por alimentos sólidos. Por exemplo, o cesso denominado translocação bacteriana, que, depen-
intestino de seres humanos apresenta, no período neonatal, dendo da circunstância, pode ser benéfico, estimulando o
predominância de anaeróbios facultativos, como E. coli e sistema imune, ou prejudicial, especialmente para o hos-
estreptococos e, com a introdução de alimentos sólidos, bac- pedeiro imunocomprometido. Enquanto no indivíduo
térias anaeróbias estritas, principalmente dos gêneros saudável estas bactérias são, usualmente, destruídas, pos-
Bacteroides e C l o s t r i d i u m, passam a predominar13. sivelmente por macrófagos, no paciente com deficiência
As alterações da microbiota coincidem com a maturação do sistema imunitário elas podem alcançar linfonodos,
funcional e morfológica do intestino, notando-se, principal- fígado e baço e, subseqüentemente, dispersar-se, causan-
mente, aumento da atividade celular do sistema imune do sepse. Incremento da população bacteriana, dano físi-
local, produção de proteínas antimicrobianas e angiogênese, co à barreira mucosa e comprometimento das defesas
resultando na formação de uma rede capilar robusta na imunológicas podem favorecer o processo de transloca-
mucosa intestinal. Especula-se que estas modificações ção. Entretanto, a relevância clínica da translocação bac-
sejam, pelo menos em parte, dependentes da maturação da teriana ainda é controversa1,5,14.
comunidade microbiana intestinal. Estas conclusões Embora a microbiota indígena, por meio da estimula-
baseiam-se no fato de que camundongos isentos de germes, ção antigênica, possa desempenhar papel protetor, em
ao contrário de animais convencionais, apresentam mucosa determinadas circunstâncias, a estimulação excessiva do
intestinal pouco desenvolvida, pobre em capilares e com sistema imune pode ser um componente importante na
baixos níveis de proteínas antimicrobianas. A introdução, etiopatogenia de doenças inflamatórias intestinais. Nos

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pacientes com doença de Crohn, os linfócitos T intesti- mais microrganismos que locais abertos (pernas, braços
nais são hiper-reativos contra antígenos bacterianos. e tronco). O número de bactérias anaeróbias facultati-
Tanto nesta doença como na colite ulcerativa, há aumen- vas em áreas úmidas pode alcançar 107 bactérias/cm_,
to da produção de IgG contra várias bactérias da micro- enquanto áreas secas abrigam 102 ou menos organis-
biota. Esta classe de anticorpos causa dano à mucosa mos no mesmo espaço. Vale a pena ressaltar que a umi-
intestinal porque ativa o complemento e a cascata de dade favo rece a multiplicação de bactérias Gram nega-
mediadores inflamatórios. Pacientes com doença de t i vas, raras nas áreas mais secas18.
Crohn apresentam número aumentado de bactérias ade- Ou t ros fatores interf e rem no ecossistema da pele,
ridas às células epiteliais da mucosa intestinal5 e, em algu- ocasionando alterações na população micro b i a n a .
mas circunstâncias, no interior das mesmas, como descri- Fa t o res ambientais incluem temperatura, salinidade e
to para espécies do gênero Bacteroides1,3,8. exposição à luz e, entre os fatores re l a t i vos ao hospedei-
ro, pode-se citar idade, sexo, imunocompetência, hábitos
AÇÃO DE ANTIMICROBIANOS SOBRE de higiene, uso de medicamentos (antimicrobianos, esterói-
A MICROBIOTA INDÍGENA des, etc), uso de cosméticos e integridade da pele. A produ-
ção de lisozima e a manutenção de ambiente ácido limitam
A administração de agentes antimicrobianos causa
a proliferação de microrganismos e a contínua descamação
ruptura do balanço ecológico entre hospedeiro e micro-
do estrato córneo da pele dificulta a colonização e contribui
biota. A extensão das alterações depende do espectro, da
para a remoção dos mesmos19.
dose, da via de administração, das propriedades farmaco-
Os microrganismos predominantes na microbiota re s i-
cinéticas e farmacodinâmicas do agente antimicrobiano,
dente da pele são cocos Gram positivos, em especial S. epi-
bem como de sua interação com o ambiente. Deve ser
dermidis19,20. Ocasionalmente, estes organismos causam
salientado que o transporte de agentes antimicrobianos
infecções nosocomiais em pacientes em uso de cateter
pela mucosa intestinal e vaginal, pelas glândulas salivares
intravenoso ou com implante de válvula cardíaca. A pele
e sudoríparas ou na bile interfere com a microbiota de
pode ser colonizada transitoriamente por diversas bacté-
diversos locais anatômicos7,15.
rias, entre elas S. aureus, S. pyogenes e P. aeru g i n o s a18,19.
Staphylococcus aureus é a causa mais comum de infecção
PROBIÓTICOS
bacteriana cutânea em pacientes com AIDS, provocando
Probióticos são definidos como microrganismos vivos lesões superficiais ou profundas e levando a complicações
que, se ingeridos em quantidade apropriada, exercem efeitos potencialmente graves19. Propionibacterium acnes é o anae-
benéficos à saúde. Em contraste, prebióticos são ingre d i e n- róbio estrito corineforme predominante, sendo encontra-
tes não-digeríveis presentes em alimentos, beneficiando o do nas camadas profundas da pele e causa freqüente de
hospedeiro por meio do estímulo à multiplicação seletiva contaminação de hemoculturas19,21.
e/ou atividade de um grupo restrito de bactérias no cólon1,5.
Microbiota do olho
Alguns probióticos são úteis no tratamento de pacien-
tes com diarréia aguda, por exemplo, por rotavírus. Além A superfície ocular é colonizada por uma comunidade
disso, a administração de probióticos, juntamente com esparsa de microrganismos, predominando estafilococos
drogas antimicrobianas, reduz significativamente a preva- coagulase negativos e corinebactérias, entre elas P. acnes.
lência da diarréia associada ao uso destas drogas, em Entretanto, cerca de 17% a 49% das culturas de amostras
crianças e adultos. Foi demonstrado, ainda, que uma pro- obtidas da região mostram-se negativas17,22,23.
tease produzida por Saccharomyces boulardii inibe a toxi- O mecanismo de abrir e fechar das pálpebras, a cada
na A de Clostridium difficile, razão pela qual probiótico intervalo de poucos segundos, re m ove os elementos
tem sido empregado no tratamento de pacientes com externos em contato com a conjuntiva, inclusive bacté-
colite associada ao microrganismo11. Probióticos podem, rias. Além disso, a secreção lacrimal contém substâncias
também, melhorar a digestão da lactose, contribuindo bactericidas, como lisozima. Portanto, há pouca pro b a-
para aliviar as manifestações clínicas provocadas pela bilidade de microrganismos, que não dispõem de meca-
malabsorção do carboidrato5, e reduzir a freqüência de nismos específicos de adesão e resistência à lisozima,
eczema atópico recorrente16,17. c o l o n i z a rem a conjuntiva em condições normais. O uso
de lentes de contato, por outro lado, pode prover um
MICROBIOTA POR REGIÃO ANATÔMICA (QUADRO 1) meio adequado para o desenvolvimento de micro r g a-
nismos22. A pre valência de bactérias não usuais na
Microbiota da pele
m i c robiota do olho, como S. pneumoniae, e Gram nega-
A microbiota indígena da pele apresenta caracterís- t i vos, entre os quais Haemophilus influenzae,
ticas distintas de acordo com a região analisada. Locais Haemophilus parainfluenzae e P. aeruginosa, encontra-se
com oclusão parcial (axila, períneo e artelhos) abrigam aumentada em usuários de lentes de contato24.

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Quadro 1 - Grupos de bactérias da microbiota predominante de diferentes regiões anatômicas do corpo humano

Gram positivos Gram negativos


Região Cocos Bastonetes Cocos Bastonetes
anatômica
Anaeróbios Anaeróbios Anaeróbios Anaeróbios Anaeróbios Anaeróbios Anaeróbios Anaeróbios
facultativos estritos facultativos estritos facultativos estritos facultativos estritos
Pele S. epidermidis Corynebacterium Propionibacterium Acinetobacter
S. hominis
Micrococcus
Cavidade Enterococcus Peptococcus Actinomyces Bifidobacterium Veillonella Actinobacillus Bacteroides
oral Micrococcus Peptostreptococcus Corynebacterium Eubacterium Capnocytophaga Fusobacterium
Staphylococcus Lactobacillus Propionibacterium Eikenella Porphyromonas
S. salivarius Prevotella
S. sanguis Wolinella
S. mutans
Cavidade Staphylococcus Corynebacterium
nasal
Faringe Estreptococos grupo Corynebacterium Haemophilus
viridans
Staphylococcus
Intestino Enterococcus faecalis Lactobacillus
delgado
Intestino Enterococcus faecalis Bifidobacterium Enterobactérias Clostridium
grosso Lactobacillus (Escherichia coli) Bacteroides
Eubacterium Fusobacterium
Vagina Estafilococos Peptostreptococcus Corynebacterium Lactobacillus Enterobactérias Bacteroides
(idade coagulase-negativo G. vaginalis*
reprodutiva) S. aureus
Estreptococos grupo
viridans
S. agalactiae
Enterococcus
Uretra S. epidermidis Corynebacterium Enterobactérias Bacteroides
Estreptococos grupo (E. coli)
viridans
Enterococcus

*: Gram variável

Microbiota do ouvido externo anos de vida, a microbiota oral é constituída, principal-


A microbiota do canal auditivo externo é composta, mente, por St reptococcus, Neisseria, Veillonella e
principalmente, por bactérias Gram positivas. Os microrga- Staphylococcus. St reptococcus sanguis e St re p t o c o c c u s
nismos mais freqüentemente isolados em culturas são esta- mutans colonizam a cavidade oral após a erupção dos den-
filococos coagulase negativo, principalmente S. epidermidis, tes. Em idosos, as mudanças incluem aumento da propor-
e C o rynebacterium spp. Bactérias Gram negativas são raras, ção de estafilococos e lactobacilos, após os setenta anos, e
constituindo cerca de 1% dos microrganismos isolados. de C. albicans, na nona década de vida29.
Fungos, como C. albicans e Malassezia furfur, também Estreptococos constituem o principal habitante da
podem ser observados em alguns indivíduos25,26,27,28. mucosa oral, com predominância de S. oralis e S. sanguis.
Na língua, S. salivarius, S. mitis e Veillonella são os grupos
Microbiota da cavidade oral bacterianos predominantes29.
A presença de nutrientes, restos de células epiteliais e Muitos microrganismos colonizam os dentes, forman-
secreções fazem da cavidade oral um local favorável para a do um biofilme conhecido como placa dental. Após a esco-
multiplicação de uma grande variedade de bactérias20. vação, ocorre deposição de um filme acelular de naturez a
A microbiota oral de seres humanos é composta por protéica na superfície dos dentes. Duas a quatro horas após,
mais de 500 taxa bacterianos, além de fungos e pro t o- bactérias colonizam esta película. Os microrganismos pio-
zoários. Sua distribuição varia de acordo com as carac- neiros são, principalmente, S. sanguis, S. oralis e S. mitis.
terísticas de cada habitat e sofre variações ao longo da Diversas interações bacterianas, incluindo coagregação,
vida, relacionadas, entre outros fatores, à presença do produção de substâncias antimicrobianas e cadeias de pro-
elemento dental29. dução de alimento aumentam a diversidade da comunida-
As espécies pioneiras na microbiota oral são, geral- de bacteriana. O consumo de oxigênio por espécies anaeró-
mente, estreptococos, especialmente Streptococcus mitis, bias facultativas favorece a colonização por anaeróbios estri-
Streptococcus oralis e Streptococcus salivarius. Nos primeiros tos, como Fusobacterium, Pre vo t e l l a, Bacteroides e espiro-

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quetas. A complexidade da microbiota aumenta até que O duodeno e a porção proximal do jejuno são coloniza-
uma comunidade clímax se estabeleça29. dos por um número relativamente pequeno de microrganis-
Os componentes da microbiota oral podem estar asso- mos (10_ células/ml), devido, entre outros fatores, às secre-
ciados a doenças infecciosas, geralmente de natureza polimi- ções do sistema digestivo e ao peristaltismo intestinal. Os
crobiana, tanto na cavidade oral (cárie e doenças periodon- microrganismos mais comumente observados nesta porção
tais) como em outros sítios do organismo, entre eles, osso, do intestino delgado são lactobacilos e estreptococos tole-
pulmão e cére b ro. Além disso, estreptococos podem ser rantes ao pH ácido. À medida que se progride na direção
introduzidos na circulação sangüínea durante procedimen- caudal, a microbiota do intestino delgado vai se tornando
tos odontológicos; se isso ocorrer em indivíduos com válvu- semelhante à do intestino grosso. Nesta região do aparelho
las cardíacas lesadas, os estreptococos podem aderir às válvu- digestivo, a microbiota indígena é muito diversificada,
las danificadas e iniciar endocardite bacteriana subaguda29,30. alcançando concentrações de 1.012 células/grama de con-
teúdo luminal, correspondendo a cerca de 60% da massa
Microbiota da cavidade nasal e da faringe fecal1,5. Admite-se que o número de bactérias anaeróbias
A mucosa da cavidade nasal apresenta diversos tipos de estritas da microbiota fecal seja 100 a 1.000 vezes maior que
epitélio. A parte central é re c o b e rta por epitélio pseudoestra- o de espécies bacterianas facultativas. Os gênero s
tificado colunar e a parte posterior (nasofaringe) sofre, gra- Ba c t e ro i d e s, Bifidobacterium, Eubacterium, Clostridium,
dualmente, transformação para epitélio escamoso, também Peptococcus, Peptostreptococcus e Ruminococcus são os anae-
característico da orofaringe. Na porção anterior, a cavidade róbios estritos predominantes nos seres humanos,
nasal estende-se até as narinas, re c o b e rtas por epitélio estra- enquanto integrantes de gêneros anaeróbios facultativos
tificado ceratinizado, como o da pele. Po rtanto, é concebí- como Escherichia, Enterococcus e Lactobacillus estão pre-
vel que a cavidade nasal consista de compartimentos coloni- sentes em menor número5,33, 35.
zados por diferentes tipos de microrganismos31. Microbiota da vagina
A microbiota da cavidade nasal do adulto mostra
Döderlein publicou, em 1892, o primeiro estudo
p redominância de bactérias Gram positivas, em parti-
sobre a microbiota vaginal humana. Ele considerou a
cular corineformes e estafilococos. As narinas são colo-
microbiota homogênea, constituída basicamente de bas-
nizadas, principalmente, por S. epiderm i d i s e corinebac-
tonetes Gram positivos, agora reconhecidos como perten-
térias. Este sítio constitui importante re s e rvatório de S.
centes ao gênero Lactobacillus. Atualmente, sabe-se que a
a u re u s24. A colonização por bactérias Gram negativa s
m i c robiota vaginal consiste de uma diversidade de
pode ser facilitada por infecções virais, que danificam o
microrganismos Gram positivos e Gram negativos, com
epitélio colunar. Deve-se ressaltar que organismos predominância de espécies anaeróbias estritas36.
Gram negativos, como H. influenzae e Neisseria menin- A microbiota vaginal sofre variações de acordo com a
g i t i d i s, colonizam seletivamente epitélio não ciliar ou idade, pH do microambiente e alterações hormonais. Ao
que apresente células danificadas 31. nascimento, o estrogênio materno estimula a deposição
A faringe é colonizada, basicamente, pelas mesmas de glicogênio no epitélio vaginal, favorecendo a multipli-
espécies de bactérias encontradas na microbiota oral, além cação de lactobacilos. Após eliminação do hormônio,
de Neisseria, Branhamella, Corynebacterium e ocorre elevação do pH vaginal para um valor próximo à
Staphylococcus. Predominam estreptococos, em especial neutralidade. Desta fase da vida até a puberdade, predo-
do grupo viridans20, 32. minam S. epidermidis, Streptococcus e E. coli21,36.
Microbiota do trato gastrointestinal Entre a puberdade e a menopausa, o estrogênio promo-
ve maturação e diferenciação do epitélio vaginal em células
A maioria dos microrganismos que compõem a micro- superficiais maduras e ricas em glicogênio. O glicogênio é
biota indígena colonizam o trato gastrointestinal33. metabolizado, resultando na produção de lactato e acidifica-
Pouco é descrito sobre a microbiota esofagiana na lite- ção vaginal (pH entre 4 e 4,5). Os membros predominan-
ratura. Admite-se que a microbiota da região seja hetero- tes da microbiota, neste período, são representantes dos
gênea, com predominância de estreptococos do grupo g ê n e ros Lactobacillus, Corynebacterium, Staphylococcus,
viridans, semelhante, portanto, àquela da orofaringe34. Streptococcus e Bacteroides, além de C. albicans e outras leve-
O estômago, principalmente devido ao pH extrema- duras. Bactérias do gênero Lactobacillus representam cerca
mente baixo do suco gástrico, apresenta, apenas transito- de 90% da microbiota vaginal, alcançando concentrações
riamente, microrganismos ingeridos com alimentos. O de 107 a 108 bactérias/grama de fluido vaginal21,36.
intestino de um indivíduo saudável abriga centenas de Após a menopausa, com a diminuição da produção de
espécies bacterianas. Estima-se que 1.014 células micro- estrogênio, o pH vaginal se eleva até aproximadamente
bianas colonizem a mucosa intestinal, número cerca de 10 sete, e a composição da microbiota volta a ser semelhante
vezes superior ao de células eucariotas do ser humano5. àquela observada antes da menarca21,36.

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Ou t ros fatores que alteram a composição da microbiota na colonização por patógenos exógenos e diferentes ativi-
vaginal são menstruação (redução da população de lactoba- dades metabólicas, como a síntese de vitaminas. Entre as
cilos e aumento de anaeróbios facultativos), gravidez atividades consideradas prejudiciais para o hospedeiro, a
(aumento da população de lactobacilos e leveduras) e uso de microbiota indígena é importante reservatório de agentes
antimicrobianos de amplo espectro, que pode levar ao etiológicos de doenças infecciosas endógenas e pode pro-
supercrescimento de fungos, como C. albicans21,36. duzir carcinógenos potenciais e interferir com a absorção
O baixo pH vaginal durante o período fértil da vida é de diversas substâncias, entre elas gorduras e vitaminas
um mecanismo primário para controlar a população lipossolúveis. Além desses aspectos, o conhecimento, pelo
microbiana. O ácido lático e alguns ácidos graxos produ- clínico, da constituição da microbiota indígena de sítios
zidos por lactobacilos podem contribuir para a acidez específicos pode ajudar na formulação de hipóteses de
vaginal, mas este não é, necessariamente, a fonte primária diagnóstico etiológico de processos infecciosos e, em con-
da acidez. Ácidos graxos e, em particular, lactato, produ- seqüência, na seleção apropriada de esquema terapêutico
zidos pelas células epiteliais, provavelmente, são o meca- empírico. É importante ressaltar que a microbiota indíge-
nismo mais importante. Além disso, a produção de outras na, geralmente, é benéfica, razão pela qual é fundamental
substâncias, entre elas H2O2, participa da regulação da que se tenha consciência de que se deve evitar o rompi-
microbiota. A acidez pode inibir a multiplicação de bas- mento do equilíbrio entre microbiota e hospedeiro.
tonetes Gram negativos oriundos do trato intestinal, bem
como de G. vaginalis e de Mobiluncus36. ABSTRACT
Microbiota da uretra
Body surfaces are colonized by a community of orga-
A porção distal da uretra apresenta micro b i o t a nisms that are recognized as indigenous microbiota, that is
semelhante à encontrada na pele, porém em número mainly constituted by bacteria. Its constitution changes
re l a t i vamente pequeno. O restante do trato urinário é with time and is influenced by several conditions such as
estéril. Os microrganismos mais comuns são S. epider- diet and the immune status of the individual, among others.
midis, En t e rococcus faecalis, estreptococos a-hemolíticos There are now evidences that the microbiota could be bene-
e corinebactérias. E. coli, Pro t e u s e linhagens não-pato- ficial or, in some instances, dangerous to human health. It
gênicas de Ne i s s e r i a são achados ocasionais (10% a 30% could be classified as resident, composed by fixed orga-
das amostras) 32. nisms, frequently found in certain areas, or as transitory,
As infecções ascendentes do trato urinário podem consisting of organisms from the environment that inhabits
estar associadas a desequilíbrio da microbiota uretral. skin and mucosa for hours to few weeks. The gastrointesti-
Pacientes mais propensos a infecções do trato urinário nal tract, vagina, oral cavity and skin show the richest and
apresentam aumento do número de bastonetes anaeró- most diverse microbiota of the human body. The knowled-
bios Gram negativos, principalmente Bacteroides. E. coli ge of the constitution of the indigenous microbiota is extre-
também é encontrada em maior número em indivíduos mely important for clinicians, mainly because it can help
mais propensos à infecção, mesmo quando se encontram them to interpret results of microbiological tests and to
assintomáticos. As células do epitélio do trato urinário choose appropriate empirical therapy. It should be pointed
possuem um número limitado de receptores para adesão out that microbiota is, in general, harmless and beneficial;
de bactérias e, possivelmente, os indivíduos mais suscetí- for these reason, physicians must keep in mind that the dis-
veis a infecções do trato urinário apresentam maior quan- ruption of the homeostasis between microbiota and host
tidade destes receptores. Além disso, já foi demonstrado should be avoided.
que pacientes do sexo feminino com maior suscetibilida- Key word s : Body Constitution; Bodily
de a infecções apresentam níveis vaginais de IgA, que Secretions /microbiology; In t e s t i n e s / m i c rob i ol ogy ;
interfere na adesão bacteriana ao epitélio, reduzidos em Skin/microbiology; Eye/microbiology; Ear, Ex t e r-
relação às mulheres normais37. n a l / m i c robiology; Mouth/microbiology; Ga s t ro i n t e s-
tinal Tr a c t / m i c robiology; Va g i n a / m i c robiology; Ure-
CONCLUSÃO t h r a / m i c robiology; Ho s t - Parasite Relations; Pro b i o-
Pode-se depreender do exposto anteriormente que a tics/therapeutic use.
microbiota indígena do corpo humano é constituída por
organismos que, em condições de equilíbrio, convivem REFERÊNCIAS
com o hospedeiro sem causar dano. Sua composição sofre 1. Berg RD. The indigenous gastrointestinal micro f l o r a .
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