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DIREITOS POLÍTICOS

CONCEITO

Os direitos políticos estão previstos, basicamente, nos arts. 14, 15 e 16 da Constituição da República.
São direitos fundamentais que caracterizam o regime democrático, destacando a participação popular na
formação da vontade do Estado, conferindo ao cidadão a capacidade de votar e de ser votado. Relaciona-
se com à primeira geração de direitos e garantias fundamentais. O titular de direitos políticos é
denominado cidadão. É ele o componente individual do povo que exerce a soberania. Nem todos os
nacionais são cidadãos, já que a aquisição da cidadania depende, além da nacionalidade, do
preenchimento de outros requisitos estabelecidos pelo Estado. A aferição desses requisitos, com a
incorporação do indivíduo no corpo de eleitores, se dá através do alistamento, é com ele que se adquire
a cidadania.

CLASSIFICAÇÃO DOS DIREITOS POLÍTICOS

Direitos Políticos Positivos Direitos Políticos Negativos


Relacionado com a participação ativa dos indivíduos na Normas que limitam o exercício da cidadania.
vida política do Estado. Relacionado ao sufrágio. Impedem a participação dos indivíduos na vida política
Estatal (Inelegibilidade, Perda e Suspensão).
Direitos Políticos Positivos Ativos
Em regra, atingem a todos os cidadãos, pois se trata de
um direito-obrigação em alistar-se (título de eleitor) e
votar (eleições, plebiscitos e referendos), salvo as
situações de facultatividade (por idade, militares
conscritos, analfabetos)
Direitos Políticos Positivos Passivos
Trata-se de direitos-prerrogativas, que podem ou não
ser exercidos pelos interessados. Exemplo disso é a
possibilidade de ser votado, desde que sejam
observadas as condições de elegibilidade.

DAS CONDIÇÕES DE ELEGIBILIDADE

a) Nacionalidade brasileira: A nacionalidade configura o “vínculo político e pessoal que se estabelece


entre o Estado e o indivíduo, fazendo com que este integre uma dada comunidade política, o que faz com
que o Estado distinga o nacional do estrangeiro para diversos fins”. Por meio da cidadania, obtem-se o
alistamento eleitoral regular. Tendo como espécies:

I. Nacionalidade Originária (Brasileiros Natos): é aquela atribuída em decorrência do


nascimento, tendo pouca ou nenhuma relevância a vontade humana. Vincula-se a dois
critérios: o jus solis e o jus sanguinis. Pelo jus solis, também conhecido como critério
territorial, o indivíduo adquire a nacionalidade em função do Estado em cujo território nasce,
independentemente da nacionalidade dos ascendentes. Pelo jus sanguinis, a nacionalidade é
atribuída de acordo com a nacionalidade dos ascendentes, independente do local onde nasça
o indivíduo.

Art. 12. São brasileiros: I - natos: a) os nascidos na República Federativa do Brasil, ainda que de pais
estrangeiros, desde que estes não estejam a serviço de seu país; b) os nascidos no estrangeiro, de pai
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brasileiro ou mãe brasileira, desde que qualquer deles esteja a serviço da República Federativa do
Brasil; c) os nascidos no estrangeiro de pai brasileiro ou de mãe brasileira, desde que sejam registrados
em repartição brasileira competente ou venham a residir na República Federativa do Brasil e optem,
em qualquer tempo, depois de atingida a maioridade, pela nacionalidade brasileira;

O art. 12, ℥3º, da CF, elenca como cargos privativos de brasileiros natos: a) Presidente e Vice-Presidente da
República b) Presidente da Câmara dos Deputados; c) Presidente do Senado Federal; d) Ministro do Supremo
Tribunal Federal; e) Carreira diplomática; f) Oficial das forças armadas; g) Ministro de Estado da Defesa.

II. Nacionalidade Derivada (Brasileiros Naturalizados): é aquela atribuída por fato posterior
ao nascimento, normalmente em decorrência da manifestação de vontade do Estado em
conceder sua nacionalidade e, em regra, da vontade do indivíduo em adquiri-la. Neste caso, o
indivíduo será considerado brasileiro naturalizado, na forma do artigo 12, II, CFRB/88. Válido
destacar que o Estado não está obrigado a conceder a naturalização, ainda que o requerente
preencha todos os requisitos estabelecido pelo legislador, exceto em relação a alínea b.

Art. 12. São brasileiros: II - naturalizados: a) os que, na forma da lei, adquiram a nacionalidade
brasileira, exigidas aos originários de países de língua portuguesa apenas residência por um ano
ininterrupto e idoneidade moral; b) os estrangeiros de qualquer nacionalidade, residentes na República
Federativa do Brasil há mais de quinze anos ininterruptos e sem condenação penal, desde que
requeiram a nacionalidade brasileira;

Em razão do Tratado da Amizade, que garante os direitos políticos aos portugueses residentes por mais de 3 anos,
foi editada a Resolução TSE 21.538/2003, § 4º, art. 51, que: “a outorga a brasileiros do gozo dos direitos políticos
em Portugal, devidamente comunicada ao TSE, importará suspensão desses mesmos direitos no Brasil.

b) Pleno Exercício dos Direitos Políticos: não incidência de qualquer hipótese contida no art. 15 da CF que
dispõe sobre a perda ou suspensão de direitos políticos. Quais sejam: perda (cancelamento do título de
eleitor)-Cancelamento da naturalização por sentença transitada em julgado (art. 12, §4º, I); recusa de
cumprir obrigação a todos imposta ou prestação alternativa, nos termos do art. 5º, VIII (escusa/imperativo
de consciência) e suspensão (paralização temporária) - Incapacidade civil absoluta (art. 3º, do CC);
Condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos (independentemente da
pena); Improbidade administrativa nos termos do art. 37, §4º.

c) Alistamento Eleitoral: é o alistamento eleitoral que confere ao indivíduo a cidadania e direitos (cívicos
e políticos). O alistamento eleitoral é comprovado pelo título de eleitor. Observa-se que com o advento
da Lei 12.891/2013 a apresentação do título eleitoral no momento do pedido de registro de candidatura
tornou-se dispensável, vez se tratar de informações detidas pela própria Justiça Eleitoral.

d) Domicílio Eleitoral na Circunscrição: por força do art. 9o, da Lei no 9.504/97, o candidato deve estar
domiciliado no local onde pretende concorrer às eleições há pelo menos um ano. Não se deve confundir
domicílio civil (art. 70 e segs., do CC) com domicílio eleitoral (art. 42, Parágrafo Único, do CE). A prova do
domicílio eleitoral será feita pelo título de eleitor.

e) Filiação Partidária: em razão de ter sido adotado em nosso ordenamento o Princípio da Democracia
Partidária (democracia semidireta), consideramos que o sistema brasileiro desconhece candidaturas

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avulsas, portanto é necessária a filiação partidária a uma agremiação política como forma de cumprir a
exigência (condição de elegibilidade). A filiação estabelece o vínculo entre o cidadão e o partido político,
teoricamente, por razões de aferição de ideias e bandeiras. É regulada pelos arts. 16 a 22, da Lei no
9.096/1995 (Lei dos partidos políticos).

f) Idades mínimas: a verificação da idade mínima como condição de elegibilidade deve ser aferida, tendo-
se como parâmetro o momento da posse, e não do pedido de registro da candidatura (TSE - REsp no
22.900/MA). As idades mínimas são as de: a) 35 anos - Presidente, Vice-Presidente e Senador da
República; b) 30 anos - Governador e Vice-Governador; c) 21 anos - Deputado, Prefeitos e Vice-Prefeitos;
d) 18 anos – Vereador.

Elegibilidade do militar: considera-se militar o integrante das Forças Armadas. Com exceção do militar conscrito, o
militar é alistável e elegível. Dispõe o art. 142, § 3º, V, da CF: “o militar, enquanto em serviço ativo, não pode estar
filiado a partido político.” Por esta razão, ao militar alistável e elegível, não é necessária a filiação partidária no
lapso temporal de um ano anterior ao pleito, bastando que detenha cidadania e tenha seu nome escolhido em
convenção partidária do partido político pelo qual pretende concorrer. O art. 14, § 8º, da CF dispõe que: “O militar
alistável é elegível, atendidas as seguintes condições: I – se contar menos de dez anos de serviço, deverá afastar-se
da atividade; II – se contar mais de dez anos de serviço, será agregado pela autoridade superior e, se eleito, passará
automaticamente, no ato da diplomação, para a inatividade.”. Na hipótese do inciso II, se não for eleito, o militar
volta ao seu posto anteriormente ocupado. O militar que já estiver na reserva deverá cumprir a condição de filiação.

DAS INELEGIBILIDADES

É a impossibilidade de o cidadão exercer seus direitos políticos passivos ou negativos, em razão de


circunstâncias impeditivas elevadas na Constituição Federal ou na legislação própria, a exemplo das Leis
Complementares nos 64/90 (inelegibilidades) e 135/2010 (ficha limpa). Desse modo, as inelegibilidades
decorrem de hipóteses constitucionais e de hipóteses infraconstitucionais.

a) Inelegibilidade absoluta: A Carta Magna nos informa que são inelegíveis para qualquer cargo são os
inalistáveis e os analfabetos. Os inalistáveis são os estrangeiros, os conscritos durante o serviço militar e
aqueles que tiveram seus direitos políticos perdidos ou suspensos. Os analfabetos são aqueles que não
possuem domínio mínimo sobre o idioma. Essas hipóteses são previstas de forma taxativa.

b) Inelegibilidade relativa: a inelegibilidade relativa retira a possibilidade de concorrer a determinado(s)


pleito(s) eleitoral(is).

I. Motivos Funcionais (cargos do executivo):

Para o mesmo cargo: “o Presidente da República, os Governadores de Estado e do Distrito


Federal, os Prefeitos e quem os houver sucedido ou substituído no curso dos mandatos
poderão ser reeleitos para um único período subsequente.” Ou seja, é vedada a reeleição
para o terceiro mandato sucessivo para o Poder Executivo. Que fique claro que no Legislativo
não há vedação para sucessivas reeleições. para o mesmo ou para outros cargos. (Art. 14, §
5º).

Para outro cargo: “Para concorrerem a outros cargos, o Presidente da República, os


Governadores de Estado e do Distrito Federal e os Prefeitos devem renunciar
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(desincompatibilizar) aos respectivos mandatos até seis meses antes do pleito”. Também é
uma exigência própria do Poder Executivo. Caso o chefe do Poder Executivo queira concorrer
à reeleição, não precisa renunciar. (Art. 14, § 6º).
II. Reflexa (cargos do executivo): “São inelegíveis, no território de jurisdição do titular, o
cônjuge e os parentes consanguíneos ou afins, até o segundo grau ou por adoção, do
Presidente da República, de Governador de Estado ou Território, do Distrito Federal, de
Prefeito ou de quem os haja substituído dentro dos seis meses anteriores ao pleito, salvo se
já titular de mandato eletivo e candidato à reeleição”. (Art. 14, §7º) Conhecida como
inelegibilidade reflexa, uma vez que não incide sobre o Chefe do Poder Executivo, mas sim
sobre terceiros a ele ligados. Assim, não poderão se candidatar:
Prefeito vereador, prefeito e vice no mesmo município.
Governador nenhum cargo eletivo no estado – vereador, prefeito,
vice, deputado estadual, governador, vice, deputado
federal e senador, pelo mesmo estado.
Presidente nenhum cargo eletivo no país.

Destaque-se que titular e vice são cargos diferentes. De modo que o titular reeleito não pode se candidatar a vice.
No entanto, o vice por dois mandatos pode pleitear a titularidade, desde que não tenha substituído o titular nos
seis meses anteriores ao pleito.

III. Militares: O militar alistável é elegível, desde que atenda às exigências: se contar menos
de dez anos de serviço, deverá afastar-se (afastamento definitivo) da atividade; se contar
mais de dez anos de serviço, será agregado (afastamento temporário) pela autoridade
superior e, se eleito, passará automaticamente, no ato da diplomação, para a inatividade. (Art.
14, § 8º). Essa regra também se aplica à PM e Bombeiro militar.

IV. Previsões Legais: “lei complementar estabelecerá outros casos de inelegibilidade e os


prazos de sua cessação, a fim de proteger a probidade administrativa, a moralidade para
exercício de mandato considerada vida pregressa do candidato, e a normalidade e
legitimidade das eleições contra a influência do poder econômico ou o abuso do exercício de
função, cargo ou emprego na administração direta ou indireta” (Art. 14, § 9º). Ou seja, as
hipóteses de inelegibilidade relativa não são exaustivas na Constituição.

PRIVAÇÃO DOS DIREITOS POLÍTICOS

Segundo o Art. 15, é vedada a cassação de direitos políticos. Entende-se por cassação a supressão
arbitrária dos direitos políticos praticada em outros momentos antidemocráticos da vida política
brasileira, ou seja, a retirada dos direitos políticos sem o devido processo legal, especialmente o
contraditório e a ampla defesa. Apesar da vedação absoluta à cassação, o citado artigo permite a privação
dos direitos políticos, seja no caso de perda, seja no caso de suspensão. A distinção entre estes dois
conceitos está na maneira pela qual os direitos políticos serão restabelecidos após a cessação da causa
que deu ensejo à privação. No caso de perda, o restabelecimento dos direitos políticos dependerá do
requerimento do indivíduo, isto é, de um novo alistamento eleitoral. Já no caso de suspensão, o
restabelecimento se dará automaticamente, independentemente de manifestação da pessoa. São
hipóteses de perda e suspensão:
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I – cancelamento da naturalização por sentença [JUDICIAL] transitada em julgado: o cancelamento
da naturalização provoca a perda da condição de nacional, conforme os termos do art. 12, § 4º, I. Tal fato
provoca a PERDA dos direitos políticos, haja vista que o estrangeiro não detém direitos políticos no Brasil.
II – incapacidade civil absoluta: a Lei n. 13.146, de 2015, que instituiu o Estatuto da Pessoa com Deficiência,
alterou o art. 3º do Código Civil, passando a prever apenas uma hipótese de incapacidade civil absoluta — o menor
de 16 anos —, que, segundo a interpretação do § 1º do art. 14 da Constituição, não exerce direitos políticos, por
ser inalistável. Portanto, pode-se afirmar que a previsão constitucional de suspensão de direitos políticos por
incapacidade civil absoluta está, por ora, esvaziada, por falta de hipótese fática que se enquadre no art. 15, inciso
II.

III – condenação criminal transitada em julgado, enquanto durarem seus efeitos: os que sofrerem
condenação criminal com trânsito em julgado terão os direitos políticos SUSPENSOS até a extinção da
punibilidade.

Súmula n. 9 do TSE: A suspensão de direitos políticos decorrente de condenação criminal transitada em julgado
cessa com o cumprimento ou a extinção da pena, independendo de reabilitação ou de prova de reparação dos
danos.

IV – recusa de cumprir obrigação a todos imposta ou prestação alternativa, nos termos do art. 5º,
VIII: cuida-se da escusa de consciência prevista no art. 5º, VIII, segundo o qual “ninguém será privado de
direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para
eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recusar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei”.
Mesmo não havendo unicidade de entendimentos, a doutrina majoritária entende que é uma situação de
PERDA dos direitos políticos.

V – improbidade administrativa, nos termos do art. 37, § 4º: o próprio art. 37, § 4º nos dá a dica
de que é uma hipótese de suspensão, percebam: “os atos de improbidade administrativa importarão a
SUSPENSÃO dos direitos políticos, a perda da função pública, a indisponibilidade dos bens e o
ressarcimento ao erário, na forma e gradação previstas em lei, sem prejuízo da ação penal cabível”.