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Trabalho de Contratos Civis e Comerciais | Prof.

Jorge Morais Carvalho | 2018-2019


Joana Coelho | Marta Carrasco

33. Pedro celebrou com a empresa Oportunidades Lda. um contrato promocional com
objeto plural, através do qual se promoveu a aquisição de dois bens com indicação de que
um deles era oferecido gratuitamente. A principal característica dos contratos desta
natureza assenta na circunstância de um dos bens, neste caso a impressora, ser
apresentado como um bem gratuito ao consumidor, isto é, um brinde associado à
celebração do contrato1. Todavia, aferimos que não se pode considerar este caso uma
verdadeira oferta, dado que Pedro não beneficiou de nenhum bem ou serviço gratuito. A
“oferta”2 da impressora incluída no contrato repercutiu-se no preço pago pelo
computador, o bem que o consumidor julga ser o único objeto do contrato. Assim
concluímos que, apesar da pluralidade de objetos, encontramo-nos perante um único
contrato, não obstante a tendência para distinguir uma parte onerosa e uma parte
supostamente gratuita dentro do mesmo. Partindo desta classificação de contrato
promocional com objeto plural, podemos aplicar ao contrato celebrado por Pedro o
regime geral constante no Código Civil3.
Deste contrato surgem obrigações para ambas as partes: para Pedro, a obrigação do
pagamento do preço e para a empresa a entrega dos bens vendidos, nos termos do artigo
879º do CC.
Importa aqui a natureza genérica da obrigação de entrega da impressora B54, dado que
o esgotamento do stock4 da loja onde Pedro celebrou o contrato provavelmente não é
universal. Ou seja, é possível adquirir mais impressoras B54 junto de fabricantes ou
outros estabelecimentos comerciais. Sendo a obrigação genérica, esta não se extingue
enquanto não se extinguir o género “impressora B54”. A empresa deveria então adquirir
uma impressora, a fim de a entregar a Pedro. Chamamos ainda à atenção para o princípio
da boa fé imposto às partes, tanto no período pré-contratual (artigo 227º/1, do CC), como
no momento do cumprimento da obrigação (artigo 762º/2 do CC), obrigando assim o
promotor a dispor dos bens ou serviços necessários para satisfazer as pretensões do

1
JORGE MORAIS CARVALHO, “Reflexão em Torno dos Contratos Promocionais com Objeto
Plural”, 2011, pag.2. in Estudos em Homenagem ao Professor Doutor Carlos Ferreira de Almeida, Vol. I,
Almedina, Coimbra, 2011.
2
Em Portugal, a oferta de bens ou serviços é, em geral, permitida de acordo com o DL nº330/90 Código
da Publicidade, desde que respeite as restrições impostas na Secção III do Capítulo II do referido diploma.
3
De ora em diante CC.
4
JORGE MORAIS CARVALHO, Os Contratos de Consumo - Reflexão sobre a Autonomia Privada
no Direito do Consumo, dissertação para doutoramento em direito privado na Faculdade de Direito da
Universidade Nova de Lisboa, sob a orientação do Professor Doutor Carlos Ferreira de Almeida, Lisboa,
março de 2011, p. 247.

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consumidor que aderiu à promoção, devendo Pedro ser compensado no caso de tal se
revelar impossível.
Referiremos ainda que, nesta perspetiva, não nos encontramos perante uma situação
de impossibilidade do cumprimento (não tendo informação em sentido contrário,
presumimos que ainda existem outras impressoras B54 no mercado), pelo que o
incumprimento definitivo adviria da eventual perda de interesse de Pedro na prestação
que lhe é devida (artigo 808º do CC). A prestação continua a ser devida, podendo o
profissional incorrer em mora, através dos artigos 804º/2 e 805º/1 do CC, e,
seguidamente, em situação de incumprimento (artigo 798º do CC), presumindo-se este
como culposo, por efeito do artigo 799º/1 do CC.
Podemos ainda considerar que, por falta de stock, a empresa se encontra numa
situação de impossibilidade parcial não imputável a Pedro, pois pôde entregar o
computador, mas não a impressora, não existindo mais impressoras do modelo B54
disponíveis. Nos termos do artigo 793º/1 e 2 do CC, Pedro poderá optar pela resolução
do contrato, se tiver perdido interesse no mesmo, ou exigir apenas a entrega do
computador (equivalente a um cumprimento parcial da obrigação a que está adstrito o
profissional), mediante uma redução equitativa da sua contraprestação. Esta redução de
preço pode ser negociada entre as partes, mas em última instância será decidida por um
tribunal.
Tendo definido o contrato como oneroso (ainda que com objeto plural), seria ainda
possível resolver esta hipótese com recurso ao DL 67/20035. Partimos do princípio que
nos encontramos perante uma relação de consumo para efeitos de aplicação deste
diploma. Assim, e ainda que não tenha sido concebido especificamente para casos de não
entrega da coisa, podemos incluir esta hipótese no âmbito do artigo 4º do diploma, relativo
a direitos do consumidor em caso de desconformidade do bem com o contrato (que
abrange qualquer vício no cumprimento do contrato).
O artigo 4º/1 do DL 67/2003 apresenta quatro soluções possíveis: a reparação, a
substituição, a redução do preço, ou a resolução do contrato. As duas primeiras soluções
não se adequam à situação de Pedro, pelo que Pedro poderia, uma vez mais, optar pela
redução do preço (aceitando receber unicamente o computador), ou pela resolução do
contrato.

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Relativo a Vendas de Bens de Consumo e Garantias.

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Por último, pomos ainda a hipótese de o estabelecimento comercial ter, ao


anunciar a promoção, incluído uma cláusula de limitação da mesma ao stock existente.
Embora cláusulas deste tipo sejam abstrata e geralmente lícitas e válidas, devem ser
limitadas pela boa fé. Ou seja, se vai realizar uma promoção destinada a atrair mais
clientes e estimular o nível de vendas do estabelecimento comercial, o profissional deve
adequar o seu stock ao nível de procura razoavelmente espectável, em função das
condições contratuais propostas e tráfego ou volume de vendas habitual da loja. Se não o
fizer (se, por exemplo, apenas tiver três impressoras quando prevê vender 500
computadores), a cláusula será inválida, e não poderá ser usada por este como proteção
para incumprir os contratos que propôs celebrar com os consumidores.

84. Em primeiro lugar, devemos ter em conta que a homologação de um acordo obtido
em mediação só pode ser feita no centro de arbitragem se o mesmo previr essa
possibilidade6. Ao analisar o Regulamento do CNIACC7, constatamos que o artigo 11º/3
que permite a homologação de um acordo pelo centro, é relativo ao processo de
conciliação, e não de mediação. Resta então saber se, estando em concreto perante um
processo de mediação, se poderíamos considerar o artigo 11º aplicável.
Como consta do artigo 2º da Lei da Mediação8, a mediação é um dos meios
alternativos de resolução de litígios, o que significa que os litígios são resolvidos
extrajudicialmente. No âmbito do princípio do pleno domínio das partes, mais conhecido
por empowerment, no processo de mediação as partes procuram chegar a um acordo que
resolva o litígio que as opõe, com o auxílio de um terceiro imparcial, o mediador. Ao
contrário de um juiz ou de um árbitro, o mediador não tem poder de decisão, pelo que não
impõe qualquer deliberação ou sentença, apenas orienta as partes, ajuda-as a estabelecer
a comunicação necessária para que elas possam encontrar, por si mesmas, a base do
acordo que encerrará o litígio. O mediador tem um papel muito relevante na medida em
que, ao auxiliar as partes a produzir o acordo está a contribuir para a manutenção e
restituição da paz social9.
No ordenamento jurídico português verificamos que a Lei dos Julgados de Paz obriga
à homologação do acordo obtido em mediação, nos termos do artigo 56º/1 do referido

6
JORGE MORAIS CARVALHO, JOÃO PEDRO PINTO FERREIRA, JOANA CAMPOS
CARVALHO, Manual de Resolução Alternativa de Litígios de Consumo, 2017, p.157.
7
Centro Nacional de Informação e Arbitragem de Conflitos de Consumo.
8
Lei n.º 29/2013, de 19 de abril, de ora em diante LM.
9
Mais informações em http://www.dgpj.mj.pt/sections/gral/mediacao-publica.

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diploma10. Parte da doutrina entende que esta obrigatoriedade é censurável, uma vez que
a mediação é um processo onde domina a vontade das partes e, portanto, não o querendo
(as partes), nada justifica a apresentação do acordo ao juiz11, a menos que o acordo vá ser
executado.
Ressalva-se que o papel do mediador em nada corresponde com o ato de homologar
acordos. Por isso presumimos que, embora a hipótese dada refira um acordo de mediação,
esta situação se insere já no âmbito da conciliação.
Assim, estando perante uma situação de conciliação, confirma-se o facto de o árbitro
nomeado poder, de acordo com o artigo 11º da LM, homologar o acordo obtido. De
acordo com o artigo 10ºdo mesmo diploma, a submissão do litígio à decisão do Tribunal
Arbitral “depende da convenção das partes ou de estar sujeito a arbitragem necessária”,
podendo a convenção de arbitragem revestir a forma de compromisso arbitral ou de
cláusula compromissória. Ressalva-se que esta atribuição de poderes tem de existir
expressamente, pois confere ao árbitro poderes que lhe permitem atribuir força de
sentença ao acordo obtido.
Relativamente à cláusula que prevê uma renúncia por parte do consumidor ao
direito à informação, e estando este previsto no artigo 8º da LDC12, aplicaríamos o artigo
14.º/3 da LM.
Assim, para poder homologar um acordo, o árbitro deve verificar o objeto do
litígio (se este pode ser objeto de mediação), a capacidade das partes para a celebração
do acordo e respeito pelos princípios gerais do Direito e pela boa fé.
Consideramos ainda que se deve fazer uma interpretação corretiva do artigo em
causa, consistindo em proibir a homologação de qualquer acordo contrário à lei. Se não
interpretássemos neste sentido, as partes poderiam aproveitar o processo de mediação
para defraudar a lei, conferindo força executiva a disposições que lhes são contrárias,
ainda que não ofensivas de princípios gerais do Direito ou Ordem Pública.
Por tudo o que foi dito anteriormente, concluímos que o acordo obtido pelas partes
é um negócio jurídico, cuja validade deve ser apreciada de forma prévia à homologação,
nos termos gerais do artigo 280º do CC. Com a finalidade de salvaguardar os princípios
fundamentais do ordenamento jurídico, como a boa fé, o árbitro não deve homologar um

10
A favor desta imposição legal está ALBERTINA PEREIRA, A Mediação e a (Nova) Conciliação, 2006,
p.194.
11
MARIANA FRANÇA GOUVEIA, Curso de Resolução Alternativa de Litígios, 2014, p.89.

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acordo em que se insere uma cláusula contrária à lei, nos termos do artigo 14.º/3 da LM,
interpretado corretivamente à luz do artigo 280º CC, evitando assim que a mediação se
torne um meio privilegiado de fraude à lei com eventual força executiva.