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Superexploração

do trabalho
no século XXI
debates contemporâneos
Organizadores
Juliana Guanais e Gil Felix

Superexploração
do trabalho
no século XXI
debates contemporâneos

1ª edição 2018
Bauru, SP
Copyright© Projeto Editorial Praxis, 2018

Coordenador do Projeto Editorial Praxis


Prof. Dr. Giovanni Alves

Conselho Editorial
Prof. Dr. Giovanni Alves (UNESP) Prof. Dr. Ricardo Antunes (UNICAMP)
Prof. Dr. José Meneleu Neto (UECE) Prof. Dr. André Vizzaccaro-Amaral (UEL)
Profa. Dra. Vera Navarro (USP) Prof. Dr. Edilson Graciolli (UFU)

Capa
Giovanni Alves

Tradução espanhol-português
Adriana Marcela Bogado

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

S696 Superexploração do trabalho no século XXI: debates


contemporâneos / Juliana Guanais e Gil Felix (organizadores).
— Bauru: Canal 6, 2018.
168 p. ; 23 cm. (Projeto Editorial Praxis)

ISBN 978-85-7917-485-8

1. Trabalho 2. Capitalismo 3. Dependência I. Guanais,


Juliana. II. Felix. Gil. III. Título.

CDD 331

Projeto Editorial Praxis


Free Press is Underground Press
www.editorapraxis.com.br

Impresso no Brasil/Printed in Brazil


2018
Rua Machado de Assis, 10-35
Vl. América | CEP 17014-038 | Bauru, SP
Fone/fax (14) 3313-7968 | www.canal6.com.br
Sumário

APRESENTAÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
Juliana Guanais e Gil Felix

TEORIA DA DEPENDÊNCIA E EXTENSÃO DA


SUPEREXPLORAÇÃO: UMA PERSPECTIVA TEÓRICA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
Adrián Sotelo Valencia

A SUPEREXPLORAÇÃO DOS TRABALHADORES


MIGRANTES MEXICANOS NOS ESTADOS UNIDOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41
Ana Alicia Peña López e Nashelly Ocampo Figueroa

A superexploração do trabalho e o colapso/


expansão da forma-valor no capitalismo global:
Notas teóricas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 69
Giovanni Alves

Salário por peça e superexploração do trabalho. . . . . . . . . . . 95


Juliana Guanais

Circulação e superexploração do trabalho:


agenda de estudos da condição proletária
contemporânea . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 127
Gil Felix

Sobre os autores . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 165

Sumário 5
APRESENTAÇ ÃO

No nos queda, en esta breve nota, sino advertir que las im-
plicaciones de la superexplotación trascienden el plano de
análisis económico y deben ser estudiadas también desde el
punto de vista sociológico y político. Es avanzando en esta
dirección como aceleraremos el parto de la teoría marxista
de la dependencia, liberándola de las características fun-
cional-desarrollistas que se han adherido en su gestación.

Post-scriptum à Dialéctica de la Dependencia.


Ruy Mauro Marini, 1973.

Este livro foi pensado com o propósito de consolidar uma interlo-


cução iniciada em 2013 entre professores e grupos de pesquisa situados
em diversas universidades no Brasil e em outros países, em especial, da
Universidade Nacional Autônoma do México (UNAM), da Universida-
de Estadual de Campinas (UNICAMP) e da Universidade Federal da
Integração Latino-americana (UNILA). O grupo de pesquisadores foi
reunido pelo renovado interesse pela obra e pelo legado de Ruy Mauro
Marini (1932-1997), intelectual e militante marxista brasileiro que ao
longo de sua vida dedicou-se intensamente ao estudo da América Lati-
na, mas que, durante muito tempo teve suas obras pouquíssimo difun-
didas em seu país de origem, contrastando com o que ocorre em outros

APRESENTAÇÃO 7
países latino-americanos, como o México e o Chile, por exemplo, onde
o autor viveu a maior parte de seu exílio1.
No caso particular do Brasil, tal como hoje é reconhecido, foram
amplamente difundidas críticas pouco rigorosas às teses de Marini, seja
por mero desconhecimento e obscurecimento de sua produção ou, tam-
bém, por outro lado, por perseguições de caráter duvidoso ou deforma-
ções teóricas politicamente orientadas2 .
A despeito das diversas tergiversações, o que estava em jogo nestes
silenciamentos era, na realidade, a defesa intransigente de uma estraté-
gia revolucionária socialista por parte do autor e sua crítica às análises
que partiam da intelectualidade vinculada ao Partido Comunista e à
CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe). Ten-
do a revolução socialista como a única via possível para a superação
da condição de dependência em que se encontra a América Latina, a
posição de Marini causava grande incômodo à maior parte da academia
latino-americana, comprometida com estratégias colaboracionistas, re-
formistas ou desenvolvimentistas. Ao defender abertamente a inevitabi-
lidade da revolução e da luta armada, e ao se dedicar e produzir a maior
parte de sua obra de forma a contribuir com este projeto de superação

1 Tal como indicaremos a seguir, não é nosso propósito apresentar a vida e obra de Ruy
Mauro Marini neste livro. Para maiores informações sobre o tema indicamos a leitura de
“Memoria” (s/d), texto escrito pelo próprio autor e que pode ser consultado no sítio eletrô-
nico que reúne grande parte da produção de Marini: http://www.marini-escritos.unam.
mx/002_memoria_marini_esp.html (acesso em 24/01/2018).
2 Um movimiento, aliás, já precocemente analisado pelo próprio Marini, nestes termos: “En
su conjunto, constituye un texto desaliñado y truculento, que deforma casi siempre mis
planteamientos para poder criticarlos, manipula los datos que utiliza (o no utiliza) y que
brilla por la falta de rigor, la torpeza e incluso el descuido en el manejo de hechos y con-
ceptos. El lector lo entenderá mejor si toma en cuenta que va dirigido fundamentalmente
a la joven generación brasileña, que conoce poco o casi nada de lo que he escrito. Esto es
lo que lleva a los autores no sólo a “exponer” mi pensamiento, sino también a permitirse
adaptarlo libremente a los fines que se han propuesto. Seguramente, habrían procedido
de otra manera, si se dirigieran a un público más familiarizado con las tesis en cuestión”
(MARINI, 1978, p. 58). O texto a que se refere Marini no trecho é, no caso, a crítica fei-
ta por José Serra e Fernando Henrique Cardoso em 1978 à Dialéctica de la dependencia
(1973), livro no qual, junto com os textos reunidos em Subdesarrollo y revolución (1969) e
em El reformismo y la contrarrevolución: estudios sobre Chile (1976), Marini sistematizou
estudos de grande fôlego e teses de enorme impacto teórico e político.

8 Superexploração do trabalho no século XXI


do capitalismo, Ruy Mauro Marini se tornou um pensador que deveria
ser combatido, sobretudo nas universidades brasileiras.
Em decorrência disso, houve um lapso de desconhecimento de, no
mínimo, duas gerações, sendo que, dentre a última – formada ao longo
dos anos 1980 e 1990 –, a leitura de seus textos e a menção ao seu nome
muitas vezes sequer esteve presente nas ementas acadêmicas. Contudo,
em um momento histórico como o atual, no qual o colaboracionismo e
o desenvolvimentismo escancaram novamente, como farsa, seu envie-
samento para a análise das formações dependentes – e que, portanto, as
novas gerações se deparam com as suas limitações teóricas e políticas –,
a revisita às teses de Marini vem se tornando uma tarefa incontornável.
Junto com ela, porém, novos desafios também já estão postos frente a
uma política não mais apenas de silenciamento, mas de reapropriação
e de acomodação das estratégias colaboracionistas no interior das pró-
prias releituras, tamanho é o legado teórico reformista que formata as
gerações pós 1980.
Este livro que ora se apresenta, de certa forma, integra um esforço
recente que busca divulgar as obras e o pensamento de Marini para
o público brasileiro. Porém, o faz a fim de resgatar especialmente seu
legado teórico e, a partir dele, contribuir para a reflexão crítica do ca-
pitalismo no século atual. Para tanto, sob distintos pontos de partida
e trajetórias de investigação científica diferenciadas, analisando dados
de pesquisas teóricas e empíricas sobre o modo de produção capitalista
das últimas décadas, os autores aqui reunidos destacam uma categoria
central no pensamento de Marini: a superexploração do trabalho.
Adrián Sotelo, em “Teoria da dependência e extensão da superexplo-
ração: uma perspectiva teórica”, em um primeiro momento, sintetiza a
vigência atual da teoria marxista da dependência para a análise e a com-
preensão da problemática dos países dependentes da América Latina no
contexto internacional. E, em seguida, fiel às reflexões feitas por Marini
sobre as mudanças no capitalismo ao longo das últimas décadas do sé-
culo XX, analisa detidamente as formas pelas quais a superexploração
estaria se estendendo às economias avançadas, expõe as principais hi-
póteses que vêm desenvolvendo nos seus livros mais recentes e termina

APRESENTAÇÃO 9
propondo algumas linhas de investigação para o estudo das novas ca-
racterísticas da dependência.
O artigo de Ana Alicia Peña López e Nashelly Ocampo Figueroa, “A
superexploração dos trabalhadores migrantes mexicanos nos Estados
Unidos”, é resultado de 25 anos de pesquisa e de trabalho realizado di-
reta e conjuntamente pelas autoras com migrantes no México e no ex-
terior. No texto, López e Figueroa buscam explicar a lógica geral à qual
respondem os movimentos migratórios de latino-americanos para os
Estados Unidos - especialmente dos mexicanos -, demonstrando como
o processo de superexploração do trabalho é a chave para entender a
crescente incorporação destes trabalhadores no mercado laboral esta-
dunidense. No decorrer do texto, as autoras não apenas deixam claro
como opera a superexploração do trabalho na dinâmica migratória,
especificamente entre México e Estados Unidos, mas também demons-
tram a pertinência de se utilizar a categoria em questão para a compre-
ensão do fenômeno migratório entre ambos os países, complexificando,
portanto, sua análise para o caso de países centrais específicos do siste-
ma capitalista.
Intitulado “A superexploração do trabalho e o colapso/expansão da
forma-valor no capitalismo global: Notas teóricas”, o texto de Giovan-
ni Alves apresenta as causalidades estruturais da vigência da superex-
ploração do trabalho nas condições históricas do capitalismo global,
sugerindo como hipótese a ideia do colapso/expansão da forma-valor
e seu rebatimento na fórmula da composição orgânica do capital para
explicar a nova superexploração do trabalho nas condições da econo-
mia global. Como o autor visa demonstrar em sua análise, o que era
uma característica distintiva, embora não exclusiva, das formações so-
ciais dependentes – a superexploração do trabalho –, torna-se, também,
a marca das economias centrais, transformando-se em um fenômeno
global, característico do movimento de precarização estrutural do tra-
balho no capitalismo mundial e decorrente de mudanças na esfera pro-
dutiva do capital.
Em “Salário por peça e superexploração do trabalho”, eu, Juliana
Guanais, exponho resultado de pesquisa empírica realizada com assala-
riados rurais que trabalham como cortadores de cana na agroindústria

10 Superexploração do trabalho no século XXI


canavieira do estado de São Paulo. O artigo tem como objetivo principal
analisar a superexploração do trabalho dos cortadores de cana à luz da
teoria do valor de Marx e da teoria marxista da dependência e, para
tanto, investigo a relação entre pagamento por produção – forma pre-
dominante de remuneração dos cortadores de cana – intensificação do
trabalho e superexploração na agroindústria canavieira, demonstrando
as conexões entre esses fatores. Depois de analisar como se dá a intensi-
ficação do trabalho e o prolongamento da jornada laboral no caso espe-
cífico dos cortadores de cana - e de que forma ambos contribuem para a
elevação do valor da força de trabalho dos últimos - apresento dados so-
bre o descenso dos salários e do piso salarial da categoria, demonstran-
do que os assalariados em questão estão sendo pagos por debaixo de seu
valor, o que configura uma situação de superexploração do trabalho.
Em “Circulação e superexploração do trabalho: agenda de estudos
da condição proletária contemporânea”, eu, Gil Felix, analiso caracte-
rísticas das formas contemporâneas de circulação mercantil da força
de trabalho que vem sendo expandidas desde o advento da acumulação
flexível do capital. Para tanto, proponho uma abordagem para a análise
dos processos comumente designados como flexibilização, precariza-
ção ou, mais recentemente, uberização do trabalho, considerando os
processos de aceleração e amplificação da circulação da força de tra-
balho que lhe decorrem transversalmente e, portanto, de uma condi-
ção proletária de maior aproximação e/ou indistinção entre os exércitos
ativo e de reserva. A partir disso, proponho uma agenda de pesquisas
epistemologicamente atenta para as relações sociais de circulação a que
estaria sujeita a classe trabalhadora e para o estudo atual da superexplo-
ração do trabalho.
Essa breve apresentação dos textos já nos permite perceber que um
dos aspectos a serem destacados deste livro é o fato de ser composto
por artigos que, além de serem resultado de pesquisas de longo prazo,
fruto de um acúmulo de investigações, também não se limitam apenas
ao plano teórico exegético ou bibliográfico, já que enfrentam o desafio
de analisar e interpretar a realidade social contemporânea à luz da ca-
tegoria superexploração do trabalho. Além de (re)evidenciar a potência
explicativa das categorias de Marini, os estudos que compõem este livro

APRESENTAÇÃO 11
também servem de exemplo de como é possível se construir uma teoria
social “viva”, isto é, informada por análises que dialogam teoria e empi-
ria, e que, portanto, estão em perpétuo movimento (dialético, histórico,
materialista) de crítica e (re)construção. Não à toa, enfim, devemos des-
tacar ainda que todos os artigos, de uma maneira particular, apontam
para agendas de pesquisa compostas por temáticas e problemáticas as
mais variadas possíveis, as quais também podem vir a ser do interesse
de outros pesquisadores, seja da América Latina, ou não.
O convite ao debate e à reflexão está feito.
Boa leitura.

Juliana Guanais e Gil Felix


Foz do Iguaçu, verão de 2018.

12 Superexploração do trabalho no século XXI


TEORIA DA DEPENDÊNCIA
E EX TENSÃO DA
SUPEREXPLOR AÇ ÃO: UMA
PERSPEC TIVA TEÓRIC A

Adrián Sotelo Valencia

Introdução
No presente ensaio, fazemos uma análise da relação dos conceitos
de “dependência” e “exploração”, considerando-os organicamente im-
bricados e referentes a uma realidade específica, qual seja, a da forma-
ção histórico-social latino-americana contemporânea. Nosso propósito
é iluminar a análise das mudanças que experimenta a América Latina
no contexto mundial, no século XXI. Este ensaio revaloriza o conceito
de exploração do trabalho em torno à sua localização dentro da teori-
zação do marxismo. Em seguida, vislumbra a importância da teoria da
dependência para a análise contemporânea do capitalismo mundial e
latino-americano. Finalmente, enfoca a validade teórica e metodológica
da teoria marxista da dependência (TMD) e, em particular, da teoria da
superexploração da força de trabalho (Sft) na análise contemporânea de
nossos países.

Teoria e método da exploração em Marx


Em relação à teoria de Marx sobre a exploração do trabalho impõem-
-se algumas observações que, com frequência, têm sido incompreendi-
das ou ignoradas pelos críticos do marxismo e da teoria da dependên-
cia. Em primeiro lugar, Marx erige sua enorme obra (O Capital), em um
nível muito elevado de abstração. Assim, por exemplo, em relação com a

TEORIA DA DEPENDÊNCIA E EXTENSÃO DA SUPEREXPLORAÇÃO: UMA PERSPECTIVA TEÓRICA 13


teoria do valor, ele supõe uma situação em que este valor corresponderia
a seu preço. Questão metodológica correta, embora não signifique que
assim seja efetivamente o comportamento empírico na realidade histó-
rica do modo de produção capitalista.
Em segundo lugar, o conceito de exploração do trabalho, como re-
lação social fundamental da sociedade histórica capitalista, em Marx,
é um conceito relevante que edifica a teoria da mais-valia e do lucro
dentro do modo de produção capitalista e não em outro. Quer dizer, na
ausência do conceito de exploração é inimaginável, sequer, a elaboração
e compreensão da lei do valor como eixo central da produção e acumu-
lação capitalistas. A isto alude o próprio autor alemão quando escreve:

“Toda empresa de produção de mercadorias é, ao mesmo


tempo, uma empresa de exploração da força de trabalho;
mas, sob a produção capitalista de mercadorias, a explo-
ração se converte em um sistema formidável que, ao se de-
senvolver historicamente com a organização do processo
de trabalho e os gigantescos progressos da técnica, revolu-
ciona toda a estrutura econômica da sociedade e eclipsa a
todas as épocas anteriores.” (Marx, 2000, T. II., p. 37).

Esquecer esta premissa, ou omiti-la, na análise da realidade concre-


ta das relações sociais capitalistas de produção não é apenas limitar a
visão estrutural a partir da que se aprecia a totalidade, senão também
deturpar grosseiramente a realidade social e laboral produzindo visões
fragmentadas e fetichizadas que escondem as relações fundamentais.
Isto leva-nos a uma terceira observação, relativa ao fato de que a par-
tir da definição da lei do valor, Marx expõe os métodos da exploração
do trabalho identificados com a mais-valia absoluta e com a mais-valia
relativa, como aqueles básicos para a reprodução do sistema capitalista
em um contexto histórico de longo prazo. Isto supõe entender ambas as
formas de mais-valia como conceitos articulados dentro de uma forma-
ção histórico-social específica, em cujo seio se conjugam os processos
de trabalho e as relações sociais de produção. A periodização que pode
surgir, tendo por base esses dois conceitos de mais-valia, não é outra
que a que incorpora o predomínio ou não da produtividade do trabalho

14 Superexploração do trabalho no século XXI


com base no desenvolvimento tecnológico por sobre a extensão da jor-
nada e a intensidade do trabalho ou sua articulação. Quer dizer, marca a
pauta para estudar a gênese do desenvolvimento do modo de produção
capitalista nas suas múltiplas articulações e definições resultantes. A
rigor: não existe uma fase independente do capitalismo que tenha se
baseado exclusivamente na prevalência da mais-valia absoluta (no pro-
longamento da jornada de trabalho) e outra fase que a deixasse para
trás para se fundamentar no domínio exclusivo da mais-valia relativa;
em vez disso, consideramos que a partir da revolução industrial que se
desdobra a partir da segunda metade do século XVIII, onde efetiva-
mente essa forma da mais-valia começa a ganhar terreno até se tornar
hegemônica no conjunto do sistema, as demais formas e mecanismos
correspondentes à primeira, e a outras formas de produção como a co-
operação e o trabalho artesanal, coexistem com ela e se desdobram em
cada processo histórico do seu desenvolvimento substancial.
Em outras palavras:

“... a periodização do capitalismo, segundo Marx, não se


resolve em um período em que a mais-valia absoluta pre-
valece e outro em que prevalece a mais-valia relativa, senão
que no período manufatureiro – em que, junto à extensão
da jornada, método de extração da mais-valia absoluta, se
observa o incremento da intensificação do trabalho e sua
uniformização, método de produção de mais-valia relativa,
assentando as bases reais para a plena vigência da lei do
valor e, portanto, do império das leis do mercado – e em
um período fabril em que, longe de diminuir, aumenta a
pressão do capital em prol do prolongamento da jornada,
tendência contraposta pelas lutas operárias para a redução
da mesma e, sobre a base da revolução industrial, se desen-
volve a produtividade do trabalho, ela também um método
de produção de mais-valia relativa, se abrindo horizontes
ao desdobramento das forças produtivas, apenas limitado
pelas relações de produção em que este se enquadra.” (Ma-
rini, Sotelo y Arteaga, s/d, p. 66).

TEORIA DA DEPENDÊNCIA E EXTENSÃO DA SUPEREXPLORAÇÃO: UMA PERSPECTIVA TEÓRICA 15


Resulta disto que o prisma através do qual devemos vislumbrar, por
exemplo, o taylorismo, o fordismo e a produção em massa até os moder-
nos sistemas de organização e exploração da força de trabalho centra-
dos no toyotismo flexível da atualidade, cada um deles, envolve relações
sociais imersas em uma combinação virtuosa para o capital suportadas
tanto nas formas de produção da mais-valia absoluta como da relativa.
Esta questão será retomada mais adiante quando analisarmos a Sft.
Por último, consideramos que as tentativas por estabelecer uma
“proporcionalidade inversa” da mais-valia absoluta e a relativa nos tex-
tos em que se desenvolveu a teoria da Sft, derivam de uma enorme in-
compreensão das distintas formas que a mais-valia pode assumir na sua
articulação concreta dentro de determinadas condições de produção e
circulação do capital. Portanto, era necessário realizar este labor para
situar a especificidade da exploração capitalista nos países dependentes,
por mais que esses se queiram assemelhar, por parte de alguns autores,
à dinâmica histórica do capitalismo clássico.
Ao contrário de outros autores enquadrados na vertente da depen-
dência, a tarefa para desenvolver uma economia política da dependên-
cia e da exploração na América Latina foi realizada precisamente por
Marini. É esta linha de trabalho que, em nossa opinião, merece ser
aprofundada, com a finalidade de apreender as condições e contradi-
ções contemporâneas da exploração capitalista.

A importância da teoria da dependência na atualidade


Podemos ou não concordar com Marini em relação às teses centrais
que derivam de sua concepção sobre a teoria da dependência. Porém,
certamente não podemos ignorar a original contribuição que, em nosso
parecer, Marini faz ao campo específico da exploração do trabalho, ou
seja, o fato de vincular orgânica e dialeticamente as formas da mais-valia
relativa e absoluta (a dor de cabeça ou a nêmeses dos críticos) com o de-
senvolvimento da produtividade do trabalho e, portanto, da tecnologia
que os autores neoclássicos e desenvolvimentistas, junto com o investi-
mento de capital, vislumbram tanto como “produtora de valor” quanto
de “desenvolvimento social em geral”, ocultando seus profundos efeitos

16 Superexploração do trabalho no século XXI


daninhos e degradantes no mundo do trabalho. Insistamos: esta última
proposição significa que a teoria da dependência de forma nenhuma se
move no âmbito das teorias da estagnação econômica de origem neo-
clássica, como pretendem infundadamente os críticos, senão que o faz
no nada harmônico desenvolvimento capitalista em condições macro
e microeconômicas de dependência estrutural. A tese central a respei-
to, afirma Marini, é que quanto maior o desenvolvimento tecnológico
maior a exploração do trabalho, e não o contrário.
No nosso parecer, isto é assim em função das razões que expomos
a seguir.
Em primeiro lugar, porque historicamente a dependência, nos ter-
mos de Marini, impossibilita a realização estrutural da tese central que
a Comissão Econômica para América Latina e o Caribe (CEPAL) pro-
põe desde seu surgimento: que, na medida em que a América Latina de-
senvolvesse a industrialização e a substituição de importações, retivesse
e reinvestisse no “progresso técnico” e desenvolvesse os mercados in-
ternos –particularmente, nos países de maior desenvolvimento relativo
como o Brasil, o México e a Argentina – nessa mesma medida alcançaria
sua plena “autonomia” econômica (veja-se, por exemplo, Rostow, 1974;
CEPAL, fevereiro de 1962, pp. 1-24 e Prebisch, 1987). Isto, nas últimas
décadas, não apenas não aconteceu senão que, ao contrário, cada vez
mais se vislumbra, como coloca Marini em diversos trabalhos (Marini,
1992), um aprofundamento dos traços duros e característicos da depen-
dência, ainda que certamente mudem suas formas à luz da agudização
de seus conteúdos, subordinação ao mercado mundial, Sft, intercâmbio
desigual de valor e mais-valia em benefício dos países capitalistas avan-
çados, Estado do quarto poder e cooperação antagônica, defasagem dos
sistemas produtivos das necessidades de consumo das massas trabalha-
doras e subimperialismo (Marini, 1973, 1977, 1985 e 1985a).
Diferente do que propunham as correntes liberais, social-democra-
tas e neoliberais, que apresentavam um panorama lisonjeiro para os paí-
ses em “vias de desenvolvimento”, como gostam de classificar aos países
dependentes inspirados nas abordagens do Banco Mundial, panorama
que tenderia à “independência” e à soberania das nações e da força de
trabalho; pelo contrário, as teses dependentistas da Sft vislumbram uma

TEORIA DA DEPENDÊNCIA E EXTENSÃO DA SUPEREXPLORAÇÃO: UMA PERSPECTIVA TEÓRICA 17


tendência à exacerbação da Sft, estimulada na atualidade pela chamada
flexibilização do trabalho, que acontece na dimensão produtiva de nos-
sas economias e sociedades.
Uma contribuição original de Marini que merece toda nossa aten-
ção consiste na seguinte afirmação: a América Latina contribuiu para
apressar o passo da mais-valia absoluta à relativa no capitalismo clássi-
co, na época da revolução industrial; ideia concreta que se converte em
fio condutor de qualquer teorização contemporânea sobre a Sft. Por-
tanto, é necessário pelo menos pensar nos temas que apresentamos a
seguir.
O papel que a América Latina contemporânea está desempenhando
como região salarial para o desenvolvimento dos países industrializa-
dos como os Estados Unidos, a Europa Ocidental e o Japão, sobretudo
à luz da conversão de muitos de nossos países, como o México, em pa-
íses importadores de alimentos. Nessa diretiva inscreve-se o Tratado
Norte-Americano de Livre Comércio (TNLC) entre os Estados Unidos,
o México e o Canadá, em torno de salários muito baixos, no caso dos
trabalhadores mexicanos entre 10 e 15 vezes menores do que os recebi-
dos pelos trabalhadores dos outros países. Inclusive no nível interpro-
fissional dita diferença salarial chega a ser de até 30 vezes por hora.
Outro tema importante é o papel que desempenha a Sft como ala-
vanca para o desenvolvimento da produtividade, questão que implica
relacionar a flexibilização atualmente em curso da força de trabalho
com a dinâmica de introdução de novas tecnologias na América La-
tina. O incremento da produtividade do trabalho, seja na sua acepção
de produção de mais-valia relativa ou não (quando não incide em um
barateamento dos bens e serviços que constituem o valor da força de
trabalho), ao mesmo tempo em que aprofunda a Sft incrementa a taxa
de lucro do capital ao produzir uma maior quantidade de mercadorias.
A abordagem de Marini a respeito disso é que a Sft não nega a possibili-
dade de que os países dependentes se transformem em especificamente
capitalistas, porque nunca opõe o conceito de superexploração com o
comportamento do desenvolvimento da produtividade do trabalho nos
países dependentes e, inclusive, sobre a base da mais-valia relativa, que
se desenvolve, mas subordinada ao regime de Sft.

18 Superexploração do trabalho no século XXI


Tomemos dois textos do próprio Marini onde encontramos a rela-
ção dialética entre a Sft e a produtividade. No primeiro Marini escreve:
“... incidindo sobre uma estrutura produtiva baseada na maior explo-
ração dos trabalhadores, o progresso técnico possibilitou ao capitalista
intensificar o ritmo de trabalho do operário, elevar sua produtividade
e, simultaneamente, sustentar a tendência a remunerá-lo em proporção
inferior ao seu valor real” (Marini, 1973, pp. 71-72). E, em outro texto,
sentencia: “... mas uma vez posto em marcha um processo econômico
sobre a base da superexploração, começa a andar um mecanismo mons-
truoso, cuja perversidade, longe de se mitigar, é acentuada quando a
economia dependente recorre ao aumento da produtividade, por meio
do desenvolvimento tecnológico” (Marini, 1978, p. 4).
Ninguém pode duvidar de que nos nossos países da América Lati-
na, particularmente a partir da década dos anos cinquenta do século
passado, se desenvolveu com força a industrialização substitutiva de
importações e se articularam os métodos de produção de mais-valia ab-
soluta e relativa sob a hegemonia desta última, no exclusivo âmbito das
indústrias de ponta (eletrônica, automotriz, bens de consumo duradou-
ros, bens de capital) comandada pelas empresas transnacionais predo-
minantemente norte-americanas que importaram seus investimentos,
seus padrões tecnológicos e seus métodos de gestão empresarial e da
força de trabalho como aconteceu, por exemplo, na indústria automobi-
lística com os sistemas ford-tayloristas de produção em massa impulsio-
nados depois da Segunda Guerra Mundial e, mais tarde, com o toyotis-
mo de origem japonês, a partir da década dos oitenta coincidindo com a
entrada do neoliberalismo e das chamadas economias de mercado com
predomínio das abordagens monetaristas, de imposição da austeridade
e de redução do gasto público em detrimento do gasto social.
Em relação a estes tópicos, que merecem ser aprofundados a par-
tir da análise crítica e objetiva, tem se avançado em alguns elementos.
Mencionemos, por exemplo, algumas elaborações de Marini (Prefácio,
1993) onde define a globalização como aquele processo centrado na ge-
neralização da lei do valor, isto é, na determinação do tempo de trabalho
socialmente necessário para a produção e reprodução da força de traba-
lho em condições, pela primeira vez, verdadeiramente internacionais.

TEORIA DA DEPENDÊNCIA E EXTENSÃO DA SUPEREXPLORAÇÃO: UMA PERSPECTIVA TEÓRICA 19


Ademais, este conceito de globalização assim definido se faria exten-
sivo não apenas à força de trabalho, mas também aos outros elemen-
tos que determinam o custo de produção, ou seja, ao capital fixo, no
que contam os meios de produção, as ferramentas de trabalho, etc., e
a terra, considerada como meio de produção e também como meio de
circulação enquanto matéria-prima que se incorpora ao produto final,
a mercadoria. O que é comum a estes três elementos (força de trabalho,
terra e capital) radica no fato de que o processo de globalização esta-
ria difundindo, quase simultaneamente, o progresso técnico mediante
a incorporação dos processos de produção de tecnologias de ponta: a
informática, a biotecnologia, os novos materiais e a microeletrônica.
Tecnologias desenhadas pelos grandes centros científico-tecnológicos
e financeiros para desenvolver comercialmente um novo paradigma
tecnológico qualitativamente diferente e superior ao que, grosso modo,
se conheceu no passado como “paradigma ford-taylorista de produção
em massa” e que dinamizou a produção industrial no longo período
do pós-guerra capitalista. Porém, temos que esclarecer que dita difusão
de maneira nenhuma implicou superar a dependência estrutural dos
países latino-americanos, nem muito menos o regime de Sft que preva-
lece até nossos dias. Ademais de conceber desta forma nova o processo
de globalização como aquele marco jurídico-institucional de referência
imprescindível das nações para, no futuro, dirimir suas relações in-
ternacionais, Marini provoca com estas reflexões a necessidade de pôr
em alto-relevo o debate acerca da questão da Sft, como aquele processo
que já não seria apenas exclusivo das economias dependentes latino-
-americanas, mas que, com a globalização e os processos estruturais
e superestruturais que a acompanham, se estaria generalizando a âm-
bitos laborais cada vez menos restritos e aos processos de trabalho dos
próprios países industrializados, afetando segmentos cada vez mais ge-
neralizados da classe operária desses países (discussão que abordamos
em Sotelo, 2010 e 2012). Esse é o caso, por exemplo, das indústrias auto-
motivas dentro do Tratado de Livre Comércio (TLC) do México com os
Estados Unidos e o Canadá, onde a existência de uma força de trabalho
dez ou doze vezes mais barata no México com relação aos outros países,
orienta os fabricantes canadenses e estadunidenses a trasladarem suas

20 Superexploração do trabalho no século XXI


fábricas para o México como um meio de conseguir a diminuição dos
salários reais dos trabalhadores daquela região da “América do Norte”.
Assim, ao mesmo tempo estimulam o crescimento do exército indus-
trial de reserva e o aumento das taxas de exploração do trabalho. A
isto, em essência, refere-se Marini quando fala da universalização da
lei do valor que, na sua visão, pode ser qualificada como um processo
de globalização historicamente em curso que, embora de forma desi-
gual, afeta todas as escalas salariais tanto no nível dos mínimos como
dos interprofissionais que operam, inclusive, em um mesmo ramo de
produção, como acontece justamente nos Estados Unidos e entre ele e
o México. Aqui devemos notar que, embora tanto a determinação dos
salários como a formação do valor da força de trabalho sejam forte-
mente influenciados pelas condições nacionais, a globalização da lei
do valor implica que, além de suas diferenças histórico-estruturais e
macroeconômicas, o tempo de trabalho socialmente necessário para a
produção de mercadorias e de força de trabalho também é influencia-
do pelas condições internacionais através dos investimentos produtivos
nos processos de trabalho, dos sistemas financeiros, da implementação
de tecnologias de ponta e, por último, da influência cada vez maior que
exercem as redes como a Internet nas condições de funcionamento e
determinação da lei do valor e dos mercados de trabalho.
Neste contexto, situamos a flexibilização do trabalho como dispo-
sitivo do novo padrão de reprodução capitalista especializado na pro-
dução para a exportação, como o produto melhor acabado das mudan-
ças mais significativas – de ordem estrutural e institucional – que vêm
acontecendo nos últimos anos no plano da divisão internacional do tra-
balho, principalmente, através de reformas estruturais impulsionadas
pelo Estado. O resultado consiste, desde o ponto de vista do capital,
no fato de conceber dita flexibilização do trabalho como a decomposi-
ção ergonômica3 do posto de trabalho do operário dos elementos uni-
tários que o integravam, tais como os salários, a categoria contratual e

3 A ergonomia encarrega-se do estudo dos sistemas homens-máquina; mais precisa-


mente define-se como a “tecnologia das comunicações nos sistemas homens-máquina”
(Montmollin, 1971: 3).

TEORIA DA DEPENDÊNCIA E EXTENSÃO DA SUPEREXPLORAÇÃO: UMA PERSPECTIVA TEÓRICA 21


as funções desempenhadas, em elementos independentes e polivalentes
para serem reativados em função das necessidades da produção e da
dinâmica cambiante dos mercados. Evidentemente isto não rompe com
a centralização do capital de ditos componentes, senão que os controla
através das gerências empresariais mediante sofisticados procedimen-
tos que permitem sua racionalização e melhoramento nos processos
produtivos e de trabalho.
Esta flexibilização tem provocado novos fenômenos no espectro do
mundo laboral que, em nossa opinião, tendem a piorar as condições
de vida e de trabalho, além de fortificar o regime de Sft, quer dizer, a
eficaz articulação entre a produção de mais-valia absoluta, a mais-valia
relativa e a expropriação de parte do fundo de consumo da força de
trabalho e a conseguinte redução dos salários abaixo do valor da força
de trabalho:
a. A determinação dos salários pelos níveis de produtividade da
mão de obra, tendência hoje imersa nas políticas econômicas
de modernização na América Latina e nos países do capitalis-
mo avançado. Este é um fenômeno que atua contra o operário
na medida em que as tendências à estagnação dos salários, ou
sua franca declinação, cada vez mais são independentes dos
movimentos de produtividade nas empresas, os quais, inclusive
quando aumentam, não redundam em benefício das escalas sa-
lariais e menos ainda nos repasses econômicos e sociais, como
acontece nos Estados Unidos.
b. A procura da eficiência e da competitividade internacional do
capital fixo como determinante do valor globalizado, questão
que está implicando numa maior dependência tecnológica, na
medida em que o ciclo produtivo, monetário e mercantil dos
processos técnico-científicos do padrão tecnológico domi-
nante está monopolizado pelos grandes centros industrializa-
dos e, em particular, pelas firmas monopólicas das empresas
transnacionais.
c. Por último, políticas salariais que se desconectam de suas di-
mensões sociais e assistenciais por parte de um Estado que, cada
vez mais, minimiza suas responsabilidades frente à economia e

22 Superexploração do trabalho no século XXI


a sociedade seguindo os cânones mais endurecidos dos manuais
das políticas neoclássicas e neoliberais. O laisser faire e o laisser
passer neste capitalismo de corte neoliberal adquirem toda sua
dimensão tanto contra os trabalhadores quanto, de forma mais
ampla, contra a própria humanidade.

A flexibilidade do trabalho, enquanto dispositivo jurídico-institu-


cional da reestruturação produtiva em curso no novo padrão de repro-
dução capitalista, aparece em seu aspecto sócio-laboral mostrando o
que é substancial dentro do processo de transição de um paradigma la-
boral a outro: a desregulamentação do trabalho, dos contratos coletivos
trabalhistas, para sua posterior reconversão em dispositivos flexíveis,
facilmente adaptáveis às necessidades de acumulação e valorização do
capital na dimensão estrutural das fábricas e dos mercados capitalistas.
Como assinalamos, para impulsionar estes processos de desestrutura-
ção do mundo do trabalho, o capital vem impondo reformas laborais
nos mais diversos países da América Latina, da Europa e nos Estados
Unidos, para juridicizar e codificar leis, regulamentos, códigos e estatu-
tos que consagrem as novas regras do jogo que operaram as antagônicas
relações operário-patrão (vejam a respeito: Sotelo, abril-junho, 2013 e 2
de maio de 2017; Thé Nicole e G. Soriano, 22 de setembro de 2016).
Contra as afirmações que conferem uma correlação funcional e po-
sitiva entre desenvolvimento tecnológico e melhoria das condições de
trabalho, sustentamos o seguinte corolário: dita correlação se desdobra
em um sentido proporcionalmente inverso ao exposto pelos ideólogos:
com maior desenvolvimento tecnológico e crescente incorporação de
tecnologias de ponta nos processos produtivos e de trabalho, maior ge-
ração de desemprego mediante a falência de empresas e as demissões
massivas e/ou seletivas, estimuladas pela reestruturação, as políticas
privatizadoras e a abertura comercial transnacional. Obviamente isto
atenta contra os postulados da teoria neoclássica e dos organismos do
grande capital internacional como o Banco Mundial e o Fundo Mone-
tário Internacional.
Todas estas são condições que se desdobram da análise que fazemos
desde a perspectiva da teoria marxista da dependência e de seu eixo

TEORIA DA DEPENDÊNCIA E EXTENSÃO DA SUPEREXPLORAÇÃO: UMA PERSPECTIVA TEÓRICA 23


orientador sustentado na categoria da Sft enquadrada nas condições
de um processo de dependência estrutural que se vem reforçando pela
modernização tecnológica que, ao mesmo tempo, impulsiona um de-
senvolvimento posterior mais avançado do capitalismo dependente na
esfera dos interesses do grande capital financeiro e da fração moderna
da burguesia mundial e latino-americana, ao custo de dizimar as con-
dições de trabalho e de vida de dezenas de milhares de trabalhadores
latino-americanos que, ao ver vulnerados seus direitos fundamentais,
não têm outra alternativa senão recorrer ao emprego precário, aceitar
baixos salários que não resolvem suas necessidades, com altas taxas de
exploração via prolongamento da jornada de trabalho, da intensidade
laboral ou da redução salarial como de fato vem ocorrendo nos últimos
anos. Esta é a condição que o capital e o Estado têm exigido dos traba-
lhadores para manter suas fontes de emprego. Para aqueles segmentos
da força de trabalho que não aceitam essas condições ou que não se en-
quadram nos planos reestruturadores das empresas, o futuro que lhes
espera é se situar no “setor informal” da economia ou diretamente no
desemprego aberto e na miséria.

Extensão da superexploração ao capitalismo avançado: a


abordagem de Marini
Nos últimos anos, vem ganhando força uma ideia relativa à possibi-
lidade de que se esteja estendendo no mundo desenvolvido, isto é, nas
economias avançadas do capitalismo central, um intenso processo de
Sft, em virtude de múltiplas dificuldades que o capitalismo está expe-
rimentando na escala global. Marini foi o pioneiro nessa abordagem
(1993 e 1996; Sotelo, 2010, Smith, 2016 e Arrizabalo, 2016). Outros auto-
res mostraram ceticismo frente a essa ideia ou hipótese (Osorio, 2016 e
Katz, 12 de setembro de 2017). Da nossa parte, a assumimos de maneira
propositiva e indicativa como guia de investigação e análise, não para
considerá-la verdadeira e envolvê-la num esquema rígido e dogmáti-
co, mas apenas para iniciar um processo de investigação e reflexão no
marco teórico-metodológico da teoria marxista da dependência, em
particular, em função das teses de Marini que é quem originalmente

24 Superexploração do trabalho no século XXI


a formulou: “Deste modo, generaliza-se a todo o sistema, inclusive aos
centros avançados, aquilo que era um traço distintivo – embora não
privativo – da economia dependente: a superexploração generalizada
do trabalho” (Marini, 1996, p. 65).
Em ambas perspectivas ainda não existe um acúmulo de dados,
informação e evidências com que contam outras temáticas dentro das
ciências sociais, suficientes para que se possa coroar exitosamente este
labor e levá-lo a bom porto. Porém, podem-se dar alguns passos nesta
direção com o objeto de compará-la e, no caso, validá-la à luz das mu-
tações e crise que está experimentando o capitalismo contemporâneo
na sua atual fase neo-imperialista e neoliberal com fortes tendências à
quase estagnação econômica.
Por outro lado, a compreensão da possibilidade de que o capitalismo
estenda a superexploração para suas áreas avançadas, ainda permanece
embrionária e restrita a certas expressões teóricas, algumas empíricas,
e a um reduzido núcleo de autores que a perceberam à luz das proble-
máticas do capitalismo contemporâneo (Martins, 2011; Smith, 2016).
Isto se explica, em parte, pelo caráter recente do fenômeno que está se
estendendo paulatinamente através de uma série de medidas econô-
micas e de políticas públicas que estão sendo implantadas nos países
imperialistas sob as diretrizes do FMI, o Banco Central Europeu e a
Comissão Europeia; tríade também conhecida como “Troika”. Ainda
assim, o número de autores que reconhecem e valorizam a importância
da Sft como um mecanismo específico da exploração é cada vez maior.
Por exemplo, Smith (2016: 250-251) reconhece que a superexploração é
um terceiro mecanismo de extração de mais-valia do trabalhador, in-
cluindo os países dependentes:

“A arbitragem do trabalho global - superexploração - isto


é, rebaixar o valor da força de trabalho, a terceira forma
de aumento do mais-valor, é agora a forma cada vez mais
predominante da relação capital-trabalho. Os proletários
dos países semicoloniais são suas primeiras vítimas, mas
as grandes massas de pessoas trabalhando nos países im-
perialistas também enfrentam miséria. Os/as proletários/
as novos/as, jovens, e do sexo feminino dos países de baixos

TEORIA DA DEPENDÊNCIA E EXTENSÃO DA SUPEREXPLORAÇÃO: UMA PERSPECTIVA TEÓRICA 25


salários desenterraram o capitalismo do buraco em que ele
se encontrava nos anos 1970. Agora, junto com os traba-
lhadores dos países imperialistas, sua missão é cavar outro
buraco - cavar o túmulo para enterrar o capitalismo e, as-
sim, assegurar o futuro da civilização humana” (tradução
nossa).

Contudo, vão-se multiplicando os temas e conteúdos a respeito des-


ta problemática que nos permitem abordá-la no contexto da crise do
capitalismo que, independentemente das diversas interpretações que
sobre ela tem sido feitas, se expressa no aspecto social e na precarizari-
zação do mundo do trabalho mediante uma série de medidas que afe-
tam negativamente os salários, o tempo de trabalho e o consumo da
sociedade nos países da União Europeia, nos Estados Unidos, no Japão
e, claro, na América Latina como testemunham atualmente Argenti-
na e Brasil, onde voltou a se impor o neoliberalismo fundomonetarista
selvagem e as maiorias têm visto minguar suas condições de vida e de
trabalho numa velocidade impressionante. Para o capital não há outra
saída possível senão continuar aprofundando ditas reformas, impul-
sionando, consequentemente, a entrada do regime de superexploração
nessas sociedades, e abrindo a possibilidade de constituir, pela primeira
vez na história, um autêntico proletariado internacional capaz de pro-
por tarefas comuns de transformação, tema que aqui não abordamos.
Aos propósitos deste ensaio, importa-nos constatar se a Sft se imple-
menta e desenvolve sob a hegemonia da mais-valia relativa com os li-
mites estruturais que esta última impõe (como acontece no capitalismo
avançado) ou se a Sft sobredetermina (ao mesmo tempo que subordina
e bloqueia, como nós supomos) a mais-valia relativa, como aconteceu
durante a industrialização substitutiva de importações nos países que
elevaram seus coeficientes de industrialização e desenvolveram os mer-
cados internos de consumo e de trabalho nas economias dependentes
da América Latina, ao menos até finais da década de setenta e princípios
dos oitenta do século passado, contexto em que a exceção é o Brasil, pois
estendeu sua industrialização por mais uma década.

26 Superexploração do trabalho no século XXI


Relações dialéticas entre a mais-valia absoluta, a relativa
e a superexploração da força de trabalho
Um dos fios condutores da teoria da dependência consiste em de-
terminar a relação entre a mais-valia relativa, tal qual a definimos ante-
riormente, e a superexploração do trabalho devido a que: “O problema
está em determinar o caráter que assume na economia dependente a pro-
dução de mais-valia relativa e o aumento da produtividade do trabalho.”
(Marini, 1973, p. 100, grifos no original).
De fato, por isso resulta de vital importância considerar dois pro-
blemas essenciais: o primeiro, porque e devido a que causas, na eco-
nomia dependente, a mais-valia relativa tem tantas dificuldades para
abrir caminho e se constituir em hegemônica nos sistemas produtivos
e de trabalho, como aconteceu nos países do capitalismo clássico após a
Revolução Industrial na Inglaterra. Em segundo lugar, como é que, par-
ticularmente quando surge e se desenvolve a industrialização substitu-
tiva de importações na América Latina, a superexploração do trabalho
continua a subsumir a mais-valia relativa, evitando assim que se torne
hegemônica no sistema. Nesta problemática radica para nós a essência
do processo da dependência e da superexploração do trabalho concomi-
tante com os problemas de atraso e subdesenvolvimento: “O problema
está em determinar o caráter que assume na economia dependente a pro-
dução de mais-valia relativa e o aumento da produtividade do trabalho”
(Marini, 1973, p. 100, grifos no original).
Portanto, a Sft não pode se reduzir e definir como simples “violação”
do valor da força de trabalho (como fazem alguns autores). Conside-
ramos que o aspecto específico e característico que prevalece histori-
camente nas economias dependentes é a constituição de um modo de
produção dependente – articulado ao sistema capitalista mundial – ci-
mentado em um regime de superexploração do trabalho que assume
certas especificidades e obstaculiza sistematicamente a implantação da
mais-valia relativa como eixo do processo de acumulação e reprodução
do capital.
Em relação à superexploração do trabalho, Marini expressa que:

TEORIA DA DEPENDÊNCIA E EXTENSÃO DA SUPEREXPLORAÇÃO: UMA PERSPECTIVA TEÓRICA 27


“… os três mecanismos identificados – a intensificação do
trabalho, o prolongamento da jornada de trabalho e a ex-
propriação de parte do trabalho necessário para o operá-
rio repor sua força de trabalho – configuram um modo de
produção fundado exclusivamente na maior exploração do
trabalhador, e não no desenvolvimento de sua capacidade
produtiva. Isto é congruente com o baixo nível de desen-
volvimento das forças produtivas na economia latino-ame-
ricana, mas também com os tipos de atividades que ali se
realizam. De fato, mais que na indústria fabril, onde um
aumento do trabalho implica ao menos um maior gasto de
matérias primas, na indústria extrativista e na agricultura
o efeito do aumento de trabalho sobre os elementos do ca-
pital constante são muito menos sensíveis, sendo possível,
pela simples ação do homem sobre a natureza, incrementar
a riqueza produzida sem um capital adicional. Entende-se
que nestas circunstâncias, a atividade produtiva baseia-se,
sobretudo, no uso extensivo e intensivo da força de traba-
lho: isto permite baixar a composição – valor do capital,
que unido à intensificação do grau de exploração do tra-
balho, faz com que se elevem simultaneamente as cotas de
mais-valia e de lucro” (Marini, 1973, pp. 40-41).

Dessa citação infere-se a complexidade da economia dependente,


inserida na dinâmica contraditória e desigual do sistema capitalista
mundial, e se fragiliza a ideia de que a superexploração se reduza à sim-
ples “violação” do valor da força de trabalho. Sintetizando, se definimos
com Marini (1973, p. 40) ab initio a Sft como expropriação de parte do
trabalho necessário ao operário para repor sua força de trabalho e como
consecutio a “violação” de dito valor, concluímos que a produção do va-
lor da força de trabalho e sua determinação pela quantidade e o tempo
de trabalho socialmente necessário se constituem sobre a base da lei do
valor-trabalho tal e como foi formulada por Marx. Para isto, seria ne-
cessário desenhar previamente um “modelo ideal’ que – supostamente
– expresse também o valor ideal que deve conter a força de trabalho. À
margem deste exercício estatístico e empírico, pensamos que na verdade
existe um modo de produção capitalista dependente complexo, multi-
facetado, contraditório e problemático que possui seu próprio ciclo de

28 Superexploração do trabalho no século XXI


reprodução que exacerba as condições de exploração da força de tra-
balho e da natureza, e que está mediado por múltiplas determinações
tais como a dinâmica que lhe imprime o capitalismo hegemônico, as
características autoritárias do Estado capitalista, o crescente desempre-
go e subemprego, os problemas inflacionários e deflacionários da eco-
nomia, a dinâmica contraditória do comércio internacional, a estreiteza
dos mercados internos de consumo e de trabalho e as possibilidades
relativas de expansão regional do capital para realizar sua produção no
mercado mundial, como acontece na atualidade sob o novo padrão de
reprodução do capital dependente de especialização produtiva para o
mercado mundial, seja primário-exportador ou manufatureiro.
Na América Latina e em outros países dependentes, que destinam
proporções crescentes de sua produção aos mercados exteriores – na
atualidade, se investe massivamente na produção de biocombustíveis e
de matérias primas para exportação – os recursos agrícolas de consumo
popular são destinados a satisfazer as necessidades energéticas do capi-
talismo dominante, inclusive, das novas potências emergentes como a
China, que se projeta a nível regional e mundial – neste momento – de
maneira muito importante para as economias sul-americanas com ên-
fase em países como a Argentina e o Brasil.
A diferença substancial do capitalismo avançado, em relação ao de-
pendente, consiste em que no primeiro a mais-valia relativa é hegemô-
nica no sistema produtivo, enquanto que no segundo essa mais-valia
está subordinada às antigas formas de produção capitalista, à mais-valia
absoluta e à superexploração do trabalho que precederam a mais-valia
relativa.
Isto é assim devido a que:

“... as condições criadas pela superexploração do trabalho


na economia capitalista dependente tendem a obstaculizar
seu trânsito desde a produção de mais-valia absoluta à de
mais-valia relativa, como forma dominante nas relações en-
tre o capital e o trabalho. A gravitação desproporcionada
que assume no sistema dependente a mais-valia extraor-
dinária é um resultado disto e corresponde à expansão do
exército industrial de reserva e ao estrangulamento relativo

TEORIA DA DEPENDÊNCIA E EXTENSÃO DA SUPEREXPLORAÇÃO: UMA PERSPECTIVA TEÓRICA 29


da capacidade de realização da produção. Mais do que me-
ros acidentes no curso do desenvolvimento dependente ou
elementos de ordem transicional, estes fenômenos são ma-
nifestações da maneira particular de como incide na eco-
nomia dependente a lei geral da acumulação de capital. Em
última instância, é de novo à superexploração do trabalho
que temos que nos referir para analisá-los.” (Marini, p. 100).

Desde o princípio o capitalismo avançado articulou e subordinou a


mais-valia absoluta – prolongamento da jornada laboral, intensificação
da força de trabalho – à mais-valia relativa, pelo menos desde o grande
período da Revolução Industrial na Inglaterra, e incorporou paulatina-
mente os trabalhadores no consumo dos bens produzidos pelas fábricas
da grande indústria. Foi isto que influenciou para que o próprio Marx
em O Capital (Livro III, Cap. XIV, p. 235) vislumbrasse a possibilidade
empírica da superexploração do trabalho – a redução do salário abaixo
do valor da força de trabalho – mais como um fenômeno de concorrên-
cia e de conjuntura, encaminhado a confrontar a tendência de queda
da taxa de lucro, do que um comportamento estrutural de longo pra-
zo e como regularidade da análise geral do capital. Contudo, isto era
congruente com sua premissa metodológica sustentada ao longo de O
Capital, e que consiste no pressuposto de que o valor da força de tra-
balho (como o de qualquer outra mercadoria) corresponde sempre ao
seu preço de mercado, como vimos anteriormente. Com efeito, para o
desenvolvimento teórico-metodológico de O Capital, Marx supõe que o
valor das mercadorias e da força de trabalho corresponde ao seu preço:
“Para fazer nossas deduções, partíamos do pressuposto de que a força
de trabalho se compra e se vende pelo seu valor. Tal valor, assim como
o de qualquer outra mercadoria, se determina pelo tempo de trabalho
necessário para sua produção” (Marx, O Capital, L. I, Seção III, Cap.
V I I I , p. 177, grifos nossos).
Posteriormente, originou-se um novo período caracterizado pelos
estudiosos da sociologia do trabalho como sistema fordista-taylorista
de produção em massa (Coriat, 1985), em que o operário recém-incor-
porado na linha de montagem contava tanto como produtor como con-
sumidor de mercadorias produzidas pela grande indústria como, por

30 Superexploração do trabalho no século XXI


exemplo, os automóveis (a esse respeito pode ser consultada a magnífica
obra de Braverman, 1997).
Marini forjou a categoria superexploração – que ficou fora da análise
geral de O Capital de Marx pelas razões expostas – como o núcleo duro
e princípio orientador do desenvolvimento capitalista nas formações
econômico-sociais subdesenvolvidas da periferia do sistema mundial, e
permitiu diferenciá-lo histórica e estruturalmente do desenvolvimento
dos países do capitalismo clássico.
Aplicando dita categoria na análise do capitalismo contemporâneo
e, em particular, à nova etapa histórica que se abriu nos finais da década
dos anos oitenta do século passado – queda do muro de Berlim em 1989,
desintegração da União Soviética, imposição do chamado “Consenso
de Washington”, invasão imperialista dos Estados Unidos no Iraque na
Guerra do Golfo (1991), aplicação generalizada e em grande escala da
informática na produção material e imaterial e nas telecomunicações
(terceira revolução industrial) – Marini assinala três condições que o ca-
pital teve que reunir previamente para abrir essa nova etapa da história.
Em primeiro lugar, acentuou o grau de exploração do trabalho em
todo o sistema para incrementar a massa de mais-valia, o que foi possí-
vel, agrega, com as derrotas do movimento operário e popular nos paí-
ses do centro capitalista e nos da periferia, incluindo a América Latina.
Em segundo lugar, intensificou a concentração de capitais nas eco-
nomias avançadas para assegurar os investimentos em desenvolvimen-
to científico-tecnológico e na modernização industrial, que implicou
fortes transferências de valor desde os países dependentes da América
Latina (o chamado intercâmbio desigual) que incrementaram a acumu-
lação do capital e que, em consequência, agravaram os problemas de
emprego, salário, marginalidade e miséria social de amplos setores de
sua população.
A terceira condição ampliou a escala do mercado para colocar os
numerosos investimentos necessários para a modernização do apare-
lho industrial. Tudo isso, conclui Marini, reatualizou as leis e os me-
canismos básicos do sistema: “... em especial a lei do valor... que opera
mediante a comparação do valor real dos bens, quer dizer, do tempo
de trabalho investido na sua criação, ali compreendido o tempo que

TEORIA DA DEPENDÊNCIA E EXTENSÃO DA SUPEREXPLORAÇÃO: UMA PERSPECTIVA TEÓRICA 31


demandam os insumos e meios de produção, assim como a reprodução
da força de trabalho” (Marini, Prefacio, p. 10).
Na década dos noventa do século passado essas três condições pos-
sibilitaram a conversão da economia latino-americana em uma econo-
mia dependente neoliberal sustentada em um padrão de acumulação e
reprodução de capital subordinado à dinâmica do ciclo de capital dos
países hegemônicos do capitalismo avançado e, cada vez mais, do ciclo
reprodutivo da economia chinesa.
A configuração estrutural da economia latino-americana orientada
ao mercado mundial, sustentada em padrões de reprodução inseridos
em processos de “reprimarização” e de importação de tecnologias dos
países centrais, é reflexo fiel desta nova forma de dependência que a tor-
na mais vulnerável às contradições externas que impõe a acumulação
capitalista numa escala mundial no século XXI.
As políticas neoliberais da década dos oitenta coadjuvaram na cria-
ção das bases econômicas, políticas e institucionais para que pudesse
operar a Sft, assim, este regime deixou de ser exclusivamente um regime
próprio das economias dependentes para estender seu raio de ação aos
países desenvolvidos, como sinalizou corretamente Marini. Desta ma-
neira, a superexploração converte-se em um elo que acorrenta os novos
sistemas de organização do trabalho como o pós-fordismo, o toyotismo
e outros, como a reengenharia organizacional na época da mundiali-
zação do capital, sustentados pela intensificação do trabalho, preca-
riedade laboral e no trabalho temporário e interino, assim como em
uma marcada tendência de declínio dos salários reais dos trabalhadores
como acontece a partir da administração de Reagan-Bush nos Estados
Unidos (Chomsky, 2004: 168 e 210).
Quando dizemos que a Sft se projeta na economia internacional, de
forma nenhuma afirmamos que já não constitua a característica de-
finidora da economia dependente, questão absurda que não conduz a
nenhum resultado e, em vez disso, introduz confusão e deterioro na
teoria. Se assim fosse o mesmo Marini não teria feito esta abordagem
pouco comentada, certamente, pelos seus críticos. Significa, ao in-
vés disso, que o capital, nas suas aspirações de lucro, não tem limites
para explorar à vontade a força de trabalho, inclusive, em redobrar a

32 Superexploração do trabalho no século XXI


exploração (hiperexploração do trabalho, poderia se dizer), para manter
sua reprodução em uma escala crescente de acordo com suas prerrogati-
vas de rentabilidade. Isto é congruente com outra afirmação de Marini,
que articula a lei do valor com a tendência à universalização da superex-
ploração nos países avançados:

“É preciso ter presente que a tendência que vai no senti-


do de aumentar a superexploração não vale somente para
os capitais que cedem valor, no processo de transferência,
senão que rege também para os que se apropriam valor, já
que é evidente que isso lhes permite obter quantidades de
valor superiores às que normalmente poderiam incorpo-
rar. Em outros termos, a universalização da lei do valor,
ao tender a permitir apenas as transferências de valor que,
no seu contexto, podem ser consideradas como legítimas,
não aponta à supressão da Sft, mas, ao contrário, para sua
agudização.” (Marini, Prefacio, 1993: 10)

Marini refere-se aqui ao capitalismo dependente como “capitais


que cedem valor”, enquanto que os que se apropriam são os correspon-
dentes ao capitalismo avançado. A universalização da superexploração
permite ao capital com o uso da tecnologia similar, tanto nos países
dependentes como nos avançados, obter massas de mais-valia maiores
mediante este procedimento para os capitais hegemônicos dos países
imperialistas que se apropriam de um valor suplementar. O único limite
está marcado, em todo caso, pelas lutas de classe e pelas determinações
estruturais e político-sociais em ambas formações da economia capita-
lista mundial.
A globalização generaliza e estimula a lei do valor, a determinação
do valor da força de trabalho e das mercadorias (materiais e imateriais)
pelo tempo de trabalho socialmente necessário para sua produção e re-
produção em condições verdadeiramente internacionais. Com ajuda da
computação e da internet é mais factível conhecer e determinar o valor
da força de trabalho do operário japonês, alemão, norte-americano ou
mexicano e medir suas magnitudes quantitativas e qualitativas.
A homogeneização da lei do valor/trabalho facilita a operação de
regime de Sft nos países desenvolvidos, embora sem menosprezo da

TEORIA DA DEPENDÊNCIA E EXTENSÃO DA SUPEREXPLORAÇÃO: UMA PERSPECTIVA TEÓRICA 33


adoção de formas particulares. Esta hipótese encontra sustentação teó-
rica no pensamento de Marini (1996: 49-68) e foi precisamente ele que
advertiu precocemente em alguns dos seus escritos que muitos autores
preferem ignorar ou interpretar com outro sentido.
Marini provoca a necessidade de pôr em alto relevo o debate sobre a
questão da Sft no mundo contemporâneo, como aquele processo que já
não seria apenas exclusivo das economias dependentes latino-america-
nas e outras do chamado “terceiro mundo subdesenvolvido”; senão que
ademais, com a mundialização do capital e os processos estruturais e
superestruturais que o acompanham, se estaria generalizando a âmbi-
tos laborais cada vez menos restringidos e aos processos de trabalho dos
países industrializados, afetando segmentos cada vez mais amplos da
classe operária e do proletariado desses países. Neste contexto, irrom-
peu uma tendência caracterizada por três fatos: 1) a difusão tecnológica
tende a estandardizar as mercadorias para facilitar seu intercâmbio em
escala global, o que, no largo prazo, 2) provoca uma maior homogenei-
zação dos processos produtivos e tecnológicos, e 3) desencadeia uma
tendência à igualação da produtividade do trabalho e, portanto, de sua
intensidade. Neste sentido, dimensiona-se a importância da Sft no siste-
ma produtivo internacional.
Marini (1996, p.61) revela a tendência do sistema a homogeneizar
o capital constante e incidir diretamente na determinação da taxa de
lucro. Encontra neste fenômeno um ponto de inflexão que divide duas
épocas históricas do desenvolvimento capitalista mundial. Como re-
sultado disso, temos uma segunda conclusão estratégica da análise
marinista: a homogeneização tecnológica, ao estimular a igualação das
composições orgânicas do capital na economia mundial, provoca um au-
mento da importância do trabalhador como fonte de lucros extraordi-
nários (Marini, 1996, pp. 65 e ss.). O resultado final consiste em que a
Sft – refutando as teses mais conspícuas dos autores do “final do traba-
lho” (Rifkin, 1997, Habermas, 2005) – se constitui como o fator princi-
pal para enfrentar a agudização da concorrência capitalista em escala
mundial com o fim de contra-arrestar as crescentes dificuldades com
que lida o capital no seu contraditório processo de produção de valor
e de mais-valia, em uma perigosa pendente diante da “... falta de uma

34 Superexploração do trabalho no século XXI


fonte de extração intensiva e generalizada de mais-valia relativa (que
distingue a dinâmica de acumulação capitalista madura), e as tentativas
de compensar tal carência recorrendo à extensão e aprofundamento da
mais-valia absoluta...” (Piqueras, 2014, p. 144). Temos que pontuar que,
desde nossa perspectiva teórica da superexploração, em conjunção com
a mais-valia absoluta figura a intensificação brutal da força de trabalho
acarretada pelo sistema toyotista e a expropriação de (uma parte) do
fundo de consumo que corresponde ao valor da força de trabalho e sua
conversão em uma parte da acumulação de capital.
A tecnologia informática consegue suprimir, virtual e relativamen-
te, as limitações do tempo físico e as diferenças espaço-temporais entre
os centros de produção e os mercados de consumo por mais longe que
eles estejam, ao mesmo tempo, estende o desemprego que provoca, em
consequência, um incremento na taxa de exploração dos trabalhado-
res ocupados através do aumento da jornada de trabalho (mais-valia
absoluta), de sua intensificação (mais-valia relativa) e da remuneração
da força de trabalho abaixo do seu valor (superexploração). Essas três
condições são requeridas pelo regime de Sft em qualquer circunstância,
de acordo com Marini, ao mesmo tempo que começam a operar no ca-
pitalismo avançado e nas suas estruturas produtivas e laborais, de onde
Marini infere que “... se generaliza a todo o sistema, inclusive aos cen-
tros avançados, o que era um traço distintivo (embora não privativo) da
economia dependente: a superexploração generalizada do trabalho. Sua
consequência (que era sua causa) é fazer crescer a massa de trabalhado-
res excedentes e agudizar sua pauperização...” (Marini, 1996: 65, grifos
nossos). É importante observar que em Subdesenvolvimento e revolução,
Marini ainda não vislumbrava esta tendência cada vez mais presente
nos países avançados. De fato, assinalando as diferenças existentes entre
a mais-valia absoluta, baseada no prolongamento da jornada de traba-
lho, e a relativa, que acontece, inclusive, sem que se altere a magnitude
de dita jornada ao diminuir o tempo de trabalho socialmente neces-
sário para a produção e reprodução da força de trabalho, formula que:

“É possível identificar ainda uma modalidade de aumento


da mais-valia, que é a que se origina de uma redução do sa-

TEORIA DA DEPENDÊNCIA E EXTENSÃO DA SUPEREXPLORAÇÃO: UMA PERSPECTIVA TEÓRICA 35


lário que não corresponde a uma diminuição real do tempo
de trabalho necessário. Este caso tende a ser excepcional
nos países capitalistas avançados, mas adquire um caráter
generalizado nos países capitalistas atrasados, como o Bra-
sil, onde configura uma situação de superexploração. No
texto exclusivamente para fins de simplificação, se toma a
expressão mais-valia absoluta também para designar esta
última modalidade” (Marini, 1985:148, grifos nossos).

A ideia, em síntese, é justamente conceber a Sft não apenas como


processo operativo e conjuntural do capitalismo avançado senão, cada
vez mais, como um mecanismo de exploração de caráter estrutural que,
em princípio, operou nos países dependentes. É claro que muitos au-
tores nunca conceberam esta perspectiva e, no máximo, entenderam
a superexploração como um fenômeno estritamente conjuntural. De
fato, em referência à crítica realizada a Marini, dizem Cardoso e Serra
(1978:51) que: “... ao mesmo tempo em que estabelece prazos lógicos de
férreas necessidades imaginárias (estagnação, subconsumo, superexplo-
ração, subimperialismo), transformando em tendência irrefreável o que
é fase de um ciclo e em necessidade o que é alternância ou possibilidade
contraditória”. Aprecia-se, assim, que para estes autores a superexplo-
ração do trabalho constituiu apenas uma fase de um ciclo, quer dizer,
um fenômeno conjuntural que pode ser muito bem superado, inclusi-
ve, dentro dos próprios marcos estruturais e políticos do capitalismo
dependente. Na mesma concepção militam autores como Katz (12 de
setembro de 2017) que prega a existência de uma “teoria da dependên-
cia” sem superexploração, apenas trocando este último conceito pelo de
“baixos salários”.
Desta maneira, a Sft está se convertendo em um importante fator
da economia mundial e de seus processos de valorização e acumulação
de capital que, contudo, não anula, insistimos, as relações estruturais
de dependência com os centros imperialistas, como tem se sustentado.

36 Superexploração do trabalho no século XXI


Conclusão
Para concluir, apenas nos resta mencionar que nas condições atu-
ais da relação entre dependência e exploração é necessário elaborar
estudos articulados que se desdobrem em quatro direções, do ponto
de vista dos novos traços da dependência, que expomos a seguir. No
plano econômico, uma das características do que podemos chamar a
“nova dependência” é a propensão à especialização produtiva das eco-
nomias latino-americanas, estimulada pela aplicação sistemática da
política econômica neoliberal. Assim, podemos dizer que a especiali-
zação produtiva é um conceito que define o novo perfil das economias
latino-americanas a partir de sua propensão a especializar e orientar
seus recursos (basicamente o capital, a força de trabalho e a terra) nas
atividades mais rentáveis inclinadas ao mercado mundial, inclusive, em
detrimento da produção e do mercado internos, provocando fortes mo-
vimentos internos recessivos e desequilíbrios recorrentes. A segunda
linha de investigação, do ponto de vista social, aborda a concentração
da renda como aquele traço perverso da economia dependente, que se-
gue estimulando a realização da produção em faixas restringidas do
mercado; portanto, orientando a maior parte da produção como produ-
ção suntuária, na medida em que não entra, ou entra muito pouco, no
consumo majoritário da força de trabalho. Os segmentos reduzidos das
classes dominantes, das classes médias e intermediárias da população
são as que seguem se beneficiando do desenvolvimento extremo do ca-
pitalismo dependente inserido no mercado mundial. Evidentemente, a
concentração da renda é apenas um reflexo, mais ou menos aproxima-
do, dos movimentos subterrâneos que acontecem na esfera produtiva,
quer dizer, onde se forjam os ingressos das distintas classes da socieda-
de. Desta forma, uma estrutura de produção polarizada implica cres-
centes polarizações nas esferas altas e baixas dos mercados internos e,
por consequência, das rendas. A evidência empírica referente aos países
latino-americanos revitaliza o nível metodológico da teoria da depen-
dência como constatação da conformação de duas esferas do mercado
interno: uma desdobrada para o mercado interno de baixa renda e a ou-
tra para o mercado de alta renda com a irrupção de uma terceira esfera

TEORIA DA DEPENDÊNCIA E EXTENSÃO DA SUPEREXPLORAÇÃO: UMA PERSPECTIVA TEÓRICA 37


orientada ao mercado mundial fortemente controlado e monopolizado
pelas grandes empresas transnacionais. Em terceiro lugar, destaca-se a
linha de pesquisa relacionada com a cada vez maior extensão da Sft, in-
clusive, nos sistemas de trabalho e produtivos dos países do capitalismo
desenvolvido que se observa com mais intensidade após a grande crise
capitalista de 2008-2009, tanto na União Europeia, como no Japão e no
próprio Estados Unidos, afetando as condições de vida e de trabalho de
suas populações. Por último, um quarto nível articulado das análises da
dependência e sua relação com a superexploração do trabalho radica na
esfera política, constatando o problema da relação entre a democracia
e as crescentes propensões ao autoritarismo político que se observam
naqueles países onde trinfou a direita. Esta hipótese de trabalho exige
relacionar a necessária concentração do poder no Estado, a partir de
assegurar a especialização produtiva do novo padrão de reprodução ca-
pitalista dependente e a manutenção de uma estrutura polarizada forte-
mente concentrada em benefício do ingresso de capital e em detrimento
do trabalho.
Em suma, a superexploração do trabalho, a especialização produ-
tiva, a concentração da renda, o desemprego, a miséria e as políticas
excludentes dos Estados capitalistas latino-americanos – formalmente
democráticos, mas realmente enraizados nas estruturas contra-insur-
gentes e autoritárias de poder – configuram os traços perversos de uma
dependência estrutural que se opõe às reivindicações de democratiza-
ção pelos trabalhadores e classes populares da América Latina, cujo
sentido político não é outro que a exigência de uma maior participação
nas decisões que os afetam para resolver suas principais demandas.

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40 Superexploração do trabalho no século XXI


A SUPEREXPLOR AÇ ÃO DOS
TR ABALHADORES MIGR ANTES
MEXIC ANOS NOS ES TADOS
UNIDOS

Ana Alicia Peña López


Nashelly Ocampo Figueroa

Introdução
A migração internacional é um fenômeno intimamente vinculado
à dinâmica da globalização dos processos produtivos, os mercados e
demais âmbitos econômicos, sociais, políticos e culturais relacionados
a ela. A migração massiva de mexicanos indocumentados e os milhares
de centro-americanos e sul-americanos que ingressam anualmente nos
Estados Unidos são apenas uma fração dos milhões de trabalhadores de
países subdesenvolvidos que se incorporam às economias e sociedades
mais desenvolvidas para levar adiante o processo de acumulação capi-
talista destas últimas.
Quotidianamente milhares de pessoas emigram de países como
Honduras, Guatemala, Haiti ou México, entre outros, para se introdu-
zir de forma indocumentada nos Estados Unidos, viajando por terra ou
por mar nas piores condições de transporte, alimentação e segurança.
Nesse intuito, muitos perdem a vida (por inanição, frio, asfixia etc.),
durante o trajeto ou nas mãos das forças de segurança.
Assim, os Estados Unidos estabelecem as redes de população mi-
grante que abastecem sua necessidade de trabalhadores em empresas
maquiladoras, cultivos agrícolas, serviços pessoais e domésticos na Ca-
lifórnia, no Texas, em Nova York, na Arizona e no resto dos estados.

A SUPEREXPLORAÇÃO DOS TRABALHADORES MIGRANTES MEXICANOS NOS ESTADOS UNIDOS 41


O uso desta força de trabalho permitiu responder ao seu processo de
produção e reprodução capitalista: por um lado, mediante a sustentação
dos ramos de produção de vanguarda com o emprego de trabalhado-
res qualificados do mundo todo, especialmente asiáticos; e, por outro,
com os setores mais atrasados tecnologicamente, que utilizam de forma
massiva a força de trabalho menos qualificada, mais barata e superex-
plorável, os latino-americanos, em especial, os mexicanos.
Entender a dinâmica do movimento migratório dos trabalhadores
latino-americanos, a partir do fluxo mais intenso representado pelos
mexicanos, é fundamental no contexto regional e mundial de confronto
racista e xenófobo em relação a estas populações que, aparentemente,
emigram do seu país por “vontade própria” e sem motivos claros4 que
os levem a arriscar sua vida, romper laços familiares e culturais e ir à
procura de um país que, frequentemente, se propagandeia como a nação
mais universal e cosmopolita, que recebe os povos do mundo com os
braços abertos e “ajuda” o Terceiro Mundo empregando trabalhadores
migrantes na sua economia e, outras vezes, como nação saturada pela
praga estrangeira, que deve ser detida e expulsa de qualquer forma5.
Neste trabalho buscamos explicar a lógica geral à que respondem os
movimentos migratórios de latino-americanos para os Estados Unidos
e, em particular, de mexicanos, e como o processo de superexploração é
a chave para entender a crescente incorporação destes trabalhadores no
mercado de trabalho estadunidense.
Para isso, dividimos este trabalho em três grandes seções: a primei-
ra tenta situar a importância dos movimentos populacionais para os
processos de acumulação capitalista hoje em dia, para logo, na segunda

4 A crescente pobreza, o maior desemprego e subemprego, a diminuição do salário, e a de-


gradação geral das condições de vida que o neoliberalismo tem imposto à população mun-
dial não resultam explicação suficiente para aqueles que mantêm uma postura alarmista,
de surpresa ou inclusive xenofóbica e racista em face aos crescentes fluxos migratórios no
mundo todo.
5 Em 1954, a “Operação costas molhadas” (Operación espaldas mojadas) constituiu a cam-
panha mais extensiva de perseguição e expulsão de força de trabalho migrante. A vigi-
lância policial e a militarização ampliada começaram a fazer parte da regulamentação
da mão de obra migrante, de forma que a atual campanha anti-imigrante desdobrada nos
Estados Unidos, não constitui um fenômeno novo ou original.

42 Superexploração do trabalho no século XXI


seção, identificar o papel que os migrantes latino-americanos têm tido
no desenvolvimento do capitalismo nos Estados Unidos, salientando o
caso dos migrantes mexicanos. E, por último, interessa-nos introduzir
a reflexão da superexploração do trabalho migrante para mostrar como
esta forma de exploração tem se constituído na forma generalizada nos
Estados Unidos.

O contexto mundial: acumulação do capital e fluxos


migratórios
O desenvolvimento do capitalismo tem gerado condições de misé-
ria, desemprego, fome, devastação ambiental, guerras e perseguições
políticas que movem as populações, principalmente, de países subde-
senvolvidos a emigrar para países que oferecem melhores possibilidades
de sobrevivência.
A tendência da migração internacional na segunda metade do sécu-
lo XX indica um crescimento constante e acelerado da população envol-
vida nesse processo: entre 1945 e 1990, em torno de 100 milhões pessoas
de emigraram de seus países de origem (Peña; 1995a); enquanto que
para o ano de 2015, a cifra esperada era de 244 milhões (Conapo, 2015).
Isto significa que nos últimos 25 anos a migração internacional aumen-
tou cerca de 150%. Porém, em relação ao total da população mundial
atual, a população migrante ainda constitui uma porção muito pequena
(3,3%). Ainda assim, devido ao seu acelerado crescimento, o fenômeno
migratório se apresenta como um elemento central no desenvolvimento
e ampliação do mercado mundial, e tenderá a se generalizar numa es-
cala mundial.
Dos 244 milhões de migrantes que foram calculados para o ano
2015, aproximadamente 16 milhões se movimentavam para procurar
refúgio, devido a razões políticas, religiosas e ecológicas, enquanto
228 milhões (93,4%) emigravam diretamente por causas econômicas,
ou seja, buscando emprego e um salário melhor. Portanto, a migração
internacional da população é hoje fundamentalmente um processo de

A SUPEREXPLORAÇÃO DOS TRABALHADORES MIGRANTES MEXICANOS NOS ESTADOS UNIDOS 43


migração de mão de obra (que inclui trabalhadores ativos, subempre-
gados e desempregados com suas respectivas famílias quando isto é
permitido).
A participação produtiva (produção de mercadorias e serviços e,
principalmente, lucros) e reprodutiva (produção física e espiritual dos
trabalhadores) dos migrantes nos países de imigração permite sustentar
o processo de acumulação de capital nesses países, porém também afeta
direta e indiretamente os processos de acumulação e desenvolvimen-
to capitalista dos países de origem, quer seja como fator positivo – via
remessas financeiras ou intercâmbios mercantis e culturais – quer seja
desestruturando-os pela “fuga de cérebros” ou o espólio e a expulsão de
territórios com todas as implicações que isto envolve (ruptura de laços
familiares, costumes etc.).
Assim, os processos migratórios são parte de uma dinâmica de
mundialização do modo de produção capitalista que tende à conforma-
ção do mercado mundial de mercadorias (meios de produção e meios de
subsistência), de capitais e de força de trabalho (mercado laboral).
Na perspectiva dos países de imigração, observa-se o aspecto racio-
nal do processo de uso da mão de obra migrante como causa que pro-
move a migração internacional de trabalhadores, mas na perspectiva
dos países de emigração o que observamos é a lógica da “globalização
da pobreza” como sinaliza Armando Bartra (2003).
A imigração da força de trabalho tem uma dupla utilidade nos paí-
ses que a recebem:
a. a) No processo de produção, a imigração provê a força de traba-
lho que se necessita por escassez de trabalhadores de certa qua-
lidade específica e a tendência tem sido de que os salários destes
trabalhadores migrantes sejam menores que os dos trabalhado-
res da nação receptora, com isso se implementam dinâmicas de
superexploração6.
b. b) No processo de reprodução, a integração, parcial ou comple-
ta, da população imigrante no espaço social do país de chegada

6 Na terceira seção detalharemos o que entendemos por superexploração do trabalhador


migrante.

44 Superexploração do trabalho no século XXI


permite7 atenuar diretamente problemas de escassez de popula-
ção (baixas taxas de natalidade), reduzir os salários, o que tende
a degradar a qualidade de vida e a saúde dos operários nacionais
e imigrantes. Também, este exército de trabalhadores migran-
tes permite exercer um maior controle sobre a classe operária
nacional, mediante o confronto étnico entre os trabalhadores
nacionais e os estrangeiros, ou entre os próprios estrangeiros
(processos de racismo e xenofobia).

A migração internacional dos trabalhadores está produzindo mu-


danças essenciais nos processos de produção mundial e reprodução so-
cial em geral. Além de ser alavanca para que aconteça a acumulação
de capital, esta imigração tende a reduzir os sujeitos produtores à sua
condição de mercadoria barata, de força de trabalho. A mistura de ca-
pacidades e necessidades dos trabalhadores do mundo todo, gerada pela
migração de pessoas, potencia o desenvolvimento das forças produtivas
técnicas e de procriação que, embora o capital procure subordinar a
seu processo de acumulação, também faz com que os trabalhadores,
ao vivenciá-lo (mesmo que alienadamente), descubram a força de uma
nova universalidade produzida no capitalismo. Esta nova socialidade,
que aglutina a grande diversidade material e espiritual que habita este
mundo, tem como meio básico de conexão a migração internacional da
população.
Com a migração laboral, o benefício que obtêm os capitalistas das
regiões desenvolvidas é muito maior que o derivado dos baixos salários
pagos ao trabalhador migrante8.

7 A integração familiar dos trabalhadores imigrantes permite subordinar a procriação desta


força laboral à dinâmica da acumulação do capital no país de imigração e, ademais, in-
corporar as mulheres estrangeiras – e inclusive as crianças – ao processo produtivo, o que
gera profundas modificações nas formas de reprodução da população migrante (educação,
saúde, moradia, família, moral, cultura, religião etc.).
8 Os salários que recebem os trabalhadores migrantes no país de imigração são mais eleva-
dos que os que se lhes paga no seu país de origem, porém é menor ao estabelecido dentro
do país de imigração para os trabalhadores nacionais (quer dizer, é um pseudosobresalá-
rio) (Peña, 1995).

A SUPEREXPLORAÇÃO DOS TRABALHADORES MIGRANTES MEXICANOS NOS ESTADOS UNIDOS 45


O benefício para o capitalista do país de imigração desenvolvido
provém de três fontes relacionadas com a superexploração do trabalha-
dor migrante:
a. do emprego de uma força de trabalho por cuja produção e ca-
pacitação não se teve nenhum custo e cujo salário é muito me-
nor que o da força de trabalho nacional pelo simples fato de ser
estrangeira;
b. da utilização de operários dispostos a aceitar jornadas de traba-
lho mais extensas e intensas, sem direito a moradia e educação
nem a condições laborais salubres e seguras nem a se organizar
em sindicatos; e
c. de substituir os trabalhadores nacionais por estrangeiros, mais
dóceis – por medo, solidão, despolitização etc. – e baratos.

Assim, por meio da pressão deste novo exército industrial ativo e de


reserva, o capital do país desenvolvido consegue homogeneizar a dimi-
nuição dos salários e as condições laborais e de vida dos trabalhadores
nacionais e de toda a classe operária (base da superexploração do traba-
lho), ademais de dividir esta última e, portanto, debilitá-la em termos
políticos e sociais.
As formas pelas quais se adquirem estes benefícios, que usufruem os
empresários mediante a exploração do trabalhador estrangeiro em cada
região de imigração, são distintas segundo o grau de desenvolvimento
econômico, político e cultural de cada uma dessas regiões.

A migração internacional latino-americana: chave para a


acumulação de capital nos Estados Unidos
Estados Unidos é o exemplo mais claro de um país conformado a
partir da migração internacional, utilizada para se prover tanto de for-
ça de trabalho qualificada para seus processos produtivos de vanguar-
da como de força de trabalho pouco qualificada para os setores mais
atrasados de sua economia. Ademais, a diversidade étnica de seus mi-
grantes tem-lhe permitido confrontar entre si estrangeiros e inclusive
dentro de um mesmo grupo étnico, em virtude da diversidade de tipos

46 Superexploração do trabalho no século XXI


de trabalhadores que imigram de uma mesma região (por exemplo, os
asiáticos entre si ou contra os latino-americanos).
Apesar desta ampla organização para controlar e explorar melhor o
estrangeiro, os Estados Unidos têm tido que enfrentar mobilizações de
resistência por parte dos latinos e asiáticos residentes no seu território9.
Os Estados Unidos é atualmente o país com maior quantidade de
população estrangeira no seu território, sendo mais de 45 milhões de
pessoas em 2015 (Pew Research Center, 2015a). Paradoxalmente, ao
mesmo tempo em que é o país com as políticas imigratórias mais defi-
nidas e seletivas, é também o que mais recorre à migração indocumen-
tada. Embora hoje as autoridades afirmem não poder controlar suas
fronteiras das “ondas de indocumentados”, continuamente se descobre
que esta imigração constitui um fluxo “oculto” em que se alicerça o
poderio estadunidense, proporcionando a força de trabalho necessária
para a agricultura e as indústrias mais atrasadas dos Estados Unidos
com melhores condições para sua exploração, pelo fato de ser estrangei-
ra e indocumentada.
Para a regulamentação destes fluxos de imigrantes nos Estados Uni-
dos, as amplas campanhas xenofóbicas e racistas desempenham um pa-
pel central, desencadeando-se em períodos de crise econômica, como
o atual, nos quais é preciso expulsar massivamente trabalhadores por
meio de múltiplas formas de violência.
Os migrantes mexicanos constituem o maior fluxo populacional
que chega aos Estados Unidos, cerca de 12 milhões de imigrantes eram
calculados para 2016, segundo cifras oficiais do Conselho Nacional
de População (Consejo Nacional de Población-Conapo); mais cerca de
7 milhões de indocumentados. Assim, os mexicanos conformam-se
como o maior contingente nacional que é expulso do seu país na pro-
cura de condições de vida para eles e suas famílias, que ficam no país
de origem e sobrevivem de remessas periódicas. Se incorporarmos os
mexicanos nascidos e nacionalizados nos Estados Unidos, temos uma

9 Por exemplo, as lutas contra a lei Sensembrenner em 2006 e as recentes mobilizações con-
tra as medidas xenófobas e racistas do atual presidente Trump que beiram escancarada-
mente ao fascismo.

A SUPEREXPLORAÇÃO DOS TRABALHADORES MIGRANTES MEXICANOS NOS ESTADOS UNIDOS 47


população de cerca de 40 milhões de pessoas de origem mexicana mo-
rando nesse país. De fato, a fronteira México-Estados Unidos é a mais
transitada do mundo pelos migrantes legais e indocumentados e por
trabalhadores fronteiriços (que moram no México, mas trabalham nos
Estados Unidos).
A imigração internacional de população, que permite o uso de uma
força de trabalho muito barata e explorável, é complementada nos Es-
tados Unidos e demais países desenvolvidos com migração de capitais
a países subdesenvolvidos para conseguir a valorização do capital me-
diante a superexploração da força de trabalho destes últimos com em-
presas maquiladoras, subcontratação etc.
A discriminação dos trabalhadores estrangeiros é uma característi-
ca sobressalente da política migratória estadunidense, não apenas por
abrir ou fechar as fronteiras para certas nacionalidades específicas (prá-
tica generalizada em todos os países de imigração), senão pela utiliza-
ção massiva de trabalhadores temporários, que não são reconhecidos
como imigrantes nem como cidadãos. Em vez disso, dá-se-lhes o cará-
ter de “ilegais” com o objetivo de mantê-los em situação laboral mais
degradante e marginal. Esta política dual de migração (por via legal e
indocumentada) corresponde à estrutura dos operários ativos, desem-
pregados e subempregados (não apenas dos trabalhadores estrangeiros,
senão também dos nacionais) que requer a economia estadunidense
para sua acumulação.
A razão pela qual esta força de trabalho não é reconhecida como
imigrante legal (quer dizer, como força de trabalho necessária) radica
na possibilidade de gerar nela maior vulnerabilidade, tanto dentro do
processo de trabalho como nos aspectos legais e sociais que afetam as
condições de vida dos trabalhadores imigrantes. Assim, em períodos de
recessão, como o atual, os ataques contra a imigração se dirigem, em
primeira instância e de maneira violenta, contra esses trabalhadores10.

10 É importante lembrar que desde a Operação Costas Molhadas, em 1954, se instauram


estas formas de criminalização contra os imigrantes nos Estados Unidos: “Com ajuda de
oficiais federais, estatais, dos condados, do FBI, do exército e da marinha, apoiando-se
no dispositivo militar e na opinião pública, a patrulha fronteiriça desdobrou a campanha
mais extensiva até então contra a força de trabalho mexicana, muito vulnerável. A vigi-

48 Superexploração do trabalho no século XXI


Se tomarmos toda América Latina como uma região só (incluindo
o México), em 1970 havia cerca de 1.2 milhões de imigrantes latino-
-americanos nos Estados Unidos, enquanto que para 2015, essa popu-
lação ascendia a aproximadamente 21.2 milhões (Pew Research Center,
2015b). Se observarmos o número de pessoas de origem hispana que era
calculado para 2015, 55.2 milhões, pode se apreciar mais claramente e
reconhecer que o capital estadunidense está em condições de controlar
um grande Exército Industrial de Reserva, uma mão de obra o sufi-
cientemente barata para sustentar a concorrência no mercado mundial
com outras regiões capitalistas, como o próprio leste asiático, particu-
larmente, a China.
Nesse sentido, parece-nos importante a reflexão que faz Barreda
(1996, p. 221) em relação a este tema:

“As disciplinadas e extremadamente baratas classes operá-


rias mexicanas e latino-americanas são hoje uma impor-
tante vantagem comparativa a favor dos Estados Unidos
contra a pujante indústria chinesa, recém-orientada ao
mercado mundial. Na medida em que esta última penetra
com grande sucesso nos mercados internacionais de ma-
nufaturas simples (têxteis, bens domésticos etc.), os Esta-
dos Unidos, a União Europeia e o Japão procuram conter e/
ou contra-atacar esta nova investida no universo dos lucros
extraordinários, organizando dentro de suas respectivas
áreas de influência dezenas ou centenas de milhões de tra-
balhadores que sejam tão superexploráveis como os chine-
ses. Este uso da força de trabalho latino-americana seria
uma empresa impossível de realizar se o terceiro mundo
não tivesse sido construído historicamente sobre a base
dessa figura prévia da dependência”.

A conformação deste Exército Industrial de Reserva latino-america-


no para os Estados Unidos acontece num contexto no qual os governos
neoliberais deste país, têm se dedicado a abater as condições de vida

lância policial e a militarização ampliada chegaram a formar parte da regulamentação da


mão de obra” (Gómez-Quiñones, 1978, p. 86).

A SUPEREXPLORAÇÃO DOS TRABALHADORES MIGRANTES MEXICANOS NOS ESTADOS UNIDOS 49


de toda a classe operária estadunidense. Desmantelaram-se sindicatos,
contratos trabalhistas e boa parte da previdência social (saúde, educa-
ção, seguro de desemprego, moradia etc.). Segundo David Harvey, des-
de 1968 e até o ano 2000, o valor do salário mínimo estabelecido nos
Estados Unidos tinha descido aproximadamente 30% em termos reais,
o que colocava aqueles que ocupam cargos em tempo integral retribuí-
dos com salários mínimos bem abaixo da linha da pobreza. O aumen-
to do salário mínimo em 1997 (5.15 dólares, do ponto de partida de
4.25 dólares a hora em 1994) seguia estando muito abaixo dos níveis
de 1968: “Com grande frustração pela incapacidade de conseguir um
salário digno para viver a escala nacional, toda uma série de campanhas
e agitações locais eclodiu nos últimos anos em todo o país numa escala
mais local” (Harvey, 2000, p. 146).
Estas políticas, que ademais se conceberam num contexto de altos
índices de desemprego e crescente oferta de empregos com baixa remu-
neração, crescente desigualdade na distribuição do ingresso e um au-
mento do índice de pobreza, abrangeram toda a classe operária estadu-
nidense (nacional e estrangeira), embora afetassem mais os estrangeiros
(especialmente, os chamados hispanos e, entre estes, os mexicanos) e a
população negra (Levine, 2001, p.69).
Em 2007, o total de pessoas consideradas pobres nos Estados Uni-
dos chegava a 43.1 milhões, dos quais 12.1 milhões eram hispanos (U.S.
Census Bureau; 2016).
Assim, em condições de crise e de reestruturação produtiva, com
um crescente número de imigrantes e de população nascida no exte-
rior11, as contradições e os confrontos entre população estrangeira e tra-
balhadores nacionais se agudizam. O ambiente de xenofobia e racismo é
o que impera. Nos próprios bairros operários, onde convivem hispanos,
asiáticos e negros surgem situações de violência que são aproveitadas

11 Esta categoria inclui os imigrantes legais, os chamados não imigrantes, que são estran-
geiros admitidos por períodos temporários e para um propósito específico (geralmente,
se trata de funcionários, empregados de empresas, estudantes e turistas); e também, se
incluem os refugiados que não adquiriram a categoria de imigrantes legais.

50 Superexploração do trabalho no século XXI


mediante o uso da força policial para controlar, inclusive de maneira
militarizada, esses grupos sociais12.
A partir dos anos noventa, a política migratória dos Estados Uni-
dos torna-se mais restritiva e violenta para os latino-americanos, espe-
cialmente, para os trabalhadores mexicanos. Em 1993, com a Operação
Bloqueio (Operación Bloqueo), são construídos cercas e fossos na fron-
teira com México (Ciudad Juárez-El Paso), passam a serem utilizadas
novas tecnologias para a detecção de indocumentados e se incrementa
significativamente o número de efetivos de Patrulha Fronteiriça. Em
1994, essa primeira intervenção é reforçada com a Operação Guardiã
(Operación Guardián) –construção de barreiras e reforço da patrulha
fronteiriça em Tijuana-San Diego – ao mesmo tempo que o Congresso
do estado da Califórnia aprova a Lei 187 (que fica suspensa um ano
mais tarde por ordem judicial), para negar assistência social – saúde e
educação – a trabalhadores indocumentados e suas famílias. Em 1995,
instrumenta-se a Operação Salvaguarda (Operación Salvaguarda), em
Yuma-Tucson e os candidatos à presidência dos Estados Unidos re-
tomam a problemática migratória como tema eixo das campanhas,
coincidindo no endurecimento da política migratória. Em 1996, pro-
põem-se duas iniciativas de lei, uma restringe a assistência social aos
trabalhadores indocumentados e outra propõe para estes um tratamen-
to de criminosos, eliminando todos seus direitos civis (a proposta de lei
antiterrorista) (Peña, 1996, p. 29). Em 1997, implementa-se a Operação
Rio Grande (Operación Río Grande), em Texas-Novo México e se esta-
belece o aumento de mil agentes fronteiriços por cinco anos consecu-
tivos e a aquisição e melhoria de equipamento tecnológico de controle
fronteiriço. Após os atentados de 11 de setembro de 2001, fecham-se os
cruzamentos menos perigosos e se estabelecem controles mais rígidos
nas fronteiras e dentro das cidades; se proíbe o pedido de entrada tem-
porária ou permanente nos Estados Unidos para qualquer pessoa que
permaneceu indocumentada no país durante um ano; multas e prisão

12 Nos distúrbios na cidade de Los Ángeles, Califórnia, em 1992, depois do protesto de cida-
dãos negros e latinos pela repressão policial de que foram objeto, o governo fez intervir o
exército e expulsou uma boa quantidade de latinos. Ver ao respeito: La Jornada, de 02 a 08
de maio de 1992.

A SUPEREXPLORAÇÃO DOS TRABALHADORES MIGRANTES MEXICANOS NOS ESTADOS UNIDOS 51


para os imigrantes que tenham excedido o tempo autorizado pelo visto;
detenção de todo estrangeiro com antecedentes delitivos (inclusive ape-
nas multas de trânsito); restrições nos benefícios sociais para os indocu-
mentados, como saúde e educação, e o estabelecimento de critérios mais
estritos em relação ao nível de ingresso dos patrocinadores de poten-
ciais migrantes. No início de 2005, aprova-se a legislação Real ID (iden-
tificação real) que funciona como reforma antimigrante, pois obriga os
governos estatais a verificar a condição migratória de todo solicitante
de carteiras de motorista. Além disso, endurece os requisitos para ou-
torgar asilo político a refugiados e autoriza fundos para construir mais
muralhas na fronteira com o México. Em dezembro de 2005, sanciona-
-se na Câmera de Representantes um dos projetos de lei mais amplos e
restritivos na história anti-imigratória dos Estados Unidos. Dito projeto
é proposto por James Sensenbrenner e Peter King. Ao ser promulga-
do como lei, tornaria delito federal cruzar a fronteira de maneira ilegal
(com isto se criminalizaria o imigrante). Ademais, estabeleceria fortes
penas contra companhias e empresas que contratam migrantes indocu-
mentados, negaria serviços estatais aos mesmos, aceleraria os processos
de deportação, aumentaria a capacidade dos centros de detenção para
poder manter os migrantes presos até serem deportados, converteria a
polícia estatal e local em agentes de imigração. Propõe, ainda, a cons-
trução de um muro fronteiriço e a condenação a 5 anos de prisão a toda
pessoa que dê assistência aos imigrantes indocumentados, tal como
dar-lhes comida, teto ou aconselhamento jurídico. Com esta lei crimi-
nalizavam-se não apenas os 11 milhões de imigrantes indocumentados
que estavam previstos para esse ano nos Estados Unidos, mas também
as empresas que os contratavam e as famílias, amigos e organizações
de direitos civis que os apoiavam. Por esta razão, a aprovação da Lei
Sensenbrenner na Câmara de Representantes, alertou a centenas de or-
ganizações de imigrantes em todo o país, e gerou a mais ampla mobi-
lização pela defesa dos direitos dos imigrantes na história dos Estados
Unidos. Embora a mencionada lei fosse dirigida centralmente contra
os imigrantes indocumentados, também afetaria, de maneira direta e
indireta, os direitos dos que tinham documentos, por isso, a mobiliza-
ção incluiu todo tipo de organizações e agrupamentos de migrantes, ou

52 Superexploração do trabalho no século XXI


minorias relacionadas com estes grupos, o mais significativo dos quais
foi sem dúvida a população hispana e, dentro desta, a população mexi-
cana. Assim, no início de 2006, mais centralmente nos meses de março,
abril e maio, os Estados Unidos foram testemunhas de mobilizações
massivas de imigrantes de todas as nacionalidades, principalmente os
mexicanos, em mais de 50 cidades.
Depois das mobilizações de 2006, geraram-se várias propostas de
discussão sobre a reforma migratória, por exemplo, uma das “melhores
ofertas”, proposta em junho desse ano, incluía regularizar o status de
entre 8 e 9 dos mais de 11 milhões de indocumentados que existiam,
também propunha expedir 200 mil vistos de trabalho por ano para tra-
balhadores hóspedes (Rosas-Landa, 2006).
A reforma migratória continua sem ser discutida e, em vez disso, o
que temos é uma onda crescente de repressão anti-imigrante que, desde
2007, vem se agudizando com as crises econômicas e sociais, assumindo
uma forma cínica e mais violenta em 2017 com a presidência de Donald
Trump, em que se vivencia um aumento crescente no número de depor-
tações (em 2006, foram 240 mil pessoas; em 2008, a cifra subiu para 323
mil, e, para 2016, calculava-se que chegaria aos 3 milhões); além de um
aumento nas detenções de imigrantes indocumentados (em 2006, foram
presos 15.462 imigrantes; em 2007, o número praticamente dobrou com
30.408 detenções); blitz massivas nos locais de trabalho (como a do dia
25 de agosto de 2008, uma das maiores de seu tipo na história dos Esta-
dos Unidos, que foi realizada em uma fábrica de transmissores em Lau-
rel, Mississipi); e novas modalidades de detenções, como as deportações
feitas nos hospitais, do país todo, de pacientes estrangeiros em estado
grave e com doenças críticas, que não têm documentos migratórios em
ordem nem seguro de saúde (Noticias Latinas; 2009); ou a denúncia da
Casa del Migrante Poblano, que assegura que existam atualmente, na
Califórnia, 30 poblanos aos que se lhes colocou uma tornozeleira ele-
trônica com a qual podem ser vigiados todos seus movimentos, através
de um dispositivo de Sistema de Posicionamento Global (GPS, pela sigla
em inglês), que lhes impede ir a qualquer lugar sem vigilância, enquanto
são levados a julgamento por ingressar ilegalmente aos Estados Unidos
(Puga; 2008).

A SUPEREXPLORAÇÃO DOS TRABALHADORES MIGRANTES MEXICANOS NOS ESTADOS UNIDOS 53


Podemos presenciar a mesma situação nas denúncias apresentadas
por mulheres hondurenhas na pré-audiência de Nova York do Tribu-
nal Permanente dos Povos (TPP) capítulo México, em setembro de 2014
(ver ditame Audiência Final, TPP Capítulo México, 2014).
Apesar desta ampla ofensiva contra a imigração mexicana e latino-
-americana, e, embora tenham diminuído os fluxos para os Estados
Unidos a partir de 2008 devido à crise econômica que se vivencia, estes
não têm cessado e continuam sendo muito importantes. A maioria dos
imigrantes latino-americanos, em especial no caso do México, tem op-
tado por sustentar-se e sobreviver à crise nos Estados Unidos, devido
a que a situação nos seus países de origem é mais problemática ainda.
Esta situação contraditória tem significado mais violência para aqueles
que tentam cruzar a fronteira13 e para quem consegue cruzá-la e en-
contrar um emprego nos Estados Unidos. Este é o contexto em que a
superexploração é possível e cotidiana.

A superexploração dos trabalhadores migrantes


mexicanos nos Estados Unidos

A. Como entendemos a superexploração do trabalho


A superexploração do trabalho é o pagamento da força de trabalho
abaixo de seu valor, implicando na degradação e pauperização da re-
produção imediata dos trabalhadores. Por isso, parece-nos importante
refletir sobre como opera esse mecanismo na dinâmica migratória, es-
pecificamente, entre o México e os Estados Unidos e a pertinência do
uso deste conceito para a compreensão do fenômeno migratório entre
ambos os países, e no resto da América Latina.

13 De acordo com cifras da Secretaria de Relações Exteriores, de janeiro de 1995 a março de


2004 foram repatriados 2.640 mexicanos mortos. Segundo cifras de Wayne Cornelius, da
Universidade de Califórnia em San Diego, o número de mortos na tentativa de cruzar a
fronteira foi de, ao menos, 3.218 pessoas de 1995 a 2003 (Cabrera, 2005, p. 41). O que faz
da fronteira México-Estados Unidos uma das mais perigosas do mundo e uma das mais
lucrativas para as máfias organizadas no tráfico de pessoas.

54 Superexploração do trabalho no século XXI


O tratamento do problema da superexploração não é tematizado por
Marx em uma seção específica de O Capital, senão que o encontramos
de forma implícita em distintas seções dos três tomos de sua principal
obra14.
Marx, ao explicar como se determina o valor da força de trabalho,
assinala:

“O limite último ou limite mínimo do valor da força de


trabalho é formado pelo valor da massa de mercadorias
sem cujo aprovisionamento diário o portador da força de
trabalho, o homem, não pode renovar o seu processo de
vida; isto é, o valor dos meios de subsistência fisicamente
indispensáveis. Se o preço da força de trabalho cai com res-
peito a esse mínimo, cai abaixo do seu valor, pois assim ela
só pode se conservar e desenvolver de forma atrofiada. Po-
rém, o valor de toda mercadoria é determinado pelo tem-
po de trabalho necessário para fornecê-la em seu estado
normal de qualidade.” (Marx, 1985, p. 210) [grifos nossos].

No caso dos imigrantes mexicanos nos Estados Unidos, deve-se


considerar que a maioria não vê retribuído o valor de sua força de tra-
balho15, isto se reflete nas suas condições de vida (problemas de desnu-
trição, superlotação de moradia, péssimas condições educativas, altos
níveis de pobreza etc.).
Existem vários mecanismos que permitem a superexploração do
trabalhador e que estarão presentes no caso dos migrantes latino-ame-
ricanos nos Estados Unidos. O fato de que a força de trabalho se pague
depois de ter sido consumida no processo produtivo permite desde a
perda ocasional do salário referente aos dias já trabalhados, quando o

14 Apenas citaremos alguns elementos que se expõem em relação às formas de exploração da


mais-valia absoluta e relativa, e sua exemplificação com a situação de superexploração dos
trabalhadores migrantes mexicanos nos Estados Unidos (Peña, 2012).
15 Se pensarmos no trabalhador migrante, falamos daquele trabalhador que deve se movi-
mentar espacialmente para levar a cabo seu processo de trabalho e, portanto, seu desloca-
mento implica uma separação entre seu lugar de reprodução social (espaço reprodutivo do
trabalhador com sua família) e seu lugar de trabalho. Esta separação de espaços deverá se
considerar no cálculo do valor de sua força de trabalho (Peña, 2012, p. 60-63).

A SUPEREXPLORAÇÃO DOS TRABALHADORES MIGRANTES MEXICANOS NOS ESTADOS UNIDOS 55


capitalista se declara em falência, até outro tipo de anomalias que impe-
dem que os salários paguem o valor da força de trabalho. No caso dos
trabalhadores imigrantes, em muitas ocasiões os empresários deixam
de pagar-lhes os salários, aproveitando situações como a condição clan-
destina ou simplesmente a falta de organização laboral dos primeiros.
Para o caso dos imigrantes mixtecos16 que trabalham nos campos da
Califórnia, segundo uma pesquisa do início dos anos noventa, um de
cada quatro tinha vivido pelo menos uma vez o roubo de seu salário por
parte do empresário que os contratava (Zabin et al., 2000).
Entre as anomalias que acontecem por pagar os salários depois de ter
consumido a força de trabalho, temos a adulteração dos meios de subsis-
tência do trabalhador, como outra forma de reduzir o valor da força de
trabalho e, com isso, sua qualidade reprodutiva normal17. No caso dos
imigrantes mexicanos nos Estados Unidos, o deslocamento tem gerado
uma mudança completa no sistema de alimentação e de vida em geral,
trazendo sérios problemas de desnutrição, obesidade e uma maior inci-
dência de doenças degenerativas. Também, tem que ser considerado que
esta população consome cotidianamente comida chatarra18 , produzida
nas redes de alimentação rápida estadunidenses nas piores condições e
de péssima qualidade nutricional.
Outro mecanismo que permite a superexploração é o pagamento do
salário a crédito. Através de mecanismos circulatórios de manipulação
de preços, estas situações são muito frequentes hoje em dia para os tra-
balhadores no geral. Entre os imigrantes mexicanos, em especial, no

16 N. da T.: Pessoas originárias do povo ameríndio que habita hoje os estados mexi-
canos de Oaxaca, Guerrero e Puebla.
17 É muito importante considerar este mecanismo de consumo na superexploração do tra-
balhador, devido a que em todo o século XX e o que passou do XXI, o capitalismo tem se
dedicado de maneira sistemática à adulteração dos valores de uso cotidiano que consome a
população (trabalhadora), degradando seus conteúdos para conseguir, dentre outros efei-
tos, o barateamento de seus custos sem diminuir os preços desses produtos. Ver trabalhos
de Jorge Veraza (1993) sobre a Subordinação Real do Consumo.
18 N. da T.: Tradução literal da expressão inglesa junk food, que se refere, de forma pejo-
rativa, aos alimentos com alto teor calórico e nível reduzido de nutrientes. Geralmente,
são alimentos com elevado conteúdo de gorduras saturadas, sal ou açúcares, e aditivos
alimentares.

56 Superexploração do trabalho no século XXI


caso dos indígenas que trabalham no campo nos Estados Unidos, estas
situações abrangem a moradia que lhes aluga o empresário contratante,
o transporte, a comida, a água, a energia elétrica, a internet e outros
meios de subsistência.
O prolongamento da jornada de trabalho além dos seus limites nor-
mais leva-nos, por um lado, à obtenção de uma mais-valia absoluta, mas
também é um mecanismo que permite a superexploração do trabalha-
dor, enquanto produz um desgaste extensivo da força laboral, que im-
plica a impossibilidade de pagar o valor do uso real que se faz dela em
uma jornada estendida; o desgaste do operário não equivale “a umas
horas a mais de trabalho”, senão que a reposição da força para laborar
leva muito mais tempo que essas horas; aí radica o roubo ao valor da
força de trabalho, ao tempo de vida do operário, portanto existe uma
superexploração do trabalhador (Marx, 1990, p.280-281a).
Além disso, o prolongamento da jornada de trabalho atenta dire-
tamente contra os tempos da reprodução do trabalhador e, portanto,
contra a qualidade dessa reprodução. Por essa via, conecta-se com a su-
perexploração do trabalhador:

“A comissão entende que prolongar a jornada de trabalho


por mais de 12 horas constitui uma usurpação da vida do-
méstica e privada do operário e provoca efeitos morais de-
sastrosos, intrometendo-se na intimidade doméstica de cada
homem e eximindo-o de seus deveres familiares como filho,
irmão, marido, pai. Esse trabalho de mais de 12 horas tende
a minar a saúde do operário e provoca assim uma velhice e
morte prematuras…” (Marx, 1990, p. 303b) [grifos nossos].

A superexploração dos trabalhadores implica assim não apenas sua


reprodução atrofiada, senão também é uma aniquilação prematura da
força de trabalho19. No caso dos imigrantes mexicanos temporários e

19 Outro elemento a considerar nesta aniquilação prematura da força de trabalho, pela exten-
são da jornada laboral, é sua mais rápida reposição. Isto implica que o capitalista deveria
pagar dentro do valor da força de trabalho por esta substituição rápida do trabalhador,
mas, ao não pagá-la, se abre novamente uma diferença entre um menor salário pago e um
maior custo da força de trabalho, uma superexploração.

A SUPEREXPLORAÇÃO DOS TRABALHADORES MIGRANTES MEXICANOS NOS ESTADOS UNIDOS 57


indocumentados esta situação é levada ao extremo, isto é, pelo fato da
maioria deles ter sua família em outro país e, portanto, preferir con-
tinuar trabalhando para enviar mais dinheiro, permite ao capitalista
levar ao extremo a extensão da jornada de trabalho, embora reduzin-
do ao mínimo as necessidades reprodutivas do trabalhador (comer,
dormir e se assear em moradias ou espaços superlotados e pouco pro-
pícios para isso).
Em relação à reflexão sobre a mais-valia relativa (capítulo 10, tomo
I), a superexploração é vista como uma situação que viola os limites nor-
mais do processo de exploração do trabalho, pois implica a apropriação
de parte do tempo de trabalho necessário do trabalhador (capital variá-
vel) como único método para estender o trabalho excedente sem recor-
rer à extensão da jornada nem à produtividade crescente, que barateie
o custo dos meios de subsistência que conformam o valor da força de
trabalho. Esta redução do salário abaixo do valor da força de trabalho,
como assinala Marx, desempenha um papel importante no movimento
real dos salários, porém em virtude dos pressupostos metodológicos de
O Capital, não é um tema abordado por extenso nessa obra, sem signi-
ficar por isso que não seja uma realidade do capitalismo e que seja tão
importante como a necessidade de pagar o valor da força de trabalho de
forma completa20. No caso dos imigrantes mexicanos, o montante dos
seus salários diminui à medida que aumenta sua vulnerabilidade; isto é,
se são indocumentados, temporários, indígenas, mulheres, jovens, tra-
balhadores agrícolas, que trabalhem em uma região de imigração etc.
(Peña, 2012 e Ocampo, 2015).
Em relação ao uso das máquinas e à superexploração do trabalha-
dor, Marx (1984, p.479a) coloca:

20 Barreda (1994, p. 225) reflete sobre isto: “De fato, o pagamento da força de trabalho por
seu valor resulta um pressuposto indispensável para a demonstração lógica do processo
de valorização, porém isso não esgota o seu significado... a superexploração também está
presente como pressuposto lógico-real na estruturação de todo o discurso de O capital,...
afirmo que o ponto de partida é, em verdade, um paradoxo que contempla, ... o pagamento
da força de trabalho pelo seu valor e, uma vez que se desdobra o desenvolvimento capita-
lista das forças produtivas, a tendência a transgredir esta equivalência.”

58 Superexploração do trabalho no século XXI


“Nos países desenvolvidos desde a antiguidade, o emprego
da máquina em determinados ramos da indústria gera em
outros tal superabundância de trabalho que nestes a que-
da do salário abaixo do valor da força de trabalho impede
o uso da maquinaria e o torna supérfluo, com frequência
impossível, do ponto de vista do capital, cujo lucro, além
disso, provém da redução não do trabalho empregado, se-
não do trabalho pago.” [grifos nossos]

É frequente encontrar nos ramos produtivos com mais atraso tecno-


lógico a utilização de mão de obra barata, onde os imigrantes estrangei-
ros têm um papel preponderante. Entre eles, sabemos que, no caso dos
Estados Unidos, os imigrantes mexicanos ocupam um dos níveis mais
baixos. Este uso intensivo da mão de obra, ao invés do uso da máquina,
não é apenas um problema de custos, senão que, é claro, implica uma
degradação física (uma atrofia de seus corpos e sua saúde) e moral dos
trabalhadores.
É preciso lembrar que existe uma relação de organicidade entre a
superexploração e o uso da maquinaria. Um primeiro efeito é que ao
incorporar todos os membros da família ao trabalho assalariado, a ma-
quinaria desvaloriza a força de trabalho do operário, pois obriga sua
mulher e filhos contribuírem trabalhando para obter o salário familiar,
que antes ele obtinha sozinho. Ademais da desvalorização da força la-
boral dos integrantes da família operária, a incorporação de mulheres
e crianças como parte dos assalariados, aumentou o ritmo e nível de
degradação reprodutiva do trabalhador e sua família, levando-os a si-
tuações completamente desumanas21. Assim, o uso do trabalho infantil
e feminino, permite a superexploração do trabalho e com isso amplia
a degradação da reprodução dos trabalhadores e sua família. No caso
dos trabalhadores imigrantes mexicanos nos Estados Unidos, ob-
servamos que o crescimento do trabalho das mulheres migrantes vai

21 Entre os temas que aborda Marx em relação a isto temos: a escravização dos filhos pelos
pais, a enorme mortalidade das crianças dos operários nos seus primeiros anos de vida, o
descuido e maus-tratos de crianças pela ocupação extradoméstica das mães, a depravação
das mulheres, a devastação intelectual do trabalhador e sua família, e a crítica à “educa-
ção” fabril (Marx, 1984).

A SUPEREXPLORAÇÃO DOS TRABALHADORES MIGRANTES MEXICANOS NOS ESTADOS UNIDOS 59


pauperizando as condições de reprodução física, emocional e espiritual,
não apenas delas mesmas como trabalhadoras, senão dos seus filhos e,
inclusive, de seus esposos. Se a isto agregamos que os trabalhos desti-
nados às mulheres são retribuídos com um salário menor e com piores
condições laborais, temos uma população trabalhadora predisposta à
superexploração.
Outro efeito que produz a incorporação da maquinaria sobre o ope-
rário é o prolongamento da jornada de trabalho até seus máximos li-
mites e, como vimos, isto é um meio para a superexploração. Assim, o
desenvolvimento da maquinaria e a grande indústria não se comple-
mentam com a superexploração do trabalho senão que a promovem e
ampliam. É importante situar esta relação, porque, às vezes, se pensa
que a superexploração do trabalho é produto de uma falta de desenvol-
vimento das forças produtivas, porém, como vimos, ao invés disso, a
superexploração é facilitada com o uso das máquinas. Então, não deve
nos estranhar o fato de encontrar um amplo uso da superexploração
do trabalho em um país desenvolvido como os Estados Unidos22, e não
apenas como um fenômeno da periferia capitalista23.
O que temos à nossa frente é um paradoxo do desenvolvimento ca-
pitalista: tanto o desenvolvimento da produtividade, como o seu oposto,
o desenvolvimento da superexploração, são parte da forma como se leva
adiante o processo de produção capitalista. Estas formas se determinam
mutuamente, devido a que o desenvolvimento da tecnologia, e com ela,
da produtividade, produz uma população excedente que será a base

22 Em relação à superexploração nos países desenvolvidos, veja-se o texto de Grossmann


(1979), sobre a teoria dos salários que explica a superexploração como uma tendência dos
salários à medida que o capitalismo se desenvolve, e o texto de Sotelo (2003) sobre a rees-
truturação atual do mundo do trabalho, em que se exemplifica como opera a superexplo-
ração entre os operários nacionais das indústrias dos países desenvolvidos.
23 Trabalhos acerca da periferia capitalista e a superexploração são os de: Ruy Mauro Marini
(1973), que desenvolve a problemática da dependência latino-americana, e os trabalhos
de seus alunos na UNAM que exploram diferentes determinantes da superexploração nas
economias latino-americanas: a intensidade e extensão da jornada laboral, assim como
o corte na cesta básica e a incorporação da família operária no trabalho produtivo. Ver
Osorio (1975), Cabral e Arroio (1974), Arteaga e Sotelo (1978), Arteaga, Sotelo e Marini
(1981), Farfán, Jiménez e Escobar (1980), Molina e Hernández (1981), Ceceña (1982),
Castro (1983), Pineda (1981) e Spagnolo (1984).

60 Superexploração do trabalho no século XXI


para que se opere a superexploração de forma mais adequada e contínua
(Marx, 1984, p. 496-497b).
Embora o uso da maquinaria possa permitir inclusive a redução da
jornada, graças à crescente produtividade do operário, isto não signi-
fica menos trabalho para ele, senão a possibilidade de ser ainda mais
espoliado. A intensificação da jornada “não se vê” tão claramente como
a extensão da mesma, mas sim se sente no desgaste do operário. Assim,
o desgaste crescente da força laboral nos remete à superexploração do
trabalho, cada vez mais sob mecanismos mais complexos, como o au-
mento da velocidade da máquina ou a ampliação do campo de trabalho
do operário. Com este mecanismo da intensificação do trabalho fica
mais claro como opera a superexploração nos países desenvolvidos, nos
trabalhadores industriais, agrícolas e de serviços urbanos e, claro, nos
trabalhadores imigrantes que chegam a esses países para laborar a um
ritmo de trabalho muito mais intenso que nos seus países de origem.
Sem dúvida, seria interessante um estudo de como opera a intensifica-
ção do trabalho nos diversos ramos produtivos na contemporaneidade.
A crescente mortalidade dos trabalhadores assim como as novas doen-
ças, causadas pela intensificação do trabalho, são um fato concreto e
escandaloso do desenvolvimento capitalista24 atual. No caso dos traba-
lhadores imigrantes mexicanos nos Estados Unidos, encontramos a si-
tuação de embaladoras de carne ou processadoras de frango, por exem-
plo. Porém, consideramos que a superexploração do trabalho abrange
outros espaços laborais dos trabalhadores nos Estados Unidos e no resto
dos países capitalistas.
A superexploração do trabalho também é o cotidiano na manufa-
tura moderna e na indústria a domicílio. Basta inteirar-se das atuais
condições da indústria maquiladora para compreender a crueldade da

24 A esse respeito podem ser revisadas duas publicações do National Institute for Occupational
Safety and Health (NIOSH) dos Estados Unidos, uma dedicada ao estresse no trabalho
(niosh, 1998), outra às doenças e acidentes trabalhistas nos Estados Unidos (niosh, 2004).
Também, é interessante revisar as referências acerca da morte por excesso de trabalho
no Japão, fenômeno chamado Karoshi (en.wikipedia.org/wiki/karoshi) e a página da
Internet sobre o estresse no local de trabalho que mantém a Organização Internacional do
Trabalho (OIT). Veja-se também Sotelo (2003).

A SUPEREXPLORAÇÃO DOS TRABALHADORES MIGRANTES MEXICANOS NOS ESTADOS UNIDOS 61


situação em que vivem os trabalhadores que laboram nestes âmbitos
produtivos. Assim, encontraremos uma proporção muito ampla de
trabalhadores imigrantes mexicanos na indústria manufatureira e in-
dústria a domicílio nos Estados Unidos (especialmente, sob a forma de
maquilas).
Na revisão que fizemos da superexploração, observamos que se trata
de um mecanismo que se dá na circulação da mercadoria força de tra-
balho (no momento da compra-venda), mas que é apoiado por proces-
sos da produção, da distribuição e do consumo da força de trabalho ou
dos bens de subsistência que formam parte do valor da mesma (Barre-
da, 1994, p.222-223).

B. Condições que apoiam a superexploração da força de trabalho


migrante latino-americana nos Estados Unidos
Do mencionado até aqui, queremos enfatizar alguns elementos que
caracterizam a exploração e superexploração do trabalhador migrante
nos Estados Unidos:
• Os trabalhadores imigrantes se inserem de maneira desigual e
desfavorável na estrutura produtiva, em setores de trabalho que
exigem menor qualificação e pagam menos, e nos quais há pou-
ca ascensão ou deslocamento por capacitação.
• As diferenças nacionais que incidem no valor da força de traba-
lho e nos seus salários.
• Diferenças internas de salários em cada país, determinadas pela
produtividade, desenvolvimento tecnológico, grau de acumu-
lação de capital, setor econômico, pelas diversas categorias de
trabalho e condições geográficas e sociais que impactam sobre a
determinação do valor da força de trabalho migrante.
• As condições da procura e da demanda da força de trabalho (es-
pecificamente, na fronteira e nas regiões com maior participação
de imigrantes).
• As deportações como um mecanismo jurídico de regulação dos
fluxos.
• Os limites impostos pelo sindicalismo corporativo nos Estados
Unidos (por exemplo, os limites infra-salariais).

62 Superexploração do trabalho no século XXI


• Diferenças nas taxas de exploração entre ambos os países:
maior nos Estados Unidos do que no México (e outros países
latino-americanos).
• Diferença salarial entre migrantes residentes e migrantes tem-
porários. Aqui agregaríamos as diferenças salariais, portanto
de condição de vida, não apenas por tipo de residência, senão
também por condição legal, por origem étnica (inclusive se são
indígenas ou mestiços), por setor produtivo de trabalho (agri-
cultura, indústria ou serviços urbanos), por sexo, por idade, e
por região de imigração (oeste, centro e leste), que nós denomi-
namos características de vulnerabilidade.
• Remuneração abaixo do valor da força de trabalho nos Estados
Unidos, mas acima do valor da força de trabalho mexicana, em
um mercado produtivo de igual ou maior exploração, que nós
denominados pseudo-sobresalário (Peña, 1995b).
• A superexploração dos migrantes apoia-se tanto na extensão da
jornada de trabalho, como na intensificação do trabalho, assim
como em todos aqueles mecanismos circulatórios que dimi-
nuem os salários abaixo do valor da força de trabalho migrante.
• Existe uma determinação política do grau de exploração dos
migrantes estabelecido pela relação internacional da luta de
classes e pelas políticas xenofóbicas e racistas nos países ou re-
giões de imigração.
• Os salários dos migrantes são discriminativamente diminuídos,
por exemplo, às vezes, se lhes exclui dos serviços nos quais o Es-
tado provê à força de trabalho: educação, saúde, moradia e segu-
ro de desemprego. Isto considerando a situação legal destes tra-
balhadores como “estrangeiros”, “ilegais” ou indocumentados.
• A debilidade político-organizativa e a incapacidade de negocia-
ção ou regulamentação dos salários, devido ao seu caráter de
imigrantes e, mais ainda, se são temporários e indocumentados.
• A debilidade política pela sua “bagatela” e abundância (custo de
reprodução menor), isto é, por ser parte do Exército Industrial
de Reserva.

A SUPEREXPLORAÇÃO DOS TRABALHADORES MIGRANTES MEXICANOS NOS ESTADOS UNIDOS 63


• A capacidade de compra do dólar estadunidense, em relação ao
peso mexicano. Isto dissimula a superexploração, porque o dó-
lar tem uma maior capacidade de compra, aparentando o salário
do migrante ser um “sobresalário”, quando, na verdade, não é.

Assim, a superexploração já não funciona como um mecanismo de


exceção, senão que tem se convertido na forma de exploração constante
dos trabalhadores imigrantes; no caso dos trabalhadores mexicanos nos
Estados Unidos é uma prática generalizada.
A massificação da atrofia do corpo dos trabalhadores, no geral, é
parte de um fenômeno global vinculado à expansão do mercado mun-
dial, que cresce vulnerabilizando a saúde física, emocional e espiritual
dos seres humanos; dito processo é percebido pelos trabalhadores mi-
grantes de forma imediata, pois eles mesmos mostram as consequências
do desgaste que padecem em poucos anos, tornando evidente como se
massificou o corpo humano, uma mercadoria descartável para amplos
processos produtivos depois de seu uso intensivo.
A superexploração do trabalhador imigrante é utilizada pelo capi-
tal para apoiar a superexploração dos trabalhadores não migrantes em
distintos espaços nacionais25. Assim, a superexploração do trabalho é
um parâmetro essencial para localizar onde estão e como estão os tra-
balhadores latino-americanos, em particular os mexicanos, nos Estados
Unidos, qual é sua situação, não apenas jurídica e política, senão tam-
bém econômica e social. Diante disto, seria conveniente construir um
processo de defesa global, pois é nessa direção que aponta o futuro do
trabalho globalizado.

Referências
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destinos migratorios en la globalización. Política y Cultura, Migración:

25 A descrição de Engels em “A situação da classe trabalhadora na Inglaterra” [1978], sobre


as precárias condições de vida dos imigrantes irlandeses na Inglaterra de 1845 diz: “Em
suma, os irlandeses descobriram... qual é o mínimo das necessidades vitais, e estão ensi-
nando isso agora aos operários ingleses” (Engels, 1978, p. 347).

64 Superexploração do trabalho no século XXI


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A SUPEREXPLORAÇÃO DOS TRABALHADORES MIGRANTES MEXICANOS NOS ESTADOS UNIDOS 67


A superexplor ação do
tr abalho e o colapso/
expansão da forma-valor no
capitalismo global: Notas
teóricas

Giovanni Alves

Em um de seus últimos trabalhos (1996), Ruy Mauro Marini (1932-


1997) salientou a necessidade de se estender o conceito de superex-
ploração do trabalho aos países capitalistas centrais (Marini e Millán,
1996). Marini explicou a disseminação da superexploração do trabalho
pelas mudanças no comércio mundial com o crescimento do comércio
intra-firmas e a operação de empresas terceirizadas provocando uma
homogeneização do mercado mundial. A dissolução gradual das fron-
teiras nacionais e aumento da fase de produção projetado para cobrir
mercados cada vez mais vastos, envolveu a intensificação da concor-
rência entre as grandes empresas e seu esforço contínuo para alcançar
lucros extraordinários sobre os seus concorrentes. Assim, com o mer-
cado mundial cada vez mais integrado nos principais setores produti-
vos, aprofundou-se a tendência para abolir as diferenças nacionais que
afetam a validade da lei do valor. Ao mesmo tempo, aumentou a im-
portância da exploração da força de trabalho mais qualificada garantir
lucros extraordinárias. Embora, a qualificação e habilidades da força de
trabalho variem de nação para nação, sua intensidade média aumenta à
medida que ela utiliza tecnologias superiores. Ele observa que isso não
necessariamente se traduz em reduções significativas nos diferenciais
salariais nacionais.
Observando as mudanças provocadas pela globalização da econo-
mia capitalista a partir de 1980, tais como a internacionalização dos

A superexploração dotrabalho e o colapso/expansão da forma-valor no capitalismo global: Notasteóricas 69


processos de produção e a disseminação constante da indústria para ou-
tras nações - não simplesmente para explorar as vantagens criadas pelo
protecionismo comercial, como no passado, mas acima de tudo para
atender a intensificação da competição global - Marini observou que,
nesse movimento do capital no mercado mundial, desempenha papel
de destaque, embora não exclusivo, a exploração excessiva dos traba-
lhadores assalariados e as transformações tecnológicas na produção do
capital (Marini e Millán, 1996).
É interessante que Marini tenha comparado a situação do capita-
lismo global com as transformações capitalistas da Europa capitalista
do século XVIII para o século XIX período histórico de constituição
do mercado mundial. Naquela época a introdução de novas tecnolo-
gias implicou num desemprego generalizado, aberto ou dissimulado,
ampliando-se a superpopulação relativa do capital. O próprio capitalis-
mo em expansão favoreceu o crescimento da massa do proletariado e o
capital buscou a maximização da exploração salarial a um custo mais
baixo do que ela pode representar. Para isso, ele utilizou tanto o aumen-
to das horas de trabalho quanto a intensificação do trabalho ou ainda,
de modo cruel, a redução dos salários, sem levar em conta o valor real
da força de trabalho.
Assim, nos primórdios do capitalismo industrial, tal como hoje com
o capitalismo global, Marini observou que se generaliza pelo sistema
mundial do capital, incluindo os centros avançados, o que era uma ca-
racterística distintiva, embora não exclusiva – das economias capitalis-
tas dependentes: a superexploração do trabalho. Deste modo, cresceu a
massa de trabalhadores assalariados excedentes e aguçou-se sua paupe-
rização, no momento em que o desenvolvimento das forças produtivas
abriu perspectivas ilimitadas de bem-estar espiritual para os povos.
Por isso, para ele, tal como aconteceu no século XIX, a questão cen-
tral torna-se a luta dos trabalhadores para colocar limites sobre à orgia
do capital, colocando sob as mãos do povo o controle das novas condi-
ções sociais e técnicas de produção. Não se trata de bloquear o aumento
da produtividade do trabalho, e até mesmo o seu corolário natural, o
aumento da intensidade laboral, mas distribuir de forma mais equitati-
va, o esforço de produção, que envolve a redução da jornada de trabalho

70 Superexploração do trabalho no século XXI


em uma taxa compatível com o progresso da capacidade produtiva em
geral (o que implica uma revolução democrática radical).
Essa disseminação da superexploração do trabalho é produzida
pelas mudanças do comercio mundial, principalmente pelo comercio
intra-firmas e o aumento da presença de empresas terceirizadas na rede
de subcontratação global, e também pelas tecnologias moderna que
imprime um alto grau de padronização na produção de peças e compo-
nentes, que é transmitido em equipamentos e métodos de produção em
larga escala, e o uso de insumos de qualidade comparável. Diz ele: “Em
outras palavras, a produção mundial é caracterizada hoje por uma ho-
mogeneização crescente em termos de capital constante fixo e circulan-
te”. E salienta: “Uma vez iniciado o processo de remoção de barreiras
que provocam a fragmentação do mercado mundial e colocam obstá-
culos ao fluxo da reprodução do capital, uma nova fase inaugurada em
produção-circulação de mercadorias, caracterizada pela tendência para
a completa restauração da lei do valor” (Marini e Millán, 1996: 35).
O objetivo das notas teóricas é abordar a disseminação da superex-
ploração do trabalho na era do capitalismo global, não pelas mudanças
na esfera da circulação do capital como indica Marini, mas devido o
fenômeno do colapso (e expansão) da forma-valor por conta do salto
mortal da produtividade do trabalho na era do capitalismo global. Na
fase histórica do capitalismo global – aquilo que Marini vai identifi-
car como “economia globalizada” – impõe-se a efetividade do aumento
da composição orgânica do capital pressionando a taxa média de lu-
cro no âmbito do mercado global sob completa restauração da lei do
valor. Na verdade, o que explica o aumento e relativa estabilização da
taxa de lucro na economia global no primeiro momento do capitalismo
global (1980-1996 e depois, 2001-2008) foi o movimento complexo das
contratendências à queda da taxa de lucro (vigência da superexploração
do trabalho, desvalorização do capital constante por conta das revolu-
ções tecnológicas e financeirização da riqueza capitalista). Depois, com
a Grande Recessão de 2008/2009, verifica-se uma longa depressão da
economia global (Roberts, 2016), caracterizada por lenta recuperação e
insustentabilidade da taxa média de lucro num cenário mais rebaixado
d que aquele anterior à 2008.

A superexploração dotrabalho e o colapso/expansão da forma-valor no capitalismo global: Notasteóricas 71


Portanto, a disseminação da superexploração do trabalho decorre
de mudanças na esfera produtiva do capitalismo global dadas pela rela-
ção capital constante/capital variável que, por conseguinte, provocaram
alterações na dinâmica do comercio global e da própria reprodução do
sistema mundial do capital (como salientou Marini). Deste modo, fa-
remos uma nova abordagem da disseminação da superexploração do
trabalho na era do capitalismo global não circunscrita apenas às mu-
danças na circulação do capital na economia globalizada. Para isso,
num primeiro momento, iremos expor a tese do colapso (e expansão)
da forma-valor no capitalismo global e depois trataremos do conceito
de superexploração da força de trabalho, buscando expor a principal
forma de desvalorização do capital variável num cenário global da lei
do valor “afetada de negação”.
Na era do capitalismo global - o estágio do capitalismo histórico que
se constitui a partir da crise estrutural do capital (1980-...) - temos por
um lado, a síntese entre mais-valia absoluta e mais-valia relativa basea-
da nas novas tecnologias informacionais acopladas à gestão toyotista; e
por outro lado, a exacerbação da função do credito na era do capitalis-
mo predominantemente financeirizado, ocultando por meio do endivi-
damento das famílias, o rebaixamento do fundo salarial. Por um lado,
temos a intensificação e alongamento da jornada de trabalho. Indústria,
serviços, comercio e inclusive administração pública, incorporaram a
nova lógica do trabalho flexível. Por outro lado, torna-se visível a desva-
lorização do capital variável por conta da constituição da nova precarie-
dade salarial com a disseminação da contratação precária. Ao mesmo
tempo, nas novas condições históricas de expansão do capital, o valor
como forma derivada se expandiu pela totalidade social (Alves, 2013).
Ao aprofundar-se a financeirização da riqueza capitalista por conta
da desmedida do valor (Prado, 2005), reforçam-se num patamar quali-
tativamente novo, o fenômeno da dependência das economias subalter-
nas; e aquilo que era característica da periferia do sistema do capital (a
superexploração do trabalho) torna-se também a marca das formações
sociais do capitalismo central. Na verdade, as mudanças ocorridas na
era da crise estrutural do capital provocadas pela persistência da bai-
xa lucratividade nas condições da IV Revolução Industrial impuseram

72 Superexploração do trabalho no século XXI


novas tendências na ordem da exploração, provocando aquilo que Is-
tván Mészáros caracterizou como sendo uma equalização do índice di-
ferencial de exploração (Mészáros, 2011; Antunes, 2009; Valencia, 2012).
Portanto, o que antes era característica da formação social dos paí-
ses capitalistas dependentes, tornou-se característica do sistema global
do capital tendo em vista que o fenômeno do colapso (e expansão) da
forma-valor e a dominância do capital financeiro enquanto macroes-
trutura da ordem do capital social total, “colonizaram” tanto as nações
periféricas quanto as centrais. A servidão financeira é a captura do
fundo público e a sucção da riqueza social pelo capital financeiro (via
superexploração do trabalho), um dos elementos característicos do ca-
pitalismo global.

O colapso (e expansão) da forma-valor


A primeira hipótese que iremos expor é que o “salto mortal” da pro-
dutividade do trabalho decorrente dos avanços das revoluções tecnoló-
gicas ocorridas após a Segunda Guerra Mundial, ou aquilo que Ernst
Mandel considerou como sendo a aceleração da inovação tecnológica
no capitalismo tardio (Mandel, 1982), fez com que o tempo de trabalho
necessário, base do valor-trabalho, deixasse de ser a medida da riqueza
capitalista. Deste modo, a lei do valor ou lei do valor-trabalho sofreu
uma alteração qualitativamente nova.
Estamos diante de um movimento dialético, onde o que deixou de
ser não perdeu a sua efetividade. A lei do valor-trabalho não deixou de
ser efetiva, mas tornou-se afetada de negação. Esse movimento dialético
de “negação” do valor no interior da própria efetividade da lei do valor é
denominado “desmedida do valor”. Ela faz com que a base de produção
do valor (o trabalho abstrato) entre em colapso e exploda, com o valor
expandindo-se abruptamente como forma derivada ou forma em extin-
ção (Alves, 2013).
É importante esclarecer que não se trata do “envelhecimento e inu-
tilidade da lei do valor” como afirma Antonio Negri e Carlo Vercellone
(2008); ou ainda da morte da teoria do valor-trabalho proclamada pelos
teóricos do capitalismo cognitivo que destacam a passagem para uma

A superexploração dotrabalho e o colapso/expansão da forma-valor no capitalismo global: Notasteóricas 73


suposta teoria do valor-conhecimento. Negri e Vercellone não apreen-
dem de modo dialético a crise da forma-valor nas condições históricas
do capitalismo global. Falta-lhes a lógica dialética adequada para lidar
com a situação extrema do desenvolvimento do capital em sua forma
senil. Michel Husson ensaiou uma critica das teses do capitalismo cog-
nitivo. Disse ele que o valor-conhecimento não existe, pois a forma-
-capital incorpora na esfera do trabalho o conhecimento como poder
produtivo de mais-valor. Deste modo, para Husson a lei do valor con-
tinua a operar a mercantilização globalizada do capital com uma bru-
talidade e expansão renovada, inclusive levando o capitalismo global a
uma crise sistémica sem precedentes. Depois, não existe um “terceiro
tipo” de capitalismo, o que Yann Moulier Boutang (2007) denominou
“capitalismo cognitivo”, que viria após o capitalismo mercantil e o capi-
talismo industrial. De acordo com Carlo Vercellone (2008), a nova etapa
do capitalismo (o capitalismo cognitivo) seria caracterizada por “um
novo trabalho hegemônico, marcado pelo seu carácter mais intelectual
e imaterial.” Diz Husson que a suposta hegemonia do trabalho intelec-
tual não existe, pois, ao mesmo tempo que aumenta a qualificação de
alguns trabalhadores assalariados, implicando o surgimento em maior
escala do trabalho intelectual, o capitalismo global reproduz de fato,
numa escala superior, o trabalho manual e as formas mais básicas das
operações de produção do capital. Portanto, os teóricos da predominân-
cia do “trabalho cognitivo” pura e simplesmente extrapolam tendências
parciais do mundo do trabalho sem entender que elas não podem ser
generalizadas. Enfim, o que as pesquisas concretas sobre a organização
do trabalho capitalista demonstram claramente é que existe de modo
intrínseco às novas formas de produção capitalista, a articulação com-
plexa entre o dito “trabalho cognitivo” e o neo-taylorismo. A clássica
exploração da força de trabalho se dissemina no mundo do capitalismo
global, inclusive mobilizando cada vez mais o conhecimento dos tra-
balhadores assalariados ao lado da reposição das formas tradicionais
de exploração com a intensificação do trabalho e o prolongamento das
horas de trabalho (Husson, 2010)
Nossa tese é que o efeito da “desmedida do valor” provocada pelo
salto mortal da produtividade do trabalho no capitalismo tardio, ao

74 Superexploração do trabalho no século XXI


invés de anular ou suprimir a lei do valor, expandiu e reforçou a efe-
tividade do seu movimento e da sua expressão nas fórmulas em valor
(tal como a fórmula da composição orgânica do capital, dada em valor).
Por exemplo, a tendência estrutural de queda da taxa média de lucro
(vide Gráfico 1) se explica pela persistência do aumento da composição
orgânica do capital (em valor) – apesar de seus movimentos contraten-
denciais, – pelo menos desde 1855.
A estabilização relativa da queda da taxa média de lucro no capita-
lismo global a partir de 1981, num patamar bastante rebaixado, com-
parando-se a série histórica desde 1955, se deve à veloz desvalorização
do capital variável por conta da precarização estrutural do trabalho. Do
mesmo modo, a estabilização relativa da taxa média de lucro no período
histórico de 1946 a 1967 deveu-se à era de expansão do capital – a era
de ouro do capitalismo fordista-keynesiano - após a II Guerra Mundial.
Entretanto, o que é visível é a persistente queda histórica da taxa média
de lucro, explicada pelo persistente aumento da composição orgânica
do capital (em valor). Pode-se estabilizar a tendência de queda, mas não
reverte-la por conta do enrijecimento da estrutura de trabalho morto
acumulada em detrimento do trabalho vivo.

Gráfico 1: Queda da taxa média de lucro nos países capitalistas centrais (1855-2009)

Fonte: Roberts (2016)

Na verdade, o reforço da efetividade do movimento do valor se ca-


racteriza pela expansividade de suas contradições internas. A fórmula
em valor mais importante salientada por Marx é a fórmula que explicita

A superexploração dotrabalho e o colapso/expansão da forma-valor no capitalismo global: Notasteóricas 75


a dinâmica da acumulação do capital e a tendência à queda da taxa mé-
dia de lucro: a fórmula da composição orgânica do capital, onde C é o
capital constante em termos de valor e V o capital variável. A desme-
dida do valor provoca a agudização (expansividade) das contradições
intrínsecas a C e V. O colapso do valor (utilizando a analogia com um
fato cosmológico - o colapso de uma estrela - que, ao colapsar-se se ex-
pande26) se caracteriza pela expansão da efetividade da forma-valor – no
sentido ideológico - como valor em extinção, ativando radicalmente as
contradições intrínsecas às formas de capital.
Essa expansão da forma-valor (em extinção) significa a expansão
das formas derivadas de valor, expansão de natureza ideológica. O valor
é uma relação social de exploração mediada por formas ideológicas que
sustentam a extração de sobretrabalho. Na medida em que as formas
ideológicas do valor, como, por exemplo, a lógica (e valores-fetiche) do
gerencialismo produtivista de cariz toyotista, se “desacopla” da base
material do trabalho produtivo (a fábrica) e invade a materialidade
do trabalho improdutivo e das relações humanas e sociais (a esfera do
mundo vivido), temos as formas derivadas de valor, ideologia operante
do trabalho e vida estranhada.

■■ O movimento contratendencial do capital constante


Nessa situação de singularidade histórica, dada pela crise estrutural
do capital e pela pressão persistente do aumento da composição orgâ-
nica do capital (em valor) pela queda da taxa média de lucro, vejamos

26 Uma estrela se forma pelo colapso de uma nuvem de material composta principalmen-
te de hidrogênio e traços de elementos mais pesados. Uma vez que o núcleo estelar seja
suficientemente denso, parte do hidrogênio é gradativamente convertido em hélio pelo
processo de fusão nuclear. O restante do interior da estrela transporta a energia a partir
do núcleo por uma combinação de processos radiantes e convectivos. A pressão interna da
estrela impede que ela colapse devido a sua própria gravidade. Quando o combustível do
núcleo (hidrogênio) se exaure, as estrelas que possuem pelo menos 40% da massa do Sol se
expandem para se tornarem gigantes vermelhas, em alguns casos fundindo elementos mais
pesados no núcleo ou em camadas em torno do núcleo. A estrela então evolui para uma
forma degenerada, reciclando parte do material para o ambiente interestelar, onde será
formada uma nova geração de estrelas com uma maior proporção de elementos pesados

76 Superexploração do trabalho no século XXI


o que acontece com o capital constante (C) e capital variável (V) em
termos de movimentos contratendenciais:
No capital constante opera de modo agudizado, a contradição
entre o trabalho abstrato que tem como base o trabalho formalizado; e o
trabalho abstrato bloqueado, que surge com o trabalho não-formalizado,
o trabalho imaterial, o “novo saber”, componente ampliado no
processo de produção das novas máquinas da revolução informática/
informacional (Gorz, 2005). O capital constante possui como um
dos seus elementos compositivos, o capital fixo. A “missão histórica”
do modo de produção capitalista é o desenvolvimento do capital fixo
(Mandel, 1980). No seio da “missão histórica” do modo de produção
capitalista existe uma contradição crucial do capital.

Nossa hipótese é que existe uma inadequação entre a base material


do novo saber, conteúdo do trabalho imaterial, e o movimento da ex-
ploração ou produção do valor. Os objetos técnicos (as novas máquinas
complexas) produzidos na era da pós-grande indústria (Fausto, 1987),
contém em seu seio um quantum de valor em desefetivação que provoca
uma desvalorização lenta do capital constante, mesmo que a produti-
vidade do trabalho tenha dado um “salto mortal”. O trabalho abstrato
bloqueado, que tem como base o novo saber, opera um bloqueio que
reduz a velocidade de desvalorização do capital constante.
Portanto, o fenômeno da “desmedida do valor” que observamos
no capitalismo da maquinofatura (Alves, 2013) ou capitalismo da pós-
-grande indústria (Fausto, 1989), exacerba as contradições dos com-
ponentes de valor. No caso do capital constante, é o que descrevemos
acima: a contradição na produção do capital constante entre trabalho
abstrato e trabalho abstrato bloqueado provoca uma inadequação no
plano da matéria, entre o novo saber que compõe o trabalho imaterial e
a lógica da exploração, mais adequada ao trabalho formalizado.
Essa contradição fulcral do capital constante na era da crise estrutu-
ral do capital reduz a velocidade da sua desvalorização em termos de va-
lor, contribuindo, deste modo, para o aumento da composição orgânica
do capital, mesmo que o capital variável se reduza em termos de valor

A superexploração dotrabalho e o colapso/expansão da forma-valor no capitalismo global: Notasteóricas 77


por conta do aumento da exploração da força de trabalho – a vigência da
superexploração do trabalho no sistema mundial do capital.

■■ O movimento contratendencial do capital variável


Ao mesmo tempo, o componente do capital variável contém em si,
tanto quanto o capital constante, uma contradição intrínseca que limita
sua própria desvalorização: a contradição entre o movimento da preca-
rização estrutural do trabalho e os limites histórico-morais da explora-
ção (e degradação) da força de trabalho. Na medida em que se desenvol-
ve o modo de produção capitalista cria necessidades novas que passam
a compor o modo de vida nas quais os homens vivem e forem educados.
É o componente histórico e social, um dos componentes que determina
o valor da força de trabalho (o outro componente é o elemento físico).
O componente histórico e social amplia-se com o processo civilizatório
do capital. Entretanto, ao mesmo tempo, a superexploração do trabalho
faz com que o componente histórico e social deixe de ser satisfeito no
cálculo dos salários. O aumento da riqueza do ponto de vista material
implica na diversidade das necessidades. Entretanto, o capital torna-se
cada vez mais incapaz de satisfazer as necessidades novas suscitadas
pela produção capitalista.
A vigência da superexploração do trabalho representa a particula-
ridade histórica do movimento de precarização estrutural do trabalho
como um dos principais recursos – senão, o principal - de desvaloriza-
ção do capital variável. Ela implica a manifestação persistente de queda
do salário relativo da classe trabalhadora como tendência histórica do
capitalismo tardio.27

27 O salário relativo é a relação entre o salário real e a produtividade do trabalho. Por exem-
plo, mesmo que o trabalhador assalariado tivesse mantido seu salário real, caso a pro-
dutividade do trabalho tivesse aumentado, sua situação social relativa, comparada á do
capitalismo, teria baixado. Mandel observou: “Marx dedicou uma enorme importância à
noção de ‘salário relativo’ e considera que um dos principais méritos de Ricardo foi esse de
ter estabelecido a categoria de salário relativo ou proporcional” (Mandel, 1980). No capita-
lismo tardio em sua fase fordista-keynesiana, a indexação dos salários à produtividade e a
presença do salário indireto no cálculo do salário da classe trabalhadora mantinha o valor
do salário real e em alguns casos, provocava uma elevação, preservando o salário relativo.
Entretanto, com o capitalismo neoliberal, temos a queda abrupta e profunda do salário

78 Superexploração do trabalho no século XXI


Portanto, o problema da necessidade de aumento da velocidade da
desvalorização do capital constante é o problema principal do capita-
lismo num cenário de aumento da composição orgânica do capital e
tendência histórica de queda da taxa de lucros. Para que a tendência
histórica de queda da lucratividade se reverta é necessário reduzir a
composição orgânica do capital por meio da desvalorização de C e V.
Entretanto, para reduzir a composição orgânica do capital (isolando as
outras contratendências que o capital possa operar), a desvalorização do
capital constante (capital fixo + capital circulante) deveria ocorrer numa
velocidade igual ou maior que a desvalorização do capital variável em
termos de valor (na equação abaixo, C é a composição orgânica do ca-
pital, medida em termos de valor). Entretanto, foi o que não ocorreu: o
capital constante não tem conseguido se desvalorizar numa velocidade
igual ou superior à desvalorização do capital variável.
As grandes empresas que organizam os circuitos da valorização do
capital em escala global promoveram nos últimos trinta anos (1980-
2010), um rápido crescimento dos investimentos em capital constante
(capital fixo e capital circulante) que, a princípio, deveria ter desvalori-
zado o capital constante. Apenas as grandes empresas têm a capacidade
financeira de acelerar o processo de obsolescência do capital fixo, acele-
rando a taxa de rotação do capital constante. Nas condições das revolu-
ções tecnológicas que ocorreram sob o capitalismo global, o desenvolvi-
mento das forças produtivas implicou investimentos diretos e indiretos
cada vez mais caros em inovações tecnológicas. Assim, buscou-se re-
duzir o valor contido no “trabalho morto” por conta do aumento da
produtividade do trabalho no setor I, o setor de bens de produção.
Entretanto, a natureza do novo capital constante (capital fixo + capital
circulante) que emerge com as revoluções tecnológicas do capitalismo
global, isto é, as novas máquinas complexas e os novos materiais, trans-
figuram efetivamente o cálculo da produtividade do trabalho no setor I,

relativo da classe trabalhadora por conta do aumento da produtividade do trabalho e a


degradação do salário real, principalmente em seu componente indireto por conta da crise
do Estado de bem-estar social. Eis o verdadeiro sentido da superexploração do trabalho
salientada por Ruy mauro Marini.

A superexploração dotrabalho e o colapso/expansão da forma-valor no capitalismo global: Notasteóricas 79


tendo em vista a desmedida do valor, tornando, por conseguinte, mais
lento a redução do valor contido no “trabalho morto”.
Apesar do vigor da plena obsolescência planejada do capital cons-
tante, o descenso do valor das novas máquinas e os novos materiais (o
capital constante) é mais lento do que o descenso do valor da força de
trabalho (o bloqueio dado pelas contradições do capital variável). Ao
mesmo tempo, como salientamos acima, a queda do valor da força de
trabalho (v) que ocorre principalmente por meio da precarização estru-
tural do trabalho, encontrou um limite histórico-moral dado pela luta
de classes e a correlação de forças entre capital e trabalho (a desvalori-
zação do valor do capital variável poderia ocorrer também pela redução
do valor contido nos bens-salário produzidos pelo setor II – entretanto,
ela encontra limites na crise de produtividade do trabalho no setor I, o
setor de bens de produção, que produz insumos para o setor II).
A nova materialidade da produção das novas máquinas capitalistas
complexas (hardware e software) possui como conteúdo predominante,
o trabalho imaterial, raiz da crise do “trabalho morto” do capital. A
desmedida do valor transtorna a “medida” efetiva da produtividade do
trabalho que promove a desvalorização do capital constante. A presença
do trabalho imaterial, como uma forma de trabalho concreto recalci-
trante ao movimento de abstração do valor que permite a medida efeti-
va da valorização, é mais um traço crucial de “negação do capitalismo
no interior do próprio capitalismo” (Fausto, 1988). É um dos elementos
de negatividade que tende a desmanchar a forma-mercadoria no sentido
da sua desmedida.

A crise do trabalho abstrato


Destacaríamos como duas determinações cruciais da crise do traba-
lho abstrato, (1) a dinâmica estrutural intrínseca à produção do capital,
que percorre a passagem da manufatura para a grande indústria e a
própria temporalidade da grande indústria, isto é, a substituição pro-
gressiva de trabalho vivo por trabalho morto, a passagem da subsunção
formal para a subsunção real do trabalho ao capital; e (2) a constituição
de um novo saber do trabalho concreto nas instâncias dinâmicas de

80 Superexploração do trabalho no século XXI


produção do capital, forma material resistente às determinações do tra-
balho abstrato, o trabalho que produz valor.
André Gorz no livro “O imaterial” (2005) diz que o trabalho como
saber não é mais mensurável segundo padrões e normas preestabele-
cidas. A crise do trabalho abstrato se manifesta quando o capital não
sabe mais como definir as tarefas de maneira objetiva. Na verdade, o
desempenho não é mais definido na relação com essas tarefas, mas ele
tem a ver diretamente com as pessoas. O desempenho repousa sobre
sua implicação subjetiva, chamada também “motivação” no jargão ad-
ministrativo, gerencial. Deste modo, o modo de realizar as tarefas, não
podendo ser formalizado, não pode tampouco ser prescrito. O que é
prescrito é a subjetividade, ou seja, precisamente isso que somente o
operador pode produzir ao “se dar” à sua tarefa. As qualidades impos-
síveis de demandar, e que dele são esperadas, são o discernimento, a ca-
pacidade de enfrentar o imprevisto, de identificar e de resolver os pro-
blemas. A crise da produtividade se manifesta no predomínio da lógica
da gestão. A produção do capital na era da maquinofatura contém em
si, a crise de produtividade do trabalho como crise da medida do valor.
Por isso, Gorz salienta que a idéia do tempo como padrão do valor
não “funciona” mais. Entretanto, Gorz, como os teóricos do capitalismo
cognitivo, não opera com um léxico dialético, pois não se trata de que o
tempo de trabalho deixou de operar como padrão do valor, mas sim, de
que ele se tornou “afetado de negação”. Ele funciona e não funciona – ao
mesmo tempo. Nas condições do valor em extinção, o que conta na or-
ganização do trabalho capitalista é a qualidade da coordenação visando
a “captura” da subjetividade do trabalho vivo pelo capital. A impossibi-
lidade de mensurar o desempenho individual e de prescrever os meios e
os procedimentos para chegar a um resultado conduz os dirigentes das
organizações capitalistas a recorrerem à “gestão por metas”: eles fixam
metas aos trabalhadores assalariados, cabendo a eles desdobrar-se para
cumpri-los. É o que André Gorz salienta como o retorno ao trabalho
como prestação de serviços, o retorno do serviço (servicium, obsequium)
devido à pessoa do suserano na sociedade feudal (Gorz, 2005).
Na verdade, não se abole o trabalho material, mas apenas reconfi-
gura-se o complexo vivo do trabalho com a presença central do trabalho

A superexploração dotrabalho e o colapso/expansão da forma-valor no capitalismo global: Notasteóricas 81


imaterial que não prescinde do trabalho material, mas é remetido à pe-
riferia do processo de produção ou abertamente externalizado (é falsa
a contraposição entre trabalho material e trabalho imaterial – o que
ocorre no capitalismo global é a plena articulação contraditória ele o
trabalho material e trabalho não-material). Na verdade, em alguns pólos
de produção do capital, o trabalho dito material se toma um “momento
subalterno” do processo de produção do capital, ainda que permaneça
indispensável ou mesmo dominante do ponto de vista qualitativo.
O novo saber do trabalho imaterial decorre do desenvolvimento da
nova base técnica do sistema produtor de mercadorias, onde as novas
máquinas complexas que constituem o arcabouço da produção social.
Portanto, por um lado, “trabalho vivo” reduzido a “trabalho morto”;
e por outro lado, “trabalho morto” inteligente ou as novas máquinas
complexas tendencialmente recalcitrantes à medida do valor. O “novo
saber” que se desdobra do desenvolvimento das forças produtivas do
“capitalismo cognitivo”, tão necessário às novas condições de produção
social, compõe cada vez mais a estrutura de valor dos objetos técnicos
complexos que operam como capital constante.
Apesar do trabalho imaterial estar subsumido à máquina como for-
ma social do capital, ele – o trabalho imaterial como novo saber - por
suas qualidades intrínsecas de forma material, é recalcitrante à medi-
da pelo trabalho abstrato, além de estar aquém (ou além) da lógica da
produtividade do capital. Deste modo, a natureza do “novo saber” que
impregna o processo de trabalho das novas maquinas capitalistas, nega
(aufhebung) em si, a ordem material do trabalho abstrato pois é, em si,
irredutível à quantificação pelo tempo de trabalho. O “novo saber” não
é passível de ser precificado de acordo com a medida da lei do valor-tra-
balho; e ainda é incapaz de ser formalizado, e portanto, transformado
em “máquina”, como ocorre, por exemplo, com o conhecimento forma-
lizado que se interverte em máquina (o que coloca limites irremediáveis
ao incremento da produtividade no setor I da economia capitalista, o
setor de bens de produção).
O trabalho imaterial tende a ser um nexo “estranho” prenhe de con-
tradições materiais na ordem produtiva do capital. Entretanto, o “novo
saber” está integrado (e é elemento compositivo) da produção do capital.

82 Superexploração do trabalho no século XXI


Ele nasceu do movimento da forma-valor e permanece contraditoria-
mente no interior dela. Ele é parte do movimento do capital como con-
tradição viva, regido pela sua lógica. Mas o capital está diante de seu
próprio limite intrínseco: a natureza do “trabalho vivo”, a sua dimensão
anímica indispensável para a produção de máquinas complexas.
O “novo saber” assume um papel estratégico na pesquisa, desenvol-
vimento e produção do capital constante, constituindo o “trabalho mor-
to” complexo (no caso da robótica, trabalho morto inteligente, a “inteli-
gência artificial”, máquinas complexas que devem se ampliar com a IV
Revolução Industrial). É a partir daí que se abre um campo de luta do
capital – luta de vida ou morte - pela formalização do trabalho vivo, isto
é, ocorre a intensificação do movimento de “captura” da subjetividade
da força de trabalho como trabalho vivo, trabalho vivo reduzido, mas
indispensável (e ineliminável) à produção do capital. Essa tentativa per-
pétua de formalização do trabalho vivo ou do trabalho imaterial, visa
adequá-lo à materialidade do trabalho abstrato, transformando-o em
trabalho morto ou trabalho morto “com toque humano” (um modo de
capital fixo complexo inscrito na lógica da “autonomação” ou “automa-
ção com toque humano” à serviço do capital que caracteriza o método
de gestão toyotista28). É isso que explica a busca recorrente de novas
formas de gestão de pessoas nos locais de trabalho. A difusão da lógica
da gestão de pessoas pelo complexo vivo do trabalho – não importa se
é trabalho produtivo de valor propriamente dito, indústria ou serviços
ou ainda administração pública – se explica pelas formas derivadas de
valor que replicam a obsessão do capital pela formalização do trabalho
vivo, mesmo em seus pólos menos desenvolvidos de produção/repro-
dução de valor como relação social de dominação/exploração/opressão
social (Goulejac, 2007).

28 Autonomação descreve um recurso de projeto de máquinas para desempenhar o princí-


pio de Jidoka utilizado pelo Sistema Toyota de Produção. Autonomação, ou Jidoka, pode
também ser descrito como “automação inteligente’” ou “automação com toque humano”.
Este tipo de automação implementa algumas funções supervisoras antes das funções de
produção. Na Toyota isto geralmente significa que, se uma situação anormal aparecer, a
máquina pára e o os operários pararão a linha de produção. Autonomação previne pro-
dutos defeituosos, elimina superprodução e foca a atenção na compreensão do problema e
assegurar que esse problema não se repita.

A superexploração dotrabalho e o colapso/expansão da forma-valor no capitalismo global: Notasteóricas 83


O processo de produção do capital, o processo de produção do tra-
balho abstrato, fundamento da forma-mercadoria, percorre a transição
da manufatura para a grande indústria. É um processo de substituição
de “trabalho vivo” pelo “trabalho morto”. Esse movimento do capital
contém em si, a apropriação do saber tácito do mundo do trabalho vivo
pelo capital e sua transformação (ou formalização) em conhecimento
através da ciência, conhecimento científico que é transformado em tec-
nologia, forma social da técnica. A máquina capitalista é expressão da
cristalização do saber em conhecimento fetichizado (reificação). O “tra-
balho vivo” se defronta com a máquina como uma coisa estranha a si
próprio, quando ela é, na verdade, a cristalização de um conhecimento
expropriado pelo capital do próprio trabalho vivo. A máquina capita-
lista é a reificação do conhecimento formalizado que se transforma em
capital fixo. Este movimento de abstração do trabalho vivo em traba-
lho morto é o desenvolvimento do sistema de máquinas. A máquina
é a expressão suprema do trabalho abstrato (a máquina capitalista é,
em si, um ente abstrato, trabalho morto que subsume trabalho vivo).
Entretanto, ao negar o “trabalho vivo”, a máquina nega a própria fonte
de valor, a força de trabalho. Deste modo, ao surgir em sua plenitude
com o sistema de máquina, o trabalho abstrato é negado pelo seu pró-
prio movimento contraditório tendo em vista que a redução do trabalho
vivo em capital fixo significa a redução da própria base de produção de
valor. No sentido dialético, a lei do valor tende a ser abolida ao surgir em
sua plenitude. Poderíamos dizer que, como um organismo vivo, o valor
começa a morrer ao nascer.
O surgimento do sistema de máquinas na grande indústria expres-
sa o ápice de desenvolvimento contraditório da produção de mercado-
rias. As novas máquinas complexas que surgem com a forma social da
pós-grande indústria ou maquinofatura, (o capital fixo “inteligente”)
repõem nas condições da crise estrutural do valor, o “trabalho vivo”
negado tendencialmente pelo próprio movimento da subsunção real do
trabalho ao capital.
Entretanto, o novo trabalho vivo que se põe com a IV Revolução
Industrial como trabalho imaterial, repõem um “novo saber” - não mais
o saber artesanal, na medida em que o saber artesanal pertencia a um

84 Superexploração do trabalho no século XXI


estágio “primitivo” das forças produtivas do trabalho social, mas o sa-
ber imaterial, produto de (inter)subjetividades complexas contradito-
riamente integrada à lógica do capital e irredutível às medidas abstratas
e à formalização visando a “produtividade” do trabalho. O novo tra-
balho vivo expõe a crise da produtividade do trabalho no capitalismo
global (vide Gráfico 2).

Gráfico 2: Produtividade do trabalho (por hora trabalhada) (em %)

Fonte: https://thenextrecession.wordpress.com/2017/07/08/a-zombie-world/ .
Acesso em: 09/07/2017

Sob a grande indústria, a formalização do saber em conhecimen-


to representa o próprio sentido da educação técnica, que adestrava ho-
mens e mulheres à linha de produção, ao seu posto de trabalho, quase
como máquinas vivas, logo substituídas por capital fixo. Entretanto,
com a “pós-grande indústria”, temos o momento de afluência do novo
saber das (inter)subjetividades complexas, trabalho vivo obrigado a li-
dar com as novas máquinas, inclusive máquinas que exigem afetos e
envolvimento. Temos na era da maquinofatura um novo saber resistente
à mera formalização abstrata (que tanto alimentou a lógica do traba-
lho abstrato em sua odisseia mecânico-industrial) (Alves, 2013). Deste
modo, temos hoje a crise da educação técnica como mero adestramento
profissional.

A superexploração dotrabalho e o colapso/expansão da forma-valor no capitalismo global: Notasteóricas 85


O que observamos não é um mero retorno do “saber artesanal”, ten-
do em vista que o “novo saber” inscrito no trabalho imaterial – não
podemos esquecer – é parte compositiva do trabalhador coletivo do
capital, isto é, elemento compositivo da máquina capitalista. O “novo
saber” não é exterior à implicação do trabalho abstrato, sendo ele pró-
prio expressão da subsunção real do trabalho ao capital. Mas, a nova le-
galidade do “novo saber” é uma interioridade tensa, convulsionada pela
sua própria natureza, que abre, hoje, nos locais de trabalho da indústria
capitalista mais desenvolvida, um novo campo de luta de classes.
O trabalho imaterial como trabalho concreto expressa, enquanto
elemento compositivo do trabalhador coletivo do capital e, portanto,
subsumido à lógica do valor, o pleno desenvolvimento da materialida-
de contraditória do trabalho abstrato. O trabalho imaterial e seu “novo
saber” nasce da contradição intrínseca à forma-máquina, a contradição
entre forma material como técnica e forma social como capital. Em seu
momento mais desenvolvido, a contradição essencial da relação-capital
se explicita, paradoxalmente, na reprodução do “trabalho vivo” como
“novo saber”, trabalho imaterial que compõe, ao lado de outros elemen-
tos, a manifestação explícita da crise do trabalho abstrato.

Superexploração da força de trabalho e desvalorização


do capital variável
O colapso (e expansão) do valor provocam a plena efetividade da
contradição noutro componente de valor da fórmula da composição
orgânica do capital: o capital variável. Diante da crise de lucratividade
do capitalismo do século XXI (vide Gráfico 2), operou-se o movimento
pleno de desvalorização do capital variável por meio da precarização
estrutural do trabalho. Entretanto, o movimento da precarização es-
trutural do trabalho encontrou os limites histórico-morais do processo
civilizatório do capital. Embora opere nesta direção, o capital é incapaz
de reduzir absolutamente o valor da força de trabalho ao seu elemento
físico (os meios indispensáveis para os trabalhadores assalariados vi-
verem e multiplicarem-se), desprezando o componente histórico e so-
cial. A questão crucial que se coloca para o capital no século XXI será

86 Superexploração do trabalho no século XXI


resolvida pela luta de classes, pois ela decidirá se a velocidade de des-
valorização do capital variável acompanhará (ou não) a velocidade de
desvalorização do capital constante.
Uma das expressões históricas do movimento de precarização estru-
tural do trabalho é a vigência da superexploração da força de trabalho
como fenômeno global. Ela é um recurso para promover o aumento da
velocidade de desvalorização do capital variável no plano do mercado
mundial. Ela diz respeito à queda abrupta e profunda do salário rela-
tivo do proletariado no mercado mundial. A superexploração da força
de trabalho não diz respeito apenas à realidade dos países capitalistas
dependentes, mas tornou-se característica do movimento da precariza-
ção estrutural do trabalho no capitalismo global, operando aquilo que
Mészáros denominou de equalização descendente da taxa diferencial de
exploração da força de trabalho (Mészáros, 2011).
Como conceito, superexploração do trabalho foi caracterizada por
Ruy Mauro Marini, pelo (1) aumento da intensidade do trabalho, com
o aumento da mais-valia obtido por meio da maior exploração do tra-
balhador assalariado e não do incremento da sua capacidade produtiva;
(2) o prolongamento da jornada de trabalho com o aumento da mais-
-valia absoluta em sua forma clássica, aumentando, deste modo, o tem-
po de trabalho excedente; e a (3) redução do consumo do trabalhador
assalariado além do limite normal (como observou Karl Marx em “O
Capital”, “o fundo necessário de consumo do operário se converte, de
fato, dentro de certos limites, num fundo de acumulação de capital”)
(Marini, 1980; Marx, 1996).
As reflexões de Ruy Mauro Marini sobre a superexploração da força
de trabalho partiam da realidade da exploração nos países capitalistas
dependentes (tal como o Brasil). A necessidade estrutural da superex-
ploração da força do trabalho decorria da contradição entre o aumento
da composição orgânica do capital, um traço das economias de desen-
volvimento capitalista hipertardio caracterizadas por setores dinâmi-
cos de alta inovação tecnológica; e a redução da massa de mais-valia
no conjunto da economia nas formações sociais capitalistas dependen-
tes, fazendo com que a superexploração do trabalho se tornasse uma

A superexploração dotrabalho e o colapso/expansão da forma-valor no capitalismo global: Notasteóricas 87


necessidade estrutural para que a taxa de lucro global da economia de-
pendente fosse preservada.
Portanto, as inovações tecnológicas nos setores mais dinâmicos exi-
giriam a depreciação da força de trabalho como mecanismo de com-
pensação para reequilibrar as taxas de mais-valia e lucro. Com as mu-
danças ocorridas na era do capitalismo global, a superexploração do
trabalho adquiriu um sentido concreto para além da particularidade do
capitalismo dependente, tornando-se um fenômeno global.
Para Ruy Mauro Marini, com a globalização, a produção mundial
é caracterizada hoje por uma homogeneização crescente em termos de
capital constante fixo e circulante. Com a redução das barreiras comer-
ciais e a maior integração do comércio mundial, a lei do valor teve uma
“completa restauração” (Marini e Millán, 1996).
Como observou ele, no capitalismo do imediato pós-guerra, um
mercado global rigidamente compartimentado por mercados nacio-
nais, sujeitos a um maior ou menor grau com a vontade de cada Estado,
afetou significativamente o funcionamento da lei do valor. Mas com o
capitalismo global, a nova fase do mercado mundial, tivemos a dissolu-
ção gradual das fronteiras nacionais e o aumento da fase de produção
projetado para cobrir mercados cada vez mais vastos, envolvendo a in-
tensificação da concorrência entre as grandes empresas e seu esforço
contínuo para alcançar ganhos extraordinários sobre os seus concor-
rentes. Tivemos a proliferação do uso de procedimentos para a obtenção
de tais lucros extraordinários. Entretanto, as grandes empresas estão
tornando-os cada vez mais difícil estabelecer monopólios tecnológicos
por longos períodos, dadas as características que assumiu a gestão do
capital. A concorrência impõe novas formas de reduzir os custos de cir-
culação (como just-tempo no sistema, o que quer para evitar a formação
de estoques) e descentralização produtiva (como outsourcing) não im-
plica apenas graus maiores de centralização do capital, mas requer a di-
vulgação das tecnologias, nomeadamente em matéria de métodos dire-
tos de produção (embora, obviamente, não em relação a sua concepção).
Deste modo, ao invés do capitalismo fordista-keynesiano, no capi-
talismo global a difusão tecnológica é indispensável para a normaliza-
ção de produtos e, por conseguinte, para a permutabilidade, que tende,

88 Superexploração do trabalho no século XXI


finalmente, para padronizar os processos de produção e para coincidir
com a produtividade do trabalho e, assim, a sua intensidade. Na era
do capitalismo global, sob a vigência explosiva da lei do valor, se im-
põe a tendência da queda da taxa média de lucros devido o aumento da
composição orgânica do capital no plano do mercado mundial, com o
capital operando na economia global, o mesmo mecanismo de compen-
sação que opera nas economias dependentes dos países do capitalismo
hipertardio: a superexploração do trabalho.
Um indicador que aponta a vigência da superexploração do traba-
lho nos países da OCDE é o crescimento da desigualdade de renda no
período de 1990 a 2015 – um crescimento de 35% (vide Gráfico 3). Um
autor que veio a denunciar tal aumento da desigualdade social e con-
centração de renda no capitalismo global, sem ir às raízes estruturais
do rebaixamento histórico da civilização salarial do capital foi Thomas
Piketty (Piketty, 2014).

Gráfico 3: Desigualdade de Renda na OCDE

Deste modo, a superexploração do trabalho no sistema mundial do


capital, incluso os países capitalistas dependentes como o Brasil, adqui-
re as seguintes particularidades sócio-históricas:
1. observamos o aumento exacerbado da extração de mais-valia
relativa por meio do aumento da intensidade do trabalho através

A superexploração dotrabalho e o colapso/expansão da forma-valor no capitalismo global: Notasteóricas 89


da utilização de novos métodos de gestão toyotista acoplados a
inovações tecnológicas das revoluções informáticas/informa-
cionais. Portanto, ocorreu um aumento da capacidade produti-
va com o aumento da intensidade do trabalho pela conjunção/
articulação de novas tecnologias informacionais e organização
do trabalho toyotizada, redundando numa maior exploração do
trabalhador assalariado. Deste modo, o aumento da capacidade
produtiva da força do trabalho articulou-se com a redução do
salário relativo.
2. ocorreu a reposição da extração de mais-valia absoluta por meio
do prolongamento da jornada de trabalho e portanto, do tempo
de trabalho excedente, tanto sem sua forma clássica, como em
sua forma pós-moderna. A forma clássica de extração da mais-
-valia absoluta ocorreu com o predomínio das horas-extras ou
prolongamento usual da jornada de trabalho. Por conta das mu-
tações orgânicas da forma-valor “afetada de negação” tivemos
a “implosão” categorial da jornada de trabalho com o tempo
de vida reduzindo-se a tempo de trabalho e a posição do fenô-
meno da “vida reduzida” (Alves 2017). O desenvolvimento do
capitalismo global propiciou a síntese entre mais-valia relativa
e mais-valia absoluta, tendo em vista que as novas tecnologias
informacionais em rede e os novos métodos de gestão toyotista
produziram uma intensificação do trabalho que implodiu a de-
limitação clássica entre tempo de trabalho e tempo de não-tra-
balho. Este é o modo da superexploração da força de trabalho na
era do capitalismo flexível.
3. a redução do consumo do trabalhador assalariado além do li-
mite normal, a formulação clássica de Ruy Mauro Marini para
o conceito de superexploração do trabalho, adquiriu no capi-
talismo global um novo sentido concreto. Por exemplo, a dila-
pidação do fundo de consumo se verifica não pela redução do
consumo no sentido do empobrecimento absoluto, mas sim, pela
manifestação da pauperização relativa tendo em vista que os
salários não acompanham a produtividade do trabalho social
(redução drástica do salário relativo). A redução do consumo

90 Superexploração do trabalho no século XXI


ou da capacidade aquisitiva do trabalho oculta-se por meio do
aumento do endividamento das famílias de trabalhadores dado
pela proliferação do crédito. Por isso, o fundo necessário de con-
sumo do trabalhador assalariado mantém-se exclusivamente
por conta da servidão financeira das famílias de trabalhadores,
expondo um novo aspecto da superexploração da força de tra-
balho (a escravidão financeira da pessoa-que-trabalha). Deste
modo, o fundo de consumo torna-se um fundo de acumulação
do capital fictício, forma hegemônica do capital na era de sua
crise estrutural.

Na era do capitalismo global, o fenômeno da superexploração do


trabalho atingiu não apenas as camadas pobres e de baixa qualificação
da classe trabalhadora, mas também as camadas sociais do proletaria-
do, operários e empregados melhor qualificados e bem posicionadas na
estratificação social; e atingiu também os trabalhadores assalariados de
“classe média” ou camadas sociais com rendimentos salariais acima da
média nacional e que aumentaram a capacidade aquisitiva pelo acesso
ao crédito (endividamento) e pela dedicação ao emprego em função da
manutenção do padrão de vida de “classe média”, sofrendo, deste modo,
a corrosão e perda da qualidade de vida e a deterioração do equilíbrio
sociometabólico (adoecimento psicossomático) em virtude da compres-
são psicocorporal (Alves, 2011) dada pela intensificação do trabalho de-
vido a gestão toyotista acoplada às novas tecnologias informacionais,
longas jornadas de trabalho e degradação salarial relativa maximizada
pelo endividamento.

A título de conclusão
Na medida em que a nova superexploração da força de trabalho sob
o espírito do toyotismo como novo método de gestão da produção capi-
talista, se universalizou e se generalizou no plano do capitalismo mun-
dial, aumentou-se a incongruência entre produção de riqueza social e
qualidade de vida/bem-estar das individualidades pessoais de classe

A superexploração dotrabalho e o colapso/expansão da forma-valor no capitalismo global: Notasteóricas 91


– não apenas da indústria, mas dos serviços e inclusive, administração
pública.
Apenas as camadas de trabalhadores assalariados produtivos do
capital, são a rigor, explorados no sentido clássico do termo marxia-
no; mas, tendo em vista a disseminação de formas derivadas do valor
e do trabalho abstrato virtual pela totalidade social, pode-se conside-
rar que, mesmo trabalhadores assalariados improdutivos, interiores ou
exteriores à produção do capital (como os trabalhadores públicos, por
exemplo), também são “explorados”, na medida em que incorporam no
sociometabolismo laboral, elementos do trabalho estranhado. A uni-
versalização da superexploração da força de trabalho no capitalismo do
século XXI representa a universalização da condição existencial de pro-
letariedade (Alves, 2008).
O colapso/expansão da forma-valor representa no plano da contra-
dição do movimento do capital como auto-valorização do valor, a afir-
mação da “massa da humanidade como massa totalmente ‘destituída de
propriedade’,; e que se encontre ao mesmo tempo em contradição com
um mundo de riqueza e cultura existente [...] (Marx e Engels, 1987).
A obsessão pela desvalorização do capital variável, principalmente por
meio da superexploração da força de trabalho, representa a necessidade
de preservar o telos29 do capital, isto é, os princípios do ser do sendo do
valor em processo (o movimento contraditório da autovalorização do
valor): a lucratividade do capital.

29 “O manter-se que se contém nos limites, o ter-se seguro a si mesmo, aquilo no que se
sustenta o consistente, é o ser do sendo. Faz com que o sendo seja tal em distinção ao não-
-sendo. Vir à consistência significa, portanto: conquistar limites para si, de-limitar-se. Daí
ser um caráter fundamental do sendo o telos, que não diz nem finalidade nem meta ou
alvo e, sim, “fim”. Mas “fim” não é entendido aqui no sentido negativo, como se alguma
coisa já não continuasse e, sim, findasse e cessasse de todo. “Fim” é conclusão no sentido
do grau supremo, de plenitude. No sentido de per-feição. Pois bem, limite e fim constituem
aquilo em que o sendo principia a ser. São os princípios do ser de um sendo” [o grifo é
nosso] HEIDEGGER, Martin. Introdução à metafísica. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro,
1969, p. 88.

92 Superexploração do trabalho no século XXI


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A superexploração dotrabalho e o colapso/expansão da forma-valor no capitalismo global: Notasteóricas 93


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94 Superexploração do trabalho no século XXI


Sal ário por peça e
superexplor ação do
tr abalho

Juliana Guanais

Reiteramos que no es nuestra intención pretender validar


aquí planteamientos teóricos sobre la base del estudio em-
pírico presentado. La importancia que este estudio tiene
para nosotros es que, lejos de contradecir los supuestos te-
óricos que teníamos al iniciarlo, su conclusión no sólo nos
ha llevado a asumirlos con más énfasis, sino que nos ha
señalado pistas para proceder a nuevos desarrollos de los
mismos.

Marini; Sotelo Valencia; Arteaga Garcia, 1981.

INTRODUÇÃO
O presente artigo tem como objetivo principal analisar a relação en-
tre pagamento por produção30 (forma predominante de remuneração
dos cortadores de cana), intensificação do trabalho e superexploração
na agroindústria canavieira brasileira e demonstrar as conexões inde-
satáveis entre esses fatores. Toda a análise toma como base a pesquisa
realizada junto a duas usinas de açúcar e álcool localizadas no interior
do estado de São Paulo entre os anos de 2011 e 2016. Além de nessas

30 O ponto de partida de toda análise aqui empreendida é que o pagamento por produção
pode ser visto como uma modalidade do salário por peça analisado por Karl Marx no livro
I de “O capital” (1867).

Salário por peça e superexploração do trabalho 95


empresas, a pesquisa de campo também foi realizada em Tavares (sertão
paraibano), local de origem de um dos grupos de cortadores de cana
entrevistados.
Para começar é preciso explicar o que é essa modalidade salarial. O
pagamento por produção é uma forma específica de remuneração que
está presente não somente no meio rural, mas também no urbano, e
possui ampla base legal, sendo previsto no artigo 457, § 1º da Consoli-
dação das Leis de Trabalho (CLT)31, bem como incontroversa aceitação
doutrinária e jurisprudencial. De acordo com a lógica desta modalidade
salarial, a remuneração de um trabalhador é equivalente à quantidade
de mercadorias produzida pelo mesmo. Isto é, o salário a ser recebi-
do não terá como base as horas por ele trabalhadas, mas sim a quanti-
dade de produtos que serão produzidos no decorrer de sua jornada de
trabalho:

“O salário por produção (por unidade de obra) correspon-


de a uma importância variável segundo a quantidade de
serviço produzido pelo empregado, sem levar em conta o
tempo gasto na sua execução. Fixo é o valor ajustado para
cada unidade de obra (por exemplo, quantidade de frutos
colhidos); mas o total do salário varia com o número de
unidades produzidas. Apesar de, nesse caso, o fator tempo
não ser considerado para efeito de cálculo da remuneração,
é obrigatória a observância da jornada máxima de oito ho-
ras diárias e 44 horas semanais, ressalvada a prestação de
horas extras, na forma legal” (In: Contrato de safra: manu-
al, 2002, p. 29) [grifos originais].

Devido a sua própria natureza, a maioria das atividades assalariadas


rurais é remunerada por intermédio do pagamento por produção, seja
no Brasil ou no mundo. Países como México, Estados Unidos, Haiti e

31 Art. 457 - Compreendem-se na remuneração do empregado, para todos os efeitos legais,


além do salário devido e pago diretamente pelo empregador, como contraprestação do
serviço, as gorjetas que receber. § 1º - Integram o salário, não só a importância fixa esti-
pulada, como também as comissões, percentagens, gratificações ajustadas, diárias para
viagem e abonos pagos pelo empregador. Disponível em http://www.soleis.com.br/
ebooks/TRABALHISTA-91.htm. Acesso em 19.07. 2017.

96 Superexploração do trabalho no século XXI


França, são somente alguns dos exemplos onde encontramos essa forma
específica de remuneração sendo utilizada em quase todos os setores
agrícolas e também em vários ramos industriais. No caso específico do
setor sucroalcooleiro brasileiro, não é possível precisar com exatidão
quando o pagamento por produção se tornou a forma predominante
de remuneração dos cortadores de cana, mas, alguns estudos apontam
que o mesmo já era utilizado com esse propósito desde pelo menos a
década de 1960 (Cf. Sigaud, 1971 e 1979; Garcia Jr., 1989; Neves, 1989).
Entretanto, mais importante do que precisar exatamente em qual data
o pagamento por produção foi introduzido na agroindústria canavieira,
é necessário entendermos quais os motivos que levaram as usinas de
açúcar e álcool a utilizarem essa modalidade salarial como a forma pre-
dominante de remuneração dos cortadores de cana.
No caso do setor sucroalcooleiro brasileiro, as usinas passaram a
utilizar esta modalidade salarial específica não somente com o intuito
de impedir que os assalariados rurais tivessem o controle de seu pro-
cesso de trabalho e de seu salário (Cf. Alves, 2006; Guanais, 2010), mas
também porque o pagamento por produção traz muitas outras vanta-
gens aos detentores dos meios de produção, como já nos demonstrou
Marx ([1867] 2013):

“Dado o salário por peça, é natural que o interesse pessoal


do trabalhador seja o de empregar sua força de trabalho o
mais intensamente possível, o que facilita ao capitalista a
elevação do grau normal de intensidade. É igualmente do
interesse pessoal do trabalhador prolongar a jornada de
trabalho, pois assim aumenta seu salário diário ou sema-
nal” (Marx, 2013, p. 624-625).

Ao ter sua remuneração atrelada à quantidade de “peças” que é


capaz de produzir em um determinado período de tempo, nada mais
compreensível que os trabalhadores invistam o máximo possível de suas
forças, de suas energias e de sua disposição no sentido de produzirem
cada vez mais, atitude extremamente importante para os detentores
dos meios de produção. Neste contexto o aumento da intensidade
do trabalho acaba surgindo por parte dos próprios trabalhadores,

Salário por peça e superexploração do trabalho 97


interessados em receber um salário melhor. E mais. Como vimos na
passagem acima, quando recebem por produção os trabalhadores
também demonstram maior disponibilidade para o prolongamento de
sua jornada de trabalho, para que, assim, possam trabalhar por mais
tempo, objetivando com isso o aumento de sua produção diária. E
isso porque, de acordo com a lógica do pagamento por produção, ao
produzirem mais, recebem mais.

Intensificação do trabalho na agroindústria canavieira32

“Na década de 1950 a produtividade do trabalho era de 3


toneladas de cana cortadas por dia de trabalho; na década
de 1980, a produtividade média passou para 6 toneladas
de cana por dia/homem ocupado e, no final da década de
1990 e início da presente década, atingiu 12 toneladas de
cana por dia” (Alves, 2006, p. 92).

Como a passagem acima deixa claro, a quantidade de toneladas de


cana cortada por dia por cada trabalhador rural aumentou exponen-
cialmente com o passar dos anos. A própria elevação contínua da média
– quantidade diária mínima de toneladas que deve ser cortada pelos
trabalhadores para conseguirem manter seus postos de trabalho – já
serve como um indicador concreto desse aumento33. Mas como pode-
mos explicar o que está ocorrendo no setor sucroalcooleiro?
Ao analisarmos o processo produtivo que envolve o corte ma-
nual da cana, é possível verificar que está em curso um processo de

32 Devido aos limites do presente artigo, não será possível desenvolver aqui uma discus-
são mais aprofundada sobre intensificação do trabalho e teoria marxiana do valor. Para
isso, indico o terceiro capítulo do meu livro Pagamento por produção, intensificação do
trabalho e superexploração na agroindústria canavieira brasileira. (São Paulo: Expressão
Popular/FAPESP, no prelo).
33 Ao não conseguirem alcançar a média diária estipulada pela usina para qual trabalham –
que atualmente gira em torno de dez ou doze toneladas/dia por trabalhador, dependendo
da empresa - os cortadores de cana são demitidos. Esta imposição da média é extrema-
mente importante para as empresas, que a utilizam como uma forma de selecionar somen-
te os trabalhadores mais produtivos.

98 Superexploração do trabalho no século XXI


intensificação do trabalho dos cortadores de cana, que, a cada nova
safra, veem-se obrigados a trabalharem e a produzirem cada vez mais
no mesmo período de tempo para poderem assegurar seu emprego.
Ao intensificar o trabalho, as empresas objetivam preencher todos os
“tempos de não-trabalho” presentes na jornada laboral, e, assim, elevar
quantitativamente e/ou melhorar qualitativamente os resultados pro-
duzidos no mesmo espaço de tempo, fenômeno que fica a cargo dos
próprios trabalhadores, que, para tanto, são obrigados a despender mais
energia vital em sua atividade (Cf. Dal Rosso, 2008).
No caso específico do corte manual da cana, esse aumento de resul-
tados é expresso pelo crescimento da quantidade de toneladas de cana
cortada por dia por cada trabalhador, que, devido à intensificação do
trabalho, passou a cortar um volume cada vez maior de cana no mesmo
período de tempo, gerando, assim, uma produção superior de valores
de uso no decorrer de sua jornada. Como vimos na passagem acima,
entre 1980 e a presente década, a produção individual dos cortadores de
cana mais do que duplicou, o que serve como um importante indicador
deste processo.
Mas não podemos deixar de destacar aqui que o processo de intensi-
ficação do trabalho que está em curso no corte manual da cana resulta
muito mais de mudanças organizacionais no processo produtivo do que
de avanços efetuados nos meios materiais com os quais o trabalho é exe-
cutado e/ou de mudanças tecnológicas introduzidas no setor. Isso faz
sentido se lembrarmos que o instrumento de trabalho dos cortadores
de cana – o podão - é o mesmo desde que essa atividade teve início no
Brasil no século XVI34. Dessa forma, nos parece ser possível dizer que
no caso específico da agroindústria canavieira brasileira essa reorga-
nização do trabalho – um dos objetivos do processo de reestruturação

34 Esse tipo de argumentação também está presente nos trabalhos de Reis (2012) e de Alves e
Novaes (2011). Para o primeiro: “Desde a década de 60, nenhuma mudança técnica signifi-
cativa foi implementada na atividade de corte manual da cana que possibilitasse aumento
de produtividade” (Reis, 2012, p. 68).

Salário por peça e superexploração do trabalho 99


produtiva pelo qual passou o setor sucroalcooleiro a partir de 2000 – é
um elemento capaz de aumentar o grau de intensidade do trabalho35:

“Se não houve mudança nas ferramentas e se não houve


mudança na produtividade da cana, resta examinar as mu-
danças na organização do trabalho. Entendemos como or-
ganização do trabalho a forma como o trabalho prescrito
é determinado para os trabalhadores e como a sua realiza-
ção é conferida ou fiscalizada. Em geral quem determina a
forma como trabalho é realizado é a gerência de recursos
humanos. Entre a década de 80 e a presente houve uma
mudança significativa na área de recursos humanos das
usinas. Na década de 80 a maior parte das usinas de São
Paulo não tinha um departamento de recursos humanos,
tinha apenas um departamento de pessoal, que fazia, fun-
damentalmente, admissão, demissão e controlava a folha
de pagamentos e registros em carteira, férias, afastamentos
etc. A partir da década de 90 as principais usinas promo-
veram o Departamento de Pessoal à Diretoria de Recursos
Humanos, isto é o Departamento de Pessoal deixa de ser
um mero departamento e passa a ser diretoria, portanto,
passa a formular com as duas outras diretorias, a Industrial
e a Agrícola, a estratégia da organização. Quando esta dire-
toria é criada ela passa a ter novas funções, além daquelas
clássicas já descritas: controle da seleção, controle diário da
produtividade de cada trabalhador, promoção de cursos de
capacitação de profissionais, desde trabalhadores do chão
de fábrica, até e principalmente trabalhadores das gerên-
cias superiores e implementação da política de participação
nos lucros e resultados ...” (Alves, s/d, mimeo).

Mas além da reorganização do trabalho, há, ainda, outros fatores


que também contribuem para a intensificação do trabalho dos assa-
lariados rurais, quais sejam: a média diária de produção (que, como

35 Conforme Dal Rosso (2008): “Pode haver alteração na intensidade acompanhada de mu-
dança técnica [...] ou não [...] Aquela não acompanhada de mudança técnica prévia implica
que a reorganização do trabalho é também elemento suficiente para torná-lo mais inten-
so” (Dal Rosso, 2008, p. 72-73).

100 Superexploração do trabalho no século XXI


mencionado anteriormente, impõe a obrigatoriedade dos trabalhadores
produzirem cada vez mais para conseguirem atingir a meta mínima e,
assim, assegurar seu emprego) e o pagamento por produção.
Como já destacado, ao utilizar o pagamento por produção como a
forma de remuneração, as usinas buscam obter mais trabalho e, conse-
quentemente, mais “mercadorias” dos cortadores de cana, fato que pôde
ser percebido no decorrer da investigação. Por intermédio da pesquisa
de campo realizada em ambas as usinas, pudemos comprovar que o pa-
gamento por produção contribui, e muito, para a intensificação do tra-
balho dos cortadores de cana, conforme fica explícito nos depoimentos
abaixo:

“Eu gosto de produção porque você recebe mais, né, o que


a gente ganha na diária é muito pouco, pouco mesmo [...]
Já na produção, não, tem cara que se mata. Eu já vi até des-
maiar de tanto trabalhar, dá câimbra. Tem gente que não
espera nem a ginástica [laboral], já desce do ônibus e vai
pegando o eito para não perder tempo” (Wilson36).

“Na produção a gente trabalha ‘forçado’37. O trabalho por


produção, se você faz uma diária de produção, vamos di-
zer, uma diária de R$ 100 mais ou menos de produção por
dia, e você tá gostando do serviço, e você tem capacidade
de aumentar aquilo ali, você não vai diminuir, você não
quer diminuir, todo dia você vai ter que ter mais, dá pra au-
mentar cada vez mais, na produção o cara pode conseguir,
mas é gostoso você receber o salário, porque o salário vem
bom, vem gordo, vem bom, você trabalha interessado...”
(seu Joaquim).

36 Em função do compromisso de que nenhuma informação passível de identificar os su-


jeitos fosse divulgada, os nomes dos participantes referidos no estudo foram alterados e
substituídos por nomes fictícios, assim como os de todas as pessoas às quais eles se referi-
ram nas entrevistas.
37 Trabalhar forçado é uma expressão bem recorrente entre os assalariados rurais. Quando
dizem que eles trabalham forçado, estão querendo dizer que se esforçam bastante no tra-
balho, que trabalham com empenho e afinco.

Salário por peça e superexploração do trabalho 101


“Na produção o pessoal tá se cansando, não perdendo hora,
não perdendo nem minuto no trabalho, porque se perder
a pessoa, digamos que tira R$ 800, R$ 700 no mês, se teve
minuto perdido, se perder hora, tudo isso aí, aí já não vai
tirar mais! Aí fica aquela correria, pega ali, pega acolá, aí
pronto, aí não vai ganhar aquilo lá o que ganha, tem que
correr mesmo, não pode perder minuto” (José).

As falas nos deixam claro que o ritmo de trabalho dos cortadores de


cana é muito influenciado pela possibilidade que eles têm de receber um
salário mais elevado, já que recebem por produção. Assim, para poderem
ganhar um salário melhor, os trabalhadores buscam sempre que possível
trabalhar mais e mais rápido, isso é, preencher todos os “tempos de não-
-trabalho” presentes em sua jornada e aumentar seu ritmo para cortar
uma quantidade cada vez maior de cana ao longo de seu expediente, e,
ao fazerem isso, acabam desrespeitando os limites de seu próprio corpo.
Importante dizer ainda, que grande parte dos cortadores de cana en-
trevistados também reconheceu que o ritmo e a velocidade imprimidos
no trabalho são maiores hoje em dia do que há alguns anos atrás, outro
indicador do crescimento do grau de intensidade. “Se aumenta a veloci-
dade, cresce correspondentemente o quantum de trabalho feito e a quan-
tidade ou qualidade dos resultados” (Dal Rosso, 2008, p. 175).
É por tudo isso que muitos trabalham tanto – se forçam tanto no
trabalho – que chegam até mesmo a desmaiar ou ter outros mal estares
súbitos mais graves no decorrer de sua jornada laboral, precisando ser
imediatamente socorridos pelos colegas de trabalho ainda no interior
dos canaviais, como será tratado adiante.
E mais. Como já discutido em pesquisa anterior (Cf. Guanais, 2010),
o pagamento por produção praticado na agroindústria canavieira guar-
da uma especificidade quando comparado aos demais praticados em
outros setores, e isso também contribui ainda mais para a intensificação
do trabalho dos cortadores de cana. Vimos que em função do sistema
de amostragem cientificamente elaborado pelos departamentos agríco-
las das usinas, os cortadores de cana ficam impossibilitados de conhe-
cer não somente a quantidade de metros que cortaram em um dia de
trabalho (isso é, a quantidade de “peças” que produziram), mas também

102 Superexploração do trabalho no século XXI


o valor do metro (o preço da “peça”) que produziram, tornando im-
possível para os mesmos controlar seu processo de trabalho e seu salá-
rio. Assim, sem saber ao certo quanto irão receber por aquele dia, nem
terem conhecimento se conseguiram (ou não) atingir a média diária,
muitos cortadores de cana ficam inseguros, e, acabam se vendo na obri-
gação de aumentar seu ritmo e trabalhar o máximo que conseguirem, o
que muitas vezes acaba acarretando em acidentes e problemas de saúde.
Ao longo das entrevistas realizadas, muitos trabalhadores também
fizeram questão de reconhecer a relação do pagamento por produção
com a elevação da intensidade do trabalho, e, consequentemente, com o
aumento do desgaste físico e com muitas das doenças que os acometem.
Para os entrevistados, o trabalho na diária38 era visto pelos próprios tra-
balhadores como mais maneiro, isso é, mais leve, não tão pesado como
o corte de cana. Assim, aqueles que trabalhavam na diária (e que, por
isso, não recebiam por produção) prejudicavam menos a saúde porque
forçavam menos do que aqueles que cortavam cana e que recebiam por
produção. Ainda para os entrevistados, quando trabalhavam na produ-
ção os assalariados acabavam tendo mais chances de se machucar e de
se acidentar porque tinham um ritmo de trabalho muito mais acelerado
e intenso do que o ritmo daqueles trabalhadores da diária:

“Valmir (V): Aqui na [nome da usina] tem diferença: o pes-


soal do plantio é por diária, e o do corte é por produção. A
diária você trabalha menos, e ganha bem menos. Você só
planta, limpa a roça, tira mato, o serviço é mais ‘maneiro’,

38 Normalmente, as turmas da diária chegam às usinas um pouco mais cedo que as


demais, entre janeiro e fevereiro, antes do “início oficial” da safra, e têm como forma de
remuneração predominante a diária, isso é, todos que fazem parte dessa turma recebem
um valor fixo por dia. No caso específico de uma das usinas pesquisadas, no ano de 2012 a
diária estava em torno de R$20. Nos primeiros meses as turmas da diária são responsáveis
pela limpeza dos canaviais e pelo plantio de cana, mas, depois que se inicia a safra, tais
turmas continuam com as atividades que já faziam, mas também assumem outras, tais
como a “bituca”, o recolhimento de pedras, a abertura de eitos para as máquinas, etc.,
as quais, por serem consideradas secundárias e menos importantes do que o corte da
cana, estão dentre as mais mal remuneradas pelas usinas. Quando recebem por diária os
assalariados rurais acabam ganhando um valor diário e mensal bastante inferior ao que é
obtido por meio do pagamento por produção, fato que faz com que a grande maioria dos
trabalhadores dê preferência para o último.

Salário por peça e superexploração do trabalho 103


por isso ganha menos. Já os do corte é tudo produção, mas
o serviço é pesado demais, mas também ganha bem mais.
Pesquisadora (P): Mas e você, prefere trabalhar por diária
ou por produção?
V: Eu prefiro a diária, porque o serviço é mais ‘maneiro’.
Porque na produção o cara ganha bem mais... mas tem que
se esforçar demais, né, tem que se matar. Na diária não, é
mais fácil, não judia tanto do corpo da gente. Eu prefiro na
diária porque eu posso voltar gordo para casa...na produ-
ção não, o cara emagrece demais, viu”.
“Eu dei uma baixada no ritmo, agora eu tô cortando me-
nos cana do que naquela época, né, porque dependendo do
jeito que você tá esforçando ali, você causa um problema
nas costas, né... Um colega meu, o Padilha, ele cortava cana
desde dois mil e quatro e o médico proibiu ele de cortar
cana, o médico falou para ele que se ele quisesse viver um
pouco mais ele tinha que parar de cortar cana...aí ele pa-
rou, né, parou naquela semana mesmo” (Igor).

Outro indicador39 inconteste da intensificação do trabalho é o acú-


mulo de atividades – que antes eram exercidas por mais pessoas – em
um único trabalhador, acúmulo esse que também afeta os assalariados
rurais. Como sabemos, o corte da cana não se limita somente a ativi-
dade de retirada da cana do solo, já que envolve, também, um conjunto
de outras atividades anexas, tais como a limpeza da cana (com a elimi-
nação da palha que ainda permanece), a retirada da ponteira, o trans-
porte da cana cortada para a linha central do eito e a arrumação da
cana depositada na terceira linha em esteira ou em montes (Cf. Alves,
2008). Ou seja, ao longo de sua jornada os canavieiros não somente cor-
tam cana, mas também são obrigados a realizar uma série de atividades
que estão relacionadas ao corte. Isso faz com que um único trabalhador

39 Sobre os indicadores da intensificação do trabalho, Dal Rosso (2013) escreveu: “Quais são
esses indicadores é uma questão aberta, que pode adequar-se às condições de trabalho
pesquisadas. Alguns elementos gerais podem ser indicados: ritmo e velocidade exigidos
pelas atividades, acúmulo de tarefas, polivalência ou exercício simultâneo de diversas
atividades paralelas, aumento ou diminuição do esforço exigido no trabalho, cobrança
de resultados por parte de chefes ou controladores dos processos de trabalho” (Dal Rosso,
2013, p.49).

104 Superexploração do trabalho no século XXI


tenha que ser capaz de dar conta, sozinho, de todo esse conjunto, o que
é extremamente interessante para as usinas, que assim podem reduzir a
quantidade de força de trabalho empregada.
Por fim, não podemos deixar de lembrar aqui que não somente no
Brasil, mas em grande parte dos países, o grau de intensidade do tra-
balho não consta nos acordos coletivos travados entre empregados e
patrões, o que acaba fazendo com que sua elevação muitas vezes seja
imposta aos trabalhadores sem qualquer tipo de negociação. Como ex-
plica Dal Rosso (2011):

“Há que se questionar os limites para a intensificação do


labor. Por mais flexível que seja o trabalhador, impõem-
-se determinados limites individuais e coletivos. Os limi-
tes individuais dependem da capacidade de resistência de
cada sujeito. Os limites coletivos ou sociais dependem por
um lado de negociações entre sindicatos e empresas e por
outro da resistência coletiva dos trabalhadores. No Brasil,
negociações sobre intensidade do trabalho são tão escassas
que praticamente não aparecem no rol das cláusulas defi-
nidas em acordos coletivos de trabalho. Prevalece a norma
implícita de que o contratador, pelo fato de comprar mão
de obra, no ato do contrato recebe o direito de determinar
o grau de intensidade do labor segundo os padrões que jul-
gar pertinentes. Em muitos outros países do mundo vige
esta prática de que a intensidade laboral não é objeto de
negociação, ficando sua determinação como direito do em-
pregador” (Dal Rosso, 2011, p. 144-145).

Prolongamento da jornada
Ao analisarmos detidamente o processo produtivo que envolve o
corte manual da cana, é possível verificar que além de estar em curso
um processo de intensificação do trabalho, episódios de prolongamento
da jornada também são recorrentes. Isso faz com que nesse setor o
aumento da intensidade do trabalho se some à extensão da jornada
laboral, trazendo enormes prejuízos à saúde dos trabalhadores, que

Salário por peça e superexploração do trabalho 105


têm sua força de trabalho ainda mais dilapidada quando isso acontece.
É importante mencionar aqui que, a despeito de não ser o único fator
determinante, o pagamento por produção também contribui, e muito,
para o prolongamento da jornada laboral, já que, quando estendem
seu tempo de trabalho, os assalariados podem cortar uma quantidade
maior de toneladas de cana, e, assim, receber um salário mais alto.
Deve-se ressaltar que, no caso da agroindústria canavieira, esse pro-
longamento da jornada pode se dar por intermédio de três formas, que
podem ocorrer conjugadas ou não: pelo descumprimento das paradas
previstas para almoço e descanso; pela prestação de horas extras (reali-
zadas após as oito horas convencionais de trabalho); ou ainda via traba-
lho aos domingos e feriados.
No caso da primeira situação, a partir das observações in loco foi
possível perceber que mesmo tendo asseguradas a pausa de uma hora
para o almoço e as duas pausas de dez minutos para descanso (que de-
vem ser feitas de manhã e de tarde), muitos trabalhadores rurais não
obedeciam esses momentos de parada.
Especialmente no que se refere ao almoço, muitos cortadores de
cana optavam por almoçar em poucos minutos para poderem retornar
o mais rápido possível para sua atividade. Importante deixar claro que
situações como essas contrariam algumas das recentes exigências do
Ministério Público do Trabalho (MPT), que preveem que no caso espe-
cífico do intervalo para almoço, além de terem que respeitar a parada
de uma hora, os cortadores de cana também devem retornar aos ônibus
para fazer suas refeições em mesas abrigadas sob toldos, o que nem sem-
pre ocorre na prática.
De acordo com os entrevistados, pelo fato de receberem por pro-
dução, muitos não fazem as pausas que lhe são garantidas, já que ao
pararem de trabalhar, diminuem sua produção, e consequentemente,
seu salário. Isso fica bem claro no depoimento de um dos trabalhadores:

“José (J): Almoçou, tem uma hora de descanso no almoço,


tem 10 minutos de parada as 9 horas e 2 horas da tarde tem
mais 10 minutos. Nós, que tá no serviços gerais, quando é 9
horas o ônibus apita e nós para 10 minutos, aí a gente sen-
ta um pouco, fica conversando um pouco, aí passou os 10

106 Superexploração do trabalho no século XXI


minutos e nós começa de novo, só que na produção tem os
10 minutos, a mesma coisa, só que eles não param porque
- mas o pessoal da usina também não obriga - mas o certo
mesmo é parar, sabe.
Pesquisadora (P): E por que eles não param?
J: Porque eles olham no holerite e eles não pagam os 10 mi-
nutos, é obrigado a pagar, mas eles não pagam, aí o pessoal
fala que eles não vão ficar parado os 10 minutos porque eles
não vão ganhar nada, então eles ficam trabalhando deva-
garzinho, aí fica trabalhando! Aí chega as 11 horas – porque
tem 2 turnos, duas turmas pra almoçar, uma turma almoça
das 10 as 11 horas, e outra almoça das 11 as 12 horas – aí deu
11 horas e o ônibus apita, aí quem tá na produção tem que
ir pro serviço, principalmente eles que tá na produção que
quanto mais rápido melhor pra não perder tempo, porque
se ganha, se tira 800, aí chega no mês e se não fizer isso daí
aí tira R$500, R$ 600, aí não pode perder tempo”.

Como é possível perceber a partir do depoimento acima, as pausas


são descumpridas - já que além de desestimuladas pelos fiscais de tur-
ma, muitas vezes também não são pagas pelas usinas, contrariando o
que está previsto em lei40 – e os cortadores de cana trabalham “corren-
do” porque têm consciência de que cada minuto parado representa uma
diminuição em seu já parco salário. Também não podemos nos esque-
cer que quanto mais suspenderem sua atividade, mais difícil fica para
atingir a média diária – extremamente elevada - e, ao não atingirem a
mesma, o risco de demissão é enorme, como já explicado anteriormente.
Outra forma de prolongamento da jornada ocorre via trabalho aos
domingos e feriados. De início, é preciso deixar claro que os cortadores
de ambas as usinas pesquisadas trabalham de segunda a sábado, tendo
os domingos e feriados como únicos dias de folga e descanso. Entretan-
to, a despeito disso, ambas as usinas “convidam” os cortadores de cana a
trabalharem também nesses dias e oferecem algumas “vantagens” para

40 De acordo com Garcia: “Cabe frisar que o empregador também deve conceder aos traba-
lhadores, sejam urbanos ou rurais, o intervalo para descanso e refeição (intrajornada) e
o intervalo interjornada, sendo este último de 11 horas consecutivas, conforme art. 66 da
CLT e art. 5º, parte final, da Lei 5.889/73” (Garcia, 2007, p. 10).

Salário por peça e superexploração do trabalho 107


aqueles que aceitarem seu “convite”. Uma dessas vantagens é a duplicação
do valor que os trabalhadores irão receber por aquele dia41. Isto é, se por
acaso aqueles que aceitarem trabalhar em seu único dia de folga corta-
rem, por exemplo, 10 toneladas de cana nesse dia, ao invés de receberem
um salário diário condizente com aquelas 10 toneladas, receberão um sa-
lário condizente com 20 toneladas de cana. Isso acaba fazendo com que
mesmo extremamente cansados do trabalho da semana toda, muitos cor-
tadores de cana acabem indo trabalhar aos domingos e feriados também.
Ao longo da pesquisa de campo, foi difícil encontrar trabalhadores
que permaneciam em seus alojamentos aos domingos para descansar e
se recuperar para a próxima semana de trabalho. Para eles, a oportuni-
dade de receber dobrado era muito atrativa e não podia ser deixada de
lado, e por isso grande parte dos cortadores de cana acabava aceitando
prolongar sua jornada de trabalho para sete dias. Não podemos nos es-
quecer que os salários dos cortadores de cana sempre foram historica-
mente baixos (Cf. Alves, 2008), mas que mesmo assim devem assegurar
a sobrevivência dos mesmos e suas famílias não somente ao longo da sa-
fra, mas também durante toda a entressafra, e, para tanto, é necessário
que seja uma quantia que seja capaz de suprir todas essas necessidades.
Mas há, ainda, outros fatores que também contribuem para esse
prolongamento da jornada. Além do desconhecimento da quantidade
de cana que cortaram por dia - que, como vimos, trás insegurança aos
trabalhadores no que diz respeito ao salário que receberão no final da
quinzena ou do mês -, os baixos preços pagos pelas usinas para o me-
tro de cana cortada também acabam levando os assalariados não só a
intensificarem seu ritmo de trabalho, como também a prolongarem sua
jornada para que assim possam assegurar um salário minimamente ra-
zoável para sua sobrevivência. Não podemos nos esquecer que o preço
do metro linear de cana, a despeito de variar em função das diferenças

41 Como deixa claro o Manual de Contrato de Safra: “... o trabalhador safrista tem direito a
um dia de folga na semana (24 horas seguidas), devidamente remunerado. Essa folga deve
coincidir com o domingo. Quando houver, por algum motivo justificável de natureza téc-
nica, trabalho no domingo, deverá ser concedido outro dia de folga ao trabalhador, ou o
pagamento do domingo trabalhado em dobro, sem prejuízo do pagamento normal do dia
de descanso” (In: Contrato de safra: manual, 2002, p. 27).

108 Superexploração do trabalho no século XXI


existentes entre as distintas espécies de cana, é sempre muito baixo,
muitas vezes não passando de centavos de Real.
Deve-se ressaltar aqui também que independentemente da forma
pela qual se dê o prolongamento da jornada, o motivo é sempre o mes-
mo: a tentativa por parte dos trabalhadores de aumentar seu parco salá-
rio. Contudo, é preciso se deixar claro que, na prática, se forem levar em
consideração somente o retorno financeiro que terão, trabalhar um dia
a mais na semana acaba sendo “melhor” do que fazer horas extras, uma
vez que, diferentemente dos demais assalariados, os cortadores de cana,
por receberem por produção, não recebem o valor da hora(s) extra(s)
trabalhada(s). Isso porque, de acordo com o entendimento majoritário
do Tribunal Superior do Trabalho (TST), quando os trabalhadores que
são remunerados por produção trabalham horas extras, os empregado-
res não são obrigados a pagar a seus empregados o valor da(s) hora(s)
extra(s) trabalhada(s) uma vez que nessas ocasiões os mesmos já estarão
recebendo um adicional.
Isso quer dizer que quando os empregados recebem por produção
e fazem horas extras, as empresas ficam autorizadas a pagar aos mes-
mos somente o adicional (ou seja, somente o “número de peças” a mais
que o trabalhador produziu durante esse tempo de hora extra), não sen-
do, portanto, obrigadas a pagar também o valor da(s) hora(s) extra(s)
trabalhada(s)42.
Importante deixar claro aqui que até o presente momento, a despeito
de existir alguns magistrados se posicionando contra, o entendimento
majoritário do Tribunal Superior do Trabalho sobre o pagamento de
horas extraordinárias aos cortadores de cana ainda continua prevale-
cendo. Com isso, o roubo do valor das horas extras trabalhadas que
deveriam, mas não são pagas aos cortadores de cana, vem a se somar a

42 Em seu artigo, Francisco Giordani, Juiz Titular da Vara do Trabalho de Campo Limpo
Paulista (SP), se posiciona contrário a esse entendimento majoritário do TST: “O entendi-
mento majoritário, ao menos na jurisprudência, é no sentido de que, quando o empregado
trabalha e é pago por produção, a hora extraordinária já encontra-se remunerada com
o que recebe a mais, restando, apenas, o pagamento do adicional e reflexos [...] Referido
entendimento, no que toca aos trabalhadores rurais, não pode, com a devida vênia, pre-
valecer, havendo, ao reverso, que considerar devido o pagamento da própria hora mais o
adicional, e não apenas esse...” (Giordani, 2009, mimeo).

Salário por peça e superexploração do trabalho 109


todos os demais roubos presentes no processo produtivo do corte ma-
nual da cana, tais como os roubos no momento da passagem do com-
passo e os roubos no momento da pesagem da cana nas balanças das
usinas, roubos esses que interferem diretamente e negativamente no
salário dos cortadores de cana.
Por fim, não podemos nos esquecer também que o prolongamento
da jornada laboral ainda oferece muitas outras vantagens aos usinei-
ros. Isso porque ao acrescentarem mais horas de trabalho à sua jornada,
além de estarem efetivamente prolongando o tempo de produção, os
trabalhadores empregados estão suprindo o trabalho que poderia ser
realizado por outras pessoas. Dessa forma, as empresas economizam
na contratação de novos empregados pela maior exploração dos que já
estão em atividade, tornando, assim, desnecessária a criação de novos
postos de trabalho43.
Mas e a superexploração do trabalho, onde entra na presente pesqui-
sa? Como ela se dá na prática?

Superexploração do trabalho
De acordo com Ruy Mauro Marini ([1973] 2011), a superexploração
do trabalho é um mecanismo de compensação que opera na esfera pro-
dutiva dos países dependentes utilizado pelos capitalistas desses países
para compensar as perdas geradas devido às transferências de valor e de
mais-valia para os países centrais, e é viabilizada por intermédio de três
mecanismos-chave: o prolongamento da jornada laboral, o aumento da
intensidade do trabalho, e a redução do consumo dos operários mais
além de seu limite normal. De acordo com o autor:

“O aumento da intensidade do trabalho aparece, nessa pers-


pectiva, como um aumento da mais-valia, obtido através de

43 Nunca é demais lembrar que a utilização massiva de horas extras em um país dependente
como o Brasil, que conta com altas taxas de desemprego e subemprego, acaba produzindo
efeitos multiplicadores negativos extensivos ao conjunto da economia, especificamente
aos setores de trabalhadores que se encontram sem emprego, e cuja existência reforça ain-
da mais a tendência de baixa dos salários.

110 Superexploração do trabalho no século XXI


uma maior exploração do trabalhador e não do incremento
de sua capacidade produtiva. O mesmo se poderia dizer da
prolongação da jornada de trabalho, isto é, do aumento da
mais-valia absoluta na sua forma clássica [...] Deve-se assina-
lar, finalmente, um terceiro procedimento, que consiste em
reduzir o consumo do operário mais além do seu limite nor-
mal, pelo qual “o fundo necessário de consumo do operário
se converte de fato, dentro de certos limites, em um fundo de
acumulação de capital”... (Marini, 2011, p. 147-148).

E Marini (2011) continua:

“... esses mecanismos (que ademais podem se apresentar, e


normalmente se apresentam, de forma combinada) signi-
ficam que o trabalho é remunerado abaixo de seu valor e
correspondem, portanto, a uma superexploração do traba-
lho” (Marini, 2011, p. 150).

Os três mecanismos-chave mencionados por Marini (2011) acabam


por configurar um modo de produção fundado na maior exploração da
força física dos trabalhadores, e não no desenvolvimento de suas capa-
cidades produtivas. De acordo com o autor, essa realidade é condizente
não somente com o baixo nível de desenvolvimento das forças produti-
vas nas economias latino-americanas, mas também com as atividades
produtivas que são ali realizadas.
Ao afirmar que a superexploração corresponde a uma situação em
que o trabalho é remunerado abaixo de seu valor, Marini (2011) quis di-
zer que nesta situação específica o salário recebido pelo assalariado não
condiz com o valor de sua força de trabalho, isto é, que sua remuneração
é inferior ao valor de sua força de trabalho. Mas, como isso pode ocor-
rer? Para que seja possível responder de forma satisfatória a esta questão
é necessário, primeiramente, remetermos à discussão sobre a determi-
nação do valor da força de trabalho. De acordo com Marx (2013):

“O valor da força de trabalho, isto é, o tempo de trabalho re-


querido para sua produção, determina o tempo de trabalho
necessário para a reprodução de seu valor. Se 1 hora de tra-

Salário por peça e superexploração do trabalho 111


balho se representa numa quantidade de ouro de ½ xelim ou
6 pence, e se o valor diário da força de trabalho é de 5 xelins,
o trabalhador tem de trabalhar 10 horas diárias para repor o
valor diário que o capital lhe pagou por sua força de trabalho
ou para produzir um equivalente do valor dos meios de sub-
sistência que lhe são diariamente necessários. Com o valor
de seus meios de subsistência está dado o valor de sua força
de trabalho, e com o valor de sua força de trabalho está dada
a grandeza de seu tempo de trabalho necessário (...) Certa-
mente, o capitalista pode pagar ao trabalhador, em vez de 5
xelins, apenas 4 xelins e 6 pence, ou menos ainda. Para a re-
produção desse valor de 4 xelins e 6 pence bastariam 9 horas
de trabalho, obtendo-se assim 3 horas de mais-trabalho em
vez de duas (...) Mas só se chegaria a tal resultado por meio
da compressão do salário do trabalhador abaixo do valor de
sua força de trabalho. Com os 4 xelins e 6 pence que pro-
duz em 9 horas, o trabalhador dispõe de 1/10 menos meios
de subsistência do que antes, o que resulta na reprodução
atrofiada de sua força de trabalho (...) Apesar do importante
papel que desempenha no movimento real do salário, esse
método é aqui excluído pelo pressuposto de que as mercado-
rias, portanto também a força de trabalho, sejam compradas
e vendidas por seu valor integral. Partindo-se desse pressu-
posto, o tempo de trabalho necessário para a produção da
força de trabalho ou para a reprodução de seu valor pode
ser reduzido, não porque o salário do trabalhador cai abaixo
do valor de sua força de trabalho, mas apenas porque esse
próprio valor cai” (Marx, 2013, p. 388-389).

Conforme sabemos, para Marx (2013) o valor da força de trabalho


também é determinado pelo tempo de trabalho socialmente requeri-
do para sua produção e reprodução. Ou, dito de outro modo, o valor
da força de trabalho é o valor dos meios de subsistência necessários à
manutenção de seu possuidor. Partindo desta primeira premissa, Marx
(2013) estabelece outra proposição: a de que a força de trabalho – como
todas as demais mercadorias – também deve ser vendida e comprada no
mercado por seu valor integral, isto é, o salário a ser recebido pelos tra-
balhadores deve ser equivalente ao valor de sua força de trabalho (não
devendo estar, portanto, abaixo desse mesmo valor).

112 Superexploração do trabalho no século XXI


Mas, como vimos na passagem acima, a despeito de partir desta pro-
posição teórica para elaborar toda sua teoria, Marx (2013) também reco-
nhece que na prática sempre existe a possibilidade do capitalista pagar ao
trabalhador um salário que não equivalha, que esteja abaixo do valor de
sua força de trabalho. Entretanto, como isto só é possível por intermédio
da compressão do salário do trabalhador abaixo do valor de sua força de
trabalho, Marx (2013), por razões metodológicas, a fim de demonstrar al-
gumas de suas preposições mais importantes, optou por não desenvolver
teoricamente esta possibilidade, embora a reconheça em diversas passa-
gens do livro I, tal como a citada acima. Tendo isso em mente, para Marx
(2013), o tempo de trabalho socialmente necessário para a produção e
reprodução da força de trabalho até pode ser reduzido, mas não porque o
salário do trabalhador caiu abaixo do valor de sua força de trabalho, mas
sim porque o próprio valor da força de trabalho sofreu uma redução.
E mais. De acordo com Marx (2013), para ser possível exteriorizar-se
por meio do trabalho, a força de trabalho consome as energias vitais do
trabalhador. Isto faz com que neste processo homens e mulheres gastem
seus músculos, seus membros, seus nervos e também seu cérebro, os
quais têm que ser “repostos” para que os trabalhadores possam repetir
o mesmo processo de trabalho no dia seguinte sob condições idênticas
de saúde e força.
Para reporem tudo o que foi gasto ao longo da jornada de traba-
lho e continuarem vivos, os trabalhadores necessitam diariamente de
uma quantidade suficiente de meios de subsistência. E quanto maior
for o gasto de energias vitais dos trabalhadores, maior tem que ser esta
quantidade de meios de subsistência. É por isso que Marx (2013) afirma
que quanto maior for o dispêndio de força de trabalho, maior tem que
ser o salário recebido pelos trabalhadores. “Esse gasto aumentado [de
energias vitais] implica uma renda aumentada” (Marx, 2013, p. 245). A
partir disso percebemos, então, porque razão o

“... valor da força de trabalho aumenta de acordo com seu


desgaste, isto é, com a duração de seu funcionamento e de
modo proporcionalmente mais acelerado do que o incre-
mento da duração de seu funcionamento” (MARX, 2013,
p. 616).

Salário por peça e superexploração do trabalho 113


Se fossemos seguir a risca todo este movimento teórico construído
por Marx (2013), de forma bastante resumida chegaríamos as seguintes
conclusões: 1) quanto maior for o dispêndio de força de trabalho, maior
o desgaste dos trabalhadores, e, portanto, maior terá que ser a quanti-
dade de meios de subsistência necessários à manutenção dos mesmos;
2) quanto maior for o valor desta massa de meios de subsistência, maior
será o valor da força de trabalho; 3) quanto maior for o valor da força
de trabalho, maior deve ser o salário a ser recebido, uma vez que, como
já nos demonstrou o autor, a remuneração dos trabalhadores deve ser
equivalente ao valor de sua força de trabalho, não devendo estar, por-
tanto, abaixo deste valor.
Após essa breve retomada do raciocínio de Marx (2013), é possível
analisar o que Marini (2011) quis dizer quando afirmou que na situação
específica de superexploração, o trabalho é remunerado abaixo de seu
valor. Ao fazer esta afirmação, o autor brasileiro está levando adiante
até as últimas consequências aquela possibilidade que havia sido reco-
nhecida por Marx (2013), mas excluída de seu esquema teórico pelas
razões metodológicas já indicadas.
Ao analisar o caso específico dos países dependentes latino-ameri-
canos, mesmo baseando-se e sendo fiel a toda construção teórica ela-
borada por Marx (2013), Marini (2011) irá demonstrar como aquele
pressuposto teórico-metodológico no qual o autor alemão baseou-se – a
existência de equivalência entre o salário e o valor da força de trabalho
– não se aplica à realidade empírica presente naqueles países, que guar-
dam muitas especificidades quando comparados aos países centrais44.
Como Marini (2011) deixará claro, nas economias dependentes, a
despeito da classe trabalhadora ser submetida cotidianamente a pro-
cedimentos tais como o prolongamento desmedido da jornada e o au-
mento da intensidade do trabalho – os quais, como nos explicou Marx

44 De acordo com Sotelo Valencia (2012), “El mérito y la novedad de la propuesta de Marini
(…) consiste en que él forjo la categoría superexplotación – que quedó fuera del análisis
general del capital de Marx por las razones expuestas – como el núcleo duro y principio
rector del desarrollo capitalista en las formaciones económico-sociales subdesarrolladas
de la periferia del sistema mundial, y permitió diferenciarlo histórica y estructuralmente
del desarrollo de los países del capitalismo clásico” (Valencia, 2012, p. 148).

114 Superexploração do trabalho no século XXI


(2013), implicam necessariamente em uma elevação do valor da força de
trabalho na medida em que aceleram seu desgaste – é possível se afir-
mar que de maneira geral os trabalhadores desses países não recebem
um reajuste em seu salário que venha compensar esse maior desgaste e
que, portanto, seja condizente com a elevação do valor de sua força de
trabalho.
Isso faz com que – a despeito de terem o valor de sua força de tra-
balho elevado em função dos procedimentos citados acima – a maioria
dos trabalhadores das economias dependentes acabe recebendo um sa-
lário que não equivalha, isto é, que esteja abaixo do valor de sua força de
trabalho, configurando, assim, uma situação de superexploração.
Mas é possível falar que isso ocorre no caso específico dos cortado-
res de cana brasileiros?

Superexploração do trabalho na agroindústria canavieira


Como já demonstrado, o pagamento por produção estimula tanto
o aumento da intensidade do trabalho como o prolongamento da jor-
nada laboral, fazendo com que no processo produtivo do corte manual
da cana ambos os procedimentos estejam associados, contribuindo so-
bremaneira para o aumento do gasto de energias vitais e para o maior
desgaste dos assalariados rurais.
Da mesma forma como ocorre com os trabalhadores de outros se-
tores produtivos, quanto maior for o dispêndio de força de trabalho
dos cortadores de cana, maior será o desgaste dos mesmos e, portanto,
maior terá que ser a quantidade de meios de subsistência necessários à
sua manutenção e reprodução; e quanto maior for o valor desta massa
de meios de subsistência, maior será o valor da força de trabalho. A
partir disso, é possível se entender por que o aumento da intensidade
do trabalho e a extensão da jornada laboral – na medida em que contri-
buem para a elevação do gasto de energias vitais e para o maior desgaste
dos cortadores de cana - trazem como consequência a elevação do valor
da força de trabalho desses assalariados rurais.
Mas, ao mesmo tempo em que os cortadores de cana brasileiros têm
um aumento no valor de sua força de trabalho, é possível se afirmar

Salário por peça e superexploração do trabalho 115


que esse aumento não é acompanhado por uma elevação proporcional
de seus salários. Isso faz com que esses trabalhadores rurais recebam
um salário que esteja abaixo do valor de sua força de trabalho, con-
figurando, assim, uma situação de superexploração. E mais. Além de
não aumentarem, tanto o piso salarial como os salários dos cortadores
de cana têm diminuído de forma significativa com o passar dos anos,
conforme apontam os resultados de vários estudos recentes (Cf. Alves,
2008; Ramos, 2007; Pochmann, 2009)45, fato que contribui para tornar
ainda maior a brecha existente entre o valor da força de trabalho desses
trabalhadores e a renda que recebem (Cf. Marini, 1978):

“Verifica-se que em São Paulo essa queda foi extrema-


mente forte. Enquanto em 1989 um trabalhador tinha um
piso salarial no corte de cana de 2,07 salários mínimos,
em 2007 o valor recebido em salários mínimos é de 1,21
salários. Se considerarmos o salário conquistado na greve
de 1986 a queda é mais dramática ainda, em 2007 o piso
salarial é menos da metade do conquistado. É importante
verificar que houve, além da queda nos salários dos corta-
dores de cana, um outro movimento importante entre as
décadas de oitenta e a presente década, que foi o aumento
da produtividade do trabalho. Na década de oitenta, se-
gundo depoimento dos trabalhadores e segundo os dados
das próprias usinas, os trabalhadores cortavam em média
6 T/H/D (toneladas de cana por homem dia), hoje, o rela-
to dos trabalhadores é que o mínimo exigido pelas usinas
para a efetivação do contrato de trabalho é de 9 T/H/D”
(Alves, 2008, p. 45-46).

O estudo de Pochmann (2009) também chama atenção para a des-


proporção entre a evolução do rendimento da produção agrícola e a re-
muneração dos trabalhadores rurais ao longo das últimas décadas. De

45 Essa tendência é válida para todos os assalariados rurais brasileiros, e não somente para
os cortadores de cana, como apontam os dados do DIEESE (2014): “... os salários ainda
continuam muito baixos. Os pisos salariais negociados pouco ultrapassam o valor de um
salário mínimo. Entre 2007 e 2013, por exemplo, a média dos valores negociados pouco
variou: em 2008, atingiu 1,16 salário mínimo, enquanto em 2013 representou 1,10 salário
mínimo” (DIEESE, 2014, p. 28).

116 Superexploração do trabalho no século XXI


acordo com o autor, na passagem da década de 1980 para a de 1990 há
uma significativa inflexão no pagamento dos trabalhadores em compa-
ração com o rendimento da produção. Enquanto o rendimento médio
da colheita de cana foi multiplicado por 2,6 vezes entre 1979 e 2004, o
pagamento recebido pelo trabalhador por colheita perdeu 57,4% de seu
valor real.
Já no que diz respeito à remuneração média, a pesquisa de Poch-
mann (2009) demonstra também que esta apresentou uma alteração
importante a partir da segunda metade da década de 1970. Após o per-
curso de acompanhamento da remuneração em relação ao rendimento
médio até a primeira metade da década de 1980, assistiu-se em segui-
da, à evolução desconectada entre o crescimento do rendimento médio
na colheita e o rebaixamento da remuneração média dos cortadores de
cana. De acordo com o autor, entre 1985 e 2004 a remuneração média
perde 28,3% de seu valor real, enquanto o rendimento médio da produ-
ção de cana aumenta 60%46.
Sobre esta tendência de existir, ao mesmo tempo, uma elevação no
valor da força de trabalho dos trabalhadores nas economias dependen-
tes, e uma diminuição de seus salários, Marini (1978) escreveu:

“Resumiendo: es posible afirmar que, pese al deterioro del


salario real, el obrero ha visto aumentar el valor de su fuerza
de trabajo, haciendo aún más dramática la brecha creciente
entre dicho valor y el ingreso real que percibe. El problema
que tendrá que resolver la clase obrera brasileña, en el mar-
co del presente ascenso de sus luchas, no consiste, pues, tan
sólo en recuperar el nivel de su salario real de hace veinte
años. Bien al contrario, los trabajadores tendrían que lograr
aumentos salariales que superen dicho nivel, para asegurar
una remuneración acorde con el valor actual de su fuerza de
trabajo” (Marini, 1978, p. 92) [cursivas do autor].

46 O estudo de Ramos (2007) também vai na mesma direção: “Fica devidamente explicitado
que a remuneração do trabalho na cana deve-se, fundamentalmente, ao crescente esforço
feito pelos cortadores de cana queimada, que permitiu a elevação do rendimento de corte
mas que não conseguiu evitar que a remuneração diária real na atualidade seja menor do
que a que se conseguia na segunda metade da década de 1970 e início da de 1980” (Ramos,
2007, p. 16).

Salário por peça e superexploração do trabalho 117


Mas, quais as consequências práticas disto? De acordo com Marx
(2013), quando há, por alguma razão, uma elevação no valor da força de
trabalho, a mesma deve ser acompanhada por um aumento proporcio-
nal dos salários, para que dessa forma os trabalhadores e suas famílias
possam se manter e se reproduzir em condições adequadas. Contudo,
nas situações em que isso não ocorre, o padrão de vida dos assalariados
piora muito, já que nessas circunstâncias os mesmos terão cada vez mais
dificuldade para conservar sua força de trabalho em estado normal, já
que só conseguem se manter e se reproduzir de forma precária e parcial.
Ao trabalharem cada vez mais e/ou por mais tempo, e ao não conse-
guirem repor todo o gasto adicional que tiveram porque não foram in-
cluídos custos de depreciação maiores na reprodução de sua força de tra-
balho, os trabalhadores das economias dependentes - e aqui se incluem
os assalariados rurais estudados nesta pesquisa - acabam arcando não
apenas com o esgotamento precoce de sua força de trabalho, expresso
na redução progressiva de sua vida útil, mas também com transtornos
psicofísicos provocados pelo excesso de fadiga. Os acidentes de traba-
lho, as doenças ocupacionais, os casos de aposentadoria por invalidez, e
até mesmo a morte prematura, são outras mazelas que também acabam
surgindo como decorrência deste processo em que não somente a força
de trabalho é consumida, mas a própria vida dos assalariados.
Como vimos, o pagamento por produção acaba estimulando, ao
mesmo tempo, tanto a elevação da intensidade do trabalho como o pro-
longamento da jornada, procedimentos que contribuem para aumentar
ainda mais o desgaste desses trabalhadores que já desempenham uma
atividade extremamente penosa e árdua por natureza. Não podemos
nos esquecer que para o trabalho no corte manual da cana, mais do que
força é necessário muita resistência física, já que ao longo de sua jornada
de trabalho, os assalariados rurais realizam várias atividades repetiti-
vas, exaustivas e a céu aberto, na presença de fuligem, poeira, fumaça e
calor, e por um período que pode chegar até a dez horas diárias.
Mas, a despeito dos assalariados rurais trabalharem cada vez mais
e por mais tempo, os mesmos dispõem de pouco tempo para poderem
repousar para recuperar as energias para o trabalho do dia seguinte,
o que certamente comprometerá não somente o rendimento em sua

118 Superexploração do trabalho no século XXI


atividade, mas também sua saúde. Não se pode deixar de lembrar que,
quanto maior for o número de horas consecutivas em que um esforço de
trabalho é despendido, menor será a capacidade de recuperação do tra-
balhador em suas horas livres, sempre de igual, ou até menor duração,
que seu tempo de trabalho.
E mais. O descumprimento das pausas durante o trabalho, a frequ-
ência com que fazem horas extras, a necessidade de estar sempre au-
mentando a quantidade de toneladas de cana que cortam por dia, as
poucas horas de sono, a fraca alimentação fornecida pelas usinas e as
péssimas condições dos alojamentos, também acabam agravando ainda
mais o já acentuado desgaste dos trabalhadores.
Neste contexto, tornam-se recorrentes os mal-estares e as dores no
corpo, sendo a última a principal causa de absenteísmo no trabalho.
Quando acometidos por tais dores, os trabalhadores têm duas opções:
faltam ao serviço para atendimento médico ou vão trabalhar mesmo as-
sim, correndo o risco de não atingirem a produtividade mínima exigida
(Cf. Alves, 2008). Caso faltem, as faltas só serão abonadas desde que
justificadas pelo atestado médico e pelo recibo da compra dos medi-
camentos receitados. Contudo, o custo de tais medicamentos consome
quase todo o dinheiro ganho no dia – pois quando faltam por motivos
de saúde, os trabalhadores são remunerados por diária – fazendo com
que faltar ao trabalho para ter atendimento médico seja uma alternati-
va muito cara. Nos outros casos, quando os trabalhadores decidem ir
trabalhar mesmo com dor, podem vir a não atingir a média exigida, ou
podem ser obrigados a suspender seu trabalho no meio do expediente
em função da dor (Cf. Alves, 2008). Nesses casos os trabalhadores ficam
sob a mira dos fiscais de turma que comunicarão a baixa produtividade
a seus superiores, dificultando futuras contratações.
Frente a isso, pensando em aliviar as dores no corpo na grande
maioria das vezes provocadas por excesso de trabalho, os cortadores
de cana buscam por conta própria os antiinflamatórios e analgésicos,
medicamentos que lhes asseguram um rápido reingresso ao trabalho.
Desta forma, percebemos que a automedicação serve como uma forma
adotada pelos próprios trabalhadores para assegurar um ritmo de tra-
balho que vai além da capacidade física de muitos.

Salário por peça e superexploração do trabalho 119


Para agravar ainda mais todo esse contexto, a carência nutricio-
nal, acentuada pelo esforço físico excessivo, também contribui para o
aumento dos acidentes de trabalho, além das doenças das vias respi-
ratórias, dores na coluna, tendinites, desmaios, etc. Isso sem contar a
fuligem da cana queimada que contém gases extremamente venenosos
e nocivos à saúde e que é inalada diariamente pelos cortadores de cana.
Não é de se estranhar, portanto, que muitos trabalhadores passem mal
no meio de seu expediente. Como nos explicam Barbosa (2010) e Laat
(2010):

“É provável que na atividade de corte de cana devido ao rit-


mo de trabalho intenso, os ajustes fisiológicos que ocorrem
em resposta ao exercício físico não consigam dar suporte à
demanda do organismo para manter o equilíbrio interno,
e, com isto, resposta anômala e/ou patológica passe a ocor-
rer, refletindo em níveis diversos de fadiga e insuficiência
dos músculos envolvidos no trabalho e de órgãos alvos exi-
gidos acima do limite...” (Barbosa, 2010, p. 6-7).

“A hipertermia pode surgir em um trabalhador do corte


manual de cana, pois esse faz um exercício intenso e pro-
longado, exposto às baixas umidades, altas temperaturas,
sem adequada hidratação e péssima transpiração por conta
das vestimentas pesadas [...] Como sintomas da hiperter-
mia surgem inicialmente sede, fadiga e câimbras intensas.
Na sequência o mecanismo termorregulador corporal co-
meça a entrar em falência e surgem sinais como náuseas,
vômitos, irritabilidade, confusão mental, falta de coorde-
nação motora, delírio e desmaio [...] O suor é abundante,
até o momento em que surge a desidratação [...] Essa é uma
fase perigosa...” (Laat, 2010, p. 62).

Além da hipertermia, dentre os mal-estares mais frequentes, estão


também as câimbras, que, na medida em que aumentam, se espalham
por todo o corpo dos trabalhadores:

“Geralmente as câimbras começam de maneira inesperada


nas mãos, barriga, pernas ou nos pés, impedindo os mo-

120 Superexploração do trabalho no século XXI


vimentos. Relatos dão conta de casos em que ao levantar
o podão, o trabalhador teve o braço e, em seguida, todo o
corpo imobilizado. Todos os relatos apontam para o endu-
recimento dos músculos, o que é um dos sintomas da câim-
bra provocada pela perda do líquido e sais. A aplicação de
soros nos casos extremos, nos quais os trabalhadores são
transportados para os hospitais e postos de saúde, é uma
medida que visa hidratar o trabalhador suprindo, dessa
forma, os sais perdidos durante o trabalho” (Saturnino da
Silva, 2011, p. 237).

Inseridos neste contexto caracterizado por condições insalubres de


trabalho e enormes exigências no que se refere à qualidade do serviço
desempenhado, muitos trabalhadores rurais acabam vindo a falecer até
mesmo no próprio canavial, durante sua jornada de trabalho. Segundo
o Serviço Pastoral dos Migrantes (SPM), entre as safras de 2004 e 2008,
vinte e um cortadores de cana morreram em decorrência de excesso de
trabalho nos canaviais paulistas. “Todas as evidências colhidas a partir
de relatos de trabalhadores e a partir da verificação das condições de
trabalho apontam que as mortes são decorrentes do esforço exigido du-
rante o corte de cana” (Alves, 2008, p. 34).
As mortes cada vez mais frequentes de cortadores de cana de várias
regiões do Brasil também chamaram a atenção de Silva (2006). Em sua
pesquisa, a autora buscou ouvir alguns médicos para descobrir as cau-
sas que levaram os trabalhadores rurais a óbito. Os especialistas argu-
mentaram que a sudorese excessiva (provocada pela perda de potássio)
pode conduzir à parada cardiorrespiratória. Também há casos que são
provocados por aneurisma, em função do rompimento de veias cere-
brais. Entretanto, na grande maioria dos casos, nos atestados de óbito
a causa mortis desses trabalhadores ainda são muito vagas, não per-
mitindo, portanto, uma análise conclusiva a respeito do que causou as
mortes. Nos atestados consta apenas que os trabalhadores morreram ou
por parada cardíaca, ou por insuficiência respiratória, ou por acidente
vascular cerebral (Cf. Alves, 2006).
Mas, como diria Silva (2006), as mortes dos cortadores de cana são a
ponta de um iceberg de um processo gigantesco de exploração, no qual

Salário por peça e superexploração do trabalho 121


não só a força de trabalho é consumida, mas também a própria vida dos
trabalhadores. Ao longo das entrevistas realizadas com os assalariados
rurais das duas usinas, vários mencionaram que já haviam ouvido falar
e/ou já haviam presenciado casos de mortes no interior dos canaviais.
Como nos contam seu João Gomes e José:

“Pesquisadora (P): E o senhor, já conheceu alguém que se


machucou trabalhando?
João Gomes (JG): Conheci, muita gente, ahh!! Porque era
ali, na turma da gente, né, o povo se cortava, aí vinha aque-
le carrinho baixo do fiscal e levava eles pra cidade, aí ali
dava atestado pra eles. Eu mesmo nunca peguei atestado,
graças a Deus eu nunca se machuquei.
P: E na época em que o senhor trabalhou, tinha gente que
passava mal na roça?
JG: Ah, já sucedeu em minha turma morrer gente! Já mor-
reu gente...
P: Morreu gente? Como foi isso?
JG: Foi assim, tinha um rapaz - no derradeiro ano que eu
trabalhei nas usinas - que ele era de Tavares, ele trabalhava
mais nós na mesma turma que a gente, aí ele trabalhou, e
quando foi pra ele se fichar a usina não queria fichar ele
porque ele tinha um problema, né, mas eu sei que ele se
fichou-se por proteção, aí ele pegou pra trabalhar na cana,
e quando tava faltando trinta e poucos dias pra safra ter-
minar, nós tava cortando cana numa fazenda aí nós termi-
nemos - porque a cana acabou e nós tinha que vir embora
cedo - aí quando ele entrou no ônibus ele tava ruim, aí ele
sentou-se assim no banco, e nós andamos uns duzentos
metros e ele desmaiou. Aí o motorista falou que ia levar ele
pra cidade de Itápolis – nós morava em Borborema, mas
era longe pra chegar, né – aí nos levamos ele pra Itápolis
que era mais perto. E quando nós chegamos lá, o médico
espiou e ele já tava morto, já tava morto...
P: E ele tinha trabalhado o dia inteiro?
JG: Tinha trabalhado, esforçado, tinha trabalhado ‘força-
do’...ele se forçou demais, ele só trabalhava ‘forçado’. Aí eu
sei que ele morreu, nós deixamos ele na cidade de Itápolis.
Aí os filhos dele vieram de fora, pediram pra ir buscar ele,

122 Superexploração do trabalho no século XXI


mas ele não teve condição de ir pra casa, né, porque a usina
não liberou, aí enterraram lá mesmo, em Borborema”.

“Pesquisadora (P): E tem muito acidente, muito desmaio


na roça?
José (J): As vezes tem corte, mas é leve, não é exagerado,
não. Mas morte mesmo eu já cheguei ver, sabe... A pessoa
tava trabalhando demais, aí chegou a tarde e a pessoa caiu
e quando chegou no hospital já tava morto, já. Eu vi isso,
isso foi em 2007.
P: A pessoa era jovem?
J: Era um senhor de uns 48 anos...
P: Ele ‘forçou’ muito?
J: Ah, ele ‘forçou’ bastante, aliás, ele forçava bastante, de-
mais mesmo. Aí chegou nesse dia aí, ele não resistiu, caiu
e não deu conta de chegar no hospital, aí de lá pra cá eu
não vi mais [morte], não; mas pode ter acontecido e eu não
saber porque é muito lugar. Eu até ouvi falar de outros, mas
eu não cheguei ver. Mas eu também ouvi falar de outros
que sofreram acidente e não conseguiram mais trabalhar,
pessoa jovem, sabe?!”.

Aqueles que não chegam a falecer têm sua capacidade laboral redu-
zida de uma safra para outra, têm seus corpos mutilados e são conside-
rados inválidos para o trabalho. Mesmo assim, em parte considerável
dos casos, por serem os únicos provedores de suas famílias, os cortado-
res de cana sentem-se obrigados a continuar trabalhando.
Este é o caso de seu Joaquim, que trabalhou como cortador de cana
por muitos anos, e hoje em dia, com mais de cinquenta anos, sente no
próprio corpo, sobretudo na coluna e nos braços, os impactos negativos
acarretados por uma atividade tão intensa e desgastante como é o corte.
Sem tanta força nem resistência física, o trabalhador confessou que não
aguentaria mais trabalhar exclusivamente como cortador de cana, mas,
como não podia deixar de trabalhar porque não podia viver sem receber
um salário, teve que buscar emprego na turma da diária de uma das
usinas pesquisadas a despeito de sua péssima condição de saúde:

Salário por peça e superexploração do trabalho 123


“Mas tem muito cortador de cana – de nós mesmos – que já
cortou muito e que já não quer mais vir, não...cabra novo,
porque já esgotou demais, não aguenta mais fazer o que
fazia...cabra novo mesmo...que tirava dois mil, dois mil e
tanto por mês, aí não quer mais vir. Eu sei que eu não tiro
mais nem mil! [risos]. Tô aleijado da coluna, tô todo cheio
de dor, já não aguento mais...e rapaz novo já tá deixando,
principalmente homem cortador de cana ele passa 10, 15
anos cortando cana e ele não aguenta fazer...força muito a
barra, força tudo, força a coluna, força os braços, força os
pulmão mesmo, né, o respiratório, né, você engole muito
daquela poeira, da fumaça que vem. Então o cortador de
cana já entra na fumaça porque não existe tempo melhor
pra cortar cana, pra ver se faz uma diária boa. Então essa
é a ilusão da vida, né, depois que a gente morre acaba tudo
e já era. As vezes a gente se empolga, ‘vamos fazer isso, va-
mos ganhar aquilo’, mas enquanto tu vives e tá com saú-
de tá bom demais, né, mas depois nada mais presta” (seu
Joaquim).

Como isso percebemos que além de fazer uso da força de trabalho


daqueles que contrata, o capital também se apropria dos anos futuros
dos trabalhadores, atentando contra seu fundo de vida.

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126 Superexploração do trabalho no século XXI


Circulação e
superexplor ação do
tr abalho: agenda de
estudos da condição
proletária contempor ânea

Gil Felix

Para o Dudu,
que não precisou do texto,
e para o Eduardo Taddeo, pela trilha sonora

Introdução
A partir das transformações decorridas da crise capitalista dos anos
1970, grosso modo, vem sendo analisado nos estudos do trabalho a me-
tamorfose de um proletariado “estável” e “fixo” para um “flexível” e
“móvel”. Nas economias centrais, comumente associada ao fordismo
que teria caracterizado as estratégias produtivas da indústria desses paí-
ses em grande parte do sec. XX, a erosão de tal condição anterior estaria
motivando abordagens a respeito de um “retorno da superexploração”
(Harvey, 2008), da crise da “sociedade salarial” (Castel, 1998), emergên-
cia de um “precariado” (Standing, 2015), dentre outras. Por outro lado,
a desestatização das economias planificadas também foi acompanhada
de um amplo quadro de demissões e de implantação das rotatividades
laborais características de estratégias empresariais e administrativas
adotadas em consonância aos preceitos da reestruturação produtiva.
Nas periferias capitalistas, em que, quando observada, tal condição

Circulação e superexploração do trabalho: agenda de estudos da condição proletária contemporânea 127


pretérita abarcava apenas uma fração estatisticamente minoritária do
próprio conjunto do operariado, processo específico, embora conso-
nante, também vem sendo analisado sob diversos matizes.
Esses processos teriam implicações observáveis de forma aproxi-
mada nos dados que vem sendo produzidos sobre as atuais tendências
do trabalho no mundo. Aproximada porque há um desconhecimento
empírico a respeito da circulação da força de trabalho em virtude da
falta de instrumentos de aferição do fenômeno e, sendo assim, ausência
de dados específicos ou diretos sobre isso47. Contudo, como decorrên-
cia desses processos, um bom índice a ser observado é a diminuição
do tempo médio de permanência no emprego em todos os países que
produzem dados a respeito. Da mesma forma, também é significativo o
declínio ou praticamente fim do chamado “trabalho para toda a vida”,
mesmo nos países que, por exemplo, foram caracterizados por grupos
de trabalhadores que por gerações a fio apresentavam circulação prati-
camente nula da força de trabalho.
Dentre aspectos diversos, esteve e está em curso ainda uma intensa
ação política empresarial em prol de maior demissibilidade (redução
ou anulação de regulações trabalhistas para recrutamento/demissão de
trabalhadores), ainda que em ritmos diferentes, a partir de parâmetros
historicamente distantes e sob processos também distintos no que se
refere à luta de interesses de classe que se institucionaliza em torno do
tema dos direitos trabalhistas nas mais diversas regulações estatais pre-
viamente estabelecidas.
Na França, o contrato de trabalho por tempo indeterminado que
caracterizava a quase totalidade dos vínculos de emprego nos anos 1970
apresenta índice de decrescimento constante nas últimas décadas. Des-
de 1972, contudo, já há ampla utilização do trabalho temporário pelas
empresas por meio de agências especializadas nesse tipo de contrato,
que, na prática, permitem a demissão do trabalhador a qualquer mo-
mento e sem custos. A média de duração desse trabalho temporário no

47 Uma métrica da circulação pressuporia acompanhamento e produção de conhecimento


tanto do tempo de produção quanto do de circulação da força de trabalho em percursos
individualizados, o que não é produzido sequer pelas agências estatísticas dos países cujas
relações de trabalho são em sua maioria reguladas por contratos formais.

128 Superexploração do trabalho no século XXI


setor no início da década passada era de 6 semanas (Jounin, 2004, apud
Costa, 2010). Em agosto de 2016, enfim, após forte resistência sindical,
greves e mobilizações sociais, foi promulgada a nova legislação traba-
lhista que, dentre outras alterações, instituiu regras a fim de facilitar
as chamadas “demissões econômicas”48 . O mesmo ocorre nos demais
países europeus.
Nos EUA, nos últimos quarenta anos houve uma redução significa-
tiva do chamado “lifetime employment” em uma única empresa para os
cada vez mais vastos “hamburger-flipping jobs” (Farber, 2008). Atual-
mente, vinte e três ou vinte e quatro meses de vínculo já são considera-
dos um tempo relativamente satisfatório de permanência na empresa.
Em 2010, o tempo médio de permanência no emprego era de 4,4 anos
(DIEESE, 2011: 59).
Na China, as reformas do final dos 1980 em diante aboliram o pleno
emprego, a garantia do “trabalho para toda a vida” e a relação que fixava
o trabalhador ao seu danwei, isto é, à sua unidade de trabalho, dando
aos gerentes das novas firmas o poder de determinar salários, recrutar
e demitir. Com isso, apenas entre 1996 e 1999, por exemplo, 25 milhões
de trabalhadores foram demitidos (Appleton et al., 2002, apud Yueh e
Knight, 2004), formando um vastíssimo exército de reserva e inserin-
do gradualmente a circulação mercantil da força de trabalho. Pesquisas
atuais têm indicado que há uma grande distância entre trabalhadores
com residência urbana (hukou urbano), cujo tempo médio no emprego
ainda estava em quase 20 anos em 1999, e os chamados “migrantes”
(hukou rural), que tinham cerca de 4,5 anos em média, ou seja, naque-
la época, menos do que o ultra-flexível mercado dos EUA (id. ib.). A
manutenção do sistema hukou – que garante acesso a serviços públicos
de acordo com um controle de residência – e a permissão do trabalho
temporário formaram um contingente de proporções chinesas de uma
força de trabalho altamente circulatória, espacialmente móvel e parca-
mente remunerada.
Porém, o Japão talvez seja o melhor exemplo desse processo com
a dissolução do sistema de “emprego vitalício”, o shuūshin koyou, que

48 Cf. Loi Nº 2016-1088, Journal Officiel de la République Française, 09/08/2016.

Circulação e superexploração do trabalho: agenda de estudos da condição proletária contemporânea 129


abrangia parte dos trabalhadores japoneses no mínimo desde os anos
1920. O Japão era reconhecidamente um país de pouquíssima circula-
ção, o que, inclusive, era considerado um dos pilares de “sucesso” eco-
nômico49. Mas, em 2010, segundo dados oficiais, mais de 6 milhões de
trabalhadores japoneses (14,5% do total) experienciaram alguma rota-
tividade de trabalho. Em 1985, essa taxa era de apenas 1% (Roncato,
2013). Atualmente, crescem não só a circulação, mas a inserção cada vez
mais precária dos trabalhadores no mercado: um em cada quatro tra-
balhadores seria um “woorking poor”50, uma condição que atinge prin-
cipalmente os estrangeiros ou os dekassegui, ou seja, todos aqueles que
“saem em busca de dinheiro através do trabalho”.
No Brasil, segundo os dados da RAIS (Relação Anual de Informa-
ções Sociais), ou seja, apenas os vínculos formalizados, o tempo médio
de emprego era de 4,4 anos em 2000 e de 3,9 anos em 2009 (Dieese,
2011: 17)51. Há também uma fração de empregos formais em que a cir-
culação é ainda mais intensa. Em aproximadamente 63,6% dos casos
de desligamento ao longo da década de 2000, o tempo de trabalho foi
menor do que um ano (id. ib.: 53). Na década de 1990, 45% dos traba-
lhadores registrados trocavam de emprego em um ano. A taxa global
acelerou para 53,9%, em 2002, e em 2013 chegou a cerca de 64% (Dieese,
2014). Neste período, em especial, a aceleração da circulação da força
de trabalho esteve relacionada a um processo de rebaixamento dos sa-
lários. Se por um lado houve aumento do salário mínimo fixado por lei
e dos registros formais, por outro, os salários foram em grande parte
reduzidos a esse mínimo, tal como se observou na razão estabelecida
entre o salário médio real de admissão e o salário mínimo real (Pozzo

49 No entanto, como relatou o jornalista Satoshi Kamata, a política de “emprego vitalício”


nunca existiu de fato para todos os trabalhadores, excluía não apenas os temporários, mas
também as mulheres e quiçá os ditos “estáveis”. Apenas entre 1960 e 1973 (kodo seicho ki),
não teriam ocorrido grandes demissões (Kamata, 1991: 151).
50 Categoria utilizada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) para se referir ao
trabalhador empregado que tem renda abaixo da linha de pobreza.
51 A taxa de rotatividade no emprego assalariado informal, em geral, seria estimada entre 3
a 4 vezes maior do que no formal (Ulyssea, 2006).

130 Superexploração do trabalho no século XXI


e Chahad, 2013; Pochmann, 2012)52 . Em termos históricos, fenômeno
semelhante também teria ocorrido em outro momento no qual hou-
ve grande incorporação formal de força de trabalho, particularmente
entre 1968-1973. Neste período, sob intensa circulação proporcionada
pelo fim da estabilidade decenal e pela criação do FGTS em 1966, hou-
ve, inclusive, uma redução de salários reais (Marini, 1977; 1978).
Tal como já mencionado, embora os dados indiquem tendências
cada vez mais amplas e generalizadas, as maneiras pelas quais estaria
se desenvolvendo envolvem parâmetros, formas, durações e graus bas-
tante diferenciados entre si. Neste caso, a menção aos índices brasileiros
é particularmente fortuita nesta introdução para uma ressalva para o
leitor, cuja análise não está no escopo do artigo, mas que convém abrir
um breve parêntese. Em geral, análises sobre tais tendências que se pre-
tendem mundiais, mas que se restringem aos efeitos e às lutas em tor-
no do desmonte do Estado de Bem-Estar – tendo como parâmetros o
crescimento dos índices formais de “desemprego” ou o fim do regime
de pleno assalariamento formalizado, por exemplo – têm sério risco de
reproduzir um eurocentrismo grosseiro. Tal como na formação social
brasileira, um vasto setor informal da economia constituído por alta
circulação da força de trabalho e um exército de reserva de enormes
proporções não são características novas na maior parte do mundo,
especialmente na América Latina, Ásia e África53. Porém, uma miopia

52 No mesmo sentido, em relação aos rendimentos médios reais dos trabalhadores ocupados
entre 2004 e 2012 houve tendências distintas e significativas entre empregados com e sem
carteira assinada. Enquanto os primeiros teriam tido 5,6 de aumento no rendimento no
período seguinte (até 2012), os trabalhadores por conta própria teriam tido cerca de 15%
(Chahad; Pozzo, 2013: 21).
53 Para o leitor especialmente interessado sobre o tema, sugiro ler um artigo em que retomo
as proposições teóricas de Ruy Mauro Marini a respeito da produção e reprodução das
especificidades com que se apresenta o exército de reserva nas formações dependentes
(Felix, 2017). Este artigo que agora publico é um desdobramento das reflexões feitas a
partir das proposições deste autor, que venho estudando de forma mais sistemática desde
2007, e das pesquisas empíricas que realizo desde 2005 na Amazônia Oriental, que o lei-
tor também poderá conferir com maiores detalhes no livro que será publicado em breve
(Felix, no prelo). Neste sentido, as teses apresentadas aqui são, na verdade, baseadas em
diversas pesquisas sociológicas realizadas junto a trabalhadores e camponeses brasileiros
nas primeiras décadas do século, cujos resultados vêm sendo debatidos em vários espaços
acadêmicos e de militância política.

Circulação e superexploração do trabalho: agenda de estudos da condição proletária contemporânea 131


cética oposta também corre o risco de reproduzir um viés tão grosseiro
quanto o anterior diante de fenômenos significativos como é o caso, por
exemplo, no Brasil, do aumento da chamada rotatividade para todas as
frações de trabalhadores, principalmente dentre aquelas mais escolari-
zadas e de maior especialização, sendo um dado cada vez mais genera-
lizado no mercado formal (Cf. DIEESE, 2014).
Por outro lado, recentemente, a questão da chamada “alta rotativi-
dade” no Brasil foi erigida ao status de problema social por uma série
de agentes políticos no país, o que, por sua vez, também é um fato ex-
tremamente relevante54 . Como tal, a pauta foi inserida na agenda públi-
ca vinculada a interesses de grupos empresariais por maior desregula-
mentação estatal e demissibilidade e obteve sucesso no que se refere às
mudanças na legislação trabalhista brasileira em temas como acesso ao
benefício do seguro-desemprego, legalização plena da terceirização e,
enfim, possibilidade de negociação de direitos anteriormente legislados
entre patronato e sindicatos. Ao mesmo tempo, também se predica nas
últimas décadas pelo fim do regime de estabilidade que vigora em parte
do setor público assalariado, em prol de um mercado plenamente “rota-
tivo” e “competitivo”. Em 2017, foi inserida a possibilidade do contrato
formal denominado como “trabalho intermitente”55 e regulamentada
uma nova forma de demissão com redução de custos para o patrão, am-
bas com rápida adesão por amplos setores do empresariado.
Segundo aferição recente da OIT no sugestivo relatório “Changing
nature of jobs” (ILO, 2015), há uma tendência mundial de crescimento,
ou substituição, dos empregos de tempo integral e contrato estável de

54 Sendo “rotatividade” a forma como foi traduzido no Brasil o conceito de turnover ou la-
bor turnover, frequentemente usado no campo dos Recursos Humanos e da Psicologia
do Trabalho cuja unidade de análise é a empresa e o indivíduo. Sua origem remonta ao
contexto norte-americano da I Guerra Mundial, à preocupação em relação aos custos em-
presariais de recrutamento-demissão de trabalhadores e a uma definição oficial adotada
por administradores em uma Conferência, que, em 1918, formaria a National Association
of Employment Managers (Crum, 1919; Brissenden, 1920; Jacoby, 2004).
55 “Trabalho intermitente” é uma forma contratual que está sendo inserida no processo de
alteração das legislações trabalhistas brasileiras. Prevê o pagamento do trabalhador ape-
nas pela hora trabalhada, sob convocação do patrão. Aproxima-se, neste sentido, ao Zero-
hour Contract da Inglaterra, tal como descrevo a seguir.

132 Superexploração do trabalho no século XXI


trabalho para o que denominaram como non-standard forms of employ-
ment, assim definidas: “A OIT considera as seguintes formas de traba-
lho como non-standard [“atípico”, segundo tradução convencional da
OIT]: (1) trabalho temporário; (2) formas contratuais envolvendo vá-
rias partes, inclusive o trabalho temporário por meio de agências; (3)
relações de emprego ambíguas, inclusive o trabalho por conta própria
e relações de emprego disfarçadas; e (4) part-time [a tempo parcial]”.
(tradução minha; grifos meus; ILO, 2015a: 33).

O trabalho nas prateleiras do supermercado


De maneira geral, a relação entre tais processos em curso e as trans-
formações no sistema capitalista mundial já foram sistematicamente
abordadas e amplamente referidas56 . Aqui, inicialmente, interessa res-
saltar somente um aspecto específico desse processo: a relação entre um
regime de acumulação flexível do capital e as formas de circulação da
força de trabalho que lhe são decorrentes.
A utilização generalizada das estratégias empresariais empregadas
sob um padrão de acumulação flexível do capital implica em alguns as-
pectos do que se designa sob os termos “flexibilidade” ou, outros casos,
“precarização do trabalho”. De forma ainda mais recente, dado o im-
pacto da gestão e das relações de trabalho inspiradas na empresa Uber,
cujas tendências que vou indicar adiante vêm sendo radicalizadas,
“uberização do trabalho”. Como tal, vem sendo relacionada a uma série
de questões: os impactos das empresas estruturadas em rede e a adoção
das novas tecnologias de informação e comunicação (Castells, 1999; Lo-
jkine, 1995); desemprego, declínio dos contratos de compra de força de
trabalho por tempo indeterminado e aumento dos contratos por tempo

56 A referência principal utilizada por mim nessa investigação está nos textos de D. Harvey
sobre o tema, especialmente em “Condição pós-moderna” (Harvey, 2008), quando pro-
pôs a categoria acumulação flexível. Em sintonia com Harvey, uma série de autores tam-
bém analisaram o processo de transformações do trabalho após a década de 1970 e, sob
variados enfoques, a adoção de elementos do padrão flexível pelas empresas decorrentes
de reestruturações produtivas convencionalmente denominadas como neotaylorismo, re-
engenharia, toyotismo, “modelo japonês”, kalmaranismo, neofordismo ou pós-fordismo
(Gounet, 1999).

Circulação e superexploração do trabalho: agenda de estudos da condição proletária contemporânea 133


parcial ou determinado (Castel, 1998); informalização, desregulamen-
tação, diminuição ou ausência de direitos trabalhistas (Antunes, 2013);
remuneração variável57; multifuncionalidade ou polivalência (Antunes,
2011; Bihr, 1998); jornadas de trabalho variáveis, deslocalizadas ou in-
determinadas (Sennett, 2010); subcontratação e práticas generalizadas
de outsourcing, nas mais variadas formas (contratos de trabalho domi-
ciliar, contratos de empresa fornecedoras de componentes, contratos de
serviços de terceiros – empresas e/ou indivíduos – e contratos de empre-
sas cujos trabalhadores executam a atividade produtiva ou serviço na
planta da contratante, geralmente com a formação de subcontratações
escalonadas; Cf. Druck, 1995; Alves, 2011)58 .
No mesmo sentido, pretendo demonstrar algo transversal às análises
já realizadas: o processo de aceleração e amplificação da circulação da
força de trabalho, que, na falta de outra alusão, vou me referir como su-
percirculação. Para tanto, ressalto a relação epistemologicamente sim-
ples que se estabelece entre o novo padrão de acumulação flexível – em
especial a dinâmica específica que assume a circulação do capital – e a
circulação mercantil da força de trabalho que lhe é subsumida.
Considerando que a acumulação flexível envolve fundamentalmen-
te uma mudança na circulação do capital em termos de rotação, de rela-
ção tempo-espacial em compressão, há também uma mudança em cur-
so das formas de produção, circulação e utilização da força de trabalho,
que decorrem dessa nova circulação do capital. Como o que se requer
é o uso “flexível” da força de trabalho no processo de trabalho advindo
da acumulação flexível do capital, isto é, a adoção de métodos de com-
pra e venda just-in-time ou de “fim dos estoques” de força de trabalho,
não se trata propriamente de prescindibilidade, mas sim de aumento

57 As referências nesse sentido são tanto no aumento do salário por peça (produto, tarefa ou
serviço), quanto no que descrevem, por exemplo, Linhart et al. (1993) e Linhart (2007):
adoção de políticas de individualização das remunerações e das situações de trabalho, isto
é, aumento diferenciado dos salários, atribuição de formações personalizadas, definição
de carreiras individualizadas.
58 No Brasil, a adoção da terceirização foi generalizada principalmente a partir dos anos
1990 (Ramalho e Martins, 1994; Druck e Franco, 2007; Marcelino, 2002; Pochmann,
2007). No momento em que escrevo este artigo, está em vias de ser regulamentada para o
emprego em todos as funções internas das empresas.

134 Superexploração do trabalho no século XXI


de sua circulação, enquanto mercadoria, o que, por sua vez, enfatizo,
implica em uma série de mudanças também na produção e na utilização
da força de trabalho. Ressalto que esse processo envolve mudanças em
termos de tempo e espaço da circulação mercantil da força de trabalho,
denotando questões de ordem conjectural que podem ser atualmente
desdobradas em vários sentidos.
Por amplificação, por exemplo, podemos atribuir quantidade (no sen-
tido de um maior número de trabalhadores em situação de reserva e/ou
maior fluxo de entrada e saída do mercado de trabalho); extensão (maior
mobilidade espacial da força de trabalho); qualidade (maior plasticidade
ou amplitude de recrutamento da força de trabalho oferecida por traba-
lhadores polivalentes, poli-especializados, intersetoriais). A aceleração,
por sua vez, envolve mais compra e venda da mercadoria. Relaciona-se,
em certa medida, com o processo convencionalmente designado como
“flexibilização trabalhista”, que é a forma de adequação das regulações
trabalhistas à atual etapa de acumulação flexível do capital e ao seu con-
gruente mercado de trabalho, seja com a mudança das leis que impedem
a total demissibilidade e liberdade de compra/venda e uso da força de
trabalho, seja com a criação de novos postos de trabalho já previamente
regulados dessa forma ou não legalmente formalizados em geral.
Contudo, rigorosamente, tal como destacarei a seguir, circulação,
mobilidade e deslocamento são questões teórica e analiticamente dis-
tintas. Neste artigo, mais do que desenvolver cada uma dessas possíveis
implicações, pretendo frisar uma démarche atenta, por um lado, para as
condições de reprodução social dos trabalhadores sob tal regime e, por
outro, para um programa de estudos coerente com as mesmas, no caso,
que não oblitere epistemologicamente as relações sociais de circulação
na contemporaneidade.
Entretanto, é necessário frisar que o processo indicado significa não
apenas efeitos teóricos clássicos de maior intensidade da ação social do
exército de reserva, tal como analisou Marx na acepção original desse
conceito, como demissibilidade, concorrência e rebaixamento ou con-
trole salarial, mas, atualmente, também, uma alteração na própria rela-
ção entre exército ativo e exército de reserva, no sentido de uma aproxi-
mação. As formas que assume hoje a circulação mercantil de força de

Circulação e superexploração do trabalho: agenda de estudos da condição proletária contemporânea 135


trabalho tendem a fazer diminuir cada vez mais a distância entre exér-
cito ativo e exército de reserva, constituindo uma “classe trabalhadora
de reserva”, em circulação constante59. Isto é, aquilo o que caracterizava
historicamente algumas camadas contínuas do exército de reserva a que
Marx (2013) teria associado etimologicamente à liquidez, fluência ou
flutuação com o uso dos termos “ flüssige” e “ fließender”, por exemplo,
agora também tenderiam a ser características, ou situações, de frações
cada vez mais amplas da classe trabalhadora. Em vez de fronteira, há de
se pensar em trânsito, movimento, ou, certos casos, quase indistinção
– o que não significa propriamente uma “nova classe social” em forma-
ção, mas uma nova morfologia da classe trabalhadora, dado que, como
proponho a seguir, dentro de uma tradição marxiana, por exemplo, as
relações sociais são rigorosamente as mesmas. Em termos básicos, ten-
do a criticamente poderosa categoria “força de trabalho” como parâme-
tro para a análise da mercadoria vendida pelo trabalhador assalariado,
Marx definiu que “Todo trabalhador a integra [superpopulação relativa
ou exército industrial de reserva] durante o tempo em que está parcial
ou inteiramente desocupado” (Marx, 2013: 716).
Alguns autores têm buscado demonstrar uma agência cada vez
mais plenamente mundializada do exército de reserva, ampliando o
alcance de seus efeitos. François Chesnais, por exemplo, propôs que a
emergência de um capitalismo caracterizado pelo livre deslocamento
transnacional do capital, estaria colocando em franca concorrência tra-
balhadores do mundo inteiro. Haveria, portanto, um processo de “mun-
dialização do exército industrial de reserva” (Chesnais, 2006). Ursula
Huws (2012) também observou a formação de um “exército de reserva
global”, frente aos atuais fluxos do capital e do trabalho. Foster, Mc-
Chesney e Jonna (2011) foram ainda mais longe: as atuais mudanças no

59 Dado o processo de “flexibilização” ou precarização dos contratos de trabalho, essa apro-


ximação não implica necessariamente um trânsito formal-informal ou, certos casos, até
mesmo emprego-desemprego. A situação ativo-reserva pode ser intermitente ou, certos
casos, até mesmo praticamente indistinguível dentro do próprio mercado formal de com-
pra e venda de força de trabalho regulado pelo Estado, tal como indicado a seguir.

136 Superexploração do trabalho no século XXI


sistema imperialista e no trabalho tanto no “Sul” quanto no “Norte” se
devem justamente por conta de um “exército de reserva global”60.
Esta concorrência mundializada do exército de reserva que esses
pesquisadores estão defendendo, portanto, reforça e exponencializa a
análise aqui proposta. Com eles, poder-se-ia pensar em uma ação agora
cada vez mais mundializada do mesmo em uma etapa de acumulação
flexível do capital e, por conseguinte, em efeitos também mundiais. En-
tretanto, tal como grifei, o processo em curso exige uma abordagem de
cunho transversal da questão – no sentido de que seja atenta à totalida-
de da circulação da força de trabalho –, dado que até mesmo as frontei-
ras classificatórias entre exército ativo e exército de reserva já parecem
estar em disputa61.
Susanne Soederberg, por sua vez, analisou a incorporação cada vez
maior de frações da superpopulação relativa como devedores no mer-
cado financeiro a partir dos novos mecanismos de endividamento fi-
nanceiro empregados de forma cada vez mais ampla pelas indústrias
de cartão de crédito, micro-empréstimos, hipotecas, cheques, etc (So-
ederberg, 2014; 2013; 2012). Nesse caso, os resultados de sua pesqui-
sa também implicam em reconhecer transformações significativas na
natureza do exército de reserva. Ela enfatiza alguns aspectos funda-
mentais dessa incorporação, como o disciplinamento e a expropriação
brutal dos salários pela rapina financeira, além dos fatores de ordem
ideológica. Por outro lado, dentro da perspectiva que estou propondo,
caberia observar ainda as implicações desta financeirização da circu-
lação da força de trabalho para os processos que elenquei acima. Uma
hipótese lógica a ser seriamente considerada é, assim como no caso da

60 Bastante interessante, porém, é o impasse que eles enfrentaram ao tentarem adequar as ca-
tegorias utilizadas pela ILO (como, por exemplo, part-time workers e vulnerably employed)
nas contas de um exército ativo ou de “reserva global”. No Brasil, um impasse semelhante
com as categorias utilizadas pelo IBGE pode ser encontrado, por exemplo, em Neto (2013).
61 Não surpreende, nesse sentido, um interesse renovado por teorias de origem latino-ameri-
cana para buscar explicar o crescimento de uma suposta “superpopulação absoluta”, como
é o caso de análises do antropólogo canadense Gavin Smith (2011; s/d). Ou mesmo propos-
tas de leituras atuais dos escritos de Ruy Mauro Marini que sequer foram publicados em
língua inglesa até o momento, tal como propôs recentemente John Smith (2016), a partir
de Londres, com relativo sucesso editorial.

Circulação e superexploração do trabalho: agenda de estudos da condição proletária contemporânea 137


chamada mundialização, também haver um efeito exponencializador
dos mesmos.
Contudo, essas políticas de rotação se desenvolveram e se desen-
volvem em condições históricas específicas. No mínimo desde Taylor
(2006 [1911]), a moderna administração científica racionaliza o proces-
so de produção de forma a cada vez depender menos dos trabalhadores-
-indivíduo ou, como ele propunha, a cada vez mais tornar o “sistema”
independente do “homem eficiente”. O trabalhador-massa taylorista é
uma peça da máquina, do corpo-fábrica, ou seja, imprescindível, mas
substituível, quando necessário. A política de retenção de Ford também
era fundada justamente nessa possibilidade de substituição progressi-
vamente racionalizada pelo taylorismo. Ou, como ele sustentava na sua
conhecida máxima: “Men work for only two reasons: one is for wages,
and one is for fear of losing their jobs”62 .
Tal racionalização, ao expandir cada vez mais sua abrangência, po-
tencializa a circulação da força de trabalho e as políticas empresariais
de rotação, ou seja, insere a demissibilidade/descartabilidade ou troca
imediata do trabalhador-indivíduo. Enquanto processo histórico, po-
rém, remontaria aos primórdios polemicamente datados do próprio ca-
pitalismo. Teoricamente, nesse sentido, pode ser concebido como o pro-
cesso contínuo de subsunção do trabalho ao capital já descrito no Livro
I de O Capital. Um processo que, como Marx também analisou no ma-
nuscrito que ficou reconhecido como “Capítulo inédito”, desenvolve-se
através da transformação tanto dos meios de trabalho propriamente di-
tos, quanto das relações de trabalho, e que “prossegue e se repete conti-
nuamente”, mesmo após a subsunção real do trabalho ao capital (Marx:
1978: 66). Sendo assim, o processo de substituição da subsunção formal
à subsunção real do trabalho ao capital e, depois, seu prosseguimento
através de modalidades de produção de mais-valor relativo, como é o

62 Algo como, em uma tradução livre minha: “Os homens trabalham por apenas
duas razões: uma é pelo salário e a outra é pelo medo de perder seus empregos”.

138 Superexploração do trabalho no século XXI


caso da intensificação do trabalho, produz e potencializa continuamen-
te a aceleração da circulação da força de trabalho63.
Nesta perspectiva, as mudanças organizacionais da administração
científica após o paradigma taylorista-fordista não só aprofundaram
essa racionalização, como também inseriram um processo diretamen-
te relacionado a esse, de supercirculação. Neste sentido, a metodologia
utilizada por Linhart (2007: 94-103) é pertinente. Para ela, a análise de
um novo modelo implica dar a mesma importância ao que muda e ao
que não muda, cabendo distinguir o que deriva do discurso e o que está
relacionado às práticas e aos resultados.
Ohno escreveu em seu livro que a primeira coisa que quis ver nos
EUA foi um supermercado. Foi a partir dele que teria tirado as ideias
para implantar as metas just in time na Toyota (ou pelo menos foi des-
sa forma que ele explicou a posteriori o que fez). A ordem era evitar
“desperdícios”:

“Do supermercado pegamos a ideia de visualizar o proces-


so inicial numa linha de produção como um tipo de loja.
O processo final (cliente) vai até o processo inicial (super-
mercado) para adquirir as peças necessárias (gêneros) no
momento e na quantidade que precisa. O processo inicial
imediatamente produz a quantidade recém retirada (rea-
bastecimento das prateleiras). Esperávamos que isso nos
ajudasse a atingir a nossa meta just-in-time e, em 1953, im-
plantamos o sistema na nossa oficina na fábrica principal”
(Ohno, 1997: 45).

Sendo assim, as gerências referenciadas no “novo modelo” aplica-


ram essas estratégias ao uso da força de trabalho no processo produtivo,
tomadas das prateleiras na medida exata do que se precisa dela, isto
é, no momento e na quantidade exata do que se precisa. Adquirida e

63 Nos manuscritos publicados no Livro III, Marx analisou outro movimento, que não é
contraditório com esse, enquanto uma das causas contrariantes da lei da tendência de
queda da taxa de lucro, que é a ação contrária que exerce a superpopulação relativa sobre o
aumento de produtividade e sobre o próprio processo de subsunção do trabalho ao capital
(Marx, 2008: 312).

Circulação e superexploração do trabalho: agenda de estudos da condição proletária contemporânea 139


descartada na quantidade e no momento o mais exato possível do que
se utiliza; contratada e remunerada, em último caso, apenas pelo dia,
hora, peça ou tarefa necessários em determinado processo produtivo.
Frisarei, todavia, que tal processo decorre da própria natureza das
relações sociais de produção estabelecidas no trabalho assalariado e
que, portanto, ainda que estejam relacionadas a condições de traba-
lho tecnicamente próprias da etapa de acumulação flexível, advêm do
mesmo mecanismo mercantil capitalista de valorização do valor e de
exploração da força de trabalho. No modo de produção capitalista, en-
quanto mercadoria, a força de trabalho é necessariamente “móvel”, isto
é, sempre sujeita à “mobilidade”, como propunha Gaudemar (1977),
referindo-se às mudanças espaciais e qualitativas impostas pela circula-
ção e acumulação do capital. Porém, nesse caso, é necessário fazer um
exercício de digressão às categorias marxianas: em teoria, o que signi-
fica especificamente um aumento da circulação da força de trabalho?

Circulação e reprodução da força de trabalho


A seu tempo, Marx descreveu que os trabalhadores relegados às ca-
madas mais profundas do exército de reserva ainda “aptos para o tra-
balho” eram os que mantinham condições de mobilidade (Marx, 2013:
719). Tal como o capital seria indiferente ao ramo de produção em que se
situa seu processo de valorização, tal como o capitalista seria indiferente
à natureza particular do processo de trabalho de que se apropria para
obter lucro, o despossuído vendedor de força de trabalho, escravo mo-
derno, também teria pouca opção a não ser a “indiferença” ao conteúdo
do seu próprio trabalho, à instrumentalização do seu corpo para o uso
da forma e no espaço históricos em que se instala o processo de trabalho.
Neste sentido, as condições de mobilidade que mantinham ou não
esses trabalhadores “aptos para o trabalho” não seriam apenas deles,
mas da natureza da força de trabalho, em geral, enquanto mercadoria
no modo de produção capitalista. Afinal, essa mercadoria circula em
um mercado de trabalho, particular e especial, mas um mercado, no
qual o capitalista compra a força de trabalho, e não o trabalhador e nem
o trabalho. O trabalhador, por definição, é “livre” e “móvel”: “Isto é,

140 Superexploração do trabalho no século XXI


livre de se vender, livre de se vender apenas ao capital. Móvel, isto é,
capaz de ir sozinho ao mercado para se vender e se submeter à explora-
ção capitalista” (Gaudemar, 1977: 265). A esfera da circulação, em que
se insere a compra e venda da força de trabalho, como Marx expõe com
toda sua ironia, “é, de fato, um verdadeiro Éden dos direitos inatos do
homem. Ela é o reino exclusivo da liberdade, da igualdade, da proprie-
dade e de Bentham” (Marx, 2013: 250). Mas a mobilidade da força de
trabalho, mesmo sendo uma mercadoria como qualquer outra, em ter-
mos marxianos, também é bastante singular.
Gaudemar (id.) sugere reler os primeiros capítulos de O Capital, em
que Marx trata da circulação simples das mercadorias em geral, para se
pensar na mobilidade da força de trabalho. Como se sabe, Marx apenas
apresenta a mercadoria força de trabalho a partir do seu 4º capítulo.
Façamos o exercício, de forma resumida. Destacarei apenas dois pontos:
o valor e o deslocamento espacial das mercadorias.
Marx, no capítulo 1, afirma que a grandeza do valor de uma mer-
cadoria é a quantidade de trabalho socialmente necessário ou o tempo
de trabalho socialmente necessário para sua produção. Isso porque o
trabalho é a “substância do valor” e o tempo de trabalho a sua medi-
da. “Essas coisas [os produtos do trabalho, as mercadorias] representam
apenas o fato de que em sua produção foi despendida força de trabalho
humana, foi acumulado trabalho humano. Como cristais dessa subs-
tância social que lhes é comum, elas são valores – valores de mercado-
rias” (Marx, 2013: 116).
No capítulo 2, sobre o processo de troca, Marx afirma: “As merca-
dorias não podem ir por si mesmas ao mercado e trocar-se umas pelas
outras. Temos, portanto, de nos voltar para seus guardiões, os possui-
dores de mercadorias” (id.,ib.: 159). No que se refere à troca, é sabido
que a circulação simples das mercadorias não altera seu valor e expressa
apenas sua metamorfose, M-D-M. O transporte, no entanto, constitui
trabalho necessário para a produção de uma mercadoria: para que uma
mercadoria seja oferecida e trocada numa praça de mercado, deve ser
deslocada até lá, o que significa, portanto, mais tempo de trabalho ne-
cessário para sua produção. Como também é de pleno conhecimento,
esse assunto foi mais abordado por Marx nos seus rascunhos editados

Circulação e superexploração do trabalho: agenda de estudos da condição proletária contemporânea 141


no Livro II, em que conclui, por exemplo, que “(...) o valor de uso das
coisas só se realiza em seu consumo, o qual pode exigir seu deslocamen-
to espacial e, portanto, o processo adicional de produção da indústria do
transporte” (Marx, 2014: 229). Logo, o valor da mercadoria tem em sua
composição o valor acrescido do seu transporte, o tempo de trabalho
socialmente necessário para o seu transporte64 . E a força de trabalho?
A particularidade mais evidente – ou, melhor, aparente – é que ela é
a única que vai “por si só ao mercado”. Como observa Gaudemar (id.),
a força de trabalho “(...) se apresenta ela própria no mercado, como úni-
ca mercadoria ‘livre’ de se deslocar, de se dirigir ao local de venda da
sua escolha” (p. 201). E conclui: “Os fluxos migratórios tomam aqui o
seu lugar na constelação do capital” (id. ib.: 321). Porém, se levarmos
adiante o raciocínio proposto, notaremos que o que vale para as outras
mercadorias, grosso modo, vale também para a força de trabalho. O
deslocamento compõe seu valor, necessariamente. Os custos do deslo-
camento espacial são sempre parte do valor da força de trabalho, uma
vez que, para que tenha valor de uso para seu comprador, o capitalista,
o trabalhador precisa necessariamente se deslocar até o lugar em que
se dará esse consumo, o local de trabalho. A rigor, em termos de valor,
impera exatamente a mesma lógica das demais mercadorias. Ainda que
extremamente significativa para a compreensão das atuais dinâmicas
de trabalho em domicílio e todas as demais formas de deslocamentos
e transformações do local de consumo da força de trabalho, essa seria,
portanto, uma particularidade apenas aparente.
Não obstante, a mobilidade espacial da força de trabalho normal-
mente implica outras complexificações. Peña López (2012), por exem-
plo, que pesquisa os trabalhadores mexicanos nos EUA, afirma que a

64 Marx conclui que a indústria do transporte “se distingue pelo fato de aparecer como conti-
nuação de um processo de produção dentro do processo de circulação e para o processo de
circulação” (grifos do autor. Marx, 2014: 231). O aumento da produtividade nessa indús-
tria reduz o tempo socialmente necessário para a produção de praticamente todas as mer-
cadorias e permite, como explicita Marx, uma “destruição do espaço pelo tempo”. Junto
à indústria das comunicações, esse fator influenciou, inclusive, a divisão internacional do
trabalho nas últimas décadas e as mudanças da atual etapa de acumulação do capital.

142 Superexploração do trabalho no século XXI


reprodução social de um trabalhador migrante não está fixada a um só
espaço geográfico e social, mas a vários:

“Ao considerar os meios de subsistência do trabalhador mi-


grante se deve ter em conta os diversos espaços de repro-
dução que ele e sua família requerem (de forma imediata
e mediata) e também os espaços de traslado ou movimen-
to, que em si mesmos também são espaços de reprodução.
Este “rompimento” dos espaços de reprodução determina
o processo de reprodução do trabalhador, que se torna ex-
traordinariamente complexo” (Peña López, 2012: 61; grifos
meus; tradução minha).

O que assinala Peña López nesta citação se refere não apenas ao de-
nominado “trabalho migrante”, quando os espaços de reprodução são
“rompidos” (e duplicados, ou triplicados), mas à circulação mercantil
da força de trabalho em geral. Como afirma, os próprios espaços de
movimento e de deslocamento são também espaços de reprodução, que,
dependendo da distância e do tempo envolvidos, implicam em eleva-
ção dos custos da reprodução da força de trabalho. Ou seja, também
há “re-produção” da mercadoria na esfera da circulação. A reprodução
do trabalhador (e de sua unidade social de reposição) também inclui o
tempo que permanece no exército de reserva, seu “tempo de circulação”,
ou seja, o período que compreende uma venda e outra da força de tra-
balho – “tempo”, é bom frisar, já que, obviamente, como mercadoria, a
força de trabalho também pode circular sem se deslocar espacialmente:

“No interior do ciclo do capital e da metamorfose das mer-


cadorias, que constitui uma fase desse ciclo, realiza-se o
metabolismo do trabalho social. Esse metabolismo pode
condicionar o deslocamento espacial dos produtos, seu
movimento real de um lugar para o outro. Mas a circula-
ção de mercadorias é possível sem seu movimento físico e
o transporte de produtos, sem a circulação de mercadorias
– e mesmo sem a troca direta de produtos. Uma casa que
A vende a B circula como mercadoria, mas não sai para
passear. Valores-mercadorias móveis, como algodão ou
ferro-gusa, jazem no mesmo depósito de mercadorias, ao

Circulação e superexploração do trabalho: agenda de estudos da condição proletária contemporânea 143


mesmo tempo que percorrem dezenas de processos de cir-
culação, sendo comprados e vendidos pelos especuladores.
O que realmente se move é o título de propriedade sobre a
coisa, não a coisa em si. Por outro lado, no Império Inca,
por exemplo, a indústria do transporte desempenhou um
grande papel, embora o produto social não se distribuísse
nem como mercadoria, nem por meio das trocas comer-
ciais” (Marx, 2014: 229).

A questão, porém, é que o tempo de circulação é uma reprodução


não paga imediatamente na forma salário. Esta é a verdadeira especi-
ficidade da mercadoria força de trabalho, no que se refere à circulação
simples de mercadorias65. Um fator que, embora claramente percebido
por Marx, não foi desenvolvido por ele na época66 . O processo atual de
acumulação, contudo, nos impele a isso.

65 Considerando como “tempo de circulação” os custos de circulação como um todo no pe-


ríodo em que a força de trabalho não está vendida (isto é, grosso modo, pensando a partir
do que foi analisado para as mercadorias em geral no Livro II, por exemplo, em três itens:
custos líquidos, armazenamento e transporte). Cf. Marx (2014: 209-231). Cabe frisar que o
que estou denominando aqui como “tempo de circulação” e, como também designo adian-
te, “tempo de produção” para a força de trabalho, foram abstrações que fiz para o exercício
que demonstrarei a seguir. Marini, por exemplo, se referiu a uma “circulação da venda
da força de trabalho” e a uma “especificidade da venda da força de trabalho (M-D-M) na
circulação capitalista”, em um guia de leitura que preparou em conjunto para um curso na
UNAM sobre o processo de circulação do capital (Marini et al., 1979).
66 O capitalismo que Marx toma por base para sua análise era caracterizado por outras es-
tratégias de acumulação e reprodução. Isso, porém, não o impediu de fazer um importante
exercício a respeito de um suposto “subemprego anormal” (Marx, 2013: 615-6), dentro das
premissas metodológicas cuidadosamente adotadas por ele no Livro I, que eu destaco para
o leitor especialmente interessado: “A unidade de medida do salário por tempo, o preço da
hora de trabalho, é o quociente do valor diário da força de trabalho dividido pelo número
de horas da jornada de trabalho habitual. Suponha que esta última seja de 12 horas e que
o valor diário da força de trabalho seja de 3 xelins, isto é, o produto de valor de 6 horas de
trabalho. Nessas circunstâncias, o preço da hora de trabalho será de 3 pence e seu produto
de valor somará 6 pence. Ora, se o trabalhador estiver ocupado menos de 12 horas por
dia (ou menos de 6 dias por semana), por exemplo, somente 6 ou 8 horas, ele receberá,
mantendo-se esse preço do trabalho, um salário diário de apenas 2 ou 1 ½ xelins [em nota:
“O efeito desse subemprego anormal é totalmente diferente do que resulta de uma redução
geral, imposta por lei, da jornada de trabalho. O primeiro não tem qualquer relação com
a duração absoluta da jornada de trabalho e tanto pode ocorrer quando esta é de 15 horas
como quando é de 6 horas. O preço normal do trabalho, no primeiro caso, é calculado
sobre a base de que o trabalhador trabalhe uma média de 15 horas; no segundo, que ele

144 Superexploração do trabalho no século XXI


O valor da força de trabalho é definido por Marx em diversas passa-
gens do Livro I de O Capital (2013: 245-247; 338; 388-389; 587) e de ou-
tros textos (Marx, 2006a: 44; 2006b: 126)67. Como resume, ao contrário
das outras mercadorias, sua determinação contém um “elemento histó-
rico e moral”. Mas, continuando nosso exercício, nos termos de Marx,
é também uma mercadoria como qualquer outra. Então, assim como as
demais mercadorias, é preciso diferenciar valor, valor de troca e preço
da força de trabalho68 . E, para isso, no entanto, é preciso observar que o
modo de exposição de Marx no Livro I considera, metodologicamente,
valor = preço (ou seja, no caso da força de trabalho, que ela é remune-
rada de acordo com o seu exato valor). Esta exposição se deve ao objeto
em questão, o processo de produção do capital, e, assim, ao interesse
em demonstrar e analisar a valorização do valor, a pertinência das cate-
gorias força de trabalho, mais-valor absoluto, extraordinário e relativo,
etc. Porém, sua complexificação (não equivalência valor-preço) não só
está indicada em diversas passagens do próprio Livro I, como também
está nos outros textos que escreveu antes e depois deste mesmo Livro
I e que foram editados postumamente nos outros Livros de O Capital.

trabalhe 6 horas por dia em média. O efeito seria, assim, o mesmo se, no primeiro caso, ele
só estivesse ocupado por 7 ½ horas e, no segundo, apenas por 3 horas”]. Como, segundo o
pressuposto que adotamos, ele tem de trabalhar uma média diária de 6 horas para produ-
zir apenas um salário correspondente ao valor de sua força de trabalho, e como, segundo
esse mesmo pressuposto, de cada hora ele trabalha somente meia hora para si mesmo e
outra meia hora para o capitalista, é claro que não poderá obter o produto de valor de 6
horas se estiver ocupado por menos de 12 horas. Se anteriormente vimos as consequências
destruidoras do sobretrabalho, aqui descobrimos as fontes dos sofrimentos que, para o
trabalhador, decorrem de seu subemprego”.
67 Sendo que “Trabalho assalariado e capital” (2006a) é um texto de Marx republicado pos-
tumamente por Engels, cujas alterações, em especial, na questão da mercadoria força de
trabalho, foram detalhadas por ele no prefácio de 1891. “Salário, preço e lucro” (2006b)
também é um texto póstumo publicado por Eleanor e Eduard Aveling em 1898 a partir do
manuscrito de 1865, porém as alterações nesse texto se restringiram aos títulos.
68 O valor de troca, modo de expressão do valor, forma de sua manifestação, forma fenomê-
nica (Erscheinungsform), é diferente do valor, substância (Substanz). A característica do
valor da força de trabalho não é diferente: tal como as demais, ela é uma abstração real,
possui uma materialidade social e histórica, também se trata de trabalho humano objeti-
vado (Marx, 2013: 169). No caso, no próprio homem/mulher.

Circulação e superexploração do trabalho: agenda de estudos da condição proletária contemporânea 145


Façamos uma observação atenta da definição de força de trabalho.
Marx calcula um valor médio (no caso, diário) cuja composição com-
preende toda a reprodução do trabalhador (e de sua unidade social de
reposição da força de trabalho)69. Se o preço da força de trabalho não
compreende esse valor médio mínimo, significa que este preço está abai-
xo de seu valor.

“O valor da força de trabalho se reduz ao valor de uma


quantidade determinada de meios de subsistência e varia,
portanto, com o valor desses meios de subsistência, isto é,
de acordo com a magnitude do tempo de trabalho reque-
rido para a sua produção. [Considerando que, tal como
Marx definiu nos parágrafos anteriores, esses meios de
subsistência compreendem não só aqueles necessários ao
proprietário da força de trabalho, mas também aos “substi-
tutos dos trabalhadores, isto é, de seus filhos, de modo que
essa peculiar raça de possuidores de mercadorias possa se
perpetuar no mercado”, ou seja, à sua unidade social de re-
posição de força de trabalho]. Uma parte dos meios de sub-
sistência, por exemplo, a alimentação, o aquecimento etc.,
é consumida diariamente e tem de ser reposta diariamente.
Outros meios de subsistência, como roupas, móveis etc.,
são consumidos em períodos mais longos e, por isso, só
precisam ser substituídos em intervalos maiores de tempo.
Algumas mercadorias têm de ser compradas ou pagas dia-
riamente, outras semanalmente, trimestralmente, e assim
por diante. Porém, independentemente de como se divida a
soma desses gastos no período de, por exemplo, um ano, ela
deve ser coberta diariamente pela receita média. Se a quan-
tidade de mercadorias requeridas para a produção da força
de trabalho por um dia = A, por uma semana = B e por
um trimestre = C, e assim por diante, então a média diária
dessas mercadorias seria = 365A + 52B + 4C + etc./365. Su-
pondo-se que nessa quantidade de mercadorias necessárias

69 Nesse sentido, tal como qualquer mercadoria, seu valor equivale ao tempo socialmente
necessário para sua (re)produção, isto é, para sua produção em dado momento. Essa média,
portanto, obviamente, sempre varia em decorrência das mudanças do valor como um todo
(não é necessariamente igual de uma venda para a outra).

146 Superexploração do trabalho no século XXI


à jornada média de trabalho estão incorporadas 6 horas de
trabalho social, então objetiva-se diariamente na força de
trabalho meia jornada de trabalho social médio, ou, dito
de outro modo, meia jornada de trabalho é requerida para
a produção diária da força de trabalho. Essa quantidade de
trabalho requerida para sua produção diária forma o valor
diário da força de trabalho ou o valor da força de trabalho
diariamente reproduzida” (Marx, 2013: 246-7).

Em seguida, Marx também delimita uma situação em que o preço


da força de trabalho cai abaixo de seu valor, que seria quando se paga
abaixo desse valor médio mínimo. Por exemplo, quando o valor recebi-
do é reduzido a apenas o imprescindível para o dia, ou para o homem/
mulher:

“O limite último ou mínimo do valor da força de trabalho


é constituído pelo valor de uma quantidade de mercado-
rias cujo fornecimento diário é imprescindível para que o
portador da força de trabalho, o homem, possa renovar seu
processo de vida; tal limite é constituído, portanto, pelo
valor dos meios de subsistência fisicamente indispensáveis.
Se o preço da força de trabalho é reduzido a esse mínimo,
ele cai abaixo de seu valor, pois, em tais circunstâncias, a
força de trabalho só pode se manter e se desenvolver de
forma precária. Mas o valor de toda mercadoria é deter-
minado pelo tempo de trabalho requerido para fornecê-la
com sua qualidade normal”. (Idem, ib.).

Neste sentido, a forma salário, sempre que não compreende tam-


bém o valor da circulação da força de trabalho (da reprodução como
um todo) estaria abaixo de seu valor70. Sua aparência e sua referência,
portanto, apenas condicionam a própria circulação da mercadoria força
de trabalho. Como é sabido, em uma sociedade de mercado, a “gran-
de transformação” histórica do trabalho assalariado também está no
fato de que a forma salário apenas remunera imediatamente as horas

70 As teorias do “salário indireto”, supostamente críticas de Marx, como Meillassoux (1977),


constatam isso, ainda que de outra forma.

Circulação e superexploração do trabalho: agenda de estudos da condição proletária contemporânea 147


compradas da força de trabalho e não sua circulação. A condição de
mercadoria da força de trabalho só existe no próprio mercado e, uma
vez que sua circulação não é remunerada imediatamente, ela também
não pode ter existência fora dele, seu possuidor exclusivo deve vendê-la
novamente, mantê-la em circulação no mercado71. Tal como qualquer
outra mercadoria, a força de trabalho não tem valor sem valor de uso, e
seu valor de uso só se realiza com seu consumo.
Se para as demais mercadorias, a esfera da circulação não acresce
valor (exceto em seu transporte, que, de certa forma, ainda integra a
esfera da produção), no caso da mercadoria força de trabalho, apesar
da circulação integrar seu valor, a forma salário tem como referência
imediata apenas as horas em que foi vendida, isto é, a esfera da produ-
ção. É no processo de trabalho que a força de trabalho é (re)criada ipso
facto, ela só se realiza com seu consumo. Porém, seu valor é composto
também pelo tempo em que circula. Portanto, o devido entendimento
da condição de mercadoria da força de trabalho deve levar em conta
sua rotação, para o que importa tanto a esfera da produção quanto a da
circulação. Assim como qualquer outra mercadoria, essas esferas não
podem ser epistemologicamente separadas.
Ao tratar da rotação do capital, Marx, por exemplo, indica a possibi-
lidade do que estou querendo chamar a atenção aqui:

“O trabalho realizado ontem não é o mesmo que se realiza


hoje. Seu valor, somado ao mais-valor por ele gerado, existe
agora como valor de uma coisa diferente da força de tra-
balho em si, isto é, como valor do produto. No entanto, é
porque o produto se transforma em dinheiro que a parte do
valor desse produto que equivale ao valor do capital variá-
vel adiantado pode ser novamente convertida em força de
trabalho e, assim, voltar a funcionar como capital variável.
É irrelevante, nesse caso, a circunstância de que com o valor

71 Daí a constatação habitual de que, no capitalismo, o trabalhador é escravo da sua condição


de vendedor de mercadoria, da imposição da venda da força de trabalho para sua repro-
dução social. Ele não é mercadoria, mas é, necessariamente, vendedor de mercadoria. E,
justamente, só nessa condição de mercadoria, inclusive, que há a possibilidade de algo
inerente ao capitalismo: do preço dessa mercadoria cair abaixo do seu valor.

148 Superexploração do trabalho no século XXI


de capital não só reproduzido como reconvertido à forma-
-dinheiro sejam empregados os mesmos trabalhadores, isto
é, os mesmos portadores de força de trabalho. É possível
que o capitalista, no segundo período de rotação, empregue
novos trabalhadores, em vez dos anteriores” (grifos meus;
Marx, 2014: 404-5).

Para compreender o tempo de circulação, especificamente, é neces-


sário observar a relação que guarda com o valor e o preço da força de
trabalho72 . A inserção da variável tempo de circulação, nesse sentido,
implica uma alteração do preço da força de trabalho, caso se mante-
nham as demais variáveis constantes (valor da força de trabalho e suas
determinantes). Assim, por exemplo, para que a força de trabalho não
caia abaixo de seu valor, a grandeza de seu preço deve necessariamente
aumentar em razão direta com o aumento do tempo de circulação.
Podemos ilustrar essa relação com alguns exercícios simples. Por
exemplo, quando se observa a variação entre dois momentos: um pri-
meiro em que não há circulação (momento 1) e um outro, em que se in-
sere um determinado tempo de circulação (momento 2). Se não houver
mudança no valor da força de trabalho entre os dois momentos (assim
como em variantes como duração da jornada, intensidade do trabalho
e força produtiva do trabalho, que poderiam alterar esse valor), ocorre
aumento de preço, na forma:
Considerando:

VFT = valor da força de trabalho


TP1 = tempo de produção do momento 1
TP2 = tempo de produção do momento 2
TC = tempo de circulação do momento 2
P1 = preço da força de trabalho no momento 1
P2 = preço da força de trabalho no momento 2

72 As categorias “valor” e “preço” estão aqui empregadas no mesmo sentido dado por Marx
no Livro I, suficientes para expor a questão considerada fundamental a respeito do tempo
de circulação.

Circulação e superexploração do trabalho: agenda de estudos da condição proletária contemporânea 149


E sendo:

Momento 1:
___________________________­_ _______
TP1

Momento 2:
____________________________|____________________________
TC TP2

Ou seja:

Então:

Momento 1:

Momento 2:

Ou seja:

Podemos numerar um exemplo fictício para ficar ainda mais claro.


Consideremos que o preço da força de trabalho mensal é $300 e que o
trabalhador vendeu sua força de trabalho por 30 dias. Consideremos

150 Superexploração do trabalho no século XXI


também que esse preço corresponde ao valor da força de trabalho73. O
preço da sua força de trabalho foi, portanto, $10/dia. Agora considere-
mos que, no mês seguinte, o valor da força de trabalho não se alterou e
seu preço mensal continua igual, $300. Mas, ao contrário do mês ante-
rior, o trabalhador procurou trabalho por 15 dias e, depois, só vendeu
sua força de trabalho nos 15 dias restantes. Para ter os mesmos $300
correspondentes ao valor da força de trabalho ele precisa receber $20/
dia. Se ele receber apenas os mesmos $10/dia, ele terá recebido no fim
desse mês apenas a metade do valor da força de trabalho. Como a forma
salário tem como referência o tempo de produção, ou seja, só há efeti-
vamente remuneração do tempo em que a força de trabalho foi vendida,
o mais provável é que o trabalhador receba no máximo o mesmo preço
diário da força de trabalho pelos 15 dias restantes. E que esse seja o
pagamento considerado justo tanto por ele, quanto pelo capitalista. Afi-
nal, eles consideram que esse é o pagamento correto pelas mercadorias
que trocaram. Antes disso o trabalhador não tinha ainda vendido sua
força de trabalho e nada tinha a receber. O capitalista não vai pagar pelo
tempo que ele não comprou a força de trabalho. Só a partir da troca, do
contrato de compra/venda. A referência poderá ser diária, semanal ou
mensal, mas só a partir daí, não antes. E o trabalhador também não vai
cobrar o tempo que ficou sem receber salário (não vai reajustar seu pre-
ço), já que não vendia mais sua força de trabalho para o patrão anterior
e nem tinha começado a vender para o próximo.
Isso não significa que o preço da força de trabalho sempre estará
abaixo de seu valor quando ocorre circulação da força de trabalho, mas
sim, como já demonstrei acima, que o aumento da circulação necessa-
riamente significa aumento do preço, quando não há variação no valor.
A situação inicial poderia supor, por exemplo, 5 dias de circulação e 25
de produção, 1 mês de circulação e 11 de produção, 11 meses de circula-
ção e 1 de produção ou qualquer outra proporção, desde que a segunda
situação sempre aumente o tempo de circulação em relação à primeira.

73 O mesmo exercício pode ser feito para outras formas de salário por tempo – para um valor
diário da força de trabalho, semanal ou anual, por exemplo – assim como para outras
formas de salário por peça, que, como demonstra Marx (2013), é apenas uma metamorfose
do salário por tempo.

Circulação e superexploração do trabalho: agenda de estudos da condição proletária contemporânea 151


Nesse caso, é imperioso frisar aqui que a não equivalência entre valor
e preço da força de trabalho, isto é, a remuneração da força de trabalho
abaixo de seu valor, não decorre necessariamente de sua mercantiliza-
ção. Considerando que se trata de um regime de trabalho assalariado e
não de escravidão, o valor em dado momento inclui sempre uma circu-
lação média da força de trabalho. Nesse sentido, cabe citar que sempre
existiram diversos mecanismos de transferência de valor regulatórios
e disciplinadores da situação de reserva da classe trabalhadora, insti-
tuídos, por exemplo, diretamente entre distintas unidades sociais de
reprodução da força de trabalho (por relações de parentesco, domesti-
cidade, vicinalidade, amizade, etc), por instituições como sindicatos ou
pelas antigas sociedades de socorro mútuo, pelo Estado ou diretamente
pelo mercado (instituições financeiras), tal como vem se implantando
mais recentemente no bojo de um receituário neoliberal.
Também é preciso frisar que a referência “imediata” da forma salário
que mencionei se refere à precificação da mercadoria, à referência direta
da fixação do preço combinado no contrato de compra da força de tra-
balho, e não ao momento ou à forma em que o pagamento é feito. O fato
da força de trabalho ser paga depois do seu consumo pelo capitalista e
não exatamente no momento em que o contrato é feito não altera em
nada o argumento apresentado. Em O Capital, Marx constata esse fato:
“Em todos os países em que reina o modo de produção capitalista, a for-
ça de trabalho só é paga depois de já ter funcionado pelo período fixado
no contrato de compra, por exemplo, ao final de uma semana. Desse
modo, o trabalhador adianta ao capitalista o valor de uso da força de
trabalho; ele a entrega ao consumo do comprador antes de receber o pa-
gamento de seu preço, e, com isso, dá um crédito ao capitalista” (Marx,
2013: 248-9). E, em seguida, a fim de continuar sua exposição teórica,
adota um pressuposto metodológico: “O preço da força de trabalho está
fixado por contrato, embora ele só seja realizado posteriormente, como
o preço do aluguel de uma casa. A força de trabalho está vendida, em-
bora ela só seja paga posteriormente. Para uma clara compreensão da
relação entre as partes, pressuporemos, provisoriamente, que o possui-
dor da força de trabalho, ao realizar sua venda, recebe imediatamente
o preço estipulado por contrato” (Marx, 2013: 250). Contudo, o crédito

152 Superexploração do trabalho no século XXI


que o trabalhador dá ao capitalista é importante e também se relaciona
com a minha tese por outras questões, tal como no caso que indiquei
a respeito da atual financeirização da circulação da força de trabalho.
Em seu tempo, Marx indicou o risco de não pagamento por conta da
falência do capitalista, os endividamentos dos trabalhadores e uma série
de outros efeitos desses endividamentos exemplificados em uma longa
nota após esse primeiro parágrafo que citei (Marx, 2013: 248-9).
É preciso ressaltar ainda que tempo de produção não se confunde com
jornada de trabalho. Tempo de produção se refere ao período no qual a
mercadoria força de trabalho foi vendida e não ao tempo de duração da
jornada de trabalho. O tempo de produção compreende tanto as horas
voltadas para a jornada de trabalho quanto as horas de descanso (horas
de não-trabalho) do trabalhador ao longo do período em que ele vende a
força de trabalho para o capitalista. A jornada de trabalho compreende
apenas as horas em que a força de trabalho está sendo consumida no
processo de trabalho, ou seja, o período em que produz valor, no caso
de um trabalho produtivo.
A redução do tempo de produção da força de trabalho não significa
redução da jornada de trabalho. O resultado normalmente é o exato
oposto disso. É, na verdade, uma forma de prolongar a jornada e re-
duzir as horas de não-trabalho pagas na compra da força de trabalho,
seus faux frais74 . Isso porque não há prejuízo para aquele que compra
a força de trabalho, uma vez que o preço da força de trabalho não tem
referência imediata com o aumento do tempo de circulação, ou seja, ele
não é reajustado tal qual a fórmula acima prevê. Sendo assim, não se
altera a grandeza absoluta do mais-valor e nem sua grandeza relativa: o
preço da força de trabalho permanece igual. Por outro lado, aquele que
vende a força de trabalho tem o valor referente ao tempo de circulação
subtraído do preço. Quanto mais o tempo de circulação aumentar (e o
tempo de produção reduzir), menos o trabalhador receberá proporcio-
nalmente. E o limite dessa subtração está, inclusive, mais além do que

74 Isto é, uma forma que o capitalista tem de retirar o que considera faux frais da compra
da força de trabalho (aqui, no sentido original da contabilidade, do agente unitário de
mercado capitalista, e não exatamente no sentido reapropriado por Marx, da totalidade da
produção capitalista).

Circulação e superexploração do trabalho: agenda de estudos da condição proletária contemporânea 153


a compra da força de trabalho por um dia apenas, ou seja, quando o
tempo de produção se depara com uma jornada de trabalho. Está, por
exemplo, nas formas de compra de força de trabalho em que é possível
retirar completamente o valor referente à reprodução de todas as horas
de não-trabalho, como é o caso do preço atingido em certos salários
pagos por peça ou por hora de trabalho. Os efeitos diretos dessa sub-
tração são, justamente, o prolongamento da jornada de trabalho e sua
intensificação, únicas maneiras do trabalhador obter o mínimo para sua
reprodução75.
Atualmente, formas de compra/venda de força de trabalho que coli-
dem o tempo de produção com a jornada de trabalho estão em expansão
em todo o mundo provocando não só esse processo que estou indicando,
mas também um drástico processo de aceleração e amplificação da cir-
culação mercantil da força de trabalho, no sentido que já indiquei. Além
das diversas formas de salários por peça ou por hora trabalhada, talvez
o Zero-hour contract seja o mais radical exemplo dessa expansão. Nele,
o comprador de força de trabalho paga apenas e exatamente o tempo de
produção, requerido quando e na medida em que se necessita. Não há
jornada fixa76. Em dezembro de 2015, teriam 801 mil trabalhadores nessa
condição no Reino Unido. Em 2009, eram cerca de 200 mil77.
A empresa Uber de serviços de transporte, sediada nos EUA e que,
segundo publicado em sua página eletrônica, opera em 539 cidades e em
mais de 100 países, também é outro exemplo radical dessa expansão,
nesse caso, inclusive, global. Seu índice especulativo no mercado finan-
ceiro em 2016 superou o de empresas como GM, Ford e Volkswagen. Só
no Brasil, em 2017, a empresa declarou ter cerca de 500 mil motoristas

75 A intensificação do trabalho e o prolongamento da jornada são mecanismos de extração


de mais-valor que, tal como Marx demonstrou, também podem fazer com que a força de
trabalho caia abaixo de seu valor. Mas isso se deve a um aumento do valor da força de
trabalho devido ao seu maior desgaste (Marx, 2013: 594). A subtração do valor do tempo
de circulação não significa necessariamente aumento do valor da força de trabalho, ainda
que sejam dimensões geralmente relacionadas.
76 Cf. “Zero hours contracts”, Advisory, Conciliation and Arbitration Service/UK, s/d;
“Zero hour contracts. Contract types and employer responsibilities)”, UK Government,
27/03/2017.
77 Cf. “UK workers on zero-hours contracts rise above 800,000”. The Guardian. 09/03/2016.

154 Superexploração do trabalho no século XXI


em atividade. Sem contar as concorrentes similares, seriam 17 milhões
de aparelhos celulares usando o aplicativo da empresa, sendo a cidade
de São Paulo a que mais compra os seus serviços no mundo.
Por outro lado, pesquisadores têm constatado que a distinção entre
a jornada de trabalho e o tempo de não-trabalho pagos na compra da
força de trabalho também estariam cada vez mais em xeque. Contribui-
riam para isso não apenas o aumento da jornada por meio do aumento
do número de horas dedicadas ao trabalho (horas-extra, transporte,
alimentação, qualificação/estudo, sobreaviso, trabalho doméstico, etc)
ou por meio da introdução de banco de horas, por exemplo (ambos ins-
trumentos diretos de redução das horas de não-trabalho bastante co-
nhecidos em uma situação na qual ocorreu venda de força de trabalho
e na qual em geral já se desenvolveu histórica e politicamente a luta de
classes no mínimo desde o século XIX)78 . Haveria agora uma tendência
à indistinção contábil das horas, dada a não mensuração do tempo de
não-trabalho, isto é, ao entrecruzamento de tarefas objetivas feitas fora
da jornada formal, cada vez mais potencializadas pelas tecnologias de
informação e comunicação (celular, computador), e de preocupações
subjetivas, cada vez mais inseridas pela gestão participativa e pela cap-
tura não mais apenas do corpo físico, mas da mente, da subjetividade
do trabalhador79.
Face ao que denominei supercirculação, contudo, acrescentaria ainda
outros aspectos. De maneira geral, a “flexibilidade”, tal como se aponta
nos estudos feministas desde os anos 1980 (Hirata e Cattanéo, 2009), é
sexuada, ao que poderíamos acrescentar: racializada, etnicizada, cor-
porada. Seria, nesse caso, mais uma forma de intensificar ao máximo a
exploração econômica dos corpos e mentes a partir do uso seletivo e da
reprodução de subalternidades sociais historicamente constituídas em
dado contexto. Mas não só. O processo de aumento da circulação da

78 Em outras dimensões, porém, como na questão da intensidade do trabalho, não há sequer


mensuração regulada, a despeito do enorme avanço das estratégias empresariais das últi-
mas décadas.
79 Cardoso (2010; 2013) vem analisando nesse sentido o que denomina como intensificação
do tempo de trabalho a partir dos anos 1980. Aqui salientamos a dimensão mercantil da
força de trabalho relacionada a esse processo.

Circulação e superexploração do trabalho: agenda de estudos da condição proletária contemporânea 155


força de trabalho também estaria permitindo, por exemplo, a adoção de
determinadas estratégias empresariais que intensificam todos os efeitos
acima elencados de forma seletiva. Em cada vez mais setores, permite
práticas de recrutamento/expulsão contínuas, selecionando determina-
dos perfis de trabalhadores (idade, estado civil, maior qualificação, es-
colaridade, etc), introduzindo reestruturações produtivas (extinção de
funções, expulsão e troca de profissões, “renovação de quadros”, “enxu-
gamento de pessoal”), reduzindo custos com capacitação profissional
interna, exigindo maior intensidade do trabalho (sendo o período de
contratação associado a uma “prova” de desempenho ou “seleção” cons-
tante), produzindo e reproduzindo economicamente as mais variadas
opressões (raça, etnia, sexo, gênero, deficiência, orientação sexual, etc),
assim como rotacionando a força de trabalho já dilapidada (adoecidos,
mortos, desgastados, “pouco produtivos” em geral).
Marx analisou detalhadamente como o trabalho assalariado mas-
cara o trabalho não pago; como a venda da mercadoria força de traba-
lho mascara a produção do mais-valor, uma vez que tanto o capitalista
quanto o trabalhador consideram que a forma salário condiz exatamen-
te com o produto do trabalho de uma jornada de trabalho. No que se
refere à circulação da força de trabalho, mesmo que o trabalhador per-
ceba a ausência de salário ou o aumento do tempo de circulação como
empobrecimento, ainda assim a forma salário também é normalmente
um mascaramento do rebaixamento do preço da força de trabalho a
níveis inferiores do próprio valor da força de trabalho. Ou seja, em certo
sentido, a forma salário também mascara a reprodução não paga.

A agenda de estudos da atual condição proletária dos


escravos vendedores de força de trabalho
Em um contexto no qual a análise sociológica se depara com a rapi-
dez das novas condições colocadas pelo aumento da produtividade na
indústria de transportes, tecnologias de comunicação e sistemas de cré-
dito, pelas novas condições sociais da esfera da circulação e da rotação
do capital, um amplo leque de questões teóricas e metodológicas ainda
resta em aberto.

156 Superexploração do trabalho no século XXI


Para certa ideologia hegemônica e tornada científica do
mercado, em tese, acelerar e ampliar a circulação das mercadorias
acarretaria transformações profundas do tempo e do espaço, mas não
maiores contradições sociais. Uma interpretação a partir da teoria
marxiana do valor trabalho, como a que foi demonstrada neste artigo,
permite hipótese no sentido oposto. A reprodução social do trabalhador
é profundamente alterada em termos de espaço e tempo e também
profundamente dilapidada, inclusive, e justamente, por meio das
próprias “leis de mercado”. O “trabalho”, que é considerado pela gestão
empresarial moderna um “serviço” que deve ser adquirido pelo menor
preço no mercado, usado da forma a mais intensa possível e substituído
sempre que não é mais necessário ou rentável por outro melhor, ou seja,
que é uma “coisa” como qualquer outra, elemento rentável ou peça,
obviamente, tem implicações diferentes para seu vendedor.
A estratégia de acumulação flexível do capital, cada vez mais empre-
gada a fim de redução de custos com rebaixamento salarial e adequação
do processo produtivo às oscilações do mercado, racionaliza a produção
com formas de compra e uso exato e “enxuto” da força de trabalho no
processo produtivo. Contudo, aumentar a circulação da força de traba-
lho provavelmente também seria um mecanismo de superexploração do
trabalho. A classe trabalhadora não apenas circula mais, mas também
trabalha mais, de forma mais intensa e prolongada, quando vende sua
força de trabalho, e recebe menos, fica mais tempo circulando de forma
não remunerada. O que na aparência significa a simples desregulamen-
tação ou o aumento da jornada de trabalho, tal como se tem verificado
no mundo em geral, na verdade se traduz em formas comerciais extre-
mamente eficazes de extração de mais-valor que não são voltadas para
o avanço das forças produtivas do trabalho, mas sim, principalmente, e
fundamentalmente, para a dilapidação da força de trabalho. Seu resul-
tado objetivo atualmente mensurável – aumento de horas de trabalho
e aumento de horas no “desemprego” – encerra, portanto, forma que
não se confunde com o aumento das jornadas de trabalho que desen-
cadearam as lutas de classe na indústria inglesa do século XIX. São for-
mas que só puderam ser desenvolvidas sob outras condições. Apenas
nas condições atuais do trabalho está sendo possível promover esse

Circulação e superexploração do trabalho: agenda de estudos da condição proletária contemporânea 157


comércio de força de trabalho e adotar essas estratégias de extração de
mais-valor, de maneira cada vez mais generalizada e praticamente em
todos os processos produtivos e setores da economia.
Como tem sido observado, um processo como esse tem como conse-
quência não só a invisibilização do trabalho e das relações de produção,
como propunha Marx, mas também uma circulação extrema da força
de trabalho que invisibiliza a própria compra e venda da mercadoria,
tornada plenamente parcial, como é o caso limite da compra por peça,
serviço, hora ou fração de hora (em parte, também em condições dis-
tintas de trabalho por peça e sob formas que interseccionam comple-
xamente trabalho produtivo e improdutivo). Quando consideramos a
condição de mercadoria da força de trabalho a partir da própria teoria
do valor trabalho, podemos compreender um processo contraditório de
dilapidação da força de trabalho dado pelo aumento do tempo de cir-
culação (tempo de não venda) da mercadoria ao mesmo tempo em que
aumenta o tempo de trabalho (horas de consumo).
Assim compreendido, considerando outras condições de circulação
da força de trabalho e a aproximação entre exército ativo e exército de
reserva, uma série de questões ainda mereceriam ser melhor estudadas,
não apenas no que se refere às relações de produção propriamente ditas,
mas também, de forma ampla, às relações sociais de circulação, isto é, à
nova morfologia das classes trabalhadoras nas condições de exploração
circular do trabalho que lhe impõe a aceleração do mercado de compra
e venda da única mercadoria que dispõem. Um amplo leque de ques-
tões se abre à pesquisa empírica diante, por exemplo, dos deslocamentos
espaciais e sociais (entre profissões, entre setores, entre firmas, etc) e
dos rearranjos intergeracionais, de gênero, de parentesco, conjugali-
dade, sexualidade, domesticidade e morfologia social reprodutiva em
geral80. Da mesma forma, para a análise das formas que assume a ação
política a partir desta condição proletária que, porventura, desafiarão

80 Para o leitor especialmente interessado tanto em termos teórico-metodológicos quanto em


determinados dados de valor heurístico para algumas dessas questões, sugiro consultar o
livro que será publicado em breve (Felix, no prelo), com dados de uma pesquisa ampla e
específica sobre o tema, assim como um outro que já publicado a partir de etapa anterior
de pesquisa (Felix, 2008).

158 Superexploração do trabalho no século XXI


a convencional associação da maior “rotatividade” com menor poder
político e menor organização classista, em grande comprometida por
uma perspectiva paradigmática e por um raciocínio fatalista.
Nesse sentido, um pensamento reflexivo a respeito do mundo do
trabalho epistemologicamente atento para a atual condição proletária
implica em trazer à baila uma análise processual da circulação, ou seja,
do vastíssimo mundo ainda inexplorado da cotidianidade e da histori-
cidade dos processos sociais de circulação, na medida em que a análise
processual até então privilegiou transições históricas ou processos de
transformação com sentidos polarizados do tipo condição camponesa a
proletária, fábrica antes e depois da reestruturação produtiva, operários
estáveis a trabalhadores precários, rural-agrário a urbano-industrial,
categoria ou setor A a categoria ou setor B, exército ativo a exército de
reserva, etc., ou vice-versa.

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Circulação e superexploração do trabalho: agenda de estudos da condição proletária contemporânea 163


Sobre os autores

Adrián Sotelo Valencia é Licenciado em Sociologia, Mestre e Doutor


em Estudos Latino-americanos pelo Programa de Pós-graduação da
Faculdade de Ciências Políticas e Sociais da Universidade Nacional Au-
tónoma do México (UNAM). É Professor-Pesquisador de Tempo Com-
pleto Definitivo do Centro de Estudios Latinoamericanos da UNAM.
É membro do Sistema Nacional de Investigadores (México). Autor de
diversos artigos e livros. Dentre os mais recentes estão: Crisis capita-
lista y desmedida del valor: un enfoque desde los Grundrisse (Editorial
ITACA-UNAM-FCPyS, México, 2010); Los rumbos del trabajo. Supe-
rexplotación y precariedad social en el Siglo XXI (FCPyS-UNAM- Mi-
guel Ángel Porrúa, México, 2012); México (Re)cargado: neoliberalismo,
dependencia y crisis (UNAM-Editorial Itaca, México, 2014); The Future
of Work: Super-exploitation and Social Precariousness in the 21st Cen-
tury (Brill, Leiden-Boston, 2015); Precariado ou proletariado? (Práxis,
Bauru, Brasil, 2016); Sub-imperialism Revisited: Dependency Theory in
the Thought of Ruy Mauro Marini (Brill, Leiden-Boston, 2017). E-mail:
adriansotelo@politicas.unam.mx.

Ana Alicia Peña López é Professora e Pesquisadora de tempo completo


na Faculdade de Economia da Universidade Nacional Autónoma do Mé-
xico (UNAM). Participa como orientadora no Doutorado em Pesquisa e
Intervenção Educativa da Universidade Pedagógica Nacional de Morelos.
É membro do Sistema Nacional de Investigadores (México). Coordenou
o Projeto PAPIIT IN304312: “Situación socioeconómica de los jóvenes

Sobre os autores 165


en México y su proceso de migración internacional hacia Estados Uni-
dos, 1990-2012”, de janeiro de 2012 a dezembro de 2014. Desde janei-
ro de 2010 até a presente data, participa no Proyecto de Investigación y
Intervención comparada México-España-Argentina, com a Universidade
Pedagógica Nacional, México; Universidade Jaume I de Castellón (UJI),
Espanha; Universidade Nacional de Córdoba e Universidade Nacional
de Buenos Aires, na Argentina. É autora do livro Migración internacio-
nal y superexplotación del trabajo, publicado pela Editora Ítaca em 2012
e de outras publicações em capítulos de livros e em revistas relacionadas
com este tema. E-mail: aliciap68@hotmail.com.

Gil Felix é Doutor em Ciências Sociais pelo Programa de Doutorado da


Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, Brasil) e Mestre em
Antropologia pelo Programa de Pós-graduação da Universidade Federal
Fluminense (UFF, Brasil). É professor do Instituto Latino-americano de
Economia, Sociedade e Política da Universidade Federal da Integração
Latino-americana (UNILA, Brasil), atuando no Curso de Sociologia e
Ciência Política. É autor dos livros O caminho do mundo: mobilidade
espacial e condição camponesa em uma região da Amazônia Oriental
(Niterói, Brasil: Editora da Universidade Federal Fluminense, 2008) e
Mobilidade e superexploração do trabalho: o enigma da circulação (Rio
de Janeiro/Foz do Iguaçu, Brasil: FAPESP/Lamparina/Editora da Uni-
versidade Federal da Integração Latino-americana, no prelo). Nos últi-
mos 15 anos, pesquisou temáticas relacionadas à mobilidade espacial,
condição camponesa, circulação e superexploração do trabalho. Desen-
volve pesquisa empírica na região da Amazônia Oriental desde 2005.
Email: gilalmeidafelix@gmail.com.

Giovanni Alves é Professor da Universidade Estadual Paulista (UNESP,


Marília, Brasil) e Livre-docente em Teoria Sociológica. É Doutor em Ci-
ências Sociais pelo Programa de Doutorado da Universidade Estadual
de Campinas (UNICAMP, Brasil), Pós-doutor em Sociologia pela Uni-
versidade de Coimbra (Portugal), Pesquisador do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq, Brasil) e Coordena-
dor da Rede de Estudos do Trabalho (www.estudosdotrabalho.org). É

166 Superexploração do trabalho no século XXI


autor de livros e artigos na área da Sociologia do Trabalho, globalização
e reestruturação produtiva, sendo os mais recentes: Trabalho e subjeti-
vidade (São Paulo, Brasil: Boitempo, 2011) e Labirintos do labor (Bauru,
Brasil: Práxis, 2017). E-mail: giovanni.alves@uol.com.br.

Juliana Guanais é Professora do Instituto Latino-americano de Econo-


mia, Sociedade e Política da Universidade Federal da Integração Latino-
-americana (UNILA, Brasil), atuando no Curso de Ciência Política e
Sociologia.  É Mestre e Doutora em Sociologia pelo Programa de Pós-
-graduação da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP, Brasil).
É autora do livro Pagamento por produção, intensificação do trabalho e
superexploração na agroindústria canavieira brasileira (São Paulo, Bra-
sil: Expressão Popular/FAPESP, no prelo). É líder do Grupo de Pesquisa
sobre Trabalho (UNILA/Conselho Nacional de Desenvolvimento Cien-
tífico e Tecnológico, CNPq, Brasil) e pesquisadora do Grupo de Pesquisa
“Estudos sobre o mundo do trabalho e suas metamorfoses” (UNICAMP/
CNPq). Pesquisadora colaboradora do Centro de Estudos Rurais (CE-
RES) da UNICAMP desde 2005. Pesquisa a temática do trabalho assala-
riado rural há uma década. Email: guanaisjuliana@gmail.com.

Nashelly Ocampo Figueroa é Professora e Pesquisadora na Facultade de


Economia da Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM). É
Coordenadora na Universidade Pedagógica Nacional de Morelos (sede
Ayala), do Mestrado em Educação do Campo e do Projeto Internacio-
nal de Pesquisa e Intervenção Educativa Comparada México, Espanha
e Argentina (MEXESPARG). É membro do Sistema Nacional de Inves-
tigadores (México). Coordenou o Projeto “Situación socioeconómica de
los jóvenes en México y su proceso de migración internacional hacia
Estados Unidos, 1990-2012”, de janeiro de 2012 a dezembro de 2014. É
autora do capítulo La Ley General de la Acumulación Capitalista y la
complejización contemporánea de la miseria que integra o livro Vigencia
de la Economía Política en el estudio de los problemas nacionales e inter-
nacionales, publicado pela UNAM em 2014, dentre outras publicações
sobre o tema da migração. E-mail: nashellyo@hotmail.com.

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