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Rev. IG, São Paulo, 4(112):5-23, jan./,dez.

1983

A TEORIA GEOMORFOLÓGICA E SUA EDIFICAÇÃO:


ANÁLISE CRITICA

Adilson Avansi de ABREU *

RESUMO
o presente trabalho refere-se a uma expOSlçao sucinta da interpretação sobre o
desenvolvimento global de ciência geomorfológica. A intenção é definir um sistema
referencial em função do qual possa-se obter parâmetros para a interpretação crítica
das diferentes posturas assumidas pelos geomorfólogos no correr do tempo.
Fornece ainda, uma sinopse interpretativa que identifica linhas mestras da evo,
lução da geomorfologia, através da filogênese da teoria geomorfológica.

ABSTRACT
The present work deals with the interpretation about the development of geo-
morphology as a science.
The aim is to give a referencial system to get a parameter concerning a critica I
interpretation about the different purposes assumed by geomorphologists through
the years.
The work also presents interpretative synopsis which identify the basic points of
the geomorphological evolution through the geomorphology theory phyiogenesis.

O PROBLEMA E SEU representat'iva da geomorfologia francesa,


ENQUADRAMENTO que, até a 11 Guerra Mundial, esteve estrei-
tamente associada ao paradigma davisiano.
Uma análise crítica da bibliografia geo- Devemos destacar, tratando desta temá-
morfológica, tendo por objetivo a busca de tica, uma obra de fôlego abrangendo o es-
um sistema conceitual ou um paradigma tudo da evolução das idéias relativas ao
(aqui utilizado na acepção de KUHN, 1970), relevo terrestre. Corresponde ac>trabaho de
coerente, que nos permita manter um eixo CHORLEY et alii (1964), voltado para a
referencial em função do qual a análise geo- geomorfologia anterior a Davis 'e que, em-
morfológica possa ser executada, revela um bora valorizando sobremaneira os autores
panorama à primeira vista confuso e pessi- de língua inglesa, não deixa de mencionar
mista. fatos significativos relativos ao papel de pes-
Há uma grande variedade de conceitos quisadores de outras origens. Todavia o li-
emitidos, oriundos de posturas frequente- mite temporal da obra impede uma avalia-
mente ao sabor do momento. Poucos auto- ção das fases posteriores, que, a rigor, são
res revelam claramente sua posição face às as mais expressivas.
diversas propostas teóricas e metodológicas, É importante ainda registrar, em nosso
sendo que via de regra, aliás, teoria e mé- meio, o excelente trabalho Controvérsias
todo se confundem. A existência de uma re- . geomorfológicas, de LEUZINGER (1948),
ferência voltada para a epistemologia da que fornece um pano de fundo muito bom
geomorfologia (REYNAUD, 1971) não in- para a análise que pretendemos fazer.- Toda-
valida as observações que faremos, dada as via ele não a substitui, pois, já apresenta
limitações de seu conteúdo (ABREU,1978), claramehte uma limitação temporal, por um
embora tenha ela o mérito de alcançar uma lado, e uma forma diferente de encarar a
outra dimensão, quando a tomamos como origem e a evolução do que ele denomina de

* Instituto de Geografia da USP - C. Postal 20.715 - São Paulo, SP, Brasil.

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"escola alemã de geomorfologia" de outro, cipais, que embora apresentando interferên-


na medida que julgamos haver uma superes- cias uma sobre a outra, evoluem freqüente-
timação da obra de Walther Penck, em de- mente demaneira paralela, convergindo ape-
trimento de outros autores. Vale a pena fri- nas nos últimos trinta anos para a busca de
sar, porém, que o objetivo de Leuzinger era um quadro de referências mais global. O
outro, em função do que, a divergência cer- não reconhecimento deste fato cria sérias
tamente deixaria de existir. dificuldades ao estabelecimento de uma epis-
Desta forma pretendemos expor, ainda temologia da geormofologia atual.
que de maneira sucinta, nossa interpretação Reconhecemos, inclusive, que poderíamos
sobre o desenvolvimento global da ciência fazer uma análise considerando uma só se-
geomorfológica, mesmo correndo o risco de qüência, que se iniciasse com a sistemati-
sermos acusados de simplificação excessiva. zação dos conhecimentos nos séculos XVIII
É um risco calculado, todavia, pois a inten- e XIX, a partir do trabalho de geólogos e
ção aqui é definir um sistema referencial, engenheiros europeus e norte americanos e
em função do qual possamos obter um parâ- se projetasse, de maneira subseqüente, em
metro para a interpretação crítica das dife- conceitos emitidos a partir da publicação do
tentes posturas assumidas pelos geomorfó- "The geographical cycle" (DAVIS, 1899) ou
logos no decorrer do tempo. mesmo de outras obras do mesmo autor,
Queremos sublinhar que o nosso objeti- anteriores a esta data. De maneira sumária
vo é, antes de mais-nada, fornecer uma si- já acenamos para a existência desta linhagem
nopse interpretativa que identifique linhas epistemológica a partir do trabalho publi-
mestras de evolução, embora seja talvez mais cado por Surell em 1841, apud ABREU
adequado falar em filogênese das propostas (1980).
conceituais do que em epistemologia. Todavia parece-nos mais legítimo e frutí-
Devemos lembrar ainda que, para alguns fero reconhecer a presença de certos carac-
pelo menos, é pouco seguro falar-se em uma terísticos diferenciando, desde sua gênese,
teoria para a geomorfologia como um todo, os dois principais centros de origem dos sis-
na medida que só certos segmentos de seu temas conceituais que caracterizaram a geo-
objeto são passíveis de uma conceituação morfologia na primeira metade do século
teórica menos problemática. Neste caso en- XX. É bem verdade que nos últimos trinta
contram-se por exemplo, os enunciados liga- anos há uma tendência a se apagar os con-
dos ao perfil de equilíbrio fluvial, que jus- trastes e diminuir as arestas destas duas li-
tamente, são uma das pedras de toque para nhagens de posturas, fruto inclusive da in-
as proposições vinculadas a uma das cor- ternacionalização do conhecimento, resul-
rentes concentuais aqui mencionadas. Neste tante, em boa parte, da expansão do inglês
caso teríamos enunciados que poderiam se que se firma nesta fase como principal lín-
enquadrar realmente no nível de formação gua de uso internacional. As diferenças, con-
da teoria, segundo a aplicação dos critérios tudo, são ainda vivas e significativas, (HA-
de Hempel, como registra KITTS (1970). O GEDORN & THOMAS, 1980).
grosso das proposições que não interessam Parece-nos, inclusive, que especialmente
especificamente a esta postura acabariam nos primeiros anos do segundo pós-guerra
caindo então no nível de generalização em- o avanço se fez, de um lado pela insatisfação
pírica, segundo o mesmo autor. interna dentro de um desses sistemas con-
A apreciação do conjunto das obras aqui ceituais, conduzindo à proposição de para-
relacionadas, (que embora longe de repre- digmas substitutivos e de outro, por uma
sentar toda a produção científica voltada de crítica mútua mais sistemática entre essas
maneira direta ou indireta para a geomorfo- duas linhas de evolução epistemológica, que
logia, parece ser pelo menos, uma amostra- parece conduzir, nos últimos anos, à uma
gem significativa do conhecimento neste reformulação mais geral, a qual tende a va-
campo),.permite-nos constatar que a nível de lorizar cada vez mais o aspecto de geociên-
literatura ocidental (entendendo-se-como tal cias, voltada para uma interface complexa e
a produção científica dirigida para a geo- que em termos de aplicação tende a ampliar
morfologia e produzida por europeus, seus seus fundamentos ecológicos. Neste sentido,
descendentes e povos europeizados) a teo- aliás, o sistema teórico referencial desloca-
ria geomorfológica, em um sentido moder- se para uma das fontes de origem da teoria
no originou-se a partir de duas fontes prin- geomorfológica.

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Mesmo correndo o risco da simplificação nha, de um lado, a postura que grandes na-
excessiva, parece-nos legítimo, entretanto, turalistas já haviam esboçado desde os fins
sistematizar a evolução do conhecimento do século XVIII e de outro, as observações
geomorfológico da forma que se segue, no oriundas de uma análise sistemática da cros-
concernente aos conceitos básicos de expla- ta, a partir da engenharia de minas. A bus-
n~ção, no que de resto é, até certo ponto ca dos combustíveis fósseis para alimentar
concorde, com as observações já registradas em fontes de energia a industrialização do
por MIKESELL (1969), que vê a própria Império Alemão, que rapidamente suplanta
geografia nascendo nos USA a partir da a Inglaterra, acaba dando o acento em uma
geologia, via fisiografia, ao passo· que na postura que encara a tectônica de outra for-
Alemanha ela nasce no bojo de uma concep- ma. Neste sentido achamos que não é ape-
ção abrangente de ciências da terra, emer- nas o contexto fisiográfico diferenciado da
gindo de uma perspectiva naturalista mais América do Norte e da Europa que justi-
globalizante. fica as óticas divergentes que presidem o
Seguimos aliás uma tradição de contra- início da geomorfologia e dá um acento nos
por uma escola de geomorfologia à outra, processos climáticos ou na dinâmica interna,
como inúmeros autores já o fizeram. Toda- segundo o autor considerado, no segundo
via nossa intenção, se por um lado é deslo- caso ou nos processos fluviais, no primeiro
car a interpretação em relação a importân- caso.
cia relativa de alguns autores, por outro é A diferenciação das posturas é fruto de
insistir na necessidade de se fazer esta aná- um caldo de cultura que se desenvolve em
lise subordinada a um quadro de referên- um contexto político de definição de qua-
cias que incorpore as relações internacionais dros nacionais contrastantes e que presi-
e os centros de poder interferindo de diver- dem uma orientação diferente em cada caso.
sas formas na evolução da postura geomor- Basta lembrar que se Humboldt e Goethe
fológica. são universais, a solidez da presença desses
Assim sendo ,embora nos pareça desne- nomes é muito maior em um caso do que em
cessário traçar as linhas mestras da histó- outro.
ria do Ocidente nos séculos XVIII, XIX e Não parece necessário insistir, por outro
XX, devemos ter em mente a evolução des- lado, que a Inglaterra e a França aproxi-
tes acontecimentos para explicar certas ca- mam-se, desde os alvores do século, em re-
racterísticas e originalidades de cada face lação aos Estados Unidos e logo emerge em
da moeda. sistema de confrontação que coloca freqüen-
O início do pensamento geomorfológico, temente Berlim em oposição às 3 capitais
como de resto a própria geologia, vai ser ocidentais. Porém é importante frisar que
profundamente marcado de um lado pela isto se reflete também na produção cientí-
conquista do oeste americano e de outro fica e a Segunda Guerra não apaga esta ten-
pelos fatos que vieram no bojo da Revolu- dência, na medida que a confrontação con-
ção Industrial, entre os quais, além daque- tinua em outro contexto: o poder desloca-se
les vinculados à definição dos impérios co- mais para leste, porém Berlim ainda se faz
loniais, emerge uma profunda mudança no presente.
pensamento científico europeu, decorrentes De maneira esquemática temos, como já
das pesquisas vinculadas à prospecção mi- frisamos, duas linhagens epistemológicas ba-
neral. lizando a definição do campo de interesse .
Desta forma se na América do Norte des- da teoria e do método de investigação em
de cedo valorizaram-se as observações que geomorfologia: uma de raÍzes norte-ameri-
vinculam o trabalho dos rios ao modelado canas e incorporando o grosso da produção
do relevo, o que é muito destacado nas pes- em língua inglesa e francesa até a 11 Guerra
quisas dos geólogos do século XIX que per- Mundial e outra de raÍzes germânicas, ex-
correm as áreas além-Apalaches, na Europa primindo-se basicamente de início em ale-
a evolução tem como ponto de partida ou- mão (espécie de língua franca da Europa
tro sistema de referências, embora nem por _ Centro-Oriental), mas que incorpora tam-
i~so se deve negar a participação de enge- bém, posteriormente, grande parte da pro-
nheiros que também se dedicaram ao estudo dução publicada em russo e polonês.TRI-
dos rios e seu comportamento. Todavia aí CART (1965) p.56 a 75 identifica essas
preponderou, particularmente na Alema- duas tendências, porém articula estes fatos

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em outro contexto de análise, o que resulta 2 A LINHAGEM EPISTEMOLOGICA


em um empobrecimento da interpretação. ANGLO-AMERICANA
A evolução dessas duas linhas conceituais
é bastante diferenciada e apresenta' inclusi- Caracteriza-se esta corrente por ter-se
ve interferência mútuas: enquanto a primei- apoiado até praticamente a II Guerra Mun-
ra, de raízes norte-americanas, sofreu mui- dial, principalmente no paradígma propos-
to claramente nos últimos anos os impác- to por Davis, em trabalhos publicados nas
tos das "revoluções científicas", com tenta- últimas duas décadas do século XIX e sis-
tivas de ruptura e definição de novos para- tematizado de maneira magistral em 1899
radigmas, a segunda, de raízes germânicas, no Geographycal Cycle, no qual o relevo
parece evoluir de maneira mais contínua, o surgia como função da estrutura geológica,
que se reflete em um enriquecimento pro- dos processos operantes e do tempo, dando
gressivo do paradigma, que ganha comple- este último a tônica em um modêlo que va-
xidade metodológica e operacional, conser- lorizava particularmente o aspecto histórico.
vando sempre um núcleo comum desde sua O sucesso da postura davisiana foi gran-
origem. de e rápido no mundo de língua inglesa e
Quando se considera, como o faz TRI- francesa. Sua permanência no tempo pode
CART (1965) p. 62 "Davis doit être con- inclusive ser avaliada através do signíficado
sideré comme le fondeteur de Ia géomor- que ele ainda tem na nona edição da obra
phologie en tant que discipline spécialisée. monumental de MARTONNE (1950), que
Il lui donna, en effet un corps de doctrine tanto influenciou nosso meio científico.
coherent et affirma son originalité", que Todavia desde a divulgação de suas idéias
Davis é o fundador da geomorfologia, o mí- encontrou Davis seus críticos, particular-
nimo a se constatar é que há pelo menos um mente no meio intelectual germânico con-
desvio de ótica, o qual faz com que se atri- temporâneo, que com ele conviveu durante
bua ao primeiro paradígma de uma linha sua permanência em território alemão, em
de evolução epistemológica o papel de certi- época de grande brilho da Gesellschaft fuer
dão de nascimento da geomorfologia. Em Erdkunde zu Berlin. Para um maior detalha-
sua grande maioria esses autores pertencem mento das controvérsias que emergiram nes-
ao quadro daqueles que por uma ou outra ta fase entre Davis e seus opositores e que
forma integram esta corrente de conceitos, posteriormente se acirraram, remetemos di-
aceitando-a ou contestando-a e buscando no- retamente para LEUZINGER (1948), que
vos paradigmas. Por comodidade chamemos faz um bom apanhado do problema.
esta corrente de anglo-americana, embora Essas controvérsias, aliás, já tinham che-
seja injusto não chamar a atenção para o gado até nós, mesmo a nível dos manuais de
fato de interessar também a autores de ex- geografia física - que normalmente estão
pressão francesa, que do ponto de vista em grande descompasso com a aquisição dos
epistemológico vão claramente à reboque da conhecimentos mais recentes da ciência -
língua inglesa. Pelo mesmo motivo chama- através da tradução que Lyon Davidovich
remos a outra corrente de alemã, embora in- publicou em 1934 da obra de S. Günther,
corpore também autores de línguas eslavas à qual voltaremos a nos referir oportuna-
e escandinavas, interessando ainda, embora mente.
de forma menos expressiva a autores de ou- As críticas feitas à esse paradígma foram
tras línguas. incorporadas de maneira parcial e discutí-
Antes de nos determos em cada um des- vel pelo próprio Davis, mas muito mais,
tes "troncos" de evolução conceitual da geo- provavelmente, pelos seus seguidores e não
morfologia, queremos ainda chamar a aten- se refletiram na reformulação de suas pre-
ção para o fato de que a compreensão da missas, mas sim na variação dos processos
dinâmica temporal das posturas sucessivas, intervenientes, desenvolvendo-se então os
deve incorporar as interferências permanen- trabalhos que desembocaram em dois clás-
tes que elas exerceram concomitantemente sicos: um da lavra de COTTON (1942) e
entre sÍ. Quase que se pode parafrasear outro de BIROT (1960). Este último, aliás,
PASSARGE (1931) p. 178, dizendo que registra nesta data e em nosso meio o des-
cada conceito emitido traz consigo mesmo compasso francês em relação à geomorfolo-
as resistências para sua aceitação pelo outro gia, embora colocando o problema em um
inter-locutor. contexto indiscutivelmente mais atual, evi-

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denciando a dificuldade e a problemática da Should this pre-requisite not be fullfilled,


periodização, que é muito mais válida para the deduction is nothing but an attempt to
as "áreas centrais" do que para as "áreas find out from the land forms alone both the
periféricas" à origem e evolução dos con- endogenetic and the exogenetic condition to
ceitos. which their owe their origino It is like trying
Evidentemente poderíamos lembrar aqui to solve an equation having three quantities,
uma lista enorme de trabalhos feitos por geo- two of which are unknown; we can expect
morfólogos de grande gabarito, especial- only doubtfuIl results. The American school
mente ingleses e franceses, apoiados neste may be justifiably .reproached with no con-
paradigma. Todavia preferimos omitÍ-los, na sidering it their next task to eliminate one
medida que em pouco alteram o dado cen- of the unknown quantities by systematically
tral da proposta davisiana. Neste sentido, investigating the processes of denudation all
os dois nomes lembrados são, antes de mais over the world. Un the whole, their part in
nada, exemplos em uma lista de clássicos. throwing light upon the exogenetic proces-
Sem entrar no mérito deste paradigma, ses has been a very modest one".
por o julgarmos por demais conhecido, seu Já nos anais do referido simpósio merece
aspecto finalista e a pouca atenção que de- destaque o registro de LEIGHLY (1940),
dicou aos processos em operação, iriam con- p. 225 sobre o erro de Davis ao assumir que
duzir a geomorfologia norte americana a os processos envolvidos na evolução do re-
um isolamento crescente nos próximos anos levo seriam conhecidos. Este evento acaba
em relação às ciências da natureza em geral também sendo claramente incorporado por
e da geologia em particular. Dentro da pró- ENGELN (1942), que dedica um capítulo
pria geografia física a geomorfologia pouco especial de sua obra ao que ele denomina
ou nada iria se articular com a climatolo- "sistema geomorfológico de Walther Penck",
gia e a biogeografia. onde chama a atenção para a tônica que se
À medida porém que novos esforços para deveria dar no futuro ao estudo das verten-
se assimilar as críticas eram desenvolvidos, tes e aos processos a elas associados.
passava-se também a uma posição de revi- Vale a pena portanto registrar a interpre-
são progressiva das premissas davisianas e tação que PENCK (1924) deu ao ciclo geo-
emergia aos poucos uma atitude de interesse, gráfico e a forma como ela foi incorporada
pelo menos, em relação as alternativas suge- pelos seguidores de Davis. É o limiar da
ri das pelos críticos. contestação do paradigma anterior e a pre-
Nesse sentido, um evento do fim da dé- paração do terreno para o advento de novos
cada de 30 confirma o interesse norte-ame- paradigmas, dentro de um contexto norte-
ricano pela crítica à sua postura, que face americano. Não se pode inclusive esquecer
às características da proposta davisiana, o papel que a tradução da "Die Morpholo-
aparecem mais claramente na obra de Wal- gische Analyse" para o inglês, publicada em
ther Penk. Em 1939 realiza-se em Chicago 1953, desempenhou, na medida que se tor-
um simpósio sobre a contribuição deste au- nou mais acessível à grande maioria dos
tor à geomorfologia. As teses e discussões geomorfólogos envolvidos nesta linha de
que marcaram esse evento foram publicadas evolução epistemológica da geomorfologia.
em um número especial dos Anais da As- Todavia não se pode olvidar que neste
sociação dos Geógrafos Americanos, tendo momento eclode a 11 Guerra Mundial e, à
ENGELN (1940) como seu coordenador. seguir, uma boa parte do pensamento cien-
A análise dos resultados posteriores a tífico alemão será incorporado pelos norte-
esta reunião, não tanto dos contidos nos americanos; particularmente técnicas serão
Anais do Simpósio, mas expressos na produ- implementadas com posturas filosóficas bem
ção científica, parece demonstrar que as se- definidas. Este é provavelmente um impacto
guintes considerações feitas por PENCK, e uma interferência maior ainda que o Sim-
(1953) p. 9 no início da década de 20 tive- pósio de Chicago, dado os desdobramentos
ram seus frutos: "To begin with, it is ob- que registrará. Neste sentido já podemos
vious that the ideal forms, which are sup- adiantar que se Lester King pode ser expli-
posed to develop on a stationary block, can cado com o· Simpósio de Chicago, os outros
be deduced successfuIly only if there are devem ser vistos no contexto da cibernética.
no gaps in our knowledge of the essential Provavelmente o autor e a obra que mais
characteristics of the denudational processes. refletem uma tentativa de se incorporar o

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modelo penckiano a essa corrente de pen- da chamada "revolução quantitativa" que


samento é KING (1953, 1956, 1967), que aqui chegou, como era de se esperar, com
já nos anos cincoenta percorre o Brasil, co- certo grau de retardamento e que já foi bem
letando dados para implementar sua teoria explorada por outros autores, particularmen-
da pediplanação, KING (1967), p. 159-169, te MONTEIRO (1980).
que posteriormente com modificações tem Pode-se dizer que as posturas novas co-
sido uma das pedras de toque de grande nú- meçam a emergir principalmente com
mero de pesquisadores na interpretação do HORTON (1945), STRAHLER (1950,
relevo do Brasil. 1952, 1954), CRICKMAY, (1959), HACK
O advento desta alternativa, porém, não (1960) e CHORLEY (1962). O conheci-
superou a insatisfação que se tornava cres- mento que se desenvolveu a partir de então
cente, particularmente nos USA e alguns está, com exceção das postulações de Crick-
autores passam a assumir, progressivamente, may, bem representado na obra editada por
uma atitude mais crítica, esforçando-se con- CHORLEY (1972) e na publicação de
comitantemente na elaboração de outros pa- GREGORY & WALLING (1973), sob o
radigmas em um contexto que pode ser per- título de "Dainage Basin: Form and Pro-
feitamente enquadrado em uma fase revo- cesses, a geomorphological approach".
lucionária, segundo a concepção de KUHN Extremamente interessante é registrar que
(1970). a teoria do equilíbrio dinâmico revivida por
Assim é que se Davis havia valorizado o HACK (1960) e muito divulgada em nosso
tempo, a tônica passará a ser dada ao es- meio, retomou à cena no ano seguinte à
paço; se Davis era encarado como responsá- publicação do trabalho de CRI CKMAY
vel por uma postura subjetiva e verbalista, (1959), que desafiou através de outro para-
fruto de uma concepção bergsoniana dedu- digma, o princípio global de atividade igual
tivista, passar-se-á a valorizar fatos encara- sobre o qual ela se apoia, por meio de sua
dos como objetivos, estudados através da teoria do princípio de atividade desigual.
quantificação; se se julgava que Davis ha- Esta perspectiva foi por ele aplicada em sua
via desconsiderado os processos, valorizar- pesquisa sobre a atividade lateral do rio
se-ão agora as relações que exprimam esses Penbina, afluente da margem direita do rio
processos, e assim por diante. Atabasca, CRI CKMAY (1960) e os resul-
Pode-se, desta forma, de maneira bastante tados parecem ter reforçado seu ponto de
segura identificar-se uma fase de desconten.- vista em relação aos mecanismos globais de
tamento, crítica e procura de um novo pa- evolução do relevo, resultantes de processos
radigma que caracterizou a geomorfologia de superficiais de intensidade muito diferencia-
língua inglesa, de u'a maneira permanente, das. É a relatividade dessa diferença que o
desde os anos quarenta, tendo !>e~elado levou a valorizar os termos processos ativos
muito mais fértil na década de cincoenta e e processos estagnados, aplicando os primei-
início dos anos sessenta, coincidindo com a ros para aqueles comandados pela ação dos
fase de divulgação e aplicação generalizada rios no caso estudado.
da teoria das redes, da teoria dos gráficos, Com exceção de SCHEIDEGGER (1961),
da teoria dos conjuntos, da teoria da infor- este paradigma pouca atenção recebeu, mes-
macão através da cibernética BERTA mo por parte dos geormofólogos norte-ame-
LANFFY (1973) e com o uso generalizado ricanos, raras vezes sendo lembrado em
de quantificação, através de computadores. nosso meio. Parece-nos todavia que ele tem
Durante esta época valoriza-se especial- certa coerência com os fatos observados e
mente a análise espacial e o estudo de ba- que seu teste deveria ser tentado com mais
.cias de drenagem, estando os resultados freqüência, ainda que, à primeira vista sua
mais significativos deste período divulgados postura possa ser tida como discutível.
entre nós através de duas traduções publica- Depois da efervescência dos anos 40 e
das em meados da década passada: Mode- 50, a maior parte dos anos 60 e começos da
los Integrados em Geografia CHORLEY década de 70 registraram, de certa forma,
& HAGGETT (1974) e Modelos Físicos e uma atitude de aplicação dos postulados an-
de Informação em Geografia CHORLEY teriormente obtidos, através de técnicas
& HAGGETT (1975). Por achar desnecessá- quantitativas de sofisticação crescente à ser-
rio maiores detalhes, lembramos apenas tra- viço de uma análise sistemática do relêvo.
tar-se da fase de maior impácto entre nós Aos poucos emerge também uma teoria pro-

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babilística para explicar a gênese global das prometidas com o paradigma davisiano. O
formas, cuja fundamentação mais recente descabido dessa atitude foi bem demonstra-
talvez seja aquela feita por SHEREVE do por SCHUMM & LIGHTY (1965) e re-
(1975.) tomado por THORNES & BRUNSDEN
Uma análise crítica da produção geomor- (1977).
fológica dos últimos trinta anos, todavia, As posturas de MOSLEY & ZIMPFER
não é muito animadora, como já registraram (1976) e THORNES & BRUNSDEN (1977),
MOSLEY & ZIMPFER (1976). A rigor ao parecem marcar uma forma de rever, na se-
paradigma de Davis acrescentou-se o de gunda metade da última década, as propos-
King, que incorpora parcialmente o anterior tas precedentes. Perseguem o mesmo inten-
e a postura penckana (mal compreendida, to, porém por vias diferentes .Enquanto os
segundo THORNES & BRUNSDEN primeiros sugerem o conceito de "areal dif-
(1977). A teoria do equilíbrio dinâmico e a ferentiation of landforms" como base para
teoria probabilística parecem ter tido o mé- um paradigma geomorfológico que incor-
rito de tentar, através da quantificação, um pore todas as formas possíveis de explana-
rigor maior para a explanação geomorfoló- ção, através de uma analogia com a análise
gica, porém acabaram caindo, em certos ca- de variância, os segundos procuram classi-
sos extremos, em formulações em grande ficar os tipos de modelos passíveis de uso,
parte estéreis e de aplicação, na melhor das a partir de uma estrutura têmporo-espacial
hipóteses, pelo menos duvidosa. A teoria do disposta em ordens que vão de O a 4.
princípio de atividade desigual pouca aten- Ê, de certa forma, uma atitude de refle-
ção foi dada, embora ela talvez contenha xão conciliadora, que à rigor não introduz
idéias extremamente úteis e contestadoras novos paradigmas, mas que, todavia, pro-
em relação à postura cíclica. cura reiriterpretar os anteriores segundo uma
MOSLEY & ZIMPFER (1976), p. 382, posição crítica mais liberta de preconceitos,
retratam esta situação de maneira bastante tendo os problemas de escala como baliza
clara: ... "the present situation is un com- de referência e voltando a revalorizar as
fortably like that during the "Davisian era", observações de campo, em boa parte eclip-
methods such as those of statistical analysis sadas no bojo das posturas que privilegia-
are being used without being undefstood, vam a quantificação à partir de dados obti-
and ideas have been widely adopted without dos, geralmente, de cartas topográficas, fo-
the exhaustive testing necessary for their va- tos aéreas e anuários estatísticos.
lidation. There are disturbing signs in the Os anos oitenta parecem se iniciar com
current literature that geomorphology is not uma visão pluralista da geomorfologia, se-
making the advances that seemed inevita- gundo palavras textuais de GRAF et alii
ble in the 1960's." (1980) p. 280, que consideram englobar seu
Segundo os mesmos autores esta situação campo agora "nút only those with a geo-
é reflexo 1.° de uma metodologia pouco so- logical or geographic background, but aiso
fisticada, 2.° da rejeição do paradigma da- benefits from contributions of hydrologists,
visiano sem sua substituição por outro uni- pedologists, foresters, and enginees - and
versalmente aceito e 3.° da tendência em se even some who consider themselves to be
considerar um método como o melhor, do primarily cultural geographers. Other deve-
que decorre uma rejeição dos demais, p. lopments are an increased dependence on
382-383. Nós insistiríamos no segundo as- field research (an old' tradition revisited)
pecto lembrado, na medida que os métodos more realistic expectations from search
freqüentemente emanam ou se ajustam às tools, a ressurgence of interest in manland
teorias de suporte. O terceiro aspecto pare- relationships with a concomitant dependen-
ce ser inerente da condição humana, mas ce on the historical approach, an expanded
que na ciência deve ser combatido. appreciation of the hydrologic cycle, a rein-
Por outro lado é fundamental registrar vestigation of morphogenetic regions, new
que esta situação foi atingida pela emergên- interest in planetary surfaces other than
cia de posturas que valorizaram excessiva- earth's, more detailed Í1vestigations of event
mente o espaço e as supostas relações entre magnitude and frequency, and an involve-
os processos em operação no presente, dei- ment with applied problems".
xando de lado as considerações temporais, Provavelmente estamos também entrando
na medida em que estas eram julgadas com- em uma fase de incorporação mais refletida

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de conceitos originados da outra fonte epis- rico-naturalista, dentro de um sistema con-


temológica aqui considerada e em uma pro- ceitual que até recentemente tem insistido
gressiva universalização dos pontos de re- muito neste aspecto, no quadro das geociên-
ferências fundamentais para a definição do cias em língua alemã (BUBNOFF, 1954).
"construto" geomorfológico, ao mesmo tem- Todavia a geomorfologia de língua alemã
po que se faz um esforço sob o patrocínio tem igualmente uma origem menos marca da
da NASA, para se ampliar os limites do por um só nome e antes que se escoasse uma
campo de estudo, com o objetivo de incor- década após a publicação do "Führer für
porar também a investigação do relevo de Forschungsreisende" aparece, em dois vo-
outros corpos celestes (ENZMANN, 1968). lumes, o "MorphoIogie der Erdoberflaeche"
(PENCK, 1894). Os autores destes trabalhos
3 A LINHAGEM EPISTEMOLOGICA' são, aliás, freqüentemente citados como os
ALEMÃ "pais" da geomorfologia de língua alemã.
Deixando de lado as considerações sobre Um fato importante a destacar é que von
Richthofen e A. Penck tiveram um anteces-
os predecessores, pode-se dizer que a mo-
derna geomorfologia centro-européia de ex- sor, O. Peschel, que todavia vincula-se mui-
to mais às posteriores proposições devisia-
pressão alemã tem em von Richthofen uma
nas que à subseqüente geomorfologia da
baliza que serve de referência inicial. É, tradição (RICHTHOFEN, 1886; PENCK
aliás, significativo que julgando as classifi-
cações das formas de relêvo propostas por (1894) fato, aliás,. já levantado por TA-
Davis e von Richthfen, segundo transcri- THAM (1951), merecendo' registro também
ção de CHORLEY et alii (1964) p. 619, por CHORLEY et alii (1964).
Mcgee tenha julgado em 1888 ambas ... Esta orientação, todavia, não foi a que se
"more acceptable, since they are based in impôs no espaço cultural alemão. As postu-
part on conditions of genesis". ras naturalistas valorizadas pela herança de
Todavia é indispensável lembrar que se Goethe e Humboldt, imprimiram um dire-
Davis tinha em sua retaguarda principal- cionamento mais para a observação e análise
mente grandes nomes que eram antes de tu- dos fenômenos em um contexto onde a geo-
do geólogos, von Richthofen tinha como morfologia se relacionava de maneira mais
predecessores um conjunto de autores que intensa principalmente com a petrografia,
eram antes de mais nada naturalistas e que química do solo, hidrologia e climatologia.
tinham em Goethe um ponto de referência Logo no início a cartografia é mobilizada
como um dos instrumentos fundamentais
permanente.
para o pesquisador, o qual tem na observa-
É significativo e merece destaque o fato
de até hoje ser utilizado com freqüência a ção o centro de seu interesse .
expressão morfoIogia, introduzida nas ciên- O grande papel do "Führer für Forschun-
cias naturais por Goethe, como sinônimo de gsreisende" foi exatamente o de definir um
geomorfologia. Neste verbete é que vamos conjunto de informações, oriundas dos tra-
encontrar, por exemplo, no "Kosmos Tas- balhos executados pelo seu autor na Amé-
chenlexikon" ,de VOGT (1971) a con- rica do Norte, Ásia e Europa, de natureza
ceituação de geomorfologia e embora o meto dológica no referente à observação dos
"Geologisches Worterbuch" de MURAWS- fatos. É considerado, por quase todos, como
KI (1977) registre o substantivo geomorfo- o primeiro manual de geomorfologia moder-
logia, também acena para uma vinculacão na, sendo. estranhável que CHORLEY et
com a expressão oriunda da obra de Goethe~ alii (1964) tenham lhe dispensado tão pouca
Se admitirmos ser von Richthofen o pri- atenção, preferindo ressaltar a obra sobre
meiro a formalizar através de seu "Führer a China.
für Forschungsreisende" (1886) o advento Já o papel do "Morphologie der Erdober-
de uma linha epistemológica para a geomor- fHiche" PENCK (1894) foi mais o de sis-
fologia centro e leste européia, vale a pena tematizar teorias e formas de relêvo, tornan-
acenar para a diferença entre esta obra e o do-se um clássico da geografia, nas palavras
"The geographicaI cycIe" (1899). Enquanto de LEUZINGER (1948). Por outro lado
este é uma proposição teorizante, aquele é não se pode deixar de mencionar que sua in-
um guia para observações. Valoriza-se, por- fluência foi tão grande ao ponto de levar a
tanto, desde o início uma perspectiva empí- uma verdadeira dominância dos estudos geo-

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morfológicos no contexto da geografia ale- climas da Terra (CHORLEY et alii, 1964).


mã nas primeiras décadas do século XX. Nesta atmosfera intelectual o solo era pouco
I! também de se registrar que tanto F. F. propício à semeadura davisiana.
von Richthofen como A. Penck tiveram um Dentro desta corrente três autores marca-
papel fundamental na orientação da geo- ram sua presença no início do século e me-
grafia alemã, na medida em que exerceram recem, por motivos diferentes, especial des-
forte influência durante mais de meio se- taque: A. Hettner, S. Passarge e S. GÜnther.
culo na condução da Gesellschaft fuer Er- HETTNER (1921, 1927) é, sem dúvida
kunde zu Berlin, fundada em 1828. A. alguma, o grande crítico do ponto de vista
Penck foi, aliás, seu presidente até 1930, do método da proposição davisiana. LEU-
tendo porém grande ascendência nesta as- ZINGER (1948) e STRATIL-SAUER
sociação científica até bem próximo de sua (1968) resumem suas observações de ma-
morte, que se deu a 7 de março de 1945, neira bastante clara, o que nos dispensa de
maiores comentários.
aos 87 anos de idade. Este período coincide,
praticamente, com o da ascenção prussiana S. Passarge teve porém um papel mais
e a afirmação alemã. positivo, na medida que se caracterizou nem
Provavelmente a presença destes dois tanto pela crítica, mas pela proposição de
cientistas à frente da Gesellschaft fuer Er- novos conceitos, trabalhando em uma linha
de análise mais global das formas de relevo,
kunde zu Berlin, explique, em parte, a pou-
ca influência que a postura davisiana alcan- integrando-as em uma visão geográfica da
paisagem e de um novo método de trabalho,
çou no espaço cultural-alemão. I! possível,
baseado na cartografia geomorfológica (KLI-
inclusive, que para isto tenha contribuído,
MASZEWSKI, 1963). De sua obra desta-
em parte, uma certa dose de nacionalismo
cam-se três fundamentais: em 1912 surge a
de raízes prussianas, uma vez que a análise
"Morfologia Fisiológica" ("Physiologische
das publicações patrocinadas por esta socie-
Morphologie"), entre 1919 e 1920 os "Fun-
dade permite perceber claramente a vincula-
damentos da Ciência da Paisagem" ("Die
ção com certas temáticas desta natureza
Grundlagen der Landschaftskunde") são
(QUELLE, 1953).
publicados em três volumes e, finalmente,
Assim embora Davis estivesse presente em 1922 vem à luz "As Zonas paisagísti-
na Alemanha entre 1908 e 1909 e publicasse cas da Terra" ("Die Landschaftsgürtel der
em 1924 sua célebre "Die erklaerende Bes-
Erde"). Só a titulação dos trabalhos já nos
schreibung der Landformen", suas proposi- acena para a importância dos conceitos
ções produziram, quase imediatamente, acer- enunciados, entre os quais o de fisiologia
badas críticas por parte de um conjunto de da paisagem desponta como cotolário.
pesquisadores afeitos à investigação de es- S. Günther não tem a envergadura de ne-
paços com natureza climática muito diversÍ- nhum dos dois autores acima arrolados, to-
ficada. O próprio A. Penck, já em 1912, davia, em certo momento, mereceu uma
estabelecera relações entre as formas de re- grande atenção, que se refletiu na tradução
lêvo e os cinturões climáticos do planeta, no de seu "Lehrbuch der Physikalischen Geo-
que fora precedido por J. Walther, no mes- graphie" para o espanhol (onde recebeu su-
mo ano e seguido por W. Voltz, em 1913 e cessivas edições entre 1925 e 1940) e para
K. Sapper eF. Thorbecke, em 1914 (STRA- o português em 1934. Achamos porém justo
TIL-SAUER, 1968). chamar a atenção para este livro, uma vez
Fato também muito importante para jus- que em seu XI capítulo, intitulado "Geo-
tificar essa postura predominante na Eu- morfologia", desenvolve uma abordagem
ropa Centro-Oriental, em relação às propo- processual até certo ponto moderna e traz
sições de Davis é que desde o fim do século para nosso meio, às p. 167, 168 e 169, uma
passado já se havia traçado um panorama crítica bastante pertinente ao paradigma da-
global, que sugeria, com bastante clareza, visiano, que entretanto parece ter tido pouco
um zoneamento dos fenômenos da natureza eco em nosso meio científico e acadêmico.
na face da Terra em estreita dependência Este contexto evidencia que qualquer que
com os climas. Assim é que V. Dokuchayeu tenha sido a alavanca propulsora da oposi-
já havia publicado em 1883 sua obra sobre ção ao paradigma davisiano, o resultado foi
os solos chernozens da Rússia e, em 1900, a emergência de novos conceitos e métodos
W. Koppen lançava sua primeira versão dos de trabalho ,os quais desembocaram em dois

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acontecimentos que marcaram a década de mente digna de transcrição parece-nos a ca-


vinte. Em 1924 é publicado, postumamente, racterização que ele faz do terceiro conjunto
"Die Morphologische Analyse. Ein Kapitel de elementos acima mencionado:
der physikalischen Geologie" e, em 1926, "All the actual morphological features
realiza-se o "Düsseldorfer - Naturforscher- can, like the exogenetic processes, be direc-
tag", do qual emerge em um ambiente de tly observed, and are thus an object of in-
consenso geral o conjunto de proposições ductive research. However, their limits must
que valorizam o clima como elemento res- be extended farmore widely than is custo-
ponsável por uma morfogênese diferencial mary. It is by no means enough to deter-
em função do balanço das forças em ação mine and to characterise the forms of denu-
(ECKERT et alii, 1927). dation as they actually appear in their va-
Walther Penck, que desapareceu aos 35 rious combinations; the stratigraphical rela-
anos de idade, depois de percorrer vastos tions of the correlated _strata formed simul-
trechos da América e Eurásia, vai emergir, taneously, are af just as great importance.
em função da natureza de sua obra, como Their thicknesse and the way in which they
o principal opositor de Davis e assumir, para are deposited on the top of one another,
alguns, na corrente de pensamento geomor- how they are connected with their surround·
fológico alemã um papel equivalente de ings in the vertical and in the horizontal
fundador, como lhe atribui LEUZINGER direction, their stratification and specially
(1948). their facies, reflect both the type of develop-
A rigor sua obra deve ser encarada como ment in the associated area of denudation,
elo importante no pensamento científico mo- and its duration, and they supplement in
derno em língua alemã e alternativa para- essential points the history recorded there.
digmática significativa, em função da pos- The position af this record in the geological
tura davisiana. No sentido da formalização time sequence depends entirely upon inves-
teórica talvez seja até sensivelmente supe- tigation of the correlated strata and their
rior a Davis, embora tenha sido muito pre- fossil contento As a rule far too little weight
judicada face às circunstâncias em que foi 1S given to working on this stratigraphical

escrita, motivo pelo qual sua compreensão material. Because of this, our knowledge
é difícil mesmo para os alemães, dado o es- about the actual morphological features is
tilo em que está vazada. (W. Penck já es- correspondingly scanty. True, we must take
tava profundamente debilitado em função into. account that these are not, like denu-
do câncer, do qual veio a falecer, quando dation, for instance, subject to one uniform
redigiu este trabalho). Todavia a tradução set of laws; but that they are peculiar to
para o inglês em 1953 diminuiu, em parte, each individual part of the crust which will
essas deficiências, dado o resumo, o glossá- have undergone a special development of its
rio e as notas que enriqueceram e facilitaram own. They are individual in their character"
a leitura deste texto. (1953, p. 5). --
O âmago de sua proposta parece-nos con· Concebida pelo seu autor com o objetivo
tida, em sua essência, na passagem do item de, utilizando-se da geomorfologia, atingir
1 para o 2 e no decorrer deste, no capítulo a geologia e contribuir para a elucidação dos
primeiro de sua obra: "Which physical me- movimentos crustais, a obra acabou por
thods are concerned, and at what stage in oferecer um paradigma alternativo e contri-
the morphological investigation they not on- buir grandemente para o avanço da geomor-
ly may, but must, be applied follows from fologia, principalmente através da formaliza-
the nature of the three elements which to-
ção do conceito de depósito correlativo.
gether form the substance of morphology.
W. Penck foi extremamente criticado, não
2. Basis, Nature and Aim of Morpholo-
gical Analysis só pelo próprio Davis mas, principalmente,
These three elements are: pelos seguidores deste e uma boa exposição
1. the exogenetic processes dessas objeções está claramente formulada
2. the endogenetic processes por LEUZINGER (1948). Todavia a pu-
3. the products due to both, which may blicação em 1953 da versão inglesa de seu
here be called the actual morpholo- trabalho iniciou um processo de revisão
gical features", conforme pode se ler conceitual e teve o mérito de levar alguns
às p. 3 e 4 da versão inglesa de 1953. Igual- autores norte-americanos interessados no es-

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tudo de vertentes e processos a reverem suas todo, do que para a própria geomorfologia
opiniões em relação à proposta penckiana. e que já haviam recebido a atenção de Pas-
Vale a pena a esse propósito remeter-se o lei- sarge, evoluem e se consolidam nos estudos
tor para CARSON & KIRBY (1972) p. 16. de geoecologia e ordenação ambiental do es-
Na U.R.S.S a proposta penckiana foi re- paço ("naturraumliche Gliederung"). Nes-
tomada por GERASSIMOV (1946, 1968) e te setor devemos ressaltar o papel de
utilizada como base conceitual para a aná- TROLL (1932, 1939, 1959, 1966), o qual
lise morfoestrutural e sua correspondente continua nesta linha de pesquisa, que vem a
cartografia geomorfológica. A divulgação se aprofundar e enriquecer nos últimos anos
desta abordagem fora da União Soviética principalmente através das contribuições de
tem sido relativamente pequena, dada as BARTHEL (1968), HAASE (1964, 1967,
barreiras lingüísticas, todavia seus conceitos 1973), KLINK (1966, 1972), MARTENS
fundamentais encontram-se expostos através (1968), LESER (1971, 1973), NEUMEIS-
do artigo de MESCERJAKOV (1968), sendo TER (1977), NEEF (1967, 1970) e RICH-
as melhores exposições do método aquelas TER (1968). Devemos, aliás, registrar que
feitas por BASENINA & TRESCOV (1972) esta abordagem está em grande parte apoia-
e BASENINA et alli (1976). da na teoria sistêmica, na base da qual en-
Quanto ao Düsseldorfer Naturforschertag, contramos os conceitos de BERTALANFFY
realizado no contexto do 869 Simpósio da (1942, 1965).
Gesellschaft deutscher Naturforscher und A cartografia geomorfológica recebe ên-
Aerzte, marca o advento dos estudos ditos fase especial, principalmente no segundo
de geomorfologia climática e climatogenéti- pós-guerra, adquirindo características pró-
ca, de cujos resultados WILHELMY (1974, prias em cada país do leste europeu e emer-
1975) apresentou um balanço bastante com- gindo como método fundamental para a
pleto. Entre os resultados desta reunião de- análise do relevo. Devemos destacar neste
ve-se destacar principalmente o esforço de sentido a contribuição que se originou dos
Passarge para incorporar as condicionantes esforços desenvolvidos na Polânia, Tchecos-
climáticas no estudo das formas de relevo. lováquia e U.R.S.S. (KLIMASZEWSKI,
Uma interessante revisão dos debates então 1963; DEMEK, 1976; BASENINA & TRES-
travados e dos avanços subseqüentes foi fei- COV, 1972).
ta recentemente por BUSCHE & HAGE- A República Federal Alemã iniciou em
DORN (1980), no decorrer do Primeiro Sim- 1976 seu projeto de mapeamento geomorfo-
pósio Teuto-britânico sobre Geomorfologia, lógico detalhado (BARSCH, 1976, 1980)
desenvolvido em Würzburg, de 24 a 29 de sob o patrocínio da Deutsche Forschungsge-
setembro de 1979 e que originou o Supple- meinschaft, enquanto na República Demo-
mentband 36 do ZeÍtschrift für Geomorpho- crática Alemã esta tarefa já foi iniciada há
logie. mais tempo (KUGLER, 1976b). Devemos
A linha de abordagem que emerge de aliás salientar o papel deste geomorfólogo
Düsseldorf consolidou-se através das pes- nos aspectos teóricos conceituais desta pro-
quisas de BÜDEL (1948, 1957, 1963, 1969 blemática (KUGLER, 1975 e 1976a).
e 1971), cujos estudos levaram a uma orde- É ainda importante registrar que, de certa
nação dos conjuntos morfólógicos de origem forma a 11 Guerra Mundial não rompeu a
climática em zonas e andares, produzidos tradição da geomorfologia centro e leste eu-
pela interação das variáveis epeirogênicas, ropéia nos seus aspectos básicos. Pelo con-
climáticas, petrográficas e fitogeográficas. trário, o apoio que os regimes socialistas de-
Aos nomes de Büdel e Whilelmy, devemos ram à pesquisa beneficiou-a sobremaneira e
ajuntar, pelo menos, os de LOUIS (1957, o avanço do mapeamento geomorfológico é
1968), MORTENSEN (1943/1944) e MA- um fato que salta às vistas. Por outro lado
CHATSCHECK (1955) na consolidação da ela vai assumindo um papel cada vez mais
abordagem climática e climatogenética, que, significativo no planejamento regional, o
de maneira muito apropriada incorporou as que acaba se refletindo na própria classifi-
noções de depósitos correlativos na análise cação formal da disciplina que torna-se niti-
das formas. damente geográfica e voltada para a socie-
As propostas conceituais voltadas para a dade como um todo, superando as artificiais
paisagem (U Landschaft"), provavelmente de dicotomias ainda bastante arraigadas na li-
interesse maior para a geografia como um nhagem conceitual de língua inglesa.

15
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(1969)
J.P. MESCERJAKOV (1968)
RUPTURA EPISTEMOLOGICA1
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R.E. NORTON (1945) L.C.KING(l9S31
E.FELS(19S6) .-
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A.N.STRANLER (1950) e':l

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BASENINA & TRESCOV(1972
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H. KUGLER (1975)
J.T.HACK(l960) {1976) E. NEEF (l967)

8AATHEL(1968)
BARSCH & L1EOTKE 119801
NJ. CHORlEY 1962

KLINK[1972]

N.$.SHAEVE(197S1

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CARTOGRAFIA ClEOMORFOLOGIA GEOMORFOLO· GEOMORFOl()' GEOECo.
ANALISE TEORIA TEORIA 00 TEOAIA DO TEORIA DA
GEOMORFOLOGICA ClIMATOGENl::T1CA GIA CLIMA· GIA ANTROPO· LOGIA E
MORFOMtTRtCA PROBAUILlSTlCA EQU1LlDRlO PRINCIPIO DE PEDIPLANA· TICA GEN~TICA ORDENA·
OINAMICO ATIVIDADE CAO

i i i_r i I 1 _i-=-~_i SCHUM

MOSLEV
& lIGHT (1965)

& ZIMPER{1976j

FILOGeNESE
?
DA TEORIA GEOMORFOLOGICA
SIMPOSIO DE wüRZBURG (1979)
T
THORNES & BRUNSDEN (1977)
Rev. IG, São Paulo, 4(1/2):5-23, jan.jdez. 1983

4 SINTESE COMPARATIVA significativo do ponto de vista conceitual,


especialmente no caso de Passarge, emerge
Uma revisão crítica da evolução dos prin- de uma postura diferente, eventualmente
cipais conceitos, sistemas de conceitos e pa- resultante de uma revisão, pois sua produ-
radigmas geomorfológicos pode ser feita a ção está longe de poder ser rotulada de da-
partir do esquema em anexo. Em primeiro visiana. Já Bulla discordaria em função de
lugar, todavia, devemos chamar a atenção uma interpretação diferente no processo de
para o elevado grau de simplificação q~e edificação dialética da geosfera. B uma ob-
este quadro traz consigo. Ele tem a int~n- jeção, sem dúvida alguma de maior peso,
ção de mostrar, de maneira esquemática, que deve porém ser julgada em função do
como, a partir de duas concepções diferen- conceito de harmonia, o qual permeabilizou
tes,evoluiu o sistema conceitual anglo- boa parte da geografia alemã em certo pe-
americano e o alemão. ríodo e que parece-nos hoje claramente su-
De início queremos ressaltar que a orde- perado. Somos de op"inião que S. Passarge,
nação dos autores foi encarada não por eles pelo que introduziu ou formalizou em ter-
em si, mas no que eles traziam consigo e mos conceituais e propostas metodológicas,
que poderia ser tomado como fato represen- deve merecer uma posição de destaque na
tativo em um contexto global de cada cor- cadeia evolutiva de posturas assumidas no
rente. Desta forma, e isto é válido princi- contexto da geografia alemã.
palmente para o conjunto alemão, aparen- Um terceiro aspecto a lembrar é que as
temente cometeram-se algumas injustiças, entradas no sistema de análise proposto cor-
na medida que no quadro aparecem alguns respondem, por assim dizer, a fluxos que
nomes que poderiam ser vistos como "me- se dispersam em direção à origem. Isto é,
nores", quando comparados com outros que ~e a análise considerasse um lapso de tempo
indiscutivelmente seriam "maiores". maior, remontando aos precursores, haveria
A justificação para essa situação emerge, uma abertura em leque para o passado, com
em parte, de uma característica básica da muitos outros pontos de superposição e in-
corrente alemã. Ela é marcada por um as- terferência. Nesse sentido, Davis, v. Richt-
pecto mais coletivo, englobando um número hofen e A. Penck são, de maneira figurada,
muito maior de nomes, de envergadura mais catalizadores do passado que, através de for-
ou menos equivalente, porém em um con- malizações mais adequadas lançaram as ba-
texto de interesses e prop-osições diferen- ses dos conceitos, os quais progressivamente
ciadas. se aprimoraram e chegaram até nós, cons-
tituindo o conteúdo e as formas de aborda-
Já a corrente anglo-americana é mais mar-
gem presentes da geomorfologia. Esta figu-
cada por nomes de grande destaque, parti-
ra de linguagem, aliás, é mais pertinente
cularmente nas primeiras décadas do século
para a corrente alemã.
atual, apresentando um aspecto mais indivi-
dualista. O exemplo mais típico é o próprio Outro fato a registrar é que, embora gra-
ficamente o encadeamento dos conceitos su-
Davis, que detém uma primazia quase sem
contestação por longo lapso de tempo. gira evolução paralela, sem pontos de con-
tato, isto não corresponde à realidade. Pro-
Em segundo lugar é fundamental insistir curamos superar este aspecto através de tra-
que este quadro resultou de uma interpre-
ços interrompidos, registrando as interferên-
tação, face ao material que dispúnhamos,
cias mútuas, cujos resultados, aliás, podem
o qual, inclusive, é rico em opiniões que ser facilmente identificáveis na produção
nos contraditam. Neste sentido ele é uma
científica das duas correntes. No quadro
opção. Poderíamos até lembrar pelo menos apresentado, a interferência mais nítida é ex-
dois autores de renome que, evidentemente, pressa através da proposta de L. C. King,
fariam reparos a esta postura: um deles é embora pareça-nos legítimo uma expectativa
ENGELN (1942) p. 6 e outro é BULLA de renovação muito importante, cujos resul-
(1956) p. 167. Ambos, provavelmente, dis- tados são de difícil previsão, a partir da fase
cordariam da posição que atribuímos a S. de revisão do lado anglo-americano, que se
Passarge. O primeiro lembraria que S. Pas- inicia de maneira mais clara com Schumm
sarge, assim como J. Walther teriam aceita- & Lichty e da realização do Simpósio de
do, em um certo momento, a postura davi- Würtzburg. Neste sentido, aliás, o quadro
siana. Ao que responderíamos, que o mais sugere, inclusive, uma possível tendência à

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aproximação e produção de resultados que dro de referências claramente geográficas,


se baseiam nos dois conjuntos conceituais através da geoecologia e da ordenação am-
aqui explorados. biental (naturraumliche Gliederung). É pro-
Em nosso meio, inclusive, provavelmente vável mesmo que esta direção tenha sido es-
fruto do Congresso de Geografia do Rio de timulada através da análise espacial dos pro-
Janeiro (1956) - um dos inúmeros mo- cessos geoecológicos, segundo uma ótica
mentos de interferências entre as duas cor- marxista, mais facilmente identificável nas
rentes - já se esboçou uma tendência con- propostas oriundas dos países socialistas. De
ceitual neste sentido, coma incorporação qualquer forma, todavia, suas bases já esta-
das diferentes posturas em u'a proposição vam lançadas na própria Alemanha, ante-
que, salvo melhor juízo, parece dar a tônica riormente à 11 Guerra Mundial e a incor-
nos postulados de raízes germânicas. Trata- poração da análise sistêmica contribuiu para
se da proposição feita por AB'SABER aprofundar, ainda mais, suas concepções.
(1969) e que, de maneira consciente ou in- Já no caso anglo-americano a postura é
consciente se reflete no grosso da produção diferente, na medida que já em sua origem
geomorfológica que emana do Departamen- assume, através de Davis, uma posição
to de Geografia da F.F.L.C.H. da U.S.P. e bergsoniana em um quadro de referências
que a nosso ver é a mais séria contribuição teorizantes. O resultado será um isolamento
brasileira ao nível da teoria geomorfológica, da geomorfologia em relação ao resto da
supérando em parte os esforços feitos por geografia, particularmente nítido no período
outros autores também vinculados à contex- mais aceso da disputa entre possibilistas e
tos estranhos ou pelo menos periféricos em deterministas. Nesta fase o grosso dos geó-
relação às áreas centrais de produção do grafos norte-americanos refugia-se nas ciên-
construto geomorfológico. cias sociais e os que militam na geomorfo-
Voltando ao quadro de referência em logia acabam se orientando muito mais em
questão, é igualmente digno de registro que função de perspectivas geológicas e hidro-
se houve ruptura epistemológica significa- lógicas, como bem lembrou BURTON
tiva nos sistemas conceituais em análise, isto (1963). Por outro lado a geomorfologia da-
teria ocorrido do lado anglo-americano. To- visiana, embora em certos aspectos não se-
davia devemos lembrar· que as tendências ja contestada hoje em dia por alguns grupos,
recentes na reflexão científica (MOSLEY & também acabou privilegiando o único e no
ZIMPER, 1976; THORNES & BRUNS- momento que o excepcionalismo foi maciça-
mente atacado nos USA, através da chama-
DEN, 1977), parecem procurar harmonizar
este quadro, assumindo uma postura crítica da revolução quantitativa, seu paradigma de
baseada em uma valorização das variáveis apoio foi, da mesma forma, violentamente
contestado, emergindo então as teorias aI·
significativas do processo geomorfológico
ternativas. Uma particularidade da geomor-
segundo um sistema referencial têmporo-
fologia de língua inglesa é que desde o iní-
espacial (SCHUMM & LICHTY, 1965).
cio, mesmo segundo Hempel, ela trabalha
A figura em apreço evidencia-nos, tam- com conjuntos de conceitos próximos ou já
bém, que a geomorfologia alemã ainda está ao nível da teoria.
vinculada a certas propostas kantianas, via Essa diversidade de caráter da geomorfo-
Hettner, embora seja irrecusável a vincula-
logia anglo-americana e alemã pode ser fa-
ção naturalista originária particularmente de cilmente explorada a partir de autores que
Humboldt. Isto se expressa claramente nos interessam tanto ao campo da geografia co-
resultados finais de cada. fluxo de idéias,
mo da geologia (SCHAEFER, 1953; AC-
que não se resume por uma teoria, mas sim KERMAN, 1963; BURTON, 1963; DA-
por um sistema de conceitos ao nível da ge- VIES, 1966; PATTINSON, 1964; MIKE-
neralização empírica, segundo as propostas SELL, 1969; KITTS, 1970; BUBNOFF,
de Hempel, como já registramos ao citar 1954).
KITTS (1970), tratmdo da teoria da geo~ O resultado dessa evolução diferenciada
logia. Ao lado disto a principal contribuição é que principalmente do lado anglofônico
ao nível do método, provavelmente, é a da localizam-se as teorias e os métodos de aná-
cartografia geomorfológica. O aspecto posi- lise quantitativas como instrumentos de pes-
tivo desta postura é, sem dúvida alguma, quisa, ao passo que do lado germanofônico
sua integração bastante estreita em um qua- encontramos basicamente um sistema de

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classificação conceitual do objeto da geo- anglo-americana praticamente emerge para


morfologia expresso em suas divisões for- o século XX através de uma postura teori-
mais, um método de pesquisa que valoriza zante, que posteriormente é, inclusive, in-
principalmente a cartografia geomorfológica ternamente contestada, ao passo que a geo-
e uma disciplina que incorpora parte do morfologia alemã, desde o início, valoriza
conteúdo formal de seu campo em um siste- sobremaneira a observação e o empírico, o
ma de análise ambiental voltado para o ho- que é válido igualmente para a própria
mem e que surge como instrumento de arti- geologia alemã (BUBNOFF, 1954). Parece-
culação teórica com a geografia. nos significativo que enquanto uma tenha
Essa constatação é, obviamente, uma sim- como ponto de partida um trabalho intitu-
plificação. É uma busca de aspectos que lado "The geographicaI cycIe", a outra pos-
permitam caracterizar uma corrente face à sua como referência de apoio inicial um
outra. É evidente, por exemplo, que tam- trabalho cujo título é "Führer für For-
bém na Alemanha se busca quantificar; é schungsreisende" (Guia para pesquisadores
ali, aliás, que veio à luz a "Theoretical Geo- de campo"), trazendo como subtítulo "An-
morphology", SCHEIDEGGER (1961). To- Ieitung zur Beobachtungen über Gegens-
davia isto não é o mais significativo da pro- tiinde der physischen Geographie und Geo-
dução alemã, assim como a cartografia geo- Iogie" (Introdução às observações sobre os
morfológica também não dá a tônica na fatos da geografia física e geologia).
corren te anglo-americana. Outro fato a ser frisado é que o impacto
Uma análise mais abrangente das duas do estruturalismo e da teoria de sistemas
tendências acima registradas permite-nos re- nas duas correntes teve resultados bastante
tomar alguns pontos já assinalados, que jul- diferentes. Se é verdade que em ambos os
gamos, porém, importante ressaltar. Um casos valorizaram-se contextos espaciais, do
fato fundamental é que ambas evoluíram a lado alemão emerge reforçada a visão in-
partir de pontos de vistas bastante diferen- tegradora de ciências naturais com tônica
tes e embora se fale hoje em convergência substancial nas análises geoecológicas pro-
a nível internacional do conhecimento, as cessuais, ao passo que a perspectiva anglo-
duas tendências ainda se apresentam razoa- americana incorpora a mudança mais com
velmente diferenciadas. o sentido de ruptura com as abordagens his-
Dado importante é que ambas evoluíram toricistas. Até certo ponto representa um
freqüentemente procurando responder ou esforço dos pesquisadores de língua inglesa
superar objeções que emergiram do outro para absorver a crítica de SCHAEFFER
modo de pensar ,independente do motivo (1953) e superar o que havia ainda de ex-
que justificava a busca de uma identidade cepcionalismo na geomorfologia por eles
em relação à outra proposta. Neste sentido produzida.
pode-se falar, de maneira figurada, que a O esquema gráfico evidencia, ainda, a di-
geomorfologia alemã das primeiras décadas versidade da posição de W. Penck e de W.
do século XX constituiu-se em um dos as- M. Davis no contexto das duas correntes
pectos da resistência prussiana ao desafio de pensamento; enquanto o segundo é o
americano. principal ponto de referência da geomorfo-
Fica muito claro também que a reformu- logia de língua inglesa, o primeiro é um dos
lação do pensamento geomorfológico anglo- grandes entre muitos geomorfólogos de lín-
americano, no decorrer deste século, foi gua alemã. À esse propósito vale a pena
muito mais profunda do que se registrou na lembrar que, em grande parte, as objeções
geomorfologia alemã. Neste sentido é mais que Penck reptou a Davis não podem ser
cfácil argumentar-se em favor de uma ruptu- tomadas como representativas de todo o
ra epistemológica, pelo menos para certa conjunto alemão, na medida que o próprio
fase, no caso do pensamento em língua in- Penck compartilhava, embora através de
glesa. No caso alemão parece que fica me- outra fonte, algumas ni>ções básicas com a
lhor caracterizada uma refinação progressi- teoria davisiana; uma ,leIas, inclusive, é a
va de conceitos, através de uma continuidade do aplainamento do relevo, que A. Penck
subjacente que dá a tônica ao conjunto das também conceituara, trabalhando isolada-
propostas. Isto provavelmente se vincula ao mente, sem conhecer ainda a proposta nor-
fato, já mencionado, de que a geomorfologia te-americana e publicando os resultados um

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ano após Davis ter divulgado o princípio (1971) p. 11, embora se referindo a um con-
de peneplanação (PENCK, 1953) p. 302, texto diferente do aqui proposto. Nesse sen-
18, nota dos tradutores. tido o arcabouço conceitual apresentado, se
Encerrando estas observações queremos não é complefo, pode ser encarado, pelo
registrar que, embora passível de reparos, menos como mais satisfatório. .
essa visão bipolarizada da evolução da teo- Finalmente é importante frisar que a par-
ria geomorfológica permite uma explicação tir de uma perspectiva têmporo-espacial em
bastante satisfatória para certas posições as- relação ao objeto de estudo da geomorfolo-
sumidas por diferentes autores no decorrer gia, os conceitos encadeados no gráfico de
do tempo, mesmo quando estes não se in- maneira aparentemente paralela, podem ser
tegram claramente em cada uma das duas articulados de forma harmoniosa, integran-
correntes identificadas. Através desse sis- do-se a visão cíclica de Davis a King, com
tema de referências fica-nos mais segura a a postura de Büdel face à Geomorfologia
crítica geomorfológica. climatogenética, enquanto as análises em
Este esquema, por outro lado, origina-se lapsos de tempos mais curtos permitem as-
de um esforço no sentido de superar-se uma sociar, por exemplo, a teoria do equilíbrio
situação incômoda, oriunda de uma história dinâmico com as posturas da geomorfologia
que, no caso brasileiro, valorizou em boa climática e da fisiologia da paisagem, emer-
parte uma perspectiva tomada a partir da gindo as técnicas quantitativas e a carto-
periferia em relação aos núcleos de geração grafia geomorfológica, como os instrumentos
principal da teoria geomorfológica. Isto se valorizados pelos diferentes autores para
reflete inclusive na possibilidade de elimi- expressar suas posições face à realidade
nação da visão antinômica representada pe- abordada. Em outras palavras, da diversi-
la presença da geomorfologia dita estrutu- dade das posturas no decorrer do tempo,
ral, que corresponde principalmente a um surge uma unidade conceitual que permite
rótulo de reação, cunhado em área perifé- definir claramente o campo, os níveis de
rica ao centro gerador da geomorfologia de tratamento e os métodos de investigação da
língua inglesa, como já registrou REYNAUD geomorfologia.

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