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Aristóteles e o problema

do ser
Professor Tomás de Aquino Silveira
Contexto filosófico da época
• Os filósofos gregos iniciaram suas indagações
investigando a realidade material à nossa volta,
entendida como ordenada e portadora de uma
racionalidade (a physis).
• A seguir, evoluíram para uma análise do próprio ato de
pensamento e de seu objeto.
• Todo pensamento, antes de mais nada, se refere a
alguma coisa. Essa coisa possui suas características, ou
seja, é de uma determinada maneira. Porém, acima
das diferenças que as coisas apresentam está a ideia de
que elas são algo, isto é, está o conceito de ser. Assim,
na medida em que tudo o que é pensado antes de mais
nada é, dizemos que o objeto primordial do
pensamento é o ser, em sua generalidade.
Contexto filosófico da época,
cont.
• Questão central dos gregos: como algo que é pode deixar de
ser? Ou, como explicar o movimento, entendido aqui, de
forma mais ampla do que o simples deslocamento físico,
como mudança e transformação?
• Em linhas gerais, inicialmente duas respostas.
• Heráclito e seguidores: a realidade tem uma natureza
perpetuamente mutável; logo não existe o ser dotado de atributos
de fixidez. Panta rei: tudo flui. Daí a caracterização dessa corrente
de pensamento como mobilista.
• Parmênides e a escola eleática: o ser permanece sempre idêntico a
si mesmo. Assim, nega a realidade do movimento, em sua
impossibilidade lógica, reduzindo-o a pura ilusão. Daí a distinção
entre realidade e aparência. “O que é, é; o que não é, não é.” Exclui
assim o movimento e a mudança, porque deixou de ser o que era, e
não veio a ser ainda o que será, e portanto, não é nada. Apenas o
permanente e imutável pode ser caracterizado como o Ser.
Defende, portanto, a existência de uma realidade única, e por isso
essa corrente de pensamento é caracterizada como monista.
Contexto filosófico da época,
cont.
• Por outro lado, Platão, ao discutir como se dá o
conhecimento, entende que antes é preciso estabelecer
uma teoria sobre a natureza da realidade a ser
conhecida.
• Esse pensamento evolui para a ideia de estabelecer,
num nível bastante abstrato – a metafísica – uma teoria
da natureza última e essencial das coisas. Essa natureza
essencial das coisas é que Platão chamará de forma ou
ideia.
• Como consequência, a reflexão filosófica afasta-se mais
e mais do mundo de nossa experiência imediata e
concreta, passando a ser vista como contemplação e
meditação.
Contexto filosófico da época,
cont.
• Uma das consequências dessa teoria será a doutrina da
reminiscência, ou anamnese, que Platão usará para
explicar como tem início o processo de conhecimento.
• Platão dirá que temos um conhecimento inato, e é ele
que serve de ponto de partida para todo o processo de
conhecimento (e, por conseguinte, de aprendizagem).
• Explicando: Platão supõe que temos um conhecimento
prévio que a alma traz consigo desde o seu nascimento,
e que resulta da contemplação das formas, as essências
das coisas, as quais a alma contemplou antes de
encarnar no corpo material e mortal.
Contexto filosófico da época,
cont.
• Nesse pensamento, o mundo material não passa de um
reflexo pálido e imperfeito do mundo das formas, ou ideias.
• Portanto, a investigação última do ser corresponde ao
conhecimento (ou re-conhecimento) desse mundo das
formas.
• Assim, para Platão, a realidade será concebida em uma
perspectiva dualista, que inclui o mundo das ideias ou
formas e o mundo concreto, e ele fará um esforço enorme
para explicar a relação entre essas duas realidades.
• Veja, por exemplo, o mito da linha dividida, e a alegoria da
caverna, ou mito da caverna. Não falaremos disso aqui,
sugerindo, por exemplo, o livro Iniciação à História da
Filosofia, do Danilo Marcondes, para aprofundamento.
A abordagem aristotélica
• Aristóteles questiona o dualismo platônico.
• Retomando uma discussão registrada no diálogo
Parmênides de Platão, Aristóteles centra sua objeção a
esse dualismo na relação que a teoria das ideias supõe
existir entre o mundo inteligível (o mundo das ideias ou
formas) e o mundo sensível (a realidade tangível).
• Como os dois mundos (chamados aqui de A e de B) não
têm elementos comuns, a relação entre eles será
externa, sendo feita portanto através de um
intermediário, um ponto externo, que chamaremos de
C, elo entre A e B. Mas a relação entre esses três
também é externa, necessitando de um D que
relacione A, B e C. E assim sucessivamente, resultando
em uma progressão ao infinito de pontos externos.
A abordagem aristotélica, cont.
• A única solução para isso, diz Aristóteles, é supor que a
relação fosse interna, o que só ocorre se houver
elementos comuns entre A e B. Mas, nesse caso, não se
trata mais de dualismo, e o dualismo estava no cerne
da filosofia platônica.
• Então, para evitar esse tipo de problema Aristóteles vai
propor um novo ponto de partida para sua metafísica, i.
e., sua concepção de real, evitando assim o dualismo
dos dois mundos.
• Para ele, o que existe é a substância individual, ou o
indivíduo material concreto, constituinte último da
realidade, evitando-se o dualismo. A realidade é então
composta de um conjunto de indivíduos materiais
concretos.
A abordagem aristotélica, cont.
• Mas cada indivíduo será composto de:
• matéria: princípio de individuação
• forma: a maneira como, em cada indivíduo, a matéria se
organiza.
• Explicando: todos os indivíduos de uma mesma
espécie teriam a mesma forma (por exemplo, um
conjunto de copos idênticos), mas difeririam do
ponto de vista da matéria, já que se trata de
indivíduos diferentes. É o como se o dualismo
platônico tivesse sido lançado para dentro do
indivíduo, ou da substância individual.
A abordagem aristotélica, cont.
• Mas matéria e forma são indissociáveis, constituindo
uma unidade (daí a expressão indivíduo, in-divíduo). A
matéria só existe na medida em que possui uma
determinada forma, e a forma é sempre forma de um
objeto material concreto.
• É o intelecto humano que, por abstração, separa
matéria de forma no processo de conhecimento da
realidade, relacionando os objetos que possuem uma
mesma forma e fazendo abstração de sua matéria, de
suas características particulares.
• Assim ele explica a existência de tipos gerais, gêneros e
espécies (animal, mamífero etc.). A ideia de homem é
apenas uma natureza comum a todos os homens, não
pode existir isoladamente.
A abordagem aristotélica, cont.
• Para Aristóteles (A.), a crítica a Platão e aos pré-
socráticos é que eles não fizeram determinadas
distinções acerca das noções que discutiram.
• Procurando superar isso, ele aborda o problema do ser
e a teoria da causalidade.
• Contra o monismo de Parmênides, A. defende uma
natureza plural (pois composta de indivíduos). Isso não
será problema, desde que admitamos certas nuanças
na noção de ser.
• Prosseguindo: as coisas existem de diferentes maneiras,
ou seja, o modo de existência da substância individual é
diferente do modo de existência das qualidades,
quantidades e relações, já que estas dependem das
substâncias.
A abordagem aristotélica, cont.
• A mudança só é contraditória para os monistas porque
ela envolve o problema da identidade, é interpretada
como equivalendo a dizer que o ser é e não é.
• Contudo, o verbo “ser” nem sempre expressa
identidade, podendo ter uso atributivo ou predicativo,
designando uma característica do objeto. Exemplos:
• Sócrates é sábio (uso predicativo).
• Sócrates é [ou existe] (uso existencial, meramente afirma a
existência.
• Sócrates é Sócrates (afirmação da identidade – todo objeto é
igual a si mesmo – mas que nada acrescenta ao
conhecimento acerca de Sócrates.
A abordagem aristotélica, cont.
• A essas distinções Aristóteles acrescenta outras.
• Essência e acidente.
• A essência é aquilo que faz com que a coisa seja o que é, a
unidade que serve de suporte aos predicados, literalmente
“aquilo que subjaz” (daí a origem do verbo substare, donde
substantia, termo latino usado para expressar as ideias
aristotélicas aqui expostas).
• Os acidentes são características mutáveis da coisa, que
explicam a mudança, sem que isso afete sua natureza
essencial, que é estável.
• Assim, “Sócrates é um ser humano” designa a sua essência, e
“Sócrates é calvo” descreve uma característica acidental, pois
Sócrates não foi sempre calvo.
A abordagem aristotélica, cont.
• A essas distinções Aristóteles acrescenta outras.
• Necessidade e contingência.
• Correlata à distinção entre essência e acidente.
• As características essenciais são necessárias, ou seja, se a coisa
deixar de tê-las, deixaria de ser o que é.
• As características contingentes são variáveis e mutáveis.
• No exemplo anterior, Sócrates é necessariamente um ser
humano e apenas contingentemente calvo.
A abordagem aristotélica, cont.
• A essas distinções Aristóteles acrescenta outras.
• Ato e potência (importantíssima para nós)
• Distinção que permite explicar a mudança e a transformação
(aí incluído o movimento).
• Uma coisa pode ser una e múltipla.

- em ato, é semente
Semente
- contém em potência a árvore

- em ato, é árvore
Árvore
- em potência pode ser lenha
A abordagem aristotélica, cont.
• Outra contribuição importante para a noção do ser:
a Teoria das Quatro Causas. Causa aqui é entendida
como princípio que determina ou estrutura a
coisa.
A abordagem aristotélica, cont.
• A. entende que há quatro sentidos ou dimensões
da causalidade:
• Causa formal: forma ou modelo que faz com que a coisa
seja o que é. É a resposta à questão: o que é x?
• Causa material: elemento constituinte da coisa, a
matéria de que é feita. Responde a questão: de que é
feito x?
• Causa eficiente: fonte primária da mudança, o agente de
transformação da coisa. Responde à questão: por que x
é x?, ou o que fez com que x viesse a ser x?
• Causa final: objetivo, propósito, finalidade da coisa.
Responde à questão: para que x?
A abordagem aristotélica, cont.
• A causa eficiente é aquilo que hoje chamamos de causa
(o que faz com que algo exista ou aconteça,
o que ocasiona ou determina).
• A causa final reflete o caráter teleológico (do grego
telos, finalidade) da visão aristotélica: ele supõe que
tudo na realidade tem uma finalidade, um propósito.
• Esses dois tipos de causa é que estão associados às
mudanças do ser.
• Em particular, a mudança ocorre, não como a transição
do ser ao não ser, mas com uma finalidade primordial,
a da passagem de um modo de ser ainda latente à
plena realização da essência desse ser ou como a
realização das possibilidades nele contidas (causa
final).
A abordagem aristotélica, cont.
• Essa visão do ser permitirá a Aristóteles uma
sistematização da realidade, e lhe permitirá dividir
o conhecimento em um saber prático e um saber
teórico.
• Este será dividido em ciência geral e ciência natural,
e é nesta última que encontraremos a física e a
astronomia, que examinam o ser em movimento.
• Ainda no campo da ciência natural teremos as
ciências da vida (investigação do ser vivo em
movimento) e a psicologia (estudo do ser – vivo,
sensível e inteligente) em movimento.
A abordagem aristotélica, cont.
• Lembre-se que, aí, movimento é, em geral, mudança. O
que nós chamamos de movimento é, para Aristóteles, o
movimento local.
• Perceba ainda que, para explicar o movimento natural,
basta lançar mão da causa final intrínseca a todo corpo.
• Já para explicar o movimento forçado, A. faz uso da
causa eficiente, o agente motor que atua diretamente
no corpo, por contato.
• Podemos dizer que, na ausência de causas eficientes, o
corpo terá o movimento determinado pela causa final
(a busca pelo lugar natural do elemento que predomina
naquele corpo).
Conclusão
• Com essa sequência, esperamos que fique mais
claro onde se encaixa o estudo do movimento na
sistemática de Aristóteles, e como ele usa noções
que ele próprio desenvolveu, como ferramentas
genéricas, no estudo de aspectos específicos da
realidade.

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